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aos leitores

Meio século de cultura

O

dia 1º de janeiro de 1959 marca uma virada histórica para uma pequena ilha caribenha que começava a erguer o ideal socialista como modelo de construção de uma sociedade mais igualitária, derrubando o ditador Fulgencio Batista – um capataz dos Estados Unidos –, e inaugurando um outro regime ditatorial, o de Fidel Castro. Cinqüenta anos depois, Cuba permanece como um emblema, um símbolo representativo do que foram os maiores embates políticos do pósguerra no século passado. Paixões políticas à parte, procuramos mostrar, nas páginas desta Continente, como em todo esse período revolucionário Cuba gerou (e continua gerando) movimentos artístico fecundos, diversificados e de alta qualidade, produzidos tanto entre os que ficaram na ilha, quanto entre os que a abandonaram, fugindo do regime castrista. Uma apresentação das artes plásticas, música, literatura, dança e cinema cubanos fornece aos nossos leitores um painel abrangente, ainda que incompleto, do que foi a vida cultural nesse período na ilha.

Divulgação

Vista de Havana, capital de Cuba

A Trupe do Barulho estréia Apareceu a Margarida, em setembro

Na matéria especial deste mês, apresentamos uma série de enfoques a respeito das acepções que o termo "pudor" foi adquirindo durante a história. Um sociólogo, um psicanalista e um crítico de cinema analisam, a partir da perspectiva de suas áreas de conhecimento, como esse conceito sofreu variações de acordo com as épocas, as crenças e as localidades. Buscamos ainda discutir o significado do pudor e do despudor hoje, na realidade de uma sociedade de consumo em que o maior pecado pode ser simplesmente não poder ostentar bens materiais e não poder expor um corpo perfeito no verão e nas academias.

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Fotos: Reprodução

Samico e Derlon juntos

Marcelo Lyra/Divulgação

Divulgação: Marcelo Lyra

Os 80 anos de Nada de novo no front

As trincheiras da arte cubana

O Baile do Menino Deus e Galiléia

CONVERSA 4 >> Jean Galard fala dos museus do novo século BALAIO 10 >> Roman Jakobson coloca os pingos nos “is” CAPA 12 >> Arte e cultura na Revolução Cubana 14 >> Artes visuais: contemporaneidade 16 >> Cinema: do lírico ao épico 19 >> Literatura: presença forte no mundo 22 >> Música: produto de exportação 25 >> Dança: profissão respeitada MEMÓRIA 28 >> Obra de Paulo Cavalcanti é relançada pela Cepe AGENDA.COM 44 >> Bookmooch: a troca de livros na rede LITERATURA 46 >> O simbolismo peculiar de Cruz e Souza 50 >> Um libelo contra todas as guerras 54 >> Literatura e arte nas “baladas” 56 >> Agenda livros

REGISTRO 58 >> Primeiro romance de Ronaldo Correia de Brito 61 >> Os 25 anos do Baile do Menino Deus MÚSICA 66 >> A ópera contemporânea de Jocy de Oliveira 70 >> A boa música erudita do SaGRAMA 72 >> Zé Brown em novas doses de rap e repente 74 >> Agenda música ESPECIAL 76 >> Pudor, um conceito flexível 79 >> O despudor na obra de Lucien Freud 82 >> A polêmica em torno do novo filme de Bressane ARTE 88 >> O diálogo entre Gilvan Samico e Derlon Almeida CINEMA 94 >> Os produtivos 100 anos de Manoel Oliveira TRADIÇÕES 98 >> Projeto recria tradição do cavalo-marinho CRÔNICA 102 >> Rubem Braga, São João e o Recife

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www.continenteonline.com.br

DVD compila óperas de Jocy de Oliveira

A vitalidade de Manoel Oliveira

COLUNAS SABORES 32 >> Ceias da véspera de Natal e Ano-Novo MATÉRIA CORRIDA 64 >> A comparação entre auto-retratos TRADUZIR-SE 86 >> Vozes inumeráveis na pintura METRÓPOLE 104 >> A cena do brega-cult no Recife

Cuba em imagens Para marcar os 50 anos da Revolução Cubana, além do material publicado na capa desta edição, o site da revista dedicará sua enquete ao tema e abrirá um espaço para que os internautas que já visitaram a ilha enviem as suas fotos, montando assim um grande painel na rede, com visões variadas de Cuba. Para participar, é só enviar a imagem para o e-mail: eraldo@revistacontinente.com.br, com nome e cidade de residência.

e mais... Confira as programações completas do XI Virtuosi e do Projeto Conexão CavaloMarinho Escute o disco Chão batido, palco e picadeiro, do grupo SaGRAMA

ESPECIAL Assista a um trecho da ópera Kseni, de Jocy de Oliveira

Pudor, um conceito relativo

Leia um trecho da coletânea de obras de Paulo Cavalcanti, publicada pela Cepe DEZ 2008 • Continente 

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conversa

Jean Galard Divulgação

Não creio que o maior interesse do Guggenheim sejam as obras de arte e a difusão do gosto pela arte. O que eles buscam é desenvolver uma empresa. Uma empresa que não cresce, fica para trás. Eles podem ter um resultado excelente, mas eu não gostaria de fazer parte disso

Um novo museu para um novo século

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O ex-diretor cultural do Museu do Louvre, Jean Galard, fala de sua experiência à frente de instituições artísticas, critica o formato dos museus Guggenheim e reflete sobre a relação do público com a arte ENTREVISTA A Mariana Oliveira

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debate sobre o papel das instituições artísticas no mundo contemporâneo ocupou as páginas dos principais veículos de comunicação do país nos últimos dois meses, devido às polêmicas envolvendo a Bienal de São Paulo, inclusive nesta Continente. Os museus e as instituições artísticas estão mudando numa busca por mais proximidade com a sociedade e esse processo, visto e sentido com mais força no Brasil, agora, começou um pouco antes em outros países. O filósofo, ensaísta e ex-diretor cultural do Museu do Louvre, Jean Galard, atuou na instituição justamente quando se criou o Serviço Cultural. Sua função era buscar uma grande renovação na organização do museu e nas suas ações direcionadas ao público, trabalhando para que a instituição fosse freqüentada e divulgando o conhecimento das coleções e da História da Arte. Na época, cerca de 80% das visitações ao Louvre eram feitas por estrangeiros e existia um desejo de se aproximar mais da comunidade francesa. Na entrevista a seguir, Galard, que atuou também como professor de Estética do Departamento de Filosofia da USP (1968-1972), e publicou sete livros ligados ao campo cultural, entre eles A beleza do gesto (Edusp,1997) e O olhar distante (Mostra do redescobrimento, 2000) no Brasil, fala da sua experiência trabalhando em museus, dos dilemas que tais instituições estão passando no princípio deste novo século e seus novos rumos, das

ações necessárias para aproximar o universo da arte do público em geral, sem esquecer de apontar que cada vez mais o destaque fica com os eventos e não com as obras.

mesmo quando fazem uma visita rápida. O museu torna-se um lugar de passeio, o que não é negativo. Para os verdadeiros visitantes, atentos, são guardados bons momentos.

Como foi sua experiência no museu do Louvre? Eu tive uma experiência de 15 anos no Louvre, na época em que o museu passava por um processo de mudança (1987-2002), no mesmo período da construção da pirâmide. Vivi todo esse processo de mudança da museografia e museologia, da relação com o público. Existia uma proposta forte de difusão do conhecimento da História da Arte. Meu cargo era direcionado ao desenvolvimento de estratégias para o melhor conhecimento das coleções. Isso incluía a questão das políticas públicas para atrair um público que não freqüentava museus, incluindo a construção do primeiro site de um museu francês.

Existiria um modelo de museu pós-moderno? Não sei definir o que seria um museu moderno. Ele teria uma museografia menos densa do que os museus tradicionais e sua acumulação de objetos. Os museus modernos foram construídos como caixas fechadas. O museu pós-moderno seria a reação, a abertura para o exterior, no lugar da caixa fechada. Algo inesperado na arquitetura, mais complexa, ao invés do racionalismo moderno da arquitetura. Alguns voltaram a usar os edifícios históricos.

Alguns teóricos, como Douglas Crimp, crêem na “ruína dos museus” ou pelo menos num projeto moderno de museus. Qual a sua opinião? É difícil falar dos museus de forma generalizada. Alguns deles têm muito público, outros têm muito pouco. O sucesso dos museus, hoje, na verdade, significa a ruína deles, porque essas instituições são invadidas por um público com pouquíssimo interesse nas obras e nas artes. No Museu do Louvre, por exemplo, que recebe seis milhões de visitantes por ano, é possível que haja vários tipos de visita. A rápida, sem interesse, quando não há relação verdadeira entre o público e as obras. Mas há também visitantes interessados,

Os museus Guggenheim seriam o melhor reflexo desse novo formato? Não creio, por exemplo, que o maior interesse do Guggenheim seja as obras de arte e a difusão do gosto pela arte. O que eles buscam é o desenvolvimento de uma empresa. Uma empresa que não cresce é uma empresa que fica para trás. São diversos museus Guggenheim que abrem aqui, lá. Eles podem ter um resultado excelente, mas eu não gostaria de fazer parte disso. É simplesmente uma empresa que quer conquistar partes de um mercado. Usualmente, os museus da atualidade optam por uma pequena coleção permanente e pela possibilidade de realizar grandiosas exposições temporárias. Como você vê essa política? DEZ 2008 • Continente x

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Fotos:Divulgação

O sucesso dos museus, hoje, na verdade, significa a ruína deles, porque essas instituições são invadidas por um público com pouquíssimo interesse nas obras e nas artes

O Museu do Louvre já propõe um diálogo entre suas peças e obras contemporâneas

O interesse do público é mais direcionado aos eventos que as próprias obras de arte. Existe essa tendência no mundo em que vivemos. Certos museus abrem exposições temporárias como grandes eventos. As exposições temporárias se desenvolveram muito nos últimos anos. São eventos quase tão importantes quanto as bienais. Acho isso interessante, a ocasião de ver obras que estão longe, em conjunto, aproximar-se delas. Não sei se isso vai durar, pois os preços dos seguros são altos e as obras sofrem com todo esse transporte. Essas exposições garantem êxito, quando trazem obras históricas – que são muito frágeis. Eu sou de uma época em que o Louvre emprestava poucas obras para outras exposições. Tentei trazer quatro obras de Frans Post ao Brasil para a Mostra do redescobrimento. Pedi por todos os meios e foi impossível conseguir. Os curadores tinham um poder muito grande. Houve um outro diretor

que me disse: "Um dia um avião vai cair com as obras dentro". Hoje, o Louvre empresta muito mais. Mas estamos em outra época, hoje existe uma preocupação com a economia da cultura, recursos complementares, e assim o Louvre chegou ao ponto de emprestar obras por mais de um ano. Com essas ausências, os visitantes do Louvre deixam de encontrar obras específicas que deveriam estar ali. Isso já acontece e deve acontecer em maior escala. Nos dias atuais, é diplomática e economicamente importante emprestar, ou melhor, alugar essas obras. O público de um museu histórico como o Louvre é igual ao público de um museu pós-moderno como o Centro Georges Pompidou, ambos em Paris? São públicos diferentes. O Pompidou recebe visitantes que, acredito, são bem diferentes do público majoritário do Louvre. Na minha época, fizemos o possível para evitar

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Guggenheim de Bilbao: arquitetura imponente para atrair o público

essa oposição entre os dois museu e entre as formas de arte apresentadas por eles. Produzimos muitas cartilhas que aproximavam as obras do Louvre a obras de arte contemporânea. Convidamos artistas para falar dessas influências. Era uma logística complicada, mas funcionava. Hoje, há uma curadora que trabalha com arte contemporânea no Louvre. Há arte contemporânea no museu, um pouco nas salas de pintura, muito nas de escultura e de arqueologia, mas sempre fazendo esse diálogo. Como você avalia a relação do público com a arte contemporânea? Há vários tipos de arte contemporânea. Há obras difíceis, provocadoras, feitas para não serem entendidas. Isso pode ser respeitável e interessante, mas não pode ser assim, já que o público reage mal. Mas existem obras contemporâneas que têm força para interessar ao público em geral. Não é possível

generalizar a reação do público com a arte contemporânea, pois há excelentes artistas com obras provocativas, de sentimento. O mais normal é ouvir artistas dizendo que a compreensão das pessoas depende apenas delas mesmas, assim a classe artística evita questionar os problemas estéticos e joga a responsabilidade totalmente para o público. Claro que muita gente visita mostras de arte contemporânea só por obrigação. Obviamente, existem reações que manifestam a falta de interesse do público. Por outro lado, é muito difícil você perceber explicitamente se a pessoa fez uma descoberta na visita. Ela pode ter passado indiferente a quase tudo, mas viu uma coisa que lhe marcou. Há os informados e os desinformados. A arte contemporânea encontrou público. As relações entre centro e periferia continuam válidas, hoje, no universo da arte?

Cada vez menos. Está mudando cada vez mais rápido. Na França, um país que seria "central", por exemplo, a arte contemporânea não era tão forte até bem pouco tempo. Os países chamados de periferia, como México, Colômbia, Brasil, hoje estão em destaque. O caso do Brasil é particular. A Bienal de São Paulo é um ponto de interesse mundial. O país tem muitos artistas que não apareceram nos livros do panorama da arte no século 20, mas que agora começam a ganhar visibilidade mundial. Isso aponta uma centralidade que aparece graças aos meios de comunicação, da internet que te dá a possibilidade de conhecer artistas antes ocultados. Entre os artistas brasileiros desta nova cena, quem você destacaria? Cada vez que eu venho ao Brasil sempre me fazem essa pergunta e eu tenho que citar um nome. Eu gosto muito de Tunga. DEZ 2008 • Continente x

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Uma publicação da Companhia Editora de Pernambuco – CEPE Governador do Estado de Pernambuco Eduardo Henrique Accioly Campos Secretário da Casa Civil Luiz Ricardo Leite de Castro Leitão

Dezembro 2008 – Ano 8 Capa: Fidel fala ao povo cubano, 1º de Janeiro. Foto: Reprodução

Presidente Leda Alves Diretor de Produção e Edição Ricardo Melo Diretor Administrativo e Financeiro Bráulio Mendonça Meneses Conselho Editorial Mário Hélio (presidente) Cristhiane Cordeiro José Luiz Mota Menezes Luís Reis Luzilá Gonçalves Superintendente de Produção

Marco Polo

ÂNGELO MONTEIRO Poeta e professor de filosofia. ANTONIO RICARDO RODRIGUES DA SILVA Psicanalista. ARTUR A. DE ATAÍDE Poeta e crítico de literatura.

Superintendente de Criação

Luiz Arrais

Eduardo Cesar Maia, Mariana Oliveira (redação) Thiago Lins (assistente de redação) Maria Helena Pôrto (revisão) Diogo Guedes, Gabriela Lobo, Lucas Paes e Yuri Bruscky (estagiários) Elisabeth Cristina de Oliveira (apoio) Supervisão de Diagramação e Ilustração Joselma Firmino de Souza Arte Nélio Chiappetta (tratamento de imagem) Vivian Pires (paginação) Zenival (ilustrações) Departamento de Produção Gráfica Júlio Gonçalves

CARLOS EDUARDO AMARAL Jornalista e crítico de música. CHRISTIANNE GALDINO Jornalista e crítica de dança. CRISTIANA TEJO Diretora e curadora do Mamam. CRISTIANO RAMOS Jornalista e apresentador do Opinião Pernambuco. DIANA MOURA Jornalista. JONATAS FERREIRA Sociólogo. JOSÉ TELES Jornalista.

Supervisão de Impressão Eliseu Souza Setor de Pré-Impressão Roberto Bandeira

Colaboradores desta edição:

Setor de Acabamento Sóstenes Fernandes

KLÉBER MENDONÇA FILHO Crítico de cinema.

Superintendente de Negócios Armando Lemos

LIANA GESTEIRA Jornalista e coordenadora do projeto Recordança.

Departamento de Marketing Alexandre Monteiro

LUIS BENÍTEZ Poeta e crítico cultural argentino.

Publicidade Rosana Galvão

MARCELO COSTA Jornalista e crítico de cinema.

Contatos com a Redação 3183.2780; fax: 3183.7783; redacao@revistacontinente.com.br

RODRIGO DOURADO Jornalista.

Edição eletrônica www.continenteonline.com.br

THIAGO SOARES Jornalista.

Atendimento ao Assinante 08000 81 1201/3183.2750; fax: 3183.2750; assinaturas@revistacontinente.com.br

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Todos os direitos reservados. Copyright © 2000 Companhia Editora de Pernambuco ISSN 1518-5095 Os textos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da revista.

COMPANHIA EDITORA DE PERNAMBUCO – CEPE Rua Coelho Leite, 530 – Santo Amaro – Recife/PE – CEP: 50100–140 de 2ª a 6ª das 8h às 17h30 – Fone: 0800 81 1201 – Ligação gratuita

FERREIRA GULLAR Poeta, crítico de arte e escritor. JOSÉ CLÁUDIO Pintor. MARCELLA SAMPAIO Jornalista, mestra em Teoria da Literatura e professora universitária. MARIA LECTICIA MONTEIRO CAVALCANTI Professora.

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cartas

Arquivo CEPE

Continente: Rua Coelho Leite, 530 - Santo Amaro, Recife-PE - CEP 50100-140 Fone/fax: 81 3217-2533 – 81 3222-4130 Redação: redacao@revistacontinente.com.br

ATÉ FRANCISCO JOSÉ Quando li a matéria a respeito dos boatos que circulam na internet, com textos, muitas vezes melosos e patéticos, atribuídos a grandes escritores de maneira equivocada, lembrei-me de que, na entrega do prêmio Talentos da Maturidade, do Banco Real, o apresentador da noite, o famoso jornalista Francisco José, cometeu gafe semelhante: citou um verso que poderia ter sido escrito por um adolescente besta, apaixonado e o atribuiu a ninguém menos do que William Shakespeare. A platéia aplaudiu entusiasmada... Antônio P. Lins, Recife–PE

QUE GERAÇÃO É ESSA? A idéia de geração em poesia e literatura está ligada ao compartilhamento de certos princípios estéticos e a uma intensa discussão e debate entre os escritores que fazem parte desse determinado momento. Essa arquifamosa "Geração de 65" me parece, na verdade, um grandioso balaio de gatos... Aluízio Silva, Pesqueira–PE

RECONHECIMENTO Aqui é Edson Penha, compositor, vocalista e produtor do grupo Nhambuzim. Escrevo para agradecer a excelente crítica que vocês fizeram sobre nosso CD Rosário. Desde que começamos a trabalhar neste projeto, sonhávamos com esse tipo de reconhecimento; estamos mais que satisfeitos com suas palavras. Obrigado por nos fazer crer que nossos esforços não foram em vão e que a caminhada valeu a pena. Em contínua travessia. Edson Penha, Nhambuzim–SP

BELA ENTREVISTA Parabéns pela conversa com o jovem escritor pernambucano Marcelino Freire. Forte e bastante interessante. Ana Cristina Fortes, Recife–PE

NOTA DA REDAÇÃO Devido a problemas técnicos, a crônica Sentimento do Recife, de Jorge Abrantes (p.94/95), e a assinatura de Marcella Sampaio (p. 96), coluna Metrópole, saíram com caracteres truncados.

A crítica e historiadora Aracy Amaral

Não vejo a relação entre jovens artistas brasileiros e latino-americanos, digo, de outros países da América Latina e do nosso país. Há, de nossa parte, assim como da parte deles, uma espécie de complexo colonial. Ou seja: é preferível e desejável se articular antes com a metrópole, ou com os centros hegemônicos da arte (Nova York, Londres, Paris, Berlim ou outras cidades desses países) do que entre os centros dos países do nosso continente. E sempre percebi que, apesar da ignorância mútua, os artistas daqui são indiferentes ao que se passa e aos nomes de artistas de outros países, mas há uma grande curiosidade lá fora pelo que ocorre no nosso país. Isso é um fato. Porém, pergunto-me: por que os museus daqui não abrem mais espaço a artistas de países do continente? Amaral, Aracy Amaral

em entrevista a Mariana Oliveira

Revista nº 78 Junho/07 Matéria: “A ênfase em 'artistas jovens' está excessiva” DEZ 2008 • Continente 

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Os pingos nos “is”

Dando uma de Bush

O lingüista estruturalista Roman Jakobson (1896-1982), acusado junto com os formalistas russos de ignorar as dimensões sociais e históricas da arte, defendeu-se dizendo que “o que estivemos tentando mostrar é que a arte é parte integral da estrutura social, um componente que interage com todos os demais e é em si próprio mutável, já que o domínio da arte e de sua relação com os outros constituintes da estrutura social estão em constante fluxo dialético. O que defendemos não é a separação da arte, mas a autonomia da função estética.” (Marco Polo)

O democrata Bill Clinton, que governou os EUA entre 1993 e 2001, era um presidente cool: tocava sax, admitiu abertamente ter fumado maconha etc. É ele que aparece na abertura do filme-show Shine a light, que Martin Scorcese fez com os Rolling Stones. Na película, o expresidente apresenta a sua família, com sogra e tudo, à banda. Caretice que Keith Richards, o stone mais espirituoso, não deixou passar, comentando: – Ei Bill, você tá dando uma de Bush. (TL)

A sobra e a prova

Urina, vômito e heroína

Durante a primeira turnê inglesa dos Ramones, em 1976, o finado baixista dos Sex Pistols, Sid Vicious (1957 – 79), seguia seu ídolo, o também baixista (e finado) Dee Dee Ramone (1952 – 2002), por todo lugar. Sid conseguiu falar com Dee Dee depois de um show, e logo perguntou algo como “O que você tem aí?”, ao que o segundo sacou um punhado de anfetamina. O Sex Pistol não teve dúvida: pôs tudo numa seringa, que em seguida usou para puxar o vômito e a urina despejados numa latrina. A vitamina indigesta foi direto para a sua veia. (TL)

DESAFORISMOS

O americano Ambrose Bierce (1842 – ?), cuja última ironia foi dar a si o mesmo destino de seus personagens – o cínico autor do Dicionário do Diabo desapareceu sem deixar vestígios no deserto do México – tinha o costume de escrever com uma caixa de cinzas e uma caveira em cima de seu birô. A primeira, dizia, era o que tinha sobrado de seu único amigo. Já a segunda, a prova de que tinha derrotado seu maior inimigo. (Thiago Lins)

"A democracia é a arte de governar o circo a partir da jaula do macaco." Henry Mencken

Cala-te, boca

Paulo Francis era um, mas não o único, que insistia em lembrar que bons atores, diretores e produtores deviam atuar e fazer bons filmes, e nunca dar entrevistas. O besteirol saído de bocas famosas já tem coletâneas de sucesso, lá fora. A seguir, exemplos que dão uma idéia das batatadas desse povo que vive em volta das câmeras: “Da próxima vez que eu mandar um idiota fazer alguma coisa, vou eu mesmo!”, Michael Curtiz, diretor de Casablanca; “Deveriam examinar a cabeça de alguém que procura um psiquiatra”, Samuel Goldwyn, um dos maiorais de Hollywood; “Não é preciso inteligência para ser ator”, Jodie Foster, atriz de Taxi driver e O silêncio dos inocentes; e para concluir, uma de Robert Duvall, ator em O poderoso chefão e Apocalypse Now, e também respeitado diretor: “Os franceses não passam de alemães com estilo.” (Fred Navarro)

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Velocidade A internet, em apenas cinco anos (1995-2000), tornou-se uma mídia globalizada. Hoje, cybercafés podem ser encontrados tanto em Manhattan quanto num vilarejo perdido do Marrocos, do Sri Lanka ou de Goiás. A Associação Nacional de Radiodifusão, nos Estados Unidos, pesquisou quanto tempo levaram rádio e televisão para conseguir a mesma façanha. Resposta: o rádio, 38 anos; a tevê, 13 anos. Qual será a próxima novidade? (FN)

Arte-educação Mais uma vez Pernambuco se destaca em nível nacional. Três educadores acabam de ser agraciados com o prêmio de R$ 10 mil reais do programa Rumos Educação, Cultura e Arte, do Itaú Cultural. Um dos vencedores é Edson de Oliveira, do Grupo de Apoio aos Meninos de Rua, uma organização que trabalha com menores de Gravatá, utilizando a arte. Outro contemplado é Wagner Porto, que promove ações de valorização dos saberes tradicionais na comunidade quilombola do Timbó, em Garanhuns. Já Joana D´Arc Lima recebeu o prêmio pelo seu projeto de aproximação de públicos não habituais, no Instituto Ricardo Brennand, em Recife. Dos 429 inscritos, apenas 12 foram escolhidos. Terão seus trabalhos difundidos e podem ainda ser escolhidos para visitar organizações internacionais do setor. (Chris Galdino)

Inédita dos Beatles Ex-beatle mais bem-sucedido na carreira solo, Paul McCartney tem chamado bastante a atenção por suas recentes declarações. Além de ter confessado que adoraria gravar um disco com Bob Dylan, ele falou pela primeira vez, publicamente, de uma canção inédita do quarteto londrino, Carnival of Light. Segundo Paul, a música – uma improvisação de 14 minutos feita 40 anos atrás e influenciada por John Cage e Karlheinz Stockhausen – só não chegou até hoje às mãos do público pelo veto de Ringo Starr, Yoko Ono e da viúva de George Harrison, Olivia. O motivo? Os três, mesmo depois de toda experimentação feita no mundo da música até hoje, considerariam Carnival of Light muito de “vanguarda”. Se ela for tão inovadora assim – e pode apostar que não é para tanto –, existe então mais um motivo para mostrá-la. (Diogo Guedes)

“A substância do homem não é outra coisa senão o perigo: caminha sempre entre precipícios e, queira ou não, tem que guardar o equilíbrio.” José Ortega y Gasset (1883-1955), filósofo espanhol.

Que disco marcou sua vida? “Dois discos marcaram minha vida. O primeiro foi São João no Araripe, de Gonzagão. Na época, eu morava em Carpina, ainda era criança. Minha mãe, que era professora de acordeom, sempre botava esse disco para rodar. São João foi decisivo na minha opção pela música – antes, eu era pedagogo. Gonzagão tem facetas que as pessoas desconhecem. Em São João, o acordeom dialoga com guitarra e cavaquinho. Isso sem falar no seu lado tropicalista, em obras como Canaã e Xenhenhém. O segundo disco foi o Álbum branco, dos Beatles. Eu já era adolescente, tinha chegado ao Recife. Esse disco me pegou pela diversidade, algo como Frank Zappa fazia: o cara podia tocar numa noite com uma sinfônica e noutra noite com sintetizadores. E o Álbum branco é um disco com pegada rock, algo bem diferente desse rock com cara de Mcdonald´s que, se faz hoje em dia.” Silvério Pessoa, músico. DEZ 2008 • Continente x 11

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RETRANCA

Cuba Lemus fuemqua mponsum nitanti mprortem, quam etius, nest L. Um unt furae qua publique popubliis, tastra remnihppp, con vis, forum hac tiusatum re con se tuTT diis, nontidem publicostica que sugere Fulano Silva

Cultura de r

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o dia 1º de janeiro de 1959 um grupo de barbudos entrou em Havana para tomar o poder. Começava ali a Revolução Cubana. Os rebeldes do Movimento 26 de Julho, comandados por Fidel Castro, iniciariam uma série de reformas de cunho socialista na pequena ilha, até então considerada o quintal dos Estados Unidos, a mais poderosa nação capitalista do mundo. Após atravessar várias crises, tentativas de invasão e um implacável bloqueio econômico patrocinado pelo vizinho inimigo, Cuba ainda sobreviveu ao desmantelamento da União Soviética, sua principal fonte de apoio. Às vésperas de completar 50 anos, a experiência socialista com tempero tropical enfrenta graves problemas econômicos que começam a minar até os tão festejados indicadores de saúde e educação. No plano externo, as denúncias de violação dos direitos humanos dificultam a ampliação das bases de solidariedade. Resistentes à toda sorte de problemas, inclusive furacões, os cubanos acompanham o lento processo do afastamento de Fidel. Enquanto espera, Cuba continua resistindo nas trincheiras da cultura: exportando ritmos musicais, produzindo um cinema de alta qualidade, reforçando sua importância nas artes visuais e na dança, além de reacomnes horem nincla mora vehebus firmar o vigor de sua literatura. É desse caldoorissecultural, resultado da produção das fui pectorum diem imis patum nator acertea sul con vid int,nas unulocu últimas cinco décadas, que iremos tratar próximas páginas.

E

D e m sulervi vaturnum u s et, tarterum tus hosulatus, pubitrei probuncum, quium coentiam pri sus cultus, quam populem hori silius, silia verdin signarem vagiti sedes intiquid imulocaedem arit, es es sent, manum

liamquitanum lintem perum paribut elles! Sim internum quem teatum mentemquit.Cupicavolto.

e resistência Imagens: Reprodução

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ARTES VISUAIS

Traduzir em arte o que é Cuba e o que é o mundo Artistas cubanos integrados aos paradigmas contemporâneos Cristiana Tejo

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PATRIMÔNIO

Arquitetura cubana preserva tesouros Palacetes e igrejas com fachadas em estilo prébarroco, barroco, neoclássico, art nouveau e art decó formam boa parte da arquitetura cubana, compondo o maior conjunto de prédios coloniais preservados em toda América. Com o advento da Revolução, houve um incremento na construção de moradias populares e também em novos prédios. Entre eles, destacamse os trabalhos do arquiteto Walter Anthony Betancourt Fernández, americano radicado em Cuba desde 1961, que, com criatividade, reinterpretou os elementos tradicionais da arquitetura cubana, como pátios interiores e relação com a paisagem em torno. Entre suas construções mais conhecidas estão a cafeteria Las Pirâmides, em Santiago de Cuba, e o Centro Cultural Félix Varona Sicília, na província de Holguín.

uba exerce um fascínio praticamente irremediável sobre os latino-americanos. Foi a consolidação de um sonho de revolução que guiou gerações e hoje se configura num lugar fetiche para os que conhecem minimamente a história do século 20. Mas o que exatamente Cuba representa para as artes visuais? Quais ressonâncias podemos encontrar no campo da arte do legado de 50 anos da Revolução Cubana? Diferentemente do que se pode esperar de uma produção maturada em meio ao endurecimento de um regime ditatorial e do empobrecimento das condições de vida na ilha, a arte cubana de qualidade exala criticismo, sem resvalar para o panfletário ou mesmo exotismo, e exerce uma grande influência na arte contemporânea produzida na América Latina. Em Cuba ocorre uma das mais importantes bienais de arte do mundo e de lá partiram críticos influentes, como Gerardo Mosquera. Nascida em 1984, a Bienal de Havana contribuiu para ampliar a visibilidade dos artistas residentes no país e produzir uma contextualização para eles. Contribuiu ainda à qualificação do debate em torno da condição híbrida de tal região, com os seminários teóricos que acompanham o evento. A partir de sua segunda edição, o escopo geográfico foi ampliado para o então Terceiro Mundo (América Latina, Caribe, Ásia, África e Oriente Médio).

Respondendo ao novo panorama geopolítico, que torna o conceito Terceiro Mundo obsoleto e joga novas luzes à questão do globalismo, a próxima Bienal de Havana, em 2009, trará artistas que residem lá e de outros países, alinhavando a produção por conta da confluência de questões e não por sua origem territorial. Mosquera relata, a respeito da produção cubana pós-Revolução, que não houve qualquer coerção do Estado para dirigir os rumos da arte, como aconteceu na Europa do Leste e na Ásia. Pelo contrário, o novo regime apoiou a criação de espaços de arte e de programas de fomento à criação artística. Mas o país foi se ressentindo com a evasão de cabeças pensantes que buscavam outras condições de vida. Essa situação propiciou dois tipos de produção: a dos que permaneceram na ilha e a dos que imigraram. Os que ficaram, a despeito de todas as complicações trazidas pelo embargo internacional a Cuba, ganha-

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Ana Mendieta em performance, fazendo relações entre feminismo e deslocamento cultural

ram projeção internacional a partir da plataforma teórica da Bienal. Todos os grandes nomes da arte cubana atual, como Los Carpinteros, Kcho, Carlos Garaicoa, têm residência em Havana e em países europeus ou nos Estados Unidos. São artistas que transitam por realidades distintas e se alimentam dessas circunstâncias. Conseguem traduzir esse estado complexo das coisas em trabalhos emprenhados de seu lugar, sem carregar qualquer literalidade e que comunicam universalmente. Suas obras apontam ainda para uma nova articulação potente entre a política e a sutileza poética, reconfigurando os códigos artísticos de forma condizente com a paisagem econômica atual. Carlos Garaicoa encontra na arquitetura o terreno da articulação de suas indagações a respeito da ruína das utopias do século 20 e da falência do pensamento moderno encarnada na incompletude de projetos habitacionais e mesmo no abandono do casario

histórico de Havana. Seus comentários não se endereçam apenas à situação cubana, mas à decrepitude dos centros urbanos que são largados por conta da redistribuição territorial causada pela dinâmica econômica. Garaicoa materializa suas reflexões em instalações, vídeos, fotografias, livros pop-ups e objetos que reproduzem e ficcionalizam futuros possíveis. A precisão e a sofisticação com as quais o artista constrói seus trabalhos se contrapõem à precariedade de materiais e de condições encontradas em sua terra de origem. O grupo Los Carpinteros, formado por Alexandre Arrechea, Marco Castillo e Dagoberto Rodriguez, surgiu no início dos anos 90, justamente numa espécie de período de virada da arte cubana. Em entrevista para Rosa Lowinger, da Sculptur Magazine, os artistas relatam que são de uma geração de estudantes de arte que teve que erguer uma situação propícia para continuar produzindo, já que praticamente todos os principais artistas haviam emigrado. Los Carpinteros queria fugir de uma tendência comum, na época, de abordar problemas sócio-culturais de forma muito direta. Assumir uma estratégia de trabalhar sob uma posição mais sutil também foi o caminho encontrado por eles. O nome do grupo e o aparente conservadorismo de seu trabalho também foram subterfúgios para despistar o controle e a vigilância do governo cubano. Ao se direcionar para a manualidade e a manufatura, Arrechea, Castillho e Rodriguez adicionavam camadas de artesania por sobre um olhar crítico a respeito da sociedade cubana. A emergência de Los Carpinteros e de Carlos Garaicoa é um contraponto ao tom esquerdista e engajado da produção dos anos 80. Não podemos omitir a produção feita fora do território cubano, pois seria como se ignorássemos a outra face de uma moeda. Levar em consideração a arte feita por artistas nascidos em Cuba no exílio forçado ou voluntário é constatar as conseqüências da Revolução Cubana e ao mesmo tempo

IMAGEM

O fotógrafo que criou um ícone mundial O fotógrafo Alberto Diaz Gutiérrez, mais conhecido como Alberto Korda, nasceu em Havana, em 14 de setembro de 1928 e morreu em Paris, em 25 de maio de 2001. Ficou mundialmente conhecido ao fazer uma foto de Che Guevara, que se tornou um dos maiores ícones do século 20. Nela, com sua boina estrelada, o argentino parece olhar o infinito, numa expressão ao mesmo tempo doce e impenetrável, à qual cabe com perfeição como legenda o lema do guerrilheiro que lutou ao lado de Fidel: “Há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais”. O fotógrafo cubano nunca recebeu qualquer tipo de remuneração pela imagem, tampouco se esforçou em receber. Dizia que sua maior recompensa era que a foto propagasse pelo mundo os ideais revolucionários do Che. DEZ 2008 • Continente x

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QUADRINHOS

Obra que a ditadura argentina quis apagar Para além de suas inúmeras qualidades, esta biografia em quadrinhos ligou a tragédia de Che a um tipo diferente de mártir: o escritor Héctor Germán Oesterheld, que foi preso em 1977 e “desaparecido” pela sangrenta ditadura na Argentina. Implacáveis, os militares ainda perseguiriam seus familiares e suas obras – reza a lenda que o desenhista Alberto Breccia teria enterrado as páginas de Che para que a obra chegasse até nós. Publicada em 1968, três meses depois da morte de Guevara, o trabalho tem como trunfo as palavras certeiras e o belíssimo trabalho dos artistas Alberto e Enrique Breccia (pai e filho, respectivamente). O roteiro exige que o leitor procure se informar mais sobre o biografado; a arte oscila entre o realismo quase fotográfico e contrastes de preto e branco.

questionar o que define a arte desta ilha. Apesar de Ana Mendieta (1949 - 1985) ter deixado Cuba aos 12 anos, devido à oposição de seus pais ao governo de Fidel, e ter passado o resto de sua vida nos Estados Unidos, seu trabalho carregou sempre a marca do questionamento identitário, seja no que concerne à cultura ou ao gênero. Quando ela emergiu no cenário artístico norte-americano, marcado pela discussão do feminismo e da body art, Mendieta conciliou essas questões com sua experiência de deslocamento cultural, produzindo trabalhos em que o corpo feminino é religado à natureza. Rituais pré-colombianos de exaltação do ambiente natural são ressignificados em performances em que a artista deixava marcada sua silhueta na terra, por meio do fogo, da água e da retirada de terra. Em outros momentos, Ana Mendieta camuflava seu corpo nu em troncos de árvores. Felix Gonzalez-Torres (1957- 1996) teve ainda menos contato com as suas origens, pois deixou o país logo após a Revolução, sendo criado em Porto Rico. Seu trabalho desvia o caminho da arte minimalista e conceitual ao travar um embate poético entre a esfera pública e a privada. Não se sabe até que ponto essa experiência do exílio influenciou na sua maneira transgressora e sutil de tratar de aspectos de sua vida, em especial seus últimos anos de vida, em que passou a conviver com o vírus HIV. Seu trabalho Sem título (da série Placebo) consistia em instalação formada por um volume imenso de balas de papel prateado que totalizava o peso dele e de seu companheiro que faleceu seis anos antes do artista. Os visitantes podiam levar uma bala, contribuindo para o desaparecimento metafórico do corpo dele. Talvez o que o trabalho de Gonzalez-Torres ofereça para o âmbito de nossa conversa seja justamente o extravio de trajetória, a quebra de expectativa do que seria uma produção típica cubana e o que seria um trabalho que apreende contemporaneamente o político.

CINEMA

Um cinema que mescla revolução e emoções Cinematografia cubana vai do filme épico ao mais intimista Thiago Soares

A

certa altura do filme Memórias do subdesenvolvimento (1968), de Tomás Gutiérrez Alea, o personagem principal, um homem vivendo solitário a pósRevolução Cubana, atesta: “Não saber o que fazer com o passado e não acumular experiências parecem ser a medida dos subdesenvolvidos”. O texto ilustra um dos muitos momentos reflexivos deste homem que, como uma ilha, se vê longe da mulher, dos amigos e da família – todos emigrados para os Estados Unidos. Metáfora do isolamento cubano, condição de quem se engaja num projeto revolucionário, esvaziamento dos laços sociais em prol de um futuro incerto, o homem-personagem principal de Memórias do subdesenvolvimento parece ser a síntese do que foi a construção coletiva do sonho revolucionário. Está em Memórias do subdesenvolvimento um dos momentos mais emblemáticos do que foi a relação do cinema cubano com a revolução. A obra é um documentário que ultrapassa os limites do gênero e se assume ficcional na criação de um personagem, de nome Sérgio, que olha Havana do alto de seu apartamento, de binóculo, sendo profundamente crítico com o que vê e sente dos rumos revolucionários. “O personagem tem uma visão ‘de cima’, de longe, para poder criar, no espectador, um senso de distanciamento da realidade”, observa o docu-

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mentarista Eduardo Coutinho, num comentário sobre o filme. O fato é que Memórias do subdesenvolvimento parece encenar aquilo que foi mais profícuo na produção do cinema cubano: o sentimento e a política. Neste sentido, traçar contornos estéticos e temáticos sobre a cinematografia cubana soa extremamente desafiador. Como qualquer produção cinematográfica de um país, a profusão de gêneros, diretores, formatos e filiações poéticas servem muito mais como medida de dispersão que de aproximação. Por isso, o que faremos neste breve panorama sobre o cinema cubano é apontar momentos, obras e cineastas que trazem elementos que aproximam política e melodrama, inquietação e melancolia, engajamento e dispersão afetiva – dispositivos que formam a matriz do que se pode pensar da relação entre o cinema e a Revolução Cubana. Por isso, mais do que “retratar” a revolução, o cinema cubano parece trazer à tona a idéia de que estamos diante de obras que comentam os acontecimentos. Comentários que podem ser cômicos (como no filme A morte de um burocrata, também de Tomás Gutierrez Alea), críticos (Lúcia, de Humberto Solás) ou sentimentais (Memórias do subdesenvolvimento).

Damos destaque ao cinema cubano como extensão do chamado Nuevo Cine Latinoamericano, que engloba experiências na Argentina (via os Fotodocumentários, de Fernando Birri), Brasil (o Cinema Popular, de Nelson Pereira dos Santos, e o Cinema Novo, de Glauber Rocha) e em Cuba (o Cinema Urgente, de Santiago Alvarez, o Terceiro Cinema, de Fernando Solanas e o Cinema Imperfeito, de Julio García Espinosa), entre outros. Vale a pena destacar que, como atesta Michael Chanan, no livro The cuban image: Cinema and cultural politics in Cuba, há uma profunda aproximação do senso ideológico revolucionário cubano com a política cultural da ilha. O autor ressalta que foi a vocação revolucionária o principal motor para a criação de entidades como o Instituto Cubano del Arte y Industria Cinematográficos (Icaic), o Grupo de Experimentación Sonora e a Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de Los Baños (EICTV), esta última, destino de inúmeros jovens novos cineastas latino-americanos. A história da cinematografia cubana apresenta traços semelhantes ao que aconteceu na Rússia pós-Revolução de 1917, em que o cinema funcionou como engrenagem de propaganda política e

Cena do emblemático filme cubano Memórias do subdesenvolvimento

LANÇAMENTO

Che Guevara em filme com quatro horas O projeto ambicioso de Soderbergh, cuja versão completa tem mais de 4 horas de duração, foi estrategicamente dividido em duas partes: The Argentine e Guerilla. Por conta da duração, o filme teve dificuldades para encontrar distribuidor, até porque, nos EUA, a figura de Che não é admirada pela maioria. A premiére mundial do filme foi em Cannes, onde a crítica internacional destacou a interpretação intensa do porto-riquenho Benicio Del Toro (foto), que lhe rendeu inclusive uma Palma de Ouro de melhor ator. Para os brasileiros, uma curiosidade a mais é a participação de Rodrigo Santoro como Raul Castro. A estréia do filme no Brasil deve ficar para o ano que vem, com a primeira parte (Che) estreando no dia 20 de fevereiro e a segunda (CheGuerilha) em maio. DEZ 2008 • Continente x

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Tomás Gutiérrez Alea, um dos mais importantes cineastas cubanos

REPORTAGEM

Fatos históricos em seis documentários Para marcar esta efeméride, a Europa Filmes lança no mercado uma série de seis DVDs que podem suprir a curiosidade sobre alguns fatos históricos da ilha revolucionária. Com direção do italiano Gianni Miná, os documentários utilizam entrevistas e imagens de várias épocas, em estilo próximo do televisivo e às vezes certas declarações e imagens são usadas em mais de um deles. Outra crítica que se pode fazer é a de que os documentários se prendem demais à visão oficial (a voz do povo raramente é ouvida, o que talvez tenha ocorrido por restrições governamentais). É de toda maneira uma boa fonte de informação sobre os assuntos retratados. Os títulos são: Um dia com Fidel, Fidel – Revelações sobre Che, Cuba – 30 anos depois, Che – 40 anos depois, O Papa e Fidel, Marcos – Estamos aqui.

o Estado funcionava como agente financiador de experimentos estéticos, que revelaram ao mundo, por exemplo, a montagem expressiva que Sergei Eiseinstein “realizou” em O encouraçado Pontemkim, a teoria do fotograma do mesmo Eiseinstein, apresentada em clássicos como Outubro e A greve e o princípio do câmera-olho, de Dziga Vertov, em seu O homem com a câmera. A aproximação aconteceu, também, quando o diretor russo Mikhail Kalatozov dirigiu Soy Cuba, que serviu como divulgação da Revolução Cubana, e que mostra a Cuba dos tempos de Fulgencio Batista até a chegada de Fidel Castro ao poder. Logo na abertura do filme, vemos soldados americanos em bordéis cubanos dizendo: “Com dinheiro, pode-se tudo em Havana”. Não deixa de ser verdade. No entanto, o que parece premente, em Soy Cuba, é a lucidez com que as histórias vão povoando a tela, fazendo com que tenhamos um painel incompleto e, por isso, encantador dos personagens da ilha. A segunda história trata de relatar o sonho do camponês cubano e a opressão nos canaviais. Acompanhamos, em seguida, uma mobilização estudantil a favor da revolução e, por fim, vemos a transformação de um homem em guerrilheiro. Há no filme o que os marxistas poderiam chamar de um existencialismo mate-

rial, a partir da dor e da constatação diante da vida e dos rumos das forças econômicas. Um dos personagens, ao rezar para que a cana-de-açúcar cresça, pensa: “Antes, eu pensava que a coisa mais assustadora na vida seria a morte. Agora, bem sei. A coisa mais assustadora na vida é a vida”. Embebido de política e, também, de rum e latinidade, o cinema cubano também teve um toque “dos trópicos”. Em Cuba, vemos uma aproximação das temáticas políticas com uma clara vocação para o melodrama. Um dos filmes que mais encenam este tipo de aproximação é Lucía, de Humberto Solás. É de 1968 e, junto a Memórias do subdesenvolvimento, parece ser a “coroação” da chamada Era de Ouro do Cinema Cubano, que tomou os 10 primeiros anos após a revolução. Em Lucía, acompanhamos três histórias de mulheres, nos anos de 1895, 1933 e 1960, que demonstram a vocação feminina para o engajamento de emancipação política. Ao se centrar em personagens femininas, o diretor Humberto Solás acaba tocando em pontos ligados à visibilidade da mulher no cenário latino-americano. O final dos anos 60 marcou a aproximação entre os cinemas cubano e brasileiro. Amigo pessoal do diretor do Instituto Cubano del Arte y Industria Cinematográficos (Icaic), Alfredo

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Guevara, Glauber Rocha contribuiu na formação de novos profissionais de cinema na ilha entre 1971 e 1972. Tanto Guevara quanto Glauber fomentaram um debate estético sobre as matrizes do cinema latino-americano, parte desta inquietação inscrita no texto Estética da fome, do brasileiro. Após a divulgação de Estética da fome, vários cineastas e teóricos passaram a se engajar e ampliar as idéias glauberianas. O diretor cubano Julio García Espinosa dialogou com elas no texto Por un cine imperfecto, de 1969, no qual reitera a justificativa do cineasta brasileiro de que o cinema latino-americano não tinha que ser tecnicamente perfeito, uma vez que o conceito de perfeição havia sido “herdado das culturas colonizadoras”. No ano seguinte, escreveu En busca del cine perdido, desenvolvovendo suas idéias e, em seguida, saiu com a tese do Cine imperfecto, mostrando soluções práticas aos obstáculos existentes às dificuldades da produção cinematográfica em Cuba e defendendo o que chamou de “nova poética interessada”, presente, a seu ver, em Terra em transe. Na medida em que foi deixando, mais como pano de fundo, a Revolução e suas conseqüências, o cinema cubano passou a descortinar as pequenas histórias, as micronarrativas que acabam sendo simbólicas da vida política no país. Obras mais contemporâneas e realizadas entre os anos 80 e 90, como Vampiros de Havana, Hello Hemingway, Suíte Havana, Morango e chocolate, revelam o cotidiano de quem vive na ilha. Entre esses, o singelo Morango e chocolate, de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío, conta a história de uma aproximação e amizade entre um homossexual e um estudante num contexto contemporâneo. Evocando mais do que um posicionamento militante, filmes como este – e também Suíte Havana, Havana blues ou Mel para Oxum – colocam em relevo uma política do indivíduo. Saem de cena narrativas que discutem um senso de nacionalidade, para aparecer uma ressaca pós-Revolução, com o foco sobre o eu e o outro num contexto de ruínas de um sistema.

LITERATURA

Literatura da ilha tem peso forte no mundo Nas letras de língua hispânica presença cubana é substanciosa Luis Benítez

D

epois de ter dado às letras castelhanas nomes como os de José María Heredia, Cirilo Villaverde, Luis Pérez de Zambrana, Juana Borrero, José Martí, Julián del Casal, Alejo Carpentier, Nicolás Guillén, José Lezama Lima, Guillermo Cabrera Infante, Severo Sarduy, Reynaldo Arenas, Eliseo Diego e Roberto Fernández Retamar, entre outros, é hora de nos perguntarmos sobre o presente e o futuro imediato das letras cubanas, levando em conta que importantes mudanças estão acontecendo, dentro e fora da ilha. A presença das letras cubanas na literatura escrita em espanhol é inegável, do mesmo modo que sua influência no conjunto. Selecionar alguns nomes representativos é tarefa árdua, não pela dificuldade de encontrar autores, mas pela complicação de omitir outros. A contribuição cubana foi tão importante, que uma lista breve de obras e autores será sempre incompleta. Uma antologia de poesia, narrativa e romance que abarcasse os últimos 200 anos da literatura hispano-americana não poderia ser feita sem incluir aquilo que foi escrito em Cuba, e fora de Cuba também, pelos autores nascidos na ilha. É que uma das singularidades desta nação, de 11 milhões de habitantes segundo o censo realizado em 2002, é que três milhões de cubanos vivem fora de seu país; isto é, quase 25% do total.

COMANDANTE

Biografia de Fidel num livro luxuoso Luxuoso livro de capa dura, reunindo riquíssimo material fotográfico sobre Castro, desde sua infância até seus últimos anos no comando do país. Organizado por Valéria Manferto de Fabianis, o livro Fidel Castro : História e imagem do líder máximo oferece também uma sucinta biografia textual do líder cubano, redigida por Luciano Garibaldi. Da vasta iconografia, há imagens de Fidel em seu uniforme de jogador de basquete ou vestido a caráter para uma caçada, ambas aos 17 anos, ou em 1970, cortando cana-de-açúcar para dar o exemplo ao povo cubano. A publicação resgata ainda uma curiosa carta assinada em 1940, em que Fidel, com 14 anos, após travar contato com estudantes americanos, resolve escrever ao presidente Roosevelt, pedindo que lhe enviasse uma nota de 10 dólares. Edição caprichada da Escrituras. DEZ 2008 • Continente x

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SUCESSO

A Havana “suja” de Pedro Juan Gutierrez Nascido em Matanzas, em 1950, Pedro Juan Gutierrez é considerado o enfant-terrible da nova literatura cubana. Trabalha desde os 11 anos e já foi vendedor de sorvete e de jornal, soldado sapador, instrutor de natação e caiaque, cortador de cana-de-açúcar e trabalhador agrícola, técnico em construção, desenhista técnico, locutor de rádio, jornalista, pintor e escultor. É autor de vários livros de poesia e prosa. Despontou para o sucesso internacional com o livro Trilogia suja de Havana , em 1998, no qual exercita uma escrita visceral. Como, por exemplo, ao definir o sexo: “Sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, de saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmem, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea, reduz-se a uma paródia estéril do que poderia ser. Nada”.

No primeiro dia de 1959, tudo mudou para Cuba e, de certa forma, para o resto do mundo, direta ou indiretamente. Tal mudança inclui e atinge, naturalmente, a literatura castelhana. Passado quase meio século da revolução que derrocou Fulgencio Batista, Cuba é um dos poucos países regidos por um sistema “comunista” – o mais próximo hoje, ao menos, do modelo ortodoxo – que estabeleceu uma mudança de peso inegável não só no sistema de produção, nas relações políticas, econômicas, sociais e interpessoais dos cubanos, senão também na sua maneira de se expressar nas artes e nas letras. A Revolução provocou uma divisão no universo das letras cubanas: por uma parte, a literatura escrita na ilha, cujos autores conviveram e convivem com as mudanças, os retrocessos e o poder ainda vigente do regime que em nenhum momento estabeleceu a liberdade de expressão como uma norma vigente para os intelectuais e artistas locais – algo inegável inclusive para seus mais ferrenhos defensores –, senão que censurou e censura, reprimiu e reprime, enquanto que em sua face mais positiva alentou a alfabetização e facilitou os estudos superiores, a ponto tal que, dentro de parâmetros latino-americanos, a ilha exibiu um

dos melhores resultados em ambos os segmentos educacionais ao final do século 20. Por outro lado, encontramos uma literatura escrita pelos cubanos exilados, alguns dos quais obtiveram reconhecimento internacional. O triunfo da Revolução Cubana foi saudado por intelectuais de todas as latitudes, de Jean-Paul Sartre a Pablo Neruda, de Julio Cortázar até o primeiro Mario Vargas Llosa, de Gabriel García Márquez até Ernesto Cardenal, que interpretaram o fenômeno como uma esperança de mudança em direção a um mundo melhor. O estabelecimento de um bloqueio à ilha motivou uma onda de protestos que ainda segue vigente, do mesmo modo que o bloqueio, que é de natureza econômica, política e também cultural. Contudo, existe outro bloqueio, endógeno, que provém da própria ilha: seu governo restringiu o contato dos habitantes com o mundo contemporâneo, privando-os, inclusive, do uso das novas tecnologias comunicacionais: tal o caso das restrições ao emprego da internet por parte da população cubana – um instrumento hoje imprescindível para a grande parte das atividades humanas, entre elas, a cultural. A isso, somou-se o racionamento dos recursos – o que é próprio a uma

O escritor dissidente Guillermo Cabrera Infante, autor de Mea Cuba e Três tristes tigres

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situação de bloqueio –, que se exacerbou por épocas, particularmente desde que o grande aliado de Cuba, a URSS, deixou de existir. Esta economia de guerra permanente implica também em uma restrição dos recursos necessários para a impressão e distribuição de textos literários (por outra parte, dependente da aprovação do regime). Nas mãos do Estado, a indústria editorial cubana não pode lançar títulos sem o imprimatur oficial, o que fez com que autores da importância de um Reinaldo Arenas, por exemplo, chegasse a publicar apenas um livro, Celestino antes del alba, no território cubano. Mais graves, ainda, foram as restrições acompanhadas de perseguições e encarceramentos, em condições gravíssimas, de intelectuais, artistas, jornalistas e demais dissidentes, alcançando notórios picos de repressão a partir dos anos 70, quando explodiu o chamado “caso Heberto Padilla”: poeta já reconhecido que, após realizar críticas ao regime e ser encarcerado, é obrigado a se retratar num mea culpa que não convenceu ninguém. A Unión de Escritores y Artistas Cubanos (UNEAC), simpática ao regime, gritava para todos os lados cada vez que um escândalo desses transcendia os limites da ilha, mas os desmentidos oficiais não conseguiram cobrir a evidência. Nas décadas de 70 e 80, numerosos autores dissidentes foram acabar no cárcere, silenciados pelo regime. A tal ponto que a geração ficou conhecida como la generación del silencio; desencantada da Revolução, não tinha a alternativa de fazer sua crítica e muitos tiveram que escapar da ilha como puderam. Jesús Barquet, Roberto Madrigal, Rafael Bordao, Carlos Victoria, Ismael Lorenzo e Reinaldo García Ramos são alguns nomes pertencentes ao que Reinaldo Arenas definiu como uma “geração de jovens que não teve oportunidade de se expressar, que começou a criar quando a criação em si já era um ato subversivo”. Em 1980, partindo do porto de Mariel, mais de 125 mil cubanos abando-

naram seu país: uma nova onda de exilados rumo ao continente. Vários deles eram escritores, artistas e jornalistas. Muitos se integraram aos compatriotas que já estavam no exílio, fortalecendo uma literatura que hoje já tem seus nomes bem destacados. Além dos já citados Jesús Barquet, Roberto Madrigal, Rafael Bordao, Carlos Victoria, Ismael Lorenzo e Reinaldo García Ramos, outras vozes cubanas têm construído uma obra importante em poesia, narrativa, teatro, jornalismo ou ensaio, desde os anos iniciais da Revolução até a atualidade. É importante mencionar os nomes de Zoé Valdés, Evelio Taillacq, Héctor Santiago, Ismael Sambra, Andrés Rivero, Ezequiel Pérez, Luis de la Paz, William Navarrete, Rafael López Ramos, Maya Islas, Julio Hernández Miyares, Alina Galiano, Ángel Cuadra, Amelia del Castillo, Raúl de Cárdenas, Lourdes Arencibia, Nedda G. de Anhalt, Armando Álvarez Bravo, José Abreu Felippe, Rita Martin, José Nelson Castillo González, Abilio Estévez, Daína Chaviano, entre outros. Com a morte de Fidel Castro, será produzida uma nova mudança em Cuba e também em suas duas literaturas, a local e a do exílio. Caso uma decisão rumo à democracia se produza, veremos duas correntes se cruzarem e entrarem em conflito. Por um lado, intelectuais que não podiam deixar o país, provavelmente, fá-lo-ão, em busca de novos horizontes; por outro, os que não podiam voltar, regressarão. Neste caso, será gerado um conflito com aqueles que permaneceram em Cuba e têm concepções formadas a respeito das necessidades e possibilidades de sua cultura. Os que retornarem, trarão convicções próprias, diferentes e tão necessárias quanto. A literatura cubana, unificada novamente, mas com novos conflitos no seu interior, poderá ter um novo rumo, já que o cruzamento de culturas sempre resultou benéfico. Mas haverá um modelo inédito: uma literatura que se dividiu para voltar a se unir, mas não a se unificar. Uma literatura que não será unívoca, mas uma autêntica polifonia.

HEMINGWAY

Um norte-americano bem-amado em Cuba Um dos poucos norteamericanos até hoje muito querido em Cuba é o escritor Ernest Hemingway, Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Hemingway viveu 22 anos na ilha, tendo escrito lá grandes livros como O velho e o mar e Paris é uma festa, entre outros. O escritor chegou a Cuba pela primeira vez em 1928, à procura de um lugar sossegado para escrever a parte final de Adeus às armas. Dois anos depois, comprou uma chácara com casa colonial, chamada Finca La Vigia, em São Francisco de Paula, a 20 quilômetros de Havana, que em 1962 foi transformado no Museu Hemingway. No bar La Florida, o escritor norteamericano criou o “daiquiri a Ernest Hemingway” ou “daiquiri Florida”, substituindo o açúcar por mais rum, por preferir bebidas secas. DEZ 2008 • Continente x

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MÚSICA

Ritmos de Cuba são produtos de exportação O primeiro gênero cubano disseminado foi a habanera José Teles

N

CD

A velha-guarda em show antológico O recente lançamento de Buena Vista Social Club at Carnegie Hall vem coroar um projeto que conquistou sucesso mundial de público, crítica e mercado. O disco original, de 1996, vendeu mais de 8 milhões de cópias. O filme de Wim Wenders foi indicado ao Oscar e recebeu prêmios mundo afora. O estrondoso êxito do projeto do produtor cubano Juan de Marcos González, impulsionado pelo prestígio do guitarrista e co-produtor Ray Cooder, abriu caminho para a velha guarda da música cubana, como Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Ruben González (já mortos) e Omara Portuondo. Culturalmente, o evento marcou a queda do muro que havia se imposto pelos EUA a Cuba desde a Revolução, em 1959. O Buena Vista ajudou a recolocar a música da ilha no mapa mundial da indústria fonográfica.

o início dos anos 60, a cantora Célia Cruz, uma das mais populares de Cuba, adquiriu a cidadania americana, jurando que só voltaria ao seu país com a morte de Fidel Castro. Ela havia saído da ilha, em 1960, com a orquestra Sonora Matancera, na qual cantou durante 15 anos, para uma turnê no México, sem saber que nunca mais voltaria à terra natal, como também não voltariam os músicos da orquestra. Célia faleceu em 2003, de câncer, em Nova Jérsei. A cantora, nos anos 80, coroada Rainha da Salsa, foi uma entre centenas de artistas, escritores e cineastas que não concordaram com o sistema político implantado por Fidel na ilha caribenha. Uns por medo do que lhes poderia acontecer sob um regime comunista. Outros, mesmo apoiando o comunismo, por discordar dos caminhos tomados pela Revolução. A música cubana sempre foi um dos mais importantes produtos de exportação de Cuba, com influência nos Estados Unidos e na América Latina. O jazz, entre os anos 40 e 50, sentiu esta influência cubana, principalmente por percussionistas como Tito Puente, Machito e Patato. O mambo, a rumba, o bolero, por esta época, tornaram-se moda mundo afora, e fizeram escola no Brasil. O rádio pernambucano recebia constantes visitas de astros cubanos. A cantora Rayto del Sol e o maestro Perez Prado fizeram badaladas temporadas na Rádio Jornal do Commercio, no final dos anos 40, início dos 50. O cantor Bienvenido Granda foi

bastante popular no Brasil entre os anos 50 e 60, se bem que deixou Cuba bem antes da Revolução. Bievenido chegou a gravar disco na extinta gravadora pernambucana Rozenblit, que, por sua vez, foi uma das maiores divulgadoras da música cubana no Brasil, com um catálogo no qual os artistas de Cuba estavam sempre presentes. O primeiro gênero cubano disseminado além de suas fronteiras foi a habanera, que está no DNA do frevo, do choro, do maxixe, do jazz de New Orleans, e até na música erudita. Maurice Ravel tem um Vocalise-Étude en forme de Habanera, e a Havanaise for violin de Camille Saint-Saëns ainda é muito executada nos dias de hoje. Com a tomada do poder por Fidel, a música cubana foi, aos poucos, perdendo sua popularidade internacional. Em primeiro lugar, porque o regime comunista assustou muito os maiores astros da música cubana, que, como Célia Cruz, optaram pelo capitalismo

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Ao lado, Celia Cruz. Na outra página, Pablo Milanés

na vizinha Miami. O lendário Israel “Cachao” López, considerado o criador do mambo, em 1962, refugiou-se nos Estados Unidos e fez tanto sucesso que é um dos poucos latinos com direito à estrela no calçadão da fama em Holywood. Depois, porque o embargo econômico implementado pelos EUA, em 1962, à Cuba, atingiu em cheio sua produção musical. Seus ritmos, que já se tornaram parte da cultura musical americana, foram proibidos de ser importados para os Estados Unidos. Somente em 1988, uma emenda no Congresso facilitou a entrada de músicos cubanos no país, “desde que viessem em um intercâmbio cultural”. Isto permitiu que os americanos, e por tabela o resto do mundo, conhecesse mais a fundo o trabalho do pianista Jesus “Chucho” Valdez, um dos maiores nomes do mundo no seu instrumento; o grupo Los Van Van; o também, pianista Ruben Gonzáles e o trompetista Arturo Sandoval que, ajudado por

Dizzie Gillespie, pediu asilo nos EUA, e naturalizou-se norte-americano. O embargo, porém, não foi levantado, de maneira que é preciso um artifício jurídico para driblar esta lei antidemocrática e draconiana. Músicos cubanos podem lançar discos ou excursionar pelos EUA, tendo contratos com gravadoras ou produtoras de outros país (que não Cuba, naturalmente), geralmente subsidiárias de empresas dos próprios Estados Unidos. Por sua vez, a música cubana, ligada diretamente ao Estado, não consegue se livrar da contradição. Músico precisa de liberdade para criar. A repressão ao pensamento livre na ilha é um fato. Arturo Sandoval contou que desistiu de Cuba, em 1990, para ter mais liberdade de criação. Ele passou três meses e meio na cadeia. Sua culpa: escutar a Rádio Voz da América, de propaganda política norte-americana. Mas imagina-se que muitas das defecções de músicos cubanos, prin-

BOEMIA

Mojito no Bodeguita e daiquiri no Florida “Meu mojito no Bodeguita, meu daiquiri no Florida”. A frase é de Hemingway, que gostava de tomar esses drinques nos dois bares. (O mojito é feito de rum branco, suco de limão ou lima, açúcar, club soda e folhas de hortelã). La Bodeguita Del Médio e La Florida são os bares mais conhecidos da Havana Velha, o parte central da capital cubana, declarada patrimônio histórico mundial pela Unesco. No Bodeguita (Calle Empedrado, 207), são célebres os pratos crioulos, o mojito e também suas paredes cobertas pelas assinaturas de visitantes famosos como Nat King Cole, Brigitte Bardot e Errol Flynn. O La Florida (Calle Monserrate, 557, esquina com Obispo) é tido como o templo mundial do daiquiri e um dos melhores restaurantes especializados em mariscos do mundo. DEZ 2008 • Continente x

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A banda de rap Orishas é a mais famosa da ilha caribenha

CHARUTOS

Os “puros” mais famosos do mundo Os charutos cubanos, chamados de “puros” pelos nativos e de “havanas” pelos demais povos, estão entre os melhores do mundo. A primeira fábrica de charutos surgiu em Havana, capital de Cuba, em 1810, e em 1862 já havia 1302 tabacarias na ilha. Os mais famosos são o Monte Cristo, o mais vendido no mundo, e o lendário Cohiba, preferido do comandante Fidel Castro. Atualmente, a ilha já comercializa marcas mais populares como a Guantanamera. Hábito cultivado por Winston Churchill, Ernest Hemingway, Michael Jordan, Linda Evangelista, Grouxo Marx, Catarina da Rússia, Sigmund Freud, Fidel Castro, Che Guevara e Câmara Cascudo, tornou-se uma espécie de marca registrada dessas personalidades. Só o Brasil consome um milhão de charutos cubanos por ano.

cipalmente, para os Estados Unidos deva-se à questão monetária. Afinal, eles trabalham para o regime, são assalariados. Se um dos seus discos estourar no exterior, como aconteceu com a turma do Buena Vista Social Clube, os direitos autorais não ficam com os artistas, vão para o governo. Para alguns músicos que gozam de fama fora de seu país, como o citado Chucho Valdez, mais importante do que o dinheiro é permanecer em Cuba. Numa entrevista à revista Time, Valdez explicou: “Estou pesquisando as raízes africanas da música cubana, e o único jeito de fazer isto é ficando em Cuba. Meu trabalho é aqui. Os ritmos estão aqui.” Vale lembrar os exemplos de dois músicos do Buena Vista Social Club. O guitarrista e cantor Compay Segundo, muito popular em Cuba antes do regime castrista – e estrela do documentário de Wim Wenders, depois de 1959, ano em que Fidel derrubou o governo Batista –, deixou a música para trabalhar numa fábrica de charutos, enquanto o vocalista Ibrahim Ferrer ganhou a vida durante muitos anos como engraxate.

Mesmo assim, a música cubana nunca deixou de ter sua força criativa, quer no movimento Nova Trova, quer no hip hop atual. Tanto um quanto outro são favoráveis ao regime. É certo que músicos relativamente conhecidos no Brasil, a exemplo de Silvio Rodriguez e Pablo Milanés, amigos e parceiros de Chico Buarque, têm grandes canções líricas, mas a temática de sua música, principalmente nos anos 70, era política. Já os rappers, enquanto inovadores ao incorporar música cubana ao rhythm and poetry, criado pelos americanos, preferem não cantar catilinárias contra a ordem social vigente, louvam as etnias cubanas e a igualdade entre os homens. Mesmo os rappers estão atrelados ao governo, associados à Agência Cubana de Rap. Um dos mais antigos grupos de rap de Cuba, o Primeira Base, já esteve no Brasil e lançou, em São Paulo, um CD pelo selo Sambatá, Soy rapero – Hip hop Havana. Nesta área, o mais famoso nome da música cubana é a banda Orishas, sucesso no mundo inteiro. Pelo que se viu recentemente no Recife, com o Festival do Caribe, há muito mais na música da pequena ilha caribenha do que nos chega aos ouvidos.

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DANÇA

Bailarinos têm todo respeito dos cubanos Considerada uma profissão, a dança tem ensino gratuito Chris Galdino

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uba é um lugar onde revolução rima com tradição. Pelo menos é assim no cenário da dança, onde a técnica clássica predomina. São três companhias oficiais de balé, com cerca de 50 bailarinos no elenco de cada uma. Existem ainda cinco grupos de dança contemporânea e quatro de dança folclórica, todos subvencionados pelo governo. A história da dança cubana confunde-se com a história de Alicia Alonso, figura primeira do balé clássico no âmbito ibero-americano. Ainda na década de 30, ela é forçada a um exílio nos Estados Unidos, acompanhada do marido Fernando Alonso. Além da formação com mestres, como Enrico Zanfretta e Alexandra Fedórova, ela pôde estrear profissionalmente, em Nova York, como bailarina da Broadway e depois de passar pelo American Ballet Caravan, antecedente do atual New York City Ballet, atuou no Ballet Theatre of New York. A partir daí, alcançou uma inacreditável projeção internacional e teve oportunidade de trabalhar com criadores como Mijail Fokine e George Balanchine. O retorno a Cuba veio em 1948, quando fundou sua companhia em Havana, o Ballet Alicia Alonso, que manteve, apesar dos escassos recursos durante quase 10 anos, quando o Governo Revolucionário lhe ofereceu apoio e transformou seu grupo na primeira companhia oficial de dança do país. O governo cubano percebeu a importância e a força da cultura, fazendo da arte um dos alicerces da implantação do novo

regime. A dança esteve presente durante todo esse processo, e o Ballet Nacional de Cuba, uma das maiores referências da América Latina – dirigido por Alicia Alonso até hoje – passou a funcionar como uma espécie de vitrine do regime. Além de estabelecer e propagar um método cubano de balé clássico, Alicia, seu ex-marido, o coreógrafo Fernando Alonso, e os bailarinos daquela geração ajudaram a construir um sistema público de formação em arte. “Cada um dos 14 Estados cubanos possui uma escola provincial de artes, que funciona em regime de semi-internato, e oferece uma sólida formação gratuita a crianças e adolescentes com aptidão para música ou dança. Tínhamos aulas práticas pela manhã e à tarde as disciplinas regulares. Ao final de cinco anos, os melhores alunos em cada linguagem de cada escola vão fazer um teste de passagem de nível na Escola Nacional de Artes, em Havana” – conta o bailarino cubano radicado no Recife, Luis Ruben, que, após concluir a formação básica em Santa Clara, foi um dos bailarinos selecionados para ingressar na Escola Nacional de Ballet de Havana, onde estudou durante três anos, saindo de lá com o diploma de bailarino-professor. Depois da formação, as audições definem se o bailarino vai ser contratado por uma das companhias profissionais de dança do país, se vai atuar como professor nas escolas provinciais ou terá que desistir da carreira artística e buscar outra profissão, porque não alcançou o nível técnico esperado. Por um lado, pode parecer cruel e excludente essa lógica de funcionamento; por outro, é a maneira que o governo encontrou para garantir o retorno do seu alto investimento. A formação gratuita é o lado bom de um cenário que acaba produzindo artistas tecnicamente excelentes, mas com um posicionamento estético tão fechado quanto o próprio regime. Ruben confessa que, antes de sair de Cuba, “só considerava bom o balé clássico e, para mim, apenas o método cubano aplicado na íntegra podia ser eficiente. Hoje, minha visão mudou muito. Acredito que o artista tem que estar todo o tempo em reciclagem,

SABORES

Cozinha representa a miscigenação cultural Aqueles que chegam em Cuba, experimentam na gastronomia da ilha traços marcantes da identidade de seu povo, como a miscigenação racial e as influencias de outras culturas. A cozinha típica cubana, conhecida como crioula, é uma combinação das tradições culinárias da Espanha – colonizadora da ilha – e da África – continente do qual vinham os escravos. Nela encontramos também traços dos aborígenes que já habitavam a ilha antes da chegada de Colombo, em 1492, e dos chineses que migraram para trabalhar nas lavouras. Ao contrário dos europeus, que fazem das refeições sofisticados rituais divididos em várias etapas de pequenas porções, os cubanos preferem um farto prato único, como na cultura africana (ou a brasileira). DEZ 2008 • Continente x

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COLECIONADORES

Ilha é paraíso dos automóveis antigos A falta de abertura para o mercado mundial deixou Cuba com a maioria de seus carros fabricados apenas nas décadas de 1950 a 1960, transformando a ilha numa espécie de paraíso nostálgico para amantes de automóveis antigos. Considerado um verdadeiro tesouro cultural, essa frota de Fords, Chevrolets, Cadillacs, Chryslers, Packards e outros modelos clássicos, como carrões rabos-de-peixe cromados e com bancos revestidos de couro, atrai a cobiça de colecionadores do mundo inteiro. A maioria dos automóveis está em perfeito estado mecânico, elétrico, de lataria e pintura, passando de pais para filhos, todos já com peças não originais, feitas especialmente para eles por mecânicos especializados.

para se aprimorar sempre, e isso só é possível com intercâmbio, conhecendo e trabalhando com várias culturas”. Essa busca pela excelência faz com que em Cuba a democratização do acesso à arte seja uma prioridade. No caso da dança, o acesso facilitado deve-se em grande parte à criação, em 1960, do Festival Internacional de Balé de Havana. Mais uma vez, Alicia Alonso cumpriu um papel decisivo como idealizadora e presidente da comissão organizadora do Festival, que já levou à Havana mais de 50 companhias internacionais e 847 espetáculos das principais personalidades da dança do mundo. “Viver em um país – cujo apoio às artes é política de Estado – significa ter acesso a um grande número de eventos artísticos internacionais de todas as áreas a preços populares; ter professores de alto nível e um respeito grande do público. Ser bailarino em Cuba é uma honra. A recifense Nanny Alves: “Ser bailarino em Cuba é uma honra” Quando eu digo, aqui, que que minha mãe tinha. Quando comecei a sou bailarina, os cubanos sabem o esandar com minhas próprias pernas, não forço e a dedicação que isso requer. Já carregava nenhum tipo de preconceito no Brasil e em muitas outras partes do em relação a Cuba, pelo contrário, Cuba mundo a dança sequer é tratada como tornou-se minha utopia, uma sociedade profissão”–, comenta Nanny, bailarina que lutava por justiça social e solidarierecifense que, há nove anos, mora em dade entre os povos do mundo”. Havana e atualmente divide seu tempo Luis Ruben Gonzalez, depois de um entre a preparação artística e a graduação período dançando no Ballet de Camaem balé clássico no Instituto Superior de güey – uma das três companhias cubanas Artes de Cuba. Talvez por ter crescido de balé clássico –, chegou ao Brasil e ficou acompanhando a militância sindical da chocado com o fato de “o balé não ser sua mãe, Áurea, a ida de Nanny Alves, considerado, aqui, profissão”. Em seguipara Cuba, tenha sido natural. Ela conda, começou a ensinar, e percebeu uma ta que “desde pequena, quando no Brasituação igualmente grave: “Na grande sil ainda havia ditadura militar, palavras maioria dos estabelecimentos brasileiros como Cuba, Fidel, Che e democracia já de ensino da dança, a relação comercial faziam parte do meu cotidiano. Cresci predomina, são poucos os que realmente emocionada com a chegada da ‘democolocam as questões pedagógicas e artíscracia brasileira’, e aprendi a cultivar os ticas em primeiro plano”. mesmos sonhos de um mundo melhor

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MEMÓRIA

O 'Caso', enfim, em aguardada reedição CEPE relança a histórica tetralogia Memórias políticas – O caso eu conto como o caso foi, de Paulo Cavalcanti, essencial para o entendimento do Brasil e de Pernambuco, da Coluna Prestes ao fim da Ditadura

Foto: Reprodução

Fotos: Arquivo pessoal

O escritor, no dia do seu aniversário de 80 anos

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um esforço para resgatar a memória política do Brasil e de Pernambuco, a Companhia Editora de Pernambuco P ernambuco (Cepe) relança a tetralogia O caso eu conto como o caso foi, documento imprescindível para o entendimento do país e do Estado, abrangendo uma era que vai da Coluna Prestes ao fim da ditadura. Os direitos da obra, lançada pela primeira vez em 1978, foram cedidos por Maria Ofélia, viúva do escritor, que ainda foi advogado e político. “Sempre estivemos no mesmo campo de luta”, afirma a presidente da Cepe, Leda Alves, celebrando a parceria firmada entre a editora, o governo de Pernambuco e a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe, possibilitando o relançamento. A edição nova conta com projeto gráfico da premiada Moema Cavalcanti, filha de Paulo. A designer já ganhou quatro Prêmios Jabuti, na categoria. “Relutei muito, porque não achava que tinha o distanciamento psicológico necessário para ser objetiva. Mas, depois, conhecendo bem o estilo do meu pai, achei que ele gos-

taria de uma coisa austera, mas que retratasse seu lado afetivo. Ele gostava muito de fotografias e de ser fotografado, então fiz quatro capas que se amarram entre si, muda só o tom da foto”, conta Moema, que criou uma caixa para acomodar os volumes. A designer, afirma ter ficado feliz com a possibilidade de fazer quatro capas de forma integrada. “Isso foi muito bom, inclusive porque tive toda liberdade de criação. A Cepe não colocou nenhuma restrição, diferentemente das vezes em que fiz as capas para outras editoras – nunca me permitiram grandes ousadias. E como os volumes eram lançados com muito tempo de intervalo, nunca houve uma unidade entre eles”, completa. O caso... consiste numa revisão de fatos, relatos, e versões de episódios da história no plano nacional e estadual, a partir dos anos 20. O primeiro volume é uma ampla pesquisa, sólida e criteriosa, que analisa a fase da República Velha, a Era Vargas, a redemocratização e o período ditatorial, iniciado em 1964. No segundo volume, Da Coluna Prestes à queda de Arraes, publicado dois anos depois, o defensor dos

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MEMÓRIA Foto: Reprodução

perseguidos – como atesta Manuel Correia de Andrade, no prefácio de Elogio da resistência, minibiografia escrita por Nagib Jorge Neto – demonstra a farsa da ditadura e do Cabo Anselmo, informante infiltrado na Vanguarda Popular Revolucionária, sobre o massacre da sua mulher, Soledad, e de outros membros da luta. Na versão do militar, a polícia localizou o grupo em Paulista, houve tiroteio e todos foram mortos. Paulo examinou a versão e constatou que Sol, mulher de Anselmo, e Pauline Reichstul, que largou a riqueza para se dedicar à militância política no Brasil, foram presas numa butique em Boa Viagem. Ali foram espancadas, torturadas, postas numa viatura e depois executadas juntamente com mais quatro pessoas. Não houve reação. Na passagem de 1981 para 1982, Paulo escreve o terceiro volume, Nos tempos de Prestes, em que narra desde o encontro com Luís Carlos Prestes até a situação pós-64 em Pernambuco. Já no quarto e último volume, A luta clandestina, o político transcreve trechos dos originais escritos na Casa de Detenção e na União Soviética, para onde foi deportado. Foi libertado em 1979. Paulo Cavalcanti nasceu em Olinda, em 1915. Seus pais passaram por dificuldades financeiras e, durante algum tempo, esteve afastado da escola, estudando por conta própria, dentro de casa. Assim aconteceram os primeiros contatos com a Coluna Prestes, que tanto admirava. Aos 13 anos, foi ser conferente de carga e descarga no Porto do Re-

cife – seu primeiro emprego. Com o salário que recebia pagava seus estudos, mas pouco tempo depois teve que largar novamente a escola para viver no município de Salgueiro, sertão pernambucano, para trabalhar na Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca. A realidade miserável da região fez Paulo retornar, angustiado, ao Recife, em 1932, e ingressar na Ação Integralista Brasileira (AIB) com o objetivo de lutar em prol do povo castigado pela fome. Não demorou muito até entrar em conflito com as práticas e ideologias da sigla e terminou sendo expulso, acusado de ser um espião do Partido Comunista Brasileiro. Em 1937, refez o ensino médio e entrou na Faculdade de Direito do Recife, onde começou a apoiar estudantes de esquerda e engajou-se na política contra o Estado Novo e o governo de Agamenon Magalhães. Antes mesmo de se formar, casara com a prima Maria Ofélia Figueiredo, indo trabalhar como secretário no Hospital Português. Um ano depois nascia Moema. Em 1943 vinha a segunda filha, Magnólia. Com dois amigos fundou, em 1947, a Associação do Ministério Público de Pernambuco e manteve contato com parlamentares do partido comunista, assessorando-lhes em assuntos jurídicos. Candidatou-se a deputado federal, mas não foi eleito. Conseguiu o mandato na vaga de Barros Barreto, convocado para o governo de Barbosa e Lima. Neste ano nasceu Carlos, o primeiro filho homem do casal. Sempre engajado nas lutas sociais, filiou-se ao PCB, foi reeleito

deputado federal. Com golpe militar de 64, o ex-deputado federal foi acusado de esquerdista e comunista, preso várias vezes, e aposentado. Até o fim da repressão, atuou como advogado dos presos políticos. Aos 77 anos, conquistou o último cargo político de sua vida: foi eleito vereador do Recife pelo PCB. Três anos mais tarde (1995), com a saúde já fragilizada, amigos e admiradores homenagearam o militante ao completar 80 anos – faleceu seis dias depois. O jornalista Nagib Jorge Neto lembra que Paulo Cavalcanti, como parlamentar, “demonstrava a força de seus argumentos, a veemência de seus protestos. Elegante na forma, denso no conteúdo, marcou sua atuação na Assembléia Legislativa com a fluência do discurso, a clareza de raciocínio. De forma objetiva, lúcida, abordou as questões do seu tempo, enfrentou incompreensões, sempre com a preocupação de ser intérprete dos anseios da maioria”.

SERVIÇO Lançamento da coletânea O caso eu conto como o caso foi, de Paulo Cavalcanti, dia 15 de dezembro, nos jardins do Museu do Estado, às 19 horas. Informações: 81 3426.5943 Leia trechos da obra www.continenteonline.com.br

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sabores

Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti

A consoada

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onsoada vem do latim consolari – consolar, confortar, aliviar o sofrimento. No início, era apenas uma refeição leve que se fazia, nos dias de jejum, já pela noite. Sobretudo na Quaresma e na Semana Santa. Com o tempo, passou a designar apenas as ceias da véspera de Natal e Ano-Novo, na volta da Missa do Galo. Esta missa deve o nome à circunstância de ter, o nascimento e a ressurreição de Cristo, se dado em plena madrugada. Pouco antes do nascer do sol. Com o galo, na celebração, anunciando o fim das trevas e o surgimento de um novo dia. Nessa mesa, sabores

tradicionais passam de geração a geração. Tudo para comemorar, entre parentes e amigos, a própria epifania da vida. Do colonizador herdamos o jeito de celebrar essa festa. Sem adotar o nome. Nem alguns pratos que lhe são próprios – como o tradicional “bacalhau da consoada” ou a “roupa velha” (restos da ceia usados no almoço do dia seguinte). Muitos foram os escritores que se ocuparam dessa consoada. Aqui vão seis deles que, em diferentes épocas, retrataram seus quotidianos – três portugueses (em prosa) e três pernambucanos (em versos). Tudo em uma mistura delicada do que poderia ter sido e o

Eça de Queiroz (Casa da Inglaterra) Mas destes personagens que aparecem pelas consoadas, o meu predileto é Father Christimas – o Papá Natal. Esse, porém, só pode ser admirado em toda a sua glória, quando se abre a sala da ceia; então lá está sobre o seu pedestal, ao centro da mesa – que lhe põe em torno, com os cristais e os pratos, um amável brilho de auréola caseira. Bem-vindo Papá Natal! Boas noites Papá Natal! Sophia de Mello Breyner Andresen (A Noite de Natal) O jantar do Natal era igual ao de todos os anos. Primeiro veio a canja, depois o bacalhau assado, depois os perus, depois os pudins de ovos, depois as rabanadas, depois os ananases. No fim do jantar levantaram-se todos, abriu-se de par em par a porta e entraram na sala... As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar. Até que alguém disse: – São onze horas e meia. São

que restou pelos caminhos, o real e o imaginário, desalentos e sonhos, saudades e esperanças. Nessa contradição se expressando o próprio mistério do ano que finda, como a vida, consumida aos poucos, em dias lentos e anos ligeiros. Mesmo sabendo, como na lição de Drummond, que “o último dia do ano não é o último dia do tempo, outros dias virão”; e “o último dia do tempo não é o último dia de tudo, resta sempre uma franja de vida”. Porque nenhum momento espelha melhor essa franja, o esplendor majestoso da vida, como a consoada – aqui expressada nas palavras de mestres:

quase horas da missa. E são horas de as crianças se irem deitar. – Boa noite, minha querida. Bom Natal – disseram eles. E a porta fechou-se. Miguel Torga (Um Conto de Natal) Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida? A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também. E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira. – Consoamos aqui os três – disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. – A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

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No início, era apenas uma refeição leve que se fazia, nos dias de jejum, já pela noite. Sobretudo na Quaresma e na Semana Santa. Com o tempo, passou a designar apenas as ceias da véspera de Natal e Ano-Novo, na volta da Missa do Galo

João Cabral de Melo Neto (A Mesa)

Por último, a consoada de Maria do Carmo Barreto Campello. Segundo penso, a mais bonita de todas. Para nossa tristeza, ela foi levada por aquela “indesejada das gentes”, de que nos falava Bandeira, em 23 de julho deste ano. Saudades dela. Mas não se foi de todo. Que dela ficarão seus gestos e sua vida, como um farol, a nos iluminar o caminho. Ficará sua figura simples e altiva, franzina e forte, doce e determinada. E ficará, para sempre, em belos poemas que haverão de nos confortar – como o próprio sentido da palavra consoada.

O jornal dobrado sobre a mesa simples; a toalha limpa, a louça branca e fresca como o pão. A laranja verde: tua paisagem sempre, teu ar livre, sol de tuas praias; clara e fresca como o pão.

A mesa tosca a toalha branca indefinível os talheres postos para ficar. Tudo simples e sem perguntas como um texto definitivo.

A faca que aparou teu lápis gasto; teu primeiro livro cuja capa é branca e fresca como o pão.

Só a mão que estende e toma o pão e o leite para a última ceia parece cumprir um ritual.

E o verso nascido de tua manhã viva, de teu sonho extinto, ainda leve, quente e fresco como o pão. Manuel Bandeira (A Consoada) Quando a Indesejada das gentes chegar (Não sei se dura ou caroável), talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: – Alô, iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer. (A noite com os seus sortilégios.) Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar.

RECEITA

Bacalhau da consoada  Lave e deixe o bacalhau de molho, na geladeira, por 48 horas.  Coloque no fogo um caldeirão com água. Cozinhe as postas de bacalhau, as batatas e o ovo. Também a couve, já na hora de servir.  Coloque em uma travessa as postas de bacalhau, as batatas, os ovos inteiros e a couve. Regue com um pouco do molho, deixando o restante em uma molheira. Sirva logo.  Molho: Leve ao fogo bastante azeite com alguns dentes de alho partidos ao meio. Quando começar a ferver, retire do fogo e junte um pouco de vinagre.

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30 ANOS

SUAPE se consolida como um dos Ascom Suape/Divulgação

maiores portos do país

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O Complexo de Suape chega aos 30 anos consolidado como um dos maiores pólos de investimentos do Brasil. A atração de novos empreendimentos tem mudado a realidade sócio-econômica de Pernambuco. Espera-se que o PIB estadual dobre nos próximos 10 anos e que sejam gerados mais de 220 mil empregos. Nas matérias a seguir, a Continente mostra como Suape atingiu o patamar atual e quais as perspectivas para o seu futuro

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ovimentação intensa de navios e contêine­ res. Atracação, carga e descarga. Milhões de tonela­ das por ano. Trânsito intenso de máquinas, caminhões e tra­ balhadores. Cerca de oito mil funcionários atarefados, empre­ gados nas mais de 90 empresas instaladas em uma área de 13,5 mil hectares – são aproxima­ damente 20 empresas chegan­ do por ano. Receita de mais de R$ 42 milhões nos primeiros 10 meses de 2008. Esse é o cená­ rio atual do Complexo Industrial Portuário Governador Eraldo Gueiros, ou simplesmente Complexo Industrial Portuário de Suape. Um Complexo locali­ zado a 40 quilômetros do Recife, entre os municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, que deverá dobrar o PIB (Produto Interno Bruto) de Pernambuco até 2020. O Complexo Industrial Por­ tuário de Suape chega, em 2008, aos 30 anos, consolidando­se como um dos maiores pólos de investimentos do Brasil e mola propulsora da economia per­ nambucana. Comemora a ava­ liação de melhor porto públi­ co do país em pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2007, e de segundo melhor porto em ges­ tão ambiental em avaliação da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), feita tam­ bém em 2007. Atualmente, o PIB pernam­ bucano é de aproximadamen­ te R$ 62 bilhões e acredita­se que passe dos R$ 140 bilhões em 2020, com a influência dos novos empreendimentos que estão se instalando em Suape. Cinco deles devem ter grande peso na economia do Estado. A

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Refinaria Abreu e Lima, com US$ 4,05 bilhões em investimento; a Usina da Companhia Siderúrgica Nacional, US$ 6 bilhões; o Complexo Petroquímico, US$ 632 milhões; o Estaleiro Atlântico Sul, US$ 780 milhões; e o Moinho da Bunge, US$ 350 milhões. Empreendimentos que estão gerando cerca de 50 mil empregos nesse período de ins­ talação. A estimativa é de gerar 18 mil empregos diretos e 220 mil empregos indiretos quan­ do entrarem em operação. Nos últimos 18 meses, 33 empresas confirmaram investimentos em Suape. As obras de construção do Cais 5, o crescimento de mais de 20% na movimentação de cargas do porto até outu­ bro e o início das operações do Estaleiro Atlântico Sul, mesmo antes do término das obras, são outros motivos de comemora­ ção. Além disso, serão inicia­ das nos próximos dias as obras que darão suporte à chegada da Refinaria Abreu e Lima e lan­ çado o pólo de pré­forma PET. As obras da fábrica italiana de bebidas Campari também tive­ ram início este ano. Píer petroleiro – Em outu­ bro passado, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, assinou a ordem de serviço para a construção do píer petrolei­ ro, das obras de dragagem, da tubobia e do alongamento e pro­ longamento do molhe no valor de R$ 336 milhões – recursos da Petrobrás adiantados a Suape e que futuramente serão des­ contados através de tarifas por­ tuárias. A obra deve aumentar a capacidade de movimentação

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Simone Medeiros – Ascom Suape/Divulgação

SUAPE 30 ANOS

Obra do Estaleiro e Porto de Suape

de carga de 9 milhões para 17 milhões por ano. O governador Eduardo Cam­ pos se mostra confiante com relação ao futuro de Suape e acredita que o Complexo conti­ nuará crescendo, independen­ temente da crise que assola o mercado financeiro mundial. “Nos últimos três anos, Suape recebeu o triplo de investimen­ tos aplicados, ali, nas últimas três décadas e todos os recursos e financiamentos para os projetos de expansão estão garantidos”, declarou o governador durante a solenidade de lançamento do selo

comemorativo aos 30 anos do Complexo, no Museu do Estado. O que tem deixado o governa­ dor mais tranqüilo com relação à crise é o fato do Porto de Suape ter uma carteira de investimen­ tos assegurados até 2010, e que ultrapassa US$ 12 bilhões. Hoje, depois de uma série de investimentos em sua infra­ estrutura, o Complexo Industrial Portuário de Suape é um dos mais completos pólos para negócios industriais e portuá­ rios do Brasil. O pólo agrega uma multimodalidade de trans­ portes, com rodovias e ferrovias

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INFORME ESPECIAL

Novos empreendimentos e seus reflexos na região

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internas, aliadas a um porto de águas profundas com redes de abastecimento de água, ener­ gia elétrica, telecomunicações e gás natural instaladas em todo o complexo. A posição geográfica de Pernambuco também contribui para o crescimento de Suape, pois torna o Porto vocacionado como concentrador de cargas (hub port) para toda a América do Sul. Além da infra­estrutura adequada, as empresas instala­ das no local dispõem de incen­ tivos fiscais, oferecidos pelos governos estadual e municipal.

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implantação da Refinaria Abreu e Lima no Complexo Industrial Portuário de Suape marca a retomada da expansão da indústria de refino no Brasil. O empreendimento irá processar o petróleo pesado. Com capacidade para proces­ sar 200 mil barris de petróleo por dia, a Refinaria irá produzir aproximadamente 800 mil m³ de nafta de petroquímica, 322 mil toneladas de GLP (gás liquefei­ to de petróleo), 8,8 milhões de toneladas de diesel e 1,4 milhão de toneladas de coque de petró­ leo. Com US$ 4,05 bilhões em investimento, ela encontra­se em fase de terraplenagem. “Acredito, na verdade, que não serão investidos menos de US$ 6 bilhões. O PIB pernam­ bucano em 2008 é de cerca de US$ 35 bilhões. Então, estamos falando em um investimento que será 20% do PIB pernambuca­ no em um período muito curto. São 25 mil pessoas emprega­ das em agosto de 2009, duran­ te a sua construção”, destaca o secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Fernando Bezerra Coelho. Segundo o diretor coorpora­ tivo da refinaria, João de Aquino, mais de 50% dos trabalhos foram concluídos e outras etapas estão em andamento. Com o início das

operações, previsto para 2011, cerca de 1,5 mil empregos dire­ tos devem ser criados. O Estaleiro Atlântico Sul é o maior empreendimento da construção naval e offshore do Brasil. A empresa iniciou em 2007 a construção de sua planta industrial, com capacidade de 160 mil toneladas de aço por ano. Suas atividades tiveram início em setembro com a pro­ dução de um navio encomen­ dado pela Transpetro. Essa é a primeira das 10 embarcações do contrato. Com investimento da ordem de R$ 1,4 bilhão, o estaleiro já tem 40% de sua obra concluída. Atualmente, são 1,4 mil funcio­ nários. Quando estiver em plena operação, serão gerados cerca de 5 mil empregos diretos e 25 mil indiretos. A cadeia produtiva do PET, material utilizado para produ­ ção de embalagens plásticas de refrigerantes, começa a conso­ lidar­se em Suape com a ins­ talação das empresas Brasalpla, Lorempet, Pet Nordeste e Cristal Pet. O investimento de R$ 353 milhões estimula a produção, que deverá ser de aproximada­ mente 6,3 bilhões de pré­for­ mas PET por ano, gerando 387 empregos diretos e 305 indire­ tos, além dos 300 trabalhadores

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Flávio Berger – Ascom Suape/Divulgação

SUAPE 30 ANOS

Vista aérea do Porto Interno de Suape

das obras de construção. Além desses quatros empreendimen­ tos, a fábrica italiana Mossi & Ghisolfi (M&G), já instalada em Suape, irá ampliar sua produção em 55%. Em sua linha de pro­ dução, a empresa emprega atu­ almente mais de 1.000 funcio­ nários, de forma direta e indi­ reta e, com a expansão, irá criar mais 500 postos de trabalho. O Complexo Industrial Portuário de Suape ainda dis­ põe de áreas para novos empre­ endimentos. Mas existe uma preocupação em desconcen­ trar os investimentos. Novos investimentos estão sendo fei­ tos nos distritos industriais dos municípios do Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão dos Guararapes, Moreno, Escada, Ipojuca e Sirinhaém. “Também estamos criando um grande dis­ trito industrial entre Ribeirão e Escada, no entroncamento fer­

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roviário do ramal sul da ferro­ via Transnordestina que vem de Propriá para Escada e do ramal que vem de Salgueiro para Suape. Nesse entroncamento ferroviá­ rio, a idéia do atual Governo é

desapropriar uma área de até dois mil hectares para forma­ ção do novo distrito industrial e geração de emprego e renda para a população local”, desta­ cou Fernando Bezerra Coelho.

Galpão Estaleiro Atlântico Sul

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INFORME ESPECIAL

Estrutura portuária ideal para aumento de movimentação

Navio atracado no Cais 1 de Suape

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uape teve, em agosto de 2008, um crescimento recorde na movimenta­ ção de cargas. Foram registradas 891 toneladas de cargas movi­ mentadas, um aumento de 62% em comparação a agosto do ano anterior. No mesmo período, a movimentação de contêineres passou de 20.024 teu’s (unida­ de padrão de contêineres) para 32.839, e a de granéis sólidos passou de 11.620 toneladas para 129.696, em agosto de 2008. Em outubro, a movimentação de cargas apresentou um cresci­

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mento de 40% em comparação ao mesmo mês do ano passado. Foram movimentadas mais de 860 mil toneladas. Já na movi­ mentação acumulada, de janeiro a outubro 2008/2007, o Porto teve um aumento de 20%, atingindo a marca das sete milhões de tone­ ladas, quantidade movimentada no ano de 2007 inteiro. “Hoje, a infra­estrutura por­ tuária é um pré­requisito mun­ dial para viabilizar a atração de grandes navios. Temos que ter profundidade para receber essas embarcações, disponibilidade

de berço de atracação e agilida­ de no descarrego, além de uma localização geográfica em termos mundiais. Suape atende a todos esses pré­requisitos, para se tor­ nar um porto concentrador de cargas”, diz o diretor de Novos Negócios de Suape, Sidnei Aires. Um porto externo, um porto interno, terminais de granéis líquidos, cais de múltiplos usos, além de um terminal de con­ têineres garantem para Suape a operação de navios nos 365 dias do ano, sem restrições de horário de marés.

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SUAPE 30 ANOS Flávio Berger – Ascom Suape/Divulgação

São mais de 7 milhões de toneladas de carga por ano, des­ tacando­se os granéis líquidos (derivados de petróleo, produtos químicos, alcoóis, óleos vegetais etc.), que representam 50% da movimentação, e a carga contei­ nerizada. O Porto poderá aten­ der a navios de até 170.000 TPBs – atualmente recebe navios de até 90.000 TPBs e opera com um calado de 14,50m. Com 27km de retroporto, seus portos externo e interno oferecem as condições necessárias para atendimento de navios de grande porte. O canal de acesso possui 5.000m de extensão, 300m de largura e 16,5m de profundidade.

Terminal de Contêineres

EsTrUTUra Porto Interno Atualmente, o porto possui 4 berços em atividade e 1 berço em construção, todos com 15,5m de profundidade. Cais 1 É público, possui 275m de extensão e movimenta carga geral, predominando a operação de minério de ferro, coque, escória e clínquer. Cais 2 e 3 Berços Privados que concentram a movimentação de contêineres, arrendados à empresa Tecon Suape, subsidiária da International Container Terminal Inc., desde 2001. Ao todo são 660m de cais, que se encontram em fase de expansão e deverão movimentar 300 mil teu’s (contêineres de 20 pés) em 2008. Cais 4 Inaugurado em 2007, é público e possui 330m de extensão. Movimenta carga geral, mas com perspectiva de operar, em breve, veículos e grãos. Uma esteira rolante de 1,5km está sendo construída para

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interligar o cais ao moinho de trigo da Bunge Alimentos. Cais 5 Atualmente, esse berço encontra-se em construção e deverá ficar pronto nos primeiros meses de 2009. Porto Externo: Possui um molhe de pedras de proteção em “L”, com 3.000m de extensão e abriga dois píeres de granéis líquidos, um cais de múltiplos usos e uma tancagem flutuante de GLP. Píer de Granéis Líquidos 1 – PGL 1 Possui 330m de extensão com 2 berços de 190m de comprimento e 14m de profundidade, para atracação de navios de 45 mil TPBs. Sua plataforma central conta com 84m comprimento e 25m de largura, equipada com 10 braços mecânicos, 4 dolfins laterais e ponte de acesso a tubulações de transporte de granéis líquidos. Píer de Granéis Líquidos – PGL 2 Com 386m de extensão, tem 2 berços de 270m e 14,5m de

profundidade, para atracação de navios de 90 mil TPBs. Possui plataforma de operações equipada com 4 braços mecânicos e 10 dolfins para atracação e amarração. Ambos os píeres são operados por empresas habilitadas pela Agência Nacional de Petróleo, a ANP e préqualificadas pelo Porto de Suape. Cais de Múltiplos Usos Terminal Marítimo com 320m de comprimento por 39m de largura, 15,5 m de profundidade e dois berços de atracação. O berço leste tem capacidade de receber navios de até 260m de comprimento e o oeste recebe navios de até 150m. Possui ponte de acesso com 20m de extensão e 15m de largura, 18 cabeços de amarração no berço leste e 14 cabeços no berço oeste, e um terminal roll-on-off, com rampa de 30m de comprimento e 20m de largura. Tancagem Flutuante de GLP Realizada por navio de gás refrigerado de 45 mil TPBs e 75 mil m³ de capacidade, que atende, a contrabordo, a navios de igual porte.

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INFORME ESPECIAL

A história de Suape

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s impactos de uma seca prolongada, no final da década de 60, foram os responsáveis pelos primeiros estudos de viabilidade econô­ mica de um grande porto em Pernambuco. A perspectiva era de que o local atraísse indústrias de porte para o seu entorno, gerando emprego e renda para a população que passava fome no interior do Estado. A decisão foi tomada pelo então governador Nilo Coelho. A concepção de Suape origi­ nou­se no conceito de integra­ ção porto­indústria, já existente no Porto de Marseille­Fos, na França, e de Kashima, no Japão. O trabalho prosseguiu no gover­ no de Eraldo Gueiros Leite, que emprestou seu nome ao com­ plexo industrial. A escolha da região de Suape para localização do porto

rETrosPECTIva 1973/1975 – O Governo de Pernambuco desenvolve o Plano Diretor para a implantação do Complexo Industrial Portuário de Suape. 1977 – Após a desapropriação de cerca de 13.500 ha de terras, começam as obras do Plano Diretor do Complexo. 1978 – A Lei nº 7.763/78 cria a empresa Suape Complexo Industrial Portuário, para realizar as atividades de implantação do Complexo. 1983 –O Decreto Estadual nº 8.447/83 aprova as Normas de Uso do Solo, Uso dos Serviços e de Preservação Ecológica do Complexo Industrial Portuário, para a ocupação e uso racional do solo com o menor dano sobre a biodiversidade local. A área de 13.500 ha do Complexo foi subdividida em 10 Zonas.

1984 – Começa a operação do Porto de Suape, com o primeiro embarque de álcool, através do Píer de Granéis Líquidos - PGL, arrendado à Petrobras. 1987 – O Píer de Granéis Líquidos intensifica suas operações com a transferência do Parque de Tancagem de Derivados de Petróleo, até então localizado no Porto do Recife. 1991 – Entra em operação o Cais de Múltiplos Usos - CMU, movimentando carga geral conteinerizada. Suape deixa de ser um mero porto industrial para se tornar um porto concentrador de carga (hub port) de uso público, em função das grandes profundidades junto à costa. 1996 – O Porto de Suape é incluído entre os 42 empreendimentos do Programa Brasil em Ação do Governo Federal, recebendo recursos para criar uma infra-estrutura, para atração de investimentos privados. 1999 – Termina a construção da primeira etapa do Porto Interno (935 metros de cais), com profundidades de até 15,5m, onde indústrias e empresas de serviços portuários passam a investir em suas próprias instalações. 2001 – Começa a construção da segunda etapa do Porto Interno com a dragagem de mais 1,3 milhão de m³, estendendo o canal de navegação em mais 450m.

Fotos: Divulgação

2002 – É iniciada a duplicação da avenida portuária, com 4,4 Km e a construção do 1º Prédio da Central de Operações Portuárias. 2003 – O Porto de Suape recebe da Food and Drug Administration (FDA), vinculada ao governo norteamericano, certificado internacional de obediência às medidas da lei contra o bioterrorismo. >> Gravura do período holandês – 1635

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SUAPE 30 ANOS Fotos: Divulgação

>> 2004 – É inaugurado o Centro de Treinamento para os funcionáriose são assinados protocolos de intenções com a construtora Camargo Corrêa e com o grupo argentino Arcor. A Emplal, fabricante de embalagens plásticas, inaugura sua unidade no Complexo. Suape firma convênios com a PepsiCo, Refresco Guararapes e Condor. Também é assinado convênio com o grupo italiano M&G para a instalação de um parque fabril com quatro plantas. 2005 – Governo de Pernambuco, Governo Federal e Governo da Venezuela lançam a pedra fundamental da Refinaria Abreu e Lima. Como parte das comemorações dos 27 anos, são inaugurados o Centro de Operações Portuárias e a duplicação e reforma da Avenida Portuária. 2007 – O presidente Lula assina o contrato entre a Transpetro, subsidiária da Petrobras, e o Estaleiro Atlântico Sul, da Camargo Corrêa. A iniciativa insere o Porto de Suape na reativação da indústria naval brasileira. O Atlântico Sul, maior empreendimento da construção naval e offshore do Brasil, começa a construção de sua planta industrial, com capacidade de 160 mil toneladas de aço por ano. Começa, também, a construção da Refinaria Abreu e Lima. 2008 – Suape completa 30 anos. O Estaleiro Atlântico Sul inicia sua produção, com o corte do aço do primeiro navio a ser construído pelo estaleiro, com data de entrega para 2010. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) anuncia a construção de uma usina siderúrgica de US$ 6 bilhões, maior investimento privado já feito em Pernambuco. A previsão de produção é de 3,5 milhões de toneladas anuais de aços especiais de alto valor agregado – dentro de seis anos. Ao todo, são cerca de 20 empresas se instalando no Complexo, por ano, paralelamente a importantes obras de infraestrutura sendo realizadas pelo Governo do Estado.

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Estrutura do Complexo se sobressai em relação a outros portos nacionais

apoiou­se em quatro elementos: águas profundas junto à linha da costa, ou seja, profundidade de 17 metros a cerca de 1,2 km do cordão de arrecifes; quebra­ mar natural formado por cor­ dão de arrecifes; extensas áreas reservadas à implantação de um parque industrial; e distância da movimentação metropolitana do Recife. As obras tiveram início em 1977, após a desapropriação de cerca de 13.500 hectares de ter­ ras. O Porto de Suape come­

çou a operar em 1983 com a movimentação de álcool pela Petrobras, utilizando o recém­ inaugurado Píer de Granéis Líquidos (PGL­1). A partir da década de 90, o Complexo passou a se sobres­ sair com relação a outros portos nacionais. Estruturado fisica­ mente, atraiu a visão de grandes indústrias e a decisão de cons­ trução, no local, de uma refina­ ria, um complexo petroquímico, um estaleiro, uma usina siderúr­ gica e do Moinho da Bunge.

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INFORME ESPECIAL

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pontocom n LIvRos Imagens: reprodução

Escambo de conhecimento Em inglês, mooch quer dizer algo como obter uma coisa sem ter que pagar. O conceito se aplica à página do BookMooch: basicamente, o usuário pode disponibilizar livros de que não precise mais, em troca de obras de que realmente precise. A única despesa é com o envio. O sistema é simples: após cadastrar os livros que quer trocar, o internauta recebe pedido de outros usuários solicitando os volumes cadastrados. As obras enviadas são trocadas por pontos, que servem de moeda de troca. O site disponibiliza obras em sete línguas, sendo de grande uso, portanto, para quem não quer gastar numa amazon.com da vida. Já para quem quer fazer trocas exclusivamente em português-português, a dica é o TrocandoLivros, que funciona nos mesmos moldes do BookMooch. Portanto, pode ir pegando aquele calhamaço velho que escora o centro da sala e trocar o calço por conhecimento. (Thiago Lins) nnn

http://www.bookmooch.com • http://www.trocandolivros.com.br

n LITERATURA

n IMPRENsA

Aos poucos, a revolução digital vai se estendendo ao mercado editorial. Ao contrário dos CDs, os livros não foram substituídos por mídias digitais. É inconveniente ler um romance na tela do computador. Mas ler um diário, como se fosse um blog, pode ser diferente. Essa foi a sacada do instituto The Orwell Prize. Todos os textos dos diários de George Orwell estão sendo disponibilizados precisamente 70 anos após os originais: foi assim que o Instituto resolveu celebrar o aniversário dos antigos escritos. Ainda há material suficiente para atualizar o blog por quatro anos. Entre as preciosidades, estão os diários de guerra do jornalista. Para os mais curiosos, ainda há os diários domésticos de Orwell, que fala de... plantas e animais. (TL)

Agregando conteúdo “de e sobre autores consagrados e novatos”, o Portal Literal tem seu material atualizado, diariamente, por jornalistas e colaboradores do site. O site hospeda artigos, entrevistas (em texto e áudio) e matérias. A página também traz links relacionados, todos adequados, e resenhas de lançamentos. Colaborativa, o Portal Literal ainda conta com o botão “Banco de cultura”, que visa lançar novos autores, e o fórum, que discute questões diversas relacionadas à cultura. (TL)

Em ação para celebrar os 200 anos da imprensa brasileira, funcionários do Arquivo Público separaram edições, microfilmaram, limparam e digilitalizaram 36.000 páginas do saudoso Última Hora. O projeto, em fase inicial, já resgatou 60 meses de jornal, que durou de 1951 a 1971. Edições históricas, como a da morte de Getúlio (a publicação era escancaradamente getulista), a do golpe de 64 e a da inauguração de Brasília já estão disponíveis. Pelo timaço do jornal, criado e dirigido pelo obstinado Samuel Wainer, passaram Nelson Rodrigues, Aguinaldo Silva e Jaguar, para citar só alguns. O Última Hora foi o único jornal brasileiro a ser publicado simultaneamente em sete cidades. (TL)

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orwelldiaries.wordpress.com

portalliteral.terra.com.br

www.amigosdoarquivo.com.br/uhdigital

Diários de casa e da guerra

História impressa digitalizada n CULTURA

Consagrados e novatos colaborando

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FAvoRITo

PosT Do MÊs – [Blog de Marcos santos]

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Blogosfera: o fim?

Cordel online O acervo de cordel da Fundação Casa de Rui Barbosa, que agrega mais de 9 mil folhetos, foi todo digitalizado e pode ser acessado pelo site da casa – ainda contém catálogos, antologias e estudos do gênero, entre teses e dissertações, além de biografias de poetas. (TL) www.casaruibarbosa.gov.br n Tv

Grandes entrevistas para rever – e ler O Roda Viva, no ar desde 1986, é um dos mais importantes programas de entrevista da cadeia nacional. Algumas edições já são clássicas, como a que foi feita com Fernando Sabino, em 1989. Na ocasião, o autor de O encontro marcado se queixou da crítica literária da época – afirmou que a crítica criativa teria sido substituída pela “dissecação do livro”. Entre as diversas personalidades que passaram pelo RV, ainda estão Ayrton Senna, Noam Chomsky e o incisivo Paulo Francis. O acervo do programa foi disponibilizado na rede pelo projeto Memória Roda Viva. A busca por entrevistas, disponíveis na íntegra em formato texto, pode ser feita por nome ou tema. A idéia do site, que também agrega vídeos curtos, é retroalimentar a pauta do programa, com críticas e sugestões, além, claro, de preservar a memória da TV brasileira. (TL) nnn

www.rodaviva.fapesp.br

Para o The Economist, os blogs já não são o que eram porque entraram no mainstream – a profundidade desta observação é tal que eu já me sinto a afogar no vasto oceano da minha ignorância. É melhor subir à tona, apanhar um bocadinho de ar e ver o que a Wired diz sobre a blogosfera. Hum. A Wired diz que isso dos blogs é uma cena um bocado antiquada, tipo 2004. Estamos tramados, então. Que vai acontecer aos tipos que gostam de escrever mais de 140 caracteres de uma só vez? Vão para o desemprego virtual? Não se preocupem. A Wired está a gozar o prato. Ao decretar a morte da blogosfera, provoca reacções e revitaliza-a. Reagir é estar vivo – é verdade lá fora e continua a ser verdade cá dentro.

Blogar é mais importante do que a blogosfera. A blogosfera não é nada, é um círculo desenhado em redor de milhões de pessoas que escrevem todos os dias na web, para a web. Vai acabar? Mudar de nome? Que tem o blogger a ver com isso? O fim da blogosfera é um não-assunto que dá pano para mangas. Aliás, acho que, no dia em que a blogosfera acabar, sou gajo para escrever um post sobre o assunto.

PERFIL Marcos Santos é jornalista. Desde 2005, o português comenta notícias, música, fotografia, livros e outros assuntos no blog.

BAIXE E oUÇA Os netlabels, selos que distribuem suas produções pela internet, em formato digital (MP3, Ogg etc.), surgiram no bojo das transformações ocorridas no seio da indústria fonográfica a partir da popularização dos meios de produção/difusão na rede. Formada em 2002, a Fronha Records tem em seu catálogo um extenso cast de artistas que transitam entre a música experimental e o “quase-pop” (ou weird pop), como o antológico grupo carioca Can do Garfo, a dupla pernambucana Hrönir e o Fronha Coletiva, formado por membros do selo. (Yuri Bruscky) www.fronharecords.com

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LITERATURA

O Simbolismo brasileiro de Cruz e Sousa Por conta do seu drama racial, o poeta negro catarinense Cruz e Sousa deu a nota brasileira para um movimento tipicamente francês Ângelo Monteiro

O

dado mais significativo da existência de Cruz e Sousa talvez seja o de ele ter recebido, por uma estranha sincronicidade, o nome do santo do dia em que nasceu: o grande poeta e místico São João da Cruz. Como a de São João da Cruz, a poesia de João da Cruz e Sousa, apesar das diferenças fundamentais quer artísticas quer de visões do mundo, é marcada, ao mesmo tempo, pelas pegadas da noite escura e pelas múltiplas e luminosas formas da Presença; à inefabilidade da expressão poética de um corresponde, no outro, “as mais azuis diafaneidades” em que, ao lado de um fogo cheio de

resplandecências e de antifônicas e anafóricas brancuras de astros e lágrimas (vejam-se Recolta de estrelas, de Broquéis, e Luar de lágrimas, de Faróis), penetramos no “fundo de tristeza e agonia” das coisas e vemos “por toda parte escrito em fogo eterno:// Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! (Pandemonium)”. Através da experiência de Cruz e Sousa em nossas letras, o Simbolismo a que ele serviu alterou, sobretudo, a relação entre as palavras, substituindo o seu sentido convencional pelo símbolo porventura nelas subjacente. Quando Otto Maria Carpeaux chegou a declarar que “a verdadeira poesia

nacional começou com Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens” além de não se referir a nenhuma forma de nacionalismo estético — que pouco haveria de significar para um emigrado centro-europeu — buscava reconhecer em Cruz e Sousa uma forma de mímesis poética, que antes de prestar seu costumeiro tributo ao real, começava a operar sobre ele uma transfiguração jamais vista na poesia brasileira. Para realização dessa imprevista mímesis, o seu próprio sangue negro teve uma considerável importância enquanto serviu de encruzilhada entre “as formas alvas,

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Ilustração: Flávio Pessoa

brancas, formas claras” do seu conhecido poema Antífona, em Broquéis, e os apelos da Monja negra, em Faróis, que seguem indormidos em sua raça: “Através de teu luto as estrelas meditam//maravilhosamente e vaporosamente;//como olhos celestiais dos Arcanjos nos fitam//lá do fundo negror do teu luto plangente.” Poderíamos, num certo sentido, dizer, por conta justamente do seu drama racial, que Cruz e Sousa deu a nota brasileira para um movimento, como o Simbolismo, que era francês. Mas como demonstraram autores como Edmund Wilson, em Castelo de Axel, e Anna Balakian, em O Simbolismo, é difícil ver qual-

quer forma de nacionalismo em um movimento praticamente originário de Paris e que se difundiu pelo mundo, por meio das mais diversas influências, abarcando, além disso, nomes que transcendem as convenções literárias dos principais chefes dessa escola, como Valéry, SaintJohn Perse, Yeats, T. S. Eliot, Rilke, Stefan George, Ungaretti, Unamuno, García Lorca, Antonio Machado, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Joyce e Proust. A definição melhor para esse movimento e para o papel que nele coube a Cruz e Sousa, no Brasil, pode ser encontrada neste comentário de Edmund Wilson: “Nossas palavras são, em si mesmas, os símbolos primordiais, e

a única originalidade dos simbolistas consistiu em recordar às pessoas a verdadeira natureza e função das palavras”. Se descontarmos a armadilha apontada por Anna Balakian de uma “filosofia posta em verso” por alguns dos seus cultores, sobretudo alemães, o Simbolismo se constituiu no verdadeiro início da literatura moderna. O caso de Cruz e Sousa foi particularmente trágico, levando-se em conta as circunstâncias históricas em que ele viveu, estigmatizado pelas condições sociais, pela cor e pela moldura cultural asfixiante do meio, porque teve, além disso, que passar, segundo Andrade Muricy, “por uma mutação (...) DEZ 2008 • Continente x

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LITERATURA Fotos: Reprodução

O crítico Otto M. Carpeaux (à direita) atestou a importância dos simbolistas brasileiros

tão inesperada quanto prodigiosa”, em 1891, justamente aos 30 anos, dois anos antes da publicação de Broquéis, que transtornou por completo uma escrita poética até então marcada pela mais desoladora pobreza expressional. Ganha, portanto, a esse respeito, o maior sentido, o testemunho do sociólogo e etnólogo francês Roger Bastide, ao escrever: “num cérebro de africano, de filho de escravo, (...) tomava o Simbolismo (universal, entenda-se) formas novas, sonoridades inéditas, transformando-se, cristalizando-se em músicas desconhecidas (...) Cruz e Sousa construiu, só com seu cérebro, o seu mundo poético e elabora, isento de qualquer influência, a sua própria existência simbólica. Seu simbolismo seguirá, sem dúvida, a lei geral, exigirá a existência de um mundo transcendente, de um mundo de Essências, mas ante ele reagirá com a sua personalidade fremente e dolorosa, que não é senão dele.”

O testemunho de Roger Bastide apenas não teve tempo de demonstrar o que historicamente se revelou o mais extraordinário na poética de Cruz e Sousa: a solidez de sua estrutura em perfeito acordo com a mais livre, e não somente vaga, musicalidade... (Tome-se como exemplo definitivo o poema Violões que choram, em que o elemento melopéico, ou mesmo onomatopaico, em nenhum momento se dissocia do elemento logopéico (o pensamento poético) bem como de sua incomum riqueza fanopaica ou imagética). Dono de um expressionismo que Andrade Muricy assemelha ao de Van Gogh, seus poemas lembram, na maioria das vezes, verdadeiros painéis de largo cromatismo, em que a palheta, em seu jogo de amarelos, azuis e vermelhos, sem falar dos constantes contrastes em branco e preto, se caracteriza antes pela riqueza que pela parcimônia das suas cores, para só ficarmos na pintura. Outro tanto pode ser

dito de sua luxuriante musicalidade, que se propaga e se prolonga, sem nenhuma forma de trégua ou repouso, em inúmeros de seus poemas, notadamente os de maior extensão como Antífona, Regina Coeli, Loucos, Tuberculosa, Angelus (de Broquéis) e Pandemonium, Recorda, Esquecimento, Violões que choram, Monja negra, Ressurreição, Piedosa, Os monges e Luar de lágrimas (de Faróis). Espécie de Van Gogh negro na pintura, ou de Beethoven de ébano, na música, ao buscar exprimir, na expressão de Andrade Muricy, “a substância pelo acidente”, fazia das palavras, mais do que referências sobre a realidade, veículos de uma tremenda força dramática que inflamava, com seu pathos, as camadas sonoras e plásticas do seu verbo criador, cuja ressonância iria influenciar, posteriormente, poetas tão distintos e poderosos quanto Augusto dos Anjos e Jorge de Lima. Não satisfeito de apenas descrever, infligiu-nos a todos a presença de uma realidade difícil de ser exorcizada, porque marcada por uma atmosfera por assim dizer indizível em que o sentimento é muitas vezes inseparável do seu poder transfigurador, como tão bem expressa nesta estrofe de Monja negra “Quem auréolas te deu assim miraculosas//e todo o estranho assombro e todo o estranho medo,//quem pôs na tua treva ondulações nervosas,// e nudez e silêncio e sombras e segredo? ” Virando as costas para os românticos e parnasianos, é com o Simbolismo que o Brasil, a partir principalmente de Cruz e Sousa, conhece uma poesia pela primeira vez alheia tanto à mera expansão dos sentimentos quanto às descrições objetivas da realidade: a matéria poética passa a ser autônoma em relação aos temas, muitas vezes resultando do andamento estrófico

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e da musicalidade interior e exterior entre as palavras, de que o poema Antífona, que abre os Broquéis, serve de exemplo mais expressivo: “Ó Formas alvas, brancas, Formas claras//de luares, de neves, de neblinas!...//Ó formas vagas, fluidas, cristalinas...//Incensos dos turíbulos das aras...//Formas do Amor, constelarmente puras,//de Virgens e de Santas vaporosas...//Brilhos errantes, mádidas frescuras//e dolências de lírios e de rosas...//Indefiníveis músicas supremas//harmonias da Cor e do Perfume...//Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,//Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...” “Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume”: como este verso define, essencialmente, de modo, aliás, incontrastável, a poética de Cruz e Sousa, desvelada, sobretudo através de sonetos como Siderações, Caminho da glória, Vida obscura, Supremo verbo, Imortal atitude, Sorriso interior, Assim seja, Só, Triunfo supremo, Clamor supremo, No seio da terra, Ansiedade, Cárcere das almas, Almas indecisas, Ódio sagrado, Alma ferida, O assinalado, Anima mea, A morte, Crê e Feliz. O extraordinário verso “Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume” parece nos querer dizer que a Poesia constitui o dobre de finados de uma idade dourada sempre perseguida pelos homens, mas é como rito solar que ela existe entre nós e resume, por meio do seu recorrente ocaso, a Dor (em maiúscula) de todas as coisas. Outro poema de Broquéis, Regina Coeli, reitera, por meio de suas anáforas, o peso místico da pureza

que anseia transfigurar o mundo: “Ó Virgem branca, Estrela dos altares,// ó Rosa pulcra dos Rosais polares! (...)// Regina Coeli das sidéreas flores,//hóstia da Extrema-Unção de tantas dores.//Ave de prata e azul, Ave dos astros...//Santelmo aceso, a cintilar nos mastros...” Já um poema como Ressurreição, que se encontra em Faróis, nos remete a um fundamento anterior à linguagem na poesia das coisas, com estes versos bastante significativos: “Ah! que feliz um coração que escuta//as origens de que é feito!” O último poema de Faróis — Ébrios e cegos —, que pelo próprio título sugere a embriaguez e a cegueira como inseparáveis da loucura que acompanha a condição humana, contrapõe-se à pureza de qualquer sonho, ou à busca anelante das origens, para ressaltar a “torpe matéria” inseparável de tudo que é vivo: “Mas ah! torpe matéria!//se as atritassem, como pedras brutas,//que chispas de miséria// romperiam de tais almas corruptas!//Tão grande, tanta treva,//tão terrível, tão trágica,tão triste,//os sentidos subleva,//cava outro horror, fora do horror que existe.//Pois do sinistro sonho//da embriaguez e da cegueira enorme,//erguia-se, medonho,//da loucura o fantasma desconforme.” A poesia de Cruz e Sousa, também presente na prosa crispada de Missais e Evocações, transita entre as mais terríveis contingências de um emparedado (leia-se com o mesmo título algumas das páginas mais fortes de Evocações), e a necessida-

de de recordar a música das esferas, como no poema Recorda: “Quando a onda dos desejos inquietantes,// que do peito transborda,//morrer enfim nas amplidões distantes,//recorda-te, recorda...(...)Revive dessa música já finda//que nas estrelas dorme”. A respeito dessa antinomia, entre tantas da grande poesia de Cruz e Sousa, em uma poética marcada pelo caráter antitético de sua formação barroca — nada melhor do que recordar a lição enraizada no símbolo imanente em todas as coisas, pronunciada pela filósofa judia alemã Edith Stein, canonizada sob João Paulo II, que adotou no Carmelo o nome de Teresa Benedita da Cruz: “Toda obra de arte, independentemente da intenção do artista é, ao mesmo tempo, um símbolo. É indiferente que o artista, em sua expressão, seja naturalista ou simbolista. Há um símbolo quando algo da plenitude do sentido das coisas penetra a mente humana e é captado e apresentado de tal maneira que a plenitude do sentido — inexaurível para o conhecimento humano — seja misteriosamente insinuada. Desse modo, toda arte verdadeira é uma espécie de revelação, e a produção artística, um ministério sagrado”. Tais palavras — nos 110 anos da morte de um poeta que exerceu esse ministério nos domínios de um misticismo profundamente impregnado da tradição católica — tais palavras (repetimos) parecem corresponder com notável precisão à trajetória da existência simbólica de Cruz e Sousa.

O Simbolismo transcendia nacionalismos e nacionalidades Da esquerda para direita: Miguel de Unamuno, T.S. Elliot, Rainer Maria Rilke e James Joyce

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LITERATURA

A matéria real das guerras O romance Nada de novo no front, do alemão Erich Maria Remarque, 80 anos depois de lançado permanece como uma violenta denúncia da imbecilidade das guerras Cristiano Ramos

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s 90 anos do fim da Primeira Grande Guerra não têm motivado tantos estudos ou espaços de mídia quanto se poderia esperar. Tampouco teve atenção devida o 80º aniversário da publicação do Nada de novo no front, de Remarque – um registro contundente sobre o conflito inaugural da chamada “Era da guerra total”, desse mundo em estado de constante tensão, permanentemente ameaçado por crises internacionais e genocídios. O leitor que se interessar pelo livro não deve procurar relatos românticos como as peripécias do Barão Vermelho, as típicas histórias de amor entre soldados e enfermeiras ou lições morais advindas da experiência dos campos de batalha. Trata-se de uma narrativa cinzenta, crua, desprovida de esperanças ou respostas. Fome, doenças, mutilações, medo, desespero... A mais torpe matéria real serve de inspiração para um texto sem concessões. Apesar de geralmente atribuída ao fato de Remarque ter sido jorna-

lista, a objetividade da linguagem beira o fracasso da forma, mas sua secura e simplicidade acompanham os personagens, cuja juventude vigorosa de outrora sucumbe ao horror, à falta de perspectivas, ao ocaso do idealismo e da virtude. Não cabia uma prosa na qual o poético ou o esmero sublimasse o impacto da denúncia. Afinal, esse é um dos elementos que justificam a permanente atualidade do livro e seu status de clássico: a inconciliável distância para com a estética de guerra que a literatura e o cinema construiriam ao longo do século, tantas vezes cobrindo de glamour ou poesia o sangue derramado nas trincheiras. Além do que é das raras obras do gênero escritas por germânicos a ter alcançado prestígio internacional, já que a história é comumente contada pelos vencedores. Nada de novo no front foi traduzido para dezenas de idiomas e tornou seu autor o mais lido em língua alemã no mundo, depois de Goethe. Também foi levado às telas em 1930, numa película que conquistou as duas principais estatuetas do Oscar, filme e direção (para Lewis

Milestone). Infelizmente, o longametragem ainda não saiu em DVD, assim como a efeméride dos 80 anos não propiciou uma nova edição do romance. Foi lançada apenas uma edição pocket, sem nova tradução ou exegese. Que libelo pacifista poderia ter destino diferente numa Alemanha que se preparava para a Segunda Guerra? O livro foi execrado pelos nacionalistas que trabalhavam pela ascensão do nazismo, e Remarque forçado a exilar-se na Suíça e, posteriormente, nos Estados Unidos. Seria longe de sua pátria que assistiria à hecatombe da maior de todas as guerras, e onde seguiria escrevendo livros sobre o absurdo do belicismo. Remarque nasceu Erich Maria Kramer, em Osnabrück, no dia 22 de junho de 1898 (portanto, há exatos 110 anos). Tornou-se soldado, foi para o combate e sofreu um grave ferimento durante batalha. Típico jovem alemão, de sólida formação educacional, engajado no processo de construção de uma nação próspera e orgulhosa de suas realizações políticas e intelectuais, trilhou o caminho comum de sua

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Mas, após 1918, levaria anos para transformar o trauma da guerra e as anotações num retrato ficcional daqueles homens que, segundo Walter Benjamin, “voltavam mudos do campo de batalha, não mais ricos, e, sim, mais pobres em experiência comunicável”. Seu protagonista e narrador é Paul Baumer, um sobrevivente que descreve os dramas e as incontáveis perdas de seus compatriotas nas trincheiras. Da preparação até a lama e o terror dos abrigos em plena frente, a trajetória é contada aos pedaços, fragmentando a temporalidade do enredo. Mesmo as lembranças dos tempos de paz chegam em mosaicos de cores frágeis, que lembram a dolorosa nostalgia de um leito de morte. Em verdade, o livro todo é isso, a alternância entre a selvageria da luta pela sobrevivência diária e a presença indelével da morte (física ou de espírito). Não existe meio termo: ali nada se ganha, tudo se perde. “A paz dessas recordações de outros tempos é a razão pela qual nos despertam menos o desejo do que a tristeza: uma estranha e desconcertante melancolia”. Apesar de confessar surreais momentos de diversão – como nas conversas dos soldados que defecam ao ar livre ou recebem um prato extra de comida, ou até mesmo ao se vingarem de seu sádico instrutor –, Baumer está cônscio da metamorfose que lhes causa a brutalidade do cotidiano bélico: “Juventude? Não temos mais de 20 anos. Mas, quanto a sermos jovens? Quanto à mocidade? Isto já acabou há muito tempo. Somos uns velhos”. E o leitor que resiste ao

sofrimento inscrito nas páginas também sai envelhecido. Nenhuma experiência que tenha o vestirá de uma armadura contra a o efeito arrasador de toda a baixeza, crueldade e violência às quais foram impostos tantos homens que, durante os capítulos, vão deixando de ter nacionalidade, cor, classe ou credo. Tornam-se uma consumada e vergonhosa lembrança de nossa capacidade de destruição. Talvez o próprio Remarque tenha sentido o peso com o qual blindou o romance, impedindo que algum sol invadisse as frestas da

narrativa. E, assim, no último momento, surpreende o leitor com a fala de um Baumer que se diz tranqüilo, certo de que ainda tem sua vida “nas mãos e nos olhos”... Todavia, nada impede que mesmo o protagonista tenha um fim trágico. Ele e todos nós. A sensação derradeira é a de que jamais saímos daquele front. A imbecilidade das guerras, genocídios e qualquer outra violação dos Direitos Humanos segue ratificando a atualidade dessa obra, e impede que aquela lama rubra e selvagem dos campos de batalha se conforme numa argamassa histórica e sublimada.

Reprodução

Nada de novo no front foi um verdadeiro libelo pacisfista de E. M. Remarque

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LITERATURA

As baladas do Nós Pós Grupo organiza encontros literários com o compromisso de divulgar a obra de escritores contemporâneos Yuri Bruscky

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udo começou há pouco mais de um ano, quando, ao retornar de uma temporada em São Paulo, o escritor Artur Rogério teve a idéia de organizar algo como uma série de “baladas literárias”: ocasiões cuja tônica repousa na apologia do bom e velho bar como profícuo espaço de intercâmbio cultural. Externada a idéia a alguns amigos e parceiros, organizou-se a primeira reunião daquilo que viria a se tornar o grupo Nós Pós, realizada em setembro de 2007. Participaram deste primeiro encontro, além do próprio Artur, Alex Guterres, Ricardo Wanderley, Igor Pires, Samir Benjamim, Aroma Bandeira, Alexandre Melo, Ana Maria Pereira, Danuza Montenegro e Jhonatan Sodré, entre outros. Destes, apenas os quatro últimos permanecem como núcleo fixo de produção. Naquele momento fundante, foram traçadas algumas das linhasmestras que norteiam o grupo até o hoje, quais sejam: o compromisso com a divulgação do que se tem

produzido em termos de literatura e demais artes em Pernambuco; o fomento da reflexão em torno desta mesma produção; e a promoção da permuta criativa entre sujeitos que, independentemente dos nichos estéticos em que se encontrem inseridos, compartilhem o apreço por uma ou mais expressões artísticas. E não só: acertouse também o primeiro evento, que ocorreu em outubro daquele ano e teve como base o boteco Quintal do Lima, em Santo Amaro. Além dos próprios integrantes, participaram da estréia, como convidados, o poeta Jailson Marroquim e o escritor Raimundo Carrero. O público de então era composto basicamente por pessoas próximas aos membros do coletivo e alguns fregueses costumazes. Contudo, não tardaria para que a boa nova se espalhasse, de modo que já no terceiro encontro o público havia se expandido consideravelmente. Passada a sua sexta edição, o evento se transfere, em virtude, sobretudo, do quesito lo-

calização, para o bar Burburinho, no Recife Antigo, onde permanece até hoje, com periodicidade mensal. Para Alexandre Melo, responsável pela produção dos encontros, “a mudança para o Burburinho foi positiva, pois a sua localização é mais acessível, a área é mais movimentada etc. Isso contribuiu para aumento do público. A estrutura interna do bar nos permite climatizar mais o evento (o que consideramos muito importante – decoração, ambientação e iluminação), e que contribui para a grandiosidade do ‘espetáculo’ ”. No que tange aos encontros propriamente ditos, sua estrutura organizacional pouco se alterou ao longo desses 12 meses. É costume chamar seis escritores e, sempre que possível, um expositor de artes visuais, além de um “mestre de cerimônias”, que se responsabiliza pela apresentação dos convidados. Os critérios para a escolha independem de gêneros e estilos, bastando que os escritores enviem seus textos

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Imagens: Divulgação

Firmar-se como uma estrutura auto-sustentável é o desafio do grupo que faz o Nós Pós

para apreciação. Uma grande novidade foi o lançamento, em outubro deste ano, da revista Pó!, na qual foi publicada uma seleção de textos de escritores que já passaram pelos eventos, com programação visual de um designer convidado. Um dos principais percalços na trajetória do Nós Pós é comum a praticamente toda iniciativa cultural independente: a dificuldade de se firmar como uma estrutura auto-sustentável. Mas isso, ao contrário do que se poderia imaginar, não parece abatê-los. “Acho que existe uma grande resistência por parte da iniciativa privada em patrocinar projetos de cunho literário (o Nós Pós é uma prova disso, por fazer um trabalho de qualidade e de grande repercussão e não ter patrocínio), mas continuamos procurando. Depois de um ano de projeto, podemos dizer que estamos felizes com os resultados que obtemos. Apesar de não haver retorno financeiro (mantemo-nos com o couvert dos eventos...), podemos dizer que o retorno por parte do público, im-

prensa e crítica é muito grande”, comenta Alexandre. Sobre a atuação do grupo, o professor Anco Márcio Vieira Tenório, editor da revista Investigações, do Programa de Pós-Graduação em Letras/UFPE, avalia que “a estratégia dos que fazem o Nós Pós, que é a de aglomerar jovens escritores, de sintaxes diversas, sob o mesmo guarda-chuva, foi perseguida por todos os grupos de vanguarda ao longo do século 20. É uma estratégia inteligente, pois traz para si a atenção dos leitores. Claro que, como todo grupo que se abriga sob um mesmo guarda-chuva, ele tem data para se dispersar (só não sabemos quando). Natural, pois muitas das vozes que ali se abrigam partem de princípios estéticos e filosóficos diversos. Mais: as vozes são desiguais”. E completa: “Iniciativas como a do Nós Pós são mais do que salutares. Já estava na hora da literatura reagir em Pernambuco. Não esquecer que foi sob o abrigo de um mesmo guarda-chuva que

nasceu e se firmou o Manguebeat, mesmo que os sons e os ritmos que ali se abrigavam fossem diversos”. Inquirida sobre a pertinência de se caracterizar, diante da emergência de novos autores, uma “nova literatura pernambucana”, que encerre em si elementos estético-formais distintivos, Ana Maria Pereira é categórica: “qualquer pergunta sobre o que é ou não ‘novo’ é sempre difícil de responder. Saber se é ou não nova a narrativa utilizada nos romances e contos, ou se a poesia está menos rimada e se isso é novo, bom, não é o trabalho a que nos propusemos. Existe grande dificuldade de se compor um painel da literatura, hoje, em Pernambuco. Ela está fragmentada em diversas linguagens. De forma que, quando falamos de ‘novo’, falamos da literatura atual, desconhecida, ainda não publicada. Também não falamos de geração nem de idade. Desde que entramos nessa, ficou a certeza de que quase tudo, quando se fala de literatura, é desconhecido do grande público. Podemos dizer apenas é que percebemos a literatura pernambucana nos últimos tempos com novos ares, vontade renovada de viver”. Planos para o futuro? Muitos. Dentre os mais modestos estão a eliminação do couvert que, segundo os próprios, “limita o acesso”, mesmo sendo a sua única fonte de renda, e a consolidação da revista Pó! como uma publicação de periodicidade estável (bimensal). Além destes, destacam-se a ativação do site do Nós Pós, cujo desenvolvimento está empacado por falta de verba, a edição da revista Português Suave, com textos, críticas e outras informações sobre literatura e arte, o incremento na organização de palestras e oficinas e a edição de uma grande antologia anual com os melhores textos apresentados nas noitadas literárias. Aguardemos, então. DEZ 2008 • Continente x

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MÚSICA

livros

As relações entre pessoas, arte e ditaduras

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mar, ladeado por placas História natural da de ferro que a maresia ditadura Teixeira Coelho enferrujou, aberto apeIluminuras nas no teto, que dá para 304 páginas 44,00 reais o céu. A ponto de chegar às águas, o túnel é obstruído por uma parede de vidro temperado. A simbologia parece clara. Benjamin, fugindo da França ocupada pelos nazistas, tenta chegar à Espanha para de lá alcançar Portugal e um vôo para os EUA. Os soldados franquistas, entretanto, impedem sua passagem e o intelectual judeu, temendo ser deportado para os campos de concentração, suicida-se. Percorrendo o túnel da opressão, chega a contemplar a liberdade, mas não pode prosseguir. O trabalho do artista plástico Leon Ferrari sobre a ditadura argentina é outro ponto elaborado neste livro magnífico, que enfoca ainda as relações entre um filme de Louis Malle e o golpe de 64. (Marco Polo)

> Em busca de alguma verdade

> Quando a razão recai no mito

> Os tormentos de uma noite insone

> Um novo modo de ver e pensar a TV

O francês André Comte-Sponville é considerado um dos filósofos mais representativos da atual cena intelectual francesa. Adepto de uma prosa clara e direta, herdeira do cartesianismo, o pensador de tendência humanista, materialista e racionalista, segue caminho oposto ao assumido por alguns de seus contemporâneos influenciados pelo relativismo e niilismo pós-modernos. Nesta obra, recentemente traduzida para o português, Comte-Sponville trata de dois conceitos, “verdade” e “valor”, muito desgastados ultimamente. Trata-se de uma obra que sai do ambiente fechado da academia e se atira, com pertinência, ao debate público contemporâneo. (Eduardo Cesar Maia)

Nos anos 50, o filósofo Theodor W. Adorno pesquisou a coluna astrológica do jornal Los Angeles Times, escrita por Carroll Righter, um famoso guru de atores de Hollywood. Adorno investigou detalhadamente o efeito que essa publicação causava nos leitores da época. Nessa reação, os desejos, os medos, as fraquezas, enfim, as visões de mundo eram expostas. A coluna esotérica intencionalmente explorava a fragilidade emocional e as necessidades do ego dos leitores. A partir dessa constatação, o filósofo expõe um importante paradoxo da sociedade moderna: a capacidade de coexistência de uma racionalidade extrema com explicações ainda mágicas e mitológicas do universo e da causalidade. (ECM)

Entre a meia-noite e as cinco da manhã, personagens diversas relatam tudo o que pensam, enquanto a insônia permite. Ouvem-se sonhos de vida, desejos, contos alegres, tristes, cruéis, com esperança, histórias de medo e de encantar. A partir das lembranças e devaneios de cada personagem, somos transportados ao passado, revendo suas dores mais profundas, e vislumbramos lembranças mais recentes que terminam por ligar intimamente os personagens. António Lobo Antunes cria um quebra-cabeça fascinante, que aos poucos vai se revelando. A narrativa passa-se numa única noite, uma noite em que ninguém dorme, em que diversas vozes se entrelaçam. (Gabriela Lobo)

Há mais de 15 anos à frente de um núcleo de produção da Rede Globo, Guel Arraes é um dos responsáveis pela flexibilização do modo de se pensar e fazer televisão no país, através da contaminação mútua entre discursos audiovisuais e da inclusão em seus quadros de notáveis figuras do cenário independente dos anos 70/80, mesclando o experimentalismo às demandas de consumo que norteiam as redes comerciais. Em Guel Arraes: Um inventor no audiovisual brasileiro, organizado por Alexandre Figueirôa e Yvana Fechine, são analisados aspectos cruciais da sua obra, como as concepções ético-estéticas que lhe balizam a ação, as relações entre o cinema e a televisão e suas experiências em ambos.(Yuri Bruscky)

Fotos: Divulgação

este livro, o professor de ação cultural da ECA-USP, Teixeira Coelho (foto), não faz crítica, mas envolve a arte numa discussão inventiva. A partir de certas obras que diretamente refletem momentos de repressão política à sociedade, tece uma trama de comentários em que se mesclam impressões pessoais e racionalizações criativas. Por exemplo: em Portbou, fronteira da Espanha com a França, ele se depara com o monumento a Walter Benjamin, Passagens, criado pelo artista Dan Karavan. É um túnel escavado na rocha que desce para o

Verdade e valor André Comte-Sponville Martins Fontes 378 páginas R$ 49,80

As estrelas descem a terra Theodor W. Adorno UNESP 194 páginas 32,00 reais

Ontem não te vi em Babilónia António Lobo Antunes Alfaguara 49,90 reais

Guel Arraes: Um inventor no audiovisual brasileiro Alexandre Figueirôa e Yvana Fechine Cepe Editora 35,00 reais

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MÚSICA

Como viajar sozinho e tirar o máximo proveito

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escritor e crítico de música José Teles (foto) faz um relato das vantagens de se viajar sozinho. Você acorda a hora que quiser, vai para onde der na telha e não precisa fazer visitas compulsórias a museus, monumentos e shows folclóricos, tendo que aturar a falação dos guias de turismo e os comentários às vezes absurdos dos companheiros de excursão. O escritor explica que, para se ter alguma vantagem em uma viagem solitária, dois requisitos ajudam muito, mesmo não sendo imprescindíveis: falar a língua nativa e ter um con he cimento

prévio do lugar. Aí dá para Eu e meu ray-ban, visitar as praias, livrarias e uma viagem José Teles biroscas locais com o vaEdições Bagaço gar de quem flana, livre e 104 páginas 20,00 reais despreocupado. Viajando por Portugal e Espanha, Teles tem o olhar certeiro de detectar curiosidades, como o engraxate que fuma cachimbo e lê um grosso livro, a seguradora Tranqüilizante, o vinho Periquita, o Licor de Merda, a médica chamada Cecilia Bagulho e o slogan “Por um Portugal mais fresco”. Além de revelar que numa praça de Lisboa, que leva o nome de Praça D. Pedro IV (que é como chamam lá o nosso D. Pedro I, o do Grito do Ipiranga), o que está no pedestal, inexplicavelmente, é uma estátua de Maximiliano, imperador do México. Coisas do país de nossos colonizadores. Tudo escrito com muita leveza e o humor que caracterizam o autor. (MP)

> Texto ameríndio em nova tradução

> Dois anos de boa vida em Paris

> Uma humanidade sem classificações

> Um panorama das origens da poesia

Cosmogonia ameríndia, o Popol Vuh foi escrito pelos maias na Guatemala, em meados do século 15. Esta edição integral da também chamada Bíblia das Américas, organizada pelo poeta e ensaísta Sérgio Medeiros e pelo especialista em literatura mesoamericana, Gordon Brotherston, foi baseada na primeira tradução direta ao inglês de Munro Edmonson, com consultas aos originais em maia-quiché. Texto abrangente e bem construído, o Popol Vuh se utiliza das mesmas idéias sobre as origens vitais das Idades do Mundo encontradas na escrita hieroglífica maia, na Pedra dos Sóis asteca e na Lenda dos Sóis. Vem acompanhado de estudos que explicam seu conteúdo e sua influência cultural nas Américas. (MP)

“Miller é um jorro de prosa, uma catarata, um vulcão, uma torrente, um terremoto. Um escritor finalmente como um grande atleta, um avatar fenomenal de energia literária”. É assim que outro gigante da prosa norte-americana, Norman Mailer, se refere a Henry Miller, o homem que escandalizou o mundo no início do século 20, ao relatar sem meias palavras suas experiências sexuais na Paris daquela época. Escrito em 1940, este pequeno relato autobiográfico conta dois anos de uma existência de boa vida no bairro de Clichy: “A primeira coisa que a gente nota, em Paris, é que o sexo está no ar. Aonde quer que você vá, faça o que fizer, você geralmente encontra uma mulher ao seu lado”, diz ele. (MP)

Professor de bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais, Sérgio Pena assina este ensaio em prol de uma sociedade desracializada, que cultive a individualidade de cada ser humano e permita que se assuma até uma pluralidade de identidades. Ele sustenta que não existem raças humanas, mas, sim, conceitos empregados para estudar populações e que acabaram sendo utilizados em esquemas classificatórios que parecem justificar a dominação de alguns grupos por outros, ou seja, atitudes de racismo. O que era um conceito meramente instrumental passou a perversamente ser utilizado como verdade, classificando o europeu como sério, o asiático como melancólico e o negro como preguiçoso. (MP)

Novo volume da coleção Roteiro da Poesia Brasileira, organizado pelo professor de Literatura Brasileira, Ivan Teixeira, cobre o surgimento dos primeiros versos escritos no Brasil: José de Anchieta, Bento Teixeira, Gregório de Matos, Botelho de Oliveira e Frei Manuel de Santa Maria Itaparica são alguns dos autores enfocados com estudo crítico e amostragem de sua poesia, com destaque para Gregório e Botelho, por sua importância. O livro traz também poemas da curiosa Academia dos Esquecidos, atuante no início do século 18, na Bahia. Bento Teixeira, com sua ficção histórica das origens do Brasil, a partir de Pernambuco, tem seu Prosopopéia apresentado integralmente. (MP)

Popol Vuh G. Brotherson/S. Medeiros (org.) Iluminuras 480 páginas 62,00 reais

Dias de paz em Clichy Henry Miller Editora José Olympio 112 páginas 22,00 reais

Humanidade sem raças? Sérgio D. J. Pena Publifolha 72 páginas 12,90 reais

Raízes Ivan Teixeira Global Editora 232 páginas 38,00 reais

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Foto: Carol Pires/Divulgação

REGISTRO

De volta à

Galiléia Primeiro romance de Ronaldo Correia de Brito mostra um autor maduro e dono de uma voz particular na literatura brasileira Artur A. de Ataíde

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s últimas notícias econômicas têm ensinado: de tal forma se tornou complexo o mercado, que, para avaliar propriamente a sua saúde, é preciso estar atento, simultaneamente, ao intercâmbio de meras promessas de que se constitui e aos valores em real circulação. Há, em outras palavras, um dinheiro virtual e um dinheiro real; quando se desencontram, vem a crise. Talvez se possa falar da literatura de hoje em termos análogos. Duas atitudes, nesse âmbito, seriam correntes: de um lado, há aqueles que confiam, inquestionavelmente, no valor que agregam a suas próprias publicações, ao vendê-las como “literatura”; de outro lado, há aqueles que já reconhecem a falência por detrás desse título – “literatura” – e que buscam, por meio de um trabalho real, a produção de valores reais. Em suma: há, igualmente, uma literatura virtual e uma literatura real. Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito, cheganos como um exemplar bastante representativo dessa segunda espécie. Os motivos que levam a essa avaliação são vários. O argumento de Galiléia é relativamente simples. Envolve, por outro lado, três personagens um tanto complexos: Adonias, o narrador, é um médico, pós-graduado no exterior, que reside e trabalha no Recife, onde constituiu família; Ismael, fruto indesejado da aventura amorosa de um comerciante rico do sertão cearense com uma índia da nação kanela, do Maranhão, já residiu na Noruega, onde foi preso depois de haver agredido fisicamente a esposa; Davi, um

pianista-prodígio, com passagem pelos Estados Unidos, pela França e Inglaterra, é filho do pai de Ismael com a esposa, uma paulista de ascendência italiana que o conheceu quando pesquisava, para sua tese de doutorado pela USP, a árvore genealógica de famílias tradicionais do sertão. O que Adonias narra é a viagem desses três primos – desses três sertanejos – de volta à fazenda onde viveram a infância, e onde os espera, no leito de morte, o avô que têm em comum. A viagem, logo descobrimos, é uma visita a subterrâneos ancestrais que dizem respeito, ao mesmo tempo, a um indivíduo – Adonias –, a uma civilização, que se torna cada vez mais complexa à nossa volta, e, finalmente, ao gênero humano no que nele possa haver de mais intrínseco e atemporal. Vejamos em termos mais concretos. Muito antes de a picape de Adonias, que também leva Ismael e Davi, cruzar os portões da fazenda Galiléia, já temos certeza da significação plural por detrás desse nome. A Galiléia, para o narrador, serviu de cenário para cenas traumáticas que nunca o deixaram de assombrar, cenas que vivenciou, mas que nunca compreendeu por inteiro. A tais lembranças se somam ainda a história de um amor inconfesso e o passado da própria família, povoado ele mesmo por seus vários fantasmas particulares: o assassinato passional, o adultério, o desejo homossexual, o incesto; todos camuflados pelas matas e paredes da proGaliléia priedade, e por um Ronaldo Correia de Brito Alfaguara Brasil pacto, tácito, de si240 páginas lêncio. Mas isso não R$ 34,90 é tudo. Enquanto Adonias confronta seus medos mais

recônditos, dando-nos a conhecer o novelo de narrativas que envolve a família, as estradas de asfalto vão cortando a caatinga, as motocicletas vão se multiplicando nas cidades pequenas, zunem por ruas estreitas repletas de lan houses – onde as crianças oferecem sexo via MSN, compartilham fotos e baixam MP3 – e param estacionadas na frente dos bares. Ali, ouve-se o forró tocado por músicos jovens, cobertos de piercings e tatuagens. Numa estrada próxima, as mulheres é que tangem o gado, montadas em motocicletas, e à caça, vez por outra, de passantes que notem o comprimento provocante dos seus shorts. Paralelamente à inquirição de Adonias e a esse fervilhar da cultura, vemos ainda se repetirem, à medida que avança a narrativa, histórias como a de Caim e Abel: outros são os nomes – nem sempre –, e outra é a geografia, mas a fúria é a mesma. Esses três planos, ao longo do romance, encontram-se, confundem-se. Motivo provável: o mesmo subterrâneo ancestral com que Adonias tenta se conciliar em termos pessoais, um subterrâneo de desejos e impulsos proscritos que o amedronta e divide, é o elemento que nos vem lembrar, de um modo sibilino, que a civilização, sim, existe, e desenvolve-se, mas nunca, nunca poderá anular o animal que somos. A violência desse animal, a um só tempo desejado e indesejado, do mesmo modo como assombra e seduz Adonias, infiltra-se agora nas páginas do Google, e assombra e seduz a suposta maioridade cultural por nós alcançada. É o mesmo confronto que, não raro, vemos se travar nas mais antigas páginas da Bíblia. A Galiléia – de Adonias, nosDEZ 2008 • Continente x

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REGISTRO sa e bíblica – encontra suas formas de perpetuar-se. Tão tortuoso é o diálogo com ela quanto é indispensável para a nossa integridade oscilante de espírito. A sua extirpação não será possível, nem desejável. A Galiléia, esse sertão, é de uma ambigüidade constitutiva: é onde Adonias viu se formarem seus maiores traumas e medos, mas é onde o corpo nu e alegre se banha nos açudes. O estilo do romance – e aí entramos num mérito que o distingue de muitos – deixa-se contaminar pela heterogeneidade rica de todo esse material. A narrativa oscila entre os grandes panoramas geracionais – ao modo conciso dos primeiros cronistas –, o diálogo cênico, a narrativa oral e o relato mais concreto, essencialmente visual, que desenrola vagarosamente a cena ante os nossos olhos, sem julgamentos, sem teorias. A sutileza da linguagem na captação de detalhes, aliás, como tais passagens atestam, diz respeito no romance não apenas aos sobressaltos íntimos, muitas vezes inexplicáveis, que se dão no ânimo de Adonias, mas também ao mundo em volta, às falas, aos pequenos gestos, às atitudes das personagens e às cenas mais corriqueiras. A intimidade do autor com o seu ofício, em todos esses casos, parece-nos tão maior quanto menos, a cada página, precise se anunciar. Os elementos do romance não são títeres a serviço desta ou daquela idéia fácil, ou de um narrador que exerça, de modo tão ostensivo quanto esterilizante, o seu poder sobre eles. Mesmo as transformações econômicas e culturais de nossa época, ali rastreáveis, surgem numa roupagem complexa que os discursos ideológicos não conhecem. A psique, a cultura, o mundo, no discurso de Adonias, mostram-se freqüentemente mais complexos do que os podemos, de modo peremptório, julgar, ou mesmo compreender. O resultado é o esperado: um leitor enredado pelo livro, e que mal pode esperar, página a página, para entender o que mais a Galiléia esconde. 60 x Continente • DEZ 2008

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Marcelo Lyra/Divulgação

Ópera popular Passados 25 anos de sua estréia, o encantamento provocado pelo Baile do Menino Deus não diminui Rodrigo Dourado

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Arilson Lopes, em cena do Baile do Menino Deus

lém de contista e cronista, Ronaldo Correia de Brito é também dramaturgo. E foi certamente o teatro que projetou seu nome no mundo das Letras. De sua autoria, contam-se cinco espetáculos para adultos: O reino desejado, Retratos de mãe – encenado no Recife por Antônio Cadengue; Malassombro – montado por Carlos Carvalho, com Augusta Ferraz no elenco; Auto das portas do céu – dirigido por Elisa Toledo Todd; e Os desencantos do diabo, levado à cena por Moncho Rodriguez. Mas foram, seguramente, os textos infantis que garantiram que sua obra se espalhasse por todo o Brasil. Entre eles, destaque absoluto para o Baile do Menino Deus, lançado inicialmente como LP, em 1983, pelo selo Eldorado. Com diálogos e letras escritos por Ronaldo Brito em parceria com Francisco Assis Lima, e músicas de Antônio Madureira, a peça teve sua primeira encenação realizada naquele mesmo ano, com direção do próprio Brito e produção da Práxis Dramática. A montagem, que marcou a estréia do autor e diretor, alcançou enorme sucesso, permanecendo sete anos em cartaz, com um elogiado elenco que contava com intérpretes como Walmir Chagas e Romero Andrade. “Fizemos o espetáculo em

diversos palcos, desde teatros e praças a ruas e cidades do interior pernambucano. Foi assim que o Baile do Menino Deus foi ficando conhecido”, lembra o autor-diretor. Desde então, a peça ganhou encenações de grupos profissionais, amadores e escolares em todo o Nordeste e também em outras regiões do país. Com a edição do texto pela Bagaço, em 1994, e a reedição pela Objetiva, em 2004 – distribuída para escolas em todo o Brasil –, a popularidade somente aumentou. “O Baile foi montado em escolas públicas e de classe média, e até por grupos formados por catadores de lixo, moradores de comunidades carentes em João Pessoa (PB), que chegaram a fazer turnê pela Itália; jovens drogados no Ceará e crianças portadoras da Síndrome de Down no Recife. Vale lembrar que o Grupo Galpão, de Minas Gerais, aproveitou algumas das canções no espetáculo A rua da amargura, o que me deixou bastante emocionado”, recorda o dramaturgo. Em Pernambuco, vale lembrar ainda da montagem do Balé Brasílica – do Balé Popular do Recife – que, de 1991 a 1995, se manteve em cartaz no Teatro Beberibe, projetando ainda mais esse auto de natal nordestino. Mas a que se atribui tamanho sucesso? O Baile do Menino Deus nasceu do desejo de fugir da comercialização dos festejos natalinos e do caráter eminentemente “importado” que a efeméride havia assumido. “Queríamos fazer um disco natalino com alma brasileira. Tanto para a classe média conhecer os valores da sua cultura quanto para o povo reconhecê-los numa outra forma”, esclarece Brito. Esse projeto de resgate da cultura popular gerou ainda outros três discos, que também DEZ 2008 • Continente x

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Marcelo Lyra/Divulgação

LITERATURA

O espetáculo Baile do Menino Deus em apresentação no Marco Zero, Recife

se tornaram espetáculos de grande sucesso: Pavão misterioso (1985), Brincadeira de São João (1987) e Arlequim (1989). No Baile, vemos dois Mateus, acompanhados por um grupo de crianças, procurarem pelas ruas de um antigo bairro do Recife a casa onde nasceu um menino, em cuja porta vê-se uma estrela da anunciação. Após procurar exaustivamente a morada, os brincantes encontramna, mas as portas teimam em permanecer cerradas. Depois de várias tentativas de abri-las, vemos sair da residência José, Maria e o Menino Jesus. Os Mateus, então, pedem licença para realizar uma grande festa em homenagem ao nascimento de Cristo. O espetáculo é, na verdade, uma grande ópera popular, com cantos, danças e partes dramatizadas, nos moldes do reisado, do cavalo-marinho e do bumba-meu-boi. O nome foi tomado de empréstimo a uma tradicional festa de natal baiana, chamada “Baile do Deus Menino”. Na versão de Brito, Assis e Madureira, além das inúmeras personagens extraídas das brincadeiras populares, 18 canções compõem o repertório, várias delas de grande sucesso massivo, como Romã, romã, Cantiga para acalentar o menino, Ciganinha e Jaraguá.

Desde 2004, o Baile do Menino Deus ganhou uma grandiosa e sofisticada encenação, apresentada no período natalino em pleno Marco Zero do Recife, sob direção do próprio Brito. Com o subtítulo, “Uma cantata natalina”, a montagem conta com uma orquestra de câmara, que executa as músicas ao vivo; coro adulto, coro infantil, solistas, bailarinos e atores, totalizando mais de 50 artistas em cena. A cada ano, cerca de 40 mil pessoas assistem ao espetáculo, gratuitamente, ao longo das três noites de encenação. Passados 25 anos de sua estréia, o encantamento pelo Baile do Menino Deus não diminui. “A celebração do nascimento de um menino divino nunca perde sua atualidade, porque revela a nossa própria divindade. Ao mesmo tempo, as pessoas se emocionam em ver um José e Maria tão próximos e semelhantes a elas. Todos se reconhecem felizes no casal e na criança, humanizados numa brincadeira popular”, justifica Brito. Neste ano, a encenação acontece nos dias 23, 24 e 25, no Marco Zero, a partir das 20h. Cenários, figurinos e arranjos musicais foram totalmente modificados. O objetivo é tornar o espetáculo ainda mais popular: “Na encenação de 25

anos do Baile, o maior investimento foi na interpretação das músicas. Preparamos um novo coro adulto, com a mesma proposta do disco gravado pelo selo Eldorado, em que as interpretações são populares. Tiramos qualquer acento lírico das canções. Assim, alcançamos maior uniformidade na linguagem do espetáculo”, explica. Ao comemorar um quarto de século, portanto, o espetáculo faz o caminho de retorno às suas raízes. Uma espécie de trajetória cíclica que, em tudo, reflete o tema do nascimento, da renovação. Nesse sentido, vale transcrever um dos versos de Mateus no qual se ouve o brincante dizer: “Senhores donos da casa, Jesus, José e Maria / O Baile aqui não termina, o Baile aqui principia / Do mesmo jeito que o sol se renova a cada dia / Da mesma forma que a lua quatro vezes se recria / Do mesmo tanto que a estrela repassa a rota e nos guia”. Que as palavras de Mateus façam assim esse baile renovar-se por mais 25 anos, que a natividade continue a ser o tema preferido pelo gosto popular e que, no lugar do jingle bells, possamos continuar ouvindo: “Romã, romã / quem aqui trouxer primeiro / romã, romã / uma pedra bem branquinha...”

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José Cláudio

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Auto-retratos comparados (I I)

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erminei a crônica Auto-retratos comparados falando dos meus dedos das mãos, não tão importantes, é verdade, para definir os rumos da humanidade. Quanto aos pés, nada a salientar; aliás, sim; e ao pé da letra: que as unhas vão-nos ficando grossas, duras, abauladas, salientes na idade provecta, justificando por essas qualidades o nome do marisco “unha-de-velho”. O mundo é assim: enquanto nos falta força para cortá-las, nossos movimentos já não tão fáceis, as unhas se tornam cada vez mais resistentes. Costumo apará-las com a tesourinha, mas até ao alicate resistem, mesmo botando de molho n’água morna. Ir à pedicure não faz parte da minha cultura, além de ter medo de pegar aquela doença horrível que faz crescer uma espécie de massa embaixo das unhas, passando até para as unhas das mãos, segundo ouvi dizer, incurável ainda por cima. Não sei como Cervantes cortava as dele, já que estávamos falando do autor de Dom Quixote na crônica anterior, do auto-retrato que faz no prólogo das “Novelas exemplares”: Garcilaso de la Vega el Inca declara nos “Comentarios Reales” que bastava esse pequeno invento, a tesoura, que os sul-americanos não conheciam, para recompensá-los pela invasão espanhola. Diz Cervantes que sua barba era loura e tinha ficado branca. Nisso estamos iguais, embora a minha nunca tenha sido loura nem castanha, mas afro-amerindianamente preta. Diz que usava bigode grande, coisa em que sempre fui discreto desde que meu tio Raphael, ao aparecimento das minhas primeiras penugens, aconselhou-me a não raspá-lo nunca, caso tivesse pretensões de ter bigode, para que os fios continuassem finos, lisos e bem acamados: um barbeiro, seu João, na Rua da Concórdia, resol-

veu raspar, eu já casado, enquanto caí no cochilo depois do almoço em sua cadeira e inda perguntou: “O senhor não usa bigode não, né?” Eu olhei e disse: “Não”. Minha filha, criança de escola, registrou isso numa de suas primeiras redações no dia dos pais, que a minha cara tinha ficado muito lisa. No bom sentido, acredito. Cervantes declara ter sido soldado durante muitos anos, cinco em cativeiro, onde aprendeu a ter paciência na adversidade. Quanto a mim, nunca servi. Caí no “contingente rural” durante a Segunda Guerra ou logo em seguida, já que completei 18 anos em 1950: acho que tinham medo de uma recaída, como de fato ocorreu, mas sem irmos às vias de fato, a chamada Guerra Fria, cuja maior perda foi a negação da Rússia de mandar para a retrospectiva de Picasso em Nova York os quadros do L’Hermitage em represália por os atletas americanos não terem comparecido às Olimpíadas de Moscou. Também nunca fui preso, embora concorde com o poeta Carlos Pena Filho no Episódio sinistro de Virgulino Ferreira, quando manda Volta Seca soltar os presos da cadeia “que o mundo já é prisão”. E a gente precise ter paciência principalmente depois do limite estabelecido pela Bíblia: “A duração da nossa vida é de setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o melhor deles é canseira e enfado” (Salmos,90,10). Te cuida, Samico.Te cuida, Abelardo da Hora, Bebé para os íntimos . “Porque sem Bébé/ninguém pode brincar”, hino do antigo bloco carnavalesco recifense “Bebé Chorão”. Cervantes parece sempre ter sido esbelto. Eu sempre fui gordo. Ultimamente diminuí, mas ando facilitando com regime: uma bolacha Maria, um cuscuz de rua, um pão-doce. Quando Gregório Be-

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Imagens: Reprodução

Cervantes parece sempre ter sido esbelto. Eu sempre fui gordo. Ultimamente diminuí, mas ando facilitando com regime: uma bolacha Maria, um cuscuz de rua, um pão-doce

zerra morava na casa de Miguel Arraes, na Argélia, o primeiro menino que chegasse da escola voltava para comprar pão-doce: o insigne conterrâneo nunca esquecera o tempo em que o apurado de ganhador só dava para almoçar pão-doce com caldo de cana. Terminei quase esquecendo o auto-retrato de Bocage, a que aludi no primeiro texto, não satisfeito em me comparar com Cervantes. Não aquele Bocage que evoca o grande Camões: “Camões, grande Camões, quão semelhante / Acho teu fado ao meu quando os cotejo! / Igual causa nos fez perdendo o Tejo”, nem o “Já Bocage não sou!...”, embora quem sabe pudesse daí inventar, a partir do Tejo , alguma ligação não digo com o mo-

Bocage. Na página ao lado, primeira ilustração de Dom Quixote, Lisboa, 1605

desto Ipojuca ao menos com o Capibaribe, também rio de poetas. Falo da aparência física do jovem Manuel Maria. “Magro, de olhos azuis, carão moreno”. Magro, como disse, nunca fui. Voltando à minha filha Maria, no princípio do regime ela se espantou com a minha magrém. Mas minha cintura continua impávida. Se magro não me imagino, de olhos azuis pior. Só se for por alguma doença. “Carão moreno” no Brasil não tem nada de especial e o moreno em Portugal deve ser diferente do daqui. Tenho uma amiga branca da cor de leite que na sua Espanha natal é considerada morena. Eu da Bahia para cima sou considerado branco, mas no Portugal setecentista talvez o próprio Bocage me arrolasse entre os netos da rainha Ginga. “Bem-servido de pés, meão na altura”: minha altura deve ser a mesma de Bocage que quando assentou praça media aos 16 anos 1,66m; como dizem que se cresce até 18, ele deve ter passado aos meus 1,70m. Calço 42, mas bastava 40; meu filho, bem mais alto do que eu, calça 41. “Triste de facha, o mesmo de figura”: não acredito numa fachada triste em Bocage, com a estampa de sua obra satírica, nem me considero triste. A não ser pela tristeza humana de saber que se morre. “Nariz alto no meio e não pequeno”: o meu, não alto no meio, não sei se “não pequeno” pelos padrões portugueses. “Incapaz de assistir num só terreno”: pelo contrário, feliz de aqui assistir, devendo travar meu embate com a “ferrugente enxada” no cemitério de Guadalupe, bem pertinho. Dá para ir a pé, os pés pra frente, levado pelos pés dos outros. DEZ 2008 • Continente x

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Releituras míticas da mulher

Divulgação

MÚSICA

Primeira coleção de DVDs de óperas contemporâneas brasileiras mapeia o múltiplo imaginário da veterana compositora Jocy de Oliveira, que se divide entre o Rio e a Alemanha Carlos Eduardo Amaral

Cena da ópera Kseni – A Estrangeira, de Jocy de Oliveira

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ransgressora. Imigrante. Bárbara. Terrorista. Mulher.” Desde o início da ópera Kseni – A estrangeira, quando a protagonista assume de peito aberto os rótulos impostos pela sociedade onde vive, reaparece o eterno conflito entre a personalidade do indivíduo e as convenções sociais, entre a ousadia e a incompreensão alheia. Os elementos cênicos siderais e atemporais evitam que pensemos que Kseni representa uma minoria étnica, religiosa ou racial – com o intuito de que percebamos que todas as acusações sobre a estrangeira vêm da natural condição de mulher. O drama de Kseni poderia ser analisado sob a ótica da banalização do mal de Arendt, já que a sociedade que acusa a estrangeira não tem consciência do prejuízo que está impondo a ela, pois inconscientemente só reivindica a restituição da ordem social vigente; poderia ser problematizado mais profundamente sob a análise dos fatos e mitos que delimitaram o agir feminino na sociedade, abordados por Simone de Beauvoir; porém, um antigo mito em particular, que serviu de ponto de partida para Kseni, guia melhor a compreensão do enredo: o de Medéia. Em vez de assassinar a amante e os filhos, tal qual Medéia, Kseni (que não tem origem nem destino, como o bíblico Elias) lança uma profecia e abandona o mundo onde se encontra. Em outro plano de realidade, ela se purifica do desprezo lançado pela sociedade através da água, que se mistura ao próprio sangue: Who cares if she cries? – frase de uma melodia anônima renascentista sobre a Ofélia de Hamlet. Mesmo assim, Kseni suporta uma tormenta de vozes em várias línguas, condenando-a:

“Nenhuma mulher civilizada faria isso”, paráfrase da frase original de Eurípedes, modificando a palavra “grega” por “civilizada”, mas com o mesmo sentido. Por fim, Kseni retorna à sua terra para libertar em definitivo as gerações futuras de sua pesada profecia. Segundo Jocy de Oliveira, Kseni – A estrangeira, a mais recente das seis óperas da coleção de DVDs da compositora nascida em Curitiba, baseia-se no “direito de ser diferente”, em reação ao que o mundo hegemônico chama de “civilizado”. As duas versões da peça multimídia – a alemã, de menor aparato cênico e focada na protagonista, estreada quando Kseni era ainda um work in progress, e a brasileira, que tem uma concepção cênica e audiovisual mais elaborada – ocupam todo o primeiro DVD do box. Outras três óperas da coleção, que formam uma trilogia, voltamse especificamente aos valores e à mítica do feminino: Inori – A prostituta sagrada, Illud tempus (ambas no DVD 3) e As Malibrans (no DVD 2). Inori busca, através da antiga figura da prostituta encarregada de iniciar os homens na puberdade, um resgate da relevância da mulher nas sociedades matriarcais. Illud tempus (“Tempo de agora e de sempre”), por sua vez, constrói um “conto de fadas contemporâneo”, formado por sonhos de mulheres, histórias Yanomami e fragmentos de mitos femininos. As Malibrans, uma síntese entre o enfoque sociológico de Inori e o onírico de Illud tempus, viaja ao imaginário alienante das divas, das artistas que exerceram fascínio coletivo e perderam a própria identidade ao se transformar em deusas ou semideusas, ante o desejo dos homens. Personagens marcantes do universo operístico interpretados por Maria Malibran (1808-1836) – DEZ 2008 • Continente x

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preciso fazer uma ressalva ao dizer que Jocy de Oliveira compõe óperas, como está sendo dito até aqui.

A soprano Gabriela Geluda na pocket ópera Solo (2006/2007), de Jocy de Oliveira

tal qual a rossiniana Desdêmona e a Ifigênia de Gluck – dramatizam os conflitos de personalidade da lendária diva que morreu em um acidente de cavalo no auge da fama. O cerne desses conflitos fica mais bem-entendido com a participação especial de Fernanda Montenegro, que interpreta uma “diva vir-

tual”, vista pelo público somente por meio de projeções, e aparece ora caracterizada para entrar no palco, ora ao natural, sem maquiagem nem figurinos vistosos. Fragmentos de óperas tradicionais, como Lakmé e A sonâmbula, tornam As Malibrans mais familiar ao ouvinte do que as demais óperas da coleção, porém é

Uma das pioneiras da vanguarda nacional, Jocy conviveu com o mainstream mundial da música contemporânea nos anos 60 e 70, época em que foi casada com o maestro Eleazar de Carvalho e trilhava a carreira de intérprete. Tocou obras dedicadas por Stockhausen, Berio, Nono, Boulez e Messiaen (do francês, a pianista assinou ainda a primeira gravação brasileira de Vinte visões sobre o Menino Jesus) e sob regência de Stravinsky, daí é natural que tenha desenvolvido uma linguagem arrojada e que suas óperas sejam, apropriadamente falando, espetáculos multimídia. Jocy de Oliveira compõe e dirige as próprias produções e ainda coordena o ensemble instrumental que,

Santa, venerada como diva (ou vice-versa)

O

panteão de divas da “mitologia” da música clássica foi sendo povoado por diversas cantoras e instrumentistas nos dois últimos séculos. Do lado de fora do panteão, maestrinas e compositoras, minoria acentuada na História da Música, não lograram nem em construir uma imagem feminina de seus misteres nem em formar uma legião de fãs que proporcionasse a elas o necessário glamour para elevá-las nos céus. Depois do pioneirismo da francesa Nadia Boulanger (18871979), que abriu os caminhos femininos da regência no Velho Mundo e nos EUA (Continente, outubro de 2006), maestrinas como a norte-americana Marin Alsop e a uruguaia Gisèle Ben-Dor têm recebido significativas críticas

A alemã Hildegarda de Bingen

internacionais. No Brasil, onde hoje se evidencia a paulistana Lígia Amadio, Chiquinha Gonzaga (1847-1935) conduzia suas pró-

prias operetas, antes de Boulanger nascer. Entre as compositoras que romperam as convenções sóciomusicais de seus tempos estão: Barbara Strozzi (vide Agenda Música); a norte-americana Amy Beach (1867-1944), que reduziu a carreira de pianista a pedido do marido, mas passou a compor estimulada por ele; a precocemente falecida Lili Boulanger (1893-1918), irmã de Nadia; a abnegada Clara Schumann (1819-1896), que tocava piano e dava conta da numerosa prole e do marido famoso; e Fanny Mendelssohn (1805-1847), cuja morte prematura contribuiu para a de seu irmão, pouco depois. Atualmente, a russa Sofia Gubaidúlina atrai os holofotes mundiais, enquanto no Brasil se destaca a carioca Marisa Rezende.

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CONCERTO Fotos: Divulgação

O Recife recebe mais um Virtuosi

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Jocy, diante de uma foto de Maria Callas, vestida de Medéia

em vez de se posicionar no tradicional fosso, atua efetivamente em meio aos cantores e atores. O catálogo da compositora inclui peças teatrais, instalações multimídia em planetários e intervenções

No entanto, não existiu compositora mais impressionante que a abadessa, filósofa e mística alemã Hildegarda de Bingen (1098-1179), cujas funções – que encarnou brilhantemente – incluem a de diplomata (evitando conflitos entre Barba Roxa e o Papa), herbolária (atuando como um clínico-geral medieval, pelo saber de prescrever ervas), médica (os dois únicos tratados remanescentes de medicina do século 12 eram seus), poetisa e compositora (concebendo obras musicais cênicas mais de 400 anos antes da ópera e rompendo o anonimato autoral). Hildegarda viveu muitíssimo antes das divas que conhecemos, todavia seu vasto conhecimento fez com que fosse venerada como santa por católicos europeus desde sua morte – ainda que hoje seu título seja apenas o de beata.

urbanas. Um pouco disso tudo está presente nas duas óperas mais antigas e conceituais da coleção, gravadas no final dos anos 80 (DVD 4): Fata Morgana, na qual toda a música é eletroacústica e feita em tempo real, e a “alegoria cósmica” Liturgia do espaço. As óperas de narrativa deliberadamente alinear da compositora residente no Rio e na Alemanha perdem muito da comunicabilidade, se somente ouvidas. Nos DVDs, os making of se somam a uma brochura com detalhes das partituras e libretos e um resumo da fortuna crítica das apresentações no Brasil, no Velho Mundo e nos EUA, a fim de dar subsídios para o espectador. Este, então, compreenderá melhor o ideal artístico de Jocy: “Projetar o ouvido para o futuro” – ideal que só pode ser concretizado por compositores que exercem o direito de ser diferente.

m sua 11ª edição, Virtuosi traz mais uma vez ao Recife nomes consagrados da música de concerto. São cerca de 80 músicos convidados de diversas partes do mundo que vêm ao Brasil para o Festival que, este ano, também terá sua edição paulista e homenageia o pernambucano Naná Vasconcelos, um dos maiores percussionistas do mundo. Além da programação normal, que conta com nomes como: Philippe Jaroussky, Yamandu Costa, Benjamin Sung, Jerome Ducros e Ilya Gringolts, o Virtuosi pela paz volta em sua segunda edição com uma maratona de 24h de música de concerto. Uma surpresa será a estréia nacional de Elegia: Neve em junho do compositor chinês Tan Dun. A obra, vencedora do Oscar de melhor trilha sonora pelo filme O tigre e o dragão, será executada sob a regência de John Boudler.

(Gabriela Lobo)

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MÚSICA

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s origens do Movimento Armorial remontam à década de 70, quando Ariano Suassuna, junto com nomes como Francisco Brennand, Raimundo Carrero e Gilvan Samico, dedicou-se a realizar arte erudita a partir de manifestações culturais populares. A intenção era produzir uma arte de fato ligada às raízes culturais brasileiras. Na música, o seu principal destaque foi o Quinteto Armorial, liderado por Antônio José Madureira, que usava instrumentos como o pífano, a

rabeca e a zabumba para executar músicas eruditas. Na década de 90, visando continuar e atualizar as propostas do Movimento Armorial para a música, surgiram grupos como o Quarteto Romançal – liderado pelo mesmo Antônio José Madureira – e o noneto SaGRAMA. Este último alcançou maior reconhecimento nacional pela produção da trilha sonora de O auto da compadecida, filme baseado na peça teatral de Ariano. Neste mês, SaGRAMA lança o seu sétimo CD, intitulado Chão batido, palco, picadeiro.

Neste novo trabalho, o noneto – comandado pelo flautista Sérgio Campelo e que tem como integrantes Cláudio Moura, Antônio Barreto, Crisóstomo Santos, Frederica Bourgeois, Fábio Delicato, João Pimenta, Tarcísio Resende e Hugo Medeiros – continua explorando os motivos populares nas suas produções. De acordo com Campelo, o CD começou a ser gravado há mais de um ano e já era uma idéia antiga do grupo. “Nosso último disco, Tenha modos, foi baseado no ciclo carnavalesco. Agora,

Chão, palco e picadeiro

Em seu novo CD, SaGRAMA continua criando música erudita de altíssima qualidade a partir de temas tradicionais Divulgação

Diogo Guedes A atual formação do noneto SaGRAMA

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a gente resolveu puxar mais para o lado do ciclo junino”, explica. O nome do disco tem origem na divisão das músicas na obra. A primeira parte, com sete músicas, é chamada de Chão batido. Nela, predominam os motivos tradicionais em suas formas mais cruas, primitivas. O início do CD, para Campelo, “representa a música da cultura popular, a música de raiz, que acontece no sertão e no interior de Pernambuco”. Em seguida, vem Palco, que começa com uma bela participação de Wagner Tiso em Candeias. Na quatro canções desse trecho, SaGRAMA retrata a música erudita construída através dos motivos populares. Fica clara essa diferença a partir da maior complexidade dos movimentos, merecendo des-

taque também o belíssimo arranjo de Porto da saudade, de Alceu Valença. A última parte é a mais descontraída. “O Picadeiro é a passagem, a música itinerante. É como a música que não é erudita, mas também não é uma música primitiva, inicial”, explica o flautista. Neste trecho, vemos Escorregando, música de Ernesto Nazareth com participação do elétrico Yamandu Costa, descrita por Campelo como um maxixe em forma de baião, sofrendo também influência da “pegada” do violonista gaúcho. A primeira música do disco, Vaquejada, tem participação dos fundadores do Quinteto Violado, Marcelo Melo e Toinho Alves, sendo dedicada à memória do último, falecido em maio deste ano. “Nós gravamos com Toinho em janeiro, quatro meses antes da morte dele”, conta Campelo. O flautista também comenta que a canção é uma forma de homenagear o Quinteto, de forte influência sobre o trabalho do SaGRAMA: “O Quinteto Violado é um grupo que abriu o caminho dos ritmos da música pernambucana”. Chão batido, palco, picadeiro foi a gravação mais cara do SaGRAMA, segundo Campelo. Um dos motivos do alto custo do CD foi o alto preço pago para conseguir a liberação dos direitos autorais de diversas músicas de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, para executar a canção Mundo do Lua, seleção de trechos de obras da dupla. Além disso, o projeto da Lei

Rouanet, patrocinado pela Petrobras, previa a participação de dois grandes nomes da música brasileira no trabalho. Campelo explica as suas preferências: “Acho que a gente escolheu o músico instrumentista que está mais em evidência, o Yamandu, e um músico que tem mais experiência, que é o Wagner Tiso”. O pré-lançamento de Chão batido, palco, picadeiro acontece no dia 3 dezembro, no Teatro de Santa Isabel. Na ocasião, o novo disco será vendido a 15 reais, devendo sofrer aumento no preço depois de chegar às lojas. Depois, SaGRAMA realizará uma turnê – ainda sem datas definidas – por Brasília, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Recife, devendo contar com a participação nos shows de Yamandu e Tiso. Com Chão batido, palco, picadeiro, SaGRAMA continua o seu caminho de diálogo com as tradições rústicas. Não é à toa que o grupo é tão respeitado nacionalmente, pois sempre soube beber dos folguedos autênticos sem cair na armadilha de apenas querer a sua preservação e repetição, sempre recriando. E essa junção da beleza do tradicional com elementos eruditos nos parece bem simples nas canções do noneto e nas palavras do seu líder: “A música do SaGRAMA nada mais é do que uma música da cultura popular numa linguagem mais elaborada”.

SERVIÇO Chão batido, palco, picadeiro SaGRAMA Humaitá Edições Musicais 15,00 reais (no lançamento)

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MÚSICA

Mano da peste

Doses certas de rap e repente dão o tom do novo CD de Zé Brown Thiago Lins

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té certa idade, o menino José Edson da Silva não tinha perspectiva do que queria na vida. Havia repetido cinco vezes a quinta série, a sexta, três vezes. O que pode explicar – mas não justificar – sua expulsão de duas escolas. José, hoje Zé Brown, se formou na rua. “Foi lá que aprendi a valorizar a vida, depois de ter visto gente destruindo família e morrendo por besteira. Até me admirava quando chegava um cara de moto, becado (gíria para quem anda na moda), mas, esses aí, hoje em dia, tá tudo finado”, conta, sublinhando o status que, para os traficantes, vem com tanta facilidade quanto a morte. Os fatos fizeram o jovem parar para pensar. E, em 89, Zé Brown conheceu a obra dos paulistanos Thayde & DJ Hum, precursores do hip-hop nacional. “A realidade que eu vivia estava nas letras dos dois. Foi ali que a música bateu. Porque eu já conhecia o rap americano, a batida, mas como eu ia entender as letras?”, lembra.

Quando o hip-hop entrou na vida desse “legítimo filho da rua”, ele já conciliava a formação que teve no interior (sua mãe fazia o figurino do maracatu rural de Nazaré da Mata, zona da Mata Norte de Pernambuco) com as referências urbanas. Já no efervescente Alto José do Pinho, Brown começou a freqüentar rodas de capoeira. Foi numa dessas idas que viu uma roda de break, junto à de capoeira. Contada hoje em dia, a cena perde força, considerando a familiaridade com que os pernambucanos vêem o hibridismo. Há 20 anos, antes dos caranguejos com cérebro, era bem diferente. O antigo grupo de Zé Brown, o Faces do Subúrbio – que, apesar de ter estacionado em 2003, vai voltar, garante – era híbrido em sua formação: “Almir (guitarra) era metaleiro, Garnizé (bateria) era mais percussivo, com influência de candomblé, umbanda... Já Marcelo Massacre (baixo) era puro punk rock hardcore, enquanto eu já curtia rap tradicional... O laboratório começou mesmo no Faces”, afirma.

O rapper já esboçava traços do repente na banda. Tanto que, quando Thayde & DJ Hum lançaram Assim caminha a humanidade (2001), admitiram abertamente a influência do Faces para compor a faixa Desafio do rap embolada, com participação de Chico César. Para o jovem que tinha quebrado a radiola da mãe dando uma de DJ, e que tinha de usar uma lata de doce como pandeiro, foi um reconhecimento e tanto. Mais tarde, Brown conheceria a dupla, referência para ele, pessoalmente. Brown gosta de frisar que aprendeu quase tudo sozinho. Ao longo da entrevista, concedida em sua casa – por onde já passaram manos como Marcelo D2, Mano Brown (Racionais MC´s) e o saudoso Sabotage – no Alto José do Pinho, o agora repentista não mencionou uma figura de irmão mais velho ou de pai. Certa vez, perguntou a um amigo como aprenderia o break, ao que o segundo respondeu: — Você olha e tenta fazer.

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O rapper aprendeu a lição. Hoje em dia, assimila mensagens “que podem estar até num cartaz”. Mas, em sua formação de self-made man, há um professor, do qual ele fala com reverência: o poeta Xexéu. Foi Xexéu que o levou para passar as tardes na Praça do Derby, na região central do Recife. É lá que se reúnem cantadores vindos de diferentes regiões do interior de Pernambuco. “Gente de São Lourenço, Nazaré da Mata, Surubim... Comecei a invadir o território e o cotidiano desses caras”, lembra. Inspirado, começou a improvisar nos ônibus. “Aí, tinha gente achando que eu tava quebrado. Na verdade, fazia embolada nos coletivos só pra pegar prática”, explica. Em princípio, o rapper estava fazendo a pesquisa em suas peregrinações pelo interior apenas para aprimorar seu conhecimento. Mas do aprendizado decorreu uma sucessão de lampejos que Brown não poderia deixar passar: “Aquilo tudo tinha que ser registrado”, sublinha. Brown pré-concebeu o CD e passou o diagnóstico ao experiente produtor Skowa, do Trio Mocotó. Na irmandade que compõe Repente rap repente, o CD, o produtor foi o primeiro parceiro. Brown ainda fez tabelinhas certeiras com Zeca Baleiro (em Coqueiro da Bahia), Castanha (em Coco

Divulgação/Jedson Nobre

Ex-Faces do Subúrbio acerta a mão em CD com influências e parcerias diversas

do trava-língua) e Gilmar Bola 8 (em Próximo personagem), entre outros. O resultado é um disco orgânico e equilibrado. Como o próprio Brown atesta em Perito em rima, a rima é para quem sabe rimar, e ele o faz com precisão, em vôos sustentados pela concisa coordenação musical de Skowa e Janja Gomes. Oficialmente, o CD ainda não foi lançado. Brown pretende promover o lançamento, provavelmente em janeiro, no bom e velho Alto José do Pinho, “onde tudo começou”. Repente... ainda não tem preço definido, mas o músico garante que será acessível. Atualmente, Zé Brown ganha o seu pão como arte-educador. Dá aulas de rima e break desde 1996. Como tudo em sua vida, desenvolveu a atividade por iniciativa pró-

pria: pediu espaço num clube do seu bairro, começou a ministrar as oficinas e chamou as emissoras de TV locais para divulgar. Deu certo. A maioria de seus alunos, que não gostava de estudar, já tem segundo grau completo. “E tá todo mundo vivo”, frisa, dando uma idéia da realidade. Recentemente, em ocasião de uma viagem sua à Espanha, para uma feira internacional de música, o educador encontrou um ex-aluno, que tinha virado professor de break naquele país. “Pernambucano preparado”, José Edson da Silva, 32 anos, sempre foi “de correr atrás”. Já foi camelô, ajudante de pedreiro e cabeleireiro. Hoje em dia, é arte-educador, rapper e... repentista. Mas a vida e a obra mostram que o gente boa Zé Brown é, além de tudo, humano.

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MÚSICA

Quartetos de cordas em verde e amarelo

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representativas (aplaudidas em turnês no Brasil e no exterior) do músico gaúcho e de Cláudio Santoro, Camargo Guarnieri e, claro, Villa-Lobos, figurante da citada linhagem. Quadro Brasil O uso reelaborado de eleQuarteto Radamés mentos nacionais se faz Gnatalli comum em todas as quaRádio MEC 25,00 reais tro composições do CD: a Valsa de Gnatalli, o Quarteto n° 3 de Santoro e o homônimo de Guarnieri, e o sexto dos 17 quartetos de Villa-Lobos. Momentos de grande inspiração delas estão nos dois movimentos finais de Santoro e Guarnieri e no segundo e quarto movimentos do Villa. As interpretações possuem consideráveis diferenças em relação a outros registros, pois foram guiadas pelas partituras originais. A expectativa agora é a de que o Quarteto Radamés se aventure em ciclos completos de quartetos de cordas brasileiros. (Carlos Eduardo Amaral)

> Retratos sonoros do Centro-Oeste

> Música e cultura nos anos de chumbo

> Nem virgem, nem esposa, nem viúva

> Um violoncelo e obras brasileiras

Há três anos, o violonista Leandro Carvalho deixou a carreira solo para se dedicar à direção da Orquestra de Câmara do Estado do Mato Grosso. Imbuída de um viés armorial (Leandro foi aluno de Ariano Suassuna), a orquestra extrai sua seiva sonora do rasqueado matogrossense. Tanto é que as cordas com arco e a percussão dividem espaço com um naipe de violas de cocho, instrumento típico do Estado, e que este DVD contém uma única obra do repertório erudito, a Bachianas Brasileiras n° 9, ao lado de Lo que tendrá, de Piazzolla. As demais são de compositores da região, e de países sul-americanos que possuem ritmos afins do rasqueado. O violeiro Roberto Corrêa faz participação especial como solista. (CEA)

Este é o subtítulo do livro do crítico de música João Marcos Coelho, que traz uma extensa coletânea de entrevistas e reportagens que abrangem a música clássica e popular, a literatura, a cultura e a história da política brasileira nos tempos da ditadura. Artigos e críticas acerca de problemáticas e polêmicas da música contemporânea completam a excepcional compilação, que remete a um tempo em que a imprensa possuía mais espaço para tratar de idéias (e os leitores, tempo de digeri-las). Mesmo que as discussões principais do livro enfoquem a música clássica de 30 anos atrás – época de execração ao nacionalismo e à alienação misticista de Stockhausen – muitas das reflexões que elas suscitam colocam em xeque o que se produz no momento. (CEA)

Na Veneza do séc. 18, lugar em que a ópera adquiriu hegemonia, surgiu a cantata, cuja existência estável, à sombra da ópera, intriga pesquisadores até hoje. Intrigante ainda foi a projeção de uma mulher – Barbara Strozzi (1619-1677), filha bastarda e mãe solteira, – como um dos expoentes do gênero “menor”. A pesquisa de Silvana Scarinci transformou-se num dos mais importantes estudos de gênero na musicologia publicados no Brasil e se estendeu até a análise das influências poéticas de Petrarca e Marino nas obras da compositora. Além de reproduções de discursos acadêmicos e de partituras, o livro contém um CD com sete cantatas de Strozzi, soladas pela soprano paranaense Marília Vargas. (CEA)

Carlos Prieto, mais conceituado violoncelista mexicano da atualidade, pode não ter tido uma performance tão inspirada neste CD, mas a escolha de repertório se mostrou muito boa e longe do convencional, contemplando muitas obras brasileiras. Podem ser puladas as primeiras faixas (de Händel, a única barroca, apesar do título do disco, Tchaikovsky, Rachmaninov e Chopin) e começar direto do multifacetado Capricho do norte-americano ainda vivo Lukas Foss. Seguem a Modinha de Francisco Mignone, os Oito duetos modais de Ernst Mahle, para dois violoncelos, e as primeiras gravações mundiais da Partita Latina de Marlos Nobre, dedicada a Prieto, e de Pour les enfants, do mexicano Eugenio Toussaint, compostos em 2001. (CEA)

Divulgação

oseph Haydn concebeu a formação instrumental do quarteto de cordas e a estruturação de obras – nos moldes de uma sinfonia – que ficou associada a ela. Não esperava o austríaco que esse se tornasse o mais conceituado da música camerística e que se iniciasse uma longa linhagem de compositores especialistas nas respectivas peças, a qual abrange Mozart, Beethoven, Dvořák, Shostakovitch e Bartók. Em tributo a quatro dos principais expoentes do gênero no Brasil, o Quarteto Radamés Gnatalli reuniu peças

Orquestra do Estado do Mato Grosso Delira Música 35,00 reais

No calor da hora João Marcos Coelho 496 páginas Algol Editora 70,00 reais

Safo novella Silvana Ruffier Scarinci 291 páginas Algol/Fapesp/Edusp 95,00 reais

Del Barroco y del Romanticismo al siglo XXI Urtext 45,00 reais

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O valor das boas interpretações

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comum que se atribua certo demérito à atividade de intérprete, como se, ao dissociar-se de uma das esferas da cadeia produtiva (a composição, no caso), o seu trabalho repousasse unicamente no usufruto da criação alheia. Temos, contudo, inúmeros exemplos dentro da história da nossa música popular que a eximem de tal alcunha, como o grupo MPB4 e as cantoras Clara Nunes e Elis Regina (foto), que, ao estruturarem modos próprios de execução, terminaram por imprimir novas significações às obras sob as quais se debruçaram. Ao trabalho destes vem se somar a Série Jazz Café Brasil, coordenada e produzida por Steve Altit, no qual grandes clássicos da MPB ganham releituras instrumentais no formato easy listening (gênero de orquestraJazz Café Brasil ção surgido na metade do Vários Top Cat séc. 20), com arranjos de 19,00 reais (cada) Nelson Faria e interpretação de um grupo formado por músicos como Jorge

Helder e Kiko Continentino. A série se distribui em mais de uma dezena de discos temáticos, em cujo repertório são pinçadas composições marcantes de Johnny Reprodução Alf (Eu e a brisa), Cartola (As rosas não falam) e algumas resultantes das frutíferas parcerias firmadas entre Menescal e Ronaldo Boscoli (O barquinho), Tom Jobim e Newton Mendonça (Samba de uma nota só) e Vinicius e Toquinho (Tarde em Itapoã), entre muitas outras. (Yuri Bruscky)

> A vivacidade dos eternos chorões

> Um Cartola ao seu modo e para todos

> Despretensiosa e leve como o filme

> Supertime grava um disco insosso

O choro, uma mistura da música européia de salão com canções brasileiras urbanas, é revisitado por uma nova geração de intérpretes e instrumentistas brasileiros no disco Café Brasil. Nomes essenciais do ritmo, considerado o precursor do samba, são regravados numa coletânea com 16 faixas. Abrindo o disco, Sivuca interpreta a célebre Noites cariocas, de Jacob do Bandolim, Marisa Monte canta Onde andarás, de Caetano Veloso e Ferrreira Gullar, Chiquinha Gonzaga é lembrada através de Bionne, o clássico Brasileirinho também figura na seleta lista. O encarte, muito bem cuidado, traz os detalhes das composições em questão. A prova de que os chorões continuam vivos. (Mariana Oliveira)

Este ano, comemora-se o centenário do inesquecível Cartola. O CD Cartola para todos é um dos álbuns lançados no decorrer de 2008 em sua homenagem. A grande sacada do material, produzido com esmero por Alvaro Ferndando, é a fuga das gravações originais. São 36 artistas reunidos para tocar e interpretar os grandes sucessos do sambista, cada um ao seu modo, mostrando o vigor e a atualidade das suas composições. Entre os sucessos: As rosas não falam, interpretada por Tony Gordon, O mundo é um moinho, por Wanda Sá, Acontece por Edson Montenegro. Completando o material, na última faixa, o áudio de um depoimento do sambista revelando, inclusive, o porquê do apelido Cartola. O projeto gráfico do disco é primoroso com ilustrações de João Pinheiro. (MO)

O longa Juno trata de um tema pesado (gravidez na adolescência), porém é de uma leveza incrível. Um filme despretensioso não poderia ter uma trilha sonora diferente. As músicas reunidas no CD são a cara do filme e é impossível imaginá-lo sem elas. Belle & Sebastian, The Velvet Underground, Sonic Youth, entre outros, emprestam suas músicas à coletânea, mas são as músicas de Kimya Dawson que melhor refletem o drama de Juno. A sugestão das composições de Kimya foi da atriz Ellen Page, que convenceu o diretor de que sua personagem, se existisse, ouviria essas canções. No disco, podemos ouvir o hit Anyone else but you na voz de Kimya e no dueto de Page e Michael Cera na cena final do filme. (MO)

O ex-Cor do Som Ary Dias, há de se reconhecer, tem um grande currículo: já tocou com Gil, Caetano e Chico. Não satisfeito, o percussionista agora se arrisca, sem sucesso, no CD Tocar. A bolachinha traz a estética consistente que era de se esperar de alguém com a experiência de Ary Dias: o disco todo é bem tocado, sem descambar para o virtuosismo. Acontece que o soteropolitano é bom com as mãos, mas não com a voz ou com as letras. Ary se cercou de músicos experientes para gravar. O pianista Marcos Numrichter já tocou com Cássia Eller, o baixista Guilherme Maia, Moraes Moreira... A lista é extensa. Mas experiência não é nada sem instinto e Ary Dias, apesar de seu supertime, gravou um CD insosso.(Thiago Lins)

Café Brasil Prod. Rildo Horta Warner 27,90 reais

Cartola para todos Prod. Alvaro Fernando MCD 32,00 reais

Juno Coletânea Importado 32,90 reais

Tocar Ary Dias Independente 20,00 reais

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ESPECIAL

A noção de pudor não obedece a regras fixas, senão que varia de acordo com as épocas e sociedades Jonatas Ferreira

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m O animal que logo sou, Jacques Derrida reflete acerca de um tema inusitado: o constrangimento de, nu, perceber-se objeto do olhar distraído de seu gato de estimação. Chamemos esse constrangimento por um nome adequado: pudor. O pudor, a percepção da própria nudez, em sentido estrito e lato, é para ele uma experiência ontológica fundamental – inseparável de outras imagens daquilo que se tem considerado próprio do ser humano, tais como, a razão, a história, o luto. Trata-se de uma experiência acerca dos limites do humano, de sua relação com o animal que ele

pudor e despudor não pode deixar de perceber em si próprio – e que o espreita. O ser humano é o ser capaz da nudez. Retorno de uma mirada sobre nossa própria finitude, o pudor é uma experiência de estranhamento, no sentido que essa palavra adquiriu a partir de Freud, ou seja, viver como estrangeiro aquilo que nos é mais íntimo e como íntimo, próprio, aquilo que nos é mais estrangeiro. O pudor, no entanto, varia cultural e historicamente. A nudez não se apresentava para o rei Luís XIV do mesmo modo como se apresentou para Jimmy Carter. A fístula anal do primeiro foi tratada, exibida, discutida, tocada por

sua corte com uma sem-cerimônia considerável; comparativamente, a mídia e a entourage presidencial tratou da convalescença de Carter de modo discreto, quando ele se submeteu a uma cirurgia para tratar de problemas no mesmo sítio. Radicalizando o argumento, creio ser legítimo dizer que a diferença entre duas culturas poderia ser formulada a partir daquilo que faz os indivíduos se sentirem nus. Assim, embora vários grupos indígenas no Brasil possam encarar sem constrangimentos o corpo feminino, algumas etnias tendem a ver no sangue menstrual algo a ser ocultado. Na França dos séculos

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16 e 17, os banhos públicos, a nudez coletiva nessas circunstâncias, ainda eram socialmente aceitáveis. Mesmo quando passaram a ser proibidos, a nudez de membros de uma classe não era considerada vergonhosa se presenciada por membros de uma classe subalterna – estes eram percebidos de algum modo como parte dos utensílios domésticos. É possível afirmar que o Renascimento marca na Europa uma trajetória gradativa de controle corporal (como se portar à mesa, onde defecar ou urinar, o estabelecimento de regras para a compartilha de cama com pessoas de posições sociais distintas) que culminará na individualização, na valorização da intimidade, e do autocontrole. Erasmo poderia ser mais tolerante acerca dos gases produzidos pela digestão do que os manuais de etiqueta dos séculos 19 ou 20 – muito mais estritos acerca da disciplina corporal. No caminho do autocontrole corporal, da valorização da intimidade, observa Nobert Elias,

desaparece “a despreocupação em mostrar-se nu, como também em satisfazer necessidades corporais na frente dos outros. Tornando-se menos comum na vida social esse espetáculo, adquire uma nova importância a descrição do corpo na arte”. Assim, no século 19, a nudez artística era bem melhor tolerada que a nudez de uma paciente diante de seu médico. O pudor é a fronteira daquilo que poderíamos considerar civilizado. A nudez, nesse sentido, é uma vivência que nos coloca nas fronteiras da civilidade. A forma como nos percebemos verdadeiramente nus tem sempre um valor humanizador – mesmo que esse valor se revele através de um sentimento de constrangimento. Por isso, não podemos dissociar pudor de despudor. permitam-me agora problematizar a hipótese que viemos defendendo. Ora, um grande desafio teórico para aqueles interessados em discutir o estatuto do corpo

nas sociedades contemporâneas foi lançado por Foucault, em sua famosa e inconclusa História da sexualidade. Ali encontramos o ápice de um lento processo de rompimento com o pensamento excessivo, que encontramos, por exemplo, na obra de Bataille, sob cuja influência podemos situar muitos dos primeiros trabalhos de Foucault. Se fora possível concluir a partir da História da loucura que a sociedade moderna, a sociedade do trabalho, da disciplina, da razão, constitui-se a partir da repressão do excesso, do erotismo, este último Foucault nos desafia e revê antigas conclusões: a forma de poder que se constitui nos últimos séculos nas sociedades ocidentais não é estruturada a partir de uma repressão da sexualidade, mas de sua exacerbação discursiva, de sua conversão em estímulo para a produção de corpos dóceis. Estaríamos, portanto, equivocados em imaginar que o principal mecanismo de constituição do poder na sociedade moderna fosse repressivo, estruDEZ 2008 • Continente x

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ESPECIAL Reprodução

Grande Odalisque (1814), obra de Jean-Auguste Dominique Ingres. Musee d’Orsay, Paris

turado sobre a pudicícia; o poder moderno é produtivo, ele estimula, disponibiliza, potencializa, e não vive exclusivamente como força negativa, coercitiva. Seria o despudor, a mobilização incansável de nossa sexualidade em inúmeros setores da vida quotidiana, uma das principais estratégias da sociedade do consumo? Essa suposição parece encontrar eco em inúmeras evidências do nosso dia-a-dia. Afinal, não erotizamos o consumo de cervejas, não estamos sempre preocupados com nossa performance amorosa, com o modo de corrigila quimicamente? E se estivéssemos, mesmo, diante daquilo que Marcuse chama de dessublimação repressiva? E se estivéssemos diante de uma colonização de nosso erotismo pelas estruturas de poder, como julga Foucault? A um homem já maduro, como eu, cai bem o talhe desse tipo de raciocínio. Vencer o pudor que cercava nossos corpos e desejos foi imaginado por muitas décadas como caminho

fundamental para nossa libertação, todavia. Mencionemos de passagem o papel da psicanálise nesse sentido. Mas há também exemplos na literatura e na filosofia. Blanchot já disse acerca de Sade, por exemplo, que se tratava do espírito mais livre que o gênero humano jamais produziu. Em Justine, o marquês fala pela boca de Esterval: “A única causa de todos os nossos erros reside no que sempre tomamos por leis da natureza, o que não vem senão de costumes ou de preconceitos da civilização. (...) Ofender as leis dos homens é ultrajar um fantasma”. Nessa mesma linha, Bataille não nos falou do excesso erótico como um valor fundamental, como espaço de resistência à sociedade do trabalho, da razão e do controle? O Surrealismo, de um modo amplo, não nos fez ver a necessidade de ampliar nossos horizontes existenciais, rasgando os véus da pudicícia, ampliando os canais que nos ligam aos nossos desejos mais íntimos? Mesmo que aceitemos a força da tese foucaultiana para explicar

diversos fenômenos políticos, econômicos e culturais, ainda cabe perguntar: a sociedade que invade o desejo, que rasga os véus do pudor, não produziria uma forma de repressão mais profunda? Afinal, o estranhamento do pudor pode ser vencido? Acredito que novas formas de pudor se constituem em uma sociedade em que a exposição de genitálias, do ato sexual, de formas não convencionais de erotismo passam a contar com uma tolerância bem maior que outrora. Acredito que ainda nos sentimos nus diante de nossa finitude, que ainda nos espanta e envergonha a precariedade de nossos corpos. Por isso, é preciso eternizá-los, através de sua higienização, de cuidados cosméticos, de cirurgias plásticas que contrariam a gravidade e o tempo. O grande pudor da sociedade de consumo é não estar apto ao consumo, falhar diante das perspectivas de prazer, não obter o gozo máximo, o desempenho ótimo. É sermos lembrados de que afinal somos precários, mortais.

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o Que se reVeLA e o Que se esCoNde

A pintura de Lucien Freud revela, sem pudores, ao expor o corpo humano sem retoques, a nudez crua e a fragilidade da matéria da qual somos todos feitos Antônio Ricardo Rodrigues da Silva

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ucien Freud é considerado um dos mais importantes pintores ingleses da atualidade, talvez o mais importante da segunda metade do século 20. Nascido em Berlim, em 1922, filho de Ernest Freud e Lucie e neto do pai da psicanálise Sigmund Freud, Lucien se consagrou com uma pintura muito particular, onde a figuração do humano, notadamente na exposição de seus corpos, quase sempre nus, demonstra sua agucidade em mostrar coisas e situações quase sempre de um âmbito privado, que se preferiria não se notar ou ver. A crueza de suas figuras que apresentam o retrato físico e existencial das pessoas em poses paradoxalmente não posadas saltam aos nossos olhos. Diferentemente de um outro pintor britânico – Francis Bacon, cujo mal-estar

advém da extrema distorção da figura humana que pode ser reduzida a um pequeno conjunto de músculos, aparentando-se a uma exposição de carnes num açougue, o mal-estar e também a perplexidade de haver ali beleza, aparecem na pintura de Freud, a partir de um estranho desconhecimento, que passamos a reconhecer como muito familiar, na medida em que reconhecemos, ali, a expressão de nossa vulnerabilidade, seja no corpo das jovens, onde a posição não é ortodoxa e a proporção é alterada, seja no corpo dos gordos e velhos, estes últimos anunciando a decaída física e conseqüentemente a perspectiva da morte. Uma pintura que parece, a princípio, sem pudor, pois além de mostrar nossa nudez sem retoques, com seus limites, escancara a nossa fragilidade. Uma

pintura que possibilita uma identificação aparentemente mínima, sutil, mas olhando mais de perto, avassaladora. O despudor de Lucien talvez seja o de nos mostrar o que já sabemos, mas insistimos em deixar no limbo quanto mais tempo for possível, até que, graças à habilidade de um artista, sejamos confrontados com a novidade que já é nossa velha conhecida. O pudor e a vergonha estão relacionados a um mal-estar gerado pelo que pode ferir a decência, a honestidade ou a modéstia. Este sentimento está quase sempre ligado (mas não só) a atos e coisas que se relacionam com a sexualidade, na articulação entre o que deve e pode se mostrar e o que se deve esconder. Em 1905, o avô de Lucien, Sigmund Freud, publicou os Três enDEZ 2008 • Continente x

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ESPECIAL Imagens: Reprodução

Girl with a white dog, Lucien Freud, óleo sobre tela, 1951-52

saios sobre a teoria da sexualidade, texto fundamental para se compreender como a psicanálise entendia a sexualidade humana. Este livro colocou Freud novamente no olho do furacão moral vienense, não só porque o tema era o sexo, mas, sobretudo, pela abordagem que fazia desse impulso. Todos sabemos que no século 19 muito se falou e se escreveu sobre o tema, com o estabelecimento das ciências sexuais. Os livros de Havelock Ellis (1859-1939) e, sobretudo o de Krafft-Ebing (1840-1902), Psychopatia sexualis eram verdadeiros best sellers. A especificidade da abordagem freudiana – já explicitada no texto fundador de 1900 –, A interpretação dos sonhos, dizia respeito ao fato de que a fronteira entre o normal e o patológico tinha sido definitivamente esfuma-

çada. As noções do sonho como uma “psicose noturna e realização alucinatória do desejo” falavam desse transitar, reforçados ainda mais pelo fato de que muito cedo Freud recusou a noção de degenerescência – cara à psiquiatria do seu tempo e que tentava explicar os ditos desvios da conduta sexual a partir de uma disposição degenerativa herdada. Com os Três ensaios, a sexualidade dos humanos se afasta notadamente da dos animais. A noção de instinto – fundamental para a biologia e para a psiquiatria, e até então referência importante para a explicação do sexo entre os humanos – é interrogada pela psicanálise. Esboça-se o conceito de pulsão, sendo a partir deste que não só a sexualidade, mas a própria

constituição do humano passa a ser pensada. A pulsão é um conceito limite entre o somático e o psíquico. Ancorada no corpo (sua fonte), tem como objetivo descarregar a tensão e para isto precisa de um objeto, meio para atingir sua finalidade. Esses objetos podem ser desde uma parte do corpo (próprio ou de outro) até uma pessoa inteira. Freud vai reconhecer então uma sexualidade na infância e considerá-la a matriz da organização psíquica, rompendo com a noção de que esta estaria ausente e só aparecia nos casos de crianças degeneradas. O mito da infância inocente é derrubado, passando a criança a ser entendida como um pequeno ser em desenvolvimento, dotado de uma disposição perversa polimorfa, isto é, capaz de ex-

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Ao lado, um auto-retrato de Lucien Freud. Abaixo, o polêmico quadro em que o artista mostrou como via a rainha da Inglaterra

perimentar imenso prazer em atividades as mais diversas, desde o sugar do seio materno, o excretar e reter, até o ser tocado, tocar, olhar e exibir-se ao outro. Essa disposição ampla deve, no entanto, ir se organizando em torno da genitalidade e aqui aparece um componente de certa forma normativo, na medida em que, caso isto não se estabeleça, organizar-se-iam as perversões, entendidas neste contexto como as práticas perversas polimorfas dos adultos com um fim em si, não levando à união dos genitais no coito. Para que a genitalidade seja alcançada, as disposições perversas polimorfas próprias e fundantes da matriz devem tomar outros destinos. A sublimação e o recalque seriam dois destinos possíveis. E é sobre o recalque dessas disposições que Freud se deterá ao falar dos

“diques anímicos contra os excessos sexuais”. Subjaz aqui uma noção da sexualidade como do âmbito de um excesso que necessita ser domado, controlado, desviado, limitado para que a organização psíquica se realize. Haveria, então, a necessidade, tanto do ponto de vista da criança como da expectativa social, de que esses componentes pudessem ser controlados e Freud dirá que o asco, os ideais estéticos e morais e a vergonha (pudor) seriam esses condicionantes. Vergonha e pudor seriam peças centrais nessa organização. Interessante é pensar que, por trás desses sentimentos, haveria uma forte disposição constitutiva e ao mesmo tempo intempestiva e que seria da resolução desse conflito que teríamos as especificidades de cada pessoa e de seu lugar no mundo.

O pudor e a vergonha provocam o recalque necessário para uma certa organização psíquica que desembocará num franco desenvolvimento rumo a uma certa autonomia necessária à vida de uma pessoa, que é capaz de reconhecer-se e implicar-se no percurso e destino de sua vida humana, demasiada humana. No entanto, se as operações recalcantes forem excessivas, levarão junto consigo a espontaneidade, a criatividade e a empatia, peças importantes na vida pessoal e social, tendo como uma das suas conseqüências, a inibição. A importância de se focar o pudor é que ele traz a possibilidade de se acessar sua outra face – o despudor, e a partir desse contato se integrar uma dimensão preciosa da experiência humana. A pintura de Lucien nos dá uma dessas senhas. DEZ 2008 • Continente x

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Foto: Divulgação

ESPECIAL

Novo filme de Júlio Bressane suscita discussão sobre como a questão do pudor e do despudor foi sendo retratada no cinema Marcelo Costa

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ma bela mulher, esguia e esbelta, de trajes seculares – colarinho alto, mangas compridas e saias longas – conhece um sujeito solitário num insólito encontro em um cemitério. “Ela”, assim mesmo denominada pelo pronome, já não tem ninguém mais em sua vida, enquanto “Ele” oferece-lhe cuidado para a vida inteira, em troca de transcrições de suas histórias e observações sobre o relevo carioca e venenos indígenas, entre os quais a “erva do rato”, derivado de uma planta selvagem e utilizada como veneno e antídoto, capaz de provocar delírio e dormência. Esse é o argumento do novo filme de Júlio Bressane, inspirado em dois contos de Machado de Assis – A causa secreta e Um esqueleto – e apresentado na Mostra Horizonte do

eNtre o erotismo e o pudor dA Erva do raTo Festival de Veneza 2008. O filme provocou reações variadas e gerou polêmica entre o público e a crítica devido às cenas de nudez explícita da atriz Alessandra Negrini, e aos comentários do diretor durante a conferência de imprensa. Se em Cleópatra, também de Bressane, Negrini apresentava o fulgor e o poder de sedução explícitos e incisivos da rainha egípcia, aqui ela é uma mulher aparentemente recatada que, diante da companhia de um desconhecido (Selton Mello) e da relação com um rato, libera o seu apetite sexual. Tudo o que estava escondido é revelado, todas as vestes, peça a peça, são despidas para ir ao encontro do corpo nu, da vagina, sob a presença do observador. “O que achamos belo é aquilo que nos dá prazer, gozo sexual. Esses traços de

beleza existem porque os órgãos genitais estão ocultos pelo pudor e onde eles existem o homem está com o olho. É a velha história, se a saia começou a subir, ela deve ir até o final”, respondeu o diretor aos jornalistas. Apesar do caráter inusitado, a discussão remete à velha frase de Nélson Rodrigues de que “o pudor é a mais afrodisíaca das virtudes” e reacende a polêmica em torno do assunto. Talvez o caso mais emblemático da discussão do pudor no cinema sejam os filmes de Píer Paolo Pasolini, sobretudo depois da Trilogia da Vida, composta por Decameron (1971), Os contos de Canterbury (1972), e As mil e uma noites (1973), cujo sucesso comercial, obtido graças a mal-entendidas promessas de nudez e erotismo, seguiu um sentido inverso de suas

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Mulher recatada (Alessandra Negrini), diante de um desconhecido (Selton Mello) e da relação com um rato, libera o seu apetite sexual

intenções: criticar o consumismo, a homogeneização dos comportamentos burgueses e a falsa liberdade dos costumes que reduz corpo e sexo à mercadoria. “Nas épocas de repressão, o sexo era uma felicidade porque ocorria às ocultas e era derrisão de todos os deveres e obrigações que o poder impunha. Ao contrário, nas sociedades tolerantes, o sexo é necrosante porque a liberdade concedida é falsa e porque é concedida de cima, e não conquistada de baixo”, disse em entrevista realizada em 1975. Diferentemente das pornochanchadas da década de 70, e da espetacularização do sexo e da nudez que tomam de assalto os meios de comunicação de massa, Pasolini tinha um viés, sobretudo, ideológico; uma preocupação com uma juventude presa a um com-

portamento único diante de uma sociedade permissiva e consumista, onde qualquer coisa é só o que se pode fazer. Essa é justamente uma das inversões que acometem o uma visão moderna do pudor. “Antigamente recebia em meu consultório pessoas necessitadas em exprimir seus desejos reprimidos, hoje recebo pessoas preocupadas por não sentirem vontade de vivenciar tudo que têm direito”, afirmou, em entrevista recente, o psicanalista Jurandir Freire. entretanto, a antropóloga Roberta Campos não acredita que isso implique a perda do pudor, e, sim, o seu deslocamento. “É preciso considerar que mais do que deixar de sentir, mudamos o objeto da vergonha, do pudor. Se outrora sentíamos vergonha em exibir o

corpo ou certas partes do corpo, hoje sentimos mais vergonha de expor os defeitos de nosso corpo do que ele propriamente dito”, esclareceu. “Outro ponto que me chama a atenção é a idéia da vergonha como algo negativo, como o fardo e a tragédia que herdamos da cultura ocidental cristã. Vergonha não é algo único do cristianismo, é uma das maneiras pelas quais muitas sociedades e culturas introjetam e estabilizam suas normas sociais”, complementou a fim de desfazer a idéia reducionista de pudor como castidade religiosa, e ressaltá-lo como um conjunto de regras morais adotadas por um grupo social. Dentro dessa perspectiva, o terapeuta reichiano Antonino Mongiovi enfatizou a função social do pudor e os riscos de sua aplicabilidade. “O pudor, constituído de DEZ 2008 • Continente x

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ESPECIAL

Em filmes como Os contos de Canterbury (1972), Pasolini discutiu o significado de "pudor"

regras e normas, na maioria dos indivíduos se transforma num mecanismo coercitivo e repressivo das suas emoções e atitudes; regras que, apesar de necessárias, podem se tornar instrumentos de desequilíbrio, quando não temos uma sociedade ajustada e de valores e papéis bem-definidos”, comentou ao advertir sobre os riscos de surgimento de uma sociedade perversa e imoral. Como se vê, a simples palavra pudor é um tanto fluida, uma espécie de espelho d’água que pode refletir inúmeras coisas sob diversos ângulos, mas que quando tocado se desfaz. A própria origem do conceito é variável, de acordo com as priorizações de cada contexto social e histórico. O filólogo francês JeanClaude Bologne, no livro História do pudor, resume as duas definições mais recorrentes do conceito: “Sentimento de vergonha, de incômodo que se tem ao fazer, enfrentar ou testemunhar coisas de natureza sexual; disposição permanente para esse incômodo” e “incômodo sentido diante daquilo que a dignidade de uma pessoa parece proibir”. No entanto, mesmo esse conceito deve ser relativizado, pois

cada tempo, cada sociedade e cada indivíduo têm seus referenciais. “Antropologicamente, é possível pensar que a vergonha seja culturalmente construída e encenada (através de palavras e gestos). De acordo com o lugar que se ocupa, seja uma cultura, uma classe, um gênero, ou todos ao mesmo tempo, sentimos vergonha de diferentes maneiras, de diferentes objetos em situações diversas”, afirma Campos, que ressaltou a importância das sensibilidades e afetividades individuais nesse processo. De modo semelhante, Sthendal observou no livro Do amor: “Uma mulher de Madagáscar deixa ver sem pensar o que aqui mais se esconde, mas morreria de vergonha se tivesse de mostrar o braço. É claro que três quartos do pudor são aprendidos”. Com o passar do tempo, a idéia de pudor também adquire outros significados – já não mais se discutem os filmes de Pasolini, os poemas de Bukowski ou as minissaias. Atualmente, os debates e polêmicas estão em torno do exibicionismo e da exposição de aspectos da vida privada na esfera pública, fato que, segundo a socióloga Maria Eduarda Rocha, não deve ser tomado como um episódio novo e isolado. “Esse

fenômeno foi tratado por Richard Senett em “O declínio do homem público”, no qual constata a crescente importância dos aspectos privados e íntimos na maneira como os indivíduos se apresentam publicamente, no que chamou de “tirania da intimidade”. O autor não fala de um processo recente, o que nos permite pensar nos blogs, os sites e reality-shows como relacionados a uma tendência de longa duração, apesar de suas especificidades”. Mesmo temas aparentemente superados voltam à tona quando a polêmica envolve o pudor. Na última edição do Festival do Rio, o ator Pedro Cardoso fez um discurso inflamado contra o que chamou de pornografia gratuita no cinema e na TV e ainda criticou a prática pouco ética dos novos realizadores que exigem a nudez de seus atores. “Hoje, qualquer diretor, autor de novela ou programa de TV, medíocre ou não, ou qualquer cineasta de primeiro filme se acha no direito de determinar que uma atriz deve ficar pelada em cena. E, depois, é freqüente que esses cineastas de primeiro filme exibam para os seus amigos, em sessão privê, as cenas ousadas que conseguiram arrancar de determinada atriz”, afirmou. Se colocado como contraponto das cenas de nudez do filme A erva do rato, o discurso do ator revela a intrincada relação que se estabelece entre o erotismo e o pudor. Se por um lado, como afirmou Bressane, “o erotismo começa desde cedo no homem, na caverna, onde vai desenhar formas, falos, vulvas, os chamados trocadilhos sexuais”, por outro, a forma como ele é manipulado, exibido ou escondido sempre esteve ligada a um sistema de regras culturais, sociais e individuais. Como se o homem padecesse sob o efeito da erva do rato, embevecido entre o delírio e o torpor, entre o veneno e o antídoto para viver o ordinário e descobrir o extraordinário.

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Ferreira Gullar

As inumeráveis vozes da pintura

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ma exposição comemorativa dos 80 anos de Flávio-Shiró está aberta no Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, depois de exibida no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Essa exposição retrospectiva é uma seleção de telas do artista, desde o início de sua carreira, na década de 40. Nascido no Japão, em 1928, Shiró veio, ainda menino, com sua família, para o Brasil. Viveu no Pará, depois em São Paulo e no Rio de Janeiro, até 1953, quando se mudou para Paris, onde reside até hoje. Mas nunca se desvinculou do Brasil, aonde vem, regularmente, todos os anos. Esta exposição nos permite refazer o caminho desse artista, que é hoje um dos grandes nomes da pintura brasileira contemporânea. Iniciando-se como pintor figurativo, ele assimilou a lição do modernismo brasileiro. No momento mesmo em que se manifestam as primeiras tendências em direção ao abstracionismo. Nos anos 50, a tendência concretista se impõe, provocando uma ruptura com a tradição modernista, que parecia esgotar-se. Flávio-Shiró fará a passagem da figura para a abstração, mas numa vertente, por assim dizer, oposta à dos concretistas: em lugar da linguagem geométrica, as manchas do informalismo ou do tachismo, bem mais afins à sua experiência de pintor e a seu temperamento. Aqueles primeiros trabalhos figurativos, se ainda não configuram uma caminho próprio, já nos mostram um artista sensível, com o domínio técnico da pintura e um modo próprio de lidar com as cores e a matéria. Isso vai se acentuar e aprofundar nas etapas seguintes. Entender que pintar, menos que mostrar a realidade, é inventá-la, ajudar-nos-á a compreender a arte de Flávio-Shiró. Isso nos fará perceber que, nas telas figu-

rativas daqueles primeiros anos, já estava o pintor nãofigurativo dos anos 50 que, agora, livre da figura, sentese mais livre para inventar seu mundo pictórico. Se bem se observa, antes de ser figurativa, sua pintura inicial era pintura, invenção pictórica, com referências explícitas às imagens do mundo objetivo, que agora desapareceram. Livre da referência figurativa, o pintor sente-se à vontade para explorar as possibilidades expressivas da cor, da mancha, do improviso gestual, que faz surgir, sobre a tela, formas e relações cromáticas inesperadas. É um jogo de probabilidades, combinações que o acaso propõe e que o pintor aceita ou rejeita, movido pela intuição e pelo deslumbramento. Ele adivinha naquelas manchas, cores e tensões, imagens que tanto podem ser da geografia quanto do sonho, e desse diálogo entre o que surge e o que ele imagina, nasce a obra. Mas a obra só se conclui em cada tela, porque, na verdade, prossegue, recomeça na tela seguinte até que se esgote o veio. Ou cansar-se ou enfastiar-se o pintor. E, então, dá-se uma ruptura para que outra fase surja. E ressurge, nas telas de Flávio-Shiró, a figura que se dissolvera em manchas e pastas crepitantes de cor e matéria. Mas são figuras outras, não mais aquelas do nosso dia-a-dia: estas são figuras nascidas da própria matéria pictórica, da pintura como realidade autônoma, como universo imaginário, desdobramento da aventura do pintor inventando o seu mundo pictórico. E essas figuras tomam forma e ocupam as telas, vindas não se sabe de onde, mas carregadas de significações indecifráveis: são fantasmagorias? são formas simbólicas do inconsciente? Não sei dizer. Lembram-me, às vezes, formas embrionárias de seres extraterrestres, ainda em gestação, em estado rudimentar de formação. Ou são

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A pintura de Flávio-Shiró passou por um processo: a linguagem que nos mostrava figuras de animais e gente, casarios e paisagens, livra-se dessas referências, torna-se autônoma, inventora de sua própria significação

Divulgação/Centro Cultural Correios

Anatomia de Guerra, óleo sobre tela, Flávio-Shiró,1965

vísceras? Não importa. Importa a força expressiva que as impõe à nossa vida e que nela as insere. Depois que as vemos, elas nos habitam, fazem parte de nossa experiência estética, poética, existencial. É instrutivo observar esse processo por que passou a pintura de Shiró: a linguagem que nos mostrava figuras de animais e gente, casarios e paisagens, livra-se dessas referências, torna-se autônoma, inventora de sua própria significação, tira de si mesma, inventa-a na imprevisibilidade do gesto, do improviso, do acaso. Mas isso, a Flávio-Shiró, não basta e, por essa razão, necessita da palavra, do nome, para que “ganhem sentido”. Na verdade, para que ganhem o sentido que ele lhes atribui, e não outra qualquer pessoa. Ele mesmo o diz: “Todos os meus quadros têm nome. Do contrário seriam filhos sem nome”. Mas não é que o nome esgote a significação efetiva da obra pictórica, uma vez que as linguagens são intraduzíveis entre si e, portanto, a palavra não diz

o que a pintura diz. No meu entender, ao dar nome aos quadros, Shiró os aproxima do entendimento verbal, do logos, e assim reduz a indeterminada possibilidade de significados que há neles. Isso lhes acrescenta densidade semântica. Outro aspecto a sublinhar na experiência estética desse artista é a sua umbilical ligação com a pintura, enquanto aventura humana, parte constitutiva do nosso universo imaginário. Por isso, é um contumaz freqüentador de museus, um observador constante das obras de arte de todas as épocas, desde as pinturas parietais às obras dos mestres modernos. Com elas aprende e nelas se inspira para recriar essa realidade inventada por gerações e gerações de artistas. Ao contrário de outros contemporâneos seus, não necessita de que a arte do passado seja dada como morta para que haja uma arte do presente. Como disse mestre Pablo Picasso, toda arte é atual, desde que seja arte mesmo. DEZ 2008 • Continente x

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Figuras femininas e seus mistérios estão presentes tanto nos trabalhos de Samico (página ao lado), quanto nos muros grafitados por Derlon

O diálogo do grafite com a xilogravura Derlon Silva faz uma releitura contemporânea e bastante pessoal da arte já consolidada de Gilvan Samico Diana Moura

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arte se move. Quando menos se espera, ela surpreende. Gilvan Samico, 81 anos, um dos gravuristas mais admirados do Brasil, é autor de um projeto artístico consagrado. Com um traço extremamente conhecido, prestígio na crítica e público fiel, sua obra estava, aparentemente, tão consolidada quanto estável. Hoje, contemplar um Samico é conduzir os olhos ao deslumbramento e conforto da excelência artística. Não se busca mais, em seu trabalho, as inquietações estéticas que atravessaram suas gravuras na virada dos anos 60 para 70. Há, entretanto, um Samico inquieto que percorre as ruas do Recife, instala-se em prédios aban-

donados do centro da cidade e procura, incessantemente, um lugar, na arte, onde possa encaixar suas obras. Ele atende pelo nome de Derlon Almeida, tem 23 anos, e promove um deslocamento, para o grafite, da xilo popular e de figuras que se aproximam muito do universo misterioso de Gilvan Samico. As pesquisas plásticas que, há 40 anos, provocaram o mais famoso gravurista pernambucano mudaram de lugar. Agora, elas instigam o percurso de Derlon. A arte se move. Quando menos se espera, ela surpreende. Para que o público possa ter uma idéia das similitudes que unem os artistas, o Salão de Artes Plásticas de

Pernambuco montou uma mostra tanto singular quanto ousada, que reúne e confronta parte das duas obras. De um lado, 20 gravuras e a consagração de Samico. Do outro, gravuras, reproduções de grafites, cartazes, pinturas e a busca por uma linguagem própria, ainda em formação, de Derlon. A proposta tem mérito e curadoria de Adriana Dória Matos. Na aproximação de ambos, fica claro que as imagens criadas por Gilvan Samico impressionam o jovem grafiteiro. Seres imaginários, animais inventados, figuras femininas, encanto e mistério estão na lista de elementos que relacionam os dois artistas. Derlon também reproduz, com spray, o traço neDEZ 2008 • Continente x

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ARTES gro, bem-recortado e definido das xilogravuras. Não apenas as de Samico, mas também as de outros artistas, de formação popular, como J. Borges. Neste estágio do seu percurso, a inserção de Derlon Almeida no Salão de Artes Plásticas de Pernambuco realiza importantes trocas. Em primeiro lugar, chama a atenção para a matriz popular presente, de diferentes formas, nos dois trabalhos ora contemplados nesta mostra. Também ressalta e propõe uma discussão sobre os diversos modos de se relacionar com a imagem resultante da gravura. Enquanto Gilvan Samico, como gravador, prima pelo rigor técnico e reprocessa estes elementos populares numa forma

extremamente sofisticada, o jovem artista trabalha na rua, em espaços abertos, pintando em locais muitas vezes não autorizados. Ao fazer das ruas sua galeria de arte, Derlon une as pontas de dois mundos até então díspares, mas que no fundo têm muito em comum: a arte popular e o grafite. Criada para ocupar e demarcar espaços urbanos, a grafitagem se apresenta de uma maneira ainda tímida nas cidades pernambucanas. Ao contrário de metrópoles como São Paulo, não há, entre o público e os artistas locais, a cultura consolidada de perceber o grafite como uma manifestação artística. No momento em que seleciona a gra-

vura – seja a de Samico, seja a que vem da arte popular – como eixo do seu trabalho, Derlon demarca duplamente o seu território. Em um só gesto, o artista cria um sentimento de pertencimento entre o público local, habituado ao seu universo imagético, e o grafite. De uma certa maneira, o trabalho promove um reconhecimento e uma apropriação entre ambos. E, o melhor de tudo, devolve esta arte às pessoas em meio ao espaço urbano, sem barreiras institucionais, nem intermediações curatoriais. Estabelece também um diálogo entre o espaço metropolitano e esta matriz popular, que, mesmo quando consumida e apreciada nas grandes cidades, é geralmente associada aos

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As obras de Samico (página ao lado) e Derlon (nesta página) serão confrontadas em exposição do Salão de Artes Plásticas de Pernambuco

Rafael Gomes

Encontro de gerações: o veterano Gilvan Samico e o jovem grafiteiro Derlon Almeida

artistas do Sertão e do Agreste. Uma outra vez, a arte se move. Longe de ter o nome consolidado como o de Samico, o mais famoso gravurista pernambucano, Derlon ainda tem um longo caminho a percorrer. Quando aceitou o desafio de ver seu trabalho confrontado com o do mestre, permitiu que um outro olhar fosse lançado sobre sua produção. Talvez enfrente, de cara, a resistência de uma parte do público que não aceita o grafite como arte. Se se sair bem, vai contribuir para a valorização da grafitagem, que ainda remanesce quase estrangeira em terras pernambucanas. “Uma parcela do público é muito conservadora. Não sei como essas pessoas vão perceber o diálogo entre uma DEZ 2008 • Continente x

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A arte feita em interação com o ambiente, de Derlon. Abaixo, O urubu de Pedro, de Gilvan Samico

Ao fazer das ruas sua galeria de arte, Derlon une as pontas de dois mundos até então díspares, mas que no fundo têm muito em comum: a arte popular e o grafite

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arte erudita e outra underground,” questiona Derlon. Apesar de compreensível, o receio do grafiteiro deve durar apenas até a abertura da exposição. Afeito à miscigenação cultural, o público pernambucano está acostumado a todo tipo de intercâmbio. “Desde os anos 60, quando nomes como Ariano Suassuna e o Gráfico Amador (Gastão de Holanda, Aloísio Magalhães) começaram a lutar pela inserção da arte popular em meios eruditos, isso deixou de ser visto como um problema,” tranqüiliza Samico. Além disso, a primeira

atenção do público deve se voltar para as diversas semelhanças entre os trabalhos expostos, numa espécie de exercício artístico do “jogo dos sete erros”. Em comum, Samico e Derlon possuem o gosto pela arte popular – reinterpretada de maneiras diversas – e pela invencionice. “As pessoas ficam olhando os meus trabalhos e me perguntam que bichos são esses. Eu sei lá. Não me preocupo em especificar que animal é”, brinca Derlon. “Quando eu faço uma águia, o que me interessa é que, para mim, é

uma águia. Não vou conferir para ver se o desenho está igualzinho ao pássaro de verdade,” acrescenta Samico. As semelhanças, claro, também trazem elementos que suscitam a comparação entre as obras expostas e aumentam o desafio do jovem artista. “É uma honra, mas, ao mesmo tempo em que eu estou muito feliz, fico preocupado em dar conta do projeto. É muita responsabilidade expor o meu trabalho ao lado do de uma pessoa que eu acompanho há bastante tempo e que tem muita influência sobre mim,” ressalta. Apesar de ser a mais importante, esta não é a única prova a que Derlon Almeida se submete atualmente. No início do próximo ano, seu trabalho passa a ser representado pela galeria Choque Cultural, em São Paulo, e fica lado a lado com alguns dos principais artistas do gênero, no Brasil. Para quem não lembra, a galeria Choque Cultural foi alvo da ação de pichadores, que fizeram um protesto contra a presença do grafite num espaço dedicado à arte comercial. Sobre essa questão, Derlon é bem claro: “Grafite só é feito na rua. O resto é pintura com influência da grafitagem,” pontua. Resta saber se daqui a alguns meses, quando for inserido no mundo da “arte comercial”, Derlon será o mesmo que é hoje. Possivelmente, não. Estará transformado pela experiência de ter participado de uma exposição ao lado de um mestre, do encontro direto entre as duas obras. Porque, como se disse desde o início, a arte se move. É provável que, agora, surpreenda os próprios artistas.

SERVIÇO Derlon e Samico – 47 o Salão de Artes Plásticas de Pernambuco. De 23/11 a 19/01, no Museu do Estado de Pernambuco. Informações: 81 3426.5943 Confira outras imagens da exposição www.continenteonline.com.br

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Trajetória de tempo “E

m julho de 2001, uma menina acompanhada de sua mãe, distinta professora de História, atravessa milênios de civilização ao encontro do pai”. Esse é o singelo letreiro que Manoel de Oliveira usou para abrir um dos seus mais belos exercícios filmados, Um filme falado (2003), que ele rodou aos 95 anos de idade. Aqui, seu cinema da Mandragoa/Gemini Films, elegantemente ciente não apenas de si, mas fascinado com o passado e a Europa, encontra um reflexo nítido. Revendo o filme às vésperas do aniversário de 100 anos desse realizador único, torna-se impossível não aplicar o doce letreiro à própria trajetória do homem em si, Manoel de Oliveira. Esse autor português de cinema atravessou, de fato, um bloco particularmente espesso de história, o século 20. Seu curta Encontro único (Rencontre unique, 2006) leve e ligeiro assinala isso, numa reimaginação do que teria ocorrido se o Papa João XXIII tivesse encontrado Nikita Khrouchtchev num jantar, em algum ponto do século 20. Sua trajetória sugere algo de místico na sua longevidade, e co-

nectar um ser humano nascido em dezembro de 1908 à sua desenvoltura física e intelectual em dezembro de 2008 é algo que parece mexer com as regras da própria natureza, não obstante o fato de termos no Brasil um outro caso raro do tipo no colega de geração de Oliveira – que é Oscar Niemeyer, também ativo aos 101. Muito se fala e se escreve na grande mídia sobre Oliveira como objeto geriátrico, descrevendoo da forma mais medíocre possível: a de que é “o cineasta mais velho em atividade”. O fato que é realmente belo, algumas vezes esquecido como observação quando ele é o assunto em questão, existe mesmo na compreensão de que Manoel de Oliveira é velho. No entanto, como podemos computar esse fato no sentido de nos dar uma obra incomum e que não pode ser dissociada de toda uma trajetória de tempo que ele mesmo sugere tentar compreender na sua produção? Observar sua filmografia e vêlo concentrando o grosso da sua produção como octogenário e, especialmente, na sua nona década (entre a década de 30 e a de 70, fez 14 filmes, mas nos últimos 25 anos já conta 34, com mais um previsto

Fotos: Divulgação

CINEMA

para 2009, Singularidades de uma rapariga) explica um olhar pessoal ímpar em tom, ritmo e recorte sobre temas como o tempo. Não tanto o peso do passado, mas a sua beleza. Isso explicaria o fato de vir filmando, há 10 anos, um filme por ano, às vezes dois, entre longas e curtas. Ele, que foi corredor automobilístico, parece estar correndo também agora. Esse é um retrato possível de um artista que, numa imagem emblemática, foi visto por mim no último mês de maio, no Festival de Cannes, não apenas recebendo uma homenagem de Gilles Jacob – presidente de honra de Cannes –, mas, não muito longe dali, num outro dia, andando sozinho e tranqüilamente aos 99 anos de idade na calçada da Croisette, com bengala e chapéu panamá. Ele sempre faz isso, em Cannes. A homenagem de Cannes 2008 (amplamente divulgada na grande mídia sublinhando o já citado fator geriátrico do homem) aconteceu na principal sala do Festival, diante de toda a comunidade cinematográfica que o aplaudiu de pé. Foi ali celebrada a vida centenária de Oliveira, associada na cerimônia aos 100 anos do próprio Cine-

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O cineasta Manoel Oliveira, que completa 100 anos este mês, vem filmando, há 10 anos, um filme por ano, às vezes dois, entre longas e curtas Kleber Mendonça Filho

O português Manoel de Oliveira foi homenageado no último Festival de Cannes

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CINEMA Manoel Oliveira realizou, entre a década de 30 e a de 70, 14 filmes, mas só nos últimos 25 anos já conta 34

ma, idéia que lhe cai bem factual e poeticamente. Ao vê-lo passando por mim na Croisette, numa manhã apressada de Cannes, algo me chamou a atenção na imagem saudável do ancião esguio. A primeira informação racional que vem à cabeça é o fato de ser este um cineasta cujo primeiro filme – Douro, faina fluvial – foi realizado em 1931, época em que o cinema ainda se reequipava para os filmes sonoros, e quando o seu anfitrião em Cannes, Gilles Jacob, tinha um ano de idade incompleto. Que distância de vida e de história separa Douro, faina fluvial, um filme mudo, de um filme falado, realizado por Oliveira já na década de 2000! Se a distância é incomensurável, percebe-se nos dois filmes

uma ligação profunda com a idéia de geografia humana e histórica que parece ter como base sua terra natal, a magnífica cidade do Porto. Da presença constante do rio no primeiro filme à sua fauna ribeirinha, temos a despedida das terras portuguesas como os antigos navegantes, poeticamente substituídos pela mãe e sua miúda loirinha de Um filme falado . A percepção dessa cidade me leva à pouco discutida, mas muito desfrutada força que alguns insistem em chamar de “mística”, inerente ao processo artístico em geral, e certamente presente também no cinema, e no cinema de Oliveira. No nosso papel de observadores, essa mística geralmente ocorre quando encontramos na imagem

apresentada uma sintonia para o que pensamos, ou, melhor ainda, quando a projeção nos mostra caminhos novos. Isso é normalmente amplificado pelas relações pessoais que estabelecemos com certos objetos, cabendo ao artista o papel de mediador. O que dizer, por exemplo, de uma visita apaixonada ao Porto e, por uma feliz coincidência, assistir ali mesmo, no Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Feira, a O Porto da minha infância (2001), homenagem pessoal de Manoel de Oliveira ao lugar que o definiu? O filme, com pouco mais de uma hora, é uma caixa de lembranças ordenadas organicamente num pensamento em fluxo. Oliveira foi filho de família burguesa, seu pai o primeiro fabricante português de lâmpadas elétricas. Nesse filme, outra imagem emblemática a ser lembrada nesse mês de comemoração: um homem escala sozinho,

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Reprodução

Cena do longa Um filme falado, de 2003

nos anos 20, e sem a ajuda de cordas ou aparatos de segurança, os 76 metros da Torre dos Clérigos, claramente uma lembrança aqui restaurada pelo cinema da juventude de Oliveira. Seu interesse pela cidade do Porto mostra-se presente tanto na parte inicial da carreira, com relatos documentais (Douro, faina fluvial, ) e ficcionais (Aniki Bobó, 1942, sobre crianças da área ribeirinha), como nesse filme recente que ilustra o fator réquiem tão curioso no cinema recente do autor português. A obra réquiem não é exatamente uma área restrita aos que chegaram à idade avançada, mas ela parece surgir naturalmente para muitos desses artistas maduros. No cinema, há exemplos de realizadores que sustentam hoje em dia um ritmo acelerado já depois dos 70 anos de idade como se pouca coisa os afetasse. Woody Allen, Alain Resnais, Clint Eas-

twood, Sidney Lumet, ou os brasileiros Eduardo Coutinho e Domingos de Oliveira, que filmam como jovens. Debruçando-nos sobre suas respectivas obras pessoais, é possível enxergar reflexões sobre eles mesmos com o tom de uma reavaliação e ciência de que o fim se aproxima. De qualquer forma, obras como Os imperdoáveis (Eastwood), O fim e o princípio (Coutinho) e o recente Juventude (Oliveira) parecem atropeladas pela própria energia de vida desses realizadores, que dão continuidade ao que fazem com trabalhos seguintes não tão claramente associáveis à idéia da passagem. No cinema de Oliveira, esse tom tem sido presente de forma constante, leve e plena de beleza, e o início dessa fase pode ter sido iniciada em 1982, quando fez o ainda inédito Visita – Ou memórias e confissões, o filme que, de fato, ele

deseja ter como testamento. Sua exibição está interditada até depois da sua morte, e sabemos que nessa obra há lembranças pessoais que incluem sua prisão via Polícia Internacional de Defesa do Estado, no ano de 1963. O desejo de ver finalmente Visita – Ou memórias e confissões gera, portanto, um impasse para o observador. Só veremos o filme depois da morte de Oliveira, o que nos leva a não querer ver essa obra tão cedo. De qualquer forma, um plano precioso da sua obra conhecida parece ilustrar com propriedade esse artista. Em Viagem ao princípio do mundo, um homem velho (Marcello Mastroiani, no seu último papel) visita as cercanias de onde cresceu, no norte de Portugal. À certa altura, ele olha para a janela traseira do carro, que trafega por uma quinta portuguesa, e durante mais de dois minutos, vemos a estrada ficando para trás. O tempo... DEZ 2008 • Continente x

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Divulgação

Marcelo Lyra/Divulgação

TRADIÇÃO

Conexão de saberes Projeto apresenta, no Recife e no município de Condado, na Mata Norte de Pernambuco, o resultado do contato de vários criadores de diferentes contextos com a tradição do cavalo-marinho Liana Gesteira

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fazer artístico como ponto de conexão entre a tradição e uma nova geração de criadores utiliza o cavalo-marinho – manifestação cultural originária da Mata Norte de Pernambuco – como intersecção desse diálogo. Assim se apresenta o Projeto Conexão Cavalo-Marinho, um evento de artes cênicas que agrupa apresentações de oito grupos tradicionais da Zona da Mata e de seis espetáculos de teatro e dança que reencenam o universo deste folguedo. A programação do evento tem início no município de Condado (Zona da Mata Norte de Pernambuco), de 11 a 14 de dezembro, em

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Ao lado, Brincadeira de mulato, do Grupo Grial (PE). Mestre Biu Alexandre, do cavalomarinho Estrela de Ouro, de Condado-PE

praça pública; e traz o mesmo formato para a temporada recifense, que acontecerá no Teatro Hermilo Borba Filho, de 18 a 21 de dezembro. Em cada noite de festa, um grupo ou artista apresenta um espetáculo, seguido de um grupo de cavalo-marinho da Zona da Mata. Idealizado pela produtora paulista Laura Tamiano e pelo músico, ator e dançarino pernambucano, Helder Vasconcelos, o Projeto pode ser entendido como um ponto culminante da troca de saberes entre

artistas ao longo dos últimos 15 anos. Uma aproximação que teve início nos anos 90, quando criadores pernambucanos, paulistas, e de outras localidades passaram a conhecer e freqüentar as brincadeiras de cavalo-marinho. Manifestação cultural dos cortadores de cana da Mata Norte de Pernambuco, encenado durante o ciclo natalino, o cavalo-marinho é um auto popular que reúne mais de 70 personagens, seguindo uma

narrativa com roteiro predeterminado, mas aberta a improvisações. Sua encenação engloba uma grande diversidade de ritmos e passos vigorosos de dança, em uma brincadeira que pode durar mais de 8 horas. De origem imprecisa, o cavalo-marinho reúne elementos de outras brincadeiras de reisados, como as danças-de-são- gonçalo e o bumba-meu-boi. Manifestação que também inclui religiosidade, traduzindo, assim, uma festa de caráter múltiplo. DEZ 2008 • Continente x

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Vitor Damiani/Divulgação

TRADIÇÃO

Espetáculo Gaiola de moscas, do grupo Peleja, de Campinas-SP

O contato com essa expressão levou criadores de diferentes contextos a trazer elementos desse fazer artístico para os seus trabalhos. Helder Vasconcelos foi um deles, pois teve uma convivência intensa com os grupos de cavalo-marinho e de maracatu rural. Helder, um dos fundadores do grupo musical Mestre Ambrósio, hoje se dedica às artes cênicas. Em todas as suas criações, a cultura popular está presente, não apenas como fonte de inspiração, mas como elemento de sua formação artística. “A tradição, para mim, é formação, é escola. Acho que tem gente que ainda

não assume isso, pois é diferente ter a tradição como fonte de pesquisa e como formação”, afirma. O Projeto Conexão CavaloMarinho vai mostrar o resultado desses encontros, com a apresentação dos grupos tradicionais e do trabalho de artistas que tiveram a tradição como referência de criação. Os oito grupos de cavalo-marinho que farão parte da programação são: Boi Pintado, de Mestre Grimário (Chã do Esconço– PE); Boi Matuto, de Mestre Salustiano (Olinda–PE); Estrela de Ouro, de Mestre Biu Alexandre (Condado–PE); Estrela Brilhante, de Mes-

tre Antonio Teles (Condado–PE); Cavalo-Marinho Mestre Batista, de Mestre Mariano Teles (Chã de Camará–PE); Boi Brasileiro, de Mestre Biu Roque (Aliança–PE); Boi de Ouro, de Mestre Araújo (Pedra de Fogo–PB); Estrela do Oriente, de Mestre Inácio Lucindo (Ferreiros–PE). Os outros espetáculos de artes cênicas selecionados foram: Brincadeira de mulato do Grupo Grial (Recife–PE); Samba no canavial de Pedro Salustiano (Olinda–PE); Donzela guerreira da Cia. Mundu Rodá (São Paulo–SP); Gaiola de

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Gil Grossi/ Divulgação

O produtor do Conexão Cavalo-Marinho, Hélder Vasconcelos, no espetáculo Por si só

moscas do Grupo Peleja (Campinas–SP); e Espiral brinquedo meu e Por si só de Helder Vasconcelos (Recife–PE). A diversidade é o resultado dessa extensa programação. Os trabalhos dos grupos tradicionais, assim como os dos outros criadores, apresentam diferentes formas de colocar em cena suas questões. “Essas criações são muito coerentes com a realidade de cada um e seus processos de criação”, explica Helder. As brincadeiras de cavalo-marinho, por exemplo, variam seus personagens e roteiro de acordo com a origem local de cada grupo e seus

mestres. Assim como o espetáculo de Pedro Salustiano, que é filho de Mestre Salu e cresceu em meio às brincadeiras populares, é diferente do trabalho criado por Maria Paula (Grupo Grial), que traz referências de dança contemporânea em sua formação artística. “Todos são artes cênicas, mas em contextos diferentes”, alega Helder Vasconcelos. Esta é a questão principal que o Projeto Conexão Cavalo-Marinho pretende emergir. “É hora de ver a tradição como um gerador e como arte, pois tem seus princípios e sua própria forma de fazer” ressalta. Colocar no mesmo

patamar o fazer artístico tradicional e aquele decorrente de outras matrizes é uma forma de mostrar às pessoas as especificidades de cada um, assim como suas semelhanças. Um exercício que será lançado não apenas para o público, mas também para os mestres e criadores. A produtora Laura Tamiano revela que os moradores da Zona da Mata nem sempre têm oportunidade de assistir aos espetáculos de dança e teatro que foram elaborados a partir do cavalomarinho. “Os espetáculos são criados, apresentados, mas os mestres e as comunidades não vêem”, esclarece Laura. O Projeto é uma forma de dar retorno ao diálogo que foi cultivado há algum tempo. “É interessante saber o que eles vão reconhecer do cavalo-marinho nos espetáculos. Onde se liga e no que se diferencia”, disse Helder. Os deslocamentos provocados pelo Projeto, ao trazer os grupos de cavalo-marinho para o Recife e levar os outros espetáculos para a Zona da Mata, têm a intenção de estimular novas conexões dos artistas com os mestres, com as comunidades do interior e com o público da cidade. Um momento de relacionar os diversos saberes artísticos e provocar uma nova reflexão sobre a criação, seja qual for o seu contexto. Conexão Cavalo-Marinho é um suspiro no tempo. Um olhar introspectivo para a trajetória das artes cênicas contaminadas pelo universo do cavalo-marinho. E um olhar longínquo para o horizonte de possibilidades artísticas que o encontro de saberes pode suscitar.

SERVIÇO Projeto Conexão Cavalo-Marinho. De 11 a 14/12, em Condado-PE, e de 18 a 21/12 no Teatro Hermilo Borba Filho, Recife-PE. Informações: 81 3478.4220 conexaocavalomarinho.blogspot.com Mais informações e a programação www.continenteonline.com.br

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CRÔNICA

Rubem Braga Imagens: Reprodução

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Rubem Braga nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, em 12 de janeiro de 1913 e morreu no Rio de Janeiro, em 19 de dezembro de 1990. Jornalista, foi correspondente de guerra, acompanhando a Força Expedicionária Brasileira à Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Chefiou o Escritório Comercial do Brasil em Santiago do Chile e foi embaixador do Brasil em Marrocos. Considerado por muitos o maior cronista brasileiro, publicou vários livros, entre os quais O conde e o passarinho e Ai de ti, Copacabana. Este texto foi extraído do livro 200 crônicas escolhidas (Record, 2004).

Leia mais crônicas de Rubem Braga www.continenteonline.com.br

que é da terra, é da terra, e fala da terra, João, eu falarei da terra. Ora, João, tu tinhas um vestido de peles de camelo, e uma cinta de couro em volta de teus rins; e a tua comida era gafanhotos e mel silvestre. E a filha de Herodias bailou, e era linda. E quando disse o que queria neste mundo, o rei entristeceu. Eras a voz que clama no deserto, e clamavas na cadeia. E tua cabeça veio num prato para as mãos de bailarina. João, esta geração de homens continua a mesma da qual disse o Senhor: “São semelhantes aos meninos que estão assentados no terreiro, e que falam uns para os outros e dizem: nós temos cantado ao som da gaita, para vos divertir, e vós não bailastes: temos cantado em ar de lamentação, e vós não chorastes”. João, ontem foi a noite de véspera de teu dia. O povo bailava ao som de gaitas. Não bailei nem chorei. Estive na Boa Vista, Afogados, Areias, Tijipió, na Estrada de Jaboatão. E estive em Campo Grande e Beberibe. E estive, por que não dizer?, na zona noturna da ilha do Recife. E em toda a parte o povo te festejava. Às vezes chovia furiosamente, às vezes a lua brilhava. E às vezes o céu ficava parado e fechado, sem luz e sem chuva. Mas na terra humilde, a noite era sempre a mesma. As casinhas, à margem das ruas esburacadas, estavam alumiadas por lanternas. É um efeito triste, colorido, de uma luz pobre. Nas janelas e nas portas se penduravam as estrelas. Estrelas gordas de papel de cor, com uma luz fraca por dentro. Esses balões estrelados, cativos da parede, forneciam imagens nas ruas tão escuras. As estrelas do céu, por exemplo, haviam descido para a terra, para perto da lama, para as casinhas baixas.

E teu retrato. Segurando o menino Jesus, estava colado nelas. Pelos quintais enlameados, as fogueiras ardiam. Firmadas por quatro estacas, com folhas de cana, bananeiras-meninas enterradas em volta, as fogueiras enfeitadas, de espaço a espaço, ensangüentavam a noite preta. Elas haviam brotado nos oitões, nos mangues, nos pomares, junto das pontes, ao longo das ruas, pelos fundos dos matos, como flores de fogo na noite preta. E os fogos pipocavam. O Recife, João, todos já sabem que é um prato raso. A água é quase irmã da terra, beijando a flor das ruas, e as pontes quase se apóiam na massa líquida, e, para ver a cidade, é preciso andar toda a cidade... Os fogos pipocavam pela noite adentro. Uns tinham estalos secos, intermitentes, esparsos; outros rebentavam roucos; outros chiavam; outros crepitavam; outros eram urros de pólvora. Eu não estava no meio da noite, eu estava no centro de muitas noites. E muitas noites antigas avançavam, negras, sobre mim, e eu as reconhecia, penosamente. Estava deitado nas trincheiras, fazia três abaixo de zero. Os fuzis inimigos amorosamente derrubavam folhas sobre mim, as balas passavam com uns silvos finos e iam morrer no fundo do mato. Eu bebera cachaça, estava deitado na terra fria da trincheira e, pelas montanhas enormes, pelos buracos dos vales fundos, as metralhadoras crepitavam, crepitavam. João, eu as conhecia pelo sotaque; eram todas estrangeiras. Aquela do oeste era Hotchkiss pesada, a que estava embaixo era Colt, uma cacarejando em nossa frente era Zebê,

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Reprodução

Os pracinhas brasileiros na Itália

e centenas de máquinas cuspiam fogo. Agora, sobre o meu crânio, assobiavam apenas os fuzis Mauser dos caçadores de trincheiras, e longe, do outro lado da linha, do outro lado da noite, roncou um Schneider. Nas primeiras noites, João, eu não podia dormir, e as granadas, quando rebentavam a cinqüenta metros, rebentavam dentro do meu peito. Agora eu desistira de ter qualquer medo, e o metralhar imenso me dava sono. Eu apenas temia morrer não tendo nome nenhum de mulher para dizer as palavras do fim. Eu voava nos caminhões de munição, acossados pela metralha nas estradas, sobre o abismo, nas curvas onde as balas furavam a carrocerias, a toda a velocidade, de faróis apagados na noite escura, sacolejando e roncando terrivelmente. Mas para mim não era mais uma noite perigosa: era apenas uma grande noite triste. Eu não queria matar ninguém, não me importava se alguém me matasse, e dois sargentos me olhavam com ódio, murmurando que eu era um espião. Eu era um espião, João, João; eu era um espião da vida, no meio da morte. Eu ainda não tinha 20 anos, não tinha mais nenhum deus para me entender depois da morte, não tomava banho há um mês, estava sujo e magro, meu lápis de repórter quebrou a ponta. Havia esse mesmo crepitar de fogos pela vasta noite, e, junto dos acantonamentos, as fogueiras se acendiam para os soldados gelados. Meu papel de repórter estava sujo da terra das trincheiras, eu já não escrevia nada. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se matando para bem dos homens ricos; apenas

via o Brasil se matando com armas estrangeiras. No fim, João, eu berrei contra os comerciantes da paz que haviam sido comerciantes da guerra, e, entretanto, eu não conhecia o mecanismo das carnificinas; e me chamaram de cínico, quando somei os contos de réis que custava a morte de um soldado e disse que tal morte era muitas vezes mais cara que um naufrágio de primeira classe no Pricipess Malfalda, só contando munição gasta. Eu não era cínico, João, eu, pelo menos, jamais fui cínico do cinismo dos cães de luxo; eu sempre tive o direito de ter o cinismo puro dos vira-latas, sem casa nem dono. João, eu não tenho mais 19 anos, estou na rua e não na trincheira, mas esses estampidos na noite transformam a noite. João, alguém canta, moças cantam nos bailes dos palanques, entre canjiquinhas, milho verde, folhas, flores, fogueiras, abraços, olhares, amores, e outras noites me cercam. Eu tinha 13 anos e naquela noite ela subitamente me amou. Me amou talvez apenas um minuto, sentiu uma ternura e me deu aquele lenço de seus cabelos. Era um lenço grande, de flores encarnadas e azuis, e aquela chita estava sempre em volta de sua garganta ou amarrada em seus cabelos. Eu dormi na praia e o lenço tinha um cheiro terno e quen-

te de cabelos castanhos, e aquele cheiro me entontecia e nunca em noite nenhuma eu amei nem amarei mais amada com amor assim. João, naquela noite também havia cantos, e o vento do sudoeste no ar escuro tinha o mesmo cheiro. João, são muitas noites antigas que me prendem no meio desta noite. Pobres as noites sob as lâmpadas da redação, mesquinhas as noites de trabalho insincero, tristes noites sem ternura noturna. João, o povo, na noite imensa, festeja a ti. Há fogueiras e amores e bebedeiras, mas eu não irei a festa nenhuma. Amanhã, João, esse povo continuará na vida. Por que o distrais assim com teus fogos, João? Amanhã, os pobres estarão mais pobres e os ricos os esmagarão, e muitos homens irão clamar nas cadeias, como tu clamavas. João, amanhã outra vez a miséria dos donos da vida continuará deturpando a beleza da vida; as moças suburbanas irão perder a beleza no trabalho escravo; as crianças continuarão a crescer, magras e ignorantes; o suor dos homens será explorado. João, João, inútil João; o povo está gemendo, as metralhadoras se viram para os peitos populares. Ninguém dividiu as túnicas, nem os pães, como tu mandaste, João, inútil João. Continente xx 103 DEZ DEZ2008 2008 •• Continente

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metrópole

Marcella Sampaio

Antes que seja tarde a Reginaldo Rossi, que nunca se conformou em cantar em guetos, para platéias assim ou assado. Circulando à vontade tanto em Casa Amarela quanto em Boa Viagem, ele desde sempre ignorou os rótulos, sabendo que eles lhe seriam imputados, de qualquer maneira. Reconhecer a importância da sua trajetória e o incrível artista popular que ele é não é (ou pelo menos não deveria ser) favor de crítico cabeça ou de acadêmico “antenado”. É apenas justiça, já que as melhores homenagens são feitas enquanto a gente ainda pode aproveitar sua repercussão. Tenho observado que, depois de um tempo meio sumido, ele está voltando a fazer shows pelos quatro cantos da RMR. Maravilha! “Quando você partiu, deixou em mim / uma tristeza que não tem mais fim...”

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nício dos anos 90, Clube Português do Recife. Reginaldo Rossi encarava a platéia classe média burguesa pernambucana com uma desenvoltura impressionante. Sua majestade estava, ali, fora de discussão. O hit era A raposa e as uvas, que encantava (encanta) em particular as moças que viveram sua juventude sob a égide da moral e dos bons costumes. “E tudo que a gente transava eram três, quatro cubas...” O povo ia ao delírio — era assim. Muito já se disse sobre o estilo musical que se convencionou chamar de brega. O assunto foi capa, inclusive, desta Continente. É cult? Está na moda? Está legitimado pela discussão acadêmica em seu entorno? Ou pelo sucesso que indubitavelmente faz? A toda hora novos artistas saem do limbo da “qualidade duvidosa”, da “música feita só para agradar a massa ignorante” e conquistam espaço entre aqueles que costumam consumir cultura a partir de uma ótica mais sofisticada, no melhor sentido da palavra. Que bom. Reginaldo Rossi, neste ínterim, é um caso à parte. Pela coerência e constância do seu trabalho, pela quantidade de discos lançados, pela postura altiva que mantém em circunstâncias as mais diversas, mesmo enquanto os jornalistas do sul maravilha tentavam fazer dele uma espécie de bobo da corte. Rossi exala auto-estima, e, caricato ou não, seduz: “Borobodá, deixa de banca comigo, eu sei que você gosta só de mim”. No Recife, a cena do brega-cult fica cada vez mais forte, transformando até aquele povo que gosta de rir dos artistas com ares de superioridade em apreciadores autênticos do gênero. É importante registrar, neste momento, que muito desse “movimento”, por assim dizer, deve-se 104 x Continente • DEZ 2008

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Continente #096 - Cuba  

Cultura cubana resiste a todas as crises e impõe sua diversidade.

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