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SETEMBRO A NOVEMBRO

AMAR COM A CABEÇA E COM O CORAÇÃO Pesquisadoras da Universidade de Brasília acompanham famílias afetadas pela síndrome do zika vírus após a epidemia de 2015

Texto Thaíse Torres Ilustrações Francisco George Lopes

com um jaleco invisível, do qual buscamos nos desfazer, e isso demora muito”, explica a coordenadora do projeto. Só com o tempo, as antropólogas e as famílias percebem que vão mais longe juntas. Thaís Valim, por exemplo, estava finalizando o curso de Ciências Sociais na Universidade de Brasília e buscou Soraya Fleischer para discutir eventuais possibilidades de orientação. A professora comentou que estava desenvolvendo um projeto de pesquisa sobre a epidemia de zika e que ainda não havia ninguém diretamente interessado no lugar da infância no que estava acontecendo. “Comecei a frequentar as reuniões, fui bolsista do projeto e hoje estou no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”, relata Thaís. Hoje, ela trabalha partindo da premissa de que as crianças não

são agentes passivos no mundo, mas indivíduos ativos que contribuem para as dinâmicas sociais: “O cuidado é um processo dialógico, em que o bebê também guia e orienta a sua cuidadora. Além disso, eles contribuem empiricamente para a construção do conhecimento científico acerca do funcionamento do zika no organismo”. As pesquisadoras publicam em um blog microhistórias sobre as idas a campo. Uma das principais preocupações — manter viva a discussão sobre a epidemia do vírus e suas consequências para as famílias — é um dos objetivos da pesquisa, que acompanha de perto o que acontece após a disseminação da doença, não somente suas características. “É preciso manter a questão em pauta, uma vez que outros atores têm se retirado de cena com a menor visibilidade que a questão ganha com o passar do tempo”, diz Soraya Fleischer.

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Darcy Nº 20  
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