Page 35

SETEMBRO SETEMBRO A NOVEMBRO A NOVEMBRO

O ESTADO E A PRODUÇÃO DA MORTE

S

Pesquisadores investigam as políticas públicas relacionadas à vida e morte da população

etenta e um por cento das pessoas assassinadas a cada ano no Brasil são pretas ou pardas. No período entre 2006 e 2016, a taxa de mortes violentas entre pessoas não negras reduziu 6,8%. A de negros aumentou 23,1%. A taxa de homicídios de mulheres negras foi 71% superior à de mulheres não negras. Esses são dados apontados pelo Atlas da Violência 2018, produzido pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Além disso, um jovem negro tem quase três vezes mais chances de morrer assassinado no Brasil do que um jovem branco. É o que mostra o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência (ano base 2015). Outros indicadores confirmam a tendência. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública identificou que, entre 2015 e 2016, 76,2% das mortes em decorrência de intervenções policiais eram de jovens negros. “Lendo jornais todos os dias e tendo contato com as leituras acadêmicas, percebi que temos um cenário de genocídio quando falamos de violações dos direitos humanos da população negra”, afirma a jornalista e mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania (Ceam/UnB), Maíra de Deus Brito. “É urgente denunciar esse cenário de extermínio da população negra”, destaca. Foi pensando nisso que ela propôs investigar, em sua dissertação, as mães desses jovens assassinados: quem são, de onde vêm e como se fortalecem diante dessa “dor que não cicatriza”, como uma delas disse em entrevista. De tão impactante e assustadoramente adequada, a frase foi para o título da dissertação (História de vida de mães que perderam os filhos assassinados: uma dor que não cicatriza), defendida em dezembro de 2017. Nas entrevistas, as mães mostraram que o fato de os jovens serem homens, negros e da periferia contribuiu para que fossem assassinados. “Essas mortes

35

Darcy Nº 20  
New
Advertisement