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Reprodução

EDITORIAL

Mistério e fascínio

N

ascido em Charleville, na França, em 20 de outubro de 1854, Jean-Nicolas-Arthur Rimbaud é, de longe, a personalidade mais extraordinária da história da literatura universal. Gênio precoce, escreve todo seu trabalho poético dos 15 aos 19 anos (dos 10 aos 14, escreveu poemas em latim, como exercícios escolares, e que não integram sua obra definitiva). Em seguida, abandona a poesia, sem nenhuma explicação, e parte para uma aventura mercenária, na África, com a ambição de ficar rico. Morre também precocemente, aos 37 anos, após amputar a perna direita para extirpar um tumor. Enquanto foi poeta, levou o que se convencionou, romanticamente, como uma vida de poeta: bebeu, drogouse, teve um caso homossexual com Paul Verlaine, rebelouse contra o comportamento burguês dos demais poetas franceses, chocou, subverteu, anarquizou o coreto dos bem-pensantes. Depois, subitamente, calou-se e mudou radicalmente de vida. Há quem suponha que, consciente de ter levado a poesia a um extremo de experimentalismo, Rimbaud considerou que continuar a escrever seria repetir o que já tinha alcançado, algo que seu temperamento não suporta-

Rua de Charleville, nas Ardenas, norte da França, cidade onde nasceu o poeta que espantou Paris com sua insolência e genialidade

ria. É a explicação mais plausível, embora existam especulações de que o escritor teria dupla personalidade, uma espiritualista, outra materialista, e que a segunda sobrepujou a primeira. De qualquer forma, aos 150 anos do nascimento deste magnífico poeta francês, ficam o mistério de uma vida ímpar e o fascínio de uma obra excepcional. Sob curadoria do alemão Alfons Hug, a 26ª Bienal de Arte de São Paulo valoriza a pintura, ressuscitando a discussão sobre o suposto fim do suporte tradicional e o cansaço estético da era high-tech. O suporte bidimensional está de volta para disputar espaço com a quase hegemônica presença de instalações, videoarte e arte conceitual. Está deflagrada a disputa entre os que acham que este revival é momentâneo e os que defendem que a pintura “está mais viva do que nunca”. Continente altera o formato da Agenda, a partir deste número, dividindo-a e acoplando-a às matérias das seções Literatura, Artes Cênicas, Artes Plásticas e Música. Assim, o leitor que se interessar por cada assunto encontrará, imediatamente após as matérias, as indicações da Revista, relacionadas a cada manifestação artística. • Continente outubro 2004

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CONTEÚDO

Imagens/Divulgação

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Rimbaud: gênio precoce e vida tumultuada

Novo filme de Almodóvar foca Igreja e sexo

09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53

CONVERSA

ESPECIAL

08 Christoph Links, de Frankfurt, fala sobre

48 A ressurreição da pintura e o cansaço estético

o futuro do livro

da era high-tech

CAPA

HUMOR

12 Nos 150 anos de Rimbaud, persiste o enigma

64 O argentino Quino atribui sucesso de Mafalda ao fato de

do silêncio poético

o mundo continuar mal

CINEMA

MÚSICA

26 A Má Educação, de Almodóvar, chega às telas

72 O Manguebeat faz 10 anos e é objeto de

em tom noir

observação acadêmica

LITERATURA

TRADIÇÕES

34 Os heterônimos de Vladimir Nabokov, o bruxo russo

79 A construção do Carnaval do Recife sob a ótica da Imprensa

A Besta Fubana pousa novamente nas prateleiras Uma nova tradução do Inferno, de Dante

TEATRO 81 Rua do Lixo, 24, de Vital Santos, reacende embate

NARRATIVA 42 Um mistério salta das águas diante dos olhos atônitos de dois jovens

ideológico nos palcos

HISTÓRIA 90 Exposição assinala saga dos que fundaram a

POESIA 44 Inéditos de um poeta desconhecido

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comunidade judaica de Nova York Acesse nosso endereço eletrônico: www.continentemulticultural.com.br


CONTEÚDO Divulgação

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Hans Manteuffel

A pintura está de volta na Bienal de São Paulo

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Vital Santos: teatro engajado, sem fanatismo

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Colunas

CONTRAPONTO|Carlos Alberto Fernandes 07 A tragédia da exclusão que mata jovens, sem-tetos e mendigos é pedagógica

MARCO ZERO|Alberto da Cunha Melo 32 Programa Cultura Viva: a primeira tentativa séria de uma autêntica política cultural

TRADUZIR-SE|Ferreira Gullar 46 A era industrial e a crise nas artes de natureza artesanal

SABORES PERNAMBUCANOS|Mª Lecticia Monteiro Cavalcanti 60 Paladar português: bacalhau, vinho e azeite

DIÁRIO DE UMA VÍBORA|Joel Silveira 63 Onde estão os perigos desta vida?

ENTREMEZ|Ronaldo Correia de Brito 88 No pastoril eleitoral, as cores tradicionais mostram-se cambiantes

ÚLTIMAS PALAVRAS|Rivaldo Paiva 96 A lambança brasileira é herança monárquica

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CRÉDITOS Companhia Editora de Pernambuco – CEPE Presidente Marcelo Maciel Diretor de Gestão Altino Cadena

Diretor Industrial Rui Loepert

Continente

Outubro Ano 04 | 2004

Multicultural

Conselho Editorial: Presidente: Marcelo Maciel Conselheiros: César Leal, Edson Nery da Fonseca, Francisco Bandeira de Mello, Francisco Brennand, Joaquim de Arruda Falcão, José Paulo Cavalcanti Filho, Leonardo Dantas Silva, Manuel Correia de Andrade, Marcos Vinicios Vilaça, Marcus Accioly

Capa: Detalhe do quadro A Corner of the Table, de Henri Fantin-Latour, 1872 Foto: Archivo Iconográfico, S.A./Corbis

Diretor Geral Carlos Fernandes Editores Homero Fonseca e Marco Polo Assistentes de Edição Isabelle Câmara e Mariana Oliveira Editor de Arte Luiz Arrais Diagramação Gilvan Felisberto Ilustrações Zenival Edição de Imagens Nélio Chiappetta Revisão Maria Helena Pôrto Secretária Tereza Veras Gerente da Gráfica e Editora Samuel Mudo Gestor Comercial Alexandre Monteiro Equipe de Produção: Ana Cláudia Alencar, Daniel Sigal, Elizabete Correia, Emmanuel Larré, Eliseu Barbosa, Geraldo Sant’Ana, Joselma Firmino, Júlio Gonçalves, Lígia Régis, Michelle Vanessa, Roberto Bandeira e Sílvio Mafra Continente Multicultural é uma publicação mensal da Companhia Editora de Pernambuco Circulação, assinaturas, redação, publicidade, administração e correspondência: Rua Coelho Leite, 530 – Santo Amaro – Recife/PE – CEP: 50100–140 de 2ª a 6ª das 8h às 17h30 – Fone: 0800 81 1201 – Ligação gratuita Assinaturas: 3217–2524; assinaturas@continentemulticultural.com.br Redação: 3217.2533; fax: 3222.4130; redacao@continentemulticultural.com.br Diretor: diretor@continentemulticultural.com.br Webmaster: webmaster@continentemulticultural.com.br Tiragem: 10.000 Impressão: CEPE Todos os direitos reservados. Copyright © 2000 Companhia Editora de Pernambuco ISSN 1518-5095 Apoio: Governo do Estado de Pernambuco Os textos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da revista.

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Colaboradores desta edição: ALESSANDRA SIMÕES é jornalista, especializada em artes plásticas, arquitetura e urbanismo. DANIEL PIZA é jornalista, editor executivo de O Estado de S. Paulo, autor, entre outros, de Jornalismo Cultural e Questão de Gosto – Ensaios e Resenhas. DIOGO MONTEIRO é jornalista e escritor. EDUARDO GRAÇA é jornalista, foi repórter do Jornal do Brasil, O Dia e colaborador de O Estado de S. Paulo e Valor Econômico. Desde julho vive e trabalha em Nova York. EVERARDO NORÕES é poeta e escritor. FÁBIO ARAÚJO é jornalista. FELIPE PORCIÚNCULA é jornalista. FERNANDO MONTEIRO é escritor, autor de A Cabeça no Fundo do Entulho e Armada América, entre outros, e cineasta. IVO BARROSO é poeta. Traduziu a poesia e a prosa completas de Rimbaud, e está terminando a tradução da correspondência do poeta. KLEBER MENDONÇA FILHO é crítico de cinema do Jornal do Commercio (Recife) e videasta. Fez o filme Enjaulado e criou o site www.cinemascopio.com.br. LUIZ AUGUSTO REIS é jornalista e professor de Teatro, mestre em Comunicação Social e doutorando em Teoria da Literatura. LUIZ CARLOS MONTEIRO é crítico literário, poeta e autor de Poemas e Vigílias. MARIANA CAMAROTTI é jornalista e faz curso de especialização em Buenos Aires. WEYDSON BARROS LEAL é poeta, crítico de arte e autor, entre outros, de O Aedo.

Colunistas: ALBERTO DA CUNHA MELO é jornalista, sociólogo e poeta. Autor de 13 livros de poemas, entre os quais Dois Caminhos e uma Oração e Yacala. CARLOS ALBERTO FERNANDES é economista, professor da UFRPE e diretor geral da Revista Continente Multicultural. FERREIRA GULLAR é poeta e crítico de arte. Autor de livros como Poema Sujo, Dentro da Noite Veloz, Muitas Vozes, Cultura Posta em Questão. JOEL SILVEIRA é jornalista e autor de livros como A Luta dos Pracinhas e Tempo de Contar. Ganhou de Assis Chateaubriand o apelido de “a víbora”. MARIA LECTICIA MONTEIRO CAVALCANTI é professora. RIVALDO PAIVA é escritor e diretor geral do Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco. É autor de Marco Maciel – Uma História de Poder. RONALDO CORREIA DE BRITO é médico e escritor. Publicou os livros de contos As Noites e os Dias e Faca.


CARTAS Hermeto A entrevista do instrumentista Hermeto Pascoal, na poderosa Revista Continente Multicultural, foi um tanto curiosa. Na minha modesta opinião, o músico comete alguns graves absurdos dialéticos. Ao comentar a afirmação de Caetano Veloso, diz ele; “Caetano, como poeta é muito bom, mas musicalmente é um musiquinho... Para falar de música tem que ser músico... música não é poesia”. Na mesma entrevista, ele faz um auto-endeusamento, quando se coloca como o melhor do mundo. Com o devido respeito, e dando ao mestre seu devido valor como músico, suas colocações são de uma profunda arrogância e prepotência, sem falar na falta de respeito aos outros bons músicos que temos, aqui e lá fora. Como bom músico que é, deveria limitar-se a tocar, pois sua falácia o coloca na mesma condição de Caetano, ambos bons exemplos da nossa música e, também, ambos tiradores de onda, pois polêmica dá Ibope, embora não se saiba se para bem ou para o mal, e Hermeto falando, está no mesmo quilate de Caetano tocando. Mas, como sempre, a Revista Continente Multicultural está de parabéns. Destaques para as matérias “Mil vezes Vau da Sarapalha”, “A peleja lendária”, “Golpes violentos contra a guerra”, e as colunas de Alberto da Cunha Melo, Ronaldo Correia de Brito e Carlos Fernandes. Jorge Filó, Recife – PE Excelente opção A Revista Continente é, de fato, uma excelente opção de leitura, entretenimento e cultura, principalmente em nossa região, haja vista a carência de publicações dessa natureza. Gostaria de sugerir, então, uma matéria, com a significância que merece, com o lingüista norte-americano professor Noam Chomsky, pois, além de cientista da linguagem, é um importante pensador contemporâneo dos Direitos Humanos. Suani Vasconcelos, Feira de Santana – BA Vau da Sarapalha Parabéns pela brilhante matéria (edição nº44 – julho de 2004), que expressa toda a sensibilidade, simplicidade e talento desse grupo. Luiz Carlos Vasconcelos detém todas as características citadas. Viva Vau da Sarapalha! Carlos Alberto Salles Leite, João Pessoa – PB Site Sou freqüentadora assídua do site da Continente, e quero parabenizá-los por respaldar a cultura, acima de tudo, a nossa cultura. Adalva Mendonça, via e-mail

redacao@continentemulticultural.com.br Revista Continente: Rua Coelho Leite, 530 Santo Amaro, Recife-PE CEP 50100-140 Redação: 81 3217-2533 – 81 3222-4130 fone/fax

Dom Hélder e Osman Em meu nome, dos que cultuam, estudam e divulgam a obra do escritor Osman Lins, inclusive suas filhas Litânia, Letícia e Ângela, agradeço a matéria inserta no nº 45 – setembro/2004, sob o título “Osman Lins revisitado”, resenhando os dois livros recém-publicados, Sopro na Argila e Vitral ao Sol, ambos comemorando os 80 anos de nascimento do escritor. Aproveito, ainda, para transmitir meus parabéns ao jornalista Marcos Cirano pela excelente matéria sobre Dom Hélder, tema da Documento, nº 25. Lauro de Oliveira, Recife – PE Publicação de gabarito Sinto-me feliz por ser assinante da revista, principalmente após receber o exemplar nº 44. Nós, pernambucanos, já merecíamos uma publicação do gabarito da Continente. Sugiro, para a Continente Documento, matérias sobre Josué de Castro, Assis Chateaubriand e a História do Rádio, com enfoque para o pioneirismo da Rádio Clube de Pernambuco. Não deixem a peteca cair, pois a Revista é excelente. José G. Figueiroa, Aracaju – SE Grande descoberta Somente há dois meses, descobri a Revista Continente Multicultural, pegando carona nas revistas que meu filho está recebendo. Foi uma grande descoberta. A Revista é excelente, provando que o Nordeste sabe produzir e explorar a cultura da região e do Brasil. A entrevista com o monstro sagrado Hermeto Pascoal foi mais uma prova da capacidade dos editores de fazer com competência. Geraldo Batista, via e-mail Joaquim Cardozo Parabéns a Marco Polo pelo excelente artigo sobre o livro de Maria da Paz (edição nº 44 – agosto de 2004). Nele, revela-se o leitor exemplar, arguto e perspicaz na apreensão e na análise do texto literário. Infelizmente, aqui em Natal, não temos críticos e disso se ressentem as nossas Letras. Franklin Jorge, Natal – RN

Mulheres Meu nome é Rebecca, tenho 14 anos. Gostaria de parabenizá-los pela ótima revista, levando em consideração tamanha surpresa ao deparar-me com a edição nº 43 (julho/2004), que trazia na capa a Olga Benario (corrijo-me, a atriz Camila Morgado, em seu papel). Por inúmeras vezes, li coisas sobre a mesma em uma de minhas tantas pesquisas na Internet, mas nada que supere esta matéria já citada. Aproveito para pedir maior presença feminina nesta Revista; vocês bem que podiam fazer uma matéria sobre feminismo, não é mesmo? E sem deixar de lado seus grandes nomes: Simone De Beauvoir, Rocío Fernandez. Mulheres históricas: Hipátia de Alexandria, Joana D’arc. Mulheres literárias: Cecília Meirelles, Clarice Lispector... Há uma infinidade de mulheres que fizeram da própria vida um “eterno campo de batalha pela paz”, e não apenas travaram lutas contra a TPM ou com o próprio corpo. Rebecca Carvalho, Recife – PE Na sala do mundo Excelente a matéria “Paulo Bruscky na sala do mundo” (edição nº45 – setembro de 2004), pois nos mostra como se pode fazer uma arte inteligente e internacional no Brasil e ser reconhecido pelo mundo. Parabéns à Revista, ao artista e ao autor da matéria. Eduardo F. Cordeiro, via e-mail Belo trabalho Gostaria de parabenizá-los pelo belo trabalho que vocês estão realizando com a Revista. Sou leitora assídua e espero que continuem prezando pela qualidade da mesma, como têm feito até o momento. Gizelda Oliveira, Garanhuns – PE Errata 1 O título do romance de Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque, resenhado na edição passada, é Príncipe e Corsário, e não O Príncipe e o Corsário, como foi grafado. Errata 2 Na edição nº 22, junho 2004, dedicada a Luiz Gonzaga (Revista Continente Documento), é dito que o jornalista Assis Chateaubriand nasceu em Cabaceiras, PB. Na verdade, ele é natural de Umbuzeiro, PB. Continente outubro 2004

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CONTRAPONTO Carlos Alberto Fernandes

Meias verdades

Q

uando você vê a maioria dos políticos incorporar em suas plataformas eleitorais o discurso de que investir em educação constitui a primeira etapa indispensável para garantir os demais direitos humanos, pode ficar certo de que, apesar deles próprios nem sempre acreditarem que estão escrevendo verdades, o texto é absolutamente verdadeiro. Reduzir a pobreza, obter avanços em matéria de saúde e qualidade de vida, e oferecer perspectivas às próximas gerações, só é possível através da escola. Há mais de meio século, é consenso entre a maioria dos países do mundo que a educação é um direito humano inalienável, que proporciona aos cidadãos o conhecimento necessário para se viver com dignidade. Mas, em realidade, nem sempre o que está escrito nas Constituições, na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos discursos dos governantes é posto em prática como deveria ser. Principalmente, quando a nossa maior luta é vencer o grande desafio da igualdade de oportunidades. Como máxima do liberalismo, na teoria ela é perfeita, mas na prática... Contrariando os discursos cênicos e cínicos, a realidade tem mostrado que a escola não tem tido sucesso na luta contra as desigualdades, pois é parte de uma sociedade profundamente desigual em suas origens. Essa situação nas escolas reflete exatamente as desigualdades materiais e culturais que estratificam os diferentes meios familiares e os contextos sociais em que estão inseridas. Nesse aspecto, por não terem, efetivamente, um projeto de inclusão social onde a educação seja pilar central, os governos produzem e mantêm uma escola pública excludente, caracterizada pela incapacidade dos gestores, pelo mau uso da energia comunitária e pelo nível dos recursos educacionais colocados à disposição da sociedade. Com efeito, essa escola, além de não corrigir as desigualdades sociais, tem contribuído para que essas diferenças se multipliquem, pois não discriminam positivamente aqueles que mais precisam de recursos educacionais. A eqüidade, no sentido de dar mais a quem mais precisa, é desconhecida. Comparativamente, o apoio educacional que a classe média dá as crianças é bem maior do que aquele que a classe pobre proporciona a seus filhos. Daí, vê-se, na-

Antonio Bob

A educação é tratada como mercadoria e não como necessidade social

turalmente, a gênese da formação das diferenças, alertando-nos para a lição histórica de não tratar os desiguais igualmente. A tragédia da exclusão que mata jovens, sem-tetos e mendigos, literalmente a ferro e a fogo, é pedagógica e mostra os desafios da construção da cidadania e da universalização do conhecimento. Nesse sentido, não se pode esquecer que, no século 18, o homem havia levado 17 séculos para multiplicar o volume de conhecimento por dois. Esse conhecimento foi duplicado nos séculos 18 e 19 e nos anos de 1900 a 1950. Em 2004, apenas um ano é necessário para dobrar o volume de conhecimentos. O insólito é que, neste século 21, a exclusão e a violência se multiplicam nesta mesma progressão. Nesse contexto, o ensino tradicional, caracterizado pela relação de autoridade e pela transmissão do conhecimento a um aluno supostamente capaz de recebê-lo, está superado. A educação pública precisa de um novo paradigma que permita, simultaneamente, combater a desigualdade material e cultural e se inserir nos requisitos da sociedade do conhecimento. Aprender a aprender, com dignidade, é o caminho. Jules Ferry, quando, em 1882, criou a escola republicana francesa gratuita e obrigatória, já afirmava o que hoje parece ser óbvio para o mundo globalizado: “O importante é aprender verdadeiramente aquilo que não se pode ignorar.” Nesse processo, a desigualdade tampouco pode ser reproduzida. A escola deve fornecer aos jovens os instrumentos para que possam compreender esse mundo novo e transmitir os conhecimentos que permitam a sua liberdade como cidadãos. Para tanto, os governos não podem frustrar esses nossos objetivos legítimos de liberdade com eqüidade. Só precisam fazer de suas mentiras, verdades. • Continente outubro 2004

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CONVERSA Divulgação

CHRISTOPH LINKS

“Editoras pequenas têm chance no mercado globalizado” Ex-integrante do conselho diretor da Feira de Frankfurt, que acontece este mês, e primeiro alemão a abrir uma editora na antiga Alemanha Oriental, Christoph Links fala do futuro do livro no mundo Felipe Porciúncula Continente outubro 2004


CONVERSA

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ormado em Filosofia e Estudos Latino-americanos em Berlim e Leipzig e ex-integrante do conselho de diretores da Feira do Livro de Frankfurt, no período 1992-2002, o alemão Christoph Links foi o primeiro publisher a abrir uma editora na ex-Alemanha Oriental, após a queda do muro em 1989. Antes disso, teve largo contato com a literatura latino-americana, quando escrevia para o diário Berliner Zeitung sobre o assunto. Atualmente, faz palestras sobre as mudanças políticas da antiga RDA (especialmente na área editorial) e sobre processos culturais na Alemanha, a partir de 1989, em universidades e instituições culturais na Europa, América do Norte, América Latina e Ásia, tendo publicado obras sobre a América Latina e sobre os processos políticos na Alemanha Oriental, a partir de 1989. De Berlim, com exclusividade para a Revista Continente Multicultural, por e-mail, Links fala sobre como vê a atual produção brasileira, quais as suas expectativas sobre o futuro da Feira de Frankfurt e as reais possibilidades que vislumbra para o Brasil no cenário internacional. Qual a avaliação da Bienal de São Paulo 2004? Foi a minha primeira experiência na feira de São Paulo. Fiquei impressionado com o grande interesse das editoras brasileiras e com a boa organização do evento. Pareceu-me que esta feira é maior que as de Buenos Aires, Bogotá e Havana, das quais eu já fiz parte.

Como você vê o movimento de editoras independentes do Brasil? Quais suas chances no mercado globalizado? O cenário de editoras pequenas e independentes é bastante ativo e diverso, com boas idéias e uma boa compreensão das necessidades mercadológicas. Elas realmente têm chance de sobreviver em um mercado globalizado, desde que aceitem as seguintes idéias: – editoras menores conseguem sobreviver se fizerem livros dentro de um programa muito claro, depois de uma análise das condições do mercado. Elas precisam de um perfil exato e evidente; – cada obra a ser produzida deve ser de alta qualidade, o que deverá assegurar a chance dela competir com outras editoras. Livros baratos são facilmente realizados pelas grandes empresas – com pouco pessoal e muita divulgação. Portanto, empresas pequenas têm que trabalhar de maneira distinta, produzindo livros que os livreiros adoram, com uma qualidade muito especial; – para as editoras com um orçamento pequeno de divulgação é importante sempre manter bons contatos – não apenas com os livreiros, mas também com os críticos e pessoas influentes na mídia e nos estúdios de televisão. Elas apenas conseguem sobreviver se receberem boas resenhas de seus livros em grandes jornais e revistas. Pela primeira vez a Libre – Liga Brasileira de Editoras (que reúne 71 pequenas e médias editoras brasileiras) vai à Feira de Frankfurt. Qual a importância dessa participação? Frankfurt é o local mais importante para o comércio de livros e direitos autorais. Aqui, não apenas as grandes editoras compram e vendem novos títulos, como também as pequenas. Elas se informam sobre as novas tendências no mercado e se encontram pessoalmente com importantes parceiros. O mercado de livros é um mercado feito de pessoas. É necessário construir um elo de confiança entre os parceiros, e isso se faz no contato pessoal. Continente outubro 2004

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CONVERSA Na última versão da Feira de Frankfurt, autores brasileiros como Chico Buarque e Paulo Lins foram bem vendidos. Qual a imagem do escritor brasileiro na Europa? Os autores latinos tiveram sua lua-de-mel na Europa durante as décadas de 80 e 90. As pessoas estavam interessadas pelos acontecimentos que se passavam no continente, naquela época, e assim houve um boom na literatura dos países latino-americanos. Hoje, a influência dos autores de Estados islâmicos é bem maior. Mas a boa literatura tem sempre seu lugar e, portanto, autores brasileiros podem hoje tornar-se interessantes para a Europa. Você já escreveu bastante sobre a cultura latino-aamericana em livros e jornais. Como ela está hoje? Minhas atividades como autor e crítico de temas latino-americanos deu-se antes de 1989, quando fundei minha editora especializada em história germânica e eventos contemporâneos. No meu tempo livre, de vez em quando, faço algumas críticas de livros da América Latina. Depois da queda do muro de Berlim, você abriu a primeira editora privada na RDA. Conte-nnos um pouco dessa história. Fundamos nossa editora em 1º de dezembro de 1989, como uma das primeiras empresas privadas da exAlemanha Oriental. Três semanas após a queda do muro de Berlim, o sistema de censura veio abaixo e, então, começamos a trabalhar no mesmo dia, com pouco dinheiro e muitas idéias. Queríamos publicar livros de temas e questões proibidas nos últimos 40 anos: os julgamentos stalinistas, as atividades criminosas do partido socialista da ex-Alemanha Oriental, as péssimas condições do meio-ambiente, os problemas sociais nas mudanças das sociedades. Hoje, 15 anos depois, eu posso dizer: essa foi a melhor decisão da minha vida. Eu não ganho muito dinheiro, mas trabalho com uma equipe de seis pessoas extremamente motivadas, em uma atmosfera em que tomamos decisões por temáticas que nos interessam, independentemente das discussões sociais contemporâneas. Quais os maiores avanços do governo alemão na área editorial? A principal mudança no mercado alemão, nos últimos 10 anos, foi o gigantesco processo de concentração e absorção dos livreiros. Hoje, existem várias cadeias de um mercado concentrado de livros. Essas empresas estão focadas nas grandes editoras e raramente fazem parcerias com as editoras independentes. Então, está mais difícil de encontrar canais em um mercado altamente competitivo. É por isso que estabelecemos nossa página na Internet – para vender diretamente aos leitores. Todo ano, nossas vendas crescem um pouco. Hoje, nosso crescimento anual está em 5%. Oliver Lang/AFP

“Os autores latinos tiveram sua lua-de-mel na Europa durante as décadas de 80 e 90. Hoje, a influência dos autores de Estados islâmicos é bem maior”

Livros que tratam da informática à matemática e da fotografia à música, exibidos na Feira de Frankfurt Continente outubro 2004


CONVERSA Boris Roessler/AFP

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Duas visitantes lendo livros de arte, diante do grande pôster que enfeitava o estande da editora GEO, durante a Feira de Frankfurt, em outubro de 2002

Você tem vários livros publicados sobre a reunificação da Alemanha. Este ano, a queda do muro completa 15 anos. Qual a sua avaliação desse processo que mudou o mundo ocidental? Nos primeiros anos da reunificação alemã, o governo cometeu muitos erros. Destruiu 80% do mercado da ex-Alemanha Oriental e usou o país apenas para vender os produtos da ex-Alemanha Ocidental. Hoje, o índice de desemprego no lado oriental é o dobro do ocidental. As comunidades da ex-Alemanha Oriental, apenas com seus fundos locais, não têm recursos suficientes nem para fazer publicações elementares e, todos os anos, a ex-Alemanha Ocidental despeja enormes quantias de dinheiro para a manutenção da paz social. Sendo assim, ainda existe um muro que divide nossas mentes e, para que ele venha abaixo, ainda serão necessários mais 10 ou 20 anos. Durante 10 anos, entre 1992 e 2002, você fez parte do conselho de diretores da Feira de Frankfurt. O que mudou? Eu tenho trabalhado na diretoria da Feira de Frankfurt nos últimos dez anos. No início, o diretor Peter Weidhaas, que adora a América Latina, realizou vários eventos internacionais e deu início a um programa que convida editoras menores do mundo inteiro. Então, ano a ano, a Feira de Frankfurt foi se transformando em uma plataforma internacional, um ponto central onde as famílias dos livros se encontram. De 2002 para cá, estamos trabalhando com o novo diretor Volker Neumann, que antes havia trabalhado no Departamento de Marketing da editora Random House, do Grupo Bertelsmann. Ele tem várias idéias, mais atraentes para os participantes. E tem recebido bastante apoio. Neste ano, a feira terá um dia a menos, com uma lógica melhor e um centro moderno para os agentes. Com Volker Neumann encabeçando a Feira, Frankfurt terá um grande futuro. Como obter alta qualidade em mercados com preços de livros fixos para todo o país, onde o fator concorrente não é o preço, mas, sim, o conteúdo do título? Na Alemanha, fixamos os preços para os livros e, como editores independentes, estamos felizes com isso. Com essa medida, temos mais de duas mil livrarias independentes em todo país. Em cada cidade de 17 mil habitantes, podemos encontrar uma livraria profissional (nos EUA esse número é para 70 mil moradores). A produção é controlada pelos assuntos, pela qualidade e não pelo preço. Então, temos uma diversidade de 70 mil títulos anuais (nos EUA essa quantia é de 55 mil). • Continente outubro 2004


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CAPA

Rimbaud

Um místico em estado selvagem No dia 20 de outubro, o mundo comemora o aniversário de 150 anos de nascimento do poeta francês Arthur Rimbaud Weydson Barros Leal

Verlaine e Rimbaud, em detalhe do quadro Le Coin de Table, de Fantin-Latour, 1872


Arquivo Iconográfico S.A./Corbis

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m 1991, uma série de eventos organizados ao redor do mundo lembrou os 100 anos da morte do poeta Arthur Rimbaud. Nascido em Charleville, na França, em 20 de outubro de 1854, Jean-Nicolas-Arthur Rimbaud morreu precocemente aos 37 anos, em Marselha, no dia 10 de novembro de 1891. Começou a escrever poemas quando tinha 12 anos, e aos 19 deu por encerrada sua obra literária. Após um largo período de andanças pela Europa, decidiu deixar o continente e tentar sua aventura mais radical: ser um rico negociante na África. Pelo que há de grande e incomum em sua precocidade, sua vida e sua poesia não têm paralelo na história da literatura. Sua biografia, incluindo um incrível roteiro de viagens pelos países por onde andou, é digna de um Richard Francis Burton inspirado (que foi seu contemporâneo – 1821/1890), sem ter de Rimbaud a força das palavras que mudaram a poesia. É de se lamentar que outros de seus contemporâneos não o tenham conhecido, como Nietzsche (1844/1890), que também viajou pela Europa e que por certo registraria este encontro. Passados 150 anos de seu nascimento, agora o mundo se prepara para uma festa mais feliz, uma festa de aniversário, e este 20 de outubro de 2004 também é um “natal sobre a terra”: um natal para a poesia. Tendo vivido sua infância e adolescência no turbulento período da guerra franco-prussiana, Rimbaud esteve perto da violência dos combates, quis fazer parte das barricadas de Paris, chegou até lá e voltou para casa carregando suas inquietações. Ainda assim, a marca de sua poesia é a da delicadeza, de uma pureza que só o gênio de um menino poderia extrair da visão do inferno. Esse inferno, além da guerra, incluía a pequenez da província em que vivia e a presença da mãe, supostamente viúva, sob o jugo de privações financeiras e do rigor religioso: acima disso ardia a necessidade e a angústia de sua existência como poeta. Não há melhor maneira de conhecer um poeta do que lendo sua poesia. Em alguns casos, observando também sua biografia, tem-se uma outra compreensão de suas imagens, vê-se a montanha por outros ângulos. É o caso de Dante, de Shakespeare, de Whitman, de Rilke, de Baudelaire e de Rimbaud. Aliás, é em seleções como essa que sua poesia melhor se insere. E isto é quase um milagre, dada a extensão de sua obra e a idade em que foi escrita. Os melhores analistas de seus poemas concordam que ele parou de escrever numa idade em que todos os outros começam. Por outro lado, vale a pena saber como essa poesia alcançou outras sensibilidades geniais, como é o caso do escritor americano Henry Miller, que escreveu The Time of The Assassins – A Study of Rimbaud. O Tempo (ou a Hora) dos Assassinos – dependendo da tradução brasileira ou portuguesa – é o mais comovente testemunho de paixão de um escritor por um poeta. Outros bons livros sobre a vida e a poesia de Rimbaud são Rimbaud na Abissínia, de Alain Borer e A Vida de Rimbaud, de Pierre Matarasso e Henri Petitfils (ambos com tradução brasileira). Para os que lêem em inglês, francês ou espanhol, há o indiscutível Rimbaud, da irlandesa Enid Starkie, ainda sem tradução no Brasil. A obra de Rimbaud é pequena, se comparada a de outros poetas universais. Pode ser dividida entre seus dois livros de poemas em prosa (Illuminations e Une Saison en Enfer), o poema “Bateau Ivre” (escrito aos dezessete anos como cartão de visitas para sua entrada no mundo literário de Paris), os poemas em versos escritos antes do “Bateau Ivre”, as cartas ditas do Vidente e outras correspondências. O que se pode considerar como obra essencial, no entanto, pode ser lido em menos de 200 páginas. Mas aí está a chave de sua grandeza. Sua poesia não será alcançada na leitura de textos isolados ou no fragmento de um poema. São raros os casos em que versos seus se prestam a citações ou a um quase aforismo, como é o caso de “por delicadeza perdi minha vida”. A poesia de Rimbaud, como poesia de alta densidade intelectual,


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requer o envolvimento com um universo às vezes hostil à primeira aproximação, mas que uma vez alcançado permite a visão inesquecível das grandes alturas. É uma poesia que, de tão rara e precisa em sua escolha de palavras, ritmos e imagens, é melhor percebida por leitores de alguma forma experimentados, seja na leitura de grandes poetas, seja na difícil combinação anímica do poema que revela com o olho que busca aquela revelação. Essa delicada precisão, às vezes situada entre a abstração das imagens e a beleza do que se traduz, eleva-se a cada linha, a cada poema, alcançando sua máxima tensão quando menos se espera, e o verbo se faz vida: “Estendi cordas de campanário a campanário; grinaldas de janela a janela; correntes de ouro de estrela a estrela, e danço.” Uma questão polêmica, ainda hoje, é a determinação de datas para os poemas de Illuminations e para os da última obra de Rimbaud, Une Saison en Enfer, seus dois livros mais importantes. Alguns dos mais respeitados biógrafos e estudiosos dessas obras – como Rolland de Renéville, Jules Mouquet, Edmund Wilson e Hugo Friedrich – concordam com a desinência cronológica de Une Saison; outros, como Enid Starkie, Pierre Matarasso e Henry Petitfils deixam dúvidas, e poucos pensam o contrário. Não nos cabe aqui tentar provar nosso posicionamento, uma vez que a própria Enid Starkie, mesmo reconhecendo terem os poemas das Illuminations sido “compostos em períodos diferentes” (podendo incluir o antes, o durante e o depois de Une Saison en Enfer), chega a utilizar páginas de seu estudo para a análise do problema, sem deixar, no entanto, de se antepor aos argumentos deterministas de Bouillane de Lacoste que, em sua tese de doutorado à Sorbonne, tentou provar a precessão de Une Saison en Enfer. De toda poesia rimbaudiana, Une Saison en Enfer é a mais autobiográfica de suas obras. E mais até do que suas primeiras cartas, os poemas de Une Saison servem ainda como comprovação de suas vidências. No poema “Mauvais Sang”, por exemplo, predizendo fatos que viveria anos mais tarde, ele escreve: “o ar marinho queimará meus pulmões; os climas perdidos bronzearão minha pele (...) As mulheres cuidam desses ferozes enfermos que retornam dos países quentes”. Em “Délires II – Alchimie du Verbe”, diz: “Amei o deserto, os pomares abrasados, as lojas decadentes e as bebidas tépidas (...) Minha saúde ficou ameaçada. Surgia o terror”. E finalmente, em “L’Éclair”, a predição de seu próprio fim: “No meu leito de hospital, o cheiro de incenso voltou poderosamente: guardião dos aromas sagrados, confessor, mártir...” Ainda sob o aspecto autobiográfico, é em “Délires I – Vierge Folle” (“L’Époux Infernal”) que se encontra um verdadeiro documento das mais íntimas impressões sobre sua relação com o poeta Paul Verlaine. Neste poema, o amigo é quem fala, através de uma narrativa de confissões, num texto sempre entre aspas, pois as palavras ali são pronunciadas por Verlaine: “Ele era quase uma criança... Suas miste-

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Françoise de Mulder/Corbis

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CAPA Detalhe de pintura do teto da casa de Harrah, onde Rimbaud viveu entre 1879 e 1891

riosas delicadezas tinham-me seduzido. Esqueci todos os meus deveres humanos para segui-lo”. A amizade entre Rimbaud e Verlaine é um fato crucial na biografia dos dois poetas. Marcou definitivamente o percurso de suas obras e de suas vidas, não havendo nessa contabilidade quem consiga definir o que foram perdas ou ganhos. Em ambos, o resultado de mais de dois anos de convivência explosiva deixou marcas para sempre: poemas definitivos e o desejo do esquecimento. Quando Rimbaud tinha ainda 16 anos, Verlaine já era festejado em Paris, e a leitura de seus poemas, em livros e jornais que chegavam a Charleville, inspirava no poeta adolescente os ímpetos da admiração. Rimbaud escreveu sua primeira carta a Verlaine em 1871, e a partir de setembro deste ano, entre idas e vindas a Paris, desenvolveu-se uma tempestuosa amizade. Logo os dois poetas fizeram da poesia e das noites parisienses, regadas a vinho e absinto, um inferno para a família de Verlaine e para o próprio meio intelectual francês, que passou a hostilizar os inseparáveis amigos. A partir de 1872, entre viagens de tresloucadas aventuras por Londres, Bruxelas e Paris, Rimbaud escreve os seus mais importantes poemas, que modificariam para sempre a poesia ocidental. Neste ano, quando está morando em Londres, dá início aos poemas das Iluminações, e lá também escreve seus últimos poemas em versos. Em abril de 1873, ele começa a escrever os poemas de Une Saison en Enfer, enquanto está na propriedade da família, em Roche, na França, mas ainda volta a Londres por algum tempo em companhia de Verlaine. Após novos desentendimentos – que logo levariam Verlaine à prisão, sob acusações de sodomia e agressão com arma de fogo contra o jovem amigo –, Rimbaud retorna a Roche, e termina os poemas de Uma Estação no Inferno. Com ajuda da mãe, ele imprime o livro em Bruxelas e envia alguns exemplares para amigos em Paris. Sem interesse em toda a edição, a maior parte dos livros fica com o editor belga. No início de 1874, já decidido a abandonar a literatura e estudar idiomas, Rimbaud conhece o poeta Germain Nouveau em Paris e volta a morar na Inglaterra por um ano, na companhia do amigo, onde se sustentam dando aulas de francês em Londres e na Escócia. Em 1875, Rimbaud vai para Stuttgart, na Alemanha, trabalhar como preceptor. Seu intuito é aprender o alemão para fins de viagens. De lá, este que foi o maior andarilho da história da poesia, retorna a pé para Charleville, antes passando pela Suíça e Itália. Durante toda a vida, Rimbaud realizou um dos mais impressionantes circuitos de viagem pela Europa e África que se tem registro. No total, ele percorreu mais de 60 mil quilômetros, quase tudo a pé. O inverno de 1875 ele passa em casa, estudando espanhol, árabe, grego e holandês. No começo do ano seguinte, ele vai para a Holanda, onde se engaja no exército do país, mais uma vez com o intuito de viagens. Deserta três semanas

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CAPA O aniversário de 150 anos de nascimento de Arthur Rimbaud é um estímulo à leitura ou à releitura de sua poesia. Por sua força e impressionante originalidade, sua obra é também um desafio às sensibilidades mais sofisticadas

Rimbaud, em croquis de Paul Verlaine

depois, voltando de navio até Bordeaux, de onde segue a pé para Charleville. Em 1877, consegue dinheiro com a mãe e vai para Viena. Lá é roubado, expulso pelas autoridades e outra vez volta a pé para casa. Mais uma vez, a pé, vai para Hamburgo, na Alemanha, onde trabalha como intérprete num circo. Com a caravana, conhece a Suécia e a Dinamarca, mas é repatriado para a França. Entre 1877 e 1880, o aventureiro Arthur Rimbaud ainda passa por Alexandria, no Egito, e de novo percorre a Alemanha, França, Suíça, além de trabalhar por algumas semanas em Chipre, quando chega finalmente à Abissínia (hoje Etiópia). A partir da Abissínia, são mais de 10 anos em atividades mercantilistas pelos desertos e cidades da África, onde exerce o tráfico de armas e negocia toda sorte de materiais, dirigindo escritórios de exportação. Em março de 1891, após ter detectado um tumor em seu joelho direito, Rimbaud não consegue mais andar. Em maio, é levado para a França, chegando muito mal ao Hospital de La Conception, em Marselha, onde lhe é amputada a perna. Após a operação ele é levado para Roche, a fim de convalescer junto à família. Em outubro, na companhia de uma irmã, ainda retorna a Marselha com pretensões de alcançar a África, mas seu estado piora e, no dia 10 de novembro, ele morre. O aniversário de 150 anos de nascimento de Arthur Rimbaud é um estímulo à leitura ou à releitura de sua poesia. Por sua força e impressionante originalidade, sua obra é também um desafio às sensibilidades mais sofisticadas, aos leitores mais refinados, incluindo aqueles que, não só através das traduções brasileiras, podem lê-lo também no original. Mas há traduções de sua obra em praticamente todos os idiomas cultos, e sua poesia, assim como sua vida, inspiram até hoje os que buscam os melhores significados para as palavras “gênio” e “liberdade”. Depois do ponto final em seu último poema, Rimbaud procurou, noutro gesto de genial originalidade, uma nova vida, aquela que imaginou ausente um dia: La vraie vie est absente (“A verdadeira vida está ausente”). “Para que serve o poeta, se não estiver disposto a sacrificar a vida para comprovar a verdade e o esplendor de sua visão?” – eis o resumo, sob os olhos de Henry Miller, da trajetória existencial deste que, como anjo ou demônio, incorporou em si todos os sonhos e decepções de quem verdadeiramente vive. Em Rimbaud, a poesia foi o veículo libertador que o atirou de encontro ao mistério da vida, e que, vislumbrando-o, fê-lo silenciar, numa evasão para a qual se preparara através da própria poesia. Sua obra e sua história são o testamento cumprido de nossa condição enquanto busca de uma identidade com o irreal e o sagrado. Isto também é a verdade. Isto também é a vida. •

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Busto de Rimbaud, museu em Charleville, França

Canção da torre mais alta Mocidade presa A tudo oprimida, Por delicadeza Eu perdi a vida. Ah! que o tempo venha Em que a alma se empenha. Eu me disse: cessa Que ninguém te veja, E sem a promessa De algum bem que seja, A ti só aspiro, Augusto retiro. Tamanha paciência Não me hei de esquecer. Temor e dolência Aos céus fiz erguer. E esta sede estranha A ofuscar-m me a entranha. Qual o prado imenso Condenado e olvido. Que cresce florido De joio e de incenso Ao feroz zunzum das Moscas imundas. Manuscrito de Rimbaud. Tradução de Ivo Barroso


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Charleville-Mézières A

cidade de Charleville-Mézières, berço do “poeta e explorador” Arthur Rimbaud – como diz uma das placas à frente da casa onde ele nasceu –, está na região das Ardenas, 200 km a nordeste de Paris. É o epicentro aproximado entre a capital francesa, a cidade de Bruxelas, na Bélgica, e Luxemburgo. Para os que chegam a Charleville de trem – único meio conhecido por Rimbaud quando não chegava a pé – há uma praça, na frente da antiga estação, onde o busto de um menino é guardado por jardins. Ele está sobre um pequeno obelisco em cuja base se lê: “Le Bateau Ivre” (Arthur Rimbaud 1854-1891); do lado esquerdo – Une Saison en Enfer; e do lado direito – Illuminations. Há trens diários de ida e volta, saindo da Gare de L’Est, em Paris, que em pouco mais de duas horas leva o visitante por uma região plana, de pequenas cidades, onde se produz os melhores champagnes da França, espumantes que levam o nome dessa região. No curtíssimo percurso da praça da estação à Praça Ducale – centro histórico e turístico da cidade – tem-se a noção do tamanho de

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Charleville à época de Rimbaud. Devido ao poeta, entretanto, o que o entediava pela pequenez e calmaria da época pode escapar ao visitante de hoje. O tempo e o nome de Rimbaud fizeram de Charleville-Mézières um importante centro do turismo cultural da região, e a cidade cresceu. Com aproximadamente 108 mil habitantes hoje, Charleville-Mézières foi, à época de Rimbaud, duas cidades. Charleville era a mais “nova”, se assim podemos dizer de uma cidade fundada em 1606. Mézières existia desde o século 10. Unidas no início do século 20, Charleville-Mézières tornou-se um destino turístico, não só pelo seu valor para a literatura, mas, agregado a isso, por suas construções da Idade Média. É do lado da antiga Charleville, no entanto, que encontramos a Biblioteca Pública freqüentada pelo poeta ainda menino, a casa onde ele nasceu, outras casas onde viveu, o rio Meuse – à beira do qual escreveu “Le Bateau Ivre” – e o antigo moinho, no Cais Rimbaud, que se transformou no Museu Rimbaud. No museu estão cartas e poemas originais (como o soneto “Vogais”) e todo o acervo de objetos pessoais, fotografias, obras críticas e biografias sobre Rimbaud. (Para maiores informações sobre a programação de eventos para este mês de outubro, em que se comemora os 150 anos de seu nascimento, vale a pena visitar o site oficial da cidade www.mairie-charlevillemezieres.fr ou pesquisar os sites relacionados a Rimbaud na Internet.) (WBL) •

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Place Ducale de Charleville, França, terra natal de Rimbaud

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As cartas de Arthur Rimbaud Ivo Barroso

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Rimbaud aos 17 anos, fotografia de Carjat, 1871

m dos maiores enigmas da literatura mundial diz respeito às razões que levaram Rimbaud ao silêncio poético, depois de ter atingido as culminâncias do verso em sua busca pelo Insabido. Entre as hipóteses mais prováveis, está a que explica esse abandono como sendo a autoconsciência do poeta, ao reconhecer que atingira o ápice e, não podendo ir além, ficaria confinado a um processo repetitivo que de todo abominava. Outra especulação vê, nesse transe, o fenômeno de uma dupla personalidade: um Rimbaud poeta e sonhador, até os 20 anos; e outro Rimbaud, viajante-aventureiro, o homem prático em oposição ao primeiro, e que iria morrer aos 37 anos, com a perna amputada, num hospital de Marselha. O caso dessa oposição (poeta sonhador versus aventureiro e homem prático) fica mais evidente quando – depois de passar pelos seus poemas, em que o menino de Charleville se auto-supera de verso para verso até chegar às culminâncias das Iluminações – chegamos à leitura de suas “cartas africanas”, totalmente destituídas de qualquer veleidade poética. Rimbaud escreve aos seus – a mãe Vitalie, a irmã Isabelle e o irmão Frédéric –, chamando-os sempre de Chers amis (Caros amigos), e o teor dessas cartas, escritas às pressas para aproveitar o correio marítimo irregular e impiedosamente lento, relata apenas as agruras de uma vida insípida num clima insuportável, às voltas com um trabalho exasperante. Em dezembro de 1878, está empregado com a firma francesa E. Jean & Thial fils, em Chipre: “Tudo o que existe aqui é um caos de rochas, o riacho e o mar. Uma casa apenas. Nada de campos, nem jardins, nem árvores. No verão, o calor chega a 80 graus. Temos 50 quase sempre. É inverno. Chuva, às vezes. Alimentamo-nos de caça, de aves etc”. Rimbaud bebe água salobra e contrai tifo. Tem que regressar à França, para se tratar em casa dos “caros amigos”. Visitado nessa época pelo sempre fiel Delahaye, que lhe faz perguntas sobre literatura, responde: “Nem penso mais nisto”. Na primavera, retorna a Chipre. Em fins de 1881, envia à mãe todas as suas economias e pede-lhe que as coloque a juros, pois pretende usufruir, mais tarde, desse dinheiro: “Quanto a


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Isabelle Rimbaud, irmã e principal correspondente do poeta, em foto de 1897

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mim, arrependo-me de não ser casado, de não ter família. De que servem todas estas idas e vindas, todas essas fadigas e aventuras em meio a raças estranhas, e essas línguas de que se tem de atulhar a memória, e a trabalheira insana, se não puder um dia, daqui a alguns anos, descansar num lugar que me apraza um pouco e ter mulher e um filho, ao menos, a quem dedique o resto de minha vida a educá-lo, de acordo com minhas idéias, a dotá-lo e armá-lo da mais completa instrução que houver à época, e a quem antevejo tornando-se um engenheiro de nome, poderoso rico em função da ciência? Mas, quem sabe quanto poderão durar meus dias, aqui, nestas montanhas? E posso desaparecer no meio dessas tribos, sem que haja sequer a notícia que morri”. Mas a frustração será grande. A mãe, proprietária rural, só entende o significado de riqueza em termos fundiários. Compra mais terra com o dinheiro do filho que nunca chegará a concretizar seu ideal de pai educador para as coisas práticas da vida. Em conseqüência de uma queda de cavalo, fere gravemente o joelho, e a falta de tratamento degenera o ferimento em “tumor senovítico”, com a conseqüente amputação da perna. Rimbaud morre no hospital de Marselha, visitado rapidamente pela mãe que tem de ir cuidar de seus trabalhos agrícolas. Deixa a filha, Isabelle, para assistir a prevista morte do irmão. A carta que Isabelle envia à mãe, relatando a morte de Arthur, é pungente, mas demonstra o permanente interesse pecuniário da mãe: “Não conte absolutamente com o dinheiro dele. Após a morte e o pagamento das despesas e viagens, é provável que seus bens passem a outros, e estou inteiramente decidida a respeitar sua vontade”. Essas cartas de Rimbaud aos seus familiares não parecem escritas por alguém que levou a linguagem poética ao seu ponto mais elevado; são pedestres, monótonas, práticas, sempre pedindo livros técnicos e implementos mecânicos, entre os quais uma máquina fotográfica, com a qual se autoretratou, deixando para a posteridade um “Rimbaud negro”, andrajoso, sombra do “insigne passante” que foi em seus tempos de poeta. Contudo, trata-se de leitura esclarecedora, que revela a outra face desse gênio, sem a qual a figura estaria incompleta. •

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Aventura africana Eis uma das primeiras cartas de Rimbaud aos seus familiares, quando começa a sua aventura africana. Nela, ainda podem ser percebidas algumas nuances de seu estilo poético e poder descritivo, que desaparecerão em suas missivas posteriores

Rimbaud na Abissínia, fotografado por nativo, 1883

Gênova, domingo 17 de novembro [18]78. Caros amigos, Chego esta manhã a Gênova e recebo suas cartas. A passagem para o Egito é paga em ouro, de modo que não há nenhuma vantagem. Parto segunda 19, às 9 da noite. Chega-se ao fim do mês. O modo como cheguei aqui foi acidentado, mas amenizado de tempos a tempos pela estação. Em linha reta das Ardenas à Suíça, querendo alcançar, em Remiremont, a baldeação alemã para Wasserling, tive que atravessar os Vosges: primeiro em diligência, depois a pé, pois nenhuma diligência podia mais circular com cinqüenta centímetros de neve em média e dentro de uma tormenta impressionante. Mas a empresa prevista era a passagem do Gotardo, que não se atravessa mais em viatura nesta estação, e que eu não podia passar [senão] em viatura. Em Altdorf, na extremidade meridional do lago dos Quatro-Cantões, que bordejamos num vapor, começa o caminho para o [monte] São Gotardo. Em Amsteg, a uns quinze quilômetros de Altdorf, a estrada começa a subir e a dar voltas de acordo com as características alpestres. Já não mais vales, agora só dominamos os precipícios, aliás, por cima dos marcos decamêtricos da estrada. Antes de chegar a Andermatt. Passa-se por um estreito de um horror admirável, chamado Ponte do Diabo, – menos belo, no entanto, que a Via Mala de Splügen, cuja gravura vocês têm. Em Göschenen, um vilarejo que se tornou cidade graças à afluência de operários, vê-se no fundo da garganta a abertura do famoso túnel, os escritórios e as cantinas da empresa. Aliás, toda esta região de aspecto tão feroz é muito trabalhosa e trabalhada. Se não vemos britadeiras a vapor no desfiladeiro, ouve-se um pouco, por toda parte, a serra

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e a picareta na altura invisível. Sem mencionar que a indústria da região é sobretudo madeireira. Há muitas escavações mineradoras. Os hospedeiros oferecem espécimes minerais mais ou menos curiosos, que o diabo, dizem, vem comprar no alto das colinas para revender na cidade. Depois começa a verdadeira subida, no Hospital, creio: a princípio, quase uma escalada, por atalhos, depois plainos ou simplesmente a estrada carroçável. É preciso imaginar que não se pode segui-la o tempo todo, pois ela sobe apenas em ziguezagues ou em aclives muito suaves, o que tomaria um tempo infindo, quando, a pique, não é mais que 4.900 de altura, para cada face, e até menos de 4.900, dada a elevação dos arredores. Mas não se sobe a pique, seguem-se as escaladas habituais, ou já trilhadas. As pessoas não habituadas ao espetáculo das montanhas aprendem também que uma montanha pode ter picos, mas que o pico não é a montanha. O cume do São Gotardo tem, pois, vários quilômetros de superfície. A estrada, que tem apenas seis metros de largura, está tomada em todo o lado direito por uma deslize de neve de quase dois metros de altura, que, a cada instante, estende sobre a estrada uma barreira de um metro de altura que é preciso sob uma atroz tempestade de granizo. Vejam só! Nenhuma sombra acima, abaixo ou em torno, embora estejamos circundados por objetos enormes; já não há estrada, precipícios, gargantas ou céu: apenas o branco para se imaginar, tocar, ver ou não ver, pois é impossível retirar os olhos daquela mesmice branca que se acredita ser o centro da vereda. Impossível levantar o rosto com um vento frio tão penetrante, os cílios e o bigode em estalactites, as orelhas laceradas, o pescoço inchado. Sem a sombra de nós mesmos, e dos postes telegráficos, que seguem a suposta estrada, estaríamos tão transtornados como uma ave no braseiro. Temos que vazar um metro de altura num quilômetro de comprimento. Há muito que não vemos os joelhos. É causticante. Ofegando, porque dentro de meia-hora a tormenta pode nos enterrar sem muito esforço, nós nos estimulamos com gritos, (nunca se sobe sozinho, mas em grupos). Por fim, surge um abrigo cantoneiro.: ali se paga 1,50 por uma tigela de água salgada. Em frente. Mas o vento se enfurece, o caminho se cobre visivelmente. Eis um comboio de trenós, um cavalo caído e enterrado a meio. Mas o caminho se perde. De que lado dos marcos estaria? (Só há marcos de um lado.) Desvia-se, afun-

da-se até as costelas, até debaixo dos braços...Uma sombra pálida por trás de uma escavação: é o refúgio do Gotardo, estabelecimento civil e hospitaleiro, horrível construção de pinho e pedra; um pequeno campanário. Ao som da sineta, um jovem vesgo nos recebe; sobe-se para uma sala baixa e imunda onde recebemos grátis pão e queijo, sopa e um trago de aguardente. Vemos os enormes cães amarelos das histórias conhecidas. Logo chegam meio mortos os retardatários da montanha. À noite somos uns trinta, que são distribuídos, após a sopa, em duros enxergões com insuficientes cobertas. À noite, ouvem-se os hospedeiros exaltar em cânticos sagrados o prazer de roubar um dia a mais aos governantes que subvencionam seu tugúrio. De manhã, após o pão-queijo-pinga, confortados por essa hospitalidade gratuita que podemos prolongar enquanto durar a tempestade, saímos: nesta manhã, ao sol, a montanha está maravilhosa: sem vento, só descidas, pelos atalhos, inclinações quilométricas que nos fazem chegar a Airolo, do outro lado do túnel, onde a estrada readquire seu caráter alpino, circular e estrangulado, mas descendente. É o Tecino. A estrada continua com neve por mais de trinta quilômetros além do Gotardo. Somente depois de 30km, em Giornico, é que o vale se alarga um pouco. Algumas ramadas de vinhas e pequenos trechos de prado são cuidadosamente adubados com folhas e outros detritos dos pinheiros, usados provavelmente como forragem e cama para os animais. Na estrada desfilam cabras, bois e vacas cinzas, porcos negros. Em Bellinzona, há um grande mercado de animais. Em Lugano, a vinte léguas do Gotardo, toma-se o trem e vai-se do agradável lago de Lugano ao agradável lago de Como. Depois, o trajeto conhecido. Sou sempre seu, agradeço-lhes e daqui a uns vinte dias vocês terão outra carta. Seu amigo. R. A Topbooks lançará, este mês, a terceira edição (definitiva) da Poesia Completa de Rimbaud e, em seguida, nova edição de sua Prosa Poética. A Correspondência (terceiro e último volume das obras completas) será lançado na próxima Bienal Internacional do Livro, Rio de Janeiro. (IB) • Continente outubro 2004

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Almodóvar Em A Má Educação, uma metafórica casa de espelhos cria um reflexo de nós mesmos diante do cinema e da vida, em novo exercício de maturidade e paixão do diretor espanhol Kleber Mendonça Filho

Fotos: Divulgação

Almodóvar: filmes feitos com paixão


CINEMA

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m média, a cada dois anos, Pedro Almodóvar apresenta um novo filme que vem confirmar, num crescendo de surpresas e prazeres estético-narrativos, seu toque de mestre. Ele expande suas preocupações de autor e investiga temas prediletos como amor, paixão e a Espanha. São enfoques intimamente ligados às configurações sociais de gênero e sexualidade que Almodóvar subverte. Nos seus últimos filmes – Fale Com Ela, em especial –, o cinema como herança de imagens e carga emocional tem se infiltrado de maneira soberba, como também é o caso de A Má Educação (La Mala Educación, Espanha, 2004), que estreou internacionalmente no Festival de Cannes, em maio, e chega aos cinemas do Brasil dia 12 de novembro, passando antes pelo Festival do Rio e Mostra Internacional de São Paulo. Em A Má Educação, sai o melodrama e entra o film noir, com a dureza peculiar ao gênero. Para o público que se acostumou a consumir as releituras recentes da lágrima latina, esse sombrio exemplar narrativo poderá ser algo de um inesperado choque. É também um filme masculino, com forte tom homo-erótico, diferente das investigações recentes sobre mulheres. Há flertes, aqui, com a herança do Almodóvar anos 80, mas com um amadurecimento e engenhosidade que apenas seus trabalhos recentes têm nos trazido. Depois de um Imagens: Divulgação

Cena de A Má Educação: ao fundo, Sarita Montiel

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e sua atração

Almodóvar associa abuso sexual infantil à Espanha de Franco, e as seqüências da escola são assustadoras, mas são também líricas, ou ainda, perversamente engraçadas

tempo decantando, A Má Educação passa a fascinar, e o filme cresce mais ainda numa segunda (e necessária) visita. Há a conhecida estrutura de “filme dentro do filme”, mas que isso não soe como um clichê. Almodóvar sofistica essa premissa ao ponto de parecer contorcionismo, embora, na verdade, sintamos aos poucos que o resultado é uma reflexão aprofundada de como o cinema, e os que o fazem, é carregado de vida e verdade, conclusão que o espectador poderá desenvolver bem antes da corajosa frase autoral que encerra essa obra. Se a grande idéia que carregava Fale Com Ela era a arte (dança, música, cinema) como vazão e influência para o que sentimos, em A Má Educação essa idéia é reinterpretada não pelo lado de quem consome a produção artística, mas através de quem faz, cria e interpreta. São artistas que põem para fora traumas da infância, influenciando a dureza do presente, inspirando terceiros que entram numa roda sombria de paixão. Ignacio (Gael Garcia Bernal, também em mais dois outros papéis que tornam seu trabalho, no filme, uma rara maratona de interpretação), é um ator que procura Enrique (Fele Martinez, de Os Amantes do Círculo Polar), um amigo de infância, agora cineasta. Anos antes, na escola de padres onde estudavam em plena Espanha franquista, os dois se apaixonaram. Namoravam no escuro do cinema, diante de Sarita Montiel projetada na tela e escondiam-se do terror imposto pelo padre Manolo (Daniel Giménez Cacho), homem patologicaContinente outubro 2004

Imagens: Divulgação

O padre Manolo


CINEMA

mente atraído pela beleza pré-adolescente de Ignacio. Ignacio escreveu, no formato de um roteiro (intitulado A Visita), a dramatização de eventos que podem existir tanto na sua memória, como na sua imaginação. Ele quer que Enrique dirija um filme a partir do roteiro, com ele mesmo no papel principal, filme que talvez já exista na cabeça de Ignacio. Quando Enrique lê o texto escrito, entramos no filme que será feito, ou que talvez já esteja sendo filmado. Bernal assume o papel de Angel, travesti que seria a representação de Ignacio e da bagagem emotiva do mito Sarita Montiel, reprocessada anos depois. Ao entrarmos no filme do filme, a tela do cinema diminui discretamente a sua largura (A Má Educação é CinemaScope, A Visita não é), embora Almodóvar, ao longo do seu desenvolvimento, abandone esse aspecto, talvez nos dizendo que, com o tempo, cinema e vida real passam a ser a mesma coisa, com a mesma amplitude. Almodóvar não se contenta em apresentar apenas a complexa idéia do filme dentro de outro, e passa a unir personagens reais e seus borrões artísticos ao ponto de não sabermos

muito bem quais são as diferenças, e se elas existem. Em outros casos, sabemos exatamente onde está a linha divisória, como no caso de duas versões bastante reveladoras de Angel e de Manolo, uma fílmica, a outra, real. Ignacio revela-se mais complexo do que inicialmente seria, enquanto Enrique, claramente o duplo de Almodóvar na tela, observa tudo confuso e fascinado, mas tentando manter o controle criativo e sexual como talvez seja tão comum no cinema. Sobre seu envolvimento com Ignacio (ou seria Juan?), pondera: “ele me deixava penetrá-lo apenas fisicamente”. Curiosamente, a menor das dúvidas entre real e imaginário existe sobre Enrique e o próprio Almodóvar, e há deixas que identificam um como sendo, de fato, o outro. A Má Educação se passa no início dos anos 80, precisamente na época em que Almodóvar começou a filmar, quando a Espanha queria deixar para trás o período franquista. É uma temática que o diretor ilustrou brilhantemente na abertura e encerramento do seu Carne Trêmula. Desta vez, Almodóvar associa abuso sexual infantil à Espanha de Franco, e as seqüências da escola são assus-

Personagens Enrique e Ignacio: dramatização da memória e da imaginação Continente outubro 2004

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CINEMA Imagens: Divulgação

Temática homoerótica ganha um tom sombrio, longe do melodrama

tadoras, mas são também líricas, ou ainda, perversamente engraçadas, de uma forma que parece extrapolar uma simples percepção de noir, rumo ao sombrio. Uma seqüência, em especial, ao som de versão, em espanhol, de Moon River é um dos momentos mais perturbadores de 2004 no cinema. Juntando-se aos grandes momentos de dramaticidade seca que compõem o filme, há também a noção de múltiplos pontos de vista numa narrativa que seria apresentada, aparentemente, na primeira pessoa e que, mais tarde, vemos que a primeira era, na verdade, uma terceira pessoa – via desdobramentos e revelações tortuosas do roteiro. O filme desenvolve-se com o tom escorregadio caro ao noir. Em pleno domínio do que faz, Almodóvar constrói o que seria, narrativamente, uma espécie de casa de espelhos não muito diferente daquela do clássico de Orson Welles, A Dama de Shanghai (The Lady From Sanghai, 1947). A diferença é que a de Welles era uma casa de espelhos no sentido literal, em A Má Educação, de maneira figurativa. E o que se reflete nesse jogo sofisticado de imagens? Há o reflexo da própria Espanha, que recebe mais uma crônica de época de um diretor que não parte para apenas “filmar época”, mas que sabe dar a textura de um tempo que ele conhece muito bem, usado para que componha sua narração. No entanto, há no filme, mais ainda, o reflexo de nós mesmos diante do cinema, ponto crucial para Almodóvar como autor e intérprete da arte e da vida. Quando dois personagens saem de uma sala, onde uma programação noir está em cartaz, um fala para o outro: “por que todos os filmes falam sobre a gente?” – Talvez pelo fato de alguns desses filmes serem feitos com paixão. •

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MARCO ZERO Alberto da Cunha Melo

O Minc e seu do-in cultural “(...) o fato notável é que a Inglaterra, como Cuba revolucionária, não esperou consertar a economia para depois tratar das artes: atacou as duas frentes ao mesmo tempo.” Teixeira Coelho

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té que enfim surgiu um coelho na cartola do ministro Gilberto Gil, um ano e oito meses depois de não sei quantas centenas (ou milhares?) de reuniões, mesas-redondas, encontros e seminários, dentro e fora da toca do Ministério da Cultura. Mesmo que não seja um coelho, mas um simples ratinho, que uma montanha de relatórios pariu, eu o saúdo efusivamente. Falo do lançamento, em agosto passado, do Cultura Viva – Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania e sua “base de articulação”, os Pontos de Cultura. O Programa é um catatau de 15 páginas, em espaço um, que, por dever de ofício, li duas vezes, fazendo anoContinente outubro 2004

tações, mas apesar disso continuo engatinhando em busca de uma síntese compreensível para a quantidade enorme de ações enumeradas, e só me importo de ser chamado de burro pelo(s) autor(es) do texto, porque assim estará(ão) chamando também a policlientela, ou seja, o público-alvo, no caso duvidoso de que ele leia atentamente todo o documento. Esse público é caracterizado como alunos da rede pública, moradores de áreas precárias, municípios “relevantes para o patrimônio ambiental, histórico e cultural”, formadores de opinião (artistas, professores, militantes sociais) e, de modo mais geral, “adolescentes e jovens adultos em situação de vulnerabilidade


MARCO ZERO

social” que significa, possivelmente, em português normal, pobres, miseráveis. Para quem está acostumado com ações culturais tópicas, e perversamente concentradas, que vêm da lei federal de incentivos e suas congêneres estaduais e municipais, desde o governo Sarney, impondo-nos o simulacro de política cultural, o Programa Cultura Viva e seus Pontos de Cultura, previstos para atuar capilarmente em todo o território nacional, são, para mim, embora ainda meio empulhado com o longo texto que os explica, a primeira tentativa séria de uma autêntica política cultural nesta Nova República. Meu primeiro estado de espírito é o de acreditar, estimular, dizer aos meus milhões de leitores que façam um coro comigo neste grito de fé, numa ação abrangente sobre um país imenso que não encontra oportunidade para mostrar todo o seu poder de criação. Torço por isso, embora, como comentarei mais adiante, o projeto pareça incentivar o povo a fazer mais e divulgar mais aquilo que a lavagem cerebral da grande mídia o condicionou a gostar. A escola de Goebbels fez carreira no Ocidente, mas ao invés de repetirem-se mentiras até que sejam consumidas como verdades, agora se repetem porcarias nacionais e estrangeiras, até que sejam aceitas como sublimes expressões do Belo. Uma vez que as diversificadas ações propostas pelo Programa Cultura Viva serão realizadas, em todo o território brasileiro, através de uma rede de Pontos de Cultura, foram estas unidades que mais me chamaram a atenção. Eles me lembraram, de imediato, as Casas de Cultura do México e de Cuba, os Art-Centers da Inglaterra e as Maisons des Arts et de la Culture da França, investigados há 20 anos por Teixeira Coelho, um ex-secretário de cultura de São Paulo. Eles têm edifícios e administrações próprias e são subordinados ao poder central. Patrocinam e promovem a cultura no sentido mais que restrito, estético: a arte (tradicional, moderna e de vanguarda), o artesanato (não utilitário) e o folclore (danças, músicas e outras manifestações artísticas populares). No documento do MinC, quando li que “os Pontos serão utilizados como centros fomentadores e divulgadores das diversas culturas”, a palavra cultura no plural fez-me desconfiar de que o viés, em vez de estético, é antropológico, o que está lá na Constituição Federal, criando uma confusão

horrorosa. A palavra cultura é como a palavra amor: cabe dentro de um dedal e, às vezes, o mar é pequeno para contê-la. Para mim, o que não é natureza pura é cultura, isso do ponto de vista antropológico, pois tanto um gabinete odontológico quanto um quadro de Ismael Caldas são traços culturais. Daí que aquela definição de Ponto Cultural me deixou desconfiado. Diferentemente daquelas experiências internacionais, os Pontos previstos no Brasil não contarão com prédios próprios, construídos pelo poder central. As comunidades interessadas deverão procurar espaços ociosos públicos ou privados ou instalar-se em “um grande centro cultural ou museu”. Para um país do tamanho do Brasil a idéia é excelente, mas o único risco é a insegurança quanto à disposição continuada desses espaços. Outra coisa simpática é a não-definição de programação ou atividade, pois as comunidades variam em vocações artísticas e condições materiais. O que achei estranho foi a frase que considera o Ponto “como um do-in cultural e localizado, mas integrado”. Parece-me que ele deve massagear a clientela e não furá-la com agulhas, como a acupuntura... Como um velho técnico desatualizado em projetos culturais, li com espanto o título do item 4: HORIZONTE TEMPORAL: CONTÍNUO. Desconfio ser aquilo que eu chamava de cronograma. Também sobrei ao ler que “o Cultura Viva é, sobretudo, um programa de mobilização e encantamento social”. Que encantamento é esse, meu Deus? Com certeza não é naquele sentido nordestino: “cadê o povo? se encantou”. Também estranhei a sugestão dos planejadores de “fundir o balé de rua com o break”, “juntar capoeira com hip hop” e “garantir bolsas para cursos de DJ”. Este último, o disc-jockey, cuida da parte sonora, enquanto o MC (master of ceremonies) encarrega-se do palavrório, nos espetáculos de rap (rhythm and poetry), uma coisa que chegou ao Brasil nos anos 80. Não tenho preconceito contra a arte estrangeira e quem me conhece sabe disso. Mas, por que não incentivar a verdadeira arte forânea, ao invés do lixo? As grandes obras de arte não têm pátria, e os povos dos países pobres ou ricos têm o direito de aprender a contemplá-las. Formação de público significa elevar a sensibilidade do povo para que conheça as grandes criações do espírito humano. E não reforçar o seu embrutecimento. • Continente outubro 2004

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LITERATURA Sophie Bassauls/Corbis

O mestre das máscaras Vladimir Nabokov criou fantasmas e duplos, como o poeta John Francis Shade e o escritor Vladimir Sirin, que publicou Mashenka e mais dois ou três romances discutidos no círculo dos refugiados russos na Europa Fernando Monteiro Continente outubro 2004


LITERATURA

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Nabokov, “escritor de escritores”, pertence à mais alta linhagem da ficção do simulacro

uem visite, em Londres, o stock de Bernard Quaritch – tradicional alfarrábio inglês – talvez ainda encontre à venda, por 1.500 libras, uma raridade da moderna literatura: o romance Podvig, de V. Sirin, publicado em 1932, em Paris. A edição – de “Sovremennyie Zapiski” – está bem conservada, e algumas das suas 235 páginas trazem anotações em inglês, a lápis, não se sabe se do próprio Sirin (se fossem, acho que o preço do exemplar dobraria). Para uma primeira edição do escritor, o valor não é dos mais altos – embora também seja possível adquirir, em Nova York (na Riverrun Bookshop), uma pechincha: o conto “The Return of Tchorb”, publicado por Sirin na revista This Quarter, edição de junho, também de 1932. A Riverrun oferece, pelo preço de 50 dólares, as 10 folhas do conto do autor de origem russa que era bem conhecido na comunidade emigré de Paris, na segunda década do século 20. É oferta das mais atraentes para o colecionador que inclua itens do gênero ephemera na sua biblioteca, pois ficará na posse de uma das escassas evidências da identidade Sirin-Shishkov, como mais uma persona (ou duplos) de Vladimir Nabokov, sendo “Vladimir Sirin” ou “Vasil Shishkov” frutos dessa imaginação estranha que também inventou o escritor “Sebastian Knight” e criou aquela menina de (adorável) carne literária chamada “Lolita”... e mais, o notável poeta “John Francis Shade”, além de “Charles Kimbote” e outros fantasmas saídos do seu caldeirão de mestre e mago, “escritor de escritores”, pertencente à linhagem da mais alta ficção do simulacro. Se existiu um bruxo literário, tal bruxo não foi o argentino Borges – mas o russo Vladimir Nabokov, herdeiro da fantasia de um chapeleiro maluco, disfarçado sob diversas máscaras e carapuças. Dono da esquisita exatidão de um enxadrista apaixonado pelos mais difíceis problemas do xeque-mate da vida (vale dizer: daquele esconde-esconde que oculta verdades e afirma mentiras), ninguém foi mais refinado, na fantasia sob controle, do que esse descendente da melhor aristocracia de São Petersburgo, devotado à matemática e ao mimetismo das cores das borboletas da infância. Nabokov é uma daquelas ausências gritantes na lista dos premiados com o Nobel, embora seja difícil imaginar que a Academia Sueca pudesse ter distinguido um escritor, cujo êxito literário se afirmou a partir do escândalo de Lolita, romance que chegou a ser proibido como pura pornografia, em 1955. “Lolita” – o nome – já está incorporado ao mundo do erotismo, e isso até marcou o sofisticado autor de Fogo Pálido, Coisas Transparentes, Gargalhada na Escuridão e outros. Seja como for, seria preciso, mesmo, ter cuidado com a obra de um mestre do jogo-do-jogo, cuja gargalhada – na verdade inimaginável, em se tratando de um autêntico nobre – ainda ressoa, não só nas “séries” literárias da sua vida, mas nas classes do scholar que foi o escritor, capaz de redefinir “estilo e estrutura”,

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LITERATURA

para os alunos, como a essência de uma narrativa: “grandes idéias não passam de lixo, mas os detalhes contam a verdadeira história”. Para se compreender melhor o escritor, é preciso retornar à Rússia pré-revolucionária – da qual Nabokov nunca saiu, espiritualmente. O criador de Zembla (país imaginário e parecido, é claro, com a Rússia) viveu um daqueles dramas desapercebidos do século que passou rápido demais. Nascido em 22 de abril de 1889, quando ainda refulgia o ouro Fabergé no país dos czares, Vladimir foi o segundo filho do advogado e político V. Dmitrievitch Nabokov, casado com Elena Ivanovna, ambos aristocratas, cujos filhos se educaram nas línguas inglesa e francesa – antes de aprender o russo. De Elena, Nabokov traçou um retrato que é um dos mais belos momentos da autobiografia Speak, Memory (no Brasil, A Pessoa em Questão, traduzido por Sergio Flaksman para a Cia. das Letras). Ali – e no romance A Verdadeira Vida de Sebastian Knight – estão uma infância e uma adolescência passadas entre os últimos fulgores do antigo regime, que o autor evoca com a paciência de quem examina as cores evanescentes de borboletas raras, capturadas em rede de grão fino. Os verões e os invernos, os Natais e as briskas, os retratos nas paredes e as salas abertas para as reuniões de família, as férias na Riviera e os trens lentos a caminho do desconhecido – seguindo para longe de uma Rússia perdida – brilham e doem também na alma do leitor que ouve a “fala” (e a farfalla) da memória de Knight-Nabokov. Se a autobiografia é, necessariamente, sobre personagens reais, o romance de S. Knight – primeiro real sucesso de Nabokov – é sobre um escritor imaginário, filho de aristocratas como o seu criador, e que também teve que emigrar, para nunca mais voltar à pátria de confiscos e propriedades perdidas. Visto freqüentemente como um russo privilegiado que nunca se conformou com a perda dos bens de família, é necessário apenas ler o Knight – ou a autobiografia – para se dar outra nuance ao perfil dito “reacionário” de Nabokov. A “perda” que lamenta não é só a da riqueza, a do conforto desfrutado por sobre a miséria dos mujiques – no escritor que sabia ser, a estepe russa, campo das maiores injustiças – mas aquela da revolução íntima, da pátria de uma tarde, da nação de “ouro” que se incrusta no “adeus a uma idéia”... como despedida permanente de tudo, conforme pressente no rosto da mãe: “Parecendo intuir que em poucos anos a parte tangível de seu mundo iria perecer, ela cultivava uma consciência extraordinária das várias marcas do tempo distribuídas por sua propriedade campestre. Preservava a memória do passado com o mesmo ardoroso fervor retrospectivo com que hoje rememoro a sua imagem e o meu passado.

Imagens: Reprodução

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Dominique Swain, no papel-título do filme Lolita, de Adrian Lyne, baseado em romance homônimo de Nabokov

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Nabokov é uma daquelas ausências gritantes na lista dos premiados com o Nobel, embora seja difícil imaginar a Academia Sueca elegendo um escritor, cujo êxito literário se afirmou a partir do escândalo de Lolita, que chegou a ser proibido como pornografia

Nabokov em caricatura de David Livine

Assim, de certa forma, herdei um extraordinário simulacro – a beleza da propriedade intangível, os imóveis inexistentes –, e isto acabou se revelando uma esplêndida preparação para perdas posteriores”. Porém, não se pode esquecer que o escritor foi também sincero no seu gosto por charadas & truques. Na mesma autobiografia, faz surgir o cenário dramático dos escritores emigré – aqueles espíritos tangidos, para Berlim e Paris (principalmente), pela tempestade bolchevista: “Minha paixão pela literatura de qualidade me pôs em contato com vários escritores russos no estrangeiro. Eu era jovem e me interessava muito mais pela literatura do que hoje” (escreve no final dos anos 40). Recordando a comunidade de escritores emigrados, logo após o outubro vermelho, ele passa a traçar precisos retratos de Vladislav Khodassievitch, Ivan Bunin (seu sketch do Velho Cavalheiro às voltas, como uma múmia, com um longo cachecol, numa calçada, é impagável) e esboça alguns rápidos perfis de Poplavski, Aldanov, Kuprin e Marina Tsvetaieva (“mulher de um agente duplo e poeta de gênio”) até chegar a V. Sirin: “Mas o escritor que mais me interessava era naturalmente Sirin. Pertencia à minha geração. Dos jovens escritores no exílio, era o mais solitário e o mais arrogante. A partir da publicação do seu primeiro romance, em 1925, e ao longo dos 15 anos seguintes, até desaparecer tão prontamente quanto surgira, sua obra sempre despertava um interesse intenso e mórbido da parte dos críticos. Assim como os divulgadores marxistas da década de 1880, na velha Rússia, teriam denunciado sua falta de interesse pela estrutura econômica da sociedade, os mistagogos da literatura, no exílio, deploravam sua falta de percepção religiosa e de preocupação moral...” E Nabokov segue falando da obra e vida de Vladimir Sirin, que de fato publicou Mashenka e mais dois ou três romances discutidos no círculo dos refugiados, como Vasil Shishkov, autor do poema “Os poetas” (muito admirado pelo crítico George Adamovitch, que chegou a considerá-lo “o primeiro grande poeta da emigração russa”), e que também era, na verdade, o camaleão Vladimir Nabokov... Ou Sebastian Knight. Ou, aliás, John Francis Shade, ou, ainda, Charles Kimbote e demais máscaras do escritor embutido nas muitas mashenkas da alma (para evocar, com propriedade, a tradicional boneca russa, uma dentro da outra), como um livro dentro de um livro ou um espelho dentro de um armário espelhado. •

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Ilustração: Zenival

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A revolução da Besta Fubana

Romance de Luiz Berto, que trata de uma fictícia rebelião popular em Palmares, num registro mágico-realista, ganha terceira edição Luiz Carlos Monteiro

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streante com o conjunto de crônicas A Prisão de São Benedito e Outras Histórias (1982), o escritor Luiz Berto vai conseguir destacar-se como ficcionista já no segundo livro, O Romance da Besta Fubana. Publicado agora, em terceira edição, este romance é feito de sucessos supostamente acontecidos e de outros que realmente aconteceram, tendo como marco temporal o período agosto-dezembro de 1953, iniciando-se exatamente um ano antes da morte de Getúlio Vargas. A cidade de Palmares, na mata sul pernambucana, terra natal do romancista e de outros nomes consagrados como Hermilo Borba Filho e Ascenso Ferreira, fornece o cenário e a ambientação para a instauração de uma República Rebelada fictícia, onde acontecimentos inauditos terão lugar, com a realidade convivendo Continente outubro 2004

estreitamente com a fábula, a fantasia e o sonho. Na obra de Luiz Berto, o único livro que não tem Palmares como locação e assunto principal é o romance histórico Memorial do Mundo Novo (2001), ao que tudo indica, cometido intencionalmente para as comemorações do descobrimento. No primeiro capítulo do Romance da Besta Fubana, são apresentados os personagens que irão ascender ao topo da trama, para depois desaparecerem em anonimato e desgraça. Serão os futuros membros da Junta Governativa da República Rebelada dos Palmares o cego Chico Folote, vendedor de raízes e garrafadas, o sapateiro comunista Joaquim, perseguido pela polícia política, o poeta e astrólogo Telles Júnior, o cantador de viola


LITERATURA rando o livro com uma referência elogiosa – e, no contexto de conclusão da obra, deslocada e talvez desnecessária –, à bibliotecária Jessiva Sabino, por ter guardado documentos relativos à Revolta. No entanto, um trecho anterior, que mostra a partida definitiva da Besta, poderia muito bem encerrar o romance: “A Besta Fubana largou os Seus à própria sorte e bateu asas num vôo fantástico que provocou calafrios em todos que ouviram o barulho e presenciaram os clarões de fogo que cobriam os céus. Partia a Entidade para o espaço, desencantada com a desunião do seu povo. Castigava, com a Sua ausência, a desmesurada ambição dos condutores da Revolta. E, com Sua partida, apagava-se a chama que tanto brilhara. Acabava-se a incrível aventura. Exatos quatro meses durara aquela experiência da República Rebelada dos Palmares. O sonho diluía-se em meio à fumaça e à luz que a Grande Líder deixara no rastro do Seu vôo de volta para a imensidão do infinito. Mais uma vez o céu se iluminava ao bater das asas da Besta Fubana”. Dentro da desordem estilística e vocabular em que se removeu no Romance da Besta Fubana, Luiz Berto imprimiu ao que viu, ouviu e sentiu a necessária ordenação literária e estrutural, sem preocupar-se demasiado com possíveis classificações de gênero a partir das diversas concepções de realismo mágico, real maravilhoso ou realismo fantástico para a ficção em voga nas décadas de 70 e 80, durante o boom latinoamericano. Mostram-se, como componentes expressionais de grande relevância na sua prosa, o misticismo religioso e profano, o sexo despudorado, o relato de uma revolução política apenas imaginada e a sátira violenta aos poderes nascentes ou instituídos. Na condição de narrador onisciente e consciente do alcance do seu discurso, empresta dicção independente e diferenciada a cada um dos personagens do romance, gerando uma espécie de polifonia que tanto pode resultar da pesquisa de campo empreendida como da sua própria verve e espontaneidade criativa de ficcionista. • Divulgação

Luiz Berto/Arquivo pessoal

e camelô Natanael, líder do movimento, e a prostituta Amara Brotinho. A riqueza discursiva e, em alguns instantes, a prolixidade das falas iniciais de cada personagem principal são substituídas pela ação no segundo capítulo, que mostra todos os passos da Revolta. É flagrante a desorientação programática dos participantes, mas a junção de três passeatas durante a caminhada pela cidade, termina por arrebanhar o restante da população e até os animais: “Somente o propósito de alterar e subverter a rotina estabelecida guiava aquela gente. Até mesmo as lideranças se anularam e tiveram apenas que seguir as normas ditadas pelo imenso inconsciente coletivo da multidão. Uma vontade comum e indefinida unia as pessoas. Em determinado momento, o barulho dos animais sobrepujou o das pessoas, mas ninguém achou nada de anormal neste fato, e continuaram todos, gente e bichos, na união mais perfeita, cada vez mais estreitada pelo enorme alarido”. Luiz Berto elege os mais frágeis e excluídos para se rebelarem: as putas, lideradas por Amara Brotinho, contra o delegado e os policiais que foram fechar a zona, derrotando-os em luta aberta; os pequenos comerciantes contra o fisco estadual; e os romeiros contra a Igreja e seus representantes. A Milícia da Besta, exército da República Rebelada, e a população palmarense vão enfrentar e derrotar, à maneira de um outro Arraial de Canudos, várias incursões e missões policiais e militares. A cobiça, a ganância e a luta interna pelo poder destroem o sonho da República Rebelada dos Palmares, o que nem o General-Presidente Natanael nem a Besta Fubana poderão impedir. Os ministros desentendem-se incessantemente: o cego Chico Folote briga com Telles Júnior, que briga com o sapateiro Joaquim, cada um pretendendo formar um país independente dentro do território da República. No capítulo final, o escritor segue dando notícias do que teria acontecido com os participantes da aventura, inclusive encer-

O Romance da Besta Fubana, Bagaço, 397 páginas, R$ 30,00. Luiz Berto: polifonia popular em romance

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O INFERNO Na sua árdua peregrinação através dos labirintos de Dante, Jorge Wanderley conseguiu vertê-lo para o português do nosso tempo, confirmando o seu lugar de poeta-tradutor

Ilustração: Gustave Doré/ Divina Comédia, Sonzogno, Milão, 1942

Everardo Norões

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om seu ritmo de terzinas que, como ondas, insinuam-se em nosso inconsciente, a poesia da Comédia, de Dante Alighieri, humanamente divina, há séculos vem instigando os tradutores. A língua portuguesa ofereceu-lhe várias versões: José Bonifácio de Abreu (Barão da Vila da Barra), Pedro Xavier Pinheiro, Cristiano Martins, Hernâni Donato, Vasco da Graça Moura... E até o nosso mestre do Cosme Velho, Machado de Assis, rendeu-lhe tributo, ao traduzir o “Canto XXV” de O Inferno, numa versão que não oculta as carícias do Parnaso. A recente tradução de “O Inferno”, de Jorge Wanderley, é o testamento do poeta e escritor pernambucano que, ao morrer, em 1999, não conseguiu levar a cabo o projeto que se dera como desafio: traduzir as três partes – O Inferno, O Purgatório, O Paraíso – que compõem a Divina Comédia do genial florentino. Jorge Wanderley aceitou enfrentar, conforme observou na sua introdução ao livro, as muralhas da tradução, “mal-encaradas como o próprio Dante, ameaçadoras como o aviso da porta infernal”, que diz: Lasciate ogni speranza, voi che entrate. Na sua árdua peregrinação através dos labirintos de Dante, Jorge Wanderley conseguiu vertê-lo para o português do nosso tempo, confirmando o seu lugar de poeta-tradutor, já assegurado por suas traduções de O Cemitério Marinho, de Valéry, a Lírica e a Vita Nuova, de Dante, Os Sonetos, de Shakespeare. Comenta Marco Lucchesi – poeta, tradutor, escritor, profundo conhecedor de Dante e da literatura italiana – que Jorge Wanderley fez uma das melhores traduções, única no âmbito luso-brasileiro. E quanto ao fato de a morte ter interrompido trabalho de tão grande importância, assinala que “tudo o que havia no O Inferno e que prefaciava uma outra linguagem, aquela da oriental safira, do Purgatório, já se insinuava no Inferno. A Comédia de Dante é, no campo da literatura, a arquitetura mais elaborada do imaginário de seu tempo. E talvez só encontre equivalente na obra de um outro gênio visionário, o pintor holandês Hieronymus Bosch, cujo detalhe de um de seus quadros – o tríptico O Juízo Final, que se encontra na Academia de Belas Artes, de Viena – serve de feliz ilustração à capa do livro. A tradução do que se pode chamar também de primeiro tríptico da pintura de Dante, o Inferno da loucura humana – acompanhada da introdução e das notas eruditas de Jorge Wanderley, além do prefácio de Marco Lucchesi – leva-nos a parafrasear o terrível dístico da abertura do “Canto III”: “Guardai, leitor, toda esperança, vós que penetrais este livro”. •

Canto III de O Inferno Tradução de Jorge Wanderley

"Por mim se vai para a cidade ardente, por mim se vai à sua eterna dor, por mim se vai entre a perdida gente. Justiça deu impulso ao meu Autor: cumpriram-me poderes divinais, a suma sapiência, o primo amor. Antes de mim não se criou jamais O que não fosse eterno; - e eterna, eu duro. Deixai toda esperança, vós que entrais." (...)

A Divina Comédia – O Inferno, Dante Alighieri, tradução de Jorge Wanderley, Editora Record, 416 páginas, R$ 49,00. Continente outubro 2004


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Repique Diogo Monteiro

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uando chegamos na boca da mata, Zezo me alertou com uma pose solene: “Faz o pelosinal” – e desenhou com a mão uma cruz imaginária entre a boca, o peito e os ombros. “Meu pai dizia que sempre fizesse o pelo-ssinal antes de entrar no mato”, justificou, como se isso fosse argumento suficiente. Eu repeti o gesto, mais para evitar um outro discurso do que para me proteger. Ele continuava sua história enquanto entrávamos na sombra das árvores e a lua cheia ficava para trás, como se tivesse medo de vir conosco. “De besta, a filha de Seu Rufino não tem nada. Joana me arrastou por dentro dessas árvores, que eu mal conseguia acompanhar. Me puxava pela mão, rindo, e eu tropeçando atrás. Eu faço esse caminho quase todo dia de manhã. Mas ele parece outro durante a noite e eu não me surpreenderia se fôssemos parar em outro destino que não fosse o lago. Mas foi lá mesmo que chegamos. Ela me encostou na primeira árvore e me deu um beijo feito ninguém tinha me dado na vida. A gente até hoje só viu menina, Rodrigo. Aquilo lá é uma mulher e beijo de mulher é outra coisa. Eu sentia o peito dela no meu. Eu adivinhando, com meu próprio corpo, o corpo por baixo daquele vestido.” Continente outubro 2004


NARRATIVA

“Me animei na hora e fui subindo a mão pela coxa de Joana, por baixo do vestido, agora não mais adivinhando, sentindo aquela pele, aquele calor. O rosto dela, de olhos fechados e boca aberta, era a coisa mais bonita que eu já vi. Mas ela segurou minha mão. Disse: ‘Espera. Eu volto já’. Me deu um beijo e se afastou, sumindo por trás de umas árvores.” “Foi como parar um trem. Eu respirava pesado e rápido, suava e pouco sentia as pernas. Só podia estar me torturando. Me pôr daquele jeito, e depois mandar esperar. Sentei no chão contrariado. Na minha frente o lago todo aceso, refletindo a lua. Nem tinha reparado como tudo estava tão vistoso, com jeito de sonho mesmo. O brilho caindo sobre as árvores ao redor, o céu limpo de nuvens. Quase esqueci Joana por um instante, vendo aquele cenário. Passei a mão na grama sob mim e encontrei uma pedra lisa e achatada. Lembra que eu nunca consegui fazer uma pedra repicar na água como vocês fazem? As minhas sempre afundam na primeira vez, não é?” “Pois bem, não sei por quê; ontem, eu achei que conseguiria. Segurei-a entre o indicador e o polegar. Aprumei o braço e a sacudi. Ela disparou com uma velocidade enorme, bem rente ao chão. No primeiro toque na água... afundou como todas as pedras que eu já joguei na vida”. Eu não pude deixar de gargalhar nessa hora. Zezo riu junto, balançando a cabeça e zombando da própria incompetência. Mas não parou de avançar, nem de contar sua história. “Pode rir. Eu também quase ri. Mas não pude, porque a pedra voltou”. Então, eu parei, porque pensei não ter entendido direito. “Exatamente, a mesma pedra”, continuou Zezo, me puxando para seguir em frente na trilha. “Molhada, ela caiu nos meus pés. Senti um frio, como se, de repente, eu não tivesse mais estômago, fígado, nem intestino. Só um coração. Um coração imenso batendo contra o peito, querendo sair dali. De Joana nem sinal. Olhei pro lago, e a margem serena. A mão tremendo, apanhei outra pedra e, para confirmar minha hipótese, atirei-a, dessa vez sem me preocupar se ia repicar ou não. Ela sumiu dentro d’água. Cinco segundos depois, eu vi que estava certo: o lago cuspiu ela de volta.” “Se eu mal podia acreditar no que estava vendo, também não tive tempo de procurar uma explicação, pois escutei um grito horroroso vindo de trás de mim. Era Joana. Nua em pelo e os olhos arregalados. Ela tinha tirado a roupa e vinha me fazer uma surpresa. Já devia estar chegando perto, quando viu a cena e, é claro, se tomou de medo. Eu ia tentar acalmá-la, mas ela me agarrou o braço e me puxou mata afora, com o dobro da velocidade com que tinha me arrastado para

dentro. Espero que ninguém a tenha visto entrar em casa, porque ela não quis nem parar para pegar o vestido”. Zezo sempre foi de falar. Sempre me fez relatórios minuciosos de todas as suas empreitadas, descobrindo nelas situações e surpresas que ninguém mais veria. Mas nunca foi de mentir. Pelo contrário, por várias vezes tive comprovação das mais imaginativas histórias que ele contava. Assim, eu fiquei sério quando ele terminou de contar o episódio, fez um silêncio em pausa e justificou: “Por isso eu estou voltando lá. Pra saber o que aconteceu. E você está indo lá pra que eu saiba que aconteceu mesmo”. E silenciou de vez. Nós continuamos, o ar preenchido somente pelo som dos nossos passos. Eu cada vez mais ansioso e medroso, até chegarmos no lago. A cena era idêntica ao que Zezo descrevera, todo o redor coberto de lua, a água brilhando como se um milhão de vaga-lumes estivessem se afogando em agonia. Um silêncio de assustar os ouvidos. “Vamos ver agora”, disse ele, somente, e abaixou-se para pegar uma pedra no chão. Levantou-se e, com o ar grave com que se batiza uma criança, ou com que se mata um inimigo de longa data, lançou-a no meio do lago. Os dois ou três segundos depois foram um abismo, onde eu mergulhei, tentando imaginar o que aconteceria. Será que, naquele momento, nossos amigos sairiam de dentro das árvores gritando, revelando uma brincadeira orquestrada para me dar um susto? Será que nada aconteceria e Zezo teria que passar o resto da noite jogando pedras no lago, tentando me provar que o ataque inesperado de Joana não lha causara alucinações? Ou será que a pedra voltaria, molhada, cuspida de volta aos nossos pés? Pois foi o que aconteceu, logo após esses segundos, ela rompeu de volta a superfície, pouco agitando os vaga-lumes agonizantes, caindo perto de nós. Eu a apanhei e a senti. Úmida e de uma solidez perturbadora. “Diz pra mim que você viu. Que essa pedra está mesmo na sua mão”, pediu Zezo. O simples fato de eu assentir com a cabeça, pôs um sorriso infantil no rosto dele. Ele ia dizer alguma coisa, mas foi interrompido ainda na tomada de ar, porque algo começou a emergir lentamente das águas, no centro do lago. Se o primeiro impulso foi o de voltar correndo para casa sem olhar para trás, as pernas negaram e a curiosidade venceu. Ficamos, eu e meu amigo, assistindo aquele brotamento, com o coração na garganta. E no instante que aquilo se descobriu totalmente do espelho d’água, eu entendi que nenhum de nós nunca mais quereria sair dali. Ela era linda! •

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Seleção de Rodolfo Alonso

Poemas inéditos de Milton de Lima Sousa Milton de Souza Lima (de óculos) ao lado do poeta argentino Rodolfo Alonso

Ossário profano Da mesma forma como os cães enterram Ossos avidamente recolhidos ao crepúsculo, Para saboreá-los depois, em instante secreto e encantado, Enterro minhas palavras num átrio espectral Varrido pelo vento, guardando para os cegos e loucos (Irremediavelmente feridos pela noite), Os resíduos de uma visão crucificada dia a dia, Canto esparso de um amor que ninguém mais sente. Os sonhos ficam gravados no lajedo da insônia. Projeto inconseqüente Quando o silêncio secar em minhas mãos E meu espírito nada mais for Do que brasa espavorida a percorrer a escuridão, Minhas palavras serão meus restos mortais; O vento, meu único epitáfio. Fruto trêmulo, sufocado pela memória esvoaçante, Sempre estarei sentado neste catre agreste, Sofrendo o escoamento da madrugada, Diluindo-me entre seus resíduos de agouro. Que flor implume nasce de minhas pupilas? Ofício antiquado O poeta fala na primeira pessoa E a todos engana. Fala na terceira e ilude ainda mais: Afinal, sempre é devorado por suas próprias entranhas, A ninguém lega seu respiro. Entre eu e ele há máscaras insondáveis, O jejum celeste imerso em branco abissal, O plissado do verbo interdito, O bosque dos interstícios, A lenta expiação das palavras afins E o que restou em estado de sopro na arquitetura do vôo. O poeta alimenta-se de matérias fungíveis e friáveis. Continente outubro 2004

Até hoje não sabe de onde vem a névoa que manipula Nem sente o peso da mortalha (ó John Donne) Que veste e desveste a todo instante. Da fissura do sonho tira lábios estigmatizados. Leitores avisados (e desavisados), Atentos (e desatentos) reúnem-se na praça Para rastrearem no escuro o que ficou pigmentado; Meio a esmo percorrem sinais intatos, Fitando de perto os grafitos apagados. Com cristais moídos na garganta, O poeta tange criptosignos elementares. Uma legião de pseudos (aedos do não-ser) Fere-lhe a plumagem, Mas ninguém sabe onde o pássaro nidifica. (De Aleluia Sob o Átrio, livro inédito) Execução inexplicável O patíbulo foi erguido ao anoitecer, para confundir ainda mais. Apesar de obsoleta, a guilhotina estava tão desperta Que cortava o vento. Sua lâmina reluzia no escuro, Ofuscando trapos, sequelas, ossos moídos. Quando despencou, afiadíssima, sobre o meu pescoço, Fechei os olhos com amor: nascia a última flor do Lácio. Meus restos transfixos ficaram intatos. Nenhuma gota de sangue respingou nos degraus do cadafalso. Juncada de cadáveres, a praça apodreceu em salmourão. (De Para Cézanne Pintar, livro inédito) Milton de Lima Souza nasceu em São Paulo, em 1925, e morreu no Paraná, em 1999. Deixou mais de 20 livros de poesia e prosa, que permancem inéditos.

Arquivo pessoal de Rodolfo Alonso

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LIVROS

Antropologia da praia

A beleza e a morte “Orismar Rodrigues é um poeta que o Recife deveria conhecer melhor. Um acentuado lirismo reflete-se em seus poemas através de imagens, alegorias e símbolos, onde podemos identificar uma honradez própria, de quem leva a sério a difícil arte de escrever versos”. A declaração de César Leal pode ser comprovada com a leitura da Antologia Poética. Reunindo poemas selecionados de cinco livros publicados, mais um inédito – Destino das Águas, Navegador do Tempo, Poemas do Amor Erótico, Ritual de Sonhos, Poemas do Oriente e de Outros Reinos e Sete Poemas da Brevidade –, mapeia os principais temas do poeta: a lembrança feliz da infância; o ceticismo ante o futuro e os sentimentos; o amor como certeza apenas em sua concretude física; o encantamento perante raros momentos. Orismar usa uma linguagem simples, mas em clave culta, com referências eruditas à mitologia greco-romana e ao Oriente. É também um dos poucos poetas brasileiros a assumir com franqueza a poesia homoerótica, sem cair no escatológico. Pelo contrário, um tom de melancolia percorre os seus versos, mesmos os mais alegres. Como se o poeta percebesse, sempre, por trás do mais belo rosto, a iniludível presença da morte. (MP)

O que há em comum entre a praia, o namoro e o minuto de silêncio? Entre eventuais outras relações, esses são temas sobre os quais se debruçou, com um necessário “olhar de estranhamento”, o médico e antropólogo baiano Thales de Azevedo. Tal olhar reflete a postura científica do estudioso do cotidiano e resulta num trabalho pioneiro sobre aspectos da vida nacional pouco estudados. Produzidos e publicados na década de 80, três desses estudos foram reunidos em O Cotidiano e seus Ritos, recém-lançado pela Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco. São eles: “A praia: espaço de sociabilidade”, “As regras do namoro à antiga” e “Ciclos da vida”. O primeiro, especialmente, é uma contribuição original do pesquisador ao conhecimento da nossa gente, ao percorrer “quilômetros de praia despercebida”, inclusive numa perspectiva histórica, para flagrar os significados sociais atribuídos à freqüência às praias, que eram menosprezadas pelos índios (que preferiam os banhos de rio) e, até meados do século passado, tinham, sobretudo, função terapêutica. A esmerada edição (apesar dos inumeráveis tropeços de revisão) é enriquecida por contribuições de outros antropólogos que comentam a obra. (HF)

Antologia Poética, Orismar Rodrigues, Ibis Libris, 180 páginas, R$ 20,00.

O Cotidiano e seus Ritos, Thales de Azevedo, Editora Massangana, 382 páginas, capa dura, R$ 30,00.

Política e ética

Do desterro ao trono

Poesia necessária

Na França, “sem papéis” são os imigrantes árabes de situação irregular e, portanto, sem direito à cidadania. No mundo virtual, o papel está desaparecendo, substituído pela tela do computador. Com o papel, somem também os rascunhos, as rasuras, as cicatrizes da escrita. Estes são dois dos temas abordados, com a habitual finura, pelo filósofo Jacques Derrida, em seu novo livro publicado no Brasil. Entre outros temas, aborda também o engajamento político de Sartre e, dirigindo-se a FHC, seu ex-colega da Sorbonne, defende os sem-terras. Trata-se de uma coletânea de artigos, entrevistas, conferências e cartas que reafirmam o compromisso da filosofia com uma visão política e ética. Ótima chance para entrar em contato com Derrida.

Este livro conta a história de Luz, uma mulher chinesa que, filha de um comerciante-general, cai no ostracismo, com a morte do imperador que protegia sua família, mas depois chega à concubina do novo imperador. Com a morte deste, assume o título de imperatriz, promovendo um processo de modernização na China do século 17. Shan As, a autora, emigrou para a Europa, aos 17 anos, logo após os acontecimentos na Praça da Paz Celestial. Passou um tempo na Bélgica, onde foi secretária do pintor Balthus, mas fixou-se em Paris, onde vem conquistando prêmios a cada livro que publica. Destaque para a edição,a partir da capa, de muito bom gosto, combinando com o teor muitas vezes poético do texto.

Em sétima edição atualizada, com capa nova e novo projeto gráfico, chega ao público esta seleção, daquele que é considerado o maior poeta brasileiro vivo, Ferreira Gullar, pelas mãos de um dos mais competentes nomes no estudo da literatura nacional, Alfredo Bosi, que assina clarificador artigo introdutório. De A Luta Corporal, de 1953, a Muitas Vozes, de 1999, passando pelo fundamental Poema Sujo, de 1975, percorrem-se as mutações e permanências da voz de um poeta para quem a poesia só merece ser escrita se for necessária, no sentido tanto de inevitável como de imprescindível. Dono de uma linguagem luminosa, Ferreira Gullar é poeta obrigatório para quem gosta de boa literatura.

Papel-Máquina, Jacques Derrida, Estação Liberdade, 360 páginas, R$ 44,00.

Imperatriz, Shan Sa, Ediouro, 352 páginas, R$ 49,90.

Melhores Poemas – Ferreira Gullar, Alfredo Bosi, Global Editora, 296 páginas, R$ 39,00. Continente outubro 2004

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TRADUZIR-SE Ferreira Gullar

Arte na idade industrial As propostas de Duchamp são expressões derradeiras da crise que a era industrial provocou nas artes de natureza artesanal

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á nos referimos nesta coluna à questão da pintura como produto artesanal na sociedade moderna que começa com a industrialização, em meados do século 19. Este é um dado decisivo para se entender algumas questões da arte daquela época e dos movimentos de vanguarda que surgem no início do século e influem sobre toda a arte contemporânea. A indústria caracteriza-se pela produção em série dos objetos. No início, esta capacidade foi utilizada, não apenas para reproduzir objetos novos – na verdade, utilitários –, mas também para copiar as formas artísticas consagradas e representativas do gosto tradicional. Por exemplo, os capitéis gregos, com que o estilo revival enfeitava os edifícios erguidos então, deixaram de ser feitos por artesãos para serem reproduzidos industrialmente. Herbert Read observou também, em seu livro Art and Industry, como o gosto artístico consagrado induziu os fabricantes de máquinas a adotarem, por exemplo, colunatas clássicas na construção de uma máquina de fiar. A invenção das formas novas, correspondentes à nova técnica de produção, viria mais tarde e se caracterizaria pela eliminação dos elementos decorativos que, por assim dizer, ocultavam a natureza funcional da forma. Sulivan formulou a nova atitude em face do design numa frase que se tornou um dogma: “a forma segue a função”. Se é verdade que esse princípio foi adotado particularmente na arquitetura e nos objetos de uso, nem por isso deixou de influir sobre a pintura e a escultura, provocando uma verdadeira revolução no modo de conceber estas artes de expressão individual. A primeira e mais radical manifestação deste fenômeno foi a do movimento De Stijl, criado por Piet Mondrian e Continente outubro 2004

Van Doesburg, na Holanda, por volta de 1917. Se é verdade que esse movimento derivou do Cubismo, tomou dele apenas um dos aspectos – o construtivo – e lhe deu um curso de que nem Picasso nem Braque jamais suspeitariam. Este movimento se caracterizou pela drástica ruptura com a linguagem figurativa da pintura, a exclusão de todo e qualquer fator subjetivo e a pretensa integração da expressão pictórica na Arquitetura. Outro movimento, que também expressou esta adesão aos modos de conceber e construir a obra próprios da produção industrial, foi a arte dos russos Antoine Pevsner e Naum Gabo. Mas estas são tendências, por assim dizer, afirmativas das novas técnicas, enquanto houve outras que podem ser entendidas como resultados críticos da idade industrial sobre as artes. É curioso que o mesmo Cubismo, donde derivou o Neoplasticismo holandês, continha também os primeiros sinais de outro lado da questão: a crise do artesanato artístico. Esta crise se manifesta, de modo larvar, nos primeiros papiers collés que Braque e Picasso introduzem em suas telas, substituindo o trabalho artesanal do pintor pelo produto industrial, já pronto, como no caso da madeira do violino representada por papel de parede imitando madeira; é o mesmo caso do pedaço de jornal colado no lugar onde o pintor teria que imitar uma folha de jornal. Ao fazê-lo, os dois cubistas estavam de fato afirmando que o trabalho artesanal não é fator imprescindível na feitura do quadro. Ou seja, se posso usar papel de parede para representar a madeira num objeto do quadro, poderia igualmente compô-lo todo com elementos feitos industrialmente. Na verdade, nem Picasso nem Braque le-


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desvinculação entre a arte e o vam esta experiência às últimas conartesanato, entre a criação arseqüências; em vez disso, usam o tística e o trabalho manual, mas, precedente para construir o quadro também, entre o estético e a vulcom diferentes elementos, que vão garidade. Não obstante, quando desde areia e prego, até barbante e vemos a sua última obra – Étant placa de metal. De uma forma ou de Donné –, envolta em intenso erooutra, o certo é que a noção de quatismo e em grande parte prodro enquanto coisa pintada, produto duto do trabalho artesanal, tendo trabalho artesanal que utiliza tindemos a acreditar que a obra de ta e pincel, estava superada, embora Duchamp é muito mais a exo quadro continuasse a ser um propressão de uma nostalgia da duto artesanal. Pode-se dizer que já imaginação poética presente nas não era pintura. obras do passado do que uma Não obstante, não apenas Braadesão aos valores da linguagem que e Picasso retornam à pintura, industrial, já que o seu pensacomo também o fazem outros artismento se caracteriza muito mais tas que promoveriam os movimenpela boutade dadaísta e pelo onitos de vanguarda posteriores, ao rismo surrealista do que pela ralongo do século 20. No entanto, cionalidade funcional da estética aquela ruptura vislumbrada no Cuindustrial. bismo, encontrará um seguidor raAs tendências neoplásticas e dical, cujas propostas marcarão proconstrutivistas não tiveram desfundamente a arte contemporânea, dobramento no futuro, muito precisamente por encarnar a crise embora, a arte concreta da esimplícita na contradição arte artecola de Ulm – que teve seguisanal e idade industrial. Este seguidores na Argentina e no Brasil dor é Marcel Duchamp. Não se nos anos 50 – denote alguma pode dizer que ele, desde o começo, ligação com aqueles movimentinha claro o caminho que queria Roda de Bicicleta, Marcel Duchamp, 1964 seguir. Pelo contrário, ele pintou influenciado pelos cubis- tos. O lado menos racional do Cubismo, bem como a tas e pelos futuristas. A consciência de que a máquina valorização da subjetividade que se dá com o Expressiotornara o artesanato artístico obsoleto, levou-o a tentar um nismo, gerará no futuro um movimento que surgiu da caminho novo, desvinculado da linguagem tradicional da desagregação da linguagem pictórica, mudada já agora de arte que, em vez de partir da intuição artística, partiria de trabalho artesanal em ação automática, gestual, cega – o cálculos matemáticos. Daí nasce o Grande Vidro, que Tachismo. Tanto este movimento quanto a arte conceitual resultou numa experiência frustrada. Talvez por isso mes- nascida das propostas de Duchamp são expressões derramo volta-se para uma idéia mais radical, que são os read- deiras da crise que a era industrial provocou nas artes de mades: a substituição do quadro ou da escultura por um natureza artesanal. Mas, se a pintura, por exemplo, não goza hoje da produto industrial como o urinol de botequim que ele intitula Fontaine, assina com o pseudônimo Mutt e envia importância que a distinguiu no passado, é verdade que para a exposição dos Salão dos Independentes, em1917. ela se tornou, para o artista de hoje, um campo de expresEra o primeiro de uma série de outros objetos já prontos são único, que lhe permite inventar novos signos, novos – como a roda de bicicleta que ele monta numa banqueta significados, só possíveis nele, e que são por isso mesmo ou uma pá de lixo – com que ele ironicamente afirma a um modo próprio de reinventar a realidade. • Continente outubro 2004

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A confiança no poder da estética A 26ª Bienal de Arte de São Paulo valoriza a pintura, ressuscitando a discussão sobre o suposto fim do suporte tradicional e o cansaço estético da era high-tech Alessandra Simões Continente outubro 2004

Paul Anthony/Corbis

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ESPECIAL

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irou marco a passagem em que Marcel Duchamp (1887-1968), deslumbrado com os motores e hélices expostos no Salão de Paris, no início do século 20, falou a amigos artistas que a pintura havia morrido. O suposto fim do suporte tradicional virou tema de muita discussão ao longo dos anos seguintes e as artes visuais chegaram ao século 21 ainda sem colocar um ponto final no debate instaurado pelas vanguardas do século passado. À parte de qualquer visão simplista sobre sua possível morte, a pintura continua mais viva do que nunca, e a 26ª Bienal de Arte de São Paulo, que vai até dezembro, parece trazer novo vigor ao tema. A predileção pela pintura pode ser vista entre as várias obras expostas sob a temática escolhida para o evento, “Território Livre”, que resgata, entre outras idéias, o conceito de fronteira, instabilidade e liberdade, em termos físico-sociais e estéticos. A visível e declarada propensão pela linguagem pictórica é traduzida em trabalhos de artistas de diversos países, cuja linguagem revela que a pintura ainda está muito longe, ou mesmo infinitamente distante de seu fim. A pintura é representada na Bienal de maneira proeminente porque, na visão de sua curadoria, a tela voltaria a vivenciar, hoje, um “renascimento”; a presença dos pintores também serviria de elo com um dos eixos conceituais do evento: a linha estética idealista de Adorno, que remete à nostalgia da beleza, elemento esquecido pela contemporaneidade. “Com certeza, a pintura é muito apta para atingir este objetivo. É bom lembrar que na arte moderna não se trata de uma beleza superficial – esta se encontra no design, na moda e no life style –, mas de uma beleza sublime, que se revela muitas vezes através da reflexão”, afirma o curador Alfons Hug. Parece mesmo uma verdadeira dose de otimismo, visto que “a confiança no poder da Estética estaria desaparecendo”, como enfatiza o curador, “diante de um crescente privilégio pela análise científica, a reportagem e o tratamento discursivo da realidade”. “Penso que está cada vez mais clara, entre o público e, certamente, entre muitos artistas, a idéia de que a arte é o grande diferencial no mundo moderno e uma das poucas formas de se construir um mundo paralelo ao mundo real. A experiência estética traz paz interior e fortalece o indivíduo, que é sempre a base da sociedade democrática e moderna”, explica. Para a crítica de arte Magnólia Costa, a questão é muito complexa por envolver diversos elementos. “Não dá para dizer de maneira simplista que há uma nova tendência de valorização da pintura. É muito delicado. Pode ser inclusive um esforço da própria crítica, já que há pouca

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Renegade Delirium, Julie Mehretu, óleo sobre tela, 228,6 x 365,7cm, 2002

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coisa nova acontecendo. É muito difícil, também, categorizar o que acontece hoje. O trabalho da curadoria é fazer uma seleção, e isso pode ser apenas uma proposta. Só agora estamos entendendo o que foram os anos 80”, afirma a crítica, que também é professora do Museu de Arte Moderna (MAM), Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e Faculdade Senac de Moda, em São Paulo. Magnólia enfatiza, inclusive, que todos os movimentos pendulares de ascensão e declínio da produção da pintura, ao longo da história da arte do século 20, envolveram não apenas questões estéticas, mas sociais, políticas e mercadológicas. Essa complexidade acompanha todas as mudanças, desde os primeiros levantes contra a pintura pelos dadaístas, passando pelo Expressionismo Abstrato norte-americano, até seu revival nos anos 80 (veja box). “Este movimento de ida e volta da pintura está intimamente ligado a outros fatores, como o trabalho das curadorias, a crítica e com os rumos institucionais da arte. Isso não pode ser descartado. É preciso analisar com muito cuidado o que há por trás de uma tendência momentânea.” Um dos pontos questionados pela Bienal, que também traz mais ênfase para a pintura, seria o cansaço geral provocado pela era da tecnologia. O próprio tema central do evento mostra que, em estética, a Terra de Ninguém começa onde termina o mundo do dia-a-dia; um espaço em que realidade e imaginação entram em conflito. “Parece que existe na sociedade moderna um certo desgaste com o high-tec e o mundo virtual, em cujas promessas ninguém acredita mais. Nada


Fausto Fleury/Divulgação

Divulgação

mais atual, então, do que o desenho e a pintura, que nos remetem às origens da humanidade, por serem os suportes mais antigos das artes plásticas”, enfatiza o curador, para quem todo quadro trata-se, portanto, “daquela porçãozinha da Terra de Ninguém, que se situa onde o mundo acaba e a tela começa”. A escolha dos artistas foi pontual; entre as oito salas especiais, há três dedicadas a pintores, por exemplo. Hug aponta alguns nomes representativos. A carioca Beatriz Milhazes, “que funde de maneira convincente a herança da cultura popular tropical com a sofisticação da arte contemporânea”, tem suas telas representadas na Bienal, resgatando inclusive a forte tendência do país na pintura, reafirmada pela Geração 80, da qual a pintora fez parte. Diversos países também marcam presença com uma pintura que vai ao encontro da idéia da curadoria de que, no mundo contemporâneo, “as imagens estáticas da pintura têm o efeito de uma âncora no fluxo de imagens móveis e manipuláveis”. Neo Rauch, da Alemanha Oriental, “joga de forma irônica com elementos iconográficos do Realismo Socialista”, construindo uma obra de força estética singular. O belga Luc Tuymans, com sóbria abordagem figurativa, constrói obras de espaços vazios que, juntamente a figuras marcantes, compõem um jogo vigoroso. Também há a presença de Julie Mehretu, dos Estados Unidos, “talvez a pintora mais contemporânea de todos por sua acumulação de massa crítica que explode abruptamente em linhas incontroláveis que fogem da tela”, na visão de Hug.

Ilha de Capri, Beatriz Milhazes, acrílica sobre tela, 246 x 189 cm, 2002

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ESPECIAL Para o pintor gaúcho Walmor Corrêa, também presente no evento com obras, cuja figuração baseia-se em um repertório de imagens científicas e biológicas, esta edição da Bienal seria mais um indicativo de que a pintura está “mais viva do que nunca”. Na sua opinião, trata-se de um movimento que atende à própria natureza da arte e de outros aspectos da vida, pois o que “é bom e dialoga, sempre permanece”. O pernambucano João Câmara, reconhecido por seu vigoroso trabalho como pintor e que também já utilizou meios digitais para fazer belas obras de arte, traz mais contribuições ao tema. Para ele (que não está presente na Bienal), os meios tecnológicos favorecem a democratização da arte. Apesar de achar que há certa carência de bons pintores, a tela “não seria avessa à linguagem moderna”. “Da mesma forma que na pintura há coisas excelentes e péssimas, isso também vai acontecer com a arte digital ou em qualquer outro meio”, afirma. Ao lançar luz sobre o tema, João Câmara revela, antes de questionar a suposta resistência da pintura, o caráter benevolente das artes visuais, devido a sua multiplicidade técnica; em que pelo menos a qualidade deve se elevar à escolha da linguagem, seja ela a pintura, escultura, objeto, instalação, vídeo-arte etc. Quanto ao vigor da pintura, parece não haver dúvidas de que a tela continua demonstrando força. Já, determinar um novo impulso da produção pictórica nos próximos anos significa entrar em um terreno um tanto quanto movediço. Afinal, como a própria curadoria declarou: “Uma bienal não é uma exposição de convicções”. • Apêndice V / Série Catalogações, Walmor Correa, acrílica e grafite sobre tela, 80 x 80 x 03 cm, 2001

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Fabio Del Re/Divulgação

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Reprodução

Ascensão e queda da pintura

Number 8 (detalhe), Jackson Pollock, 1949

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muito curioso o movimento pendular da pintura no decorrer da arte do século 20. Contestada primeiramente no alvorecer do século pelos dadaístas, a pintura foi considerada como uma arte exclusiva, elitista. A colagem e outras técnicas seriam a forma de derrubar o suporte tradicional. Mas, logo depois, ainda na efervescência vanguardista, há um retorno à pintura pelos surrealistas, claro que com questionamentos peculiares a este movimento. No final dos anos 40, surge o Expressionismo Abstrato nos Estados Unidos, cujo principal pintor foi Jackson Pollock (1912-56), apoiado pela crítica de Clement Greenberg (1909-1994). A linguagem pictórica deste movimento se estende ainda pela Europa até os anos 60; período em que o Brasil também assiste ao nascimento das telas do Concretismo e do Neoconcretismo, e das primeiras Bienais, que valorizam a pintura e que, ainda na virada dos anos 60, procuram uma sintonia com a linguagem expressionista norte-americana. “É nesse momento que o mercado se consolida, que se firma a concepção de arte como mercadoria. É quando as instituições se consolidam, surgem os museus de arte moderna e contemporânea, a proliferação das galerias, a instituição do mercado de arte”, explica a crítica Magnólia Costa. Nos anos 60 e 70, a pintura volta a declinar; novas linguagens tomam a cena artística contemporânea, como a arte conceitual, performance, fotografia, vídeo-arte. Nos anos 80, contemporaneamente ao discurso pós-modernista, ressurge no Brasil a pintura da Geração 80 e da Casa 7, que evidencia um processo de retomada da pintura em contraposição às vertentes conceituais desenvolvidas na década de 70. Nos anos 90, a pintura volta a sair de evidência. (AS) • Continente outubro 2004


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O mérito de não ser estridente A pintura tem o poder de suspender o movimento para melhor lê-lo, entender suas implicações visíveis e invisíveis, e entrar como uma cunha entre passado e futuro Daniel Piza

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á virou um lugar-comum dizer que a pintura vive uma “crise”, que o chamado suporte tradicional – o quadro, a superfície bidimensional – foi “implodido” pela arte contemporânea e, portanto, perdeu capacidade de diálogo com o público atual e antenado. Também é recorrente ouvir que está havendo um “ressurgimento” da pintura aqui e ali, como diz o curador da 26ª Bienal Internacional de São Paulo, Alfons Hug. Mas a realidade não é nem uma nem outra. Sim, a pintura já não é o gênero central das tais “artes plásticas” (por que não “artes visuais”?), mas isso não significa que não tenha especificidade suficiente para sustentar um discurso vivo e agudo. E algumas das expressões de suposto ressurgimento da pintura não são muito inspiradoras, para dizer o mínimo e evocando a própria 26ª Bienal, onde a fotografia chama mais atenção dos bem informados. O discurso sobre a crise da pintura não é de hoje. Especialmente depois dos “ismos” todos que fizeram a arte moderna nos últimos 100 ou 150 anos, fala-se ad nauseam nesse assunto. O brilhante historiador Giulio Carlo Argan, de tendência marxista, apontou em seu livro Arte Moderna o que chamou de “crise da arte como ciência européia”. O que ele na verdade queria dizer era que linguagens como a pintura – carregadas de uma tradição européia que, de Giotto a Rothko, explorou vastamente seus recursos técnicos a ponto de mergulhar no anti-discurso mais purista – tinham perdido sua faculdade de encenar os dramas humanos e os contextos históricos pelo simples fato de que representavam uma cultura datada, de um continente já incapaz de falar para um planeta em expansão. A pintura como forma de conhecimento nascida na perspectiva do Renascimento estava dando lugar para o autismo, para o afastamento em relação à realidade, para o divórcio pleno entre matéria e idéia, entre o visível e o invisível.

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Bill Binzen/Corbis

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O que distingue a pintura das outras manifestações de artes plásticas é sua maneira de congelar a imagem, por meio de técnicas que trazem a impressão emocional do artista em sua própria matéria


ESPECIAL

Divulgação

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Konvoi, Neo Rauch, óleo sobre tela, 300 x 210 cm, 2003

Há toda uma geração de críticos atuais que pensa do mesmo modo, porém invertendo os sinais: Argan era obviamente um saudoso do tempo em que beleza podia rimar com conhecimento; os curadores das bienais contemporâneas acreditam que a arte conceitual e a vídeo-arte que predominam nesses eventos têm maior poder de transporte que a pintura. Eles freqüentemente exaltam o poder das instalações de articular conceitos e ao mesmo tempo causar sensações, mesmo que em 99,9% delas isso não aconteça para o observador crítico. Alguns teóricos chegam a argumentar que as crianças e o público mais despreparado gostam mais da arte conceitual do que os saudosistas da pintura, confundindo o fato de que as bienais se assemelham com parque de diversões com o de que a maioria das pessoas não entende e não vê beleza nesses trocadilhos cênicos. Pegaria mal, no entanto, excluir a pintura dessas mega-exposições, e uma parcela das salas é sempre dedicada a ela. Mas o que se vê em geral ou é a pintura pós-minimalista, em que o valor “tonal” das áreas geométricas de cor justapostas é tudo que há para celebrar (exemplo da Bienal: Thomas Scheibitz); ou a pintura texturizada, em que camadas de tinta e linhas que nelas parecem desaparecer procuram fazer sugestões sobre a passagem do tempo, a diluição da memória, etc (Pablo Siquier). Quando figuras se afirmam na superfície da tela, uma raridade, normalmente o fazem pelo caminho do hiper-realismo, do diálogo com a fotografia ou com imagens da nossa era midiática (Vera Lutter). Não se vê, em outras palavras, uma pintura feita pelo prazer de compor um espaço com figuras e pinceladas. E ela existe no mundo atual: Lucien Freud, Cy Twombly, Antoni Tàpies, Susan Rothenberg, Magdalena Schwarz, Manolo Valdés, Daniel Senise – não são muitos mas são fortes os exemplos de boa pintura. Continente outubro 2004


Reprodução

ESPECIAL

Naked girl asleep, Lucian Freud, óleo sobre tela, 55,8 x 55,8, 1968

E o que a pintura tem que a fotografia, a instalação, o cinema, as outras artes não têm? É justamente sua maneira de congelar a imagem, por meio de técnicas que trazem a impressão emocional do artista em sua própria matéria. Por isso não espanta que a pintura hoje tente se refugiar na textura e no gestual, naquilo que lhe resta de mais característico. O problema é que ela pode ir além disso: ela pode e deve lidar com o mundo de imagens em que estamos saturados atualmente, em vez de fugir para o abstrato ou o meramente alusivo. Talvez isso não vá parecer “novidadeiro” como se espera hoje de tudo e em especial das artes visuais. Para muitos, na verdade, a pintura tem um caráter de contemplação, de silêncio, de aparente imobilidade, que não parece se encaixar num mundo cada vez mais barulhento, clipado e acelerado. É justamente isso, porém, que lhe dá força: o poder de suspender o movimento para melhor lê-lo, para entender suas implicações visíveis e invisíveis, para entrar como uma cunha entre passado e futuro. O paralelo óbvio é com o livro. Como o livro, a pintura se dirige ao observador calado; é uma conversa interior, individual, mesmo em museus lotados de turistas asiáticos. E, como ele, pode ter perdido status, poder de influência sobre a cultura como um todo, mas está longe de ter perdido relevância, poder de influência sobre a vida de uma pessoa informada. Seu mérito é justamente não ser estridente: é oferecer a chance de distanciamento em face do bombardeio digital ora vigente. O sucesso dos grandes pintores em retrospectivas mundo afora, inclusive pintores um dia difíceis para o consumo do cidadão médio como Picasso ou De Kooning, é só mais uma prova de que a pintura preserva seu potencial de interpretação e comoção – e com um toque de artesania que nenhuma máquina pode emular. • Continente outubro 2004

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ARTES Imagens: Divulgação

Maurício de Sousa faz uma releitura de grandes mestres da arte mundial na exposição História em Quadrões

História em quadrões O que você pensaria se visse a Mônica, aquela dentuça de vestido vermelho, da turminha de Maurício de Sousa, como se fosse a Mona Lisa? Ou o Cebolinha, aquele que troca o “r” pelo “l” e só tem cinco fios de cabelo, como o Adão da obra A Criação de Adão, de Michelangelo? É uma proposta, no mínimo, inusitada e bem-humorada, mas foi o que veio à cabeça do quadrinista Maurício de Sousa, ao se deparar com jovens, em museus, que tentavam reproduzir os grandes mestres. “Em uma visita que fiz ao MASP – Museu de Arte de São Paulo –, no final dos anos 80, parei para observar jovens visitantes que copiavam a obra Rosa e Azul, de Renoir, em seus bloquinhos de desenho”. História em Quadrões, Pinturas de Maurício de Sousa precipita um profundo admirador e pesquisador das obras de Anita Malfatti, Renoir, Goya, Di Cavalcanti, Velázquez, Van Gogh, entre outros. Assim, Dança Tarairiu, de Eckhout, virou Dança do PapaCapim; Maja Vestida, de Goya, transformou-se em Pipa Vestida; Velha Fritando Ovos, de Velázquez, aqui é Magali Fritando Ovos só pra Ela; “Nascimento de Vênus”, de Botticelli, inspirou Mônica no Nascimento de Vênus.

Foram 14 anos de pesquisa para desenvolver as releituras, nos quais o desenhista procurou verificar detalhes das pinturas e molduras. Depois do Recife, a mostra História em Quadrões, que já passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte e Goiânia, segue para outras capitais brasileiras, Europa e USA.

História em Quadrões – Pinturas de Maurício de Sousa. Instituto Ricardo Brennand (Alameda Antônio Brennand, s/nº, São João, Várzea, Recife-PE. Tel: 81. 21210352). Visitação de terça a domingo, das 13h às 17h (nas quartas é das 09h às 17h). Até 05 de dezembro.

Percurso da memória Figuração do Invisível, Amparo 60 Galeria de Arte (Av. Domingos Ferreira, 92, Boa Viagem, RecifePE. Tel: 81.33254728). Visitação de segunda à sexta, das 09 às 18h, e sábados, de 09 às 13h. Até 20 de novembro.

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“Digamos que, para ele, a forma é uma prisão. Ou um labirinto, que uma vez penetrado, requer décadas para permitir o sol ou a saída”. A afirmação sobre Luciano Pinheiro é de Weydson Barros Leal, poeta e crítico de arte, e foi publicada na Continente de março de 2004. O pintor pernambucano, que completará 40 anos de carreira em 2005, já inicia as comemorações com a exposição inédita Figuração do Invisível, com 16 pinturas sobre tela, sendo três trípticos e um quadríptico. Luciano é um alquimista das tintas e, aqui, elas transitam entre o presente e a memória – tentativa de entender o homem numa dimensão existencial ampla: origens, percepções, sentimentos da realidade presente, previsão de futuro e da morte, incertezas, dualidade da própria vida – e acolhem luzes, paisagens, sonhos, o real e o imaginário.


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SABORES PERNAMBUCANOS Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti Leo Caldas/Titular

Comida de português “E enquanto o fero canto escoar na mente Da estirpe que em perigos sublimados Plantou a cruz em cada continente Não morrerá sem poetas nem soldados A língua em que cantaste rudemente As armas e os barões assinalados” Manuel Bandeira (“Camões”)

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colonizador português tentou reproduzir, na terra a que primeiro chamou de Vera Cruz, os ambientes de além-mar. Trouxe com ele curral, quintal e horta – quase tudo que não havia por aqui. No curral boi, porco domesticado, carneiro, bode, pombo, pato, ganso. Mais galinha e, com ela, a grande novidade alimentar que foi o ovo. Cão também – sem dúvida o animal doméstico mais disputado por nossos índios. No quintal cidra, figo, limão, laranja, lima, melão, melancia, maçã, marmelo, pêra, pêssego, romã, uva. Na horta acelga, agrião, alface, berinjela, bredo, cenoura, coentro, cebolinho, endro, funcho, nabo, salsa, couve, chicória, espinafre, pepino, manjericão, mostarda, hortelã. Temperos muitos – alho, cebola, pimenta, cominho. Nesses temperos, pisados com vinho, veio também a técnica de deixar carnes de molho – a vinha-d’alhos. E uma maneira diferente de preparar essas carnes – a fritura, com gordura animal ou manteiga. Do Reino continuaram vindo, ainda por muito tempo, toucinho, presunto, lingüiça e outros defumados. Introduziram sal e Continente outubro 2004

açúcar. Plantaram arroz, coco (usando matrizes vindas da África) e, sobretudo, cana-de-açúcar. Nas embarcações a comida era limitada. E “igual para todos”, escreveu Jean Hugues van Linschot (História da Navegação às Índias Orientais). Carne seca salgada, bacalhau, vinho, vinagre, sal, cebola, alho, mel e sobretudo biscoitos (feitos em fábricas normalmente construídas junto aos portos). Não levavam alimentos perecíveis, como frutas, legumes e doces. Para tratar escorbuto, comum entre navegadores, o tratamento era comer frutas cítricas, no primeiro porto que encontrassem. Para beber e cozinhar levavam pipas com água doce. Nessas embarcações, rudimentares e não muito grandes, vieram as damas portuguesas. E com elas suas cozinhas, tal e qual funcionavam em Portugal – chaminés francesas, fogões de chapa de ferro com 3 bocas, forno abobadado, fumeiros, caldeirões, alguidares, potes, tachos pesados de cobre. Mas não a usaram assim, aqui, por muito tempo. Logo tiveram que fazer grandes adaptações. Dividiram a beira do fogão, democraticamente, com negras e índias. Aprenderam que, em


SABORES PERNAMBUCANOS nosso clima tropical, melhor lugar para colocar a cozinha era mesmo fora da casa. Embaixo de “puxados”. Imitando quase integralmente, e meio sem querer, a cozinha indígena. Do “jirau” (espécie de mesa com varas de madeira que servia para cortar e limpar as carnes ou para guardar alimentos) à “trempe” (tripé de pedra ou ferro, para apoio dos panelões no fogo). Passaram a usar utensílios que os europeus não conheciam – panela de barro, colher de pau, pilão, urupema, cuia, cabaça, quartinha, ralador de coco. Sobretudo tiveram que se adaptar aos ingredientes da terra. Esquecendo maçã, pêra, pêssego, amêndoas, pinhões, cravo, canela, gengibre. E adotando novos produtos como castanha, amendoim, batata, coco, milho, mandioca. Além das frutas tropicais – caju, goiaba, araçá, banana, mangaba, cajá. Com as mãos da cozinheira portuguesa tudo aperfeiçoando e tornando requintado. Assim disse Gabriel Soares de Souza (Tratado Descritivo do Brasil, 1587) – “desta massa de mandioca fazem mil invenções, mais saborosas que as de farinha de trigo”. O beiju ficou mais fino e mais seco. Ao mingau de carimã juntaram açúcar, ovo e leite – base de nossos primeiros bolos. O trigo continuou vindo de Portugal, por muito tempo ainda. Mais vinho, azeite e vinagre, que Evaldo Cabral de Melo denominou “tríade canônica” (Nas Fronteiras do Paladar). Importaram também o hábito da sobremesa, desconhecido por índios e escravos. Novidade que acabara de chegar da Europa, onde antes se usava terminar as refeições com frutas frescas, secas ou cristalizadas, leite, queijo e mel. Que doces vinham então à mesa, nas refeições, apenas para ornamentar - formando grandes esculturas de massa e frutas cristalizadas. Esses hábitos alimentares do colonizador nem sempre foram assim. Sofreram as marcas de muitos outros povos que sucessivamente dominaram a Península Ibérica. No início, o português era essencialmente camponês. Com gosto pelas coisas da terra – fava, ervilha, lentilha, chícharo e sobretudo couve – “a principal comida da gente do campo consiste em couves e, por isso, junto das cabanas, existe sempre um pequeno couval”, escreveu Teófilo Braga (O Povo Português nos seus Costumes, Crenças e Tradições). Sopas e caldos eram, por essa época, base de todas as refeições. Pão também – feito de aveia, centeio, cevada, farelo. Acompanhado de leite. Muito leite. E castanhas, assadas em fogueiras. Apreciavam carnes – de boi, carneiro, coelho, perdizes, porco. Desse porco aproveitavam tudo – carne, chouriço e gordura (usada para fritura). Mas tinham preferência por peixes, de rio e de mar – atuns, sáveis, tainhas, eirós, linguados, corvinas, cações, azevias, lampreias, trutas, solhos, salmões, sardinhas, relhos, salmonetes, chernes, sargos. Marisco também – lagosta, caranguejo, santola, lobagante, ostra, ameijoa, mexilhão. Não por acaso Setúbal, cidade natal de Manuel Maria Barbosa du Bocage, por essa época se chamava Cetóbriga (“terra do peixe grande”). Esse mes-

mo Bocage que foi perseguido por professar idéias dissolutas e preso no cárcere de Limoeiro pelo Santo Ofício, acabando seus dias no Hospício das Necessidades. Mas essa é outra história. Enfim, “a gente portuguesa atravessou em seu começo um período de alimentação equilibrada, que talvez explique muito de sua eficiência”, observou Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala). Os romanos (séc. 2 a.C.) trouxeram grandes alterações aos hábitos lusitanos. Construíram estradas, dividiram o país em cidades (cercadas de muralhas e portas). Depois as cidades cresceram por fora dessas muralhas. E passou-se a ter cidades maiores (borgos) e, dentro delas, os povoados originais (borghettos). O ghetto de Varsóvia era, etimologicamente, apenas uma pequena cidade formada por subterrâneos em que judeus resistiam à ocupação alemã. Acabaram quase todos exterminados. Mas essa também é outra história. Os romanos praticaram o cristianismo, um dos fundamentos de sua formação cultural. Plantaram vinhas e ensinaram a fazer vinhos. Plantaram também trigo e sorgo – espécie de milho originário da África, da Índia e da China. Com esse sorgo faziam “broa” e pulmentum – tipo de papa, origem da polenta. Ensinaram a fazer garum (pasta de peixe) , o mais valorizado dos temperos – ficando o peixe na salmoura, ao sol, em grandes tanques de pedra, até se transformar numa pasta. Juntavam-se depois mariscos, sangue fresco de atum e azeite. Tudo colocado em ânforas hermeticamente fechadas, vendidas a preço de ouro. Aprenderam os portugueses também, com os romanos, a comer ovos nas refeições. Ex ovo omnia – todas as coisas nascem do ovo, ensina velho ditado latino. Mas aprenderam, sobretudo, o hábito de celebrar a vida, em volta da mesa farta, com muito vinho. Depois chegaram os bárbaros germanos (séc. 5) – alanos, vândalos, godos, suevos, visigodos. Eram bocas ferozes, insensíveis aos encantos de uma comida delicada. Grandes caçadores, ensinaram ao português a técnica de caçar e o gosto por carnes semicruas. De preferência vaca e javali. Ensinaram também a fabricar queijos, de todos os tipos. Mais tarde (séc. 8) foram os mouros – árabes que habitavam o norte da África. Vem desse tempo, e do seu suor, a expressão “trabalhar como um mouro”. De todos esses povos, o que mais influenciou a cultura da Península Ibérica. Em todas as áreas. Arte, arquitetura, indústria (de azulejo, de azeite e de tecido com lã e linho), agricultura (técnicas de irrigação, moinhos de água). Plantaram oliveiras e amendoeiras. Também arroz, algodão, laranja, limão, maçã, melão, tangerina e cana-de-açúcar. Aperfeiçoaram as plantações de vinhas, começadas pelos romanos – mas só para consumo de uva, claro, que o “Corão” proibia beber álcool. Acostumaram o paladar ibérico às especiarias que traziam das Índias – pimenta, canela, cravo, gengibre, noz-moscada, alho. Foi em busca dessas especiarias, e do açúcar, que se lançaram os portugueses ao mar Continente outubro 2004

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SABORES PERNAMBUCANOS Leo Caldas/Titular

RECEITA: BACALHAU À GOMES DE SÁ (Receita original de comerciante do Porto, conhecido apenas como Gomes de Sá) INGREDIENTES: 1kg de bacalhau, 1 kg de batata, 500 ml de azeite, 3 dentes de alho, 4 cebolas, 4 ovos cozidos, azeitona preta, salsa, leite, sal e pimenta PREPARO: Lave o bacalhau. Coloque em panela grande e escalde com água fervente. Cubra com tampa e deixe (fora do fogo) por meia hora. Depois escorra, retire pele e espinha, e desfie em lascas grandes. Cubra tudo com leite bem quente e deixe por 3 horas.

nas grandes navegações. Ensinaram a fazer pratos que ficaram, até hoje, no cardápio lusitano – “almôndega” (bolinhos de carne ou peixe picado com ovos, farinha, ligados com miolo de pão e temperados com salsa, noz-moscada, pimenta e cozido em guisado); “açorda” (pão, água, azeite, alho, tudo acrescido do que se tiver à mão, com carne ou bacalhau); “olha moura”; carneiro, galinha, chouriço e peixe mourisco; estufados e defumados. “Adáçana” (guisado de tripa de bode) não teve a mesma sorte e simplesmente desapareceu. Mas a maior contribuição culinária moura foi mesmo a doçaria. No princípio, feita com mel – um bolo a que chamavam simplesmente “de mel”, doce folhado de mel, alfenim, alféloa. Depois, receitas com açúcar. Mais de 300 palavras árabes ficaram na língua portuguesa – “Última flor do Lácio, inculta e bela”, como dizia Bilac. A grande maioria referindo culinária – alcaparra, açafrão, acepipe (passas de uva), acelga, alface, alcachofra, atum, berinjela, cenoura, melão, sorvete, xarope, garrafa, álcool, almôndega, arroba, fatia, alqueire. Além de açougue – que, para os árabes, era só nome dado a uma rua estreita, com lojas dos dois lados, em que se vendia de tudo. Judeus também andaram por lá. Pela dificuldade que tinham em se fixar na terra, concentraram-se em grandes cidades e portos. Viviam em shtetel – aglomerações de ambiente tipicamente juContinente outubro 2004

Leve ao fogo com azeite, cebola (cortada em rodelas) e alho. Deixe até dourar. Junte as batatas cozidas em rodelas e o bacalhau escorrido. Tempere com sal e pimenta. Coloque tudo em refratário de barro e leve ao forno, por 20 minutos. Na hora de servir coloque salsa picada, ovo cortado em rodelas e azeitonas.

daico, dedicando-se ao comércio de escravos e alimentos. Além da agiotagem. Em memorial de 1602 já eram acusados de “exploradores do povo que se sustenta de peixe seco. Começaram a formar seus filhos. Nenhum povo daquele tempo teve tantos doutores – sobretudo bacharéis e médicos. Deles herdamos, também, o gosto por óculos e pincenês. E alguns pratos, como o carneiro com ervas, e o cozido – que se originou da adafina, principal alimento do Shabbath, dia do louvor que equivale ao repouso dominical do cristão. Esses judeus viveram tranqüilos, em Portugal. Mas só até quando D. Manuel, dito “o venturoso”, se casou com Isabel, filha dos reis católicos da Espanha. Sendo, a partir de então, perseguidos impiedosamente. Muitos fugiram para o Brasil. O grande império português foi se construindo – Angola, Cabo Verde, Timor Leste, Moçambique, Macau, Goa e Brasil. Em quase todos esses lugares se podendo encontrar fortes semelhanças alimentares. Com variações apenas de ingredientes e temperos. Semelhanças também nas festas – Entrudo, Quaresma, São João, Natal. E na maneira especial de receber. Sempre em volta de mesa farta. Como se dizia, por lá, desde antigamente, “festa começa na boca e acaba nos pés”. E quando se tinha à mesa comida, danças e cantos, então essa era uma casa portuguesa. Com certeza. •


DIÁRIO DE UMA VÍBORA Joel Silveira

Poema, 1945

P

orque não há trégua na cotidiana amargura, os versos nascem todos desgraçados e possivelmente maus.

Os caminhos estão gastos, as mulheres se repetem e é ridículo dar amor a alguém que amanhã estará murcho e jamais devolverá nossas cartas. Para as horas, tão inúteis, vale apenas a solução dos bêbados. Onde estão os perigos desta vida? Quero-os todos para mim, aqui ou longe. A eles, o melhor estilo e o melhor entusiasmo. Que sobre eles o amor e a alegria se debrucem como rosas abertas num campo minado. •

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O carpinteiro do traço O cartunista argentino Quino, 72 anos, um dos principais desenhistas do gênero na América Latina, cumpre meio século de carreira, brindado com mostra itinerante que percorre a Argentina e virá ao Brasil em 2006 ou 2007 Mariana Camarotti, de Buenos Aires

U

ma dondoca manda a empregada arrumar a sala bagunçada e ela, obediente, coloca tudo em ordem. Inclusive o quadro Guernica de Picasso que estava na parede, transformandoo de uma cena dramática sobre a Guerra Civil espanhola numa simpática tela de reunião de família. Uma menininha graciosa chamada Mafalda, cheia de questionamentos sobre o mundo, arregaça as mangas para lavar o globo terrestre com um trapo e balde. Temas pungentes, críticas contundentes e ironia são a essência do que Joaquín Salvador Lavado, Quino, coloca no papel em forma de tiras e páginas de humor. Argentino de 72 anos e um dos principais desenhistas do gênero da América Latina, Quino atravessou décadas com uma lucidez e compromisso como poucos. Este ano, ele cumpre meio século de carreira, assinalado na Argentina com a mostra itinerante Quino 50 Anos, reunindo seus melhores trabalhos. A exposição esteve em Buenos Aires e, a partir de agora até o próximo ano, percorre todo o interior. O Brasil será o primeiro país a receber a mostra, em 2006 ou 2007, provavelmente em São Paulo. Com traços finos e desenhos de aparência leve, os trabalhos de Quino, em geral, são em preto e branco. O que sua mão faz com o lápis no papel é de tamanha expressão e comunicação que muitas de suas tiras e páginas de humor publicadas não carecem de textos. O romeno Saul Steinberg, considerado o pai do desenho humorístico gráfico do século 20, deixou como influência sobre Quino a linha e a frescura de seus traços. No conteúdo de sua obra, a base principal é de outro importante desenhista moderno, o francês Sempé. Assim, o trabalho de Quino, com tais referências, resulta em um desenho de qualidade e humor inteligente. Uma singularidade desenvolvida ao longo de sua carreira é a de utilizar-se de crianças para fazer questionamentos e críticas aos adultos, e deles cobrar respostas difíceis. Assim acontece nas tiras de sua mais ilustre personagem, Mafalda. Percorrendo a exposição Quino 50 Anos, a impressão é de que os desenhos e histórias estão sempre dentro de Joaquín Lavado e que passam ao papel com a naturalidade e simplicidade de uma respiração. Impressão equivocada. Ele diz que realizar seu trabalho não é nada fácil, muito menos com o passar dos anos. “Não sou como Picasso, que se sentava e já sabia o que iria pintar. Eu desenho, apago, volto a desenhar, jogo fora o papel...”, confessa. Quino classifica-se como um carpinteiro, que desenvolve um trabalho meio mecânico e meio de criação, que é, acima de tudo, transpiração.

Daniel Luna/AFP

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HUMOR Divulgação/Mostra itinerante Quino 50 Anos

A exposição Quino 50 Anos tem atraído o público em Buenos Aires

Uma resposta muito humilde e simplista, comum à timidez de Quino, para dizer que aborda temas que estão dentro de cada um ou à nossa volta. Mas que nem sempre nos damos conta e que, por isso mesmo, precisam ser ressaltados e repensados. Preocupações com a ordem mundial, as ditadura militares, o meio ambiente, as injustiças sociais, a influência da televisão, a tecnologia, as desavenças da humanidade, os serviços públicos e a hipocrisia, entre tantos outros discutidos em sua obra. O que torna contemporâneos e internacionais trabalhos publicados na Argentina ontem ou décadas atrás. Como, por exemplo, uma página de humor gráfico da revista Rico Tipo, em 1964, em que todos os sindicalistas dormem numa assembléia geral. Ou em outra publicada na revista Sete Días, de 1979, em que homens de paletó se saúdam cordial e hipocritamente, uns levando ratos e outros, ratoeiras. Joaquín Lavado, apelidado de Quino, para não ser confundido com o tio Joaquín Tejón, despertou para o desenho precocemente, já aos três anos de idade. E por influência desse mesmo tio, que um dia pintou-lhe um cavalo azul. Esse cavalo mágico fez com que o menino começasse a desenhar em qualquer superfície que visse pela frente. Cursa a Escola de Belas Artes da província de Mendonza, onde morava. Decidido a ser desenhista de historietas e de páginas de humor gráfico para o resto de sua vida e conseguir publicá-las nos meios de comunicação da capital argentina, o jovem de 22 anos muda-se para Buenos Aires em 1951. Tentativa frustrada, ninguém dá bola para os seus trabalhos. “Instala-se numa pensão, presta serviços militares e, neste momento, se dá conta da ordem mundial e da hierarquia da sociedade, assuntos recorrentes em seu trabalho, principalmente em Mafalda”, diz a estudiosa da obra de Quino e curadora da mostra, Maria Elena Baggi. Quino volta para a sua cidade e, três anos depois, a Buenos Aires. Insiste nos jornais até que, enfim, um trabalho seu é publicado no semanário de informações gerais Esto Es, em 9 de novembro de 1954. “Nesse dia passei o momento mais feliz de toda minha vida”, lembra. No princípio, o desenhista carregava os traços lacônicos dos mestres europeus. Era um humor mudo e humanizado. Desde aí, sua linha mudou bastante. Seu traço tornou-se mais original e as figuras humanas ganharam feições próprias. Continente outubro 2004


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Divulgação/Edições de la Flor

Reprodução

Os desenhos de Quino parecem ser passados para o papel com a naturalidade de uma respiração. Impressão equivocada

Acima, o famoso cartum Guernica Arrumada. Ao lado, desenho de Steinberg, referencial de Quino

Versátil e procurado pelos meios de comunicação, passa por diversos jornais e revistas, com diferentes posições editoriais, com desenhos ora realistas, ora alegóricos. Depois da Esto Es, trabalha para a revista Avivato, de sátira política. Em seguida, é chamado para uma publicação-ícone dos anos 40 e 50, a Rico Tipo, pelo mesmo diretor de redação que rechaçou seus desenhos enviados da província de Mendonza. Atendendo ao pedido do diretor, Quino começa a incorporar cor e palavras nos quadros humorísticos. Depois vai para Tía Vicenta, onde publica sátiras políticas, à esquerda e à direita. Trabalha em Democracia, Usted e Lea y Vea, em que começa a publicar historietas e tiras, com textos. Parte para TV Guia, em 1964, revista de fortes críticas à jovem televisão, ainda não presente em todas as casas. Depois, colabora com as revistas Juan, Telecómicos e Panorama. Segue para El Diario de Mendonza e as revistas Sete Días e Mengano. Por fim, começa a trabalhar no Clarín (principal jornal argentino) em 1980, onde publica suas páginas de humor até hoje. Quem conhece esse desenhista, tão entusiasmado pelo trabalho quanto envergonhado pela fama, percebe que a graça e a crítica com que olha o mundo são as mesmas que estão nos seus desenhos. “O jovem Joaquín e o velho Quino souberam ser sempre o mesmo e cada vez, outro. E não foi estratégia para sobreviver, mas sim uma simples coerência. Algo que não se desenha, mas que se nota ao desenhar”, comenta o escritor e jornalista argentino Juan Sasturain. • Continente outubro 2004

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Mafalda vence o tempo

Divulgação/Martins Fontes

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Imagens: Reprodução

Mafalda, alter ego de Quino, era uma garota que amava os Beatles e odiava James Bond

Divulgação/Edições de La Flor

uino é chamado de assassino desde 25 de junho de 1973, data em que publicou a última tira da sua principal criação: Mafalda. “Matou nove personagens”, diziam e ainda dizem. E não houve volta. A menininha de perguntas embaraçosas e sentenças surpreendentes sobre o mundo e a humanidade nunca mais voltou a ser desenhada por Joaquín Salvador Lavado. Mas é como se fosse, tamanha a contemporaneidade de suas historietas, criadas por nove anos. Tão espantoso quanto a atualidade de Mafalda é que, 31 anos depois de seu desaparecimento, ela continue presente no imaginário dos leitores. Na Argentina e em tantos países como o Brasil, é vendida em novas edições de livros, assim como em agendas, cadernos, cartazes e calendários. É traduzida para vários países, inclusive os orientais, fazendo com que Quino seja conhecido nas mais insólitas partes do planeta. A criatura está completando 40 anos de nascida, junto com o meio século de carreira de seu criador. A gorduchinha de cabelos negros, vestido e laço na cabeça apareceu não para as historietas de humor de jornais e revistas, mas, sim, para uma frustrada campanha de publicidade dos eletrodomésticos Mansfield. O desenhista havia feito seis tiras para a propaganda, três das quais foram publicadas em 1964, em Gregório, o suplemento de cultura da revista argentina Leoplán. Ganhou o nome de Mafalda porque a empresa de eletrodomésticos exigia que começasse com a letra M, e esse era um nome que Quino havia visto num filme. Da publicidade, ela, seus pais e amigos passaram à revista Primera Plana como tira independente. No início, era semanal, mas o sucesso foi tão grande que Quino passou a publicá-la a cada 24 horas, a partir de março de 1965. Ele nunca tinha imaginado isso. “Era um trabalho tremendo, porque eu necessito de tempo para amadurecer a idéia.” Com Mafalda, que ama os Beatles e odeia James Bond, a infância perde a inocência e a historieta acrescenta um toque psicológico à já existente preocupação social. Suas tiras concentram as inquietudes de uma das mais singulares gerações, a dos anos 60, com suas ideologias, descobertas, questionamentos e contradições. Numa tira que se ocupa desses temas, a mãe de Mafalda vai ao supermercado e, quando já está para tomar o elevador, diz que a menina não abra a porta para ninguém que chegue. A filha sai com essa: “Nem para a felicidade?” Com nove anos de publicação da tira, Quino entende que caiu na monotonia, que os temas e discurso eram sempre os mesmos e que já era tempo de fechar um ciclo. Embora achasse que encerrava a vida de Mafalda, fazia exatamente o contrário. Perpetuava sua história no presente por muito e muito tempo mais. •

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“O mundo vai mal” E

le chega à Mostra, em homenagem aos seus 50 anos de carreira, misturado aos visitantes, como se não quisesse ser reconhecido. Introvertido, quase não autoriza o evento por pura timidez. A mesma que o faz negar muitos autógrafos pedidos. Homem de poucas palavras, Quino prefere expressar-se com lápis e papel. Os últimos 50 anos são testemunhas disso. Questionado sobre como está o mundo, ele setencia: “Mal, muito mal. Me alegro de não ser jovem”. Pai de tantas figuras infantis para as tiras, não deixa sobre a terra nenhum filho para que não viva nesse “horror em que está o mundo.”

Como se explica a contemporaneidade de seus personagens e tiras, criados décadas atrás? Mais especificamente as histórias de Mafalda. Sou o primeiro a me surpreender com tudo isso porque o que acontecia no mundo naqueles momentos continua acontecendo. Eu mudei muito, meu trabalho não tanto. Esses conflitos que estão no meu trabalho eu tenho desde pequeno, em minha família discutíamos muito política, falávamos de guerras. E hoje eu continuo escutando essas mesmas conversas e tentando passá-las para o papel. Divulgação/Edições de la Flor

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Por que em tantas partes do mundo Mafalda é um sucesso? Porque os assuntos de que tratava Mafalda são universais. Mas há muito da história, dos costumes e da ironia argentina. Isso é que é impressionante. Na Finlândia e na China, por exemplo, é que é mais estranho que Mafalda faça sucesso. Porque lá na China não se pode ter mais de um filho... e Mafalda tem irmão... havia que mudar a psicanálise na China, pois não há ciúmes de irmãos, primos, tudo isso não há (risos). Para tratar de temas sempre tão atuais, você tem algum método de trabalho para informar-sse e realizar suas páginas de humor? Leio os jornais, escuto rádio, falo com as pessoas. Televisão eu quase não vejo. Tenho que trabalhar em minha casa e não tenho hora para parar. É que, para mim, o trabalho está muito misturado com a minha vida. E nas férias, também não pára? (risos) Não. Mas, também, se não sento numa mesa com um papel em branco, não sai. Às vezes, tenho uma idéia antes de dormir. Anoto e, no outro dia, serve-me ou não. Tenho uma pasta de coisas que nunca terminei, mas não saberia dizer que método tenho.

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HUMOR Com uma postura sempre tão crítica, você viveu censura ou autocensura? Quando comecei a trabalhar, em 1954, vindo da província de Mendonza para Buenos Aires, o Governo controlava as cotas de papel. Então aprendi como tratar alguns assuntos. Por exemplo, militares não, sexo não... isso dependendo de cada época. Quando estavam os militares no poder aqui, sim, sofri censura, sempre. Depois, quando se vive tanta censura e se chega ao momento em que estamos vivendo agora, de 1983 para cá (fim da última ditadura militar na Argentina), a sátira e o humor são facilitados. Mas se perde um pouco aquele humor de 35 anos atrás e que, ainda que estivesse encoberto, sabia-se do que se estava falando. O ano de 1973 (quando Mafalda deixou de ser publicada) não poderia ter se estendido um poquinho mais? Não, não, não. Eu nunca fiz nenhuma distinção entre Mafalda e qualquer outra página de humor. Sou como um carpinteiro, vou fazendo o meu trabalho e pronto. O que acontece é que as pessoas gostaram mais de Mafalda. Sei que essa pergunta o aborrece, mas preciso insistir. Por que não mais Mafalda, se tinha tanto sucesso? Mafalda foi uma fase que já passou, acabou-se a história. Mafalda passou. García Márquez contina escrevendo Cem Anos de Solidão? Não. Então... Algum desenho, em especial, que você tenha gostado de fazer e de ver de novo aqui na mostra? Esse em que a empregada ordena uma sala e até o quadro Guernica. Teve tanto sucesso essa página de humor... fiz, saiu-me assim e depois fiquei pensando... é como se a dona da casa quisesse que alguém viesse para ajeitar tudo mesmo, inclusive o quadro. Há algum trabalho que você gostaria de ter feito e que não fez? Ou ainda tem algum personagem ou família para criar? Mais famílias ou personagens, não! Por favor. Mas gostaria de ser melhor do que sou, como um Saul Steinberg. Às vezes vejo alguns desenhos e penso: mas por que não tive essa idéia?

Divulgação/Martins Fontes

A emoção de publicar tiras ou páginas de humor vai se perdendo com o tempo? Sim, pois quando alguém começa, não importa onde publica. No catálogo, deime conta de que trabalhei em meios peronistas, sem nunca ter sido dessa corrente política. E trabalhei muitíssimo para eles. Percorrendo a exposição, uma pessoa compreende que as críticas políticas e sociais que você faz em seu trabalho não se suavizaram quase nunca no decorrer dos anos e até têm sido mais contundentes. Mafalda estaria tão crítica e cheia de questionamentos como nos anos 60 e 70? Com certeza que sim. Acontece que agora se sabe mais do que se fala numa página de humor ou tiras. Hoje, as multinacionais governam o mundo e não mais os políticos, e isso torna a situação pior. Um governo já não cai. Morre um diretor canadense de uma empresa, mas vem um japonês e o substitui, não muda nada. Antes, na época da Revolução Francesa, por exemplo, matava-se um rei e mudavase tudo. Com Bush e as multinacionais sim, acho que estamos pior. •

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Chico Science exerceu incontestĂĄvel influĂŞncia na vida cultural pernambucana

Os observadores da lama e do caos


Alexandre Belém/JC Imagem

a Há exatamente 10 anos nascia o movimento Manguebeat, que inverteria a equação local-universal da Tropicália baiana e hoje é objeto de estudos acadêmicos em universidades do mundo Fábio Araújo

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m 1994, Chico Science & Nação Zumbi e mundo livre s/a colocavam, pela primeira vez desde os anos 70, sons feitos em Pernambuco na primeira linha da produção musical popular brasileira. O Manguebit (ou beat) dava ao mundo os seus primeiros rebentos, com os discos Da Lama ao Caos e Samba Esquema Noise, e desde então exerceria incontestável influência na vida cultural pernambucana e brasileira. O fenômeno é recente demais para que se façam análises definitivas. Mas, além de devolver Pernambuco ao centro das atenções, resgatar a auto-estima da população e estimular um renascimento cultural que repercutiu em todo o país, o Manguebit deixou pelo menos outro legado: uma série de estudos acadêmicos, que procuram entender o que aconteceu e situar o movimento nos contextos nacional e internacional. Nestes 10 anos, desde a explosão mangue, diversos estudiosos – inclusive estrangeiros – se dispuseram a analisar o fenômeno. Um dos mais profundos estudos já realizados levou o título de Maracatu Atômico: Tradition, Modernity, and Postmodernity in the Mangue Movement and New Music Scene of Recife, Pernambuco, Brazil e rendeu, em 1999, o título de doutor ao etnomusicólogo norte-americano Philip Galinsky. Buscando esclarecer a relação entre tradicional e moderno; local e global; folclórico e pop; e doméstico e estrangeiro, no contexto da cena mangue, Galinsky argumenta que todas essas categorias são fluidas, interligadas e mutuamente benéficas. Outra afirmação do autor é que, ao contrário de ideologias anteriores que definem os gêneros brasileiros dentro de uma rede nacional, o Manguebit reforça o status da região e da cidade enquanto base da identidade cultural brasileira. No discurso mangue, “Recife” é muito mais presente do que “Brasil”. Para o especialista, trata-se da mais recente de uma série de tendências brasileiras que se dispuseram a fazer parte de uma rede musical mundial, em que se criam novas identidades híbridas através do amálgama de influências locais e globais. As maiores contribuições do Manguebit foram, para Galinsky, atualizar a MPB em termos de tecnologia e musicalidade jovem e tirar da obscuridade a música popular de

MÚSICA

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Arquivo pessoal

Fábio Araújo

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Philip Galinsky e Carol Leão: teses que se cruzam no conceito de antropofagia pós-moderna

Pernambuco, transformando-a em símbolo de identidade local. Longe de ser algo inédito, a tão falada “mistura de ritmos” tinha antecedentes nas três últimas décadas: a Tropicália dos anos 60; a onda nordestina liderada por Alceu Valença na década de 70; e (mais esporadicamente) a geração roqueira dos anos 80, em que nomes como Paralamas do Sucesso, Cazuza, Lulu Santos e Lobão tentaram, em algum momento, fugir da simples imitação de estilos internacionais. A tese situa a cena musical pernambucana dos anos 90 em relação a esses movimentos anteriores, deixando claro que o Manguebit sofreu influência de cada um deles. A Tropicália apresentava, quase 30 anos antes, terminologia e objetivos semelhantes aos que viriam a ser usados pelos mangueboys. A idéia também era buscar um som de caráter universal, que reunisse todos os elementos possíveis. Ambos os movimentos se opunham – e foram criticados por isso – a visões mais puristas sobre fronteiras musicais. Gil, Caetano & cia. enfrentaram uma época de divisão muito acentuada entre música “doméstica” e “estrangeira”; quebraram barreiras e ampliaram o conceito de música brasileira. Galinsky afirma que, apesar de ter durado apenas um ano (1967-68), a Tropicália estabeleceu um precedente para a assimilação ativa e experimental de diversas fontes pela música brasileira, funcionando como uma referência libertadora. O Manguebit veio três décadas depois, com novíssimas influências, atualizando e revigorando uma MPB que se aproximava da estagnação. A diferença básica entre os dois fenômenos, especula o autor, é que os tropicalistas partiam da MPB para chegar ao Rock’n Roll e demais ritmos estrangeiros. No caso dos mangueboys, o percurso seguia caminho contrário. Chico Science veio do funk e do hip hop, enquanto que Fred Zeroquatro (líder do mundo livre s/a) tinha grandes influências de punk e new wave. Como Galinsky diz ter ouvido durante sua pesquisa de campo no Recife, “os tropicalistas levaram a guitarra elétrica para a MPB, enquanto o Manguebit levou a MPB para a guitarra elétrica”. Outras diferenças de conteúdo: o Mangue mostra uma valorização mais explícita da cultura popular local, pernambucana (e não de uma cultura brasileira, como a Tropicália), e se identifica com um local específico, o Recife, que paira acima do país como um todo. Influenciados por poetas como Augusto e Haroldo de Campos, os tropicalistas foram buscar em Oswald de Andrade o conceito de antropofagia (deglutir as influências externas, digeri-las e regurgitar um produto novo, mas essencialmente brasileiro). O Mangue também adotou a idéia, adaptando-a para as possibilidades tecnológicas de sua época.

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Antropofagia pós-moderna – Nesse ponto, o trabalho de Galinsky cruza com a dissertação da jornalista pernambucana Carol Leão – A Maravilha Mutante – Batuque, Sampler e Pop no Recife dos Anos 90, defendida em 2002 no mestrado em Comunicação Social


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Desde o Modernismo, a produção musical brasileira busca se identificar com a modernidade. A antropofagia mangue é mais específica, mais cosmopolita e resultado dessa tensão cultural facilitada pelo acesso à informação e às novas tecnologias

da UFPE. A autora reforça que os conceitos do Mangue não são inéditos, já que desde a década de 20, com o Modernismo, a produção musical brasileira busca se identificar com a “modernidade” e a “modernização”. A diferença, conclui, é que “a antropofagia mangue é mais específica, bem mais cosmopolita e resultado dessa tensão cultural facilitada pelo acesso à informação e às novas tecnologias”. A antropofagia de Chico Science vem embalada pela cultura midiática. A tecnologia liga-se aos ritmos tradicionais do Nordeste pela união do áudio (música) ao visual (performance), dentro do circuito comercial dos meios de comunicação de massa. A antropofagia pós-moderna na obra de CSNZ resulta do cruzamento de vários códigos, estilos e linguagens instalados na cultura contemporânea e resultantes tanto de experiências vanguardistas quanto da industrialização e da tecnologia. A jornalista destaca o papel do Mangue enquanto contraponto ao ranço conservador de certas instituições culturais que tratavam o discurso regionalista como imutável. Mas constata que o ciclo estava, há muito, esgotando-se. “O manguebeat já não existe enquanto produto comercial. Outros chegaram para o substituir”, decreta, em referência à música eletrônica.

Mestre Ambrósio faz uma música baseada nas tradições locais com raízes rurais

Agência Estado

Rapsódia – O dramaturgo, escritor e professor pernambucano, Moisés Neto, lançou, em 2001, o livro Chico Science – A Rapsódia Afrociberdélica, originado em sua monografia de pós-graduação em Literatura. Entre os pontos analisados está a relação entre a obra de Chico e a cultura popular. “Não há, como sugerem alguns, uma deturpação das tradições; em vez disso, a obra scienciana redescobre, documenta, reinventa, testemunha e indica os novos rumos da arte popular, usando para isso a mídia (jornais, computador, TV etc) que é exercida pela camada intelectualizada e controlada pela lei da compra e venda, a lei do marketing”, afirma Neto. Na visão do autor, Chico “ultradimensiona a arte popular, assimilando-a, como fez Ariano Suassuna com a literatura de cordel, copiando-a, relativizando-a, intertextualizando-a, cruzando vários textos”. A obra do mangueboy tem caráter de ruptura, com um poder de unir e relacionar imagens e palavras que transcende os valores literários e musicais. Moisés Neto identifica no movimento – ou cena – mangue uma fusão da palavra com o pictórico que chama a atenção, seja nos shows, nos videoclipes, na indumentária ou nos encartes. “É provocante, desproporcional, desconstrói a reali-

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Gil Vicente/Divulgação

mundo livre s/a: cavaquinho envenenado com pedaleira e distorção

dade a partir do óbvio, como propôs Glauber Rocha”, compara. A versão virtual do livro está disponível para download gratuito no site www.moisesneto.com.br. Moisés Neto lançou, em agosto, seu segundo livro sobre o Manguebit. Chico Science, Zeroquatro & Faces do Subúrbio: A Cena Recifense analisa também as letras do mundo livre s/a e dos já citados rappers do Alto José do Pinho, abordando o contexto social em que as obras se encaixam. Escolhas musicais – Em novembro de 1994, o norte-americano Daniel Benson Sharp estava no Recife, quando assistiu a um show de Chico Science & Nação Zumbi. Achando que veria “apenas” mais um concerto de rock, Sharp ficou surpreso ao se deparar com a incomum seção rítmica da banda, que alternava batidas reconhecíveis de rock, funk e hip-hop com sons que lhe evocavam o Carnaval. O interesse por aquele som instigante e com cheiro de novidade resultou na dissertação de mestrado A Satellite Dish in the Shantytown Swamps: Musical Hybridity in the “New Scene” of Recife, Pernambuco, Brazil, defendida em 2001, na University of Texas. Daniel Sharp abordou a complexa relação entre os fatores “lugar” e “estilo musical” no tocante às escolhas musicais da nova cena. O estudo analisou as forças que empurraram jovens músicos pernamContinente outubro 2004


MÚSICA bucanos dos anos 90 para uma incorporação cosmopolita de influências globais, atraíram-nos para o local e o tradicional, ou levaram-nos para uma combinação intermediária. No Recife dos anos 90, Sharp cria uma divisão entre “músicos de raiz”, como Mestre Ambrósio, Cascabulho e Chão e Chinelo, e “bandas de Manguebit”, que abordam o tradicional com bem mais ambivalência e colagem. Segundo ele, as primeiras partem de uma base de tradições locais com raízes rurais, tendendo à continuidade e à estabilidade. Já os artistas do Manguebit invertem a lógica. “Enquanto os músicos de raiz trabalham de dentro para fora, partindo das tradições locais e aceitando uma medida controlada de influência externa, os músicos do Mangue trabalham de fora para dentro, começando com idéias pop internacionais e eventualmente retornando para incorporar elementos locais”, define o pesquisador. A mesma diferença constatada por Galinsky entre os mangueboys e os tropicalistas. Mas, Daniel Sharp faz questão de ressaltar as semelhanças que unem as duas categorias. Ele aponta convergências musicais e ideológicas, como a rejeição às idéias de música folclórica e cultura estática. Os sons são diferentes, mas todos compartilham o legado modernista de Mario de Andrade e Oswald de Andrade. Mario buscou justapor os extremos do Brasil urbano e rural, tradicional e moderno, afirmando que nenhum elemento sozinho poderia representar a nação. Já Oswald, como dito anteriormente, lançou o conceito de antropofagia, segundo o qual idéias estrangeiras podem muito bem ser usadas para criar um produto exclusivamente brasileiro. Como o Mangue. Vale também citar trabalhos como Uma Antena Parabólica Enfiada na Lama – Ensaio de Diálogo Complexo com o Imaginário do Manguebit, defendida por Paula de Vasconcelos Lira na pós-graduação em Antropologia Cultural da UFPE, em março de 2000. Abstrata, a tese esboça uma etnografia do Manguebit usando mitos e arquétipos. Já a inglesa Nicki Dupuy, em Contraditório – Musical Style and Identity in the Contemporary Popular Music of Pernambuco, Brazil, foca nas bandas Cordel do Fogo Encantado e DJ Dolores y Orchestra Santa Massa, abordando sua relação com a cena Mangue e com a música folclórica da região. •

Cordel do Fogo Encantado: conceitos do Manguebeat e música de raiz

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AE/Divulgação

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MÚSICA

Música como presente Dia das Crianças pode ser embalado com músicas que divertem e educam No mês em que se comemora o Dia das Crianças, muitos pais devem se perguntar com o quê presentear os filhos. Conectadas aos interesses do mercado, algumas gravadoras lançam álbuns voltados para a meninada, mas que primam pelo lazer e pela educação. No ótimo Cantigas de Roda, Hélio Ziskind traz canções clássicas de domínio público e que continuam a enriquecer o imaginário de crianças e adultos, como “Marinheiro Só”, “Sapo não Lava o Pé”, “Fui no Itororó”, “Boi da Cara Preta”, “Peixe Vivo”, “O Cravo Brigou com a Rosa” e “Sapo Cururu”, mas com arranjos que harmonizam o erudito e o popular. O selo Palavra Cantada, de Paulo Tatit e Sandra Peres, completa 10 anos e lança CD e DVD comemorativos. O repertório inclui músicas que cativaram grandes e pequenos, como “Pindorama”, “Rato”, “Sopa”, “Criança não Trabalha”, “Fome Come”, mas com o requinte dos arranjos de um quinteto de cordas. Já a Lua Discos/MCD reuniu clássicos da bossa-nova e do choro e editou dois álbuns. O primeiro, MPBaby, traz “O Pato” de Vinícius de Moraes, Toquinho e Paulo Soledad, mas também “O Pato” de Neuza Teixeira e Jayme Silva, “Minha Namorada”, “Garota de Ipanema”, “Bolinha de Sabão” e o “O Barquinho”, tocadas pelo piano de Lis de Carvalho. O segundo traz canções de Sinhô, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Nelson Cavaquinho e “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo. Todas as músicas da coleção são feitas para embalar os sonhos infantis e sobretudo preservar nossa memória musical. Cantigas de Roda. MCD, preço médio R$ 20,00; 10 Anos. Palavra Cantada, preço médio R$ 22,50; MPBaby, vol. 5 e 6. Lua Discos/MCD, preço médio R$ 18,00 (cada). Continente outubro 2004

Voz ondulante Ela está sendo incensada em quase todo o mundo: vem deixando espantados público e críticos brasileiros, alemães, norte-americanos, austríacos, italianos e britânicos. A suave beleza da jovem russa Anna Netrebko não parece comportar a sua voz polifônica e grandiosa – que pode ser comparada à de Maria Callas. No Opera Arias, a soprano demonstra a inteligência com que dá vida nova a personagens cristalizados na memória do ouvinte. Sua voz substancial, opulenta e aveludada sai da nota tônica em busca das mais altas, dançando nas interpretações de árias das óperas Rusalka, de Dvorák, Don Giovanni, de Mozart, Fausto, de Gounod, e La Bohème, de Puccini, entre outras. Opera Arias, de Anna Netrebko. Universal, preço médio R$ 35,00.

Reverência a Capiba O pernambucano Gonzaga Leal não é um músico qualquer. Dono de rara sensibilidade, faz uma justa homenagem a Capiba pela passagem dos seus 100 anos, comemorados em 2003, com o álbum E Sentirás o Meu Cuidado, que reúne canções inéditas, dos anos de 1920 e 1930. Garimpadas em arquivos do compositor, as músicas revelam um lado pouco conhecido do “Senhor Carnaval”: toadas, boleros, maracatus e choros. Entre os músicos, Francis e Olívia Hime, José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Maestro Clóvis Pereira, Hermínio Bello de Carvalho, Dalva Torres e Teca Calazans. É um disco de uma beleza bucólica, para ser ouvido e sentido. E Sentirás o Meu Cuidado. Independente, preço médio R$ 20,00.

E ele não é francês? Nicolas Krassik é um violinista francês que veio ao Brasil em busca de novas sonoridades e aterrissou, logo no primeiro dia, numa roda de choro no bairro da Lapa. A simbiose resultou no álbum Na Lapa, que tem sambas (nos gêneros choro e bolero), choros e baiões. A primeira faixa, “Krassik de Ramos”, é um trocadilho com o nome do músico e da escola de samba Cacique de Ramos. O repertório é eclético e primoroso. Reúne pérolas de Jacob do Bandolim – inclusive a música “Pérolas” –, de Pixinguinha, João Bosco e Aldir Blanc, Nelson Cavaquinho e Amâncio Cardoso, D. Ivone Lara, Paulinho da Viola, Dominguinhos e Gilberto Gil. Na Lapa, de Nicolas Krassik. Rob Digital, preço médio R$ 24,00.


Imagens: Reprodução

TRADIÇÕES

A construção do Carnaval Pesquisa de Evandro Rabello traça a evolução do Carnaval do Recife a partir dos registros da imprensa durante 103 anos Homero Fonseca

No princípio era o Entrudo e o Entrudo se fazia jogando água perfumada e água fétida nas pessoas. Misturava nas ruas brancos e negros, livres e escravos, mantendo, entretanto, as distâncias sociais. Herança lusitana, o Entrudo deu origem ao Carnaval como o conhecemos hoje. Mas até aí, passou-se uma longa história. E essa história está contada no livro Memórias da Folia – O Carnaval do Recife pelos Olhos da Imprensa – 1822 a 1925, de Evandro Rabello. Reunindo anúncios de venda, artigos, crônicas e reportagens publicadas, no período, em 13 jornais recifenses, especialmente Diario de Pernambuco, Jornal do

Recife e Jornal Pequeno. Trabalho de garimpeiro do pesquisador e folião Evandro, em anos de mergulho nas hemerotecas públicas do Estado, com valiosos textos introdutórios da antropóloga Rita de Cássia Barbosa de Araújo e do historiador Lucas Victor, que tecem as linhas interpretativas das memórias da folia. Quando o Brasil tornou-se independente, as elites locais começaram a negar a herança lusitana e nesse meio entrou o Entrudo. E os jornais, vocalizando o sentimento daquelas elites, disseram: “o Entrudo é bárbaro, é anti-higiênico, é imoral”. E a Polícia proibiu o Entrudo. Então, as elites disseram: “façamos uma festa civilizada e higiênica, imitando os Carnavais de Veneza e de Paris”. E Continente outubro 2004

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TRADIÇÕES

Imagens: Reprodução

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Por essa época, os negros, escravos ou forros, faziam suas celebrações em torno de um rei, uma rainha e uma boneca, e lhe deram o nome de maracatu. Os jornais chamaram o maracatu de “uma cousa infama, estúpida e triste!” Memórias da Folia – O Carnaval do Recife pelos Olhos da Imprensa – 1822 - 1925, Evandro Rabelo, 239 páginas, R$ 35,00. Evandro: pesquisa traça evolução da folia entre o século 19 e início do 20

os jornais clamaram: “bons são os bailes de máscaras, onde a fina flor da sociedade pode brincar sem a promiscuidade do Entrudo”. E surgiram os bailes de máscaras, em clubes e em teatros. E também inventaram as cavalhadas – desfiles de cavaleiros mascarados, a reviver costumes europeus medievais. Mas apesar da polícia e da imprensa, o Entrudo continuava, junto com os bailes e as cavalhadas. E, então, as próprias cavalhadas, os bailes e os desfiles carnavalescos saíram da linha. E os jornais reclamaram: “Os mascarados já vão abusando por modo repreensível do mistério ou segredo em que existem sob a máscara. Atos de brutalidade e falta de educação deram-se no domingo, revelando assim qual a condição dos seus autores”. (Diario de Pernambuco, 12/02/1861.) Por essa época, os negros, escravos ou forros, faziam suas celebrações em torno de um rei, uma rainha e uma boneca, e lhe deram o nome de maracatu. Os jornais chamaram o maracatu de “uma cousa infama, estúpida e triste!” (A Província, 16/02/1877.) Ou ainda de “o estúpido folguedo africano”. (Diario de Pernambuco, 18/05/1880.) E surgiram os clubes pedestres, com suas bandas militares executando dobrados e maxixes, com uma malta de capoeiras à frente, fazendo exibições, dispersando a multidão e empenhando-se em lutas com as agremiações rivais. E do aceleramento dos dobrados e maxixes, enriquecidos dos ornamentos melódicos dos metais e palhetas, surgiu o frevo e da coreografia dos capoeiristas nasceu o passo. E vieram a luz elétrica, o telefone, a fotografia, o automóvel. E com este, o corso, um desfile motorizado pelas Continente outubro 2004

ruas centrais, com gente fantasiada. E o povo insistindo nas ruas, a se esbaldar na folia. Até chegar aos tempos atuais, em que a festa, se não encarna a democracia absoluta, não ostenta mais a discriminação concreta e verbalizada dos primeiros registros da Imprensa. Aliás, Imprensa que, já a partir da segunda década do Novecentos, exaltava o Carnaval “constituído pela mais alegre de todas as massas populares, que é “o ‘Zé Povo’ de Pernambuco” e registrava que o ‘frevo’ tende a generalizar-se, misturando todas as camadas nesse conjunto heterogêneo e ebrifestivo das ruas, onde regalam todos os grandes foliões da terra”. (Diario de Pernambuco, 20/02/1917.) E que antes, já nos anos da década de 1880, exaltava o maracatu como uma tradição e símbolo pernambucano. Esta história está contada no material coletado, com paciência e vigor, por Evandro, que viu o quanto se fizera e eis que era muito bom. Ao que, ouvindo a voz de Evandro, Lucas Victor disse, ao final: “Este Carnaval, num país fragmentado por desigualdades sociais, passa a ser um ponto de origem do discurso da democracia racial, que definiria a identidade nacional brasileira a partir da década de 1930. A forma atual pela qual nos entendemos enquanto povo, a forma como representamos nossa identidade nacional começa a ser definida pela maneira como brincávamos o Carnaval, a partir da década de 20. Criava-se a imagem de um povo brasileiro que, brincando nos três dias gordos, conseguiria transcender as hierarquias sociais do país e formar um todo unificado e culturalmente homogêneo dentro e fora da folia. É por isso que se diz que o Brasil é o país do Carnaval”. •


Hans Manteuffel

CÊNICAS

Os atores Cleyton Cabral, Samuel Santos (assistente de direção) e Márcio Tomaz

Com a remontagem, 26 anos depois, de Rua do Lixo, 24 , Vital Santos reafirma a disposição política de seu teatro Luís Augusto Reis

A inquietação Vital

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Escrita em 1969, essa peça projetou Vital Santos nacionalmente, não só como dramaturgo, mas também como diretor, ao surpreender a crítica e o público com seu modo simples e criativo de mostrar o lado mais duro da vida na cidade de Caruaru

Fotos: Hans Manteuffel

A atriz Isa Fernandes, que interpreta Lola

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o longo da segunda metade do século 20, a cidade de Caruaru ganharia notoriedade como berço de alguns dos mais importantes mestres da cultura popular brasileira. No imaginário turístico-folclórico do país, o encanto comovente da arte de seu povo parecia, por vezes, ser capaz de suavizar, ou de encobrir, as marcas da pobreza que até hoje permanecem encravadas na aridez de sua paisagem. Esse dilema essencial da expressão artística dita popular, essa paradoxal fonte de beleza que brota das injustiças sociais, tem sido a principal matéria-prima do teatro feito pelo caruaruense Vital Santos, há mais de 35 anos. Com uma trajetória repleta de prêmios de grande relevo no cenário teatral do Brasil, Vital Santos remonta agora um dos seus primeiros trabalhos: Rua do lixo, 24 – Le Grand Cirque de la Vie. Escrita em 1969, por sugestão de Pascoal Carlos Magno, essa peça o projetou nacionalmente, não só como dramaturgo, mas também como diretor, ao surpreender a crítica e o público com seu modo simples e criativo de mostrar o lado mais duro da vida na cidade de Caruaru. Era a descoberta de um artista de teatro disposto a interpelar a tranqüilidade idealizada que comumente embala a apreciação da arte feita pelo povo. Nessa época, embora ainda muito jovem, Vital Santos já havia entrado em contato, sobretudo por intermédio de Hermilo Borba Filho, com algumas das mais importantes vertentes do pensamento teatral do Ocidente. “Freqüentei o TPN, na avenida Conde da Boa Vista, no Recife. Ficava encantado com todas aquelas experiências cênicas. Quando Hermilo falava, cada frase ficava gravada na minha cabeça. Vieram dele, e também de Luiz Mendonça, as minhas primeiras referências teatrais, especialmente por suas diferentes formas de aproximação com o teatro de Brecht”, reconhece o autor. De fato, em seus espetáculos, encontram-se diversos traços antiilusionistas do teatro épico brechtiano. Por exemplo: a presença constante das canções, cujas letras comentam o desenvolvimento da história contada; o encadeamento livre das cenas, alheio aos modelos dramáticos convencionais; a cenografia econômica e eficiente, que apenas sugere, em vez de tentar reproduzir o local da ação; e a comunicação direta com o público, mantido alerta em relação aos artifícios da representação. Técnicas de teatro que, como observou Hermilo Borba Filho – e também o próprio Bertolt Brecht –, são tradicionalmente encontradas nas manifestações dramáticas espontâneas de povos das mais diversas etnias. Para Vital Santos, admirador dos cantadores de


feira e dos mestres do mamulengo, a utilização desses recursos se configurava como um caminho natural a seguir. Todavia, a consciência do potencial político-pedagógico desses elementos, um ideal que até hoje o orienta e o estimula, somente seria aprofundada por meio da leitura de autores como Brecht e Piscator. “Nunca deixamos de acreditar no poder que o teatro tem de modificar as pessoas e o contexto em que vivem. Quando chegamos a uma cidade, queremos conhecer os líderes e trocar experiências com os artistas locais. Nosso fazer teatral não se restringe aos espetáculos”. De volta ao começo – Segundo Vital Santos, a remontagem de Rua do Lixo, 24 – Le Grand Cirque de La Vie parte de sua constatação de que a temática da peça continua atual. “A exploração dos trabalhadores continua a mesma; o preconceito contra os pobres e os marginalizados também não mudou; e a tortura não deixou de existir com o fim do regime militar. Por isso senti necessidade de encenar novamente esse espetáculo”. Essa será a terceira vez que a Companhia Feira de Teatro Popular, grupo criado e liderado por Vital Santos, levará aos palcos esse texto. Além da estréia consagradora em 1970, quando arrebataram praticamente todos os principais prêmios do Festival do Estudante do Brasil, na Aldeia de Arcozelo, no Rio de Janeiro, houve uma segunda montagem, em 1978, que excursionou pelo Sudeste do país, dentro do projeto Mambembão. No elenco atual, somente a atriz Isa Fernandes participou dessa segunda versão do espetáculo. Os demais componentes trabalham com Vital Santos há apenas alguns anos. Destacam-se, entre eles, os nomes dos atores Gerson Lobo e Samuel Santos, ambos premiados em recentes festivais locais. Aprovado pela Funarte para o projeto Caravana Nordeste, durante todo o mês de outubro o espetáculo circulará por capitais e cidades do interior da Região. Em seguida, o grupo pretende entrar em cartaz no Recife, ainda sem data confirmada. Para essa remontagem, Vital Santos afirma ter adicionado alguns elementos cênicos que introduzem na peça questões que na época em que foi escrita não se faziam tão necessárias. “Não mexi no texto, mas achei por bem inserir algo relativo à discussão de identidade cultural nessa nova encenação, pois esse é um problema do mundo globalizado de agora”, explica. Para o público que apenas conhece Vital Santos por meio de seu primoroso texto O Auto das Sete Luas de Barro, sua peça

A remontagem desse texto de Vital Santos pode suscitar novas discussões sobre o significado atual do chamado teatro popular, reexaminando-o, sobretudo, enquanto local de embate ideológico

Cida Alencar, que interpreta Dorinha


CÊNICAS

Fotos: Arquivo da Cia. Feira de Teatro Popular

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Vital Santos: prêmio Molière de 1980 Ao lado, montagem de Rua do Lixo, 24, de 1978

mais famosa, que lhe rendeu o prêmio Molière de Melhor Diretor em 1980, talvez possa haver algum estranhamento em relação à aspereza dos diálogos de Rua do Lixo, 24: há trechos que bem poderiam ter sido escritos por Plínio Marcos – autor pelo qual Vital Santos sempre nutriu uma afeição especial: “Fomos muito amigos e em alguns momentos fizemos coisas parecidas; mas acho que Plínio se preocupava mais com a renovação da linguagem, com a construção subjetiva dos personagens; eu sempre me liguei mais no meio, no contexto, e na narração poética dos fatos”. Essa peça, como quase todos os trabalhos da Companhia Feira de Teatro Popular, não passou ao largo dos constrangimentos impostos pela censura federal à época do governo militar. O grupo tentava driblar a implacável tesoura dos censores. “Já mandávamos o texto sem os trechos que, de antemão, sabíamos que iriam ser cortados. Depois, na hora das apresentações, a gente fazia tudo na íntegra. De vez

em quando entrávamos em apuros, quando havia algum censor escondido na platéia. Em Brasília, uma vez, todo o grupo foi intimado a comparecer à Polícia Federal; mas foi só um susto”, recorda Alcimar Vólia, produtora da peça, componente do grupo desde a sua fundação. Hoje, quando o país busca amadurecimento enquanto democracia, assistir a essa peça decerto levará o espectador a refletir sobre o passado recente do teatro brasileiro, e o modo pelo qual essa arte tem tentado se relacionar com a realidade histórica do país. Mais que isso, num momento em que o engajamento político volta a ser assumido por alguns dos mais festejados grupos teatrais do país, a remontagem desse texto de Vital Santos pode suscitar novas discussões sobre o significado atual do chamado teatro popular, reexaminando-o sobretudo enquanto local de embate ideológico, mediante a aparente hegemonia dos meios de comunicação de massa. •

A cena na estrada

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Caravana Funarte, ação que leva para os palcos nordestinos espetáculos também regionais, continua durante o mês de outubro. Além da estréia do espetáculo Rua do Lixo, 24, serão apresentados os espetáculos Desvalidos (SE), da Caravana Gajuru (AL), que traz dois espetáculos do seu repertório, Farinhada e Fome Come; Angu de Sangue (PE); Deus Danado (BA); Dançando nas Alturas (PE); Lampião e Maria Bonita (BA); Auto da Estrela Esperança (MA); Repertório Dimenti (BA); Para Quem Nunca Viu... (RN); Um Minuto de Silêncio (CE);

Como Nasce um Cabra da Peste (PB); e do Balé Popular Nação Pernambuco (PE). Maiores informações sobre a Caravana/programação: (81) 3424 5991 ou norte.nordeste@minc.gov.br Rua do Lixo, 24 – Cia. Feira de Teatro Popular (Caruaru/PE) 06 a 8/10 (Theatro Santa Roza – João Pessoa/PB) 15 a 17/10 (Espaço Cultural – Arapiraca/AL) 22 a 24/10 (Auditório Gonçalo Prado – Estância/SE) 28 e 29/10 (Teatro Atheneu – Aracaju/SE)


CÊNICAS

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Geninha em dose dupla A Dama do Teatro Pernambucano comemora 62 anos de carreira com o espetáculo 2 em 1 Geninha da Rosa Borges, decana dos palcos do Recife, sobe ao palco com uma declaração de amor ao teatro e à sua história. O espetáculo 2 em 1 é dividido em três partes. No primeiro ato, Geninha o apresenta, explicando ao público a que ele se destina – montar um espaço cultural para acolher toda a carreira artística da Dama. No segundo, é apresentada a tragédia Solilóquios de Yerma, de Federico Garcia Lorca, dirigida e encenada por Geninha, com a participação de Ana Maria da Rosa Borges. Ao final, o público é convidado para o terceiro ato por Terezinha do Acordeom, que cria o clima de noite de folguedos do Sertão brasileiro para a comédia O Marido Domado – texto escrito por Ariano Suassuna, em 1961, como presente para Geninha e Otávio da Rosa Borges –, com Geninha e Pedro Oliveira, na qual eles vivem um típico casal nordestino, e também os bonecos Marieta e Vicentão. Mas o espetáculo não pode parar. Ainda na mesma noite, será apresentada a peça Maria e Duran, musical de Pedro Oliveira, inspirado em Brasileiro Profissão Esperança de Paulo Pontes, que evidencia a vida e obra do compositor pernambucano Antonio Maria e da cantora e compositora Dolores Duran.

Fotos: Divulgação

2 em 1 e Maria e Duran. Teatro de Santa Isabel (Pça.da República, s/n, Sto.Antônio. Tel: 81. 32241020. Dias 19 e 20 de outubro, às 21horas. Ingressos: R$ 30,00.

Reflexos do espelho

O corpo na cidade Eles não só desejam subverter o espaço do palco, como o fazem sem precisar sair dele – sendo ele móvel. A tradicional caixa-preta é expandida e alterada em seus mais diferentes ângulos. Postais do Recife é o novo “experimento” do Grupo Experimental de Dança, espetáculo que coloca o corpo dos bailarinos em diálogo com o ambiente urbano e a arquitetura (que aqui é elemento reflexivo e estético para a criação e a sustentação da obra coreográfica); questionando as transformações que ocorrem no corpo, quando este se relaciona com a cidade. O espetáculo faz parte do projeto Corpo na Arquitetura e segue em temporada por vários pontos do Recife, cumprindo 18 apresentações até dezembro. Apresentações de outubro: 07 e 08/10, 16h – Pátio do Carmo, Santo Antônio – Recife 15 e 16/10, 16h e 19h – Morro da Conceição, Casa Amarela – Recife 17/10, 16h – Bairro da Jaqueira – Recife 22 e 23/10, 16h e 19h – Brasília Teimosa, Pina – Recife 28 e 29/10, 16h e 19h – Lagoa do Araçá, Imbiribeira – Recife

O que lhe mostra seu espelho é exatamente o reflexo do seu corpo e dos seus sentimentos, mas nem sempre da sua imaginação. O às vezes inimigo, pois mostra o que não queremos ver, é a inspiração para a mais recente montagem da Cisne Negro Cia. De Dança, que comemora 27 anos de carreira. Reflexo do Espelho, inédito no Recife, também é composto pela coreografia Talvez Sonhar..., que tem música de Villa-Lobos. Esta obra une a dança e o teatro e propõe um olhar sobre a condição humana. Reflexo do Espelho, com a Cisne Negro Cia. de Dança. Teatro de Santa Isabel (Praça da República, s/n, Santo Antônio. Tel: 81. 32241020). Dias 15 e 16 de outubro, às 21h e 18h, respectivamente. Ingressos: R$ 20,00 (estudantes e maiores de 65 anos pagam meia). Continente outubro 2004


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ENTREMEZ Ronaldo Correia de Brito

Viva o partido encarnado! Desde os tempos mais antigos, as cores se perpetuam, imortais nos seus significados, transparentes no que representam

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bandeira vermelha não tem a foice e o martelo dos comunistas, nem a estrela do partido dos trabalhadores. É um pano limpo, sem símbolos bordados, vermelho vivo, solar, indicando força impulsiva, Eros triunfante. Não possui legenda, é só bandeira vermelha. As pessoas dizem: “– Eu sou do vermelho”, e pronto! A bandeira azul nem parece deste mundo. Tremula celeste, eterna, sobre-humana. Acalma o olhar, sugerindo pureza, fuga do real. Não ostenta um único signo em sua trama, pano sem costuras, agitado pelo vento. Também não pertence a qualquer partido, revela apenas sua cor. Continente outubro 2004

Rivais antigos, o vermelho e o azul se entrincheiram em campos diferentes. Vermelhos, os mouros; azuis os cristãos. Puro e frio o azul, orgiástico e ardente o vermelho. O azul simboliza desapego, o vermelho poder. Materno, o primeiro; paterno, o segundo. Zeus e Jeová descansam os pés sobre o azul celeste. Dioniso molha as mãos no sangue vermelho do amante. Inimigos, conciliam-se apenas quando um rei ou um santo os sobrepõe no manto. Mesmo assim, um está por cima e o outro por baixo. É justo que as gentes do Nordeste lancem mão desses símbolos ancestrais, nas disputas políticas. São tantos os partidos sem clareza nas ideologias. As cores se perpe-


ENTREMEZ

tuam, imortais nos seus significados, transparentes no que representam, sem armadilhas ou ciladas, desde os tempos mais antigos, em todas as culturas. Os partidos políticos não: mostram-se cambiantes, fazem aliança com qualquer um, barganham, compram, vendem-se. Não se sabe o que representam, o que defendem, o que são. Não estão no centro, nem à direita, nem à esquerda. São todos liberais, gentis e democratas, sem exceções. Até assumirem o poder. Nada espantosa a vista dos telhados das casas das cidadezinhas do agreste pernambucano, encimadas por bandeiras, lembrando tendas árabes a sitiarem algum castelo medieval. Nossa herança ibérica manifesta-se, nosso gênio belicoso, ávido por definição, assume-se vermelho ou azul, branco ou verde, amarelo ou encarnado. Não importa o candidato que representam essas cores, muitas vezes ancorado em até nove siglas de partidos, geléia amorfa, sem outro rumo que o dos interesses particulares e subalternos, geralmente do próprio bolso. As bandeiras dançam no alto das torres, nas garupas das motos, na copa das árvores, nas mãos das crianças, que mal aprenderam a balbuciar a palavra azul, ou vermelho. Quando os lados contrários se insultam, os beligerantes não emitem os sons abstratos das siglas, feios e vazios de significado. Gritam os nomes das cores: – Vermelho desgraçado! – Vou quebrar teu orgulho, azul infeliz! É assim que eles falam. E aos gritos de azul e vermelho se atacam a pedradas, porretes, com unhas, rachando cabeças, arrancando orelhas. Uma ferocidade sem ideologia, sem consciência política. No furor da disputa, que despacha dezenas para as emergências dos hospitais, não se escuta um único insulto às siglas partidárias: PMDB, PFL, PT, PSB, PDT, PTB, PSC, PSTU, PC do B, PHS, PMN, PPS ou mesmo um PRONA. Tais siglas se diluíram em conchavos, em fisiologismo de feijoada, onde cabem todos os temperos. Os partidos não

ganharam espaço na memória das pessoas, porque eles próprios não têm memória, nem tradição, nem coerência, seguem na força das marés, levados pela única vontade do continuísmo. Diluíram-se nos arranjos eleitorais. As disputas lembram as brincadeiras dos pastoris, do ciclo natalino. Lá estão a Mestra do cordão encarnado, a Contramestra do azul, e a Diana, vestida com as duas cores, indecisa entre um lado e outro. Só que os políticos, matreiros e cavilosos, estão mais para o Velho, comandante da função. – Viva o cordão vermelho! Quanto dão por um beijo na Mestra? – Cinco reais! – É pouco, mas vai para o meu bolso! Os eleitores simples, apaixonados e parciais, hesitantes como a direção do vento, inclinam-se ora para o vermelho ora para o azul, para lá ou para cá, brigando pela cor do seu partido, morrendo pela Mestra ou pela Contramestra. Administrando essa fraqueza amorosa – a ignorância política dos torcedores – o Velho, candidato ardiloso, recita uma loa, antes da orquestra tocar: “Quem quiser que o Velho dance dê-lhe um níquel de tostão, o Velho fica contente, faz das tripas coração.” Ingênuas, as pastorinhas cantam a jornada: “Nas vossas mãos, botamos nossa sorte...” O Velho esperto não está nem aí para a confiança das pastoras. Deixa que as cores se engalfinhem, enquanto a orquestra troa. E, quase sempre, foge com o apurado da noite para um paraíso fiscal do Caribe. • Continente outubro 2004

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HISTÓRIA

Reprodução

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A saga judaica Exposição em Nova York, que marca os 350 anos da presença judaica nos Estados Unidos, mostra aos sefarditas americanos que sua história começou no Recife Eduardo Graça, de Nova York

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cenário não é mais o Recife Antigo, mas um belo prédio no coração do Chelsea, na ilha de Manhattan, em Nova York. Aqui, um impressionante número de judeus inicia uma viagem de reencontro com suas origens. A exposição Pernambuco, Brazil – Gateway to New York (No Porto de Pernambuco, a Porta para Nova York), que ocupa duas das quatro galerias do Yeshiva University Museum (YUM), até o dia 31 de dezembro, conta a história dos 23 judeus que fugiram do Recife no navio holandês Valk, em fevereiro de 1654 e, quatro meses depois, aportaram na então New Amsterdam, hoje Nova York, sede da mais influente comunidade judaica do mundo contemporâneo. Continente outubro 2004


HISTÓRIA

Justamente para comemorar os 350 anos da presença judaica nos Estados Unidos, o YUM e a Federação Sefardita dos Estados Unidos (ASF) convidaram o Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, organização sem fins lucrativos, fundada em 1992, no Recife, para organizar uma exposição inédita, reunindo painéis, documentos, artefatos, mapas e pinturas que retratassem a vida dos judeus e cristãos-novos no Brasil Colônia. “Todos nós ficamos surpresos. É impressionante perceber o quão pouco sabíamos das origens de nossa prórpria comunidade”, diz David Dangoor, presidente da ASF, dedicada ao estudo dos sefarditas, o grupo de judeus que emigrou da Península Ibérica para a África, outros países da Europa e também para o Novo Mundo, depois das instituição da Inquisição em Portugal e na Espanha. Até então, os judeus americanos, estimados em cerca de 6 milhões de indivíduos, estavam apenas a par das pesquisas da Universidade Hebraica de Jerusalém que davam conta da viagem dos 23 sefarditas e nada mais. Foi a historiadora e antropóloga Tânia Kaufman, curadora da exposição e diretora-geral do Arquivo Histórico, quem apresentou pela primeira vez aos estudiosos norte-americanos o rico painel do dia-a-dia dos judeus que foram chegando ao Nordeste brasileiro desde o início da colonização. Pernambuco, Brazil – Gateway to New York, por isso mesmo, é dividida cronologicamente, com uma sala dedicada ao século 16 e outra ao 17. “A exposição mostra a presença ativa dos judeus no comércio açucareiro e a possibilidade de livre manifestação religiosa que a chegada dos holandeses

Detalhe do Mapa de Proveniência Holandesa (1656), com a primeira representação da futura Nova York

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HISTÓRIA

Francisco Baccaro/Divulgação

Maquete da Sinagoga fundada em Nova York pelo grupo de judeus saídos do Recife

lhes ofereceu”, diz a doutora Kaufman. Esta liberdade propiciou a criação da Kahal Zur Israel, a primeira sinagoga das Américas, na antiga Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus e atração histórico-turística do Recife Antigo, graças à dedicação de incansáveis profissionais abrigados no Arquivo Histórico. A reação de deslumbramento dos espectadores nova-iorquinos – que, na noite de abertura, também puderam conferir a estréia do documentário O Rochedo e a Estrela, de Katia Mesel, sobre a longeva história da presença judaica no Brasil – não chega a espantar Tânia Kaufman. Deixando escapar um sorriso, ela lembra que aconteceu exatamente o mesmo no Brasil, quando a comunidade de cerca de 250 mil judeus descobriu a rica história dos cristãos-novos e judeus que viveram no Nordeste, incluindo nomes como Fernando de Noronha, Branca Dias, Diogo Fernandes, Bento Dias Santiago, Duarte Saraiva e até mesmo o ‘piloto de Pedro Álvares Cabral”, o navegador conhecido como Mestre João. Autora de Passos Perdidos, História Recuperada – A Presença Judaica em Pernambuco, Tânia Kaufman sabe bem que, para os judeus, a memória é sua terra, sua nação, sua pátria. “Os judeus eram os mais interessados em sair de Portugal e colonizar uma terra nova, em que poderiam viver longe dos olhos da Inquisição. Mais do que Continente outubro 2004


HISTÓRIA

Reprodução

contar a história da fundação de uma comunidade importante como a judaica de Nova York, nós queremos revisar a história do Nordeste brasileiro. Esta exposição é cultural e histórica, mas também procura claramente estabelecer novos parâmetros geopolíticos”, diz a antropóloga. De fato, os judeus que deixaram o Recife, às pressas, por conta da reconquista portuguesa, fundaram em Nova York a comunidade Shearith Israel, uma das mais notáveis congregações judaicas da cidade, ainda ativa. “E nós somos, com muito orgulho, os seus descendentes espirituais. Estes homens foram corajosos e aventureiros. Rever sua história é uma maneira de seguir em frente do jeito deles - nós, judeus nova-iorquinos, temos de continuar, mais do que nunca, corajosos e aventureiros”, disse, emocionado, o rabino Marc Angel, atual comandante da Shearith, percorrendo as salas dedicadas à exposição. Pernambuco, Brazil – Gateway to New York apresenta dinâmica diferente de uma narrativa histórica tradicional, ao levar o público a apreender uma quantidade imensa de informação pelo olhar. As imagens que mais impressionaram os norte-americanos foram os painéis que relembram as atividades realizadas em datas significativas como o Yom Kippur e o Rosh Hashaná – no Engenho de Camaragibe, antes da construção da sinagoga e da chegada à cidade do importante rabino Isaac Aboab da Fonseca. Entre os muitos destaques estão os tijolos holandeses, a reprodução da Rua dos Judeus, uma série de artefatos arqueológicos, encontrados exatamente onde se localizava a antiga sinagoga e várias ferramentas utilizadas pelos judeus para o cultivo e o comércio do açúcar. Como se sabe, a maioria dos senhores de engenho de então era cristã-nova. Também é possível “passear” pela sinagoga pernambucana com a utilização de um programa especialmente desenvolvido para o evento em 3D, manejado pelo público através de três laptops. “Quando o pessoal do YUM foi conhecer o nosso acervo, eles simplesmente desabaram na antiga sinagoga. E, cá entre nós, eles também ficaram danados da vida por não conhecerem esta história. Fico

Antiga Rua dos Judeus Continente outubro 2004

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Francisco Baccaro/Divulgação

Fachada da Sinagoga pernambucana, projetada em 3D

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feliz com o fato de que nós, pernambucanos, nordestinos, brasileiros, é que estamos contando esta história para eles”, revela a doutora Kaufman. A sensação de agradecimento ao esforço destes brasileiros que recuperaram uma história perdida no esquecimento dos anos passados na metrópole norte-americana é visível em cada canto do museu dedicado exclusivamente a contar a história do povo judeu. “Nosso júbilo é óbvio. Não é exagero algum dizer que este grupo pioneiro preparou o terreno para a imensa comunidade judaica que se estabeleceu aqui”, diz a diretora do YUM, Sylvia Herskowitz. A exposição, que segue no ano que vem para Montreal e Los Angeles, antes de ser finalmente apresentada no Brasil (em regime de itinerância para as principais capitais do país e em caráter permanente no Recife), termina apontando justamente como as experiências que estes homens tiveram no Brasil influenciaram a comunidade que se estabeleceria em Nova York. “É claro que a experiência de tolerância cultural e religiosa desfrutada por eles no Recife de Maurício de Nassau permaneceu como um legado para os muitos judeus que seguiram seus caminhos e buscaram nos Estados Unidos um novo porto”, diz Herskowitz. A exposição também inclui atividades paralelas, como a palestra de uma das maiores autoridades mundiais no estudo dos processos inquisitoriais, a professora Anita Novinsky, da USP. Ela apresenta, no dia 6 de novembro, a palestra Judeus, cristãos-novos e calvinistas nos 24 anos de domínio holandês no


HISTÓRIA Fotos: Francisco Baccaro/Divulgação

Canhão do século 17

Brasil no século 17, na American Sephardi Federation. Outro importante teórico, o historiador Wim Klooster, da Clark University, conversa com o público no dia 7 de dezembro sobre o tema 1654, um ano decisivo na história dos judeus norte-americanos. Um dos viabilizadores da exposição, o governo de Pernambuco, quer aproveitar os quatro meses de projeção cultural do Estado na capital econômica do mundo, para fechar novos negócios na área do turismo, tecnologia da informação e logística. Para que Pernambuco, Brazil – Gateway to New York desembarcasse no Chelsea, 350 anos depois dos 23 pioneiros judeus, foi preciso um impulso extra – exatamente R$ 800 mil dos R$ 1,5 milhão orçados – de vários patrocinadores. Além do governo estadual, apoiaram decisivamente a empreitada o Grupo Safdié, através do Safdié Investment Services Corp., a Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (FIEPE), a Infraero e o Banco do Nordeste, entre outros. Um esforço que possibilitou aos Angel, Ezra, Berg, Gabbay, Hallake, Levy, Marcus, Mitrani e muitos outros sobrenomes judeus americanos lançarem para o Nordeste brasileiro um olhar de inegável afeto. “É também impossível não lembrar que os judeus brasileiros vivem hoje em uma realidade completamente diferente da destes 23 pioneiros. O Brasil é palco de uma das mais bem-sucedidas experiências de tolerânica religiosa e cultural de todos os tempos e é hoje um porto seguro para os judeus”, diz, em um sincero muito obrigado, percorrendo a exposição, David Dangoor. •

À esquerda, ambiente da exposição, com painéis do Recife e de Olinda, século 17 Visita virtual à Sinagoga Kahal Zur Israel. Ao fundo, painéis de Guita Charifker

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ÚLTIMAS PALAVRAS

Rivaldo Paiva

Surrupiada nossa riqueza, desde os primeiros dons Joões, a bragancela fez escola no Brasil, descerrando alusões culturais das piores

As lambanças dos Braganças

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os primeiros dias de 1824, foi publicado o projeto da Constituição do Brasil independente, outorgada pelo imperador D. Pedro I. Remeteram-se cópias dele às câmaras municipais de diversas províncias, e como algumas requeressem a sua pronta adoção, foi jurada no Rio de Janeiro, no dia 25 de março, como o de hoje, naquele mesmo ano. Todas as províncias do Sul tinham aceitado as conseqüências da dissolução da constituinte, jurando a tal constituição, com algumas modificações, outorgada pelo primeiro Bragança, entretanto, em Pernambuco, manifestou-se espírito mui diferente. Historiou Abreu e Lima que, estando à frente da administração, da nossa província, Manuel de Carvalho Paes de Andrade, achou o imperador Bragança de nomear Francisco Paes Barreto, depois marquês do Recife, para suceder-lhe. Porém, reunidos vários indivíduos, em assembléias populares, decidiram não reconhecer outra autoridade que não fosse de sua eleição. Nesse conflito, os majores Seara e Lamenha prenderam Manuel de Carvalho, em 20 de março, e o mandaram para o Forte do Brum, onde a guarnição se revoltou a seu favor, sendo, por isso, reintegrado, em poucas horas, na presidência. Começava aí a molecagem imperial com o decreto de 11 de junho de 1824, anunciando que uma esquadra portuguesa se preparava, no Tejo, contra o Brasil – foi o sinal da revolução. Manuel de Carvalho, contrário àquele ato, proclamou, a 2 de julho, aos povos do Norte, convidando-os a se ligarem por um pacto, que se chamaria Confederação do Equador. Na verdade, retruca Barbosa Lima, foram dois manifestos: este citado e um outro sem data, mas que se admite ter sido divulgado no mesmo dia. O primeiro, datado, dirige-se aos Habitantes das Províncias do Norte do Brasil, aos correligionários, pois aos que já deviam estar sendo trabalhados no sentido da revolta. O outro apelava para os brasileiros de qualquer ponto do País. O entusiasmo não foi geral, como se esperava, e à revolta sucedeu uma reação tão violenta como em 1817. O 1º Bragança, pernóstico e absolutista, decidiu penalizar o espírito de rebeldia – irredentismo – dos pernamContinente outubro 2004

bucanos através do levante, assinando um decreto (que dizia ser hipocritamente provisório, pois até hoje parece permanecer em vigor) transferindo a Comarca de São Francisco para a Bahia. Achando pouco tal molecagem, aumentou-a depois, tomando o também território das Alagoas, transformando-o em província (posteriormente Estado), deixando apenas, para Pernambuco, as terras menos produtivas. A partir da Quinta da Boa Vista, o costume de tirania e vilania infectou outros Braganças, da Monarquia à República, reduzindo nossas convicções quanto ao alcance do bem comum, patrocinando duques e políticos, aviltando súditos e marginalizados. Surrupiada nossa riqueza desde os primeiros dons Joões, a bragancela fez escola no Brasil, descerrando alusões culturais das piores – dos apadrinhamentos, marquesas, pistolões, falcatruas, afanações no nosso tesouro, bailes fiscais, empreitadas e negociatas às lavagens das patacas tupiniquins e enroladas, tudo em nome do famoso jeitinho brasileiro. Acho que, apesar de defender sempre a teoria montesquiana quanto à valoração da democracia, tenho uma pequena, mas viva impressão de que os atuais mandatários dos Três Poderes, com algumas decisões inconstitucionais e casuísticas, tentam manchar nossa liberdade, no que provocará uma nova era de absolutismo. Quantos braganças ainda teremos de deglutir, sem a mastigação do julgamento, o sabor da condenação e a sesta do banimento de todos os bandidos que sorriem cinicamente, todas as noites, a cores, nas telinhas televisivas de nossas casas? Estão calando a Imprensa e a liberdade de expressão, detonam os direitos adquiridos dos trabalhadores, negociam decisões políticas, sociais e judiciais, as mais vergonhosas e estapafúrdias, rasgam nossa carta de cidadania e esnobam populismo, os mais caricatos e idiotas de todos os dirigentes que já passaram pela nossa Pátria. E nós, pobre povo brasileiro, cobrado também pelo patrimônio da consciência – somos desbancados pelo próprio comodismo de um bando de vassalos idiotas. É lambança demais no apanágio da nossa infeliz herança monárquica caldeada. •


Continente #046 - Rimbaud  

O enigma do silêncio.

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