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Curinga Revista laboratório | Jornalismo | UFOP | Dezembro de 2013 | Ano III | nº8

o i r é n i m o d a d a A prosa descarrilh


Curinga Expediente Curinga é uma publicação da disciplina Laboratório Impresso II

Revista produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Ufop. Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) Departamento de Ciências Sociais, Jornalismo e Serviço Social (DECSO) Universidade Federal de Ouro Preto. Professores Responsáveis:

Frederico Tavares - 11311/MG (Reportagem) Lucília Borges (Planejamento Visual) André Luis Carvalho (Fotografia) Editora geral

Mariana Borba Subeditora

Laura Ralola

Editora fotográfica

Lídia Ferreira

Editora de arte

Tamires Duarte

Subeditora de Arte

Gustavo Kirchner

Editora digital

Bruna Sudário Repórteres

Adriel Campos, Cibele Luma, Felipe Sales, Gabriela Ribeiro, Gerliane Mendes, Kíria Ribeiro, Lorena Costa, Luma Oliveira, Marcelo Nahime, Tuanny Ferreira Diagramadores

Adriano Soares, Aline Rosa de Sá, Arthur Medrado, Cinthya Meneguin, Davi Machado, Edan André, Flávia Silva, Flávio Ernani, Neto Medeiros Fotógrafos

Bruna Mattos, Íris Zanetti, Juliana Melo, Marina Ibba, Nathália Nunes, Paulo Victor Fanaia, Pedro Ferreira, Thainá Cunha, Thamira Bastos, Yara Diniz Foto capa

Íris Zanetti e Lídia Ferreira Monitoras

Janini Sanches e Maressa Nunes

Endereço: Rua do Catete 166, Centro, CEP 35420-000, Mariana-MG Tiragem: 1.500 exemplares

Dezembro 2013

Cartas do leitor

Para comentar as matérias ou sugerir pautas para nossa próxima edição, envie e-mail para revistacuringa@icsa.ufop.br


editorial

Texto: Laura Ralola e Mariana Borba Edição Gráfica: Gustavo Kirchner

Do reflexo de um espelho d’água, vê-se um rosto. A Curinga propõe nessa edição um mergulho no Ribeirão do Carmo, berço da cidade de Mariana. Mas não é da água corrente que desembesta a deixar sua terra natal para trás. Estamos falando das pedras encurraladas que fincam e ficam. A extração que começa nas margens, perfura a montanha e mancha as pessoas com o pó do tão cobiçado minério de ferro. Drummond, itabirano talentoso, assiste a subida da água que destrói seu lar. Sua serra foge pelos trilhos do trem, desembarca no porto e se joga no mundo. É assim, sempre foi, seja no ciclo do ouro seja no do aço, “mas como dói”. “Pobre Alphonsus”, não pôde ver a igreja dos sinos fortes bater nos 300 anos de existência. A história das pessoas que cuidam dela, da Sé, se misturam com os vitrais enfeitados. A Curinga tentou refletir-se por toda a cidade. Mirar a revista é entender do outro lado, nesse reflexo cristalino, o marianense, o mineiro, a pessoa posta em frente. No espelho, uma luta antiga surge: os genêros misturados, expostos, presentes. Por outras igrejas vê-se cores marcadas, iluminando o que já foi dito. Rosa é mulher, azul é homem. Será? O espelho se quebra e a partir dele, uma série de fragmentos. Um caco da quebra, pequeno, se volta contra a maioria. Nas ruas e em algumas páginas são mais de um, são vários. Mostram-se em tintas inesgotáveis, em berros, e seguem a lutar por um espaço onde o muro seja mural e o chão, palco. Pelo direito de ocupar o que é público e, mais do que isso, pelo direito à voz e a liberdade. O grito ecoa pelos corredores de uma universidade e de repente é silenciado. A autonomia em forma de grupo de estudantes, de um projeto de extensão, é encurralada bem em nossos quintais. Outro reflexo estampado. A Curinga se mantém por dentro de uma discussão insistente no cenário nacional. Uma entrevista com o editor executivo da VEJA e biógrafo não autorizado de José Dirceu, mostra uma visão prática dos percalços de biografar. Agir com responsabilidade tratando de registrar uma vida. Transformar e estar do outro lado. Um que escreve, outro que é escrito e desenhado no papel. Estar “de frente”, como a figura elegante que desce as ladeiras do Pilar nas páginas da crônica. Os trilhos do trem nos levam para uma viagem no tempo, em locais que permanecem camuflados, como as ruínas abandonadas de um cemitério que poucos moradores afirmariam conhecer; um castelo de arquitetura exótica, incrustado em meio a casas novas, nos arredores de Ouro Preto. Quem o construiu? Como não havia reparado? São experimentações do local, revirar a cidade em busca de personagens. Pretende-se desnudar os blocos de concreto e contar o que se vê por detrás deles, por detrás de tatuagens e animais selvagens significativos no Rosário, bairro do mestre Roque dos Leões. É jeitoso com as mãos de artista, se fez forte por sua condição. Roque é o nosso perfilado. As águas correm lentas pelo Ribeirão do Carmo. Seguem revelando personagens que caminham rente à margem. A cidade, casas e janelas são modificadas diariamente pela ação do ser humano. Chove, passa o tempo e pedras no caminho sempre haverão de existir...


Sumário 5 6 8 9

- 300 anos da sé - Ruínas inglesas - Um castelo em ouro preto - Infográfico

22 28 30 40

- ensaio fotográfico - autonomia universitária - revelações do Esporte - cadela branquinha

5 10 14 Baú

Otávio Fragmentos Cabral Entrevista

Perfil

Especial 16

32 espelho

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BAÚ

300 anos de fé

Texto: Gabriela Ribeiro Edição Gráfica: Flávia Silva Foto: Nathalia Viegas

Séculos se passaram desde o início da construção da Catedral da Sé de Mariana-MG e badaladas soaram de suas torres convidando a cidade para conhecer a beleza desse templo e para viver experiências de fé. Muitos aceitaram esse convite e se deixaram envolver pelo grande encanto que essa Catedral inspira. Assim foi com dona Cici. De seus 86 anos, Juraci de Oliveira completa quase 70 com esse chamado ressoando em seu coração. Trabalhando em uma fábrica de tecidos em Mariana, dona Cici ajudava na catequese e até mesmo limpando a Catedral em seus horários vagos, na época em que a Igreja ainda tinha seus ritos em latim. “A gente não entendia nada o que o padre falava”, lembra-se. Em um cenário coberto pelo rococó e pelo imponente barroco, as celebrações e sacramentos realizados na Sé possuem um tom diferente, que envolve quem participa. Mesmo sem entender, despertaram em Juraci a vontade de conhecer cada vez mais a doutrina da Igreja. Olhando agora para o caminho que seguiu, dona Cici não tem dúvidas: “Foi aqui que eu escrevi a minha história de fé”, afirma.

Na missa em comemoração aos 300 anos da igreja, Dom Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Mariana, falou da relação que esse templo tem com o povo. “Mariana é a primeira vila, primeira cidade, primeira capital e primeira diocese de Minas. Aqui nasceu Minas Gerais”. E Minas Gerais é feita de pessoas; e tantas delas tiveram momentos da sua vida escritos na Sé. Pessoas como Maria do Rosário Matos decidiram retribuir o zelo que a Sé teve ao receber suas histórias. Dona Bia, como é conhecida, transborda gratidão ao falar da igreja em que foi batizada e se casou. Aos 60 anos, ela começou a trabalhar na sacristia, onde ficou por quase sete se dedicando no cuidado com os paramentos e na arrumação dos altares. Hoje, aos 80, Maria do Rosário se sente honrada em perceber que a sua doação fez parte da história da Sé. “É muito bom ter em nosso íntimo que, de uma forma ou de outra, a gente ajudou em alguma coisa”. Ao longo desses 300 anos, Marias e Juracis encontraram sentido de fé e todos os dias histórias de vida continuam sendo construídas junto com a Sé, a cada badalada do sino.

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História para brasileiro ver

Texto: Adriel Campos Edição Gráfica: Flávia Silva Foto: Pedro Ferreira

“Em memória da amada Annie. A que amava e era amada. Esposa de Henry J. Gifford que deixou esta vida. 17 de julho de 1901. 34 anos. Tua vontade será feita”. O epitáfio gravado na lápide em quartzito de Annie Gifford, guarda a memória do amor do casal inglês que vivia na antiga Vila de Passagem, no século 19. Os ingleses vieram para esta região trabalhar com a mineração do ouro. Como o catolicismo dominava na época, os ingleses que eram protestantes, realizavam seus cultos com uma série de restrições, pois ocorriam vários conflitos entre os fiéis das duas religiões. Um destes era a falta de cemitérios, já que todos ficavam nos adros das igrejas católicas. Era desonroso para os protestantes realizarem seus sepultamentos nesses cemitérios, pois tinham que pedir autorização ao Bispo, e mesmo quando concedida, tinham que usar um espaço à parte, destinado aos suicidas. Diante dessas dificuldades, eles construíram sua capela e seu próprio cemitério, no Morro de Santo Antônio, entre as cidades de Ouro Preto e Mariana, onde puderam exercer livremente a religião anglicana. A capela era simples e não tinha imagens. Os túmulos não possuíam alegorias, ornamentações, anjos, calvários, nem mausoléus suntuosos acima do chão como nos cemitérios católicos. Crianças eram enterradas no centro, cercadas pelos túmulos dos adultos. Segundo registros do cartório de Passagem, entre 1891 e 1927, quatorze pessoas foram sepultadas no local. Até hoje, o caminho que dá acesso à capela e ao cemitério é cercado por uma plantação de chá preto, erva cultivada pelos ingleses. Mas o que se vê no restante do lugar é o descaso. Apesar de ter sido tombado como patrimônio histórico, todos os túmulos estão violados e as lápides deslocadas. Os epitáfios gravados em metal e as placas de bronze foram subtraídos, o telhado da capela desabou e as paredes estão em processo de degradação, as estruturas do telhado e as telhas foram retiradas, possivelmente para reutilização. Segundo o professor e jornalista Leandro Henrique dos Santos, o local foi depredado por pessoas que estavam à procura de ouro e joias que teriam sido enterrados junto com os mortos. A Capela dos Ingleses é um marco cultural significativo na região, pois quebrou o exclusivismo arquitetônico do catolicismo em uma terra dominada pela igreja católica romana. Juntamente com o cemitério, a edificação religiosa simboliza ideias, concepções e atitudes dos ingleses protestantes que viveram em Minas Gerais.

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Riqueza em Ruínas

Na busca pelo ouro, os ingleses que viveram na Vila de Passagem também exploraram a mina que havia no entorno do Morro de Santo Antônio. No final do século 19, construíram uma usina de cloretação, método inovador para o extrativismo na região. Hoje, o acesso às ruínas da usina é difícil e a área está fechada a visitação pública. Existe o risco de acidentes devido aos buracos de sarilho, muito comuns na superfície das áreas mineradoras.

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Texto: Gabriela Ribeiro Edição Gráfica: Flávia Silva Foto: Nathalia Viegas

Era

uma vez uM

Nos arredores do centro histórico de Ouro Preto, desenhado pelos casarões e costurada pelas ladeiras, brotou há mais de 20 anos uma construção no mínimo peculiar. Construído em uma quadra inteira, na cidade do Barroco, o “Castelinho da Bauxita” ocupa também o imaginário da população ouropretana. O apelido da casa do professor Luiz Roque Ferreira condiz com as criativas histórias sobre sua criação. Uma delas é a que o estudante Danilo Ferreira ouviu de uma antiga moradora de Ouro Preto. A senhora contava que o “Castelinho da Bauxita” foi construído por uma família de orientais que veio para a cidade. “Eles tentaram fazer um castelo, mas o projeto não deu certo e ele ficou do jeito que está, em ruínas”, conta Danilo. Há versões românticas que o transformam no Taj Mahal de Ouro Preto. Leidiane Vieira Simões, estudante, conhece uma em que um ex-professor da UFOP estaria noivo e começou a construir a casa como um castelo para sua amada. Mas tempos depois, a noiva o teria largado, levando-o a abandonar o Castelinho.

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castelo

Quem convive com a construção reforça essa mítica. Lucas Isaac, vive na rua do Castelinho desde os três anos, e ouviu que o dono ganhou na loteria, comprou uma pedreira e foi atrás de seu sonho de morar em um castelo. Carmem e Darci Pimenta são vizinhos da obra há 23 anos. Carmem escutou que a casa teria sido construída para ser uma pousada, já Darci trabalhou com Luiz e lembra-se da época em que o colega comprou os lotes, mas o casal não sabe o que ele pretende com a construção. Desvendando o Castelinho, a professora Lorene Dutra, que é casada há 15 anos com o proprietário, diz que na verdade eles não são uma família de orientais, nem a namorada japonesa (que existiu!) foi motivadora da obra. Luiz também não ganhou na loteria, nem queria construir um hotel. O nome “Castelinho” é fruto do imaginário das pessoas, que passaram a adotá-lo como ponto de referência na Bauxita, bairro recente de Ouro Preto. O casal mora no local – que não está abandonado – e pretende, com o fim das obras, transformá-lo em uma instituição beneficente.


Borboleta

INFOGRÁFICO

Origem: Grécia Significado: nascimento de uma nova alma; espírito livre Onde mais aparece: costas, ombro, perna e pés

São campeões nos estúdios visitados. Seus significados, geralmente, remetem à forma de pensar de quem as escolhe e servem para lembrar de pessoas importantes

Infinito

Origem: Aparece na Inglaterra, vindo da matemática Significado: Infinito; algo sem início, meio e fim; amor entre duas pessoas Onde mais aparece: Antebraço, pulso e costas

A linguagem da agulha Texto: Lorena Costa Edição Gráfica: Davi Machado Foto: Thainá Cunha

Ostentar tatuagens faz com que a pessoa pareça moderna. Entretanto, existem relatos de várias civilizações que tinham o costume de marcar a própria pele. No Egito, por exemplo, diversas múmias foram encontradas com desenhos por todo o corpo. Para descobrir o perfil das pessoas que se tatuam na cidade de Mariana, a CURINGA visitou os quatro principais estúdios da cidade. Neste infográfico você verá a origem e os significados das tattoos mais comuns no município. Revelamos em quais partes do corpo elas aparecem com mais frequência e ainda se são feitas por homens ou mulheres. Dragão Origem: Oriental Significado: Em algumas civilizações, é considerado um símbolo de força, sabedoria, coragem. Em outras, acredita-se ser um símbolo das trevas Onde mais aparece: costas

Maori Origem: Nova Zelândia Significado: A Maori representa a força, a luta e a coragem dos povos nativos Onde mais aparece: pernas e braços

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Foto: luiz maximiano

Entrevista


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Contar a vida de alguém, suas histórias marcantes, não é uma tarefa fácil. No Brasil, além de todo o trabalho de pesquisa para se criar uma biografia, escritores esbarram na Legislação do país, que contém dois artigos que dificultam a publicação de trabalhos desse gênero. De acordo com o artigo 20 do Código Civil-Lei 10406/02, para se utilizar conteúdos ou a imagem de uma pessoa é necessário a sua autorização, cabendo a proibição se atingirem a honra, a boa fama, a respeitabilidade ou se tiverem fins comerciais. Já o artigo 21 da mesma lei determina que a vida privada de qualquer pessoa é inviolável. Em julho de 2012 a Associação Nacional dos Editores de Livros (ANEL) entrou com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo revisão dos artigos 20 e 21 do Código Civil, com o objetivo de acabar com a necessidade de autorização para a publicação de biografias. A ANEL alega que essa lei censura a liberdade de expressão no país. O caso ganhou repercussão apenas esse ano, criando um debate entre biógrafos e pessoas públicas, que discutem a revogação ou não desses artigos. O jornalista, escritor e atual editor executivo da revista Veja, Otávio Cabral, lançou uma biografia sobre o politico José Dirceu em junho de 2013. O livro já vendeu cerca de 50 mil exemplares e está na sua quarta edição. “Dirceu – A biografia” foi publicado pela editora Record sem a autorização de seu personagem principal. A biografia ganhou atenção da mídia e recebeu críticas positivas e negativas. Nesta entrevista, Otávio Cabral opina sobre a produção de tal gênero no Brasil e fala como foi a experiência de se escrever um livro sobre um político de projeção no país.

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c: A legislação das biografias no Brasil hoje, que preserva a lei que proíbe biografias não autorizadas, coloca-nos ainda à margem da Ditadura? OC: A legislação como ela é atualmente, que uma biografia para ser publicada depende de autorização do biografado, é um absurdo, um atentado à liberdade de expressão e à capacidade de contar a própria história do país, pois limita muito o que vai ser publicado. Em outros países livres e democráticos não existe essa legislação semelhante à brasileira. Pode-se publicar o que quiser, o direito de expressão é amplo e ilimitado. Agora, se, por acaso, alguém cometer alguma injustiça e publicar uma inverdade, a justiça irá reparar isso. Mais ou menos o que acontece com o jornalismo. Jornalista tem liberdade para escrever o que quiser, sendo punido se difamar ou caluniar. c: O país enfrenta atualmente um grande debate sobre a mudança na legislação da publicação de biografias. Como a autorização e a não autorização influenciam a produção de tal gênero? OC: Eu não dou tanta importância às biografias autorizadas, porque acho que vira praticamente uma homenagem, o personagem pede aquilo que ele admite. E as não autorizadas, como a que fiz do José Dirceu, contam a história não amarrada aos interesses da pessoa e sim aos interesses do biógrafo que quer levar ao público a verdade dos fatos sem omitir ou mentir sobre os acontecimentos. Você tem mais liberdade e não fica tão preso à autorização. Acho que provavelmente o supremo vai revogar essa lei e autorizar a publicação de biografias não autorizadas. c: Até que ponto a biografia expõe a opinião de quem escreve? OC: Eu acho que é inevitável pesquisar e escrever sobre a vida de uma pessoa e não ter um pouco de opinião, um pouco da sua impressão sobre o biografado. Mas acho que na maior parte do tempo, você tem que tentar ser o mais isento possível. No meu livro pode ter alguma opinião, mas eu busquei ser muito mais narrador do que comentarista. Procurei deixar para o leitor criar juízo de valor. Ele (José Dirceu) pegou em armas contra a ditadura, militou num grupo de luta armada, exilou-se em Cuba, mas em nenhum momento, falo se acho essas coisas boas ou ruins. c: O que o entusiasmou na vida de José Dirceu que gerou o interesse pela criação dessa obra? Qual foi o seu objetivo ao escrever essa biografia? Caracterizar uma época ou uma politica? OC: Eu morei em Brasília, de 2000 a 2010, e trabalhei primeiro na sucursal da Folha de S. Paulo e depois pela Veja, sempre cobrindo política. No final do governo do Fernando Henrique, quando o PT era o principal partido de oposição, o José Dirceu era o líder do partido no congresso. Durante a campanha do Lula, até o final de seu governo, o José Dirceu sempre foi uma pessoa central em tudo que acontecia no país. Uma pessoa meio misteriosa e com uma história de vida muito interessante. Eu sempre pensei em escrever um livro sobre essa época que morei em Brasília e não sabia muito bem como e o que escrever. Então, há uns dois anos, conheci uma editora aqui em São Paulo. Ela veio de Portugal e achou muito estranho que no Brasil não se escrevesse sobre pessoas vivas. Isso me deu um estalo e comecei a preparar esse livro. c: Como foi a preparação e o trabalho para criar essa biografia? OC: Realizei muitas pesquisas em acervos de jornais, revistas, emissoras de tevê e arquivos públicos. Essa lei de acesso à informação facilitou muito minha pesquisa. Tive acesso a dados inéditos, no total são mais de 15 mil páginas de documentos. Além disso, eu entrevistei 63 pessoas que conviveram com ele e tem também a minha própria experiência como jornalista. Cobri de perto o caso do mensalão, as duas campanhas do Lula e quando ele foi Ministro da Casa Civil.

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c: Qual foi o entrevistado de maior relevância? OC: Uma pessoa que considero essencial foi o Paulo de Castro Wenceslau, que é um exmilitante do PT. Ele foi o maior amigo do José Dirceu no movimento estudantil, na época da ditadura, quando ele se exilou em Cuba e quando voltou foragido para o Brasil. O Paulo me ajudou com muitas histórias dessa época desconhecida, de sua vida clandestina no país e do movimento guerrilheiro. Quando ele voltou ao Brasil com a anistia, em 1979, foi o Paulo de Castro que deu abrigo a ele. Outra pessoa que me ajudou muito foi o Marcos Tomaz Bastos, que me deu muitas informações importantes do tempo de governo da Casa Civil. c: O senhor foi acusado de negligência ao escrever a biografia do José Dirceu, por omitir fatos e divulgar outros que sejam falsos. Como o senhor se posiciona diante de tal fato? OC: Eu acho que nós vivemos um momento político muito acirrado. Acho natural, por eu trabalhar na Veja, que é uma revista crítica aos governos em geral e, nesse momento, ao PT. Denunciamos o mensalão e boa parte das irregularidades. Teve muitas críticas negativas, principalmente, a da revista Piauí, que serviu de base para todos os ataques. Foi um texto do Marcelo Conte, que foi reproduzido nas redes sociais e em outros sites próximos ao PT. Nesse texto, o Marcelo Conte cita alguns erros, que de fato aconteceram. Quando ele publicou o texto, esses erros já tinham sido corrigidos. Eu acho que essas coisas acontecem e agradeço a quem apontou erros e equívocos que eu cometi. Isso faz parte do jogo, estava preparado para isso e ignorei, não me iludi com os elogios e nem me deixei abater com as criticas. c: Muitos o acusam também de ter escrito a biografia baseado no editorial da revista VEJA e sua suposta perseguição ao PT. Isso teve alguma influência na criação dessa biografia? OC: Meu livro não tem nenhuma relação com a Veja. Eu trabalho na revista, mas o livro foi um trabalho totalmente independente. A Veja não me pagou para fazer esse livro e não ajudou na divulgação. Eu discordo dessa tese, muito divulgada por petistas, que a Veja é contra o PT. A Veja cumpre a missão de todo órgão jornalista de fiscalizar o poder. Por acaso, o PT está no poder agora, mas quando foi o Fernando Henrique, teve uma série de escândalos, de compra de votos, de irregularidades na privatização, todas saíram na Veja. Ela também foi o principal órgão que denunciou as irregularidades do governo Collor. É a função da imprensa séria e independente. Como o PT está no governo, os petistas não gostam deste tipo de jornalismo, mas é o que deve ser feito. c: Como o senhor vê a manifestação do seu biografado sobre o trabalho que você realizou? OC: Eu não esperava que ele fosse gostar e aplaudir o meu livro, justamente por ter sido não autorizado. Eu falei de temas que ele gosta e de temas da vida dele que ele não queria que fossem revelados. Então me surpreenderia muito se ele fizesse elogios ao livro. Acho natural que ele não tenha gostado muito, mas imagino que ele não tenha visto problemas sérios ou erros, pois não foi feito nenhum reparo na justiça, não me processou, não fez nada, somente publicou um artigo na Folha. c: O seu livro teve uma grande venda, muita repercussão na mídia. Como o senhor vê essas manifestações? O senhor esperava tamanha repercussão? OC: O tema era interessante e imaginava que ele fosse fazer sucesso, mas o mercado editorial brasileiro é muito complexo. O Brasil é um país onde se lê pouco e os livros não têm muita divulgação. As livrarias estão restritas às principais cidades, não se encontram em cidades pequenas do país. Muitas vezes um livro que você acha que vai fazer um sucesso danado, encalha e, muitas vezes, quando você não imagina nada do livro, ele faz sucesso. É muito imprevisível. Eu fiquei satisfeito com os resultados dele. c: Como o senhor avalia a sua experiência na produção desse livro? Tem planos para escrever outro? OC: Achei muito interessante e gostei muito da experiência de escrever um livro, é um trabalho de mais fôlego. Trabalhei em jornal onde você tem que produzir todo dia, é uma loucura! Na revista você já consegue fazer um trabalho mais pensado, mais analítico. Agora eu fui para essa terceira experiência de escrever um livro, esse negócio de longo prazo, mais amplo, mais pensado e estruturado. Acho que é uma nova porta que se abriu pra mim e eu espero continuar explorando, pretendo fazer outros livros.

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FRAGMENTOS

POR UM MUNDO MAIS COLORIDO 14

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Texto: Gerliani Mendes Edição Gráfica: Cinthya Meneghin Foto: Thamira Bastos

o porquê do outubro rosa e novembro azul Se o novembro fosse azul pra tratar câncer de mama, ia vingar? Tem coisas que os homens explicam, mas só mulheres entendem. E vice versa. Uma delas é aquele caroço alojado num corpo que desmente todas as premissas de igualdade entre homens e mulheres. Eu tenho a perseguida, o útero, a mama. Ele tem a próstata, as bolas... Opa, mas

“somos todos ciborgues” diz Donna Haraway. Cada dia mais os corpos são recriados com cirurgias e comportamentos. Sim, há que se pensar! Gostaria que transexuais não deixassem de fazer os devidos exames por não se identificarem com os estereótipos da Campanha. Aliás, são estereótipos de gênero ou de sexo? São mesmo apenas estereótipos? Baseados em especificidades corporais, está claro. Mas em que se baseia o rosa e o azul? Estas questões, mais do que para pensar criticamente as campanhas são questões para a vida: para a educação das nossas crianças, para menos repressivo e moralista: um um mundo mais colorido!

futuro

Mas vamos na boa fé... Essa Campanha

nos deve unir! Cis e trans. Gay, hetero e bi. Casais acima dos 40 certamente se acompanharam para realizar os exames e isso é lindo! Minha mãe e seu marido são bons exemplos disso. “- Ô Geraldo, vai levar dedada, né!” Risos homofóbicos no ar, mas ele não perderia essa chance por nada. “- Claro Rose! Você tá com medo de me perder pro doutor né? Tá com medo de eu gostar!”... Ela sorri sem graça e não há mais apelo. Ele sabe que é o melhor a ser feito. Ambos vão até onde a boa saúde pede, e tudo vira uma brincadeira pra ser compartilhada entre outros quarentões. Mamografia certamente dói mais que uma dedadinha, ela pensa sempre certa de que sua dor de fêmea há de ser mais forte que a dedada. Acabou-se a guerra dos sexos na sala de espera do consultório. As mãos se juntam em devoção aos laços que simbolizam as Campanhas. E eles se olham cúmplices, como o fazem a passagem de Outubro para Novembro.

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ESPECIAL

Da busca por ouro e pedras preciosas a escavações gigantescas. Por trás das montanhas cinzentas, profundas crateras de exploração de ferro. Se por um lado a extração mineral gera crescimento econômico nas cidades de Minas Gerais, por outro a atividade mineradora deixa marcas visíveis no meio ambiente e na vida de muitas pessoas.

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O sentimento imortalizador expressado por Carlos Drummond de Andrade sobre a sua terra natal, fica claro no seu poema Montanha Pulverizada. “Chego à sacada e vejo a minha serra, a serra de meu pai e de meu avô, de todos os Andrades que passaram e passarão, a serra que não passa. Era coisa dos índios e a tomamos para enfeitar e presidir a vida neste vale soturno, onde a riqueza maior é sua vista e contemplá-la, de longe, nos revela o perfil grave. A cada volta de caminho aponta uma forma de ser, em ferro, eterna, e sopra eternidade na fluência. Esta manhã acordo e não a encontro. Britada em bilhões de lascas deslizando em correia transportadora, entupindo 150 vagões no trem-monstro de cinco locomotivas - o trem maior do mundo, tomem nota - foge minha serra, vai deixando no meu corpo e na paisagem mísero pó de ferro, e este não passa.” Terra do poeta, cidade do ferro, berço da Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale. Vista do alto, Itabira, localizada acerca de cem quilômetros de Belo Horizonte, encontra-se tomada de minas a céu aberto. Por trás de tantas casas, há nuvens de poeiras, rachaduras nas paredes e o sentimento de frustração da população. O maior trem do mundo carrega riquezas, leva histórias e causa dor. De um lado grandes máquinas se aproximando da antiga Vila Paciência, do outro,

pessoas amedrontadas e temerosas à presença da mineradora na cidade. As expansões das áreas de mineração resultaram em impactos profundos sobre o meio ambiente da cidade, inclusive sobre os moradores que habitavam a Vila. Numa área particular, situada a noroeste do sítio urbano de Itabira, a Vila Paciência, surgida por volta de 1957, dividia-se pela linha férrea da Estrada de Ferro Vitória a Minas e pela Estrada Cento e Cinco, em duas partes: Vila Paciência de Cima e Vila Paciência de Baixo. Em virtude da exploração de minério de ferro, em 1980, a parte superior da vila foi extinta, permanecendo somente a parte inferior. “Na época, a empresa propôs negociação, e não tinha como negar, tudo iria ser tomado mesmo. Não dava era pra sair no prejuízo, o jeito foi aceitar a proposta oferecida”, relata uma ex-moradora da Vila Paciência de Cima.

Desde a expansão da mineração na mina Chacrinha, a parte remanescente da Vila Paciência passou a ser uma área cada vez mais afetada. Segundo Marcone Andrade, assessor de imprensa da Vale, “A empresa mantém uma livre negociação para aquisição de parte dos imóveis da Vila Paciência, um processo iniciado a pedido da própria comunidade, com o objetivo de criar uma zona de amortecimento entre a área operacional e a população”. No entanto, como a Vila Paciência foi prejudicada pelos impactos da mineração, outras vilas ainda são alvos de risco ambiental. A Mina do Chacrinha, situada próxima a Vila Cisne, gera uma situação insuportável para os moradores. A atitude de “paciência” por parte deles não durou muito tempo. No dia 26 de julho de 2013, numa sexta feira, a comunidade bloqueou a linha férrea Vitória/Minas da Vale, impedindo a passagem da locomotiva por cerca de duas horas. Os manifestantes iniciaram o protesto para reivindicar uma decisão definitiva por parte da Vale, sobre as rachaduras em suas casas. Quatro meses depois a revolta dos residentes da Vila continuou a mesma. A população declara que outra manifestação está próxima para acontecer, já que as reivindicações não foram atendidas.

Texto: Luma Oliveira Edição Gráfica: Aline Rosa de Sá Fotos: Íris Zanetti

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Velhas cicatrizes

Maria Aparecida Santos Soares, representante da comunidade, mostra as fissuras da sua casa, que, segundo ela, são efeitos da detonação de explosivos. A moradora explica que as explosões resultam em estrondos, ruídos e tremores. “Teve uma vez que todos os moradores saíram de suas casas, porque parecia que ia desmoronar. Foi assustador. É um terremoto que dura segundos, mas que gera medo.” De acordo com a líder da vila, as implosões acontecem todos os dias, por volta das 15h. A Vale desconhece qualquer estudo conclusivo que aponte a empresa como responsável pelas rachaduras nos imóveis. A empresa alega que as detonações só são feitas em períodos diurnos e em condições climáticas favoráveis. “As vibrações são monitoradas em tempo integral e se encontram dentro dos limites estabelecidos pela legislação”, explica o assessor Marcone. A poluição atmosférica, relacionada à atividade mineral, é outro problema vivenciado pela comunidade. Moradora há 53 anos da vila, Maria Piedade reclama da poeira gerada pelas explosões e dos danos causados à saúde humana. “Aqui é um lugar terrível pra se viver. O meu terraço fica infestado de poeira, com calor e vento então, fica insuportável. Você está vendo aquela área ali?

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aponta ela para um local a 100 metros, “era tudo verde, olha como está hoje! Várias casas já foram retiradas e por causa da detonação, até pedra já veio na minha casa.” Em resposta as reclamações da população, a Vale declara que a empresa adota uma série de medidas que reduzem os impactos em suas áreas operacionais, como irrigação permanente das vias internas, revegetação dos terrenos em declínio e mantém quatro estações de monitoramento da qualidade do ar em diferentes pontos da cidade. Entretanto, mesmo com essas medidas salientadas pela mineradora, constata-se que os itabiranos ainda se sentem incomodados com a situação que os aflige, pois os ventos que sopram em direção às minas e outros fatores concorrentes não são controláveis pela Vale, contribuindo para a dispersão da poeira em direção à cidade. Na década de 80, Carlos Drummond de Andrade já relatava esses problemas, “Hoje minha terra vive a sorte da região espoliada, com os intestinos à vista, sob o pó de minério que suja os corpos e torna as almas sombrias. Não adianta fechar as portas e janelas; meia hora depois de qualquer limpeza, pode-se escrever com o dedo sobre o pó depositado nos móveis.”


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Quadrilátero Ferrífero

Belo Horizonte

1. Tarcísio, exgarimpeiro: “Eu já ganhei muito dinheiro no garimpo, agora tenho pouca coisa.” 2. Maria Aparecida, relembra, de sua casa, a manifestação que realizou junto com a comunidade nos trilhas do trem.

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Nas trilhas dos garimpeiros

Se em uma das pontas do quadrilátero ferrífero, região responsável pela maior extração de minério de Minas Gerais, temos Itabira, na outra encontramos Ouro Preto. A distância entre as duas cidades é de 90 km, mas os problemas vivenciados pela população são semelhantes. Nascida antes mesmo de 1700 com a descoberta do ouro, a cidade de Ouro Preto atraiu por muito tempo centenas de aventureiros em busca do metal precioso. Com as campanhas do metal e de diamante, Minas Gerais foi considerada a maior reserva de ouro do mundo. O garimpo foi durante anos uma das formas mais comuns de extração das riquezas minerais. Diferente da mineração que utiliza máquinas e move toneladas de terra por ano, a atividade garimpeira utiliza ferramentas simples e o trabalho é manual. Porém, assim como o trabalho minerador, a extração no garimpo afeta a infraestrutura e a natureza, gerando grandes impactos. Nas últimas décadas, garimpar tornou-se um ofício exercido na clandestinidade, alvo de operações da Polícia Ambiental e multas aplicadas pelo Ministério Público, por danos provocados ao meio ambiente. Além de ser um bom exemplo de precarização do trabalho na região. Localizado a 18 km de Ouro Preto, encontra-se o distrito de Antônio Pereira, região conhecida pela presença do garimpo de topázio imperial. Considerada uma gema rara no mundo e de alto valor econômico, a extração da pedra foi crescente e diversos depósitos foram explorados por trabalhadores dentro da região de Ouro Preto. Em um lugar de paisagem estranhamente desolada e em terras pouco firmes, encontramos três garimpeiros trabalhando. Debaixo do sol forte, eles desaparecem perto do imenso buraco aberto no meio da terra. “Cuidado!” Alerta Pedro, um garimpeiro de 60 anos, que nos direcionava até o centro da escavação. Sem proteção nenhuma, o trabalho é incessante e diário. Além do topázio imperial, outras pedras podem ser encontradas no local, mas é preciso contar com a sorte, não é todo dia que o “tesouro é localizado”. “Eu trabalho aqui desde 82, a gente tira a pedra e depois manda lapidar. É muito difícil achar alguma. Aqui é sorte, é igual jogar na Mega

Sena”, conta Pedro ao nos mostrar o fruto do seu trabalho, as pedras lapidadas. O garimpo é propriedade particular, o trabalho é por conta própria, mas a cada mil reais de venda, uma porcentagem é passada a proprietária do terreno. No momento o garimpo encontra-se fechado por órgãos do meio ambiente, entretanto há aqueles que se arriscam. “Eu já trabalhei por muito tempo aqui. Tive que parar depois que o garimpo foi fechado, porque é arriscado”, relata Tarcisio. Os garimpeiros nesse nível de produção ganham muito pouco, a extração é primária e a técnica de lapidação é desconhecida por eles. O preço de produto de origem é distante do preço vendido nas lojas. A riqueza que a extração proporciona, passa apenas por suas mãos, deixando rastros sujos de poeira e mãos marrons.

Mineirar, Maneirar!

Hoje o Brasil abriga um dos maiores potenciais minerais do mundo, se tornando o segundo maior exportador de minério. De acordo com os dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), a exportação de minério de ferro em outubro somou 32,51 milhões de toneladas, o maior volume mensal do ano de 2013, tendo como principal destino a China. Esse grande potencial resulta na contínua abertura de minas por todo o território nacional. Os maiores estados produtores de minérios em 2012, de acordo com o recolhimento da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais, são: Minas Gerais, (53,2%), Pará (28,6%), Goiás (4,1%), São Paulo (2,8%), Bahia (2,0%) e outros (9,3%). A demanda chinesa está em constante crescimento e a espera que o Brasil atenda esse mercado. Mas estaria o Brasil preparado? Segundo Carlos Melo, geógrafo com especialização em gestão ambiental, “O consumo de forma voraz por boa parte das corporações tem elevado os problemas ambientais a partir da extração de matéria prima”. Hoje fica clara a importância do setor extrativista de minerais para a economia de boa parte do Brasil. Mas quem são as vítimas? Enquanto a atividade econômica aumenta a balança comercial do país, o sofrimento das populações que têm suas vidas remexidas pela atividade mineradora permanece o mesmo.

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yara diniz

FOTOGRAMA

Texto: Íris Zanetti e Yara Diniz Edição gráfica: Edan André

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o g n i p m u re o r t u o e

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íris zanetti

Marina Ibba

íris zanetti

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Bruna Mattos

Thamira Bastos

Mas o que quer dizer este poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora. E o que quer dizer uma nuvem? - respondi triunfante. Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo... Mario Quintana

Ă­ris zanetti

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thainá cunha

yara diniz

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Fotografar sujeitos que se apropriam do espaço público durante a chuva torna visível o invisível, dá espaço a cenas do dia-a-dia talvez não pensadas ou interpretadas pelas pessoas. Seja embaixo de um guarda-chuva, dentro do carro ou nas quinas de marquises, os olhares se recolhem. O jornal tem que sair, a feira não pára e a chuva também não. As pessoas tomam as ruas por algum motivo, específico, e uma história particular; cada qual com suas corres, pingo a pingo, construindo uma narrativa.

íris zanetti

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RELICÁRIO

Existia um grupo de prisioneiros que viviam acorrentados desde o seu nascimento em uma caverna escura, e nas suas paredes podiam-se ver sombras projetadas por um fino feixe de luz. Aquilo era a realidade. Um prisioneiro se libertou das correntes e conseguiu sair da caverna. Depois de acostumar-se com a luz, pode vislumbrar outro mundo com cores, pessoas e natureza. Aquilo era a verdade. Voltando para a caverna, tentou convencer os demais prisioneiros que existia um mundo lá fora. Sendo taxado de louco, acabou assassinado. A Alegoria da Caverna está nas páginas de “A República”, livro VII, escrito por Platão, o mesmo filósofo grego que, no ano de 387 a.C., fundou a primeira Academia. Em seu início, a Academia era um lugar de transmissão do pensamento, de lá pra cá percorreu um longo caminho e seu papel foi se modificando. O Patrono da Educação brasileira, Paulo Freire – falecido em 1997 – disse que “O conhecimento não se estende do que se julga sabedor até aqueles que se julga não saberem; o conhecimento se constitui nas relações homem-mundo, relações de transformação, e se aperfeiçoa na problematização crítica destas relações”. As universidades, como conhecemos hoje, correspondem ao lugar de experimentação da relação homemmundo – que os prisioneiros da caverna não quiseram acreditar – e são lugar de formação e transformação do conhecimento. Por isso possuem o dever e o direito de cumprir esse papel, que se transpõe para além de seus próprios muros e se reflete na comunidade. No dia 13 de agosto de 2013, o Programa de Extensão: Centro de Difusão do Comunismo (CDC), da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), foi suspenso por meio de uma liminar expedida pelo Juiz da 5° Vara da Justiça do Maranhão, José Carlos do Vale Madeira, após ação popular movida pelo advogado Pedro Leonel Pinto de Carvalho. A UFOP, além de tomar todas as providências cabíveis para a revisão da decisão judicial, se manifestou em uma carta-resposta aberta.

Proibido pensar diferente

A ação popular e a decisão judicial obtiveram repercussão nacional, fato que gerou discussões nos espaços destinados aos comentários dos leitores em sites de notícias e um alvoroço na rede social Facebook. Nas matérias sobre o caso, o trecho mais citado da carta-resposta diz: “A Autonomia Universitária foi ‘ferida de morte’ e as instâncias que aprovaram e acompanharam o Programa CDC-UFOP (desde 2012), foram completamente ignoradas e achincalhadas”. O Prof. Dr. André Mayer, coordenador do Programa, ressalta que “Os objetivos do CDC-UFOP são claros, públicos e notórios: estudar, debater e realizar a critica à ordem do capital e lutar por uma sociedade para além desse sistema, envolvendo ações de ensino, pesquisa e extensão”. E completa: “A Ação é caluniosa e equivocada não tendo um suporte material que sustente a sua argumentação. O trabalho realizado é transparente para toda a sociedade”. O princípio da Autonomia Universitária é desconhecido e a sua importância para a educação também. A lei surgiu pela primeira vez na Constituição de 1988 e é uma dentre outras normas existentes sobre a Educação no país. Entre elas, a gratuidade do ensino público, o acesso universal, a garantia da qualidade de ensino e a indivisibilidade do tripé: ensino, pesquisa e extensão. Definida de forma plena pela Constituição, a Autonomia em sua formulação considera cinco itens: as autonomias didático-científica, administrativa, de gestão financeira e patrimonial e o regime jurídico.

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de volt tempo cavern Texto: Tuanny Ferreira Edição Gráfica: neto medeiros


lta aO das nas?

A Autonomia Universitária nos casos CDC-UFOP e Eleições da USP

Bem vindos à ocupação!

Em outubro de 2013, outro caso que lesou a Autonomia Universitária obteve visibilidade nacional e aconteceu na maior Universidade do país, a Universidade de São Paulo (USP). Até aquele momento, a eleição do reitor era feita pela escolha do Governador do Estado, atitude que ia contra as medidas conquistadas pela Lei da Autonomia Universitária. Um grupo de estudantes se organizou para protestar contra a medida e reivindicar eleições diretas e o voto igualitário. Após 42 dias de ocupação da Reitoria e reiteração de posse pacifica, em uma reunião do Conselho Universitário, foi deliberado sobre o sistema eleitoral da Instituição. Ficou decidida a eleição em turno único no dia 19 de dezembro de 2013, com quatro chapas concorrendo à reitoria da USP. O direito de voto e a decisão passou a caber à Assembléia Universitária formada por 2 mil representantes - entre professores, alunos, funcionários e técnicos administrativos. Segundo André Lana, advogado e assessor técnico do reitor da UFOP, “Tratar uma universidade como uma mera repartição pública, com todas as amarras burocráticas da nossa complexa estrutura jurídica, é o mesmo que limitar o desenvolvimento cultural, científico e tecnológico do país. Esses fatos são exemplos claros de tais limitações e demonstram interpretações restritivas que tentam limitar a atuação das universidades”. Lana ainda salienta: “É preciso que a sociedade entenda que são as universidades as responsáveis por amplos e imparciais debates sociais, técnicos e políticos. Qualquer limite à sua liberdade fará com que alguém ou algum grupo seja individualmente beneficiado”. A suspensão do CDC-UFOP e a escolha do reitor da USP pelo governador do Estado abrem precedentes contra a Autonomia Universitária e não devem ser ignoradas – como aquele prisioneiro liberto que conseguiu ver a luz da verdade, mas foi assassinado pelos companheiros que não ousaram conhecer o mundo.

Mesmo com a suspensão do CDC-UFOP, alunos mantêm em seu cotidiano a perspectiva debatida pelo Programa de Extensão.

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Guerreiros Lutar para alcançar os objetivos. A frase parece clichê, mas para os nossos personagens não é. Eles [literalmente] lutam para chegar ao lugar onde almejam. Todos praticam Artes Marciais, filosofias de vida em que seus adeptos procuram o desenvolvimento físico e mental. Existem modalidades diferentes, porém, assim como essas pessoas, os estilos buscam o mesmo ideal: qualidade de vida, bem estar e controle emocional. O general e filósofo chinês Sun Tzu, em sua obra “A Arte da Guerra”, escrita há aproximadamente 500 anos antes de Cristo, revela suas estratégias de combate, onde o ponto fundamental para se vencer uma batalha é o autocontrole. Domínio próprio e disciplina é o que não falta aos nossos quatro guerreiros. “Triunfam aqueles que sabem quando lutar...”. Fernando Moraes– Jiu Jitsu “Sentir dor, mas não desistir, é preciso sofrer para ser o melhor”. Essa é a receita vitoriosa de Fernando Moraes, que aos 24 anos de idade é campeão brasileiro, bicampeão mineiro, campeão da Copa Estrada Real, campeão da Copa Kimura, e possui outros títulos regionais. Lutando há dez anos, o Jiu Jitsu é o que mais dá prazer em sua vida, pois foi com a arte marcial que ele fez a maioria dos seus amigos, viajou para vários lugares e aprendeu coisas que guardará pelo resto da vida. “Aprendi a amar a mim mesmo e ao próximo, respeitar os mais fracos e nunca me tornar um deles”. O Jiu Jitsu é uma luta japonesa que significa “arte suave”. E é com muita suavidade e muitas horas de sono trocadas por horas de treino, que Fernando segue em busca do equilíbrio e em busca de seus objetivos.

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Quando a arte da luta se confunde com a vida

Aloísio Júnior – Kung Fu Os dragões tatuados em seus dois braços, à primeira vista, sugerem que ele é apaixonado pela cultura chinesa. Aloisio Júnior começou a treinar o Kung Fu aos 11 anos de idade, influenciado pelos filmes de luta que assistia na época. A ele fascinavam os belos movimentos e a filosofia da luta. Hoje, aos 33, é tricampeão brasileiro, pentacampeão mineiro e bicampeão interestadual, além de vários títulos regionais. Ele acredita que para se tornar um campeão a primeira coisa a se fazer é descobrir a sua direção, motivação e objetivos e depois se empenhar e ir em busca do sonho. O nome Kung Fu significa “trabalhar duro”, e é a este esforço que Júnior atribui as suas vitórias. “Só vencem na vida aquelas pessoas que estão dispostas a pagar algum preço”.

Marciano Anderson – Kickboxing Com um nome que se refere a Marte (deus romano da guerra segundo a mitologia), o seu destino não poderia ser diferente. Aos 34 anos, Marciano, que iniciou nas artes marciais aos 9, tem em seu currículo de vitórias 11 títulos no Campeonato Mineiro, 3 no Brasileiro, 1 no Interestadual, 3º lugar no Sulamericano, 3º lugar no Panamericano, 2 medalhas de Ouro no mundial, entre vários outros. Sempre sonhou em chegar ao topo, por isso considera as vitórias no mundial como suas maiores realizações. Para ele, a luta não é apenas um lazer. “Fui criado e educado em paralelo com as artes marciais, então pra mim é uma filosofia de vida”. Ele acredita que ser campeão não é apenas subir no ponto mais alto do pódio, e sim aprender a cada dia com as dificuldades do esporte. Kickboxing significa “chutes e socos”, porém para Marciano “um verdadeiro campeão é aquele que se posiciona com postura, respeito e caráter diante do seu oponente”.

Maíra Assunção – Karatê A inocência em seus olhos castanhos esverdeados não revela o que Maíra, de apenas 7 anos, mais gosta de fazer: lutar karatê. Treinando há apenas 1 ano, já foi campeã do Circuito Centro Mineiro, campeã interestadual, 3º lugar no Campeonato Mineiro e destaque esportivo feminino de artes marciais da cidade de Mariana. A paixão pela luta acabou incentivando seu pai, que hoje treina e compete ao lado dela. Segundo Wesley Woitila, sua filha era muito agitada, e mudou bastante seu comportamento depois que começou a treinar, principalmente na escola, onde sua postura e seus rendimentos melhoraram consideravelmente. O Karatê, que nasceu no Japão, significa “mãos vazias”, pois seus praticantes lutam sem o uso de armas. Para se cumprimentar, os lutadores dizem “oss”, que corresponde a “perseverança”. Esta palavra simboliza muito bem a vida da pequena Maíra, que por várias vezes já deixou de brincar ou ir a festas para treinar. Porém quando está nas competições ela tem a recompensa de seu esforço. “Às vezes é ruim perder as coisas, mas na hora que eu vejo o resultado, percebo que tudo vale a pena”.

texto: adriel campos arte: neto medeiros foto: paulo victor fanaia

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PERFIL

O rei das artes: Roque dos

Leões

Texto: Kíria Ribeiro Edição Gráfica: Adriano Soares Foto: Bruna Mattos Uma das minhas maiores curiosidades desde quando vim morar em Mariana era saber quem era o dono das esculturas de leões localizadas na Rua Santa Efigênia, número 148, em frente à Igreja do Rosário. De onde vieram? Por que estariam em uma rua tão movimentada como aquela? Até que tive finalmente a oportunidade de ir a “casa dos leões” numa manhã nublada de terça-feira. Quando chego, um sujeito jovem e simpático me recepciona. “Deseja algo, moça?”, perguntou intrigado. “Sim, estou à procura do Roque, o artista plástico aqui do bairro”, respondi. Entro na garagem da casa, e logo de cara, vejo quadros e esculturas dos mais variados formatos. A princípio, penso que estou em uma galeria, pela riqueza de detalhes nas obras de arte. Tento observar o ambiente e logo consigo me sentir em casa pelo clima sereno e conservador. Poucos segundos depois, escuto uma frase simples, sincera, que vinha do fundo da garagem-ateliê: “bom dia, minha filha”, disse o senhor de camisa esverdeada, olhos penetrantes e um aperto de mão forte. Depressa, puxou uma cadeira e me fez sentar bem a seu lado. Esses eram os primeiros gestos do artista Roque Raimundo de Oliveira, mais conhecido como Roque dos Leões. Leões? Sim. Os mesmos que enfeitam a entrada da casa do artista, e que despertam a atenção de centenas de turistas e moradores da cidade. Quando perguntei de onde veio o apelido, ele me respondeu. “Ganhei esse sobrenome por causa dos diversos leões que projetei em minha carreira. Mas lógico, principalmente, por conta dos que têm em frente a minha residência”.

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Nesse dia, Roque estava prestes a terminar mais um de seus quadros. Dessa vez, ele pintava “São Jorge e o seu cavalo”. Os traços marcantes eram contornados com bordas grossas da cor marrom. “Uma das pinturas que mais gostei. Ainda não finalizei, mas já posso dizer que me tocou profundamente ter pintado esse quadro”, contou sussurrando em tom de segredo. A obra era uma encomenda feita há menos de uma semana por um jovem, morador do bairro. Segundo Roque, muitos de seus trabalhos são vendidos para moradores do próprio Rosário, onde mora há mais de 30 anos. “Quase todos os dias chega alguém perguntando os preços dos quadros e das esculturas de cimento. Fico feliz pela valorização dessas pessoas”, disse ele. Mas já aconteceu do artista doar alguns de seus trabalhos para aqueles que não tinham condições de comprar. “Gosto de espalhar a arte por aí, independente de qualquer coisa”. Meus olhos não conseguiam parar de admirar os trabalhos que estavam espalhados por todo canto. A curiosidade tomava conta de mim. Queria saber como e quando cada obra daquela havia sido feita. Logo tratei de perguntar, a fim de saber mais a fundo sobre a vida daquele senhor de 71 anos. Em minha primeira pergunta, ele me interrompeu e confessou que não era muito bom com as palavras. Porém, não foi isso que realmente aconteceu. As palavras brotavam de sua boca e cada vez que saíam, ganhavam mais intensidade. A medida em que fazia as perguntas, Roque trazia o seu passado para aquela garagem acanhada, mas ao mesmo tempo grandiosa.


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Esculpindo a vida...

Roque descobriu o seu talento aos 30 anos. Antes não tinha tempo, nem condições de tentar aproveitar mais a vida com pinturas e esculturas. Sua infância e adolescência foram marcadas por momentos de muita luta. Aos onze anos já trabalhava na lavoura para ajudar os pais, mais precisamente no distrito de Padre Viegas. Aos dezoito, veio para Mariana em busca de um emprego com carteira assinada e com maior remuneração. “Precisava de um serviço que me proporcionasse uma renda maior que a que eu tinha. Aí, vim para a zona urbana da cidade”, revelou. Depois da vinda, Roque trabalhou em diversos ramos como em empresas de tecido, de mineração e de construção civil. E foi exatamente nesse período que começou a descobrir suas habilidades com o mundo das artes. “Eu mexia muito com cimento por causa do meu serviço e, nas horas vagas, eu sempre procurava fazer algum formato. A primeira escultura que fiz foi o rosto de um anjo. Meus companheiros de trabalho me elogiaram muito e me incentivaram a continuar fazendo”, contou alegre. Autodidata, o dono dos leões foi crescendo nas artes e cada vez mais se aperfeiçoando com as esculturas. A matéria prima que necessitava era cimento. E claro, uma boa pitada de imaginação. A partir das produções, a confiança crescia, e Roque se superava em cada novo trabalho. As ruas da cidade ganhavam um toque especial com os leões, rostos de anjos, estátuas e fontes que ele produzia. Por conta disso, foi convidado por diversas comunidades de Mariana para a construção de esculturas. Morro Santana, Chácara, Centro, Rosário e Santana foram os bairros agraciados com algumas das obras do artista. Distritos como Cachoeira do Brumado, Ribeirão do Carmo, Miguel Rodrigues e Padre Viegas também receberam algumas. “Fico honrado pela valorização das pessoas da cidade, de turistas. Mas infelizmente ainda não sinto a valorização de órgãos pú-

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blicos”, comentou. Com a cabeça inclinada, Roque me contou que nunca recebeu nenhum incentivo por parte do poder público para as mais de 30 esculturas espalhadas pela cidade. Mas, quando perguntei se tinha algum ressentimento por isso, ele logo respondeu. “Claro que não. Sou feliz com o trabalho que eu faço e nunca precisei desse tipo de apoio. Quero apenas propagar a arte na cidade”. Casou-se aos 25 anos e teve quatro filhos. Contou que depois do casamento, sentiu ainda mais necessidade de deixar a herança das artes. E não é que deu certo? Um de seus filhos também se interessou pela prática. Optou por trabalhar como escultor, mas usando outra matéria prima, a madeira. José Geraldo se mantém com os objetos que esculpe, e tem o seu próprio ateliê, que fica bem ao lado da casa de seu pai. O ambiente é todo decorado com as esculturas em madeira que o jovem produz como quadros, presépios e enfeites. Quando perguntei sobre a importância de Roque, Tico, como é mais conhecido, não pestanejou. “Ele é tudo pra mim. É um grande exemplo para todos nós. Me ensinou e me mostrou os caminhos certos para construir a vida. Devo tudo a ele”, disse.

Os frutos...

No ano de 2011, Roque enfrentou uma das maiores dificuldades de sua vida. Devido à diabetes, teve problemas com excesso de glicose. “Eu acabei me vendo nesta situação. O médico simplesmente me disse que meus dedos do pé estavam apodrecendo e que era necessário amputar dois deles. Me senti arrasado com a notícia”, contou. Roque então marcou a operação e compareceu ao hospital. Lá, recebeu mais uma notícia dolorosa. “O médico me surpreendeu e me falou que teria que

amputar a perna toda, porque boa parte já estava apodrecendo”, disse ele, lacrimejando. Passou pela cirurgia e alguns dias depois ele já estava em casa, tendo que viver com uma nova realidade. O artista precisou do apoio familiar para superar esse obstáculo que poderia lhe tirar aquilo que mais o fazia feliz: a elaboração das esculturas. “Naquele momento eu só pensava como iria fazer para continuar com o meu trabalho”. Com o passar do tempo, o escultor foi se adaptando à rotina e conseguiu fazer da cadeira de rodas improvisada e de sua muleta, seus melhores amigos. Foi assim que continuou usando sua criatividade, e começou a esboçar algumas pinceladas em quadros brancos que montava. “Comecei a ir para uma área que até então não conhecia: a pintura. Pintar foi ficando mais fácil porque eu preciso apenas ficar sentado. Não preciso me locomover. E foi nascendo dentro de mim a vontade de pintar mais e mais”, afirmou. O artista fez ao todo cerca de 100 quadros das mais variadas temáticas, entre elas igrejas, monumentos, paisagens e santos. “Pinto o que as pessoas me pedem. Faço encomenda e não costumo cobrar caro pelos quadros. Lógico que dinheiro é importante, mas não é tudo não”, disse. Homem simples e de força extrema. Depois de conhecer toda a história de sua vida, descobri a existência de um terceiro leão. Não na porta de sua casa, mas dentro do próprio Roque. O apelido de “leões” somente comprova a sua vontade de lutar a cada dia tendo, como muitos, desafios a encarar. E é exatamente isso que faz Roque. “Sou uma pessoa que não desiste fácil. Enfrentei diversos obstáculos que me fizeram mais forte. O meu apelido veio exatamente por isso. Meus amigos viram o meu esforço e minha luta em querer espalhar as artes pela cidade, como um leão atrás da presa. E acho que hoje posso falar que consegui isso. Acredito que as pessoas vão se lembrar de mim e do meu trabalho”.

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espelho

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Em 2013, as manifestações revelaram o quanto é importante que ocupemos as ruas. Ao mesmo tempo, a palavra “Coletivo” tornou-se sinônimo para caracterizar um estilo de organização. O que antes era restrito aos participantes e comunidades locais onde estas associações atuavam, hoje é senso comum e integra-se a ruas, praças e viadutos. Mas o que é um Coletivo?

Texto : Felipe Sales Colaboração: Laura Ralola Edição Gráfica: Flávio Costa Foto: Marina Ibba No dicionário da língua portuguesa, Coletivo significa: algo que forma coletividade ou provém dela; que pertence a ou é utilizado por muitos; conjunto de indivíduos que formam uma unidade em relação a interesses, sentimentos ou ideais comuns; ou ainda, que remete aos substantivos coletivos. Olhando essas definições, a que se refere a assuntos partilhados é a que mais se assemelha ao significado dado pelo fotografo Thiago Moreira Santos, membro do Coletivo de produção artística Coisarada, de Campo Limpo Paulista, na região metropolitana de São Paulo: “Consideramos como sendo um Coletivo uma organização horizontal, sem fins lucrativos, de pessoas que possuem o mesmo objetivo”. O Coletivo Coisarada nasceu com a proposta de promover projetos culturais e o trabalho de artistas locais foi “formado por um grupo de amigos, na maioria artistas, que juntos organizavam eventos culturais, fechados, somente para amigos”, conta Thiago. Segundo ele, a criação definitiva do coletivo se deu, devido ao crescimento destes eventos e o desligamento do grupo de uma ONG. “O grupo também era bastante envolvido com uma ONG cultural, onde alguns eventos eram realizados, como um sarau artístico mensal”. A pluralidade das manifestações artísticas é busca constante do grupo, que realiza e produz eventos alternativos e experimentais. Seu funcionamento é em rede, onde estão conectados inúmeros parti-

cipantes, como artistas, produtores culturais, oficineiros, entre outros. Os Coletivos podem ser destinados a artistas, o que remete ao passado destas associações, que se reúnem para divulgar sua arte por meio da promoção cultural, interagindo com o público. Destinam-se também a pessoas que se reúnem em torno de alguma causa, como exemplo, enfrentamento a segregação racial, sexista ou de gênero, ou ainda a promover ocupações por meio da arte como ato político. Sua organização é horizontal, ou seja, todos os membros são partes importantes em tomadas de decisões, que acontecem geralmente em assembleias organizadas por estes grupos. O Coisarada promove duas atividades, o “Cineclube”, realizado mensalmente no Museu de Jundiaí e sempre com um convidado para comentar sobre o filme exibido, e o “Sarau da Coisa”, como é conhecido o evento onde os artistas do Coletivo fazem suas apresentações, com música e poemas, em lugares privados que são espaços cedidos por parceiros, segundo o fotógrafo. Outro lado dos Coletivos artísticos é a promoção da ocupação do espaço comum urbano como ato político, principalmente após manifestações. Estes atos têm tomado ainda mais força e vêm sendo pautados quase que diariamente tanto pela imprensa convencional, como pela internet, por meio de colaboradores que utilizam a rede mundial de computadores para a sua divulgação.

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ea qu endo e t as der o s es ten a si p en ir se a ra u s m p . o trib . “Es jos, à m do auê d e o é a ene dese tá a ist çan iz C t s r x s il r e e sfo , d ra blico e M es e m e rma enti- a a qu e e ar” e a p ú rm çõ u sfo s d a tr a s ess e os ponfo rela or q tran tros ntes paut já os ens xpr t ç e sm p ee ar spa o, c utras os p de a ou erg em dade poe- ie ad o d es e no nte o s e m o vi st ge nd os ific vel eja paz dad s e nd leti do o me ção e . n a a ” ta as adupar sign visí pla s ca ibili and oloca e co gun indo rven o d ua ic Pas e d ã e is m c e e d c r a s n i ç o t õ ô d C O utr torn do ecis o v de os eia na s ita e in posi ó a m nto ão ue e o d a d go s s g e aç r q ie to, te s d an em tam A i rba erfe im om e m”. Tia as e l m b t i u e s en a D s es . u p n c q a st s h ov ifes bra mo ge ifer te d e. do a, es” rte im mí e a as ntr ista e e co o ia s, d a t t t , o íd o M an lum se t a o n n a u d a la d n n c a q as ei o se a n en an de fr alid ba tidi rge na ltip Ca me rgu en urb ga sso dir sã s m lo é a m vis dem . s s a e re os, co s u cita ú a. ria pe i se e er pe do tos uin , el p m os po ca trê po m is p xem o, u em s e esta á gru de a c as d da tõe plí É m ru dia Há al eto enx de ia s a str ma o a l h vi ues im . “ o a va a. só uit o, e ênc ste on no m a ad m e au Pod ada ”, d e de ão o n rm la l q ta auê om no an que rq nç itud sci e e o c utô ve õe cu , u o P s. “ ect to qu ar ruç paç fo e e s”. i u e s n a t ã es C l c re urb as r, a ure at on el stã a a mo isp a a a v el S u on e nt cip ns es te , q n de s ão r ta ve a e m ost do Lo a o c ara s e rm pro ed i c a m s n o e st vo r a o da nd em as ão mo co art co do ere çõe rb ias ad á r m e d e i o a P p c p e r s f s g u f u n . s o t c s po co te egu ivre ão d est er ora a p na são dif pa is gra rsid itou s, al aisa e re isto an ão te de ess de Ela se do . O bli do r s ão da p e “ ão S L aç oas lqu sad u am en r a ocu ura rto ive ibil ça h a , p B ú c s . t i z a d se up ss ua ui eço ud pre ica is ult Ca n ss pra in ifi ade o p ade m s fa O elo ões, es a c as ida ado o n j c o U a q e n ‘ q á o u o ç c e e d t t s d a om ed r s t r e o p a e e p d c g ç d d m a i a i s u u s i a o , d a r t s c p il m n s as zar p co ue c e d de ica jet ’ d G) ão ran de a s r Ca up s, q rui s q na o E Es s as es sab io e ão da tiA do q de s en át ro H M aç ist a e oc po c r f a o li n n io lí o u su tiv ve e d sse t r p B e a tr d o n r an uis ias de en “p o e UF iliz reg per ép m is m e u na vi nt e e a. ou -dia que spo ritó ue me po r q a e r m e qu esq log pô r e o o n o d is ( ut as, es na ava úne oem e r es e e a r r d te ar d qu fir l p en á s dia- nde só ar t são , po açõ p do , já rva com rçã ntr era na in de que e d , t str qu a a a j , to ade bse a se Ce s G sse squ os la e s tos on à do dep so, so” ost no nte o é arc res cos fest , d e o ific in o ina ça e e mp fa qu du e c to F) in es is rep os a e nã em imp ou ni D e u n d s p a ( pro o r s te en õe via qu ua d d ass ha s ac zer s ist a M e b s , n u l l i ido de de ib no i aç s, os q a A v ss ce r é a a aos e m ia o tic c l f í t a a o a r v M l é M s t a s n “ en ra me ôn is ”. fes loj an rs as ti o te nd p te up as ue ca a. Br bje ar p in oeta l S ede eu de cia ros ani de urb ive . se ora per Oc e p s q ísti ru o e s o a e d e d r lh d p ip F ue os s s nt m es os ag ão do. qu ma art ara e õ q ont õe nco m ed ent tão taç so, po m o eio o o inc d o n sta de e, es s p o o ç r r s p ra s e c pa m se fe er em , u r m nd p nt açã E da nc nçõ do v u a i t e a o u a n o i t ido ro as ip u an ns s, it po eg é ci erte ve z to fr ed a i eq u a u a n o s d q a t p ep S g r a p ter tra m o a e m e n a d eio os e ut as o T s a gr ant ico. ru e c ão, ion he ad s, in s, m tr pa u n tiv doi ma ass bl s, a go diç orc ídia cid ria a ca u o e ú e r e a l d o ó e op m A st s o m ec o á fo s p p a ál d o , u ar C o h de do ço ov di em pr da ca. hi nte uas ã da aç o a ap O ad ar o spa ê N ão, . “S em es líti as re s r n u m n e au s e t ru tora grad anis l da is es qu n po ov if na rm on ia a dou ós- rb era M i- fo orci otid s no o, C xpre nant rua ause ção re n ior, d e lê p c õe tiv e so a s ta p er s e P e U ed ne let s p à ao nç ole de is , é oze sen sem nt que a o F e e c a l cu ra a d tur de Mi os vido um e ve o c ço os d ria s v pre do te a sia #o Pa ram quite rsida A), to d , de rem rand ços d espa scurs rado ia da a re ntan noi poe a og r ve B un ta se g a a di cu ênc e d co s d . A Pr A ni (UF ass pau ém a esp a su viu g a ce õe TV o r ic em a U a o m mb tra s o ele as su ôn nhe vers na d ahi o, á e ta con do liad t pel lam a as viu a B ian est ões o so p n et, p ão am tr se gl s aç ític u am to rn sas s ro ou ue o t l v up po “O em tan nte ver as is s, q c a g v i o o a. s t e, a Di ti re an m at ídi ico ad o n is. ora o rb s e nm úbl ilid nt cia lab ra is u da ere p sib ua so co pa ra ssa dif vi o q as s s ltu re s sã ídi ma ada s cu inte çõe m for pri ica as tua ta ro rát so si ap e p pes s e d or lhe p eta d

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CRÔNICA Texto: Marcelo Nahime Jr. Edição Gráfica: Cinthya Meneghin Foto: Thamira Bastos

Pense em uma mulher elegante? Pensou? Pense em um colar de Strass com um pingente em formato de coração prateado e rodeado de um azul escuro, característico de quem tem personalidade forte e é decidido. Bom, esse é o meu principal adereço! Mulheres como eu são mais fieis a adereços do que a seus próprios maridos, por isso mesmo que nem tenho um para me amedrontar. Dizem que nasci há mais de 14 anos no bairro São José em Ouro Preto (MG), uma região mais distante, mas populosa. Não gostava de lá não, sabe? Resolvi fugir e deixar minha família. Fui uma jovem rebelde, sem limites, meio Hebe Camargo e Dercy Gonçalves – vale salientar que sou mais fina que elas – e, por

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isso, acabei idosa e famosa, no centro dessa cidade-patrimônio. Depois de sair de casa, fui descobrir que meu pai, um senhor obeso e duas vezes maior que eu, também havia fugido. Dá-lhe família esperta, não? Todos reféns do exílio que as ruas poderiam nos oferecer. Sobre meu pai já não sei mais nada, quem sabe são os tantos tagarelas que falam na minha cabeça diariamente achando que eu estou adorando. De fato, se não fossem eles, eu sequer estaria nessa revista de primeiro mundo falando a vocês. Ah, obrigada! Hoje em dia vivo na Praça Monsenhor Castilho Barbosa, número 39, no bairro do Pilar. Minha casa é pink, of course, minha cor predileta..


Making off na suíte de luxo Sou uma espécie do que chamam de “Lulu da Pomerânia”. Em outras palavras, cachorro de madame. No entanto, neste caso, a madame sou eu! Não gosto de ser chamada de “cadela” ou “cachorra”, prefiro que me chamem de “cã”, acho que soa mais francês, sabe? Bom, todos os dias, meu bairro é enfestado de telespectadores, “ops”, quero dizer, frequentadores da Igreja mais rica e congratulada que Ouro Preto acolhe: a Igreja do Pilar. Por incrível que pareça ela é mais famosa do que eu. Eu que não sou boba, apoderei-me de sua fama e finjo-me de zeladora da dita cuja. Assim, quando os turistas brasileiros ou “gringos” resolvem ver aquele tanto de ouro, acabam é se deparando com meu brilho ainda mais chamativo na porta da Igreja. #beijos Não poderia deixar de falar da dona que me ajudou. Todo artista/famoso/estrela/ popstar tem um passado de cão, né? Pois eu ainda continuo com um presente canino, porém luxuoso. Ivana Bandeira é uma senhorita aposentada que montou meu quarto no hall de entrada da

sua casa no endereço que já lhes passei. Minha cama é modelo King Size e meu travesseiro mais confortável que o da Nasa. Isso mesmo, recalque, é assim que eu moro hoje. Um dia na rua, outro no Castor. Dona Ivana me acolheu com carinho e cafuné. Deume uma bacia cor de rosa para beber água fresca o tempo todo, e toda a infraestrutura que uma “cã” elegante como eu, sempre quis. É no cantar dos pássaros que acordo todos os dias. Minha rua é uma calmaria! Os vizinhos? Aposentados simpáticos e tradicionais moradores de Ouro Preto (MG) que ajudam a divulgar minha história sem eu sequer precisar olhar para os visitantes. O lado bom desses “assessores de imprensa” é que quando tenho sono, nem preciso me esforçar para ser simpática. Agora, se tem uma coisa que me deixa irritada é quando dizem que eu sou velha e obesa. Gente, toda senhora como eu tem umas gordurinhas a mais, não? São poucas as que ainda conseguem chegar nessa idade com meu carisma e sem rugas. O que

comprova meu esforço na busca pela beleza é minha caminhada dominical, da Igreja do Pilar até a Igreja Bom Jesus, no Bairro Cabeças, um morro bom para fazer exercício, menina! A verdade é que, por incrível que pareça, eu cansei desse trajeto e há dois meses só pego o rumo da Praça Tiradentes. Lá, eu encontro movimentação, jovens, turistas fotografando, pessoas sorrindo e muita energia positiva. De quebra, ganhei um novo amigo. Seu nome? Não me pergunte porque não lembro. Só sei que ele é taxista, seu carro tem airbags e bancos de couro beges nos quais eu ando todos os domingos quando encerro meu passeio na Praça. Sim pessoal, ele me coloca em seu carro e me deixa na porta de casa! Olha que luxo? Bem, queridos, essa sou eu. Um pouquinho de mim vocês souberam. Minha casa está de portas abertas para recebê-los lá no Pilar. Ah, claro, meu nome? Branquinha! Os mais carinhosos me chamam assim. Um beijo carinhoso a todos e autógrafos depois da coletiva, ok?

Nossa equipe foi à casa da madame! Confir-

mamos que seu nome é Branquinha e seus

sobrenomes, requin-

te e luxo. Sua cama é

coberta por colchas

floridas e cor-de-rosa.

A “cã” vive em um lugar onde a tranquilidade nos leva à “finésse”.

Acreditem se quiser,

mas não encontramos “cheiro de cachorro”. seu “puxadinho”, Bem

planejado, tem espaço

dimensionado para que ela possa beber água

enquanto está deitada. são todas essas minú-

cias que nos fazem crer que visitar a Branqui-

nha é mais que uma simples visita, chega a ser

um evento noticiado em colunas sociais da High Society ouro-pretana.

Foi fantástico, luxuoso e inesquecível.

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JANELA

Texto: Marcelo Nahime Edição Gráfica: Tamires Duarte Foto: Íris Zanetti

Quando a oferta é muito boa, o mineiro desconfia

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Curinga

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Revista Curinga Ed. 8  

Revista-laboratório do curso de Jornalismo da UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto.

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