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#145 ano XIII • jan/13 • R$ 11,00

CONTINENTE

BABEL SONORA

COMO OS SONS AFETAM A VIDA NAS CIDADES JAN 13

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E MAIS RUY CASTRO | ACORDO ORTOGRÁFICO | LENDAS DE NORONHA JAVIER MARÍAS | CLOWNS DE SHAKESPEARE | SERTÃO VERDE| WESTERN 28/12/2012 14:07:06


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ricardo moura

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aos leitores A cidade é um tema constante: sedutor e angustiante, a um só tempo. Em várias edições da Continente, temos abordado o assunto, adotando diferentes tons: ora idílico, ora problematizador. No ano passado, por exemplo, em janeiro, trouxemos uma matéria sobre passear em Paris de bicicletas, um transporte que tem suscitado debates no que diz respeito aos congestionamentos e problemas ambientais. Em abril, discutimos os contrastes que habitam o Recife, uma cidade de ruas em que trafegam utilitários possantes e carroças puxadas a cavalo, antagonismo que evidencia acentuados desníveis sociais. Em agosto, visitamos os quintais do sítio histórico de Olinda, que trazem tanta calma aos seus moradores. Em setembro, entrevistamos o antropólogo Antônio Risério, que analisou com agudez os problemas das metrópoles brasileiras. Em outubro, observamos como um elemento decorativo é capaz de traduzir uma cidade, no caso, o fileteado argentino, que enfeita construções e objetos nas ruas de Buenos Aires. Nesta primeira edição de 2013, o tema nos mobiliza mais uma vez. Agora, uma realidade que submete todos, de modo onipresente e devastador: a paisagem sonora. Dita assim, parece tratar-se de coisa agradável, pela

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denominação “paisagem”, que nos remete à “beleza”. Mas o que temos vivido é bem diverso de algo aprazível. Na verdade, convivemos com tal babel de sons e ruídos, que não podemos discordar do pensador Murray Schafer. Na década de 1970, ele já havia dito que “em todo o mundo a paisagem sonora atingiu o ápice da vulgaridade”. Por onde andamos, alguma coisa se diz, grita-se, propaga-se, e nem mesmo em nossa mente há silêncio, visto que não paramos de pensar. Seria o silêncio, assim, uma utopia? Para abordar o assunto, contamos com dois jornalistas e um fotógrafo, que reuniram material junto a pesquisadores, artistas, técnicos e gente que trafega na rua, que gosta de silêncio, que gosta de barulho ou que nem mesmo estabelece esse tipo de diferenciação. Embora traga incômodo e tenha gerado iniciativas de regulamentação, a poluição ambiental causada por emissão de sons ainda é um assunto incipiente, não de todo assimilado pela sociedade. No que diz respeito a esse tema, estamos próximos do impasse que avistamos em relação aos muitos “recifes” que encontramos naquela matéria de abril de 2012: os que podem, “blindam-se” com isolamentos acústicos; os que não têm as mesmas condições, chafurdam no caos sonoro, do qual é difícil escapar.

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DE 2007 A 2012, 46 FILMES PERNAMBUCANOS FORAM PREMIADOS NOS MAIS IMPORTANTES FESTIVAIS DO BRASIL E DO MUNDO.

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Com o apoio do Funcultura, o cinema pernambucano vem se destacando cada vez mais. Os investimentos do Governo de Pernambuco na produção de cinema e em toda a cadeia do audiovisual aumentaram de R$ 928 mil em 2007 para R$ 11,5 milhões em 2012, num total de R$ 32 milhões. No mesmo

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Filmes premiados em 2012 O Som ao Redor - de Kleber Mendonça Filho Eles Voltam - de Marcelo Lordelo Era Uma Vez Eu, Verônica - de Marcelo Gomes O Rochedo e a Estrela - de Kátia Mesel Pernamcubanos - de Nilton Pereira Boa Sorte Meu Amor - de Daniel Aragão Brennand, o Convidado da Floresta - de Mariana Brennand Jardim Atlântico - de Jura Capela País do Desejo - de Paulo Caldas Câmara Escura - de Marcelo Pedroso Porcos Raivosos - de Leonardo Sette e Isabel Penoni DORA - Eu, Ele e o Mundo - de Alice Gouveia Canção Para Minha Irmã - de Pedro Severien Poeta Urbano - de Antônio Carrilho

A COMBINAÇÃO DE TALENTO E INVESTIMENTOS PÚBLICOS FAZ A PRIMAVERA DE PERNAMBUCO. período, 46 filmes foram exibidos e premiados no mundo inteiro. Do Festival de Brasília ao Festival de Berlim. Do Festival de Gramado ao

Festival de Cannes. É o Governo de Pernambuco incentivando a nossa cultura, que tem papel fundamental no desenvolvimento de todo o Estado. Secretaria de Cultura

O FUTURO A GENTE FAZ AGORA

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sumário Portfólio

Ciranda Bordadeira

6  Cartas

7  Colaboradores

8 Entrevista

Expediente

60 Sonoras

Edgar Moraes Coral comemora 25 anos de atividades, com o lançamento do CD Cantos & encantos, encartado nesta edição da Continente

+

Ruy Castro Biógrafo consagrado emite opiniões pouco consensuais sobre temas ligados à cultura pop e de massa

20 Balaio

Casablanca História de amor do filme, considerado um dos 10 melhores do século passado, completa 70 anos

36 Viagem

Fernando de Noronha O arquipélago guarda, além de paisagens paradisíacas, lendas, histórias de mistério e passado de violência

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64 Claquete

Faroeste Gênero vive retomada, com restauração de clássicos e incorporação de suas características em novas produções

12 Conexão

Paper.li Rede social seleciona e organiza notícias, possibilitando também aos usuários visualizar e seguir outras pessoas

Grupo produz peças a partir de obras artísticas canônicas e populares. Parte dessa produção está no livro Bordados do Brasil: a arte de Militão dos Santos

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Matéria corrida José Cláudio A professora

80 Leitura

Javier Marías Os enamoramentos, novo romance do autor espanhol, é um exercício de empatia com o leitor

86 Artigo

Zé da Flauta Frevo de palco

88 Saída

Raimundo de Moraes Eu sempre vou te amar

42 Especial

Acordo Ortográfico Processo de unificação da escrita na língua portuguesa ainda suscita discussões

Cardápio

Cozinhando Escondidinho Com criatividade e comida gostosa, Rivandro França mantém seu restaurante na zona norte do Recife e acaba de ser eleito chef revelação por importante guia de turismo

56 Capa foto Ricardo Moura

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Capa

Tradição

Nos centros urbanos, há produção incessante e caótica de sons e ruídos, uma paisagem sonora que acaba por caracterizar o lugar e seus habitantes

Em Potengi, pequena cidade da Chapada do Araripe, dezenas de famílias conservam a tradição de forjar o ferro, uma das mais antigas atividades no mundo do trabalho

Palco

Visuais

Companhia comemora duas décadas com estreia nacional de Hamlet e mais três peças apresentadas no Janeiro de Grandes Espetáculos

Fred Jordão reúne imagens feitas ao longo de mais de 15 anos, nas quais prevalece o olhar sobre a beleza e grandiosidade da natureza

Cidades

22

Clowns de Shakespeare

69

Ferreiros

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Jan’ 13

Sertão Verde

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cartas Rádio

É para fazer parte de um acervo riquíssimo, a ser exibido sempre para confirmação da riqueza da musicalidade nordestina.

Gostaria de elogiar a matéria de capa que trata dos 90 anos do rádio no Brasil. Eu fui uma das entrevistadas e já me ligaram até do interior para falar que tinham me visto na revista. Já agradeci a vocês, ao vivo, na Rádio Jornal. A matéria ficou muito boa. Eu não conhecia a Continente, mas agora vou fazer uma assinatura para deixar no meu táxi.

JORGE LUIZ ALENCAR GUERRA BRASÍLIA – DF

No Facebook

Corpo feminino A edição dedicada ao tema corpo foi/está perfeita! Indico.

ZeZé TAXISTA (foto)

KATHERINE LAGES

RECIFE – PE

DO TWITTER

Rádio 2 Acabei de receber a minha revista aqui, em Cabedelo-PB. Sou radialista e fiquei encantado com a Continente de dezembro! Vou começar a ler agora!

Nessa época, ele já era formado e casado, diferentemente de quando lecionou no Colégio Nóbrega e no Ginásio Pernambucano. MARIA DO CARMO TORRES

No site

Parabéns pela entrevista com Baby do Brasil. Ficou ótima! Fazia tempo que não lia algo consistente sobre ela.

recife – PE

LUCIANA VERAS reciFe – pe

LEANDRO SANTOS CABEDELO – PB

Álvaro Lins Fui aluna de Álvaro Lins e gostaria de acrescentar uma informação à edição especial publicada em novembro. O crítico ensinou também no Colégio Nossa Senhora do Carmo.

Esmero Parabéns! A Continente fecha 2012 com qualidade gráfica/editorial esmerada, o que a coloca como a melhor revista do segmento. O DVD Quinteto canta Gonzagão, encartado na edição de dezembro, não é apenas mais um para assistir.

Você faz a Continente com a gente O nosso objetivo é fazer uma publicação cada vez melhor, e, para isso, contamos com você. Envie suas críticas, sugestões e opiniões. A seção de cartas recebe colaborações por e-mail, fax e correio (Rua Coelho Leite, 530, Santo Amaro, Recife–PE, CEP 50100-140). As mensagens devem ser concisas e conter nome completo, endereço e telefone. A Continente se reserva o direito de publicar apenas trechos e não se compromete a publicar todas as cartas. Telefone

Sintonia A @revcontinente, mais uma vez, supera-se a cada edição. Muito boa a matéria sobre os 90 anos do rádio no Brasil. JARDSON LEMOS JABOATÃO DOS GUARARAPES – PE

(81) 3183 2780

Fax

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Email

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Site

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colaboradores

andré Dib

carol Leão

Ricardo Moura

Walter Vasconcelos

Jornalista, pesquisador e crítico de cinema

Jornalista e doutora em Sociologia

Fotógrafo com formação em Ciências Sociais

Ilustrador, colabora com revistas do Brasil e dos EUA

e MaiS augusto Pessoa, fotógrafo. bruno Liberati, caricaturista e ilustrador. carlos eduardo amaral, jornalista, mestre em Comunicação e crítico de música erudita. Fred navarro, jornalista e escritor, autor de Dicionário do Nordeste. Marcelo abreu, jornalista, professor e autor de livros-reportagem e de viagem, como De Londres a Kathmandu. Pollyanna Diniz, jornalista e organizadora do blog Satisfeita Yolanda. Rafael Medeiros, fotógrafo. Renata do amaral, jornalista, professora e doutoranda em Comunicação. Rodrigo carreiro, jornalista, professor e crítico de cinema. Schneider carppeggiani, jornalista, mestre e doutor em Teoria Literária, editor do suplemento Pernambuco e da revista ArtFliporto. Zé da Flauta, músico, compositor, arranjador e produtor musical.

GoVeRno Do eStaDo De PeRnaMbUco

SUPeRINTeNDeNTe De eDIÇÃO

CONTINeNTe ONLINe

ATeNDIMeNTO AO ASSINANTe

gOVeRNADOR

Adriana Dória Matos

Gianni Paula de Melo (jornalista)

0800 081 1201

Eduardo Henrique Accioly Campos

SUPeRINTeNDeNTe De CRIAÇÃO

Juan Ropero (webdesigner)

Fone/fax: (81) 3183.2750

SeCReTÁRIO DA CASA CIVIL

Luiz Arrais

assinaturas@revistacontinente.com.br CONTATOS COM A ReDAÇÃO

Francisco Tadeu Barbosa de Alencar ReDAÇÃO

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eDIÇÃO eLeTRÔNICA

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André Valença, Gabriela Almeida, Marina

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DIReTOR ADMINISTRATIVO e FINANCeIRO

Suassuna e Olivia de Souza (estagiários)

Eliseu Souza

Bráulio Mendonça Menezes

Elizabeth Cristina de Oliveira (apoio)

Sóstenes Fernandes

CONSeLHO eDITORIAL:

Roberto Bandeira

Everardo Norões (presidente)

ARTe

Antônio Portela

Janio Santos e Karina Freitas (paginação)

PUBLICIDADe e MARKeTINg

Lourival Holanda

Nélio Câmara (tratamento de imagem)

e CIRCULAÇÃO

Nelly Medeiros de Carvalho

Joselma Firmino de Souza (supervisão de

Armando Lemos

Pedro Américo de Farias

diagramação e ilustração)

Alexandre Monteiro Rosana Galvão Gilberto Silva Daniela Brayner

Continente é uma publicação da Companhia Editora de Pernambuco - CEPE ReDAÇÃO, ADMINISTRAÇÃO e PARQUe gRÁFICO Rua Coelho Leite, 530 - Santo Amaro Recife/Pernambuco CEP: 50100-140 Fone: 3183.2700 Ouvidoria: 3183.2736 ouvidoria@cepe.com.br

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RUY CASTRO

“Não sou dado à nostalgia”

Escritor fala sobre sua tumultuada relação com o rock, do seu desinteresse por novas produções artísticas e de sua paixão por livros, filmes e LPs texto Marcelo Abreu

con ti nen te

Entrevista

“Não moro num apartamento, moro

numa biblioteca, numa discoteca”, diz o jornalista Ruy Castro, sobre o local onde vive e trabalha no bairro do Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro. Do alto desse posto de observação privilegiado, ele tem feito, nos últimos anos, um dos trabalhos mais produtivos de registro da cultura brasileira. Aos 64 anos, biógrafo consagrado e escritor best-seller, sentese livre para emitir opiniões pouco consensuais sobre vários temas ligados à cultura e ao Brasil na sua coluna, publicada quatro vezes por semana, na página 2 da Folha de S.Paulo. Depois de uma trajetória de sucesso na imprensa carioca e paulista, Castro ficou famoso ao lançar Chega de saudade, uma história da bossa nova, em 1990. Repetiu o sucesso com a biografia O anjo pornográfico, sobre Nelson Rodrigues, em 1992 e, em seguida, publicou Estrela solitária, a biografia de Garrincha (1995). Já consagrado, investiu em outros temas ligados à história cultural do país. Em Ela é carioca (1999), traça um grande perfil sobre o Bairro de Ipanema. Carmem (2005) é a mais completa biografia sobre a cantora que fez sucesso em Hollywood.

Em outros livros, tem enveredado também pela ficção, feito traduções e organizado coletâneas de grandes nomes da imprensa brasileira. Recentemente, exibiu fotos de sua coleção de discos e filmes no livro ilustrado Álbum de retratos, organizado por Heloísa Seixas. Nesta entrevista, Ruy Castro fala sobre sua paixão por LPs, de sua relação com o rock e critica o atual modelo de financiamento da cultura. CONTINENTE Você escreveu o livro Saudades do século 20 com perfis sobre artistas de décadas passadas. Os primeiros 12 anos do século 21 já produziram alguma coisa que vai deixar saudade em você? RUY CASTRO Bom, a palavra saudade no título daquele livro era uma coisa simbólica. Eu sou a pessoa menos dada à nostalgia que você poderia imaginar. Não tenho saudade de nada nos últimos sessenta e poucos anos que estou nesse planeta porque, entre outras coisas, trago isso (o passado) comigo o tempo inteiro. Eu tenho milhares de discos, livros e filmes cobrindo grande parte do século 20, do qual sou seu grande fã, e não esgotei ainda esse material.

Continuo assistindo a filmes toda noite, de 1970 para trás. Ainda não cheguei à música popular produzida depois de 1970, basicamente porque não esgotei ainda a anterior. O que aconteceu nos últimos 12 anos, confesso que mal tomei conhecimento. Não saberia nem citar o nome dos artistas. CONTINENTE Você tem sido um dos poucos críticos do atual culto à tecnologia. A que atribui o fato de os intelectuais brasileiros terem se rendido ao discurso festivo em relação à internet? RUY CASTRO Por que será que aderiram de maneira tão apaixonada e tão acrítica? Eu também aderi. Embora não use celular, passo o dia ligado na internet. Meu computador, assim que se acende, vai para página do New York Times, aí eu vejo a primeira página da Folha, do Globo e depois entro no e-mail para ver se alguém me escreveu e só então vou trabalhar. É difícil resistir. Como eu tenho um certo conhecimento de dependências, a única maneira de não ser assolado e dominado pela tecnologia é ficar o máximo possível longe dela. É por isso que não tenho celular, não entro em Facebook e em Orkut. Sei muito

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rafael andrade/folhapress

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um disco que quero e esteja muito estragado, sou até capaz de comprar por garantia, mas não vou sossegar até encontrar aquele disco em perfeito estado. É uma coleção lindíssima, parece que saiu ontem da fábrica, de tão arrumadinha. Eu lavo, passo sabão de coco com flanela, enxáguo, boto em escorredor de prato para secar. Tenho pelo menos uns 3 mil discos. CONTINENTE Como você vê a tendência de o cinema abandonar a película em favor da projeção digital?

CONTINENTE Como vê, nos últimos anos, a emergência da cultura de periferia no Brasil na literatura, na música hip hop, no cinema etc.? RUY CASTRO Eu não tomo conhecimento. Não é que tenha nada contra. Estão dando chance a essas pessoas? Ótimo. Os que forem bons vão sobreviver. Não é pelo fato de ser da periferia que serão melhores do que outros. Quanto ao hip hop, não tomo conhecimento porque continuo gostando de música.

reprodução

bem que a nova tecnologia logo estará superada. Se falar em Orkut com um menor de 12 anos, ele não sabe do que se trata. Fui educado para lidar com valores permanentes. Não tenho que ficar sujeito a esse tipo de velocidade atordoante. Estou muito bem com os equipamentos que tenho e que ainda podem ser usados. O que tento fazer nessas colunas não é uma crítica ranzinza. Não quero que as coisas voltem ao passado. Procuro alertar as pessoas para que não se deixem assoberbar e dominar por esse tipo de coisas.

con ti nen te

Entrevista CONTINENTE Prefere escutar música em vinil, havendo a opção? RUY CASTRO Prefiro. Estou conseguindo perceber o caráter mais caloroso, mais redondo e mais humano do som no LP em relação àquela coisa metálica, supostamente perfeita, do CD. O vinil tem um pouco mais de cheiro, de calor, ele não é tão agudo nem tão baixo. Percebo que o som de um contrabaixo num CD é como se estivesse vendo um show e botasse o seu ouvido dentro do instrumento, não é assim que a coisa funciona na vida real. Os LPs já tinham conseguido uma perfeição sonora espetacular. Para não falar das capas e outras coisas. Não chamo LP de vinil porque, se eu fizesse isso, teria de chamar CD de metal (risos). Hoje, tenho a melhor coleção de LPs que já tive na vida, tenho comprado muita coisa de colecionadores, em leilões ou pela Amazon ou na rua mesmo. Não me contento com pouco. Se encontrar

RUY CASTRO Isso não vai me alterar em nada, porque não vou mais ao cinema. Não suporto aquele volume altíssimo, a mania de comer pipoca. Vejo pessoas com sacões de pipoca ao meu lado nas poucas vezes em que ainda saio de casa para ir ao cinema. Fui ver o filme de Woody Allen (Meia-noite em Paris), todo à base de diálogos, tem de ser ouvido. De repente, tem um cara mastigando pipoca do meu lado, em alto volume. Não me lembro de ter visto A aventura, de Antonioni, ou Acossado, de Godard, ou A doce vida, de Fellini comendo pipoca. No cinema inteiro, não tinha ninguém comendo pipoca. Se forem reexibir hoje, lá estará a manada toda comendo pipoca e vendo filme do Fellini. Não tem sentido isso. Dos pouquíssimos filmes feitos hoje, que ainda me interessam, espero três meses, eles saem lá fora ou aqui em DVD, eu compro, assisto e vejo realmente que não perdi nada em não ir ao cinema.

CONTINENTE Você é conhecido como um homem do jazz, da bossa nova e dos sambinhas antigos. Qual sua relação com o rock? RUY CASTRO O rock dos anos 1950 era engraçado, era uma cópia do rhythm and blues americano. Quando os Beatles surgiram em 1963, toda a minha geração descobriu supostamente a música através deles. Isso não me aconteceu porque eu tinha 15 anos, já era grande ouvinte e fã de Thelonious Monk, Modern Jazz Quartet, Clifford Brown, adorava Charles Mingus. Quer dizer, era um tipo de música tão adulta, na verdade, que eu não precisava ficar tão deslumbrado com She loves you. Ouvia coisa mais consistente nessa época. Agora, os Beatles melhoraram muito, evoluíram, foram fazer outras coisas. Retrospectivamente, passei a gostar até do She loves you e I wanna hold your hand. Assim como não tinha como fugir da bossa nova no Brasil na primeira metade dos anos 1960, não tinha como fugir aos Beatles na segunda

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metade. Eu continuei gostando de jazz e tudo o mais, mas, do ponto de vista emocional – e música tem muito a ver com isso –, é a trilha sonora da minha vida. Os Beatles acabaram, não me interessei por nada que foi feito depois. Tive uma recaída roqueira entre 1980 e 1983. Tive uma fase de droga muito violenta, e se você está nessa, do jeito que eu estava, não suporta ouvir nada que não seja rock. Por acaso, eu tinha umas namoradas roqueiras, e a própria música associada ao rock vigente era uma música interessante, a new wave,

“Não me lembro de ter visto A aventura, de Antonioni, ou Acossado (foto), de Godard, ou A doce vida, de Fellini comendo pipoca. No cinema inteiro não tinha ninguém comendo pipoca. Se forem reexibir hoje, lá estará a manada toda comendo pipoca”

brasileiras foi feita sem a existência sequer do Ministério da Cultura, quanto mais de leis de incentivo à cultura. A ideia na época era a seguinte: o governo cuida da educação e a cultura cuida de si mesma. O teatro era financiado pela bilheteria. Havia a companhia de Tônia Carreiro, Adolfo Celi e Paulo Autran, que quando ia lançar uma peça americana, inglesa ou francesa, pagava um tradutor, escalava um elenco que era contratado pela companhia, os atores ficavam na folha de pagamento durante seis meses pelo menos, incluindo três meses de ensaio e os três primeiros meses de encenação. A peça entrava em cartaz e ficava três meses, um ano, ou muito mais, baseada rigorosamente na bilheteria. Algo incompreensível, hoje. Qual a perspectiva de futuro de uma cultura baseada nesse modelo atual? O Ministério da Cultura, já que existe, deveria cuidar do patrimônio histórico, investir pesado na conservação de cidades que merecem ser protegidas, na criação de bibliotecas e em formas de expressão que não rendem dinheiro, balé, dança e orquestra sinfônica, e estimular a presença dessas orquestras em praças públicas, espetáculos gratuitos. É para isso que deveria servir, e não para bancar show de rock na praia ou então CD de cantor baiano, que é o que mais tem.

CONTINENTE Sobre o Brasil, virou moda dizer que tudo está bem porque a economia baseada em reggae, como Police. Toda supostamente está crescendo. A que atribuir essa essa música era bem dançante, não era súbita falta de senso crítico? RUY CASTRO O Rio, por exemplo, está aquela coisa intelectualizada no rock vivendo um momento maravilhoso, progressivo dos anos 1970, que era de autoestima, amor à cidade, de chatérrima, nem se tornou depois tão violenta como heavy metal. Essa fase durou confiança, investimento. Imagina isso poucos anos e coincidiu com a minha de em massa, com milhões e milhões de pessoas tendo oportunidade de querer ouvir música barulhenta em alto comprar televisão, geladeira, ventilador, volume, que era só o que eu aguentava computador, podendo até viajar para fazer. Parei de ouvir jazz nessa época, o Buenos Aires. Num quadro tão otimista, único jazzista que eu ouvia era Coltrane. as pessoas evidentemente tendem Fui salvo por uma namorada, consegui parar com a droga e voltei à normalidade a ser menos críticas e até a relevar pecadilhos dos seus governantes. Ainda de ouvir a grande música americana, não se preocuparam em ter acesso a brasileira e universal. livros, à cultura e a exigir melhores escolas e faculdades. Mesmo nos EUA, CONTINENTE Qual sua opinião sobre depois da recuperação econômica, da esse modelo de produção cultural baseada Segunda Guerra Mundial e da depressão nas leis de incentivo à cultura? econômica, as pessoas foram comprar RUY CASTRO Se você olhar o passado, vai ver que o Brasil construiu uma grande o quê? Livro, disco de música clássica? Não, foram comprar bens de consumo música popular, um ótimo teatro, até conspícuos. Talvez seja um problema do uma arquitetura respeitada no mundo ser humano, realmente. inteiro, uma série de manifestações

CONTINENTE Já pode falar sobre seus próximos projetos? RUY CASTRO Estou com três ou quatro projetos atrasados, um deles um prefácio enorme do Memórias de um sargento de milícias, que vai sair pela Penguim e Companhia das Letras. Outro é um romance pela Alfaguara, cujo personagem é Dom Pedro II; um episódio maravilhoso da História do Brasil que me ocorreu, ia construir um romance inteiro em volta disso. Estou atrasado para um livro sobre música popular brasileira (Companhia das Letras) e em outro sobre biografia, também para mesma editora. Vamos fazer, em 2013, um livro gráfico enorme sobre Carmem Miranda para a Casa da Palavra. Esse vai ser feito porque não tem de escrever tanto. CONTINENTE Afora as coisas chatas do cotidiano e o trabalho duro com os livros, a impressão que dá é que você passa o dia em casa, de bermudas, ouvindo jazz, vendo filmes antigos, conversando com pessoas interessantes e escrevendo só o que gosta. É assim mesmo o Ruy Castro do cotidiano? RUY CASTRO Filme, só depois de meianoite, sessão coruja. Fico quase o dia no computador, é um trabalho duro. A apuração é toda feita na rua, localizando as pessoas com grande dificuldade e me preparando para ouvi-las. No caso de fontes mais importantes, como Elza Soares, por exemplo, levei um ano e pouco, primeiro me preparando, para depois ir conversar com ela. Fui para a primeira entrevista com uma lista de mais de 500 perguntas. É sempre assim. “Ah, mas é tão gostoso o que você escreve. Senta e escreve.” Não é nada disso. É exatamente o contrário. Quanto mais fácil de o leitor ler, mais difícil de escrever. Não moro num apartamento, moro numa biblioteca, numa discoteca, é um lugar até grande, um apartamento duplex, de cobertura, na praia do Leblon, mas é um lugar péssimo para trabalhar, porque dou três passos, tenho o Oceano Atlântico à minha frente. A janela do meu escritório dá para o prédio ao lado, uma parede branca. Não se vê nada, é a melhor maneira para se concentrar no trabalho. Um lugar muito bom para viver, mas inconveniente para trabalhar, porque a tentação ao redor é muito grande. Da varanda se vê perfeitamente o mar.

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O melhor deste mês na revista Continente, no ambiente virtual

con ti nen te

O SOM E A CIDADE

Javier marías

A Continente deste mês destaca os sons e ruídos que formam a paisagem urbana. Sobre o tema, na internet, oferecemos ao leitor um artigo do jornalista e pesquisador Paulo Faltay sobre como as tecnologias (os ipods e seus fones de ouvido) têm mudado as formas de escuta e vivência nas cidades. O internauta poderá conferir, também, o curta Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, que se propõe a reorganizar os ruídos do Bairro de Boa Viagem, tendo como referência o longa de animação Fantasia (1940), de Walt Disney, e os filmes do francês Jacques Tati.

Leia o trecho inicial do livro Os enamoramentos, do escritor espanhol, em que ele usa a novela O coronel Chabert, de Balzac, como referência para desenvolver sua trama .

Conexão

FAROESTE Confira a tese de Rodrigo Carreiro, que escreveu sobre o western para a seção Claquete. Nela, ele analisa a contribuição de Sergio Leone para o cinema contemporâneo.

Veja esses e outros links desta seção em www.revistacontinente.com.br

andanças virtuais

JORNALISMO

REDE

biblioteca

ILUSTRAÇÃO

Repórteres sem Fronteiras difundem notícias censuradas ao redor do globo

Espaço para discutir, vender e expor as próprias obras de arte

Uma história digital de lendárias HQs, com possibilidade de download

Acervo de umas das referências do campo da animação

wefightcensorship.org/

deviantart.com/

digitalcomicmuseum.com/

lillicarre.com

Num combate desarmado e com pouco tempo de vida no ar, o site We Fight Censorship, abrigado no portal da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), já está afrontando muita gente. Com a proposta de divulgar notícias censuradas, os 150 repórteres da ONG espalhados pelos cinco continentes assumem a função de colher as informações nos países afetados, para enviá-las de forma segura aos responsáveis na sede do RSF. O objetivo do grupo é forçar os governos mais radicais a respeitar a liberdade de informação. As notícias são sempre publicadas na língua oficial do país envolvido e em inglês ou francês.

O devitART surgiu em 2000 como parte de uma rede de sites de música. Tinha o objetivo de reunir artistas para discutir, expor e vender as suas obras. Hoje, com mais de sete milhões de usuários e uma média de 80 mil publicações diárias, é considerada a maior rede social para artistas do mundo. Apesar da predominância do desenho (feito a mão ou digital), não existem restrições para participar. Podem ser encontrados artistas que trabalham da fotografia à grafitagem.

Lançado em 2010, o The Digital Comic Museum é a maior biblioteca digital de revistas em quadrinhos. Seu acervo é composto majoritariamente por edições dos anos 1930 e 1950, conhecidos como a Era de Ouro do gênero e marcada pelo surgimento do Superman na primeira edição da Action Comics, em 1938. Com uma boa vasculhada pelo site, é possível achar raridades como os cinco primeiros exemplares da The Spirit (1952), do lendário Will Eisner. O único requisito para ter acesso às publicações é um cadastro rápido, que também permite o acesso ao fórum.

Artista de muitos talentos, Lili Carré, uma das fundadoras do Eyeworks Festival of Experimental Animation, reúne aqui alguns dos seus últimos trabalhos, que abrangem todos as ramificações da ilustração. Premiada com suas histórias em quadrinhos, como The lagoon, que foi selecionado para o The Best American Comics de 2010, Lili é referência na animação. Além de organizar o Eyeworks Festival, ela tem exibido vários filmes em festivais pelos Estados Unidos, como How she slept at night, exibido no Sundance Film Festival 2007, maior festival de cinema independente da América do Norte.

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blogs GODARD CITY godardcity.blogspot.com.br/

O cantor Rogério Skylab, conhecido por suas letras de humor ácido, divulga nesse blog seus poemas. Ele é autor do livro Debaixo das rodas de um automóvel e aborda a feminilidade do travesti.

cotidianO nadaestaacontecendo.blogspot.com.br/

ORGANIZAÇÃO DE NOTÍCIAS Com layout e estrutura muito parecidos com os de um jornal online, site disponibiliza as publicações de sua escolha, catalogadas em seções paper.li

Ser informado pelas redes sociais é algo bastante natural hoje, e já

não causa mais espanto saber que alguém simplesmente não lê jornal, pelo menos, da forma como conhecíamos há alguns poucos anos. Mas também sabemos da dificuldade que enfrentam aqueles que buscam informações apenas por esses meios, de filtrá-las por categorias de interesse, já que, hoje, o volume de publicações é exacerbado. Apropriando-se da lógica de aplicativos para celular, o site Paper.li toma como proposta a organização dos feeds de notícias do Facebook, Twitter e Google+ dos usuários. Lincado à sua conta, ele disponibiliza as publicações escolhidas, catalogadas em seções como Tecnologia, Política, Arte e Vídeo. Com layout e organização muito parecidos com os de um jornal online, a usabilidade dessa ferramenta é prática e simples. Além de fazer você perder menos tempo achando o que quer nas redes sociais, o Paper.li adota a linguagem de rede social, ao possibilitar a visualização e o acompanhamentos de outras pessoas. O site oferece dois tipos de cadastros. Um, gratuito, outro, que custa U$$ 9 por mês, pelo qual se obtém alguns privilégios.  GABRIELA ALMEIDA

No blog, a professora de Literatura da USP Noemi Jaffe, em crônicaspílulas, escreve sobre o cotidiano e traz relevantes observações sobre a língua portuguesa.

gírias coxesportugues.tumblr.com/

Este é um dicionário bilíngue, no qual verbetes do dialeto dos “almofadinhas”, são traduzidos para o bom português. Com pouco mais de 20 traduções, podemos achar o significado de palavras como futebas.

BLOGS DO ALÉM blogsdoalem.com.br/pt/

Uma vez por semana, o publicitário Vitor Knijnik relembra um grande nome da humanidade e nos mostra como poderia ser um blog desse tal falecido. Entre os famosos mortos “psicografados” por Vitor estão Voltaire e Platão.

sites de

ar te no I n s tagram PINTURA

FOTOGRAFIA

GRAFITE

instagram.com/pablopopulis

instagram.com/chibimo

instagram.com/instagrafite

O designer mexicano Pablo Populis divulga seus desenhos e pinturas em um perfil do Instagram. Ele mantém um ateliê em São Francisco (EUA).

Em suas fotografias, Chibimo reconstrói pequenas cenas dos anos 1950. Além de divulgar sua obra pelo aplicativo, aproveita o espaço para vendê-las.

Autointitulado o “maior museu de grafite a céu aberto”, o Instagrafite compartilha grafitagens com seus 426.536 seguidores em ruas de várias cidades do mundo.

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luciano silva/divulgação

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Ciranda Bordadeira

ARTE COM TODAS As LINHAS TEXTO Mariana Oliveira

A imagem é clássica: uma senhora de idade sentada numa cadeira de balanço, bordando

flores e ocupando seu tempo. Dificilmente, alguém vai imaginar algo diferente quando ouvir falar de uma bordadeira. No senso comum, essa atividade manual está associada à mulher, dona de casa, que, pela falta do que fazer, decide dedicar-se ao bordado. Mas nem sempre é assim. O grupo Ciranda Bordadeira (SP) reúne em torno desse ofício mulheres de todas as idades, com perfis diversos e profissões mais diferentes ainda. Elas se encontram periodicamente para conversar, trocar experiências e bordar. Os resultados não estão apenas decorando suas casas ou servindo como presentes para conhecidos. As peças – extremamente delicadas e coloridas – têm ganhado status de expressão artística. A inspiração para bordados tão complexos vem de variadas referências. O grupo trabalha com séries temáticas ou escolhe como mote uma obra (da literatura, da pintura...) e, a partir dela, passa a fazer releituras de seus elementos. Uma das produções mais recentes foi documentada no livro Bordados do Brasil: a arte de Militão dos Santos, organizado por Jaci Ferreira (SP) e Olinda Evangelista (SC), que contou com a participação de 15 bordadeiras e um bordador, com lançamento previsto para fevereiro próximo. Cada um dos participantes escolheu uma obra do artista pernambucano e empreendeu um processo de livre interpretação. As peças exploram a vibração das cores, algo caro a Militão, que costuma afirmar que elas representam “o prazer e a felicidade da alma no momento da criação”. Assim como na obra original, esses bordados expressam muito

Página anterior 1  Fantasia

 peça de Vera A Simonetti baseouse na obra Nu, de Montserrat Gudiol

Nestas páginas 2 releitura

 o transpor a A obra de Militão dos Santos para o bordado, Olinda Evangelista conseguiu manter a vibração das cores

Djanira 3  A obra Tocador de realejo inspirou a bordadeira Flávia Herriges

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imagens: reprodução

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Portfólio

bem o imaginário afetivo e social brasileiro. A simplicidade, os traços rústicos da obra do mestre parecem se adaptar perfeitamente aos pontos dos bordados, num diálogo interessante. O livro é um desdobramento do trabalho que deu origem ao grupo. Jaci Ferreira, coordenadora do Ciranda Bordadeira, conta que tudo começou quando uma aluna do seu curso de bordados disse que gostaria de tecer um quadro de Van Gogh. A ideia se alastrou e o grupo se formou com o intuito de apresentar uma exposição inspirada em alguns pintores. O primeiro passo foi selecionar artistas que fossem “bordáveis”. Aqueles com trabalhos extremamente abstratos tornariam a confecção das peças mais complicada. A mostra Bordando os sete, cuja exibição inicial aconteceu em março de 2012, trouxe 20 peças inspiradas nos trabalhos de sete artistas: Anita Malfatti, Djanira,

4 FELICIDADE Vilma Simas e Jaci Ferreira assim interpretaram o tema

Matisse, Monet, Van Gogh, Montserrat Gudiol e Militão dos Santos. Enquadradas e vistas a distância, as obras feitas com linha e agulha pareciam ter sido realizadas com tintas e pincéis. Além de homenagear os pintores, as peças buscavam revigorar o bordado como expressão artística. A exposição reunia cinco trabalhos inspirados em Militão dos Santos. Quatro foram escolhidos e, a partir deles, foram feitos mais 12 inéditos, para compor o livro. No segundo semestre de 2012, o grupo dedicou-se a outro projeto, uma mostra cujo tema seria “felicidade”. Depois de trabalhar com base num material mais concreto, foi um desafio transformar algo tão subjetivo em imagem. As bordadeiras tentaram dar uniformidade de expressão com formas, cores e texturas harmônicas que propiciassem sensações de conforto e bem-estar e, além disso,

5 Infância Mieko Makino explorou as memórias de criança

suscitassem no público percepções análogas provenientes de suas próprias memórias. A infância como referência de felicidade foi uma constante. Agora, o grupo se prepara para construir bordados com o tema “memória”. O processo de criação é demorado. Podem transcorrer de três a seis meses na conclusão de uma única peça. O trabalho tem início com um pedaço de linho ou brim, que servirá como base para receber as linhas e fios. As autoras traçam no papel as imagens que pretendem transpor para o pano e, a partir daí, começam a feitura manual. Em alguns casos, é possível aquarelar a base, marcando com cores o que seria o céu, a terra, o horizonte, dando perspectiva ao bordado. Os relevos são um detalhe à parte. É preciso adensar as linhas que, ganhando volume, dão às peças um aspecto tridimensional.

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Fotos: divulgação

morte com luA

História de amor e protesto Rick Blaine e Ilsa Lund formam um dos mais emblemáticos casais do cinema. Sua agridoce história de amor é o fio condutor do filme que se encontra entre os primeiros lugares das listas dos melhores de todos os tempos e que, neste mês, completa 70 anos de lançamento, Casablanca. O marcante drama dos personagens interpretados por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman se sobrepõe até mesmo às circunstâncias da narrativa, a Segunda Guerra Mundial. No entanto, essa ambiência histórica não pode ser esquecida. Rodado durante o conflito, o filme era abertamente antinazista. A cidade de Casablanca, no Marrocos, foi um dos pontos-chave para os refugiados da Europa. Por conta disso, a produção contou com uma equipe formada por profissionais de 34 nacionalidades – os únicos americanos eram Bogart, Joy Page (Annina Branel) e Dooley Wilson (o pianista Sam). Já os atores que interpretaram os nazistas eram, curiosamente, judeus. O único alemão autêntico a interpretar um oficial nazista foi Conrad Veidt (Major Strasser). O ator, na realidade, era conhecido por seu ódio a Hitler e seguidores. Após descobrir que a SS tinha enviado um esquadrão para matá-lo, foi forçado a fugir de seu país. Um pouco antes de Casablanca, em 1939, com Confissões de um espião nazista, o Warner Bros havia sido o primeiro estúdio de Hollywood a mostrar sua oposição ao regime e proibir a distribuição de filmes em territórios ocupados pelos nazifacistas. DÉBORA NASCIMENTO

con ti nen te

A FRASE

“Manejar o silêncio é mais difícil do que manejar as palavras.” Georges Clemenceau

Como muitas vezes a mentira tem mais sabor que a verdade, a versão romântica sobre a morte do poeta chinês Li Bai (701-762) esmaece qualquer outra. Dizem que ele morreu afogado, quando caiu do barquinho em que estava, tentando abraçar a Lua refletida no rio. Li Bai estava embriagado, asseguram. É proverbial seu apego ao álcool, expresso em alguns dos quase 900 poemas que legou ao mundo. Entre eles, Bebendo sozinho pode ter sido a fonte da sua fantasiosa causa mortis: “Sentado, bebo sozinho,/ indiferente ao crepúsculo./ As flores caídas/ acumulam-se nas dobras de minha túnica./ Bêbado me levanto/ e procuro a Lua nas águas./ Os pássaros já se foram todos./ São raros os passantes”. (Adriana Dória Matos)

Balaio li bai e wang wei

Assim como Li Bai ficou conhecido como o “poeta imortal”, Wang Wei (701761) foi chamado de “poeta budista”. Contemporâneos e ilustres representantes da poesia clássica chinesa, Bai e Wei trilharam caminhos diferentes, mas chegaram ao profundo e contemplativo contato com a natureza, distanciando-se do convívio social. Enquanto Bai, desde a juventude, foi um outsider, um iconoclasta hedonista, antipatizado pelos que seguiam as regras da dinastia Tang, à qual pertencia, Wei traçou o “caminho do meio”, submetendo-se aos padrões sociais, à medida que conquistava respeito e admiração pela sua excelência na criação em música, pintura e poesia. Quando pôde, saiu de fininho, e foi se recolher Na montanha, título desse poema de bela imagem: “Rochedos brancos/ da torrente emergem. Folhas vermelhas, aqui e ali, sob o céu gelado./ Não choveu/ na trilha da montanha,/ mas o azul do vazio/ molha nossas roupas”. (ADM)

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criaturas

gênio louco O cinema costuma abrigar pessoas excêntricas. Uma delas certamente era Peter Sellers (na foto, com Sophia Loren). Assim como seus personagens, o astro inglês, um dos maiores gênios da atuação, tinha também comportamento esquisito. Certa vez, um de seus filhos fez uma baita traquinagem: pintou uma listra branca no carro conversível vermelho do pai. Como castigo, Sellers quebrou o trenzinho do garoto, para mostrar que o menino havia destruído o brinquedo paterno. Ao contracenar com Sophia Loren, em The millionairess (1960), apaixonou-se pela atriz e, pior, pensava que era retribuído. Não teve dúvida, reuniu a esposa e os dois filhos (que eram apenas crianças), e anunciou que não poderia mais continuar casado, pois ele e Sophia estavam loucamente apaixonados. Ao saber do ocorrido pela boca do ator, a beldade italiana ficou estupefata com a atitude do colega de trabalho. (DN)

anúncio na pele Engana-se quem pensa que o mercado publicitário já esgotou suas opções de suporte. A pele humana tem despontado como um importante veículo para divulgação de uma marca. Billy Gibby, mais conhecido como Billy, The Human Billboard (“O Classificados Humano”), tem mais de 30 tatuagens patrocinadas espalhadas pelo seu corpo, inclusive no rosto (espaço mais caro e mais valorizado). Ele, que é boxeador, começou vendendo tatuagens temporárias, que seriam exibidas durante as lutas. Mas um problema de saúde de um amigo de infância fez com que o americano fizesse uma tatuagem permanente por três mil dólares. A solidariedade terminou virando seu ganha-pão. A tatuagem de um cassino lhe rendeu 10 mil dólares. Mas, ao que parece, Billy não está sozinho. No site Rank my Tattoo, é fácil constatar que o número de pessoas que já tatuaram anúncios não é pequeno. (Mariana Oliveira)

Décio Pignatari (1927-2012) Por Bruno Liberati

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cidAdeS

TUDO AO REDOR É SOM co n t i n e n t e ja n e i r o 2 0 1 3 | 2 2

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ricardo moura

Há mais filosofia no ranger dos

Somos condicionados e perpassados pela paisagem sonora contemporânea, simultaneamente abstrata e ubíqua TEXto Carol Leão

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saltos altos da sua vizinha do que julga sua humilde paciência. Há mais política no barulho da construção ao lado do que imagina sua resignação com o ritmo da cidade – cujo desenvolvimento imperativo não tem piedade alguma com o limite sonoro que se pode suportar diariamente. É intrínseco à experiência moderna o desenvolvimento econômico e material capaz de promover o bem-estar social, dirão os desenvolvimentistas. É inerente à condição moderna, também, o confronto entre o coletivo e o individual. Existem diversas formas dessa relação entre social e pessoal se estabelecer e revelar sua complexidade. Entre elas, a convivência urbana com o som, o ruído e seu contrário, o silêncio. Numa síntese: a coexistência com a paisagem sonora. Sendo esta a ambiência formada pelos sons característicos do meio geográfico no qual uma cidade se encontra (ruídos do mar, clima, fauna e flora) e pelos recursos técnicos relacionados ao seu fluxo diário. Segundo o músico e ensaísta José Miguel Wisnik (O som e o sentido), sons e ruídos são elementos não materiais, tangíveis pela identificação com as sensações permitidas pela visão e pelo tato. Onde estão o som e o ruído, afinal? No barulho do vizinho, na buzina do carro, na britadeira da obra, no carrinho de CD pirata? Somos condicionados e perpassados pela paisagem sonora contemporânea, simultaneamente abstrata e ubíqua. Mas nos acostumamos a localizá-la nos objetos que a reverbera. O professor de Arquitetura e Urbanismo da UFPE, Ruskin Marinho, diretor de Estudos Regionais e Urbanos, na Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco/Condepe Fidem, frisa: é preciso diferenciar som e ruído, sendo o segundo “todo som não desejado, pelo incômodo físico e psicológico que causa”. Wisnik nos mostra que a natureza oferece dois grandes modos de experiências sonoras. “Frequências regulares, constantes, estáveis como aquelas

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con cidades ti nen te bernardo soares/JC IMAGEM

que produzem sons afinados, com altura definida; e frequências irregulares, inconstantes, instáveis, como aquelas que produzem barulhos, manchas, rabiscos sonoros e ruídos.” O som pode despertar o mais sublime dos sentimentos pela emoção da música, melódica, harmônica. O ruído se coloca de forma inconveniente e perturbadora, sendo, inclusive, um dos grandes motivos de estresse urbano e social. Em A afinação do mundo, Murray Schafer, analisando a década de 1970, vaticina que o ambiente acústico das grandes cidades mudou radicalmente nossa percepção e cognição. “Pode-se dizer que em todo o mundo a paisagem sonora atingiu o ápice da vulgaridade”, ele afirma. O ruído precede o som, pois o universo se apresenta acusticamente de forma desorganizada e irregular. É a partir da ordenação desse caos que o ruído se transforma em música. Enquanto o som, organizado, tem sua periodicidade e constância (também estando ligado à tradição e aos costumes), o ruído altera a estabilidade, de modo defasado e irracional. Para Wisnik, aliás, o complexo corpo/mente é uma medida referencial das frequências sonoras. “Toda a nossa relação com os universos sonoros e a música passa por certos padrões de pulsação somáticos e psíquicos, com os quais jogamos ao ler o tempo e som.”

MARCOS SONOROS

A emissão de sons, por mais espontânea que seja, é uma experiência física complexa, e resulta nessa apreensão somática e psíquica, que, não à toa, pode emocionar e perturbar intensamente. Um fenômeno acústico que implica também interpretação e interpenetração, já que os elementos que compõem e produzem os sons são compartilhados pelas comunidades e estão providos de significados culturais e simbólicos – sejam os elementos orgânicos de uma comunidade (seus rituais, como procissões, festas e ritos religiosos, além, claro, do ecossistema natural) ou a dinâmica tecnológica que a envolve (fluxo viário, verticalização etc.)

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DIVULGAÇÃO

Página anterior 1 comércio

Os vendedores usualmente atraem seus compradores com alto-falantes

Nestas páginas 2 construção civil

O crescimento da cidade produz sons e ruídos constantes

murray schafer 3 Pesquisador concluiu que o ambiente acústico das metrópoles mudou nossa percepção e cognição

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“Cada paisagem sonora tem seu próprio som peculiar e com frequência esses sons são tão originais, que constituem marcos sonoros”, explica Schafer, no estudo citado. O problema, segundo o teórico, é quando essa identidade sonora é anulada pela enorme quantidade de ruídos advindos do próprio desenvolvimento tecnológico. “Os sons das máquinas popularizam um simbolismo feliz de cerca de 200 anos, quando se percebeu que eles poderiam libertar o homem de sua imemorial ligação com a terra. Tradicionalmente, a máquina simbolizou duas coisas: poder e progresso. Desde o advento da Revolução Industrial, o homem ocidental tem sido enfeitiçado pela velocidade, eficiência e regularidade da máquina e pela extensão pessoal e corporal que ela faculta.” Resumindo: estamos até dispostos a sacrificar-nos em nome do processo civilizador, desde que ele signifique evolução econômica e estrutural. Mas a que preço e para quem? Tal disposição reporta-nos a questões essenciais do caráter

A emissão de sons é uma experiência física complexa, e resulta numa apreensão somática e psíquica que pode perturbar modernizador das cidades. Algo que Manuel Bandeira, em 1922, já abordava liricamente no poema Evocação do Recife, escrito no tempo em que eram os automóveis, e não os edifícios, os índices de modernidade da cidade. A nostalgia de sons passados como os dos mascates ou dos pregoeiros, hoje substituídos por toda sorte de vendedores, que atraem sua clientela com os sons dos eletrônicos chineses, também é sentida pelo sociólogo Jonatas Ferreira. Pregões, cantorias, cantos e instrumentos que outrora marcaram o cotidiano da cidade e ajudaram a fomentar sua identidade, associada ao empreendedorismo holandês, resistem em um novo formato.

“A verdade é que os pregoeiros de algum modo ainda habitam o subúrbio recifense. Só que dispõem de uma insuportável aparelhagem de som para vender desde candidato a vereador até sorvete: ‘Venha e traga a vasilha. Três bolas só paga um real’. Vendedores de fruta também há, embora já não cantem seus anúncios. Parece que a única coisa que consegue fluir numa cidade paralisada, como se tornou o Recife, é o ruído”, diz o sociólogo. O jornalista e DJ Renato L acredita que o crescimento econômico, com distribuição de renda nas camadas mais populares, intensificou a barulheira gerada por artefatos do período fordista (televisão, carros), com consequências para o ecossistema sonoro da cidade como um todo. “Além disso, o incremento da miniaturização e da portabilidade trazidos pela tecnologia digital ajudou a saturar esse ecossistema com novos e velhos ruídos – basta pensar na imensa variedade de ringtones que cercam nosso cotidiano.” O DJ observa outra consequência dessa nova paisagem sonora: a “blindagem”, por meios dos gadgets. “Muitas das experimentações artísticas da modernidade foram inspiradas pelo ecossistema sonoro das grandes cidades, com o barulho dos carros, as milhares de conversas cruzadas, o ritmo das falas, as narrativas aos pedaços...Tudo isso se perde quando você se fecha numa bolha auditiva que o protege do noise das ruas, individualiza (e empobrece) uma experiência que, antes, era bem mais coletiva”.

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CACOFONIA Como as pessoas reagem aos sons

Se, para uns, o som amplificado nos carros significa ruído ensurdecedor, para outros, em geral, os usuários, pode soar como calmante TEXto André Dib Fotos Ricardo Moura

Estalos, buzinas, gritos, alarmes, sirenes, rugidos de motor. Ruídos de alta e baixa intensidade, música, propaganda, protestos, gente. Muita gente. Todos os dias, as grandes cidades geram sons de toda a sorte. Sintoma da desordem urbana, hoje a sinfonia da grande cidade está mais para cacofonia. Uma realidade inevitável, que influencia, e muito, a forma como nos relacionamos. Entre os extremos – há quem se estresse e há quem simplesmente não se importe – vejamos as diferentes formas de se lidar com o excesso de informação sonora. Recife. Uma tarde qualquer, a luz do sol queima na calçada da Avenida Dantas Barreto. Num pequeno quadrante, pedestres esperam o ônibus – ali convivem vendedores de frutas, peixes, cigarros e caranguejos. O jovem DJ Eduardo, codinome Dudu Boladão, vende CDs e as próprias seleções de sucessos do funk. “Quando alguma loja reclama, abaixo o volume, mas, se não tocar alto, não dá pra vender o produto”, diz Dudu. Um carrinho amplificado de música cristã também “dá o seu recado”. A balconista da farmácia diz que não se incomoda com o fuzuê. Logo ao lado, no balcão de crédito pessoal, as funcionárias desmentem. Para seguir ao fim do expediente, precisam

de analgésicos. “Fica difícil atender chamadas ao telefone. Quando chego em casa, ainda tenho que aguentar o som alto do vizinho”, diz Rilânia Monteiro. Em determinada hora do dia, a própria empresa em que trabalham liga o sistema externo de som, para chamar novos clientes. De tempos em tempos, funcionários da Diretoria de Controle Urbano (Dircon) colocam alguma ordem no caos. A cada seis meses, os mesmos funcionários municipais visitam a Rua Mamede Simões, polo etílico-cultural do local e um dos redutos da boemia ao ar livre no Bairro da Boa Vista. Mesas são recolhidas das calçadas, que, no dia seguinte, voltam a ocupar a via pública. São oito bares em um trecho de menos de 100 m, o que tem gerado embates com os moradores. Pessoas precisam dormir. Síndico do prédio exposto ao burburinho, Janeilton Pereira diz que os problemas começaram quando surgiu o Bar Central. “Antes, havia uma boa convivência com os outros bares. Mesmo com o regimento do edifício proibindo esse tipo de atividade, o condomínio fazia vista grossa. Depois que o Central abriu, o incômodo ficou maior.” Proprietário do Central, André Rosemberg não se sente responsável pelo transtorno. Desde que inaugurou o

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bar, em 2005, a parte interna foi isolada acusticamente. No fim de 2011, após mais uma notificação da prefeitura, só voltou a posicionar suas mesas na calçada com autorização oficial. Foram 10 meses de espera. Atualmente, o horário máximo de atendimento ao ar livre é até a meia-noite. Os demais bares, que acolhem o público excedente, não recebem reprimendas e agem como se a conversa não fosse com eles. Rosemberg espera que a gestão municipal desenvolva, em 2013, uma política de ordenamento para ocupação dos espaços públicos. “Há muitos anos, o poder público não demonstra interesse em encarar seriamente a questão. A Prefeitura do Recife proíbe, em lei, o uso de calçadas e outras áreas públicas, mas,

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na prática, estimula a ocupação irregular e desordenada dos espaços públicos, ao fechar os olhos e tolerar todo tipo de utilização”, diz Rosemberg, em carta aberta aos clientes. Um exemplo de quem extravasa gerando o próprio barulho é Leonardo Seabra, dono de uma equipadora de som para automóveis no Arruda, zona norte do Recife. Dentro de seu carro, um Gol azul-marinho, ele ajusta os alto-falantes para a comemoração de seu aniversário, em Itamaracá. “O som é meu, mas a música é de todo mundo”, diz. Para ele, o grande barato é a sensação de criar uma festa, ver todos dançando com a vibração do som. “Não quero briga, quero trazer alegria. É como

estar num show, sendo que você coloca o artista que quiser.” Leo já teve problemas com polícia e hoje defende o uso consciente. Apenas aumenta o volume longe dos vizinhos. Para testar o equipamento dos clientes, vai até o canal mais próximo. E só aumenta o próprio som em festas e na praia, onde a música se dissipa no mar. Enquanto se movimenta no trânsito, fecha as janelas e faz uma demonstração. O ar pressiona suas costas a cada batida grave. No sinal fechado, os carros ao lado tremem. “Tenho prazer de escutar som alto, me acalma”. Toda semana, ele participa do Quintas dos Paredões, quando cerca de 40 aficionados por som alto se encontram para praticar o hobby, num

grande estacionamento na Avenida Perimetral Norte. “Paredão” é o nome dado ao conjunto de caixas de som, que, literalmente, formam uma parede ou outros formatos, o que leva o amálgama carro + som ser apelidado de transformer. Adepto do equipamento modesto, que cabe dentro do portamalas, Leo conta que não há limites para um paredão, desde que ele esteja ligado em baterias automotivas. Seis carros já foram interligados no mesmo sistema. Um megatransformer.

CONVIVÊNCIA

No Bairro das Graças, um dos fundadores da banda Mombojó, o músico Marcelo Campello, tem problemas com a poluição sonora. Nos prédios ao lado da

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con cidades ti nen te Página anterior 4  rua mamede simões Moradores da rua do Bairro da Boa Vista reclamam do barulho produzido pelos frequentadores dos bares Nestas páginas 5  leo som A equipadora de Leonardo Seabra instala “paredões” (conjunto de caixas de som) em automóveis

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Marcelo campelo Músico lançou abaixo-assinado contra o uso de alarmes sonoros de garagem

7-8 ferramenta Thelmo Cristovam e Nicholas Hallet desenvolvem pesquisas sonoras

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sua casa, alarmes sonoros de garagem são disparados em coro, no entra e sai dos automóveis. Para preservar os ouvidos na hora de estudar ou compor, ele fecha as janelas, liga o ventilador e usa um protetor de ouvidos. “Assim como com o ar poluído das cidades, nos acostumamos com a poluição sonora, mas ela não deixa de nos envenenar.” Em outubro, Marcelo lançou um abaixo-assinado contra o uso indiscriminado de alarmes sonoros de garagem (peticaopublica. com.br). “No abaixo-assinado são solicitadas alternativas não poluentes, ressaltando o viés educacional.” Um grupo foi criado no Facebook para discutir o tema e divulgar notícias. Com um mês online, 325 pessoas assinaram

a petição. “Em breve daremos entrada no processo”, diz o músico. “Muitos países com IDH referencial adotam alternativas não poluentes, e é esse tipo de demanda que está surgindo aqui, diante do caos que se formou.” Outros alvos potenciais do movimento são os alarmes de marcha reversa de automóveis e os alarmes antifurto. “Pelo excesso de alertas falsos, eles são desacreditados em situações reais, tornando-se inúteis, inclusive atrapalhando o trabalho da polícia”, diz Marcelo. Há o caso de um flagrante em vídeo de um alarme disparado sem necessidade feito pelo músico e artista visual Grilo, no centro do Recife. “Tratase de uma agência de publicidade, com um sistema que, sem nenhum motivo,

toca incessantemente, de madrugada até de manhã. O recepcionista diz que só o dono pode desligar o alarme”. Um dos signatários da petição é o artista sonoro e pesquisador em psicoacústica Thelmo Cristovam. “Assinei, com ressalvas. Para mim, o problema não está nos ruídos, mas nas pessoas e tudo o que vem com elas.” Para Thelmo, a definição de barulho passa por convenções políticas e culturais. “Em nível de decibéis, a Mata Atlântica é mais barulhenta do que o centro de São Paulo. Acredito que ninguém gosta do som do trânsito, porque nele estão pessoas indo para compromissos. Ruídos de máquinas são perturbadores porque estão ligados ao mundo do trabalho. Sons de insetos não são harmônicos e as pessoas vão para o mato e acham lindo.” A audição humana é muito mais eficiente do que um microfone pode captar. Além disso, é guiada pela subjetividade. “A nossa escuta é seletiva e simbólica”, diz Thelmo. “O ruído branco (combinação de todas as frequências) incomoda na TV fora do ar, mas é o mesmo ruído considerado relaxante quando vamos à praia”. Entre os projetos de Thelmo está o Fonofotografia, que produz cartõespostais visuais e sonoros de diferentes lugares de Pernambuco, em parceria com o fotógrafo Luiz Santos. Ambientes como a Ponte Princesa Isabel, o interior dos ônibus que se deslocam pelo Recife e o Marco Zero são gravados por hidrofones (microfones subaquáticos) e microfones de contato, que transformam vibrações mecânicas em sons. O resultado surpreende, pois transforma ruídos irritantes em um mantra suave e acolhedor. Por outro lado, ao reconstituir o ambiente sonoro de Olinda, do Vale da

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Lua (litoral sul de Pernambuco) ou da Usina Catende, Thelmo faz um apurado trabalho de edição e mixagem, de forma a se aproximar ao máximo à audição direta. “Parece que não há cortes, é uma analogia perfeita da experiência de estar no local. As pessoas dizem que eu não tenho humor, mas esse trabalho funciona também como uma piada interna, fazer o ouvinte acreditar que escuta exatamente o que eu escutei.” O projeto está na íntegra na internet, no fonofotografia.com. Assim como Luigi Russolo (A arte do ruído: manifesto futurista, 1913), Eric Satie (Música de mobiliário, 1920), John Cage (4’33’’, 1952, e Silence, 1961), Pierre Schaeffer (Tratado dos objetos musicais, 1966) e Murray Schafer (A afinação do

mundo, 1977), Thelmo compõe com ruídos, definidos por ele como “sons sem relação harmônica entre si”. Sua arte nem sempre é considerada música, avalia ele, por limitações semânticas. “Desde os gregos, a arte ocidental rejeita a frequência de sons sem relação com números inteiros. Para ela, beleza é justeza. Mas todo o jazz é baseado na blue note, a nota dissonante, não perfeita. Quando foi criado, o jazz era considerado barulho e hoje é sinônimo de bom gosto.”

FAUNA SONORA

Problemas entre vizinhos se tornaram regra nas grandes cidades e a livre propagação de ondas sonoras, que não respeita propriedade pública ou

privada, é certamente um dos pivôs. No entanto, há recantos como o Sítio Histórico de Olinda, onde essa relação pode ser mais tranquila. O técnico de captação de som Nicolas Hallet diz que sim. Residente da Rua da Boa Hora, o imigrante de origem belga diz que passou os últimos 15 anos suportando a cultura sonora da Bahia. “Salvador foi eleita a cidade mais barulhenta da América Latina. Essa foi uma das razões de eu ter fugido de lá. Há desrespeito da vizinhança com relação ao som. Ele é usado como uma arma, quem toca mais alto tem mais poder. E, diferentemente de Olinda, o governo municipal nunca respondeu a isso.” O Sítio Histórico é como uma ilha isolada da atribulada região metropolitana do Grande Recife, uma realidade à parte, com uma triangulação sonora singular. Do quintal de Nicolas, os sinos das igrejas e os cânticos dos monges e freiras se confundem com os sons emitidos da casa ao lado, um terreiro de candomblé de onde se ouvem as obrigações, rituais de jurema, leitura de búzios e batidas do maracatu. Na Rua 13 de Maio, há os ensaios de uma escola de sanfona. Na esquina, funciona o Bar de Zé Bento, que espalha a algazarra dos bêbados. A fauna local inclui gatos, cachorros e galos, que se misturam ao zumbido de insetos. “Vivemos uma forma de antropologia urbana, onde tudo se mistura, sem conflito. Há menos privacidade, pois podemos ouvir o vizinho tomando banho e usando a cozinha. E sabemos que ele também nos ouve. É uma vida coletiva, em que todos se respeitam.” Embora Nicolas seja diariamente acordado por passarinhos, de seu quintal, já ouviu tiros vindos de uma comunidade que fica a duas quadras abaixo. “Se você deixa a janela ou porta abertas, a cada cinco minutos, alguém te chama para pedir dinheiro ou comida. Há também os vendedores de canjica, amoladores de faca.” À noite, a calmaria é tanta, que é possível ouvir os passos e a conversa de quem desce a ladeira, de longe. “Silêncio não existe, ao menos não neste planeta. Se você isolar acusticamente uma sala, vai ouvir os sons do próprio corpo. Se deixar na sala apenas um microfone, vai ouvi-lo funcionando.”

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CONDIÇÃO O silêncio como utopia

Produzimos e consumimos sons desagradáveis, ao mesmo tempo em queremos a sorte de uma vida urbana livre do barulho gerado pelo “outro” TEXto Carolina Leão Fotos Ricardo Moura

Para o educador Murray Schafer, autor de Afinação do mundo, obra referencial sobre os estudos da paisagem sonora contemporânea, o som original de cada comunidade e a relação desta com o meio ambiente (ou seja, a natureza) vem sendo obliterado com a supremacia da tecnologia, maior produtora de ruído, de acordo com o teórico. “A cidade moderna não apresenta esses ritmos acústicos deliberados, como a aldeia ou a paisagem sonora natural. Ou melhor dizendo, a grande profusão de ritmos faz com que eles se anulem uns aos outros. A principal característica da paisagem sonora da cidade é o movimento fortuito”, explica. “Hoje, o mundo sofre de uma superpopulação de sons: há tanta informação acústica, que bem pouca coisa dela pode emergir com clareza”, completa. O sociólogo Jonatas Ferreira cita David Le Breton (Do silêncio), para quem o silêncio em nossa sociedade só é possível como avaria, quando nossos equipamentos quebram. Em resumo: o silêncio é uma utopia e encontrar uma zona de conforto na cidade, seria praticamente contar com o surgimento de um Eldorado. “Estamos fadados à fala compulsiva e, quando a garganta cansa, preenchemos o vazio com outros ruídos da sociedade da informação. Mais

A blindagem do ruído também significa mais barulho, como o do ar-condicionado, do MP3, do home theater uma vez, podemos ter a ilusão de que o ruído seja um problema tópico e de que adquiriremos o silêncio fundamental ao exercício de nossa subjetividade”, complementa Jonatas, apontando para a já conhecida saturação de informações da cultura contemporânea. Mais eis aí nossa grande contradição. Produzimos, consumimos, fomentamos tais sons desagradáveis e, ao mesmo tempo, queremos a sorte de uma vida urbana tranquila, sem os excessos ou confrontos com os quais estamos fadados a conviver. “De algum modo, cada um tenta adotar uma estratégia específica de isolamento. Mas essa blindagem sempre significa mais ruído, quer este venha do ar-condicionado, do aparelho de MP3 ou, no caso dos mais afortunados, de sofisticados sistemas de som, home theater, o que seja. O silêncio já não é uma possibilidade cultural da vida contemporânea, embora possamos ter a ilusão de que é sempre possível

uma solução técnica”, acredita Jonatas. As últimas décadas criaram tanto ruídos quanto soluções para os mesmos. Ruskin Marinho, professor de Arquitetura e Urbanismo da UFPE, afirma, porém, que as preocupações com o assunto não são novidade. Na Roma Antiga, já se falava em tal incômodo. “Antes de se abordar o controle do ruído, poder-se-ia pensar em não produzi-lo. Os ruídos são realmente necessários? Há como diminuir a sua produção? De quem é essa responsabilidade?” Ele aponta que, no meio urbano, a evolução foi lenta e, mesmo assim, alternativas como uso da vegetação e de ordenação do espaço ainda são pouco utilizadas. “Até hoje, ainda há muita desinformação; ou pior: a má informação, por parte dos gestores e da população, o que poderia ser transformado por meio de estudos. Algumas espécies vegetais são indicadas para o controle de ruído, outras não. Isso vai depender de estrutura, porte, densidade, entre outros importantes aspectos, sobretudo pelo agrupamento dessas espécies e da área onde se localizam”. A observação do especialista toca num aspecto delicado: com a concorrência da construção civil, temos menos áreas verdes e zonas de conforto, uma vez que a discussão sobre paisagismo e a preservação das espécies endêmicas é ainda incipiente.

DECIBÉIS

Quanto à legislação, muitas cidades, como o Recife, possuem leis específicas para o controle do barulho, a partir do grau de incômodo de determinados usos e atividades, de acordo com o zoneamento da cidade, do Plano Diretor e da Lei de Uso e Ocupação do Solo. Uma delas é a Lei Municipal 17.677, de 16 de dezembro de 2010. Ela obriga as construtoras a entregar salões de festas dos edifícios equipados com isolamento acústico. Isso vale para os novos empreendimentos. Os antigos têm até cinco anos para se adequarem a norma, ainda pouco conhecida pelos pernambucanos, mas homologada há dois anos. Ela fixa em 70 decibéis o índice suportável para a produção de ruídos em áreas residenciais. Segundo o site da Sociedade Brasileira para a Qualidade

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Acústica (proacustica.org), só no ano passado, o estado recebeu quase 4 mil ligações com reclamações sobre a poluição sonora, sendo 43% referente a incômodos causados pelos vizinhos. No site, outros ruídos, como carros de som e carrocinhas de CD, barulho de bares, construção civil e até mesmo igrejas completam as reclamações. De acordo com a norma NBR 10152 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), os níveis de conforto num ambiente doméstico giram em torno de 40 e 35 decibéis. O desconforto indica o mal-estar causado pela interação compulsória que cerca a vida doméstica contemporânea. Uma das provas cabais da modernidade é a extrema individualização do convívio social. Se pensarmos na época que antecedeu o período histórico, vamos lembrar, domesticamente, da pândega que era o cotidiano dos castelos. Ou, para

Os mais abastados se protegem. O isolamento acústico é também uma forma de isolamento social e espacial não irmos tão longe, lembremos os sobrados e casas conjugadas, que tanta história ofereceram para a literatura brasileira, com sua fartura de gente e escutas com as quais se criaram diversas lendas urbanas. A interdição do barulho na vida doméstica foi, aliás, um mecanismo usado pelas classes sociais antagônicas, como aristocratas e burgueses, para se diferenciar socialmente. Quem trata desse comportamento de forma eficiente é o sociólogo Norbert Elias (O processo civilizador). Ele

discute a “domesticação dos sentidos e das emoções”, a regulamentação do corpo e da atitude moderna. O autor cita manuais de etiqueta do século 17 que combatem o excesso de sons desagradáveis, sobretudo os físicos, como os arrotos, os barulhos à mesa. O objetivo das cartilhas seria transformar os cidadãos em “civilizados”, socialmente legislados, urbanizados, corteses; contrapondoos, assim, aos das épocas bárbaras, consideradas caóticas.

SCHHH!

Enquanto os ruídos da rua indicavam o progresso social, saudados com entusiasmo, a vida social dos burgueses deveria ser a mais comedida possível, civilizada e moderna em sua polidez. Até hoje, a questão do barulho permeia a relação entre classes econômicas, tendo a periferia levado a pecha de

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Página anterior 01-9  fluxos  O trânsito intenso é responsável por muito da poluição sonora Nestas páginas 10-11  parafernália Assim como o trânsito, o comércio ambulante ligado ao consumo de música torna as ruas mais ruidosas

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barulhenta, desde a época em que os cortiços surgiram no Brasil. Atualmente, o poder aquisitivo amplia essa diferenciação, à medida que os mais abastados conquistam, através de recursos tecnológicos, a oportunidade de uma vida doméstica e social menos barulhenta. “Os ricos se protegem como podem. O isolamento acústico é o equivalente do isolamento social e espacial, com os condomínios fechados, os clubes exclusivos, os muros altíssimos e esses tanques urbanos de vidros escuros que são os utilitários de luxo e esportivos”, comenta o jornalista e DJ Renato L. Naturalmente que, com essa extrema preocupação com a fronteira doméstica, a evolução tecnológica foi bastante significativa no que diz respeito a estratégias antirruído. “Em determinados projetos, já se consegue barrar a transmissão de até 50 decibéis, de uma sala para

outra, combinando-se materiais, formas e distanciamento entre panos de vedações. Há também os materiais absorventes (leves e porosos), utilizados para melhorar a qualidade do som em ambientes fechados e para impedir as reflexões e as amplificações indesejáveis. O desempenho deles é testado pela indústria e comprovado na prática. A funcionalidade acústica depende não apenas da especificação de materiais, mas também da disposição dos ambientes, de maneira a distanciar funções antagônicas, ou seja, aquelas que são emissoras de ruídos e aquelas que necessitam de silêncio”, detalha Ruskin Marinho. Do ponto de vista urbano, ele lembra que muitas cidades europeias, por exemplo, já passaram por intenso processo de urbanização, mas se mantêm, em média, bem mais silenciosas que as cidades

brasileiras. Ele destaca, ainda, que fatores como o aumento demográfico, de construção e serviços, responsáveis por essa saturação sonora, não estão apenas vinculados à verticalização, mas ao apinhamento dos serviços e dos fluxos viários. “O Recife cresce por justaposição das edificações, tanto quanto pela verticalização. Isso eleva a densidade populacional e de construção e faz mais pessoas morarem juntas e terem a necessidade de respeitar a individualidade dos demais”, afirma. “O Recife também cresce por meio da extensão de sua malha urbana, ampliando sua área. Nesse caso, conurbandose com os demais municípios da Região Metropolitana e levando populações a morarem cada vez mais longe. Isso gera a necessidade de deslocamentos, aumentando os ruídos provenientes dos automóveis.”

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CINEMA Sonoridades que formam imagens

Em vários filmes pernambucanos, os ruídos urbanos transformam-se em elementos importantes da narrativa, como em O som ao redor TEXto André Dib

Na primeira sequência de O som ao redor, a câmera acompanha um grupo de crianças no playground de um condomínio, protegido por muros e telas. Aos poucos, o barulho da algazarra infantil é substituído pelo ruído de uma serra elétrica, que espalha faíscas ao fatiar uma grade de ferro no edifício ao lado. Um pouco mais adiante, de

madrugada, latidos fazem Bia (Maeve Jinkings) jogar um bolo de carne com sonífero para o cachorro do vizinho. Eis o tema central do primeiro longa de ficção de Kleber Mendonça Filho: a cidade como ambiente estranho e inóspito. Antes de tudo, uma extensão do ser humano. Impertinente, o som invade e rompe a vida íntima.

Condiciona subjetividades. Em determinados momentos, para além do realismo, ruídos adquirem contornos quase fantásticos, ao trazer para a consciência, em Dolby 5.1, um mal-estar que diariamente nos empenhamos em sufocar. Em O som ao redor, passado e presente tomam forma de thriller psicológico que, aos poucos, transforma-se num western urbano de terror e vingança. A trama se sustenta em torno de moradores de uma rua de classe média do Recife, onde mais da metade dos imóveis pertence a um único dono, Francisco (W.J. Solha), mais interessado em cuidar do seu engenho, que fica numa área rural, do que prestar atenção no grupo de vigilantes liderados por Clodoaldo (Irandhir Santos), que passa de porta em porta oferecendo proteção. A violência, no entanto, não está na ameaça de roubo ou invasão. Como uma herança maldita, está entranhada nos hábitos mais comuns.

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Em determinada sequência, quando o velho Francisco sai no escuro da noite para um banho de mar, a luz automática que se acende em frente aos condomínios é pontuada por um dummm, grave e tenso. E quando um flanelinha risca a traseira de um carro, o ruído é bem mais estridente que o natural. Senhor de seu universo, Kleber fala sério, mas também se diverte. “Kleber tem firmeza, uma ideia clara do que quer e domina a linguagem audiovisual. Sem um projeto específico para o som, o processo seria mais aleatório”, diz Nicolas Hallet, que, ao lado de Simone Dourado, assina a captação de som do longa. “Ele tem a função interessante de abrir o quadro. Se a câmera age de forma bastante delimitada (fecha nos atores e lugares fechados), pelo som, é possível sentir a cidade.” Nicolas explica que duas escolas predominam no cinema: uma, voltada

“O som não respeita limites impostos pelo mundo social. Muros e paredes não impedem o som do vizinho” Kleber Mendonça Filho Uma característica especial do trabalho de Kleber Mendonça é fazer filmes com um arrojado desenho de som, previsto em detalhes já no roteiro: “A maior parte dos filmes usa o som só para não ficar mudo. Isso é um desperdício, pois se perde a oportunidade de fazer outro filme. Vejo o cinema sempre em dois canais, imagem e som. É curioso, no curta Recife frio não tive essa relação, porque ele é uma sátira a um tipo de produto para a TV”. A trilha de áudio de O som ao redor é utilizada para compor campo e extracampo, um universo maior do que mostram as imagens. “O som não respeita limites impostos pelo mundo social. Muros, cercas e paredes protegem áreas privadas, mas alguém super-rico tentando curtir uma tarde na piscina não pode impedir que o som do vizinho discutindo com a namorada entre no seu território.”

à produção industrial; outra, artesanal. Na industrial, o trabalho com o som geralmente fica para depois e pode ser feito por dublagem, sons adicionais e captura após a filmagem. “Dizem que, em Hollywood, 80% do som é feito assim. Mas, para mim, CD de passarinho não convence”, diz Nicolas. “Não funciona colocar som em imagens feitas em outro lugar. No cinema artesanal, procuramos fazer um banco de dados do próprio filme, uma pesquisa sonora do lugar e oferecemos o material para o montador. Isso é muito rico, pois cria um arquivo com ambiências do lugar e a marca do filme.” Entre os projetos de Nicolas está um documentário sobre o músico suíço Anton Walter Smetak (1913-1968), que viveu os últimos anos de sua vida em Salvador e é considerado um dos pais do Tropicalismo. “Seu trabalho está ligado à música concreta, que não reconhece fronteiras entre som e imagem.”

12  abertura  O som ao redor tem início com um grupo de crianças no playground de um condomínio

ESTÍMULOS

No curta-metragem pernambucano A onda traz, o vento leva, o diretor Gabriel Mascaro utiliza o som de forma incomum. O belíssimo trabalho de áudio é digno de aplauso. Mas o filme vai além, ao propor ao espectador, por meio de um personagem, outras possibilidades de se relacionar com os sentidos. O personagem Rodrigo (Márcio Campelo Santana) tem problemas auditivos e, apesar disso, trabalha com manutenção de som automotivo. Mesmo sem ouvir, ele sente no corpo a vibração dos altofalantes. À noite, dança de acordo com a música, a partir de estímulos visuais, como o movimento de outras pessoas e um curioso sistema de LEDs instalado em sua camiseta. Por sua vez, o curta Praça Walt Disney, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, propõe-se a reorganizar os ruídos do Bairro de Boa Viagem, tendo como referência o longa de animação Fantasia (1940) e os filmes de Jacques Tati (Playtime). O resultado é musica composta com sons de buzinas, alarmes de carro e portões de garagem. Cinema (também) é música. Para realizá-lo, é preciso senso de composição, harmonia, execução, ritmo. Não raro, diretores comparam seu ofício ao de maestro. O cineasta Andrei Tarkovski comparava o movimento de atores no plano da imagem a notas musicais dispostas na partitura. Thelmo Cristovam chama a atenção para a separação desnecessária entre trilha sonora e ruídos. Em sala de aula, ele usa um exemplo clássico para ilustrar isso: Era uma vez no Oeste (Itália, 1968), de Sérgio Leone. “Na sequência de abertura, Ennio Morricone faz uma composição só de ruídos, com o chão de madeira sendo pisado, a chegada o trem, o vento, uma mosca, as armas sendo engatilhadas.” Na mesma época, lembra Thelmo, Morricone fazia parte do Gruppo di Improvvisazione Nuova Consonanza, que experimentava improvisações desse tipo. Seu filme preferido, no entanto, vem da Rússia: Stalker, de Tarkovski, “É um dos desenhos de som mais lindos do cinema.”

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NORONHA A outra face do paraíso Procurada por sua vocação de lazer, a única ilha habitada do arquipélago também guarda lendas, histórias de mistério e heranças de violência texto e fotos Fred Navarro

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Fernando de Noronha fica a 545 km do Recife e a 360 km de Natal. As praias que hipnotizam os turistas e os mergulhos com visibilidade de até 40 m são suas principais atrações, mas o arquipélago abriga histórias e mistérios que costumam se esconder do visitante mais apressado ou desatento. Ao longo do tempo, isolados parcialmente do país, mas não do mundo, seus habitantes herdaram lendas dos muitos navegantes que lá encontraram repouso em meio à travessia do Atlântico. O arquipélago foi ocupado e conquistado entre os séculos 16 e 18 por holandeses, franceses e portugueses, mas nesse período foi visitado com frequência por piratas e aventureiros de diversas origens, e a serviço de

inúmeros reinos e bandeiras (ingleses, alemães e espanhóis entre eles). Essa diversidade – aliada à contribuição da cultura continental, especialmente a pernambucana – gerou mitos ao longo dos séculos, e eles hoje enriquecem a memória e a cultura locais. Outro aspecto marcante na história do arquipélago diz respeito ao fato de ele ter funcionado, por mais de 300 anos, como presídio. Episódios dolorosos, decorrentes das violências praticadas na Fortaleza dos Remédios, na Solitária do Sueste e em outras dependências da ilha, são passados adiante, de geração em geração. Assim é que narrações do maravilhoso, do além-mar e memórias do cárcere formam um conjunto de

lendas, mitos e histórias de Noronha, contados pelos ilhéus e registrados por pesquisadores. Diante dos cenários onde supostamente ocorreram e das marcas que deixaram na ilha principal, somos levados a uma percepção do fantástico, para além do encantamento diante da beleza natural do lugar. A principal ilha é a única habitada das 21 que compõem o arquipélago. Com apenas 17 km2, tem histórias fascinantes e insuspeitas para contar, como as que se seguem.

CACIMBA DO PADRE

Em 1888, o padre Francisco Adelino de Brito Dantas, capelão do presídio da Fortaleza dos Remédios, descobriu água potável nas imediações da casa onde morava, na praia da Quixaba, e

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lá construiu uma cacimba de 14 m de profundidade. Sua fama espalhou-se tanto, que o nome da praia, nas décadas seguintes, passou a ser Cacimba do Padre. Situada na área central do chamado Mar de Dentro da ilha principal, a praia tem cerca de 500 m de areia branca, fica diante das imponentes Ilhas Dois Irmãos (indiscutível “cartão-postal” do arquipélago) e dá acesso, de um lado, à Baía dos Porcos, e, do outro, às praias do Bode, do Americano e do Boldró. Contam os ilhéus que o padre nunca se desapegou do lugar, que por ele seria assombrado. Registro do mal-assombro é feito por Campos Aragão, em Guardando céu nos trópicos: “Nas imediações da fonte, ruínas indicam grandes construções do passado, possivelmente a casa

onde viveu o legendário padre. Dizem que, à noite, o reverendo aparece no lugar, montado numa mula branca como a neve, chegando até a beira da cacimba, como a vigiá-la. E o lugar, silencioso e belo, guarda segredos jamais desvendados”.

ALAMOA

Luís da Câmara Cascudo, em Geografia dos mitos brasileiros, afirma: “É uma entidade fantasmagórica que aparece na ilha de Fernando de Noronha. É moça branca, loura, nua, tentando os pescadores ou caminhantes retardatários. Transforma-se depois em um esqueleto, endoidecendo o namorado que a seguiu. É também vista como uma luz ofuscante, policolor, perseguindo quem foge dela”.

Segundo a tradição, essa mulher inefável mora no Morro do Pico. Como lenda mais popular do arquipélago, nomeia pousadas, lojas, restaurantes e também uma importante estrada da ilha principal que dá acesso às preciosas praias do Meio e da Conceição. O pesquisador Pereira da Costa, no Folclore pernambucano: subsídios para a história da poesia popular em Pernambuco, considera a lenda da Alamoa “uma reminiscência do tempo dos holandeses”, quando os nativos pela primeira vez se depararam com mulheres brancas, altas e louras no arquipélago. Câmara Cascudo refutou essa tese (“... pode ser uma convergência de várias lendas de sereias e iaras estrangeiras...”) e afirmou ser difícil determinar com exatidão a sua

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origem, por ser recorrente no imaginário popular o tema da mulher bela e sobrenatural que primeiro atrai e seduz os homens, e em seguida os destrói implacavelmente. Em tempos mais recentes, a Alamoa passou a ser chamada pelos ilhéus de Mulher de Branco (ou Dama de Branco), pois é vestida com roupas alvas que “ela” pede carona aos que passam pela BR363 (única estrada asfaltada da ilha habitada do arquipélago, com apenas 7 km de extensão). Inúmeros ilhéus, mulheres inclusive, relataram já terem se deparado com a Alamoa, principalmente em altas horas da noite. Em Portugal (na região das Beiras), é feminino de “alemão” e,

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como gíria, equivale a mulher forte e corpulenta. A Alamoa é citada também na lenda da Porta do Pico.

CAJUEIRO DA CIGANA

Por volta de 1739, dois anos após a expulsão definitiva dos franceses, os portugueses trouxeram os primeiros prisioneiros, inaugurando a função do arquipélago como presídio-exílio para aqueles considerados “vadios ou desordeiros”, ou seja, incômodos ao Reino por quaisquer motivos. O grupo inicial era composto por chefes de famílias ciganas de todo o Brasil. Depois, chegaram os líderes farroupilhas derrotados (1844) e os praticantes de capoeira (em 1890, acusados de “vagabundagem”). Desde

antes da República, e ao longo de boa parte do século 20, Noronha foi o destino de prisioneiros comuns e de presos políticos de todos os matizes. Parte da herança desses “moradores por obrigação” pode ser encontrada na lenda do Cajueiro da Cigana: “Era uma linda cigana. Vivia em um casebre, em lugar deserto, no caminho do Sueste. Ao lado do mocambo, plantou um dia um cajueiro, que cresceu, tornandose árvore frondosa. (...) Dizem que ali, em noite escura, costumam se encontrar os fantasmas materializados de um ‘general’ montado a cavalo, de chapéu, gibão e espada na mão; de um ‘ordenança’, de couraça e armado com uma lança; e de um ‘padre’ com seu solidéu. (...) Outras vezes, um vulto

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4 Página anterior 1 mOrro do pico

 m dos cartõesU postais da Ilha é cenário de três contos do fantástico

Nestas páginas 2 alamoa  É a lenda mais popular

do arquipélago. Nomeia estrada, pousadas, lojas e restaurantes

3-5 Cacimba  Conta-se que o

padre aparece, à noite, para vigiar a fonte de água que deu nome à praia

4 Pescador  As aparições do

Gigante da MeiaNoite ocorreriam no Casarão do Sueste

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moreno de rara beleza vagueia, como estranha aparição, naquele lugar onde, segundo contam, existe enterrado um caixão de ferro e cobre, com rico tesouro deixado pelos holandeses...”. Quem registrou tais aparições foi Maria José (Marieta) Borges Lins e Silva, em Fernando de Noronha: lendas e fatos pitorescos.

GIGANTE DA MEIA-NOITE

A lenda diz respeito a um pescador de estatura gigante, com um enorme chapéu negro sobre o rosto, que surge no pesqueiro da Sapata (extremo sudoeste da ilha). Quando não está pescando, é visto nas imediações da Casa-Grande (ou Casarão) do Sueste, onde mora. Em tempos remotos, essa casa-grande foi residência de veraneio dos comandantes

A Alamoa também é chamada de Mulher de Branco pelos ilhéus. Dizem que ela vira um esqueleto, depois de atrair as presas

do presídio e também hospital para afetados pelo beribéri (inflamação ou processo degenerativo provocado pela carência de vitamina B-1). A descrição de Olavo Dantas, no citado Sob o céu dos trópicos, é digna das narrativas de piratas, em que se insere até o curioso personagem do duende. “Quando o Gigante da Meia-

Noite começa a pescar, nenhum outro pescador consegue mais apanhar coisa alguma. Só ele é feliz na pescaria. Depois de apanhar 10 grandes xaréus, o pescador misterioso se retira com a gravidade e a lentidão adequadas à dos fantasmas. (...) O Gigante da Meia-Noite, comandando a legião de fantasmas, dança, com seus comparsas, no vasto pátio da CasaGrande enquanto uma orquestra de duendes abala as colunas de basalto, com o som rouco de seus acordes noturnos.”

QUEBRA-ROÇO

Nome de uma sala existente no antigo presídio da Fortaleza dos Remédios, onde eram aplicados castigos e suplícios. A fortaleza fica 45 m acima do nível do mar, e foi construída em 1737 sobre as ruínas

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de um forte holandês de 1629, resquício do período em que boa parte do nordeste brasileiro (de Pernambuco ao Maranhão) esteve sob domínio desse povo. Alguns de seus calabouços e subterrâneos foram cenários de torturas e assassinatos durante mais de três séculos, mas há bastante tempo foram aterrados com barro e cimento, e o silêncio aos poucos cumpre seu papel de encobrir muitos dos dramas que ocorreram por lá. Mas não todos, como nos conta Olavo Dantas. “Uma porta pequena (mais uma abertura do que uma porta) comunicava a sala com o subterrâneo, que terminava na Caverna dos Suspiros ou do Funil, no penhasco embaixo da Fortaleza. Quando as torturas não davam resultado, o último argumento era precipitar a vítima pela abertura, de onde jamais sairia com vida. Ou então, apinhada a sala de presos, eram eles comprimidos uns aos outros, até que alguém caísse pela abertura e se perdesse para sempre. Seu nome, ‘quebra-roço’, significava que, ali, todo orgulho, vaidade ou coragem eram quebrados, com a força de ‘argumentos irrefutáveis’.”

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TESOURO DO CAPITÃO KIDD

Junto à Praia do Cachorro, no penhasco do Morro do Forte (onde fica a Fortaleza dos Remédios), encontra-se a Caverna dos Suspiros ou Caverna do Funil, nomes populares para um conjunto de fendas que desembocam num enorme salão, cavado pelo mar. Ao penetrá-las, com violência, a água do mar comprime a massa de ar no seu interior, que escapa por diversos orifícios superiores e produz estrondos ouvidos à distância, semelhantes a uma avalancha contínua, chamada também de Urro do Leão. Para um cenário tão peculiar quanto esse, não podia deixar de haver uma lenda, uma narrativa digna de pirata. E é exatamente sobre o escocês William Kidd (1645-1701), ou o Capitão Kidd, que essa história trata. Diz-se que foi na Caverna dos Suspiros que o capitão escondeu seu tesouro, uma pilhagem de ouro e pedras preciosas... Alguma lembrança dos filmes de aventuras? Em Sob o céu dos trópicos, também está registrada a lenda de Kidd, à qual se soma outro personagem de intensa recorrência nas narrativas europeias: o dragão. “Diziam os presidiários que

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6-7 remédios

A fortaleza funcionou por mais de 300 anos como um presídio. No passado, um cenário de tortura e morte

8 Cajueiro da cigana

 Entre os “degredados” da lha estavam ciganos. Aqui, teriam enterrado um caixão cheio de tesouros deixados pelos holandeses

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morava ali um dragão terrível, guardador do precioso tesouro e um dia, vendo, próximo à entrada da caverna, a linda filha de um prisioneiro, arrastou-a para junto de si, mantendo-a presa em seus domínios”, escreve Olavo Dantas.

IRMÃO, LUZ E PORTA DO PICO

O Morro do Pico é a máxima elevação rochosa da maior ilha do arquipélago e tem 321 m de altura. Em torno de sua “face” sisuda e amedrontadora há três contos do fantástico. Cascudo explica que Irmão era como os antigos condenados à prisão perpétua referiam-se ao rochedo espontado e alto. “Irmão do Pico era a perpetuidade na ilha, tão inseparável dela quanto o Pico, de quem o sentenciado se proclamava irmão”, é o que registra o Dicionário do folclore brasileiro. No seu cume, há um pequeno farol desativado pela Marinha. A lenda da “Luz” é mencionada por Pereira da Costa, Beatriz Imbiriba, Campos Aragão e outros historiadores.

Uma das histórias dá conta de que o pirata escocês Capitão Kidd teria escondido seu tesouro na Caverna dos Suspiros “Em noite escura, uma luz brilha e vagueia, subindo e descendo a soturna pedra. É a Luz do Pico, que encandeia e atrai os desavisados. (...) Insensível, o Morro do Pico a tudo assiste. E a misteriosa luz aparece, de vez em quando, como um archote que se agita ao vento, assombrando todos”, descreve Gustavo Adolfo Cardoso Pinto, em Risos e lágrimas. Há desacordo entre os nativos sobre a localização exata da Porta do Pico, uma “entrada secreta” supostamente acessível através da base que circula a enorme montanha de basalto. A maioria garante que ela

fica nas proximidades da “boca” do semblante sisudo, vigilante e quase onipresente em todo o arquipélago. “Às sextas-feiras, a pedra do Pico se fende e na chamada Porta do Pico aparece uma luz. A Alamoa vaga pelas redondezas. A luz atrai sempre as mariposas e os viandantes. Quando um desses se aproxima da Porta do Pico, vê uma mulher loura, nua como Eva antes do pecado. Os habitantes de Fernando chamam-na Alamoa, corruptela de alemã, porque para eles mulher loura só pode ser alemã... O enamorado viandante entra na Porta do Pico, crente de ter entrado num palácio de Venusberg, para fruir as delícias daquele corpo fascinante. Ele, entretanto, é mais infeliz que o cavaleiro Tannhauser. A ninfa dos montes transforma-se numa caveira baudelairiana.” A viva descrição de Olavo Dantas capta a imaginação do leitor que, depois do contato com suas lendas, jamais verá Fernando de Noronha com a inocência de antes...

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ESPECIAL

IDIOMA Entre dúvidas e resistências

Processo de unificação da escrita na língua portuguesa vem sendo bem assimilado no Brasil, mas enfrenta demora na sua implantação em outros países, inclusive Portugal. Aqui, prazo final de adoção pode ir para 2016 texto Carlos Eduardo Amaral

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Em janeiro de 2009, na edição n° 97

da Continente, abordamos algumas das principais discussões em torno do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, cuja adoção no Brasil, capitaneada pelos principais órgãos de imprensa do país, teve início naquele mês, simultânea a um período de transição que estava para expirar no último dia 31 de dezembro, mas que, até o fechamento desta edição, aguardava decisão da presidente Dilma Rousseff para que fosse prorrogado até 2016, tal qual já estava certo para ocorrer em Portugal. Sendo firmado o decreto presidencial, em 2016, as grafias nova e antiga deixarão de coexistir oficialmente, em favor da primeira, e espera-se que as editoras e jornais que ainda rejeitam os termos do tratado multinacional adiram a ele nos próximos anos, bem como que os opositores do AO 1990 obtenham sucesso nos pleitos que levantam pela revisão dos termos do documento.

Na matéria que fizemos há quatro anos, perguntávamos de antemão: “Será que no final de 2012 estaremos discutindo o Acordo Ortográfico? Ou este assunto não terá mais qualquer relevância?”. Como vemos, a relevância persiste, pois há movimentos no sentido de se revisar as bases do acordo, embora o AO 1990 não suscite celeumas no Brasil como as que ocorrem em Portugal. Já as implicações práticas do acordo são fato consumado no Brasil: ele já é empregado na redação de documentos oficiais nas esferas federal, estadual e municipal, e nos três poderes; nas traduções oficiais e nas correspondências internacionais; no ensino escolar e, por extensão, em concursos públicos e outros exames, como o vestibular; nas sinalizações de trânsito. Somando-se a contribuição da imprensa, na qual os revisores têm a missão de evitar qualquer

indício de distração ou rebeldia, a assimilação da nova ortográfica tem ocorrido sem mais desavenças. Nos países onde o AO 1990 não foi oficializado até o momento, acreditase que ele pode ser dispensado, modificado ou sujeito a melhores avaliações antes de se aderir a ele. A resistência em Portugal é liderada por intelectuais e políticos que discordam, sobretudo, acerca da forma com que as conversações foram conduzidas após malograrem as tentativas anteriores de unificação, rechaçadas pelo Brasil. A seu turno, nações africanas como Angola e Moçambique continuam ouvindo ambos os países antes de tomarem uma posição definitiva. Angola, que havia solicitado uma prorrogação para que pudesse avaliar a adesão ao AO 1990, apresentou parecer à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) no primeiro semestre de 2012, alertando quanto

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às dificuldades que enfrentaria nesse quesito, como na capacitação de seus professores, nos custos para a edição de livros gramaticais e na necessidade de revisão de lapsos do acordo. Conforme acrescenta o Jornal de Angola, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, que ratificaram o acordo sem terem empreendido iniciativa desse tipo, elogiaram o documento angolano, bem como Moçambique.

ANDAMENTO

Dos oito países que compõem a CPLP, apenas Angola não ratificou o texto do acordo, redigido em 1991, nem seus dois protocolos modificativos, de 1998 e 2004, os quais retiraram, respectivamente, a data-limite para o começo da vigência da nova ortografia em todos os países da comunidade e a obrigatoriedade da ratificação de todos os membros signatários do texto de 1991. O segundo protocolo modificativo estabeleceu que seria preciso a assinatura de apenas três nações para que o AO 1990 vigorasse e também oficializou a entrada de Timor-Leste na CPLP. Ao contrário do Brasil, o período de adaptação à nova ortografia promete ser demorado em outros países lusófonos: em Cabo Verde, ocorrerá de 2015 a 2019; em Portugal, começou em 2009, tal qual

Dos oito países que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, só Angola não assinou o Acordo por aqui, mas se estenderá até 2015. Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Moçambique não têm expectativa de implantação e continuam a acompanhar as discussões lusobrasileiras. Na ex-metrópole e em sua maior ex-colônia, o envolvimento da população no debate é díspar – grande em Portugal e apaziguado por aqui –, mas as frentes de atuação contra o acordo estão ativas lá e cá. Em audiência pública em abril do ano passado no Congresso Nacional, estiveram presentes para falar contra o acordo o professor Pasquale Cipro Neto e o professor Ernani Pimentel, criador do movimento Acordar Melhor. Desde 2009, quando foi fundado o movimento, Ernani pleiteia, através de uma ação popular, a suspensão do acordo até sua revisão por diversos setores da sociedade – e estava perto de ser atendido, a contar o decreto presidencial que mencionamos no início da matéria.

O docente não se opõe à unificação ortográfica, mas é contra os moldes em que foi elaborada, principalmente pelas limitações que aponta nas instituições responsáveis por ela. “O Congresso tem a obrigação de paralisar esse acordo e chamar a sociedade para a discussão, porque a Academia Brasileira de Letras e a Academia das Ciências de Lisboa não têm competência de conhecimento e de autoridade para falar de língua portuguesa porque as duas academias, cada uma, só têm um filólogo. Então só são duas pessoas (envolvidas). Nós precisamos ouvir os linguistas, os pedagogos, os professores de português, os advogados, os juízes, os promotores, os jornalistas, todo mundo que tem a língua escrita como instrumento de trabalho tem que participar”, advoga. Em Lisboa, os questionamentos são liderados pelo site ilcao.cedilha.net, que mobilizou mais de 50 mil pessoas pelo Facebook e está preparando a redação de uma ILC, Iniciativa Legislativa de Cidadãos (equivalente no Brasil a um Projeto de Lei de Iniciativa Popular) para ser levada à Assembleia da República. Entre as entidades que apoiam o manifesto, e rejeitaram publicamente a adoção do AO 1990, estão jornais como o Diário Económico e o Correio da Manhã, a câmara municipal da cidade de Covilhã

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1 redações Empresas de comunicação encabeçaram o processo de adoção do AO 1990 no Brasil

e o Centro Cultural de Belém, dirigido pelo escritor Vasco Graça Moura, um dos maiores opositores do acordo. No entanto, não é de hoje que Brasil e Portugal enfrentam empecilhos mútuos para alcançar um denominador comum ou satisfatório no campo ortográfico.

ANTECEDENTES

Se fôssemos escrever em português como se fazia antes da primeira tentativa de unificação, o parágrafo abaixo ficaria assim: Até o início do sécullo XX, a graphia das pallavras em portuguez, tanto em Lusitania quanto em terras brasilianas, respeitava ora o ethimo, isto é, a origem dos vocabullos, ora a pronnuncia. No entanto, o exhagero com que a esthetica era super-vallorizada, em detrimento de uma escritta mais simples, mais próxima do falar corrente, levou à primeira tentativa de rephorma em Lisboa, no anno de 1911, recuzada pelo Brasil. As vogais duplas e o digrapho “ph” foram elliminados, porém outros pontos só viriam a ser abordados adiante. Duas rephormas posteriores foram levadas a cabo em 1943 e 1971, no Brasil, e 1945 e 1973, em Portugal. Mesmo assim sem acordancia definitiva entre os países, ainda que tenha havido periodos de vigência simultanea, como entre 1945 e 1955, até o Brasil desistir de seguir Portugal nessa senda. Em 1975 e 1986, houve novas conversações formais bilaterais, sem efeito, mas antes, em 1967, elas se davam no nível informal. Até aí, as nações africanas não participavam do processo, dado que elas adquiriram independência em meados dos anos 1970 e, de modo geral, tiveram de cuidar em seguida dos problemas econômicos e sociais decorrentes de guerras civis. É sintomático que, por causa disso, continuem a existir ainda hoje as mesmas duas academias de letras ou equivalentes no mundo lusófono. Alguns impasses permaneceram ao longo de todas as tratativas, aprovadas ou não, incluindo o AO 1990. O Brasil

resistiu às propostas de reintrodução das consoantes mudas ou não articuladas (como em “baptismo” e “adopção”), que, ao contrário do que se acredita entre nós brasileiros, cumprem uma função fonética clara aos portugueses. Resistiu também à substituição do acento agudo pelo circunflexo nas tônicas “e” e “o” seguidas de consoantes nasais em palavras proparoxítonas e paroxítonas (“eletrónico” e “génio”), de fato pronunciadas com som aberto em Portugal. A maior variedade de sons vocálicos no português europeu explica essas diferenças existentes, para as quais a melhor solução encontrada foi admitir a dupla grafia nos dois casos. Na prática, essa saída manteve um certo status quo ortográfico; contudo, na teoria, implica que um brasileiro que porventura queira escrever da forma portuguesa, ou vice-versa, não poderá ser recriminado. Segunda implicação: embora estilisticamente indesejável, nada impede que se alternem ambas as grafias em um mesmo texto. No entanto, ambos os países tiveram o bom senso de derrubar a ideia radical, cogitada em 1986, de se acentuar apenas as palavras oxítonas e os monossílabos tônicos, à semelhança da língua italiana – na qual, por exemplo, somente ouvindo é possível saber a tônica de palavras como sviluppo ou pattina. No artigo Acordo ortográfico: visita guiada ao reino da falácia, publicado em 2011 na revista Ler, o professor Fernando Venâncio faz uma apurada análise das tentativas de acordo entre Brasil e Portugal ao longo do século 20, tanto as promulgadas e revogadas quanto as que não passaram de rascunhos. Para ilustrar a complicação acarretada se tal ideia vingasse, o articulista imaginou um pequeno texto que mostra o quanto ela causaria confusões à primeira leitura: “A secretaria está hoje doente, disse o chefe da secretaria. Eu ultimo a agenda, e você… secretaria? Seria uma solução. Seria e pratica. Pois, você quanto mais pratica melhor. Pratica e eficiente, ajuntou, pousando a pasta aos pés da secretaria. Incomodo? Nenhum, disse ela. Duvidas? Muitas, disse ele, e continuas. Ainda assim publicas... Sim, sem estimulo publico. E, claro, estimulo o publico. Mas sobre isto silencio”.

O QUE ELES PENSAM DO ACORDO... “Antes de ter sido implementada, eu não simpatizava com a reforma. Hoje entendo o porquê de algumas normas, embora veja que problemas não foram resolvidos. Gostei da limpeza que foi feita em relação aos acentos, mas o acento diferencial ter caído foi algo malpensado. Mais malpensado foi se criar tantas regras para o uso do hífen. Acho que o único benefício do acordo foi para as editoras, que agora não precisam adaptar mais os textos.” Victor Martins Soares, tradutor do grupo TimeWarner – Buenos Aires “Creio que o Acordo está trazendo mais desvantagens que vantagens. Querer unificar a língua portuguesa me parece insensato, visto que não se está levando em consideração a língua como repositório da memória cultural de um povo, mas apenas como veículo de comunicação. Além do mais, os alfabetizandos estão tendo dificuldade de assimilar as alterações, uma vez que entram em contato com textos que foram redigidos seguindo os ditames anteriores.” Bernardo Souto, crítico literário – Recife “Nossa língua mãe é o latim vulgar, e não o português luso. E cada consultor ortográfico oriundo de uma região deseja inserir a sua forma de entender a língua. Revisei algumas das adaptações aprovadas e, ao meu ver, a maioria não se coaduna com nossa forma de expressão. Pautamo-nos pela acentuação adequada. Tomemos a palavra ideia: se soletrarmos como está escrito, diremos ideía, com acento no i.” David Caparelli, autor de livros sobre espiritualismo – São Paulo

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PORTUGAL Acordo ainda suscita debates nacionalistas

Cidadãos lusitanos dividem-se quanto às normas e alguns chegam a mobilizar-se para reverter o que consideram uma imposição política brasileira

Julgando os resultados do AO 1990 desvantajosos à escrita praticada em Portugal, alguns intelectuais daquele país não apenas rejeitam a adesão a qualquer ponto das normas, que passam a valer por lá a partir de 2015, como igualmente se mobilizam em colóquios, congressos e frentes políticas para impedir a vigência do acordo, o qual, apesar das relutâncias, não parece ter modificado drasticamente o cotidiano dos cidadãos lusitanos. Se essa “desobediência civil” dará resultados, não é possível prever – já que o processo de adaptação em Portugal ganhou data para terminar, a não ser que a ILC (Iniciativa Legislativa de Cidadãos), mencionada na matéria anterior, vingue e seja aprovada pelo poder legislativo português. Pouco salutar, nesse sentido, tem sido um argumento de resistência evocado por parte da intelectualidade

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reunidos no Primeiro Simpósio sobre a Língua Portuguesa Contemporânea – realizado em Coimbra em 1967, quando ditaduras governavam dos dois lados do Atlântico – nunca apresentaram estudos sobre as vantagens, benefícios e custos da unificação ortográfica. Ele também aponta que o “grupo de académicos” esquivou-se de questionar por que o Brasil voltou atrás após adotar as reformas lusitanas de 1911 e 1945 e elogia a decisão de o Brasil ter tomado os rumos da própria ortografia ao longo do século 20, não vendo pontos negativos na falta de unidade entre ela e os demais países lusófonos, assim como se dá na língua inglesa.

CONTRA-ARGUMENTOS

e da população lusa, que acusa o Brasil de exercer seu poder político no nível internacional para impor o AO 1990, lastreando-se no interesse em assumir uma cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas e, consequentemente, obter o status de língua oficial para o português. A discussão sobre a formatação de um acordo ortográfico, anterior ao protagonismo que o Brasil deseja assumir no cenário mundial, está sendo interpretada, portanto, não somente como um problema normativo a ser resolvido pelos países lusófonos. A própria necessidade do acordo sofre contestação, e os dissensos luso-brasileiros nas tentativas anteriores servem de reforço retórico para essa oposição. O tradutor João Roque Dias, uma das figuras de proa contra o AO 1990 em Portugal (leia entrevista com ele adiante), alega que os estudiosos

Por outro lado, o professor Carlos Reis, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, adverte quanto à ideia superdimensionada de rejeição que os ativistas antiacordo possam passar, especialmente através de manifestos via internet, e lamenta a omissão da classe política no que tange ao acompanhamento do assunto: “Não sei se se pode dizer que ainda há ‘considerável rechaço’, como você fala. Paulatinamente, o AO tem entrado em vigor, na imprensa, nas televisões, na edição de livros e até em manuais escolares. Ou seja: as resistências vão-se esbatendo, apesar de o poder político, no passado próximo e na actualidade, se terem demitido das suas responsabilidades, no que a esta matéria diz respeito”. O calo de muitos portugueses antiacordo parece estar mais embaixo. E diz respeito a um certo ressentimento pela “intromissão” do Brasil em um assunto que consideram de sua alçada: os rumos do idioma que nasceu em sua terra. Muitos portugueses – conforme pode ser observado em comentários de vários blogs e sites que tocam no tema – chegam a dizer que, da mesma maneira que os Estados Unidos não impõem normas ortográficas ao Reino Unido, seu país não deveria dar ouvidos ao Brasil. Tal efervescência no nível nacional, que retoma a calorosidade com que Portugal discutiu a entrada na zona do Euro, instiga

“A reforma visa à uniformização ortográfica dos países de língua portuguesa e a facilitação do intercâmbio cultural entre eles. De acordo com esse argumento, sou a favor dele. No entanto, as diferenças existentes na escrita nunca representaram impedimentos para o acesso à literatura de outros países, exemplo disso é o grande número de admiradores no Brasil de escritores como Eça de Queirós, Saramago, Mia Couto... Na prática, o acordo não traz grandes diferenças na língua escrita, nem mesmo para os estudantes de Letras, e acaba se configurando como mais um ‘bolo’ de regras que o aluno tem que decorar e que o professor tem que ensinar.” Sheysiane Gomes, estudante de Letras na UFPE – Recife “Influenciada pela etimologia e fonologia, a ortografia é o conjunto das convenções que rege a escrita dos sons da língua. Portanto, o novo acordo ortográfico não modifica a língua portuguesa, trata-se apenas de uma convenção para aproximar as representações faladas da língua nos diversos países lusófonos. Na minha opinião, esta iniciativa foi mais política e tenta a união dos falantes ‘da língua de Camões’. Portugal, tentando evitar uma ‘brasilização’ do português, passou a aceitar duas formas da grafia de várias palavras . Unificamos as línguas? Somos mais de 190 milhões de lusófonos no Brasil, isto é, mais de 70% de todos os falantes de língua portuguesa no mundo. Para quem é mais interessante vender livros? Quem publica mais? O Brasil foi muito tímido neste ‘acordo’.” Vilton Soares de Souza, professor de Português e Francês no Instituto Federal do Maranhão – São Luís

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Entrevista

JOÃO ROQUE DIAS “não pedimos, não queremos e não precisamos” O engenheiro mecânico lisboeta

João Roque Dias atua em tradução técnica há 25 anos, vertendo textos do francês, do espanhol e especialmente do inglês para o português europeu. Certificado pela Associação Americana de Tradutores, João Roque especializou-se na literatura técnica de vários campos da Engenharia: maquinários, instalações, sistemas, construção naval e civil, petróleo e gás, logística, defesa militar, agricultura e outros. Em seu site pessoal, um espaço significativo é destinado à militância contra o Acordo Ortográfico de 1990, a exemplo da Biblioteca do desacordo, em que reúne artigos contra o AO 1990. Por essa razão, conversamos via e-mail com o tradutor, para que ele apresentasse aos brasileiros os argumentos que defende. CONTINENTE O senhor vê o Acordo Ortográfico de 1990 como uma iniciativa política elaborada pelo Brasil para exercer sua influência no nível internacional? A discussão sobre a formatação do AO não teria sido estritamente um problema normativo a ser resolvido pelas academias de letras dos países lusófonos, dado que se arrasta há 100 anos e, portanto, é bem anterior ao protagonismo que o Brasil assumiria no cenário mundial? JOÃO ROQUE DIAS Não! Como escreve o prof. Fernando Venâncio no seu artigo Acordo Ortográfico – visita guiada ao reino da falácia, tudo começou em Coimbra, Portugal, em 1967, quando um grupo de académicos se lembrou de que a escrita da Língua Portuguesa devia ser unificada. Não apresentaram argumentos e, muito menos, estudos que suportassem tal necessidade e, acima de tudo, sobre as vantagens, os benefícios e os custos de tal “unificação”. Sobre o facto de o Brasil ter adoptado, em 1915, a Reforma Ortográfica portuguesa de 1911 e,

depois, a ter rejeitado em 1919, nem uma palavra dos académicos. Sobre o facto de o Brasil ter decidido, desde há mais de um século, e com total razão, tomar, nas suas mãos, a definição e uso de uma ortografia própria, cada vez mais distante da matriz original do Português, também nem uma palavra dos académicos. Sobre o facto de o Brasil ter assinado com Portugal a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945 (COLB45), a ter adoptado em 5 de dezembro de 1945, três dias antes da sua adopção em Portugal, e de a ter rejeitado 10 anos depois, em 21 de Outubro de 1955, os académicos de Coimbra também não tiveram nenhuma palavra, e não souberam ler os claros sinais da História. Mais tarde, em 1986, quando uma primeira versão de um acordo ortográfico viu a luz do dia, o seu destino só podia ser o que foi: o caixote do lixo.

“A língua franca mais utilizada em todo o mundo, o inglês, nunca teve acordos ortográficos” João Roque Dias CONTINENTE Há algum ponto do AO que o senhor julgue pertinente ou plausível? JOÃO ROQUE DIAS Pertinente, como um todo, não! Porque, como disse o professor António Emiliano: “Não, obrigado. Não pedimos, não queremos, e, sobretudo, não precisamos”. A primeira das 21 bases do acordo, sobre as letras do alfabeto e os nomes próprios estrangeiros, podia ser útil, mas com correcções. É que, “a letra W tem (no AO 1990) o nome de ‘dábliu’, designação brasileira desconhecida em Portugal onde se usa ‘duplo vê’ e ‘dâblio’, designações agora suprimidas”. A base II, sobre o H inicial, também pode ser utilizada, mas é completamente inútil como texto normativo, face ao uso da língua escrita em Portugal. CONTINENTE A despeito da resposta anterior, o senhor acha que a unificação

ortográfica é um problema insanável, mesmo com os resultados satisfatórios obtidos no universo de língua hispânica, por exemplo, que abrange um universo de 22 academias (contra duas da CPLP)? JOÃO ROQUE DIAS A desunião ortográfica é um factor de riqueza cultural e satisfaz portugueses e brasileiros. A unificação ortográfica é um problema que o AO 1990 introduziu e se propôs resolver, oficializando o desacordo ortográfico. Em 1945, a ortografia portuguesa ficou unificada a 100% pela COLB45. O Brasil rejeitou esse acordo, 10 anos depois de o ter aceitado. Face a essa rejeição, não há unificação possível, o que aliás faz todo o sentido face à enorme divergência linguística (fonético-fonológica) entre as línguas de Portugal e do Brasil. CONTINENTE De toda forma, os países hispânicos chegaram a uma solução satisfatória... JOÃO ROQUE DIAS Sobre o universo hispânico, devem pronunciar-se os falantes do espanhol. A desunidade das ortografias brasileira e euroafro-asiático-oceânica não é um problema ou facto negativo. É a realidade. As coisas são como são. Deve reconhecer-se que a língua franca mais utilizada em todo o mundo, o inglês, nunca teve acordos ortográficos, porque nunca precisou deles. E que, nas Nações Unidas, a ortografia adoptada é variante britânica com a ortografia de Oxford. CONTINENTE A suposta tendenciosidade pró-brasileira do AO 1990, alegada por alguns portugueses, não é um equívoco interpretativo? JOÃO ROQUE DIAS O AO 1990 resulta num insuportável e inaceitável abrasileiramento da ortografia portuguesa, por causa, entre outras medidas, da supressão das chamadas consoantes mudas: se uma quantidade enorme de palavras de uso frequente se passa a grafar como no Brasil, é óbvio que tal facto é interpretado pela população portuguesa como um abrasileiramento da sua escrita.

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divulgação

2 na onu Alguns opositores do AO 1990, em Portugal, criticam protagonismo político internacional do Brasil a partir do idioma

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posicionamentos mais distorcidos, como o de que o acordo se trata de um ato “entreguista” de Portugal aos interesses macropolíticos brasileiros, dada a mobilização brasileira por um lugar no Conselho de Segurança na ONU. “Essa é uma atitude insuportavelmente nacionalista de quem, com preconceitos inaceitáveis, se recusa a aceitar que nenhum país é proprietário da língua e que todos são dela condóminos”, rebate o professor Carlos Reis, defensor do AO 1990. Já as ex-colônias africanas, apesar de alertarem sobre suas dificuldades em financiar estudos de avaliação e a renovação de toda a bibliografia oficial e escolar, inclinam-se a seguir o Brasil, tal qual o fez Cabo Verde. O escritor angolano José Eduardo Agualusa já havia polemizado poucos anos atrás ao dizer que, se Portugal não quisesse aderir ao AO 1990, seria um direito deles, mas que era benéfico para Angola. O moçambicano Mia Couto, por sua vez, ressalvou que as diferenças de grafias nunca foram um empecilho à compreensão textual, embora não faça oposição ao acordo. Agualusa, no entanto, não pode ser acusado de tomar partido pelo Brasil. As razões que coloca revelam uma terceira força argumentativa, calcada na realidade política e econômica

angolana, que não foi levada em conta como se deveria por aqui e na ex-metrópole: “Angola não tem escolha. É um país que importa a maioria dos livros que consome de Portugal e do Brasil – agora escritos com o novo AO. Então é só uma questão de tempo até ratificar e implementá-lo. Estamos atrasados por pura incompetência e ignorância: Angola é um país extremamente malgovernado, com o mesmo presidente no poder há 33 anos. Não é uma democracia, nem um modelo de boa governação e transparência”. Perguntado sobre a existência de alguma birra em Angola à semelhança da que há em parte da população portuguesa, Agualusa conta que tem lido artigos de personalidades ligadas ao governo de seu país e que são a favor do AO, como o escritor e deputado João Melo, e que também tem ouvido opiniões contrárias, mas os problemas sociais crônicos sofridos pela população não escapam de ser o alvo maior de sua crítica. “Não se pode dizer que esse assunto, o acordo, suscite o interesse da maioria dos angolanos. Essa maioria tem assuntos muito mais importantes com os quais se preocupar”, arremata com acidez. CARLOS EDUARDO AMARAL

“Para quem utiliza o português profissionalmente, trata-se apenas de uma modificação de regras. Para quem faz pouco uso do idioma formal, uma leve dor de cabeça na hora de escrever uma comunicação oficial. Do ponto de vista da integração da comunidade internacional de língua portuguesa, a uniformização do idioma é uma barreira a menos, ponto positivo. Para os críticos do excesso de regras gramaticais e da discrepância entre língua falada e escrita, ponto negativo.” Leon Victor de Queiroz, advogado e professor de Ciência Política – Belo Horizonte “Em Portugal, alguém quer pôr em vigor o novo acordo, outros, rejeitam-no. Existem escolas e instituições em que ele já foi implementado e há outras que simplesmente o recusam. O argumento que ouvi contra é que contém erros técnicos, troca oralidade com escrita e vice-versa, ignora a complexidade e diversidade da língua e empobrece-a. Esse é o argumento, mas ele esconde o que para mim é essencial: o achatamento da língua, apesar das suas boas intenções, visa apenas ao interesse económico. ” Nuno Afonso, empregado em turismo – Tavira, Algarve “Acho natural que países, classes e culturas diferentes tenham variadas formas do português. No entanto, também compreendo que instituir um acordo ortográfico significa construir um elo simbólico entre países diferentes. É tentar organizar e com isso reforçar o sentido da própria língua. De forma ideológica, evidentemente, mas não deixa de ser um pretexto para, quem sabe, unir um pouco mais países que têm muito em comum.” Ariane Holzbach, professora de Jornalismo – Niterói (RJ)

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POTENGI A arte de forjar o ferro

Considerada uma das mais antigas profissões, o trabalho dos ferreiros sobrevive numa pequena cidade da Chapada do Araripe, no Ceará texto e Fotos Augusto Pessoa

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Pouco mudou da época em que

os primeiros homens começaram a moldar os metais – aproximadamente 2 mil anos antes de Cristo – até os dias atuais. Das armas forjadas nos feudos medievais às ferramentas que revolucionaram a agricultura, a atividade dos ferreiros artesanais praticamente se manteve a mesma através dos séculos. Em Potengi, pequena cidade escondida no alto da Floresta Nacional do Araripe, dezenas de famílias mantêm a tradição de trabalhar o ferro numa região do Nordeste brasileiro onde metalurgia é sinônimo de sobrevivência. Potengi é conhecida como “a cidade que não dorme”. De madrugada, horas antes do sol nascer, já é possível ouvir o característico som das batidas da forja, que ecoam na escuridão. Os ferreiros preferem trabalhar nesse horário em função do forte calor das oficinas. “De madrugada, já estamos suados assim, o senhor imagine durante o dia”, diz o ferreiro Raimundo Soares, enquanto alimenta o fogo que possibilita a modelagem do metal.

Entre os ferreiros da cidade circula a ideia de que, ali, a forja do metal teve início nos anos 1950, impulsionada pelas estiagens As quase 30 oficinas de Potengi empregam, hoje, cerca de 100 trabalhadores e são responsáveis, depois da agricultura, pela maior parte da renda do município. Muitos, no entanto, se perguntam como tantas oficinas de um ofício tão específico foram se concentrar ali, no extremo sul do Ceará. Para Luiz Leite de Andrade, um dos mais antigos ferreiros da região, tudo começou na década de 1950, quando ele e alguns outros começaram a “bater ferro”. Hoje, com 78 anos, Andrade ainda mantém a oficina, apesar de não manusear mais as pesadas ferramentas. Contam na cidade que, durante os períodos de estiagem, quando não

era possível plantar, os agricultores foram trabalhar nas oficinas, e isso criou a necessidade de outras para suprir a demanda crescente de ferramentas para cidades como Juazeiro do Norte e Crato, as duas mais importantes da Chapada do Araripe. Atualmente, nos meses em que a agricultura está em baixa, as oficinas continuam sendo as primeiras alternativas de trabalho. Se feita uma expedição no Brasil em busca dos ferreiros artesanais, verifica-se que poucos lugares ainda conservam a atividade. Valorizada tempos atrás, a profissão de ferreiro está quase que completamente esquecida, graças à evolução da tecnologia que possibilitou o manuseio do metal em escala industrial. Os relatos mais antigos sobre a forja de metais podem ser encontrados no primeiro livro bíblico, o Gênesis. Nele, é narrada a história de Tubalcaim, que teria sido o ancestral de todos os artesãos que trabalham com ferro e bronze. A palavra Tubal nomeia uma região do Oriente, rica

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Página anterior 1 madrugada

 tividade nas oficinas começa A cedinho, por conta do calor

Nestas páginas 2 POtengi

Cidade está localizada no alto da Floresta Nacional do Araripe

3-5 ferramentas Foices, enxadas e bigornas são os produtos de maior saída

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em metais. Já Caim, segundo algumas tradições semíticas, significa ferreiro. Durante muitos séculos, sobretudo no medievo, os ferreiros eram considerados os mais fortes das vilas. A força exigida pela carga horária de produção de um ferreiro de Potengi, a propósito, ganha realmente conotações medievais. Muitos chegam a trabalhar 16 horas por dia, parando apenas para almoçar, sem quaisquer condições de segurança e expostos a um calor infernal. Como a demanda por esse tipo de trabalho aumenta em função da agricultura e o momento tem sido marcado por estiagem e seca na região, a previsão é de que os próximos meses sejam de aumento de produção nessas fabriquetas.

MÍTICA BIGORNA

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No emaranhado de ferro que se amontoa numa das oficinas de Potengi, uma peça em especial chama a atenção. Constituída por um bloco maciço de ferro, a bigorna é uma espécie de símbolo da arte de moldar o metal. O modelo mais encontrado no interior do Nordeste é o europeu, que possui duas pontas, uma arredondada e outra plana. A maioria das ferramentas veio da Europa no período da colonização e, atualmente, são consideradas peças de museu. As bigornas são tão pesadas, que passaram a significar morte instantânea por esmagamento, em algumas animações. Depois de aquecer o metal no fogo, os trabalhadores – sempre em dupla – trazem a peça em brasa para ser forjada na bigorna. É a parte mais importante do trabalho, quando qualquer erro pode prejudicar a

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6 ferreiros Nas oficinas, equipamentos de segurança permanecem nas paredes, como se fossem decoração

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criação da ferramenta. A matériaprima pode vir de várias fontes, até mesmo de sucatas de molas velhas de caminhão, compradas no quilo em cidades vizinhas. Um quilo de mola de caminhão, comprado por R$ 2 em média, só dá para fazer uma foice, ferramenta que está entre as mais procuradas pelos agricultores locais. Para aquecer o metal, os ferreiros usam carvão, outro material escasso por ali. Depois que a peça é amassada, é a hora de fazer a curva da foice. No processo, ela vai ao fogo e volta

à bigorna dezenas de vezes, até adquirir o formato desejado. Depois de moldada, a foice é novamente aquecida, mergulhada em óleo, e rapidamente resfriada. A têmpera é um processo que visa aumentar a dureza do metal. Para temperar bem uma peça, é preciso experiência. Essa etapa geralmente é cumprida por alguém que possui a habilidade e a intuição do tempo certo – este, o que se dá no choque térmico a que o ferro é submetido. “Se o tempero não for bem-feito, lá na frente o

cliente vem reclamar, dizendo que a foice não ficou resistente”, diz o ferreiro José Galdino. A última etapa de produção é o esmeril, que dá à peça o corte final. Uma foice é vendida geralmente por R$ 10. Quando perguntado sobre o tempo de duração de uma instrumento desses, Galdino brinca: “Depende. Se o trabalhador for preguiçoso dura mais de 10 anos”. Um ferreiro pode chegar a ganhar até R$ 500 por mês, o que para muitos é bem melhor que ficar em casa vendo o sol queimar as plantações enquanto a nova temporada de chuvas não chega. Para um ferreiro profissional, que não forja o ferro apenas no período da estiagem, o tempo de profissão geralmente é bem curto. Aos 50 anos de idade, a maioria já está parando. Com problemas de sono e de audição, causados pelo insistente som das batidas no ferro, a maioria dos trabalhadores desconhece o risco a que está submetida. Nas paredes das oficinas, luvas e aventais parecem mais objetos de decoração do que de segurança. Os óculos, capazes de evitar sérios acidentes, são usados por poucos. Segundo os argumentos dos que não usam, o equipamento atrapalha, ao invés de ajudar, devido ao excesso de suor. Protetores de ouvidos são outros acessórios disponibilizados pelos donos das oficinas, mas raramente utilizados pelos ferreiros. Assim, tão expostos quanto os antigos ferreiros dos feudos medievais, os homens de Potengi levam adiante um ofício que se perde no tempo e que carrega parte importante da história da evolução humana e sua capacidade de manipular os recursos naturais. Nas ruas da pequena cidade cearense, durante a trégua matinal do calor sertanejo, o som dos martelos nas bigornas parece marcar o renitente relógio da tradição.

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REGIONAL Escondidinho pra lá de “amostrado”

Dono do Cozinhando Escondidinho, Rivandro França é eleito chef revelação pelo principal guia de turismo do país e ainda ganhou uma estrela para o seu restaurante texto Renata do Amaral Fotos Rafael Medeiros

Cardápio O ano começa com o pé direito para o restaurante Cozinhando Escondidinho, no recifense Bairro de Casa Amarela, e seu proprietário Rivandro França: ele foi escolhido Chef Revelação do Ano pelo Guia Brasil 2013, da Editora Abril, e, de quebra, ganhou uma estrela para sua casa. A breve lista de destaques do ano do guia, na área de Gastronomia, traz quatro categorias (chef, chef revelação, novidade e restaurateur) e todas as outras três ficaram no eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Sem placa – e, por isso, seu nome ganha sentido –, o local existe há apenas dois anos, mas já virou de cabeça para baixo a vida desse quase ex-técnico de enfermagem do exército, que dá seu último plantão em fevereiro, para se dedicar exclusivamente ao restaurante. A casa vem se juntar a outros 10 estabelecimentos – Bistrot du Vin, Chiwake, Restaurante da Mira, Mingus, Pomodoro Café, Ponte Nova, Portoferreiro, Recanto Lusitano, Tasca e Wiella Bistrô – que fazem com que o Recife só fique atrás de São Paulo e do Rio de Janeiro, em número de casas indicadas pela publicação. Rivandro conta que ficou mais feliz porque a estrela veio para Pernambuco do que para ele e acha que o chef não deve se apegar a ela, pois pode perdê-la. “Não vou fazer como o cara de Ratatouille”, brinca, referindo-se à animação da

Pixar em que o chef parisiense Auguste Gusteau morre depois de perder uma estrela. A causa? Coração partido. Com o título de chef do ano, a sensação é outra: para Rivandro, é um sinal de que está no caminho certo, embora diga que continuará sempre buscando melhorar. “Isso ninguém vai tirar de mim”, afirma. “O Escondidinho foi ganhando vida a cada dia, ganhando alma. Hoje, as pessoas conseguem ver que ele é a minha cara.” E é essa cara tão peculiar – resultado da harmonia entre o chef, a cozinha e a casa – que faz com que ele recuse convites de investidores para entrar numa sociedade. “Será que eu não estaria matando a minha alma?”, questiona. Sua atual equipe tem 14 pessoas, quase todas da família (sobrinho, irmão, tia, cunhada), em um projeto que ele classifica como “muito pé no chão”. Aos 34 anos, ele passa tanto tempo no restaurante, que não tem sobrado espaço para a vida pessoal: alugou um apartamento, mas está dormindo em um colchão, pois nem cama comprou ainda. De vez em quando, pede abrigo na casa da mãe, costureira aposentada, que não desmontou o quarto do filho. O pai, antes de se aposentar como porteiro, trabalhou como faxineiro e cozinheiro na casa de um coronel. Técnico de enfermagem

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há 17 anos, e no Exército há oito, ele vinha conciliando o restaurante com os plantões. O ciclo do emprego temporário acaba, ao que parece, na hora ideal.

SABOR NORDESTINO

Formado na primeira turma de Gastronomia da Faculdade Maurício de Nassau, em 2008, iniciou sua carreira na cozinha preparando bombons de chocolate em parceria com uma amiga que precisava de dinheiro para pagar a faculdade. Ela não quis continuar no negócio, mas Rivandro levou a história adiante. Começou com recheios sintéticos, depois inovou para fazer

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jus ao slogan “Chocolate com sabor do Nordeste”. Sabores como macaxeira e jaca passaram a fazer parte do menu. “Eu não vim ao mundo para ser melhor, mas para ser diferente”, justifica. As vendas eram realizadas no hospital, porém os clientes começaram a cobrar um local fixo para encontrar os doces. Abrir um restaurante não estava nos planos – o chef pensava em lançar um serviço de bufê. Até que resolveu alugar uma pequenina casa na Rua Doutor Tomé Dias, em Casa Amarela, com apenas 35 lugares. Os amigos foram os primeiros a aparecer. Em seguida, ao frequentar eventos de

gastronomia para divulgar os bombons, conheceu chefs como Duca Lapenda, do Pomodoro Café, Claudemir Barros, do Wiella Bistrô, e Joca Pontes, do Ponte Nova. O trio foi conhecer a casa nova e Rivandro lembra que tremia, a ponto de mal poder segurar as panelas. Adoraram os pratos, mas acharam que o local não se sustentaria com preços tão baixos. Mesmo com a sugestão dos pares, Rivandro manteve sua política do “bom e barato”. A relação com outros chefs está presente do cardápio às mesas, que levam nomes de pessoas que o ajudaram. A receita da “mocofava” é

1  ensopado de cuscuz Cardápio faz novas versões de clássicos da cozinha nordestina

de Rodrigo Oliveira, que, para ele, é mais que o chef do incensado paulistano Mocotó: é o amigo que abriu a porta da casa da mãe por oito dias para abrigá-lo em São Paulo. Com os colegas também foi ao Peru, em 2012, para conhecer a Feira Mistura, em sua primeira experiência fora do Brasil. Na mala, em vez de ingredientes, trouxe conceitos. “Nunca vi uma cozinha tão simples e com tanto carinho”, diz ele, que só quer viajar com motivações gastronômicas. “Não vou à França para tirar foto da

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Cardápio

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Torre Eiffel”, brinca o rapaz, que nunca foi à praia de Porto de Galinhas. A rápida folga semanal acontece na segunda-feira pela manhã – até meiodia, nem telefone ele atende. Aproveita para pegar o filho de 11 anos na escola e assistir ao programa de Ana Maria Braga, na TV Globo. “Para mim, o dia só deveria começar depois de Ana Maria!”, diz. Na terça-feira, costuma sair em busca de algum lugar novo para almoçar com os amigos, mas a labuta já começa no Escondidinho, que abre de quarta-feira a domingo para almoço. Nos dias de casa aberta, fica por lá das 6h até fechar. O novo local é maior, com 90 lugares, e fica na Rua Conselheiro Peretti, a 300 m do anterior. Continua sem placa, mas o boca a boca dá conta da divulgação. No fim de semana, é comum haver filas de espera. Não importa se o cliente é prefeito ou pedreiro da obra ao lado: Rivandro é daqueles cozinheiros que vão à mesa para conversar com o comensal, não em busca de elogio, mas de opinião sincera. “Quero feedback, quero o que o cliente traz para somar. É por isso que vou à mesa”, explica. Leva sempre um chapéu de couro na cabeça. É uma forma de

A cozinha do restaurante é regional, mas os pratos sempre trazem um toque autoral do chef proprietário homenagear o avô, que dizia que era preciso usar gibão para cozinhar comida sertaneja. Nascido em Pedra de Fogo, na Paraíba, ele faleceu há dois anos, aos 100. Até na foto da formatura, Rivandro usou o chapéu – não por escolha, mas porque era o que estava sobrando entre os apetrechos disponíveis na hora do clique mais informal. Não acredita que tenha sido coincidência. A cozinha do Escondidinho é regional, mas os pratos sempre trazem um toque do chef, que afirma mergulhar fundo nas receitas na hora da criação. “Toda casa sertaneja tem macaxeira, carne de sol e queijo de coalho. A diferença pode estar na técnica de cozimento, lento, para deixar desfiando.” No momento desta

entrevista, ele estava analisando o que poderia ser feito com a macaíba. O lado autoral deve aflorar mais ainda este mês, com o lançamento do menu degustação previsto para acontecer nas quintas ou sextas-feiras à noite, com opções diferentes a cada semana. Pode ser, por exemplo, uma tilápia com banana-daterra perfumada com gengibre e raspa crocante de queijo manteiga. Apesar do nome da casa, o escondidinho aparece como prato principal apenas às quartas-feiras. Nos outros dias, pode ser pedido como entrada, junto a opções como a codorna frita com mel de engenho ou a Tábua da salvação: carne de sol, queijo, bananada-terra, macaxeira, calabresa e castanha de caju, salteados na manteiga de garrafa e finalizados com cachaça. Arroz de terceira (carne de sol desfiada com cubos de queijo de coalho, puxada na manteiga de garrafa com purê de batata-doce com hortelã) e Mocofava (caldo de mocotó, fava, calabresa e charque, acompanhado de arroz) são alguns dos principais. A pimenta biquinho é marca registrada. Na hora da sobremesa, as pedidas incluem o doce Sabor de Pernambuco

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(feito com macaxeira, mel de engenho, coco e cachaça, servido quente com sorvete de creme), os bombons – bolo de rolo, cachaça e queijo do reino são alguns dos sabores – e o brigadeiro. Este é servido em uma colher enorme, daquelas de arroz, e o cliente pode colocar quanto conseguir no talher. Sucesso não apenas entre as crianças, mas também entre os adultos. “Os olhos chegam a brilhar. Essa alegria não tem preço”, comemora. Para finalizar a refeição, nego-bom e café coado. Está nos planos comprar uma máquina de expresso, mas o coado vai continuar a ser servido a quem assim preferir.

BATISMO GASTRONÔMICO

Até a linguagem do cardápio é toda particular: os nomes dos pratos têm história. A Tábua da salvação, por exemplo, vem de um poema de Jessier Quirino. O Sururu de quenga para baixo é autoexplicativo. “O nome tem que ter a essência. Depois que encontro a ligação com a comida, é que boto graça no nome”, explica ele, que está estudando inglês e espanhol, mas só assina embaixo do menu se houver erros de português

para se aproximar do linguajar popular. Já houve cliente que foi avisar em uma rede social sobre os erros digitados, mas ele explicou que o “abrasso” com dois “esses” é mais gostoso. A decoração também é recheada de memórias, como o couro de bode morto no aniversário do avô ou a mesa que foi do irmão. A bodega estilizada comporta fogão antigo, garrafas de cachaça, balança, cordéis, latinha de guaraná Jesus e até panela de bronze paga ao pai como parte de uma indenização trabalhista. Na vida real, a bodega de Rivandro é o Mercado de Casa Amarela, de onde vêm 90% dos insumos. Uma placa indica que “nós aceita cartão porque nós aprendeu buli cum a máquina”. O preço médio dos pratos principais, bem servidos, é de R$ 14,90. Os números só se mexem quando os ingredientes sobem muito, mas ele tenta negociar com os fornecedores. “Quem aumenta sempre perde credibilidade”, opina. Recifense que passou a infância em Olinda e mora em Casa Amarela, há uma década, Rivandro conta que foi se apaixonando pela muvuca do bairro que concentra quase 30 mil habitantes em

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2 O LUGAR Decoração é repleta de itens do artesanato local sabor de pernambuco 3 Sobremesa mistura macaxeira, coco, cachaça, mel de engenho e sorvete

4 revelação do ano Rivandro França ganhou a honraria do Guia Brasil 2013

188 hectares, segundo dados do censo demográfico 2010. É encantado pela mistura de pessoas tão diferentes nos balcões do mercado público, onde se encontram empregados domésticos e madames, sem distinção. Curiosamente, porém, é do outro lado da cidade, da distante Boa Viagem, que ele calcula que venha 60% da sua clientela. “O que me importa é que meu público é gente que vem para cá e aceita minha proposta”, considera. “Eu vim para ficar. Não quero ser uma moda”, resume.

COMO CHEGAR Cozinhando Escondidinho Rua Conselheiro Peretti, 106, Casa Amarela Fone: (81) 3451.0599

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Fotos: OTAVIO DE SOUZA

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VOZ Das bacantes ao frevo de bloco

Com um tipo de coro que remonta à Grécia, Coral Edgard Moraes comemora 25 anos de atividades com o CD Cantos & encantos texto André Valença

Parece que há uma lógica exponencial nas canções carnavalescas: quanto mais no passado se situam, mais o passado se canta. Basta observar como se chamam alguns desses sucessos: A dor de uma saudade, Recordar é viver, Velhos carnavais, Carnavais de outrora e Valores do passado (“E o Bloco da Saudade/ Assim recorda tudo o que passou”).

Os títulos citados são amostras dos 300 frevos de bloco (ou marchas de bloco) deixados pelo compositor Edgard Moraes, cujos 40 anos de morte são lembrados em 2013. Existem vários outros na mesma linha melancólica. É curioso notar que essa temática provoca agora um duplo sentimento

de nostalgia, visto que as canções estão cronologicamente distantes. Observando as letras, perceberemos nesse tipo de frevo referências a tempos mais remotos. A alusão pode parecer demasiadamente afastada, mas essa música tradicional tem respaldo direto, por exemplo, no “canto triunfal e glorioso” das devotas de Dionísio, no texto teatral As bacantes, de Eurípedes, apresentado pela primeira vez em Atenas no ano de 405 a.C. Assim como as cantoras das marchas de bloco de corais recifenses, as bacantes cantavam e evocavam – com gritos de “evoé, evoé” – o entusiasmo folião. A diferença é que as gregas, mesmo situadas há mais de 2 mil anos, eram mais libertinas e anticonvencionais. Seja como for, o Carnaval está claramente lá, nessa e em outras referências. “Entra o coro das bacantes, envergando peles de gamo, coroadas de hera e de serpentes, agitando os tirsos e os tamboris, tocando

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1 herdeiras Filhas, netas e sobrinhas de Edgard Moraes levam à frente sua obra

flauta e dançando ao som desses instrumentos”, descreve Eurípedes. Só fica faltando o estandarte. Grupos de coralistas eram comuns nas peças da Grécia antiga. Tratava-se de um recurso dramático utilizado pelo autor para comentar ações do enredo que não podiam ser expressas pelos protagonistas. “Esse coro tradicional se chama orfeão”, explica o professor de música José Amaro, da Universidade Federal de Pernambuco. “O nome é originado da palavra Orfeu, que é o deus grego da música. O orfeão é cantado a uma única voz, seja ela masculina ou feminina, em uníssono.”

partitura 2 Valores do passado, em manuscrito do próprio autor

ERA CRISTÃ

Outras modalidades de corais apareceram na sequência. Durante a Idade Média, elas tiveram um desenvolvimento notável. “Quando chega a era cristã, a igreja vai usufruir de todo esse conhecimento greco-latino e montar seu próprio esquema musical, interessada na mensagem religiosa”, comenta José Amaro. Daí nascem as missas cantadas, divididas nos segmentos kyrie, gloria, credo, sanctus, benedictus e agnus dei, e a musicalização de orações específicas, como a salve-rainha, a avemaria e o pai-nosso. Cada uma tem uma estrutura específica de texto, sobre a qual o compositor constrói a música. Aparecem nessa mesma época os coros mistos, formados por vozes de naipes distintos. Eles podem ser dispostos em soprano (voz aguda feminina), contralto (grave feminina), tenor (aguda masculina) e baixo (grave masculina). É igualmente possível se deparar com coros mistos femininos (compostos por soprano, mezzo-soprano e contralto) e masculinos (tenor, barítono e baixo). A princípio, as missas eram em canto gregoriano (também chamado de cantochão), uma modalidade desenvolvida no final do século 6 pelo Papa Gregório I, em que as orações entoavam-se em uníssono e monofonicamente. “O canto gregoriano é construído para uma determinada voz. Pode ser masculina, feminina, ou as duas, contanto que esteja no mesmo tom. Não há harmonização, ou seja, é uma linha reta, sem muita sinuosidade”, ensina José Amaro. Mais tarde, na Alta Idade Média e na Renascença, aparecem os cantos polifônicos, em

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Com o surgimento das óperas, no Barroco, os corais retomam preceitos do teatro grego, afastando-se da pauta religiosa

contraponto ao cantochão, em que as vozes apresentam mais de uma melodia, simultaneamente, na mesma música. É só durante o período barroco que os corais passam a se afastar da pauta religiosa. Com o surgimento da ópera, uma manifestação que retoma vários preceitos do teatro grego, o coro sai da condição de protagonista, como vinha sendo durante a Idade Média, e novamente divide o palco com a dança e a representação.

DAS OPERETAS

A popularização da ópera foi essencial à futura criação dos frevos de bloco, isso porque, quando começaram a ser fundados os primeiros blocos no Recife, era preciso criar um tipo de canção que

tivesse uma característica mais lírica. “O que os compositores fizeram, então? Eles lançaram mão das jornadas do pastoril”, elucida José Amaro. “O pastoril é uma representação teatral que sugou muito das operetas. Apresenta várias figuras, como o Satanás, que entra, solta fogo, faz a pompa toda; bem exagerado, bem cênico. Atrás disso tudo, tem um coral sustentando o lado melódico. Os compositores das marchas tiveram a ideia de extrair apenas o coro”, diz. Do ponto de vista estrutural, José Amaro explica como se compõe o frevo de bloco: “Simples, é um orfeão cantado por mulheres, normalmente acompanhado de uma banda de pau e corda”. O pesquisador Leonardo Dantas Silva, autor do livro Carnaval do Recife (2000), aponta, no artigo Ensaios de Carnaval (Suplemento Cultural, fev/1997), que convém distinguir três tipos de frevo: “Nos anos 1930, a fim de aumentar o apelo promocional dos discos de então, convencionou-se dividir o frevo em frevo de rua (quando puramente instrumental), frevo-canção (este derivado da ária, com uma introdução orquestral e andamento melódico,

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IMAGENS: REPRODUÇÃO

3  gregorianos Os corais se desenvolveram bastante na Idade Média 4  antiguidade O canto triunfal das bancantes figura nos primórdios do coral

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típico dos frevos de rua) e o frevo de bloco”. José Amaro completa a informação: “O frevo de rua é orquestrado; o frevocanção é orquestrado com uma letra em que alguém sola o tempo todo. E tem a marcha de bloco, que é o termo mais correto para o frevo de bloco. Porque, na marcha, a pessoa caminha cantando e, no frevo (canção, ou de rua), a música toca e o cara se esbalda. Os dois primeiros são ritmos frenéticos, que levam você a pular. A marcha de bloco, ao contrário, é mais calma, só balançante. Tem uma outra conotação”. Acelerando a história para o ano de 1962, podemos entender melhor a raiz do saudosismo dos frevos de bloco, comentado no início deste texto. À essa época, os grupos carnavalescos líricos

estavam desaparecendo – foi quando Edgard Moraes compôs a premiada canção Valores do passado, na qual homenageia 24 blocos pernambucanos extintos. No final, idealiza uma agremiação que representasse todos eles, o Bloco da Saudade, que depois foi propriamente fundado, em 1973, por José Madureira e Marcelo Varela.

CORAL EDGARD MORAES

Pode ser chamado de passado esse tempo dos “tempos que passaram” de Edgard Moraes. O compositor, que também atendia pela alcunha de “General Cinco Estrelas da Folia”, no entanto, deixou um legado seguido por suas filhas, netas e sobrinhas. Elas integram o tradicional Coral Edgard Moraes, agora comemorando 25 anos de atividades com o lançamento do CD Cantos & encantos, encartado nesta edição da Continente. De sua parte, o grupo não é tão apegado ao passado. Segundo Marco César, professor de Música da UFPE

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INDICAÇÕES e diretor musical do álbum, junto com o maestro Spok, eles não se limitaram a gravar composições tradicionais, mas chamaram colaboradores para criar novas músicas. Foi o caso do jovem guitarrista Luciano Magno, que assina a faixa Meu principado, ao lado de João Araújo. “Outro dado de diferenciação é que esse disco veio mais ousado, porque apresenta formações nunca tocadas em frevos de bloco. Tivemos a ideia de criar variações instrumentais distintas. Então, há faixas com conjunto de choro, quinteto de cordas, quinteto de madeira, orquestra de frevo tradicional, além da original, de pau e corda”, comenta o diretor. Em Mais que uma cantiga, composição de Cláudio Almeida e Humberto Vieira, a elaboração foi inspirada no dixieland, subgênero do jazz surgido no início do século 20 em Nova Orleans. O arranjo é do professor de Música da UFPE Flávio Rangel, e casa bem com o experimento da linha de improviso que Spok propõe com a sua Frevo Orquestra. “Quando demos carta branca para Fernando, ele até ficou assustado com a possibilidade de mexer com o modelo do frevo de bloco, mas depois relaxou”, lembra Marco César. No caso de Meu principado, além de aparecer a guitarra, também entram baixo acústico, piano, bandolim e sax. “Instrumentos elétricos no frevo de bloco, acredito que só Alceu (Valença) fez antes da gente”, considera o professor. Apesar de mais timidamente, o coral havia subvertido as estruturas clássicas da marcha de bloco, quando resolveu se aposentar da rua e mudar a ambientação do conjunto. “Durante 13 anos, nós fizemos parte do

Bloco das Ilusões”, conta Valéria, produtora e uma das cantoras do Edgard Moraes. “Mas foi ficando impraticável a questão das caminhadas, da programação... Também queríamos aprimorar a qualidade vocal do trabalho. Então, decidimos fazer uma coisa inusitada: cantar frevos de bloco no palco. Foi aí que surgiu, de fato, o Coral Edgard Moraes”, conta. Além dessa distinção, para Valéria, o que destaca o grupo de outros do gênero é a genética. “Quando você escuta, parece que é uma voz só cantando. É muito difícil conseguir isso em coral. Conseguimos por conta da hereditariedade; o timbre de voz é muito parecido, porque somos todas parentes”, observa. É bom salientar que, apesar das inovações, a tradição não fica de fora do disco. Raul Moraes (irmão de Edgard), Luiz Guimarães, Alvacir Raposo e outros nomes são igualmente regravados. Do General, são duas: Edgariando, que abre o CD, e Vingança de arlequim (em parceria com Caio Costa Lima). Porém, de acordo com Inajá Moraes, filha de Edgard, o corpus é tão grande, que muitas outras poderiam ter entrado: “A inspiração dele não tinha hora. Às vezes, acordávamos de madrugada e ele estava enroscado com o violão e suas partituras, compondo frevo de bloco, canção, maracatu, valsa. Porque ele não fazia só frevo, tinha música de tudo o que é tipo. Tinhamos cuidado para não fazer zoada e não atrapalhar, porque sabíamos que uma hora a música ia ficar pronta e iríamos gravar. Eu e minha irmã (Iraçaíra Moraes) registramos praticamente todas as músicas de papai”, relembra.

SAMBA

REGIONAL

JM Records

Independente

VELHA GUARDA DA MANGUEIRA Homenagens Vol. 1

FIM DE FEIRA De todo o jeito a gente apanha

O CD registra o show realizado em julho de 2010, no Teatro Municipal Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Apresenta o trabalho que vem sendo feito há mais de 24 anos pelos artistas da Mangueira, além de homenagear ilustres compositores da agremiação, como Jamelão e Cartola. Lenine, Sandra de Sá, Alcione e o grupo Fundo de Quintal são algumas das participações especiais. A faixa que abre o disco é, acertadamente, Exaltação à Mangueira. A última, a clássica Vou festejar, interpretada por Sapoty.

No seu terceiro disco (segundo completamente autoral), o grupo Fim de Feira mantém-se fiel ao seu propósito: resgatar ritmos tradicionais nordestinos e trabalhá-los com elementos mais contemporâneos. Todas as composições são de autoria de Bruno Lins e Tonzinho, integrantes fundadores da banda. Destaque para a faixa Preso 137, música de protesto inspirada na poética dos repentistas nordestinos. O álbum conta com participações especiais, como a de Elba Ramalho e do rapper Zé Brown.

REGIONAL

FREVO

TIBÉRIO AZUL Bandarra Joinha Records

Vocalista da banda Seu Chico e fundador da extinta Mula Manca & a Fabulosa Figura, Tibério Azul leva sua veia poética a Bandarra. O primeiro disco solo do músico, que se considera um observador atento da vida, traz letras carregadas de inspirações das pequenezas do cotidiano. Um mix de rock, regionalismo, MPB e arranjos eruditos dão identidade ao disco, que apresenta 10 canções inéditas. No repertório, destaque para Veja só, Alquimista tupi e Vamos ficar sol.

ORQUESTRA POPULAR DA BOMBA DO HEMETÉRIO #CabeçaNoMundo Independente

A OPBH lança seu segundo disco de estúdio, #CabeçaNoMundo. O álbum reúne 12 faixas, metade instrumental, metade cantada – algumas delas trazem participações especiais, como Meu esquema, que tem a voz de seu compositor Fred 04 embalando essa versão que mistura frevo e samba rock. A propósito, o trabalho, orquestrado pelo Maestro Forró, é todo permeado de variações de ritmos contagiantes, o que deve funcionar ainda mais nas performances energéticas da banda.

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FAROESTE Por um (bom) punhado de dólares

Um dos mais antigos gêneros fílmicos passa por renovação de forma e conteúdo, incorporando elementos visuais e sonoros de outros estilos texto Rodrigo Carreiro

No prefácio que escreveu para o

primeiro estudo acadêmico de fôlego sobre o western, publicado em 1953 por Jean Louis Rieupeyrout, o crítico e teórico cinematográfico francês André Bazin colocou no papel, pela primeira vez, uma questão que rondava as mentes de cinéfilos em todas as partes do mundo: por que razão um gênero fílmico de códigos visuais e narrativos tão rígidos, e tão historicamente circunscrito, exercia fascínio universal? Bazin abordou o assunto, como de hábito, de modo preciso: “Em que as populações árabes, hindus, latinas, germânicas ou anglo-saxônicas, junto das quais o western sempre teve um sucesso constante, são concernidas pela evocação do nascimento dos Estados Unidos, a luta de Búfalo Bill contra os índios, o traçado da estrada de ferro ou a Guerra da Secessão?”. O que havia de secreto e encantador nas epopeias de caubóis e índios capaz de manter o

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1 django livre Quentin Tarantino faz sua primeira incursão no faroeste rastros de ódio 2 Filme de John Ford é considerado um clássico do gênero

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interesse de povos tão díspares, em países cujas culturas pouco ou nada tinham a ver com a história dos EUA, onde invariavelmente todas as histórias desse gênero se passam? Mais de um século depois de os primeiros filmes do gênero serem lançados (o primeiro western data de 1902), a expectativa criada em torno da estreia de Django livre, oitavo longametragem de Quentin Tarantino e primeira incursão deliberada do diretor pelo gênero, comprova que, embora tenha arrefecido nas últimas quatro décadas, a questão formulada por Bazin continua tão viva quando o próprio faroeste. Desde os anos 1960, de fato, se fala da suposta morte desse gênero, mas os lançamentos de filmes ambientados nos EUA do século 19 continuam acontecendo todos os anos, dentro e fora dos EUA. Tampouco dá para deixar de lembrar que as novas gerações de cinéfilos continuam descobrindo e reconhecendo a importância dos grandes mestres do western, como comprova a recepção calorosa à recente exibição do clássico Rastros de ódio (John Ford, 1956) no cinema São Luiz do Recife, em novembro de 2012, quando o encerramento da projeção foi saudado com aplausos entusiasmados. De fato, o faroeste não apenas continua vivo, mas vários cineastas jovens têm ajudado a acrescentar novos elementos ao conjunto de convenções que compõem o repertório narrativo e estilístico do gênero. Alguns dos mais interessantes filmes norte-americanos lançados neste século 21 estão claramente vinculados à essa tradição narrativa. Bravura indômita (Joel e Ethan Coen, 2010), Pacto de justiça (Kevin Costner, 2003) e Appaloosa – uma cidade sem lei (Ed Harris, 2008) podem não ter vencido grandes prêmios ou feito significativas bilheterias, mas frequentaram várias listas de melhores do ano de críticos respeitados internacionalmente. Edições especiais em blu-ray e DVD de longas-metragens

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3 clint eastwood Ator ícone do bangue-bangue revisitou o gênero, em 1992, com Os imperdoáveis 4 cowboys & aliens Aventura mistura faroeste e ficção científica 5 rango Premiada animação utiliza elementos da narrativa do western

clássicos, como o já citado Rastros de ódio e Onde começa o inferno (Howard Hawks, 1959), lideram listas de mais vendidos entre os filmes lançados para o mercado doméstico, atraindo as novas gerações para o mais antigo dos gêneros fílmicos.

OLHOS PUXADOS

O mais curioso é que bons filmes de bangue-bangue também têm sido

realizados fora dos Estados Unidos, como é o caso do australiano A proposta (John Hillcoat, 2009), do japonês Sukiyaki Western Django (Takashi Miike, 2007) e do sul-coreano Os invencíveis (Ji-woon Kim, 2008) . Nos dois últimos, os caubóis de olhos puxados alternam os tradicionais duelos de revólver com lutas de espada coreografadas com capricho. Além disso, grandes produções dirigidas a jovens, como Cowboys & aliens (Jon Favreau, 2001) e a animação Rango (Gore Verbinski, 2001), reafirmam que o gênero continua a renovar-se em forma e conteúdo, incorporando elementos visuais e sonoros oriundos de outros gêneros, como a ficção científica, a comédia e os filmes de samurais.

Claquete

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Por sinal, reconhecer e respeitar essa renovação iconográfica não deixa de ser atitude fundamental, pois é esse hibridismo que comprova a vitalidade de um gênero fílmico. Um dos principais pesquisadores e teóricos do cinema contemporâneo, Steve Neale, menciona exatamente isso. Para ele, um conjunto de filmes constitui um gênero quando existe todo um repertório de expectativas e convenções negociadas permanentemente entre três atores sociais: a indústria (estúdios e distribuidores), o texto (filmes) e o sujeito (plateia). Em outras palavras, pode-se afirmar que enquanto diretores de cinema continuarem acrescentando elementos à tradição narrativa de um gênero, ele permanecerá vivo – e, em pleno século 21, o western atende a todos esses requisitos. É claro que, em quantidade, ele parece não ter mais o mesmo apelo de outrora. Um levantamento rigoroso realizado pelo pesquisador inglês Edward Buscombe, em 1988, mostrou que, desde o advento do cinema com som sincronizado, em 1927 (momento histórico em que os gêneros fílmicos foram cristalizados e que constitui formalmente o início do período de maior prosperidade da indústria cinematográfica norteamericana), o western se manteve como o gênero numericamente mais fértil. Cerca de 30% de toda a produção de longas-metragens nos EUA se caracterizavam como tal. Nesse período, cineastas como os citados Ford, Hawks, Anthony Mann e Budd Boetticher revisitaram as convenções do faroeste inúmeras vezes, refinandoas e reinventando-as sem cessar. Esse percentual se manteve estável até meados dos anos 1960, quando a quantidade cada vez maior de seriados de televisão ambientados no Velho Oeste reduziu a procura por westerns nos cinemas. Em 1959, havia nada menos que 48 séries em exibição nos três canais abertos dos Estados Unidos. Os estúdios, então, cortaram pela metade a produção de obras do gênero, cuja circulação continuou caindo ao longo dos anos 1970, chegando a 10% de todos os filmes feitos nos EUA. Nesse período, a realização de faroestes foi então deslocada para o eixo Itália-Espanha, onde a demanda por histórias estreladas

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Acervo WESTERNS nota 10 5

por caubóis e pistoleiros continuava alta. Surgia a variação do gênero conhecida como spaghetti western, liderada pelo diretor Sergio Leone, que deu ao mundo um total de 550 longas-metragens em 14 anos, um novo perfil de herói (amoral, irreverente, cínico, violento e lacônico) e, pelo menos, um grande astro internacional: Clint Eastwood, que depois se tornaria diretor respeitado e ajudaria a renovar a tradição, lançando filmes como O estranho sem nome (1973), Josey Wales – o fora da lei (1976) e Os imperdoáveis (1992).

SOFÁ E TV

A partir dos anos 1980, quando a produção de faroestes nos Estados Unidos caiu para menos de 10% (esse índice continuou caindo, sendo hoje meramente residual), o gênero mais tradicional do cinema narrativo ganhou fôlego com o surgimento e a rápida expansão do mercado de vídeo doméstico. Nesse momento, com os grandes clássicos à disposição das novas gerações, filmes como Rastros de ódio finalmente tiveram o reconhecimento crítico que mereciam (vale a pena lembrar que John Ford, o maior de todos os diretores de westerns, ganhou cinco Oscars na carreira, mas nenhum deles por um filme vinculado ao gênero que amava, e que o tornou famoso). Do ponto de vista da produção, a sua revitalização ocorreu através de diferentes processos de hibridização: o gênero foi fundido com aventura pósmoderna (Silverado, de Lawrence Kasdan,

feito em 1985), romance (Maverick, de Richard Donner, 1994) e comédia (Bater ou correr, de Tom Day, 2000). Na mesma época, a premiação mais badalada da indústria finalmente reconheceu o western como gênero capaz de gerar obras importantes. Após várias décadas premiando, raramente, apenas os longas-metragens ambientados nas pradarias do Velho Oeste, o Oscar entregou a estatueta de melhor filme a Dança com lobos (Kevin Costner, 1990) e ao já citado Os imperdoáveis, dois anos depois. Mesmo que o Oscar seja reconhecidamente um fenômeno da indústria, sem relação direta com qualidade estética, de certa forma, essas premiações fecharam um ciclo, instituindo ao mesmo tempo uma relação de ambiguidade entre o gênero e seu suposto desaparecimento. Ou seja, embora estivesse vivo, e inspirando dezenas de produções menos badaladas em diversos países, a nostalgia que moveu esses prêmios talvez tenha contribuído para acelerar os anúncios de morte do western que pipocam, de tempos em tempos, por aí afora. Mas o filme de Tarantino está aí para provar que essas previsões erram o alvo. Ou, parafraseando a célebre frase de André Bazin (um aforismo que, de certa forma, responde a pergunta famosa lançada por ele), o western resulta do encontro de uma mitologia (a norteamericana) com um meio de expressão (o cinema). Daí, só podemos tirar a conclusão de que, enquanto houver cinema, haverá faroeste.

No tempo das diligências (John Ford, 1939) Filme definiu os arquétipos do gênero e revelou seu maior astro: John Wayne (foto). Winchester 73 (Anthony Mann, 1950) O personagem principal não é um homem, mas uma arma rara perseguida por dois rivais. Vera Cruz (Robert Aldrich, 1954) Primeiro faroeste irreverente. Rastros de ódio (John Ford, 1956) Realismo psicológico em um dos grandes filmes de todos os tempos. Onde começa o inferno (Howard Hawks, 1959) Diretor celebra a resignação estoica dos grandes heróis do gênero. O homem que luta só (Budd Boetticher, 1959) Uso do silêncio como recurso dramatúrgico; obra-prima da vingança. Três homens em conflito (Sergio Leone, 1966) Recriação realista do verdadeiro oeste americano. Meu ódio será sua herança (Sam Peckinpah, 1969) Insere a ultraviolência no western. Jogos e trapaças - quando os homens são homens (Robert Altman, 1971) História destaca a dureza intrínseca ao Velho Oeste. Os imperdoáveis (Clint Eastwood, 1992) Eastwood mostra o que acontece com pistoleiros que conseguem envelhecer.

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INDICAÇÕES DRAMA

XINGU

Direção de Cao Hamburger Com João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat Columbia Pictures, Downtown Filmes

O longa de Cao Hamburger retrata a aventura vivida pelos irmãos Villas-Bôas nos anos 1940, quando se alistam na expedição Roncador-Xingu para desbravar o Brasil Central. Cláudio, Leonardo e Orlando logo se tornam chefes da campanha e se envolvem na defesa dos índios e na preservação de sua cultura, culminando com a fundação, em 1961, do Parque Nacional do Xingu, considerada a maior reserva indígena do mundo.

DOCUMENTÁRIO

TROPICÁLIA

Direção de Marcelo Machado Imagem Filmes

Imbuído da mesma energia vibrante que caracterizou um dos movimentos musicais mais representativos da contracultura brasileira durante os anos de chumbo, Tropicália traz um panorama afetivo construído por referências, pesquisas, entrevistas e imagens de arquivo, retratando as nuances diversas do Tropicalismo, e seus principais expoentes. Destaque para momentos como o de Tom Zé tentando explicar para a plateia o significado do termo tropicália, chegando à conclusão de que o mesmo é indefinível.

DRAMA

7 DIAS EM HAVANA

Direção de Benicio Del Toro, Elia Suleiman, Gaspar Noé, Juan Carlos Tabio, Julio Medem, Laurent Cantet e Pablo Trapero Com Josh Hutcherson, Daniel Brühl e Emir Kusturica Imovision

Resultado do trabalho de sete cineastas de diferentes nacionalidades, o filme mostra a capital cubana em processo de transformação, cenário de histórias que se entrelaçam. Entre elas, a de um turista americano que tem como guia um taxista, uma cantora indecisa entre a carreira na Espanha e o namorado em Cuba e o cineasta Emir Kusturica, interpretando a si mesmo.

DRAMA

TÃO FORTE E TÃO PERTO

Direção de Stephen Daldry Com Tom Hanks, Thomas Horn e Sandra Bullock Warner Bros

Indicado ao Oscar de Melhor Filme 2012, o drama do mesmo diretor de As horas é protagonizado por Thomas Horn, que vive o garoto Oskar Schell. A narrativa gira em torno da jornada obsessiva do menino de 11 anos em busca dos segredos do pai (Tom Hanks), que morreu no atentado ao WTC. O filme, de forte carga emocional e elenco de talento notável, é baseado no livro Incrivelmente alto e extremamente perto, de Jonathan Safran Foer.

Holy motors

MERGULHO NO REAL PELO ABSURDO

Fotos: reprodução

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Como atravessar uma ponte que não liga margens ou dar um passo em direção ao sopé de uma montanha e se descobrir já no topo. Como folhear o Livro de areia, de Jorge Luis Borges, um códex sobrenatural que nunca repete a página toda vez que

aberto. Assistir a Holy motors (Alemanha/ França, 2012), de Leos Carax, é como assinar um contrato sem que haja deliberação, pactuação, persuasão. A premissa deve ser aceita imediatamente (o universo já existia antes de ser filmado), sem

o favor de um convencimento, sem a chance de barganha. Monsieur Oscar (Denis Lavant, sob medida) circula por Paris em sua limusine branca, munido de perucas, figurinos e apetrechos de maquiagem. Manda-lhe o ofício que se metamorfoseie em inúmeros personagens (um banqueiro, uma mendiga, um pai, um assassino, um acordeonista...) no curso de um dia. Num dossiê, ele recebe o trabalho seguinte, contendo detalhes de uma vida e indicações de comportamento. Veste a máscara e interpreta. Mas para quem? Para obter a mais mais clara das metáforas que explicasse essa pulsão bastaria tirar um raio x da nossa sociedade do espetáculo, em que interação significa não menos que atuação. Haveria a descoberta de uma paranoia perene de nunca poder se desligar, a tensão de estar sendo constantemente vigiado. Mas a interpretação não é tão facilmente depreendida, ou simplesmente não

para por aí. Porque Holy motors é como um hobby caseiro, do tipo “faça você mesmo”: monte o sentido a seu capricho. Some ainda uma concomitante repulsa e dependência da tecnologia, a busca do Monsieur Oscar pela humanização, ao mesmo tempo que – através dos disfarces (tecnológicos, à sua maneira) – está constantemente se fabricando. Dessas tensões contemporâneas, surge inevitavelmente uma estética fabulosa, até certo ponto futurista. A atuação teatral de Lavant e a linguagem absurda contribuem para uma visão exagerada, estetizante do mundo. Carax ainda encontra espaço para a história do cinema, fazendo inserts de clássicos, como o curta dadaísta Entr’acte, de René Clair. Como se não bastasse, encaixa na história segmentos dramáticos, cômicos, de ação, de romance, e até um musical. Curiosa experiência de cinema; quase completa, quase definitiva. ANDRÉ VALENÇA

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COMPANHIA Festa do teatro potiguar no Recife

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Clowns de Shakespeare comemora duas décadas, no Janeiro de Grandes Espetáculos, com estreia nacional de Hamlet e exibição de mais duas peças TEXto Pollyanna Diniz

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fotos: pablo pinheiro/divulgação

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Os acontecimentos recentes do grupo de teatro Clowns de Shakespeare, de Natal (RN), revelam-se auspiciosos. Sua incelença, Ricardo III, espetáculo que estreou no Festival de Curitiba, no primeiro semestre de 2011, foi, desde então, apresentado mais de 100 vezes. O diretor Fernando Yamamoto relembra as sessões que o grupo fez no Complexo do Alemão (RJ), duas semanas depois de a polícia ter ocupado a região por conta da ação de traficantes. Em São José do Rio Preto (SP), numa única apresentação, foram mais de 7 mil espectadores. Também circularam com a peça pelo exterior – Espanha e Chile. “Ricardo III proporcionou ao grupo crescimento em diversos aspectos, principalmente de projeção do Clowns pelo país, e o início do processo de internacionalização. Acho que o momento em que o

Pelo trabalho de pesquisa e referências estéticas próprias, o Clowns é um dos mais importantes grupos do país na atualidade espetáculo surgiu foi oportuno, já que tínhamos respeito pelo país, mas isso foi incrementado pelo encontro com Gabriel Villela (diretor que assina a montagem) e todo o peso do seu nome”, afirma Yamamoto. O trabalho do Clowns de Shakespeare até pode ter tomado uma maior dimensão com essa última peça, mas não é de agora que o grupo constrói uma trajetória artística. Neste 2013, faz 20 anos que foi fundado, surgiu como outros grupos: dentro de uma escola de ensino médio, os alunos instigados

por um professor de Literatura. Desde então, passaram do amadorismo à profissionalização. Hoje, pode ser considerado um dos mais importantes grupos do Rio Grande do Norte e do Brasil, pelo trabalho continuado de pesquisa e desenvolvimento de referências estéticas próprias. As duas décadas do Clowns de Shakespeare começam a ser comemoradas no Recife, dentro do festival Janeiro de Grandes Espetáculos. A cidade será palco da estreia nacional de Hamlet, sob direção de Marcio Aurelio, nome consagrado do teatro brasileiro. A companhia também apresenta Sua incelença, Ricardo III (que só teve uma sessão no Recife, na Virada Multicultural, em outubro de 2011) e O capitão e a sereia, uma das peças do seu repertório. Haverá ainda o lançamento do projeto intitulado Cartografia do Teatro de Grupo do Nordeste, com mesa redonda e workshop.

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Página anterior 1  hamlet Montagem tem direção de Marcio Aurelio, numa volta do grupo ao texto shakespeariano

Em Cheias de charme, por exemplo, a indicação de Carlos Araújo (diretor de núcleo da novela) era a de que estávamos fazendo uma fábula, o que ampliava muito o nosso campo. Tenho certeza de que o teatro me ajudou muito a compor Socorro.

Nestas páginas 2  sua incelença, ricardo iii Com direção de Gabriel Villela, peça trouxe ao Clowns maior projeção nacional

Entrevista

TITINA MEDEIROS “é preciso sair do mesmo lugar”

“Participamos pela primeira vez do Janeiro de Grandes Espetáculos em 2005, com o espetáculo Muito barulho por quase nada e, depois, voltamos com Roda Chico. Temos certeza de que será especial estrear Hamlet dentro desse evento, o primeiro grande festival brasileiro no ano, no Teatro de Santa Isabel, e conseguindo, finalmente, levar O capitão e a sereia para o Recife”, diz Yamamoto. O capitão e a sereia (2009) é resultado de uma associação entre o Clowns e profissionais de outros sete estados. O texto original que deu origem à peça (embora a dramaturgia seja assinada por Yamamoto e pelo grupo) é do pernambucano André Neves e a preparação corporal do elenco foi realizada por Helder Vasconcelos, tendo o cavalo-marinho como inspiração. Durante a construção da montagem, que durou quatro meses, todos os sábados o grupo realizava ensaios abertos e ouvia o retorno do

As apresentações de Sua incelença, Ricardo III na abertura do Festival de Curitiba, em 2011, renderam fruto especial para a atriz Titina Medeiros, que faz o papel de Rainha Elizabeth na montagem. Foi no Paraná que um produtor de elenco da Globo gostou do trabalho do grupo e fez o convite para que os atores fizessem testes. Tempos depois, Titina estreava como a espevitada Socorro, na novela Cheias de charme, em que fez uma dobradinha com Cláudia Abreu. Mas como a raiz de Titina é mesmo o teatro e, mais especificamente, o Clowns de Shakespeare, depois do folhetim, ela está de volta em Hamlet, como Ofélia. CONTINENTE Quais as semelhanças entre o trabalho no teatro e na teledramaturgia? TITINA MEDEIROS Penso que a principal semelhança é a presença do jogo entre os atores e, consequentemente, entre os outros profissionais que estão realizando a cena. Sem jogo não há teatro e também não há televisão; e foi muito bom constatar isso. Apesar de serem linguagens diferentes, as duas permitem muitas possibilidades.

CONTINENTE Como montar Hamlet trazendo as referências do grupo ao palco? TITINA MEDEIROS Tem sido muito pertinente montar esse texto exatamente no momento que estamos vivendo no grupo, porque o drama de Hamlet passa por uma questão de escolha: que caminho tomar? Continuar vivendo como ditam os mandamentos morais da época ou se permitir um novo caminho, aparentemente menos claro, no entanto, tão necessário? Acho que nós, do grupo, estamos vivendo exatamente isso – é preciso dar outros passos e estamos nos permitindo essa aventura. Se ela vai ser bem-sucedida, ainda não sabemos, mas é preciso sair do lugar em que se está e permitir-se o movimento. CONTINENTE Como está sendo a experiência com Marcio Aurelio na direção? TITINA MEDEIROS Trabalhar com Marcio é genial, porque ele faz você aprender a partir do ponto em que você está. Tenho aprendido muito, por exemplo, com os seus silêncios. Ele é um diretor que possibilita a descoberta. Tem a paciência necessária para que a luz se faça em nós. CONTINENTE O que faz com que o grupo continue por 20 anos? Por que fazer teatro? TITINA MEDEIROS Acho que o amor ao que se faz, a admiração pelos demais integrantes e o desejo de se manter juntos são fatores fundamentais para que o grupo continue. E acredito que insistimos em fazer teatro porque fomos escolhidos para isso. É como diz o samba de João Nogueira: “Não, ninguém faz samba só porque prefere; força nenhuma no mundo interfere sobre o poder da criação”. É mais ou menos isso.

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mauricio cuca/divulgação

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público. “O capitão... foi um processo muito especial, sem dúvida o mais próximo do que consideramos o ideal”, comenta Fernando Yamamoto.

CARTOGRAFIA

O convite ao Clowns de Shakespeare para o Janeiro de Grandes Espetáculos está relacionado ao interesse do evento em fomentar discussões sobre o teatro de grupo no Brasil, aspecto inerente ao cotidiano da companhia. “Da formação inicial, ainda restam três fundadores: Renata Kaiser, César Ferrario e eu. É difícil definir a forma como construímos e mantemos o grupo. Um dos mais importantes fatores para isso foi conseguirmos estabelecer um equilíbrio entre os desejos pessoais e as demandas do coletivo. Ninguém trabalha no Clowns com o objetivo de projeção individual. O grupo sempre está à frente, embora seja fundamental que as inquietações de cada integrante tenham

A companhia também é responsável por projeto que mapeou e pesquisou a situação do teatro de grupo no Nordeste espaço. Investimos na companhia, dedicamo-nos muito para construir esse projeto artístico, que é o projeto de vida de todos nós. Mas, quando analiso de onde saímos e onde estamos, vejo que é uma história absolutamente improvável: um grupo tão sólido e com qualidade artística internacional numa cidade tão árida culturalmente como Natal”, diz Yamamoto. A partir de inquietações dos integrantes surgiu, por exemplo, o projeto Cartografia do Teatro de Grupo do Nordeste, que resultou em três

volumes sobre a produção na região. “Circulamos muito e em cada estado encontramos parceiros que vivem realidades parecidas com as nossas, seja a conjuntura política, gestão ou inquietações estéticas. Esse mapeamento revela recorrências, como a dependência de mecanismos de financiamento federais, ou a quase inexistência de companhias que conseguem garantir a manutenção de todos os seus integrantes”, aponta o diretor. Uma das influências no trabalho do Clowns de Shakespeare, no entanto, vem de Minas Gerais: o Grupo Galpão. Em Muito barulho por quase nada e O casamento do pequeno burguês, a direção das montagens foi dividida entre Fernando Yamamoto e Eduardo Moreira, um dos fundadores do Galpão. “Eles sempre foram a nossa maior referência, seja no aspecto estético e poético, seja no organizacional, de gestão. O Eduardo foi o elo entre

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francesco galli/divulgação

todos nós, mas depois desses dois trabalhos temos uma relação muito íntima, seja no compartilhamento dos mesmos parceiros artísticos, como o próprio Gabriel Villela, seja na troca constante que temos.”

ENCONTROS

3  o capitão e a sereia André Neves e Helder Vasconcelos são, respectivamente, autor e preparador corporal da peça

Em Hamlet, pela segunda vez um diretor convidado assume a tarefa de assinar uma montagem do Clowns. A primeira foi em Sua incelença, Ricardo III, dirigida por Gabriel Villela. Marcio Aurelio se dedica ao teatro desde a década de 1970. Já recebeu os prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), o Troféu Mambembe, o Prêmio Molière e o Shell. Em 1990, criou a Companhia Razões Inversas, que tem no repertório espetáculos como Agreste, de Newton Moreno, e Anatomia frozen, texto de Bryony Lavery. A aproximação do Clowns de Shakespeare com o diretor deu-se em 2007, durante uma residência no Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp). “Como planejamos o trabalho do grupo com dois, três anos de antecedência, então já iniciamos o flerte para montar essa obra. Hamlet, é uma peça de especialidade do Marcio e surge para o grupo num momento em que todos estamos passando, ou perto de passar, pela ‘crise da meia idade’, uma das questões abordadas por Shakespeare”, comenta Fernando Yamamoto. Ricardo III e Hamlet representam uma volta ao universo do dramaturgo inglês que dá nome à companhia. Desde Muito barulho por quase nada (2003), o grupo não montava um texto de Shakespeare. Encenaram Brecht – O casamento do pequeno burguês (2006) – e três espetáculos com dramaturgia própria: Roda Chico (2005), Fábulas (2006) e O capitão e a sereia (2009). “Mas em 2007, quando encontramos Gabriel Villela e Marcio Aurelio, já sentíamos uma necessidade de não só retornar a Shakespeare, como partir para uma obra não cômica”, explica o diretor do grupo. Em Hamlet, oito atores estão em cena: “Fizemos uma grande intervenção dramatúrgica, numa linguagem contemporânea que não se preocupa em contar linearmente a fábula, mas, sim, buscar o recorte que nos interessa para apresentar a obra no máximo da sua potência”, explica Yamamoto.

Programação

FESTIVAL É AMPLIADO O Janeiro de Grandes Espetáculos é o responsável por abrir o circuito nacional de festivais do ano, que prossegue com o Festival de Curitiba, em março. A mostra nasceu para servir de panorama do que havia sido produzido em artes cênicas no ano anterior no estado – e essa primeira missão nunca foi abandonada, mas o projeto tomou uma dimensão maior. Nesta 19ª edição, que vai de 8 a 27 deste mês, o festival contabiliza números significativos: serão 103 apresentações, 13 espetáculos nacionais de teatro, cinco internacionais, 14 espetáculos adultos pernambucanos, cinco voltados para a infância e juventude e sete de dança, produzidos por companhias locais. Há ainda 14 shows e, além do Recife, recebem espetáculos as cidades de Olinda, Caruaru e Arcoverde. “Este ano, resolvemos apostar na área de artes cênicas, em dois projetos em especial: a vinda do grupo Clowns de Shakespeare e uma programação em torno do Odin Teatret, grupo da Dinamarca capitaneado pelo diretor Eugenio Barba”, explica Paula de Renor, uma das produtoras. Em maio do ano passado, Barba e a esposa, a atriz Julia Varley, vieram ao Recife através do Sesc. Agora, quem participa do festival é a atriz Iben Nagel Rasmussen (foto), do grupo de Barba, que apresenta o solo Branca como o jasmim e ministra uma oficina ao lado de Tatiana Cardoso (diretora do grupo Teatro Torto, de Porto Alegre, e integrante do grupo internacional Ponte dos Ventos, ligado ao Odin). O festival será aberto com O desejado – rei D.Sebastião, montagem produzida em parceria entre a Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco e o Centro de Criatividade Póvoa de Lanhoso, de Portugal. Na programação de teatro há ainda, por exemplo, O filho eterno, da Cia Atores de Laura (RJ), Gardênia (El Otro Núcleo de Teatro, SP) e Bambolenat (Compañía Sombras de Arena, Argentina). Em dança, há dois espetáculos internacionais: Darkness Poomba e Awake, da Modern Table, da Coreia. POLLYANNA DINIZ

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a professora

matéria corrida José Cláudio

artista plástico

Como era mesmo o nome do autor de História puxa história? Gastão Cruls. É o caso. Reli, de Cristiano Machado, minto, Aníbal Machado (Cristiano, irmão, foi candidato a presidente), Viagem aos seios de Duília. Belíssimo conto. Os referidos seios, personagem principal, passam de raspão mas permanecem presentes o tempo todo nas entrelinhas, na descrição da paisagem e tudo mais. O que me fez lembrar Os rios profundos, do peruano José Maria Arguedas: você só entende o romance se levar em conta isso, que é isso, sim, o que ele tem a contar, o lugar onde se passa a história e que domina o enredo. Mas deixemos crítica literária. O que me veio foi o relato de uma das minhas primas, minto, prima porque casada com meu primo, cozinheira divinamente, especialista em buchada de bode. Ou carneiro.

Lá pros lados de Barreiros, terra do poeta Garibaldi Otávio. Numa dessas buchadas, essa mulher de meu primo muito querido, cuja hospitalidade, dela e dele, era continuação da culinária dela passada de mãe para filha, contou-me entre risadas o seguinte. Reunindo alguns cinquentões bons de garfo num dos tais rega-bofes, em ambos os sentidos, do carneiro ou bode e dos convidados, com perdão pelo meu mau gosto da comparação, entre lapadas de pitu, a começar pelo caldinho para provar o tempero, malagueta tiradinha do pé estourada no prato como aconselhou Joca Souza Leão em sua coluna no Jornal do Commercio, e temperar também as gargantas, logo vieram à tona reminiscências. À medida que do caldinho passaram ao pirão, mais um toque de cana, naquele aperto das casas do interior de quem não era rico, o que ajudava,

além do calor propriamente dito o calor entre as pessoas, das reminiscências deslizaram às confidências, algumas trazidas a medo, que todos eram casados, as esposas presentes. A rigidez dos costumes ainda prevalecia, como prevalece até hoje em determinados aspectos, ainda mais numa época anterior, lá se iam mais de trinta anos. Como em todo lugar, e todas as épocas, sempre existiam algumas almas nobres a que os jovens recorriam. Dentro de certo sigilo. Os comilões, em casa de minha prima, ousando entrar em particularidades nunca dantes navegadas, juntando pedacinhos daqui e dali, chegaram à evidência de que, mesmo morando em lugares diferentes, embora próximos, tinham tido sua primeira vez com a mesma mulher. Gozava ela da fama de mestra nesse tipo de iniciação. De cuja condução, já ouvi dizer, desses primeiros passos, da mão que nos

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daniela nader: reprodução

1 plínio palhano

 Camila, acrílica sobre tela, 142 x 117 cm, 2008

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guia, mão só, não, que nos ensinou a traçar essas primeiras letras, digamos assim, dependerá nossa felicidade para o resto da vida. A prova estava ali nas belas risadas com que o fato era lembrado e se refletia nas bochechas luzidias de suas belas esposas. Num segundo momento, à proporção que o sol ia declinando, surgiu a pergunta: por onde andará? será que já morreu? Doía-lhes tão grata lembrança nunca ter despertado neles um mínimo gesto de gratidão. Será que não estará passando por alguma necessidade, precisando, quem sabe urgentemente, de algum tipo de assistência ao alcance deles? Bem que poderiam fazer alguma coisa.

Como em todo lugar, e todas as épocas, sempre existiam algumas almas nobres a que os jovens recorriam. Dentro de certo sigilo Como o aposentado José Maria, do conto de Aníbal Machado, embora sem as mesmas ilusões, que o tempo é implacável, combinaram empreender essa viagem ao passado. E não abandonaram a ideia quando passou o efeito das biritas. Nem poderiam mais conviver com a incerteza sobre o destino dessa espécie de Duília

deles, por assim dizer, nem vencer a ansiedade de tornar a vê-la. Muitas daquelas vilazinhas tinham se transformado e até desaparecido, engolidas pelos canaviais, e por isso as primeiras buscas exigiram um certo empenho, nada porém tão custoso quanto as viagens do aposentado em lombo de burro pelas montanhas de Minas Gerais, mesmo porque na Zona da Mata de Pernambuco não existem montanhas. Para encurtar conversa: chegaram à casa. No mesmo ponto geográfico ou quase. Só que de alvenaria e em rua calçada, não o mocambinho de taipa dentro do mato. Bateram palma, ela apareceu logo. Inverossimilmente na ponta dos cascos, risonha e linda, belos peitos balançando soltos na blusinha leve, sem precisar dos coroas para nada. Para nada mesmo. Como vieram a saber, só gostava de menino novo, cheirando a leite. De preferência, a primeira vez.

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FOTOGRAFIA De quando a chuva desaba e o chão verdeja

Em Sertão verde – paisagens, Fred Jordão reúne imagens feitas ao longo de mais de 15 anos, em que prevalece o olhar para a grandiosidade da natureza texto Adriana Dória Matos

Quantas paisagens nossos olhos são capazes de reter? Quantos espaços geográficos reincidem sobre nós? Essas questões podem nos remeter à ideia de saturação, mas não é ela que invocamos aqui. Pensamos nos lugares pelos quais passamos e que ficam em nossa memória. De início, eles são fragmentos que, reencontrados,

se tornam vínculos. As paisagens que bordejam as estradas são assim: aquilo que avistamos outra vez deixa de ser fortuito. Queremos nos colocar no caminho de novo para rever o que apenas transpassamos. Esse livro, Sertão verde – paisagens, é feito desses encontros de beira de estrada ou, ao menos, a partir deles foi construído.

Antes de ser um livro, era um conjunto de fotos que Fred Jordão vinha juntando, resultado de viagens que fazia desde meados dos anos 1990 pelo sertão nordestino. Não era um projeto, não havia ali deliberação para publicação. Eram olhadas, guardadas em arquivos de imagem. Com o tempo, o fotógrafo notou entre elas paridades, recorrências, vínculos. “Percebi que havia não apenas uma coleção de imagens de um mesmo tema, mas uma reflexão sobre essa região conhecida como ‘Sertão’”, deu-se conta. Sendo que esse “sertão” que ele tinha em arquivo não era o do flagelo, mas outro, o da beleza. Em vez do cinza, o verde. Havia no seu discurso imagético o “sertão verde”, que é como chamam a terra seca quando flora de susto, quando aquelas nuvens pesadas que adensam o céu resolvem finalmente chover. “Sertão verde” pode até ser “desgosto” para quem

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1-2 passante O ponto de vista adotado pelo fotógrafo é o de quem percorre as estradas e reage esteticamente ao que é avistado

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mora ali e sabe de sua efemeridade, mas é bonito de ver. Como Fred Jordão era o viajante que registrou “de fora” a beleza que viu naquela paisagem verdejante, às vezes rude, às vezes épica, também singela e mesmo insuspeita, ele tratou de cercar-se de alguém que oferecesse um olhar “de dentro”, diferente do dele. Com a seleção de imagens pronta para a publicação em livro, trouxe para junto de si Xico Sá, que assina o único texto de Sertão verde – paisagens. Xico, homem feito jornalista e escritor, foi menino forjado no calor do Crato e acaba de colocar na praça o Big jato, seu primeiro romance, carregado de memória afetiva desse começo de vida nas securas da Chapada do Araripe. O espírito de Big jato se incorpora à apresentação que Xico Sá escreveu para o livro de Fred Jordão, na medida em que ele rememora a euforia que sentia diante da chegada da chuva em

oposição à reação aborrecida do pai, que sabia da enganação daquela água pouca: “Ficar bonito nos olhos, quero ver ficar bonito no bucho”. É esse contraste de resposta que impulsiona a narrativa de Big jato e que Xico Sá transportou para Sertão verde – paisagens, oferecendo uma leitura da seleção de imagens feita para essa edição. Então, se entrarmos neste volume pela porta da frente, observaremos que há uma intenção narrativa, iniciada com enquadramentos fechados em galhas secas – que sugerem abstrações da natureza –, seguidos de planos mais abertos, árvores nuas, colocadas contra espaços bem trabalhados em variados tons. Depois dessas boas-vindas, as imagens trazem céus carregados de nuvens e, finalmente, uma sequência de quatro fotos em que a chuva cai sobre a estrada de barro, vista sob a proteção do para-brisa do automóvel. Vem o texto de Xico Sá e aquilo que podemos chamar o

miolo da edição, composto de variados subtemas da chave que nomeia a publicação. Comumente, dizemos que o mais difícil num trabalho de edição é o corte. Ou seja, dispensarmos aquilo por que nos apegamos. Diante de Sertão verde – paisagens, supomos o quanto isso tenha sido forçoso para o fotógrafo, que tinha diante de si duas tarefas inevitáveis: encontrar um eixo narrativo, e escolher imagens que nele se encaixassem, descartando várias outras dentro de um acervo que vem sendo produzido há mais de 15 anos. Dureza. Porque, aqui, voltamos à questão do início, sobre quantas imagens somos capazes de reter. Nesse volume, são cerca de 200 fotografias coloridas, em que a expressão “paisagens” foi esticada para incluir itens da fauna sertaneja e elementos construtivos e utensílios domésticos (estes, com os quais o fotógrafo encerra o livro). Tais itens poderiam ser descartados? Embora belas e contextuais, são imagens que nos colocam essa pergunta diante do recorte proposto. A maior densidade da edição está nos panoramas, nos planos abertos, não apenas pela grandiosidade intrínseca a esse tipo de registro fotográfico, mas por oferecer a geografias estigmatizadas por ideias de escassez e pobreza uma atmosfera de poder e reverência. Com um olhar, ao mesmo tempo, objetivo e pessoal, Fred Jordão registrou paisagens dos sertões e regiões fronteiriças de Pernambuco, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas, Paraíba e algumas poucas da Bahia e Sergipe. Mas, diante das imagens captadas, essas divisões da geografia política tornam-se um marcador menos relevante que as similaridades estabelecidas pela geografia física muito assemelhada. Verde e grandiosa, graças à força da chuva.

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Visuais

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COLEÇÃO Um acervo quase desconhecido

Exposição apresenta peças de propriedade do jornalista pernambucano Odorico Tavares, cujo interesse recai na produção modernista texto Mariana Oliveira

A tradição do colecionismo no Nordeste é antiga. Numerosas são as coleções formadas na região e que hoje são referência nacional. Entre elas, está a do pernambucano Odorico Tavares (1912-1980), que durante muitos anos foi diretor dos Diários Associados na Bahia, onde esteve radicado até o seu falecimento. Uma seleção dessas obras está em exibição, pela primeira vez no Recife, no Instituto Ricardo Brennand, na mostra 100 anos de Odorico Tavares – sonhos e desejos de um colecionador, que marca o centenário

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imagens: reprodução

100 anos de Odorico Tavares – Sonhos e desejos de um colecionador Até 3 de março Instituto Ricardo Brennand

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1 PABLO PICASSO Cêramica pintada pelo mestre espanhol 2

2-3 Modernismo Odorico Tavares foi um enstusiasta dos pintores modernos, como Di Cavalcanti e Aldemir Martins 4 odorico tavares O artista José Pancetti retratou o colecionador

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de nascimento do jornalista. As peças em exposição foram escolhidas pelo artista plástico Emanuel Araújo, que tentou preservar a diversidade, característica do acervo, composto por obras de arte barroca, imaginária brasileira, mobiliário e arte moderna. Segundo o curador, a pretensão é apresentar aos pernambucanos essa importante coleção particular, que só foi vista anteriormente em Curitiba e São Paulo.“Essa exposição é uma homenagem a um pernambucano pouco conhecido em sua terra natal. Mesmo vivendo na Bahia, ele sempre estabeleceu uma relação forte com seu estado, fosse em contato com os amigos que seguiam no Recife ou escrevendo sobre o frevo e o maracatu”, observa.

A base do trabalho curatorial foi um poema do próprio Odorico Tavares: Volta à casa paterna. Emanuel Araújo conheceu o colecionador/jornalista na década de 1960, depois que este elogiou um cartaz do artista plástico publicado num artigo de jornal. A partir daí, criou-se entre eles uma relação de amizade e as obras de Emanuel começaram a compor a coleção de Odorico Tavares. Tavares nasceu em Timbaúba, passou a sua juventude no Recife, onde começou sua carreira no Diários Associados, seguindo para Salvador, em 1942. Nessa época, já havia iniciado sua coleção, que reunia nomes de conterrâneos como Cícero Dias, Lula Cardoso Ayres e Mestre Vitalino. Na capital baiana, ampliou-a,

adquirindo obras de Di Cavalcanti, Portinari, Pancetti, e investiu no mobiliário dos séculos 18 e 19, na arte sacra, nos artistas primitivos da Bahia; incluiu também nomes internacionais, como Picasso e Miró. Um breve olhar sobre o acervo comprova a afinidade do colecionador com os artistas modernos, expresso também nos textos que escrevia respaldando seus trabalhos. Bastante próximo a Assis Chateaubriand, Tavares foi um importante divulgador dos artistas nordestinos e uma figura fundamental na criação do Museu de Arte Moderna da Bahia, do Museu Regional de Feira de Santana e do Museu de Arte Contemporânea de Olinda. O seu amor pela arte, sem dúvida, estabelecia cumplicidade entre ele e Assis Chateubriand. “Ambos tinham o lado romântico e aventureiro dos artistas daquela época, porém, como não eram artistas, viviam com eles em grandes rodas e faziam com eles grandes viagens”, afirma Emanuel Araújo. Esse interesse resultou na formação do seu numeroso acervo, que passeia por diversos momentos da arte brasileira.

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karina freitas

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JAVIER MARÍAS Homenagem generosa ao leitor

Os enamoramentos, novo romance do autor espanhol, coloca em protagonismo aquele que lê, sugerindo-lhe a possibilidade de reparar, desconfiar e recriar TEXto Schneider Carpeggiani

A edição brasileira de Os

enamoramentos, do escritor espanhol Javier Marías, conta com um brinde que, olhado bem de perto, pode ser uma arapuca: chega às livrarias acoplada à O coronel Chabert, novela pouco conhecida de Balzac, que reconstrói o mito do herói esquecido em batalha, que peca justamente por jamais esquecer nada. Chabert é o único detentor da memória de uma vida a não mais fazer qualquer sentido. Quando todos já o deram por morto, erguendo nova existência e grossas camadas protetoras contra o passado, ele retorna sem se reconhecer anacrônico. O descompasso entre quem substitui e quem é substituído é uma das engrenagens do drama humano. Os personagens de Marías se debruçam sobre O coronel Chabert para compreender o xadrez emocional das suas próprias vidas. Procuram em Balzac, se não uma intervenção divina, ao menos, a solução enviesada que a literatura costuma nos ofertar. Com os dois livros em mãos, podemos armar um sem-fim de elucubrações,

traçar paralelos, erguer teorias conspiratórias de metanarrativa e, assim, cair na tal arapuca de acreditar num óbvio coral entre os dois autores. Apesar dos enormes indícios, esqueça Balzac. A questão aqui é Marías, e o jogo de pistas falsas que marca o trabalho de um mestre. Há uns três ou quatro anos, dedico-me a ler tudo o que encontro de Marías. Mas, a cada novo livro, volto a perceber o quanto as primeiras leituras são falhas e insuficientes em se tratando da sua obra. É preciso questioná-lo, duvidar dos seus personagens, cavar as suas intenções mais superficiais. Logo nas linhas iniciais dos seus textos, percebemos que nos afastamos de um território seguro. Suas aberturas misturam enunciados que se dividem entre a certeza e a hesitação, como se cada palavra tivesse a força de apagar a anterior. Meu primeiro contato com Marías foi A herança italiana, presente na reunião de contos Quando fui mortal. Bastaram poucas linhas para que compreendesse que já

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estava bem longe de casa: “Tenho duas amigas italianas que vivem em Paris. Há um par de anos não se conheciam, não tinham se visto, eu as apresentei num verão, eu fui o vínculo e temo que continue sendo, embora elas não tenham voltado a se ver. Desde que se conheceram, ou melhor, desde que se viram e que ambas sabem que conheço ambas, suas vidas mudaram rápido demais e não tanto paralela quanto consecutivamente. Não sei mais se devo romper com uma para libertar a outra ou mudar o viés da minha relação com a outra para que esta desapareça da vida daquela”. Perceba por esse parágrafo o quanto a certeza do “Tenho duas amigas italianas que vivem em Paris” se esfarela

Leitura com uma rapidez impressionante. Já não sabemos mais sobre o que o narrador está falando e justamente por isso prosseguimos. Não é a dúvida sobre o fim que move seus livros, mas a incerteza incômoda de como tudo aquilo começou. Ou melhor: por que tudo aquilo começou?

TRIÂNGULO

O princípio de Os enamoramentos não foge à cartilha de incertezas de Marías: “A última vez que vi Miguel Desvern ou Deverne foi também a última vez que sua mulher, Luisa, o viu, o que não deixou de ser estranho e talvez injusto, já que ela era isso, sua mulher, e eu, ao contrário, era uma desconhecida e nunca havia trocado uma só palavra com ele. Nem sabia seu nome, só soube quando já era tarde, quando apareceu sua foto no jornal, esfaqueado”. Como saber o real foco de interesse do autor nesse emaranhado de informações? Seria o foco a narradora, a mulher que perde o marido ou justamente o morto? Os enamoramentos parte da perspectiva discreta, ainda que inquisidora, de uma mulher fascinada por um casal de estranhos que observa todos os dias num café junto do seu trabalho. A cumplicidade entre os dois parece confortá-la a

respeito de algo que nem ela própria ainda compreende. Precisa apenas voltar e conferir se a vida daqueles desconhecidos permanece sob algum estatuto de proteção e de paz, na esperança de ser contaminada pela aura alheia. No entanto, o marido é assassinado por um maluco numa rua próxima ao café que parecia ser o porto seguro de todos os dias. Quebrado o inusitado “triângulo”, o livro começa a nos oferecer um incômodo questionamento sobre o lugar que acreditamos ocupar na vida dos outros: seríamos mais descartáveis do que imaginamos ou como substituir alguém que concordou em ser a nossa parede, teto e chão? Como seguir adiante e encontrar outra certeza corporificada num amante ou mesmo em estranhos casuais, já que são tão frágeis os laços apenas visuais ou mesmo todos os laços? Questões que Marías lista com uma clareza inquietante: “Mas desde o início sabemos – desde que morrem – que já não devemos contar com eles, nem para a mais ínfima das coisas, para um telefonema trivial ou uma pergunta boba (‘Lembrou de deixar a chave do carro?’, ‘Que horas mesmo as crianças saíam hoje?’), só por perguntar, por nada. Nada é nada. Na realidade, é incompreensível, porque supõe ter certezas, e isso vai de encontro à nossa natureza: a certeza de que alguém não vai mais vir, nem falar, nem dar um passo, nunca mais – nem para se aproximar nem para se afastar – , nem para olhar para nós, nem desviar a vista. Não sei como resistimos a isso, nem como nos recuperamos. Não sei como por vezes nos esquecemos, quando o tempo já passou e nos afastou deles, que ficaram parados”. É a instituição dos que “ficaram parados” que move nossa inquietação a partir desse momento. Como seguir alguém que não se mexe? Como prosseguir, se queremos continuar parados? Quanto tempo leva para que voltemos a nos mover outra vez? Para responder a essas perguntas, a novela de Balzac parece ser essencial e passamos a acreditar que Marías constrói aqui uma obra sobre como a literatura pode ser uma prótese para aqueles que se

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sentem decepados, e não apenas um mero diálogo entre dois (ou mais) autores, quando no final das contas toda literatura é um grande coro de vozes. E persistir na tecla desse coro é uma saída de incêndio fácil, mas falsa, ou melhor: superficial.

METALITERÁRIO

Percebi o engano da minha primeira leitura de Os enamoramentos, quando li uma entrevista recente de Marías, publicada no Estadão, na qual ele entregava um pouco do seu jogo. A declaração de Marías iluminou minha percepção não apenas sobre sua obra, mas sobre a literatura de uma forma mais ampla. Suas palavras foram as seguintes: “Quanto a Balzac e seu livro, não há nada de metaliterário na sua inclusão em Os enamoramentos. Simplesmente, seus personagens o leem, como faz muita gente na vida, e falam de

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1  Javier marías Escritor criou história em que a triangulação de personagens se dá a partir de uma mulher que observa suposto casal feliz

um texto que leram e que, além de tudo, é conveniente para justificar seus atos. Minha intenção não era fazer um exercício metaliterário. Apenas o livro de Balzac se encaixa muito bem na história”. É claro que existe um exercício “metaliterário” em Os enamoramentos, mas da mesma forma que somos exercícios de colagens de tudo o que lemos, ouvimos, das pessoas que amamos, perdemos e substituímos, durante a necessária busca por outra parede, teto e chão. Somos, no fundo, colagens ambulantes. Ou mesmo “metaliterários” por natureza. Não há novidade alguma aí, ainda que muitas vezes não percebamos de forma objetiva ou clara essa questão. A partir da declaração de Marías, não pude deixar de voltar a outra grande obra recente, Reparação, de Ian McEwan, romance que se apropria do formato clássico do

Os personagens de Marías se debruçam sobre o romance de Balzac para compreender as próprias emoções romance do século 19, apenas para desmontar nas últimas páginas o fato de que a literatura é um exercício de reconstrução, ainda que meramente artístico, de erros, uma olhada com mais atenção para aposentos que tivemos de deixar momentaneamente abandonados. Escrever é reconstruir. No entanto, o que Marías se propõe aqui é repousar a atenção no papel do leitor, deixando o autor (ele próprio) em último plano. Quem observa uma cena, quem lê um texto, acredita superficialmente que o importante

é o que está sendo visto ou narrado. Mas nossa percepção é justamente guiada por aquelas colagens das quais já falamos. Assim, Os enamoramentos pode trafegar, sem grandes sustos, por uma educação sentimental, por uma obra noir, vertendo-se num romance policial curioso, porque os criminosos se apresentam independentemente da solução ou não do crime. O romance muda, não apenas porque a trama tenha grandes sobressaltos ou reviravoltas mirabolantes, mas pelo fato de a narradora (ou no caso a “leitoravoyeur” da felicidade matinal de dois desconhecidos) sentir a necessidade de olhar melhor, de esfregar os olhos e de compreender o mundo a partir das suas “colagens”. Há um momento em que não vale a pena acreditar no que ficou estabelecido como definitivo. Um grande leitor não reza na cartilha de textos finais. Aos poucos, o livro vai tirando o foco de Balzac, “daqueles que ficaram parados” e da perspectiva dos que ainda não sabem se mover. A voyeur do casal de final trágico vai tomando o controle da situação, ainda que hesite em alterá-la. Melhor: sabe que é impossível alterar o rumo da história, mas percebe que pode aprimorar seu olhar sobre ela. Tornase a protagonista insuspeita de mãos atadas, mas de olhos abertos. Os enamoramentos é um exercício lento de compreensão do papel fundamental do leitor. Ler é, a princípio, olhar, e por isso aquela mulher “lia” com tamanha atenção um casal de estranhos diariamente. Não é fácil encontrarmos uma obra literária em que o autor promova uma homenagem tão generosa ao leitor. E, talvez por sua generosidade, precise se esconder atrás de tantos e tamanhos atalhos e de planos de fuga. É como se Marías nos alertasse discretamente: se podes ler, repare, desconfie e reescreva.

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tiago barros

Leitura

POESIA Estreia em tom de melancolia

Jornalista e cronista, Samarone Lima apresenta primeiros livros de poemas, em que reelabora o passado em versos TEXto Adriana Dória Matos

Conta-se que, um dia, depois de concluir a leitura de um dos artigos de Joseph Mitchell, o editor da revista New Yorker foi até a sala do jornalista e lhe disse: “Sabe, você é um sujeito bem tristinho”. Ele se referia ao tom melancólico que o autor de O segredo de Joe Gould imprimia a alguns de seus textos. Podemos fazer o mesmo comentário em relação ao Samarone Lima que agora se apresenta poeta. Embora a adjetivação soe banal, é

natural dizer que seus poemas são bem “tristinhos”, e isso se deve muito a uma memoração de infância, de ancestralidade, que perpassa seus dois livros inaugurais, Tempo de vidro e A praça azul, oferecidos em caixa única ao leitor. Antes de nos referirmos especificamente ao poeta, podemos dar uma volta ao redor do Samarone Lima jornalista e cronista, mais em busca de afinidades entre suas

personas textuais que de méritos ou deméritos. Porque, quando um indivíduo se propõe a escrever em variados gêneros, a tendência do público é estabelecer comparações. “Acho que sou a mesma pessoa, trabalhando com a escrita em suas diferentes possibilidades. Mas sempre tentei botar poesia nos meus textos jornalísticos, nas crônicas, nos livros-reportagem”, pondera ele. A ressalva que faz se refere ao grau de exigência, que afirma ser maior em relação ao texto poético. A despeito do autor e de seus motivos, sabemos que os gêneros têm suas regras, que são reconhecidas e internalizadas pelo escritor. Como jornalista e autor de livrosreportagem, em trabalhos que demandaram investigação, Samarone Lima destacou-se por se dedicar a temas dos direitos humanos, dos perseguidos, sendo referências desse interesse os livros Zé – José Carlos Novais da Mata Machado, reportagem biográfica (1998, Mazza) e Clamor, a vitória de uma

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INDICAÇÕES conspiração brasileira (2003, Objetiva). Como cronista, filia-se ao lirismo que admitimos como típico da produção brasileira, personificado na obra de Rubem Braga. Samarone é o cronista das pequenezas e desimportâncias, aspectos tão caros ao gênero. Sobre seus escritos, o autor diz o seguinte: “Tenho diários desde os 13 anos e sigo com eles até hoje. Nessa época, eu já escrevia poesias. Como gosto muito de solidão, escrever sempre era uma forma simples de ficar só. Na época em que morava na Casa do Estudante Universitário, eu ficava em festa quando os colegas viajavam e eu ficava sozinho, com minha Lettera 22. Depois, veio o jornalismo, foram surgindo livros-reportagem; por último, convidaram-me para escrever crônicas. Foi uma descoberta tardia de algo que adoro, que me dá um enorme prazer. Nas crônicas também me divirto bastante. É como se fosse o meu recreio. Escrever, para mim, é uma forma de ser”. Se a crônica é “recreio” para Samarone, não se pode dizer o mesmo em relação à sua produção poética. Ainda ouvindo a voz dele, temos o depoimento de que a poesia serve para que faça seus “remendos”, “para lembrar algo que nem sei direito o que é, para dizer o que sinto mais plenamente”. Aos leitores de Tempo de vidro e A praça azul será evidente a função catártica que a criação dessas obras exerceu sobre o autor. O primeiro – um longo poema em 25 partes – é claramente a rememoração do passado, ou, como ele diz, “a recriação poética de uma jornada”, que surgiu de uma frase, o

primeiro verso do poema: “Nasci o terceiro/ na linhagem dos homens”. Embora posto em versos, Tempo de vidro constrói-se mais de imagens que de sonoridades. O ritmo é dado pelo que se “vê” e o que vemos são cenas de um ambiente familiar hostil, em que a rudeza patriarcal contrasta com a sujeição maternal. O afeto escasso, as injustiças. “As deliberações paternas nunca tinham sentido./ Chorei/ enquanto as palavras ardiam/ no fogo do silêncio.// Minha mãe cuidava do pranto alheio/ e engolia o seu”, diz o poema, em que adiante se lê: “Meus irmãos cresceram junto aos meus ossos/ dormimos e sonhamos acordados/ como se cada infância tivesse sua poeira”. Também encontramos um ambiente natural árido, seco. Há recorrência de palavras como “ossos”, “pedras”, de tons queimados, escuros e esmaecidos, sejam literais ou metafóricos. Mesmo que se trate de uma seleção de 34 poemas entre os que vem produzindo na última década, A praça azul mantém o gesto doloroso, o desaguar de mágoas. Independentes, os poemas guardam mais força individual que as partes que compõem Tempo de vidro, por vezes irregular na sua cadência. Embora vários deles possam exemplificar a persona melancólica que se apresenta aqui, Cada homem faz a síntese: “Cada homem/ me trouxe uma palavra/ um silêncio/ uma cicatriz.// Cada homem/ me deu uma pedra/ me ensinou/ o que não sei.// Uso as palavras/ para cobrir as cicatrizes/ e o silêncio/ para lembrar meu nome”.

BIOGRAFIA

INFANTIL

Algol

Escrita Fina

GYÖRGY MIKLÓS BÖHM Paciano Rizal José Rizal tornou-se herói nacional nas Filipinas, após ser fuzilado aos 35 anos, por denunciar a miséria da população local no romance Noli me tangere. Seu principal influenciador foi o irmão Paciano, que morreu esquecido. Agora sai a primeira biografia sobre Paciano, que também é a primeira obra, em português, sobre a independência filipina.

BIOGRAFIA

FÉLIX FILHO Além das ideias Cepe

Fruto de trabalho e pesquisa do jornalista Félix Filho – ordenado diácono e presbítero por Dom Helder –, o livro é uma pequena homenagem ao cardeal. A obra aproxima o leitor de um mito despido de rótulos, à medida que se concentra no homem comum e seu cotidiano. O autor reúne histórias simples da vida do arcebispo, seus relacionamentos e sua sabedoria.

HUGO MONTEIRO FERREIRA Antônio O livro aborda um tema delicado, ainda mais para crianças: o abuso sexual. Antônio é um garoto de sete anos, que vive triste e oprimido por uma Mão (que representa o agressor). Com um texto lúdico, apoiado em ótimas ilustrações, o autor consegue trazer essa temática para o universo infantil sem explícitá-la.

ROMANCE

PAULA FONTENELLE E P.W. GUZMAN Fim de tarde com leões Geração

Primeiro romance da jornalista Paula Fontenelle, coassinado por P.W. Guzman, pseudônimo de um escritor que preferiu se ocultar. A narrativa é epistolar, girando em torno da troca de correspondências entre Lúcia, fotógrafa renomada, e Pedro, homem fechado que vive em missões misteriosas pelo mundo. Há paixão, ciúme e inquietação.

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divulgação

Artigo

ZÉ DA FLAUTA FREVO DE PALCO A tríade frevo, passo e folia sempre confundiu a cabeça das pessoas, e continua confundindo, mesmo daquelas que costumam estudar, escrever e discutir sobre ela. Na minha humilde concepção, frevo é música, passo é dança e folia é o estado de alegria e euforia em que a pessoa fica quando ouve o frevo e cai no passo. A confusão é tão grande, que existe no Recife uma instituição, a Escola Municipal de Frevo Maestro Fernando Borges, que deveria ensinar a tocar um dos nossos mais expressivos ritmos – agora reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade –, mas, ao invés disso, é especializada no ensino do passo.

Um dos fatores que concorreram para esses equívocos talvez seja o de que – por razões que não cabe aqui analisar – a música recebeu uma denominação e a dança, outra; ao contrário do que acontece com outros ritmos. A dança do samba, por exemplo, também se chama samba; a do tango, tango; a da lambada, lambada; e vai por aí... A dança do frevo, no entanto, chama-se “passo”. Daí, ser muito mais comum, e tradicionalmente correto, na hora de entrar na dança, dizer-se “vou fazer o passo”, e não “vou dançar o frevo”. O que se pode afirmar é que, em seus mais de 100 anos de existência, o frevo sempre foi tratado apenas como uma trilha sonora do nosso Carnaval, uma peça coadjuvante, para embalar multidões exclusivamente no período momesco. E daí não saía mais para canto nenhum, até porque, no caso dos frevoscanções e de frevos de blocos, cerca de 90% das letras se referem ao próprio

ciclo carnavalesco, o que, ao contrário do que acontece com o samba e outros ritmos, cria um vínculo temporal que concorre para impedir a execução em outras épocas do ano. Essa realidade sempre me induziu a fazer perguntas e reflexões do tipo: Por que o frevo não pode ser tratado apenas como uma arte e uma linguagem musical que fale por si só, deixando de ser um mero complemento da folia? Por que não pode ser dirigido a uma plateia que, além de ficar sentada, calada, atenciosa e, principalmente, sóbria, já não estaria instalada nas ruas, e, sim, nos palcos dos teatros ou auditórios de instituições e empresas? Por que os músicos que executam o ritmo não podem ter liberdade de expressão, não podem se dedicar a improvisações? Que a coisa não tinha de ser assim, que essa realidade poderia ser modificada, começou a ficar claro para mim a partir de 2003, quando comecei

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1 orquestra A SpokFrevo tem levado o frevo a audições na Europa

inimagináveis, como China, Índia e Tunísia; e participando de alguns dos mais importantes festivais internacionais de música, nos quais dividiu o palco com estrelas do porte de Stevie Wonder, Stanley Clarke, Chick Corea, Bobby Mcferrin e Diana Krall, entre outros. Reunindo, normalmente, muitos músicos em sua formação, as plateias que têm assistido às apresentações da orquestra, sobretudo nos teatros, parecem mergulhadas em um silencioso êxtase, embora alguns integrantes do público, talvez inconscientemente, fiquem movimentando os pés, empolgados com a alegria e a energia inerentes à natureza do frevo. (Só eu sei a emoção que sentia quando via e ouvia esse ritmo pernambucano por excelência sendo tocado e respeitado pela plateia da Europa e outros continentes.) Não sem razão, o CD e o DVD da SpokFrevo figuram com destaque nas prateleiras de algumas das maiores lojas do mundo. Também não foi por acaso que o experiente Frédéric Gluzman, empresário da Orquestra na Europa, fez uma profecia segundo a qual, dentro em breve, deverão surgir grupos de frevo na França, Holanda e em outros países do continente europeu. Essa receptividade internacional à orquestra e ao frevo cresceu tanto, que, em 2008, a SpokFrevo – transformada 1 numa espécie de embaixatriz da cultura a trabalhar com um grupo chamado musical brasileira – foi convidada Banda Pernambucana, que foi por mim a participar, no Palais de l’Élysée, rebatizado de Orquestra de Frevos do residência oficial do presidente da Recife e, depois, por sugestão do produtor França, das comemorações do Dia musical Wellington Lima, recebeu a Internacional da Música. Realizados em denominação SpokFrevo Orquestra. meses variados, os shows e os eventos Por romper com as tradições dos quais o grupo tem participado consolidadas e ferreamente defendidas, fizeram com que aquela música o grupo inicialmente provocou a crítica pernambucana, que parecia só existir de puristas, principalmente daqueles que durante o Carnaval, passasse a ser tocada, se acham “donos do frevo”, da mesma fora de seu país de origem, em todos os forma que acontecera ainda na década períodos do ano. de 1950, quando o saxofonista Felinho, As coisas começaram a mudar que – como outros músicos recebeu forte também em terras verde-amarelas, em influência do jazz, sobretudo devido à que o grupo, além de ser convidado para instalação de uma base militar norteparticipar de grandes festivais, começou americana no Recife durante a Segunda a conquistar importantes troféus, a Guerra Mundial – compôs e executou exemplo do Prêmio TIM, em 2005, como jazzísticas variações em Vassourinhas, de banda revelação, e do Prêmio da Música Mathias da Rocha e Joana Batista. Brasileira, em 2009, vencendo nas No entanto, a SpokFrevo começou categorias de melhor disco instrumental, a romper fronteiras, no nível mundial, com o CD Passo de anjo – ao vivo, e de levando o ritmo não apenas para melhor grupo instrumental. Nos dois a Europa, mas para países antes casos, o ineditismo histórico de uma

orquestra especializada em frevo, e frevo instrumental, ganhar tanto destaque. Os fatos acima relembrados são, na minha concepção, uma eloquente demonstração de que, se o passo não pode viver sem o frevo, o frevo pode viver sem o passo. E que o ritmo não pode ser visto apenas como uma manifestação carnavalesca secundária, devendo ser reconhecido por nós como uma rica e autônoma forma de expressão artística, e de valor universal – como explicita categoricamente o título, dado pela Unesco, de Patrimônio da Humanidade. Essa nova realidade vivida pelo frevo estimula a afirmação de que já está mais do que hora de, ao invés de ficarmos eternamente envolvidos em improdutivas e pouco pragmáticas discussões, passarmos a defender enfaticamente, por exemplo, ações voltadas para a efetivação e expansão do ensino do frevo. O que,

Por que o frevo não pode ser tratado como linguagem musical que fale por si só, deixando de ser um complemento da folia? acreditamos, deve ser precedido por uma urgente sistematização do ritmo, ainda carente, por exemplo, de uma eficaz metodologia de ensino. E antes que eu esqueça: já não existem apenas os frevos-canção, de bloco e de rua. Uma nova modalidade vem cada vez mais conquistando espaço – e em todo o mundo: o frevo de palco. Aquele que, em resumo, não é dirigido à folia, nem tocado na rua, apenas em palcos e para uma plateia interessada exclusivamente em música, podendo, por isso, ser tocado o ano inteiro, principalmente da Quarta de Cinzas ao réveillon, com arranjos que permitam improvisos e liberdade de expressão. Um frevo que atua como ator principal, como dono da cena. Um frevo, obviamente, sem letra, mas que, se fosse acompanhado por versos, esses poderiam ser assim: “Sem confete, serpentina,/ sem voz, sem poesia,/ sem passo, sem folia./ Apenas música!”

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Raimundo de Moraes EU SEMPRE VOU TE AMAR

Raimundo de Moraes

é escritor, jornalista e publicitário divulgação

Marcel Proust dizia que todo leitor, quando lê, na realidade é um leitor de si mesmo. Ledo Ivo foi mais categórico ao dizer que, se o autor for lido uma única vez, ele não tem leitores, mesmo que o escritor seja um sucesso de vendas. O acadêmico alagoano afirma que o autor só tem leitores quando é lido e relido. Então, seguindo o raciocínio de Ivo, uma única leitura seria um simples olá. A releitura seria o início de um relacionamento. Ou, talvez, o prosseguimento do diálogo: olá, que bom conhecê-lo. As pessoas que escrevem publicam livros, e as que se chamam de escritores geralmente querem companhia. Escrever é um ato profundamente solitário, mas os enredos e as palavras buscam as grandes aglomerações. Que sentido teria o meu ofício se apenas eu o desfrutasse numa delicada masturbação artística? Mas, quando a masturbação se transforma em exibicionismo patológico, os escritores se equilibram precariamente na corda bamba. Alguns se arrebentam no chão. Para mim, o leitor sempre será um enigma. O meu livro Tríade é um laboratório de feedbacks e referências. Costurado através de dois heterônimos antagônicos, ele se divide nos gostares. Quem lê Aymmar Rodriguéz, pouco se importa com Semíramis. Quem se deixa seduzir pela voz de Semíramis acha a poesia de Aymmar rasteira ou irreverente demais. E o Baba de moço? Este é um livrinho tipo ame ou deteste. É uma interrogação com 40 páginas. Se muitos o consideram pornográfico, por que os adolescentes amam? Parece que meus possíveis leitores querem se ler nos poemas que denunciam o consumismo exagerado, o fanatismo religioso, a homofobia. Parece que os leitores do Baba também querem ser cutucados fora do Facebook. Ano passado, ao participar de um evento em Garanhuns, tive uma agradável surpresa. Um leitor emocionado pediu que eu autografasse um conto meu que estava inserido numa antologia. No brilho do olhar daquele rapaz, no seu sorriso, parecia que ele tinha encontrado na minha história um caminho só seu. Estávamos unidos através de uma porta que se abriu dentro do livro. Escrever não foi a minha melhor opção de vida. Mas é muito bom ser lido. De que forma posso retribuir esse prazer? Amando você, leitor. Porque mesmo que você pare de gostar de mim, irei te amar sempre. Com gratidão, com alegria. Com curiosidade.

con ti nen te

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# 145

#145 ano XIII • jan/13 • R$ 11,00

CONTINENTE

BABEL SONORA

COMO OS SONS AFETAM A VIDA NAS CIDADES JAN 13

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E MAIS RUY CASTRO | ACORDO ORTOGRÁFICO | LENDAS DE NORONHA JAVIER MARÍAS | CLOWNS DE SHAKESPEARE | SERTÃO VERDE| WESTERN 28/12/2012 14:07:06

Continente #145 - Babel sonora  

Como os sons afetam a vida nas cidades.

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