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o sonho, henri rousseau/reprodução

setembro 2011

aos leitores Sim, é verdade que, em décadas passadas, eles estavam mais à vista, ocupando calçadas e passeios. Montavam ali suas tendas, e esperavam os possíveis fregueses para suas composições coloridas, vibrantes. Eram os pintores naïfs. Hoje, verifica-se uma retração de tal fenômeno, e, possivelmente, vamos encontrar como justificativa disso não apenas o maior controle do estado sobre o ambiente urbano, mas a brutalização das relações humanas, numa cidade que cede cada vez mais espaço para indiferenças. Onde se encontram os naïfs, então? Qual o espaço, atualmente, para esse gênero artístico? Foram essas duas perguntas que motivaram, inicialmente, o nosso interesse em abordar o tema da arte naïf. Principalmente, quando sabemos que muitos desses artistas, a maioria autodidatas vindos das camadas mais populares, estabelecem sua relação com o público de forma direta, sem as mediações sofisticadas e bem-articuladas da arte contemporânea, por exemplo. A primeira resposta às nossas indagações apontava para um quadro desolador, pois a mais representativa instituição para o

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gênero no Brasil, com acervo de 6 mil obras, o Museu Internacional de Arte Naïf (Mian), instalado no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, anunciava seu fechamento. Pinturas de artistas importantes como Heitor dos Prazeres, Chico da Silva, Miriam, Bajado, Cardosinho e tantos outros foram enterradas vivas, já que não há verbas para sua manutenção. Quem nos conta essa história é a diretora do Mian, Jacqueline Finkelstein, filha do francês Lucien, que foi admirador e colecionador do gênero, criando uma fundação para sua preservação, agora sob ameaça. O que percebemos, pelo que nos foi trazido pelas reportagens publicadas nesta edição, é que – embora não viva um momento de supervalorização, como ocorreu nos anos 1970, no Brasil – a arte naïf encontra seu espaço e reconhecimento. Artistas que não se detêm em nomear-se como tal, mas que acabam sendo revelados como naïfs, continuam a surgir; galerias para a venda dessas obras se estabelecem e mantêm uma rede de compradores (sobretudo estrangeiros); e o público ainda se admira diante dessa arte que expressa beleza simples e desejo de felicidade.

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sumário Portfólio

Rubem Grilo

6  Cartas

7  Expediente

8 Entrevista

70 Palco

Circo da China Grupo apresenta o espetáculo Sky mirage II em oito capitais brasileiras

+ colaboradores José Marques de Melo Pensador do campo da Comunicação analisa a pesquisa acadêmica no Brasil e faz observações sobre o jornalismo contemporâneo

12 Conexão

Organização Storify reúne conteúdos das páginas mais importantes da web

20 Balaio

11 de setembro Minoru Yamasaki, arquiteto do World Trade Center, teve outro projeto demolido

44 Peleja

Marketing O jornalista deve usar sua fama para vender produtos?

64 Sonoras

The Rolling Stones Livro com depoimentos dos integrantes remonta momentos importantes da grupo britânico

74 Visuais

Gravurista, com mais de 40 anos de carreira, produz obras ricas em detalhes, talhadas na madeira e impressas em tecido ou papel, que exibem sua visão crítica da sociedade

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SPA Semana de Artes Visuais do Recife comemora 10 anos, na expectativa de superar edições anteriores

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Matéria Corrida José Cláudio Os fora da lei de Ploeg

80 Leitura

Reportagem Homero Fonseca relança a obra Tapacurá, viagem ao planeta dos boatos, com texto atualizado

86 Claquete

Cidadão Kane Obra-prima de Orson Welles continua importante e atual aos 70 anos

94 Artigo

André Brasil A montagem no cinema brasileiro

96 Saída

Rodrigo Braga Da “displicência” na arte

Tradição Paneleiras

Projeto de fomento realizado em Belo Jardim resgata autoestima dos artesãos locais e aprimora a produção de objetos feitos com barro, couro e palha da palmeira catolé

46 Capa imagem Feira (1995), de Ivonaldo. Reprodução do livro: Pintores Naïf Brasil, de Jacques Ardies.

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Especial

Comunicação

Também conhecida como pintura primitiva ou espontânea, ela mantém temática idílica, estilo livre e diverso, sobrevivendo pela persistência de admiradores

Atualização de estudos desse campo se dá pela observação e discussão dos impactos provocados pela “revolução” advinda do uso das redes sociais

Viagem

Cardápio

Cidade dispõe de livrarias peculiares, desde pequenos estabelecimentos frequentados por aficionados até megalojas, que atraem os passantes com suas vitrines produzidas

Chefs debatem sobre o que caracterizaria a chamada “cozinha contemporânea” e comentam o uso de denominações como “criativa”, “afetiva”, “fusion” e “autoral”

Arte naïf

22

Londres

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Internet

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Set’ 11

Conceitual

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cartas

DO TWITTER Isabella Iris (@isabellairis11) Olinda-PE Escutando bituca e lendo a @ revcontinente, Reis do Riso! Minha mono vem aí. Claudia Aires (@claudia_aires) Recife-PE Sou assinante da @revcontinente no trabalho e já li. Está maravilhosa. A

matéria das rendeiras está linda! Belo panorama! Parabéns!

no nosso site (www. revistacontinente.com.br).

Banda Nuda (@sitionuda) Recife-PE Agosto já começa com a Nuda na seção Sonoras da revista Continente. No Recife, eu estou ligado que tem para vender na Livraria Cultura. Valendo.

DO FACEBOOK Josi Rizzari, Macapá-AP Vivo em Macapá e sempre leio a revista Continente e o suplemento Pernambuco, os dois sempre trazem ótimas matérias. Esperando ansiosa o próximo número.

Stéphanie Ingrand (@Tempestas_chan) Nunca vi uma revista tão boa quanto a Continente. Pena que é difícil assiná-la já que é local. RESPOSTA DA REDAÇÃO É possível assinar a Continente de qualquer lugar do Brasil,

ERRATAS Na Continente 128 (ago/2011), na seção Colaboradores, a foto associada a André Antônio é, na verdade, de André Brasil, colaborador dessa edição; na página 47, o nome do ator Mayerber de Carvalho foi grafado de forma incorreta.

Você faz a Continente com a gente O nosso objetivo é fazer uma publicação cada vez melhor, e, para isso, contamos com você. Envie suas críticas, sugestões e opiniões. A seção de cartas recebe colaborações por e-mail, fax e correio (Rua Coelho Leite, 530, Santo Amaro, Recife-PE, CEP 50100-140). As mensagens devem ser concisas e conter nome completo, endereço e telefone. A Continente se reserva o direito de publicar apenas trechos e não se compromete a publicar todas as cartas. Telefone

(81) 3183 2780

Fax

(81) 3183 2783

Email

redacao@revistacontinente.com.br

Site

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JARBAS

FESTIVAL DE HUMOR INTERATIVO

Em concurso, a Continente premia a criatividade O Festival de Humor Interativo da Continente continua neste mês de setembro. A cada edição, a revista publica, na seção Cartas, um cartum que precisa ser completado com uma frase, fala ou diálogo que o torne engraçado. O autor do texto para o desenho ao lado, eleito o melhor por meio do voto dos internautas e por uma comissão da redação da Continente, recebe R$ 350 e uma assinatura da revista. Você pode participar do concurso e conferir a legenda vencedora da última edição, no Este é o cartum do Mês. faça uma legenda bem-humorada e concorra!

endereço www.revistacontinente.com.br.

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colaboradores

eduardo Sena

Gustavo Leitão

Lucas colombo

olívia Mindêlo

Jornalista, amante da boa gastronomia, atua na Dupla Comunicação

Jornalista, editor assistente do Filme B, portal de mercado de cinema

Editor e colunista do site Mínimo Múltiplo, professor de Jornalismo Cultural da Unisinos

Jornalista, especializada em Artes Plásticas, mestre em Sociologia pela UFPE

e MAiS André Brasil, doutor em Comunicação pela UFRJ, professor e pesquisador do Departamento de Comunicação da UFMG. André Rozowykwiat, redator publicitário, sócio-diretor da agência Atma. Antônio Martins neto, repórter especial da TV Jornal. carol Almeida, jornalista e mestre em Comunicação pela UFPE. Fernando Monteiro, escritor, poeta e cineasta. Marcelo Abreu, jornalista e professor da Universidade Católica de Pernambuco. Mariana Quintão, fotógrafa. Rafaella Soares, jornalista e assessora de imprensa. Roberta Guimarães, fotógrafa. Rodrigo Braga, artista plástico. Schneider carpeggiani, repórter do Jornal do Commercio, editor do suplemento Pernambuco e doutorando em Teoria da Literatura.

GoVeRno Do eStADo De PeRnAMBUco

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Ricardo Melo

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Eliseu Souza

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Antônio Portela

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Continente é uma publicação da Companhia Editora de Pernambuco - CEPE ReDaÇÃo, aDmInIStRaÇÃo e PaRQUe gRÁfIco Rua Coelho Leite, 530 - Santo Amaro Recife/Pernambuco CEP: 50100-140 Fone: 3183.2700 Ouvidoria: 3183.2736 ouvidoria@cepe.com.br

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JOSÉ MARQUES DE MELO

“A Academia não quer sujar as mãos”

Um dos pioneiros dos estudos de Comunicação no Brasil critica o desempenho da pesquisa nas universidades e demonstra preocupação com o futuro do jornalismo impresso texto Marcelo Abreu

con ti nen te

Entrevista

Num momento de mudanças e incertezas no jornalismo, acentuadas pela emergência de novas forças no campo da comunicação, as reflexões de um pesquisador que tem quase meio século dedicado ao assunto tornam-se ainda mais importantes. O professor José Marques de Melo é considerado um pioneiro e um dos maiores nomes dos estudos de Comunicação no Brasil. Nascido em Palmeira dos Índios, em Alagoas, há 68 anos, foi no Recife, na década de 1960, que começou sua vida profissional como jornalista e, quase simultaneamente, como professor nos primeiros anos do curso de jornalismo da Universidade Católica. Ainda jovem, mudou-se para São Paulo, onde fez carreira como professor na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Também na USP, obteve seu doutorado, em 1972, e a livre-docência, em 1983. Atualmente, Marques de Melo é professor emérito da USP e diretor-titular da Cátedra da Unesco de Comunicações na Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo. É membro do conselho editorial de várias

publicações acadêmicas e participa das principais sociedades científicas de sua área. Sua produção está refletida em cerca de 50 livros que escreveu ou organizou. Presenciou vários momentos do jornalismo e acompanhou a própria transformação da Comunicação Social em campo de estudo importante. Nessa entrevista, concedida às vésperas de vir ao Recife para participar do 34º Congresso da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), ele fala sobre os rumos da pesquisa acadêmica, e sobre o presente e o futuro do jornalismo e da indústria cultural. CONTINENTE Que comparação o senhor faz entre a qualidade da pesquisa acadêmica em Comunicação que se desenvolve no Brasil de hoje e a de outras regiões do mundo? JOSÉ MARQUES DE MELO O Brasil desenvolve, hoje, uma pesquisa acadêmica situada no mesmo patamar daquela gerada na Europa ou nos EUA, sem dúvida, ocupando a vanguarda da produção latino-americana. No recente congresso internacional da nossa comunidade acadêmica em Istambul, a delegação brasileira foi a mais numerosa.

Aproximadamente 110 papers inscritos por brasileiros passaram pelo crivo dos pareceristas, quase sempre europeus ou norte-americanos, designados pela International Association for Media and Communication Research (IAMCR). O grande problema a enfrentar é o pouco interesse despertado junto aos acadêmicos anglófonos pelas pesquisas brasileiras. Apesar de apresentadas em inglês, elas mimetizam desnecessariamente, no meu entender, os estudos hegemônicos, como se o conhecimento produzido nas ciências sociais pudesse ser aplicado sem passar por filtros de natureza cultural. CONTINENTE Como vê o futuro do ensino superior do Jornalismo como área específica do conhecimento, num momento em que se difunde a ideia de que qualquer pessoa munida de um celular poderia apurar e difundir notícias (jornalista cidadão)? Acha que há uma precarização da profissão? A quem interessaria isso? JOSÉ MARQUES DE MELO O jornalismo defronta-se no Brasil com dupla incerteza, a do ensino e a da profissão. As escolas deixam de ser “cartórios” ou

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givaldo barbosa/ ag. o globo

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formar uma nova geração de professores de Jornalismo focados na dinâmica dessa indústria. Trata-se de ocupar os lugares existentes no magistério superior, mas precariamente preenchidos, na atualidade, por jovens docentes forjados em mestrados e doutorados acadêmicos que privilegiam o campo genérico da comunicação, sem dar atenção ao conhecimento específico do jornalismo. CONTINENTE O senhor enxerga um futuro para o jornal impresso? JOSÉ MARQUES DE MELO O jornal impresso, tal qual produzido hoje no Brasil, está com os dias contados. Os jornais de prestígio, que atendem aos interesses das elites, possuem versões eletrônicas difundidas pela internet,

fotos: reprodução

“fábricas” de diplomas, com o fim da reserva de mercado para os bacharéis certificados pelas faculdades e voltam ao seu papel original, ou seja, centros de formação de produtores de conteúdo informativo e espaços de investigação sobre os fenômenos gerados pela indústria de notícias. Exatamente aquela situação identificada por Luiz Beltrão, há 50 anos, quando fundou o Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco. Ele teve que convencer o mercado sobre a qualificação dos profissionais que diplomava para lograr credibilidade pública. Hoje, o panorama é mais complexo porque o mercado está saturado de jornalistas preparados para a função, mas desprovidos de referencial cognitivo

con ti nen te

Entrevista capaz de suprir as demandas reais das empresas. Isso acarreta a precarização ocupacional, reduzindo o poder de barganha do “exército de reserva” que sai da universidade a cada ano. Não me preocupa muito a insurgência do jornalista-cidadão, porque este só atua organicamente em comunidades onde a escassez de informação impele os cidadãos responsáveis a suprir as deficiências causadas pela ausência de fluxos regulares de notícias. Para sair do impasse, vejo duas opções simultâneas: criar programas de reciclagem profissional para os jovens, abrindo perspectivas de trabalho em sintonia com o empresariado, governo e setor terciário; e buscar estratégias eficazes, através do mestrado profissional, para

o que torna anacrônicas as edições em papel. Já os jornais populares, destinados a audiências espalhadas pela periferia das cidades, carecem de ligação com os problemas imediatos da população e por isso enfrentam a concorrência crescente do rádio, que não apenas fala a linguagem das ruas, mas atende de forma imediata às aspirações comunitárias. No mundo, temos um mosaico polimorfo. CONTINENTE Poderia citar um exemplo de como a internet teria ajudado a melhorar o jornalismo e um exemplo de como ela teria piorado o que se faz, atualmente, nesse campo? JOSÉ MARQUES DE MELO O melhor exemplo parece ser o uso do hipertexto, que estimula a interpretação jornalística

para atender às demandas dos leitores mais bem-educados. O pior exemplo é o da veiculação de mensagens típicas de propaganda, sob a forma de notícias. Trata-se daquelas matérias consideradas “híbridas” pelos blogs personalizados, omitindo fontes ou deixando de relatar os fatos segundo distintas versões de testemunhas oculares. CONTINENTE Ao reler alguns artigos seus, escritos por volta de 1980, percebemos uma crítica contundente à programação de TV da época e à passividade do telespectador. Trinta anos depois, o que dizer do papel nocivo da televisão numa época de reality shows? JOSÉ MARQUES DE MELO Os perigos continuam vigentes, especialmente naquelas famílias que deixam seus

“Concordo que a ‘telemania’ dos ‘anos de chumbo’, quando a sociedade teve que refugiar-se no ‘espaço doméstico’, temendo a vigilância brutal da ditadura militar sobre o ‘espaço público’, pode ser comparada hoje à ‘euforia digital’ ” filhos à mercê das “babás eletrônicas” – TV, internet, video games e veículos similares de entretenimento. Mas, nesses 30 anos, algumas coisas mudaram. Primeiro, a escola, cujos agentes educativos são menos apocalípticos que no passado, e onde houve ampliação das oportunidades de matrícula. Programas de redistribuição de renda como o Bolsa Escola retiraram das ruas as crianças mais pobres, que sequer eram “educadas” pelas “babás eletrônicas” e cresciam sob a égide da “pedagogia” da marginalidade. Mudou também a qualidade e a variedade da programação da TV, incorporando novos formatos educativos, o que permite a pais e educadores orientar melhor o consumo videográfico

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dos filhos e alunos. Infelizmente, a mídia ainda está inundada pelo “lixo cultural”, principalmente nos programas “enlatados” made in USA. CONTINENTE O senhor escreveu que considerava a TV um instrumento neutro e atribuía seus males ao governo militar. Mantém a opinião de que a TV como meio é neutra e pode ser usada para o bem e para o mal? Se acha, poderia nos dar exemplos de lugares onde ela exerce um papel preponderantemente positivo para a sociedade? JOSÉ MARQUES DE MELO Continuo adotando postura não apocalíptica e defendendo a tese de que a mídia, isoladamente, não altera a vida social, sendo um dos fatores de mudança ou de preservação dos valores dominantes

num determinado momento histórico. Ela pode retardar ou acelerar os processos de mudança política ou cultural, como bem ilustra o caso dos países soviéticos. Ali, o comunismo ruiu como um “castelo de cartas”, apesar de retardado pelo saneamento cognitivo mantido durante muito tempo pela “cortina de ferro”. A perestroika minou o processo pelas bordas e a glasnost o acelerou irremediavelmente, quando Gorbachev oficializou a política da “transparência informativa”. CONTINENTE O senhor escreveu também sobre “o funcionamento avassalador dos mecanismos de reprodução ideológica inerentes à estrutura da comunicação de massa”. Nesta era de internet, por que tão poucos enxergam

no mundo digital os mesmos mecanismos de reprodução ideológica? O que aconteceu com a crítica aos mass media? Concordaria que existe um deslumbramento em amplos setores da academia em relação às novidades tecnológicas que está anulando o poder de crítica? JOSÉ MARQUES DE MELO Concordo que a “telemania” dos “anos de chumbo”, quando a sociedade teve que refugiar-se no “espaço doméstico”, temendo a vigilância brutal exercida pela ditadura militar sobre o “espaço público”, pode ser comparada hoje à “euforia digital”. Os setores “deslumbrados” da intelectualidade transitam pelas instâncias de poder da “democracia sindicalista” hegemônica, enquanto a “sociedade civil” desfruta oniricamente a estabilidade

monetária do pós-real. Até quando? Essa é a resposta que a Academia vem sonegando olimpicamente. CONTINENTE O senhor refletiu sobre o que chamou de “fascínio que jovens pesquisadores sentem pela moderna tecnologia da indústria cultural”. Podemos dizer que isso ocorre também em relação à internet? JOSÉ MARQUES DE MELO É o mesmo fenômeno, em conjunturas diferentes. Recente pesquisa, patrocinada pelo Itaú Cultural, demonstra como o jornalismo digital (via internet ou plataformas portáteis) vem assumindo papel avassalador nas escolas de Jornalismo desta fase pós-diploma, aposentando precocemente categorias estratégicas, como o jornalismo radiofônico, pelo

qual se informa a grande maioria da população. Ou o jornalismo impresso, ignorando o detalhe de que a maior parte da nossa sociedade ainda permanece à margem da galáxia de Gutenberg. Sem adquirir capacidade de abstração, carece daquele requisito que McLuhan já evidenciava como essencial para despertar a “consciência critica”. CONTINENTE O senhor concorda com a opinião de que a crítica saiu de moda no meio intelectual brasileiro (incluindo o academico), se comparado com os anos 1970 e 80? Por quê? JOSÉ MARQUES DE MELO Hoje, a comunidade acadêmica, sob a tutela dos ph.D.’s forâneos ou dos pósdocs aculturados, comporta-se de modo “politicamente correto”, sem querer “sujar as mãos”, como aliás o fizeram frankfurtianos de carteirinha, existencialistas pós-sartrianos ou culturalistas não gramscianos. Evitam imiscuir-se nas demandas coletivas, na ilusão de melhor interpretá-las pelas lentes da “epistemologia” legitimada por agências de fomento científico. Vítimas do produtivismo acadêmico, instaurado no modelo instituído pela chamada “ciência ocidental”, os scholars tupiniquins sucumbem aos encantos do Lattes e se deixam seduzir pelo feitiço do Qualis. Tudo o mais é considerado anacronismo, inclusive a crítica. CONTINENTE Considerando que a indústria cultural se “bastardizou” durante os últimos 50 anos, apesar de toda a reflexão crítica feita pela Academia, o senhor diria que existe um componente de frustração da parte de um acadêmico que dedica a vida a analisar e criticar a realidade e não vê as coisas melhorarem? JOSÉ MARQUES DE MELO Nunca fui panglossiano e tampouco sou derrotista. Não vejo a indústria cultural pelas lentes exclusivas do pessimismo. Assim sendo, vejo ganhos e perdas. Os ganhos estão na democratização de bens culturais do legado humanístico, antes mantido como privilégio das elites. As perdas devem ser debitadas na caolhice dos nossos governantes, que ainda não priorizaram a educação de base, perpetuando as deficiências cognitivas da maioria da população. Carente de conhecimento, ela continua a demandar produtos que podem ser classificados como “bastardos” .

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O melhor deste mês na revista Continente, no ambiente virtual

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QUADROS NAÏFs

COMUNICAÇÃO

Convenciona-se chamar de naïfs as obras criadas por artistas sem “formação acadêmica” e que não respeitam as leis da perspectiva clássica na organização da pintura. Muitas vezes visto com preconceito pela crítica especializada, o naïf é uma expressão artística pouco valorizada ainda hoje. Para completar a leitura da matéria de capa, escrita pelos jornalistas Olívia Mindêlo e Gustavo Leitão, confira em nosso site outras imagens de obras do gênero feitas pelo fotógrado Ricardo Moura, além de algumas já presentes na matéria, como as de Militão e Ivonaldo (E).

Veja os sites de pesquisadores e publicitários que são referência para se entender a comunicação e a internet hoje em dia.

Conexão

CURTAS Assista ao trailer e a trechos dos curtas-metragens, encartados na Continente, que refletem sobre a relação entre imagem e memória na contemporaneidade.

Veja esses e outros links na seção CONEXÃO, em www.revistacontinente.com.br

andanças virtuais

SERVIÇOS

FOTOS

HQS

concisO

O Fiverr reúne interessados em comprar e vender produtos simples e baratos

Usuários ajudam a solucionar dúvidas sobre local de origem de fotografias de site

Ler quadrinhos longos na internet fica mais fácil com o uso de Graphicly

Cansado de longas ruins, diretor fez site para divulgar curtas de cinco segundos

fiverr.com

where-is-this.com

graphicly.com

5secondfilms.com

Ao contrário dos sites de venda que ampliam as possibilidades dos clientes e dos vendedores, o Fiverr é interessante justamente por impor limites. Na página, só é permitido anunciar produtos que custem cinco dólares, e nem um centavo a mais ou a menos. É possível comprar uma aula de idioma, uma imitação de um sotaque em um vídeo ou um desenho personalizado. Alguns serviços são mais incomuns, como o de um homem que se dispõe a tomar um decisão difícil por você.

Já se deparou com uma foto de uma paisagem ou cidade sem saber localizá-la? O Where-isthis tenta solucionar exatamente essas dúvida. Depois de submeter a imagem, os usuários devem aguardar que alguém que conhece o lugar fisicamente encontre a foto e marque-a no Google Maps, oferecendo a localização exata. Além disso, o internauta pode ajudar os demais, passeando pelas submissões no site e marcando seu endereço.

O serviço oferecido pelo Graphicly está para os quadrinhos como o Youtube para os vídeos. O site oferece um formato específico para leitura de HQs, passando de quadro a quadro, caso o autor prefira, de forma dinâmica e simples. Isso torna a ferramenta interessante, junto com a possibidade de postar histórias em blogs e páginas. Só tem um porém: há restrições para submissões de obras, pois é preciso enviar uma amostra ou um portfólio digital para os curadores do site, antes de ser aceito.

Criado em 2005, o 5-Second Films tem um nome autoexplicativo: sua função é reunir os vídeos de 5 segundos, feitos pelo responsável pelo site, Brian Firenzi. Segundo ele, a ideia de fazer narrativas tão sintéticas surgiu depois de ver diversos filmes com mais de 5 mil segundos decepcionantes. Suas criações têm, em geral, um tom humorístico, brincando com os clichês de enredos cinematrográficos hollywoodianos. O site ainda possui a vantagem de ser abastecido com uma nova produção, a cada dia útil.

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blogs CINEMA a8000.blogspot.com

O professor e pesquisador de Cinema e Comunicação, Cesar Migliorin, tece comentários sobre mídia, política e arte no seu blog, sempre com análises aprofundadas dos acontecimentos atuais.

FOTOS zefrank.com/youngmenowme/

NARRativa com FRAGMENTOS DIGITAIS De forma intuitiva, o Storify ajuda os usuários a transformar comentários, fotos e vídeos em uma história organizada e compartilhável storify.com

Cada uma das redes sociais e das plataformas de armazenamento de

conteúdo na internet tem suas vantagens e usos específicos – Twitter, Facebook, Youtube e Flickr são todos úteis à sua maneira. Muitas vezes, no entanto, informações, que poderiam se complementar, ficam fragmentadas entre esses sites, ou reunidas apenas em links no meio de um texto escrito. O Storify tenta fazer justamente esse papel de integrador, reunindo para seus usuários conteúdos das páginas mais importantes da web. A grande função do site é a de transformar dados isolados em uma narrativa coesa, de forma simples e acessível. Logando-se com uma conta do Twitter, o internauta pode reunir fotos, comentários, trechos de matérias de jornal e vídeos sobre um assunto em uma história que pode ser acessada por qualquer um no próprio Storify ou mesmo postada em páginas externas. O recurso tem sido utilizado por jornalistas, inclusive de veículos tradicionais, como o Washington Post, para reunir declarações em redes sociais e conteúdos feitos por cidadãos em reportagens online, com a vantagem de uma formatação organizada. O uso requer instalação de aplicativo via Twitter.  DIOGO GUEDES

A proposta é bastante simples: o Young me, now me recolhe, dos usuários, fotos deles bem jovens e, depois, mais velhos. Uma boa dica para observar registros da passagem do tempo.

DESENHO laquaparla.blogger.com.br

O ilustrador curitibano Laqua Parca reúne em seu blog alguns dos seus belos trabalhos em desenho, feitos com técnicas e materiais diversos, além de alguns – não menos impressionantes rascunhos em cadernos.

MÚSICA http://daqueleinstanteemdiante. tumblr.com/

Diversos conteúdos sobre o músico Itamar Assumpção foram reunidos neste tumblr que também traz imagens da Sala Itamar, espaço usado pelo diretor Rogério Velloso para planejar o filme Daquele instante em diante.

sites sobre

acervos pessoais OBRAS

MANUSCRITOS

ARQUIVOS

cvc.cervantes.es/literatura/libros_ cortazar/

alberteinstein.info

casafernandopessoa.cm-lisboa.pt

A página traz o conjunto da exposição Os livros de Cortázar, com uma seleção dos mais de 4 mil volumes da biblioteca do escritor.

O site reúne manuscritos digitalizados de Albert Einstein, um dos físicos mais famosos de todos os tempos, junto com materiais relacionados.

Além de hospedar a página da biblioteca digital do poeta, o site português da Casa Fernando Pessoa traz diversas informações sobre sua vida e obra.

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con ti nen te

Portfólio

Rubem Grilo

GRAVURAS DE SONHOS E VIVÊNCIAS TEXTO Gabriela Alcântara

Rubem Grilo traz para seus trabalhos as coisas que viu e que o impregnaram,

despertando-lhe sonhos, pensamentos e vivências. O resultado são obras extremamente ricas em detalhes, com linhas e traçados que surpreendem, ao sabermos tratar-se de xilogravuras. Talhados na madeira e impressos em tecidos ou papel, traços de homens e suas almas denotam com clareza o estilo de Grilo. Em seu mundo, podemos ver não só o contorno exterior dos personagens, mas aquilo que os preenche. As expressões e contextos nos fazem imaginar a mão do artista a trabalhar nos vãos que, preenchidos com tinta, se transformarão em um resultado tão belo quanto curioso, e, por vezes, sombrio. Com 40 anos de carreira, Rubem Grilo encontrou no desenho uma forma de superar a crise pela qual passou após se formar em Agronomia. Estudante recém-graduado, no período da ditadura militar, Grilo chegou a ser preso duas vezes, ainda na universidade. A mudança de profissão e a identificação com a xilo se deu pelo envolvimento manual na gravação – as etapas do trabalho vão desde a elaboração do desenho até o estágio final da impressão. Para ele, a obra impressa contém as marcas do que aconteceu durante o processo, sendo seu resultado o oposto do ponto de partida.

Página anterior 1 autorreferência

 essa obra, de 2009, Grilo usa N técnicas de colagem e desenho

Nestas páginas 2 Deslocamento do olhar

 m suas xilogravuras recentes, o E artista tem utilizado mais cores

3-4 engajamento Seus trabalhos, sejam mais ou menos políticos, refletem a visão que ele tem do homem e da sociedade

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con ti nen te

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De suas primeiras obras, feitas em 1971, restam apenas lembranças. As quase 300 xilogravuras foram destruídas e, nesse processo, o autor acredita ter queimado uma espécie de gordura criativa, como quem precisa esvaziar um espaço para preenchê-lo novamente. O que pode parecer loucura para alguns funcionou para o artista,

pois com uma obra que amadurece, enquanto trafega pela experimentação, Grilo se entrega prazerosamente ao acaso. Para ele, mais que a influência de Oswaldo Goeldi – nome incontornável do expressionismo na xilogravura – e da compreensão e absorção do humor crítico, adquirido como ilustrador em seus tempos de redação

de jornais, o mais interessante no processo criativo é o jogo de interação entre as referências concretas e o acaso. “Essa parte imprevista é a que mais me motiva, pois sinto que ela me ultrapassa”, afirma o artista. Apesar do volume de dados e informações que o circundam, Grilo acredita que a obra se desenvolve na solidão do ambiente de trabalho, e diz: “Há o sentimento de orfandade do mundo. O trabalho surge de uma página em branco, de um espaço a ser ocupado pela subjetividade”.

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Para quem se propõe à aventura, a obra de Rubem Grilo vence os limites do real, e absorve quem a contempla, dando ao observador a vontade de mergulhar nesse universo rico e sensorial. Como escreveu Ferreira Gullar: “que a gravura tem um caráter próprio, inconfundível, é inegável. Tentar apreendê-lo e defini-lo é o desafio que se tem pela frente”.

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5-6 ACIDEZ Desde os anos 1970, Grilo traz em seus trabalhos um evidente humor corrosivo

7-8 SOMBRIO Nos últimos anos, o artista tem utilizado a técnica de colagem, e seus personagens adquirem um tom fantasmagórico e surreal

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CLÁSSICOS DA VIOLÊNCIA

Arquitetura de demolição Os ataques ao World Trade Center abalaram não apenas as convicções da segurança nacional americana, mas também de sua arquitetura, criticada em seu gigantismo e arrogância. No que diz respeito ao projeto das torres 1 e 2 do WTC, é curioso observar que ele é de autoria de Minoru Yamasaki, o mesmo arquiteto que planejou o Conjunto Residencial Pruitt-Igoe, composto de 33 edifícios e 2.870 cubículos residenciais. Além de serem projetos conceitualmente modernistas, eles tiveram o mesmo trágico destino: tombaram ao chão. Como as torres do WTC viraram escombros, bem sabemos. Mas nem todos conhecem a história do Pruitt–Igoe, erguido em 1954, a partir de um ambicioso plano de urbanização para Saint Louis, que tinha como inspiração os ideais de higienização e padronização urbana do international style, difundido nos congressos internacionais de arquitetura moderna e adotados integralmente por Minoru neste trabalho. O que seria um residencial para “civilizar” pobres, acabou se tornando um concentrado de problemas, entre os quais segregação e delinquência. A solução encontrada foi a demolição programada, ocorrida em 1972. Minoru, que faleceu em 1986, viveu para ver aquele conceito arquitetônico ruir. Para a paz de sua alma, o desfecho do WTC somente ocorreria anos depois.

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ADRIANA DÓRIA MATOS

A FRASE

“Uma das causas de todas as doenças é o diagnóstico.”

Em meio à polêmica do A serbian film – Terror sem limites, a obra cinematográfica sérvia que teve sua exibição proibida no Festival Rio-Fan, devido a cenas de extrema violência, o site Pop Crunch, especializado em cultura pop, produziu uma lista com os 10 momentos mais violentos da história do cinema. O primeiro lugar ficou com Cidade de Deus, cuja cena eleita é descrita como a mais difícil de ser assistida. O filme de Fernando Meirelles, que consta em diversos rankings internacionais de melhores de todos os tempos, ficou à frente até de clássicos do gênero, como Laranja mecânica, de Stanley Kubrick. No trecho escolhido, o protagonista Zé Pequeno obriga duas crianças da favela a escolherem onde preferem levar um tiro: na mão ou no pé. A lista segue com o Massacre da Serra Elétrica, Cães de aluguel, Laranja mecânica , Hellraiser – Renascido do inferno, Veludo azul, Os bons companheiros, O resgate do soldado Ryan, Platoon e Taxi driver. O site cometeu uma injustiça ao não incluir o desfecho de Era uma vez no Oeste (de Sergio Leone), no qual é revelado o motivo pelo qual Harmonica (Charles Bronson) quis se vingar de Frank (Henry Fonda), um dos mais cruéis vilões do cinema. (Débora Nascimento)

Balaio A SÍNTESE DO HAICAI Poema de forma fixa, que passou a ter importância literária no século 15, o haicai se realiza em apenas uma estrofe de três versos, com um total de 17 sílabas. Os mestres da forma são os japoneses, que lhe deram como temáticas a natureza e as estações do ano. Neste mês, que inicia a primavera, vale lembrar o enérgico poema de autoria do mestre Sôkan: “Igual a uma bola/ de longe rolando vem/ o sol da estação”. (ADM)

“burrocracia” Cora Rónai, jornalista d’ O Globo, escreveu em sua coluna, publicada às segundas, que um ouriço-cacheiro, mamífero insetívoro, agonizava em uma rua do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Algumas pessoas fizeram cercado de obstáculos ao redor do animal, para evitar mais atropelos. Outras ligaram para o Ibama, pedindo socorro. A resposta? “Estaremos atendendo ao seu pedido dentro de sete dias úteis”. Essa, nem o Jack Palance, se estivesse vivo, para acreditar. (Luiz Arrais)

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clube dos 27 “Não entro em clube que me aceita como sócio”, a frase de Groucho Marx deveria ter sido incorporada por Amy Winehouse, que acabou indo bater ponto ao lado de Jimi Hendrix, Brian Jones, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e outros menos conhecidos. Medo de envelhecer? Talvez, a resposta esteja com Pete Townshend, do The Who, que compôs My generation, em 1965, na qual dizia que queria morrer antes de completar tal idade. Hoje, sessentão, com acusações de pedofilia e praticamente surdo, continua vivendo a vida, apresentando-se nos palcos, junto a Ozzy Osbourne, antigo comedor de morcego, Paul McCartney, dado como morto há 40 anos, e Keith Richards, cujo nome já foi retirado do topo das listas dos mais propensos a morrer. (L.A.)

Os amigos da onça Nascidos no Recife e desenhistas de projeção nacional, Carlos Estevão (que neste 16 de setembro faria 90 anos) e Péricles Maranhão (cujos 50 anos de morte se completam em 31 de dezembro) têm outras coisas em comum, sendo a principal delas O Amigo da Onça (acima), um dos mais famosos personagens do humor brasileiro, inspirador de máscaras de Carnaval a comédias teatrais. Criado por Péricles em 1943 e, anos depois, desenhado por Carlos Estevão, o personagem era uma das grandes atrações da revista O Cruzeiro. Para Péricles, no entanto, a criatura não trouxe apenas fama e dinheiro. Dessa relação, disse Carlos Drummond de Andrade: “A solidão do caricaturista seria talvez reação contra o personagem, que o perseguia”. O certo é que o suicídio do artista, que abriu o gás de seu apartamento nas primeiras horas de 1962, chocou todos. E a ironia do bilhete deixado na porta bem que parecia saída da mente de O Amigo da Onça: “Não risque fósforo, é gás”. (Gilson Oliveira)

Lucien Freud (1922-2011) Por Mário Alberto

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NAÏF

ARTE QUE SE REINVENTA DE MODO ESPONTÂNEO No mundo dominado por instalações, performances, vídeos e objetos, a pintura primitiva multiplica suas cores e mostra ao mundo que resiste à morte de grandes mestres, como Bajado e Heitor dos Prazeres texto Olívia Mindêlo

A morte da pintura já foi anunciada algumas vezes, desde que a arte ganhou status privilegiado na história. Uma das sentenças mais famosas foi proferida pelo pintor Paul Delaroche (1797-1856), em 1836. Representante do gênero histórico acadêmico, à época uma referência na produção pictórica da Europa, ele e demais “caçadores de realidade” se viram diante de uma ameaça: o advento da fotografia. Era como se seus trabalhos não fizessem mais sentido, tivessem ficado obsoletos. Mas os impressionistas, e todos os outros “istas” de vanguarda que os sucederam, provaram que o auge da pintura só estava por vir. A obsessão pela perspectiva mimética, pela qual se buscava o “real” através do quadro, levou rasteira do gesto das pinceladas, fixando-se mais na tela do que no lado de fora. A pintura “morria” para o mundo, mas nascia para si, rumo a uma sofisticação estética sem precedentes. Em outras palavras, em direção ao abstracionismo. Os pintores realistas e figurativos, contudo, jamais deixaram de existir e enxergar através da janela, emoldurando

O naïf pode não estar nas bienais mais prestigiadas da atualidade, mas encontra reconhecimento o que viam vida afora em suas obras. Independentemente da maneira como buscavam transcrever essa realidade, com ou sem regras, e de como os outros julgavam essa representação. A despeito do que nos impingem, a história não é estanque. Nem mesmo outra sentença sobre a morte da pintura, dessa vez dita em tom de ironia por Marcel Duchamp (1887-1968), foi suficiente para aposentar os pincéis dos artistas do mundo. Ao defender uma criação mais conceitual e “livre” de amarras estéticas, em grande parte herdada de uma atitude duchampiana, a arte contemporânea pôs em xeque o sentido da habilidade manual para o fazer artístico, até então dominado pelas tintas. Mas o trabalho dos pintores seguiu, mesmo

no território tomado por instalações, performances, vídeos e objetos. O teórico de arte contemporânea Thierry de Duve, estudioso do próprio Duchamp, disse certa vez que a pintura nunca vai deixar de existir, porque é uma expressão primitiva, instintiva. Está relacionada aos sentidos. Ao tato. Ao cheiro. À vida mais próxima que se pode alcançar com os olhos, o nariz e as mãos. A observação do crítico belga parece definir bem aquela que persiste até hoje: a arte naïf, também conhecida como ingênua, espontânea ou primitiva. Tal qual a pintura, ela não morreu. No Brasil, na Guatemala, na Ucrânia, na França e em outros países, segue, no geral, atrelada ao trabalho de autodidatas. O naïf pode não estar nas bienais mais prestigiadas da atualidade, enquanto espera um olhar sensível em alguma calçada ou ateliê. Pode estar fadado a um mundo paralelo dentro de um campo artístico que o separa segundo sistemas classificatórios hierarquizados. Mas encontra como sobreviver e ter reconhecimento. O historiador da arte Pierre Francastel diz que “a obra é fixa, mas a visão está em movimento”,

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o que significa que é o olhar situado sócio-historicamente que constrói o valor e a concepção da obra. Ao longo da história, o naïf encontrou seu lugar de legitimação no mundo da arte, embora quase nunca na primeira fileira do espetáculo; às vezes, bem distante do teatro. O processo de refinamento e elitização da arte, contudo, não impediu os artistas de produzir sem parar e garantir um tempo, um espaço e um olhar para as suas criações, quase sempre representações coloridas de um povo, em suas diferentes facetas.

LEGITIMAÇÃO

Recentemente, o Museu Internacional de Arte Naïf (Mian), no Rio de Janeiro, fechou as portas, com mais de 6 mil obras entregues à umidade e à sorte de talvez voltar a funcionar. Enquanto o espaço não recebe aportes financeiros, galerias, colecionadores e, principalmente, os próprios artistas vão dando conta de manter o naïf num Brasil em que editais, exposições, museus e demais instituições se voltam quase que exclusivamente à produção visual contemporânea. Uma das exceções é a Bienal Naïfs do Brasil, realizada desde 1986, no Sesc de Piracicaba, interior de São Paulo. Além de procurar valorizar o trabalho dos artistas ditos primitivos, cedendo espaço expositivo, a iniciativa premia e dá destaque à obra de mais de uma centena de nomes vivos, muitas vezes desconhecidos. Homenageia, também, a cada dois anos, talentos brasileiros consagrados, como o paulista José Antônio da Silva (19091996), o carioca Heitor dos Prazeres (1898-1966), os pernambucanos Crisaldo Morais (1932-1997) e Ivonaldo, além de outros mestres. Dessa lista, Ivonaldo, nascido em 1943, é o único vivo, mas há dois anos foi obrigado a deixar dormentes suas criaturas vibrantes de olhos aboticados, para lidar com uma doença de difícil cura. A galerista e colecionadora Vilma Eid, que participou do júri oficial da mostra no ano passado, ressalta que a Bienal é não somente o único concurso do gênero no país, como cumpre a função de revelar “talentos da nossa terra”. Em 2010, mais de 800 obras brasileiras foram inscritas nessa Bienal. “Um artista que eu não conhecia, e que fiquei

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conhecendo depois desse trabalho, foi Neves Torres (MG). Há muito tempo, não via um pintor tão puro”, aponta Vilma, que hoje representa o artista na sua Galeria Estação. O espaço funciona no Bairro de Pinheiros, em São Paulo, com rica coleção, garimpada por ela. Vilma, contudo, considera o termo naïf insuficiente. A questão da conceituação é quase inevitável, tanto em discussões sobre arte primitiva quanto sobre arte contemporânea. Na visão da galerista, que prefere a denominação de arte espontânea, isso é algo relevante a ser refletido. “Existe uma diferença em relação à arte popular e espontânea. No Brasil, do meu ponto de vista, qualquer pessoa que estudar artes plásticas pode escolher o naïf como

escola. É mais uma escola. Na Europa, é diferente. Não existe a arte popular que a gente tem, geralmente feita por não eruditos. E já vi exemplos, por aqui, de naïfs com erudição. Acho que essa é uma distinção que precisa ser feita no país”, argumenta Vilma. Para Jacques Ardies, galerista belga especializado em naïf brasileiro desde 1979, não importa tanto se o artista é popular ou não. “Tem artista naïf que é advogado, não precisa ser necessariamente do povo. Isso não faz sentido. O popular, popular mesmo, é normalmente associado a uma arte feita pelo povo, que vai se fazendo em série, reproduzindo como um artesanato”, comenta Ardies, autor do livro A arte naïf no Brasil, de 1998, e dono da galeria que

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Página anterior 1  HENRI ROUSSEAU Em 1890, o aduaneiro pintou seu autorretrato à beira do cais Nestas páginas

2  bajadO Iemanjá pintada pelo “artista de Olinda”, como era chamado 3  eliza mello Cena familiar, pintada pela paulista, em 1983 4  ANTONIO POTEIRO Obra do pintor português, radicado no Brasil, alcança altos valores no mercado 3

5  ZÉ SOM Como não tinha dinheiro para comprar material, no início da carreira, o artista criou estilo com sua pintura a dedo

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leva seu nome em São Paulo. Na visão de Vilma, um artista popular genuíno não copia o próprio trabalho. A despeito dessa questão, Ardies admite que o termo naïf pode ser até pejorativo, implicando uma falsa ideia de que se trata de uma arte produzida por alguém que é ingênuo e não sabe de nada. Ainda assim, o galerista pondera que essa é uma palavra internacional, que acabou vingando em várias línguas do mundo. Mas faz também um alerta: “A arte naïf não pode ser confundida com suvenir vendido em ponto turístico”.

ORIGENS

Em 1994, o escritor Ariano Suassuna afirmou não compreender o porquê dessas definições cultivadas pelo mundo da arte, sobretudo em relação à produção artística do povo. “Nunca entendi muito bem a distinção que judiciosos críticos europeus fazem entre arte ingênua, bruta e primitiva. A única coisa que sei – porque sinto – é que as três não têm nada a ver com arte primária”, escreveu Suassuna, no texto de apresentação da mostra dos pintores Régis e Leonardo Loureiro, pai e filho, instalados até hoje

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na Casa Cultura, no Recife. Fundir os limites entre o popular e o erudito tem sido uma das principais missões do escritor, aliás, desde a década de 1970, quando idealizou e criou o Movimento Armorial em Pernambuco. Naïf, ingênuo, primitivo, popular, espontâneo... é uma arte que não possuía quaisquer classificações antes de a produção artística ter valor na história. Essas classificações configuram uma invenção da modernidade, a partir do processo de profissionalização do campo artístico, capaz de legitimar na história a relevância de obras criadas. Há quem defenda que a origem do naïf esteja nas inscrições rupestres. Há quem o defina como forma artística surgida a partir das vanguardas do fim do século 19 e início do 20. Nessa época, um funcionário alfandegário, chamado Henri Rousseau (1844-1910), apareceu no Salão dos Recusados de Paris e, em 1886, chamou a atenção com a tela Uma noite de Carnaval. Motivo de chacotas, foi visto como o rapaz da pintura quase infantil de tão ingênua – daí o nome naïf, em francês, atribuído primeiramente a ele. Suas telas, desobrigadas de uma educação formal, caíram no gosto de modernistas consagrados, como Pablo Picasso (1881-1973). De certa forma, tal “apadrinhamento” era de se esperar, se levarmos em conta que pintores cubistas, impressionistas, expressionistas e surrealistas, tão logo festejados, buscavam justamente romper com o academicismo pictórico tradicional a que os pintores espontâneos estavam originalmente desvinculados. Ser naïf, portanto, passou a um reconhecimento tipicamente moderno, ainda que artistas com esse perfil tenham existido desde muito tempo. O livro Arte naïve (autor desconhecido) defende que, na história da humanidade, o primeiro artista foi verdadeiramente naïf, “pois vivia numa época em que ainda não tinha sido inventado qualquer sistema de representação pictórica”. E, ainda que vários padrões pictóricos ou escultóricos tenham sido criados e estabelecidos, os que não dominam as técnicas – e muitas vezes nem se dão conta disso – encontram uma forma genuína e espontânea de se expressar, aproximando-se do viés quase instintivo a que está associado o ator de pintar, como, de certa forma, se referiu o

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A despeito de sempre ter existido, a pintura naïf somente passou a ser assim denominada no final do século 19, com os modernistas

teórico Thierry de Duve ao mencionar a persistência da pintura na história.

INTUITIVA

“O naïf é um fenômeno primordial”, atesta o crítico, curador e artista paraibano Raul Córdula. Ele não consegue distinguir arte popular de naïf e procura olhar com sensibilidade a produção que o cerca, sobretudo quando se mudou para Olinda, nos anos 1970. Lá, contaminou-se pelo espírito gregário que, na sua visão, marca os artistas naïf. Viu várias vezes Bajado (1912-1996)

acenar da janela da casa 186 da Rua do Amparo. Uma cena tão peculiar quanto os quadros por ele criados. Bajado não estava preocupado se seu trabalho era naïf ou não.“Ele não podia passar um dia sem riscar. Sempre tinha que estar com um lápis na mão”, recorda sua filha Gilzelda Pereira Amâncio (a pintora Deda de Bajado), em entrevista concedida ao jornalista Thiago Marinho, para o catálogo do 6ª Olinda Arte em Toda Parte, publicado em sua homenagem. Na ocasião, em 2006, fazia 10 anos que Bajado tinha dado o último adeus da janela de onde viu o mundo. Também olindense, o artista Zé Som, de 61 anos, compartilha do mesmo espírito espontâneo de Bajado. Pelas suas mãos, Olinda ganhou contornos tão diferentes do amigo do Amparo – e igualmente representativos para a pintura local. “Naïf? Não sei nem o que é. É primitivo, essas coisas? Pode ser. Eu pinto com os dedos, não tenho escola”,

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6 dascalu Pinturas do artista romeno caracterizam-se pelo onirismo, tendo situações campesinas como tema ivonaldo 7 Paisagens rurais, em que se harmonizam figuras humanas, animais e elementos da natureza, em contornos luminosos, são características desse pintor

mais “psicodélicos” também perpassam uma parte de sua produção, mais próxima de um passado hippie, ao qual, já morando em São Paulo, Waldomiro também se vinculou, nos anos 1970. O mundo mágico da arte espontânea, entretanto, não passa apenas por lisérgicos e ondas coloridas, vai além do universo “paz e amor”. E, tampouco, somente por temas sacros. Muitas vezes, o próprio percurso figurativo ultrapassa a vontade de replicar um mundo exterior, mergulhando no terreno do onírico e do fictício, sem que suas criaturas cumpram apenas a função de representar a realidade circundante tal qual ela lhe é sugerida. Isso não ocorre somente no Brasil. Artistas como os romenos Camelia Ciobanu (1966) e Mihai Dascalu (1960) subvertem cenas campestres, pendurando habitantes e casas em galhos de árvores e potes, numa simbologia menos direta. Daí, a possível associação entre o naïf e o Surrealismo.

INCONSCIENTE

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diz Zé Som, que passou a usar os dedos porque não tinha dinheiro para comprar pincel, quando começou a pintar, na década de 1980. Apesar de ser um terreno fértil de arte no país, não é só em Olinda que se encontram exemplares do gênero. Em diferentes partes do mundo, há artistas com perfis similares, ajudando a estabelecer a ideia de um gênero naïf na arte. Raul Córdula lista algumas características comuns a ela: o não interesse pelas regras acadêmicas; o abuso da cor, recortada, pura e chapada, na maioria das vezes; o tema posto na tela como se tudo estivesse em primeiro plano; o desenho de contorno; e as cenas - às vezes pitorescas - da vida cotidiana. De acordo com ele, o tema religioso também é um motivo que tradicionalmente alimenta a pintura naïf. Santos católicos, orixás e outras divindades religiosas, também colocadas num plano de sincretismo, costumam

ser fonte para composições visuais feitas por diferentes artistas primitivos. Um dos mais conhecidos e criativos nesse sentido é o baiano Waldomiro de Deus, de 67 anos, cuja pintura eclética, por assim dizer, costuma ser vista pelo viés do mágico e do religioso, tal qual relatou Oscar d’Ambrósio, no livro Os pincéis de Deus, voltado à vida e à obra do artista. Português radicado no Brasil, Antônio Poteiro, 86, é outro exemplo. Com pegada burlesca e pinceladas espontâneas, inventa situações como a Ceia no inferno, de personagens totalmente hedonistas, e A cruz maldita, que voa no céu enquanto uma multidão roga por ela na Terra. Mas, de seu repertório saem ainda criações mais “inocentes”. Em se tratando de Waldomiro, existem, ainda, exemplos de situações “fantásticas”, como a do peixe na cadeira do dentista (Deixa-me ver o dentinho), além de retratos de lendas, mitos e histórias populares. Motivos

Há, ainda, quem atribua a espontaneidade dessa arte a questões do inconsciente, capazes de fazer com que o artista traga à superfície um mundo simbólico. Na perspectiva da psicologia de Carl Jung, seria o equivalente à expressão de símbolos, manifesta em imagens arquetípicas que, na forma de pintura, por exemplo, nasce sem nenhuma preocupação com técnicas ou regras acadêmicas de construção pictórica. Embora não coloquem em termos de um gênero naïf, a visão dos junguianos sobre o processo criativo humano se aproxima bastante, pelo menos no terreno das artes plásticas, da ideia que os estetas e os historiadores têm do que seja arte naïf, espontânea, primitiva ou até bruta. “Para Jung, o inconsciente se apresenta enquanto imagens. Ele dá uma ênfase maior a isso e trabalha na perspectiva do símbolo, que apresenta ao consciente uma vivência do inconsciente. O processo criativo é importante para ele, sobretudo porque é um organizador psíquico, é a possibilidade de contato com esse inconsciente”, explica Lívia Campello, psicóloga, arte-terapeuta e especialista em psicologia junguiana. Como ela lembra, o próprio Jung fez incursão por essa arte, principalmente no período

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con especial ti nen te mesmo que se manifeste de formas menos miméticas e mais intuitivas. Embora não descarte a escultura e a gravura como expressões primitivas, para ele, o mais fascinante desse universo, que chamou sua atenção pela originalidade com que retrata a cultura brasileira, é como os artistas conseguem representar de forma completamente diferente o mesmo tema. A Olinda de Bajado e a de Zé Som, por exemplo, são distintas, apesar de significativas para seu local de origem. “Se você pedir para vários pintores fazerem um cafezal, cada um vai lhe dar pinturas totalmente diferentes. Isso é que é rico”, observa Ardies. “O que me encanta é a sofisticação que encontro na espontaneidade desses

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de reclusão que deu origem a relatos e ilustrações espontâneas presentes no seu O livro vermelho – Liber novus, que só veio à tona há pouco tempo. Independentemente dos limites que separam a consciência e a inconsciência no fazer artístico, e sejam quais forem as perspectivas que recaiam sobre quem se expressa espontaneamente, esse é um tipo de arte que parece lidar, na forma e no conteúdo, muito mais diretamente com uma motivação: a intuitiva, ainda que os motivos simbólicos, místicos, religiosos, surreais ou fantásticos não sejam um privilégio do naïf. Como Raul Córdula, o galerista Jacques Ardies também acredita que a pintura figurativa se confunde com a própria noção de arte naïf,

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8  jung  O psicanalista utilizou a criação

intuitiva em pinturas reunidas n’O livro vermelho - Liber novus

artistas. Existe uma dureza e também uma sofisticação. Ao mesmo tempo, não há preocupação dos artistas com isso”, procura definir Vilma Eid. Para a galerista, a arte espontânea e a pintura popular ainda sofrem preconceitos, embora bem menos do que antes. Ardies confirma. Segundo ele, a pintura naïf brasileira aumentou bastante de valor, desde que abriu a sua galeria. Hoje, é vendida na Europa, por exemplo, a preços muito semelhantes aos dos artistas do Velho Continente, o que antes não acontecia. Apesar de o interesse dos brasileiros pelas obras naïfs ter crescido, os estrangeiros ainda representam 70% de sua clientela. “São os colecionadores mais sofisticados que mais apreciam a pintura espontânea”, afirma Vilma, que respeita o trabalho de Ardies e compartilha com ele alguns pontos de vista. A galerista, entretanto, diz desenvolver algo diferente em seu espaço, garimpando artistas que vão além do conceito que julga insuficiente para agrupar suas obras – o naïf. “Alguns curadores e críticos ficam discutindo se o artista Arthur Bispo do Rosário, por exemplo, é contemporâneo, popular ou doente mental. No meu modo de entender, isso não vai levar a nada. O importante não é discutir a classificação, mas reconhecer o talento dele”, defende Vilma. Para identificar esse valor, é preciso ir além dos parâmetros de mercado. O que está em jogo é muito mais uma questão simbólica. Admirar essa arte à qual se vinculam tantas denominações, mas nunca um “A” maiúsculo, significa despir-se de crenças pré-concebidas e reproduzidas na história da arte. Significa livrar os olhos de amarras e encontrar universos inusitados, cheios de surpresas criativas. Mais ainda, significa reconhecer que ela existe. O que não existe é ingenuidade sempre que for preciso colar um rótulo onde quer que seja. Com as obras de arte, não é diferente.

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reprodução: breno laprovitera

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FIGURAÇÃO Imagens de um mundo ideal

Primitivo, ingênuo e espontâneo, entre outras designações, o naïf é, sobretudo, caracterizado pela visão leve e encantada da vida

Sob o céu azul, a cidadezinha

acorda radiante. Rio, ponte, igreja, pássaros, pessoas, tudo brilha à luz de um sol tropical. As árvores têm cores vibrantes, saltam aos olhos em pequeninas pinceladas, como pontinhos multicoloridos. Até parecem fogos de artifício estourando em noite de São João. O clima aparenta tranquilidade

e bem-estar. A cena descrita pertence ao universo retratado pelo artista pernambucano Militão dos Santos, de 55 anos. Ela sintetiza bem o espírito da arte naïf brasileira. Existem muitas formas de pintura primitiva ou espontânea. E, embora não haja regras, quase todas expressam o que está nos quadros de Militão: um mundo ideal, distante de

problemas. Se a realidade alimenta essas criações, revela-se muito mais bonita e feliz na tela que na vida. “Ver a beleza do cotidiano e expressá-la na pintura é compartilhar as expressões alegres da vida, é ser livre e ser criança sem barreira ou limite, em que tudo é possível”, atesta Militão. É assim que muitos artistas naïf veem o mundo. Há sempre um pouco de tinta para tirar da imaginação um motivo capaz de mostrar que a existência pode ser mais simples e doce. Pode ser um sonho, uma lembrança pueril, uma festa ou mesmo um fato recente. “É um mundo florido, no sentido metafórico. O naïf é como um nicho utópico na arte e mantém a realidade como um casulo”, observa Maria do Carmo Nino, professora do departamento de Teoria da Arte da UFPE. Num estado que inscreveu sua arte naïf no mapa, firmando-se como um centro de manifestações espontâneas e

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con especial ti nen te reproduções: ricardo moura

Página anterior 9  crisaldo morais Além de artista com estilo marcante, ele foi um articulador do naïf no Brasil Nestas páginas

10 militão dos santos Composições em que os folguedos populares são retratados fazem parte do acervo do artista 11  edmar fernandes Representante da nova geração de naïfs pernambucanos, ele começou como ceramista

populares, essa marca também perpassa uma produção pictórica de diferentes peculiaridades. Bajado se consagrou pela alma de cronista. Ivonaldo, 68 anos, tornou-se conhecido por explorar o cotidiano de criaturas pitorescas, num meio rural cheio de frutas, folhas e tons. Crisaldo Morais, por sua vez, deixou uma pintura de veia moderna, na qual habitam figuras míticas e personagens da cultura popular, quase sempre de contornos redondos e angelicais, em cores chapadas e intensas. Mas sua contribuição foi além da tela, tendo sido ele um importante colecionador e articulador dos artistas naïfs brasileiros. Queria erguer um museu especializado no gênero, mas faleceu em 1997, sem concretizá-lo. Se Crisaldo tivesse conseguido montar um museu naïf em Pernambuco, certamente não faltaria acervo: Zé Som, José Barbosa, Chico Laranjeira, Edmar Fernandes, Laura Francisca, Mary Gondim, Alcides Santos, Régis Loureiro, Elza... A lista de artistas pernambucanos é longa e, ao contrário do que alguns acreditam, não estagnou. No Recife, na Zona da Mata ou no Sertão, novos nomes surgem, oferecendo ao público as suas visões generosas do mundo. É do comum que extraem delicadeza e poesia, quase sempre sem grandes pretensões. Cronistas, poetas, repórteres ou contistas visuais, os naïfs transformam arte em narrativa e contam um pouco daquilo que os olhos captam de dentro e de fora, ao seu redor. “Ele fez a posse da primeira mulher a assumir a presidência da República no Brasil. Só um artista naïf pode fazer isso. De certa forma, acho que ele ajuda a contar história”, ressalta Sérgio Oliveira, referindo-se à tela pitoresca que, pelas mãos de Militão, retrata a chegada de Dilma Rousseff ao poder – o artista é representado pela sua galeria Arte Maior, no Recife.

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Para o galerista, Militão é o melhor naïf que possui em seu acervo: “É bemacabado, criativo, cheio de detalhes. Não é qualquer um que faz, não”, avalia. Há quem torça o nariz ao conceito de “bem-acabado”, no gênero aqui tratado, preferindo expressões mais “puras” (outra qualificação controversa) e “espontâneas”, que apresentam formas brutas de construção pictórica. É o caso de Vilma Eid, dona da Galeria Estação (SP), que não gosta do adjetivo naïf e provavelmente não classificaria Militão da mesma forma que Sérgio. Ainda que não se considere uma especialista do assunto, a professora e curadora Maria do Carmo Nino pondera que há talentos dignos de um naïf autêntico. Não têm aprendizado

artístico algum, mas são donos de uma pintura de qualidade. Como exemplo, cita Antônio Poteiro, artista português radicado no Brasil. Por outro lado, ela chama a atenção para os artistas que tentam mimetizar o estilo naïf, figurando-se mais como uma maneira de trabalhar da qual se apropria do que um exemplar genuíno do gênero. Parece compartilhar da visão de Vilma.

AUTOAPRENDIZADO

Trabalhando dia e noite na casa da Rua Cachoeira, na Imbiribeira (Recife), Militão não se preocupa muito com isso e acha que a denominação naïf lhe cai muito bem. “Temos que colocar um nome em tudo. Senão, como identificaríamos as coisas na vida?”,

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indaga o artista, que perdeu a audição ainda criança. “Ainda me lembro de que o meu primeiro quadro pintado foi um pescador. Era um trabalho tosco, ninguém me dava crédito e até me desencorajavam a pintar. Como sou uma pessoa muito persistente e teimosa, continuei a ‘sujar’ as telas de tintas até me aperfeiçoar com os próprios erros e acertos. Sou um autêntico pintor autodidata”, define-se. Situações semelhantes aconteceram com quase todos os chamados artistas naïfs, mesmo que depois tenham investido em alguma formação. Foi assim com o caruaruense Ivonaldo, que, não obstante o acesso mais privilegiado ao mundo artístico, aprendeu a pintar sozinho. Era funcionário de banco, já formado em datilografia, quando decidiu ir até uma loja de artigos de pintura comprar – segundo instruções de um vendedor – tela, pincel, óleo de linhaça e um tubo de tinta azul. “Achando haver entendido as explicações, levou o tubo de azul da Prússia e pintou Pavão azul em noite azul, um pequeno quadro que ainda possui e que representa o início de seu longo autoaprendizado técnico com a pintura a óleo”. Quem relata é Jorge Anthonio e Silva, autor do livro Ivonaldo, organizado pelo galerista Jacques Ardies, para quem o artista é um dos maiores talentos de Pernambuco.

A lista de artistas naïfs pernambucanos é longa e, ao contrário do que alguns acreditam, não parou de crescer Hoje, suas telas de tamanho médio chegam a custar R$ 12 mil. Trilhando um percurso próprio e mais recente de aprendizado, Edmar Fernandes, de 29 anos, chegou ao naïf numa escolha intuitiva. Natural de Chã de Alegria, veio parar no litoral aos 10 anos. Começou modelando barro por conta própria, até descobrir a tinta acrílica, através da qual dá vida a cenas inocentes, de um interior alegre e colorido que ainda habita suas recordações. “Eu pinto muito o circo, que marcou bastante a minha infância”, diz o morador da periferia de Olinda. Edmar pertence à nova geração de naïfs pernambucanos e, apesar da desconfiança inicial da família, já tira sustento de suas telas. Militão também sobrevive da pintura, inspirada, segundo ele, nas brincadeiras infantis que viveu em Caruaru, onde nasceu e se criou. Faz 35 anos que se sustenta com isso. No entanto, diz já

ter se mantido como carregador de caminhão de supermercado, servente de obras e pintor de carro. Histórico, aliás, comum à boa parte dos artistas autodidatas. “O naïf é visto como uma produção à margem da cultura, mas encontra seu respaldo em uma parcela do público e de um mercado ainda atuante, mesmo hoje. Fora do país, como em Londres e Paris, galerias especializadas continuam existindo”, observa Maria do Carmo Nino. É muito importante lembrar que nem todo naïf é necessariamente sinônimo de quadro realista e figurativo. Há aqueles trabalhos nos quais a fantasia se faz matéria-prima e o inconsciente, talvez mais evidente. Reclusa em seu mundo particular, a olindense Laura Francisca faz valer essa premissa e aponta novos caminhos para a arte espontânea de Pernambuco. Sem também ligar para qualquer definição sobre sua pintura, ela pinta quando quer. É nesses momentos que as palavras do crítico Raul Córdula dão à obra da artista toda “razão”. Os seres que habitam o fundo de sua alma emergem em pinceladas bruscas e, como ele diz, dão corpo a “animais de sua lavra íntima, de sua escura caverna”. Eles vêm à luz para mostrar ao mundo que toda arte precisa, de alguma maneira, manter-se protegida por uma boa dose de incerteza. OLÍVIA MINDÊLO

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instituições Qual o lugar, hoje, desse gênero espontâneo?

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Representação detalhista da paisagem carioca faz parte do acervo do Mian

Por falta de verbas, o Museu Internacional de Arte Naïf, cujo acervo possui mais de 6 mil obras de artistas nacionais e internacionais, fechou suas portas em definitivo texto Gustavo Leitão FOTOS Mariana Quintão

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A má notícia chegou no dia 4

de abril, na forma de uma placa afixada no portão do casarão antigo da Rua Cosme Velho, 561, no Rio de Janeiro. Referência brasileira no campo da arte popular, o Museu Internacional de Arte Naïf (Mian), centro cultural inaugurado em 1995, a 30 metros do burburinho turístico do bondinho do Corcovado, avisava aos frequentadores que não abriria mais. Não era exatamente uma surpresa. Em 2007, o espaço já havia fechado as portas pelo mesmo motivo: falta

de recursos. Este ano, pouco antes do fechamento definitivo, tinha passado a abrir apenas para visitas agendadas por telefone. Do outro lado das grades trancadas, estão 6 mil obras naïfs nacionais e estrangeiras, o maior acervo do mundo. Com o vácuo, fica a pergunta: qual é o lugar, hoje, desse gênero espontâneo de arte que, no Brasil, ganhou representantes originalíssimos e reconhecidos como Heitor dos Prazeres? A busca incansável do Mian por recursos parece reproduzir a mesma carência dos artistas primitivos ali representados. Mantido com a ajuda da prefeitura do Rio, por meio da Lei nº 2734, de 1998, o museu, sede da Fundação Lucien Finkelstein, recebeu a ajuda financeira da Secretaria Municipal de Cultura, entre 1999 e 2006. Desde 2005, os R$ 16 mil mensais começaram a rarear, até serem totalmente

Uma visita ao museu evidencia, ao mesmo tempo, a importância do acervo e as dificuldades para mantê-lo interrompidos em 2007. Sem ter como se manter, o espaço cerrou as portas. Até que, no ano seguinte, a Light, companhia de iluminação fluminense, propôs uma parceria. Comandou um estudo de viabilidade econômica e acabou não levando o projeto adiante. “Só reabriremos, quando efetivamente houver verba na nossa conta bancária. Não para ficar um ano, mas para continuarmos abertos por um longo prazo”, decreta a museóloga Jacqueline Finkelstein, diretora do centro. Uma visita ao museu evidencia, ao mesmo tempo, a importância do acervo e as dificuldades de mantê-lo. Cercada de mangueiras centenárias, a casa do século 19, tombada pelo patrimônio histórico, serve como espaço expositivo, administração e reserva técnica. No salão principal, coalhado de obras e com poucas brechas livres de parede, está uma

espécie de quem-é-quem da arte naïf nacional, incluindo nomes como P.P. Leal, Chico da Silva, Heitor dos Prazeres, Miranda e Cardosinho. Chama a atenção um painel multicolorido do Rio, assinado por Lia Mittarakis, com os principais pontos turísticos cariocas, como o Cristo Redentor e o Estádio do Maracanã, numa superfície de 4 m x 7 m, que atrai os olhos como um imã. No topo da sala, um quadro contínuo ocupa todas as paredes, seguindo até pelas arestas. É Brasil, 500 anos, de Aparecida Azevedo, com seus impressionantes 1,4 m x 24 m. Em outros cantos, estão obras menores com cenas religiosas, panfletos políticos, festas populares e bailados. Quase sempre dominados por multidões, com um pano de fundo de cores intensas e perspectiva distorcida. A semelhança estilística das obras, produzidas em várias regiões do país por artistas geralmente modestos, em aparente isolamento criativo, é o que mais impressiona.

INSTALAÇÕES

Também chama a atenção a falta de equipamentos para o controle de temperatura no salão, comuns em museus do gênero. Ou de ventiladores. As luzes são do tipo fluorescente, mais econômicas, porém nem de longe as mais adequadas às obras de arte. Não há projeto de sinalização. “A casa nunca pôde passar por uma adequação para virar um museu. Nunca tivemos verba. Até os adornos da fachada estão caindo”, afirma Jacqueline, que já tentou, sem sucesso, buscar recursos com a Lei Rouanet e, agora, aguarda um fundo de auxílio de uma fundação na Holanda para as obras mais emergenciais. Dos 11 funcionários do museu, sobrou apenas o vigia. No andar de baixo, encontra-se a reserva técnica – parcialmente interditada depois de uma enchente há dois anos –, em que ficam guardados quadros sem a climatização ou estantes adequadas. Arborizado, o Cosme Velho, bairro da Zona Sul onde fica o museu, é conhecido pelo clima ameno. Porém, a temperatura de 25ºC e a umidade relativa do ar de cerca de 50% são favoráveis à reprodução

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Com poucos locais especializados, o destino dessas obras é quase sempre a casa dos colecionadores ou parcas galerias

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de microorganismos nocivos às telas. “Já estamos enfrentando problemas de deterioração em alguns quadros”, diz Jacqueline. Dessas, 150 a 200 já requerem trabalho de restauração.

COLECIONADORES

A diretora é filha do criador do museu, Lucien Finkelstein, um francês que dedicou a vida a propagar a arte popular. Joalheiro, ele chegou ao Rio em 1948, disposto a ficar por algumas semanas. Logo se apaixonou por uma prima e por um quadro do músico e pintor autodidata Heitor dos Prazeres, considerado o pioneiro dos naïfs nacionais – conseguiu comprar a obra por um preço irrisório. A coleção reunida pelo ourives até sua

morte, em 2008, com exemplares de cerca de 130 artistas, é celebrada mundialmente. Tanto que, em 2007, quando o Mian sucumbiu à escassez de recursos pela primeira vez, a notícia foi parar no Le Monde. “É realmente uma pena, pois o acervo que Lucien Finkelstein conseguiu reunir, com centenas de artistas brasileiros e estrangeiros e milhares de obras, deveria ter recebido um efetivo apoio dos órgãos públicos. O Brasil perde muito com isso, dado o desinteresse não só pelos museus, mas pela cultura brasileira, de um modo geral”, lamenta o curador Antônio do Nascimento. Como geralmente não têm acesso aos museus e galerias, muitos desses artistas precisam ser descobertos

para ganharem visibilidade maior. Isso ajuda a explicar por que o fundador do Mian e outros colecionadores conseguiram reunir grandes acervos, comprados aos poucos em suas peregrinações pelo país. José Rodrigues de Miranda (1907-1985), o Miranda, trabalhava como faxineiro de uma escola no Recife, quando teve seus primeiros quadros comprados por Finkelstein. Chico da Silva (1910-1985), pintor de dragões e criaturas fantásticas, foi tirado do anonimato pelo suíço Jean Pierre Chabloz. Depois, chegou a ganhar menção honrosa na Bienal de Veneza. Pedro Paulo Leal (18941967), ou PPL, autor do engajado A matança dos mendigos do Rio Guandu, foi

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celebrizado pelo marchand romeno Jean Boghici, dono de uma galeria no Rio. Intelectuais também ajudaram a chamar a atenção para essa produção, a partir dos anos 1950. Gente como o escritor Rubem Braga, que, em 1953, escreveu sobre Cardosinho, Heitor dos Prazeres e José Antônio da Silva em Três pintores primitivistas. Com poucos centros culturais especializados, o destino dessas obras é quase sempre a casa dos colecionadores ou algumas parcas galerias dedicadas aos naïfs, como a Jacques Ardies, aberta em 1979, em São Paulo, que põe à venda obras de nomes como Zé Cordeiro (1942) e Dila (1939). Antes da fama, artistas costumam expor seus quadros em feiras ao ar livre, espalhadas pelo país. Em raras ocasiões, elas participam de leilões badalados. O último deles foi em 2009, um ano após a morte de Lucien Finkelstein, quando alguns quadros de sua coleção particular foram postos à venda pela marchande Soraia Cals, no Rio. Há ainda exposições esparsas. A mais importante delas (e uma das poucas com continuidade) é a Bienal de

Naïfs do Brasil, criada por Nascimento em 1986, no Sesc de Piracicaba (SP), e comandada pelo curador, de 1992 a 2002. Atualmente, a curadoria é trocada a cada edição.

CLASSIFICAÇÕES

A inexistência de parâmetros é, ao mesmo tempo, o chamariz e a armadilha da arte popular. Como não dá para excluir ninguém do rótulo com base em critérios técnicos, os curadores, compradores e espectadores têm que saber se resguardar do valetudo artístico. Para o curador Paulo Klein, o conceito da arte naïf tem que ser atualizado, sob pena de se perder. Ele cita o fechamento do Mian como decorrência da falta de diálogo dessa produção com outros movimentos artísticos. “Ao longo dos anos, sempre existiu preconceito contra a arte popular e os segmentos mais ingênuos. Talvez a própria não atualização do conceito tenha prejudicado a sua manutenção e, consequentemente, a do museu”, afirma. Em 2002, Klein deu contornos bem palpáveis a esse discurso na exposição

13  heitor dos prazeres  Artista canônico do gênero, nascido em fins do século 19, o carioca foi também compositor

14 chico da silva  Seres fantásticos e mitológicos

habitam as telas do artista acriano

15  mantenedora

 A museóloga Jacqueline Finkelstein

herdou, do pai, o Mian

Pop Brasil: A arte popular e o popular na arte, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. A mostra causou frisson logo no título, que evocava a pop art. A ideia era partir da experiência de Mario de Andrade, que, entre 1927 e 1938, percorreu o país para pesquisar a cultura popular e suas fronteiras com o erudito. No CCBB, nomes consagrados do naïf como Cardosinho, Paulo Peciro Leal e José Antônio da Silva dividiam espaço (e afinidades artísticas) com Rubens Gerchman, Cildo Meireles e Samico. “Procurei desconstruir o termo, que também não precisa ficar restrito à pintura. Há exemplos magníficos na fotografia, como aquelas pintadas no Ceará; em objetos, como as bonecas de pano”, enumera o curador.

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hALLinA BELtrão

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internet Processando novos dados

O esforço de pensadores, jornalistas, amadores e juristas para atualizar seus campos, em meio a uma revolução que já provou ser muito mais do que apenas digital texto Thiago Lins

Não estranhe se, de repente, alguém lhe disser para esquecer tudo o que aprendeu sobre teoria e mercado da comunicação. Ou, pelo menos, rever seus conceitos, com a consciência de que eles podem mudar em pouco tempo, em decorrência de um post. Ou de um tweet. Notícias ficam velhas de uma hora para outra, o que ocorre também com a Teoria da Comunicação, o Direito e os fluxos de mercado. “Os valores estão sendo processados a cada momento”, declama o webguru Manuel Castells, em Comunicación y poder, um calhamaço necessário ao entendimento da comunicação na era 2.0. Ou seria 3.0? É, a tal “pedra angular da economia política clássica” não tem uma resposta pronta sobre a sociedade conectada, como o espanhol reforça. Com uma visão mais mercadológica, seu contemporâneo Chris Anderson é direto e vai mais longe, situando-nos no processo histórico. Em A cauda longa, o editor-chefe da Wired (“revista de cabeceira” dos nerds) expõe argumentos pertinentes e traça paralelos entre a internet e outras grandes revoluções da humanidade, sublinhando a importância do distanciamento temporal para o entendimento das mesmas. “Não é à toa que estamos discutindo Darwin até hoje”, resume, em seu best-seller. Não é à

toa, também, que os teóricos comparam a Era digital à Revolução Industrial – outro fato histórico que ainda não deixou de ser discutido. A associação não soa exagerada. A história condiciona a definição do tempo e do espaço à aparição de novas estruturas sociais, algo com o qual estamos nos deparando agora. Acontece que, dessa vez, não é físico. É digital. Mas também econômico, político e, principalmente, social. E é esse “caráter democrático” que mais intriga acadêmicos e analistas. Grosso modo, a cultura de massa não deixou de existir, mas deixou de ser o único mercado, dada a consolidação de nichos propiciada pela internet. A constatação dispensa dados. Basta lembrar os blogs e perfis do Twitter que visitamos: são pessoais em sua maioria. Quando deixaram de ser, é porque o número de visitantes chamou a atenção de algum portal, o que os fez mudar de endereço e de dimensão, mas não necessariamente de conteúdo. Provavelmente, as pastas do seu iPod têm músicas bem diferentes das tocadas nas previsíveis FMs, ou na recauchutada MTV: você pode ter visto o onipresente clipe de Oração, da Banda Mais Bonita da Cidade, no Fantástico. Mas certamente o viu primeiro no Youtube, a partir da indicação de algum

amigo no Facebook ou no Twitter, alguém com quem você divide afinidades. Nas redes sociais, o conteúdo é autogerado, enquanto a recepção é autosselecionada. Você pode fazer. Alguém pode escolher. Bilateral é pouco. Os conceitos são muitos e amplos: autocomunicação de massas, comunicação plurilateral, sistema de resposta. A diversidade é um reflexo da “economia da abundância” dissecada por Chris Anderson, para quem a acessibilidade a praticamente qualquer conteúdo na rede acabou enterrando a velha “economia da escassez”, da era pré-internet, quando a televisão e o rádio ditavam o que era notícia. O conceito de “monomídia” hoje é tão obsoleto, que causa estranhamento. A multimídia, por sua vez, agrega neologismos ainda mais curiosos: massclusivity (exclusividade em massa), narrowcasting (dirigido a um público segmentado, ao contrário da generalização do broadcast) e customização de massas. Na prática, os termos dizem respeito a nichos que têm se revelado filões rendosos, mudando os números e até a essência do mercado da comunicação. Imagine, há 10 anos, a probabilidade de sucesso de um site de amigos sobre cultura pop em geral. Soa batido, se considerarmos o espaço usual que

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con internet ti nen te os jornais e revistas concedem a cinema, música etc. Mas esses veículos raramente privilegiam, por exemplo, imagens do set do próximo longa da franquia Batman, ou de um uniforme alternativo disponível no game do personagem. Há quem ache que só os nerds de plantão, aqueles que se fantasiam de Darth Vader na estreia de algum Star Wars, se interessem por tais detalhes. Engano. Foi mesclando cobertura jornalística tradicional (embora seus textos transmitam mais familiaridade com os assuntos e mais paixão do que os de cadernos culturais, por exemplo), com insights geeks, que o Omelete, um site bonitinho sobre cultura pop, alcançou status de portal. Hoje, contabiliza nada menos que 2,2 milhões de visitantes por mês, totalizando 27 milhões de page views no mesmo período. Os dados estão disponíveis no botão de anúncio, onde há o link para falar com a “equipe comercial” do endereço: um negócio segmentado e exclusivo, de certa forma. E bom. Como é recorrente com endereços que se tornam referência em um nicho, o Omelete acabou hospedado no iG, este, sim, um portal, num sentido mais pleno, agregando notícias em geral. Grosso modo, ter um blog hospedado em um portal representa para os seus autores mais ou menos o que um contrato com uma grande gravadora representava para os músicos há alguns anos: um atestado de sucesso. “Há uma relação de conteúdo e uma relação comercial”, detalha Gustavo Belarmino, editor do portal NE10, do Sistema Jornal do Commercio. Portais ganham conteúdo, blogueiros ganham dinheiro. Sem fugir à regra, o portal em queBelarmino trabalha já hospeda blogs incensados. O editor, que também é professor de pós-graduação em Jornalismo online, admite que volta e meia ainda se surpreende com o número de visitas em blogs do NE10, lembrando que o custo, “relativamente barato” da internet, favorece à explosão no meio.

DIVERSIFICAÇÃO

À medida que os portais diversificam seu conteúdo, jornalistas têm que fazer o mesmo com suas habilidades. Formado em 1999, Belarmino ministra disciplinas e trabalha com ferramentas

1 Chris anderson Pesquisador defende que não se pode subestimar o poder de “um milhão de amadores” 2 cyberespaço André Lemos, professor da UFBA, é um dos brasileiros que têm refletido sobre o tema

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Ao contrário da Europa e dos EUA, o jornal impresso no Brasil registrou, neste ano, sua maior circulação na história do país

que não existiam naquela época. Reconhece, no entanto, que não deixa de aplicar alguns conceitos de jornalismo daquele tempo, assim como sua própria “experiência de mundo”. Requisitos antigos e mais específicos, como língua estrangeira e especialização, não deixam de ser determinantes em certas áreas, mas hoje podem perder força, num contexto genérico. É simples: o jornalista não vai entrevistar um estrangeiro todo dia. Provavelmente, não vai, também, escrever sobre sua especialidade com a mesma frequência de antes. Nunca vai parar de escrever. Acontece que esta prática, agora, está quase sempre acompanhada de fotografar, filmar e editar. Há redações em que o jornalista se desdobra entre o impresso e o digital. Estaríamos dando conta dessa ramificação de exigências? “Um bom jornalista deve saber escrever,dominar outras línguas e manipular as novas ferramentas para

que elas ampliem a capacidade do seu trabalho. Acho que os novos dispositivos e suas ferramentas, como as redes e mídias ditas sociais, são, mais do que uma ameaça, uma oportunidade para que o jornalismo cumpra a sua função social de informar, de questionar os poderes constituídos, de ampliar as formas de transparência”, defende o professor André Lemos, do departamento de Comunicação da UFBA. Doutor em Sociologia pela Sorbonne e autor de livros como Janela do cyberespaço (em coautoria com Marcos Palacios), Lemos atenta para outra questão: “O perigo é justamente ficarmos reféns dos fatos (sem saber discernir o conteúdo do envelope) ou dos artefatos (cuidando bem do uso dos instrumentos e esquecendo o domínio da escrita e da narrativa). Um bom jornalista deve saber contar histórias, dominar a escrita e as ferramentas, do lápis ao computador”. “Saber contar histórias”, aliás, é o que pode explicar a resistência da profissão. “A economia das empresas jornalísticas é formada por valores intangíveis, como credibilidade, prestígio, projeção e influência”, defende o repórter Lourival Sant´Anna, no livro O destino do jornal. Fazendo coro com Lourival, a doutora em Comunicação, Adriana Santana, recorre a Janet Murray, autora de Hamlet no holodeck – O futuro

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fotos: divulgação

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da narrativa no cyberespaço, pinçando um argumento do livro: “Mesmo com todos os avanços tecnológicos, o investimento na narrativa ainda é o mais importante”, lembra. Estamos a salvo. O amador pode lançar um vídeo e atingir milhões de visualizações, mas isso não quer dizer, necessariamente, que deixemos de acompanhar uma matéria posterior, sobre o mesmo assunto, na TV ou num impresso. O próprio Chris Anderson, que lista críticas ao broadcast em seus artigos, afirma que não podemos subestimar “o poder de um milhão de amadores”, mas ressalva que os amadores participam da mídia porque querem. Querem compartilhar conteúdo, e não lucro. Afinal, o dinheiro está entre os tais valores em reprocessamento. Tweets e o botão “curtir” no Facebook já foram praticamente instituídos como moedas de troca, modo de operar que a empresa de consultoria Frog Design define como “Era da recomendação”. A empresa americana talvez esteja muito avançada, mas afirma que a era mencionada já substituiu a da informação. O dinheiro de papel, por sua vez, ainda não foi substituído. Mas, recentemente, uma moeda começou a circular em bits, de onde deriva o nome: Bitcoin. O programa, ainda em fase beta, funciona como uma troca de serviços,

“O perigo é justamente ficarmos reféns dos fatos ou dos artefatos, esquecendo o domínio da escrita” André Lemos concentrados num banco de dados. Um desenvolvedor de software, por exemplo, pode prestar um serviço e ser “pago” com acesso ao código de algum outro software do seu interesse. Essa é uma negociação mais recorrente no Bitcoin, mas o programa ainda permite a troca de bens materiais. E o dinheiro de papel, como veremos, continua circulando pelos conglomerados da comunicação.

DIÁRIOS

Embora os diários (impressos e virtuais) estejam em queda nos EUA e Europa, o panorama não é tão ruim quanto parece. O recente prejuízo de mais de 10 milhões de dólares que a News Corp (do “controverso” Rupert Murdoch) teve com o diário virtual The Daily pode, na verdade, ser considerado um investimento. A Amazon.com não deu lucro da noite para o dia: a empresa simplesmente estava à frente de seu tempo.

Enquanto isso, o bom e velho jornal impresso enfrenta situação, no Brasil, que em muito difere dos EUA e da Europa. O caso da Washington Post Corporation (que edita o jornal homônimo) é sintomático: depois de lucrar 92 milhões de dólares no segundo trimestre de 2009, a corporação não passou de 45 milhões, entre os últimos abril e junho, gerando uma queda de 4% na circulação da edição impressa, com 534 mil exemplares em média, de segunda a sábado. Aos domingos, o número chega a 745 mil. A tiragem ainda é expressiva, mas insuficiente para deter a queda nos anúncios, de 12%, no impresso e um alarmante 13%, no online. Os dados divulgados pelo conglomerado, no entanto, sustentam que a demanda por TV aberta e por assinatura estão crescendo, e a queda da receita nesse setor (de 8% em um ano) pode ser justificada pelos próprios investimentos que a WPC vem fazendo. Por último, o relatório aponta a queda na publicidade impressa como um problema crônico. A perda de nada menos que 67 milhões de dólares se deveria à prioridade que empresas têm dado a ações virtuais, mais baratas. No Brasil de Chatô e Roberto Marinho, a situação é inversa. No primeiro semestre deste ano, foi registrada a maior circulação da história dos jornais nacionais. A pesquisa do Instituto Verificador de Circulação (IVC) aponta que os impressos brasileiros somam quase 4 milhões e 500 mil cópias diárias. À frente, jornais como a Folha de S.Paulo, com mais de 305 mil exemplares todos os dias, seguida de perto pelo mineiro Super Noticias (302 mil). O tabloide popular é ponta de lança de um formato que surfa na emergência das classes C e D, as maiores beneficiadas pela grande expansão do crédito que marcou o Governo Lula: antes de essas classes comprarem computadores e assinarem planos de banda larga (o maior entrave à inclusão digital), elas compram tabloides e televisores. A febre das TVs de LED e plasma parece ter contagiado a assinatura de programação a cabo, cujo crescimento foi significativo. Em janeiro, a Anatel publicou um levantamento segundo o qual as assinaturas aumentaram 30% em apenas um ano, atingindo praticamente 10 milhões de domicílios.

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con internet ti nen te divulgação

3 manuel castells

Estudioso é autor de Comunicación y poder, publicação necessária ao entendimento da comunicação hoje

Já a TV aberta fechou 2010 (ano de Copa do Mundo) no azul. O megaevento foi determinante para o crescimento de 20% da receita publicitária (mais de 16 bilhões de reais), de acordo com a instituição Inter-Meios. O mesmo estudo aponta para um crescimento de 17% da renda de todos os meios de comunicação no Brasil, desenhando um cenário positivo até para o rádio (subindo 11%) e revistas impressas (16%), mesmo número que indica um nicho promissor na internet. O conjunto representa o segundo maior crescimento do mercado da comunicação, em toda sua história, no Brasil.

“AI-5 DIGITAL”

Os dados mencionados mostram que, pelo menos no Brasil, o mercado tem se revelado sólido em meios tradicionais, e promissor, no ramo digital. O segundo, que é usualmente celebrado por sua liberdade absoluta, pode ganhar seu primeiro “marco civil nacional”, para usar um eufemismo. O Projeto Azeredo, que data da época em que o mesmo ainda era senador, propõe o rastreamento de dados e navegação do usuário comum como medida de segurança, o que tem suscitado campanhas inflamadamente contrárias à ideia nas redes sociais, como a comunidade Não ao AI-5 Digital, que corre no Facebook. Com previsão de apreciação na Câmara ainda esse mês, o projeto que “tipifica crimes” na web vem despertando críticas por estabelecer o que é crime antes mesmo de estabelecer direitos. Entidades da indústria do entretenimento já fazem lobby a favor. Por outro lado, críticos defendem que o Projeto de Lei ameaça a presunção da inocência, convertendo cidadãos em criminosos até que se prove o contrário. Talvez seja muito barulho por nada. Em tese, a TV e o rádio sempre foram regulados, mas suas concessões, que no papel são reguladas por uma série de exigências, na prática se revelam tão permissivas quanto qualquer outro negócio. Há, ainda, interpretações que podem ser feitas a partir da lei “real e concreta”,

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O projeto que “tipifica crimes” na web vem despertando críticas por não estabelecer quais seriam os direitos dos cidadãos como afirma o advogado Gustavo Escobar, especialista em propriedade intelectual. Escobar lembra, também, que a proposta do senador não é exatamente uma novidade, por listar e adaptar alguns artigos já existentes na Constituição, e alerta para o custo que sua implantação poderia acarretar. Nas redes sociais, as críticas são contra a instituição do monitoramento do usuário e a provável vulnerabilidade de dados pessoais. Razões como essas foram mencionadas no abaixo-assinado “Pelo veto ao projeto de cibercrimes”, que somou mais de 160 mil nomes. Incisivo, o pesquisador Silvio Meira publicou um artigo, com o oportuno título A rede em risco, em que traça paralelos entre os pontos do Projeto de

Lei e os interesses de “defensores do antigo status quo”, Meira alerta para uma suposta transformação da multimídia “em mídia”. Mais precisamente, um retrocesso. Seria o fim da internet como a conhecemos. Em outra ponta geográfica e virtual, a Islândia provou a força da internet enquanto ferramenta inclusiva. O governo daquele país está revisando sua Constituição, que data de 1944. Qualquer um pode participar do processo – via Facebook. Em artigo, Ronaldo Lemos, diretor do Creative Commons no Brasil, vibrou. “Os cidadãos participam em todos os momentos e não somente na hora do voto, para referendar um texto já pronto”, sublinhou, traçando um paralelo interessante com a nossa Constituinte de 1988, que aceitou emendas populares. Enfim: novos mercados, conceitos e direitos. E isso é apenas o começo. “Estamos diante de uma linguagem nova e universal”, arrisca Gustavo Belarmino. Como o editor acertadamente lembra, o Google traduz este texto que você está lendo e infinitos outros.

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hallina beltrão

FACEBOOK O que está no entorno do verbo “curtir”

Dispositivo da rede social imaterializa o impulso natural do homem de socializar-se, tornando-se o mais novo trunfo nas relações humanas e atraindo o olhar corporativo texto Carol Almeida e Schneider Carpeggiani

A receita de bolo de liquidificador, a

mais nova linha de esmaltes cintilantes, o popular cachorro Boo, a piada pronta sobre a política nacional, a política nacional, as guerras lá fora, esta revista, seu vizinho, seu amor, seu estranho, a morte daquela celebridade que você “curtiu”, ainda que o verbo não seja condizente com a natureza da notícia... O que nos leva de volta à receita de bolo de liquidificador – esse conjunto de coisas tangíveis e intangíveis, que é possível “curtir” em um dia no Facebook e no Twitter. E não apenas curtir. Mas “curtir”

para os outros. O que, na verdade, tem nome próprio e se chama compartilhar. Um impulso que é natural do homem, esse de compartilhar, mas que até bem pouco tempo não tinha as ferramentas necessárias para que fosse vivenciado numa escala industrial, a ponto de transformar esse gosto dirigido em uma dinâmica social, ironicamente, mais profunda e cheia de camadas. Ironicamente, porque tomamos esses gostos – ou likes, como batizaria Mark Zuckenberg, nome por trás do Facebook –, por trivialidades do cotidiano, escapa-

nos a memória recente de um tempo, não muito lá atrás e ainda presente em diversos setores da sociedade. Um tempo em que nossos gostos eram ditados por esse Godzilla a que se costuma chamar de “grande mídia”. Prova de que esse comportamento em redes sociais interfere diretamente na secular mediação das grandes editoras, jornais e emissoras de TVs, e passa a diluir a figura do intermediário, é a atenção especial que tanto empresas quanto governo têm dado a essas mesmas redes – ora interessados, ora

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con internet ti nen te fotos: divulgação

preocupados com suas possibilidades. Tomemos, por exemplo, a presença cada vez maior de pessoas jurídicas fincando espaço nesse imenso lote social, usando tais canais não apenas como um meio de comunicação imediato com seus clientes/consumidores, mas buscando métricas que indiquem tendências de comportamento cada vez mais voláteis. Em agosto, deste ano, o Facebook colocou no ar o seu Facebook para Empresas, página especial para criação de perfis corporativos, descrita como “aprenda como prosperar seu negócio com nossas poderosas ferramentas de marketing”. O segundo movimento já acontece na China, Coreia do Norte, alguns países do Oriente Médio e, mais recentemente, na Inglaterra, onde o governo se assustou com a intensa troca de informações em redes sociais, geradas durante manifestações de jovens contra o sistema. Na opinião do governo britânico e desses demais governos citados, o compartilhamento coloca em perigo o resto da população e, por isso censurar, e, mais grave, monitorar o que as pessoas pensam e “gostam” é o novo pretinho básico da fórmula vigiar e punir. Enquanto isso, nossa atividade online cresce, embora ainda seja ínfima, quando comparada ao que pode se tornar. Até porque a porcentagem de pessoas que, de fato, produzem ideias e opiniões – quando as acham disponíveis – é ainda muito baixa. Os voyeurs de redes sociais ainda são a maioria.

BALANÇAR DE CABEÇA

Mas nem todos são “deslumbrados” com as possibilidades por trás de um toque na tecla “curtir”. “Não podemos achar que o comportamento de uma pessoa no Facebook ou no Twitter seja muito diferente daquele que ela teria numa mesa de bar. Você não vai tomar um partido, antes impensável, só porque está conectado a uma rede social”, aponta Breno Fontes, professor do Departamento de Sociologia da UFPE, que complementa: “A discussão em relação ao comportamento das pessoas na internet, em alguns momentos, lembra os apocalípticos, que declaravam que o telefone distorcia a natureza das conversas”. Michel Lent, publicitário do Grupo Pontomobi, reforça que nosso comportamento em redes sociais digitais é tão somente uma reprodução de nossa

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Pessoas jurídicas estão cada vez mais presentes nas redes sociais, buscando métricas que indiquem tendências

vivência, vamos dizer, analógica: “Nas redes sociais, digitais ou não, você está fazendo parte de uma conversa e há vários níveis para você participar dela. Você pode simplesmente ouvir, que é o que a maioria das pessoas faz na verdade. Não tenho estatísticas com os botões de like, mas as participações em fóruns e coisas mais opinativas perfazem menos de 1% do total de gente que tem acesso àquela informação. As pessoas ainda participam pouco. O que esses botões de like ou curtir permitiram a elas foi um balançar de cabeça. Se você está sentado no bar com seus amigos e tem alguém falando algo com que você concorda ou discorda, basta balançar a cabeça, timidamente, para se expressar”. Clay Shirky, referência em estudos sobre redes sociais e professor da Universidade de Nova York, onde Michel Lent estudou, chama esse conteúdo que criamos de “excedente cognitivo”. Mesmo que seja o já prosaico ato de apertar o botão de curtir do Facebook ou o retweet (RT) do Twitter (quando se repassa para seus “seguidores” o texto ou link publicado por outra pessoa), toda essa movimentação ativa na rede

cria um volume de conteúdo que pode, como vários outros excedentes em nossas vidas, ser jogado fora. Mas pode também ser reciclado em motivações ora de entretenimento, ora cívicas. Em comum, todas essas motivações nascem amadoras e, justamente por isso, ganham logo uma escala pública. Shirky dá explicações cientificamente testadas, mas deixa claro que esse caráter amador, que vem do verbo amar, é essencial para explicar por que essas iniciativas que agregam, hoje comumente representadas na simbologia das chamadas hashtags, dão tão certo e têm potencial para mais. Daniela Arrais, jornalista e blogueira do www.donttouchmymoleskine.com, cujas métricas online a identificam como alguém de “muita influência” em redes sociais, é uma das responsáveis pela criação de uma popular ação de engajamento com fins exclusivamente agregadores. O Instamission, projeto que pede às pessoas fotos feitas via Instagram (aplicativo de imagem popular do iPhone), criadas sempre a partir de um tema, surgiu dos gostos da própria Daniela e da amiga publicitária Luiza Voll. “Este ano li sobre a fomo (fear of missing out), uma síndrome que acomete todos nós que passamos horas online. Sabe quando você está em casa e começa a olhar o Instagram e, imediatamente, sente que deveria estar na rua, vendo uma exposição, curtindo um piquenique no parque? Pois, então, isso é fomo. Você não quer

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perder a chance de contar para o mundo como sua vida é legal, como seu dia a dia vai além do trivial. Afinal, ficar em casa assistindo a um filme atrás do outro não rende fotos bonitas, por mais que existam 213 filtros à sua disposição. Mas, aí, você se pergunta: se eu estou feliz em ficar em casa, qual é o problema de acompanhar a vida dos amigos e dos conhecidos? Nenhum. Mas a gente vive tanto na internet, que é a coisa mais normal do mundo transpor alguns elementos da rede para a vida real. A gente vive num mundo de likes e RTs. Parece que não basta mostrar um vídeo, compartilhar uma música. A gente quer o respaldo dos outros para um gosto que é nosso, mas que parece valer mais quando endossado por uma pequena multidão. Fico refletindo constantemente sobre isso”, afirma Daniela. O que ela descreve, a partir de suas experiências, é também aquilo que Michel Maffesoli, cientista social francês, fala, quando diz que uma comunidade se define por uma “pulsão de estar-junto” e não exatamente por um “projeto voltado para o futuro”. Ou seja, mesmo se o “excedente cognitivo” criado por todos aqueles que compartilham ideias no Facebook, Twitter, Orkut e adjacentes tiver um critério cívico, ele só se alimenta do tempo presente, da movimentação do agora. A importância que damos ao tempo presente, ratificadas por essas redes, “dá dignidade ao tempo vivido”, diz Maffesoli.

O número de pessoas que produzem ideias e opiniões é ainda muito baixo. Os voyeurs das redes ainda são a maioria REFLEXãO E REFLEXO

Em 1962, três alunas de uma escola na Tanzânia começaram a rir sem parar. De uma forma inesperada, esse riso foi sendo “transmitido” aos demais alunos e, logo, 95 estudantes estavam rindo descontroladamente. A “risadaria” começou a ganhar status de epidemia. Desse raro fenômeno, surgiu o primeiro estudo científico sobre o chamado “contágio emocional” que as pessoas sofrem. Segundo Gil Giardelli, professor de Redes Sociais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o que as redes sociais fazem é deixar evidente que não somos imunes ao contágio emocional, uma vez dentro desses ambientes cujas ferramentas de curtir ou retweet facilitam nossa, digamos, contaminação. “A lógica dos chamados trending topics (tópicos mais comentados no Twitter) é que quando você passa de um certo número de pessoas que escreveu aquilo, se tem um processo em que o assunto começa a se autoalimentar”, explica ele. Bia Granja, curadora do youPix, maior festival de cultura da internet do Brasil, acredita numa lógica de

4  CLAY SHIRKY

 studioso das redes sociais E denomina o conteúdo criado por amadores na internet de “excedente cognitivo”

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MARK ZUCKERBERG

 riador do Facebook é responsável C pela ideia do botão like ou “curtir”

“boiada”, quando pensa na infinidade de retweets e de curtir que vê pela frente todos os dias: “Tem gente que me pede para comentar certos assuntos no Twitter só pra que elas possam dar RT. Todo mundo quer dar opinião, desde que seja uma opinião com a qual ela saiba que outros vão concordar. Por isso, algumas pessoas vivem de RT de outros: é fácil se envolver com a questão, mas se alguém questionar, você manda a pessoa falar com o autor do comentário original”. “Eu acho que as pessoas nunca tiveram tanta liberdade opinativa que pudesse, de fato, ecoar quanto agora. Isso também faz com que as pessoas se envolvam num número maior de coisas, simultaneamente. Antes, se estávamos vendo novela, dificilmente poderíamos fazer outra coisa. Hoje em dia, a gente assiste à novela ‘tuitando’, ao mesmo tempo que dá RT em uma piada e ouve música no iTunes. O episódio da novela acaba e partimos para comentar outra coisa. Como, na internet, estamos expostos a muito mais informação, obviamente, acabamos partindo para outros assuntos mais rapidamente. O que não quer dizer que não nos aprofundemos em nada ou que todo nosso envolvimento com as tendências/ redes seja superficial”, acredita Bia. Tanto não é superficial, que um pai fez campanha no Facebook para que os internautas o ajudassem numa questão doméstica: se ele atingisse um milhão de toques na tecla “curtir”, colocaria o nome Jaspion no seu filho, referência ao herói da série B japonesa. Até o fechamento desta edição, nem a metade dos internautas havia “curtido” essa história. Ainda assim, ela levou muita gente a desejar que houvesse uma tecla “descurtir”, pura utopia quando pensamos no caráter de agregar seguidores de forjar simpatias, próprio das redes sociais. E, por falar em edição: você já nos “curtiu” no Facebook?

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karina freitas

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Peleja

O jornalista deve usar sua fama para vender produtos? O publicitário André Rozowykwiat defende que é sua área de atuação que respalda a propalada credibilidade jornalística e que esta, por sua vez, serve como ótimo atributo para transformar jornalistas em garotos-propaganda. Embora acredite que jornalistas podem mesmo influenciar a opinião pública em favor do consumo, Rafaella Soares pondera que os profissionais devem lembrar a função social da profissão, antes de alçar marcas aos trending topics.

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André Rozowykwiat

Rafaella Soares

Há alguns anos, deparei-me com um

artigo de Millôr Fernandes criticando a publicidade. Segundo ele, a “toda poderosa” imprensa é que trazia consigo a verdade, enquanto a publicidade só mentia. Para quem vive o dia a dia de uma agência, isso soou como um chute de coturno, por ter vindo de uma das grandes cabeças do nosso país. Tive Redator publicitário, certeza: vivemos na época das opiniões sócio-diretor da agência Atma superficiais, e quem ganha é uma imprensa de má qualidade. Assim como no jornalismo, a publicidade tem seu papel na formação de opinião. Quem aqui não considera a Brastemp a melhor marca de refrigerador? Ou chama lâminas de barbear de Gilette? Não foi mentindo que essas marcas chegaram aonde estão. E, para chegar à liderança – falando a verdade na comunicação –, a culpa foi, sabe de quem? Do jornalismo também. Quando Assis Chateaubriand inaugurou a TV no Brasil, nos anos 1950, a publicidade era inserida nos programas, em que os jingles eram cantados por estrelas da época de ouro do rádio. Assim, desde antigamente, o jornalista já era publicitário. É o que chamamos de merchandising. Chatô, como era conhecido, publicava em seu conglomerado (34 jornais, 36 emissoras de rádio, 18 estações de televisão, uma agência de notícias e duas revistas) notícias caluniosas a respeito de empresários e produtos para forçá-los a anunciar em seus veículos. Hoje, por conta de absurdos da imprensa, como o famoso debate Lula X Collor ou a cobertura do “escândalo” da Escola de Base de São Paulo, a ética no jornalismo tomou a frente do bom senso. Se o profissional anuncia um produto, pode até ser demitido, como aconteceu com Joelmir Beting, na TV Globo. Mas o publicitário, antes de mais nada, é um estatístico. Ele trabalha baseado em pesquisas de opinião e muito mais. Por isso a gente sabe como e quanto o público associa sucesso a celebridades, endossando a utilidade de algo. Como, no Brasil, jornalistas são tão endeusados quanto atores de Hollywood (sendo que eles ainda carregam a vantagem de passar credibilidade), tornam-se personagens perfeitas para campanhas. Para se ter uma ideia, 19% do público topa pagar mais por um produto anunciado por uma celebridade. Marcas como C&A, Marisa, Grendene, Brahma, Caixa, Havaianas, entre outras, buscam figuras conhecidas para falar bem de si. Então, por que não? Se o que possibilita ao jornalismo ser independente, imparcial, apurador, é justamente a publicidade?

Quando Assis Chateaubriand inaugurou a TV no Brasil, a publicidade era inserida nos programas

Em 2009, a Telefônica ofereceu um

contrato a Marcelo Tas para divulgar a marca na imagem de fundo do perfil @marcelotas, além de postagens publicitárias. Tas foi um dos que primeiro ocuparam a rede social. Quem fechasse contrato com ele, estaria se associando a um profissional que catapulta uma marca aos tão ansiados trending topics. Jornalista, atua na A negociação provocou uma das priLead! Assessoria e Promoção meiras polêmicas no microblog Twitter. Hoje, antes de serem criados tópicos patrocinados pelo próprio Twitter, um time de formadores de opinião vem seguindo os passos do apresentador. Talvez haja um menor grau de influência no fato de uma marca ser avalizada por um apresentador de programa de humor, e isso não seja tão preocupante quanto um colunista se mostrar entusiasta de uma determinada legenda política. Ampliando o tema: a profissão do jornalista, quando não é subestimada, é levada de forma maniqueísta. Na essência da profissão, além do compromisso com a verdade, deveria também pesar um comprometimento com a veracidade e legitimidade do que se diz, pois formar opinião é algo sério. A massa de profissionais que fomenta os meios é um caldeirão que mistura publicitários, marqueteiros, relações públicas e assessores, em funções semelhantes: etiquetados no tal do curso de Comunicação. Mas jornalista é um “bicho” distinto. Trabalhar com notícia requer doses adequadas de bom senso, ousadia, rapidez de raciocínio, capacidade de sobrevivência às adversidades corporativas, bom humor. Tudo ao mesmo tempo, agora. A maioria de nós nem se permite refletir sobre a dimensão da profissão: muitas vezes uma opinião emitida, um tom imprimido, uma palavra usada são determinantes para influenciar o ponto de vista de quem lê. E isso é tão importante quanto as decisões tomadas em Brasília ou os avanços da medicina. A grande variável da área, no entanto, deixa-nos incertezas: há sempre um questionamento no ar sobre o papel do jornalismo. Uma vez nesse ofício, ou você embarca na responsabilidade de arcar com o que fala e os seus desdobramentos, ou procura outra coisa para fazer. Afinal, por mais técnico que possa parecer – os detratores falam que um curso técnico daria conta de ensinar pessoas a construírem leads –, é bem mais trabalhoso passar uma notícia, uma ideia, um conceito que o interlocutor vai carregar por anos do que fazer uma paella.

A maioria nem se permite refletir sobre a dimensão da profissão, determinante para influenciar o leitor

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PANELEIRAS Ofício que se originou do barro

Nos pequenos distritos de Serra dos Ventos, em Belo Jardim, o artesanato antes produzido por mulheres conquista a adesão masculina, atuando, ainda, a favor da autoestima local texto Danielle Romani Fotos Roberta Guimarães

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As mãos ágeis e pequenas de Aparecida de Lima Silva, 43 anos, são íntimas do barro. Desde muito nova, molda peças utilitárias com a matériaprima colhida às margens do Rio Ipojuca. Rotina compartilhada, desde sempre, com a mãe, irmãs, tias, primas e amigas, que trabalham sentadas no chão de cimento batido de sua casa. No seu grupo, um dos muitos espalhados pelas terras do Sítio Rodrigues – localidade da zona rural de Água Fria, distrito de Belo Jardim, a 190 km da capital pernambucana –, cinco parentes estão envolvidas na moldagem, acabamento, queimação e finalização das peças. Atividade que garante emprego e renda para toda comunidade local, inclusive para os homens, antes refratários a se aventurarem na tarefa que, há poucos anos, era exclusiva das mulheres. “Minha avó fazia, minha mãe também. Era o que existia pra gente trabalhar. Hoje, a maioria das mulheres

faz, e agora, os homens também estão ajudando. No nosso caso, o marido da minha filha ajuda a gente. O que mudou é que o pessoal antigo só fazia panela. Eu também, no começo, só fazia louça. Depois que a gente aprendeu a trabalhar novas peças, começou a ganhar mais dinheiro e a ter mais incentivo pra produzir. Hoje é bem diferente do que era antigamente”, conta a paneleira. O antigamente, a que ela se refere, diz respeito ao tempo em que a comunidade das paneleiras do Sítio Rodrigues se limitava à atividade de produzir peças para vender na feira da cidade, por míseros um ou dois reais – quando muito –, sempre às segundas-feiras. Época, não muito distante, em que a belo-jardinense ainda não tinha sido aclamada como uma expertise no que faz. Ainda não era a mestra Cida, com direito a destaque no Salão dos Mestres da 12ª Fenearte, realizada no último mês de julho. Cerca de três meses antes da realização da Fenearte, período em que a reportagem da Continente visitou a casa de Cida, a coordenadora regional do Programa de Artesanato Brasileiro da

Agência do Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, responsável pela seleção dos artesãos que participam da Feira, Célia Delgado Novaes, comentou: “Ela será a primeira paneleira a participar do Salão dos Mestres. Nunca tínhamos trazido uma antes. A participação dela vai ter impacto. Em primeiro lugar, porque vai ser uma novidade. Em segundo, porque as peças dessas mulheres são lindas”. Célia acertou na aposta. Os trabalhos da paneleira foram uma grata surpresa para os que visitaram o evento. Instalada na entrada da feira, a barraca de Cida atraía pela originalidade das panelas, tigelas e pratos em formato de patos, galinhas ou adornadas com boizinhos, cabras e aves. Pelos tijolinhos que, unidos, formam geométricos painéis e mosaicos; ou pela singeleza dos vasos e pratos decorados. Todos tendo apenas o barro como matéria-prima, além de corantes naturais como o caulim – que proporciona efeitos embranquecidos – e o tauá – que dá uma coloração vermelha, sendo usado pelos índios que moram na região, há centenas de anos. Das 67 caixas de louças levadas para a Fenearte, Cida voltou para casa com

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 om detalhes de animais, C peças refletem o cotidiano do Sítio Rodrigues

Nestas páginas 2 MOSAICO

 nidos, tijolinhos feitos U por Cida Lima formam geométricos e belos painéis

3-4 paneleira Trabalhando com argila desde criança, Cida, hoje uma mestra, teve suas peças aclamadas na Fenearte

“Minha avó e minha mãe faziam. Era o que existia pra gente trabalhar. Agora, até os homens ajudam” Cida Lima uma. E apenas porque as peças estavam quebradas. O dinheiro, dividido com o grupo, ajudou a reformar o espaço de trabalho utilizado pela família e a comprar uma moto, que auxiliará o genro “paneleiro” a locomoverse entre a cidade e os sítios. “Uma surpresa para a própria Cida e para a comunidade”, diz a artista plástica e designer Ana Veloso, que é a principal responsável pela mudança na vida e na autoestima das artesãs de Belo Jardim.

ESTADO DA ARTE

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Ana Veloso atuou como multiplicadora de ideias que ajudaram a comunidade de paneleiras a vislumbrar novas oportunidades, a renovar e a preservar uma arte tradicional. Conhecida pelo trabalho que busca temáticas do imaginário nordestino, como na exposição Caminhos do santo, em que registrou a devoção do povo pelo Padre Cícero, Ana proporcionou aos artesãos locais um encontro entre o saber erudito e o popular. Há cinco anos, ela chegou a Belo Jardim para comandar o Estado de Arte, a convite de Conceição Moura, que à época ocupava um cargo público e que continua viabilizando a existência do projeto. “Depois de uma entrevista a um programa de rádio de Garanhuns, no qual eu falei sobre a importância

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das louceiras, ela me procurou, porque também se importava em preservar esse trabalho. Passei um ano visitando os sítios, fazendo um levantamento de quantas mulheres exerciam a arte, e constatei que era uma atividade que podia se extinguir, diante da falta de mercado”, explica Ana, que passou a manter uma convivência próxima com a comunidade. Nesses encontros e contatos, a designer estimulou as mulheres a recriar seus trabalhos, dando-lhes melhor definição, acabamento, polimento. Mas sem deixar de lado seu universo cultural. Foi daí que surgiram peças adornadas por animais domésticos, frutas e cabeças inspiradas nos ex-votos que elas

“Elas mangavam, dizendo que eu era louca por achar bonita uma peça imitando um piolho” Ana Veloso produziam, há muitas gerações, para saldar promessas. “No começo, elas não acreditavam que o que eu falava podia ser verdade. Tinham vergonha de cobrar um preço maior, mangavam, dizendo que eu era louca por achar bonita uma peça imitando um piolho ou uma casa de cupim”, diverte-se a artista plástica, que vê na

experiência de Cida sua recompensa de cinco anos junto à comunidade. “O maior troféu do projeto Estado de Arte é a participação de Cida na Fenearte. O reconhecimento que ela recebeu demonstra que o artesão qualificado e bem-orientado, pode, sim, viver do seu ofício”, comentou Ana. O trabalho iniciado com as paneleiras multiplicou-se. Desde que se instalou na Serra dos Ventos, distrito que fica a 20 minutos de carro do centro de Belo Jardim, Ana, que a princípio contava com a ajuda das também artistas plásticas Tereza Costa Rêgo e Suzana Azevedo, descobriu que a região tinha um excelente potencial. Envolvida pela beleza da serra, passou praticamente a viver na localidade e a se

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5 reciclagem Walter Wagner e Solange Veloso trabalham com sobras de couro 6 coleção Na sua casa, em Serra dos Ventos, Ana Veloso exibe diversos produtos dos artesãos locais DESIGN 7 Cesta feita em palha-de-catolé, material que, antes, era usado apenas em vassouras



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aproximar dos moradores, que, graças à sua interferência, passaram a elaborar novos produtos com matérias-primas locais. Antigos vassoureiros da região começaram a criar peças de design com a palha da palmeira catolé. “Fazia vassoura desde os 15 anos. Hoje, fazemos centros para mesa, cestos, bandejas, baús, bolsas”, conta Josileide Gomes Bezerra. As peças comercializadas por ela são vendidas em várias lojas de Gravatá, do Recife e de cidades alagoanas. Agora, estarão também na cadeia Tok&Stok, que venderá sousplats e cestos produzidos pela comunidade. “Estamos tendo oportunidades”, diz Josileide. Esses não serão os únicos produtos belo-jardinenses encontrados nessas lojas. Peças

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produzidas com raspa de couro, como porta-guardanapos e rosas, também vão ser distribuídas pela empresa. Elaboradas e vendidas num centro de artesanato criado por Ana Veloso, em Serra dos Ventos, as peças com raspa de couro passaram a ser produzidas por iniciativa da artista plástica. “Quando cheguei ao distrito, vi que existiam 12 curtumes que inutilizavam centenas de quilos de raspas. Eles queimavam esses restos, o que era um desperdício, além de empestar a cidade com cheiro desagradável. Foi quando tivemos a ideia de executar o trabalho”, recorda Ana. Desde então, sua filha Solange Veloso e seu genro Walter Wagner se mudaram para o município. Hoje, trabalham na produção de rosas,

no recobrimento de vasos, paredes, móveis e na elaboração de tapetes trançados. A eles, uniu-se a artesã Quitéria, que prepara belos painéis com as sobras dos curtumes. “A ideia do projeto Estado de Arte foi a de fomentar e incrementar a produção artística do lugar, introduzindo técnicas, estilos e estimulando a construção de uma identidade artesanal, a partir de uma matéria-prima local”, explica Ana, que promoveu no mês passado a I Feira de Diversidade Cultural do Agreste, reunindo dezenas de artesãos e agricultores dos arredores da Serra dos Ventos. Sua aposta é que esse encontro se multiplique por toda a região, e que gere bons frutos para as comunidades.

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LONDRES Um passeio entre livros No centro da cidade, em ruas como a Charing Cross Road e o turístico Picaddily Circus, concentram-se livrarias que atraem bibliófilos e despretensiosos passantes texto Antônio Martins Neto

O filme foi lançado em 1986. A atriz

Anne Bancroft é Helene Hanff, escritora norte-americana apaixonada por livros raros, que, um dia, escreve para o gerente de uma livraria de Londres especializada em obras esgotadas. Por 20 anos, Frank P. Doel, interpretado pelo ator britânico Anthony Hopkins, trocará cartas afetuosas com Helene. É o enredo de Nunca te vi, sempre te amei. Título em inglês: 84 Charing Cross Road. Não é por acaso que a simpática e movimentada rua no centro de Londres dá nome a esse clássico dos anos 1980. Na capital inglesa, Charing Cross Road é a rua das livrarias, das mais charmosas e tradicionais lojinhas de livros raros – e de segunda mão – às grandes cadeias com café, poltronas e andares inteiros abarrotados de exemplares. A via, que foi um dos cenários da história de amor a distância estrelada por Bancroft e Hopkins, é ainda hoje o ponto de partida perfeito para um passeio pelas ruas londrinas, pontuado por sebos e grandes lojas de livros. Charing Cross tem atualmente 13 livrarias (curiosamente, nenhuma no número 84, em que chegou a funcionar, de fato, uma loja de livros, fechada antes mesmo de o filme ser rodado). O charme dos ambientes e a beleza das encadernações antigas permanecem nos estabelecimentos que sobrevivem pela

tenacidade dos donos e pela fidelidade dos clientes de longa data. A Any Amount of Books, no número 56, promete em seus folhetos e sacolas manter viva a “tradição de Charing Cross na venda de livros de segunda mão”. São dois pavimentos – térreo e subsolo – com corredores estreitos formados por estantes do chão ao teto. Por eles, circulam colecionadores, escritores, pesquisadores, curiosos e turistas produzindo rangidos no piso e nas escadas de madeira. É como uma volta ao passado, enquanto o presente se desenrola agitado através da grande vitrine frontal. Encostados a ela, já na calçada, descansam três pequenos tabuleiros com livros usados, vendidos por apenas £1,00 (R$ 2,65) a unidade – ou cinco volumes por £4,00 (R$ 10,60). Valem o quanto pesam, mas dá para garimpar algo interessante em meio a títulos como Manual de um jardineiro idiota, de Dephne Ledward, ou Guia de Londres para bebês, edição 2004. Já as verdadeiras relíquias da Any Amount of Books ficam distantes da calçada e do olhar rápido dos pedestres. Estão trancadas à chave em um armário por trás do balcão de onde a única atendente da loja dá dicas aos clientes, recebe dinheiro e ensaca os livros. É dela, também, a missão de mostrar os exemplares raros e antigos. É só

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pedir. History of London, de W. Harrison, publicado em 1776, custa £ 795 (R$ 2.106,00), foi restaurado e mantém uma bela encadernação original. Trata-se de uma boa mostra do que se pode ver em meio aos 50 mil volumes da livraria. Ainda em Charing Cross Road, seguindo em direção à Oxford Street, a rua do comércio de Londres, encontrase a Henry Pordes Books. A livraria está no endereço há apenas 30 anos, mas carrega uma atmosfera da primeira metade do século 20, com balcões e estantes de madeira antiga. Aqui

estão 12 mil volumes, divididos em 25 gêneros. Os livros raros garantem ao estabelecimento clientes cativos de Nova York, Paris e Munique, que hoje compram via internet. As vendas na rede respondem por 15% do faturamento. “Do Brasil, só tivemos dois ou três compradores on-line este ano”, diz Anthony Rhys Jones, um dos proprietários. “Mas há sempre brasileiros nas lojas”, completa. Mais adiante, do outro lado da rua, a lendária Foyles atrai turistas e, principalmente, londrinos. A livraria

foi fundada em 1903, de forma prosaica, pelos irmãos William e Gilbert Foyle. Decepcionados, depois de serem reprovados nos exames para o serviço público do Reino Unido, os jovens resolveram vender os livros didáticos. Gostaram tanto do resultado, que usaram o apurado para comprar mais exemplares e, daí, revender. Nascia aquela que mais tarde eles proclamariam como “a maior livraria do mundo”. Nos três primeiros anos, a Foyles passou por alguns endereços fora de

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As livrarias londrinas atraem milhares de leitores, há mais de um século

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O estoque é composto por pilhas de exemplares usados e sobras de tiragem

3 cinema

A Charing Cross Road virou título de filme com Anthony Hopkins

Charing Cross Road até se instalar, em 1906, no número 135 da famosa rua. Hoje, a loja se estende do edifício 113 ao 121, tem cinco andares e, se ainda não é a maior do mundo, certamente, é a maior livraria independente de Londres. Possui um estoque de qualidade, na matriz e nas filiais espalhadas pela capital inglesa. “Nenhuma se aproxima da magnitude e da sedução da loja principal”, escreve Lesley Reader, autor do guia Book lover’s London, publicação que traz informações, endereços e horários de funcionamento de 650 livrarias londrinas. “Mas têm

bom estoque, com boa seleção, ênfase em títulos sérios e força nos gêneros de ficção, artes, viagens e história”, avalia. Descendo Charing Cross Road, agora no sentido contrário à Oxford Street, chega-se à Trafalgar Square, no centro de Londres, assim batizada em homenagem à vitória da Marinha Real Britânica na Batalha de Trafalgar, em 1805, durante as guerras napoleônicas. Ao redor da praça, quase em frente à National Gallery – um dos principais museus do mundo –, fica uma charmosa loja da cadeia Waterstone’s. São três andares, mais subsolo, com um estoque capaz de agradar a leitores de todas as estirpes. Há, lógico, os badalados best sellers nas vitrines, mas as estantes estão repletas de títulos distribuídos em quase 30 gêneros. A Waterstone’s também fincou bandeira em outro ponto turístico de Londres: Picaddily Circus, localizado a algumas quadras de Trafalgar Square. Lá está a principal loja da rede. Com oito andares, a livraria é a maior da Europa. São seis pavimentos apenas de livros, algo em torno de 150 mil títulos, acomodados e organizados em prateleiras que, se um dia fossem alinhadas, somariam 13,5 km de

O tour deve começar pela British Library, principal do Reino Unido, cujo catálogo reúne 150 milhões de itens

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extensão. O prédio foi construído em 1936 para abrigar a Simpsons, sofisticada loja de departamentos fechada no início dos anos 1990. A Waterstone’s comprou o edifício em 1999, dentro da política da empresa de ocupar construções de importância histórica ou arquitetônica. Visitá-la, portanto, é um alento para o intelecto e para os olhos.

BIBLIOTECA GIGANTE

A British Library, principal biblioteca do Reino Unido, é outro ponto de Londres, ao redor do qual gravitam pequenos e imperdíveis sebos e livrarias especializadas. São apenas 10. Um tour pela região deve começar pela própria biblioteca, cujo catálogo reúne 150 milhões de itens, entre livros, manuscritos, mapas, desenhos, partituras, jornais e revistas. O acervo

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 rincipal biblioteca do Reino P Unido, ao redor da qual gravitam sebos e livrarias especializadas

da loja com publicações, cartões, fotos, pôsteres e suvenires. De volta ao circuito do caçador de livros, a próxima parada é a Judd Books, no número 82 da Marchmont Street – a rua fica quase em frente à British Library. Nesse sebo, é possível garimpar boas publicações acadêmicas, algumas praticamente novas e pela metade do preço de mercado. O estoque é composto por pilhas de exemplares usados e de sobra de tiragem, com ênfase nas áreas de arte, cinema, arquitetura, fotografia, música, história, filosofia, política e economia. Vale a pena levar uma bolsa grande, reforçada, e separar uma tarde

As lojas oferecem opções para quem se interessa por assuntos bem específicos, como jardinagem e motocicletas

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é acrescido anualmente com um exemplar de cada publicação lançada no Reino Unido e na República da Irlanda. Em meio a tantos textos, há os de maior apelo para os visitantes de ocasião, como as anotações de Leonardo da Vinci, os manuscritos dos Beatles e a Carta Magna, documento assinado em 1215, que limitou o

poder dos monarcas da Inglaterra. São os tesouros da casa, expostos na galeria localizada no térreo, onde estão também prensas, tipos e objetos gráficos de várias épocas e lugares. Uma visita à biblioteca quase sempre termina na British Library Bookshop. A livraria dispõe de uma grande e atualizada variedade de títulos que tratam dos aspectos históricos e técnicos da arte de fazer livros. É um complemento ao acervo da galeria, com a vantagem de que o visitante pode sair

inteira para explorar o labirinto de estantes dos dois pisos da loja. Na mesma rua, mas no sentido contrário à megabiblioteca, a Gays The World oferece uma boa seleção de ficção e não ficção sob a temática homoafetiva. Há títulos de história, religião, poesia, psicologia e viagem. A livraria edita catálogos próprios periodicamente e tem uma movimentada programação de eventos. Já os amantes da fotografia vão se encontrar na Photo Book International, onde estão dispostas belas publicações ilustradas, novas e usadas, de várias partes do mundo, além de postais e revistas especializadas. E, pela cidade, há ainda opções para quem se interessa por cinema, islamismo, jardinagem, literatura indiana, motocicleta, navegação, cartum, brinquedos... Enfim, o mundo em livros nos 1.500 quilômetros quadrados de Londres. Para todo gosto, bolso e toda disposição.

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tendências O nada consensual rótulo de cozinha contemporânea Chefs discutem as implicações de denominações como “criativa”, “afetiva”, “fusion” e “autoral” usadas pelos restaurantes como estratégia de marketing texto Eduardo Sena Fotos Chico Ludermir

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Quando os chefs Claude Troigros e Laurent Suaudeau desembarcaram no Rio de Janeiro, no início dos anos 1980, com o propósito de reproduzir a alta cozinha francesa em um hotel de luxo da cidade, a gastronomia brasileira deu um salto. Ganhava, despretensiosamente, uma nova expressão culinária. Essa dupla de franceses, ao chegar aqui, não encontrou ingredientes imprescindíveis para produzir a haute cuisine do Carême. De um caro pedaço de foie gras a um simples creme de

leite fresco. Dirigiram-se à feira para buscar soluções, encantaram-se com os insumos tropicais, substituíram os ingredientes, e criaram a primeira “escola” brasileira de cozinha contemporânea. A ideia de utilização do que é da terra em novas possibilidades de apresentação – antes vista como cafona –, a partir daquele momento, ganhava adeptos em todo o país, e não tardou a chegar às plagas pernambucanas. O ano de 1992 foi um marco na tradicional cozinha local. O chef César Santos abria, na histórica Olinda, o Oficina do Sabor, um restaurante de comida regional com um apelo diferenciado: a revalorização dos prosaicos ingredientes dos mercados recifenses, por meio de misturas nunca antes combinadas. As frutas, que só serviam para sucos e doces, passaram a propiciar, também, molhos e

A abertura do restaurante Oficina do Sabor, em 1992, é o marco local da culinária contemporânea recheios para carnes e frutos do mar. “Percebi que a comida regional estava cansada, então enxuguei o excesso de condimentos, e passei a valorizar o produto da terra de uma forma diferente”, explica César Santos. As inovações empreendidas pelo chef provocaram na cozinha regional o mesmo impacto das experiências dos franceses citados, no âmbito nacional. Para o jornalista e pesquisador gastronômico Bruno Albertim, a cozinha contemporânea representa a radicalização da ideia de gastronomia. “É uma cozinha que bebe na fonte da cozinha clássica, mas utiliza novos conceitos e técnicas para gerar uma expressão nova. Por exemplo, ao pegar um prato tradicional, como uma açorda, e remontá-lo, é quebrada uma liturgia à qual o prato estava atrelado. A tradição é respeitada, mas é posta de forma diferente”, explica.

FUSION

Contudo, muito antes da cozinha contemporânea, outro rótulo foi destaque no cenário gourmet. Chamada ironicamente de confusion, a cozinha fusion traz várias referências gastronômicas em um único prato. Trata-se, basicamente, de uma manipulação na qual ingredientes de várias etnias são misturados, fundindo culturas e provocando sabores até então desconhecidos. Como resultado dessa evolução natural da gastronomia, a cozinha contemporânea teve suas portas abertas para a utilização de qualquer ingrediente do mundo em sua execução, no entanto, de forma mais pensada. E é nesse aspecto mais racional que reside uma das características dessa gastronomia, a antecipação teórica – já que o cozinheiro pensa em como vai usar vários insumos dissonantes entre si, ou pouco combinados, no mesmo prato. Essa etapa não existe na culinária tradicional, marcada pelo uso previsível e limitado dos ingredientes. Radicalizador da cozinha contemporânea em Pernambuco, o chef Douglas Van Der Ley é categórico ao afirmar que também é um alquimista. “Para se fazer comida contemporânea é preciso ter um potencial de refinamento técnico e teórico. O chef precisa saber como os ingredientes se relacionam uns com os outros, entendendo a participação química dos elementos de cada prato, para conseguir distribuir essas necessidades de acordo com o repertório que está sendo trabalhado”, detalha. Van Der Ley define essa gastronomia como “criativa, ousada e inventiva”. Para isso, ela reúne elementos que não fazem parte da cozinha de tradição. Também é híbrida, na medida em que funde ingredientes de qualquer lugar do mundo em um novo conceito. Mas, para ser consagrada, deve ter um resultado harmônico, critério que nem sempre é respeitado nas concepções modernas da cozinha. Proprietário e chef do catering (bufê para poucas pessoas) Riz Gastronomia, Armando Pugliesi percebe essa vertente gastronômica

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Para ele, chefs devem se preocupar mais com um bom desempenho do que com um cardápio de vanguarda

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 rmando Pugliese aposta A na liberdade para utilizar técnicas diversas na produção de seus pratos

montagem 3 A apresentação dos pratos tem um papel importante na cozinha contemporânea

como uma espécie de liberdade condicional aos cozinheiros. “É uma cozinha livre, que me permite abusar da criatividade para misturar ingredientes e conceber novas formas de conduzir os sabores. No entanto, é uma liberdade vigiada. Não se trata de criatividade por criatividade, apenas. Antes de tudo, a harmonia deve ser o objetivo final de toda criação”, pondera.

AUTORAL

Especialistas em gastronomia também consideram a assinatura dos pratos como um fator de contemporaneidade. No entanto, há conceitos não tão fáceis de circunscrever. O que significa, nesse caso, ser autoral?

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É fato que toda receita um dia foi criada, mas, raramente, resulta de um gênio individual e brilhante. Reflexo da época em que é feita, a cozinha contemporânea busca em fontes de domínio público a base de sua construção. “A verdadeira cozinha autoral vai além da contemporânea. É um grito de liberdade nas formas de criação. Toda comida autoral é contemporânea, mas nem toda comida contemporânea é autoral. A capacidade de invencionices e total desprendimento de formas antigas de cocção é o limite entre os dois rótulos”, explica a jornalista gastronômica Vanessa Lins. A ideia de misturar doce com salgado, por exemplo, não é recente. Os mais antigos têm o hábito de comer banana com feijão. O tradicional cozido pernambucano leva batata doce e banana comprida em sua receita. Sobremesas como Romeu e Julieta e Cartola são clássicas. “Acho temerário um chef dizer que sua cozinha é autoral porque substituiu o queijo manteiga por um queijo primma donna na receita da Cartola. Se for assim, todas as donas de casas praticam cozinha autoral. Na falta de ingredientes, trocam por outro”, pontua o chef Douglas Van Der Ley. Por outro lado, há quem conceba pratos inéditos e dê a eles o status de vanguardistas, seja por meio de ingredientes nunca usados ou através de novas técnicas e formas de preparação. Cozinha, como categoria cultural que representa, é retrato do seu tempo. Pratos executados a partir desse princípio, criados há

uma década, por exemplo, hoje estão consolidados. Não podemos prever se o rótulo “contemporâneo” continuará a ser usado. E, mesmo, se ganhará versões. Sob esse aspecto, todo clássico foi um dia contemporâneo.

EXPRESSÕES

Se a nouvelle cuisine representou elementos mais frescos e saudáveis à mesa, a fusion mesclou ingredientes distintos, a autoral possibilitou novos sabores e técnicas, a finger food batizou os acepipes que se

Os chefs da cozinha contemporânea devem ter conhecimento técnico e teórico dos insumos utilizados comem com as mãos, a confort food lembrou as refeições caseiras e a tecnoemocional mistura técnica e sentimento no prato, pode-se dizer que a contemporânea é a reunião de todas elas. Sendo assim, os rótulos se tornam mais uma maneira de nomear as experiências gastronômicas do que a distinção, de fato, do que elas representam. No século 19, na França pósrevolução, o francês Brillat-Savarin inaugurou, com a obra A fisiologia do gosto, a literatura gastronômica ocidental. Sobre o paladar, concluía ele, seria reducionista supor que toda a gama de sabores do mundo coubesse em quatro gavetas: doce, salgado, ácido e amargo. “Como

até agora não houve caso em que os sabores tenham sido apreciados com rigor, é necessário utilizar um pequeno número de expressões gerais, que se exprimam, em última análise, pelas seguintes: agradável ou desagradável ao gosto”, escreveu. Portanto, seria preciso uma nova linguagem para exprimir todos os seus efeitos. Dois séculos depois, a gastronomia ainda se debate com a necessidade de categorizar os sabores. De um rigor técnico invejável, o chef Hugo Prouvot, que já trabalhou com Laurent Suaudeau, é taxativo ao dizer que os chefs devem se preocupar mais com um bom desempenho do que correr atrás de um cardápio de vanguarda. “Toda cozinha é criativa, afetiva, técnica e pensada; ou, pelo menos, deveria ser. São inúteis essas distinções por meio de rótulos. Tudo vai terminar apontando para um mesmo lugar. Ideal seria que os cozinheiros abrissem mão do ímpeto de impressionar, e priorizassem uma comida correta”, argumenta. Prouvot lembra, ainda, que nenhum desses novos rótulos está documentado; logo, ainda é preciso que o cozinheiro utilize preceitos básicos na hora de cozinhar. “A cozinha clássica preza que toda elaboração de um prato tenha começo, meio e fim. Isso é elementar. E até para se fazer uma comida criativa, com a grife de ‘contemporânea’, também é preciso seguir determinados passos. Não é porque se trata de uma cozinha vanguardista e autoral que ela vai lhe eximir de certos comprometimentos técnicos”, esclarece.

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MAZOMBISMO

O poeta barroco Gregório de Matos diagnosticou, ainda no século 17, que o brasileiro estaria sujeito a viver eternamente como um “mazombo”: aquele sujeito que, não sendo genuinamente nativo, tampouco nascido na metrópole da elite política, estaria destinado a ser um estrangeiro

em sua própria terra, dando importância a tudo o que é internacionalmente consagrado, num atestado de colonização. Tal síndrome rondou por muito tempo a mesa nacional. Algoz de tudo o que possa ser óbvio, a cozinha contemporânea está derrubando tal mazombismo, reinventando os sabores da cozinha

regional, elevando-a ao status de alta gastronomia. Se, antes, era inconcebível sair de casa para comer pratos com ingredientes locais, atualmente a história é diferente. Trata-se de um rumo que a gastronomia mundial está tomando, na qual os chefs andam apostando no fator “terra” na hora

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4 apresentação Ingredientes e doces simples ganham nova roupagem, no prato de sobremesa Assinatura 5 Douglas Van Der Ley é um dos nomes mais representativos da cozinha contemporânea no Recife

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de conceber seus cardápios, sempre de olho dos insumos regionais. É um dos preceitos da cuisine de terroir – movimento da cozinha francesa que preza a valorização das especialidades locais. “É imprescindível a prática dessa vertente gastronômica. Além do próprio sentimento ufanista, devemos levar

em conta o determinismo geográfico, que nos abastece, farta e regularmente, com alguns ingredientes. O resultado é um alimento sempre correto e mais fresco à mesa”, defende o chef César Santos, “embaixador” do movimento em Pernambuco. À frente da cozinha internacional do Bistrot du Vin, Hugo Prouvot olhou

para o “quintal pernambucano”, para conceber uma de suas entradas: carne de sol desfiada com cogumelos e mousseline de mandioquinha e jerimum. Nela, insumos típicos ganham um toque oriental do cogumelo shitake, e técnica de cocção francesa na composição da mousseline (um purê menos denso com textura de pomada). Do Riz Gastronomia, Armando Pugliesi também voltou os olhos para dentro e enxergou, na mangaba, potencial para composição de molho do denso foie gras. “Sem dúvidas, é uma das possibilidades que a cozinha contemporânea nos dá: levar ingredientes simples e baratos à mesa, com uma nova apresentação, livre dos olhos do preconceito”, atesta o chef.

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mostra O silêncio como inspiração musical

Cinema Silencioso reúne instrumentistas na execução de trilhas contemporâneas para filmes do antigo Ciclo do Recife texto Diogo Guedes

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ideias de Walter Benjamin estão em suas reflexões como historiador. No exercício da atividade, ele teceu seu conceito de melancolia, próprio do homem moderno, que precisa lidar com objetos que ainda existem fisicamente, mas cujo contexto histórico se perdeu para sempre. Na cultura, esse sentimento ainda é agravado: algo da sensação original perdura nos quadros medievais, mas nunca será possível revivê-los em sua essência. A melancolia, então, surge quando o crítico

sabe que, mesmo com a presença do objeto, a obra nunca vai estar aqui, no presente, inteira. O que é mais interessante na definição de Benjamin, é o fato de que, ainda que reconheça essa perda, ele avalia que o historiador moderno precisa tentar desvendar essas obras. É um exercício inútil, mas absolutamente necessário. De certa forma, a pós-modernidade continua esse processo, mas talvez aceitando a recontextualização – irônica ou não – como uma forma

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1 elenco Alex Mono é o idealizador da mostra, e tomou como parâmetro eventos semelhantes

de tentar combater essa melancolia. A Mostra de Cinema Silencioso, que realiza sua primeira edição de 29 de setembro a 2 de outubro, no Cinema São Luiz, trabalha um pouco com essa mistura de resgate e reconstrução de um bem histórico. Exibindo cinco longas e três curtas do cinema mudo (ou silencioso, como preferem os especialistas) do Ciclo do Recife (1923-1931), a intenção do evento é trazer um acompanhamento musical inédito para essas obras. Originalmente, elas eram exibidas ao mesmo tempo em que uma peça era executada por um pianista ou uma orquestra - quem costumava se apresentar assim era o pernambucano Nelson Ferreira. Ainda que não existam registros das músicas, esses filmes são acessíveis,

principalmente, por conta do trabalho recente de restauração promovido pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Segundo o idealizador do evento, Alex Mono, o projeto é uma tentativa de se apropriar dessas películas. “Essas produções estão atualmente guardadas, poucas pessoas têm acesso”, aponta. A mostra, então, ao mesmo tempo em que recupera a união entre criação musical e imagem, busca renovar esses filmes, trazendo-os para serem vistos pelos cinéfilos de hoje, junto a uma trilha contemporânea. Assim, além de Alex Mono, que vai tocar em duas ocasiões, vêm ao Recife para o evento Lívio Tragtenberg, Arrigo Barnabé, Pedro Osmar e Paulo Ró. De Pernambuco, quem também vai se apresentar é o maestro Ademir Araújo, trabalhando em cima da projeção de três filmes. O organizador conta que a ideia surgiu depois do convite de Lívio Tragtenberg para que ele participasse, em 2007, da Jornada Brasileira de Cinema Silencioso, em São Paulo. Misturando apresentações eruditas e música contemporânea, o festival serviu de referência para o pernambucano. “A cena de tocar ao vivo, junto a filmes, é mundial e, em outras edições, a ideia é que dialoguemos com filmes de fora de Pernambuco”, planeja Alex Mono. Em 2007, o Recife já havia recebido um projeto parecido, a Jornada do Cinema Silencioso, no Cinema da Fundação, mas que não teve continuidade. Com a mostra, Alex Mono quer fazer do evento parte do calendário da cidade. “Nesta edição, queremos provocar um choque na relação entre música e filme”, explica. “Escolhemos chamar nomes que trabalhassem com a ideia de música de invenção, criadores de vanguarda. No entanto, pretendemos, em outras edições, trazer pianistas clássicos”.

CRIAÇÃO

Em geral, as apresentações são pensadas com antecedência. Uma parte delas, no entanto, sempre tende a ser influenciada pelo momento de execução. “É uma relação meio jazzística, tem uma porcentagem de improvisação. Acho que também era um pouco assim, antigamente, mesmo com um formato mais clássico”, sugere Alex Mono.

O organizador já trabalhou outras vezes com um dos filmes da mostra, Veneza Americana, de J. Cambieri e Ugo Falangola. Sobre esse filme, ele conta que buscou dialogar com a narrativa, mas sem traçar uma relação muito óbvia com as cenas, ou seja, sem fazer “sonoplastia”. “Eu trabalho com diversos elementos, de clichês de época, por exemplo, como um choro meio nazarethiano, até elementos de computadores, da música eletrônica”, descreve. “Eu me apeguei às cenas largas e ao tempo lento da película.” Outra apresentação elogiada é a de Tragtenberg, que encerra a mostra. O compositor paulista convida os sanfoneiros pernambucanos Muniz do Arrasta-Pé e Josildo, deficientes auditivos, para participarem da exibição de Aitaré da praia, de Gentil Roiz. “Os dois ficam intervindo na frente da tela, com o filme os atravessando. Com um ponto eletrônico, Lívio os ‘dirige’, também tocando clarone”, conta Alex Mono. Arrigo Barnabé, um dos principais nomes da vanguarda paulista, já é experiente no exercício, tendo participado do festival ocorrido na

Segundo Alex Mono, a proposta da mostra é trazer nomes que trabalhem com música de invenção ou de vanguarda sua cidade. No Recife, ele faz uma apresentação inédita, baseada em A filha do advogado, de Jota Soares. Já os paraibanos Pedro Osmar e Paulo Ró, do coletivo de intervenções Jaguaribe Carne, são uma exceção na escolha dos filmes: preferiram trazer uma película silenciosa do seu Estado, Sob o céu nordestino, de Walfredo Rodriguez. Ademir Araújo completa a programação trabalhando em cima de três curtas: Grandezas de Pernambuco, de Chagas Ribeiro, Recife no centenário da Confederação do Equador, de Ugo Falangola e J. Cambieri, e Carnaval de 1926, de Edson Chagas. Alex Mono explica a escolha do músico: “Ele é muito inventivo. As composições de Ademir Araújo não são normais”, elogia.

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AUTOBIOGRAFIA De como foi formada a família Stones

According to The Rolling Stones narra, através de depoimentos dos próprios músicos, a trajetória da banda de rock mais duradoura da história texto Débora Nascimento

Os Estados Unidos criaram o rock’n’roll, mas o Reino Unido, especialmente a Inglaterra, vem gerando há 60 anos, em maior quantidade, as melhores bandas do gênero. A lista é enorme. Mas, para sermos mais sucintos, vamos ficar apenas com Beatles e Rolling Stones. A primeira, a melhor; a segunda, a maior de todas. Maior porque, nunca, na trajetória do estilo musical, um grupo foi tão duradouro, contrariando a expectativa de seu principal guitarrista e compositor, Keith Richards: “A gente se olhava e pensava: ‘Bem, isso não vai durar mais que dois anos’, porque ninguém durava”. Nesses cerca de 50 anos de atividade, são 60 discos lançados, milhares de shows realizados em todo o mundo, dezenas

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Página anterior 1  em paris O show na cidade, em 1964, teve prejuízo de 1400 libras, devido à destruição do Olympia provocada pelos fãs

2  produtor Andrew Oldham (E) foi responsável por incentivar Mick Jagger (D) e Keith Richards a compor 3  influência Jagger com Howlin’ Wolf, um dos blueseiros que foram referência para a formação do som dos Stones

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de litros de tinta para cabelo e, claro, muitas histórias para contar. Elas já foram narradas de diversas formas em vários livros, mas, pela primeira vez, é produzida uma publicação apenas com a fala dos Stones, ou, como queiram, suas versões dos acontecimentos. As declarações foram coletadas em 2002, durante a turnê Forty Licks, por Dora Loewenstein e Philip Dodd, organizadores de According to The Rolling Stones – A banda conta sua história (CosacNaify), que reúne depoimentos de Mick Jagger (voz), Keith Richards (guitarra), Charlie Watts (bateria) e Ronnie Wood (guitarra), a última e definitiva formação dos Stones, mesmo que no palco sejam vistos mais de 10 músicos. O livro também contém mais de 300 fotos raras que cobrem momentos marcantes da banda, feitas por fotógrafos renomados como David Bailey, Mario Testino e Val Wilmer, e também oriundas do acervo pessoal de cada um dos membros do quarteto. Além das fotografias, há reproduções de pinturas de Ronnie, que também é artista plástico. Em 12 capítulos, os “rapazes de Londres” falam sobre suas famílias, amigos, clubes, drogas, o ambiente do pós-guerra, como se conheceram, a criação da banda, os primeiros shows capengas, os ídolos americanos que os influenciaram, os bastidores das gravações, sobre eles próprios e os exintegrantes Dick Taylor (guitarra), Bill Wyman (baixo), Mick Taylor (guitarra) e Brian Jones, guitarrista e membro fundador do grupo, falecido, aos 27 anos, em julho de 1969. Há também 12 textos de pessoas importantes para os Rolling Stones, como o ex-diretor da Atlantic Records, Ahmet Ertegun. A publicação ainda conta com seções especiais, como a biografia em ordem cronológica, discografia, um quem-é-quem e reprodução dos autógrafos dos artistas. Em suas recordações, os músicos lembram figuras essenciais, como Ian Stewart, amigo que fazia as vezes de tecladista e motorista nos primórdios da banda, e Andrew Oldham, exassistente de Brian Epstein, empresário dos Beatles, que se tornou uma mistura de agente e produtor musical dos Stones, e entrou para a história como o cara que conseguiu convencer Jagger e Richards de que seriam capazes de

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gered mankovitz/divulgação

Nestas páginas 4  amizade No livro, os Stones contam como combinavam com os Beatles a alternância de lançamentos de seus singles e álbuns

5  divulgação O produtor convenceu o grupo a tirar fotos vestido de blazer, bem ao estilo da época

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compor; antes, eles tocavam apenas covers de hits americanos. Sobre esse fato, Keith Richards lembra que, certa vez, Andrew os trancou na cozinha a fim de que só saíssem de lá com uma música pronta. Ao que Mick retruca: “Keith gosta de contar essa história da cozinha, Deus o abençoe. Acho que Andrew pode ter dito algo assim em algum momento: ‘Eu deveria trancar vocês em um quarto até vocês fazerem uma música’ e assim, mentalmente, foi como se ele tivesse nos trancado, mas ele não nos trancou literalmente”. Oldham, com apenas 19 anos, também foi o responsável por conseguir o primeiro contrato dos Rollings Stones com a Decca, através de uma rápida reunião com Dick Rowe, “o homem

que rejeitou os Beatles”. “Você acha que ele diria não duas vezes?”, brinca Keith, aproveitando para exaltar a autonomia artística que a banda desfrutara desde o começo da carreira. “Eu não sabia o tamanho da brecha que isso abriria, porque para mim aqueles impérios monolíticos, EMI ou Decca, eram como o Império Britânico ou o Banco da Inglaterra”, revela o guitarrista, complementando que foi Oldham quem os alertou para essa plena liberdade musical que conseguiram espontaneamente – era algo raríssimo na indústria fonográfica da época. Entre os atrativos do livro, estão as contradições nos depoimentos dos integrantes. E, como já deu para perceber, as declarações de Keith

Richards tomam para si boa parte do foco da leitura. Suas afirmações, bemnarradas e ambientadas, são as mais interessantes e divertidas da publicação. “Acho que nós e os Beatles ficamos surpresos uns com os outros, porque a gente não sabia que eles tocavam em Liverpool e eles não sabiam o que a gente fazia aqui em Londres. Embora não fosse exatamente a mesma coisa, em parte porque a gente era mais voltada para o blues, na verdade havia muita coisa parecida. Ambos éramos fãs de Little Richard, Chuck Berry, Buddy Holly, Eddie Cochran e Carl Perkins.” Sobre Buddy Holly, Keith faz uma curiosa e breve análise: “Elvis era fantástico, mas, como Buddy usava óculos e tinha cara de bancário, você pensava: ‘Bem, então não é só para os caras que se parecem com Elvis’, porque de outro modo seria algo inatingível”. Em suma, o livro desvenda como foi fundamental para a sobrevivência do conjunto abarcar diferentes personalidades que se completavam. Enquanto Keith é sossegadamente rebelde, Jagger é organizado, generoso e cortês; já Charlie é um gentleman comedido e centrado, e Ronnie, o funny guy, é fiel e companheiro. “Sempre fomos mais uma família do que uma banda”, afirma Watts. “O mais importante quando você está escolhendo um músico para a banda é que você precisa conviver com ele como pessoa, o que é tão importante quanto ser um grande músico”, aconselha o baterista, na obra de 360 páginas, que, além de ser item indispensável para os fãs dos Rolling Stones, pode ser uma ótima cartilha para quem pretende montar um grupo de rock e considera que basta apenas juntar uns caras que sabem tocar.

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INDICAÇÕES Circus

O cantor e compositor não apresentava um novo CD desde 2003 – tal qual indicava o título daquela obra, Wisnik jogava Pérolas aos poucos. Seu mais novo projeto, Indivisível, reúne dois discos, sendo um com base no piano e o outro, no violão. Composto não só por canções inéditas como Dois em um, parceria com a poetisa Alice Ruiz, e Tristeza do Zé, com Luiz Tatit, mas também por sucessos antigos como Tempo sem tempo e Mortal loucura, o trabalho conta ainda com a participação especial de Chico Buarque.

FUNK

DENNIS COFFEY Dennis Coffey Strut

O lendário guitarrista de Detroit, com passagens por bandas seminais da Motown, como os Funk Brothers, acerta a mão no álbum autointitulado, recheado de participações especiais. Entre os convidados, o multiinstrumentista Mayer Hawthorne (que fez turnê com Amy Winehouse no Brasil) se destaca, na regravação irresistível de All your goodies are gone, clássico absoluto do Parliament, antiga banda do soul man George Clinton.

EXPERIMENTAL

POP

Independente

Coqueiro Verde

DORGAS Loxhanxha

No segundo álbum, Loxhanxha, o quarteto carioca comprova que continua ousado. Experimental sem ser exagerada, a música instrumental do Dorgas (os vocais são praticamente indiscerníveis) vem angariando críticas justas e positivas no meio independente. A banda integra a cena crescente do instrumental brasileiro, que ainda conta com nomes como Macaco Bong e a Banda de Joseph Tourton, e já tem até festival próprio, o PIB (Produto Instrumental Bruto).

Buddy Holly

tributo Ao ÍCONE DO ROCK Em 2000, Madonna conseguiu mais um hit em seu currículo com a regravação de American pie, de Don McLean, sucesso dos anos 1970, que traz na letra a frase: “The day the music died”. Esta marcou o fatídico 3 de fevereiro de 1959, quando a queda de um avião bimotor, em Iowa (EUA), vitimou os músicos J.P. “The Big Bopper” Richardson, Richie Valens e Buddy Holly. Os três eram muito jovens (respectivamente, 29, 17 e 22 anos) e com a carreira em ascensão. Holly era uma das figuras mais importantes do ainda engatinhante rock’n’roll, que influenciaria gerações de músicos, entre eles um tal de Paul McCartney. O ex-beatle agora integra Rave on, o discotributo que lembra a passagem do 75º aniversário de Holly (em 7 de setembro), reunindo diversos artistas em versões de clássicos da curta trajetória do compositor e guitarrista americano. McCartney é responsável por um dos melhores momentos da

KASSIN Sonhando devagar

O disputado produtor, que já trabalhou com nomes que vão de Caetano Veloso a Mallu Magalhães, passando por Los Hermanos, deixa a mesa de som e assume a frente com propriedade em Sonhando devagar. O CD é tão diversificado quanto o leque de artistas que Kassin produz (suas próximas “vítimas” são Nação Zumbi e o ex-Legião Urbana Dado VillaLobos). No entanto, o que mais marca o álbum é o esmero: coisa de produtor afinado.

imagem: divulgação

MPB

JOSÉ MIGUEL WISNIK Indivisível

compilação, com It’s so easy, na qual exibe todo o seu vigor como intérprete. A coletânea abarca mais nomes de peso, como Patti Smith, que fez de Words of love um poema declamado, Graham Nash (Raining in my heart) e Lou Reed, que transformou o hit Peggy Sue em uma música “loureediana”. A canção que intitula o disco, não por acaso, fica a cargo do stroke Julian Casablancas (um chamariz para a “geração download”), que fez a melhor “releitura” entre as 19 faixas. Infelizmente, boa parte dos convidados, em vez de inovar nas versões, tentou reproduzir o som de estúdio dos anos 1950, com muito eco nos instrumentos e guitarra-base ritmada sem pedais. Sem notórios fãs de Buddy Holly, como Elvis Costello, a homenagem se transformou mais numa vitrine para as novas bandas presentes. E é nessa hora que você vai ter vontade de ouvir as históricas gravações originais. (Débora Nascimento)

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Palco

Circo da China Sky mirage II

Chevrolet Hall

T. 81 4003.6464 16-18 Set OLINDA

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CIRCO da chinA Disciplina, perfeição e leveza, sempre

1 Turnê Espetáculo, que estreou no ano passado, percorre oito capitais brasileiras

Com a missão de difundir a cultura do país pela expressão artística, companhia comemora 60 anos de atividade, atravessando diferentes momentos políticos texto Pedro Paz

A arte politicamente engajada ganha força, geralmente, em momentos obscuros de uma sociedade. Desde o processo de descolonização da China, em 1949, o Partido Comunista tem violado, entre outros direitos humanos, a liberdade de expressão da população. No entanto, o envolvimento dos chineses nessa questão parece escasso. Existem pelo menos duas explicações para esse comportamento: o controle político da arte exercido pelo governo e a existência de uma espécie de consenso entre a população de que a nação está sendo bem-dirigida. Afinal, trata-se da segunda maior economia do mundo, hoje. Nesse cenário, fazer arte pela arte, estabelecer relações diplomáticas e disseminar a cultura do país pelo mundo é o caminho escolhido por grupos artísticos como o Circo da China (Shenyang Acrobatic Troupe). A companhia comemora 60 anos de atividades, em 2011, com o espetáculo Sky mirage II. As artes circenses surgiram na China. Foi naquele território de dimensões continentais que se encontraram, pela primeira vez, figuras de acrobatas, contorcionistas e equilibristas em pinturas que datam de quase cinco mil anos. Em O circo no Brasil, o pesquisador Antônio

Em 108 a.C., a arte circense tornou-se símbolo da cultura chinesa, mas pinturas de 5 mil anos já mostravam acrobatas Torres atesta, ainda, que a acrobacia era uma forma de treinamento para os guerreiros. Exigiam-se deles agilidade, força e flexibilidade. Com o passar do tempo, essas qualidades foram ganhando graça, beleza e harmonia. Até que, em 108 a.C., a arte circense começou a se tornar símbolo da cultura chinesa, depois que uma grande festa em homenagem a estrangeiros surpreendeu os visitantes com performances acrobáticas. A partir desse fato, as dinastias Qin e Han (221 a.C. a 220 d.C.) estabeleceram que, anualmente, seriam realizados espetáculos do gênero durante o Festival da Lua, costume popular relacionado à colheita do verão. Até hoje, aldeões costumam praticar malabarismo com espigas de milho, além de brincar de saltar e de equilibrar imensos vasos nos pés. Durante essas dinastias, também, ocorreu no país o início da

construção da Muralha da China, a unificação linguística, a invenção do papel e da porcelana e a popularização do confucianismo. Diferentemente do que aconteceu na Ásia Oriental, a exibição desse tipo de habilidades, no Ocidente, despontou somente em Pompeia, na Itália, no ano 70 a.C. Surgido alguns anos depois, o Circo Máximo de Roma promoveu apresentações, jogos e festivais, até ser destruído por um incêndio em 40 a.C. Próximo ao local, foi construído o Anfiteatro Coliseu, para 87 mil espectadores. Lá, eram apresentadas excentricidades, como homens louros nórdicos, animais exóticos, engolidores de fogo e gladiadores. Entre 54 e 68 d.C., as arenas passaram a ser ocupadas por espetáculos sangrentos, nos quais cristãos eram perseguidos. E o interesse pelas artes circenses diminuiu. Então, muitos artistas passaram a improvisar apresentações em praças públicas, feiras e entradas de igrejas, dando surgimento ao que se conhece hoje como circo. Assim é que, enquanto animais selvagens, mágicos e palhaços caraterizam os picadeiros ocidentais, destreza, precisão e equilíbrio na utilização de utensílios domésticos distinguem os espetáculos chineses do

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2 Tecnologia

O espetáculo reúne, além dos elementos circenses, música, dança, iluminação, figuração e computação gráfica

gênero, como ocorre nos 15 números executados em Sky mirage II. Durante 100 minutos, performances de contorcionismo, diábolo, mergulho na argola e rodagigante ajudam a contar a história de amor entre a Fabulosa Ave Fênix e o Sol. Comprometida com sua busca pela luminosidade do astro, a ave tem como maior desejo que os dois se tornem um único e harmonioso elemento. Não obstante esse enredo mítico, o processo de globalização vem proporcionando a inserção de outros elementos do entretenimento aos

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espetáculos do Circo da China, como música, dança, iluminação, figuração e computação gráfica, transformando as apresentações num verdadeiro show business, compatível com estratégias de companhias modernas, como a canadense Cirque du Soleil.

rigor

Para atuar e executar os complexos números, os jovens acrobatas que compõem a trupe iniciam o treinamento muito cedo, por volta dos 6 anos de idade. Em regime de internato, aliam estudo formal e técnica circense. Somente após 10 anos de esforço é que podem concorrer a um lugar na mais antiga companhia de profissionais das artes acrobáticas em circulação na China desde a Fundação da República Popular. Apesar do rigor, não deixam de esbanjar simpatia em cena. Esse comportamento atraiu até a apresentadora Hebe Camargo, quando

os acrobatas participaram de um de seus programas de TV, há 11 anos. Ela se tornou madrinha do Circo da China no Brasil e compareceu à primeira apresentação da atual turnê do grupo no país, em julho, em São Paulo. O espetáculo Sky mirage II estreou em novembro do ano passado, na China. Dirigido por Zhang Shouhe, coreógrafo e professor de dança moderna do Instituto de Dança de Pequim, a montagem levou um ano para ser concebida e teve investimento de cinco milhões de dólares. Há um mês, a trupe deu início à sua sexta temporada no Brasil. Além do Recife, passará por mais sete capitais. Depois dos espetáculos no país, os acrobatas voltam para Shenyang, cidade do nordeste chinês (Liaoning), sede do grupo. O Circo da China já visitou, até hoje, os cinco continentes, apresentando-se em mais de 50 países e 200 cidades.

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Urbano SPA levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima

1 intervenção Trabalhos como este de Fernando Perez, de diálogo direto com os passantes, caracterizam o evento

Após enfrentar crise, evento do calendário artístico do Recife chega à sua 10ª edição com a opção curatorial de lançar proposições à próxima década texto Mariana Oliveira

Em 2009, a Semana de Artes Visuais do

Recife – SPA das Artes dedicava a publicação RevSPA a uma autorreflexão. Sua organização percebia um desgaste no formato, o SPA, assim como a Bienal de São Paulo de 2008, vivia uma crise. Seria o momento de ser repensado? O que havia mudado na cena recifense desde de 2002, data da primeira edição? Tudo isso foi discutido por gestores, críticos, artistas, curadores, e, ainda que nem todos concordassem com a crise que se vivia, o caráter experimental do evento provocava essa inquietação, essa necessidade de novos caminhos. Este ano, a Semana chega à sua 10ª edição, entre os dias 11 e 18 de setembro, num momento pós-crise, reaproveitando os acertos das edições anteriores e, ao mesmo tempo, tentando preencher lacunas fundamentais. Quando os artistas José Paulo, Rinaldo e Maurício Castro idealizaram a realização de uma semana dedicada às artes visuais, o Recife tinha um circuito artístico pouco articulado. Seus criadores tinham feito parte de uma geração que, entre as décadas de 1980 e 1990, organizou eventos e exposições de forma precária, sem muito apoio. Era preciso juntar esse pessoal à nova safra de artistas que apareciam, e colocar todos em contato com a produção artística contemporânea brasileira. A programação da primeira edição era destinada à formação da classe artística, com conversas, troca de informações e apenas uma noite performática. “A necessidade era juntar

A proposta das primeiras edições – de formar os artistas e fortalecer a cena local – parece já ter sido cumprida pessoas, trazer gente de fora, entender como funcionavam os métodos de produção”, afirma a artista Beth da Matta, atual diretora do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) e coordenadora do SPA 2011. O ideário inicial do SPA cumpriu seu papel, ajudou a constituir um cenário para as artes visuais na cidade, em especial para as produções contemporâneas. Artistas iniciantes, à época, foram lançados pela Semana, como Amanda Melo, revelada após a performance em que caminhou toda coberta por fitas isolantes pelo centro da cidade, ou Lourival Cuquinha, que estendeu um imenso varal sobre o Rio Capibaribe. A memória sentimental dessa geração de artistas também traz recordações indissociáveis do SPA. Aslan Cabral relatou, na RevSPA de 2009, sua relação afetiva com o evento. “Lembrome de Fernando Perez tirando a roupa no Forte das Cinco Pontas e do pedido de demissão de Lourival Cuquinha, quando, durante um dos debates, ‘caiu a ficha’, para ele, de que artista plástico era sua profissão oficial e que ele não trabalharia mais como advogado.”

Esse apreço não é privilégio dos artistas locais. O SPA tem atraído muita gente de outros estados e, quiçá, alterado o curso de suas vidas. É o caso do artista gaúcho Cristiano Lenhardt, que veio pela primeira vez ao Recife para apresentar a série Diamantes. Um ano depois, voltou e, em 2006, decidiu mudar-se de vez para a cidade. “O SPA é muito importante na minha vida e no meu trabalho. Em 2007, participei com o vídeo Retratante retratado, algo fundamental para mim porque dei entrada num processo que fui aprofundando com o tempo, aqui, um procedimento que me conectou com outros lugares”, conta Lenhardt, que hoje abre sua casa para hospedar colegas que vêm participar do evento.

NOVA CARA

Agora, em 2011, as necessidades da cidade não são mais as mesmas, a formação dos artistas anda por outros caminhos e intercâmbios, e a cena já indica mais articulação. Ao receber a notícia de que gerenciaria a edição dos 10 anos, junto com a gestora do museu Murillo La Greca, a também artista Bruna Pedrosa, Beth da Matta tinha noção do desafio de segurar essa pós-crise. Em datas redondas, nada mais natural que olhar para trás e fazer um retrospecto do legado deixado. Porém, a opção foi pensar no presente e na cena artística do Recife daqui a 10 anos. “A ideia do SPA deste ano é esquecer retrospectiva, crise. A edição de 2009 já fez uma radiografia disso. O SPA já saiu da UTI. Vamos pensar daqui

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Fotos: divulgação

para frente”, explica Beth. “Estamos pensando em algo como: 2021 – Uma odisseia no SPA”, complementa Bruna. A única referência ao passado é uma conversa com os criadores que expõem sua opinião sobre o evento e seu formato. Há, entre eles, quem acredite que o SPA não mais faça sentido. A primeira mudança prática aparece no edital das bolsas-prêmio. Todas as inscrições foram realizadas pela internet e os participantes deveriam indicar outros artistas para compor a comissão julgadora. Os mais votados foram convidados a formar o grupo de avaliação. “Serão artistas julgando artistas. Isso tem tudo a ver com o SPA, que sempre foi um evento coordenado por artistas, com pouca interferência

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Visuais da gestão pública”, detalha Beth. Além disso, as oficinas deixaram de fazer parte do edital e passaram a funcionar através do convite dos organizadores. Isso porque se percebeu que, apesar da ideia da descentralização ser muito interessante, era necessária uma articulação entre as partes, para que uma oficina não ficasse alocada sozinha, em um ponto da cidade, e tivesse apenas dois pares de inscritos. “Essas ações, na cidade, de forma descentralizada, são lindas, essa ideia de colocar exposições nas comunidade é linda, porém elas perdem, porque a arte contemporânea precisa de uma certa mediação, um mínimo de entendimento, de contexto, para você perceber alguma coisa. É muita pulverização”, argumenta Beth, justificando a condensação do SPA em três espaços, algo que pode parecer uma incoerência para aqueles que acreditam no poder da descentralização. O Parque Dona Lindu, na zona sul, o Museu Murillo La Greca, na zona norte, e o Mamam no Pátio de S. Pedro, no centro, e os entornos desses lugares vão receber as ações do SPA 2011. O Dona Lindu será a grande surpresa. Inaugurada há alguns meses, a sua galeria chegou a receber 1.500 visitantes num domingo, durante a exposição de Abelardo da Hora, encerrada em agosto. Por estar localizada num parque, parte do público visita o equipamento

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O Parque Dona Lindu será um dos polos do SPA 2011, que vai contar com vans para garantir a circulação do público

com outro intuito, mas termina sendo levado pela curiosidade e entrando na galeria. Durante o mês de setembro, o espaço receberá um recorte do acervo permanente do Mamam (levando ao público da zona sul obras que, talvez, ele desconheça) e uma oficina com Eva Duarte, que trabalhará com o origami, tendo como base obras de Lygia

Pape. “Vamos reeditar o Spraia, que já aconteceu em 2005, e foi muito legal. Resolvemos resgatá-lo, agora que temos o Dona Lindu como ponto de apoio”, completa Bruna Pedrosa. Segundo ela, o Murillo La Greca dará continuidade ao Projeto Fachada. A ideia é que, a cada três meses, um grupo de artistas seja convidado a ocupar a fachada da instituição. O primeiro coletivo a participar foi o Mulheres Barbadas. Em setembro, as paredes levam a assinatura do Coletivo Juin, que trabalha com estêncil e realiza uma oficina sobre a técnica no Museu. Além da exposição permanente, o La Greca vai abrir suas portas para a Desvenda, espécie de feira de arte, capitaneada pelo artista gaúcho Rodrigo

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daniel santiago À frente de performance no Recife, em outra edição do SPA, artista vai expor obra este ano no Mamam

3  Bolsista

O artista Lourival Cuquinha, durante a montagem do seu Varal no SPA 2003, obra que o projetou nacionalmente 4-5 Centro  A performance Banho público, do Coletivo Firma da Irmã da Irma, e a intervenção Farol, de Leo Antunes, projetada em prédio da cidade, fazem parte da memória do SPA

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Lourenço. O Mamam no Pátio receberá a exposição escolhida pela comissão de artistas e contará com o apoio de todos os equipamentos do local, incluindo o Memorial Chico Science, onde será realizada oficina.

EDUCATIVO

A centralização das ações em três pontos se relaciona com a implantação, pela primeira vez, de um projeto educativo no SPA, coordenado pela arte-educadora Joana D´Arc e por Fernanda Simionato. Em cada um dos locais, haverá duas vans que farão o transporte para os outros dois pontos de atividades. O trajeto será acompanhado por mediadores, que conversarão e trocarão ideias com o público. As equipes fixas

do educativo de cada um dos três equipamentos também irão participar de forma integrada. Antes do evento, houve, ainda, um etapa de formação de professores, com o intuito de lhes dar ferramentas de reflexão. A opção do SPA 2011 de investir num projeto de aproximação com o público mostra a percepção de um problema antigo: mesmo sendo um evento de rua, falta-lhe repercussão na população. “Realizando uma reflexão desses 10 anos, não vejo um grande avanço no que diz respeito ao público que não aquele formado por pessoas ligadas à arte ou à prefeitura. O SPA é conhecido pelo nicho de artistas, mas não alcançou o grande público, não saiu das bases iniciais”, critica

o artista Bruno Vieira. Segundo as coordenadoras, a aposta no educativo tenta mudar essa questão e, como a proposta é olhar para a frente, apoiar a formação de espectadores para o futuro. Outro problema diagnosticado foi a desarmonia entre a realização do SPA e a agenda dos centros culturais da cidade, à exceção do Mamam (que abrigará, este ano, mostras de Daniel Santiago, Anthony McCall e Suely Rolnik, esta participação inclui ainda um batepapo) e da Fundaj (que sediará uma palestra de Moacir dos Anjos), cujas programações sempre se alinharam. “Vejo que o SPA nunca teve a chance de crescer e se tornar um evento de grande porte. Faltava engajamento dos outros equipamentos, não estávamos dentro do calendário deles. A coisa era meio aleatória, precisávamos de mais articulação”, pontua o artista plástico Márcio Almeida, que já participou da Semana como artista, além de ter sido coordenador de algumas edições. Inserida nessa ideia de articulação, a Galeria Mariana Moura vai abrir seu último andar para receber o projeto Spam. Durante o evento, qualquer artista poderá levar sua obra e colocála em exibição, sem nenhum controle ou critério, como acontece com os spams que lotam as caixas de e-mails. Lúcia Santos, da Amparo 60, também está articulando atividades paralelas em seu espaço. Haverá lançamentos de livros, o resgate do Saldão, espécie de feira onde os artistas vendem suas obras no penúltimo dia. “Não é um SPA revolucionário, mas está se voltando para a atualidade, reforçando os espaços da cidade, revivendo coisas que funcionaram nos anos passados, mas sem esquecer o futuro. É uma tentativa. Ainda não temos certeza de como será”, resume Beth. Agora, é torcer para que o público decida participar dessa odisseia, iniciada há 10 anos, junto com os artistas.

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os fora-da-lei de ploeg

matéria corrida José Cláudio

artista plástico

Foi o pintor Roberto Ploeg quem me ensinou: “onde existe amor, aí está Deus”. Mas eu já sabia de Sto. Agostinho: “ama e faz o que quiseres”. Me lembro disso por antinomia ou antagonismo quando vi o retrato que ele fez de Mané Tatu, meu filho, também eu incluído na lista de convidados, como modelo, da série dos fora-da-lei encetada pelo pintor. Às vezes o cara de fora—embora Ploeg não seja mais estrangeiro a não ser quanto à origem, e isso significa muito, creio—vê mais do que nós que, pela repetição, já não conseguimos enxergar esse tipo de retrato a contragosto, do bandido, banalizado pela televisão. Nem sempre a contragosto porque alguns até posam rindo como aquela personagem que dizia: “Mamãe, eu estou na Globo”. Mas a maioria ainda parece temer esses quinze minutos de fama que muito antes de Andy

Warhol já assinalava Lima Barreto (O Triste Fim de Policarpo Quaresma). São indivíduos procurando esconder a cara, entortando o pescoço, enrolando a camisa nos pulsos para disfarçar as algemas. E não somente batedor de carteira e a bandidagem miúda, assassinos de sinal de trânsito, descuidistas, ventanistas, ou gangues de arrombadores de caixa-eletrônico ou membros de grupos maiores que recebem as ordens vindas de dentro dos presídios e outros tipos mil de criminosos, uxoricidas, estupradores e pedófilos, e sei mais lá o que, mas os de maior envergadura, os de colarinho branco que ocupam altos cargos, muitos dos quais até pouco tempo “livravam a cara” tranquilamente: estes desfilam de paletó em vez de camisa enrolada no pulso com ares de cidadão de bem, naquela encenação de constrangimento como se fossem vítimas de algum mal-entendido.

Mesmo nesses retratos “de brincadeira” o bom retratista que é Ploeg mostra a sua competência, embora sempre me recuse a usar esse termo discutível— competência — quando se fala de arte: em que consiste, aonde vai, de acordo com qual época, na visão de quem, em relação a que, onde, mediante quais parâmetros? Muita epistemologia para minha pouca ciência. Pode-se viver sem poesia mas sem água não, já dizia o poeta Wystan Hugh Auden, inglês (1907-1973). Muitos séculos antes, Sócrates fez a seguinte pergunta a um menino que encontrou na rua: “Onde podemos encontrar os bens necessários à vida?” O menino respondeu: “No mercado”. E respondendo “no mercado” ao futuro mestre, o menino Xenofonte não deve ter imaginado, entre os bens necessários à vida, a pintura, embora na terra de Zêuxis. Os que fazemos

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reprodução

1 roberto ploeg

Gilvan Samico e Marcelo Peregrino, 2010. Óleo sobre tela, 1,20x1,60m.

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dela profissão, bem que poderíamos ser mandados para a lavoura ou outra atividade produtiva, ser arrolados no lumpemproletariado, algemados como delinquentes, aparecermos na televisão virando a cara para a parede, cobrindo a cabeça ou as algemas com a camisa. Mas “nem só de pão vive o homem” já dizia Cristo. A simulação de Ploeg não deixa de ter sua razão de ser. Picasso disse “a pintura é uma mentira que mostra a verdade”. Parece que quanto mais se faça para melhorar a vida material dos seres humanos, num primeiro momento o que vem à tona é a ferocidade, numa volta à barbárie. Outro dia lembrei numa crônica, falando da exposição de Ismael

Caldas, a expressão “antenas da raça”, dirigida aos artistas. Trotski disse “O artista é um profeta. As obras de arte encarnam pressentimentos” (Literatura e revolução). Sempre houve os “anunciadores de desgraças”, como no poema de Ascenso Ferreira. Lembro Ismael Caldas, Gil Vicente além de Roberto Ploeg, só aqui no Recife e me ocorre o título de Faulkner Enquanto agonizo. Não custa imaginarmo-nos, mesmo quando a humanidade tiver resolvido seus problemas materiais, agonizantes no meio da fartura. Na necessidade ancestral de bode expiatório, tanto se pode partir para a execução dos dirigentes, dos que mandam, dos que detêm o poder,

como para o massacre da arraiamiúda, dos indefesos, do referido lumpemproletariado, dos fora-da-lei. Ploeg realizou uma série de quadros que é um hino à arte de Pernambuco, me perdoem o arroubo. Lamentável seja tal conjunto desmembrado, perdendo-se a visão do todo. Vale a pena ver juntos todos os retratos permitindo-nos comparar o quanto consegue o pintor captar a individualidade de cada modelo, o fulgor, pegado no ar, do olhar de Samico, a elegância consumada de Pedro Frederico, a humildade franciscana de Reynaldo Fonseca, a fidelidade ao aspecto físico que aumenta o valor desse inspirado testemunho.

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REEDIÇÃO O inesquecível 21 de julho de 1975

Em Tapacurá, viagem ao planeta dos boatos, o jornalista Homero Fonseca remonta o pânico que se alastrou pelo Recife em um dia chuvoso texto Danielle Romani pedro luiz/divulgação

Leitura 1

Os que participaram do episódio, ao vivo, com todas as suas nuances dramáticas, jamais vão esquecer aquela segunda-feira, dia 21 de julho de 1975. Nas primeiras horas da manhã daquele dia, uma onda de pavor, pânico, medo e descontrole se alastrou pela capital pernambucana. Por toda a cidade, ecoava o grito

de que a barragem de Tapacurá acabara de estourar, prometendo deixar o Recife devastado sob suas águas. Algumas pessoas morreram, muitas se machucaram, inúmeras largaram seus carros nas ruas e abandonaram suas casas, milhares ficaram atordoadas, correndo que nem baratas tontas em busca de um

refúgio. Dois dias após a catastrófica enchente que destruíra vários bairros, a cidade mostrava o tamanho do seu estresse e desequilíbrio. E se entregou ao boato. Até que o desmentido oficial fosse veiculado e a multidão se certificasse de que tudo não passara, realmente, de um boato, muita

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água rolou, no sentido figurativo. E, até hoje, não se sabe se houve, ou não, um culpado direto pelo fato. O jornalista Homero Fonseca foi marcado pela experiência, que deixou más lembranças não apenas na sua, mas em várias gerações de recifenses. Para detectar o tamanho do impacto que o episódio causou na cidade, ele resolveu investigar os motivos que deflagraram o fenômeno coletivo de pânico diante do “estouro” de Tapacurá. Chegou a muitas conclusões – em 1 medo Moradores fogem de suas casas, ao saber do suposto estouro da barragem

especial, a de que o descaso do poder público na execução de obras para prevenção e contenção de enchentes ajudou a destruir a confiança do recifense; e mais: de que não houve um foco único de boato. Ele, provavelmente, foi construído durante os dias anteriores, quando milhares de pessoas se

recuperavam dos estragos causados pela maior cheia de todos os tempos. Em 1995, após anos de pesquisas, leituras e entrevistas, Homero lançou a primeira edição de Viagem ao planeta dos boatos, que rapidamente se esgotou. Neste mês, a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) relança o título, desta vez nominado de Tapacurá, viagem ao planeta dos boatos, que chega ao público com nova roupagem. A reedição traz um capítulo que não constava na publicação inicial, mas cuja inclusão é mais do que justificada: Tapacurá 2011, o retorno reconstitui como e por que o recifense se deixou assustar, novamente, por um boato que tinha como cerne a destruição da capital pelas águas do Rio Capibaribe. Trinta e seis anos depois, o pesadelo se repetia. Para relatar o episódio, que eclodiu na tarde do último dia 5 de maio, ele voltou a conversar com autoridades, jornalistas, protagonistas e especialistas no assunto. “O sentimento de medo voltou a generalizar-se, após rumores de que o nível do Capibaribe havia subido 12,5 metros com a abertura de comportas de suas barragens e, à tarde, com a chegada da maré alta, a cidade ficaria submersa”, conta Homero no novo capítulo, que chama a atenção, principalmente, para a rapidez com que os boatos se espalharam pela cidade, graças ao uso de duas ferramentas indisponíveis aos recifenses de 1975: a internet e o celular. “A diferença mais notável entre os dois acontecimentos foi o fato de, na década de 1970, o boato e o pânico terem eclodido dias após a ocorrência da enchente catastrófica, enquanto nesse início do século 21 os rumores ocorreram simultaneamente ao perigo real de uma inundação que, entretanto, não se materializou”, descreve no livro.

AQUÁTICA

Além de registrar um episódio marcante para a cidade, o livro de Homero faz uma reflexão sobre a relação dos recifenses com a cidade aquática. Lembra que, desde os tempos remotos da colonização, a população aqui instalada enfrenta

as cheias e alagamentos dos rios Capibaribe e Beberibe. O Recife, enfatiza Homero, é uma cidade roubada das águas. A luta do homem para ocupar a vasta área de manguezal à direita das terras altas de Olinda começou a se intensificar há muitos séculos. “Quando os holandeses da Companhia das Índias Ocidentais, à força das armas, ocuparam a região, no século 17, esse movimento (de ocupação das áreas alagadas) acelerou-se. Com know-how de domadores de águas, os flamengos dominaram o espaço físico e fizeram o núcleo urbano expandir-se na direção da terra firme. Sobretudo no período Nassau, projetaram e construíram palácios, pontes, diques, estradas, casas, canais.” E lembra que a vila cresceu “tapando camboa, engolindo maré, aterrando pedaços de mangue, comendo ilhas, virou cidade. A maior parte da zona urbana, hoje, foi edificada em cima de aterros”. Durante o trabalho, Homero se preocupou em estudar outros fenômenos coletivos que colocaram cidades em polvorosa. Entre os episódios, estão o Êxodo de Paris, que aconteceu durante a invasão da cidade pelos alemães, na Segunda Guerra Mundial, e a falsa transmissão radiofônica de um ataque de marcianos, feita por Orson Welles, em 1938, que parou Nova York e espalhou pânico nos Estados Unidos. No livro, há também pesquisas e estudos científicos, mas o tom que prevalece é o da boa reportagem, com um ritmo intenso, rápido, com espaço até mesmo para pequenas – e, hoje, patéticas – comédias pessoais, ajudando a tornar a leitura mais leve e a amenizar o clima tenso do episódio que transtornou a cidade.

Tapacurá Homero fonseca Cepe Nova edição traz, além da história de 1975, o registro do boato ocorrido no Recife, em 2011

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PHILIP ROTH Personagens masculinos marcados pelo medo

Escritor prolífico, cuja mais recente obra, Nemesis, deve chegar ao Brasil este mês, volta-se cada vez mais para o tema da doença e da morte texto Lucas Colombo

Leitura Quando me perguntam quais os maiores escritores contemporâneos, respondo: Philip Roth, Ian McEwan e Mario Vargas Llosa. Se a pergunta, no entanto, é qual considero “o” maior, o de obra mais forte, nem hesito: é Roth. A grande literatura do americano de origem judaica me prende desde que, há anos, li Complexo de Portnoy, seu polêmico livro de 1969, que Paulo Francis julgava o maior romance cômico já escrito. Impressionei-me com aquela mistura intensa de humor e amargura, com a maneira impiedosa e sarcástica com que o personagem-narrador, o jovem judeu Alexander Portnoy, relata ao psicanalista fatos de sua vida atormentada pela imagem da mãe superprotetora, que o tornava incapaz de manter um relacionamento com alguma mulher. Daí para outros títulos do autor, foi um pulo. E uma igual admiração. Embora já tenha dito que começar um novo livro é “puro inferno”, Roth é prolífico: com Nemesis, publicado no ano passado e com tradução no Brasil esperada para este mês, serão ao todo 31 títulos. Nos anos 1970 e 1980, depois de Complexo de Portnoy, seu terceiro trabalho, conquistou elogios com O professor de desejo e Lição de anatomia e, nos anos 1990, com as obras-primas Operação Shylock e O teatro de Sabbath, além da chamada “trilogia americana”, de acentuada carga

política, composta por Pastoral americana, Casei com um comunista e A marca humana. Desde O complô contra a América, de 2004, tem lançado praticamente uma obra por ano. Antes desse, chamou atenção com O animal agonizante e, após, Homem comum e Indignação. Foi às páginas desses três que, recentemente, voltei, depois de ver no teatro a adaptação feita pelo diretor Luciano Alabarse para O animal agonizante (honesta, porém enfraquecida pela interpretação caricatural de Luiz Paulo Vasconcellos), já levado ao cinema por Isabel Coixet, em Elegy (Fatal, no Brasil. Socorro!...), de 2008. São pequenos – cento e poucas páginas – grandes livros, cujas cenas, atmosferas e personagens ficam em nossas cabeças por muito tempo após a leitura. As três histórias trabalham o tema da doença e da morte, tornado preponderante na obra rothiana recente, depois que o autor de 77 anos, segundo ele próprio declarou, percebeu-se olhando “para dentro de tantos túmulos” de familiares e amigos, nos últimos tempos. O animal agonizante retoma o personagem David Kepesh, de O professor de desejo, sessentão sedutor, avesso ao casamento, crítico cultural e professor universitário que se vê obcecado pela jovem Consuela, bela aluna que seria apenas mais uma a levar para a cama

se, mais altiva do que suas parceiras anteriores, não o desestabilizasse e o fizesse se dar conta de sua velhice e falibilidade. Homem comum abre com a cena do enterro do protagonista, para depois relatar sua vida, com atenção especial às várias ocasiões em que o personagem, anônimo, se deparou com a finitude – logo ele, aterrorizado pela ideia de morrer. Expediente semelhante é usado em Indignação, mas em primeira pessoa: à maneira do Brás Cubas machadiano, que Roth conhece e admitiu ter sido referência para o romance, o personagem-narrador conta eventos passados, sob efeito de morfina, no hospital – Marcus, contudo, é um jovem com 19 anos e ferido na Guerra da Coreia, para a qual, em 1952, foi enviado após ser expulso da universidade, onde passou por experiências avassaladoras. Obcecado, aterrorizado, avassalador... os adjetivos se justificam: têm muito a ver com a ficção de Roth. Vem do jornalista e crítico Daniel Piza a melhor definição que ouvi até hoje para os narradores rothianos: “Têm mistura de mordacidade machista com perplexidade existencial”. Sim, para revolta das feministas, Roth faz seus personagens masculinos – como os mulherengos David e “homem comum” (e, antes deles, Portnoy) –

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gabarem-se dos atributos das amantes e não se importarem em descartá-las, sem cerimônia, em favor de novas conquistas. E, também, sim: por outro lado, esses personagens, e aqui Marcus se inclui, parecem estar o tempo todo a ponto de desabar numa cadeira e, com o olhar perdido, balbuciar: “não é possível que a vida seja assim, não creio que isso esteja acontecendo...”, atônitos que ficam com o rumo das coisas, com a inexorabilidade dos fatos.

COMPLEXIDADE

No que se conectam a certo espírito da sociedade americana – e do mundo – deste início de século 21, marcado por tragédias várias, os homens de Roth igualmente vivem, cada um a seu modo, com medo. David tem medo de perder a liberdade; Marcus, de ir à guerra; e o “homem comum”, de morrer. Vão adiante, mas logo se deparam com situações e pessoas

Escrevendo muito, e bem, há 50 anos, Roth já ganhou vários prêmios literários, mas ainda lhe falta um justo Nobel que os fazem tomar consciência de suas limitações. São vaidosos e assertivos de um lado, apavorados e claudicantes de outro. Tal ambivalência os torna complexos, humanos, personagens marcantes como só os ficcionistas de primeira sabem criar. Roth também sabe a importância de perturbar o leitor revelando aspectos indigestos da natureza humana e da sociedade em que se insere (mas o faz com pitadas de humor sutil). A vingança do primeiro roommate de Marcus, em Indignação, expõe o grau de baixeza que uma pessoa pode atingir, e a crítica às convenções e ao puritanismo americanos, característica de toda a obra de Roth, denuncia deficiências da cultura de seu país. Outros temas recorrentes no escritor da mesma forma assinalam O animal agonizante, Homem comum e Indignação, como relações difíceis entre filhos e pais e as artimanhas do desejo, além do

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judaísmo. A religião, no entanto, está lá para ser ironizada, questionada. Os personagens são fortemente céticos: Marcus cita trechos inteiros de Por que não sou cristão, de Bertrand Russell, numa sensacional discussão com um diretor da faculdade, e o “homem comum” pensa que todas as religiões são “bobagens sem sentido, uma criancice”. Esse ceticismo encontra veículo ideal na prosa direta, seca e concisa de Roth. O animal agonizante, Homem comum e Indignação mostram ainda a competência do autor na criação de tramas, mesmo, de narrativas em que nada é por acaso, fatos e nomes são citados en passant num momento e retomados profundamente adiante, tudo se encaixa. Roth é excelente também por isso: por suas descrições e narrações estarem unidas

prosa Sexo, feitiçaria e história do Brasil

Com O senhor do lado esquerdo, Alberto Mussa leva o leitor ao prazer do bom romance policial, enquanto oferece ricas informações livrescas texto Adriana Dória Matos divulgação

Leitura de maneira tão orgânica às observações argutas, que se tornam indissociáveis. Nesses três livros, isto é notável. Quem dera a literatura brasileira, em duas décadas, produzisse três romances como esses que Roth produziu em uma. Escrevendo muito, e bem, há 50 anos, Roth já ganhou vários prêmios literários. O mais recente é o inglês Man Booker International, pelo conjunto da obra, concedido em maio. É sempre lembrado para o Nobel, e nunca o leva. Os atuais (e politicamente corretos) membros do comitê sueco já afirmaram considerar a literatura americana “insular”, preferindo premiar ficcionistas medianos como a alemã Herta Müller (2009) e o francês J. M. Le Clézio (2008) – Vargas Llosa, em 2010, foi exceção. É realmente um equívoco: os grandes romancistas, como Roth, sabem ser universais ao ambientar suas histórias num mesmo lugar. Os dramas dos judeus americanos de classe média retratados por ele poderiam ser de qualquer pessoa. Ao entrevistá-lo na fazenda onde ele mora, em Connecticut, a jornalista Lúcia Guimarães comentou sobre o Nobel, e a injustiça parece não incomodá-lo: “Olhe essa natureza em volta. Eu ainda preciso de um Nobel?” – rebateu Philip Roth, o maior escritor da atualidade. E, com Nobel ou sem, já um dos maiores de todos os tempos.

Alberto Mussa (1961) é um autor

carioca da nova geração de escritores. Em linhas gerais, podemos dizer que o que caracteriza sua prosa é o amálgama sensível e inteligente de ficção e ensaísmo. E ele é hábil em não revelar ao leitor quando se trata de um ou de outro caso, garantindo um alto grau de verossimilhança

às suas histórias, um pressuposto basilar da narrativa romanesca. E é sob esse trato entre romancista e leitor que ingressamos com avidez na trama de O senhor do lado esquerdo – O romance da casa das trocas, lançamento recente da Record. O episódio que desencadeia a trama é o seguinte: um secretário da

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INDICAÇÕES 1 mussa Autor carioca tem demonstrado interesse específico na pesquisa histórica, que revertese em conteúdo rico para sua ficção

presidência da república, do governo Hermes da Fonseca, é encontrado morto numa libertina Casa das Trocas, antiga residência da amante do imperador, a marquesa de Santos, assim nomeada por ser um lugar em que o sexo é praticado sobretudo mediante a troca de casais. A elite carioca de então – sim, estamos na belle époque, em 1913 – frequenta o lugar, permitindo-se as mais variadas práticas sexuais, entre diferentes e mesmos sexos. Sabe-se que a última pessoa com quem o político morto esteve foi a prostituta Fortunata, que desaparece após o crime. Um perito da polícia, que domina a então novíssima técnica de identificação digital, é designado para desvendar a autoria do crime e encontrar seu autor. Como o leitor terá observado, trata-se de um romance policial. E, como na maioria dos melhores exemplares do gênero, Mussa mantém o suspense até as últimas páginas (embora, por variados indícios, possamos imaginar o desfecho), nutrindo o leitor com episódios excitantes e situações que se emaranham, pistas e despistes.  Mas, o que de fato diferencia o romance de outros do gênero é sua cultura livresca, fruto da potência investigativa do autor, que se interessa

profundamente por assuntos “periféricos”, como as culturas africana, indígena e árabe (principalmente a préislâmica, nesse último caso), sobre as quais lê e pesquisa, em busca de elementos pouco conhecidos. Assim, ele forra a narrativa com um húmus riquíssimo de informações – nem sempre verdadeiro, porque também fruto de sua imaginação – sobre aspectos relativos à história do Brasil, centrada no Rio de Janeiro, cenário da história. O fato de sabermos que se trata de uma articulação entre fatos e ficção põe tudo que é dito sob suspeita, o que não deixa de ser um exercício de liberdade também para o leitor. (“Será que isso é verdade?” é uma pergunta que nos anima diante de O senhor do lado esquerdo.) Assim é que o leitor mais apressado, que só gosta de comer o prato principal, dispensando os detalhes contidos numa refeição completa e suas etapas, terá de exercitar também a calma nessa leitura. Porque, a cada momento, o narrador promove suspensões no enredo, oferecendo pausas ensaísticas que, enquanto adiam o desfecho ansiado, comentam sobre aspectos como urbanismo, sexualidade, psicologia, criminologia, feitiçaria, entre outros temas, uma combinação que serve muito de comentário à trama, mas que também coloca mundos aparentemente apartados em contato. Exatamente como ocorre ali, na Casa das Trocas, onde, sob o manto do anonimato, a alta sociedade abre-se a uma sexualidade sem fronteiras de qualquer espécie.

BIOGRAFIA

ROMANCE

Cosac Naify

Cosac Naify

ROBERT CAPA Ligeiramente fora de foco

VALTER HUGO MÃE A máquina de fazer espanhóis

Dizer que este livro é uma autobiografia significa dizer que o autor narra sua história pessoal em texto e fotografias. Quando sabemos que se trata de Robert Capa, ganha relevo a ideia de fotografia. Porque o texto desse fotógrafo humanista é um texto visual. O volume reúne memórias de quando foi correspondente da 2ª Guerra.

O primeiro exercício diante deste texto é acostumar-se com sua dicção –utilizando fluxo de consciência, uma voz sem pausas, ininterrupta, expressa por um texto corrido de grandes parágrafos. Romance reflexivo sobre a história de Portugal, na voz de um personagem velho e solitário, posto diante de seus fantasmas.

ROMANCE

ENSAIO

PAULO ROBERTO PIRES Se um de nós dois morrer Alfaguara

Talvez pelo treino no jornalismo cultural, o texto de Paulo Roberto Pires tem uma grande capacidade comunicativa. Ou seja, raramente um leitor reagirá com tédio diante dele. Isso porque tem uma narrativa dinâmica, inteligente, animada por estratégicas variações: ora soa como anotações pessoais e recortes de leituras, ora assume estilo epigráfico ou narrativa romanesca.

BRUNNO V. G. VIEIRA E MÁRCIO THAMOS (ORGS.) Permanência clássica – Visões contemporâneas da Antiguidade grecoromana Escritura

Visões contemporâneas sobre a Antiguidade greco-romana estruturam os 10 artigos centrados nos estudos literários reunidos neste volume. Entre os temas abordados, está a sátira.

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Fotos: divulgação

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CIDADÃO KANE Um magnata da mídia cheio de pesadelos

Sete décadas depois, a obra-prima de Welles revela-se atual e influencia cineastas, em épocas de grampos de Rupert Murdoch texto Fernando Monteiro

Não há problema: é só consultar

a Wikipédia, para ficar sabendo que Moloch – ou Moloque – “é, conforme os textos bíblicos, o nome do deus dos amonitas ao qual eram sacrificados recém-nascidos, jogandoos em uma fogueira. Também é o nome de um demônio da tradição cristã e cabalística. A aparência de Moloch era de corpo humano com a cabeça de boi ou leão” etc. Se quisermos “atualizar” o enciclopedismo rasteiro deste século 21 (que é a Wikipédia), basta mudar a aparência do velho Moloch: continua o “corpo humano” e a cabeça também se faz a de um homem. Ou seja, o velho Moloch poderia exibir o aspecto de um magnata da imprensa chamado

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1 cidadão kane No filme, é emblemática a figura central do diabólico magnata da mídia orson welles 2 Além de ter sido roteirista e diretor, ele atuou como protagoniista do filme

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Charles Foster Kane, personagem do revolucionário filme de Orson Welles, lançado em setembro de 1941, na América do então jovem diretor, gênio cooptado por Hollywood como raramente foram contratados gênios autênticos, no chamado star system dos grandes estúdios. E se 70 anos é muito tempo, então a cabeça de Moloch pode ser substituída pela feia cabeça do contemporaníssimo Rupert Murdoch, australiano que é o maior empresário do ramo da comunicação no planeta, atualmente às voltas com a justiça inglesa para explicar os grampos telefônicos e outros crimes que seu tipo de imprensa “marrom” – a mesma de Kane – estaria cometendo, há tempos, sem que ninguém se

mexesse, na Inglaterra, para investigar o conglomerado jornalístico (News Corp) de Murdoch a sério, até o escândalo bater à porta da intimidade do exprimeiro ministro Gordon Brown. Esse cheiro de rato morto no sovaco dos magnatas da imprensa, não só de língua inglesa, tem – justificadamente – o batismo de um nome duplo, no cinema: Kane/Hearst. Explica-se: o filme realizado pelo rapaz de “brilhante futuro nas artes” (há sete décadas) foi, pioneiramente, para o olho do furacão do assunto da falta de escrúpulo na mídia, ao se basear, em parte, na trajetória real de William Randolph Hearst, lendário dono de cadeia americana de jornais, na primeira metade do século 20. É um homem como ele que vira o objeto do quebra-cabeça cinematográfico ao qual Welles se dedicou como se remontasse um vitral partido, revolucionando a narrativa, no cinema, ao usar linguagem de máxima potência para tratar de um “Moloch” típico.

CONTROVERSO

Welles foi um verdadeiro gênio – num século cheio de falsos gênios – e Cidadão Kane é a obra mais importante não só da sua filmografia como diretor (ele era também ator, mágico amador, jogador inveterado e moleque, digamos, nas horas vagas de atirar pianos nas piscinas

dos hotéis, como fez no Copacabana Palace). Longa-metragem que está sempre no topo das listas dos melhores filmes de todos os tempos, Citizen Kane – como muitas obras-primas – foi uma realização controversa desde seu começo na cabeça de Orson, ajudado por John Houseman (primeiro colaborador importante de Welles, no teatro e no rádio). Houseman foi uma das amizades firmes do carismático moço vindo da pequena Kenosha, no Wisconsin, onde George Orson Welles nasceu no dia 6 de maio de 1915. Duas décadas depois, ele chegava àquela Nova York da luz no fundo do túnel da Depressão econômica, disposto a conquistar a grande cidade com alto talento e um carisma de derrubar avião. Para começo de conversa, Welles fez descer do céu não as aeronaves comuns, movidas a combustível vulgar e tudo o mais, porém, nada menos que discos voadores pilotados por marcianos em aventura de invasão da Terra. Tratava-se da primeira grande façanha com a marca OW, na história das artes da comunicação. Nessa época, Welles produzia The Mercury Theatre on the Air, um programa radiofônico no qual teatralizava, digamos assim, obras literárias do seu gosto, com inteira liberdade de escolha e estilo (sorte

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dele, que não conseguia funcionar senão assim, livre para voar...). Às oito horas da noite de 30 de outubro de 1938, véspera do Dia das Bruxas, o Mercury levou ao ar uma adaptação da ficção científica A guerra dos mundos, novela de autoria do seu quase homônimo H. G. Wells, e o fez em forma de reportagem de rua, como se os microfones estivessem nas mãos de repórteres presenciando um ataque de óvnis ao nosso planeta. O truque ficou tão real, que instaurou imediato e autêntico pânico entre milhares de pessoas que pegaram o programa pela metade e pensaram que se tratava de uma invasão real. Muitos desses ouvintes fugiram das suas casas, outros sofreram forte comoção e todo mundo ficou sabendo da existência do rapaz que produzia para o rádio, fazia reportagens especiais e atuava no teatro como ator, diretor e, bem, como Orson-Welles-mesmo, pois ele era uma espécie de personagem de si próprio, tão convicto do seu gênio quanto o James Joyce de 18 anos que, barrado na portaria de um teatro aonde pretendia entrar sem pagar ingresso, simplesmente olhou de alto a baixo para o funcionário à porta da casa de espetáculos e o

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roteiristas à disposição, no perímetro de Los Angeles). Além de roteirista, Orson atuou frente às câmeras como protagonista e, acima de tudo, diretor de uma obra autoral, até à medula ianque. O grande estúdio que se associou ao garoto brilhante do “eu, eu e mais eu” não se importava muito com o que ele estava fazendo lá no set. Os produtores só sabiam que era alguma coisa relacionada com a biografia de um homem poderoso, porém o deixaram trabalhar em paz (isto é, em guerra: guerra para criar uma verdadeira obra-prima).

A notoriedade de Welles teve início com um sensacional programa de rádio que simulava ataque de extraterrestres Citizen Kane estreou em setembro de 1941 numa América ainda livre da guerra e deslumbrada por faroestes, melodramas, comédias, musicais e histórias de gângsteres. A segunda experiência de Orson Welles no cinema – a primeira havia sido um curta-metragem, The hearts of age, de 1934 – apresentava aos apreciadores

dos produtos da próspera indústria cinematográfica uma espécie de mistura desses gêneros todos (excetuando musicais, claro), em sintaxe nunca antes intentada naquele país. Charles Foster Kane funcionava como um herói-vilão montado no cavalo da imprensa, num melodrama que começava com um enigma (a palavra “Rosebud”) para explicar a trajetória de um influente dono de império jornalístico que pretendia moldar os acontecimentos de acordo com os seus interesses e gostos, manias, fraquezas e eventuais grandezas perdidas no meio do caminho. Mas Kane seria isso mesmo? Quem era ele? Ninguém sabe – um tanto à maneira do romance O grande Gatsby (de F. Scott Fitzgerald). Ou melhor, todo mundo pensa saber – e não sabe, na verdade. Todos têm, entretanto, alguma coisa para dizer sobre Kane, porém essa “coisa” ou soa incompleta ou soa errada e, de qualquer maneira, parece apenas o fragmento de um fragmento da vida controversa e estranha de um homem que queria dominar o mundo, embora não dominasse os próprios pesadelos, sonhando com “Rosebud” (o que era?), enquanto chorava dormindo e, de manhã, acordava disposto a esquecer palavras,

informou: “Mas eu sou James Joyce!”, do alto de sua juventude mundialmente desconhecida, àquela altura.

EGO ALIMENTADO

“Eu sou Welles!” – foi assim que “funcionou” aquela transmissão radiofônica, ouvida de costa a costa da então América do sonho ainda de pé, um lugar em que virtualmente poderia acontecer de tudo (hoje, está longe disso, ou pelo menos o sonho acabou e ela está caminhando para a decadência rápida – nas artes, principalmente). Fascinado pela ideia de ir para Hollywood, Orson conseguiu o interesse da RKO como sócia e distribuidora do que ele pretendesse levar para as telas. Foi assim que, com um orçamento razoável, o ex-garoto precoce e afortunado partiu para escrever o roteiro de Cidadão Kane – com a ajuda não creditada de Houseman e, depois, com a definitiva colaboração de Herman Mankiewicz (um dos melhores

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Fotos: Cdivulgação

3 rupert murdoch Magnata da contemporaneidade poderia ser comparado ao personagem Charles Foster Kane 4 ESTREIA Primeiro longa-metragem de Welles, Cidadão Kane teve lançamento concorrido em 1941

Cidadão Kane. Ao se ver perseguido por Hearst, o cineasta usou de suas artes, mais ou menos charlatanescamente hábeis, tentando se desviar da mira do Murdoch daqueles tempos, através de advogados e outros meios mais indiretos.

KANE C’EST MOI

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pensamentos e obras que, dias antes, havia afirmado apoiar com entusiasmo.

NOVIDADES ESTILÍSTICAS

Cada novo dia de Kane é um dia inventado na tumultuosa mente do criador de um conglomerado como o dos tempos de hoje, de Rupert Murdoch – só que Kane não tem a cara de Rupert (de um amanuense de óculos?). Era ele um belo homem, que falava com perfeita entonação shakespeariana e olhava nos olhos das pessoas, talvez a fim de retirar delas tudo que tinham de bom... Verdade? Mentira? Para não precisar responder a essa pergunta, o gênio de Orson Welles criou o unanimemente considerado “melhor filme da história do cinema”, contando a história que não termina e usando uma linguagem nova, auxiliado pelo extraordinário talento do diretor de fotografia Gregg Toland e pelo ritmo da montagem nas mãos de Robert

Wise, futuro diretor hollywoodiano dos mais aclamados. Com ângulos inusitados de câmera (uso de plonglée e contra-plongée etc.) e exploração do fundo de campo, entre outras novidades, Kane é uma obra que não envelheceu, depois de sete décadas, e a mais forte influência sobre a “sétima arte”. Welles ajudou a articulá-la como mais do que essa síntese das seis outras, ao realizar um filme tão importante como A paixão de Joana D’Arc (de Dreyer) e O encouraçado Potemkim (de Eisenstein) e outras que compõem as listas das 10 maiores realizações cinematográficas produzidas até esta data. Só que Citizen Kane geralmente encabeça quase todas as listas, seja ou não seja a “biografia” de homens como W. R. Hearst. Até morrer – vítima de um fulminante ataque cardíaco, em 10 de outubro de 1985 –, Orson jamais reconheceu que o magnata americano fosse a principal fonte inspiradora de

Quando Welles passou pelo Recife, em março de 1942 (logo após ter concluído Kane, na viagem ao Brasil que teria sido o “começo do fim da carreira em Hollywood”, nas palavras do próprio diretor), o único dos três rapazes que, àquela altura, participaram de uma “farra” na sua companhia, e que sabia perfeitamente quem era Orson, chamava-se Tomás Seixas (os outros dois foram o fotógrafo Benício Dias e o jornalista Caio de Souza Leão). O poeta Seixas foi meu amigo, e uma vez lhe perguntei se a já velha controvérsia em torno de Kane/Hearst havia sido abordada na rodada de uísque à beira do cais, naquele Recife nervosamente em blackout. Tomás pensou um pouco, antes de responder afirmativamente, e acrescentar: “Ele falava de várias coisas ao mesmo tempo. Para mim, mais do que para os outros, talvez porque eu fosse o único fluente em inglês (Benício falava muito bem o francês). Um dínamo, o Welles. De repente, podia estar cantarolando a Marselhesa, por exemplo, e então parava para responder a uma pergunta feita 15 minutos atrás. No caso da minha, Orson voltou mais uma vez para mim aquela cara de belo menino gordo e respondeu: Charles Foster Kane c’est moi. Et Hearst et le diable et Dieu (Charles Foster Kane sou eu. E Hearst e o diabo e Deus).” Precisaria dizer mais sobre moloques da mídia e “moleques” de gênio?... Em tempo: sobre a palavra Rosebud, o filme termina explicando como sendo apenas o nome de um trenó que Charles Foster Kane possuíra, na perdida infância.

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IMAGEM A afirmação dos indivíduos na sociedade midiatizada

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O boom das câmeras digitais vem colaborando para expandir o desejo de visibilidade e de engendrar uma nova forma de entendimento da memória texto Gianni Paula de Melo

Claquete A melhor maneira de começar esta matéria é propondo um exercício íntimo. Primeiro, escolha uma experiência marcante recente – pode ser uma viagem, um aniversário, a festa de ano-novo. Busque lembrar as pessoas presentes; em seguida, tente remontar as ações do episódio. Passeie pelos pormenores e, se for possível, recorde o ambiente, os diálogos, os detalhes. Quanto desse evento você é capaz de revisitar – ainda que de forma imprecisa e não linear, pois essas são características inerentes ao exercício de memória – sem consultar no seu computador a pasta com uma centena de arquivos? Na máquina, provavelmente, constará um panorama do tal dia rememorado, os vídeos e as fotografias convertendo os instantes mais triviais em acontecimentos dignos de recordação. De fato, tudo aquilo que está no mundo é passível de registro visual estético ou documental. No entanto, atualmente, a motivação do clique não é antes estética, nem mesmo mnemônica, pois, se todos os fatos se tornam memória através das imagens, pode-se dizer, também, que nada se tornou memória efetivamente, com singularidade. O boom dos equipamentos digitais que possibilitam a filmagem e fotografia das experiências – muitas

vezes, as duas funções em um mesmo artefato – permitiu a reconfiguração da relação entre a sociedade e o imagético. Mais que isso: colaborou para expandir o desejo de visibilidade e engendrar uma nova forma de enfrentamento da memória. É importante frisar que as novas tecnologias permitiram as mudanças, mas não as causaram; colaboraram para elas, mas não as geraram. Porque seria redutor associar o aumento da produção de imagens prioritariamente às condições técnicas de produção, quando profundas questões subjetivas e sociais também estimulam esse quadro. Nas palavras do filósofo Gilles Deleuze, “as máquinas não explicam nada, é preciso analisar os agenciamentos coletivos dos quais elas são apenas uma parte”. Não é de hoje que a imagem se tornou um lugar de afirmação dos indivíduos. Em uma sociedade amplamente midiatizada, o desejo de visibilidade faz-se quase inexorável, pois a imagem é capaz de gerar a sensação do estar no mundo. Curiosamente, grande parte dos intelectuais e bem-informados lançam um olhar crítico e negativista sobre os fotógrafos amadores e seus cliques frenéticos. Isso porque os portadores de câmeras, ansiosos por capturar

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os instantes, estariam fazendo do acontecimento empírico algo menor que o acontecimento imagético. Essa crítica, apontada por uma camada intelectual que “sabe” a forma mais proveitosa e “correta” de relacionarse com o mundo, reproduz-se e sua parcela de pertinência ofusca o que há de limitado nela. Se nos debruçarmos sobre essa característica contemporânea antes para compreender que para julgar, perceberemos que estamos diante de outra forma de fruição do mundo. Hoje, quase não enxergamos a olho nu o que está em nossa volta e este não é um “privilégio” dos amadores. Mesmo artistas consagrados passam pelo mundo sem notá-lo, e apenas

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1 pacific O cineasta Marcelo Pedroso se apropriou dos vídeos feitos por passageiros em um cruzeiro para Fernando de Noronha

atentam para suas particularidades quando estão em frente à câmera, algo que o cineasta Eduardo Coutinho já assumiu com naturalidade: “Na hora que eu filmo uma pessoa, eu a amo mais que qualquer coisa. Aliás, quando a câmera está ligada é que eu vejo as pessoas. Eu sou uma pessoa que não olha para o mundo. Sou totalmente distraído, me perco nas ruas, em todas as cidades. Agora, quando eu ligo a câmera e selo os olhos na pessoa, é isso que vale a pena para mim”. Cada vez mais, são os vídeos e fotografias que dão forma à experiência. Como aponta o professor André Brasil, em seus estudos, as pessoas acionam – e aqui se conserva

o duplo sentido de acessar e colocar em funcionamento – o mundo através das câmeras. Pouco a pouco, notamos também que o uso contemporâneo desses equipamentos já não se associa à memória de forma evidente, pois o ato de registrar está e, ao mesmo tempo, não está imbuído de uma preocupação com a posteridade. Apesar de ser mantida certa paranoia da memória, no momento em que os flashes são disparados vivemos antes uma celebração do presente que uma preocupação seletiva (e efetiva) com as recordações. Uma inversão, nesse momento, fica clara: na contemporaneidade, não é a ocorrência singular que merece ser fotografada/filmada, mas o

fato de ser fotografada/filmada é que torna a ocorrência singular.

DIÁLOGO

Obviamente, essa nova configuração da relação entre os indivíduos e o imagético reverbera nos espaços da criação audiovisual legitimada. No curta-metragem Flash happy society, de Guto Parente, a compulsão por fotografar e filmar um show serve como metonímia da nossa sociedade. As luzes liberadas ao disparar das câmeras congelam o tempo do filme, assim como o faz com o instante que enquadram. Através do nome do curta e de seu desenrolar hipnótico, o diretor imprime visível crítica sobre o fenômeno que tematiza.

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2 fantasmas No curta mineiro, a captação da imagem da ex-namorada do personagem funciona como uma despedida

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Mais uma vez, o vivenciar e o registrar podem ser apreendidos como duas ações incompatíveis de serem realizadas em plenitude, concomitantemente. No entanto, parece mais provável que nos nossos dias o vivenciar passe, obrigatoriamente, pelo registrar. Já não são as incontáveis fotografias – muitas delas armazenadas em pastas que talvez nunca sejam consultadas, quem sabe até perdidas – que impulsionam o clique, mas o simples ato de fotografar torna-se um fim em si. Em Pacific, documentário do pernambucano Marcelo Pedroso, a discussão se alarga. O filme, já bastante debatido e comentado pela crítica, não utiliza essa realidade midiática unicamente como conteúdo: ela é também a estrutura, a forma. No longametragem, o cineasta se apropria de vídeos produzidos por turistas em um cruzeiro para Fernando de Noronha, nos quais eles se autorregistram, atuam para a câmera. Nenhum material fílmico é utilizado além desses produzidos

No contemporâneo, há uma obsessão por aprisionar as experiências em arquivos sem qualquer seleção espontaneamente pelos personagens e que, a princípio, estavam destinados a serem registros pessoais. É inevitável imaginar esses vídeos como itens de afirmação, feitos para circular nas redes sociais e para dar testemunho de episódios de vida bem-sucedidos. Por outro lado, também não é improvável que eles fossem engavetados e jamais editados. Independentemente das especulações sobre o futuro dos registros – no caso da inexistência de Pacific –, o fato é que eles são produzidos no tempo do espetáculo e refletem um desejo de visibilidade. O documentarista Jean Rouch observa que “ao ligar uma câmera, uma privacidade será violada”, mas,

diante do dispositivo de Pedroso, essa afirmação parece frágil. Afinal, se eu crio autorregistros espontaneamente – escolho planos, enquadramentos, determino as performances – e, posteriormente, autorizo seu uso, há violação de privacidade? Na instância da filmagem, ao menos, não. As ressignificações estabelecidas no processo de montagem é que poderiam ser conduzidas de forma perversa, o que não se observa no filme. Sobre esse aspecto, o próprio diretor comenta: “Talvez, ao invés de violada, a privacidade tenha sido compartilhada. É evidente que existe uma coisa meio invasiva em vermos imagens que traduzem códigos interpessoais que, em princípio, não nos dizem respeito e correspondem àquilo que constitui a intimidade daquelas pessoas. Mas, ao mesmo tempo, o fato de terem sido filmados atribui a esses momentos um desejo de visibilidade que lhes é inerente. Acho que, de certa forma, as imagens carregam uma busca pelo reconhecimento, um desejo de serem

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INDICAÇÕES vistas mesmo, que acaba se efetivando no momento em que os personagens nos cedem o material”. A atualidade das imagens, a extrema proximidade temporal entre nós e elas, intensificam a nossa criticidade com o que nos é apresentado. Novamente, vemos despertar um sentimento de rejeição no público em relação àquele comportamento e àqueles registros, o que não ocorre quando observamos um filme valorado pelo elemento da nostalgia, como é o caso de Supermemórias, do diretor Danilo Carvalho, que reúne imagens de famílias cearenses em super-8. Acabamos por ignorar que o ato de filmar e fotografar também é lúdico e, como aponta Susan Sontag, no livro Sobre a fotografia, “se tornou um passatempo tão difundido quanto sexo e dança”.

ESQUECIMENTO

Quando as imagens estavam fortemente atreladas à memória histórica, os grupos sociais privilegiavam, em seus registros pessoais, o que deveria ser lembrado e excluíam o que preferiam esquecer. No contemporâneo, no entanto, um paradoxo se instaura. Notamos uma obsessão por aprisionar as experiências em arquivos, sem grande seletividade; um indicativo da supervalorização de uma memória artificial, material. Ao mesmo tempo, a dificuldade de lembrar naturalmente se intensifica, pois a facilidade gerada por vídeos e fotografias traz consigo o traço da falta de esforço ou vontade de

recordar voluntariamente – como o exercício proposto no início do texto pode ter confirmado. De forma bastante simples, a fotógrafa e pesquisadora Isabella Valle sintetiza o fenômeno em questão: “No contemporâneo, o aumento explosivo da memória gera um aumento explosivo do esquecimento”. A perspectiva freudiana de que a memória é, naturalmente, uma forma de esquecimento e que o esquecimento é uma memória escondida parece sintetizar a postura da coletividade nesse aspecto e toma, em nossos tempos, proporções nunca imaginadas. Sobre o complexo diálogo entre imagem e memória, um filme chama a atenção por propor o esquecimento a partir do registro. O curta-metragem Fantasmas, do realizador mineiro André Novaes Oliveira, roubou a cena em vários festivais por seu argumento simples e peculiar. Colocando o espectador no lugar exato do voyeurismo, o diretor nos desperta para a extrema vigilância social que há tempos exercemos uns sobre os outros, mas que agora também podem ser facilmente mediadas pelas telinhas das câmeras digitais. No filme, após captar o que é de seu interesse – a passagem da ex-namorada –, resta ao personagem deixá-la no passado. Nesse caso, o vídeo representa uma despedida, um choque de realidade, uma via para o esquecimento. Aqui, encarar a imagem é determinante para os rumos da memória e da superação; já o enfrentamento com o real é secundário.

THRILLER

DRAMA

Direção de Michael Winterbottom Com Casey Affleck, Kate Hudson e Jessica Alba Paris Filmes

Direção de Suzana Amaral Com Júlio Andrade, Gero Camilo e Mariana Ximenes Lume Filmes

O ASSASSINO EM MIM

HOTEL ATLÂNTICO

Baseado no romance de Jim Thompson, o filme conta a história de Lou Ford (Affleck), um jovem e belo xerife americano, que é, na verdade, um psicopata. Para encobrir seus traços de adultério e corrupção, Ford se torna um assassino frio e violento, com cenas em que destrói o rosto de sua amante, a prostituta interpretada por Jessica Alba. Pouco conhecido do grande público, Affleck se mostra incrível no papel, com um olhar de extremo sarcasmo e divertido desprezo.

Com a própria diretora descrevendo-o como um filme “estranho”, Hotel Atlântico mostra o mundo através dos olhos de um homem sem rumo (Júlio Andrade). O personagem está sempre em trânsito, e encontra no caminho personagens e situações enriquecedoras. Curiosa é a semelhança deste personagem com o vivido por Júlio em Cão sem dono, de um Beto Brant mais cético. Roteiro bem-elaborado e diferente, que prende pela “estranheza”.

DRAMA

DRAMA

Direção de Denis Villeneuve Com Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette Imovision

Direção de Mathieu Amalric Com Dirty Martini, Mathieu Amalric e Miranda Colclasure Imovision

INCÊNDIOS

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o longa acompanha dois irmãos canadenses, Jeanne e Simon, que, para atender ao último desejo de sua mãe, fazem uma viagem ao Oriente Médio, em busca de um terceiro irmão, e do pai, até então dado como morto. Nessa trajetória, descobrem segredos do passado da mãe e sua militância no Oriente Médio, durante os anos 1960 e 70. O longa ressalta a existência de barreiras entre as pessoas, sejam elas ideológicas ou não.

TURNÊ

Vencedor da Palma de Ouro de Cannes por Melhor Direção em 2010, o longa dirigido e estrelado por Mathieu Amalric é uma homenagem deste à nova cena burlesca. Com verdadeiras strippers no elenco, o longa conta a história de um produtor decadente de TV que tenta se reerguer produzindo o show das americanas em sua terra natal, a França. As dançarinas se mostram a única família do personagem de Amalric, e o filme traz boas doses de drama, sensualidade e risos.

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Artigo

ANDRÉ BRAsIL A MONTAGEM NO CINEMA BRASILEIRO Quem se põe a faze r filmes, hoje, precisa – direta ou indiretamente – enfrentar uma condição que ainda nos desconcerta e nos exige respostas críticas e inventivas. Ela diz respeito à constante transformação do mundo vivido em imagens (captadas pelos mais diversos gadgets e colocadas em circulação nos mais diversos circuitos midiáticos). Somos permanentemente convocados a encenar nossas vidas diante das câmeras e essa performance, longe de ser circunstancial, torna-se (quase) um imperativo que nos constitui como sujeitos. Em um capitalismo que se reivindica imaterial, plástico e flexível, essa passagem da vida à imagem deve se realizar de maneira

fluida, lisa, não conflituosa. Fluente. Vez ou outra, o cinema responde criticamente a essa fluência. Se nos ativermos ao contexto brasileiro, perceberemos como esse constante tornar-se imagem está no centro de certa produção cinematográfica recente, que, não à toa, é feita nas bordas ou nos encaixes entre os domínios do documentário e da ficção. Nesse sentido, lembraríamos logo Serras da desordem (2006), filme dos mais importantes de nossa nova cinematografia, no qual Andrea Tonacci reencena a errância do índio Carapiru, tendo o próprio Carapiru como ator. Em suas particularidades, outros filmes poderiam ser pensados a partir dessa chave de leitura: Morro do céu (Gustavo Spolidoro, 2009), Estrada para Ythaca e Os monstros (Guto Parente, Pedro Diógenes, Luiz e Ricardo Pretti, 2010 e 2011), Avenida Brasília Formosa (Gabriel Mascaro, 2009) e O céu sobre os ombros (Sérgio Borges, 2010). Cada qual à sua maneira, essas obras se criam, desde o início, em mão dupla: de um lado, ficcionalizam-

se vidas reais, em uma narrativa que não roteiriza o real em um gesto demasiado. De outro lado, mas simultaneamente, produz-se algo como uma deriva da ficção, provocada pela deriva da vida ordinária de seus personagens. Assim, nesses filmes, a vida produz ficção – produz imagens – e, em via inversa, produz-se nas imagens, é produzida na e pela ficção. Em chave diversa, aproximaríamos a esse conjunto o documentário Pacific (Marcelo Pedroso, 2009), que se constitui totalmente de imagens feitas pelos próprios turistas em um cruzeiro a Fernando de Noronha. Se, cada qual à sua maneira, esses filmes se abrem ao mundo é porque – antes de se constituírem por um argumento ou um roteiro fechados a priori – eles valorizam a dimensão, digamos, relacional do cinema: criamse processualmente, abertos àquilo que, vindo do mundo vivido, pode tensionar sua escritura (sob o risco de, inclusive, vê-la fracassar). Essa relação se dá, de forma fundamental, no momento da miseen-scène, momento do encontro entre

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1 o céu sobre os ombros O filme acompanha o duro cotidiano de pessoas ordinárias

quem filma e quem é filmado, tendo a câmera como mediação. Mas, se o filme quer-se criar de maneira imanente em relação ao mundo vivido, sem se marcar por um gesto ficcional de excessivo distanciamento, esse pressuposto deve reverberar também na montagem: da mesma maneira, esse precisa ser um espaço relacional. A montagem não poderia ser um lugar de abstração extrema ou de soberania do filme diante do mundo, mas abrigar operações contingentes, também tateantes. Em seus distintos resultados, O céu sobre os ombros, de Sérgio Borges, e Avenida Brasília Formosa, de Gabriel Mascaro, compartilham uma estratégia: ambos os filmes acompanham o duro cotidiano de pessoas comuns, que se desdobram em espaços, tarefas e papéis diversos. Essas são obras ficcionais de forte dimensão documentária e se produzem, na linha de nosso argumento, em uma espécie de contiguidade com o mundo vivido. A montagem preserva essa contiguidade, em um trabalho discreto, modesto (o que não quer dizer que não possa ser sofisticado): mantêm-se a duração das cenas e os tempos mortos (muitas vezes, atentando-se às suas nuances sonoras). Ao mesmo tempo, a montagem estabelece uma ligação frágil entre as vidas – vizinhas – que percorrem o filme. Como diria César Migliorin, trata-se de uma montagem que compõe, por polinização, uma rede de relações e circulações que guardam em comum o terreno disperso, mas denso, do cotidiano. Aliada à mise-en-scène e à fotografia, a montagem produz no filme uma dupla impressão, aparentemente contraditória: de um lado, percebese certa rarefação, na medida em que ali se compõe uma rede de relações, cujos vínculos entre personagens e eventos são frágeis, superficiais, quase fortuitos. Por outro lado, a vida cotidiana e a perambulação

dos personagens não se constituem sem sofrimento e sem alguma dose de melancolia e solitude, sem espessura e densidade. Ao priorizar os planos longos e os tempos lentos, a montagem ressalta esse aspecto e produz, então, algo como um adensamento. Entre a rarefação e o adensamento, o gesto de montagem é, repetimos, modesto, no sentido de que se produz a partir de três recusas: evita-se, em primeiro lugar, um acirramento formal (a forma do filme não é exatamente “problemática”, nem propriamente “reflexiva”); evita-se, da mesma forma, uma operação de ficcionalização extrema (a montagem não parece se pautar por um roteiro fechado a priori); por fim,

Cada qual à sua maneira, esses filmes se abrem ao mundo vivido, porque valorizam a dimensão relacional do cinema a montagem não é marcadamente crítica (o filme evita o julgamento, não endereça ao mundo vivido – às situações ou estruturas sociais – um olhar crítico, ou, ao menos, um olhar explicitamente crítico). Trata-se antes de acompanhar os personagens, compondo uma rede de situações cotidianas, que, proposta ao espectador, o faz hesitar. No domínio do documentário e, portanto, em chave diversa, Pacific, de Marcelo Pedroso, mantém essa perspectiva de uma montagem imanente, também caracterizada por um trabalho discreto, que se constitui principalmente pela duração das sequências e por uma ligação reticular entre elas. O diretor pede aos turistas as imagens captadas por eles em um cruzeiro do Recife a Fernando de Noronha. Vários cederam as imagens, permitindo assim uma investigação em torno do universo da classe média, em suas planejadas e parceladas férias no cruzeiro. Ao assumir a tarefa de montar imagens que não foram feitas para o filme, o diretor se coloca e nos coloca em

uma região de limiar: até onde deve ir o gesto de montagem? Agora que as imagens me foram voluntariamente cedidas, o que fazer com elas? Se o documentarista não quer aderir ao mundo do filme – que se marca por uma espécie de turismo assistido, no qual divertir-se se torna um imperativo –, o gesto crítico que o filme produz não pode, em contrapartida, surgir de um distanciamento extremo do material bruto (afinal, está-se lidando com imagens do outro, que me foram voluntariamente cedidas). Trata-se, assim, de buscar a justa distância, que não está dada, mas que é propriamente relacional e que só pode se fazer em um trabalho de ensaio e erro, em opções de montagem mais ou menos acertadas. Ao trazer a dúvida para a montagem, Pacific nos faz, também, hesitar frente a esse mundo, diante do qual nos mostrávamos tão convictos. No curso do filme, pouco a pouco, o documentário desloca a posição do espectador: aquele que vê o mundo do outro passa a ser, quem sabe, aquele que se vê vendo o mundo do outro, ou seja, aquele que põe em questão o próprio olhar. Se esses são filmes de resultados distintos, em comum, eles guardam o fato de que, cada qual à sua maneira, tornam menos fluida e “desimpedida” a passagem do mundo vivido à imagem, provocando hesitação tanto para aquele que dirige e monta o filme, quanto para aqueles que o assistem. Se é nosso destino nos tornarmos imagem, que o destino das imagens seja ganhar a espessura do vivido, suas contradições. Em contrapartida, uma questão se coloca para esses filmes. Se, por um lado, eles se criam em abertura para o mundo vivido, permeáveis a suas formas sensíveis, por outro, é preciso devolver ao mundo uma forma que não estava lá e que produza descontinuidade em relação a seus desígnios. Não conseguiria achar outro nome para essa descontinuidade: uma forma crítica. Se esse sempre foi um dilema para o cinema, ele se atualiza hoje em novos moldes, nessas obras que hesitam entre o trabalho da imanência e o gesto crítico. Novamente, a montagem é o lugar dessa hesitação.

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Rodrigo Braga

DA “DISPLICÊNCIA” NA ARTE

Rodrigo Braga é artista plástico

ivaldo bezerra/divulgação

Tempos pós-modernos em jovem milênio: das artes políticas e engajadas, dos conceitos articulados, dos mercados sedutores, das mídias ávidas, das curadorias velozes, das coerências contextuais, dos artistas ph.D., das linhagens e citações filosóficas, das carreiras programadas. Nesse contexto, ao se falar em sensibilidade criativa e uso da intuição na arte, incorrer-se-á sempre num risco. Como se quem recorresse a “métodos intuitivos” estivesse muito próximo de um misticismo ou de um romantismo piegas. Mas, há ainda espaço para um processo intuitivo na criação? Evidentemente, os vários conteúdos em diversos campos estão emaranhados. E, mortal que é, o artista está enredado nesse complexo tear que constitui a sociedade. Mas ele não é linha, é agulha. Atento e quase sempre sensível, ele ajuda a dar forma à rede, engendrando, de maneira sutil (ou mesmo direta), diversos saberes e sensibilidades. É quase impossível conceber-se, hoje, um estado de criação autônomo e intrínseco apenas ao seu próprio fazer estético e aos cânones específicos das artes, sem levar em conta um pensamento que articule um pouco de tudo: política, ciência, mercado, religião, ética, enfim. Contudo, ao artista não cabe afirmar nem produzir narrativas lineares, tampouco conduzir defesas de posturas, mesmo éticas. Cabe o devir de um processo inconcluso, estar em dúvida e propor a indagação, ser amigo da entropia, acender uma brasa em que arda a superfície do outro. Nesse sentido, há um valor especial na displicência, na necessária ignorância que encoraja e dá sentido à arte. E a flutuação entre estar elucubrativo e assumir certo devaneio, entre um estado de atenção e uma quase negligência, pode ser a força dessa trama que é inerente a quem cria. Ter a percepção aguçada e dar vazão a conexões insólitas, valendo-se de processos mentais e sensoriais, é fundamental para a geração de novas práticas. O artista na contemporaneidade faz arte enquanto vive seu cotidiano, pois está imerso numa espécie de estado de “alerta criativo”, uma maneira de raciocinar que o permita “ter ideias” a qualquer momento, não necessariamente tendo que parar no tempo e espaço de seu ateliê. Longe de conexões diretas com o divino, esses insights (comumente e perigosamente conhecidos como “inspiração”) nada mais são do que o encontro de experiências acumuladas e de pensamentos flutuantes com a sensibilidade poética aguçada. Não é necessário ponderar nem refletir demais. Em matéria de criação, a escolha é fazer o que o desejo aponta, sem construir roteiros, sem almejar metas, sem se pautar por demandas alheias e, sobretudo, sem medir consequências, crendo na utopia da primeira vontade para onde aponta a agulha, pois liberdade para experimentar é essencial para o exercício da criatividade.

con ti nen te

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Continente #129 - Naïf  

Arte bela e simples.

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