Issuu on Google+

crĂ­tica >> arte >> cultura

>>

n

<>

0


Teoria da conspiração

<< 02

Não existe medida. Ou há excesso, ou falta. O equilíbrio é quebrado por um pequeno mosquito que pousa sobre a água, desencadeando uma sucessão de ondas. Tudo tende ao caos. Na cidade, essa é uma realidade diária: trânsito, atraso, fila de espera, conta para pagar, comida mal digerida, conversas sem sentido no elevador. O homo urbanus convive com os próprios medos: públicos e privados. A ilusão das pequenas distâncias faz com que o tempo pareça elástico; o universo em expansão, assim como Aracaju, que cresce em direção às lagoas da Aruana. A terra mais uma vez será usada para tapar a cova, é preciso lançar as bases que continuarão sustentando o lucro fácil. Como uma pilha de fichas de cassino, vão sendo construídos prédios em áreas impróprias: palafitas de concreto e mármore. Na sala das novas cobertura rococós e filigranas aliam-se às linhas retas do estilo moderno. O cenário está montado. E para aumentar a nostalgia, nada melhor que ouvir o barulho da agulha no plástico; tirar a poeira do vinil e ouvir uma retreta ou uma marchinha. Nostalgia. Palavra arrastada, um fio que nos liga ao passado, assim como as velhas fotografias analógicas. Que fazer quando já se foi ao futuro e regressou ao passado? Como respirar se o ar virou fumaça? Onde nadar se o mar é esgoto? O que comer se tudo dá câncer? Qual modinha seguir? O que comprar na liquidação da indústria cultural? Há quem experimente de tudo, apropriando-se do que convém. Outros se prendem aos cânones, puristas, tradicionais, chatos. Tem ainda quem não se define. Homem ou mulher? Unissex. Não se pode fechar os olhos. A moda agora é ser transparente. Para não errar no visual, nada melhor que plástico filme. Se quiser evitar machucados, use plástico bolha. Para completar o look não esqueça os óculos escuros. Mas cuidado, essa é uma tendência para o inverno. Assim, além de não se molhar na chuva, não perde os dez reais da escova. Um visual original para quem não sabe aonde ir, mas quer chegar a algum lugar. No verão, cuidado com os raios ultra-violentos: use papel alumínio. Para viver na cidade é preciso ter uma paciência de ferro. É o caos em estado concreto. E não esqueça: o universo conspira contra todos. Se o bater de asas de uma borboleta pode provocar um furacão, segurem os urubus <<

<< manifesto


03 >> Revista apresentada como trabalho de conclusão do curso de Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe por Fernanda Manuela Cruz Carvalho, Larissa Ferreira Santos Lima e Michel de Oliveira Silva, sob orientação da Profª. Drª. Lilian Cristina Monteiro França, em dezembro de 2010 >>

Ingredientes Projeto gráfico e diagramação Michel Oliveira >> Planejamento editorial Fernanda Carvalho, Larissa Ferreira e Michel Oliveira >> Revisão Victor Hugo de Souza >> Colaboradores Aline Lisboa, Lilian França, Marcelo Mayer, Rodrigo Carvalho, Nina Sampaio , Tintiliano e Vinícius de Souza >> Capa Michel Oliveira >> Modelo Larissa Ferreira >> Produção Fernanda Carvalho e Iuri Max >> Logotipo JWilliam <<


ensaio

54

40 58

inquérito

remédios para todos os males

63

conceito

pitaco Quando a música se torna ruído

34

28

Quantas faces tem Benedito Letrado?

62 morte

52 parênteses Inovação no teatro sergipano 56 crítica Vampiros de sangue doce

ficção

53 pausa Ferreira Gullar e a

Entre tubas e trompetes: a música do Corpo de Bombeiros

30

08

O caleidoscópio da arte contemporânea

memórias

06

bula

61

tutorial

18

rota

menu

especial

16 56

Tendência vintage traz à tona ícones e modismos de outras épocas


donos do boteco Larissa Ferreira, blogueira, escritora de gaveta, memória confusa e vícios em jujuba. Sonha em trabalhar com jornalismo literário, mas também simpatiza com o cultural. Cozinheira nas horas vagas, quer abrir um restaurante e servir tortas francesas. Amante das bandas desconhecidas, é uma indiezinha meio nerd e compulsiva que precisa manter distância das livrarias. Atualmente está tentando montar a coleção de livros do Snoopy >> larafiona@gmail.com >>

Ser chato é uma vocação. Isso Michel Oliveira descobriu ainda criança. Inquieto, indeciso, confuso: entre o azul e o amarelo fica com o verde. Fotógrafo frustrado, perdeu as melhores imagens por não conseguir ser mais rápido que o movimento. Refugia-se nas palavras, pois tem medo da realidade. Dono das perguntas indiscretas e das piadas fora de hora, decidiu seguir a intuição: fez jornalismo. Agora procura um jeito de ganhar dinheiro com isso, mas ainda não descobriu como >> mytchells@gmail.com >>

Como boa pisciana, Fernanda Carvalho passa mais tempo sonhando de olho aberto que dormindo. Sonha tanto que às vezes esquece do mundo real. Fascinada por revistas, saiu do interior da Bahia para cursar jornalismo, desde então transita entre a objetividade das pautas e o devaneio de seus sonhos. Prefere suco a refrigerante, e um bom livro a programas de televisão–, embora seja viciada em seriados >> fernandavalentim23@hotmail.com >>


>> >> >

< Conceito

06 >

>> contemporaneidade* > D

pó s-

mo de rn

ida de >

as vanguardas históricas da arte, dos ismos, movimentos mais ou menos coesos, ao abismo escuro e desconhecido dos signos contemporâneos. Um abismo que carrega em seu vórtice o caos, o erro, o imprevisto, o grandioso “não sei”. Obra, suporte, perda da aura, supressão do suporte, reprodutibilidade técnica, mãos/mouse interagindo em produções coletivas pulverizadas em nuvens computacionais. Tão reais quanto virtuais. Gargantas bradam a ubiqüidade da rede enquanto a Wired estampa em sua capa laranja fluorescente “The Web is Dead”. Assim, sem exclamação.

*L Co ilia tó mu n F ria ni ra da caç nça Ar ão é te So pr e cia of e cr íti l da sso ca ra de UFS do ar , p D te ós ep da -do art AB ut am CA ora en to e da em d SIC His e A. -

O corpo da arte contemporânea ora imaterial ora carne crua é um corpo simulacro, mutifacetado, cujos órgãos mesclam-se, confundem-se, trocam de funções, circulam venosamente nos cabos de fibra ótica e plasmam-se em telas, telas, telas. A dimensão da arte contemporânea oscila entre o micro, quase invisível e o macro, quase visível, oscila entre a cultura popular e a erudita, entre a cultura de massa, a cultura das mídias e a cibercultura, como numa grande rede costurada por uma máquina carregada nas costas por quilômetros a fio, bordando sem a precisão conventual os mais diferentes suportes. Sintaxe híbrida de cones, raios laser, histórias em quadrinhos, programas infantis, redes sociais, registros fotográficos do lúdico, do documental, do exótico, do duplo, a arte contemporânea multiplica-se exponencialmente criando linguagens cujo lugar só faz sentido em função de um momento determinado, de uma circunstância, de um contexto, de um ponto de vista, de um modo de olhar, de um modo de ver. “Ver com olhos livres”, Oswald de Andrade apud Cristina Mantovani <<

>>>>>> modernidade >>>>>>

>>>>> modernidade tardia >>>>>

>>

>>

>>

A vida e a morte se rivalizam mais ou menos dialeticamente entre cabeças perdidas, cortadas, espalhadas pelo chão, desconexas, autônomas, que caem de joelhos diante de signos religiosos ou afogam-se em mares de conceitos. Cabeças de uma hydra. Cabeças de medusa num deserto de certezas. A face da contemporaneidade é a face do espelho, do espelho/portal das Alices e seus chapeleiros loucos, aturdidos pelo mercúrio e toda a sorte de metais pesados. Alices seguidas por cartas de um baralho que se joga no limite das probabilidades. Copas, Paus, Ouros e Espadas lançadas em passos perplexos perdidos nas texturas cotidianas. O tempo da contemporaneidade é o tempo dentro do tempo. O tempo relativo de Einstein, o tempo demoníaco de Maxwell, o time-space compression de Harvey. O tempo do gato preso na caixa de Schrödinger. Ninguém sabe ao certo o que de lá vai sair. Ninguém.


[ para inĂŠrcia mental

tome uma atitude ]

< crivo 300mg >


tend锚ncia

08

discos de vinil, m贸veis antigos, fotografia anal贸gica

Quanto

mais velho,

Melhor por larissa ferreira


P

alavra de origem inglesa que quer dizer "safra de vinho", o vintage representa um estilo que resgata peças que fizeram parte de uma época. Quase sempre ligado a moda, através de trabalhos de estilistas que apostam em peças antigas - como colares de pérolas, óculos Wayfarer ou vestidos de cintura marcada - o vintage também pode ser encontrado na decoração de ambientes, obras de arte e músicas. Desenhos antigos, como Betty Boop ou Felix the Cat estão na lista. Para uma peça ser considerada vintage, ela precisa ter pelo menos duas décadas de criação. Além disso, muitas pessoas confundem esse estilo com o retrô, também em alta. Portanto, vale lembrar: o estilo vintage, que foi difundido entre as décadas de 60 e 70, resgata peças velhas que marcaram determinada época, como as latas de Sopa Campbell, o tubinho preto de Audrey Hepburn ou as famosas pin-ups. O retrô, por outro lado, faz uma releitura do passado, criando novos produtos como o Fusca New Beetle. A marca Desmobilia, com lojas em São Paulo e Curitiba, possui uma linha de móveis vintage. No < site da loja > há diversas peças que podem ser combinadas com elementos modernos na composição de ambientes. Para o decorador Barroso Melo, esse estilo alia bom gosto e conforto, ao se basear "em medidas e estéticas já testadas e aprovadas no passado, proporcionando muito charme e elegância nas peças, além de dar um toque ao ambiente". Criado há 18 anos, o Espaço Cultural D'Época é um antiquário que mistura móveis e objetos antigos com o modernismo de esculturas, quadros e fotografias de artistas sergipanos. De acordo com a galerista e proprietária, Sayonara Viana, o público que compra esse tipo de móvel é diferenciado. "Às vezes é um gosto transmitido de pai para filho, é uma orientação do profissional - no caso, o decorador - ou a pessoa tem interesse, atração por móveis antigos". Na loja, que fica na Rua Itabaiana, em Aracaju, as peças expostas podem custar entre R$ 100 e R$ 30.000. "A cada dia o móvel antigo se torna mais rentável, mas só aceito móveis até a década de 50, daí para a frente não tem muito valor porque deixam de ser raros ou históricos", observa Sayonara. Outra opção, mais barata, é customizar aqueles móveis que estão há anos na família e parecem sem utilidade. "Com uma nova pintura ou um novo tecido, o móvel ganha nova vida e sem custos altos. O preço de uma peça vintage pode variar muito mais que uma retrô, já que quanto mais raras mais caras", explica o decorador. Além da decoração, a tendência vintage também pode ser encontrada nos amantes de discos de vinil - considerado um artigo cult para ter na estante - e nos fotógrafos saudosistas que ainda preferem usar filme, apesar das modernas câmeras digitais >>

09


Quando Quirino transformou o armarinho em uma loja de discos, no ano de 1977, a venda dos chamados Long Play (LP) era um negócio rentável. Os atuais Compact Discs (CDs) eram um projeto para a próxima década e a pirataria de músicas na internet ainda não era um pesadelo para as gravadoras. “Disco era uma coisa muito dinâmica na minha época. As pessoas dizem que agora virou moda comprar, mas para mim isso nunca saiu de moda, apenas aumentou a procura. As vendas aqui nunca caíram e nem passei um dia sem vender”, defende o comerciante. Na loja, que funciona em uma casa de andar da Rua Geru, imagens que podem ser consideradas obras-primas do erótico trash estampam as capas de discos de samba ou de forrozeiros como Genival Lacerda. Bem no fundo, entre toca-discos aposentados, ficam os clássicos eruditos como Beethoven e Strauss. Já na entrada, predominam Lulu Santos, Rita Lee, Julio Iglesias e o Rei, Roberto Carlos.

O som da agulha no plástico

< 10 >

Assim como o dono, os discos ali expostos também carregam as suas histórias. Há “bolachões” antigos e raros, feitos com goma-laca e 78 rpm - os discos feitos de vinil só foram produzidos a partir de 1948 - e os Laserdisc (LD), que reproduziam imagens e são considerados os pais do DVD (Digital Video Disc). Sentado em sua cadeira e usando óculos que apertam as bolsas embaixo dos olhos, Quirino olha para o acervo acumulado ao longo dos anos e brinca: “Quantos discos eu tenho aqui? Acho que uns 9.999“. Em meio a bagunça de capas espalhadas e largadas de forma aleatória nas prateleiras, talvez as contas sejam verdadeiras. Mas uma coisa é certa, o preço dos LPs vendidos por Quirino saem a preço de banana. Ou melhor, até as bananas são mais caras, já que a maioria deles custa 10 centavos. “Diariamente eu vendo mais vinil do que CD e DVD. Esses discos de 10 centavos, tem dias que chega um freguês aqui e compra uns cem para fazer cortina em decoração de festa. E tem gente que fabrica bolsa de vinil”, comenta >>


José dos Santos Lima, mais conhecido como Zé dos Discos, é um dos clientes assíduos da loja. Segundo ele, entre os anos 80 e 90, vender discos era um ramo atraente, mas as novas tecnologias mudaram as coisas. “Eu deixei de vender bijuteria para vender discos, mas depois do Real foi mudando tudo e cada ano está pior. Quem passou o vinil foi o CD e agora é o MP3”, reclama. Apesar do futuro incerto, Zé dos Discos continua comprando vinil pela qualidade do som e por um resquício de saudade. “No som do disco você sente os instrumentos diferente de um CD, que eles enchem de estéreo. Está ouvindo? Aqui você consegue sentir a viola”, comenta Zé, enquanto o sertanejo ecoa pela loja. Fotos >> Michel Oliveira

Zé dos Discos : contra o estéreo do CD

Quirino mostra um LD, precursor do DVD

11 >>

tendência >>

Na loja de Quirino discos disputam lugar com CDs

Silvio Campos, dono da Freedom e vocalista da banda Karne Krua, aponta para outra característica do vinil. “Olhe essa capa [apontando para o álbum Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy, do Elton John], se fosse em um CD, com aquele espaço reduzido, todos esses detalhes da arte gráfica se perderiam”. Diferente da loja de Quirino, na Freedom - uma das principais lojas de rock da cidade - os discos são mais conservados e podem custar entre 20 e 40 reais. Além disso, o freguês pode encontrar vinis dos Beatles, The Smiths, Megadeth e coisas que o dono não vende, como álbuns do Buddy Guy, Memphis Slim ou Raul Seixas. “Aqui também tem discos que custam entre 1 e 5 reais, e outros que eu não vendo. Todos os que estão naquela parede ali eu não vendo. Só deixo aqui por decoração”, comenta Silvio, mostrando a parede atrás do balcão. Perto do Mercado Central, entre vendedores de pássaros, botecos e barbearias, fica uma loja de discos meio esquecida pelo tempo. Seu dono, Dalvo José de Souza, vende discos há 8 anos e herdou a vocação do pai, Quirino. Atrás do balcão, colocando um disco para tocar, Dalvo assegura que a sua clientela é boa, ainda que alguns estilos de música vendam mais que outros. “Rock e reggae é mais para jovem. Os mais velhos gostam é de Nelson Gonçalves e Luiz Gonzaga”, afirma. Em sua loja, que também vende CDs de forró e sertanejo, os exemplares custam entre R$ 0,50 e R$ 1. “Uma vez vendi um disco dos Mamonas Assassinas por


5 reais. Mas tem discos muito mais caros e raros, é porque eles não chegam aqui”, argumenta. Entre os clientes mais antigos está Dalmo, que além da semelhança entre os nomes, partilha o mesmo interesse pelo vinil. “O som do disco é melhor, a pancada e o som é mais bonito”, defende Dalmo. “Eu venho aqui, escolho a dedo o que quero e depois levo“. No mercado de venda e troca de discos, o público é democrático. “Também tem mulher que compra vinil, apesar dos homens comprarem bem mais. E tem muita gente jovem comprando LP”, garante Quirino. Márcio Oliveira, 25 anos, é um desses exemplos. O estudante de Audiovisual tem uma coleção de discos com estilos que circulam entre música clássica, jazz, blues e rock. “Comecei a colecionar em 2002, e tenho uns 200 ou 300 discos em casa, faz tempo que parei de contar. Mas gosto do vinil por ter um som melhor e pela nostalgia daquele barulhinho da agulha”, admite >>

~

> 12 <

O grao da

fotografia >>


tendencia >> 13 >>

Há seis anos, < Tiago Melo > é dono de uma empresa de jogos para computador em Aracaju. Há um ano, < Daniely Alves > mora em São Paulo e trabalha em uma agência de publicidade. Até aqui, seriam apenas dois nomes em cada ponto do mapa. Mas, os dois são amigos que dividem o mesmo interesse: fotografia analógica. Geek, como ela mesma se denomina, e ávida para saber das novidades tecnológicas que ainda vão despontar no mercado, Daniely tem a qualidade contraditória de gostar de coisas antigas. São discos de vinil, máquinas de datilografar e o principal, fotografia analógica. “Antes de trabalhar com publicidade, eu já era uma geekzinha que procurava as coisas para saber das novidades. Daí, realmente a pergunta surge: se meu cotidiano é preenchido pela tecnologia, por que eu uso coisas tão antigas no meu lazer?”, indaga a publicitária.

Daniely nunca fez um curso de fotografia. Já participou do Coletivo Trotamundos, mas tudo o que aprendeu foi através de pesquisas na internet e por sua curiosidade em mexer nas coisas. "O melhor curso foi catar tudo de informação na internet, tem que ser curioso para aprender sobre qualquer coisa nessa vida". E, com essa mesma curiosidade, ela retorna ao passado e resgata tendências. "Essas coisas também foram tecnologia em seu tempo e serviram de base para as coisas que usamos hoje", defende. Além do analógico, Daniely também utiliza a técnica da lomografia, cuja regra de ouro é "não se preocupe com as regras". A publicitária-geek-fotógrafa explica que na lomografia são utilizadas câmeras analógicas com lentes de plástico que produzem efeitos artísticos nas fotos. Como a maioria dessas câmeras são automáticas, só dá para saber o resultado quando o filme é revelado - o que torna a fotografia uma surpresa. Tiago Melo, formado em Ciências da Computação, começou a fotografar por volta de 2004, quando passou a fazer suas primeiras experiências. "Coloquei uma lente de luneta em frente a uma antiga Sony Digital e comecei a fazer fotos macro caseiras. A partir daí, busquei câmeras Reflex digitais e analógicas", revela >>

Foto >> Daniely Alves


Assim como Daniely, ele não fez cursos para aperfeiçoar a técnica. Aprendeu tudo sozinho e hoje participa do Fotoclube Monaliza Godoy. "Todo o meu treinamento foi a partir de informações disponíveis na internet". O fotógrafo e empresário tem em seu acervo uma câmera digital, duas analógicas e uma caixa cheia de filmes. Motivo? Nostalgia. "O som do obturador, o passar do filme, o não saber da foto até o momento da revelação e uma coisa importante: ter a 'foto' fisicamente em mãos - negativo, no caso - coisa que inexiste no digital", comenta. Para Daniely tirar boas fotos independe do tipo de câmera utilizado: “não precisa ter uma câmera fodona de 25 megapixels para tirar boas fotos. No geral, tem muita gente que pega uma máquina digital, coloca no modo automático e acha que isso é fotografar. Mas fazendo isso quem está fotografando é a máquina, quem a usa é só um 'disparador de botão'". Moema Pascoini é outro exemplo de que a fotografia analógica continua atraindo adeptos. "Eu tinha mais ou menos uns 12 ou 13 anos quando comecei a fotografar. Nessa época, fiz um curso na Galeria de Arte Álvaro Santos (GAAS) e fui conhecendo um pouco mais sobre a parte técnica". Mais tarde, por curiosidade, aprendeu direção de fotografia para vídeo no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira (NPDOV) e por fim, trancou o curso de Jornalismo para estudar direção de fotografia no Centro de Formación Profesional Del Sindicato de La Industria Cinematografica Argentina (C.F.P. del SICA), em Buenos Aires. Apesar de não existir lojas especializadas em Aracaju para alguns tipos de revelação - como preto e branco, cromos e filmes 120mm -, os fotógrafos defendem que o uso do filme ainda vale a pena. "Eu prefiro a fotografia analógica, gosto de todo o processo que vai desde a escolha do filme até a revelação da foto", argumenta Moema. "A minha digital considero superior, mas ainda uso filme por uma qualidade subjetiva nas fotos, já que elas tem uma 'cara diferente' e uma textura mais natural e suave", completa Tiago. Entre os temas favoritos para fotografar, Tiago escolhe o minimalismo e a abstração. Para Moema, a fotografia urbana proporciona boas viagens. Já Daniely aposta no experimentalismo.Porém, em uma coisa os três concordam: seja qual for o tipo de fotografia, o importante é um olhar diferente << << foto Daniele Alves <<

>> 15 >>


E

stava em viagem a Caxias do Sul, num congresso de Comunicação Social, quando me deparei com uma determinada situação que me fez refletir sobre o universo fechado dos "cults". Por que fingem gostar de jazz ou blues? Por que insistem em frequentar sebos e cafés, quando na verdade não curtem isso? O que faz uma pessoa gastar rios de dinheiro em viagens culturais visitando museus, se não entende absolutamente nada daquilo? Sinceramente isso não me é compreensível. Eu, como um pseudocult, acredito que a banalização da cultura é uma problemática da contemporaneidade. Ah! Mas já ia me esquecendo de relatar o que afinal levou-me a pensar sobre o universo dos "cults": foi na viagem ao Sul, quando conheci um seleto grupo de "cults", estudantes de comunicação da Universidade Federal de Sergipe, que entre si conversavam sobre as programações pessoais de viagem. Fiquei a ouvir o que diziam, quando um deles convidou os demais para ir a alguns sebos "desbravar o universo literário", já que em sua cidade isso quase não era possível. Unanimemente todos concordaram em fazer o "tal programa" e pareciam excitados com a idéia. Percebi, neste momento, que nutria intensamente certo asco e ódio desses seres, que pensavam, sobretudo, serem superiores aos demais mortais. Entretanto, a situação tornou-se periclitante, quando uma amiga que estava próxima ao grupo foi convidada para ir também e logo me interpelou para saber se eu tinha interesse. Não pude me conter e interferi na conversa dizendo que esse tipo de passeio é substancialmente entediante e que apesar de eu ser um pseudocult, estava ali em viagem para me divertir em bares e coisas afins e não para gastar meu tempo em sebos, lendo. Todos ao mesmo tempo me olharam com ar de reprovação, embora não tenham dito nada. Como o clima acabou ficando inviável, pedi licença e fui para o meu quarto no hotel, pesquisar na internet qual seria a boa da "night" naquele dia, afinal quem liga para literatura clássica quando se tem uma festa de música eletrônica à espera? Ser "cult" é para poucos, mas ser pseudocult é apenas para quem mente melhor << * Aline Lisboa é publicitária, especialista em Marketing e nas horas vagas graduanda em Artes Visuais da UFS. Pesquisa comunicação e culturas populares, além de educação e novas tecnologias. É também integrante do Kipá >>


Santo de casa fazendo milagre


Brincando de cabra-cega no tabuleiro de xadrez >> por Michel Oliveira >> aquarelas Tintiliano* >>

1855

. Até então, o povoado de Santo Antônio de Aracaju mantinha-se no alto da colina, de onde era possível contemplar o rio Sergipe. No horizonte a paisagem era pintada por dunas e manguezais. A restinga se desenrolava como um tapete. A circulação das águas se dava através de finos canais que ligavam as inúmeras lagoas e charcos à margem do rio. Progressista, Ignácio Barbosa, primeiro presidente da capitania de Sergipe Del Rey, buscou alternativas para ampliar as possibilidades econômicas de seus domínios. Era necessário escoar a produção de açúcar. Como as águas não iriam até a capital, São Cristóvão, a capital que fosse até as águas. Assim, aos 17 dias de março de 1855 o pequeno povoado cravado na colina do Santo Antônio é elevado à condição de cidade e passa a ser a nova sede do governo. Mudar a capital de lugar foi uma escolha radical, afinal São Cristóvão, fundada em 1590, era a quarta cidade mais antiga do Brasil. A concorrência era desleal: 265 anos contra alguns dias. Para contornar a situação, Ignácio Barbosa contratou o urbanista Sebastião José Basílio Pirro, encarregado de planejar a nova capital. O povoado de Santo Antônio de Aracaju passa a atender apenas pelo sobrenome, nasce uma nova cidade, filha da vontade política: Aracaju – “a capital de proveta”. A cidade desce a colina. O planejamento de Pirro valoriza a planície que se estende do sopé do Santo Antônio até as margens do rio. O Centro da nova capital foi planejado em quarteirões organizados em blocos, conhecidos como “quadrados de Pirro”. Surge então uma cidade moderna, com ruas retas e um futuro promissor. Os charcos iam sendo aterrados e a cidade se espalhava. Do alto via-se o tabuleiro de xadrez: tudo no seu lugar >> *Cléber Tintiliano nasceu em Propriá. Descobriu a arte ainda criança, desenhando em cadernos e nas calçadas. Aos sete anos mudou-se para Aracaju. Realizou sua primeira exposição individual na Galeria Horácio Hora, em 1998. Autodidata, suas aquarelas retratam diversas paisagens do estado, com destaque para o cotidiano e a dinâmica urbana da capital.

18

especial >>


Mudança de jogo >> Aracaju crescia a passos lentos. A partida se manteve estável até que o número de ‘peões’ começou a crescer. Os pobres se multiplicavam em progressão geométrica; a cidade em progressão aritmética. O tabuleiro ficou pequeno com o crescente número de escravos alforriados que vinham dos engenhos para a capital. A cidade espacialmente organizada foi crescendo desordenadamente. A plebe ia se fixando como cracas. Construíam vielas e becos, os pretos recém libertos: malocas. Nas primeiras décadas do século XX, a Revolução Industrial desembarcou na capital e com ela os diversos problemas urbanos. Os sobrados, com seus jardins ladeados por grades de ferro, protegiam a elite da escória de miseráveis que se flagelavam nas fábricas de tecido. No subúrbio os males sociais: prostituição, exploração do proletariado e da mão de obra infantil, acidentes de trabalho, tuberculose, varíola, bexiga e outras pestes. Detalhes narrados por Amando Fontes em seus romances ‘Os Corumbas’ e ‘Rua de Siriri’. Os problemas continuaram e se ampliaram junto com o aumento demográfico.


21 especial >>

No final dos anos 60, é difundida uma nova dinâmica de crescimento. A Companhia de Habitação do Estado de Sergipe – COHAB/SE, fundada em 1967, inicia a construção de conjuntos habitacionais para a população de baixa renda. As casas padronizadas foram construídas em locais distantes do “tabuleiro de Pirro”. Assim surgiram bairros como o Castelo Branco, o Augusto Franco e o Bugio, que na época se chamava Assis Chateaubriand. Apesar do crescente problema do transporte público, levar os pobres para longe foi uma ótima saída. Além do saneamento urbano, os vazios demográficos entre os novos conjuntos e o Centro passaram a ser ocupados. Os terrenos aumentaram de preço, iniciou-se a especulação imobiliária e o fortalecimento do que viriam a ser as grandes construtoras sergipanas: Construtora Celi, Construtora Silva – Cosil, Habitacional Construções e a Sociedade Nordestina de Construções – Norcon >>


Palafitas de mármore >>

22

Quem vê o bairro 13 de Julho hoje não imagina que a região, no final do século XIX, era um subúrbio povoado por pescadores que moravam em palhoças. Uma fina areia branca margeava o rio Sergipe, local conhecido como Praia Formosa. Passando a ser chamado posteriormente de Praia 13 de Julho devido aos embates travados no local durante o movimento tenentista em Sergipe. Nos anos 80, começou a verticalização da capital. Como a legislação da época não permitia a construção de prédios na praia, foi necessário encontrar outro local para construí-los. O local escolhido foi justamente ali, na antiga Praia Formosa. Aterraram as lagoas e charcos. Construíram prédios luxuosos e o primeiro shopping da capital – o Shopping Riomar. Verdadeiras palafitas de mármore. Da janela de seus apartamentos, os ricos tinham uma excelente vista da praia. Na orla era possível aproveitar o fim de tarde, passear com o poodle, tomar uma água de coco e fazer uma caminhada. Tudo perfeito, até que os esgotos despejados sem tratamento no rio serviram de adubo para o manguezal, que cresceu frondoso. Hoje não se vê mais a areia branca. O passeio com o poodle é acompanhado pelo fedor dos canais que desaguam no mangue. As caminhadas são aceleradas pelos democráticos mosquitos, que picam sem restrição de renda. “A parte mais nobre da cidade apresenta sérios problemas. Há dias em que a pessoa não pode receber uma visita em casa, pois o cheiro do mangue é insuportável. É nessas horas que a gente lembra Cazuza, quando ele diz que a burguesia fede”, ironiza Ana Neri, arquiteta e urbanista que atualmente dedica-se à pesquisa do Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe (UFS) com foco na sustentabilidade de Aracaju sob a ótica dos vazios urbanos >>


especial >>

23


24 especial >>

J a rd i n s d e c o n c r e t o > > O luxo de desfrutar dos problemas urbanos não é apenas dos abastados moradores da 13 de Julho. No bairro Jardins, reduto da classe média, a situação não é diferente. Lá é possível apreciar o esgoto que corre a céu aberto, inclusive na porta do shopping Jardins, onde o canal divide a rua. Custa caro ter um canal de esgoto na frente de casa, o preço médio de um apartamento varia de 200 a 750 mil reais. Apesar do nome, verde é o que menos se vê no Jardins. A exceção das poucas árvores do terreno baldio que recentemente foi transformado pela prefeitura na praça Zilda Arns, e das plantas que cresceram no esgoto do Parque Ecológico Tramanday, não há áreas verdes. O Parque da Sementeira, que fica na fronteira entre a 13 de Julho e o Jardins, ainda não é uma zona verde significativa. No dia 15 de agosto o Jornal da Cidade publicou uma matéria intitulada: < ‘Jardins é considerado bairro modelo’ >, apesar do título, a matéria aponta os vários problemas do local. Um modelo de como não se deve construir um bairro.


Myrna Landim, professora do departamento de Biologia e coordenadora do Laboratório de Ecologia Vegetal da UFS, é bastante crítica sobre a formação do Jardins: “O bairro foi construído quando já existia uma legislação ambiental. Já havia a consciência da importância dos limites da ocupação humana e de seus riscos, mas mesmo assim o poder econômico foi preponderante para determinar a ocupação do local. Tanto que se anda ali sem área de calçada. Não há acessibilidade, um cadeirante não consegue se locomover. O modelo dos bairros mais recentes não deveria ter uma situação dessas”, critica.

Expandindo os problemas >> Não bastassem os problemas já existentes, estão fazendo questão de ampliá-los. Criou-se a zona de expansão, com a justificativa de que não há mais espaço para a cidade crescer. O discurso foi vendido e as pessoas compraram. Esse álibi, no entanto, não é justificável. De acordo com levantamentos apresentados pela arquiteta Ana Neri, na parte urbanizada de Aracaju há espaços vazios que somam mais de 24 milhões de metros quadrados, o equivalente a 200 estádios do Maracanã.


Mais uma vez a especulação imobiliária e a questão financeira são preponderantes. Condomínios e residenciais continuam a ser construídos e vendidos. Os moradores do local já começam a sofrer as conseqüências da ocupação de uma área imprópria. Com as chuvas que caíram no início do segundo semestre uma lagoa se formou no Condomínio Riviera Del Mar, deixando algumas casas ilhadas, e o pior: a água estava contaminada por coliformes fecais. Indignados os moradores cobravam do poder público uma solução. Mas quem seria o culpado pela formação de lagoas em uma área onde é natural que elas se formem? A professora Myrna Landim revela que já há um relatório de impacto ambiental da área que peca muito no tocante à preservação. “Mais uma vez vemos se repetir o que aconteceu com o Jardins, e ninguém faz nada. Com a zona de expansão, há uma possibilidade de se planejar, mas sem nenhum cuidado, provavelmente irá se constatar, de novo, um bairro completamente loteado, sem áreas verdes e regiões de restingas aterradas e degradadas”, alerta. Se nas áreas mais ricas os problemas são graves, nas zonas pobres eles são ainda piores. Os bairros se fomam de forma desordenada, na beira de encostas, e sem o mínimo saneamento. Sobre isso Ana Neri é incisiva: “a gente não conhece os problemas da zona norte, não conhece e nem quer conhecer. O problema ambiental em Aracaju é generalizado, mas se destaca apenas o dos bairros considerados nobres”. Ela comenta que hoje a cidade sofre as consequências de ter sido construída em um local impróprio. “Aracaju toda é um local inadequado. Ela foi formada através de aterros. Hoje sofremos sérios problemas de drenagem, mas as construtoras fecham os olhos para isso e continuam impermeabilizando o solo. O problema não é ocupar, mas de que forma se vai ocupar”, ressalta.

Brincandeira de criança >> Os problemas de Aracaju se estendem ao longo dos seus 155 anos. E eles não dizem respeito apenas à organização espacial ou à degradação dos espaços naturais. A capital sergipana apresenta problemas primários: transporte público, destino do lixo, arborização, ausência de espaços de lazer e recreação, dentre muitos outros. Para exemplificar, podemos focar no grave problema da falta de áreas verdes. Aracaju está 18 vezes abaixo do índice da Organização Mundial de Saúde (OMS) e 22 vezes se levado em conta o índice da Sociedade Brasileira de Arborização (SBAU). Um estudo apresentado em 2008 pelo Grupo de Pesquisa em Geoecologia e Planejamento Territorial (Geoplan) da UFS revelou que a média de área arborizada da capital é 0,66m² de área verde por habitante, enquanto o recomendado pela OMS é de 12m². A lista de problemas é muito maior, a questão que fica no ar é: o que fazer para contornar tudo isso? “A situação não é irônica, é triste”, pontua Neri, que conta que certa vez a professora Augusta Mundim – do mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente - falou uma coisa que não saiu de sua cabeça: “Aracaju esconde muito bem seus problemas”, relembra. Para ela a ocupação espacial é reflexo dos valores sociais adotados pela população: “a cidade é o que as pessoas que moram nela são”. Para piorar a situação, em abril de 2008, o Globo Repórter fez o ranking das capitais mais saudáveis do país. Aracaju ficou em primeiro lugar, levando o título de < ‘capital brasileira da qualidade de vida’ >. Desde então, essa frase é repetida indiscriminadamente, mesmo sem se referir ao levantamento feito pela OMS que mede a qualidade de vida a partir de indicadores de saúde física e psicológica, nível de independência, relações sociais e com o meio ambiente. Nesses quesitos Aracaju está longe do pódio. Enquanto os problemas se agravam, o tabuleiro continua estático, mas não é xadrez que se joga. Está mais para brincadeira de cabra-cega <<


27


28 >>

Diga não à música Pitaco >>

Por Marcelo Mayer*

ou da geração que pegou o último suspiro da fita cassete. Lembro bem do dia em que pedi para um amigo gravar uma fitinha com o melhor do blues de Eric Clapton e na mesma semana gravara outra com clássicos dos Beatles para um conhecido do colegial. Sentado à frente do aparelho, ouvia todas as músicas, prestava atenção em cada detalhe - respeitando a coerência, as notas e o tempo para que todas coubessem em dois lados de 45 minutos. Era um momento em que eu criava uma relação com a música. Recebia telefonemas com convites para ouvir discos. Uma confraternização na qual só a música interessava. Passava horas em cabines das lojas de CDs porque a oportunidade de ouvir novamente algum disco era remota. Em certas ocasiões era necessário aprender a tocar alguma canção no violão, com aquelas revistinhas de acordes porque não tinha como ouví-la sempre. E de repente criam o mp3. Horas na angústia de baixar uma música de dois minutos e meio, na internet discada após meia-noite. E ouví-la era muito mais prazeroso. Sentia-me dentro da música. As horas de espera compensavam os dois minutos e meio seguintes. Hoje tudo é mais rápido. Notícias, filmes, passeatas, protestos e a música. Nas mesmas horas que ficava para ouvir uma melodia de dois minutos e meio, consigo toda a discografia do Tom Jobim. Ótimo! Mas, e a música? Mp3 Player’s parecem mato. Pessoas ouvem música o dia todo com seus milhares de discos e infinitos gigas de intérpretes. Um disco inteiro passa despercebido porque você está num ônibus preocupado em descer no ponto. Deixa de prestar atenção nos arranjos porque ao mesmo tempo está lendo uma notícia do seu time que venceu no dia anterior. Aquela letra que poderia exprimir um momento de sua vida é deixada de lado porque você está sendo empurrado na estação de metrô da Sé. A música hoje é ruído. Ela se mistura com o barulho do trânsito, com as fofoqueiras ao lado, com as construções na frente de seu prédio. Não sou contra a democratização que a internet nos possibilitou, pelo contrário. É válido a música entrar na casa de todos sem pedir licença. O que de fato se perdeu foi a relação do ouvinte. Hoje baixamos mil discos e esquecemos de ouvir um único CD. Deixamos de saber quem o produziu, em qual proposta ele é encaixado ou em qual situação o músico se encontrava na hora que compôs a melodia. Um simples toque em seu iPod faz com que as músicas se misturem. Seu aparelho toca uma música do Black Sabbath e de repente uma do Nirvana. Não se ouve mais um disco como se lê um livro: página por página. Não quero ser um purista e defender que as pessoas não sabem ouvir música como antigamente e muito menos que a música de outros tempos é melhor. Não! Mas experimente ouvir um disco inteiro ou chamar um amigo e mostrar um som novo que lhe agradou. Ou passe alguns dias sem ouvir nada e quando sua música predileta tocar outra vez ela terá novos acordes, novos arranjos e novas sensações. É muito mais prazeroso do que apertar o shuffle no seu iPod enquanto cochila no ônibus indo para o trabalho <<

S

*Marcelo Mayer, paulistano. poeta dos outros, cronista das próprias frustrações e boleiro compulsivo. Sonha em morar no mundo como cidadão, não como uma sequência de números <<


agora vocĂŞ vai ter que comprar inseticida

>>

sua revista digital


esperando a banda passar ... por Larissa Ferreira >>

desenhos Vinícius de Souza >>

O

Centro de Ensino e Instrução 1° de Outubro fica na Orla do bairro Industrial, logo depois da ponte Construtor João Alves. Lá, trinta músicos ensaiam o repertório composto para as apresentações da banda sinfônica do Corpo de Bombeiros Militar de Sergipe (CBMSE). A corporação foi criada em 1° de outubro de 1920, com o nome de Secção de Sapadores-Bombeiros da Força Pública do Estado de Sergipe, após um incêndio de grandes proporções no centro da capital. Em 1936, a instituição passou para o município de Aracaju e seu nome foi trocado para Companhia de Bombeiros.

A partir de 1984, a banda sinfônica e todo o quartel foram incorporados pela Polícia Militar, sob a denominação de Corpo de Bombeiros da Polícia Militar de Sergipe. Somente em 1999, através da Lei n° 4.194, a corporação desvinculou-se da PM e passou a ser diretamente subordinada a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) >>


Desde os anos 40, a banda de música existe, mas não há documentação histórica informando a data oficial da sua criação. Por este motivo, desde o ano passado os bombeiros começaram uma pesquisa para tentar levantar informações e registros com familiares de ex-integrantes. A nova geração de músicos do Corpo de Bombeiros tem idade média entre 26 e 36 anos, e todos passaram por concurso público realizado em 2002. "Nesse último concurso, nós colhemos bons resultados. Mas vamos lutar para que no próximo ano, possamos abrir mais vagas", aponta Capitão Samuel Marques, regente responsável pelo grupo. De acordo com o músico Rafael Jr., o pré-requisito fundamental era domínio do instrumento e conhecimento prévio de teoria musical, além de leitura de partitura. "Nós éramos músicos profissionais civis e fizemos um curso de formação de Bombeiro, na época do ingresso. Os músicos que entrarem depois desse concurso específico, tem que ser Bombeiro-Militar". Três vezes por semana, de 8h às 12h, os músicos se reúnem para ensaiar. No repertório estão marchas e dobrados militares, hinos cívicos, música clássica e músicas populares como sambas, choros e baião. O regente da banda explica que as músicas são escolhidas para cada tipo de público ou evento. "A depender do evento e do público para quem vamos tocar, nós segmentamos o repertório. Mas temos de tudo aqui, de Roberto Carlos a Zeca Pagodinho" >>


Formada por um conjunto de instrumentos de sopro e percussão, a banda sinfônica do CBMSE possui 2 flautas, 8 clarinetes, 4 saxofones, 3 trompetes, 3 trombones, 2 bombardinos, 3 tubas, 4 percussionistas e 1 regente. "São 30 pessoas e nossa banda é considerada uma categoria pequena. Quer dizer, somos menores do que uma pequena, pois temos apenas 30 e em uma categoria dessas são 32 integrantes", ressalta o Capitão Samuel. A banda sinfônica dos Bombeiros toca em formaturas militares, eventos oficiais do Governo, a exemplo do Desfile de 7 de Setembro, e concertos. Em uma corporação onde a disciplina prevalece, a banda surge como o instante de leveza e descontração. "Como o militarismo é muito solene, a banda de música vem para dar o brilho". Cultura esquecida A criação das bandas de música se confunde com a própria história do Brasil. Por volta do século XVIII, surgiram no Rio de Janeiro as primeiras bandas. Elas eram formadas por barbeiros que tocavam fandangos, dobrados e quadrilhas em festas religiosas e populares. Já em 1831, foram criadas as bandas da Guarda Nacional e em 1896, nascia a mais famosa delas: a banda sinfônica do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Durante o século XX, as bandas de música se tornaram parte das manifestações culturais do país. As cidades possuíam coretos em suas praças e as bandas se apresentavam, juntando multidões e revelando novos músicos. Contudo, a difusão da cultura de massa levou essa tradição ao esquecimento. "A cultura do Brasil é ter bandas de música. Mas o civismo tem sido suplantado pela cultura de massa. A música e os hinos brasileiros, essa geração jovem não sabe cantar. As pessoas tem perdido o respeito por símbolos cívicos, como a bandeira e o hino, e por nossas tradições", lamenta o Capitão Samuel >> clique no desenho e ouça o Hino de Sergipe >>


O estado de Sergipe tem cerca de 48 filarmônicas municipais que contribuem para a conservação dessa cultura popular. Na praça Fausto Cardoso, até mais ou menos cinco anos atrás, bandas de todo o estado se apresentavam nas conhecidas retretas. "Toda sexta-feira tinha alguma banda de música tocando na praça Fausto Cardoso. Era uma diversão, principalmente para os mais idosos", comenta Edvaldo dos Santos, funcionário público aposentado. "Não sei por que as retretas acabaram. Vinham bandas do exército, dos bombeiros, de todo o estado. Se as retretas voltassem, o pessoal daria mais atenção. Eu mesmo, iria de novo". Por pertencer ao Estado, o Corpo de Bombeiros depende de verba pública para a conservação dos instrumentos ou aquisição de novos. "Estou a frente da banda como regente desde 2002, e ainda tem musicista sem instrumento porque não foram comprados os novos. Além disso, o tempo de vida útil de um instrumento é de 10 anos. Mas como dependemos de verba pública, as coisas demoram mais", Em 1976, o Ministério da Cultura através da Fundação Nacional de Arte (Funarte) criou o Projeto Bandas. A iniciativa prevê a realização de cursos para músicos e mestres de bandas, bem como a distribuição gratuita de instrumentos de sopro e a edição de partituras. No entanto, apesar da boa intenção, o projeto é só uma utopia. "As bandas militares não são beneficiadas por esse projeto. E, infelizmente, esses cursos são uma utopia. O projeto sempre foi usado para atender interesses políticos e para ascensão pessoal dos seus dirigentes", argumenta o regente. Em seus famosos versos, Chico Buarque diz que "estava à toa na vida/ o meu amor me chamou/ pra ver a banda passar/ cantando coisas de amor". Mas, com a cultura das retretas se extinguindo em Sergipe, a única solução é esperar a banda passar - e apenas nos desfiles de setembro <<

*Vinícius de Souza, 14 anos. Herdou o talento da familia e começou a desenhar aos cinco anos. Em seus trabalhos, utiliza traços fortes e com poucos recursos de cores. Apaixonado por Hip Hop, seus últimos desenhos têm sido inspirados na cultura do Graffiti <<


34 >

perfil >>


Advinhe:

O que é isso? por Fernanda Carvalho >>

O

s olhos verdes às vezes se perdem em meio ao nada. Como se olhassem para dentro, buscando na memória antigas recordações - e outras nem tanto. Em seguida, fixam-se novamente ao presente para voltar ao pensamento original e continuar a descrição de uma vida repleta de acontecimentos. Quantas histórias podemos contar a partir da vida desse sergipano? Batizado Benedito dos Santos, conhecido como Bené e consagrado como Benedito ‘Letrado’, nome artístico herdado do avô - um senhor que quando jovem popularizou-se por um feito inusitado. “Ele ia andando pela rua segurando uma jaca, quando apareceu um touro desembestado que ninguém conseguia pegar. Meu avô resolveu enfrentar o touro: pegou a jaca, cortou em pedaços e foi jogando em cima do touro”. O touro deixou de correr e só então pode ser preso. Vendo de longe a correria, um padre jesuíta que estava fazendo catequese disse aos alunos que o boi só tinha parado por causa do jovem letrado, que havia conseguido o feito com muito conhecimento e esperteza. “Desde então, meu avô foi apelidado de Letrado e ficou como apelido de família”, conta orgulhoso. A vida de Bené foi marcada por superações. Da infância, a principal memória é a da ausência do pai, que não o assumiu, nem o registrou como filho, embora o tenha reconhecido como tal. Na adolescência, a persistência e o trabalho foram fatores determinantes na sua jornada. Dos 13 aos 14 anos foi morar com a avó materna, sendo por ela maltratado e explorado. Mas ele não se intimidou pelas dificuldades: enfrentou desafios, venceu preconceitos e viajou pelo Brasil para aprimorar e exibir sua arte. Antes de se arriscar por inteiro na arte, tentou meios alternativos para sobreviver. Foi camelô durante o ano em que morou na cidade de Poço Verde e funcionário de um frigorífico de Aracaju, onde perdia as noites abatendo galinhas. Após recuperar-se de um acidente que o deixou alguns dias hospitalizado, dedicou-se ao estudo da enfermagem. Por mais de quatro anos foi atendente no Hospital de Cirurgia e auxiliar de enfermagem na Clínica São Marcelo, trabalhando na área de terapia ocupacional. “Todo artista é um pouco louco”, registra Benedito, que de tanto gostar da arte experimentou de quase tudo: ator, mímico, artista circense, transformista, artista plástico e fotógrafo. O gosto pela diversidade tem a ver com sua inquietação: “como não tinha preconceitos, experimentei tudo o que quis e não me frustrei. Nunca fui um artista ingênuo”. >>

35 >>


Na década de 80, estreou no teatro com a peça ‘Atrás dos bastidores’ no Teatro Atheneu Sergipense. Mais tarde, encantou-se pela mímica durante uma oficina e passou a fazer apresentações nos Festivais de Arte de São Cristóvão e Laranjeiras. A partir daí, tomado por um antigo desejo, começou a trabalhar no circo. Tinha uns 15 ou 16 anos, quando apaixonou-se por Lúcia - bailarina de um circo. “Quis fugir com o circo para ficar com ela, mas minha família descobriu e não deixou”. Tempos depois, reencontrou o mesmo circo. Ao perguntar por Lúcia, soube que ela havia deixado o picadeiro, estava casada, tinha filhos e morava em São Paulo. “Ainda assim, pensei: Eu quero fazer circo. E fiz”. Por mais de 8 anos, Bené trabalhou em circos, realizando performances. Chegou a se apresentar no Grande Circo Popular do Brasil, de Marcos Frota. Porém, deixou a vida circense magoado. “O circo é assim: quando aparece um artista novo, logo se descarta o antigo. Eu não queria envelhecer lá e ter que vender pipoca para sobreviver”, comenta. Como forma de esquecer o circo passou a dedicar-se às artes plásticas. “Foi uma fase difícil, eu queria me desapegar do circo. Peguei uma tela e comecei a pintar. Sou intuitivo”. Nesse meio tempo, descobriu a fotografia e a vida de funcionário público >>


< 37

perfil >>

fotos Michel Oliveira >>

Sempre envolvido com a arte, trabalha na Galeria de Artes Álvaro Santos. Confessa que não gosta muito de ser funcionário publico, mas foi o meio que conseguiu para obter estabilidade financeira. “Eu reconheço que tenho um talento, mas a cidade não absorveu isso. Eu não tenho pretensão nenhuma de ficar rico. Faço arte porque sai da alma. No fundo, Benedito Letrado é uma ousadia nessa terra. Reconhecido por insistência”. Primeiro transformista de Sergipe, participou de greves e reivindicações, conhecendo na época personalidades como os presidentes Lula e Fernando Collor. “Não sabia que esse povo ia ficar tão famoso!”, brinca. Foi ainda candidato a vereador, mas se decepcionou com a política. “Fui ingênuo, não achei que a política fosse tão maldosa. Mas sempre estava lá para manifestar, me expressar em favor do povo” >>


< 38

Foi também com o transformismo que na década de 80 fez sucesso na seção “Adivinha o que é isso?”, da Folha da Praia. Uma caricatura da sociedade da época que divertia os leitores com críticas em forma de humor. “Foi uma idéia de Ilma Fontes. Ela sempre teve um humor muito bom. Todo mundo ficava esperando o jornal sair só para ver a seção”. Aos 49 anos e cursando o sexto período de Museologia, na Universidade Federal de Sergipe (UFS), pretende ser curador de arte, vislumbrando um futuro onde planos, esperanças, sonhos e convicções se confundem. “Quero ser um museólogo bem sucedido e fazer doutorado na Europa. Lá os valores são outros, as pessoas valorizam sua própria cultura”. Na casa de muro branco, adquirida há mais de 10 anos através de um programa do Governo, cada detalhe revela um pouco da personalidade do artista. A coleção de objetos reaproveitados, como o banco que um vizinho iria jogar fora - mas que Benedito customizou e agora mobilia o seu hall de entrada, ao lado de vasos de barros e várias bugigangas - ou as peças resgatadas do quintal da mãe. Os livros de museologia dividem o espaço na estante com os de história das artes ou com obras literárias consagradas. Mas o que ele adora ler mesmo são biografias. Já no quarto, a paixão pela música é revelada pelos CDs de blues, música clássica e MPB. Enquanto conversa, Bené folheia grandes livros de páginas amareladas pelo tempo, onde os recortes de jornais recontam antigas histórias de sua trajetória artística. “Acho que estou amadurecendo. Embora tenha feito muita coisa, estou sempre em construção ”. O homem, que se diz com “alma de menino”, traz a esperança e a ingenuidade dignos de uma criança. Diz-se feliz por se considerar rico em amigos. Mas sofre “ao ver o mundo tão desigual”. “Quero contribuir para que a sociedade seja menos medíocre. Acho que a arte deveria ser para todos. Os espetáculos deviam ser abertos ao público e os livros deveriam ser mais baratos”. Benedito é mais emoção que razão, como ele mesmo se auto define. Por isso sofre. Mesmo com uma produção artística multifacetada, ele assume que lhe falta alguém para inspirar seu trabalho. “Sinto falta de uma companheira ou um companheiro. Sou unissex”, diz rindo <<


<< perfil


Corpo: conjunto indivisível de cacos. Na superfície, marcas, rugas, estrias e cicatrizes. Celulites, pêlos encravados e espinhas: o corpo dejeto. Nas dobradiças o movimento, o passo, o gesto: o corpo vivo. Nas linhas sinuosas, o desejo, a fome, a lascívia, a concupiscência: o corpo objeto. Eterna mitose, se funde em seus fragmentos. Fere e se regenera. Sangra e estanca. Eis o corpo explodido, apresentado em seus estilhaços >>


Ensaio por michel oliveira >>


Casamento perfeito, ou quase isso Parênteses >> por Michel Oliveira >>

É

52

uma grande ousadia juntar o humor refinado de Machado de Assis, os conflitos psicológicos de Tchekhov e as crises de Eric Bogosian. Atrevimento que podia ter custado caro. Mas o diretor Celso Jr. conseguiu dominar a situação e junto com o Grupo Caixa Cênica deu formas ao espetáculo Felicidade Conjugal ou Quase Isso. O resultado: Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz, pré-estréia no Teatro Tobias Barreto, curta temporada no Lourival Batista e apresentações em Salvador. No palco, um passeio da comédia ao drama. Amor, devaneios, alegrias e tristezas da relação a dois. A abertura com ‘Lição de Botânica’, de Machado de Assis, é um acerto. A adaptação consegue fazer o público rir sem cair na graça vulgar. Diane Veloso se mostra madura, com um tempo de comédia bastante acertado. Denver Paraíso e Frederico Lira são o contraponto, regulam a cena com o ar ranzinza. A releitura de ‘A Brincadeira’, de Tchekhov, traz ao palco a densidade da literatura russa. Há uma ruptura. O riso não é mais o elemento principal. Ruptura necessária, pois mostra ao espectador que ele deve ficar atento. Leila Magalhães, que interpreta Nádenka, conseguiu captar a complexidade da personagem. Interpretação segura, compromissada, de quem sabe o que está fazendo. ‘Um Tempero Mais Amargo’ de Eric Bogosian, talvez seja a cena menos compreendida. Muitos se prendem aos palavrões, porém há mais complexidade. O diálogo revela problemas do tempo presente, as sacadas de humor denotam o cinismo do homem contemporâneo, que aprendeu a rir de suas próprias desgraças. Thiago Marques com um personagem inicialmente passivo, mas que no final revela sua força, mostra um talento jovial a ser explorado. Mas que seria de um bom roteiro e interpretações seguras sem um conceito estético? A releitura das roupas de época, a discreta sensualidade da camisola de Nádenka, o vestido de noiva de Regina e o All Star nos pés se fundem ao contexto proposto. Culpa de Roberto Laplane, também responsável pela maquiagem e pelo cenário, montado com objetos simples que lembram uma mudança no canto da casa. Objetos que podem ganhar outra configuração, como a cadeira que é transformada em trenó. A iluminação marca de forma bastante discreta as passagens, completando o clima das cenas e ajudando na composição do cenário. A trilha sonora é fluida, aparece quando realmente é necessária. Mas como todo casamento tem algum problema, o cartaz do espetáculo parece está divorciado do resto. É muito posado e artificial. A arte final não é das melhores, com uma olhar nem tão apurado percebe-se que se trata de uma montagem. O público aracajuano, que tanto reclama da inércia cultural, deixou o espetáculo passar como outro qualquer. Quem cometeu o pecado de não ir a uma das dez apresentações gratuitas, que pague para ver, quando o espetáculo voltar da temporada fora do estado <<


pausa >> Finitudes ou a metafísica da morte em Ferreira Gullar

A

pós um período de dez anos de silêncio, o poeta Ferreira Gullar – “o último grande poeta brasileiro”, assim dito por Vinícius de Morais – volta ao cenário da poesia com a publicação do livro ‘Em Alguma Parte Alguma’, com cinqüenta poemas inéditos, alguns longos, chegando a ocupar seis páginas, como ‘Rainer Maria Rilke e a Morte’, ‘Desordem, Universo’ e ‘Fica o Não Dito por Dito’; outros Por Rodrigo Araújo* curtos, como ‘Insônia, Repouso’. A poesia, neste livro, se alterna entre o fora e o dentro, o velho e o novo. Os poemas ultrapassam as finitudes do corpo, há uma tensão metafísica muito visível - por que não tensão materialista, também? O tema da morte é freqüente nas poesias. No poema ‘Reencontro’ temos: “Estou rodeado de mortes. Defuntos caminham comigo na saída do cinema. São muitos...”. O poema ‘A Morte’: “A morte não tem avenidas iluminadas, não tem caixas de som atordoantes, tráfego engarrafado. [...] A morte não tem culpas, nem remorsos, nem perdas. Não tem lembranças doidas de mortos. [...] A morte não tem falta de nada. Não tem nada. É nada, a paz do nada”. Em ‘Rainer Maria Rilke e a Morte’, maior poema do livro, temos este belo trecho: “O futuro não está fora de nós, mas dentro, como a morte que só nos vem ao encontro depois de amadurecida em nosso coração”. Em ‘Vestígios’, temos a idéia do morto no espaço hospitalar: “Onde o morto deitou-se quando vivo, na cama de hospital, não resta rastro, nem resta mesmo a cama, os lençóis que o leito foi desfeito e refeito para outros que ali morreram sem deixar marcas”. Outros poemas também se encaixam nessa tensão metafísica. Pensar a morte é pensar a vida. Nas sociedades medievais, o tema da morte era mais aberto. Nos últimos séculos até hoje, os moribundos foram afastados e excluídos da vida social - ocasio*amante da literatunando também um afastamento da morte. Philippe ra, graduou-se em Letras Ariès bem mostra em seu livro ‘História da Morte pela Universidade Tiradentes no Ocidente’, o sociólogo Norbert Elias, no livro ‘A e atualmente transita entre a Solidão dos Moribundos’, também. Nos poemas subjetividade literária e a objedo livro ‘Em Alguma Parte Alguma’, o sujeito e a tividade do curso de Jornalismo, morte parecem se fundir, como aquela idéia de na Universidade Federal de Sersujeito-objeto. Não há cisão entre o visível e o gipe. Apaixonado por francês, por gatos e pela madrugada, trabalha invisível. Até culminar num duplo: num “outro que diariamente desenhando o mundo é mais Gullar do que eu” << com as palavras <<

53


inquérito

por Fernannda Carvalho >>

A interrogada desta edição é Mirian Tavares, fashion victim, pós-doutora em Cinema e Literatura, professora da Universidade do Algarve, Portugal, onde é coordenadora do mestrado em Arte e Comunicação. Em uma entrevista feita por e-mail, ela responde questões sobre os processos de criação artística, o clichê, a unicidade e o espaço da arte. Afinal, o que não é arte contemporânea?

Crivo >> Atualmente é possível criar a partir de programas de computador ou até mesmo fazer a releitura de outras obras. Um garoto de 16 anos pode ter uma idéia genial e criar uma obra em questão de segundos. A aura de gênio criador não é mais a mesma. Afinal quem pode ser considerado artista hoje em dia? Mirian >> É uma questão complicada. De qualquer forma, posso dar uma resposta simples: é artista todo aquele que tem uma obra consistente e continuada, que não acertou, por acaso, apenas uma vez ou duas. É artista aquele que seus pares reconhecem como tal e que tem um percurso, que cria um percurso >>

Crivo >> Aqui em Sergipe há uma carência de galerias e espaços para exposições. As que funcionam regularmente ainda precisam de uma estrutura apropriada. Qual o espaço da arte hoje, a galeria ou a rua? Mirian >> A arte expandiu-se para além do cubo branco. O que é preciso definir é: o que é arte pública? O que a difere do monumento ou da decoração urbana? A arte deve e pode ocupar vários espaços, mas esta ocupação deve ser também artística e estar integrada ao próprio conceito da obra. De outra maneira ela corre o risco de se perder em meio a tanta poluição visual e sonora dos espaços urbanos >>


Crivo >> Muito se discute sobre o que é arte contemporânea. Até hoje não há um consenso sobre o assunto. Mas, afinal, o que não é arte contemporânea? Mirian >> Depois dos experimentalismos dos anos 60 e 70 e, sobretudo, com o advento da arte conceitual, onde o objeto deixa de ser premissa para a realização de uma obra, torna-se difícil definir fronteiras do tipo: onde começa a arte? Onde começa a vida? O que não é arte na contemporaneidade? Uma resposta possível seria recorrermos a um velho filósofo, Kant. Para ele, a arte tem um fim em si mesma, não precisa justificar a sua existência fora dela. E não precisa ter uma utilidade para além dela mesma. A arte é a consciência do ato criador e a procura de respostas que nem sempre estão na vida, mas que estão nas questões que podemos colocar a ela. E é isto que a arte contemporânea faz: coloca questões. Nem sempre consegue respondê-las, mas tem consciência de que um gesto criador é sempre um gesto que promove movimento, já não contemplação ou mesmo transcendência. Não é arte contemporânea objetos ou atitudes que não têm consciência de si enquanto autotélicos - eles são o começo e neles encontramos o fim. Numa atitude mais cínica, poderia dizer que não é arte contemporânea aquilo que não tem o carimbo dado pelos críticos, teóricos, curadores, instituições. Mas prefiro pensar que arte ainda basta por si mesma >>

Crivo >> Vemos algumas tradições populares, a exemplo dos trabalhos de alguns escultores e pintores, que depois de algum tempo são elevadas à categoria de arte. O que diferencia o artesanato da arte? Artesanato pode se tornar arte e arte pode ser artesanato?

Crivo >> Em uma época onde tudo vale, o clichê pode ser uma saída? Mirian >> O clichê pode ser usado como saída por aqueles que desistiram de tentar novos caminhos. Mas pode ser utilizado de maneira consciente, por um artista, como forma de criticar alguns momentos da atual situação da arte, nem sempre tão interessante quanto poderia ser <<

Mirian >> O artesanato implica a produção em série. O que pode converter um artesão em artista é quando este deixa de produzir o mesmo e passa a criar variações, a experimentar. E, sobretudo, quando as suas experiências sobrevivem ao tempo e criam uma espécie de pátina - uma crosta que pode torná-la interessante e única <<

55 >>


memórias >> por Lílian França ........................................ Q

uando cheguei a Aracaju, há 16 anos, percebi de imediato um público e uma certa vocação por assim dizer, para o cinema. Acostumada com uma oferta cinematográfica variada, para atender a todos os gostos, como a que vivia em São Paulo, não imaginava encontrar aqui um mercado regular de cinema de arte. Comecei assistindo aos filmes no antigo cinema do Shopping Riomar e ao mesmo tempo me aproximei de um grupo de cinéfilos, entre eles o Vicente Coda, o Milton Coelho e o Luiz Garcia e todo o Grupo de Caio Amado, que se reuniam para assistir filmes e depois discutir cada um deles. Eram momentos interessantes de discussão cuidadosa sobre os filmes e fantásticas contribui-

ções de Caio. Essa alfabetização na linguagem cinematográfica foi fortalecendo uma geração de estudiosos, interessados e apaixonados pelo cinema. Pessoas que liam a coluna do Ivan Valença e textos acadêmicos, que viam o cinemão de Hollywood e a trilogia das cores, o cinema internacional e o nacional. Em 1995, com o lançamento de "Carlota Joaquina", de Carla Camurati, e com as novas leis para financiamento de filmes, o país entra num momento de euforia com o chamado "Cinema da retomada". Esse estímulo passa a ampliar as possibilidades desse grupo que deseja ir além da teoria e passar a prática, ou seja, fazer cinema. Caio retoma um de seus projetos e realiza

cinema >> cinema >> cinema >> cinema >> cinema >> cinema >>

Do vermelho-sangue ao vermelho-jujuba

A

inda sou do tempo em que vampiros eram criaturas malignas. Dormiam em caixões, bebiam sangue e fugiam de cruzes, alho e água benta. Mas tanto o cinema quanto a literatura reformaram seus conceitos. Os vampiros de hoje não vestem capa preta, nem se transformam em morcegos ou dormem de dia. Dirigem carros importados, fazem votos de castidade e brilham como purpurina quando se Crítica >> por Lara Fiona expõem ao sol. A explosão Crepúsculo, que faturou milhões de dólares com a sua história açucarada, criou uma imagem de vampiro diferente da original. Se em 1922, Friedrich Murnau nos apresentou a Nosferatu, vampiro desprovido de sensualidade ou qualquer tipo de bondade, Stephenie Meyer criou um modelo capaz de causar diabetes em qualquer mortal. Edward Cullen chora, suspira, sente ciúmes, quer se casar, vai à escola, ama loucamente, controla os ímpetos sexuais e vigia o sono da amada. Acho até que parte disso é culpa daquele Conde Drácula que usava óculos estilo John Lennon e sonhava com o amor de Mina Harker. Sim, a partir do filme de Coppola temos o ápice dos vampiros jovens, bonitos e eroticamente interessantes. Por falar nisso, quem não lembra de Akasha, em A rainha dos Condenados? Ou do próprio Lestat, com cara de roqueiro bad boy? Concordo que o filme não é dos melhores, e muito menos foi fiel ao livro homônimo de Anne Rice, mas temos muito do que falta em Twilight: um ambiente sujo, erótico e com jogos de interesse. Talvez queira me bater por isso, mas a saga Crepúsculo só tem estética. Os cenários são bonitos, a sensação de frieza que o filme passa é interessante, não há como negar. Contudo é aquele típico ditado: bonito mas vazio. Os protagonistas não têm química, a família Cullen vive em um comercial de margarina e a Bella Swan é uma mortal mosca-morta. Diferente da série True Blood – onde o romance é suplantado para dar lugar a um ambiente sombrio, fe-


.................................................................................. "A eternidade dura 5 minutos" e envolve o grupo que se transforma em atores, produtores, continuistas, enfim, abre um espaço de experimentação que há alguns anos não se via. A movimentação levou a produtora Rosangela Rocha a organizar o primeiro Curta-SE, festival de curtas metragens que já alcança a sua décima edição e ganhou um caráter ibero-americano. Rosangela foi determinada, muitas vezes a vi carregar sozinha os equipamentos e a abrir e fechar as salas de exibição. Sua competência foi dando credibilidade ao evento e ficou mais fácil obter patrocínio. O Curta-SE passou a integrar o calendário cultural do estado e com essa força desenvolveram-se várias oficinas, cursos, pales-

tras, voltados para a realização e não só para a teoria. Uma nova geração de videomakers, cineastas ou como se prefira chamar os realizadores em tempos de tecnologias digitais foi sendo formada e Sergipe passou a produzir material audiovisual de alta qualidade. Mudou o perfil das televisões que passaram a ter mais gente produzindo; mudou o mercado de audiovisual; mudou o interesse das empresas de salas multiplex; ampliou a oportunidade de profissionalização no setor. Por isso o Curta-SE é tão importante para Sergipe, ele agrega valor à produção audiovisual, coloca Sergipe no cenário internacional e cria condições de, num futuro próximo espera-se, fazer do estado um pólo cinematográfico <<

> cinema >> cinema >> cinema >> cinema >> cinema >> cinema >

57 >>

tichista e cheio de tesão, em Twilight o que vemos é uma dose exagerada de romance. Os filmes são sucessos de bilheteria, mas a autora criou uma confusão de ideias ao impor de forma tão forçada seus conceitos mórmons. Bestas que matam humanos e vagueiam entre dois mundos - mortos pelo dia e vivos a noite - não são indicadas para encenar valores como castidade e submissão eterna ao ser amado. Enquanto nos livros da saga Crepúsculo o vampiro-mocinho se afasta da mortal por medo de machucá-la (ou transformá-la em sua “comida”), as crônicas vampirescas de Anne Rice mostram por outra perspectiva o mesmo tipo de vampiros sensíveis, bonitos e com tendências artísticas, mas que sentem êxtase e intimidade quando bebem sangue e encontram várias maneiras de lidar com o seu mundo negro e sua natureza assassina. O desejo por sangue, sobrevivência e o instinto primitivo que define a maldição da raça. Depois da criação de Drácula de Bram Stoker, em 1897, o mito do vampiro passou a ganhar força. Através do cinema conhecemos Nosferatu, Drácula em suas variadas formas, o vampiro de Dusseldof, Blade e sua cara séria, a loirinha Buffy e sua caça pelos mortos-vivos, os dramas psicológicos dos vampiros de Anne Rice, produções midiatizadas como Underwold e outras incontáveis histórias e séries que jamais caberiam neste texto. Enfim, os vampiros sofreram cirurgias plásticas ao longo das décadas (ganhamos até vampiras lésbicas!) e agora chegamos aqui: vampiros tarados de um lado e vampiros melosos de outro. É por essas e outras, que sinto falta das crises existenciais de Louis, em Entrevista com o Vampiro; da maldade adulta que havia em Cláudia, a vampira-criança; do charme irresistível de Lestat; da cara engraçada e elegante do Drácula interpretado por Bela Lugosi; do clássico Lost Boys, que tanto assisti em solitárias Sessões da Tarde; e de todo aquele clima tenso, com personagens que não possuem sombra e reflexo no espelho, que sempre são relacionados com a misteriosa Transilvânia e que vivem as contradições de estarem condenados a uma existência eterna - baseada na não-existência de outrem <<


bula>>

filmes>>

Mr Nobody [2009] Composição: garrafada de Jaco Van Dormael Apresentação: mistura não identificada de elementos visuais e narrativos e intensa experimentação

Tokyo! [2008] Composição: injeção composta de Michel Gondry, Leos Carax e Joon-ho Bong Apresentação: caixa com três ampolas, aplicação intracerebral com agulha grossa Indicações: indicado para quem gosta de desafiar os limites da racionalidade e aos tolerantes à inovação Contra-indicações: não recomendado para alégicos à semiótica e tradicionalistas Efeitos colaterais: confusão mental, surto de indagações sem respostas, asfixia. Quem sofre de intolerância ao pensamento pode apresentar surtos de insatisfação >>

Indicações: deve ser usado por pessoas criativas e atentas que se prendem à narrativa visual Contra-indicações: desaconselhado para amantes da narrativa linear e para os que acham que tudo deve ser esclarecido no final Efeitos colaterais: entorpecimento visual, sentimento de perda do raciocínio lógico, questionamentos sobre qual caminho seguir >>

Ninguém Sabe dos Gatos Persas [2009] Composição: emplasto de Bahman Gobadi Apresentação: compressa quente sobre o murro dado pelo governo nos músicos do Irã, num híbrido entre documentário e ficção. Uso externo, não ingerir Indicações: deve ser usado por quem acha que todo filme iraniano é entediante e centrado na zona rural Contra-indicações: não pode ser ingerido por viciados em produções americanizadas e romances happy end Efeitos colaterais: sentimento de revolta, crise de subversão, confusão entre ficção e realidade >>


Composição: doses homeopáticas de Antônio Carlos Viana Apresentação: contos embalados sem contato manual Indicações: deve ser ingerido por quem já superou o romantismo de José de Alencar Contra-indicações: contra indicado para leitores fast-food Reações adversas: alérgicos à realidade fictícia podem sentir falta da hipocrisia romântica >>

Do Litoral ao Sertão - Sergipe em Imagens [2010] Composição: colírio de Márcio Garcez, Lúcio Teles e Márcio Dantas Apresentação: frasco com 320 gotas Indicações: indicado para amantes da boa fotografia Contra-indicações: desaconselhado para analfabetos visuais Reações adversas: vontade súbita de estar no lugar fotografado >>

A solidão dos Números Primos [2009] Composição: infusão de Paolo Giordano Apresentação: embalagem com oito capítulos em sachês Indicações: recomendado para matemáticos que gostam de literatura e literatos que não gostam de matemática Contra-indicações: proibido para quem sofre de amor platônico Reações adversas: os hipersensíveis podem desenvolver questionamentos filosóficos e paranóia >>

livros>>

Cine Privê [2009]


bula>>

CDs>> Passageiro [2010]

The Resistance [2010]

Composição: extrato de Rodrigo Maranhão

Composição: elixir de Muse

Apresentação: frasco com 12 comprimidos de fados e valsas lisérgicas, embalados na cadência de sambas quadrados

Apresentação: embalagem com 11 doses de rock sinfônico inglês. Preparado com bases clássicas e inovações contemporâneas Indicações: recomendado para fugir do rock clichê de palavras inaudíveis Contra-indicações: desaconselhado para melancólicos, heavy metals e apaixonados Efeitos colaterais: perplexidade momentânea com pequenos lapsos de recordações passadas >>

O Novo Pastiche & O Pastiche Novo [2010]

Indicações: recomendado para tranquilizar um dia de correria, acalmar os ânimos e suscitar sentimentos pacíficos

Composição: concentrado da Banda Cebedal

Contra-indicações: contra indicado para brasileiros internacionais e alérgicos à novos intérpretes

Apresentação: Caixa com 10 pílulas de samba-rock, mistura de frevo e marchinha de carnaval, acordes de rock com arranjos de baião

Reações adversas: surtos de melancolia, crises de saudosismo entremeados por picos de euforia e samba no pé <<

Indicações: Indicado para quem ousa nas cores e não combina estampas. Contra-indicações: não recomendado para quem não mistura manga com leite Efeitos colaterais: acelera o metabolismo, fazendo com que os pés se mexam involuntariamente, aumento da secreção de suor, em pessoas hipersensíveis pode causar taquicardia >>


rota

Café Salato & Caramelle

Pratos da cozinha suíça como batatas recheadas, bruschettas, risotos e sanduíches acompanhados de cafés de todos os tipos. Endereço: Rua Niceu Dantas, 470 - Atalaia Telefone: (79)3243 4510 Funcionamento: terça a domingo das 18h às 23:45 >>

Restaurante Arriba A legítima cozinha mexicana, lá se pode experimentar nachos, flautas, quesadillhas, burritos acompanhados de tequila ou piña colada. Não esqueça de pedir um chapéu mexicano para tirar uma foto. Endereço: Rua F, 39, Bairro Aeroporto Telefone: (79) 9127-6747 Funcionamento: quinta a domingo das 11h às 15h e das 18h às 23h >>

Café Casual Lá você pode pedir um cuscuz recheado com queijo de coalho e charque ou uma porção de macaxeira. Para acompanhar, cafés quentes e gelados. Endereço: Pc Tobias Barreto, 166 - Aracaju - SE Fone: (79) 3211-3828 Funcionamento: segunda a sexta, das 8h às 22h, sábado das 8h às 15h <<


62

partida de futebol por Nina Sampaio* >>

Àquela altura, com o corpo contra o sol, o olho apertado para assistir, não saberia dizer o contrário: estava ali para ver. Para vê-lo suado, agitado em sua vermelhidão de rosto que fulgurante suava, falava palavrões machistas, homofóbicos, xingava a mãe de todo mundo. Era grosseiro como nunca desejou. Era belo. Perfeito. A escultura de seu corpo não lhe saía da cabeça. Rasgava-lhe a alma delicada que escondia sob a desculpa da necessária polidez. Disfarçaria até quando? Até quando seria o educado da turma; o cavalheiro, o cortês, o fino? Formou-se e as cobranças começaram a se acirrar. Exacerbava-se com a sempre pergunta pelo futuro cônjuge. Buscava, à toa, falar sobre política, sobre a situação econômica no país e no mundo – como sabia contextualizar tudo o que falava! Era a informação ambulante! A perdição das mulheres: inteligente, bonito, polido e distante. Quis por milhares de vezes gritar: e-u s-o-u g-a-y!!!! Calava. Era polido.

Mas, naquela partida de futebol, arremessaria pro alto toda a sua boa educação. Aos pés do mais bruto entre eles que foram amigos de faculdade pediria: te chupo, te chupo! Olhava. Sentia o cheiro de suor e tomava cada palavra do outro como o mais gritante chamado. No vestiário, disfarçava o olhar. Era lasciva a água que molhava aquele entalhe humano. Voou para casa. Embebedou-se. Puxou a empregada, comeu-lhe o cu. E depois chorou <<

Nina Sampaio é graduada em Letra pela Universidade Federal de Sergipe, onde atualmente faz o mestrado na área. Nas horas vagas escreve contos e assiste filmes >>


63

<< tutorial >> Faça você mesmo um curta-metragem experimental, cult e pseudo-intelectual. Vitor Alli* ensina o passo-a-passo de como estudantes de comunicação, artes, teatro, dança, design, serviço social, engenharia florestal, secretariado executivo, donas de casa e vendedores de pipoca podem realizar o sonho de ser um grande cineasta. Assista o tutorial e mãos à obra:

*Victor Alli é graduado em Radialismo pela UFRJ. Seu curta ficou em 1º lugar na cateogria trash do V PUTZ, 1º lugar nas categorias ficção e júri popular do festival CURTACOM, 3º Lugar na categoria trash do CUCO, selecionado para a 4ª Mostra Trash e para o 2º Perro Loco <<


>>


Revista Crivo n0