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SETEMBRO A NOVEMBRO

Darcy – Como surgiu o debate sobre necropolítica? Wanderson Flor do Nascimento – É um conceito da virada do século, exatamente em um momento em que Achille Mbembe, depois de passar um tempo nos Estados Unidos e na França, vai para a África do Sul trabalhar. É lá que esse conceito emerge, num momento muito dramático da vida sul-africana, em que as pessoas começam a se dar conta de que, apesar do fim do estatuto político do colonialismo e o fim formal do apartheid, as dinâmicas coloniais racistas continuam. Como cientista político, Mbembe tenta analisar isso e, como filósofo, dedica-se a produzir conceitos para descrever a situação. Um dos conceitos que cria é o de necropolítica. Ele entende que essas políticas estão atreladas ao Estado: o Estado nasce racista — e essa é uma das teses de Foucault, na década de 1970. Mbembe nota que o fundamento do Estado moderno é aquilo que ele chama de racismo de Estado: o racismo seria uma estrutura e não um acidente do Estado ou da modernidade, é uma lógica que estrutura e constitui a modernidade. Darcy – O que o colonialismo tem a ver com isso? WFN – Nos países que passaram pela experiência colonial, o Estado tem outra estrutura, que não é a mesma do Estado moderno europeu. Aqui, na América Latina, e, de modo geral, nos países africanos e em vários países asiáticos que passaram pela experiência colonial, a formação dos governos e dos Estados passa por uma

Biopoder Na obra História da sexualidade (1984), Foucault introduz o conceito de biopoder, que é, essencialmente, a proteção da vida. O foco está na saúde tanto de indivíduos quanto da população como um todo, por meio da regulação dos critérios reprodutivos, do nível de saúde e da expectativa de vida. Desta forma, o conhecimento biocientífico assume papel central na vida da sociedade, exerce papel de poder e dá base para o controle sociopolítico da sociedade moderna.

articulação dupla entre o fazer viver e o fazer morrer. Na América Latina atual, ao contrário do que acontece na Europa, o índice de mortandade é muito mais ligado ao Estado e às políticas de negligência que, de alguma maneira, acabam por protagonizar a morte de muitas pessoas da população. No caso específico dos países que passaram pela experiência colonial, o Estado promove, sim, o bem-estar de uma parte da população. Não se pode dizer que ele abandona a população como um todo, mas ele controla a morte de outra parte da população; e a parte da população que continua morrendo, inclusive pelas mãos do Estado, é a mesma faixa da população que passou pela experiência colonial como colonizada. Não é a elite que está morrendo majoritariamente pelas mãos do Estado. Quando se olham as políticas de saúde, por exemplo, quem está morrendo nas filas do SUS? Quem está morrendo pelo assassinato da polícia não é a elite. Quer dizer que a elite está salva e segura? Não. Quer dizer que na distribuição da violência e da morte quase os mesmos povos que passaram pela experiência colonial como colonizados continuam, ainda hoje, em função de uma racialização a que são submetidos, impostos à morte. Darcy – A abordagem refere-se apenas à morte física? WFN – São muitas as formas de matar: matando o corpo, a subjetividade, a cultura, os valores, os saberes, os direitos, as vozes, gerando anonimato e silenciamento.

Achille Mbembe Filósofo e cientista político da República de Camarões, Achille Mbembe investiga temas relacionados à história africana, estudos pós-coloniais, política e sociedade. É autor de várias obras. Em português, encontram-se: Crítica da razão negra (2013) e Políticas da inimizade (2017). O ensaio Necropolítica, publicado Necropolítica originalmente em 2003, foi lançado este ano no Brasil.

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Darcy Nº 20  
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