Page 41

Iniciativas da Universidade de Brasília estudam a matriz africana e apresentam ideias contra o racismo religioso

JUNHO A AGOSTO

Texto Thaíse Torres e Vinícius Cavalcanti Fotos Luis Gustavo Prado e Amália Gonçalves

E

ntre agosto e dezembro de 2015, cinco terreiros foram atacados no Distrito Federal. Segundo dados do Ministério de Direitos Humanos (MDH), o Rio de Janeiro é o estado que lidera o número de denúncias de discriminação religiosa: 80 casos em 2017. O Distrito Federal não tem estatísticas próprias; no entanto, dados do MDH apontam que o número subiu de duas em 2011, para dez em 2017, tendo seu pico em 2016, com 12. Como alvo das agressões, dois terços estão relacionados a religiões de matriz africana. Na madrugada do dia 27 de novembro de 2015, o terreiro de candomblé Ylê Axé Oyá Bagan, liderado por Adna Santos, a mãe Baiana, foi incendiado. Adna e sua família estavam dormindo. Pela tradição, terreiros são também moradia e local comunitário de convivência e louvor. A conclusão da perícia foi a de que o fogo que destruiu todo o local – o terreiro precisou ser reerguido do zero –, deveu-se a um acidente. A resposta do governo local foi criar a primeira delegacia responsável por investigar crimes de intolerância religiosa. O Ylê Axé Oyá Bagan é um dos 230 terreiros mapeados pelo Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica (Ciga). Coordenado pelo professor Rafael Sanzio, do Departamento de Geografia da UnB, o Ciga realizou o mapeamento em parceria

com a Fundação Palmares e a sociedade civil. “Nossos esforços são para tentar fazer algo na contramão de quatro séculos da invisibilidade a que as políticas públicas condenaram essas religiões”, explica Sanzio. O levantamento e a sistematização dos dados duraram cerca de um ano. “Ajudamos a mobilizar as autoridades e garantir os recursos necessários para esse mapeamento”, diz mãe Baiana. “Assim, mostramos ao governo que existimos e estamos em Brasília desde 1964. Não é possível deixar essa intolerância na capital do país”, destaca.

“Em nossa casa não há lugar para maldade no coração, na cabeça, nem espírito de vingança” Mãe Baiana

41

Darcy Nº 19  
Darcy Nº 19  
Advertisement