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É preciso dizer que a Antártica ora é doce, ora é salgada e, por vezes, esse lugar nos surpreende menos ou mais do que sugerem as imagens”

O

Texto e Fotos Marcelo Jatobá

encantamento ao chegar na terra do gelo é, sim, deslumbrante, mas com o passar dos dias, vai se derretendo. A paisagem aos poucos vai se distanciando da imagem sedutora de outrora, vista pela primeira vez. A Antártica é linda, mas não te avisa quando o céu azul será encoberto por nuvens negras. Em um ambiente onde predominam superlativos – o lugar mais frio, mais seco, mais tempestuoso, mais alto e mais inóspito – também seriam superlativos os momentos de dificuldades. E foi com essa certeza que me preparei para estar longe de casa, ainda que isso tenha demorado um pouco me dar conta disso. A sensação gelada chegava subitamente, assim que percebia ter deixado para trás algo que só conseguia sentir com o calor das emoções. Lição repassada pelo universo: toda recompensa tem seu preço. A transição repentina de humor era nítida a cada saudação matinal. Bom dia? O mesmo lugar, as mesmas pessoas, as mesmas tarefas. A rotina podia ser cruel. A quem poderia me reportar e desabafar? Para quebrar a mesmice, era preciso ver a paisagem pela janela. Por falta de sorte, não recebi essa graça a bordo do Tio Max (Navio Almirante Maximiano). Fiquei alojado em um dos poucos camarotes sem janela e sem luz, elemento essencial para meu ofício de fotógrafo. A situação me agoniava como alguém que quer ver o mundo girar. É preciso dizer que a Antártica ora é doce, ora é salgada e, por vezes, esse lugar nos surpreende menos ou mais do que sugerem as imagens. É nessa hora que se deve entender o recado da natureza, por mais complicado que possa ser promover uma reflexão entre si e o ambiente antártico. Precisei parar um pouco. Era chegada a hora de deixar a câmera de lado. Precisaria estabelecer um limite

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entre clicar e contemplar a paisagem. Não obedecer a isso tornavame insensível, ainda que diante de qualquer dificuldade física ou psicológica. Percebi que, a partir daí, se abririam novas percepções. Sobravam apenas eu e a imensidão. A poesia entranhava-se facilmente em minha imaginação e desligava-me da responsabilidade e do compromisso do trabalho. Só por um instante, mas o suficiente para retornar à realidade com o mesmo encantamento de chegar ali pela primeira vez. Ver o continente branco apenas por fotos não é o bastante. O registro fotográfico se encarrega de mostrar apenas o que se vê, mas nunca o que se sente plenamente. É emocionante perceber a vida passando lentamente sob seus olhos. Admirei desfiles de baleias exibicionistas, a simpatia dos pinguins extremamente afáveis e a preguiça dos elefantes-marinhos. Era a vida pacata que não desejei, mas de que precisava. Entendo, agora, que foi preciso sentir o frio para acalentar a alma. O momento decisivo do clique na Antártica é rápido. Torna-se quase um processo intuitivo, por isso digo que cabe à natureza dar o tom e o tempo necessários à observação. Aos poucos me inseria nas fotos, por vezes poéticas, por vezes apenas no susto. É como se eu tivesse revelado minhas fotos e meus sentimentos em um só processo. Foi nesse instante que vi o quanto isso é emocionante. E, dessa forma, sou grato à experiência de dar mais valor, não apenas ao resultado das fotos produzidas, mas também aos momentos. Fomos agraciados, caro leitor, com estes registros aqui impressos. Mais que isso, fui presenteado com meu próprio registro ocular, ofertado como uma recompensa proveniente do próprio esforço de conhecimento do viajante, onde a natureza antártica se encarrega de vigiar seus passos e de entregar como prêmio um silêncio único, no qual está contido o recado mais importante: desfrute!

Darcy Nº 19  
Darcy Nº 19  
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