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# 137

#137 ano XII • mai/12 • R$ 11,00

CONTINENTE

O FASCÍNIO PELO

HORROR AS RAZÕES QUE LEVAM O SER HUMANO A BUSCAR, NA ARTE, A SENSAÇÃO DO MEDO

MAI 12

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E MAIS EDUARDO COUTINHO | CABRUÊRA SLOW SCIENCE | FÉ EM PESQUEIRA | FRIDA MESTRE HÉLIO | COLIN BEAVAN | GALINHOS

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preto, quando o logotipo não puder ser reproduzido em cor.

VERSÃO EM NEGATIVO O uso da versão em negativo é permitido em casos excepcionais, com bom senso para evitar a perda da identidade. É indicada apenas em fundos de cores semelhantes às utilizadas na versão principal, que não permitem bom contraste e leitura. Pode ser aplicada também sobre preto, quando o logotipo não puder ser reproduzido em cor.

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SIGAM A LUZ CINE PE 2012. A P RO F E C I A C U LT U R A L .

26/04 a 02/05 Centro de Convenções - PE w w w. c i n e - p e . c o m . b r VERSÃO EM NEGATIVO O uso da versão em negativo é permitido em casos excepcionais, com bom senso para evitar a perda da identidade. É indicada apenas em fundos de cores semelhantes às utilizadas na versão principal, que não permitem bom contraste e leitura. Pode ser aplicada também sobre preto, quando o logotipo não puder ser reproduzido em cor.

VERSÃO EM NEGATIVO O uso da versão em negativo é permitido em casos excepcionais, com bom senso para evitar a perda da identidade. É indicada apenas em fundos de cores semelhantes às utilizadas na versão principal, que não permitem bom contraste e leitura. Pode ser aplicada também sobre preto, quando o logotipo não puder ser reproduzido em cor.

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CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 18 ANOS. Manual da Marca Institucional.indd 10

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REPRODUÇÃO

MAIO 2012

aos leitores O editorial é um dos últimos textos escritos numa publicação como esta. Isso porque, como o leitor percebe, ele se configura num olhar a posteriori, quando tudo está pronto e temos a possibilidade de comentar e estabelecer relações entre os conteúdos que pretendemos apresentar ao leitor. Nesta edição, chama a nossa atenção o antagonismo temático entre dois assuntos de destaque: a matéria de capa, sobre o fascínio pelo horror, e a reportagem sobre a adoração a Virgem Maria, em Cimbres. O melhor dessas situações antagônicas são as nuances que nos colocam diante de uma complexidade nem sempre visível. No caso aqui posto, por exemplo, tendemos a atribuir um selo de “bem” à veneração à imagem e de “mal” ao fascínio pelo horror. Diante de uma leitura mais aproximada, esse impulso classificatório – herança de anos de cultura cristã maniqueísta – cede lugar a uma ressalva (se não inédita, ao menos, estimulante) de que o bem e o mal não estão apartados, mas caminham lado a lado, para desespero da nossa necessidade de paz. Na reportagem sobre a adoração a Nossa Senhora, uma apuração que passou por reviravoltas, ficamos sabendo que as melhores intenções podem revelar discórdias,

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conflitos, disputas. Quem poderia imaginar que em torno de Nossa Senhora das Graças, em Pesqueira, tanta cizânia já foi criada? Isso foi constatado ao chegarmos lá. Com relação ao horror, tendemos a achar esquisito alguém declarar seu amor a vampiros, lobisomens e almas penadas. E nos perguntamos sobre o porquê de tal comportamento. Essa indagação nos levou ao material que publicamos aqui, e os colaboradores convidados são justamente aqueles que afirmam interesse permanente pelo assunto. Assim, partimos de uma leitura, digamos, afetiva, do horror, com textos sobre literatura, cinema e música. Para completar a abordagem, convidamos um psicanalista para que nos ajudasse a entender esse fascínio. Um trecho no artigo do especialista resume bem a história: “Nosso fascínio pelas narrativas de terror e boa parte de sua benéfica ação psicológica decorre do exercício com a própria fantasia, da tensão entre o que não se deve saber e o que não se pode acreditar”. Há outras informações bastante reveladoras sobre nosso desejo de sentir medo, ainda que este seja experimentado na confortável posição de leitor, espectador ou ouvinte. Leia e constate.

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sumário Portfólio

Maíra Erlich 06

Cartas

07

Expediente + colaboradores

08

12

20

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62

Matéria corrida

64

Cardápio

70

Sonoras

74

Leitura

83

Palco

86

Artigo

88

Saída

Entrevista

Colin Beavan Escritor conversa sobre experiências e lições do projeto Homem sem impacto

Conexão

Edifícios abandonados Site aborda situação de prédios que abrigam semteto na capital paulista

Balaio

Holografia in memoriam Falecido rapper Tupac Shakur “interage” em festival de música na Califórnia

Educação

Slow Science Movimento de pesquisadores protesta contra as pressões atuais do mundo acadêmico

Perfil

Hélio Soares Os segredos de um decano da litogravura artística pernambucana

José Cláudio Viagem ao nada

Garçons Empatia com o cliente rende longas relações de amizade e cumplicidade

Ao contrário das tradicionais imagens de casamentos, fotógrafa privilegia momentos descontraídos, antes, durante e depois das cerimônias

14

Cabruêra Novo álbum da banda paraibana integra a cítara indiana à música nordestina

Ficcionais Livro reúne depoimentos de escritores sobre a feitura de suas mais recentes obras Strindberg Dramaturgo sueco, autor de O pai e morto há 100 anos, criticou costumes sociais novecentistas

Williams Sant’Anna Contemporaneidade do circo brasileiro

Fernando Augusto Viajando para viver

Tradição Pesqueira

Nossa Senhora das Graças e Nossa Senhora das Montanhas polarizam romarias e polêmicas na cidade do agreste pernambucano

50 CAPA ILUSTRAÇÃO Indio Sam

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Especial

Viagem

Como as várias nuances do medo povoam o imaginário popular e chegam à ficção, sendo absorvidas, com sucesso, por várias expressões artísticas

Vegetação sertaneja, pirâmides de sal, dunas e faróis marcam a paisagem da praia do litoral norte potiguar, que tem ainda um ar de cidade do interior

Visuais

Claquete

Principal biografia da pintora mexicana com primeira tradução para o português detalha influências recebidas de seu pai, Guillermo

Cineasta que se tornou referência na produção documental brasileira tem o seminal Cabra marcado para morrer lançado em versão digital

Horror

22

Frida Kahlo

58

Galinhos

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Mai’ 12

Eduardo Coutinho

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cartas filho já fomos roubados nela, assim como quase todos os habitantes de nossa cidade já foram em algum local da cidade. Continuamos, sim, a circular a pé e em vários horários para caminhar no Sítio da Trindade, pegar ônibus e ir à padaria, entre outros.

com as resenhas sobre as graphics novels: Memento Mori – Zé Gatão (Eduardo Schloesser), Grafitti: um conto urbano (vários) e Kerouac, graphic (João Pinheiro). Ficaram ótimas! Foi um grande presente! MARIA LUZIA SÃO PAULO – SP

LÚCIA ELENA FIGUEREDO NETO RECIFE – PE

Rua Ferreira Lopes Sou assídua leitora da Continente desde o primeiro número, assinante e divulgadora da revista, e, com surpresa, ao abrir o nº 136, encontro uma reportagem sobre a rua onde moro, a Ferreira Lopes. Ávida por saber o que será dito em um exemplar que ressalta os contrastes do Recife, decepciono-me ao deparar-me com o tom sarcástico e rancoroso do artigo. Informo-lhes que, além dos casarões luxuosos, a rua tem casas e edifícios onde a classe média habita e, como em qualquer rua de nossa cidade, a falta de segurança e a violência ocorrem para todos. Eu e meu

RESPOSTA DA REDAÇÃO Cara Lúcia, agradecemos sua leitura assídua da Continente e explicamos que nossa reportagem não teve o intuito de tratar os habitantes da Rua Ferreira Lopes de determinada maneira. Pelo contrário, desde o início do texto fica clara nossa intenção de conversar com os moradores. No entanto, após tantas negativas recebidas, infelizmente, não conseguimos estabelecer esse diálogo.

Graphics novels Acabei de receber a Continente e o Pernambuco de fevereiro de 2012,

Feminismo acidental Parafraseando, ao contrário, Oswald de Andrade, diria: vi e gostei da matéria Feminismo acidental, publicada na Continente n° 135. Trata-se de escrito eclético, abrangente das diversas posições existentes sobre o tema, compendiando a informação mais atual sobre este. Ao modo de ensaio, não fecha posições, deixando que o leitor o faça. Parabéns! FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO – HISTORIADOR RECIFE – PE

ERRATA Na matéria da retranca Claquete, da edição nº 136, na página 84, a foto nº3 se refere à Guerra das Malvinas.

VOCÊ FAZ A CONTINENTE COM A GENTE O nosso objetivo é fazer uma publicação cada vez melhor, e, para isso, contamos com você. Envie suas críticas, sugestões e opiniões. A seção de cartas recebe colaborações por e-mail, fax e correio (Rua Coelho Leite, 530, Santo Amaro, Recife-PE, CEP 50100-140). As mensagens devem ser concisas e conter nome completo, endereço e telefone. A Continente se reserva o direito de publicar apenas trechos e não se compromete a publicar todas as cartas. Telefone

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colaboradores

André Balaio

Antônio Martins Neto

Roberto Beltrão

Sergio Barza

Engenheiro elétrico, músico e fundador do site O Recife Assombrado

Repórter especial da TV Jornal e correspondente do SBT no Nordeste

Jornalista, fundador do site O Recife Assombrado e autor de três livros sobre o tema horror

Músico, regente e professor do Conservatório Pernambucano de Música

E MAIS Christian Ingo Lenz Dunker, psicanalista. Diogo Guedes, jornalista e mestrando em Comunicação. Fabiana Moraes, jornalista, mestre em Comunicação e doutora em Sociologia. Fernando Augusto, artista plástico e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e pela Université Paris I – Saint Charles – Sorbonne. Fernando Monteiro, escritor. Fred Navarro, jornalista e escritor. Indio San, ilustrador. Luís Fernando Moura, jornalista. Olívia Mindêlo, jornalista e mestre em Sociologia. Samarone Lima, jornalista e escritor. Williams Sant’Anna, ator, palhaço, produtor cultural, encenador, historiador e arte-educador.

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COLIN BEAVAN

“Nossa vida está focada em ter coisas” Mais conhecido como No Impact Man, escritor norte-americano fala sobre o período em que se submeteu a reduzir os danos ao meio ambiente, experiência que virou filme, livro, blog e ONG TEXTO Antônio Martins Neto

CON TI NEN TE

Entrevista

A revelação se deu em janeiro de 2006. Colin Beavan, escritor norteamericano, então com 43 anos, deparou-se na sua rua com jovens de camiseta e short em pleno inverno. Eram universitários que viviam num alojamento vizinho. O calor num mês em que os termômetros deveriam marcar temperaturas próximas de zero era o sinal mais evidente de que o aquecimento global chegara a Manhattan e, como um bom morador da cidade que nunca dorme, Beavan deveria se manter desperto e reagir. Nascia o No impact man, ou Homem sem impacto, projeto no qual ele se comprometia a eliminar suas pegadas no período de um ano. Detalhe: sem abandonar o apartamento no charmoso bairro de Chelsea. O primeiro desafio foi convencer o agente literário de que a experiência daria um bom livro. O segundo, fazer com que a mulher, jornalista da revista Business Week, desistisse das roupas de grife e das facilidades da vida moderna para viver nas trevas em meio à luz cintilante da cidade mais cosmopolita do mundo – a família

passaria seis meses sem energia elétrica. Beavan se revelou um bom pregador e ambos se converteram. O homem sem impacto costuma comparar a experiência à vida num monastério. Mas o processo se assemelhou a uma desintoxicação. A purificação foi atingida com a redução do lixo doméstico, comidas embaladas em plástico e papelão, material de limpeza agressivo ao meio ambiente e até... papel higiênico. A TV, vista como um santuário de devoção ao consumo, foi desligada e colocada da porta para fora. A bicicleta e o patinete viraram os principais meios de transporte. Nada de carro, táxi, ônibus, metrô e avião. Beavan garante que encontrou a felicidade. Tudo foi registrado num documentário, num livro e num blog. E também nas páginas dos principais jornais, revistas e TVs dos EUA. A experiência e a fama repentina chancelavam a tranformação do escritor de livros de História em ativista ambiental. A Continente conversou com Beavan num café do Brooklyn, seu novo endereço – ele chegou a pé e tomou apenas um cappuccino. Orgânico.

CONTINENTE Além daquele dia de calor em pleno inverno novaiorquino, o que mais o levou a querer salvar o planeta? COLIN BEAVAN A primeira vez em que pensei nisso foi em 2006. Estávamos em guerra no Iraque e no Afeganistão, ambas por causa de petróleo, e eu estava preocupado com isso, pois, na verdade, lutávamos por petróleo. Preocupava-me o fato de que, quando queimamos petróleo, sujamos todo o planeta. E em meio a isso, há nosso estilo de vida. As pessoas que conheço aqui em Nova York, e em outros lugares, não parecem felizes como poderiam ser. Em outras palavras, há uma guerra que esgota o planeta por um estilo de vida que sequer nos faz felizes. CONTINENTE Sua família levava uma vida típica de cidade grande. Como foi convencer sua mulher a abandonar as facilidades da vida moderna e abraçar o projeto? COLIN BEAVAN Eu já tinha o projeto de escrever um livro. Cheguei em casa, coloquei a ideia para ela e expliquei-lhe que teria de viver de forma sustentável também. Ela aceitou logo de cara e disse que ia adorar fazer isso e apoiar o meu

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ANTテ年IO MARTINS NETO

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projeto. Mas, honestamente, acho que ela não tinha percebido no que estava se metendo, porque naquele estágio nem eu mesmo tinha percebido. Não sabia o quanto o nosso estilo de vida destrói o planeta. E se quisermos diminuir os danos que provocamos, temos que mudar a maneira como vivemos.

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CONTINENTE Qual foi a parte mais difícil? COLIN BEAVAN Acho que faria mais sentido perguntar qual a parte mais interessante. É que sempre pensamos em ter de nos privar para salvar o

COLIN BEAVAN Meus avós cresceram durante a Grande Depressão. Nos EUA, quando pessoas dessa época nos dizem para sermos mais cuidadosos com os recursos, nós os depreciamos. Há até um termo pejorativo para isso. Eles são os “filhos da depressão”. Mas acho que aconteceu algo especial com essa geração. Ela não é cuidadosa por preocupação com dinheiro, mas por ter aprendido a ter gratidão pelo que possui. Toda vez que minha avó pegava uma sacola de papel numa mercearia, ela dobrava e colocava atrás do refrigerador,

CON TI NEN TE

“Para mim, a tragédia mais terrível seria destruirmos o mundo para viver um estilo de vida que sequer está alinhado com os nossos mais verdadeiros propósitos”

Entrevista planeta. Mas, quando paramos de consumir fast food para comer alimentos locais e paramos de usar carro para andar ou pedalar, comemos melhor e fazemos exercícios. Sem a TV, passamos mais tempo com a família. Então, nós estamos mais felizes. Mas se eu tivesse que dizer qual foi a parte mais difícil, diria que foi ter de lavar roupas à mão. CONTINENTE E a mais fácil? COLIN BEAVAN A mais fácil foi parar de comprar o tempo todo. Nos EUA, as pessoas gastam boa parte do tempo livre assistindo TV e fazendo compras. Elas saem aos sábados e compram, como se isso fosse de fato um hobby. Quando nos livramos disso, descobrimos outras coisas para fazer. E poupamos dinheiro. CONTINENTE No livro No impact man, o senhor fala sobre as lições que deveríamos aprender com as velhas gerações, como a dos seus avôs. Que lições são essas?

conduzem a nossa economia, porque nós assumimos vidas baseadas em ter cada vez mais coisas. Para mim, a tragédia mais terrível seria destruirmos o mundo para viver um estilo de vida que sequer está alinhado com os nossos mais verdadeiros propósitos. A ligação entre ambientalismo e espiritualidade está no fato de que devemos usar nossos recursos de uma maneira verdadeiramente alinhada aos nossos propósitos humanos. O pior é disperdiçarmos esses recursos sem que o motivo seja a nossa sobrevivência.

pronta para ser usada mais uma vez. Há uma gratidão pelo que existe, pelo que chega até eles, e isso me fez pensar em ser grato pelo que temos hoje. CONTINENTE O livro também menciona as mensagens sustentáveis que podemos encontrar nos escritos judaicos e até budistas. Há, de fato, uma ligação entre sustentabilidade e religião? COLIN BEAVAN Acredito que há uma ligação entre ambientalismo e espiritualidade. Algumas pessoas não gostam da palavra religião. Mas estamos destruindo o mundo para termos um estilo particular de vida. Toda nossa economia é baseada na ideia de que as pessoas devem comprar muito para manter a economia funcionando, como se esse fosse o propósito da nossa vida. Deveríamos nos perguntar o que nos faz felizes, por que estamos vivos, por que nascemos, para que vivemos. Essas são grandes questões espirituais. Mas também são temas que

CONTINENTE Sua filha era pequena na época do projeto. Ela guarda alguma lembrança? COLIN BEAVAN Ela tem sete anos de idade, mas naquele tempo tinha entre um ano e meio e dois anos e meio. Minha filha lembra pouca coisa, mas é muito consciente de que eu sou o homem sem impacto. Quando ela nasceu, nós decidimos que seria vegetariana e que, quando chegasse a uma idade em que realmente pudesse entender, poderia decidir por si mesma. Um certo dia, disse que não queria mais ser vegetariana, que queria comer carne. Mas, recentemente, numa conferência da Humane Society, uma entidade sem fins lucrativos que lida com os direitos dos animais, ela conversou com um dos membros da entidade e me disse que queria ser vegetariana novamente. CONTINENTE Quase seis anos depois, que práticas foram abandonadas e que hábitos foram mantidos pela sua família?

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COLIN BEAVAN Não tenho TV em casa. Algumas vezes, assisto a vídeo pelo computador, mas não muito. E continuo a pedalar para todos os lugares, porque é uma forma de incluir exercício físico na rotina. Prefiro comida local, de qualidade. E nada de água engarrafada. CONTINENTE As novas tecnologias chegam com a promessa de nos livrar de hábitos que causam grande impacto. O iPad e os tablets, em geral, substituiriam os jornais e revistas e isso evitaria a derrubada de árvores, por exemplo. É possível acreditar nisso?

COLIN BEAVAN Não tenho estudado essa questão e não sei o que causa mais impacto, se o jornal de papel ou o iPad. Mas a ideia de não estar jogando alguma coisa fora é uma boa. Por outro lado, temos que estar conscientes de que há minerais, entre outras coisas, dentro dos equipamentos, como o coltan, encontrado no Congo, muito caro e raro. Guerras estão sendo travadas para que esse produto seja fornecido às empresas de tecnologia. O que sei é que ter o iPad 1 e, no ano seguinte, ter que comprar o 2 e, depois, o 3, não é bom para o meio ambiente. O ideal seria ter dispositivos que nos permitissem mudar a parte principal, a parte que foi melhorada, sem ter que jogar todo o equipamento fora. CONTINENTE Mas o senhor não abre mão do computador? COLIN BEAVAN Tenho um computador, iPad e iPhone. O computador e o iPhone, comprei de segunda mão. O iPad foi

comprado novo, por ser a primeira versão e não tinha como ser usado. CONTINENTE Se, daqui a mil anos, os arqueologistas resolverem estudar a nossa sociedade, o que eles devem encontrar? COLIN BEAVAN Eles iriam encontrar garfos de plástico, copos de plástico e essas coisas que jogamos fora. O que eles não veriam seriam utensílios como descascador de laranja, de pepino. Nessa cultura da velocidade, veriam um povo correndo sem ter tempo para fazer uma comida decente.

Teriam evidências de uma sociedade estressada, sem tempo para cuidar de si. CONTINENTE Qual a grande diferença dos governos de George W. Bush e de Barack Obama em relação ao aquecimento global? COLIN BEAVAN A administração Bush negou a existência do aquecimento global. A administração Obama aceitou a existência do fenômeno, mas os movimentos para resolver o problema têm sido lentos. Não tenho certeza se é porque o próprio Obama está mal ou porque o sistema político norteamericano está estrangulado pelo dinheiro das corporações. CONTINENTE O senhor tem acompanhado como os Brics têm lidado com esse tema? COLIN BEAVAN Sei o que eles pensam sobre isso, pelos problemas que os chineses têm enfrentado com a poluição e pelo fato de economias como a do Brasil, da China e da Índia estarem

cientes de que as mudanças climáticas já estão afetando a qualidade de vida de suas populações. Há pressões sobre os países não desenvolvidos a respeito das consequências ecológicas do avanço econômico. Cruzo os dedos para que eles façam um trabalho melhor do que os EUA. Mas penso que todos temos de estar conscientes de que estamos esgotando o planeta para nos sustentar. CONTINENTE Além das palestras, o senhor continua escrevendo sobre o tema? COLIN BEAVAN Estou trabalhando no meu próximo livro. O título do trabalho é How should I live: the quest for rock’s fan fill meaningful life in a frightening confused world that needs our help. É basicamente sobre como nós equilibramos um estilo de vida supostamente feliz com a nossa responsabilidade para com o mundo e a nossa comunidade. CONTINENTE Qual foi a sensação ao voltar a ter energia elétrica? COLIN BEAVAN De todo o ano, só nos últimos seis meses nós não tivemos eletricidade em casa. Uma vez que o experimento acabou, era hora de voltar a ligar a luz. Honestamente, tive sentimentos misturados. O projeto foi tão intenso, que, em alguns aspectos, foi como entrar num monastério. É muito fácil seguir as regras. Você sabe o que deve fazer num monastério porque é tudo muito rígido. Ligar a luz foi como voltar ao mercado. E você enfrenta essa questão de como levar uma vida regular diante de um problema gigante do aquecimento global. De certa forma, é disso que o segundo livro trata. CONTINENTE Como indivíduo, qual foi o grande impacto desse projeto? COLIN BEAVAN Tudo veio como uma surpresa. Minha esperança era escrever esse livro, divertir algumas poucas pessoas e mudar a mente de outras. Mas acabei recebendo essa atenção gigantesca da imprensa. O resultado é que, hoje, faço muitas palestras, tenho uma pequena organização não governamental que conduz projetos de redução de impacto e ajuda outras pessoas a viverem sem impacto; e dou consultoria a outras entidades sem fins lucrativos. Enfim, sou um privilegiado por estar no meio desse debate e discutir o modo como o ser humano vive.

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O melhor deste mês no ambiente virtual da revista Continente

CON TI NEN TE

QUE HORROR!

RELIGIOSIDADE

Seguindo a trilha da matéria especial deste mês, o site da revista apresenta uma seleção de criações simplesmente horripilantes em gêneros como a literatura, o cinema e a música. Reproduzimos o conto Flor, telefone, moça, de Carlos Drummond de Andrade, sobre estranhas ligações telefônicas de uma moradora do cemitério. Das muitas músicas que nos põem em estado sombrio, certamente A rapsódia húngara nº 2, de Liszt, que foi tema de abertura do programa radiofônico Mistérios do Além, é memorável. Filmes? Santo Cristo, são tantos deles terríveis!... Veja no site!

Sincretismo religioso marca o canto da sacristã Maria das Montanhas da Silva, guardiã da Igreja Nossa Senhora das Montanhas, em Cimbres, Pesqueira.

Conexão

ENTREVISTA Versão ampliada da conversa com o diretor de Cabra marcado para morrer, Eduardo Coutinho, publicada nesta edição, na seção Claquete.

Veja esses e outros links na seção CONEXÃO, em www.revistacontinente.com.br

ANDANÇAS VIRTUAIS

ARTE POP

ARTES VISUAIS

QUADRINHOS

INVENTÁRIO

Galeria americana disponibiliza imagens de obras de seu elenco

Projeto de artista plástico traz site com detalhes da produção

O universo feminino também está presente nas HQs

Site reúne mais de 190 referências sobre política cultural

nineteeneightyeight.com

fogofacil.com

ladyscomics.com.br

fundaj.gov.br

Situada na Melrose Avenue, em Los Angeles, a Galeria 1988 é conhecida por seu trabalho com artistas independentes, especialmente quando o estilo é a pop art. No site, de leiaute simples, é possível ver os quadros das mostras que estão acontecendo tanto em L.A. como na filial de Santa Mônica (também na Califórnia). Além disso, o visitante pode apreciar obras de exposições passadas, informarse sobre as próximas mostras e arrematar vários produtos, como quadros, livros ou esculturas e bonecos customizados.

O amor e suas diferentes fases, das brigas às declarações e sonhos. A arte que se apropria disso, em várias formas, que incluem um curta-metragem e quadros em acrílica, passando por fotografias. Assim é Fogo fácil, projeto mais recente do artista plástico e ilustrador Rafael Coutinho. A página oficial do projeto conta com um texto do autor, explicando o processo que o levou às obras, alguns detalhes sobre produção, equipe, além de telas e do curta de divulgação.

Ainda tem quem pense que revista em quadrinhos é coisa para homens. O Lady’s Comics, site construído a seis mãos pelas jovens Mariamma Fonseca, Samanta Coan e Luciana Cafaggi, prova que essa ideia não poderia estar mais errada. Com a proposta de falar das mulheres que estão presentes se universo (ou que já se foram dele), elas reúnem entrevistas e matérias com quadrinistas de diversos estilos, do horror à delicadeza, passando pelos mangás e outras vertentes.

Os interessados nas questões que norteiam as políticas culturais têm à disposição um inventário bibliográfico, franqueado no portal da Fundaj, pela Biblioteca Central Blanche Knopf. São mais de 190 referências bibliográficas organizadas cronologicamente, reunindo documentos dos acervos da própria Fundação (Blanche Knopf e Nilo Pereira), da Biblioteca Central da UFRPE e das bibliotecas da UFPE. A iniciativa da instituição tem como objetivo inicial apoiar os participantes do Curso de Pós-Graduação latu sensu para formação de gestores culturais.

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blogs CINEMA oldhollywood.tumblr.com

Ótimo acervo cinematográfico, o tumblr conta com imagens de sets de filmagens de grandes clássicos e trechos de trilhas sonoras.

FANZINES zinescopio.wordpress.com

SOBRE OS FANTASMAS DE CONCRETO Refletir sobre os prédios desabitados do centro de São Paulo, quem são seus donos e por que os abandonaram, é o objetivo do site de Mariana Desidério edificiosabandonados.com.br

Mesmo que tenham (infelizmente) se tornado parte comum da paisagem dos grandes centros, é difícil ignorar os edifícios abandonados e a história por trás deles. O site organizado por Mariana Desidério oferece um panorama de cinco gigantes do centro paulista que, com as fachadas cheias de pichações e grafites, servem de abrigo precário para centenas de famílias. Fugindo da abordagem que geralmente é dada a esses casos, a jovem vai em busca dos donos dos edifícios, e, quando não consegue encontrá-los, aborda os órgãos responsáveis para obter dados sobre essas pessoas. O site conta, ainda, com entrevistas feitas com seguranças, como Carlos Abreu Leonel, que cuida do prédio de número 895 da Avenida Ipiranga. Através dos textos detalhados de Mariana, e também do acervo formado por vídeos, áudio e fotos, é possível perceber a intensa pesquisa que estrutura o projeto. Outra coisa que se mostra clara é o descaso, tanto do governo quanto dos proprietários que, ao mesmo tempo em que não permitem que os edifícios sejam ocupados legalmente pelos moradores, tampouco os utilizam. Ficam então os fantasmas de concreto, em cidades cada vez menos humanas. GABRIELA ALCÂNTARA

Organizado por James Guterre, o Zinescópio disponibiliza zines, que podem ser baixados no formato PDF. A maioria faz parte do acervo do blogueiro, que aceita contribuições. É possível encontrar edições antigas de zines como Scream & Yell (1999) .

MÚSICA musicapave.com

Escrito por colaboradores do Brasil e de outros países, o site reúne textos sobre música independente, indústria fonográfica e videoclipes. Conta com artigos e aborda também as artes visuais.

INDEPENDENTE oesquema.com.br

Conjunto de blogs com temas culturais, que vão das HQs mal-humoradas de Arnaldo Branco até páginas com textos sobre música, artes visuais e a internet e seus memes, como o Bate estaca, do jornalista Camilo Rocha, e o Trabalho sujo, de Alexandre Matias, editor do caderno Link, do Estado de S. Paulo.

sites sobre

música clássica ANÁLISES

DIDÁTICO

NOTÍCIAS

www.euterpe.blog.br

www.dsokids.com

www.vivamusica.com.br

O Euterpe oferece algumas das melhores análises (em língua portuguesa) de gravações, história e filosofia da música, repertórios e temas afins.

Para aqueles que não conhecem todos os instrumentos que compõem uma orquestra, o site infantil da Sinfônica de Dallas (em inglês) oferece ricos exemplos em áudio.

O mais antigo portal do gênero no Brasil traz toda a programação do eixo Rio-São Paulo, além de informações sobre seleções públicas para músicos.

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CON TI NEN TE

Portfólio

Maíra Erlich

CLICKS DE UM DIA ESPECIAL TEXTO Mariana Oliveira

Maio sempre foi considerado o mês das noivas. Porém essa tradição tem mudado.

Atualmente, a maioria dos matrimônios acontece entre os meses de setembro e dezembro. Assim como a data, os álbuns que dela faziam parte, com fotografias posadas que tomavam boa parte do tempo dos noivos e de seus familiares, parecem também estar ficando para trás, dando lugar a imagens mais espontâneas, clicadas antes e durante a festa. É nesse novo formato que se enquadra a produção da jovem fotógrafa Maíra Erlich, cujo trabalho, nos últimos três anos, tem se focado no registro desse tipo de celebração. Ela diz que começou a se interessar pela fotografia a partir de uma disciplina do curso de Design, na UFPE, que tinha como foco questões teóricas. Decidiu explorar a técnica e, de maneira autodidata, realizou pesquisas, leu e aprendeu o processo básico da fotografia. Os resultados chamavam a atenção de amigos e familiares, mas levou algum tempo para o hobby se tornar profissão. Um traço que começa a se mostrar recorrente, ainda nesses primeiros registros, é a presença humana. “Nas fotos que fiz de viagens, já percebia que eram as pessoas o que mais me interessava”, acrescenta Maíra. A entrada no ramo dos casamentos aconteceu de forma acidental. “Minha mãe me chamou para ir com ela a um festa e eu não queria ter que fazer todo aquele processo de produção. Falei que só iria se fosse ‘fantasiada’ de fotógrafa”. Ela foi e registrou, despretensiosamente, cenas de seu “primeiro casamento”. O resultado foi postado na internet e logo chegaram pedidos de orçamento para outras celebrações. Ainda “verde”,

Página anterior 1 SORRISO

Detalhe sugere uma noiva feliz

Nestas páginas 2 DAMINHAS

Elas ganham uma especial atenção da fotógrafa, seja na entrada formal seja nas brincadeiras antes e depois da cerimônia

3 MADRUGADA Chega o momento em que os sapatos são abandonados em prol da descontração 4 INTIMIDADE Primeiro momento a sós do casal, depois da festa

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Portfólio Maíra arriscou e fotografou festas de amigos. “Eu tive que entrar nesse mundo, compreender um universo que era distante de mim. Não idealizava, nem sonhava com um casamento”, revela. Hoje, ela está inserida nesse nicho de mercado que conta com muitos profissionais competentes. Segundo Maíra, é algo muito lisonjeiro ser escolhida para fotografar uma data tão especial para os casais. Mais do que registrar as costumeiras etapas da celebração, a fotógrafa busca captar as emoções em fotos espontâneas. Nos seus registros, portanto, embora não subestime os recortes inevitáveis, há momentos focados nos detalhes, nas sutilezas. Em vez da noiva centralizada, entrando na nave da igreja, apenas o buquê ou os pés que vêm à frente. No lugar do cortejo das daminhas, variadas cenas de bastidores,

crianças sendo arrumadas, olhares intrigados, risos e muxoxos. Sim, há a foto incontornável do bolo, mas ele se imiscui às brincadeiras infantis. Aliás, Maíra dedica especial atenção às crianças nesses eventos. Seus enquadramentos vão além do ambiente cercado pelas regras de etiqueta e cerimonial. Ela se coloca como uma especie de espiã que busca aquilo que ninguém vê. Trata-se de um trabalho de observação, que não se encerra com o fim da festa. Usualmente, seu pacote inclui a feitura do álbum – um segundo momento, talvez tão importante quanto o primeiro. Diferentemente do processo usual, quando a noiva recebe um DVD com as imagens e seleciona aquelas que gostaria de ver impressas, é Maíra quem toma para si a responsabilidade de escolher. “É no álbum que conto a história daquele casamento”, diz. Sua intenção é de que, ao folheá-lo, além de ter em mãos um produto diferenciado, o casal possa reviver algumas emoções desse dia especial.

5 BUQUÊ O momento mais esperado pelas solteiras que sonham com o casamento 6 PRÊMIO A foto do bolo com crianças brincando foi premiada pela Wedding Photojournalist Association (WPJA) 7 PARA DAR SORTE Os noivos sob a tradicional chuva de arroz

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

AUDIÇÃO APURADA

Os hologramas nos divertem O show mais comentado da recente edição do festival californiano Coachella teve a participação especial de um artista morto. O rapper Tupac Shakur foi “ressuscitado” durante apresentação de Snoop Dogg e Dr. Dre, no dia 15 de abril, quando cantou três músicas e ainda gritou “E aí, Coachella!”, sendo ovacionado pelo público. O “fantasma” foi criado em laboratório, sem a utilização de imagens já existentes do músico, assassinado há 16 anos. A técnica usada não foi exatamente um holograma (que seria em 3D), mas uma imagem em 2D, projetada do teto em um vidro e refletida em um tecido translúcido. O aparelho já foi empregado para que a cantora Mariah Carey fizesse cinco apresentações simultâneas pela Europa, em 2011. Agora, a projeção com custo especulado entre US$ 100 e 400 mil, poderá sair em turnê. Representantes de Dr. Dre e Snoop Dogg estão discutindo a possibilidade de reunir rappers em uma turnê com a versão virtual de Tupac, em espaços menores, ou levar a projeção para shows de estádio com astros do hip hop, como Eminem e 50 Cent. Entre rumores de que Michael Jackson também “voltará” a fazer espetáculos, o certo mesmo é que, neste ano, outro holograma sairá em turnê: Elvis Presley “vai cantar” acompanhado de sua antiga banda, inclusive “fará” show pela primeira vez no Brasil. DÉBORA NASCIMENTO

CON TI NEN TE

Contrariado com a qualidade sonora do popular MP3, o músico canadense Neil Young, lenda viva do rock e do folk, está subsidiando o desenvolvimento de um novo formato de áudio de altíssima resolução (atualmente, existem o ALAC e o FLAC). O artista, inclusive, já começou o processo para patenteá-lo, tendo requerido seis marcas registradas, em junho de 2011. Ele está aguardando que o governo as registre. Até agora, foi permitido o anúncio do seu projeto, para que possíveis concorrentes possam alegar autoria. O serviço, se autorizado, possibilitará que fãs possam baixar músicas com o áudio das gravações originais, diferentemente do que ocorre com os arquivos em MP3, que são comprimidos – aqueles que possuem “ouvido absoluto” percebem mais essa perda. (DN)

Balaio O NOSSO BARTLEBY

A FRASE

Na opinião de muitos, o maior escritor brasileiro vivo é um homem discreto, que tem apenas três obras publicadas: um romance, uma novela e uma compilação de contos. Raduan Nassar não consta no livro do Enrique Vila-Matas, mas é o caso Bartleby da literatura brasileira. Após lançar dois livros, ambos aclamados pela crítica – Lavoura arcaica e Um copo de cólera – , o escritor saiu de cena e foi, literalmente, criar galinhas. Seu recolhimento parece menos consequência das questões postas pela modernidade e, muito mais, uma negação delas. Em 2012, no entanto, o escritor recluso está cotado para um evento cujo título parece oposto ao seu modo de viver: Balada Literária. O festival fará Raduan sair da toca para uma homenagem merecida. (Gianni Paula de Melo)

“Chato não é morrer. Chato é não poder espantar as moscas.”

Millôr Fernandes, humorista

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EM DEFESA DO CAFÉ O discurso contrário ao consumo da cafeína não é novidade. O rei sueco Gustavo III (1746-1792) tinha convicção de que o café era um veneno para a saúde. Para comprovar sua teoria, ordenou a suspensão da pena de dois condenados à morte. Os prisioneiros passaram, então, a ser cobaias na experiência proposta pelo soberano. Enquanto um tomava altas doses de café por dia, o outro recebia a mesma quantidade de chá. O objetivo era ver qual dos dois morreria primeiro – o rei tinha certeza de que isso iria aconteceria com aquele que ingeria café. Os dois condenados eram monitorados pelo médico particular do monarca, que foi o primeiro personagem dessa história a falecer. Gustavo III também terminou morrendo antes do resultado de sua pesquisa. O bebedor de chá viveu mais alguns anos e o de café terminou sendo o mais resistente, sobrevivendo àquele por 12 anos. (Mariana Oliveira)

CRIATURAS

ASA BRANCA INGLESA Os dois shows de Paul McCartney no Recife, em meio às comemorações do centenário de Luiz Gonzaga, trouxe a lembrança de uma história de grande repercussão nos anos 1960 e que reunia, em uma mesma canção, não apenas o astro inglês, mas os seus antigos companheiros John Lennon, George Harrison e Ringo Starr com o Rei do Baião: os Beatles haviam gravado Asa branca. Era apenas um factoide plantado pelo produtor e compositor Carlos Imperial, mas a intensidade e a amplitude de sua repercussão ressaltou uma verdade: a riqueza melódica, rítmica e harmônica da obra de Gonzagão podia integrar o repertório de qualquer grupo ou artista. Como provou o grego Demi Roussos, que, em 1975, fez sucesso com... Asa branca, gravada em inglês com o título White wings. (Gilson Oliveira)

MEMORIAL AO LUA Depois de Armorialis (2007), Dulcineia e Trancoso (2009) e Réquiem para um trombone (2010), o casal Ana Lúcia e Rafael Garcia lançou mais um desafio, aceito e em vias de conclusão, ao compositor paraibano Eli-Eri Moura. Com texto de Tarcísio Pereira e direção cênica de Antonio Cadengue (da Cia. Teatro de Seraphim), o Memorial musical de Luiz Gonzaga irá narrar a trajetória do velho Lua – de Exu para o estrelato no Rio de Janeiro e depois em retorno à sua terra – ao estilo Pedro e o Lobo, em que o enredo será conduzido por versos de cordel declamados pelo ator José Ramos. A peça, de escrita cênica, coral e orquestral, terá como solistas-protagonistas o sanfoneiro Toninho Ferragutti e o violista Rafael Altino. A estreia acontece em julho, no próximo Virtuosi em Gravatá, sob regência de Rafael Garcia. (Carlos Eduardo Amaral)

Millôr Fernandes (1923-2012) Por Dacosta

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Foi com o aparecimento da estética do Romantismo que o assustador e o macabro intencionais começaram a conquistar a literatura europeia e, depois, mundial TEXTO Roberto Beltrão

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Na noite silenciosa, onde reina a luminosidade baça da lua cheia, um encontro com vaporosas aparições, espectros macabros, vampiros com dentes pontiagudos, feiticeiras que lançam pragas, lobisomens em busca de presas e toda a sorte de monstrengos e assombrações que têm em comum a capacidade de fazer o sangue gelar de pavor. Mas o cenário em que se apresentam esses seres medonhos só pode ser visitado por meio da imaginação: o devaneio de quem reserva algumas horas para atravessar as páginas de um livro de horror. O leitor franze a testa e arregala os olhos a cada susto revelado pelo texto, mexe-se nervosamente na cadeira por causa das reviravoltas da trama, chega a suar frio quando percebe que nenhum final feliz é possível – e, mesmo assim, não larga o volume enquanto não passar a vista na última letra impressa. Na hora de dormir, é possível que seja acometido por terríveis pesadelos. Mas isso não o impedirá de, no dia seguinte, ir à livraria e adquirir uma obra tão ou mais assustadora quanto a que acabou de ler. São apreciadores fiéis do trabalho de escritores que se dedicam à arte refinada de provocar medo. Esses criadores, muitas vezes ignorados pela maioria do público e desprezados pela crítica literária, são herdeiros dos contadores de histórias que reproduziam lendas e mitos nas pequenas aldeias e vilas, desde os primeiros séculos da humanidade. Guardam também semelhança com as tias e avós que, antes da chegada da televisão e da internet, amedrontavam as crianças recitando contos protagonizados pelo “velho do saco”, pelo “bicho-papão” ou pela “mula sem cabeça”. Criaturas do universo bizarro que formam o “ciclo da angústia infantil”, segundo a classificação do folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, na sua Geografia dos mitos brasileiros. Muitos fãs dos livros de horror adquiriram esse gosto incomum ao buscar reviver os sentimentos conflitantes – medo e curiosidade – provocados pelos relatos assombrados que ouviram quando crianças. Foi assim com a jornalista e escritora Jaqueline Couto, leitora compulsiva de tudo o que foi publicado por Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Stephen King ou Anne Rice. Ela relembra que aprendeu

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CON ESPECIAL TI NEN TE a gostar de novelas ou contos sombrios com a avó. “Vovó tinha a mania de me colocar para dormir contando histórias de horror, assombrações. Por isso me tornei uma caçadora de fantasmas, uma pesquisadora cada dia mais curiosa”, conta Jaqueline, que diz acreditar no poder que uma história assustadora bem contada tem de influenciar as pessoas. “O que trata do lado negro, das forças ditas estranhas, do oculto, fascina o ser humano desde tempos remotos.” Provavelmente, sem a narrativa folclórica não haveria o que se convencionou chamar de literatura de horror – embora esta tenha chegado a um estágio tão sofisticado e detalhista de estranhamento (ondas intensas de calafrios), que já não pode mais, nem de longe, ser comparada às tradicionais historietas mal-assombradas repetidas pelos nossos pais e avós. “Até o surgimento das ciências e da racionalidade moderna, entre os séculos 18 e 19, essas narrativas não eram consideradas fantasiosas ou folclóricas. Antes, as histórias apavorantes contadas pelos mais velhos eram lições de vida”, explica a historiadora e pesquisadora da literatura, Maria Edith Rivelli de Oliveira, ligada à Academia de Letras, Ciências e Artes de Ponte Nova, em Minas Gerais. Seres incomuns e amedrontadores nem sempre foram considerados visitantes estranhos ao mundo material. “Esse pensamento está muito ligado ao conceito medieval de mirabilia, segundo o qual fantasmas e monstros também estão dentro da ordem do universo”, explica André de Sena, professor de Teoria Literária do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco. No livro Esquecidos por Deus, a historiadora Mary Del Priore registra que antigos aventureiros e estudiosos europeus garantiam existir em terras distantes, do Oriente, aberrações como o homem com cabeça de cachorro, peixes com cabeça humana e até homens sem cabeça e com olhos nos ombros. Del Priore cita o pensamento de Santo Agostinho sobre homens e monstros: “Faziam parte do mundo e concorriam para sua beleza”. “Mesmo se não pudermos explicar por que Deus os criou, devemos confessar a nossa ignorância e recusar a ideia de considerá-los erros da Natureza.”

IMAGENS: REPRODUÇÃO

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“Dante foi um pioneiro na captura clássica da atmosfera macabra”, apontou o escritor Howard Lovecraft

Para que o horror se consolidasse como gênero literário, foi necessária uma longa depuração. Entidades sobrenaturais sempre se fizeram notar na literatura ocidental. “Dante foi um pioneiro na captura clássica da atmosfera macabra”, teoriza o escritor americano Howard Phillips Lovecraft, no livro O horror sobrenatural na literatura, único ensaio do autor que apavorou várias gerações com romances e contos produzidos nas primeiras décadas do século 20 e se tornou uma referência inevitável nesse campo. Lovecraft se referia aos castigos excruciantes aplicados pelos demônios aos pecadores – punições narradas nos versos que descrevem o Inferno na Divina comédia, composta pelo poeta de Florença, no século 14. Muito antes disso, na antiguidade grega, sereias e ciclopes já atormentavam os humanos nos acontecimentos relatados pelos versos da Odisseia de Homero.

Personagens vindos do além também figuram nos enredos tecidos por William Shakespeare, na Inglaterra elisabetiana do século 16. Em Hamlet, o príncipe da Dinamarca encontra o atormentado fantasma do próprio pai que exige vingança contra o irmão que o assassinou. E são bruxas asquerosas que profetizam a chegada de Macbeth ao trono da Escócia – um presságio que o levará a cometer uma série de crimes sob a influência da esposa ambiciosa. Mas nenhuma dessas obras clássicas tinha a intenção de provocar arrepios no leitor (no caso de Shakespeare, na plateia do famoso Teatro Globe, em Londres). A historiadora Maria Edith diz que “a partir do ceticismo moderno, as narrativas sobrenaturais entram em xeque, e daí teremos o surgimento do gênero literário fantástico, em que a descrença e a tradição sobrenatural se digladiam. Nesse momento, há uma cisão entre real e sobrenatural, folclore e conhecimento”. Foi com o aparecimento da estética do Romantismo que o assustador e o macabro intencionais começaram a ter lugar na ficção europeia. Para a maioria, essa afirmação vai parecer contraditória, pois tudo o que é romântico “é muito confundido com o lacrimoso, o melodramático”, lembra o professor Sena. Todavia

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1 A BARCA DE DANTE Pintura de Eugène Delacroix, de 1822, inspirada na Divina Comédia 2 H.P. LOVECRAFT Ensaio do autor tornou-se referência no estudo do gênero 3 HORACE WALPOLE Escritor inglês foi pioneiro entre os autores de horror

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é preciso observar que a corrente romântica, surgida no século 18, foi de encontro ao classicismo baseado nos cânones greco-romanos e também ao racionalismo iluminista. O Romantismo valorizou a subjetividade e, por conseguinte, o sentimento amoroso, o escapismo, o sonho, o delírio e a fantasia. Dentro desse vagalhão de emoções, ganhou força a arte gótica: uma estética que já perpassava a arquitetura e o estatuário da Europa medieval e traduziu-se em literatura com ajuda do pensamento romântico. Entre as primeiras expressões do gótico nas letras estão as chamadas “poesias de cemitério”, compostas na Inglaterra nas primeiras décadas do século 18. “Os poetas de cemitério muitas vezes eram monges, religiosos que escolheram o espaço do cemitério, o espaço crepuscular, para pensar a transitoriedade da vida”, esclarece Sena. “Essa atitude não desperta horror, ao contrário: ela é até certo ponto pacificadora – pensado na transitoriedade da vida, elege-se o cemitério como lugar para reflexão. Um sinal da obscuridade gótica, mas como território religioso, metafísico, sublime, embora muito melancólico.” A intenção de levar medo ao público leitor surgiu nos anos seguintes, com

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o advento do romance gótico. O inglês Horace Walpole foi o pioneiro de uma extensa linhagem de escritores de horror. É dele a obra chamada O castelo de Otranto, publicada em 1764. O livro conta a história do príncipe Manfredo, atormentado por forças sobrenaturais referentes a uma maldição que ronda o tal castelo, do qual o nobre tenta de todas as formas se apossar. Veio daí o paradigma cenográfico dos filmes de horror mais tradicionais, como na recente produção hollywoodiana A dama de preto: uma construção antiga (castelo/ casarão) decorada por móveis escuros e vistosas teias de aranha, na qual são ouvidos gemidos e portas batendo, o arrastar de correntes, e onde desfilam vultos e aparições lúgubres. Já no fim do século 18 e começo do século 19, autores românticos germânicos trariam uma perspectiva diferente para o horror literário. Ludwig Tieck e Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann – conhecido como E. T. A. Hoffmann – pertencem a diferentes fases do romantismo alemão, mas têm em comum a criação de novelas e contos nos quais o horror não vem de uma ameaça externa (o fantasma que atormenta os moradores do castelo, o vampiro que quer beber o sangue dos aldeões), mas, sim, da própria mente conturbada dos

personagens. Nessas narrativas, há uma área sombria, esfumaçada, na qual não é possível distinguir o real do imaginado, o concreto do sobrenatural. “Em Tieck e Hoffmann começam os fantasmas interiores, a alucinação, o delírio, o inconsciente, outras recorrências frequentes da estética romântica”, detalha André Sena. “Por exemplo: a maioria dos personagens dos contos de Tieck – que só teve textos traduzidos pela primeira vez aqui, no Brasil, em 2009 – os desvãos ocorrem no imaginário.” Feitiço de amor e outros contos reúne seis tramas com pormenores lúgubres e mistérios que escondem pecados inconfessáveis. De Hoffmann, que também era um músico talentoso e admirador de Mozart (daí o “Amadeus” no nome), podemos citar obras como O elixir do Diabo e Noturnos. “Muito do que Edgar Allan Poe aprende vem de Hoffmann, que, por sinal, é mais assustador do que Poe”, opina o professor Sena, referindo-se ao escritor norte-americano, que se tornaria um sinônimo de histórias de horror. Nascido na cidade de Boston, em 1849, Edgar Allan Poe produziu poemas de versos soturnos como O corvo: “Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!/ Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,/A este luto e este degredo,

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CON ESPECIAL TI NEN TE a esta noite e este segredo,/ A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais/Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!/Disse o corvo, ‘Nunca mais’ ”. Foi o talento de Poe para produzir contos que contribuiu para imortalizálo. A precisão milimétrica e o desejo de desafiar o poder de dedução do leitor em obras como Os assassinatos da Rua Morgue e A carta roubada criaram um modelo para o conto policial, que seria imortalizado por Arthur Conan Doyle e Agatha Christie. Em Poe, a melancolia e o equilíbrio narrativo se uniram em contos como A queda da casa de Usher e Ligeia, criando referências definitivas na literatura de horror. Nas palavras de Lovecraft, o autor “compreendia tão perfeitamente o exato mecanismo e fisiologia do pavor e da estranheza”, que seguia “cada etapa principal em direção ao pavoroso”. O autor de O barril de amontilado também foi exemplo para o escritor argentino Julio Cortázar: “Há em nós uma presença obscura de Poe, uma latência de Poe (...) ele foi um dos grandes porta-vozes do homem, aquele que anuncia o seu tempo noite adentro”.

OS POPULARES

Do outro lado do Atlântico, artistas com estilos muito menos marcantes conseguiram fama criando personagens de horror, que se tornariam ícones da literatura (e depois do cinema) de horror. Se não fosse pelo monstro de Frankenstein, a britânica Mary Shelley possivelmente teria a biografia resumida à frase “esposa do poeta Percy Shelley”. Em 1816, durante uma temporada em Genebra, na Suíça, ao lado de Lord Byron e John William Polidori, o casal aceitou o desafio de produzir histórias assombrosas como divertimento. Byron criou o relato macabro The burial; Polidori escreveu The vampyre – ancestral de sanguessugas que viriam a dominar a cultura pop séculos depois; Percy redigiu o conto The assassins; e Mary trouxe à tona uma novela intitulada Frankenstein ou o moderno Prometeu, em que um jovem cientista obtém sucesso unindo partes de cadáveres para formar um novo homem, mas este se revolta com seu criador e se torna um assassino. Ainda mais famoso que o monstro de Mary Shelley, tornou-se um fidalgo saído da imaginação do irlandês Bram

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4 EDGAR ALLAN POE Contos do autor viraram referência, como O corvo e O gato preto 5 STEPHEN KING Autor americano é um dos mais celebrados da atualidade

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Stoker, em 1897. Baseado em lendas da Europa Oriental sobre mortos que voltam do túmulo e tem o péssimo hábito de beber o sangue dos viventes, ele tira o Conde Drácula das sombras para uma jornada rumo ao estrelato. Como vimos, Stoker não foi um pioneiro nas histórias de vampiro, mas reforçou no monstro dentuço um explícito caráter sedutor, que iria ser associado ao vampirismo. No livro A dança macabra, o escritor americano Stephen King teoriza que “muito do que nos atrai nas histórias de horror é que elas nos permitem exercitar aqueles sentimentos e emoções antissociais” e “Drácula não é um livro sobre sexo normal; não tem nenhum ‘papai e mamãe’ rolando aqui”. (Certamente, o vitoriano Bram Stoker não iria gostar nada dos vampiros açucarados e castos da Saga Crepúsculo, de Stephenie Meyer, febre entre as adolescentes deste século 21.) Se os monstrengos e vampiros conquistaram a fama a partir de obras que abraçaram o gótico sem pudor, coube a um escritor realista do fim do século 19 criar o mais intrigante conto sobre fantasmas. O norte-americano naturalizado inglês Henry James oferece em A volta do parafuso (The turn of the screw) um enigma psicológico: uma governanta é contratada para tomar conta de duas

crianças órfãs de mãe que vivem sem a presença do pai num casarão antigo (sempre ele!). Logo, a mulher percebe que os espectros da governanta anterior e do amante dela,ambos defuntos, rondam o local e parecem ter uma estranha ligação com as crianças. Mesmo depois do desfecho dessa trama, o leitor não sabe se as almas penadas existem ou estão apenas nos delírios da protagonista – uma dúvida que alguns críticos comparam aos questionamentos de Bentinho com relação a Capitu, no clássico machadiano Dom Casmurro. A volta do parafuso se encaixa perfeitamente na definição do linguista búlgarofrancês Tzvetan Todorov, expressa no famoso ensaio Introdução à literatura fantástica: para ele, o “fantástico” reside na incerteza, na ambiguidade, e não na convicção dos personagens (e do leitor) de que o sobrenatural existe.

OUTRAS NARRATIVAS

Nas últimas décadas do século 19 e nos primeiros anos do século 20, outros escritores trouxeram valiosas contribuições à literatura de horror: o francês Guy de Maupassant, o inglês Algernon Blackwood, o escocês Robert Louis Stevenson, o indo-britânico Rudyard Kipling, o estadunidense Ambrose Bierce, o galês Arthur Machen.

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O DESPERTAR DOS FANTASMAS BRASILEIROS

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Mas, para muitos dos fãs do gênero, ninguém soube horrorizar o público como um autor que surgiu na geração seguinte: o já citado Howard Phillips Lovecraft. Os títulos de seus trabalhos são reveladores:Um sussurro nas trevas, Sombras perdidas no tempo. Ele definia o clima de pesadelo extremo de sua ficção, publicada a partir de 1917, como “horror cósmico”. Para o professor André de Sena, Lovecraft “é o coroamento de toda uma história que vem lá do século 18, porque escreve grandes contos de horror de forma totalmente autoconsciente” – ou seja, com a intenção de mergulhar o pobre leitor num escuro de pesadelos. O escritor incorpora lições aprendidas com os mestres do gótico (Tieck, Hoffmann, Poe) e vai além. “Lovecraft tem muito de um hibridismo que reúne “o cientificismo típico da época em que viveu, o horror e o ‘mal do século’ do Romantismo” – a imbricação de teorias positivistas e uma influência tardia do Ultrarromantismo. Depois de Lovecraft, o que apareceu de novo ou relevante na literatura de horror? Surgiram escritores de sucesso, sim, nomes como os já mencionados Stephen King e Anne Rice, e também Clive Barker. Mas, desde meados do século

“Muito do que nos atrai nas histórias de horror é que elas nos permitem exercitar emoções antissociais” Stephen King passado, foi o cinema de horror que caiu na preferência dos aficionados pelo gênero (leia o texto a seguir). Na visão de André de Sena, isso ocorreu porque as imagens projetadas na tela grande têm mais poder para causar medo do que a narrativa literária. Principalmente nestes tempos dominados pelos efeitos especiais e pela computação gráfica, recursos que transformam qualquer sonho em (quase) realidade do tipo 3D. Essa força é tão grande, que, de acordo com o professor, “as obras literárias de horror, hoje, seguem a estética cinematográfica, com linguagem de roteiro, quadro a quadro. Parece que você está vendo o movimento da câmera, não é pior nem melhor que os livros de outros tempos: é preciso analisar caso a caso, lembrando que, na época do Romantismo, também surgiu uma vasta produção de romances medíocres de horror”.

Não há dúvida de que seres medonhos habitam as escuras matas brasileiras e de que os casarões das áreas históricas das nossas cidades abrigam espectros. No livro O saci-pererê: resultado de inquérito, Monteiro Lobato reproduziu relatos que descrevem o duende perneta como tendo “um pé caprino, olhos grandes e vermelhos (...) cabeça grande e disforme (...) dentes alvos e pontiagudos” – quase nada semelhante ao moleque simpático do Sítio do Pica-pau Amarelo. Então, por que na tradição da literatura nacional quase não houve espaço para o horror e mesmo para o fantástico? “O romantismo brasileiro foi essencialmente mimético, preocupado com a natureza, com o indianismo – nós não tivemos o gótico”, esclarece o professor André de Sena, que integra um núcleo de estudos da UFPE que discute, entre outros temas, a literatura de horror. O escritor paraibano Braulio Tavares argumenta que “a literatura brasileira sempre esteve preocupada em criar uma imagem do que é o Brasil, e isso atrapalhou um pouco a literatura mais imaginativa, especulativa”. Mas isso não impediu que alguns dos nossos escritores cortejassem a fantasmagoria. O exemplo mais citado é o livro de contos macabros Noite na taverna, do poeta romântico Álvares de Azevedo (século 19). Modernistas também passearam no campo do assombroso. Merece menção o conto Flor, telefone, moça, de Carlos Drummond Andrade. Entre as décadas de 1950 e 1960, o também mineiro Murilo Rubião produziu narrativas kafkianas que, às vezes, tangenciam o horror: no desfecho de Teleco, o coelhinho. Poucos sabem, mas um poeta de Palmares, em Pernambuco, também confeccionou contos de meter medo. Em O lobisomem da porteira velha (1957) e O cara de fogo (1969), Jayme Griz lembra visagens e monstros nascidos do folclore da região canavieira. Nas últimas décadas do século 20, bons ventos começaram a soprar a favor dos autores que se dedicaram ao gênero de horror no Brasil. Ao poucos, eles vêm conquistando pequenos nichos de mercado e, neste novo século, vêm se consolidando. O caso mais evidente é o do paulista André Vianco, que já publicou vários romances sobre vampiros e se tornou um dos maiores vendedores de livros em nosso território. ROBERTO BELTRÃO

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MÚSICA Evocando o pavor em acordes dissonantes

A relação entre medo e sons tem início na Pré-História e segue até aos dias atuais, com o sombrio heavy metal e seus subgêneros TEXTO Sérgio Barza

Dentre todas as realizações da humanidade, nenhuma é tão envolvente quanto a música. Mais do que qualquer manifestação artística, ela participa da vida em momentos especiais e marcantes, refletindo gestos e atitudes, sugerindo emoções e sentimentos, do carinho à melancolia, da bravura ao medo, acompanhando consciente ou inconscientemente o ser humano do nascimento à despedida final. A associação do medo com a música começa na Pré-História, quando o cérebro aprendeu a processar ruídos

ameaçadores de animais e inimigos. Com os sons organizados como discurso musical, é a dissonância que provoca reações de angústia, tensão e medo. Como seria, porém, a ligação entre a música como arte e a sensação de medo? Falaremos aqui de obras que evocam o sobrenatural e de músicas que são ligadas ao terror, mesmo que os compositores não tenham aventado essa possibilidade, além de músicas usadas em cerimônias fúnebres, pois a morte para muitos é o último e maior medo a enfrentar.

A música que representa o medo é geralmente aquela que remete ao terror, no sentido usado pela literatura gótica do século 19: a sensação de temor crescente que antecipa o momento do horror, ou repugnância. O terror em termos musicais pode ser ligado ao desconhecido e ao sobrenatural, como explorado por outras artes (especialmente literatura, pintura, cinema e teatro), mas iniciaremos com a música dedicada à memória dos mortos. A composição musical mais comumente usada para homenagear os que se foram é chamada de réquiem. A palavra é tirada do introito da liturgia da missa dos mortos, requiem aeternum, que vem do latim e significa “descanse” ou “repouse”. Até o século 15, a música utilizada nesse tipo de peça era exclusivamente o monofônico cantochão (canto das liturgias cristãs), mas, a partir da Escola Franco-Flamenga (séculos 15 e 16), os compositores potencializaram a expressividade com o desenvolvimento das técnicas de escrita musical, primeiro com a polifonia, depois, com a homofonia. A missa dos mortos ganha um maior impacto dramático com o Dies

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irae (“Dia de ira”, ou “Dia do julgamento final”), incorporado no século 16, com as mudanças na liturgia propostas pelo Concílio de Trento. A homenagem aos que se foram e a menção à morte vão além dos réquiens, e incluem outros cantos fúnebres como o lamento, a trenodia e a marcha fúnebre. Um capítulo à parte na representação do medo em música é a dança macabra, inspirada numa alegoria da época das grandes epidemias da Idade Média que mostrava vários representantes da sociedade (nobres, religiosos, homens comuns) seguindo a morte, numa alusão à fragilidade da vida e das glórias terrenas. As mais conhecidas composições baseadas na dança macabra são a Totentanz, de Franz Liszt (1849), e a célebre Danse macabre, um poema sinfônico de Saint-Saëns composto em 1874. A peça conta que a morte aparece todos os anos à meianoite no Halloween e chama os mortos para que saiam de suas tumbas e dancem para ela ao som de seu violino, até o galo anunciar o nascer do dia – quando voltarão para seu descanso, estendido ao ano seguinte. Essas peças foram compostas na época do Romantismo, movimento literário e artístico do século 19, que tinha entre suas características o combate ao racionalismo iluminista, e o fascínio pelo oculto e pelo sobrenatural. Nesse contexto, a música de Liszt e Saint-Saëns foi usada tanto nos teatros quanto nas salas de concerto para ilustrar o medo. Algumas óperas do século 19 usaram o sobrenatural nos seus enredos, como La dame blanche (Boieldieu), Lucia di Lammermoor (Donizetti), O navio fantasma (Wagner, baseada na lenda do Holandês Voador) e Macbeth (Verdi). Essa tendência continuaria no século 20, com A volta do parafuso (Britten) e Le grand macabre (Ligeti). Já as salas de concerto apresentaram obras importantes como a Sinfonia fantástica (Berlioz), os lieder (canções) de Schubert Erlkönig e Der Tod und das Mädchen (A morte e a donzela), além de Le streghe (A bruxa), de Paganini, um violinista sobre quem diziam ter feito um pacto com o Diabo para se tornar um virtuose. O cinema, no século 20, seguiu o caminho aberto pela ópera e usava a música como apoio para as imagens,

mesmo que a composição não tivesse sido escrita originalmente para esse fim. Ao lado de trilhas originais (lembrem-se da cena do chuveiro de Psicose), foram utilizadas peças como a Toccata e Fuga em ré menor, de J.S. Bach; a Marcha fúnebre, de Chopin (terceiro movimento de sua Sonata nº 2); a Marcha fúnebre para uma marionete, de Gounod, celebrizada como tema da série Alfred Hitchcock presents; e A rapsódia húngara nº 2, de Liszt, por muitos anos tema de abertura do programa radiofônico Mistérios do além, na Rádio Clube de Pernambuco. A música pop, o blues e o rock também abordaram o sobrenatural e o terror em canções. Robert Johnson, seguindo Paganini, teria feito um pacto com o Diabo para aprender a

A música que representa o medo é geralmente aquela que remete à sensação de temor que antecipa o momento do horror tocar blues, algo que ele conta em Cross roads blues e em Me and the Devil blues, parte das lendas do Mississippi. Nos anos 1950 e 1960, aproveitando a abordagem cômica do terror pelos quadrinhos e TV, como nas séries A família Adams e Os monstros, algumas canções fizeram bastante sucesso, como Monster mash (Bobby Pickett) e Purple people eater (Sheb Wooley). Outras canções usavam o extranatural mais seriamente, como Ghost riders in the sky, sucesso com Burl Ives e Frankie Laine, e I put a spell on you, de Screamin’ Jay Hawkins, que a apresentava teatralmente nos palcos, vestindo uma capa e saindo de um caixão entre névoa e fumaça, antecipando o rock teatral dos anos 1960, de The Crazy World of Arthur Brown, e dos anos 1970, com Alice Cooper e Kiss. Embora não possamos esquecer a incursão dos Rolling Stones pelo lado negro, com Sympathy for the Devil, e os mergulhos de Jimmy Page no satanismo de Aleister Crowley, o sobrenatural como tema dominante no rock só seria explorado no final dos anos 1960, com o surgimento do heavy metal.

A música de grupos como o Black Sabbath era uma reação à desilusão da juventude com a cultura hippie. Simbolizando esse comprometimento, o nome do grupo foi retirado de um filme de terror de 1963, de Mario Bava, com Boris Karloff. A música com o mesmo nome, que fazia parte do seu primeiro álbum, era inspirada nas obras do escritor ocultista Dennis Wheatley e fazia uso do intervalo dissonante de quarta aumentada, desde a Idade Média chamado diabolus in musica. O som pesado e os grandes concertos de rock dos anos 1970 podem ser considerados o equivalente eletrificado da ópera romântica pré-Wagner, especialmente os espetáculos teatrais de horror do já citado Alice Cooper (Vincent Damon Furnier).

SUBGÊNEROS

Outras bandas declinavam do lado teatral, mas não do sobrenatural, entre elas Blue Öyster Cult e Uriah Heep. O gênero ganhou novo sangue a partir do final daquela década, com grupos como o inglês Iron Maiden, o dinamarquês Mercyful Fate, o americano White Zombie (cujo líder, Rob Zombie, escreveu e dirigiu vários filmes de terror), e subgêneros como doom metal, death metal, black metal e gothic metal. O doom metal é baseado no trabalho inicial do Black Sabbath, com som e letras evocando medo, angústia e desespero, e o som do gothic metal, em alguns momentos, busca também climas sombrios. Death e black metal trazem o terror mais nas letras que na música, excessivamente rápida e distorcida. Esses subgêneros abarcam desde o satanismo e anticristianismo explícito (bem ilustrado pelo incêndio de várias igrejas na Escandinávia, nos anos 1990) a uma abordagem mais lírica do terror e do ocultismo. Para aqueles que não sabem, o Brasil esteve bem representado nesse contexto com a produção inicial do Sepultura, ao lado dos trabalhos do Korzus e do Sarcófago. Independentemente de títulos e letras, é através do som que a música continuará provocando e transmitindo emoções. O ser humano nunca perderá o fascínio pelo oculto, nunca deixará de sentir medo, e não encontrará um modo melhor de traduzir isso senão pela música.

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CINEMA Até parece de verdade

O cinema surgiu como mera

imitação da realidade. Mas um ilusionista, Georges Méliès, percebeu o potencial da novidade e passou a usar efeitos para contar histórias com a ilusão do fantástico. Foi o pioneiro na abordagem de fantasmas, vampiros e demônios, em trabalhos como O solar do diabo e Uma noite terrível, de 1896. Fez a primeira ficção científica em 1902, Viagem à Lua, baseada em Júlio Verne e também a primeira fita com monstros. Até a falência de seu estúdio, em 1913, o mágico produziu centenas de filmes abordando o sobrenatural e o fantástico, influenciando realizadores dos EUA. A indústria do cinema americano do início do século 20 não tardou a realizar filmes de horror. Em 1909, D. W. Griffith adaptou a peça O demônio e o conto O coração delator, de Edgar Allan Poe, no seu A consciência vingativa (1914). Em 1910, já havia um Frankenstein, baseado na obra de Mary Shelley,

Imersos na escuridão da sala, os espectadores experimentam a verossimilhança do medo TEXTO André Balaio

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produzido pelo estúdio do inventor Thomas A. Edison. O médico e o monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde), de Stevenson, teve duas adaptações, em 1912 e 1913. Em 1913, Paul Wegener faria um longa-metragem baseado no conto William Wilson, de Edgar Allan Poe, e na novela Os duplos, de E.T.A. Hoffman – O estudante de Praga, primeiro filme expressionista alemão. Wegener dirigiria nos anos seguintes três obras sobre a lenda judaica do Golem, um ser de barro que ganha vida. Nos anos 1920, a Alemanha estava com a economia arrasada e graves tensões sociais, que culminariam na ascensão do nazismo, na década seguinte. A crise, em contrapartida, fomentou a criação artística. Foi nessa época que o expressionismo alemão atingiu seu auge nas artes plásticas, dança, arquitetura e no cinema. A estética do cinema expressionista rejeitava o Realismo e privilegiava uma fotografia baseada no uso das sombras, em cenários irreais de enorme beleza plástica e em temas de forte conotação psicológica e fundo político. Robert Wiene (O gabinete do Dr. Caligari, de 1920), F. W. Murnau (Nosferatu e O fantasma), Fritz Lang (a trilogia do gênio do crime H. D. Mabuse, a fábula A morte cansada, a metáfora de ficção científica Metrópolis e a história de serial killer M), Paul Leni (O gabinete das figuras de cera) e outros conseguiram expressar as tensões, medos e dilemas do ser humano em face aos novos tempos. Desde então, o expressionismo alemão tem exercido uma forte influência em obras tão distintas quanto os clássicos de suspense de Alfred Hitchcock e o Edward mãos de tesoura de Tim Burton (inspirado no Cesare de Dr. Caligari), nos quadrinhos e até em videoclipes. Na efervescente indústria do cinema americano dos anos 1920, normalmente eram feitas adaptações de clássicos da literatura (O corcunda de Notre Dame) ou do teatro (O monstro). No cinema mudo, o maior astro do gênero era Lon Chaney, conhecido como “O homem das mil faces”. Ele participou de inúmeras produções de sucesso, como O fantasma da ópera e Londres depois da meia-noite (obra perdida do genial diretor Tod Browning), mas ficou eternizado como o corcunda Quasímodo, na

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6 PETER LORRE Ator em cena do clássico M, O vampiro de Dusseldorf 7 EM CARTAZ Desde o início, o cinema investiu na temática do terror

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adaptação da obra de Victor Hugo. Nos anos 1930, a Universal começou a produzir filmes de horror falados, entre eles Drácula, dirigido por Tod Browning. O papel-título iria para Chaney, porém seu falecimento fez com que fosse para um semidesconhecido: o húngaro Bela Lugosi. Este havia atuado em filmes alemães e austríacos e tinha chegado recentemente aos Estados Unidos, onde interpretou o vampiro no teatro. Seu inglês era péssimo e o sotaque muito carregado, mas ficou perfeito no papel. “Drácula” virou um sucesso estrondoso e transformou Lugosi em ícone do gênero. Devido ao vício em heroína, experimentou a decadência e passou a viver na pobreza e numa quase obscuridade. Nos anos 1950, foi redescoberto pelo diretor de filmes de baixo orçamento e gosto duvidoso Ed Wood. Já Tod Browning filmou, em 1932, na MGM, uma história de crime e traição

com atrações de “circos de aberrações”. Usou atores que tinham essas características e fez Monstros (Freaks), um fracasso que quase destruiu sua carreira. Décadas depois, o filme seria considerado uma obra-prima. Dos anos 1930 aos 1940, a Universal atingiu o apogeu com obras como a trilogia do Frankenstein: O homem invisível, A múmia e O lobisomem. Foram estes, junto ao Drácula de Browning, que estabeleceram a nova mitologia dos personagens do horror. Não é exagero dizer que tudo o que foi feito sobre eles, depois, teve inspiração ali. O monstro, de Victor Frankenstein, teve três filmes em série e o inglês Boris Karloff foi a sua mais completa tradução. Seu porte e o rosto de expressão melancólica se ajustaram perfeitamente às produções da Universal. Karloff fez sucesso também como o personagem-título de A múmia. Já Lon Chaney Jr., filho do astro do

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CON ESPECIAL TI NEN TE cinema mudo, foi o único a encarnar os quatro grandes: o monstro de Frankenstein, o vampiro (filho de Drácula), a múmia e o lobisomem, sendo mais lembrado como este último por causa do título da Universal de 1941. Os dois primeiros Frankenstein, bem como O homem invisível, tiveram a assinatura de James Whale, diretor inglês fortemente influenciado pelo expressionismo alemão. Nos anos 1940, os estúdios RKO (os mesmos de Cidadão Kane) decidiram investir em um setor específico de horror e determinavam três regras: cada filme tinha custar menos do que 150 mil dólares, durar menos que 75 minutos e ter o título escolhido pelos chefes do estúdio. Em cinco anos, foram 11 películas, sendo duas obras-primas: Sangue de pantera (Cat people, 1942) e A morta-viva (I walked with a zombie, 1943), dirigidas pelo francês Jacques Tourneur com extremo apuro técnico. As produções americanas dos anos 1930 e 1940 estavam no contexto do apogeu industrial de Hollywood e do crescimento econômico dos Estados Unidos, ou seja, a diversão se distanciava da realidade. Alguns anos depois, o mundo era outro: havia seis milhões de judeus assassinados e duas bombas nucleares jogadas. Vampiros e lobisomens não assustavam mais como antes. O cinema virou um perfeito espelho da paranoia com a Guerra Fria e o risco de um conflito nuclear. Os vilões agora eram animais gigantes por causa da radiação ou cruéis invasores alienígenas. Também se dava, de forma subliminar, uma resposta à perseguição de direita personificada no senador republicano Joseph McCarthy com metáforas sobre a ameaça conservadora. O acesso a novas tecnologias de efeitos especiais também permitia novos voos em produções como A coisa do outro mundo (1951), O monstro da Lagoa Negra (1954), Vampiros de almas (Invasion of the body snatchers, 1956) e O incrível homem que encolheu (1957). No Japão, a recuperação econômica não evitava o medo do cataclismo atômico, amplificado pelo trauma das bombas de Hiroshima e Nagasaki. A indústria do cinema japonês passou a fazer filmes de

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Antes dos anos 1960, o “coisa-ruim” não tinha vez no cinema, devido ao conservadorismo religioso

monstros que atacavam cidades, metáfora para a impotência diante da ameaça bélica. Na galeria dos gigantes clássicos, teve destaque Godzilla. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, a Hammer Film Productions passava a investir no horror gótico. Drácula, a múmia, o monstro de Frankenstein e outros personagens malignos apareciam em vibrante Technicolor. O sangue era em vermelho vivo, algo impensável nas produções americanas clássicas. Outra característica era o forte conteúdo sexual, reforçado pela presença de belas atrizes, quase sempre em decotes sensuais. A primeira produção com essas características, A maldição de Frankenstein, trazia um time que viraria a referência do horror de sua época: o diretor Terence Fisher e o roteirista Jimmy Sanger; Peter Cushing, como o Barão de Frankenstein, e Chistopher Lee, como o

monstro. O quarteto voltaria em Drácula – o vampiro da noite (Horror of Dracula, 1958), com Cushing e Lee nos papéis de Van Helsing e Drácula. Christopher Lee é, provavelmente, o único ator que conseguiu se equiparar a Bela Lugosi como ícone do vampiro da Transilvânia. A influência nos cineastas de outros países foi inevitável, o que fez com que Itália, França e Estados Unidos também explorassem temas góticos para assustar suas audiências. Mario Bava, principal nome do horror italiano naquele tempo, criou belas películas em preto e branco, como A maldição do demônio (Black Sunday, 1960), ou em cores, feito As três máscaras do terror (Black sabbath, 1963), que inspiraria o nome da banda de rock. Nos Estados Unidos, o diretor e produtor de filmes B. Roger Corman realizou oito boas adaptações da obra de Edgar Allan Poe, na primeira metade dos anos 1960, a maioria com o grande ator Vincent Price.

APARIÇÃO DO DIABO

Antes dos anos 1960, o “coisa-ruim” não tinha vez no cinema, talvez por causa de conservadorismo religioso, até que o franco-polonês Roman Polanski lançou, em 1968, O bebê de Rosemary, com Mia Farrow, John Cassavetes e Ruth Gordon, e um enredo sobre o envolvimento de uma

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qualidade inferior, como Sexta-feira 13 e A hora do pesadelo, para o qual, nos anos 1990, apareceu uma interessante releitura com a série Pânico.

PENETRAS DO GÊNERO

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8 FRANKENSTEIN Filme teve influência do expressionismo alemão 9 O BEBÊ DE

ROSEMARY

Obra de Polanski foi a primeira a explorar a temática diabólica 10 ZÉ DO CAIXÃO Personagem aparece em diversos filmes de horror brasileiro

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mulher inocente para dar à luz ao filho do demônio. Cinco anos depois, foi lançado O exorcista, adaptação do livro de William Peter Blatty sobre uma garota possuída por um demônio que desafia um sacerdote em crise de fé e que conta com o apoio de um velho padre exorcista. A película dirigida por William Friedkin surprendia com o realismo das cenas de possessão, através de efeitos especiais e maquiagem muito convincentes. As sessões lotaram, com muito choro e gritaria. Influenciou diversas produções e gerou sequências. Outra obra bemsucedida foi A profecia (1976), de Richard Donner, sobre um garoto criado por um embaixador (Gregory Peck), mas que é filho do... você sabe quem. Em 1968, o Código de Produção Cinematográfica, que regulava e – na prática – censurava violência e sexo, foi extinto e em seu lugar veio o sistema de restrição por idade. Neste ano, o jovem diretor George Romero lançou A noite dos mortos-vivos, um filme barato em preto e branco sobre zumbis. O filme tinha forte violência gráfica, atores desconhecidos, subtexto

político, uma bela fotografia e um final surpreendente. Virou um clássico, com diversas sequências e refilmagens. Nas décadas de 1970 e 1980, popularizaram-se os filmes slasher e splatter. Nos slasher, um ou mais maníacos matam pessoas em série com machados ou facões. Já os splatter, também chamados de gore, são de baixo orçamento, com excessiva violência estilizada, sangue em profusão, humor negro e erotismo, tendo como maior gênio o italiano Lucio Fulci. Mas foram os americanos que tiveram mais sucesso com esse tipo de filme, a começar com o independente O massacre da serra elétrica (1974), de Tobe Hooper, sobre amigos em viagem de carro que são capturados por uma família de canibais, entre eles o demente Leatherface, com sua máscara de pele humana e sua serra elétrica. Outro foi Halloween – a noite do terror (1978), dirigido por John Carpenter, sobre Michael Myers, jovem que volta de um hospital psiquiátrico e sai matando suas vítimas sempre de máscara e com a faca em punho. Outros beberam nessa fonte, com

Alguns cineastas imprimem sua visão pessoal, transcendendo os limites do gênero. Um deles é o canadense David Cronenberg, cuja filmografia inclui Scanners – sua mente pode destruir, Videodrome e Crash – estranhos prazeres. Destacou-se também Stanley Kubrick e sua bela adaptação de O iluminado (1980), de Stephen King, e David Lynch e seu horror psicológico e onírico em Eraserhead (1977), Estrada perdida (1997) e Cidade dos sonhos (Mulholland drive, 2001). No cinema italiano, usa-se o termo giallo para produções com sangrentos assassinatos, direção de arte estilizada, que beira o barroco, e música climática. Entre seus representantes, destaca-se Dario Argento (Suspiria, Phenomena e Terror na ópera). No Brasil, o cinema de horror passou a ser original com o aparecimento do autodidata José Mojica Marins, de estilo próprio, experimental e de produções baratas com atores desconhecidos. Seu principal personagem, Zé do Caixão, entrou para o imaginário popular em obras como À meia-noite levarei a sua alma, O estranho mundo de Zé do Caixão e o censurado O despertar da Besta. Nos últimos anos, os temas e estilos são inúmeros: desde falsos documentários, como A bruxa de Blair (1999) e Atividade paranormal (2007), o cinema clássico de Os outros (2001), de Alejandro Amenábar, passando pelo monstro do sul-coreano O hospedeiro (2006), de Bong Joon-ho, até os vampiros do sueco Deixe ela entrar (2008). O horror japonês atual tem forte ligação com o sobrenatural, nos trabalhos de Hideo Nakata (O chamado e Água negra) e Norio Tsuruta (Ring 0 – O chamado). E há obras no estilo torture porn, uma reedição do gore com mais doses de sadismo, mutilação e violência extrema. Alguns exemplos: Jogos mortais, Premonição e O albergue. Lidando com sentimentos primitivos e individuais, em caráter de celebração ritualística, o cinema de horror reflete os medos e preocupações da sociedade, servindo como um interessante painel da sua época.

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PSICANÁLISE De onde vem a nossa atração pelo terror?

O fascínio por essas narrativas e sua ação psicológica surgem da tensão entre o que não se deve saber e aquilo em que não se pode acreditar TEXTO Christian Ingo Lenz Dunker

De todas as formas do romance, a do terror é a que nos parece mais atual e a que menos experimentou alterações e experimentações. Nascido no Romantismo, esse gênero literário adquiriu ao longo do tempo excepcional capacidade para conciliar mutação de cenários com relativa preservação de

enredos. Prova disso é sua variação de meios: adaptações dos contos dos Irmãos Grimm, crepúsculos vampirescos, quadrinhos de Lovecraft, ópera gótica, rock metálico do Black Sabbath ao Sepultura. O terror não esmorece com a repetição. Ele parece ficar mais forte e se dissemina com o reencontro da

mesma combinação já conhecida entre excitação e temor. A estética de sua recepção retoma o que experimentamos quando crianças e queríamos ouvir a mesma história de novo, em todos seus detalhes sórdidos, com bruxas, lobos, madrastas e vilões. Freud distinguiu o terror baseado no retorno de experiências que negamos em nós mesmos e o que explora a suspensão de crenças sobre a realidade. É preciso ter esses dois elementos combinados, a corrupção da intimidade e a crítica da realidade, para estarmos de fato no universo do terror. A narrativa da intimidade traz intriga, suspense e mistério, enquanto o discurso de suspensão da realidade investe em outros mundos possíveis, fantásticos e sobrenaturais. Hawthorne (1804-1864) e Poe (1809-1849) inauguram o primeiro tipo. Neles

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considerando a valor de realidade do que teria acontecido. Por exemplo, quando perdemos um ente querido, com quem tínhamos uma convivência próxima, é comum sentirmos que, apesar de saber que tal pessoa morreu, não é possível acreditar na realidade do acontecimento.

PERDA DA ALMA

proliferam coincidências insólitas, estranhamentos e superstições, mas seus personagens são marcados pelo retorno da vilania deste mundo. Eles torcem nossa relação com a verdade, mostrando coisas que já sabíamos, mas preferíamos esquecer. Partindo de signos de segurança como a casa, a família e a vida cotidiana, somos levados a perversidades obscuras. Moral da história: a verdade está em outro lugar, o horror baseia-se no fato de estarmos enganados, de sermos traídos ou abandonados. O segundo ramo do terror como gênero literário deriva de Hoffman (1776-1822) e Lovecraft (1890-1937) e se orienta para a crítica de nossas crenças na natureza da realidade. Aqui não é a verdade, mas o real que está em outro lugar. O horror decorre da aparição de algo que não tem forma, nome ou sentido. Sua imagem é suspeita. Não sabemos se o

próprio texto é um relato descritivo, um sonho, uma ilusão ou a presença de realidades até então desconhecidas ou malconhecidas. A narrativa prefere partir do insólito para nele reencontrar o signo do maldito, opressivo e macabro que nos põe em contato com criaturas e seres de outros mundos. Terror e pornografia prosperam como gêneros que acentuam a vivência real no corpo, de prazer ou de angústia. Sintoma, mas também antídoto narrativo contra a banalidade do real e a inconsequência da verdade. Lembremos que o terror e o estranhamento são experiências que nos acontecem na vida real, mas com exceção das crianças, raramente somos levados a questionar o valor de realidade das experiências de terror, a não ser quando elas se tornam traumáticas. Diante de um fato muito violento ou de extrema angústia podemos demorar bastante

Psicanálise e gênero literário do terror são contemporâneos históricos e tributários de um grande tema comum: a alienação, a perda da alma, a experiência social e psíquica de perder o que há de mais próprio em si. A alienação é, antes de tudo, como uma patologia do déficit de reconhecimento de nosso próprio desejo. Aquele que não quer saber disso, é porque já sabe demasiadamente do que é feita sua vontade. O equivalente narrativo da alienação é naturalmente a criatura indeterminada, autônoma ou autômata, humana ou inumana. Kleist, em Sobre o teatro de marionetes (1810), descreve o sentimento de ser comandado por outro. Shelley, em Frankenstein (1831), acrescenta a isso o sentimento de perda da unidade e origem. Finalmente, Balderstone, com A múmia (1932), evolui o problema para a dimensão da alma, sobre a qual não se sabe se está viva ou morta, revitalizando em metafísica materialista a antiga tradição dos fantasmas. O ponto característico nessa linhagem do terror é que o protagonista restringe sua vida a um único objetivo, um único desejo, perseguido de forma irreflexiva, automática e inflexível. O semihumano de A volta dos mortos vivos (Romero, 1980) anda lentamente, come carne humana e está sem lugar no mundo, depois que deixou o túmulo. Para ele, a vida tornouse uma mera função que se repete de modo insensato, coletivo e indiferenciado. Os zumbis não podem propriamente morrer, pois o que está em questão é justamente seu estatuto de vivente. Por isso são mortos impunemente, como o homo sacer de Agamben. Ao custo de vigorosas deformações, a frugalidade, insipidez ou superfluidade de nossas vidas,

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CON ESPECIAL TI NEN TE IMAGENS: REPRODUÇÃO

sem alma, quando nos demitimos de nosso próprio desejo, adquire visibilidade trágica e universal. Essas figuras que não querem saber, mas apenas agir. Encontramos aqui uma das montagens mais comuns da fantasia inconsciente. Quando nela só há espaço para o objeto e quando a sombra desse objeto cai sobre o eu, sobrevêm o desamparo e a melancolia. Nosso fascínio pelas narrativas de terror e boa parte de sua benéfica ação psicológica decorre do exercício com a própria fantasia, da tensão entre o que não se deve saber e aquilo em que não se pode acreditar. O filme de terror pede que coloquemos as mãos na frente dos olhos, tentando controlar o limiar entre excitação transgressiva e horror traumático, como que a negociar a presença de um estranho fragmento de verdade sobre nosso próprio desejo e o horror despertado por esse grão de real, que é o objeto de nossa angústia. Fugimos da verdade dizendo: “não quero saber”, mas evitamos o real nos convencendo de que “é só imaginação”. O gênero do terror mostra como essas duas atitudes reunidas definem a fórmula fundamental do autoengano. A moral das histórias de terror reza que pagamos um preço alto demais para continuar dormindo sem saber. Se a grande metáfora pós-moderna do progresso e da conformação do eu aos dispositivos de saúde, higiene e cuidado afirma que a transformação é sempre possível e desejável, o terror lembra que há mudanças súbitas, irreversíveis e orientadas para o pior.

FRAGMENTAÇÃO DO EU

Encontramos aqui a segunda estratégia discursiva do terror, compatível com uma experiência de desregulação do espírito. Em vez da fixação cega em um objeto, nesse momento, o terror se infiltra pela multiplicação ou fragmentação indefinida do Eu, privando-o de sua unidade e totalidade. Os elementos adquirem o valor de funções e estas são destituídas de suas finalidades. Uma parte do corpo ganha vida própria e autonomia

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A retórica contemporânea do terror explora o caráter intrusivo da sexualidade, da solidão e da angústia

em relação ao resto. Em O iluminado (1980), as funções de um hotel, construído no solo sagrado de um antigo cemitério indígena, começam a impor ao personagem vivido por Jack Nicholson, uma obsessão com seu trabalho. Ao contrário de outros filmes de horror, que enfatizam as sombras como metáfora visual para o desconhecido e misterioso, Kubrick constrói as cenas com excesso de iluminação, mas sem focar objetos e personagens diretamente. Isso produz a incômoda sensação de que por mais visível que determinado traço se mostre, ainda assim não o conseguimos apreender corretamente. Perfeito para mostrar a ausência de funcionamento sistêmico e interno ao conjunto, em cujos elementos o eu se multiplica e fragmenta. O efeito de terror advém dos aspectos esquizoides da montagem da fantasia. Presentes literariamente

no tema romântico do duplo, desde Dr. Jekyll and Mr. Hyde (Stevenson, 1886), até Gêmeos – mórbida semelhança (David Cronenberg, 1988), e desde A metamorfose de Kafka (1915) até A mosca (Neumann, 1958), a esquizoidia é sentimento de quebra, fragmentação e estranhamento de si. Não se trata de perda da alma, mas do desregramento das formas pelas quais ela poderia ser reconhecida. O corpo próprio torna-se estranho, o Outro não nos reconhece mais, há experiências de disjunção entre partes e elementos, de estranhamento entre o Eu e o Outro. Ocorre uma espécie de possessão do desejo pelos interesses do sistema, ou seja, pelo Outro.

ESTRANHO

Mudando radicalmente cenários, exagerando grotescamente personagens e apelando para intensa ficcionalidade, a retórica contemporânea do terror explora fartamente o caráter intrusivo da sexualidade, do estranhamento corporal, da solidão e da angústia. Freud abordou transversalmente o tema do terror no espectro do que ele chamou de Unheimlich. Palavra de difícil tradução, pois equivaleria ao ponto no qual o familiar se torna estranho e o estranho se

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11 O ILUMINADO Com excesso de iluminação, filme subverteu clichê máximo do gênero 12 CLÁSSICO O tema do duplo surge em diversas produções, como O médico e O monstro, com Spencer Tracy

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torna familiar. Horror e terror são efeitos que acontecem nessa zona de transição entre o sentimento de segura familiaridade e de perigosa alteridade. É nisso que o terror se afina com a experiência adolescente que se fortalece como público consumidor emergente desse gênero. Mas, desde que não pensemos na adolescência apolínea, para a qual os adultos sonham retornar, e, sim, na adolescência sombria, porém sincera, que percebe como apodrecemos tediosamente entre o passado empobrecido e a trivialidade do futuro. Daí que, tanto para essa estratégia de indução do terror quanto para essa forma de vida, o passado seja tratado com detalhado respeito em meio a hierarquias medievais, tradições sagradas e mitos fortificados; daí que, para ambas, o futuro seja radicalizado em seu aspecto mais real e inescapável, a saber, a morte e suas experiências adjuvantes, com corpos em decomposição, desamparo, agonia e sofrimento. Nesse sentido, o terror, como linguagem crítica, denuncia nossa voracidade em suturar, por meio de um objeto, o intervalo entre a realidade bem constituída e a verdade socialmente compartilhada. Se o terror baseado na experiência de perda da alma e na intrusão do objeto

perturbam nossa relação de crença na realidade, o terror baseado na desregulação do espírito e na violação de pactos simbólicos privilegia a dimensão do saber e da verdade. A estratégia da indução do terror baseada na violação de um pacto é o recurso mais antigo e tradicional. Geralmente, a narrativa compõese em torno de um pedido, trato ou promessa que sofre interrupção e permanece assim não consumado. Como os desejos infantis a que temos que renunciar e que voltam a nos assombrar por toda a vida, as antigas experiências amorosas que nos rondam como fantasmas, e as ilações de desejos que não se cumprem de dia e que voltam realizadas em nossos sonhos, a figura do fantasma tem um grande motivo: ela volta para cobrar uma dívida simbólica. No caso do terror, esse é o ponto de retorno das almas penadas, que vêm fazer seu ajuste de contas com o mundo dos viventes. Trata-se de cumprir uma espécie de justiça simbólica que reequilibra diferenças entre viventes e mortos. Esta é a montagem da fantasia na qual os limites entre realidade e ficção são embaralhados, de tal forma, que há um retorno na fantasia do que foi negado na realidade.

Incluem-se nessa estratégia discursiva o tema dos objetos, lugares e situações malditos ou demoníacos. E geralmente são retornos vingativos de entidades familiares: Chucky, o brinquedo assassino, a televisão em Poltergueist, telefone e vídeo em O chamado, o Freddy Krueger capaz de penetrar na região mais íntima e protegida do sono e do sonho, sem falar nas variantes assumidamente cômicas, como tomates ou Barbies assassinas, insetos e animais de toda, chegando ao cúmulo da sala de estar vazia em Atividade paranormal. A violação do acordo simbólico entre vivos e mortos, entre homens e deuses, entre adultos e crianças sempre decorre de um ponto de instabilidade, no interior da fantasia inconsciente, entre a função de organização da realidade e a função de transmissão dos desejos. É nesse ponto que algo da realidade não se sexualiza, ou não se simboliza corretamente, dando margem aos fenômenos de retorno. Quando aquela linda garota decide tomar banho nua na lagoa sombria, quando aquele grupo de adolescentes ruma para o cemitério para escarnecer os mortos, ou quando o menino tenta abrir a única porta ostensivamente proibida, sabemos que o risco representado pelo desejo terá uma consequência. Nossa atração pelo terror, expressa pela compulsão em repetir experiências que o terror nos evoca, não constitui um gosto patológico. Pelo contrário, funciona como uma espécie de antídoto para o empobrecimento de nossa fantasia, eventualmente presa a condições e limitações que exprimem nossa covardia em atravessar pontos de vista protegidos pelo horror e pelo estranhamento. No momento em que enfrentamos tantas formas de segregação, intolerância e forçamento ao mesmo tipo de realidade compartilhada e à mesma posição de verdade, o terror ainda é uma das formas discursivas às quais se pode atribuir algum potencial crítico, bem como alguma potência de recuperação do desejo. Nossa atração pelo terror denuncia que ainda não nos conformamos totalmente com o que a realidade coloca diante de nossos olhos.

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PEDRO MELO

CON TI NEN TE

EDUCAÇÃO

SLOW SCIENCE Contra a produção serial do saber Surgido na Alemanha, em 2010, movimento que discute a sobrecarga de atividades acadêmicas pouco repercute no Brasil, mas expõe equívocos do processo de pesquisa nas universidades do país TEXTO Fabiana Moraes

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A imagem clássica da linha de produção fordista, aquela em que uma série de trabalhadores bate um martelo sobre uma peça que mais à frente vai ser manipulada por outra fila de pessoas fardadas, apressadas e focadas no salário do final do mês, se contrapõe, simbolicamente, à ideia do intelectual que lança mão do tempo para maturar o pensamento. porém essa oposição, bem o sabem professores e pesquisadores, não só brasileiros, mas de outros países, há muito deixou de ser realidade: a constante chamada à ordem recebida pelos departamentos das mais variadas universidades, entidades de pesquisa e afins é prova disso. Funciona como na linha de produção: pesquisador escreve texto para revista, organiza provas, orienta alunos em mestrados e doutorados, participa de congressos, é chamado para bancas, coordena curso, pesquisador – acredite – até ministra aulas. Quem não consegue dar conta

dessa realidade, que absurdo!, faça o favor de se ajustar ou não receberá incentivos (verbas). É uma medida que não atinge apenas professores e departamentos, mas alunos que deixam, por exemplo, de receber bolsas para fomentar seus estudos. Simples assim – mas não tanto. O ato do pensar faz parte, hoje, do momento no qual ser como uma impressora multifuncional é o que torna sua sobrevivência possível. O produtivismo é a bola da vez, em detrimento de uma prática em que o esmero com o que está sendo levado ao conhecimento público fica em segundo plano. Termômetro disso é o enorme uso, entre pesquisadores, de um medicamento à base de cloridrato de metilfenidato, voltado a pessoas com déficit de atenção. Ele estimula o sistema nervoso central e suprime o sono, visto como um empecilho por quem tem que orientar, escrever

artigos, participar de congressos e bancas, dar aulas... Essa realidade é discutida num artigo, escrito no final de 2011, pela professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Maria Ester de Freitas, O pesquisador hoje: entre o artesanato intelectual e a produção em série, no qual lemos críticas duríssimas a respeito do “sistema de produção intelectual fordista”. “O professor-pesquisadorpublicador-orientador é cada vez mais pressionado a ser um faz-tudo. Certamente, a sobrecarga de trabalho e o uso de seu tempo pessoal de férias e de finais de semana o tornam um apagador de incêndios, indo de um prazo a vencer a outro. A leitura e a reflexão, tão fundamentais no nosso métier, praticamente não encontram mais seu lugar em nossa rotina”, afirma. No documento (disponível da internet), Maria Ester cita um movimento que causou certo burburinho quando foi lançado,

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CON EDUCAÇÃO TI NEN TE PEDRO MELO

em 2010, mas que, infelizmente, não ganhou mais voz e volume – ao menos no Brasil. O manifesto Slow Science, lançado na Alemanha, é curto e simples: nele, pede-se tempo para pensar e faz-se uma divisão marcada entre o tempo das coisas na internet (símbolo maior de nossa pressa) e o tempo das coisas na academia: “We are scientists. We don’t blog. We don’t twitter. We take our time”. Professores de ampla atuação em suas áreas, Silke Weber (da pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco) e Ricardo Salles (da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/Unirio) veem o movimento com simpatia. Para Silke, o tema é importante, já que, de fato, há um mal-estar entre os pesquisadores em relação às demandas da produtividade. Já Ricardo diz que qualquer manifestação que se oponha à taylorização (sinteticamente, sistema no qual o trabalho está subordinado a

“É preciso não esquecer que os critérios de avaliação não são invenção de burocratas” Silke Weber determinados princípios e técnicas) do tempo e da vida intelectual é bemvinda. Ele, no entanto, vê problemas na denominação do movimento. “É simpático, mas acho um pouco problemático. Pode passar uma impressão de movimento ‘alternativo’, sem comprometimento direto com melhores resultados científicos, que é o ponto em questão.”

DESCONFORTO

Gostando ou não do nome – inspirado em um movimento anterior, o Slow Food

– , os dois professores participam do coro mundial que pede por menos correria – esta, acentue-se, institucionalizada, principalmente por órgãos como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), entidade do governo federal que foi procurada diversas vezes para compor esta matéria, mas que se eximiu da fala. Há dificuldades por parte dos pesquisadores, por exemplo, em adequar o que determina o órgão às lacunas encontradas no âmbito social. Significa dizer que são produzidos vácuos entre a produção acadêmica e o cotidiano, aquilo que se estuda e aquilo que se vive. “Existe um desconforto dos pesquisadores para dar conta de demandas científicas e sociais”, reconhece Silke. Segundo ela, a Capes é a principal responsável por essa situação, na medida em que relaciona tempo e quantidade na atribuição de conceitos (leia no box). “É preciso não

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SISTEMA DE AVALIAÇÃO A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) responde por 55% das bolsas de mestrado e doutorado no Brasil. Ao lado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), esse número sobe para 85%. O órgão possui duas formas de avaliação dos programas de pósgraduação brasileiros. É realizado um acompanhamento anual dos cursos, bem como uma avaliação trienal, na qual se mede o desempenho dos programas e cursos que integram o Sistema Nacional de Pós-graduação (SNPG). Aqueles que apresentam maior número de trabalhos publicados e defesas de dissertações e teses, por exemplo, marcam mais pontos dentro de uma escala que vai de 1 a 7. O critério vale, também, para os professores: quantas vezes ele é citado em artigos e quantas orientações realizou naquele período. Cursos que têm a maior pontuação recebem mais incentivos, como verbas para viagens, bolsas para que os alunos estudem integralmente, dinheiro para pesquisas. Para conseguir concorrer aos prestigiados conceitos 6 e 7, os cursos precisam oferecer doutorado. Caso a performance do curso caia, sua nota é rebaixada e, consequentemente, os benefícios são menores.

esquecer que tais critérios não são invenção dos burocratas, mas da própria comunidade acadêmica, especialmente daquela oriunda das ciências exatas e da natureza, cujo modo de produzir ciência é bem diferente das ciências humanas e sociais. Basta lembrar que são ciências paradigmáticas, o que não caracteriza as duas últimas.” A opinião da educadora reverbera um dos tópicos do artigo de Maria Ester de Freitas, no momento em que ela coloca que os mecanismos de avaliação e controle aos quais as pós-graduações estão submetidas não são criações de extraterrestres, mas de colegas presentes nos comitês e comissões científicas. “Parece-nos evidente que os métodos e os cronogramas do desenvolvimento de pesquisa em áreas como Biotecnologia, Arqueologia, Física, Medicina, Economia, Agronomia, Astronomia e outras variam significativamente, pois cada campo tem as suas

singularidades. Portanto, se cremos que as formas de geração e divulgação de conhecimento são múltiplas e adequadas segundo a natureza das áreas de conhecimento, cremos também que a escolha taylorista de uma única e melhor forma de avaliar todas elas pode ter graves efeitos colaterais.”

MÉRITO CIENTÍFICO?

A adequação a um sistema de pontuação que premia a quantidade provoca situações que transitam entre o lamentável e o irônico. Uma delas é a dificuldade dos pesquisadores em confrontar as regras de uma entidade responsável pela liberação de incentivos que trazem melhorias para seus próprios nichos de estudo e conhecimento. Em relação à sua área de pesquisa, o historiador Ricardo Salles diz que essa realidade provoca a produção de um intrincado sistema de avaliações de duvidoso merecimento

acadêmico. “Este se traveste em critérios de mérito científico em que o grande prêmio, ao menos para 80% da área, é viajar para o exterior, onde pouquíssimo se estuda sobre História do Brasil, para produzir... História do Brasil. Ainda temos que saber duas línguas estrangeiras para estudar, volto a repetir, na maioria dos casos, História do Brasil. Patético.” Outras práticas também lamentáveis e comuns, no ambiente acadêmico, encontráveis nas mais diversas áreas de pesquisa, evidenciam as estratégias desenvolvidas para que professores/pesquisadores não fiquem na lanterna do campeonato intelectual. São o que Maria Ester de Freitas chama de “comportamentos predatórios”: “conluios espúrios para publicação, alianças estratégicas do tipo ‘eu faço, ponho o seu nome; você faz, põe o meu nome’, roubar ou plagiar ideias de colegas e alunos, obrigar orientandos a apontar coautorias indevidas ou nomear indevidamente o orientador como primeiro autor etc.” Como se vê pelas questões levantadas, dar conta da roda-viva produtivista provoca problemas que colocam na berlinda a própria geração de conhecimento. O debate para se repensar os critérios classificatórios parece urgente, embora a pequena repercussão interna de movimentos como o Slow Science demonstre a dificuldade dessa empreitada. Para Ricardo Salles, é preciso discutir abertamente, fazer seminários e parar a azáfama intelectual. A última saída é, segundo ele, “dar de ombros.” Silke Weber afirma que a correria (“mal se conclui um texto, há outro engatilhado”) não pode eclipsar o imprescindível rigor acadêmico – é nessa perspectiva que o pesquisador precisa se guiar. A produção intelectual é um acumulado ao longo do tempo e sempre reatualizado, mas, aqui, esse conjunto só vale três anos – o tempo de avaliação dos programas pela Capes. Logo em seguida, é descartado, e então está aberta a nova temporada de caça”, escreve Maria Ester no mencionado artigo, colocando que, nesse sistema em que o passado é totalmente invalidado, somos “condenados a ser desmemoriados para alimentar um monstro sempre faminto”.

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Viagem

GALINHOS Com espírito de “aventura” Embora haja muito a fazer para acomodar bem o turismo, a praia potiguar oferece raro bem-estar aos viajantes, comsuas belezas insólitas TEXTO E FOTOS Fred Navarro

A distância de Natal a Galinhos

é de apenas 160 quilômetros para noroeste, mas o tempo de percurso a partir da capital do RN atinge três horas com facilidade. Motivo: a confusa e congestionada saída norte da cidade. Com a inauguração, prevista para 2013, do aeroporto de São Gonçalo do Amarante, haverá uma passagem “por fora” tanto para os turistas quanto para quem mora em Natal. Percorra esse trajeto de 160 km com a paciência de um monge em meditação, porque há atrativos no caminho. Primeiro: apesar de paralelos ao litoral, a geografia e o elemento humano predominantes ao longo da RN-406 (em direção a Macau e Mossoró e, depois, Fortaleza) mesclam elementos do cerrado e do sertão em dosagens bem proporcionadas. Transpostos para o agreste pernambucano ou para

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CONTRASTES

o sertão baiano, aqueles homens e mulheres não destoariam da paisagem. O tipo caboclo, moreno e forte, acha-se presente à beira da estrada, nos postos de gasolina, nas lanchonetes e onde quer que se pare. Avançando rumo ao oeste sem distanciar-se muito do litoral, ao norte, a estrada deixa entrever, nas margens, as típicas plantas baixas e rasteiras que reinam longe das praias nordestinas, uma vegetação escassa que se estende irregularmente em direção à praia e ao mar, convivendo com raros coqueiros e variedades diversas de cactáceas. Na memória, vamos buscar um antigo registro de Luís da Câmara Cascudo: em algumas áreas do Rio Grande do Norte, o sertão só termina à beira-mar, o que é fato singular, raríssimo, no Brasil, escreveu o mestre potiguar.

Passamos pelos municípios de Ceará-Mirim, João Câmara (e seus periódicos tremores de terra) e Jandaíra. Uma placa e um trevo, 15 km depois, apontam a RN-402, rumo a Galinhos. Percorridos mais 30 quilômetros, lagunas e margens de rios, repletos de salinas, com seus flocos de espuma de sal ao sabor do vento, destacam-se na paisagem e só terminam num estacionamento em Pratagil, num braço de mar que todo mundo insiste em chamar de rio. Fim da estrada e do continente. Os carros ficam ali, só atravessam pessoas, malas, objetos, mercadorias. Galinhos está do outro lado, a 10 ou 12 minutos de barco. Se o visitante estiver num buggy ou num veículo de tração 4 x 4, terá de seguir alguns quilômetros adiante para cruzar o rio em áreas elevadas e chegar à península, dependendo dos horários de mudanças das marés.

Galinhos reúne belezas difíceis de serem encontradas num só lugar, e esse é o motivo do impacto à primeira vista. Não há quem resista à mistura de praias desertas, águas mornas, areias brancas e finas, dunas de médio e grande portes, morros e pirâmides de sal, rios e manguezais sem fim, fauna e flora intocadas, e um cotidiano de cidade pequena do interior em que o principal meio de transporte é uma charrete rústica puxada por uma burrinha. Lá, só há duas ou três ruas calçadas, inclusive a da prefeitura. O resto da cidade está erguido sobre o areal, que é a continuidade da areia branca que fica entre a praia e o rio. O nome do lugar, diz a tradição, teve sua origem nos pequenos peixesgalos (do gênero Selene, com o corpo alto e comprimido) que habitam os recifes da península, que fica na região salineira chamada Costa Branca e inclui a cidade e a praia de Galinhos ( 1.200 habitantes), a praia de Galos (500 habitantes), e um assentamento de 400 habitantes (IBGE, 2009). Quase todos vivem da pesca, do extrativismo (caju, coco e sisal), da indústria do sal e, mais recentemente, do comércio e do turismo. Esse último dá os primeiros passos e tenta andar com firmeza, esforçando-se para aprimorar os serviços oferecidos nas pousadas e ampliar as opções de passeios para os visitantes. Há muito para fazer, desde a colocação de placas de sinalização (por exemplo, uma atraente faixa de praia, por trás do farol, tem correntes marítimas perigosas) até o reabastecimento do camarão, prato de resistência do lugar, que falta de repente no auge do verão, e leva dias ou semanas até reaparecer nos restaurantes e pousadas. A água ainda é salobra, sem tratamento, obrigando moradores e turistas a fazer mágicas para tomar um banho rápido com água mineral depois do banho “normal”. Ponha tudo isso na conta “aventura” e se deixe levar pela beleza insólita, única, do lugar. A vegetação, à beira-mar ou às margens dos rios, conta com manguezais nativos e intocados, bem próximos da cidade, meia hora de

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Viagem 2 Página anterior 1 DUNAS A 160 km de Natal, Galinhos caracterizase como uma praia com elementos naturais de cerrado e caatinga Nestas páginas 2 TRAVESSIA O acesso mais comum para a localidade são balsas e barcos que fazem translado de Pratagil, no continente

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TRANSPORTE É possível acessar Galinhos de carro, mas moradores e visitantes se locomovem em charretes

4-5 PAISAGEM

Dunas, braços de mar e rio, salinas, faróis, manguezais, vegetação nativa e intocada são alguns dos atrativos do lugar

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caminhada. Mais à frente, em áreas isoladas da península, cactáceas e pequenas plantas típicas do sertão e da caatinga são encontradas com facilidade: xique-xiques, facheiros, catingueiras, faveleiros e marmeleiros. Acredite: tudo isso numa península, à beira-mar. E, por toda parte, um espetáculo

visual que, às vezes, lembra um passeio pelo Rio Paraguai, em pleno Pantanal: isoladas ou em bandos, nos céus ou sobre os rios e mangues, desfilam garças brancas e azuis, marrecas, flamingos, águias-pescadoras, maçaricos e gaivotas. As dunas do André e do Capim, principalmente, estão entre as mais bonitas do Estado, e saibam

que a concorrência não é pequena. Acessíveis pelo rio ou pela praia, são de enorme impacto visual pela extensão, altura e formas que o vento altera arbitrariamente. Não há muito o que falar sobre elas. É preciso vê-las.

FAROL DE CINEMA

E, por fim, um detalhe desses que costumam fazer a diferença: Galinhos tem um dos faróis mais charmosos do Nordeste, com praias desertas que se perdem de vista, à direita e à esquerda. Detrás dele, uma lagoa

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temporária (chamada também de gamboa ou maceió) faz a festa de crianças e casais de namorados, com as alterações constantes de tamanho, formato e profundidade, que ocorrem diariamente com as mudanças das marés. Em frente ao mar, pescadores experientes protegem-se do sol e das

espumas de sal com exóticas roupas plásticas. Barcos passam ao largo, a caminho de Guamarés e de suas torres de energia eólica, do outro lado, no quase já esquecido continente. A exemplo do que acontece em Fernando de Noronha (a pouco mais de 400 km, a nordeste dali), uma estada em Galinhos faz as pessoas

esquecerem as coisas que em boa hora deixaram para trás. Esses lugares ainda meio escondidos, esquecidos pelos mapas, onde o vento faz a curva, atrás de caixa-pregos, costumam ser carimbados de “um pedaço do paraíso”. Não adianta resistir ao lugar-comum. É exatamente isso o que eles são. É exatamente isso o que Galinhos é.

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CON TI NEN TE

Perfil

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MESTRE HÉLIO O ofício de tirar arte da pedra Hoje, uma das raras pessoas a conhecer a técnica da litogravura em Pernambuco, Hélio Soares faz parte da história da indústria gráfica estadual TEXTO Diogo Guedes FOTOS Ricardo Moura

Ser chamado de mestre, na acepção popular, é uma honraria a que poucos têm direito. É preciso dominar um amplo saber sobre uma técnica ou área do conhecimento, como se deu com os mestres Vitalino e Salustiano. Como se nota, a palavra guarda relação estreita com a ideia de trabalho artesanal, constante e criativo, espécie de militância pessoal que toma toda uma vida. Hélio Soares, o mestre Hélio, é uma dessas figuras indispensáveis, quando se fala da história das impressões gráficas em Pernambuco, tanto comerciais como artesanais. É o técnico por trás de quase todo o trabalho da Oficina Guaianases de Gravuras, casa-editora criada por João Câmara e Delano em 1974 (além dele, o ateliê contava com outro impressor, Alberto Barros). Foi na Guaianases que os principais artistas pernambucanos aprenderam os preceitos da litogravura – técnica de impressão a partir de uma matriz de pedra –, especialidade de Hélio, e encontraram material e ferramentas para praticá-la. De fala serena e sempre disposto a receber visitas no seu ateliê, que fica numa das salas com vista para o jardim do Centro de Artes e Comunicação da Universidade

Federal de Pernambuco (UFPE), o impressor conta que começou a trabalhar em 1964, na Gráfica Apolo, quando tinha 16 anos. A curiosidade e a disposição do rapaz que varria, levava o lixo e aguava a frente do local logo chamaram a atenção dos chefes, os operadores principais. “Eu era um jovenzinho, meu trabalho era aquele. Só que todos tinham uma chance. Depois das obrigações do dia, você podia ir aprender sobre as embalagens e rótulos”, conta. Na época, quando o aprendiz passava a dominar a produção de embalagens, tinha a chance de ser aproveitado nas máquinas. “Você ia para a impressora. As rotativas das indústrias gráficas precisavam de algumas pessoas: o impressor, o chefe da máquina e os dois auxiliares, o margeador e o puxador”, explica Hélio. Ao último, cabia o trabalho de tirar os papéis já impressos e, depois, limpar todo o equipamento. Com 19 anos, ele já havia ascendido na hierarquia da gráfica e cuidava da própria rotativa. Para conhecer todas as nuances do processo, aprendeu a fazer a mecânica de manutenção principal. “Desmontar e montar as engrenagens é uma das coisas mais difíceis do mundo”, relata. “Então, aos 20 anos, eu sabia tudo

do processo de litografia comercial. Da artística, no entanto, não sabia nada. Até que, um dia, João Câmara foi imprimir um cartaz de uma de suas exposições na gráfica em que eu trabalhava. Começaram a fazer a tiragem numa máquina vizinha à minha e não deu certo, o ‘acerto’ (ajuste técnico de impressão) estava errado. Todos tentaram consertar, mas não conseguiram. Brincando, mas acreditando na brincadeira, eu disse: ‘Sei dar jeito nisso’, mas ninguém acreditava”, recorda o litogravurista. João Câmara continuava insatisfeito com os resultados. Finalmente, para conseguir imprimir, Hélio refez todo o acerto da máquina do colega. “Quando a primeira cópia saiu, Câmara disse: ‘Já está bom. Posso levar essa para o Rio de Janeiro’. Mas era só um teste!”, lembra. A partir desse episódio, recebeu convite do pintor para participar de um curso de litografia artística, tornandose posteriormente seu assistente. “Noventa por cento do que sei aprendi com Câmara”, credita.

MUDANÇAS TÉCNICAS

A Oficina Guaianases surgiu pouco tempo depois. Foi um momento de agitação artística e muito trabalho para o mestre, que imprimiu trabalhos

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Página anterior 1 MESTRE HÉLIO

Impressor é, atualmente, a única pessoa com domínio completo das técnicas da litogravura em Pernambuco

Nestas páginas 2 HISTÓRIA

Litogravurista está por trás de quase todo o trabalho da Oficina Guaianases de Gravuras, casa-editora criada por João Câmara e Delano em 1974

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Perfil

CON TI NEN TE

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de Câmara, Delano, Samico, José Cláudio, Gil Vicente, Zé Barbosa, Inaldo Xavier e outros. Enquanto vivia a litografia como forma artística, acompanhou com certo pesar a falência das antigas indústrias comerciais de impressão em matriz de pedra, principalmente depois do surgimento da impressão em ofsete, cerca de cinco vezes mais rápida. “Tecnicamente, essa impressão é filha da litografia”, define. Quando pararam de imprimir rótulos de cachaça, como os

reunidos no livro Imagens comerciais de Pernambuco – ensaios sobre os efêmeros da Guaianases, organizado por Sílvio Barreto de Campello e Isabella Aragão, as gráficas começaram a se desfazer das pedras litográficas que possuíam. A Guaianases comprou algumas delas a um bom preço, conservando parte do acervo histórico do comércio pernambucano. As quase 1,3 mil matrizes utilizadas ainda hoje por estudantes e artistas no ateliê do mestre Hélio são relíquias dessa

OFICINA

Em 2008, ele começou a ministrar o Curso de Formação de Impressores de Litografia, com apoio do Funcultura e da UFPE

época. “Câmara era um homem de visão. Quando a gente pensava em comprar 10 pedras, ele dizia: ‘Vamos fazer uma cota e comprar logo 50. A gente vai precisar, vai que elas quebram, se perdem’.” “Na verdade, depois que conheci a litografia artística, não me empolgava mais com a litografia comercial. Fazia as coisas na pressa, para me livrar”, diz Hélio, ao mesmo tempo em que trabalha no ateliê da UFPE. “Quando uma máquina quebrava, eu ia ajudar no conserto, não pelo valor, mas só porque sei a tristeza que é uma rotativa parada.” Foi nessa época que ele passou a produzir os próprios trabalhos, desenhando em pedras. “Antes, eu não tinha tempo. Além disso, veja que ironia do destino, sempre fui muito ruim nisso. Nunca gostei muito”, admite o impressor. Ele conta que, nas aulas de desenho do colégio, chegava a dividir o lanche com algum colega mais talentoso, para não levar notas baixas. Assim, só a partir da convivência com artistas é que voltou a se interessar pelo assunto. “Estando sempre em um ateliê, seria até burrice não desenhar nada”, brinca. Na Guaianases, conheceu grande parte dos artistas pernambucanos. Câmara e o “professor” Aloísio Magalhães são alguns a quem ele dedica maior afeto nas palavras. Mas passaram pela oficina Gil Vicente, José Carlos Viana, Francisco Neves, Luciano Pinheiro,

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Inalda Xavier, Maria Tomaselli e Thereza Carmen, dentre outros. “Eu gostava de todos, mas alguns só apareciam lá, imprimiam e iam embora. Com outros, fiz amizade mesmo”, comenta. Uma das maiores reclamações de mestre Hélio é com o pouco caso que alguns artistas fazem ainda hoje do papel do impressor. Na Europa, quando se cria uma litogravura, é parte da tradição dar uma das cópias dela para o técnico que o auxiliou. É a chamada PA, a prova do artista. “Isso é a aposentadoria do impressor, é o que garante o seu sustento, quando ele parar um dia”, explica. “Infelizmente, aqui nem sempre respeitam isso.”

DESEJO DE CONTINUIDADE

A Guaianases, que fechou em 1994, enfrentava problemas de organização desde o fim da década de 1980. Naquele período, o ateliê estava sempre lotado e era bastante conhecido, sobrevivendo do dinheiro de projetos e da venda dos trabalhos. Para Hélio, o hábito de mudar de direção a cada dois anos foi o que

Foi na oficina de mestre Hélio que os principais artistas pernambucanos aprenderam os preceitos da litografia trouxe problemas para a oficina “A classe mais vaidosa que há no mundo é a dos artistas. Quando uma diretoria assumia, ela preparava um projeto que não terminava antes do seu mandato e, às vezes, não era continuado”, critica. “Assim, o dinheiro ia acabando.” A partir de 1988, Hélio passou a trabalhar também no NAC, o Núcleo de Arte Contemporânea da Universidade Federal da Paraíba, comandando a parte prática de um curso de litografia. Ia para lá todas as semanas, até 2000, quando passou a cuidar exclusivamente do ateliê livre na UFPE. Hélio, atualmente, a única pessoa com domínio completo das técnicas da litogravura em Pernambuco, preocupa-se em ensinar o que

aprendeu. Em 2008, começou a ministrar, para 22 alunos, o Curso de Formação de Impressores de Litografia, com apoio do Funcultura e da UFPE. Além do conhecimento total do processo, que leva mais de seis meses para se passar, o artesão queria achar um apaixonado pela técnica como ele, disposto a dedicar parte da vida a isso. “Até hoje, ninguém que fez o curso voltou a me procurar”, afirma, evidenciando sua decepção. Agora, com 65 anos, o mestre pretende diminuir o ritmo de trabalho e queria ter alguém que o ajudasse e aprendesse a litogravura artística. Da vida dedicada a tirar arte da pedra, diz que leva dois aprendizados maiores. “Tem duas coisas de que eu tenho medo: do sucesso e da riqueza. Já descobri que o cara que tem sucesso perde o sossego. E o cara que é rico pode perder até a vida”, diz, com a experiência de quem aprendeu com artistas e máquinas – como se ambos fossem capazes da mesma sensibilidade – sobre o funcionamento do mundo. “E eu não quero morrer cedo: pretendo viver até os 112 anos.”

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DEVOÇÃO A fé nas Marias do Ororubá Em Cimbres, fiéis se dividem entre o culto a Nossa Senhora das Graças e a das Montanhas. Ambas provocam disputas entre índios e brancos TEXTO Danielle Romani FOTOS Roberta Guimarães

Em pleno século 21 , era da conectividade e de avanços científicos em várias áreas, a fé permanece um paradigma. A devoção a Nossa Senhora, em especial, é um fenômeno presente em comunidades rurais e urbanas da América Latina. As romarias em louvor a Aparecida, em São Paulo, a Conceição, em Pernambuco e a Nazaré, no Pará – as mais exploradas pela mídia – mobilizam milhões de pessoas em torno do culto a Maria e apontam o seu favoritismo, quando se trata de apelar ao divino. É uma intermediária íntima, com quem os fiéis se sentem à vontade para chorar suas dores, expor suas necessidades e compartilhar pequenezas. “Mesmo Nossa Senhora tendo recebido nos últimos séculos um papel secundário da Igreja Católica, o catolicismo popular – aquele praticado pelo povo, de forma leiga, no Brasil Colônia – recuperou esse sagrado maternal. É uma fé que surge entre fiéis e resgata uma representação do sagrado feminino. Nada como uma mãe, de braços abertos, para acolher seus filhos”, explica Gilbraz Aragão, coordenador do mestrado em Ciências da Religião, da Universidade Católica de Pernambuco. Ele observa que as muitas aparições de Maria, propagadas nos

séculos 19 e 20, demonstraram a reação dos fiéis a uma nova sociedade que se configurava. “Diante de um contexto de crise, de hecatombes anunciadas, de uma nova cultura e da revolução tecnológica vivenciada pelo Ocidente, há nas pessoas a tentativa de encontrar e solidificar valores. E do inconsciente coletivo surgem essas aparições e manifestações que, de certa forma, ajudam a acalmar e a fazer com que o ser humano encontre um eixo.” Irmão Marista, doutor em Teologia Sistemática pela Universidade Gregoriana, professor de Teologia da Faculdade Jesuíta e do Instituto São Tomás de Aquino, ambos em Belo Horizonte, Afonso Murad é um dos respeitados mariólogos da atualidade. Ao contrário de outros colegas, discorda de que a Igreja não tenha dado destaque à mãe de Cristo e reconhece que a devoção a Nossa Senhora e aos santos é bem maior na América Latina do que na Europa, onde a maioria das catedrais é consagrada aos apóstolos e a Jesus. “Entre nós, a devoção é mais forte. As pessoas se reportam mais a ela do que a Jesus. O que é equivocado, pois o Vaticano esclarece que o centro de nossa fé é Jesus. Os santos e Maria apenas ajudam na mediação”, explica Murad. Ele admite, no entanto, ser natural o amor dedicado a Nossa Senhora, por ela

ser a mãe e uma das primeiras discípulas de Jesus – além do fato de que foi uma das poucas, junto a João e à Madalena, a não renegar o Cristo na cruz.

MARIA EM CIMBRES

Neste mês dedicado tradicionalmente à Maria, a revista Continente empreendeu essa reportagem na tentativa de compreender tal fenômeno de fé. Em primeiro lugar, pesquisamos o motivo da vinculação do mês à santa e observamos que a datação é antiga, originária da Idade Média (1284), época em que Afonso X, o “sábio” rei de Castela e de Leon, resolveu agraciar e vincular a mãe de Deus ao período que, na Europa, corresponde ao início da primavera. Uma associação poética de Maria ao desabrochar da vida depois de um longo inverno. Investigamos, também, um fenômeno que leva, anualmente, milhares de devotos ao distrito de Cimbres, em Pesqueira, interior de Pernambuco: a difundida aparição de Nossa Senhora das Graças no Sítio Guarda, no ano de 1936, a duas jovens, uma delas ainda hoje viva. A partir desse enfoque, tudo indicava que seria uma matéria sobre tradição popular, ligada à religiosidade, às romarias para adoração de Nossa Senhora das Graças, cuja imagem é mantida num santuário incrustado nas rochas, ao qual se acessa por uma extensa escadaria. Mas, ao chegarmos em Cimbres, a realidade se mostrava bem mais complexa que a planura das informações iniciais. Lá, constatamos que a história da aparição divide católicos e se tornou um problema não apenas para a família das crianças que disseram ter visto a santa, mas também se transformou em motivo de acirrada disputa entre os índios xucurus, habitantes da região, Igreja e autoridades governamentais. Sobre o episódio, a Igreja nunca entrou com um pedido de investigação, como seria esperado. O caso é apenas citado num dos anais do Vaticano. Maria da Luz, uma das videntes que mencionou a aparição, integra a Congregação das Damas Cristãs sob o nome de Irmã Adélia, e foi obrigada a ficar em silêncio a respeito disso durante décadas. Sobre a outra menina, Maria da Conceição, que era negra e fora adotada pela

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família de Maria da Luz, não se tem notícia; estudiosos tentam descobrir o que lhe aconteceu nesse período. Por conta do assunto, padres foram transferidos das paróquias locais. Quanto aos xucurus, proprietários da terra em que teria se dado a aparição, e que hoje é registrada como Aldeia Guarda, eles cultuam outra santa, Nossa Senhora das Montanhas, a partir de uma pequena imagem encontrada na Serra de Ororubá, no século 17. E, se não hostilizam Nossa Senhora das Graças, pode-se afirmar que fazem muito pouco a favor do seu culto. Também conhecida como Mãe Tamain, Nossa Senhora das Montanhas é a padroeira de Cimbres. Em sua homenagem, é realizada uma festa no dia 2 de julho, por meio de um ritual sincrético, no qual tradições indígenas, africanas e católicas se mesclam, e que conta com a participação da comunidade

xucuru e de moradores de Pesqueira. Um grupo humilde, interiorano, diferente dos que se dirigem a Cimbres, em agosto, para as comemorações de Nossa Senhora das Graças. “Nossa Senhora das Montanhas tem o afeto dos humildes, dos índios. Nossa Senhora das Graças atrai gente de fora, do Recife, de outros estados e até do exterior. São duas santas, apesar da mesma Maria, com perfis de fiéis totalmente diferentes”, explica o padre Francisco Bispo da Silva, administrador da Paróquia de Nossa Senhora das Montanhas, em Cimbres, que também é o responsável pela realização de uma missa, a cada primeiro domingo do mês, no santuário de Nossa Senhora das Graças, na Aldeia Guarda. Nos 20 séculos de história cristã, contam-se cerca de 2 mil aparições marianas que tiveram relevância histórica. Poucas, porém, são reconhecidas pela Igreja. Entre

as mais importantes estão a de Guadalupe, no México, em 1531; a de Rue de Bac, em Paris, em 1830; La Salette e Lourdes, ambas na França, nos anos de 1846 e 1856; e a de Fátima, em Portugal, em 1917. As mais recentes aconteceram há poucas décadas: a de Akita, no Japão, deu-se em 1973 e a de Kibeno, em Ruanda, em 1981. Outras aparições foram refutadas ou sequer consideradas passíveis de abertura de inquérito – ignoradas, portanto, pela Santíssima Sé. Mesmo assim são alvo de peregrinação e adoração popular. Nesse âmbito, insere-se o episódio de Nossa Senhora das Graças, de Cimbres, que teria aparecido em 1936 para as jovens Maria da Luz, de 14 anos, e Maria da Conceição, de 15, num penhasco do Sítio Guarda, onde então residia a família Pereira. Membro do grupo de pesquisa Religiões e Gestão Pública, Espaços

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Página anterior 1 APARIÇÃO

Em 1936, Nossa Senhora das Graças teria aparecido para duas crianças

Nestas páginas 2 VIA CRUCIS

Para alcançar a imagem no cume da montanha, é preciso subir 296 degraus e seis rampas

3-4 SIMPLICIDADE O santuário das Graças, erguido na Adeia Guarda, é modesto, mas repleto de ex-votos em gratidão aos milagres de Maria

Públicos: Conflitos e Intolerância Religiosa, e concluindo o bacharelado em História, Edson Araújo trabalha na monografia intitulada Nossa Senhora das Graças: mito, práticas e representações devocionais – uma abordagem etno-histórica (1936-2011), na qual tenta resgatar o que ocorreu, e como se comportaram os atores envolvidos no episódio, ou seja, as videntes, a comunidade, os índios, a Igreja e os missionários que interagiram contra ou a favor da santa, nas últimas sete décadas. Na pesquisa, Edson transcreve os depoimentos que colheu sobre as aparições, registradas no final do mês de agosto de 1936. “No alto, as meninas disseram ter visto um clarão em que se encontrava uma senhora coberta com um manto azul e branco, que carregava uma criança nos braços... As aparições se repetiram durante todo o mês de agosto, segundo elas... O caso foi estudado pelo monsenhor José Kehrle, então secretário-geral da diocese de Pesqueira. Ele catalogou mais de 80 perguntas, em latim e em alemão, feitas à Virgem por Maria da Luz, semianalfabeta. Mas, ao fim da última aparição, em 31 de agosto do mesmo ano, subitamente as perguntas sumiram do caderno do monsenhor.” As aparições causaram alvoroço na cidade de Pesqueira, e o local de romaria foi destruído pela polícia. O pai das videntes o reconstruiu e chegou a ser chamado a depor na delegacia por estimular “crendices”. “Houve, claramente, intervenção da hierarquia eclesiástica diocesana para sufocar as manifestações espontâneas dos fiéis leigos, que passaram a visitar o local. Era patente o descontentamento da Igreja Católica em relação ao caso”, explica Edson.

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Maria da Luz, a jovem que ingressou na Congregação das Damas Cristãs, foi proibida de retornar ao Sítio da Guarda até meados de 1985 – segundo as freiras que com ela conviviam –, quando ocorreu um fato que mudaria toda a história. E que motivaria a volta de romarias a Cimbres. “Ela recebeu o diagnóstico de câncer de mama e, diante da morte, reuniu as irmãs da congregação para contar sua história. Resolveu que não iria morrer guardando esse segredo. Após sua confissão, recebeu a autorização para realizar uma peregrinação até o Sítio da Guarda, onde teve nova visão. A partir dessa data, ficou curada”, conta irmã Viviane, integrante da congregação e uma das freiras mais próximas à Adélia.

Integrante do grupo que se dirigiu ao sítio nos anos 1980, irmã Viviane lembra o que viveu. “A gente não via, mas sentia uma presença superior.” A partir de então, como costumam fazer as Damas Cristãs, visitou dezenas de vezes o rochedo no qual se encontra, há décadas, uma imagem de Nossa Senhora das Graças. Em 2001, outro fenômeno foi registrado pela imprensa: fiéis relataram que, durante uma visita, o sol começou a mudar de cor e a girar. “Amarelo, azul, laranja, as cores eram refletidas nos rostos das pessoas”, disse Nair Teixeira de Carvalho, em entrevista ao Jornal do Commercio, em 5 de abril de 2001. Outra testemunha de “fenômenos

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sobrenaturais”, nesse mesmo período, foi o monsenhor Rubião Lins Peixoto, da arquidiocese de Maceió: a ele é atribuído o relato de que lágrimas de fogo rolaram do rosto da imagem. Procurado pela reportagem para depoimento, ele foi evasivo e disse que os jornais da época já haviam registrado o fato em seus mínimos detalhes, por isso dispensava comentários, encerrando a ligação.

CENSURA INTERNA

O comportamento de monsenhor Rubião é compatível com o dos demais religiosos envolvidos no episódio. A Santa Sé não incentiva fenômenos de vidência nem testemunhos de milagres. “A atitude da Igreja diante desses fenômenos é muito prudente, muito prudente mesmo. Antes de se pronunciar, a autoridade eclesiástica procede com pés de chumbo. O bispo do lugar, se considerar que há pressupostos, geralmente institui uma comissão

Gilbraz Aragão diz que a aparição da santa se deu em um momento inadequado, quando a Igreja tentava livrar-se do catolicismo popular teológica que interroga os videntes e avalia os testemunhos. Se isso não aconteceu, é porque não devem ter dado crédito ao fato”, explica Afonso Murad. A despeito dos relatos religiosos e dos fiéis, o clero pesqueirense reluta em avalizar a aparição. “Fica difícil, pois sabemos que, à época, o pai das meninas tinha dívidas, e a construção de um santuário, com doações, poderia ser a solução para um grave problema financeiro. Aliás, ele conseguiu saldar suas dívidas depois que a santa apareceu. Isso deixou a

Igreja desconfiada, em alerta”, declarou o pároco de Cimbres. De acordo com ele, jamais a cúria de Pesqueira chegou a encaminhar processo de reconhecimento ao Vaticano. O teólogo Gilbraz Aragão lembra que a aparição da santa se deu em um momento inadequado, quando a Igreja tentava livrar-se do catolicismo popular que mantinha uma relação muito primária com o sagrado. “Com o advento da República, e o confronto com as nações protestantes, a Igreja decidiu romanizar suas ações. Essas aparições, portanto, vão de encontro ao clima de transição da Santa Fé, que pretendia ser mais racional e mais moral, e que redundaria, décadas depois, em 1960, no Concílio do Vaticano II. Nele, a meta era que os fiéis abandonassem os santos e se centrassem em Jesus”, explica Gilbraz. Mas, com o avanço dos evangélicos e a perda de fiéis para igrejas protestantes, nos últimos anos do século 20, a Santa

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5 SECULAR A capela da santa cultuada pelos índios data do século 17 6 PADROEIRA Nossa Senhora das Montanhas, a Mãe Tamain, foi encontrada no meio da Serra do Ororubá

anticonstitucional, desrespeitando o Artigo 231 da Constituição Federal, que proíbe construções em terras indígenas.” A interferência federal foi favorável aos índios. Frei José, segundo relatos, foi expulso da terra, e Dom Dino passou a se sentir ameaçado, sendo transferido para Caruaru. Nesse período, vários índios foram assassinados, entre os quais o cacique xucuru Chicão, morto por iniciativa de um grupo de fazendeiros que teve seus bens desapropriados.

SANTUÁRIO

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Sé foi novamente obrigada a rever suas posições. E passou a incentivar devoções e santuários, como o de Nossa Senhora das Graças, em Cimbres. O que seria apenas o começo de um novo problema, dessa vez com os xucurus. Quem conta a história é o advogado do Conselho Indígena Missionário (Cimi), Sandro Lago, um dos responsáveis pela manutenção da terra nas mãos dos seus donos ancestrais.“Em 1986, foi retomado o trabalho de demarcação das terras indígenas, que haviam sido usurpadas no século 17. Houve um processo de reconhecimento do território, que hoje está oficializado, e que abrange 25.550 hectares, em que se encontram abrigados cerca de 12 mil índios (o censo de 2010 contabiliza 9.335). Mas, com o retorno das romarias e a comoção causada pelos novos milagres, um religioso chamado frei José, da ordem dos capuchinhos, decidiu ampliar o santuário e transformá-lo

num ponto turístico. Junto com a família Teixeira, das irmãs videntes, e com o apoio do governo do estado e da prefeitura de Pesqueira, pousadas começaram a ser criadas. Uma maquete, com um projeto de pavimentação e de construção de um grande santuário nos moldes de Aparecida, em São Paulo, foi apresentada. Os índios sequer foram chamados para a reunião.” Segundo Sandro, à época, o Cimi chegou a alertar o então arcebispo de Pesqueira, Dom Dino (hoje bispo diocesano de Caruaru), sobre a condução desse projeto, mas o religioso teria afirmado não ter responsabilidade sobre as ações de frei José. “Comunicamos, então, que o Cimi não permitiria a criação de um complexo religioso em território indígena, e avisamos que acionaríamos o Ministério Público Federal sobre a invasão da área, lembrando que era uma medida absolutamente

A imagem da santa, com 2 metros e manto branco – não o tradicional azul da Nossa Senhora das Graças – está acomodada no cume da rocha de cerca de 100 metros de altura, e só pode ser alcançada após serem percorridos 296 degraus e seis rampas, numa travessia difícil, mas que se revela especial, quando alcançada. Posicionado no alto, contando com bela paisagem,o local pode até não ter sido alvo de uma aparição, mas certamente inspira religiosidade. Em 2002, segundo relato de pesquisadores, o pequeno santuário chegou a ser fechado, devido aos conflitos entre os próprios índios. “Os xucurus rurais foram beneficiados por terras e desfrutam, hoje, de uma vida relativamente confortável. Os da cidade, inexplicavelmente, ficaram fora do processo. Continuam miseráveis. Isso criou problemas e mortes entre eles. Diante disso, as romarias foram suspensas, os fiéis passaram a temer atentados”, explica Sylvana Brandão, doutora em História, vinculada ao programa de pós-graduação em História e ao departamento de Antropologia e Museologia da UFPE. Aos poucos, o fluxo de visitas foi retomado. O movimento, segundo a guardiã do local, a xucuru Maria José Alves dos Santos, Lia, é expressivo nos finais de semana, quando cerca

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de 200 a 300 pessoas afluem ao local. Em agosto, data oficial das aparições, os fiéis aparecem aos milhares. No período em que a Continente visitou o santuário, foi possível ver apenas os moradores da aldeia, que raramente visitam o monte sagrado. Responsável pela vendagem de réplicas de santas, medalhas e lembrancinhas, Lia deve seu sustento, em parte, à devoção a Nossa Senhora das Graças, de quem se diz seguidora. “Não importa qual nome seja dado. Maria é uma só.” Sua irmã, Florisa Alvez Jacinto, mostra clara preferência pela imagem indígena, apesar de frequentar as duas festas. Nelas, garante, dança e usa as roupas típicas do toré, adornadas por medalhinhas de santos variados.

MÃE TAMAIN

A história de devoção a Nossa Senhora das Montanhas é mais antiga que a de Nossa Senhora das Graças. Remonta ao século 17, quando índios da região encontraram uma estátua de 50 cm numa árvore. A imagem está apoiada num pedaço de madeira, semelhante ao de quando foi achada; a Igreja de Nossa

Birunda é a corista das celebrações. Da sua voz se escutam músicas destinadas a Tupã, à serra do Ororubá e aos curumins Senhora das Montanhas, padroeira de Cimbres, foi erguida em 1692. A santa também é chamada de Mãe Tamain e reverenciada em rituais na floresta, onde os xucurus invocam os encantados, conclamam o pai Tupã e tomam a jurema, que faz parte das cerimônias sagradas da tribo. “Quem encontrou Nossa Senhora das Montanhas foram os caboclos velhos, dentro de um tronco, na mata virgem. Resolveram levantar ela junto com a árvore, mesmo. Os oratorianos (padres que fundaram a vila e habitavam a região no período) tentaram tirá-la do tronco, que caiu e matou um deles. Depois roubaram a imagem, que milagrosamente reapareceu no tronco horas depois. Ela é nossa guardiã. É

daqui mesmo, é nossa mãe”, conta a anciã Maria José Brito, 87 anos, que é rezadeira e lembra os antigos rituais do toré praticados pelo seu marido, morto há quase duas décadas. “Antes, o pessoal usava perneira, gola, hoje é só o barrete e a saia. E o pior: antes, tudo era feito com palha de milho, agora é com fibra de coco. Por isso os índios estão passando fome”, reclama a índia, que também é devota de Padre Cícero e Frei Damião. Maria das Montanhas da Silva, a Birunda, é outra índia, nascida na Serra do Ororubá, território sagrado dos xucurus. Ela, mais do que ninguém, é emblema do sincretismo e da mistura de crenças na região, apesar de se dizer católica apostólica romana, como a maioria dos seus irmãos xucurus. Na sua casa, um altar com uma profusão de imagens de santos comprova sua devoção aos ícones cristãos. Anualmente, comanda os rituais em torno da imagem da santa, da qual cuida com desvelos de mãe. Sacristã da igreja comandada por padre Francisco, desdenha dos “encantados” cultuados pelos índios.

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7 GUARDIÃ A índia Birunda, sacristã da igreja de Mãe Tamain, cuida dos mantos e da conservação da imagem 8 REZADEIRA Dona Maria José tira mau olhado, crê em Frei Damião e conta que a santa foi achada pelos caboclos velhos

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“Quando os caboclos aparecem, jogo uma oração de São Cipriano neles, e não tem um que resista”, conta a devota, que também diz ter sido alvo de um milagre de Nossa Senhora – a das Montanhas. Na ausência do padre, é ela quem abre as portas da capela, toca os sinos para anunciar nascimentos, mortes, procissões e acompanha batismos e sepultamentos. É também a responsável por guardar e manter os diversos mantos da Nossa Senhora, trocados anualmente em 2 de julho, dia em que é realizada a festa da santa.

TORÉ E MISSA

Nessa data, a comunidade xucuru vai à igreja e protagoniza o ritual do toré e a troca do manto – tarefa que cabe ao cacique Marcos, líder do grupo, que não aceitou falar com a Continente, apesar de ter sido insistentemente procurado. “Os índios de todas as 23 aldeias vêm para Cimbres, e dançam o toré fora da igreja, no Salão São Miguel, para abrir os rituais da festa. Eles chegam na véspera, no dia 1º, vão buscar a lenha na mata, fazem a fogueira. Passam a noite

toda dançando. Quando chega o dia 2, dedicam todo o tempo à consagração na igreja. Participam da missa solene com o bispo. Quando ela termina, tiram a santa do altar, saem com ela em procissão pelas ruas de Cimbres. Somente os índios podem mexer na imagem, que fica no alto e no centro da nave. Acabada a caminhada, colocam a santa de volta, com um novo manto”, explica padre Francisco, que há anos acompanha os rituais. Os padres participantes, inclusive o bispo, normalmente usam o barrete, espécie de chapéu de palha que é usado em cerimônias sagradas indígenas. Birunda é a corista principal das celebrações. Da sua voz melodiosa e afinada se escutam músicas destinadas a Tupã, à Serra do Ororubá, aos curumins e às terras sagradas dos índios roubadas pelos brancos. Cantos incomuns ao repertório tradicional das missas. Nossa Senhora não é a única divindade católica a ser reverenciada pelos indígenas. Em junho, uma festa é realizada para celebrar Caô, o equivalente a São João, que é

homenageado com danças ao redor da fogueira, num ritual que também prossegue noite adentro. Dessa forma, os xucurus reinventaram e adaptaram sua religiosidade, acreditam especialistas, como a doutora em História Sylvana Brandão. “Eles tiveram sua cultura estraçalhada. Perderam sua língua e certamente não têm mais referências de como eram os rituais originais. Aliás, os índios de Pesqueira e Cimbres são majoritariamente católicos. Para sobreviver, usaram da criatividade, revivendo parte de seus ritos com a jurema e os encantados, mas também com alguns elementos da umbanda e da religião católica. Diria que, atualmente, do mesmo jeito que a Igreja teve que ceder e se adaptar aos desafios e culturas que encontrava, eles também começaram a fazer uma acomodação de interesses dos diferentes campos, inclusive aproximando-se dos rituais de Nossa Senhora das Graças, o que se deu, em parte, devido a concessões feitas do outro lado, pois os padres que hoje atuam na comunidade são bem mais respeitosos com os rituais e com a posse de terras indígenas do que os do passado.” Esse modo peculiar de viver o sincretismo, diz Sylvana, pôde ser observado na festa para a santa, em 2011. “Antes da procissão da Nossa Senhora das Graças, os índios afastaram as cadeiras da igreja, fizeram um toré improvisado no local e colocaram galhos de plantas sagradas na imagem. Nunca haviam feito aquilo. O que prova que eles estão constantemente reinventando a religião. É um hibridismo total. E é possível que promova uma acomodação entre os atores locais”, diz a pesquisadora, que alerta quanto à permanência de interesses municipais e religiosos em relação ao santuário original de Cimbres. “Ninguém se engane sobre o projeto dos comerciantes, dos empresários e do governo em transformar a região num grande roteiro de turismo religioso, num futuro próximo, quando as tensões se acomodarem. Os índios não podem relaxar.” Há muito ainda a ser feito para que a paz se estabeleça entre brancos e xucurus, e se espalhe pela Serra do Ororubá.

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FRIDA KAHLO Origens dos temas e das cores de um ícone

Quase 30 anos após sua publicação, ganha edição brasileira a biografia considerada a mais completa sobre a emblemática artista mexicana TEXTO Olívia Mindêlo IMAGENS: REPRODUÇÃO

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Ela nasceu Magdalena Carmen

Frieda Kahlo y Calderón. A data oficial foi 6 de julho de 1907. Mas a moça de Coyoacán tratou de contrariar a sina do cartório e escolher sua própria identidade. Dizia ter vindo ao mundo em 1910, com a Revolução Mexicana, que marcara, na visão dela, o início da Era Moderna de seu país. Também não quis ser chamada de Magdalena ou Frieda – grafia de descendência alemã (do pai) que ela preferiu modificar depois da invasão nazista na Europa. Decidiu, então, ser simplesmente Frida. Frida Kahlo, nascida em 1910. E, assim, quebrando protocolos e se superando desde o começo, veio ao mundo para se tornar uma dessas artistas inesquecíveis do século 20; um ícone cujo nome se confunde com o do próprio México. Sua existência é tema das páginas do livro Frida Kahlo: a biografia (Editora Globo, 619 págs.), que ganhou, há poucos meses, uma tradução brasileira. É verdade que a vida e a obra de Frida não são lá uma novidade. Além das inúmeras publicações que tratam de explicar a importância de sua existência para a história da arte, as quase 200 telas deixadas por ela carregam nos tons autobiográficos, fazendo criador e criatura parecerem uma coisa só. E estão em toda parte, não só nos museus consagrados – no geral, autorretratos que popularizaram um mito, como a Frida das sobrancelhas grossas, dos traços fortemente indígenas, das roupas coloridas e tipicamente mexicanas, do corpo dilacerado pelas marcas de uma sequência de infortúnios. Qual, então, o sentido de uma “nova” biografia agora, quase 57 anos após sua morte? Para responder à pergunta, é preciso ter cautela. O livro da historiadora da arte Hayden Herrera está longe de ser mais um nas prateleiras do país. Além de narrar com prazer e minúcia a trajetória intensa de Frida, a obra foi responsável por reposicioná-la entre os principais cânones da pintura mundial. Isso aconteceu no início dos anos 1980, a partir dos Estados Unidos. Desde então, a publicação tornou-se uma referência bastante importante, tanto que foi considerada

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A publicação, produzida pela historiadora Hayden Herrera, serviu como referência para o roteiro do filme Frida

“a biografia” da pintora, tendo sido traduzida para diferentes línguas. O “detalhe” é que, nesses quase 30 anos, o trabalho nunca havia sido publicado no Brasil. Eis um dos méritos deste lançamento aqui, mesmo que tardio. Foi essa a biografia que serviu de base para o roteiro do aclamado filme de Julie Taymor, Frida (2002, Miramax). Basta assisti-lo e ler algumas páginas de Herrera para perceber a influência e o esforço da diretora do longa-metragem em sintetizar a publicação. Como acontece na maioria dos casos, o livro está a anos-luz da obra cinematográfica, o que não tira a beleza de um drama que também trouxe novos brilhos ao legado de Frida, inclusive no Brasil. E se a produção norte-americana tropeça ao botar o elenco para falar em inglês e não em castelhano – inclusive a atriz mexicana Salma Hayek (que

vive a protagonista) –, a biografia de Hayden Herrera também dá suas escorregadas. Já foi comprovado que o pai de Frida, por exemplo, nunca foi de família judia, ao contrário do que é mencionado no livro. A autora reconhece equívocos como esse, mas nunca procurou corrigilos ou atualizar informações, que terminaram por ficar datadas. E é preciso saber: tudo isso permanece na edição brasileira. Mesmo sob o pretensioso subtítulo de Frida definitiva, envolto no grosso volume em forma de cinta, a chegada do livro ao Brasil carrega a própria marca: de ser uma rica fonte de pesquisa para estudiosos ou uma leitura-deleite para os amantes da arte e do gênero biográfico. Tirando a questão da “origem judaica”, a própria vida de Guillermo Kahlo, pai de Frida, é contada com cuidado pela autora, que, para realizar seu livro, fez pesquisas e entrevistas com pessoas que conviveram com a pintora. Valendo-se do método de história de vida, ela conseguiu ter acesso a cartas e diários escritos pela própria artista, além de outros documentos relevantes e referências bibliográficas listadas no final de sua biografia. Segundo conta o livro, Frida era bastante apegada ao pai. Nascido na

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Página anterior 1 FRIDA Artista em um de seus autorretratos - este é datado de 1940

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EM CASA Pintando Natureza viva, em 1952, na cama onde fez várias telas

Nestas páginas 3-4 ALEGÓRICOS Árvore da esperança, de 1946, e O abraço amoroso do universo, a Terra (México), Diego, eu e Señor Xolotl, de 1949

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AUTOBIOGRÁFICA Meus avós, meus pais e eu, de 1936, é uma das telas que retratam o universo da pintora

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estava ele apaixonado pela futura mãe da pintora: Matilde Calderón, que com ele também só teve meninas. Frida foi a terceira, de quatro. Em tom ensaístico, permeado muitas vezes pela descrição detalhada de telas emblemáticas como Meus avós, meus pais e eu (1936), o texto de Herrera narra muito bem passagens

Às vezes, o livro parece um romance – e ainda conta com fotografias e reproduções de telas da artista

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Alemanha como Wilhelm Kahlo, ele acabou mudando de identidade depois de cruzar o Atlântico e ir parar no México, aos 19 anos. Lá chegando, sozinho – sem um tostão, sem mãe (que tinha morrido há pouco tempo) e com uma epilepsia decorrente de uma pancada na cabeça –, o imigrante viveu de bicos e

passou a se chamar Guillermo Kahlo. Trabalhou de caixeiro, vendedor em livraria e atendente em joalheria de conterrâneos seus. Uma vez instalado, ele nunca mais voltaria à terra natal. Casou inicialmente com uma mexicana, que morreu quatro anos depois, no parto da segunda filha do casal. Pouco tempo após a tragédia,

como essa, num relato leve que ressalva a importância de Guillermo Kahlo na vida de Frida. Nas palavras da autora, essas influências também dizem respeito aos gostos culturais do alemão, passados para a sua “filha predileta”, segundo enfatiza a biógrafa. É que, por estímulo da esposa, Guillermo haveria de se tornar um fotógrafo importante, seguindo a vocação do sogro para o ofício. Munido de equipamento, ele pegaria a estrada com Matilde para registrar a cultura mexicana,

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entre outros motivos, a arquitetura colonial e indígena do país. E foi por conta dessa atitude pioneira que ele ganhou o epíteto de “o primeiro fotógrafo oficial do patrimônio cultural do México”. Com os pais, Frida aprenderia a amar seu país, tanto que sua vida e obra exaltam a cultura mexicana, numa postura própria do modernismo latino-americano. Segundo narra a biografia, o pai costumava compartilhar com ela o interesse pela arqueologia, pelas artes e pela filosofia, emprestando-lhe livros de sua biblioteca. Guillermo Kahlo também “ensinou-a a usar a câmera, revelar, retocar e colorir fotografias”, uma tarefa para a qual, diz Herrera, Frida não tinha lá muita paciência. Mesmo assim, isso moldaria o talento da futura pintora. “Reconhecendo a ligação entre a arte do pai e a sua própria, Frida afirmou que suas pinturas eram como fotografias que o pai tirava para ilustrar calendários; a única diferença era que, em vez de pintar uma realidade exterior, ela pintava os calendários que existiam dentro da sua cabeça”, escreve a autora. Consciente ou inconscientemente, o pai não estava ajudando a criar só uma intelectual ou uma artista habilidosa. Ele também levava Frida para passeios pela pequena Coyoacán, distrito próximo à cidade do México, onde eles viviam, estimulando a imaginação da filha em passeios pela natureza. Não sabia ele que estava fomentando nela a intuição e o próprio instinto, matérias-primas do

paradigma de “mulher selvagem” de que trata Clarissa Pinkola Estés no livro Mulheres que correm com lobos. Nesse sentido, Frida foi um exemplo do arquétipo da “mulher loba”, “daquela que sabe”, da “mulher esqueleto”, da “recolhedora de ossos”, de alguém que compreendia o ciclo da “vida-mortevida”, que conseguiu extrair da dor a cor mais vibrante da vida. Dividida em seis partes e 25 capítulos curtos, que vão do nascimento à morte – e à capacidade de “renascimento” da artista–, a biografia é um desses livros que pedem para ser lidos num só fôlego. E ainda conta com fotografias e reproduções de pinturas citadas pela autora. Bem escrita, às vezes parece um romance. Em alguns momentos, torna-se inevitável o questionamento sobre a veracidade das informações, como é comum em relação às biografias, sobretudo de mitos como Frida. Se não fosse a própria autora controvertendo isso, quando trata das “licenças poéticas” dos diários da artista e do próprio museu do México, que, para ela, alimenta “uma lenda”, o livro deixaria muitas dúvidas no ar, talvez. A própria edição brasileira tem falhas, ao colocar as notas de rodapé no final, sem nenhuma numeração correspondente no miolo da publicação. Mas nada disso ofusca um trabalho que, mesmo romanceado, foi feito com seriedade. Não por acaso, é até hoje responsável por grande parte da nossa compreensão a respeito de Frida Kahlo.

Caravaggio

A FORMAÇÃO DE UM GÊNIO Os teóricos, muitas vezes, são os responsáveis por fazer a ponte entre dois artistas de diferentes épocas. Roberto Longhi, historiador da arte que lecionou nas Universidades de Bolonha e Florença, não foi apenas professor e amigo de Pier Paolo Pasolini, mas também o verdadeiro “culpado” pelo elo entre o cineasta atuante nos anos 1960/1970 e o pintor barroco Caravaggio. Esses dois criadores de obras visuais peculiares são identificados pelo professor da USP Lorenzo Mammì como “os realistas mais problemáticos e complexos da arte italiana, senão ocidental”. Pasolini chegou a escrever, em elogio ao mestre, as seguintes palavras: “Tudo o que posso saber sobre Caravaggio é o que Longhi disse”. Um pouco desse repertório que o diretor pode acessar na academia, em contato com o pesquisador, nos chega através da editora Cosac Naify, que lançou a monografia de Roberto Longhi, em 1968. O livro Caravaggio foi traduzido por Denise Bottmann e tem prefácio e notas de esclarecimento do já citado Lorenzo Mammì. Podese afirmar que o autor e suas apreciações foram responsáveis por tornar Caravaggio importante na dimensão que lhe atribuímos hoje. Ao que tudo indica, Longhi tinha mais ponderações escritas – desaparecidas no contexto da 2ª Guerra Mundial. Um desses materiais foi a sua tese de doutorado, que se perdeu sem ter sido publicada. O tópico sobre as referências de Caravaggio provavelmente estava esmiuçado no seu estudo, algo que é indicado de forma sintética no livro Breve mas verídica história da pintura italiana (Cosac Naify, 2005). Nele, o pesquisador nega o alinhamento do artista com os pintores venezianos, identificando-o com uma linhagem de lombardos de pouco reconhecimento. Acredita-se que essa genealogia do estilo era um dos principais pilares da tese desenvolvida. Na publicação que chega agora às livrarias, esses elementos já começam a ser apontados, quando Longhi faz um panorama das artes na região da Lombardia, traçando um paralelo entre o percurso de Caravaggio e os cenários que o cercavam. Ele também analisa os quadros, colocando-se criticamente e abordando o amadurecimento do artista. O livro traz, ainda, um texto chamado Fortuna histórica de Caravaggio, que mostra o quanto a crítica oficial estava despreparada para lidar com aquele estilo. “Caravaggio era inegavelmente um grande talento, mas que viera para destruir a pintura. Pois imaginem que ele pretendia apresentar-nos o mundo tal como é, sem embelezamento algum”, avalia Longhi. GIANNI PAULA DE MELO

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VIAGEM AO NADA

MATÉRIA CORRIDA José Cláudio

ARTISTA PLÁSTICO

Me dá certa inveja, ao sair de casa, ver, no que poderia ser uma praça, os impávidos e incólumes pés de jurubeba no seu viço e inocência, na sua tranquilidade do existir, de quem não vê o tempo passar. De vez em quando a prefeitura manda roçar o mato, jurubebas, carrapateiras, rabos-de-tatu, outro mato, esguio, flor branca e roxa de pétalas recurvadas, de cuja raiz se faz lambedor, muçambê, outra plantinha rasteira de linda flor branco-amarelada de miolo roxo que bota umas bolotas muito apreciadas pelos galos-de-campina, ocorrendo o mesmo com suas pétalas que somente permanecem abertas no sol e se fecham na sombra mesmo dia claro, basta uma nuvem, muito apreciadas, as pétalas, pelos sanhaçus, xanã é seu nome, quebra-pedra, vassourinhade-botão com que minha avó Mãe Joquinha nos benzia em Ipojuca tempo de menino, bredo-de-espinho, até pé

de jerimum, cuja flor só vi uma pessoa comer, o pintor Giuseppe Baccaro, ao natural. De vez em quando roçam tudo, quando virando uma mata, dá para esconder bandido, e outrem, como tem ocorrido: um meu vizinho viu, e tem testemunha, um casal no amplexo, se é que se pode chamar, “na posição que Napoleão perdeu a guerra”. Há uma espécie de anêmona-domar que morre e ressuscita, recomeça do zero. Não sei se invejo tal destino. Não sei se, depois de algumas passagens pelo mundo, não nos batesse o cansaço; ou talvez valesse a pena reviver alguns momentos, embora sem o ineditismo: mas quem me garante não surgiriam novidades, sabendo-se que a vida é mais rica que nossa imaginação? Invejo as telas em branco que me olham dos recantos do atelier e sei que sempre haverá algumas que me sobreviverão, na sua inteireza material,

limpa de sonhos. Elas me olham eretas como a apresentar armas, prontas para o destino que nem eu nem elas ainda sabemos qual, em parte, como as “filhas do Sol” no Império Inca ou as futuras esposas do faraó, as virgens nos haréns à espera da convocação ou, como rês, do abate: sempre tenho telas à minha espera; natural que, quando eu morrer, algumas permaneçam intactas, quem sabe olhando para meu caixão ou para mim dentro dele, eu pensando nelas, como aquele vidraceiro ambulante do filme de Cocteau que em pleno outro mundo andava com uma ruma de lâminas de vidro nas costas apregoando “Vitrier! Vitrier!”, não tendo ainda “caído a ficha”, durante algum tempo depois de ter morrido. E não somente as telas mas as portas, as janelas, os vidros da janela, as paredes, o piso de Brennand, as telhas que comprei na demolição da Maternidade Barão de Lucena assim como pias e alguns vasos sanitários, os

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REPRODUÇÃO

caibros de maçaranduba, esta cadeira de plástico onde estou sentado: todos esses objetos já estão num estado muito avançado em relação a nós viventes angustiados entre a vida e a morte. Me vem que essas telas em branco servirão ao meu filho Mané, também pintor, ou à neta Juliana, que gosta de pintar, como se eles, pintando nelas, me devolvessem à vida, igual àquela anêmona-do-mar, assim como, pintando, trago à vida os pintores que vieram antes, desde os rupestres. Enfim, que essas telas não me deixarão tão abruptamente. Mas voltando às jurubebas, a se deliciarem, no tempo sem fim em que se inserem, sorvendo-o através de seu corpo formado de espinhos e folhas e talos

Invejo as telas em branco que me olham dos recantos do atelier e sei que sempre haverá algumas que me sobreviverão e flores e frutos, o tempo perene sem noção de cronologia, ausentes de uma vida em si, valendo, sei lá, a da espécie, a do mundo todo, esse feliz não-existir, situação que imagino ter provado recentemente durante frações de segundo. Eu ia num táxi, no banco da frente ao lado do motorista. Sempre ando no “lugar do morto”. Tinha saído

de casa. No meio da manhã. Fazer as coisas de sempre, tirar dinheiro, comprar lona, brocha de cobre, bucha para limpar pincéis, algum pagamento, a rotina. Ia pela Rua Luiz de Carvalho, Olinda, o caminho normal, no sentido mar, para pegar a Getúlio Vargas. Sol limpo, céu azul, nesga de nuvem, e tive essa, digamos, revelação. De que não existia nem céu azul, nem aquela nesga de nuvem, nem o calçamento ou asfalto onde o carro andava, nem o carro, nem eu no carro nem indo para canto nenhum. E que nada existia. Nem nunca existiu. E isso dava, pelo contrário, uma total plenitude, sendo eu o universo inteiro em todas as suas mínimas vibrações as mais longínquas de todo o sempre.

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Cardápio

GARÇOM O bem-servir incluso no menu

Profissionais que fazem o atendimento dos clientes são itens indispensáveis para o sucesso de bares e restaurantes TEXTO Samarone Lima FOTOS Leo Caldas

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Boêmio da velha guarda, o

advogado Clávio Valença lembra o dia em que chegou ao restaurante Dom Pedro, na Rua do Imperador, Bairro de Santo Antônio, no qual tinha mesa e cadeira reservados, e recebeu uma notícia impressionante. O garçom Nivaldo tinha feito um cálculo aproximado de quantas cervejas o cliente tinha bebido ao longo de quatro décadas. “Desde a época de faculdade, todo sábado e domingo, o senhor está aqui, a não ser que esteja viajando. Quando

viaja, compensa no retorno”, disse, já abrindo a cerveja de Clávio, sem que ele tivesse que fazer nenhum gesto. “São sempre de cinco a seis cervejas, num cálculo conservador. Como o ano tem 52 semanas, são 104 dias aqui no restaurante. Se multiplicarmos por seis, são 624 cervejas por ano.” Clávio bebericou sua cerveja, espantado com a precisão de Nivaldo, mas faltava o arremate. “Como o senhor bebe aqui há mais de 40 anos, já superou a marca de 20 mil cervejas.” Para ser mais preciso,

24.960, sempre na mesma cadeira, na mesma mesa e durante muito tempo, com os mesmos amigos, numa escalação que lembra um time de futebol de salão: Clávio Valença, Byron Sarinho, Fernando, Jaburu e Nailton. A poucas garrafas de completar as 25 mil cervejas, Clávio tem muito a falar sobre a enigmática figura do garçom. Essa espécie misteriosa, difícil, que rende craques no atendimento, como o ex-quase ponta-direita do Santa Cruz, Marcílio Costa, 42 anos, celebrado até com uma moldura, no restaurante Antiquário, localizado na Rua do Cupim, nas Graças. Mas com a presença constante de inúmeros pernas-de-pau do atendimento, que trocam de bar e restaurante sem que os clientes sequer percebam. “É preciso muita vontade, muita atenção, conhecer as pessoas, saber o nome, ter sempre um sorriso aberto”, diz Marcílio, que começou a carreira há 18 anos “numa churrascariazinha” no Bairro da Várzea. “Mas tem que ter confiança, para resolver qualquer problema com simplicidade. O importante é que o cliente não pode ficar estressado de jeito nenhum.” Alçado ao posto de maître, Marcilio fez o percurso de quase todos os bons garçons. Foi de bar em bar. O de “Waldemar Marinheiro”, Freguesia do Poço, La Prensa, Bar Real, até o ápice da carreira, no Antiquário. “Chegam os meninos do Senac e a gente os prepara. Digo sempre: Você tem que ser bem talentoso, não pode encostar no cliente, nem ficar com muita intimidade.” A foto na parte central do restaurante está acompanhada de um texto do compositor Carlos Fernando. “Mais parece um filho de Gandhi”, diz. “Com a mesma gentileza serve a todos nós, comunistas, senhores de engenho, artistas e boêmios”. “A foto é do ano passado. Mas tem o Photoshop, você conhece”, brinca Marcílio. “Acho que é uma devoção. Ou tem ou não tem. Não é para todo mundo”, analisa o artista plástico Humberto Magno, outro craque do copo, medalha de ouro no quesito Ron Montilla e Coca-Cola. Lembra com uma certa nostalgia de Djalma, do “Bar de Tuta e Odete, perto

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Cardápio 1

do Mercado de Casa Amarela”. O garçom é lembrado pelo humor espontâneo, que cativava toda a clientela. “Era baixinho, levíssimo, parecia Charles Chaplin.” Outro garçom de quem o velho boêmio recorda é Moacir, o “Moa”, lotado no Largura, ao lado da Igreja de Casa Forte. “Ele era de Passira. Um monossilábico. Homem de pouquíssimas palavras. Eu perguntava: ‘E o Romário?’ Ele respondia: ‘Um monstro’. Era o máximo.” Na primeira vez em que foi atendido por Moa, Humberto ficou espantado. O homem levou o gelo na bandeja. Clávio coloca no panteão dos grandes garçons o famoso “Pessoa”, do extinto Pigalle, que funcionava no Edifício Seguradora, ao lado do antigo prédio do Diario de Pernambuco. “Ele era capaz de emprestar até o dinheiro para o táxi da nossa turma, que morava na Casa do Estudante do Derby.” Elson, outro garçom lendário, sabia a escalação de todas as seleções que jogaram em algum momento contra o Brasil. Muitas vezes, ninguém entendia a escalação,

principalmente dos jogadores russos, mas o que importava era mesmo o estilo do garçom. Soares era o grande garçom do Dom Pedro. “Paletó branco, calça preta, educadíssimo. Se não perguntasse nada a ele, ficava quieto. Era um clássico”, lembra Clávio. Ely, filho dele, seguiu a dinastia, mas a carreira teve um baque. Tornouse evangélico, com a inevitável mudança de comportamento, para se adequar à igreja. “Na casa dele, não entra TV porque é pecado. Imagine um cara desses vendendo cachaça!”

ALTA ROTATIVIDADE

É uma profissão que agrega milhares de profissionais e, por isso mesmo, é repleta de idiossincrasias. Há casos de garçons que começam a ficar conhecidos, sabem que são bons, têm carisma, sabem lidar com clientes refinados ou cachaceiros brabos, e a fama “sobe” à cabeça. A rotatividade é alta. Rafael Chamie, há seis anos proprietário do restaurante Capitão Lima, na Rua do Lima (Santo Amaro), diz que “tem penado”, para montar uma equipe que toque a bola do

atendimento sem “impedimentos” ou “chutões de várzea”. Com uma média de 80 a 120 refeições por dia, Rafael já teve garçom diarista e os oriundos do cursos do Senac (que pecam pela inexperiência). Agora, finalmente, está chegando próximo ao time ideal. Para ele, no entanto, garçom perfeito “seria uma espécie de Frankstein”, uma mistura dos melhores momentos de todos os que já trabalharam no seu restaurante. “Teria a atenção e o cuidado de um determinado garçom, o pique de segurar dois, três pratos de outro, o jeito espirituoso de outro, que contagia os clientes.” Mas há um detalhe, o principal, que, para ele, determina um excelente profissional e começa pela conduta: “Não adianta ser espirituoso, esforçado, ágil, mas cometer pequenas desonestidades”. Dos momentos antológicos no atendimento, o proprietário do Capitão Lima lembra quando os clientes estavam numa mesa, já tinham tomado algumas cervejas, até que chamaram o garçom e perguntaram

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1 BOÊMIO Clávio Valença teve o número de cervejas consumidas ao longo de quatro décadas contabilizado por um garçom 2 MIGUEL DOS SANTOS

O gerente afirma que um bom profissional precisa conhecer o cardápio até de olhos fechados

se a cerveja estava mesmo boa. “O garçom tirou uma trena do bolso, mediu a cerveja e respondeu na hora: Está na medida.” Ganhou a mesa num lance de mestre, mas se perdia com a própria fama. “Ele conhecia todo mundo, sabia o nome de cada cliente, mas as conversas acabavam atrapalhando o atendimento.” Miguel dos Santos, 45 anos, foi garçom durante quase duas décadas, em diferentes casas, e agora é gerente de serviços do restaurante Camarada Camarão, localizado na Rua da Hora, no Espinheiro. Fala mansa, atencioso, educadíssimo, passou por hotéis, bares, pizzarias, churrascaria. Todo o mundo do atendimento ele conhece. “Meu irmão era gerente de hotel. Fui fazendo cursos nas empresas, treinamento nos principais hotéis de Pernambuco.” Chega para o trabalho às 9h, comanda a equipe para a “abertura da casa”. Olha tudo na equipe, o fardamento, asseio. Diz que o funcionário tem que estar barbeado, cabelo bem penteado. Gosta de valorizar a “etiqueta”, que significa

Um garçom que se antecipa ao cliente, mas sem incomodálo seria uma espécie de Neymar do atendimento fazer o “atendimento completo”. Um bom profissional tem que conhecer o cardápio até de olhos fechados, ver qual o vinho mais adequado, harmonizar os pedidos, sugerir o tipo de carne, avalia Miguel. “Um simples detalhe faz a diferença, como perguntar se quer a carne bem passada ou ao ponto.” No linguajar futebolístico, um Neymar do atendimento é aquele que se antecipa ao cliente, mas sem incomodá-lo. “Se ele está bebendo uma cerveja, tem que chegar antes que a bebida falte. Caso contrário, vai ser apenas um anotador de pedido.” A rotatividade dos profissionais dá-se em casas com muito movimento ou nos casos em que o garçom atende no almoço e

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volta para trabalhar à noite. “Ele não aguenta. Tem muita casa no Recife que tem alta rotatividade por conta desse excesso”, diz. Clávio Valença, que já ficou em segundo lugar na lista dos maiores bebedores de chope do Bar do Neno (eleito pelo garçom Bola, também responsável pela escolha dos nomes que são indicados para a “Calçada da Fama”), afirma que o quadro não mudou muito, nas últimas décadas. “Tem muita gente ruim. É igual ao chope em Pernambuco. É difícil encontrar um de primeira linha.” Ele acredita que isso tem muito a ver com o perfil dos donos de bares do Recife. “O cara foi demitido, recebe uma indenização, pega mesas e geladeiras numa cervejaria, abre um bar. No dia da inauguração está cheio de amigos, mas depois ele começa a ver a realidade.” Um caso raro de “garçom voluntário” é o de José Gomes dos Santos, o “Gomes”, que há mais de cinco anos atende aos clientes do Bar Princesa Isabel, na rua homônima, ao lado do Parque 13 de Maio, centro do Recife.

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3 MARCÍLIO COSTA Hoje maître, circulou por vários bares da cidade

Mesmo sem ser obrigatório, ele diz que “todos deixam os 10%”.

SEM HORA PRA FECHAR

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Às 10h da manhã, ele está limpando a calçada, com seu indefectível Marlboro à boca. Depois, organiza o salão, vê se algo está faltando, prepara a casa, a exemplo de Miguel. O proprietário do bar, conhecido como Seu Azevedo, chega somente às 13h, acompanhado de sua esposa, Dona Nice, quando tudo está funcionando e já tem gente almoçando uma boa mão-de-vaca ou patinho com feijão. O detalhe é que Gomes é aposentado, mora em apartamento próprio, quase ao lado do bar. Durante o dia, vai tocando a vida de garçom voluntário, mas não se esquece de tomar suas doses, anotadas milimetricamente na caderneta do dia. Ao final, paga o que consumiu e volta para casa. Muitas vezes, também, esquece o aviso “Proibido fumar”, e passa com seu cigarro brilhando na ponta da boca, o que é motivo de zombaria

dos mais chegados. “Conheço todo mundo, é um lazer também. Venho encontrar os amigos e dou uma força. Faço isso com muito gosto”, diz. A poucos metros dali, na Rua da Saudade, está José Carlos da Silva, o Carlinhos, garçom do popular Cantinho do Paulo, propriedade dos irmãos Antônio e Marcos. “Quando compraram o bar, o nome já era esse, resolveram manter para não complicar”, explica o funcionário, que está no cargo há exatos 23 anos. Trabalha de segunda a quinta-feira. Horário de entrada: 11h. Saída: 23h. O detalhe é que, à tardinha, as mesas são colocadas do outro lado da calçada, no Parque 13 de Maio. Carlinhos passa várias horas de seu plantão atravessando a Rua da Saudade, desviando dos carros e motos, com bebidas e tira-gostos na bandeja. Nunca sofreu um arranhão e se orgulha do retorno dos clientes.

Impossível falar de garçons, no Recife, sem citar o Empório Sertanejo, reduto de boêmios das mais diversas áreas e idades. O quarteto Chico, Beto, Nado e Manuel lá está desde a inauguração, em 1995. A característica principal do lugar é o sonho de qualquer pessoa que bebe – não tem hora para fechar as portas. A saideira, portanto, tornase infinita. “Eu era o dono do Clube da Farra. Quando o Empório surgiu, todo mundo começou a frequentar. Ali virou o novo reduto”, lembra Bode Valença, famoso notívago recifense. “Nos bons tempos, quando tinha resistência, cheguei a sair de lá às nove da manhã”. Os garçons são uma raça à parte no Empório. “São rápidos, ágeis. O Manuel já sabe o que eu bebo, traz o Bacardi com o limão no fundo do copo sem que eu fale nada”, afirma Valença. O grande desafio do Empório foi a morte do seu proprietário, Roberto Novaes Ferraz, o Robertinho, em 2007. Ele era o coração do bar, o responsável pela equipe e pela cara despojada do lugar. Sob o comando da viúva, Bernardete, todos os funcionários continuaram, o atendimento dos garçons da “velha guarda” permanece uma das principais atrações da casa. “É impressionante. Às duas da manhã, todo mundo começa a chegar no Empório, vindo de outras festas, outros bares. Só fecha com o último cliente.” Nesse caso, ver o dia amanhecer cercado de amigos, sem pressa de pedir a conta ou sem ver gente de cara feia querendo emborcar as cadeiras nas mesas, alguns garçons poderiam passar à condição de santos.

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“Cada dia um adeus. Às vezes adeus a um pássaro que voa, às vezes ao voo do pássaro que ontem voltou, que amanhã voltará mas com outro voo. Adeus ao gesto que, inda que se repita, não mais será o mesmo. Adeus a cada instante que, de agora se faz antes e ontem se torna. E depois. Adeus a mim mesmo. Adeus ao adeus.”

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Uma homenagem

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FOTOS: AUGUSTO PESSOA/DIVULGAÇÃO

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CABRUÊRA Sob inspiração das imagens

Augusto Pessoa construiu o ensaio

Em novo trabalho, banda campinense toma como referência ensaio fotográfico realizado pelo interior do Nordeste TEXTO Carlos Eduardo Amaral

Nordeste desvelado ao longo de 10 anos de viagens pelo interior, em meio a trabalhos externos e períodos de folga. Nele, o fotógrafo buscou revelar o máximo da paleta de cores que as constantes imagens de religiosidade fanática, escassez e aridez ofuscaram através da construção identitária que temos da região há algumas décadas. Essa tríade fé-pobreza-seca, apesar de inegável, reconciliou-se, sob o olhar de Pessoa, ao caráter de espontaneidade, alegria e frondosidade que, a rigor, nunca esteve ausente nos rincões retratados. Marcadas principalmente por um colorido ora fauvista, ora impressionista – e por enfoques e efeitos que certas vezes remetem aos landscape painters norte-americanos ou a aquarelistas como o inglês Winslow Homer –, as fotos de Nordeste desvelado perpassam folguedos, paisagens,

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1 CABRUÊRA A banda já havia trabalhado com o fotógrafo Augusto Pessoa, em 2004 2-4 CORES A natureza e o povo nordestino são temáticas constantes para Augusto Pessoa Próxima página

5 TRADIÇÕES O trabalho desenvolvido agregou cultura nordestina a elementos de orientalismo

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vultos, ícones e objetos permanentes do universo imagético nordestino. Não à toa, elas chamaram a atenção da banda Cabruêra, de Campina Grande, cuja parceria com Augusto Pessoa vem desde o primeiro CD do grupo, Samba da minha terra (2004). Desta vez, caso raro na discografia nacional, o Cabruêra concebeu um repertório inteiramente em função do ensaio fotográfico. A começar pelo título, Nordeste oculto sugere uma contraposição a Nordeste desvelado, enquanto que, na verdade, o reforça como um painel de manifestações culturais equivalente em plano sonoro. O “oculto” refere-se ao que o repertório explorou nesse plano, a conexões há um bom tempo observadas ou intuídas por músicos que tomam a região como referência para suas obras, esporádica ou continuamente. Um terceiro nome – o do poeta, tradutor e músico Alberto Marsicano – surge como mentor da vertente literária do projeto, ou melhor, ensaística. Especialista em música clássica indiana e pesquisador das ligações desta com a cultura nordestina, Marsicano participou como autor ou coautor de sete das 10 músicas de Nordeste oculto e escreveu miniensaios para o encarte de Nordeste desvelado que vem irmanado ao CD. Em tais escritos, os quais chamou de “textos visagísticos”, ele condensou, enfatizando substantivos e adjetivos

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AUGUSTO PESSOA/DIVULGAÇÃO

Sonoras

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de alta carga simbólica em lugar de verbos, as conexões que o Cabruêra interpreta musicalmente. Essas inter-relações, que vão do Nordeste à Índia, aos celtas e aos ciganos, só não se estenderam muito além dos limites do Nordeste Oriental (ou seja, do Ceará a Alagoas). Porém, a observação não é uma crítica e, sim, um pretexto para se apontar a dificuldade de se integrar o Maranhão, o Piauí e mesmo a Bahia ao nosso nordeste imaginário, bastante ligado à tríade citada no início da matéria. Tal dificuldade de se visualizar ou ouvir um nordeste com carnaubeiras, tambores de crioulas e samba de coco não indicaria que o status desses estados ficou deslocado em uma divisão político-geográfica que pouco levou em conta o aspecto cultural?

SITAR NO SERTÃO

Os arranjos de Nordeste oculto foram feitos, em sua maioria, para combinações que incluem a formação original do Cabruêra (violão, guitarra, baixo e bateria), vocais, metais,

A cítara indiana (sitar) é o instrumento que conduz a proposta musical do álbum Nordeste oculto percussão, teclados e participações especiais de sanfona, viola e cítara indiana (sitar), instrumento que conduz a proposta musical do álbum. Conforme descreve Marsicano, citarista e diretor artístico, a presença do instrumento visa a “infundir a microtonalidade do instrumento na música nordestina” – e de fato ela se delineia por todo o CD sem causar estranheza aos ouvidos. Uma sonoridade apoiada em um instrumental dessa natureza talvez evidenciasse melhor as variadas cores sonoras da música nordestina, se valorizasse uma vertente mais acústica, porém, considerando o estilo da banda, devemos localizar no direcionamento dado pelas “visagens”

de Marsicano os aspectos a serem tomados em conta nas músicas. Todavia, tal expectativa se concretiza: de forma in natura nas duas breves cantorias de Oliveira de Panelas (Marujo antigo e Chakra terrestre) e de modo reelaborado na faixa final, Aboio indiano. Nela, Chico Correa, Chico César e a cítara de Alberto Marsicano divagam através de uma livre improvisação de vocalises e texturas para demonstrar que o intervalo de trítono (cujo exemplo mais didático é o das notas fá-si) incorporou-se em Portugal vindo de Goa, e não dos árabes e mouros. Entre as outras teses musicais de Nordeste oculto, disponível para download gratuito no site Overmundo, encontram-se também: o culto indígena da jurema, a herança dos ciganos expulsos da Península Ibérica e os timbres celtas oriundos do Norte de Portugal. Expostas outrora por Câmara Cascudo, Guerra-Peixe e pesquisadores afins, tais demonstrações são, sobretudo, um esforço de alargamento da compreensão das raízes que estamos acostumados a atribuir ao Nordeste.

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INDICAÇÕES SAMBA

TRIO GATO COM FOME Trio Gato com Fome Independente

O grupo formado por Cadu Ribeiro (pandeiro), Gregory Andréas (cavaquinho) e Renato Enoki (violão de sete cordas) lança seu primeiro CD, homenageando a irreverência típica do samba paulista, através de composições próprias e sucessos de outrora. Nas faixas autorais, episódios de malandragem e dramas amorosos recebem especiais atualizações de contexto social, em que o Orkut, a Faixa de Gaza e a poluição do Rio Tietê integram-se aos tradicionais versos que falam de morros e bares.

COLETÂNEA

MÁRCIO GOMES ...Canta Francisco Alves Edições Musicais 2001

Apaixonado pela aura da Era do Rádio e cultivador de uma voz fiel ao tenorismo reinante na canção popular daqueles tempos, o jovem Márcio Gomes presta tributo a Francisco Alves (1898-1952), em disco com 13 faixas, que se tornaram clássicos ao som do Rei da Voz. De marchas de carnaval a baladas românticas, Gomes e os músicos regidos pelo arranjador Alfredo DelPenho procuram ser fiéis ao estilo de arranjos típicos das orquestras de rádio. No repertório, entre outras músicas, estão Nervos de aço, Canta Brasil e O amor é sempre o amor.

CROSSOVER

QUINTETO PERSCH Quinteto Persch – 10 anos Independente

De Vivaldi a Piazzolla, passando pela Suíte gótica do romântico Léon Boëlmann, as transcrições interpretadas pelo grupo gaúcho de acordeons primam pela exploração de todos os recursos do instrumento e pela boa distribuição de partes com dificuldade técnica entre os intérpretes. Além dos arranjos escritos por Adriano Persch, o ensemble toca a versão original da Perpetuum polka do italiano Ivano Battiston, um dos poucos compositores especializados em acordeom no mundo.

TRILHAS SONORAS

ALEXANDRE GUERRA Estações Brasileiras Borandá

Através de uma instrumentação simples e essencial para executar trilhas sonoras intimistas, Alexandre Guerra reuniu suas produções mais recentes nesse campo de modo a chamar a atenção do ouvinte para elas, e não para os filmes ou documentários que as motivaram. A homogeneidade buscada pelo compositor (quebrada em faixas como Nascente) tendem a uma persistente monotonia, a qual poderia ser minimizada justamente pelos referenciais visuais originais, mas que pode ser relevada pelos fãs de uma música mais plácida.

Quarteto Radamés Gnatalli IMAGENS: DIVULGAÇÃO

EM VÍDEO, INTEGRAL DOS QUARTETOS DE VILLA-LOBOS Depois dos quartetos BesslerReis, Danubius e Latinoamericano, o Radamés Gnattali decidiu empreender a gravação completa dos 17 quartetos de cordas escritos por Villa-Lobos entre 1915 a 1957, que abarcam desde as peças de motivação folclórica mais nítida até às de linguagens mais distanciadas de ligações telúricas. No entanto, o ensemble carioca oferece agora o primeiro registro em vídeo (blu-ray + DVD) dessa integral dos quartetos, o qual inclui os três primeiros compassos do que viria a ser o 18° Quarteto. Mesmo que todo o processo de produção tenha demorado menos de um ano, o Quarteto Radamés Gnattali esforçou-se para estabelecer interpretações convincentes (não importará se preferirmos algum Quarteto em particular sob a performance de outros conjuntos, o que é natural) – algumas peças do ciclo, como as de número 3, 7 e 11, merecem especial atenção

do ouvinte. A contextualização de todas elas também foi priorizada: no início de cada interpretação, os comentários deixados pelo pianista Arnaldo Estrella (1908-1980) são conduzidos pelo violonista Turíbio Santos e ilustrados pelos takes das locações concertísticas: o Palácio do Catete, o Palácio das Laranjeiras e o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em contrapartida, um dos extras do terceiro DVD/blu-ray, sobre a ligação de Villa-Lobos com o Rio de Janeiro, poderia certamente ter evitado o pitoresco e as considerações superficiais com que foi trabalhado, ganhando a chance de desenvolver um tema que prometia acrescentar algo além do óbvio em um projeto dessa magnitude. Esse é só um detalhe ante o todo: o resultado é mais um notável esforço do Quarteto Radamés Gnattali, que segue em frente em seu intuito de inventariar os quartetos de cordas dos principais compositores brasileiros. CARLOS EDUARDO AMARAL

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FICCIONAIS As perguntas que não querem calar

1-3 ELENCO

Alberto Mussa, Sidney Rocha e Eric Nepomuceno estão entre os 32 autores da coletânea

A partir de provocação feita por jornal literário, autores comentam motivações e processos criativos que são agora publicados em livro TEXTO Adriana Dória Matos

Leitura Há certas profissões para as quais

parece não haver dúvidas quanto às suas motivações e processos. Ninguém ou pouca gente se detém em perguntar a um médico os seus porquês e comos. Situação bem diversa vive o escritor, sobre o qual sempre pairam as indagações “por que você escreve?” e “como é o seu processo de criação?”. Perguntas chatíssimas, aliás, pois sempre repetidas nesse ambiente criativo. Um jornalista em entrevista com um escritor, por exemplo, precisa de tato e sagacidade para escamotear essas incontornáveis questões, camuflando-as, disfarçando essa curiosidade atávica. E não foi outra a estratégia de dissimulação dos editores do jornal literário Pernambuco (Cepe), Schneider Carpeggiani e Raimundo Carrero, ao criarem a seção Bastidores, em que se requer do escritor convidado uma resposta à questão: qual o processo de criação de seu livro? Nos últimos cinco anos – que é o tempo de vida desse mensário –, vários escritores se dispuseram a responder os tais porquês e comos de suas mais recentes obras. E, observa-se pela leitura, nem todos os clichês são dispensáveis. Vale a pena insistir nessas questões: é prazeroso ler os depoimentos que são momentos de exposição profissional e pessoal para o escritor.

Diante dessa constatação, e como marco do “aniversário” do Pernambuco, está saindo Ficcionais (pela mesma Cepe), livro que reúne 32 dos textos publicados em Bastidores no período. E o que temos em Ficcionais? Bem, se quisermos ser dramáticos, um monte de angústias. Se preferirmos simplificar um pouco as coisas, vozes que esclarecem quanto a uma prática que pode ser percebida como mais um campo profissional, em que há regras a serem seguidas (ou, quase isso). Porque, embora uma parte considerável de leitores continue a acreditar que a feitura de um romance ou de um poema deve-se a uma encarnação do divino, a tarefa pode ser muito mais pragmática, objetiva, afinal, escrever é uma técnica como o é manipular um bisturi (embora as consequências do contato com um mau texto sejam menos desastrosas que com um mau manuseio de bisturi). Então, observemos alguns dos depoimentos a partir dessas bitolas e suas nuances: autores que demandam processos extremamente racionais, outros que encaram a atividade como uma necessidade saciada, feliz; e os que sofrem muito para entregar ao leitor aquela obra bem empacotadinha que ele compra na livraria. Alberto Mussa, autor do ótimo O senhor do lado esquerdo e que comenta Meu destino

é ser onça para o Pernambuco, avisa logo no primeiro parágrafo: “Para começar a escrever eu necessito de um estímulo intelectual. Não consigo escrever sobre minhas experiências pessoais, observar e analisar o mundo ao meu redor ou expiar minhas próprias angústias”. E o que faz o carioca? Pesquisa, anota, cria esquemas, coteja obras, estuda línguas e até faz mapas para chegar ao ato da escrita, propriamente, mas não deixa de ter suas idiossincrasias, como a de escrever pouco por dia e sempre à mão (isso valendo só para a ficção). Não é exagero dizer que Eric Nepomuceno é “o homem que traduziu a América Latina”, título dado à contribuição do autor para os Bastidores. Tudo ou quase tudo de Gabriel García Marquez que lemos em edições nacionais chegou à língua portuguesa através dele. De tanto traduzir Eduardo Galeano – sua primeira tradução do uruguaio foi em 1975 –, ficou amigo dele. E isso diz muito da relação do escritor com a atividade. Ele escreve: “Eu sou incapaz de aceitar uma tradução por razões em termos exclusivamente profissionais. Volta e meia recuso convites para traduzir autores que respeito, ou cuja obra admiro, mas por quem não tenho nenhum afeto pessoal, ou sinto que não fazem parte do meu universo. Na hora de traduzir,

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sou movido em primeiro lugar por afinidade, por afeto”. É possível colocar tradutores no elenco de escritores escalados para participar dessa seção, pergunta o leitor? Se você admitir que traduzir também é criar... Nepomuceno defende um ponto de vista legítimo, quando afirma que livro bem traduzido é aquele em que não percebemos que foi traduzido. “Estranha determinação”, escreve, “a de se esforçar o máximo para que ninguém perceba o que você fez”. Ainda bem que os editores não se ativeram a classificações estanques, e convidaram tradutores para escrever também – o texto desse autor é um dos melhores da coletânea. Se estamos falando de pessoas que não se afligem com o ato da escrita autoral, falamos também daqueles para quem a ficção é dolorosa. E há muitos exemplos disso, seja porque o autor é exigente demais, ou porque ele hesita, reluta, briga com

Lendo os depoimentos dos escritores, percebemos o quanto a criação pode ser torturante ou prazerosa a criação. Claro, sabemos que há a retórica da dor, sua encenação, mas isso é apenas um detalhe, afinal, quem encena também sofre. Antes que se esqueça, é preciso dizer que alguns dos escritores reunidos nesse livro foram detalhistas e trouxeram descrições das várias etapas pelas quais passaram para escrever aquele livro, e de como fizeram com isso ou aquilo. O mérito desse impulso é trazer para o leitor processos mentais, estruturas de raciocínio muitas vezes convergentes. Cai o mito do divino e isso é salutar.

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Entre os relatos que colocam a produção literária como uma angústia, ou, pelo menos, como uma disputa de forças internas para se chegar a um produto final, há Um manual de como encontrar a sua salvação, o depoimento de Sidney Rocha sobre a feitura do seu livro de contos O destino das metáforas. Aqui, o autor se debate entre escrevê-los ou retomar um romance abandonado. Na luta, quem vencerá? Enquanto se debate, o autor quase se afoga. Ele dá ao texto encomendado pelo jornal um corpo ficcional, como se fosse uma metáfora daquilo que é mesmo um sofrimento.

Schneider Carpeggiani (Org.) FICCIONAIS Cepe Reunião de textos de escritores sobre seus processos criativos

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POESIA Feita de tempo e memória

Marcelo Mário de Melo lança livro em que reúne 116 poemas já publicados e inéditos, escritos de 1967 até os dias atuais

REPRODUÇÃO

TEXTO Débora Nascimento

Leitura Em Fahrenheit 451, as pessoas se

veem obrigadas a memorizar livros inteiros, como forma de salvaguardar o saber, pois há milícias do governo orientadas para queimá-los. A situação delirante narrada por Ray Bradbury no romance de ficção científica, publicado em 1953, foi vivida pelo escritor pernambucano Marcelo Mário de Melo. No período de oito anos, 43 dias e 19 horas em que esteve detido como preso pilítico, durante a ditadura militar, o autor submeteu-se a memorizar trechos inteiros para não perder seus escritos. “Foi na prisão que me apliquei em decorar, pois os caras davam batidas e levavam os papéis; perdi um bloco de anotação de texto. Desde então, tudo que faço, eu decoro; só se cortassem minha

cabeça”, conta o autor, que usará – mais uma vez – a sua prodigiosa e treinada memória para recitar alguns poemas no lançamento de seu mais novo título, Os colares e as contas, no dia do seu aniversário, 24 deste mês, no Museu do Estado de Pernambuco. O livro, apoiado pelo Funcultura, é uma espécie de coletânea que passeia por quatro décadas, com versos que vêm sendo escritos desde 1967. Nele, o autor reúne 116 poemas distribuídos em cinco seções: Linhas gerais, Poemas antiburocráticos, Coisa de prisão, Poemas verbovisuais e Pichemas. A edição, com tiragem de 1.500 exemplares, traz apresentações dos poetas Pedro Américo e Everardo Norões, que escreveu o prefácio.

Em Os colares e as contas, o poeta volta seu olhar atento e crítico para vários temas. Não lhe escapam a burocracia, a crueldade, a instituição “partido político”, a injustiça, a pobreza e o autoritarismo, em versos nos quais se utiliza de lógica e ironia, mas também de sabedoria, bondade e esperança – ingredientes necessários para a disposição de criar poemas de protesto a essa “altura do campeonato”. “Ainda acredito na poesia de protesto. Um poema pode permanecer por muito tempo, independentemente do seu objetivo. Pode ter uma função momentânea e, ainda assim, uma validade maior. Há no poema um valor histórico. Por exemplo, o que falo sobre a greve de fome (no cárcere, o poeta fez cinco). Ainda há greves de fome no mundo”, observa. Marcelo não abriu mão de exercer a justiça em Os colares e as contas, talvez pondo em prática a filosofia que cunhou no poema Nem algozes nem vítimas: “Somos todos iguais perante a vida”. Como explica: “O que fiz foi botar os dedos na própria ferida, mas sem caluniar o inimigo. É importante não cometer falta no jogo, isso é difícil. Por isso, critico tanto a direita quanto a esquerda. Não há um milímetro de calúnia, de retórica. Aprendi isso lendo Graciliano Ramos”. Nos poemas, Marcelo distribui tanto lirismo (“As mães dos presos/ não são propriamente/ pessoas/ são relógios de amor/ que nunca param/ as suas pulsações/ de passos/ lágrimas e solidárias/ esperanças/ carceradas”, em Mães dos presos) quanto humor (“Sinteticamente/ eis a verdade/ o pior da cadeia/ não são as grades/ são os outros presos/ e o diretor”, em O mal-estar do preso ou Poluição humana). Marcelo Mário de Melo é um homem que não desperdiça seu tempo, está sempre escrevendo versos e prosas, revisando seus inéditos (há ainda muitos engatilhados), desenhando e construindo estantes de madeira. Por ter um senso pragmático, nunca aguarda por inspirações: “Existem poemas mais súbitos, sim. Mas há por aí tentativas de sacralizar o ofício poético. A poesia tem todos os encantos da produção criativa, científica e artesanal. Não quero vulgarizar nem sacralizar a profissão do poeta. Ferreira Gullar diz que é o espanto e o encanto.” Complementando o dito, para o caso dele: e a memória.

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INDICAÇÕES TEATRO

LEXICOLOGIA

JEAN-PIERRE SARRAZAC (ORG.) Léxico do drama moderno e contemporâneo

LUÍS DA CÂMARA CASCUDO Dicionário do Folclore Brasileiro

A proposta da publicação é apresentar tópicos conceituais que estão associados à ideia de “crise do drama” nos séculos 20 e 21. A obra é resultado dos estudos do Grupo de Pesquisas sobre a Poética da Drama Moderno e Contemporâneo, da Universidade de Paris III – Sorbonne Nouvelle.

Esse clássico do folclorista e historiador chega à sua 12ª edição. Publicado pela 1ª vez em 1954, faz um compêndio de verbetes sobre o folclore brasileiro, suas lendas, mitos, supertisções, entre outros aspectos, coletados por Cascudo em 15 anos de trabalho. A última atualização pelo autor foi em 1979.

Cosac Naify

Global Editora

ENSAIO

ANTONIO CARLOS XAVIER (ET AL.) Hipertexto e cibercultura: links com literatura, publicidade, plágio e redes sociais Respel

A obra reúne textos que analisam as relações entre o hipertexto e a cibercultura com a crítica literária, a publicidade e os trabalhos acadêmicos. Texto de Pierre Lévy abre a série. No total, são 10 artigos que merecem profunda reflexão.

JORNALISMO LITERÁRIO

RYSZARD KAPUSCINSKI O xá dos xás Companhia das Letras

Estamos diante de um relato que mantém o tom pessoal sobre um acontecimento histórico de larga repercussão mundial: a queda do xá do Irã, Mohammed Reza Pahlevi, em 1979. O jornalista polonês estava lá, como correspondente internacional, e narra os fatos a partir de fiapos da História.

Ensaios

COMPÊNDIO SOBRE A CRÍTICA LITERÁRIA Após quase duas décadas de pesquisa e seleção de textos, o livro Uma ideia moderna de literatura: textos seminais para os estudos literários (1688-1922) chega aos leitores e estudiosos de Letras. O projeto surpreende por reunir ensaístas de alto nível e também propor uma reflexão longa e complexa sobre a produção crítica que vai do século 18 ao 19. À frente desse trabalho, está o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Roberto Acízelo de Souza, que identifica na proposta uma certa nostalgia da unidade de pensamento sobre a temática literária, já que vivemos em um período de exaltação do breve e do fragmentado. O compêndio totaliza 640 páginas de teorizações que, muitas vezes, oferecem entendimentos opostos sobre produção da época. É o caso, por exemplo, da discordância evidente entre Hegel e Kant (gravura ao lado) em seus textos de

apreciação da arte. Como antecipam os dois nomes já citados, o livro não se atém unicamente àqueles que se dedicaram exclusivamente aos estudos da literatura ou à sua produção – críticos e escritores – , mas se estende também a filósofos e historiadores, mostrando que, na modernidade, esse não era um debate restrito a especialistas da área. Essa variedade de vozes foi algo conscientemente incorporado dentro dos critérios préestabelecidos pelo organizador e que são indicados na apresentação ao livro. “Os ensaios aqui reunidos foram selecionados não segundo um princípio exclusivo, mas conforme um amálgama de critérios. Assim, além da qualidade e da representatividade, levamos em conta a diversidade de origem, procurando manter no conjunto um relativo equilíbrio entre a especialidade dos autores escolhidos, razão por que se

contemplam contribuições de poetas e ficcionistas, de filósofos, de retóricos, de historiadores e de críticos literários. Do mesmo modo, buscamos acolher todas as grandes tradições literárias linguístico-nacionais, a fim de assegurar a presença de cada uma delas de acordo com a proporcionalidade possível.” Dessa forma, figuram na obra muitos pensadores europeus, mas também brasileiros e hispano-americanos. A distribuição dos textos é feita a partir de grandes blocos temáticos. São eles: reflexão ontológica, o sistema das artes, a consciência artesanal, a reflexão metodológica e a análise retórica. Entre os ensaios presentes na publicação estão A imaginação (1859), de Charles Baudelaire, O que é arte? (1898), de Tolstói, Sobre a arte poética (1820), de Arthur Schopenhauer, O princípio poético (1848), de Edgar Allan Poe, e A arte da ficção (1884), Henry James. GIANNI PAULA DE MELO

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

Claquete

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RETROSPECTIVA Eduardo Coutinho por ele mesmo

Paradigma no gênero documental, diretor seleciona filmes de sua autoria para mostra que lança versão digital do seminal Cabra marcado para morrer TEXTO Luiz Fernando Moura

Se houve um cenário “uterino”

para o cinema brasileiro da retomada, um certo Eduardo Coutinho recolhia sua obra à dimensão modesta de um “embrião”. Entre 1984 e 1999, já havia uma grande realização atribuída a Coutinho, concretizada em documentário batizado de Cabra marcado para morrer (1984). Sua repercussão provocava um autor sem vaidade, que produzia vídeos socioeducativos junto ao Centro de Criação de Imagem Popular (Cecip), ONG na qual aprendia a ouvir com precisão e esculpia um projeto de cinema moldado pelo encontro. Exemplares hábeis de seu labor de escuta estão na programação da Expoidea, evento que ocorre entre

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1 CABRA MARCADO PARA MORRER

No filme, o diretor já desenvolvia um projeto de cinema moldado pelo encontro 2 EDIFÍCIO MASTER Coutinho ouviu moradores de um prédio de 276 apartamentos conjugados, em Copacabana

os dias 8 e 13 de maio no Recife. O Cinema São Luiz receberá cinco de seus longas, escolhidos pelo cineasta – entre eles Santo forte (1999), Edifício Master (2002), Jogo de cena (2007) e As canções (2011). Na abertura, haverá a exibição do filme cuja importância reflete a militância em torno de questões estéticas e políticas arremessadas com a reconquista democrática: Cabra marcado para morrer, que acaba de ser restaurado em cópia digital. A reportagem acompanhou o seu relançamento, no festival É Tudo Verdade, ocorrido em São Paulo. Data curiosa: no mesmo 31 de março, mas em 1964, o golpe militar interrompia as filmagens do que seria então

o longa, uma peça de esquerda encampada por Coutinho em sua atuação junto à União Nacional dos Estudantes (UNE). Também no mesmo dia, só que em 1984, o filme viria a público em sua versão final. Ironia que o golpe da repressão fosse fundamental para a consolidação de seu projeto de cinema. No original da década de 1960, Cabra... tratava-se de ficção que reencenava o assassinato do líder das Ligas Camponesas João Pedro Teixeira, na Paraíba. O elenco incluía personagens da história real, como a esposa de João Pedro, Elizabeth Teixeira, no papel de si mesma. O filme definitivo surgiu com a recuperação dos negativos da obra interrompida, após a Lei da Anistia, e com a busca de Coutinho pelos envolvidos na gravação, 17 anos depois. Elizabeth, descoberta foragida no interior do Rio Grande do Norte, cultivava o desejo de reencontrar sua família esfacelada pelo regime. Se, a partir de Cabra..., Coutinho desenvolveu a pesquisa de linguagem que resultou em obras fundamentais nos últimos anos, é também nesse longa que ele condensa o fundo estético de um passado deixado de fora dessa mostra, mas cuja existência anterior reverbera suas ideias de que

não há proposição no documentário se não há pensamento das formas e de que, principalmente, a verdade é uma questão de encenação. Primeiro vieram ficções muito políticas, stricto sensu, de sabor cinemanovista. Seja em O homem que comprou o mundo (sobre um funcionário público que acaba de se tornar milionário, enclausurado pelo governo federal), em Faustão (tragédia sobre a luta de classes no cangaço), ou mesmo em roteiros como os de A falecida, de Leon Hirszman, e de Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto, nos quais trabalhou, Coutinho “tentou aprender a dirigir atores”. O movimento duplo desse aprendizado seria crucial: “aprender a não dirigir atores”. Teria gatilho no período em que produziu documentários para o Globo Repórter, obras de saudoso espetáculo televisivo imaturo, em que se permitia experimentar. Foram trabalhos como Seis dias em Ouricuri, viagem à seca pernambucana, ou o raro artefato Theodorico, o imperador do Sertão, narrado e conduzido pelo personagem-título, um senhor de engenho, de especial frescor em tempos de marketing e consciência ubíqua do espetáculo.

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Dali em diante, e tendo Cabra marcado para morrer como conquista seminal, Coutinho tornou a palavra fetiche de enunciação e encenação. Da luta de classes, assentou um cinema das micropolíticas. Santo forte, longa sobre religião, dispensa o recorte etnográfico das imagens de rituais: a proposta de um filme vertebrado por entrevistas com pessoas comuns tornou-se potente retrato da interreligiosidade brasileira, sendo também uma articulação entre desejos e medos sociais. Outros documentários bem estruturados e com muitos personagens viriam, como o dos moradores de um prédio de 276 apartamentos conjugados em Copacabana, Edifício Master, que pareceu encerrar em vitrines uma “gramática Coutinho”. Desde Cabra..., o cineasta lançou-se na busca pela dramaticidade da fala. Tornou-se cada vez mais um esteta

Claquete do encontro, desprezando os planos de cobertura, a narração em off e a trilha sonora. Em Jogo de cena, abole diferenças entre atrizes e “mulheres comuns” em relatos de experiência em que não está clara a indexação ficcional ou, como gostamos de dizer, “real”. Conceitos de “verdade” ou “mentira” são irrelevantes, sugere-nos Coutinho, mas a contundência de uma dramaturgia da oralidade. O cineasta arriscou, ainda, extinguir a entrevista, em filmes como Moscou (2009), registro direto de montagem teatral de As três irmãs, de Tcheckov, ou Um dia na vida (2010), corte de cenas zapeadas na televisão, feito para exibição única na Mostra de Cinema de São Paulo. As canções, em que colhe relatos de anônimos dispostos a cantar faixas fundamentais em suas vidas, esboça nova síntese: Coutinho estaria preocupado, enfim, com a essência das tensões entre a intimidade e o mundo lá fora, mundo muito brasileiro, mas que, atenção!, só existe enquanto é fala e filme. “São melodramas com economia de meios”, observa.

Entrevista

DIVULGAÇÃO

EDUARDO COUTINHO “FAÇO FILME PARA O BRASIL E ESTOU CONTENTE COM ISSO” Perto dos 80 anos, o cineasta

que, involuntariamente, criou um “modelo” de documentário no Brasil mantém a ênfase no projeto de um cinema de riscos, o fascínio enviesado pelas narrativas televisivas e expõe o interesse por filmes inacabados. Mas se resguarda numa zona de conforto: reafirma que forma é conteúdo, diz que está velho e cansado e hesita sobre se ainda há algo a produzir. CONTINENTE Seus filmes sugerem um jogo entre atuação, encenação, verdade. Ao mesmo tempo, você tem um trabalho, nos primórdios, com ficção. Por mais que tenha se estabelecido como documentarista, a ficção está lá. De que forma esses filmes têm impacto sobre sua obra atual? EDUARDO COUTINHO Foi uma escola importante. Mas se eu não tivesse Cabra marcado para morrer no armário, talvez não voltasse nunca a fazer cinema. Não rejeito esses filmes de ficção, mas eu era outra pessoa. Quando fui fazer Cabra..., sabia o que queria. Quando eu fazia ficção, hesitava.

CONTINENTE Entre seus momentos como roteirista e diretor de ficção, mais perto do Cinema Novo, e como documentarista, pontuado por Cabra marcado para morrer, ocorreu uma ruptura? EDUARDO COUTINHO Fiz esses filmes para ganhar a vida. Têm pouco a ver com o que eu descobri depois de Cabra... Na ficção, tentei aprender a dirigir atores, e com Cabra..., e tudo o que fui fazer depois, aprendi a não dirigir atores, entende? Praticamente, sou parceiro do cara que está falando, e por isso consigo coisas que outros não conseguem. Me entrego a escutar e ter um diálogo com o outro. E aí

“Me entrego a escutar e ter um diálogo com o outro. E aí você tem que ficar vazio de intenção, de estética, de tudo” você tem que ficar vazio de intenção, de estética, de tudo. É claro que acaba tendo, no documentário que eu faço, um germe de ficção violento. Como o Godard dizia, todo grande documentário tende à ficção e toda grande ficção tende ao documentário. CONTINENTE E quanto aos documentários que você fez para o Globo Repórter? Theodorico, o imperador do Sertão, se lançado como filme, hoje seria impactante. EDUARDO COUTINHO O problema é que

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pouco em Cabra..., só que radicalizei no uso da palavra. As pessoas que falam, falam diante da câmera, para mim é uma regra. Em Cabra... tem alguma coisa disso, porque aparece a equipe, eu apareço. Como posso tirar minha voz, se estou filmando diálogos? O que estou filmando é uma interação entre duas pessoas, uma de um lado da câmera, outra, de outro. Isso tem um conteúdo erótico, no sentido mais amplo da palavra. A palavra me interessa porque o corpo fala. Se o corpo fala, a presença dele é essencial. Cinema é imagem e som, pelo amor de Deus. Resolvi fazer filmes que fossem baseados na força da palavra, por isso meus filmes não vendem lá fora. Faço filme para o Brasil e estou contente com isso.

o filme não é meu. O filme é da Globo. Precisaria pedir autorização. Eu adoraria porque é o único filme que fiz com um membro da classe dominante, um senhor de escravos. Mas tem problemas com a qualidade do som, porque é muito antigo, feito em reversível. CONTINENTE Você já tentou chegar nesse universo social outras vezes? EDUARDO COUTINHO Acho que deve ser feito e que o documentário brasileiro não enfrenta a classe dominante, a política brasileira, mas não tenho o menor interesse nisso. Não me interessa nenhuma pessoa pública. Seja Ivo Pitanguy, seja Lula, quem for. Porque figura pública não se entrega, tem muito a perder. CONTINENTE Você sempre defende uma diferença essencial de forma entre documentário e o telejornalismo. Um dia na vida reforça

uma tensão entre os seus filmes e o que se vê na televisão brasileira. Você assiste à televisão, traz coisas dela para o seu trabalho? EDUARDO COUTINHO Você vê que não tem um plano de seis segundos em silêncio. Como eu acho que forma é conteúdo, digo que o problema da televisão é de forma. Eu ouço televisão, porque em geral não precisa olhar. Não tem a menor importância o que está na imagem. Tem um programa em que uma mulher vende anel. É um programa que vende esse produto, e tem uma mão que aparece com 200 anéis, é maravilhoso. É um horror, e é fascinante. CONTINENTE Fala-se muito que os primeiros filmes de cineastas já apresentam o que vai se ver ao longo da sua obra, assim como em Cabra... diversas questões que permeiam seu cinema já estão presentes. EDUARDO COUTINHO Tem coisas que fiz depois – nelas, a origem está um

CONTINENTE Parece-me que o Coutinho de Edifício Master tinha estabelecido uma linguagem, então vem Jogo de cena, que cria essa brincadeira com o espectador, até que, antes de As canções, veio Moscou, que para muita gente pareceu um filme de ruptura. EDUARDO COUTINHO Foi um risco. Tudo era absurdo. Paguei para ver o que dava, com uma companhia que eu não conhecia, três semanas de filmagem, um sofrimento. Ninguém entende o texto, por isso o filme foi muito mal, não teve nem oito mil espectadores. Eu gosto dele, mas me embananei, fiquei com um copião de quase cinco horas. Foi complicado, mas acho que tem um mistério nele. Não é confortável para as pessoas porque o que é esse filme? É uma peça, o que é? É um filme que, para mim, é inacabado. Adoro coisa inacabada. Aliás, o ideal é morrer com um filme na metade, que ninguém deixe pronto. CONTINENTE Seus projetos futuros. Tem algum engatilhado? EDUARDO COUTINHO João Moreira Salles quer que eu faça um filme, mas tem que me chicotear, porque tenho a impressão de que não aguento mais filmar o que não quero. Não sei se vou ter condição física e moral de fazer, porque estou cansado, estou velho. LUIZ FERNANDO MOURA

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INDICAÇÕES DIVULGAÇÃO

DRAMA

HISTÓRIAS CRUZADAS

Claquete

Direção de Tate Taylor Com Emma Stone, Jessica Chastain, Viola Davis Disney

Quando você se depara pela primeira vez com o rosto de Aibleen na tela, é inevitável perceber nela alguma espécie de dor. A sensação é fruto da intensa atuação de Viola Davis, que ganhou o Globo de Ouro e foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz pela personagem. O elenco é o grande destaque desse filme de Taylor, que, no entanto, também encanta pela bela fotografia e leveza com que conta uma história a partir de um tema delicado, o preconceito.

SUSPENSE

MILLENIUM: OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES Direção de David Fincher Com Daniel Craig, Stella Skarsgad, Rooney Mara Sony Pictures

Este é um típico filme de Fincher (Clube da luta, 1999, e Seven, 1995): uma história sombria, com uma heroína errática e trilha sonora de arrebatar. Adaptação do primeiro livro da saga Millenium, de Stieg Larsson, traz uma hacker e um jornalista tentando desvendar uma série de assassinatos. O longa é um dos raros remakes que superaram seu original (de Niels Arden Oplev).

Alexina

RETRATO DE UMA MILITANTE Você dificilmente ouviu falar dela. Ignorada pelos livros de história brasileira, quem quiser saber mais sobre Alexina Crêspo terá problemas para encontrar informações. Companheira de Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas – movimento que surgiu em 1955 na zona da mata pernambucana, e foi extinto em 1964, com o golpe militar –, a jovem nascida em uma tradicional família católica era um dos braços mais importantes dessa luta. Com a chegada do documentário Alexina – memórias de um exílio, dirigido pelos jornalistas Claudio Bezerra e Stella Maris Saldanha, o espectador se aproxima da rica história dessa personagem, através das memórias afetivas do período em que ela esteve no exílio em Cuba, acompanhada por seus filhos, e pelo olhar de Fidel Castro. No curta, é possível perceber a importância de Alexina dentro das Ligas Camponesas. Espécie de embaixadora internacional do movimento, ela conheceu também Che Guevara e Mao Tsé-Tung, com quem chegou a negociar a entrada de armas no Brasil. Apesar de correr o risco de tornar-se cansativo e demasiadamente sério, graças à sua temática e formato tradicional, o documentário foge dessas armadilhas, mantendo uma narrativa que se assemelha a uma conversa. É quase como se o espectador estivesse ao lado dos diretores, na sala de estar de Alexina, ou nas ruas de Cuba, caminhando com Anatólio Julião, filho do casal revolucionário. Outro ponto forte são as imagens de arquivo, que incluem fotografias e vídeos, e a montagem ágil de Marcelo Pedroso, que insere bom ritmo ao documentário. Exemplo disso está em uma das cenas mais marcantes do curta, que intercala o silêncio emocionado de Anatólio, Alexina e a estátua pensativa de José Martí, símbolo da independência e revolução cubana. É uma bela experiência ver os depoimentos lúcidos de Alexina, aos 85 anos, e perceber que, uma vez que se entrega a alma a uma causa, ela caminha ao seu lado pelo resto da vida, mesmo nos momentos de cansaço e frustração. GABRIELA ALCÂNTARA

AÇÃO

ROMANCE

Direção de Nicolas Winding Refn Com Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston Imagem Filmes

Direção de Luca Guadagnino Com Tilda Swinton, Marisa Berenson, Edoardo Gabbriellini Paris Filmes

DRIVE

Para que falar, se você pode bater? Parece ter sido essa a opção de Refn em Drive. O filme economiza nos diálogos, mas solta a mão quando o assunto é sangue. Contudo, isso está longe de ser ruim. A produção é uma experiência cinematográfica incrível que começa antes mesmo dos créditos iniciais, com uma cena de perseguição de tirar o fôlego. Isso sem falar na riqueza do personagem principal, que não tem nome e, muito menos, caráter definido.

UM SONHO DE AMOR

Guadagnino faz uma série de homenagens ao diretor Luchino Visconti e ao cinema italiano nesse filme que conta a história de amor entre Emma (Tilda), matriarca de uma rica família, e Antônio (Gabbriellini), um cozinheiro que consegue apresentar novos sabores à rígida mulher. Elegante, denso e arrebator, o longa-metragem tem todos os elementos para descambar em uma tragédia, mas revela a sensibilidade do diretor em seu desfecho com toques de epifania.

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REPRODUÇÃO

STRINDBERG Inquietação e pessimismo

Pilar do teatro moderno, o autor de O pai expressou seu desajuste às convenções da época TEXTO Fernando Monteiro

Palco “A sociedade é um asilo de loucos cujos guardiões são os oficiais da lei.” A definição é de August Strindberg, o gênio sueco falecido em 14 de maio de 1912, numa Suécia ainda mal-acostumada com o cidadão e o artista de opiniões firmes (e expressas sem meias palavras). Um autor mundialmente conhecido como escritor, ensaísta e, mais que tudo, um dos criadores do teatro moderno. Nascido em Estocolmo, no dia 22 de janeiro de 1849, Johan August Strindberg foi aquele tipo de pessoa cujo molde parece, hoje, definitivamente perdido: o “homem de curiosidade”, modelo oriundo do caldo remoto da Renascença, ou seja, um inquieto fundamental e, no seu caso, ainda por cima avançado da Revolução

Industrial que exacerbou o típico olhar leonardiano de quinhentistas preocupações multifocais. Tais carcterísticas fizeram desse escandinavo da têmpera dos Kierkegaard também um jornalista de olhar vigilante, crítico social e “curioso” versado tanto na ciência (Química e Medicina) quanto no jogo da política, sem mencionar certo gosto pelo ocultismo e, naturalmente, pelas questões estéticas em ebulição na sua época. A irrequieta segunda metade do século 19 marcou a vida adulta do homem de letras, também pintor, e que, como novelista, se tornou um dos renovadores do idioma do país no qual o seu teatro íntimo surgiu escandalosamente, no nº 20 da Rua

Norra Bantoget. Nele funcionou, entre 1907 e 1910, a casa de espetáculos cuja atração era fazer pensar (ao propor dilemas), e não expor dançarinas seminuas como as da Paris daquele tempo, nem revolver a importância de ser Ernesto numa Londres disposta a apreciar teatro nos limites da compostura burguesa, permitindo-se rir, no máximo, das tiradas dândis de Wilde (antes da prisão em Reading). Influenciado pelas encenações de Ibsen, o ex-estudante de Uppsala passaria de uma fase naturalista para o pré-expressionismo patente na sua obra literária da idade madura, após irromper com um poder dramatúrgico próprio e ainda mais carrancudo do que o do seu mestre norueguês. Esse

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FOTOS: DIVULGAÇÃO

Palco 1

poder estava fundado na personalidade mística de Strindberg – com alguns sinais de esquizofrenia –, o que podia desaparecer para dar lugar, no teatro, a um observador agudo da vida dos casais, em primeiro plano, e à vida em sociedade, numa casa de espetáculos particular que ele só pôde reservar para os seus dramas após obter um ótimo emprego na Biblioteca Real, em 1874. A boa situação também permitiu que se casasse, três anos depois, com a baronesa Siri Von Essen, porém esse primeiro casamento (haveria mais dois) foi suficiente para aprofundar o temperamento misógino de um polemista capaz de, ao mesmo tempo, defender os direitos das mulheres. Para ele, a instituição do matrimônio era não menos que “uma armadilha”. Fora dessa gaiola privada, o ser humano se defrontava com as demais armadilhas da vida numa sociedade que o autor de Inferno via como a réplica gigantesca do microcosmo de um hospício. A favor dos pacientes, ninguém. Contra os internos, os rigores da lei mantida pelas instâncias do Estado opressor como um pai de chicote na mão. Ou, por partes: a primeira visão, referente a um homem e uma mulher unidos por força do contrato legal, implicava muito mais do que um mero ajuste de personalidades associadas para

O pai é um texto centrado no desejo de controle do Outro, discutindo temas como a obediência e a submissão levar adiante a célula familiar; e a segunda resultava na extensão das contradições internas subindo à tona do tecido social para tornar visível a falsa aparência das convenções.

“O HORROR! O HORROR!”

Estamos no pleno território de eleição temática da maioria das 58 obras desse dramaturgo atento ao particular e ao público, à dicotomia entre o feminino e o masculino (cujas oposições e ambivalências interessaram também a contemporâneos seus, como o escritor Arthur Schnitzler e o médico Sigmund Freud) e às formas de convivência cujo “inferno” prenuncia o Franz Kafka devoto da obra strindberguiana: “Não a leio só por ler, mas para me abraçar ao peito do seu autor”... A citação de Schnitzler e Freud – dois grandes nomes da Viena fin-de-siècle – pode dar ideia do que significou, num certo momento, ter contato com

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o tortuoso “caminho de Damasco” de um europeu do Norte na sua sondagem da psiquê e da vida em comum transida pela força dos impulsos de toda ordem e pela noção de regra, do limite e de outros muros impostos à visão “de dentro”. Isto é, ao espreitar daquilo que, levado ao extremo, seria mais tarde resumido pelo romancista inglês de origem polonesa Joseph Conrad: “O horror! O horror!”, troando no interior do Congo da alma humana. Uma espécie de anedota verídica dá uma boa ideia das ousadias do autor de Senhorita Júlia (uma das inesquecíveis interpretações da saudosa Dina Sfat): o já citado Henrik Ibsen – grande dramaturgo norueguês – confessou uma vez: “Tenho um retrato do maluco Strindberg na parede em frente à minha escrivaninha. Ele me inspira”. O rival de Strindberg nos palcos nórdicos escolheu tal “retrato” a dedo e, certamente, com uma ponta de ciúme profissional do autor 20 anos mais moço e pelo menos 40 anos mais desabusado em que tudo que resolvia tocar, a fim de pôr a marca pessoal do seu desassossego. A Suécia austera não deixaria impune o dramaturgo maior dos gelos passionais e oficiais. Strindberg teve censurado o romance O povo da Suécia, assim como amargou a perseguição após escrever As pessoas de Hëmso. Motivo da sua fuga para

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1 SENHORITA JÚLIA Peter Macon e Yvonne Woods, do Yale Repertory Theatre, na versão de Liz Diamond para o texto 2 CREDORES Erik Marmo e Reynaldo Gianecchini no espetáculo rebatizado de Cruel, no Brasil, em cartaz em São Paulo 3 O PAI Pôster feito para a peça, que ganhará várias montagens neste centenário da morte de Strindberg

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a Paris que, pelo menos, permitia que seus escritores e artistas a chicoteassem com palavras da amenidade dos boulevares – porque a franqueza dos Sade também era passível de ser recolhida aos manicômios, onde os loucos encenavam a doidice da vida real.

O PAI

August temia a loucura e o suicídio, principalmente quando se dedicou a escrever um dos seus textos teatrais mais elaborados: O pai. Nele, está presente o legado afetivo/ideológico de natureza religiosa e cristã. O fundo desse texto faz transparecer o paradoxal conjunto de valores conservadores que era um dos tormentos de Strindberg, na medida em que seu dedo acusador pugnava por denunciá-lo, ao mesmo momento em que pressentia essa sombra no seu íntimo, a tal “cruz negra” do epitáfio que escreveu para si mesmo: “Tudo foi expiado, o único monumento que eu solicito é uma cruz negra e a minha íntegra história”. O pai é um texto cujo tema é o desejo de controle sobre o Outro, bordejando os demais subtemas decorrentes do foco central: obediência, hierarquia, submissão etc. Nietzsche se sentiu “possuído pela peça magistral de rigorosa psicologia”, e chegou até a se interessar pela possibilidade de

sua montagem no Théâtre Libre de Monsieur Antoine, em Paris. Fascinado pelo poder de introspecção e autoanálise da peça, escreveu para Strindberg e recebeu uma resposta vinda de Copenhague, no último mês de 1888, na qual o autor de A dança da morte relata que a pesada atmosfera do espetáculo já contava, ali, com casos como o de “uma velha que caiu dura e morta” e o de “uma mulher que parira durante a cena da camisa de força”, sem contar que “três quartos do público costumavam se levantar como um único homem, para deixar o teatro, soltando uivos de protestos espantosos”. Entretanto, nesse drama, ainda hoje pungente, está algo que parte de uma situação só possível antes de a ciência aperfeiçoar os exames específicos de paternidade que, no século 19, eram de comprovação quase impossível para espíritos torturados por tais dúvidas – ao passo que esta nossa época “carnavalizada” leva os testes de DNA e outros até para estúdios de TV surreais, na mostra da derrocada daqueles valores que, antigamente, eram objeto de indagações existenciais, morais e religiosas. Acrescentando-se à visão pessimista da vida em sociedade, esses valores foram os que nortearam

a obra de Strindberg, um homem para quem viver “não podia ser como atravessar um campo”.

ZONAS SOMBRIAS

A arte pictórica de Strindberg participa quase da mesma preocupação dos seus dramas intimistas. O núcleo temático identificável também no cinema de Bergman: no filme Cenas de um casamento, percebe-se bem a atmosfera à Strindberg, e, no autobiográfico Fanny e Alexander, o cineasta faz referência explícita a ele, na cena final em que duas personagens femininas mencionam o desejo de montar a peça O sonho, texto de 1901 do Strindberg que criou inúmeras metáforas para o inconsciente, coincidindo com o que mais tarde – a partir do marco freudiano de A interpretação dos sonhos – se tornaria o pilar da ciência voltada para as zonas obscuras da mente. Tais zonas sombrias estão num quadro como Ruínas do castelo de Tulborn na Escócia, datado de 1872. Strindberg pintava durante suas viagens pela Dinamarca, Suíça, Alemanha e França. Nesta última, frequentou os círculos artísticos de Grez-surLoing, nas proximidades de Paris, e travou amizade com Paul Gauguin, chegando a redigir a apresentação de um catálogo de exposição do “Selvagem”, que levou a um rompimento entre dois gênios difíceis. August Strindberg foi amigo de outros opositores da “arte oficial”, entre os quais devem ser mencionados os suecos Carl Larsson e Karl Nordström. Num desenho de 1883, Larsson chegou a retratar o dramaturgo no ambiente de uma pensão frequentada por artistas, vendo-se Strindberg em primeiro plano, à direita da cena feita para o calendário daquele ano. A têmpera renascentista do “homem de curiosidade”, que já referimos aqui, permitia que um artista não fosse só de um único meio, nem se aferrasse a uma única linguagem, mas procurasse se manter aberto a todas as expressões da inquietação ainda não domesticada ou reduzida a ser apenas um ingrediente de produtos artísticos abastardados para a plena circulação.

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Artigo

CHICO LUDERMIR

WILLIAMS SANT’ANNA A MEMÓRIA DA ARTE CIRCENSE NO BRASIL A imagem de um cachorro amarrado

por uma linguiça é a mais contundente lembrança da memória do meu avô materno. Como seria esse tempo dele, em que cachorros eram amarrados por linguiças? Como raspa do tacho, cresci em meio à gente grande que falava de coisas do “tempo antigo”, dos tostões e de quando o América era o “tampa de Crush” no futebol pernambucano. Garoto suburbano, fui impregnado – sem me dar por isso – de referências culturais cotidianamente definidoras do meu modo de agir, pensar, comer (em todos os sentidos), rezar e reproduzir o que nem imaginava ser arte. Porque, sem saber o que era a vida, acreditava que eu era a vida. As festas religiosas, o carnaval de rua (Ah! Como era fantástico ver o moleque tomar banho no auge da brincadeira das Lavadeiras de Areias), o Xangô de Dona Preta e os circos no Campo do Piolho ou no Largo do Ipiranga, e, um pouco mais tarde, ao lado do açude do Timbi. Tudo isso antes de ser palhaço, dançarino e ator – exatamente nessa ordem. Era no tempo em que minha mãe cobria a TV ABC preto e branco com uma proteção de acrílico colorida (verde ou azul, durante a semana, e multicolorida, aos sábados, domingos e feriados), bem antes do estouro de Tapacurá – que nunca estourou. Essa narrativa da minha memória, aparentemente sem valor histórico para o mundo, lembra o ofício do narrador historiográfico, citado por Baudelaire, como um “trapeiro”, um catador de sucata e lixo. Aquele que recolhe cacos, restos, detritos, para garantir sua sobrevivência, mas também para que nada seja perdido, esquecido. É o registro que a historiografia oficial, durante séculos, não soube o que fazer com ele, e que por isso foi deixado de

lado como algo sem significação, importância e sentido. Era a sobra do discurso histórico. O excitante debate teórico que estimula a discussão sobre a relação entre história e memória tem atravessado gerações de historiadores, envolvendo os objetivos e fundamentos do seu trabalho. A memória está a serviço da construção de referenciais sobre o passado e o presente dos grupos sociais, refletindo a intimidade de suas mudanças. O desenvolvimento da historiografia foi forjado, inicialmente, em registros memorialistas, como as fontes orais. A partir do século 18, quando a história ganha o status de ciência, essa memória constituída a partir da oralidade passa a não mais ser considerada uma fonte segura para o historiador. A ciência – única forma de conhecimento – deve

produzir verdades únicas, objetivas e absolutas. Esse pensamento permaneceu vigoroso até a primeira metade do século 20, quando importantes historiadores propuseram a diversificação de temas mais voltados para as “pessoas comuns” e relativizaram a importância de “marcos políticos” para a escrita da História. Esse foi o primeiro passo – que culminou com a diversificação do uso de fontes, englobando também a iconografia, a literatura e trabalhos artísticos. A arte circense, por sua característica itinerante e sua constituição restrita a grupos sociais singulares e específicos – em muitos casos, consolidados por laços familiares –, criou naturais mecanismos do repasse de saberes e memória do seu cotidiano essencialmente pautados na oralidade.

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BEM IMATERIAL

A arte circense brasileira começou a se forjar no século 19, a partir da chegada de famílias tradicionais desse campo, oriundas de vários países, sobretudo da Europa. Incorporando diversas expressões artísticas regionais, no Brasil, o circo adquiriu algumas características que o diferem da prática de outros países, ao mesmo tempo em que, por sua origem, mantém elementos essenciais que efetivam sua integração original ao moderno circo, surgido na Inglaterra, na segunda metade do século 18. Parte indissolúvel da modernidade brasileira, essa arte pode ser considerada um bem imaterial da nossa cultura – elemento fundamental da representação de nossa pluralidade cultural e expressão dos diversos sotaques orais, políticos, econômicos, sociais e geográficos de nossa brasilidade. É a manifestação das artes

cênicas que mais autenticamente representa a fala de cada rincão deste vasto país. Mas sua herança histórica, pautada na oralidade e numa forma quase artesanal de organização e gestão, e a ausência durante décadas de políticas públicas capazes de perceber sua importância como expressão determinante da nossa identidade, empurraram a arte circense para a periferia das periferias, sucateando as companhias itinerantes, apressando a falência artística e moral de vários artistas. Reagindo a esse destino, sua natureza doméstica e artesanal, sua capacidade natural de absorver o entorno em sua própria expressão, e sua peculiar forma de se comunicar (dizem que notícia em boca de circense chega mais rápido do que e-mail) forçaram – ao longo das três últimas décadas – uma reformulação

no processo de ensino de seus saberes. Isso, na maneira de gerenciar sua cadeia produtiva, de se organizar enquanto movimento, de forçar a atenção dos poderes públicos para a sua presença no universo cultural brasileiro e, particularmente, na busca de formas e conceitos diversos de registro e difusão de sua memória. Do tempo em se amarrava cachorro com linguiça, tem ressurgido, através de pesquisas promovidas por estudiosos voluntários ou motivados por processos acadêmicos, uma memória abastecida de importantes ações do circo para a construção do moderno pensamento brasileiro sobre si e sobre o mundo. Na última década, personagens e fatos, e suas contextualizações com momentos históricos do Brasil, aparecem reafirmando essa arte que, durante muito tempo, e ainda hoje, é uma das mais populares e acessíveis do nosso país. Em Pernambuco, duas importantes obras foram editadas, nos últimos anos, com o apoio do governo de Pernambuco, através do Funcultura: o catálogo Circo social no Brasil (2009), idealizado pelo artista e pesquisador Bóris Trindade Júnior (Borica), registrando os grupos, escolas e projetos que integram a Rede de Circo do Mundo Brasil, movimento fundado no Brasil em 2000; e Circo social: a experiência da Escola Pernambucana de Circo (2011), resultante da monografia de especialização em Ensino das Artes – UFPE, do artista de teatro e historiador Rudimar Constâncio. E, através do Prêmio Funarte Carequinha de Estímulo ao Circo (2010), o artista circense e sociólogo Gilberto Trindade prepara um documentário sobre a vida de Wilson Ribeiro da Silva, o mágico e proprietário de circo, mestre Alakazam. Esses registros fazem aflorar lembranças opacas da memória coletiva da nossa gente, que pouco a pouco retomam suas cores. Números, artistas, circos, piadas, proezas, que pertenciam ao universo individual da memória de quem as presenciou, passam a ganhar status de documento da lembrança de um passado intrinsecamente relacionado à nossa expressão cênica brasileira contemporânea.

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Fernando Augusto

VIAJANDO PARA VIVER

Fernando Augusto

é artista plástico e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e pela Université Paris I – Saint Charles – Sorbonne LÚ STREITHORST/DIVULGAÇÃO

“Não viajamos para chegar , viajamos para viver”, assim J.W. Goethe descreve o elemento essencial que anima a alma do viajante e o propósito de toda viagem: viajar para descobrir, para conhecer, para se animar, para viver. Com esse espírito, é que, no período de 11 a 23 de janeiro 2012, embarco em um navio hospitalar da marinha brasileira para subir o Rio Madeira, de Manaus a Porto Velho, com o propósito de acompanhar o trabalho de atendimento médico que a instituição faz à população ribeirinha; de conhecer um pouco os diversos cenários amazônicos e de exercitar uma prática muito presente na formação de nossa cultura: a do artista viajante, aquele que sai para ver, descobrir, desenhar o que viu e criar imagens de uma geografia distante, desconhecida, imaginada, falada. Navio Carlos Chagas, uma jornada de 12 dias de navegação, ida e volta. A tripulação, a cada momento, me pergunta qual é o meu trabalho e por que desenho. E se admiram das imagens que vou produzindo. Aos poucos, eles próprios querem se ver retratados e, por fim, quando dou uma pequena palestra para eles na praça d’armas (sala de reunião dos oficiais), participam com perguntas efusivas e agradecem pelo ensinamento. Perguntam como é retratar uma paisagem usando somente lápis e parecem só acreditar que linhas e rabiscos se tornam paisagens porque as veem nascer. Eu também me pergunto o que é desenhar e, talvez por isso mesmo, desenho todo o tempo da viagem: os objetos, as pessoas, o céu, a água, a paisagem. Encontro no desenho o animador da vida diária. Nas várias comunidades em que o navio ancora para prestar atendimento, desço para conhecer e desenhar. Assim é que, num clima descontraído, vou desenhando árvores, nuvens, crianças, homens e mulheres que encontro. De uma forma geral, eles se divertem com a situação e sorriem ao se verem retratados. Tento registrar o que vejo e o que encontro em imagens gráficas, mas tudo desaparece, mal chega a materializar-se. Então crio imagens que se ligam àquelas, mas que me dizem algo a respeito do existir. Aprendo que guardar uma imagem é inventá-la. Artistas viajantes são aqueles cuja produção encontra-se ligada ao ato de viajar, e cujo trabalho de cunho documental comunica deslocamentos no espaço, descobertas de paisagens e tipos humanos. Eu vim para responder o que é desenhar viajando? Que possibilidades tem o desenho hoje, nessa senda que ele próprio ajudou a construir, face à fotografia digital e às novas tecnologias?

CON TI NEN TE

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preto, quando o logotipo não puder ser reproduzido em cor.

VERSÃO EM NEGATIVO O uso da versão em negativo é permitido em casos excepcionais, com bom senso para evitar a perda da identidade. É indicada apenas em fundos de cores semelhantes às utilizadas na versão principal, que não permitem bom contraste e leitura. Pode ser aplicada também sobre preto, quando o logotipo não puder ser reproduzido em cor.

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SIGAM A LUZ CINE PE 2012. A P RO F E C I A C U LT U R A L .

26/04 a 02/05 Centro de Convenções - PE w w w. c i n e - p e . c o m . b r VERSÃO EM NEGATIVO O uso da versão em negativo é permitido em casos excepcionais, com bom senso para evitar a perda da identidade. É indicada apenas em fundos de cores semelhantes às utilizadas na versão principal, que não permitem bom contraste e leitura. Pode ser aplicada também sobre preto, quando o logotipo não puder ser reproduzido em cor.

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# 137

#137 ano XII • mai/12 • R$ 11,00

CONTINENTE

O FASCÍNIO PELO

HORROR AS RAZÕES QUE LEVAM O SER HUMANO A BUSCAR, NA ARTE, A SENSAÇÃO DO MEDO

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E MAIS EDUARDO COUTINHO | CABRUÊRA SLOW SCIENCE | FÉ EM PESQUEIRA | FRIDA MESTRE HÉLIO | COLIN BEAVAN | GALINHOS

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Continente #137 - O fascínio pelo horror  

As razões que levam o ser humano a buscar, na arte, a sensação do medo.

Continente #137 - O fascínio pelo horror  

As razões que levam o ser humano a buscar, na arte, a sensação do medo.

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