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Fotos: Reprodução

EDITORIAL

À esquerda, quadro de João Câmara, tema de matéria no número zero da revista Continente Multicultural. Acima, auto-retrato de Van Gogh

Van Gogh, Gauguin, Flora e Vargas Llosa Todos conhecem a história romântica de Van Gogh cujo gesto de cortar a própria orelha resultou até num popular grupo de música da Espanha – Orelha de Van Gogh. O seu sofrimento e loucura são ingredientes do mito do gênio incompreendido que não vendeu bem em vida e teve o trabalho reconhecido após a morte. Seria um dos tais suicidados da sociedade a que se refere Artaud? Não importa a resposta, o holandês sempre foi um tema para excelentes ref lexões. Algumas das melhores estão no diário do pintor e escultor Francisco Brennand que cedeu gentilmente alguns dos seus trechos para esta edição da revista que homenageia os 150 anos do nascimento do holandês. Também Gauguin cuja relação de amor e ódio com Van Gogh compõe o pathos a que antes se referiu é referenciado às vésperas do centenário de sua morte. Para completar o painel não poderia faltar Flora Tristán, avó do pintor em busca dos trópicos, agora uma das principais personagens do novo romance do peruano Mario Vargas Llosa. Sem data ainda para sair em português, o livro está sendo lançado na Espanha, e o leitor da Continente toma contato em primeira mão com alguns dos seus trechos. Além disso, a revista traz os ensaios excelentes sobre os problemas do Iraque e Coréia do Norte, cognominados de Eixo do Mal pelo governo dos Estados Unidos. Este número 27 ainda teve como editor o jornalista Mário Hélio, que assumiu a direção da Editora Massangana da Fundação Joaquim Nabuco e desligou-se da Continente. Ele deixa a revista estruturada e reconhecida nos meios intelectuais do país, e está certo de que ampliará o seu êxito, com o apoio da excelente equipe de diretores, editores, conselheiros, funcionários e colaboradores, a quem agradece e, especialmente, aos leitores e críticos que receberam de modo tão positivo a revista nestes dois anos e três meses. O trabalho continua sob a batuta dos jornalistas Marco Polo e Homero Fonseca. Continente . março, 03


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CRÉDITOS

Companhia Editora de Pernambuco – CEPE Presidente Marcelo Maciel Diretor Financeiro Altino Cadena

Diretor Industrial Rui Loepert

Continente

Março Ano 03 | 2003 Foto: Reprodução

Multicultural

Conselho Editorial Presidente: Marcelo Maciel Conselheiros: César Leal, Edson Nery da Fonseca, Francisco Bandeira de Mello, Francisco Brennand, Joaquim de Arruda Falcão, José Paulo Cavalcanti Filho, Leonardo Dantas Silva, Manuel Correia de Andrade, Marcus Accioly Diretor Geral Carlos Fernandes Editor Mário Hélio Editores Executivos Homero Fonseca e Marco Polo Arte Luiz Arrais, Hernanto Barbosa, Iraildo Oliveira e Zenival Editoração Eletrônica André Fellows Edição de Imagens Nélio Chiappetta Revisão Maria Helena Pôrto Secretária Tereza Veras Gerente Gráfico Samuel Mudo Gerente Comercial Alexandre Monteiro Equipe de Produção Ana Cláudia Alencar, Carlos Eduardo Glasner, Cláudio Manuel, Douglas Rocha, Elizabete Correia, Eliseu Barbosa, Emmanuel Larré, Geraldo Sant’Ana, Joselma Firmino, Júlio Gonçalves, Lígia Régis, Mauro Lopes, Paulo Modesto, Roberto Bandeira e Sílvio Mafra Continente Multicultural é uma publicação mensal da Companhia Editora de Pernambuco Circulação, assinaturas, redação, publicidade, administração e correspondência: Rua Coelho Leite, 530 – Santo Amaro – Recife/PE – CEP 50100-140 de 2ª a 6ª das 8h às 17h30 – Fone: 0800 81 1201 – Ligação gratuita Assinaturas: 3217-2524 ; assinaturas@continentemulticultural.com.br Redação: 3217.2533 ; fax: 3222.4130 ; redacao@continentemulticultural.com.br Editor: editor@continentemulticultural.com.br Diretor: diretor@continentemulticultural.com.br Webmaster: webmaster@continentemulticultural.com.br Tiragem: 10.000 Impressão: CEPE Todos os direitos reservados. Copyright © 2000 Companhia Editora de Pernambuco ISSN 1518-5095 Apoio: Governo do Estado de Pernambuco Os textos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da revista

Colaboradores desta edição: ALÍPIO CARVALHO NETO é ensaísta e doutorando em letras da Universidade de Évora, Portugal. ALVES DA MOTA é jornalista e escritor. Tem 10 livros publicados. CLÁUDIO CRUZ é arquiteto formado pela Universidade Federal de Pernambuco. EGAS MONIZ BANDEIRA é aluno do Kurfürst Friedrich Gymnasium, em Heildelberg, Alemanha. FRANCISCO BRENNAND é pintor e ceramista. Autor de Diários, sobre o ofício das artes. FIRMINO HOLANDA é bacharel em História pela UFC e professor de cinema. GERALDO MAIA é cantor. Gravou os CDs independentes Verd’Água e Astrolábio. GILMAR DE CARVALHO é jornalista, professor do curso de comunicação social da UFC. JACINEIDE TRAVASSOS é poeta, crítica literária e mestra em Teoria da Literatura pela UFPE. LAÍLSON é cartunista, premiado no Brasil e no Exterior, autor de sete livros. LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA é doutor em Ciência Política e professor aposentado. LUIZ CARLOS MONTEIRO é poeta, crítico literário e autor de Poemas (1998). MARCELO ABREU é jornalista, autor do livro Viva o Grande Líder (2002). MARCELO PEREIRA é jornalista, editor do Caderno C, do Jornal do Commercio. OLAVO DE CARVALHO é filósofo, autor de vários livros e colunista do jornal O Globo. PEDRO LYRA é doutor em Letras pela UFRJ. Publicou vinte livros. RODRIGO CARRERO é jornalista, ex-editor de Cultura do Diário de Pernanbuco. SIMONE ARRUDA é arquiteta e restauradora, trabalha com restauração há 13 anos. SYLVIO BACK é cineasta, poeta, roteirista e escritor. Dirigiu, entre outros, Aleluia Gretchen. THEREZA CARMEM DINIZ é restauradora, artista plástica, professora aposentada da UFPE. WEYDSON BARROS LEAL é poeta e crítico de arte. Publicou O Aedo (1989).

Colunistas: ALBERTO DA CUNHA MELO é jornalista, sociólogo e poeta. Foi editor do “Commercio Cultural”, do JC (Recife), da revista Pasárgada e colaborador do Jornal da Tarde (SP). CARLOS ALBERTO FERNANDES é economista, professor de UFRPE, ex-secretário adjunto do Tesouro Nacional e diretor geral da revista Continente Multicultural. FERREIRA GULLAR é poeta e crítico de arte. Autor de livros como Poema sujo, Dentro da noite veloz, Muitas vozes, Cultura posta em questão, entre outros. JOEL SILVEIRA é jornalista e autor de diversos livros, entre eles A luta dos pracinhas e Tempo de contar. Ganhou de Assis Chateaubriand o apelido de “a víbora”. MARIA LECTICIA MONTEIRO CAVALCANTI é professora. Tem inédito livro sobre gastronomia pernambucana. RIVALDO PAIVA é escritor e diretor geral do Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco. É autor de Marco Maciel – uma história de poder. RONALDO CORREIA DE BRITO é médico e escritor. Parceiro de Zoca Madureira e Assis Lima em diversos espetáculos teatrais, publicou também o livro de contos As noites e os dias.

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CARTAS Novos cantadores Tem de tudo – ou quase – na Continente Documento sobre poesia popular do Nordeste (a propósito, por que “popular”?). Mas nada vi sobre os novos cantadores. O trabalho se restringiu única e exclusivamente (com novas palavras, claro) ao que já foi publicado anteriormente sobre o assunto. Seriam os novos cantadores, os marginais do repente? A não citação dos novos cantadores, tem algo a ver com conquista de mercado? A Continente Multicultural reduziu seu universo de penetração? Onde estão os novos repentistas do Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco e tantos outros perdidos por esses sertões de Deus? Onde os versos de duplas mirins, existentes em Itapetim, Salgueiro e tantos outros sítios encravados nos baixios e grotões do nordeste? Onde os versos – ou mesmo comentários sobre a poesia – de um Lisboa, Edmilson, Rogério, Os Nonatos, Chico de Assis, um Feitosa, um Zé Ribamar, um Zé Monte, um Paulo Pereira, um Antonio Nunes e tantos outros? Alberto de Oliveira – Recife, PE Poesia popular Gostaria de parabenizar a todos que fazem a revista Continente Multicultural pelo belíssimo caderno Continente Documento, A Poesia Popular do Nordeste, não só pela iniciativa de abrir espaço, tão valioso para a cultura nacional ,mas, sobretudo, pela escolha dos que fizeram a matéria. Falo de Ésio Rafael e Wilson Freire, no tema repentistas, e Maria Alice Amorim no tema cordel. Maria Alice, de quem sou amigo, faz jus aos adjetivos que recebe, quando citada como uma das maiores pesquisadoras na área da cultura popular, seja cordel, artesanato, maracatu, enfim todo universo cultural da nossa terra. Já os poetas Ésio Rafael e Wilson Freire, meus irmãos em sentimento, são credenciados para tratar o tema repentistas, por estarem totalmente inseridos no viver, no fazer e no pensar poético, por serem crias do mesmo chão dos grandes repentistas, de quem não ouviram simplesmente falar, mas conviveram, foram e são amigos de muitos deles. Jorge Renato de Menezes (Poeta Jorge Filó) – Recife – PE Cantadores Queremos parabenizar a revista pela Continente Documento que traz como tema os cantadores populares (edição de janeiro). Seria de fundamental importância maior aprofundamento desse tema. Sugiro que o poeta Wilson Freire e outros continuem neste resgate da nossa cultura. E viva a iniciativa da Continente. Viva os poetas, viva nós, viva a vida e o povo brasileiro! João Veiga – Associação dos Poetas de Tabira – PE

Internacionalização Sou venezuelano e estou morando no Rio de Janeiro desde outubro de 2001. Só escrevo para parabenizar a toda a equipe de Continente Multicultural. Uma das revistas mais sedutoras do mundo cultural brasileiro. Deveriam pensar seriamente na internacionalização da revista e informar sobre a novidade cultural em outros países, especialmente na América Latina. E por favor, nunca deixem de falar sobre o bom teatro, a maior e mais completa das artes. Lembrem sempre que desde os gregos até o Brasil contemporâneo: “Um país sem teatro é um país sem esperança”. Gabriel V. Dopico – Rio de Janeiro – RJ Folclore e drogas Escrevo-lhes para parabenizá-los pela edição da revista Continente que me chegou às mãos outro dia aqui, vinda de tão longe, atravessando o Brasil, uma vez que moro em Santa Catarina. Fiquei impressionada com o conteúdo da mesma e devo salientar duas matérias que me chamaram mais atenção: a primeira, que nos põe a par das tradições nordestinas (Desejos de Catirina, edição de janeiro), onde Mariana Camarotti põe toda a sua alma e nos faz visualizar a riqueza do folclore desta região.A segunda, que nos trouxe uma rica matéria sobre drogas (Geopolítica das drogas, mesma edição) num enfoque diferente e bem colocado na entrevista com a filósofa italiana Adriana Rossi. Parabéns. Continuem, vale a pena. Marylene Vieira – Florianópolis – SC Descoberta Graças a um amigo pernambucano, acabo de descobrir este Continente em Sampa. Gostaria de parabenizá-los. Marta Gil – São Paulo – SP Artigo Quero parabenizar Carlos Alberto Fernandes pelo artigo Em busca da cultura do desenvolvimento (edição de janeiro). Vinicius Lucena – Mossoró – RN Mente bitolada A matéria O Brasil é de Deus? – edição de fevereiro, mostra como somos pequenos e com um mente bitolada sobre nosso comportamento social. Acho que se temos belezas naturais suficientes para preencher 1000 entradas do Fantástico, que as mostremos, afinal de contas o cinema americano vende os seus filmes mostrando todo o seu nacionalismo exacerbado. Por que nós não podemos fazer o mesmo? Por que temos que mostrar só nossas mazelas, o lado podre da nossa sociedade? Por acaso não existem dissabores em outros países? Só no nosso! Vamos parar de ser tão críticos com nós mesmos. Uma vez disseram: “O brasileiro é o único que não gosta de seu país”. Bem, eu não sou assim... Adriano Soares Coelho – Recife – PE

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redacao@continentemulticultural.com.br Revista Continente: Rua Coelho Leite, 530 Santo Amaro, Recife-PE CEP 50100-140 Redação: 81 3217-2533 – 81 3222-4130 fone/fax Excelência Admiro a excelência da revista Continente Documento e gostaria de fazer uma sugestão. No dia 26 de abril está fazendo 150 anos da fundação do primeiro colégio do interior do nosso Estado e da fundação da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Bom Conselho, por Frei Caetano de Messina. A ordem religiosa é certamente a única totalmente nordestina. Seria importante uma reportagem sobre a cidade de Bom Conselho. Manuel Miranda – Recife – PE Cândido Pinto Só lamento o pequeno espaço usado na reportagem Milonga de Cândido Pinto, edição de novembro de 2002, sobre a criatura incrível que foi Cândido Pinto de Melo. No último ano da sua vida, torneime sua anestesista e mais que tudo, amiga. Como ele sabia ser amigo! Aquele que atirou em Cândido não conseguiu atingir a pessoa ímpar, única, maravilhosa que ele foi. A cada dia da vida ele crescia mais e mais como ser humano.Tomara um dia ainda encontrá-lo, já junto ao Senhor. Cândido foi a mais cristã das criaturas. Sem professar religião, seguiu os ensinamentos de Jesus. Fátima Bogéa – Recife – PE Parabéns Primeiro gostaria de dar os parabéns ao presidente da Cepe, Marcelo Maciel, pela revista que a cada edição nos surpreende com um conteúdo que é da melhor qualidade. Achei ótima a edição de dezembro e um artigo que li na edição de outubro (Replicantes, robôs ou simulacros). Achei interessantíssimo o que Antonio Augusto Maciel falou. Estou começando a estudar filosofia e simplesmente achei o máximo! Parabéns pela revista que engrandece Pernambuco! Laís Figueira Barros – Recife – PE Erratas Na edição nº 26, na matéria Azulejaria viva, a foto do alto das páginas 90-91 não é da Câmara Municipal de Olinda mas de detalhe da residência da Avenida Apipucos, nº 117. A fotografia no alto da página 81 (matéria Para divertir o Deus-menino, da edição n° 26) é de autoria de Fred Jordão/Imago e não de Léo Caldas. Continente . março, 03

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CONTEÚDO

Foto: Divulgação

Foto: Reprodução

Foto: Helder Ferrer

» 15 Sylvio Back filma a vida e a morte de Stefan Zweig

» 26 Um episódio na juventude do pintor Cícero Dias

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O Ginasta, quadro do artista pernambucano Ismael Caldas

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CONVERSA

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08 Ismael Caldas critica o mundo »

54 A morte e o amor num livro de contos 56 Xico Sá fala de macho e fêmea

FILMES

58 A luta política de Joaquim Nabuco

12 O cinema luminoso de Rosemberg Cariry

60 João Almino ganha prêmio cubano

15 Stefan Zweig: exílio e morte no Paraíso »

18 Uma cineasta brasileira dos anos 20

62 Pedro Lira dialoga com Deus num poema » 64 Alves da Mota conta uma história de justiça

BELAS ARTES

ESPETÁCULOS

22 George Barbosa pinta a História » 24 Paulo Costa se profissionaliza

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HOMENAGEM » 26 Cícero Dias e a casa de Le Corbusier

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SONS 36 Armando Lôbo alegra a música

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» 39 Partituras de Raul Moares em livro

40 A volta gloriosa dos cafonas

AUTORES

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69 Festival mostra as melhores peças do ano 70 Curso ensina truques do vídeo e do palco

ESPECIAL 72 As contradições do chamado “eixo do mal”

TRADIÇÕES 86 Mestres da cultura popular no Cariri

PATRIMÔNIO

CAPA

90 História preservada de Pernambuco

42 Os 150 anos de Van Gogh

PRETO NO BRANCO

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92 A ditadura do mangue beat 93 Cultura não deve depender do Estado


CONTEÚDO

Foto: Reprodução

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Foto: Reprodução

» 42 Nos 150 anos de Van Gogh, Francisco Brennand escreve sobre o gênio holandês

» 72 Arco do Triunfo que comemora a vitória dos coreanos contra os japoneses nos anos 40

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Colunas »

CONTRAPONTO|Carlos Alberto Fernandes 07 Vale a pena planejar o futuro?

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TRADUZIR-SE|Ferreira Gullar 20 A linguagem não esgota o real

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MARCO ZERO|Alberto da Cunha Melo 52 Agora o cantor é o dono da canção

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SABORES PERNAMBUCANOS|Mª Lecticia Monteiro Cavalcanti 66 As receitas de um filme mexicano

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DIÁRIO DE UMA VÍBORA|Joel Silveira 71 Em maio, Roma estaria diferente »

ENTREMEZ|Ronaldo Correia de Brito »

84 Contra a força pode haver argumentos

ÚLTIMAS PALAVRAS|Rivaldo Paiva Continente . março, 03


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CONTRAPONTO

Carlos Alberto Fernandes com ilustração de Zenival

GROGOTÓ Planejar é preciso, todavia, os resultados esperados nem sempre são possíveis

Missão com objetivos definidos, especificados e implementados. Planos, programas e projetos concluídos. Recursos humanos recrutados e treinados em nível de excelência. Tudo planejado cientificamente. No tempo e no espaço. E, no final... Explodiu. Desintegrou-se. Quase tudo dera certo. Esse foi o resultado da missão espacial da Nave Colúmbia ao apresentar fadiga de material no reencontro com a atmosfera terrestre. No fim, tal como para muitos que labutam no serviço público, seus resultados não tiveram nada a ver com o planejado. Mais uma fatalidade. Quase tudo dera certo. Na realidade, planejar é preciso, todavia, os resultados esperados nem sempre são possíveis, por mais que você se esmere no ato de planejar. Principalmente num mundo onde ao mesmo tempo em que você aumenta seu conhecimento, mais perde o controle dos fenômenos políticos, físicos ou sociais, pelo aumento da complexidade interativa embutida em cada um deles. Imagine você que é funcionário público e planejou sua carreira numa estatal ou paraestatal levada à extinção pelos ventos do neoliberalismo, sob as asas de mais uma reforma. E tinha sido levado a pensar que a tempestade tinha passado, mas só agora percebe que ela, inclusive, tem futuro. A sensação que se tem é que, tal como na missão da Colúmbia, até o fim, quase tudo dera certo. Na suposta carreira pública, muita gente passou por uma maratona de obstáculos. Muitos até foram governadores, prefeitos, secretários e diretores. Das vitórias do recrutamento. Dos sucessos alcançados em cada uma das etapas do treinamento. Das comemorações nas capacitações intermediárias. Das experiências vividas no exercício de missões bem realizadas. Dos desafios intermitentes de novas funções conquistadas. Dos fatos e feitos. E mais: dos dias tensos e das noites indormidas, finalizando projetos. Dos sucessos e insucessos que o tempo não esqueceu de registrar. Dos virtuais compromissos com a modernidade. Dos avanços que se tornaram atrasos. Dos gritos que não se fizeram ouvir. Do gritante silêncio que ecoou no ar. Enfim, quase tudo dera certo. No serviço público, você que, apesar de voar nas virtuais asas da estabilidade, nunca foi negligente. Que sempre foi prudente, quando pesou todos os riscos (inclusive o de não poder ficar rico). Que na sua escolha, jurava ter feito a opção correta. Que sempre acreditou ter feito o melhor. A realidade globalizada mostra que a mão que afaga é a mesma que apedreja. E aí você vê que quase tudo dera certo. E você que não tem um projeto alternativo de vida? Que investiu no serviço público para ter uma aposentadoria confortável e digna. Que não garantiu sua estabilidade financeira. Que não está preparado para enfrentar os desafios da globalização. Que esqueceu de replanejar sua vida à luz dos novos tempos. Sofisma político à parte, é verdade que o povo não liga para o liberalismo. Mas ele

existe. Certamente, pelos atos e fatos já terá descoberto que no fim, quase tudo dera certo. Não alimente esperanças vãs. Ninguém controla nem os ventos errantes nem o tempo tríbio. A realidade econômica e a perspectiva política podem frustrar suas expectativas. As contradições da práxis política dos governos podem fazer mais vítimas. Se o tempo já inibiu suas energias para planejar novo futuro, o que você fará no enfrentamento desses momentos de desesperança, onde tudo o que você sabe é passado, e a experiência é riqueza que vai pro lixo? Um indicativo de solução seria a auto-ajuda. Como alternativa, inspire-se na música dos Titãs, onde o acaso irá lhe proteger enquanto você andar distraído. Utilize sua experiência com sabedoria e, conscientemente, realize suas vontades. Procure fazer como no poema, atribuído erroneamente a Jorge Luis Borges: ande descalço. Erre mais. Contemple mais vezes o pôr-do-sol. Trabalhe menos. Trate de cometer muito mais erros do que o poema supõe, pois, também para nós outros, no fim, quase tudo dera certo.

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CONVERSA

Weydson Barros Leal com fotos de Helder Ferrer

Ismael Caldas

o mais crítico dos artistas Seu ateliê, em casa, é proibído a qualquer visitante. O ofício da pintura, para ele, é fechado, sagrado

Ismael, garanhuense de 59 anos de vida e 44 de pintura, que começou como mania

O pintor Ismael Caldas não tem papas na língua. Fala o que pensa e ponto. Nasceu em Garanhuns, terra natal do presidente da República, em 1944. Logo, no próximo ano, completará 60 anos. Prepara-se para a data sem euforia, como, aliás, responde a cada pergunta que lhe é proposta sem recusar nenhuma. Ao falar dos primeiros passos no mundo da pintura, aos 15 anos, em Garanhuns, diz que “começou como mania”, e que lá percebeu “que tinha uma certa ligação com essas coisas, que até então não suspeitava”. A partir de 1963, passou a viver no Recife e em Olinda, onde mora hoje. Avesso ao circuito da mídia, tem uma obra reconhecida pelos melhores entendedores de arte do Brasil, e de 1966 para cá, seus quadros já estiveram em bienais, salões e galerias das grandes capitais do país. É um artista rigoroso com o que faz e com o que fazem da arte. Não tem cerimônia em classificar de “imbecil” um crítico que “leu errado” uma exposição sua baseada num livro de George Orwell, relacionando-a, então, a Pasolini. É duro, incisivo, irônico, mas sua inteligência e agudeza de opiniões não lhe permitem nunca ser monótono. Sua franqueza pode, em alguns casos, soar agressiva, mas é a maneira como um verdadeiro artista se revela. Títulos de suas exposições batizariam livros insuspeitos: Os gesticuladores, Pequenas armadilhas, Idéias práticas para um consContinente . março, 03

trutor de brinquedos, A guarda do entusiasmo, Suinoteca, Os anões. Talvez por isso seja contundente também em relação aos escritores que lhe pedem colaboração em seus livros: “Não faço ilustrações para textos. Detesto essa palavra ‘ilustrações’. Já me recusei a fazer muita coisa nessa área, porque queriam que eu fizesse isso. Não faço. Peço que me entreguem o texto, se este me comover, faço algumas interpretações, mas não chamem de 'ilustrações', porque se chamar eu cancelo.” Seu ateliê, em casa, é proibido a qualquer visitante. Solicitado, não nos permitiu que esta “intimidade” fosse vista. O ofício da pintura, para ele, é fechado, sagrado. Com a esposa, que tem sempre por perto, é doce, atencioso. Entre orgulhoso e melancólico, lembra os dois filhos que vivem no Rio de Janeiro e em São Paulo. A filha é bailarina clássica, ligada ao Balé do Teatro Municipal do Rio, e o filho, “pianista erudito, terminou o mestrado, é poliglota, e prepara-se para o doutorado em Música.” Corrige qualquer interlocutor que chamar seus quadros de “séries”, pois são, no máximo, “seqüências”. Pintores em Pernambuco, assim como desenhistas ou contistas em Minas Gerais, chama-os “chusmas”, “pragas”. Não perdoa desafetos, ignorantes ou falsos artistas, mas adora, e trata carinhosamente os quatro simpáticos cachorros que cria e chama por nomes como Mafalda e Rita Maria.


CONVERSA

Beatitudes, 2002, acrílica sobre duratex, 50 x 70cm

Em relação a outro artista latino-americano que alcançou fama internacional, como você vê a pintura de Botero, por exemplo? Acho o começo dele brilhante. Tecnicamente ele é muito cuidadoso, aliás, como deveria ser todo pintor, pois a maior parte segue caminho diverso porque o ofício começa a entediar ou não sabe resolver os problemas. No caso dele, não. Ele sabe pintar. A temática nativa do começo, os lugares estranhos, aquela atmosfera de desolação absoluta, necessitam de um olho poderoso, que não faz nenhuma concessão ao decorativo, ao fácil, ao bucólico ou naïf. Depois, com aquelas figuras gordas, acho que ele quis tematizar excesVocê inclui aí a inspiração? sivamente e caiu numa fórmula. Não sei os motivos, mas acho Inspiração existe, na medida em que você tem dias de exceque ele está pagando um preço, pois seu trabalho decresceu verlente sintonia com você mesmo. tiginosamente. Em relação a sua esculDeprimido, você não faz coisa alguma. tura, acho uma aberração aquelas peças Estar em sintonia consigo mesmo talvez gigantescas, de um brutalismo absoluto. “Freqüentemente, seja a chave da inspiração. Se você olha um Brancusi e depois olha pessoas a quem sou uma escultura de Botero daquele porte, apresentado me Essa sintonia gerando uma excitação? fica com uma espécie de pesar profundo Uma excitação que eu não chamaria no coração. Ou seja, aquilo é um malperguntam: – Você é “euforia”, que é uma coisa mais ligada ao entendido. artista? Eu digo: – Lido plano físico, mais orgiástico, mais sexual. com obras de arte. Eu Isso é uma coisa mais reflexiva. Seria o excesso de exposição na mídia tenho pejo de dizer que um dos fatores desse “mal-entendido”? sou artista porque está O que você acha dos artistas jovens Guardadas as proporções, acho que o que, em sua maioria, optam pela instalacircuito chamado “Elizabeth Arden” é se tornando uma coisa ção ou pela pintura abstrata? cheio de armadilhas. De tal sorte que, até pejorativa.” A pintura figurativa é muito mais hoje, eu não ouvi ninguém que me explidifícil, e requer ofício, você tem de pintar. casse por que Andy Warhol é considerado Ao se fazer abstrações ocasionais, manum artista significativo. Porque, em machas, tachismos, uma coisa gestual, se cai numa facilidade, porque téria de fraude, eu já vi coisa melhor. O curioso é que ainda há a pessoa sabe que a crítica de arte aqui inexiste. Então o patropessoas de uma ingenuidade tão sobrenatural que têm a falta de cinador faz um belo catálogo, uma impressão boa, um coquetel, pudor de falar daquele cidadão como artista. Aquilo nunca foi e a coisa funciona, a pessoa passa a ser artista. Há até um fulano um artista. Essas facilidades de divulgação nesses circuitos famigeaí, que foi pra Miami, e vende horrores, vende pra artistas de rados é que avacalham qualquer tipo de aferição. Por isso, o pútelevisão... blico atual de arte contemporânea já deve estar de barbas de molho, porque o que tem de porcaria sendo veiculada por aí, eu Refere-se a Romero Britto? acho humilhante. Freqüentemente, pessoas a quem sou apresenSim. As pessoas estão fazendo de conta que aquilo é pintura: tado me perguntam: você é artista? Eu digo: lido com obras de ora, aquilo não é nada. Nada diluído em coisa nenhuma. arte. Eu tenho pejo de dizer que sou artista porque está se toVocê já disse ser um racionalista ante alguns conceitos. Em sua arte, você também é racionalista ou permite a emoção, a intuição? Arte é algo de um esforço introspectivo, você tem de ter um treino de ofício que não é mera ginástica, mas é de se policiar para o resultado não ser uma coisa aleatória. Você tem que perseguir um resultado que seja uma coisa procurada, e não um acaso. O acaso é uma das questões que você pode incluir depois de estabelecer o seu papel dentro da coisa. Me constrange encontrar vários exemplos onde a pessoa trabalha apenas com o fortuito, o casual.

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10 CONVERSA

Cantor de jazz, 2001, acrílica sobre tela, 50 x 70cm

rnando uma coisa ofensiva, uma coisa pejorativa. Quanto a outras artes contemporâneas no Brasil, como a música, como você vê o cenário atual? Em relação à música, à exceção de João Gilberto – que eu considero realmente um cara inovador –, o resto eu jamais teria o desplante de comprar um disco pra ouvir em casa. Pra ouvir coisa do tipo Leãozinho (referindo a música de Caetano Veloso), é melhor dar um tiro na cabeça. Eu escuto música erudita e jazz desde menino. Tenho um padrão de gosto que não me permite ouvir um negócio desses, que é malfeito, mal vocalizado, malgravado, tudo. Acredito que se esses cantores fossem morar fora de nossa periferia, morreriam de fome. Eles sobrevivem porque nós vivemos num exotismo total, tudo que for exótico, que tiver atabaques e baticuns, soa como música para muitos ouvidos. Quando você pinta, ouve música? Ouço jazz. Mas o silêncio total também me agrada muitíssimo. Depende. Mas eu gosto sempre de ter à mão a música erudita.

da escola de artes daqui. Certa vez um desses professores me encontrou e falou: “Tenho uma boa notícia pra lhe dar: me aposentei e agora vou começar a pintar.” Aquilo foi como se colocasse uma pua no alto de minha cabeça. Tive de responder: “– Olha, você vai me perdoar, mas acho que você está ficando meio esquizofrênico. Porque se até aqui você não fez nada em arte, desista, porque isso é coisa pra gente grande.” Outros profissionais, como publicitários, têm feito a mesma coisa, e até exposições, achando que aquilo é uma manifestação de arte. Ora, aquilo é uma estamparia como outra qualquer. Há certa pobreza de raciocínio ao se achar que num momento de folga você faz o que não fez ainda. Eu discordo absolutamente disto.

“Certa vez um desses professores me encontrou e falou: – Tenho uma boa notícia pra lhe dar: me aposentei e vou começar a pintar. Tive de responder: – Acho que você está ficando meio esquizofrênico.”

Quais as suas referências na pintura? Na pintura clássica são muitas. Há coisas que me comovem, e outras, nem tanto pela comoção, mas pela gratidão. Outros pintores de sua geração têm Balthus, por exemplo, como uma referência moderna. Você também? Não. Acho inclusive uma coisa estanque. Para mim, talvez De Chirico, Delvaux, mas eu não tenho nenhuma vertente ou inclinação surreal na minha entonação. Admiro neles a capacidade de questionar ou subverter a lógica do natural, do aceitável.

Entre jovens pintores pernambucanos, inclusive os que realizam uma pintura de feição abstrata, você é citado como uma referência. Como vê isso? Às vezes a gente ganha ascendência sobre as pessoas involuntariamente. Se justificadamente ou não, só quando eu morrer vai ser feito o julgamento. Mas, beirando os 60 anos, eu não posso irresponsavelmente dizer que foi isso ou foi aquilo, não posso arriscar um julgamento. Nem tampouco chegar ao desplante de dar conselhos sem nenhuma serventia.

E entre os desenhistas? Dürer. Curiosamente, nós somos muito mais influenciados pelo padrão germânico, nórdico do traço, do que pelo padrão mediterrâneo, italiano. Não sei por quê.

Você tem outra atividade, paralela à de pintor? Arte para mim não é eventual. Não acredito em amadorismo nesse negócio, ou é full-time, ou deixa muito para trás o conceito que eu tenho de fazer arte. Mas também há coisas muito desagradáveis nisso. Já me indispus com professores de arquitetura e

Vejo relações entre sua pintura e elementos de Bosch... Sim, perfeitamente. Há coisas em suas composições que são extremamente modernas. Infelizmente, perdeu-se no tempo a justeza de olhar isso. Seria difícil datar a pintura de Bosch, a não ser pela indumentária.

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CONVERSA 11 Snarkológica, 1998, acrílica sobre duratex, 90 x 60cm

Eu estaria correto ao apontar referências suas também em Bruegel e Goya? Sim. Estes são duas referências. Me atrai a coisa menos festiva. Não que eu seja um cara mal-humorado, eu sou muito bem-humorado, adoro conversar, é o meu esporte favorito. Não sou muito efusivo, mas não tem nada de tristeza na minha maneira de ver as coisas. Certo tipo de efusão começa a me dar um mal-estar. As pessoas falam muito alto.

Nunca pensou em publicar essas reflexões? Já. Alguma vez. Uma coleção de comentários. Aqueles desenhos que você está vendo ali (apontando), que estão fora da moldura, fazem parte de um livro, chamado Pequeno Manual de Abominações. É um caderno de anotações que vai de 1973 até 1985. Nele eu comento muitos registros que hoje são quadros que estão por aí.

Onde ocorrem suas exposições? Como se dá o seu processo de pintura? Já expus no Recife, em Salvador, no Rio... O pessoal de Primeiro o desenho, pois o que eu faço tem como apoio o São Paulo já me convidou “n” vezes, porém as galerias não exdesenho. A pintura quase que prescinde de modelo. Durante põem só pintores, mas também “decoradores”, uma coisa de muito tempo eu passei por aquele sofrimento de usar modelo. muito mau-gosto. Não é que eu não queira a companhia de Depois, você já intui, porque a aferição de fulano ou sicrano, mas é que prejudica a certas volumetrias e angulações você as minha função, e isso me deixa em deinventa, e passa a ter uma gramática, uma pressão. Porque uma exposição ou lhe “Acho uma aberração sintaxe, e não fica subordinado a reprodudá prazer, ou é algo de que você se arreessas peças zir essa coisa visível, essa forma de realidapende pro resto da vida. Em primeiro gigantescas, de um de que, entre aspas, não tem a menor lugar porque o comércio disso é muito brutalismo absoluto. importância. diferente de móveis, automóveis ou seSe você olha um cos e molhados. Não sou um misanBrancusi e depois olha E em quanto tempo, a partir do desetropo, mas acho que quanto menos uma escultura de Botero nho, o quadro está pronto? arriscar em aparecer nesse circuito badadaquelas dimensões, Depende. Às vezes um, dois, três lativo melhor, porque me protege de fica com uma espécie meses, porque eu passo de uma pintura uma coisa desgastante. Você há de notar de pesar profundo no para outra. Quando eu tenho hesitações que há mais artistas do que camelôs. coração. Ou seja, em solucionar determinado tipo de Todo mundo que sai da adolescência aquilo é um malangulação, de temperatura de cor, eu acha que é artista. Isso se deve muito à entendido.” passo a resolver outro problema enquanmídia, que é uma tragédia. Qualquer to aquele amadurece, e de repente enmenina que mostra as nádegas é atriz, o contro a solução sem que seja necessária garoto que faz surf e aparece no comeruma espécie de tour de force, para não ficar torturando a pintucial de sabonete é ator. Na área de artes visuais, então, é uma coisa de louco. Qualquer figurinha que tenha um patrocinara. Quanto ao horário, há uns vinte anos que só pinto durante dor faz exposição. Duas de minhas últimas exposições, que já o dia, com luz natural, e à noite, costumo ficar desenhando. Por estavam articuladas em São Paulo e eu cancelei, foram subsoutro lado, costumo passar muito tempo escrevendo, porque tituídas pela galeria, por exposições do Príncipe de Orleans e comento muito as pinturas, a idéia, a forma de abordar, a cirBragança e pelo Rolling Stone Ron Wood. Expus parte dos cunstância que envolve a coisa. Depois de algum tempo, quanquadros aqui, com apresentação de Francisco Brennand, do se faz um retrospecto, descobre-se uma série de coisas que quando fiz 50 anos, exatamente na data. estão por dentro da motivação.

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12 FILMES Firmino Holanda

Cinema alumioso do sertão-m mar Rosemberg Cariry filma histórias de sertão e secura, cangaço e repressão, messianismo e penitência, latifúndio e mandonismo

Rosemberg Cariry é cineasta. Mas, sobretudo, é um intelectual atuante, desde os anos 70, com sua produção poética, suas pesquisas, ensaios e debates, além da edição de discos, livros e periódicos, que guardam entre si a mais coerente linha de pensamento. E este pensar mostra-se essencialmente calcado na tradução popular da realidade histórico-cultural do interior nordestino – em particular, da região do Cariri cearense, de onde veio, como denuncia seu nome artístico. Da cidade do Crato partiu para a litorânea Fortaleza. Sem jamais se apartar do sertão adotou o mar em seu imaginário poético-visual, como atesta parte de sua filmografia (embora o mesmo signo seja, também, reiterado, com outros discursos, em muitos dos últimos filmes longas-metragens brasileiros, como observa a professora Lúcia Nagib). Em Caldeirão da Santa Cruz do Deserto (1986), Rosemberg põe um solitário boi de reisado nas dunas que avistam o Atlântico. A imagem casa-se com a do anjo barroco da morte, em Corisco e Dadá (1996), cuja alva nudez confunde-se com o mesmo cenário de areia branca. Nesse filme, a narradora evoca o cangaço, em meio aos jangadeiros, e a montagem faz a transição do plano marítimo ao plano sertanejo, confundindo o nosso olhar. Em Pedro Oliveira – O Cego que viu o Mar (2000), o velho rabequeiro, privado da visão, tateia as águas salgadas e imagina, consigo mesmo, aquela vastidão. Nesses fragmentos, afirmam-se en-

contros de planos geográficos, culturais e históricos diversos. São imagens de síntese poética, de verdade-imaginação. Às vezes trágicas, noutras, a projeção da mística conselherista (“o sertão vai virar praia!...”), nesse caso, embutindo-se a idéia da transformação radical das coisas (“... e a praia vai virar sertão!”). Suas histórias de sertão e secura (da terra e da alma), de cangaço e repressão, de messianismo e penitência, de latifúndio e mandonismo, não devem ser observadas como mero registro de uma exasperante realidade imobilizada no tempo – melhor dizendo, as marcas de atavismos a condenar projetos por uma nova existência. Em seu cinema de cunho autoral, Rosemberg traduz a hodierna e cotidiana luta. Uma luta de martírios, mas que anuncia o possível transformar do homem ou de parcela da sociedade. O diretor trata, sobretudo, do sonho construtor do novo, por mais que o tema proposto aparente ser historicamente distante ou, ainda, arcaizante. Não discorremos acerca de um cineasta em visita ao Nordeste, na busca da exótica verdade transcendente do “verdadeiro” Brasil, que nossa metropolitana razão burguesa teria extraviado. Rosemberg já está na região. Ele não coleta o pitoresco em vias de extinção, para que seu filme enuncie: “Isto era assim”. Antes, ele afirma: “Isto é assim”. Um bom exemplo dessa presentificação da realidade abordada é Juazeiro, a Nova Jerusalém (2001). Aí romeiros e moradores da cidade, fundada por Padre Cícero, imprimem no Fotos: Divulgação

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FILMES 13 » celulóide sua visão de mundo. Se aquele cultuado patriarca católico é a evocação histórica (o passado, portanto), seu mito santificado é a realidade viva. Juazeiro do Norte é a concretização física, palpável, de sua intervenção político-religiosa na História, continuada naquelas pessoas. A cidade, portanto, não é o passado, que, em presumível descompasso com os tempos modernos, eventualmente seria desencantada para tornar-se presente. Juazeiro é o que é. Os incomodados que a ignorem ou desçam às suas raízes. Em Caldeirão, abordou-se o passado histórico cearense (a comunidade liderada por beato Zé Lourenço, desmantelada pelas elites, em 1936). Mas esse passado também ressoava no presente. O sonho transformador daquele místico fez de um sítio infértil uma terra produtiva e auto-suficiente. No filme, essa intuitiva experiência de socialismo católico popular (um “fome zero” à frente de seu tempo) desembocava no Brasil de meados dos 80, recémsaído da ditadura, gerando debate, em inúmeras exibições, junto a movimentos populares de então. Com a reforma agrária na ordem do dia, no desfecho do documentário uma voz do presente, em plana praça de Fortaleza, berrava no poema: “O Caldeirão ‘tá fervendo!” E conjugava-se o verbo no presente, também. (Como se não bastasse, o filme premiado abria a clareira para a produção local independente de longa-metragem, estancada desde meados dos 70. O mestre documentarista Vladimir Carvalho saudava: “Confesso que muito raramente tenho visto se tomar tanta liberdade com o material recolhido e se experimentado com tamanho gosto e avidez. E isso sem nunca perder o rumo da verdade nem faltar com a autenticidade.” E o xará Luiz Rosemberg Filho, do melhor cine-experimentalismo brasileiro, definia: “Filme-poema” ou “um poema-musical que fala do povo.”) A Saga do Guerreiro Alumioso (1993), traz o sonho transformador do patético Genésio assentado nostalgicamente na gesta cangaceira. Porém, essa é a visão da personagem, que morrerá no final ao enfrentar o mandonismo coronelista. Seu colega de copo, um sindicalista “pé-no-chão”, que criticava aquela postura romântica, não viveria para ver tal desfecho. Pelas mesmas mãos dos poderosos, com os quais tentara estratégico pacto social, também morreria. Sempre divisei no destino de Genésio a marca das ilusões perdidas das esquerdas pós-queda do muro de Berlim. Naquele momento, seria a descrença nas utopias de décadas anteriores. Entretanto, no sertão em transe, com uma louca profetizando à toa, um Genésio quixotesco e a luta sindical sob controle, o filme ainda vislumbra um fio de esperança salvadora na mulher a recolher as armas do embate final. Numa leitura mais superficial do enredo, seria o mote “a luta continua”. Mas a personagem, antes já revelada com visão mais crítica, aqui se mostra simbolicamente numa trincheira da racionalidade diante do mundo real. Se os homens falham, justamente por aquelas posturas até ingênuas, cabe à mulher – aqui desviada do estereótipo do “intuitivo feminino” – insinuar outras possibilidades estratégicas. As mulheres são personagens privilegiadas e fortes nos filmes de Rosemberg Cariry.

Rosemberg Cariry, diretor do filme Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio, é o realizador mais atuante do Ceará

Em Corisco e Dadá, o cangaceiro guerreia contra o mesmo mundo renegado por Genésio. Ao lado do “Diabo Louro”, coloca-se Dadá, que ele arrancara da paz infantil e estuprara. Mas, ela também se transfigura em guerreira, porém mantendo sua linha de juízo – na medida em que o bandido mergulha numa rebeldia desesperada , mais sangrenta e vingativa. Tamanha insanidade tem seu contrapeso nessa mulher, que cresce e se fortalece ao longo da trama. Seu lado intuitivo manifesta-se, a rigor, somente nos sonhos premonitórios. O filme focaliza o cangaço, como dado histórico, solto nas ensolaradas caatingas, já em seus estertores. Esse mundo, distante no tempo, alimenta o imaginário de Genésio (O Guerreiro Alumioso), que nele só enxerga o heróico. Seu amor, de velho aposentado, é pela doce prostituta Rosália (a mulher que virou cobra). Patética paixão, sem o dilacerar da carne e a vivência das batalhas daquele casal. Se Genésio só via o charme em Corisco, este via em seu próprio papel a marca pesada da cruz, com fugas constantes, traições, perdas irreparáveis, sangue, suor e lágrimas. A voz consciente de Dadá tarde virá, sem desviar o destino de Corisco. A essa altura, só resta ao cangaceiro desesperado desdobrar sua revolta contra a lei terrena em revolta contra a lei divina. Sua oração do “Credo”, hereticamente invertida, é o ápice de seu desespero existencial. Depois de tanto matar, só a própria morte devolve-lhe a paz. E, nesse ponto, Corisco identifica-se com o pobre Genésio, morto em seu primeiro e único combate. Corisco era a História, transmutada em mitologia, geradora de Genésio enquanto farsa – que só nos minutos finais de sua tragicômica “saga” legitima-se no próprio holocausto. Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio (2002) é uma lenda dos sertões dos Inhamuns, com roteiro de Rosemberg Cariry inspirado em um conto de Ronaldo Brito e em roteiro original de Ronaldo Brito e Francisco Assis. Esse longa-metragem dirigido por Rosemberg põe a mestiçagem, as violências do latifúndio

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escravagista e as paixões amorosas em foco. Agora, uma figura feminina é exclusivamente posta no centro, ao contrário das demais fitas do diretor. Mas a personagem-título está longe do papel de heroína. Na posição de mando, herdeira bastarda das terras do coronel branco (que a gerou no ventre de negra cativa), Lua também assimila a ambição e a truculência da elite sertaneja. Não importa a cor da pele. O que existe é a marca social de quem detém o poder sobre coisas e servos. Assim, o filme escapa do fácil discurso apologético sobre a mulher ou sobre uma provável democracia pelo suporte da mestiçagem . Com o punhal ou o bacamarte nas mãos, Lua Cambará tem a mesma disposição de um Corisco ao enfrentar o inimigo, mas não guarda um fiapo da “ética” cangaceira. Se de um lado existe o “bandido social”, do outro há o “explorador social” – e este é o lado de Lua. No filme ressoam mitos universais, mas o primado da ordem econômica prevalece, no meu entender, nas relações em pauta. O matriarcado, justo e igualitário, que teria precedido a formação do rígido patriarcado (lá em priscas eras da humanidade), tem aqui seu retorno adiado por tempo indeterminado. Em meio a tantas denúncias de violência contra a vida, o cinema de Rosemberg Cariry, com freqüência, sabe criar um contraponto a tais vicissitudes sertanejas. Se o mar é a metáfora da utopia, no plano mais imediato celebra-se, aqui e ali, a vida possível, a alegria ainda que em meio à dor humana. Em Caldeirão, o imaginário popular e o lúdico (danças, cantos, brinquedos) também reinterpretam a História do povo “capado e recapado, sangrado e ressangrado” (no dizer do historiador Capistrano de Abreu), após invasão do reisado , no museu, para resgate de peças do beato Lourenço). N’A Saga do Guerreiro, a festa de rua, os

Filmagem de Lua Cambará, no sertão cearense

folguedos de “Judas” e de “serra-velho” são instantes onde o insulto popular inverte a ordem vigente. O ritual da irreverência versus o ritual do poder. Mas não se trata de algo como a vaia pela vaia , de um certo “Ceará moleque” que um dia vaiou o sol na praça do Ferreira, que o poeta José Alcides Pinto identifica, antes, como puro recalque. Coisa mais besta vaiar o sol. Aqui vimos, por fim, em ligeiras e fragmentadas análises, cinco dos cerca de quinze filmes de longas-metragens produzidos no Ceará desde o surgimento de seu cinema. Rosemberg Cariry é, portanto, nosso realizador mais atuante – ainda com o mérito de ser um produtor estabelecido no Estado. Ainda citamos o curtametragem sobre o Cego Oliveira, a somar-se a outros documentários sobre tantos mestres da cultura popular, como Patativa do Assaré (antes registrado num média do mesmo diretor) e a banda dos irmãos Aniceto. No último exemplo, um videoclipe de free jazz, onde explodem imagens do universo caririense, enquanto o sax tenor do extraordinário Ivo Perelman dialoga, ao vivo, com os pífanos. Prova cabal de que um grupo cabaçal não é sinônimo de tradição fossilizada. Testemunho também do quanto o cineasta se acha atento ao novo, sem apelos folclorizantes dos que se arvoram defensores de um suposto e único modo popular de ser. Mas o verdadeiro modo seria como o rio e não as margens a comprimilo. Muitos que vêem, por exemplo, filmes sobre tal universo – no caso, privilegiado por Rosemberg – tendem a enxergar somente aquelas margens, pensado estar admirando um mundo estático (“salvo pelo cinema”), eventualmente belo e pitoresco. Mas esse mesmo rio dos sertões, desprezado pelo olhar desatento, em sua corrente contínua, um dia vai bater no mar. E aí já é outra história.


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Losst Zweig g:

Fotos: Divulgação

Sylvio Back

a dor do exílio

Cineasta mostra a construção do filme sobre a permanência e o suicício no Brasil de Stefan Zweig Não é de hoje que o tema da “morte voluntária” me fascina. Isso vem desde a juventude. Talvez porque eu mesmo seja filho de um suicida, ainda que eu só viesse a saber do trágico destino desse judeu húngaro – que se envenenou aqui no Rio de Janeiro em 1950 e pelo gesto, como escarmento dos seus, foi enterrado do lado de fora do cemitério –, já homem feito. Certamente alguma “osmose cármica” tem pairado no ar nesses anos todos de ignorância e censura familiar. Sempre curti ler biografia de suicidas, noticiário de imprensa, suas cartas de adeus, as razões e as desrazões do ato, a minudente e produzida encenação da morte, a teatralização de quase todos, solitários performers sem platéia alguma, a não ser o prazer de antecipar-se à natureza e flertar com o infinito. Em 84, realizando o documentário O Auto-Retrato de Bakun sobre o suicídio do genial pintor paranaense, Miguel Bakun, me vali do transe mediúnico como instância de uma, digamos, “nãohistória memorial” para ir ao âmago do mistério. Cheguei, sim, muito perto de perguntas irrespondíveis e perto e perdido em respostas mágicas que atiçaram ainda mais o meu desejo de penetrar no mistério da morte procurada de Stefan Zweig. De qualquer forma, o suicídio é sempre um gesto insondável. Diria que ele é “a” metáfora do indizível e do indecifrável, o calabouço do próprio sentido do viver, aquela irresistível “atração para o nada” (Albert Camus) que alguma vez em nossas vidas todos sentimos. Em Lost Zweig jogo com a liberdade poética de que o suicídio é uma espécie de vírus que você carrega dentro de si. Um dia, ele surge e pronto. Quase como um poema: você não premedita, simplesmente comete! Parto dessa premissa não apenas pela impecável e premonitória descrição que Zweig faz do suicídio na biografia do dramaturgo alemão, Heinrich von Kleist (que convidou a sua melhor amiga para se matarem juntos), mas por ter fracassado em convencer a primeira mulher, Friderike, a morrer com ele em 1921. Quatro anos depois publica a biografia de Kleist. E vinte e um anos depois, a segunda esposa, Lotte, não lhe trai a compulsão e a aposta erótica de que “quanto mais voluntária a morte, mais bela ela é” – Zweig fazendo suas as palavras de Montaigne, sobre quem escrevia em Petrópolis. Como o sonho, a “automorte” tem um estranho dom de permanecer desdatada. Nem com o passar dos anos ela se torna mais transparente, ou na melhor das hipóteses, menos opaca. Ao contrário, o imaginário só cresce, maximiza e engessa a sombra do que fica para sempre irrevelado. Pior ainda, de tempos em tempos Continente . março, 03

Zweig e o mistério do suicídio: uma espécie de vírus

como que vai atualizando a tragédia. A fria, premeditada e “estética” queda dos Zweig rumo à imortalidade é paradigmática nesse sentido. Daí, ainda despertar tanta curiosidade e perplexidade.

A dor do exílio Antes que um mergulho no tema do “suicídio”, Lost Zweig é um filme sobre a dor do exílio – quando o homem parte a sua vida em duas, matando o que existia para poder continuar existindo. Antifascista, anticomunista, antimilitarista, judeu não-religioso, Zweig era um pacifista militante e um ferrenho humanista, o sentido da solidariedade o animava e o deprimia constantemente. Um intelectual e um escritor de uma modernidade à toda prova. Esse o aspecto que sempre me fascinou nele. Stefan Zweig que tivera os livros queimados na Alemanha hitlerista em 1933, fugia da maré montante nazi-fascista, acreditava ter encontrado no Brasil o “seu” paraíso, mas caiu nas malhas da dissimulação política da ditadura Vargas. Sofria com a perspectiva de não mais ser publicado em alemão, sofria com a perda do boden (chão, em alemão) como dizia, de todo escritor – o idioma pátrio. Embora repetisse a sentença do seu biografado Américo Vespúcio que, ao navegar pelas costas brasileiras antes da chegada de Cabral, anotou no diário: “Se

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O filme retrata a personagem com a mesma compaixão com que ele via a humanidade

existe paraíso na face da terra, não pode estar longe daqui”, Stefan Zweig acabou se matando no paraíso!

que é como ele chamava o Brasil, um país em forma de harpa, daí ser tão musical – escreveu.

Pensamento único

A gênese de tudo

Não acredito, porém, que Zweig tivesse se refugiado no Brasil já premeditando o seu fim. O amor ao país, explícito na carta de despedida, se remonta à sua primeira visita, em 1936. No ano seguinte escreve o livreto intitulado Pequena viagem ao Brasil, base do polêmico Brasil – País do Futuro, um panegírico à sua nova pátria, ao seu povo terno, alegre e esperto, publicado em 41 e mal recebido pela crítica e a intelectualidade da época, toda ela, quando não de corte stalinista e ironicamente pró-Vargas, era católica e/ou integralista. Comentava-se que Zweig o teria escrito como paga pelo visto de permanência que recebera da ditatura que, assim, enquanto negava a entrada de milhares de adultos e crianças judias, tentava reverter a imagem de anti-semita diante da comunidade internacional. Stefan Zweig, um escritor famoso, vendia livros como ninguém, o personagem caia como uma luva. Até hoje nada ficou provado a respeito. Sobre esse e outros inúmeros “buracos negros” que pontuam a última semana de vida do casal Stefan Zweig, do domingo de Carnaval à segunda-feira seguinte, 23 de fevereiro de 1942, é que Lost Zweig se detém, com o mesmo olhar de compaixão com que ele via a humanidade afundada no racismo, na violência, na imposição de um pensamento único. A solidariedade a esse personagem original é o mote do filme, retraçar a vida e obra de um livre pensador que defendia a liberdade de expressão a qualquer preço, um homem eqüidistante das ideologias e palavras de ordem do seu tempo. Stefan Zweig, ao tentar junto ao ditador Vargas, sem sucesso, um território para receber os milhares de judeus perseguidos pelo nazismo na Europa, acabou vítima do seu “paraíso”,

Embora Stefan Zweig seja um escritor famoso e ainda hoje muito lido, autor de mais de cinqüenta livros, todos inclusive editados e reeditados no Brasil, o personagem entrou em mim e eu nele pelo cinema. Quase na contramão de sua prosa límpida, encantatória e psicologizante (era amigo de Freud, trocavam correspondência, chegou a escrever biografia dele e fez o elogio à beira do seu túmulo em Londres). Mas tudo parece ter sido desencadeado ao assistir, em épocas diferentes, lá pelos meados dos anos 50, aos filmes Carta de uma Desconhecida (1948), do mestre franco-alemão, Max Ophüls, um canto à sensibilidade feminina, e Até o Último Obstáculo (1960), de Gerd Oswald, este baseado no livro Uma partida de Xadrez (Schachnovelle – literalmente, “novela do xadrez” em alemão), uma brilhante metáfora do totalitarismo, que Zweig terminou horas antes de se suicidar em Petrópolis, com a mulher, Lotte. Só depois da tela é que fui à palavra, à obra de Zweig, à sua própria história traduzida em literatura, nos ensaios poéticos em torno de personagens trágicos, quase sempre perdedores, à descoberta da sua vocação pacifista e humanista. Em 1981, entrevistando o ex-ministro e escritor Afonso Arinos para um Globo Repórter sobre a renúncia de Janio Quadros, que orgulhoso me mostrou um livro autografado que Stefan Zweig lhe deixara entre os seus “presentes” pós-suicídio, vim a saber que o jornalista Alberto Dines preparava livro sobre ele. Até então biografias publicadas no exterior davam pouca importância à “vida brasileira” de Zweig, aos angustiantes cinco meses que passou no Brasil entre setembro de 41 à semana do Carnaval de 42 quando se matou, aos sessenta anos, com a jovem esposa. Lotte, de apenas trinta e três.

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rio de média-metragem, Zweig: A Morte em Cena (Der Inszenierte Tod), que filmei entre 1994 e 95 para a TV alemã 3Sat, Lost Zweig teria sucumbido à tentação da mera biografia factual ao invés de retraçar ficcionalmente a vida brasileira do autor mais editado e traduzido em todo o mundo nos anos 30. A propósito: quando veio ao Brasil pela primeira vez, em 1936, foi tão paparicado e incensado que escreveu em suas memórias: “Durante seis dias me senti uma Marlene Dietrich” (e não por acaso, La Dietrich canta em Lost Zweig uma música pacifista gravada em 1935). As entrevistas com os sobreviventes que conviveram com o casal Zweig, hoje, todos mortos (entre eles, o editor, o advogado, o tradutor e quem lhe fez a máscara mortuária), me abriram novos conhecimentos em torno do cotidiano (e da morte) do escritor e de sua mulher, inclusive sobre o polêmico visto de permanência concedido pela ditadura Vargas, ostensivamente anti-semita. Talvez a intuição O ator alemão Rüdiger Vogler interpreta o escritor que se suicidou no “Paraíso” mais desconcertante de Lost Zweig seja relativa às aventuras eróticas e à bissexualidade de Stefan Com sua biografia, Morte no Paraíso, Dines invertia a mão, deZweig, sempre omitidas ou não levadas em conta, aliás, chave para dicando-se a esmiuçar e a entrelaçar com rara habilidade de repórter a compreensão de alguns de seus personagens. Já houve insinuações esses meses cruciais, toda a sua existência européia e o próprio ato de que Zweig teria sido homossexual, tese impunemente apresentaterminal no Brasil. Como o tema e o personagem me fascinavam há da num colóquio em torno do escritor há alguns anos em Salzburg, anos, e eu tinha as minhas próprias pesquisas, mais tarde comprei os Áustria (cidade onde, aliás, morava antes de fugir do nazismo). A direitos de filmagem do livro, base factual do roteiro de Lost Zweig, essa tese me oponho com toda firmeza: ser homossexual é uma cujos primeiros tratamentos escrevi sozinho. Como desde o início opção erótica, bissexualidade, é outra. Zweig fora casado, divorciado projeto do filme pensei em realizá-lo falado em inglês, primeiro do, casou pela segunda vez, com Lotte, a companheira do suicídio, por ser a língua corrrente entre exilados e depois pelo fato de que freqüentava bordéis (como anota em seu diário sobre as visitas à os personagens sempre conversavam em uma segunda língua (além zona do meretrício do Mangue, no Rio). Mas também demonstrado alemão, em francês, inglês e até em iídiche), em meados dos va interesse por homens jovens – conforme entrevista que aparece anos 90 engajei o roteirista irlandês, Nicholas O’Neill, interessado no meu documento, Zweig: A Morte em Cena. Se ia às últimas no personagem. E juntos reescrevemos o roteiro diretamente em conseqüências, deixo para a imaginação dos espectadores. Esse inglês, que até então era apenas traduzido. Da nossa parceria de cinfilme ficou como um providencial ensaio geral do longa-metragem. co anos, inúmeras versões e tratamentos, frutificou o roteiro filmado. E, lógico, por ser em inglês, Lost Zweig naturalmente acabou Ainda que o suicídio permaneça um tabu no cinema, gosto de com um passaporte que o credencia a uma melhor circulação no mexer em tópicos, digamos, “sagrados”. Sinto que o filme repromercado exibidor internacional. duz o mesmo olhar de compaixão com que Zweig via a humanidade afundada num feroz racismo e numa intolerância beligerante. A solidariedade a este homem encurralado é o mote de Lost Zweig, flagrar a vida e obra de um livre pensador que defendia a liberdade Quanto maior a traição ao livro que inspira um filme – melhor de expressão a qualquer preço, um homem eqüidistante das ideopara ambos. Nada homenageia mais o autor da obra do que soltarlogias e palavras de ordem do seu tempo, sonhando com uma se dela, reinventar o que ele inventara, extrair do livro e dos diáEuropa sem passaporte, com moeda única – um visionário. Stefan logos (quando existem) o sumo, a verve, a alma telúrica, o estro Zweig, ao tentar junto ao ditador Vargas, sem sucesso, um subjacente nas situações e nas palavras sem subserviência alguma, território para hospedar os milhares de judeus caçados na Europa, com liberdade total e irrestrita. Cinema é visibilidade, literatura – acabou vítima do seu “paraíso”, um país em forma de harpa. invisibilidade. Lost Zweig é um permanente questionário na tentativa de Mas, ao mesmo tempo, preciso ser peremptório: não tivesse lido tornar palpável o que teria levado o casal Zweig a procurar a eterMorte no Paraíso, de Alberto Dines, ainda nas provas, em 1981, janidade, premido por uma solidão – moral e física – incontornável mais teria escrito o roteiro de Lost Zweig. E mais, não tivesse ouvido e insuportável. Dines e os macróbios amigos de Zweig, à época para o documentá-

A autonomia do filme

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Mulher, câmera, ação! A trajetória de Carmen Santos, atriz, diretora e produtora na década de 20, traz luz sobre a arte do cinema e a condição feminina no Brasil da época Em seu projeto de dissertação de mestrado, a pesquisadora Ana Pessoa focaliza, como protagonista, a cineasta Carmen Santos, verdadeiro mito da cinematografia nacional nos anos 20 e 30. Da infância operária à condição de estrela, Carmen abre passagem na vida profissional, passando de atriz à produtora de seus próprios filmes, escolhendo enredos e diretores, “num grau de interferência feminina inusitada para o Brasil daquela época”. Ana Pessoa, que lançou pela editora Aeroplano o livro Carmen Santos – O cinema dos anos 20, revela nesta entrevista por que a cineasta se tornou a figura feminina mais emblemática do cinema brasileiro Como, quando e por que você se interessou pela história de Carmen Santos? Eu já conhecia Carmen Santos dos livros de história do cinema brasileiro e, quando fui trabalhar na Cinemateca do MAM, em 1974, me aproximei mais da personagem por ouvir seus contemporâneos falarem dela com admiração. Por essa época, com o Ano Internacional da Mulher, houve uma valorização dos estudos sobre a mulher e, em especial, a da imagem da mulher e os meios de comunicações. Esse clima me incentivou a começar a fazer algumas entrevistas sobre Carmen, buscando fazer um perfil menos mitificado. Mas a pesquisa só tomou rumo quando virou projeto de dissertação de mestrado para a ECO-UFRJ, tendo Heloísa Buarque de Hollanda como orientadora, e quando a família de Carmen, por intermédio da neta Paula Seabra, me forneceu informações sobre o seu lado doméstico. Continente . março, 03

Existiria algum paralelo possível entre as figuras de Carmen Miranda e Carmen Santos, além do primeiro nome, o fato de serem atrizes, de origem portuguesa, e do sonho de Estados Unidos? O que elas têm em comum é a opção pela carreira artística como forma de escapar aos desígnios de classe – operárias ou esposas – e, nesse contexto, terem sido atraídas, como inúmeras outras jovens de sua geração e das gerações seguintes, pelo fascínio do cinema. Mas a Miranda era uma cantora que filmava, enquanto que a Santos era uma produtora que interpretava... Na lista de obras de ou a que esteve vinculada Carmen Santos destacam-se os filmes inacabados. O cinema brasileiro de sua época foi também um projeto inacabado e frustrado? Eu acho que se deve considerar os filmes inacabados prova do esforço e do empenho daquelas pessoas que teimavam em não se paralisarem


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Fotos: Reprodução

diante da falta absoluta de condições objetivas de se fazer filmes. Não se tinha equipamento, know-how, capital, sistema de remuneração, nada!!! E assim mesmo, filmou-se muito na década de 1920, com ciclos regionais ricos e interessantes. Vocês têm aí o Ciclo do Recife, que é um bom exemplo desse espírito! De que maneira foi um êxito ou um fracasso a trajetória de Carmen Santos e o seu cinema? O grande êxito de Carmen foi o de ter se tornado a personagem feminina mais emblemática do nosso cinema. Independente dos resultados objetivos de seus filmes e projetos, o que marca a sua trajetória é a persistência, o que fazer, e é por isso que sua figura repercute até hoje junto aos cineastas e, em especial, às mulheres cineastas. Você se detém pouco nos últimos anos de Carmen Santos e até na sua morte. Por quê? Como eu lhe disse, o livro foi um projeto de tese e o ponto central dele era o estrelismo à brasileira, o período do cinema silencioso. Por isso, a etapa seguinte aparece apenas como um epílogo. Tenho escrito um primeiro esboço do que seria a trajetória dela no período seguinte, o do cinema falado, mas, para aprontálo, preciso de meios para fazer pesquisas em fontes primárias. A atividade cinematográfica ficou muito complexa nos anos 30 e 40: novas tecnologias – o som, a cor –, a briga pelo mercado de exibição, a consolidação dos circuitos pelas empresas estrangeiras, etc., além da censura do Estado Novo e as perseguições políticas. Carmen foi amiga do pessoal de esquerda, como Jorge Amado, e teve problema de censura com o seu projeto da Inconfidência Mineira. Apesar dos avanços do cinema nacional, o sonho de uma indústria brasileira nesse campo não parece muito mais próximo do que aquele que o foi no tempo de Carmen Santos, ou seja, a atividade cinematográfica ainda é tarefa de idealistas, abnegados ou franco-atiradores. Como você analisa a passagem de Carmen do sonho americano à defesa da cultura nacional, típicados modernistas dos anos vinte? Ao longo dos anos, Carmen foi amadurecendo e aprimorando sua análise sobre as condições objetivas do seu métier. Ainda que o financiamento do Seabra lhe desse meios “não usuais” de produção, ela vai, cada vez, procurando criar condições de auto-sustentabilidade... E é aí que ela, como seus contemporâneos, percebeu que não bastava fazer filmes bons, que agradassem ao público – como Favela dos meus amores –, mas que era preciso ter como exibi-los. E nisso eles se deparam com um impermeável mercado exibidor, que foi montado desde o seu nascedouro para escoar os produtos estrangeiros. Como ser efetivamente um veículo de massa se não se conseguia chegar às massas? É preciso não esquecer que o sucesso das chanchadas da Atlântida foi, em parte, porque a produção era articulada com o circuito do Severiano Ribeiro, que começou a participar da companhia em 1946! E essa defasagem entre

Carmen Santos, Mário Peixoto e Raul Schnoor, em intervalo das filmagens de Onde a terra acaba, 1931

a produção e o escoamento é o eterno calcanhar da Aquiles do cinema brasileiro (e de todas as cinematografias não hegemônicas), o que faz com que hoje se busque, cada vez mais, associações com produtores estrangeiros para se ampliar internacionalmente as perspectivas de exibição, ou ser distribuído no país por uma das distribuidoras estrangeiras, que podem promover grandes lançamentos, com mais de 100 cópias!. Existe um legado “Carmen Santos”, além do seu indiscutível arrojo feminino? Apesar de sua figura despertar facilmente a empatia feminina, acredito que sua persistência e determinação em se expressar por intermédio do cinema serve de estímulo a homens e mulheres.

Carmen Santos – O cinema dos anos 20 Ana Pessoa – Editora Aeroplano, Rio de Janeiro, 2002 192 p. R$ 20,00 Continente . março, 03


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20 TRADUZIR-SE Ferreira Gullar

A arte sem fantasia Uma tendência importante, no curso da arte moderna, decorre da relação dialética entre a pintura e a natureza

Chegar a uma compreensão da arte moderna, em toda sua complexa trama de inovações, rupturas, ambivalências e contradições, requereria um tempo enorme dedicado ao estudo minucioso dessa matéria, seguido da reflexão demorada e paciente sobre cada um desses aspectos. Semelhante tarefa está acima de nossas possibilidades. Não obstante, acreditamos que alguns cortes analíticos nessa complexa totalidade podem favorecer a compreensão de alguns de seus aspectos, pelo menos. Proponho um corte que nos possibilite discernir uma das linhas de força desse processo artístico que, como se sabe, não está desvinculado do processo histórico, como um todo. Antes, porém, devo esclarecer que, embora os fatores materiais e intelectuais (econômicos, tecnológicos, políticos, científicos, filosóficos) não determinem o pensamento e a realização dos artistas, é certo, porém, que estes não pensam nem trabalham inteiramente infensos ao que se passa a sua volta, às mudanças do contexto social, do modo de viver e pensar da sociedade ou de parte dela. Tudo isto é óbvio. O corte proposto visa detectar uma tendência importante, no curso da arte moderna, que decorre da relação dialética entre a pintura e a natureza, surgida no século 19, com o Realismo. É interessante observar como essa relação – que é reflexo da influência crescente do progresso técnico e científico na vida social – vai promover uma série de inovações na linguagem artística, ao mesmo tempo que a empurra para uma situação crítica aparentemente insuperável. Um dos principais traços da pintura realista é a substituição dos temas ficcionais pelos temas reais ou realistas. Se é certo que Corot não faz um registro fotográfico do mundo exterior, tampouco pretende falseá-lo ou transfigurá-lo pela passionalidade ou pelo exotismo. Apesar disto, sua relação com a realidade é diferente da do impressionista Monet, por exemplo, que se defronta com a natureza, desarmado, como se a visse pela primeira vez, tomando-a apenas como sensações a serem registradas. É que o Impressionismo despoja o mundo externo das referências culturais que, por assim dizer, ocultavam-lhe a realidade material tout Continente . março, 03

court. Para os impressionistas, os bosques estão desabitados de ninfas e faunos, como também de amantes desesperados a vagar pelos ermos; as questões sociais não contam e a natureza é apenas uma aparição luminosa, de cores irradiantes, cujos tons mudam com o passar dos minutos. A captação hedonista de um mundo sem história e em permanente devir. Por essas razões, a pintura impressionista era, em termos gerais, invertebrada, e foi contra isto que se voltou Cézanne, buscando torná-la “sólida como a arte dos museus”. Tampouco queria voltar à perspectiva, pois redescobrira a natureza na sua realidade fenomenológica, complexa e contraditória, e por isso buscava uma linguagem capaz de expressar esta experiência virgem. Foi isto que o levou a verticalizar a composição, desvincular a cor do objeto, eliminar o contorno das coisas e fazer da cor o módulo de construção da tela. Queria que a pintura tivesse a densidade da natureza e a liberdade da arte, e, com este propósito, levou a pintura a um impasse. Para superar o impasse, vem o Cubismo, que rompe a relação entre a pintura e a natureza, escolhendo a plena liberdade da arte. O pintor agora parte do quadro para inventar o mundo: o que importa é a unidade formal e semântica da obra, não as referências ao real. A figura é geometrizada, “cubificada”, depois desarticulada em planos que se organizam numa nova ordem diversa da do mundo exterior. O passo adiante é dado por Mondrian: em sua pintura, o que sobra do mundo exterior são apenas as duas forças que – segundo cria – o regiam: a horizontal e a vertical. Do universo pictórico figurativo – figuras, volumes, profundidade, sombra, luz, matéria subjetiva – nada mais resta. O quadro é uma construção de quadrados e retângulos com as cores básicas. Noutra ponta do problema, Malevitch também chega ao limite da figuração: se a forma geométrica ainda é uma figura sobre um fundo, como vencer esse impasse? Pinta, então, a tela Branco sobre branco. Avançar além disto, seria deixar a tela em branco, não mais pintar. É curioso observar que, em 20 mil anos de arte, nunca o pintor se defrontara com semelhante situação. Por quê? A resposta parece


TRADUZIR-SE 21 Foto: Reprodução

Suprematismo (Branco sobre branco), 1918. Kazimir Malevich. Óleo sobre tela, 97 x 70cm. Museu Stedelijk, Amsterdã

estar no fato de que, ao longo de milênios, a pintura nunca tentara ser realista: os bisões das cavernas paleolíticas são imagens mágicas; no Egito, em Creta, na Grécia, a pintura é metafórica, simbólica, ritualística, a idealização da vida; na Idade Média é religiosa e didática; na Renascença busca uma tridimensionalidade que idealiza o real para tornar mais “reais” as cenas bíblicas. Ou seja, a pintura sempre foi uma linguagem que tentou tornar plausíveis as criações

da imaginação e da fantasia. Só quando o pintor se defronta com o desafio de apreender a realidade da natureza é que passa a questionar a linguagem pictórica. E como nenhuma linguagem é capaz de esgotar a realidade do real – mesmo porque a linguagem não é a realidade – a tentativa de fazê-lo a destrói. Ao negar-se a continuar sendo expressão do imaginário, a arte se opõe à sua própria natureza, e se suicida. Continente . março, 03


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22 BELAS

ARTES Fotos: Fred Jordão / Imago

O pintor George Barbosa, em seu ateliê

A História na

janela do

artista

Na exposição De Friburgo ao Campo das Princesas o pintor George Barbosa visita a História de Pernambuco Se um quadro pode ser visto como uma janela para outro universo, o pintor George Barbosa resolveu visitar a história pela janela da arte, focando um espaço específico, a Ilha de Antônio Vaz, atual bairro de Santo Antônio, no Recife, onde, curiosamente, ocorreram em tempos diversos vários fatos importantes. Foi ali que Maurício de Nassau instalou seu Palácio do Friburgo, popularmente chamado de Palácio das Torres, em 1639, no centro de um parque projetado nos moldes europeus, com uma urbe nova em folha erguida ao redor, a Cidade Maurícia. É ali, também, onde hoje se encontra o Palácio do Campo das Princesas, tradicional prédio onde se instala o governo estadual. Ali, nas escadarias do Erário Régio, o Deão Ferreira Portugal apresentou ao povo revoltado de 1817, a nova Bandeira de Pernambuco; ali, os holandeses levantaram sua fortificação de campanha, o Forte Ernesto, ao redor do convento de Santo Antônio; ali, olhando para o bairro do Recife, foi construída em 1895 a Escola de Engenharia Agronômica, depois Tesouro Estadual; foi ali que Louis Léger Vauthier erigiu, em 1850, o Teatro de Santa Izabel; e ali foi construído por Giacomo Palumbo, o Palácio da Justiça. Foi no mesmo local que ocorreram outros eventos que marcaram a história de Pernambuco, como a chegada do Imperador Dom Pedro II, em 1859, ou a deposição dos políticos que comandavam o Estado, durante o Golpe de 64. Alternando cores sóbrias com uma iluminação tropical, formas compactas e estáticas com outras apenas esboçadas e dinâmicas, o artista retrata em um painel de 20 quadros essa sucessão de dramas, essa história de um estado em um único local. “A idéia surgiu como conseqüência de uma série de fatos que, de uns anos para cá, têm valorizado a história e a identidade pernambucana”, explica George. Ele se refere à publicação de livros como Pernambuco Preservado, de Leonardo Dantas Silva, e à exposição com os quadros do pintor holandês integrante da comitiva de Maurício de Nassau, Albert Eckhout, no Instituto Ricardo Brennand.

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Paisagem brasileira, homenagem a Frans Post


BELAS ARTES 23 »

Dança dos Tapuias, uma homenagem a Albert Eckhout

Visita de D. Pedro II ao Recife

Mauritio Polis

O artista sentiu-se, então, estimulado a dar sua contribuição para esta espécie de revalorização da memória pernambucana. “Partindo do primeiro quadro Friburgo, fui buscar em Frans Post, como não poderia deixar de ser, a iluminação de suas imagens sobre o Brasil”, explica ele. “São visões que levam a uma ilusão virginal, reinventada em sua representação. São dois quadros paisagísticos, realizados verticalmente, feitos a partir de Paisagem Brasileira e Cena de Sacrifícios de Manoah com Paisagem Brasileira. “Outra homenagem”, acrescenta, “seria ao pintor Eckhout. O quadro Dança dos Tapuias sofre uma interpretação minha, nos moldes mais habituais de minha produção. Não me permiti a natureza realista, verdade étnica e cultural com que Eckhout o pintou e contemplou, quase que sendo a primeira vez que se retratou o ‘homem americano’”. Uma outra representação é a pintura Praça da República, uma espécie de crônica de época, evocando os diversos prédios que a circundam, seu jardim, os modos e modas de cada tempo, e, ao centro, o coreto. Nesse local emblemático tanto no sentido político, quanto religioso, econômico, militar, cultural e social, George Barbosa abre sobre a história de Pernambuco a janela da sua arte.

Exposição De Friburgo ao Campo das Princesas, de George Barbosa. Palácio Campo das Princesas – Praça da República, Recife. Abertura: Dia 20 de março, às 19h Encerramento: Dia 31 de março Continente . março, 03


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ARTES

Arte de pedra e pau Dedicado à escultura em jaqueira e pedra calcárea, Paulo Costa assume a profissionalização

Fotos: Acervo do autor

Quando, no ano 10 d.C., Paulo de Tarso atravessava a estrada de Damasco, em perseguição aos cristãos, foi derrubado de seu cavalo por uma luminosidade ofuscante. Neste instante ouviu uma voz que dizia: “Paulo, por que me persegues?” A história é conhecida. Paulo não apenas converteu-se ao cristianismo como se tornou um dos seus mais importantes propagadores. E a expressão “estrada de Damasco” passou a significar o momento em que uma pessoa passa por uma experiência, dramática ou não, mas forte o suficiente para mudar-lhe a vida. Outro Paulo, este pernambucano e contemporâneo, teve um desses momentos. Até os 48 anos nunca se interessou pela arte. Então, sem que saiba explicar por que, sentiu uma vontade inadiável de fazer uma escultura. Arranjou um pedaço de madeira e esculpiu uma coruja tosca, que conserva até hoje. Começava ali uma nova carreira. É bem verdade que sua mãe, Conceição, também começou a pintar, subitamente, aos 60 anos. E, até o final da vida, fixou-se apenas num tema: portas. Paulo, que hoje se assina Paulo Costa, permanece na escultura, mas já experimentou pedra calcárea, mármore, resina, barro e cimento. Também variou de temas: são homens, mulheres, rostos, bustos, peixes, pássaros e seres imaginários. Totalmente autodidata, não desenha nem planeja a forma. Ele olha para o bloco a ser trabalhado e “vê” o que vai esculpir. Há uma famosa história sobre um artesão popular que esculpia magníficas onças. Quando perguntado sobre sua técnica, respondeu: “É simples. Eu vou tirando tudo que não é onça”. É esse o mesmo método usado por Paulo. Apesar dos vários materiais experimentados, fixou-se mais na pedra calcárea e na jaqueira. Nestas, explora as im-

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Na visão particular do artista, um grupo familiar, um pássaro, uma mulher e um peixe

perfeições – como os cristais no mineral e partes queimadas na madeira –, incorporando-as às peças. Após cinco anos de exercício da sua arte, Paulo Costa já participou de diversas exposições coletivas, fez quatro individuais e tem peças com colecionadores de diversos países. A classificação de “artista de fim de semana”, com que os profissionais procuram depreciativamente catalogar os amadores, não somente é para ele uma ofensa quanto uma inverdade. Se pela manhã dedica-se à profissão de engenheiro civil,

a tarde de todos os dias da semana é passada integralmente no exercício da escultura. Embora ainda não viva da arte, não só já recuperou tudo que empregou na compra de materiais e instrumentos de trabalho, como mantém um ateliê e um auxiliar na Cidade Alta de Olinda. Realizado, o artista diz que seu maior prazer é, ao contemplar mais uma peça criada, saber que aquele é um objeto único no mundo. E que saiu das suas mãos.


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26 HOMENAGEM Cláudio Cruz

Uma

anedota

gentil

A história da casa da família de Cícero Dias que Le Corbusier não fez “O modernismo brasileiro chegou ao ponto final... A última página do modernismo está virada...” Com essas palavras alguns jornais anunciaram no Brasil o falecimento do pintor Cícero Dias, ocorrido no último dia 28 de janeiro, em Paris, como se um movimento artístico pudesse nascer e morrer como uma pessoa. Se assim fosse tudo seria bem mais simples de ser explicado, e entendido, na história da arte. Nesta nossa época em que alguém precisa decretar o fim de alguma coisa ou propor teoria para tudo, aqui não se pretende nem uma coisa nem outra, apenas contar uma anedota gentil, que nem é desconhecida, apenas andava esquecida e com a morte do pintor, resolvemos tocar no assunto do projeto de uma residência encomendada pela família Santos Dias a Le Corbusier para ser construída no Recife, por volta de 1926-1929. Cícero Dias, estudante no Rio de Janeiro, em 1925, toma conhecimento da obra de Le Corbusier e, junto com sua família, tenciona construir uma casa modernista no Recife, às margens do Capibaribe. Fotografam tudo na cidade e, em 1929, Cícero entrega as fotos ao arquiteto quando este visita o Rio de Janeiro e São Paulo. A casa foi apenas esboçada num papel. O esboço e as fotos da cidade jamais foram localizados. Mário de Andrade foi quem primeiro noticiou o fato na coluna Táxi, do Diário Nacional, de São Paulo: “(...) No entanto uma anedota gentil de faz uns dois anos talvez, se tivesse outro final, faria Le Corbusier nesta viagem encontrar já uma construção dele no Brasil. Infelizmente pararam em meio às negociações entre ele e a família Santos Dias, do Recife, para uma construção de uma casa moderna à beira do Capibaribe. Foi pena. (...)”. Mas tudo foi esquecido. No livro Le Corbusier e o Brasil, publicado em 1987, não há nenhuma citação deste episódio. Continente . março, 03

Fotos: Reprodução

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Cícero Dias, fotografado por Nicolas, no Rio de Janeiro, em 1928

O senhor pode contar mais sobre essa história? (Mostrando várias cartas de Le Corbusier) Eu trouxe isso aqui para mostrar a vocês a proximidade que eu tinha com ele. Por volta dessa época, de que trata o artigo de Mário de Andrade, ele não veio ao Recife, mas nós, eu e minha família, estávamos com vontade de fazer uma casa de Le Corbusier aqui. Tiramos muitas fotografias da cidade, do Pina, toda essa bacia foi fotografada, a rua da Aurora, e uma vista geral de Olinda, aquelas construções lacustres, casas pobres sem nada. Nesse tempo ele estava trabalhando com os pilotis. Pensou em fazer uma casa na beira d’água. Para fazer o que ele estava pensando, uma casa de pilotis na beira do rio, era um preço exorbitante, e parou por aí o negócio. Não se fez nada. Ele achou a bacia do Capibaribe-Beberibe uma coisa tão bonita! A vista que se tinha do Cais do Apolo, mais longe Olinda, o mar mais longe... Se recuasse a localização não era a mesma vista, e aconteceria, como aconteceu, de passar uma estrada na frente e acabar a vista. Então, tinha de se fazer na beira do rio.


HOMENAGEM 27 »

Flora, aquarela de Cícero Dias, da década de 30, representativa do período modernista do pintor Le Corbusier (18871965), arquiteto francês de importância mundial, tendo influenciado a modernização da arquitetura brasileira Ao lado, Capela da Peregrinação de Notre-Dame-du-Haut, concebida por Le Corbusier em 1950

Que idade tinha o senhor então? Eu devia ter 19 anos. Era aluno da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, cursando Arquitetura, uma turma depois da de Lúcio (Costa) e antes da de (Oscar) Niemeyer. Fiz minha exposição em 1929, briguei com os professores e tive de abandonar completamente a arquitetura pela pintura porque o ambiente ficou muito desagradável. O Sr. Alberto Monteiro Aranha era amigo de Le Corbusier, então, tratamos com ele a possibilidade de fazer a casa sem trazê-lo aqui. Não havia avião, só navio; para não trazê-lo aqui ao Recife pagamos um fotógrafo e fez-se o levantamento fotográfico. Nós queríamos com vista para Olinda, para o istmo, para o mar, onde se vê a fortaleza do Brum. Ele se entusiasmou pelos mocambos, pelas construções lacustres. Ora, a construção lacustre era uma coisa primitiva, leve, sem suportar peso nenhum. Na hora de escolher o terreno a prefeitura já tinha uma estrada projetada. Nós ficamos com medo de construir do

outro lado da estrada e depois a prefeitura construir qualquer coisa na frente e esconder a vista. Aí a construção só seria interessante dentro do próprio rio, porque você poderia estacionar embaixo uma lancha. Só que o terreno não merecia muita confiança porque era lama. Tinha de ser feita uma base de estacas enormes e pesadas. O preço disso foi proibitivo. Especificou-se a Le Corbusier como vocês queriam a casa? Era uma casa normal, quero dizer, com três quartos, sala, cozinha, banheiro. Não era coisa grande. Uma casa de proporções burguesas... interessante. As palafitas ele já conhecia, sendo um arquiteto, pois essa é uma habitação da pré-história. Mas o que impressionou foi a paisagem, a mesma paisagem que entusiasmou Maurício de Nassau e a Conservadora do Museu de São Petersburgo que esteve comigo na Secretaria da Fazenda. Continente . março, 03


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28 HOMENAGEM

Cena de Olinda, óleo de Cícero Dias, em 1950

Ele não demonstrou nenhuma preocupação social ao ver as palafitas do Recife? Eu não vou responder integralmente o que você está perguntando, mas eu vou chegar lá... Ele desenhou perto de Marselha um conjunto simples de arquitetura, era uma coisa popular, e foi inabitável. A única coisa social que ele fez. Foi uma dessas máquinas de morar, inabitável. Não sei o que o governo francês fez com aquilo. O Senhor lia a revista L’Espirit Nouveau? Sim. Le Corbusier queria destruir Paris para fazer avenidas. Ele não gostava de um urbanista francês chamado Agache, aquele que fez o projeto para o Rio de Janeiro, que ele achava um absurdo. A casa para o Recife teve a participação de algum outro arquiteto? Não, era ele sozinho, desenhou a lápis. Foi impraticável, porque se fizesse a casa recuada, o sujeito defronte construiria outra na frente. Nós queríamos uma casa onde se avistasse Olinda, o istmo, o (bairro do) Recife com o Cais do Apolo, lá na rua da Aurora, no fim, em Santo Amaro. Tiramos fotografia para enviar para ele, da fortaleza do Brum, do Cemitério dos Ingleses. Foi por ali por trás, pensando no lugar mais apropriado para construir a casa, porque já se pensava no futuro. Continente . março, 02

Essas fotos da cidade foram entregues a Le Corbusier? Eu entreguei tudo a ele em 1928 (a data correta é 1929) no Rio de Janeiro. Ele pegou e ficou com tudo. Era meio maluco, ficou com aquilo andando de cima para baixo. Nos arquivos da Fundação Le Corbusier, em Paris, nada consta a respeito. Sim, pois não se pesquisa nada. A prova é que, por exemplo, o nome do Sr. Alberto Monteiro de Carvalho lá só é mencionado uma vez ou duas. É preciso que alguém vá à Fundação pesquisar, é possível que o material esteja lá, o que falta é dinheiro para essas pesquisas, essas fundações nunca têm dinheiro. Ele levou uma quantidade de fotografias enorme. Mas como eu disse a você, o temperamento dele não era fácil. Ele era brigão, meio malucão. A toda hora aparecem exposições com os desenhos dele. Com ele eu fiz parte do chamado Grupo Espaço. Nessa Fundação procurei o Grupo e não encontrei. Lá tem muita coisa sobre o Ministério da Educação. Sobre o Recife, nada. Precisamos reparar essa falta.

Colaboraram Raymonde Dias, Eduarda Belém e Hilton Lacerda.


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Recife, a pedra

Praça do Marco Zero, no Recife, com a Rosa dos Ventos criada por Cícero

Cícero Dias

Uma pequena explicação, suscinta, do caráter geométrico e literário. Há um plano circular, de uma circunferência, onde se procura contar a criação do mundo, particularmente a criação do Recife, numa praça – Eu Vi o Mundo, Ele Começava no Recife. Obra destinada à praça Marco Zero, na cidade do Recife, pelo artista plástico Cícero Dias, nascido no Engenho Jundiá, município de Escada, Pernambuco, residente em Paris, França. Obra que vem comemorar a chegada do século 21. Diz o profeta Ezequiel ter Deus criado o mundo com rodas. Diz Dante: com círculos. Por que não com círculos? No primeiro círculo, as águas calmas ou tumultuadas, nascia o Recife. No segundo círculo, uma cidade cheia de cores nascia nas encostas de terras virgens, limitada por corais que vinham à flor

das águas, visitada por poderosos veleiros. Entre suas irmãs pelo mundo – Amsterdam – terras de aluvião, trazidas por enxurradas. É um círculo todo circundando a Rosa dos Ventos, com sua própria graduação, em seus traçados geométricos, soprando em volta, pulando em vagas e mais vagas, a vertigem sideral do Universo. Assim passamos do século 13, este que Vasari ou Proust diziam ser “um dom de Deus”. E um círculo, formado de estrelas guiando o homem ao infinito, descobrindo o resto do mundo. Um século cobrindo outros séculos vindouros. Por fim, o último círculo, uma faixa azul celeste, envolvendo a Terra, em toda a sua extensão. Esta faixa que os antigos chamavam de pátria celeste.

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30 HOMENAGEM

A alegria de viver A história da pintura não conhece amores tão profundos e constantes. Foram mais de sessenta anos de convivência e harmonia entre a francesa Raymonde Voraz e o brasileiro Cícero Dias. Juntos suportaram as agruras da Guerra e saboreavam como um bom vinho cada um dos dias da arte que foi a razão de viver do pintor. Conheceram-se em 1941, apresentados por um pintor espanhol. Lisboa foi o primeiro grande lar deles, e um momento decisivo para a obra dele, que lá desenvolveu a fase “vegetal”, de transição para o abstrato. Raymonde sempre admirou muito a alegria de viver e o humor de Cícero. “São inesquecíveis também a sua grande modéstia e o seu amor à pintura que, era para ele, como uma necessidade fisiológica”, explica. A única filha do casal se chama Sylvia, que se formou em Ciência Política e se tornou pintora na maturidade, longe da influência do pai, no Panamá. “Foi o inconsciente, meu pai era tão importante, que eu achava ridículo pintar ao lado dele”. Afilhada de Picasso, o que ela mais reteve do ilustre amigo do seu pai foi o olhar. “O olhar espantado de quem descobria tudo pela primeira vez”.

Além de Picasso, a menina Sylvia conviveu com muitos outros artistas e escritores amigos de Cícero. “Posso dizer que no meu berço fui acompanhada por umas fadas que eram os poetas, como os poetas Eluard e Blaise Cendrars, que um me chamava de querida amiguinha e me aconselhou a não sair nunca da casa de bonecas.” Sensível à infância, Sylvia se comove com a lembrança da visita que fez junto com Cícero ao engenho Jundiá, onde ele nasceu. “Ele estava redescobrindo Jundiá, pois não o tinha visto desde que saíra do Brasil e quase não conseguiu entrar, de emoção, na casa e muito menos na capela, emocionado.” Mas a casa já não era a mesma. Estava arrasada. “Minha mãe contou aos mais jovens que a casa era maravilhosa antes, com móveis franceses, hoje é só um bloco de cimento.” Que influência exerceu o pintor Cícero Dias sobre a pintora Sylvia Dias? Nenhuma. Talvez em comum tivessem a poesia à Douanier Rousseau. “A minha pintura é a minha personalidade”, diz Sylvia. “Não acho que um pintor deva explicar a sua pintura, meu pai dizia que se deve conservar o mistério e eu respeito isso.”

Fotos: Nabor

Cícero e sua filha Sylvia Dias, em 1996, no ateliê do artista, em Paris Continente . março, 03


HOMENAGEM

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Raymonde, óleo de Cícero retratando a esposa, em Lisboa, 1944

Também conversou sobre esse mistério o escultor Jaildo Marinho. Ele era um cientista da cor e se interessava pela ordem do cosmo, do infinito”. O primeiro cosmo de Cícero Dias foi a infância na pequena cidade de Escada, revivida permanentemente na memória. “Ele me dizia que as pequenas explosões de cana ou bambus queimando tinham música”, comenta Jaildo. Eram lições de tempo. Mas os encontros com Cícero foram também lições de geometria para Jaildo. “Ele me explicou a composição Apoio, de 1968, e me disse que cada cor tem o seu mundo próprio”, lembra-se. Eram lições de espaço. Um homem sem ambição, que se deixou guiar pelo vento. É assim que Jaildo vê Cícero, que, como ele, atendeu à boa inspiração de Paris. Num dos últimos encontros que tiveram ainda deu tempo para ele apadrinhar um outro brasileiro, Aluízio Câmara.

A última exposição a que compareceu Cícero Dias foi também na companhia de Jaildo. Foram ver Modigliani. “Ele não gostou muito da montagem, me falou da paixão de Modigliani pela arte etrusca, olhou rapidamente os quadros e quis voltar logo para casa”, diz. O escultor havia tirado o molde da mão de Cícero para fazer uma escultura e lhe dar de presente no aniversário. “Ele catalisava amigos e sabia conservar as suas amizades”, diz Waldir Simões de Assis, editor, organizador e co-autor do livro Cícero Dias – uma vida pela pintura, com a ativa participação do artista. Ele está empenhado em preparar uma grande retrospectiva do pintor em Paris, em 2005, e tem trabalhado intensamente pela valorização do artista no Brasil e no exterior. “No último leilão da Bolsa de Arte, do Rio, um quadro de Cícero da década de 30 alcançou um preço superior a um Portinari com as mesmas dimensões”, informa.

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32 HOMENAGEM Simone Arruda e Thereza Diniz

A restauração dos murais na Secretaria da Fazenda Restauradoras explicam trabalho de recuperação dos primeiros murais abstratos da América Latina

Um conjunto composto por nove murais foi pintado por Cícero Dias em 1948, o que lhe concede o atributo de constituir-se o mais antigo exemplar de pintura abstrata integrada a uma edificação na América Latina. A falta de reconhecimento do valor da obra fez com que em torno de 1959 as paredes que continham 2 desses murais fossem demolidas e as demais tivessem sido encobertas por camadas de tinta. Este processo de “caiação” das paredes repetiu-se por diversas ocasiões ao longo dos anos seguintes, fazendo com que os exemplares remanescentes permanecessem encobertos até o início dos anos 80. Nesta ocasião a Secretaria da Fazenda do Estado de Pernambuco firmou um convênio com o Museu do Estado de Pernambuco a fim de que os murais fossem restaurados. A equipe de restauração, em um trabalho que durou quatro anos, chegou a remover até nove camadas de tinta das paredes. Em um dos murais, após a remoção das camadas só foram encontrados 5% da pintura original, dispersa em fragmentos. Nos seis murais restantes, a superfície da pintura original revelou-se bastante desgastada pelo processo de preparação para as “caiações”, pois ela havia sido lixada e em seguida recebido aplicação de uma resistente argamassa. Continente . março, 03

Lacunas na camada pictórica e áreas de retoque de intervenções anteriores

No início dos anos 90, ocorreu uma intervenção de conservação, sobre a qual não se encontrou documentação referente ao processo então adotado. Os murais têm como características comuns, serem pintura sobre parede de alvenaria de tijolo cerâmico. A camada pictórica original constitui-se de finas camadas de tinta, aplicadas com trincha larga, sobre uma base de preparação. O resultado desse processo deu à pintura mural a transparência própria das pinturas em aquarela. Passados vinte anos da primeira restauração, a mais recente, iniciada em março de 2002, encontrou como principal problema o descolamento da camada pictórica, além da degradação do material de restauro aplicado anteriormente; manchas causadas pelo acúmulo de fuligem, própria da atmosfera urbana, e o desgaste imposto pela ação do tempo e intempéries. Foram objetivos gerais da intervenção, reverter o processo de degradação causado pelo descolamento da camada pictórica, bem como resgatar a expressão cromática que o artista imprimiu a esse mural. Foi feita a remoção de elementos espúrios no suporte e preenchimento de lacunas com argamassa de cimento. O mesmo material também foi usado para a substituição de preenchimen-


Fotos: Matheos de Lima

HOMENAGEM 33

tos provenientes das intervenções anteriores que, em alguns caAo final dos trabalhos, para proteção dos murais, aplicousos, estavam desagregados do reboco original. se verniz específico para restauro, isento de brilho. Inicialmente foi feita a limpeza das áreas que não ofereO mural 1, de 1,10 x 5,72m, está localizado no pavimenciam risco de descolamento da pintura. Para a remoção das to térreo do edifício, à esquerda do observador, diante da sujidades foram empregadas primeiramente trinchas, sendo caixa-forte. O tema é uma paisagem praieira. Na composição posteriormente seguidos do uso de isopes umedecidos. Nas do mural o artista dispõe formas geométricas que abstraem o manchas pontuais, mais resistentes, causadas por excrementos tema, mar avistado da praia. Faixas coloridas representando o de insetos, a remoção se deu mediante aplicação de isopes céu, o mar, a espuma do mar e a praia que são interceptadas umedecidos com enzimas biológicas. por coqueiro (retângulos dispostos verticalmente). O mural 2, Já nas áreas fragilizadas pelo descolamento, após a refixanas mesmas dimensões, está no pavimento térreo do edifício, ção das mesmas, o mesmo processo acima foi seguido. à direita do observador, diante da caixa-forte. Este mural Para a promover a adesão ao suporte das áreas em descorepete o tema do anterior, mudando a posição do observador lamentos foi aplicado, com seringa ou pincel, um adesivo onde retrata a praia vista do mar. Com faixas horizontais, resintético. A ativação do mesmo e a planificação da superfície trata o céu, a areia da praia, a areia molhada à beira do mar, a foram feitas com calor, na espuma das ondas e o mar, temperatura recomendada respectivamente em: bege, amarelo-claro, amarelo-escupara esta aplicação. Concluíro, branco e verde. Intercepda esta fase, a remoção dos tando estas faixas, elementos resíduos do adesivo foi feita igualmente definidos, a parcom o uso de bucha de algotir de formas geométricas, dão umedecida em solução completam a composição: solvente. pequenos quadrados coloriObservou-se que as mandos justapostos representam chas, ocasionadas pela oxidaas construções à beira-mar; ção do verniz, ocorriam indistriângulos brancos destacam tintamente em varias seções as embarcações com suas vedos murais. Objetivando relas e arcos em verde-escuro verter esta situação, que interremetem aos caules dos cofere na leitura do mural, proqueiros. moveu-se a remoção das mesO mural 3 tematiza um mas com o uso de isopes umeengenho de cana-de-açúcar decidos em solução solvente. e está no pavimento térreo Foram removidos os retoques do edifício, próximo ao acesde intervenções anteriores exProcesso de aplicação de adesivo para fixação da camada pictórica so da rua do Imperador. clusivamente nas áreas onde se Outro dano que a ação interveio, corrigindo o nivelado tempo e intempérie ofereceram à conservação em especial mento das lacunas. desse mural decorre, provavelmente, da sua localização, próPara o preenchimento das lacunas presentes nos murais e xima a uma grande porta de caixilhos metálicos com vidro das áreas onde houve reconstituição do antigo nivelamento, transparente, que permite intensa incidência de luz do sol foi usada massa à base de PVA. Após secagem, as áreas foram poente na extremidade direita do mesmo. planificadas. Sobre a superfície nivelada e as áreas de pintura O mural 4 tem como tema o canavial e está no primeiro original foi aplicado, para proteção do mural, verniz específico pavimento do edifício. A paleta do autor deu ao “Canavial” para restauro, vaporizado por compressor. um colorido harmonioso, que ressalta preocupação formal da O reconhecimento de que as áreas de reintegração cromática composição que recebeu ordenação simétrica e onde a persconstituem importante elemento na história dos murais levou à pectiva é sugerida pela superposição de faixas longitudinais. opção de se manter para os murais aqui definidos como 1, 2, 3 e Em sua configuração original, o mural integrava-se perfeita5 o mesmo método adotado na restauração de 1985 – o uso de tratteggio ou tracejado – como técnica de reintegração cromente à arquitetura moderna do edifício-sede da Secretaria da mática, que permite ao observador identificar, à curta distancia Fazenda do Estado de Pernambuco. do objeto, as áreas de reintegração. Sua utilização responde ao O mural 5 tem como tema a paisagem das margens do rio princípio de reconhecibilidade das intervenções de restauro, ao Capibaribe. Suas dimensões diferem das demais: 2,14 x 3,08m. mesmo tempo em que se resgata o aspecto estético e se valoriza Está no nono pavimento do edifício. o histórico da obra. Continente . março, 03


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36 SONS Alípio Carvalho Neto

A verdadeira alegria de Armando Lôbo Fotos: Divulgação

Confesso-me, pois, completamente insensível ao prestígio da revolução. Todos os ruídos que possa originar não despertam em mim eco algum, posto que a revolução é uma coisa e a novidade é outra. Igor Stravinsky, Poética Musical

Há um tempo e uma necessidade que nem sempre o sotaque da época consegue definir. A música de Armando Lôbo é um destes casos. A infância do compositor foi fundamental para que sua voz própria se definisse. Neste Alegria dos Homens a força e o domínio de sua técnica conciliam os anos de aprendizagem e a maturidade do autor que ao imaginar realiza. A Alegria de Armando abre o discurso musical e temático para níveis diversos, o da religião é um deles e, talvez, aquele que descreve a anatomia crítica do disco: uma mandinga, um agnus e um pacto indolor com demônios em nome do amor. A Mandinga que abre o disco, em parceria com a brilhantíssima letra de Edison Nequete, é o primeiro aceno da conciliação entre uma composição vanguardista e uma prosódia perfeitamente afinada com a tradição. A utilização do saxofone, da trompa, do trompete, do trombone e do violoncelo nesta canção restaura a inteligência dos timbres habituais da “nova MPB”. Dois elogios críticos ao futebol vêm em seguida como apoios à grande paixão nacional. Em Um Minuto e Meio, particularmente, a linha melódica da canção acompanha a trajetória da bola na partida que ilustra o delírio. A Bossa encontra na harmonia o Continente . março, 03

Em seu disco, o compositor e cantor abre o discurso musical e temático para diversos níveis


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elemento acrescido ao costumeiro trato dado ao gênero. O tema da globalização recebe um comentário satírico dividido pelo interlúdio rítmico do 7/4, como espaço recorrente de reflexão harmônica e estrutural. Nesta bossa o parâmetro seguido por John Coltrane em seu Giant Steps, um acorde por nota, é também recriado por Armando, abrindo espaço para o solo inteligente de Matias Capovilla. Segundo Bachius o Velho, o músico “é o que conhece as evoluções que acontecem no decorrer das melodias” (hó eidós tá katá tás melodías symbáinonta). É este o contributo principal ao nível prosódico da canção que encontramos em Alegria dos Homens. O Sanfoneiro Mudo estabelece a gradual caminhada, ou marcha para ser mais musical, ao encontro das grandes novidades do disco. O Satie e o Luiz Gonzaga reencontrados pelo compositor criam o motivo de dois mundos, o velho e o novo, abolindo o prejuízo entre o erudito e o popular, destacando o gosto e a complexidade que em Armando fazem identificar esteticamente Nelson Cavaquinho com Villa-Lobos. A “filofonia” de Satie é a harmonofilia de Armando, aqui, novamente, o pensamento de Bachius retoma o pedal, o som é a mudança melódica de uma voz para a entoação, e se a voz assim o faz, viva a melodia! A sátira se despede antes do agnus com uma Crônica de um Envergonhado. A falta de vergonha, a maior “virtude” contemporânea, é confessada nesta canção mais falada do que entoada. A lembrança atual do discurso que envelhece todos os dias como a moda, a manipulação da individualidade do homem alegre em nome do cidadão triste, a neurose do inimigo comum destruindo a consciência subjetiva, são centrais no mea culpa do envergonhado. A apoplexia pop pipoca. O Agnus Dei é a nova viagem de volta da passacaglia para o domínio popular que sempre foi o seu. Aí é que realmente vai depender da fé de cada um, pois para quem não conhece e não entende o melhor comportamento é mesmo ficar de fora observando. O núcleo barroco seguido pela Ciência, Alegria dos Homens, com parafernália techno de rimbaudianos ruídos novos (bruits neufs), recebe a coroa naquele que talvez seja o primeiro

frevo intencionalmente escrito em forma de fuga, Bachiando no Frevo. Armando presta uma grande homenagem à sua predileção ancestral pelo frevo como expressão musical pernambucana por excelência. Interessa-lhe a violência mundana e barroca do gênero, a habilidade contrapontística de seus mestres, Nelson Ferreira principalmente. Esse é o primeiro dentre a série futura de seus “frevos bem temperados”. O Menino João Maria é o segundo grande e honesto tributo a Pernambuco, agora através de um contraponto literário com um de seus maiores gênios, Gilberto Freyre. A fragilidade da personagem do Dona Sinhá e o Filho Padre, o José Maria, encontra sua thésis no João Maria de Armando, a semi-novela e a canção inteira dialogam. É, sem dúvida, uma das composições que mais exigem tecnicamente do cantor. A voz assume sua função definitiva no artifício da canção, aproximando Armando Lôbo de Nelson Cavaquinho, Chico Buarque e Tom Jobim entre poucos que conseguiram domar o terrível engenho do canto. O repente numa harmonia caledoscópica é tarefa para mestres. Na Lei da Vitimização, mais uma vez, a utilização gráfica do discurso musical é aplicada. Onde a letra diz “Desce o Morro do Pavão [...]” e “Sobe o Morro do Pavão[...]”, a melodia segue-lhe de imediato o percurso. Há caboclinho e uma utilização variadíssima dos instrumentos como suportes coreográficos do tema. O Futebol Iraniano é um inteligente frevo de bloco em 7/4, alternando a fórmula da estrofe rítmica entre 3-2-2 e 2-2-3. É disso que precisa o frevo, de sobrebiver e renovar-se, aceitar-se novo e de hálito fresco. A vitória da seleção iraniana sobre a equipe americana na Copa de 94 está na lírica de Armando com um tratamento digno de ser adaptado ao roteiro de um filme tanto quanto estritamente ao corpo da canção. O coro de vozes femininas é uma declaração explícita do compositor pelo amor à mulher velada ou desvelada, Samira Makhmalbaf, Eva e maçã contemporâneas, preparando o ouvinte para o amoroso golpe final. Eis o Soco Indolor, pura canção de câmara, a força contrapontística do sólido e humano edifício musical de Armando Lôbo ganhando uma alegoria definitiva. Violino, violoncelo, piano e voz fazem a celebração da maior das alegrias, a de imaginar sobrepondo-se a de viver. O pacto sonoro, o domínio do mais invisível na canção, para não dizer inaudível, é festejado numa delicada trama a quatro vozes. “Renunciando ao Amor eu quis / Do eterno me livrar, adeus [...]”, este amor maior é o da opção consciente pela danação criativa que define a estratégia composicional de Armando ao ultrapassar o incolor do quadro musical em guarda. Cantar com revigoradas manias o mesmo tema, avançando no maná da invenção. Golpe de misericórdia? Vanguarda? Transbarroco? Nada disso interessa se a chamada MPB não restaura o banho de sangue que sempre a definiu, chega de bálsamo pequeno burguês para os ouvidos e de atitudes no salão de beleza. A hora é para a coragem, o esforço, a honestidade e o prazer. Para não falar de sua obra como compositor erudito (sonata, sinfonia, ópera etc.)... Alegria dos Homens de Armando Lôbo. Vive la différence!!! À novidade... Continente . março, 03


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38 SONS Jacineide Travassos

Um perfeito equilíbrio Ouvir Alegria dos Homens de Armando Lôbo é colher o grão de uma voz que consegue o perfeito equilíbrio entre timbre e letra. A música de Armando Lôbo é uma arte de conduzir o nosso corpo, é uma linguagem revestida de pele, uma espécie de estereofonia da carne profunda pelos temas de que trata, pela pesquisa de ritmos que apresenta. Os elementos do jazz, da bossa, do samba, da canção, do frevo, os instrumentos musicais, a polifonia barroca, estão nesta obra revigorados. As contradições do amor, o jogo de identidade cultural, a violência e a ternura dos gestos amorosos, do social, dos subúrbios, da religião, dos cultos místicos, o caráter alegórico do futebol, são também renovados nas letras de Alegria dos Homens. Ao modo de Nelson Rodrigues, em suas Novas Crônicas de Futebol, Armando Lôbo põe a nossa pátria em chuteiras, onde o torcedor, indo além dela, encarna o Horácio shakespereano e indaga o mistério da existência. A partida de futebol é o jogo da própria vida que não acontece sem um mínimo de absurdo, fantástico, sonho e morte. Assinalando o barroquismo de Alegria dos Homens, Maria ora alcança um sentido lírico-sensual, capaz de emudecer um sanfoneiro, ora um sentido andrógino-social, ela é também a ternura implícita no menino – pobre-delinqüente – João Maria, e por fim sacro: a Maria dos andores, capaz de redimir. Tais movimentos remissivos renovam, tematicamente, a fuga de Bach, onde nenhuma repetição repete apenas. Podemos ousar dizer que Maria representa um espécie de leitmotiv temático wagneriano em fuga musical bachiana. Em Alegria dos Homens as composições são ao mesmo tempo autônomas e dependentes umas das outras, o que pontua a unidade estrutural da obra e arquitetonicamente lembra-nos, também, o dinamismo funcional de Le Corbusier que concebia a casa como uma machine à emouvoir (máquina de emocionar). Alegria dos Homens é um olhar cotidiano sobre o erudito. Eis a singularidade deste disco que recria com toda força a música popular brasileira em um tempo vulgar de pagodes e tchans. A erudição de Armando Lôbo jamais participa da simples “estética do efeito”, junção imperfeita do popular com o erudito, que é fácil e antinatural, ou seja, jamais abusa da estética do larvatus prodeo, onde se usa a máscara apontando-a com o dedo, chegando-se ao kitch, no sentido de expressão falsa da experiência estética, ou mesmo mau-gosto. Tudo em Alegria dos Homens é síntese, o cravo não desmente a guitarra. Os metais, as madeiras e as cordas vibram, nas composições de Armando Lôbo, contrapontísticamente, mostrando-nos que não há só letra e voz, mas música. A obra de Armando Lôbo não participa apenas do jogo binário da mera oposição, tanto no plano temático quanto formal, tratase de uma polifonia bachiana onde as várias vozes representam uma unidade diversa. Eis o verdadeiro Barroco. Armando Lôbo soube captar em sua música a verba volant, a palavra articulada que se desvanece, imprimindo-a no som dos instrumentos, como bem ilustra a bela fuga instrumental Bachiando no Frevo. O poeta Paul Valery, em Memórias de um Poema, afirmava não saber o que fazer com os ritmos que lhes chegavam inesperadamente antes de se articularem com o significado da frase e dizia só dominar perfeitamente as idéias inesperadas. Armando Lôbo, superando essas dificuldades, demostra que compor é dominar ritmo e palavra, é articular a palavra-som, imprimindo caráter mítico-poético às suas letras, em uma espécie de ut musica poesis, a música como a poesia. Ao modo de Aristóteles, pelo caráter musical-poético, trágico-existencial – e ao mesmo tempo terno e brincante de Alegria dos Homens – poderíamos naturalmente convidar o ouvinte a não só cantar as músicas deste disco, mas a entoar ditirambos (poesia que privilegia a música, desde a Antigüidade ocidental). O que dizer mais sobre o cantor e sua obra? Louvamos o empreendimento artístico de Armando Lôbo que não só canta, mas compõe as letras, toca e faz os arranjos de suas músicas, eis que estamos diante de um artista completo, de um homem-orquestra.

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Partituras revisitadas Obra de compositor popular pernambucano dos anos 20 e 30 está agora acessível

O músico recifense Raul C. Moraes (1891-1937) ganhou o epíteto de “Príncipe das Marchas-de-bloco”. Entretanto, esse compositor, letrista, pianista e arranjador produziu, em seus 46 anos de vida, um grande repertório de ritmos variados, do tango à valsa, do fox-trote à marchinha, do frevo-de-bloco ao fado, passando por classificações curiosas, assinaladas por ele próprio, como samba carnavalesco, canção regional ou cantiga carnavalesca. Começou como pianista nas casas de diversões do Recife, como o Café Chic Juventude e o Cine-Teatro Helvética. Em maio de 1910, foi contratado para acompanhar uma dupla de cançonetistas em excursões pelo Norte e Sul do País. Em decorrência, recebeu convite para atuar como professor da Academia de Canto Musical de Porto Alegre, onde viveu durante dez anos, regressando ao Recife em 1920. Participou de diversos festivais de música no Recife. Como maestro, atuou na Rádio Clube de Pernambuco. Excursionou por diversos países, tais como Argentina, Portugal e Alemanha. Está presente na discografia brasileira desde 1918 com o samba carnavalesco Iaiá me Diga, gravado por Geraldo Magalhães e lançado pela gravadora Phoenix, sob o nº 240. Em 1974, a fábrica de discos Rozenblit lançou o LP Edgar e Raul Moraes, onde o pesquisador Leonardo Dantas resgata algumas músicas inéditas de Raul e Edgar Moraes. Seu nome está indissoluvelmente ligado ao Carnaval de Pernambuco. Mas andava esquecido. Essa lacuna foi coberta, com o lançamento, em fevereiro, pela Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco, da monografia Raul Moraes – Repertório Variado, organizada pelo jornalista e historiador Leonardo Dantas Silva. O ponto alto do trabalho é a reprodução, em fac-símile, de partituras originais e letras de 25 composições de Raul, irmão de outro músico famoso no Carnaval pernambucano – Edgar de Moraes. Autor de composições que marcaram as décadas de 20 e 30, Raul Moraes havia sido lembrado em 1957 pelo maestro e compositor Nelson Ferreira que, na sua célebre Evocação, cita dois versos da marcha-regresso do Bloco das Flores, composta em 1924: “Adeus, adeus minha gente, que já cantamos bastante”...

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A monografia reproduz, em fac-símile, as letras e partituras originais de 25 composições

Depois disso, não se voltou a falar (ou a ouvir) as músicas de Raul. Leonardo Dantas confessa que seu interesse, ao publicar a monografia, foi o de divulgar as composições: “Entreguei exemplares aos chefes de orquestra dos principais blocos do Recife, pouco antes do Carnaval, assim como a maestros, pianistas, bibliotecas e fonotecas. A obra de Raul não pode ficar esquecida”. Além do trabalho de arqueologia musical, Leonardo assina o texto introdutório onde, em 31 páginas, aborda outros aspectos do Carnaval recifense, como o renascimento, nos últimos anos, dos blocos mistos (hoje mais conhecidos como blocos líricos), que saem às ruas acompanhados por orquestra de pau-e-corda (violões, cavaquinhos, banjos, reforçados por percussão e alguns instrumentos de sopro, como trombones, trompetes, flautas e clarinetas), desfilando num compasso suave, em contraposição aos clubes de frevo rasgado. Também lembra agremiações memoráveis, como antigo Apois Fum, e carnavalescos legendários, como Fenelon e João Santiago. Do repertório recolhido pelo autor, a maioria trabalhos do ano de 1924, constam pérolas como as partituras e as letras de canções como Bemdicta entre as mulheres! (valsa romântica), O sabiá (cantiga carnavalesca), Minha terra (canção regional), Murmúrios da noute (valsa espanhola) e Jazzmania (schimmy-jazz), além do Regresso, do Bloco das Flores. Tudo lançado, à época, por editoras musicais como as pernambucanas Casa da Música, Casa Ribas, Azevedo Junior & Cia e Prealle & Cia, além da carioca Casa Bevilacqua.

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40 SONS Rodrigo Carrero

Os cafonas contra-a atacam

Resgate sistemático da periferia brasileira atinge agora a geração dos artistas bregas dos anos 70 Fotos: Divulgação

O cânone oficial da música brasileira identifica o hiato histórico entre 1968 e 1978 – o período de validade do Ato Institucional nº 5 – como um dos períodos áureos da MPB clássica. Falar da música produzida nas metrópoles nacionais, nos anos de chumbo, é sinônimo de resistência cultural e/ou hibridismo pop. Uma boa olhada nas pesquisas históricas sobre a música da época vai passar obrigatoriamente por nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Elis Regina. Aos artistas da MPB de protesto, de caráter político, ainda é possível somar Roberto Carlos e Raul Seixas (este último, porém, apenas tardiamente alçado ao panteão dos grandes artistas). Mas um baiano de 40 anos quer mudar essa panorama à força. O livro Eu Não Sou Cachorro, Não – Música Popular Cafona e Ditadura Militar (editora Record, 458 páginas, R$ 40,00) fala grosso e reivindica um lugar no Olimpo da MPB para os chamados artistas bregas da década de 70. O trabalho de Paulo César de Araújo, um professor de História que dá aulas de manhã, à tarde e à noite, em três escolas públicas cariocas, busca realizar o resgate histórico de cantores como Paulo Sérgio, Waldik Soriano, Odair José, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned. Para Paulo Sérgio, desmistificar a geração dos cantores cafonas (ele detesta a denominação ‘brega’, que associa aos movimentos musicais populares da atualidade, como o funk carioca e a cena ‘papudinha’ de Belém do Pará) é uma questão de honra. O maior objetivo do livro, segundo o autor, é provar que nenhum dos antigos ‘cafonas’ era dedo-duro ou fazia apologia ao regime militar. “Esses cantores exerciam, a seu modo, uma resistência política e cultural tão grande ou Continente . março, 03

Professor de História, o baiano Paulo César de Araújo especializou-se em música brega

maior do que os nomes consagrados da MPB”, afirma Paulo César. Para ele, a maneira encontrada pelos cafonas para retratar os problemas derivados do autoritarismo do regime militar era traduzida em músicas simples, de arranjos pasteurizados e formato convencional, e em letras que explicitavam os problemas do cotidiano desses artistas (que, devido à falta de educação básica, sequer compreendiam o contexto político da época). “Entre 1968 e 1978, essa geração de artistas procurou expressar em suas composi-

ções as questões que, como pessoas do povo, tiveram que enfrentar. Produziram uma obra musical que, embora considerada tosca, vulgar, ingênua e atrasada, constitui-se de um corpo documental de grande importância, já que se refere a segmentos da população brasileira historicamente relegados ao silêncio. Muitas das letras do repertório cafona se revelam pungentes retratos da nossa injusta realidade social”, escreve o autor. Sem papas na língua, ele classifica o trabalho como um “livro de guerrilha”, na


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medida em que ataca frontalmente o das à música nacional. Tinhorão e colegas cânone oficial da MPB. O livro Eu Não famosos, como Ricardo Cravo Albin, acaSou Cachorro, Não está repleto de ataques bam ignorando, de forma totalitária e consa grandes autores da MPB do período. O ciente, o espaço generoso que esses comtrabalho bate pesado em compositores copositores ganhavam nas camadas mais mo Jorge Benjor, Chico Buarque e Zé populares. As canções de Paulo Sérgio e Kéti, todos com canções e/ou entrevistas Carlos Alexandre, afinal, conseguiam uma exaustivamente dissecadas. Paulo César penetração nas favelas e subúrbios do Brasil queria comprovar que, em determinados como Chico e Caetano jamais conseguimomentos, esses artistas (vistos pela história ram chegar perto. oficial da canção popular brasileira como A pesquisa custou ao autor os finais de focos da verdadeira resistência à ditadura) semana e muitas madrugadas de trabalho. também ajustavam seus discursos para serO baiano dividiu o trabalho em quatro etavir ao regime militar. Benjor é um bom exemplo disso. Em pleno 1970 (ano do governo Médici e do famoso lema “Brasil, ame-o ou deixeo”), o homem que traduziu a ginga carioca em sons gravou uma canção chamada, sintomaticamente, Brasil, Eu Fico: “Este é o meu Brasil/ Cheio de riquezas mil/ Este é o meu Brasil/ Futuro e o progresso do ano 2000/ Quem não gostar e for do contra/ Que vá pra...”. Enquanto isso, Odair José tinha músicas e mais músicas censuradas em Brasília, tornando-se o compositor brasileiro que mais teve canções vetadas até hoje. Todas essas informações, obtidas através de sete anos de pesquisa dividida em quatro etapas, são utilizadas por Paulo César para sustentar uma polêmica até certo ponto ingrata. Afinal, para resgatar a geração esquecida dos cafonas, ele não precisava atacar tão violentamente a contraparte hegemônica da MPB. Benjor preferiu não se ma- O livro é resultado de uma pesquisa em 1000 discos, 300 reportagens e mais entrevistas com os cantores nifestar em relação às acusações. pas. Começou reunindo e catalogando toJá Caetano Veloso, seguindo o mesmo esdos os discos que conseguia encontrar, em tilo freqüentemente polêmico de lidar com sebos e camelôs de várias cidades, dos artissituações embaraçosas, elogiou o livro abertas do período enfocado. Entre compactos tamente. Chico Buarque reclamou. e LPs, Paulo César reuniu uma coleção de De qualquer forma, não apenas os múmil discos. A partir daí, começou a realizar sicos que construíram a MPB dos livros de uma análise do conteúdo das letras das canHistória são criticados. Os autores desses ções. Descobriu que os artistas falavam detomos, historiadores musicais de renome mais de sexo – a principal razão pela qual internacional, do naipe de um José Ramos eram considerados subversivos e continuaTinhorão, também são acusados de silenmente censurados, como iria comprovar ciar e omitir a obra dos cafonas das enciclomais tarde, pesquisando os acervos da divipédias historiográficas mais clássicas dedica-

são de censura da Polícia Federal do Rio de Janeiro e de Brasília. O especialista, então, vasculhou bibliotecas de jornais e revistas da época. Ao todo, Paulo César reuniu 300 entrevistas e reportagens escritas sobre a música cafona. Numa terceira etapa, passou a entrevistar os músicos e compositores do período, reunindo mais de trinta horas de fitas gravadas. Nas entrevistas, ele confirmou a alienação política dos artistas cafonas, quase todos oriundos de classe baixa e com colegial incompleto. Para Nelson Ned, que era operário de uma fábrica de chocolates já aos 12 anos, o AI-5 não tinha nada a ver com a vida dele: “era como uma sonda em Marte”. Agnaldo Timóteo, que chegou a ser deputado federal pelo PDS (depois de vender pastéis e lavar carros desde os nove anos) e admite no livro, pela primeira vez, a homossexualidade, afirma que não lembra sequer em que ano o AI-5 passou a valer. Entre 1997 e 1999, o baiano leu os anotações dos censores a respeito dos artistas cafonas. No livro, Paulo César de Araújo recorre a uma debate relativamente comum para justificar o esquecimento forçado a que foi submetida a geração dos cafonas. Para o autor, os historiadores brasileiros (de todo e qualquer setor) costumam exaltar apenas formas musicais que se enquadram em dois metadiscursos, a tradição e a modernidade. Como tradição, na MPB, deve-se entender os estilos musicais folclóricos, derivados de uma cultura popular supostamente pura: samba e forró de raiz, maracatu e ciranda, por exemplo. A modernidade, por sua vez, é associada a estilos sofisticados e experimentais, como a bossa nova, o tropicalismo e a própria MPB de protesto dos anos 70. Segundo Paulo César, tudo o que não se encaixa nessas duas vertentes interpretativas da cultura brasileira – desde os cafonas ao rock/pop dos anos 80, dos regueiros do Maranhão ao funk (?) de Kelly Key – acaba sendo deixado de fora da História oficial da MPB.

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Van Gogh

O artista como sofredor exemplar

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Ninguém encarnou como Vincent Van Gogh a imagem do gênio incompreendido. Nascido em 30 de março de 1853 – há 150 anos, portanto, passou a dedicar-se ao desenho e à pintura seriamente só aos 27 anos – depois de ter tentado ser vendedor de obras de arte, professor de meninos, balconista de uma livraria e evangelizador de leigos; dez anos depois se suicidou. Deixou ao todo 800 obras, sendo que suas obras-primas mais conhecidas foram pintadas em ritmo frenético – às vezes duas num só dia – durante os dez últimos anos. Anos pontuados pela miséria e por crises de loucura, numa das quais cortou a própria orelha, enviando o pedaço a uma prostituta. Em toda a sua vida produtiva, como artista, foi sustentado pelo seu irmão mais novo, Theo. E só conseguiu vender um único quadro, por um preço irrisório. Dono de sensibilidade agudíssima, alternava crises de irritação, nas quais parecia estar possuído, com gestos de ternura tão extremados quanto: Continente . março, 03

Auto-retrato com Chapéu de Feltro, 1886. Óleo sobre tela, 41 x 32,5cm. Rijksmuseum Van Gogh, Amsterdã

certa vez gastou seus últimos centavos comprando comida para um cão moribundo. Quando se apaixonava, era de tal forma arrebatado, que assustava as mulheres. Como quando pediu a sua prima viúva, Kee Vos, para convencê-la de seu amor, o tempo que suportasse colocando a mão sobre a chama de um lampião. A rejeição, a miséria, a solidão, doenças físicas provocadas pela fome e pelo contato com prostitutas, a própria sensibilidade exacerbada e as crises de alucinação que começaram a atacá-lo, levaram-no a encerrar a vida com um tiro no peito, aos 37 anos. Tomado de desgosto, seu irmão Theo morreu seis meses depois. De todo este sofrimento ficaram algumas das mais luminosas e belas obras de arte da história da humanidade, deixando admiradores sem fim, como o pintor pernambucano Francisco Brennand, que cedeu trechos inéditos de seus Diários, em que tece comentários sobre o gênio holandês.


CAPA 43 » Francisco Brennand “Num velho terraço no bairro das Graças, entre mangueiras, que deixavam filtrar uma luz muito especial, inúmeras vezes o poeta Tomás Seixas insistia que se algum homem de ciências porventura pudesse ser canonizado, este seria Thomas Edison, aquele que fez da noite um dia interminável. Se não discordava, pelo menos, com o mesmo rigor, admitia que entre os santos só caberia mais um: Vincent Van Gogh, o artista como sofredor exemplar. Propriedade Santos Cosme e Damião – 1991 11 de janeiro Resolveu, sem nenhuma indecisão, reencontrar a comovente e quase angelical linguagem das cartas de Vincent Van Gogh ao seu irmão Theo: “Agora consegui guardar o grande retrato do carteiro, e também sua cabeça que te envio anexo. Tudo realizado numa só sessão. Eis aqui o meu forte: em uma só sessão pintar o bom homem, mesmo que toscamente. Se as forças não me faltassem, meu querido irmão, faria sempre assim, beberia com o primeiro que chegasse e o pintaria; não à aquarela e sim a óleo, durante uma sessão à Daumier” (15 de agosto de 1888). 12 de janeiro – sábado Algumas pessoas, e mesmo pintores, costumam fazer pouco (Gauguin, sobretudo) dos gostos de Van Gogh por certos artistas de talento e origem duvidosos. Ele referia-se especialmente às preferências do grande artista por pintores assim chamados de segunda classe, e às vezes até de terceira e quarta classes. Não se apercebem, esses senhores, inclusive Gauguin, que Van Gogh, com a sua extraordinária visão, poderia “ver o tudo em cada coisa”, ir bem mais longe, bem mais no fundo que a percepção de qualquer um deles. Numa carta datada de Londres, janeiro de 1874, Van Gogh enumera uma lista de colegas, citando nada mais nada menos do que cinqüenta e quatro artistas, todos merecedores de sua fraternal admiração. Pelo menos, entre tantos pintores, quinze deles não lhe eram desconhecidos. O restante, bem... o restante deve ser mais ou menos o que Plotino dizia: “Sábio é aquele que sabe ler tudo em todas as coisas, e tudo é tudo”. Fotografia de Vicente Van Gogh, cerca de 1866 (aos 13 anos). Rijksmuseum Van Gogh, Amsterdã

Sorrow, 1882. Litografia, 38,5 x 29cm. Rijksmuseu m Van Gogh, Amsterdã

15 de janeiro Se fosse lido há alguns anos, não teria dado a menor atenção a esse texto de Van Gogh. Alçaria os ombros e logo um certo sorriso lhe afloraria nos lábios. Mas hoje as coisas tomaram outras direções e já era capaz de descobrir, não o oculto, que não interessava, mas exatamente a verdade que sobrenada na superfície das coisas. Leu e releu três vezes e leu também uma quarta vez. Sim, era capaz de compreender. Este fato lhe alegrou. Diz Van Gogh: “C.M. me pergunta se não me agradaria uma jovem que fosse bela, ao que eu lhe disse que me sentiria muito mais à vontade com uma que fosse feia, ou velha, ou pobre, ou desgraçada, pela única razão de supor que, assim, houvesse adquirido inteligência e uma alma pela experiência da vida e de suas comprovadas desgraças”. Nota: C.M. é uma abreviação do nome de um tio de Vincent, chamado Cornelius-Marinus (carta a Theo – Amsterdam, 9 de janeiro de 1878). 26 de janeiro Decididamente Van Gogh não se considerava um paisagista: “Se faço paisagens, haverá sempre dentro delas vestígios de figuras”. 28 de janeiro No começo dos anos oitenta, ele insistiu em procurar um elo entre a extrema liberdade dos desenhos realizados para as esculturas e a sua maneira habitual de interpretar os corpos femininos, quando pintava diante dos modelos. De fato, jamais conseguira sequer aproximar-se dessas “vertigens” de desregramentos que o levavam sem remorsos ao duplo, ao dualismo, ao ambivalente, ao polivalente. Agora, diante de uma simples litografia de Van Gogh, cujo título Sorrow em letras de grande formato, não deixava nenhuma dúvida quanto às suas reais intenções, verificou que o conjunto lhe ocasionava a mais atenciosa reverência, reconhecendo não poder Continente . março, 03


» 44 CAPA

Café Terrace à Noite, 1888. Óleo sobre tela, 81 x 65,5cm. Rijksmuseum Kröller-Müller, Otterlo

deixar de pensar na prodigiosa visão expressiva desse desenho um tanto canhestro, na sua excessiva linearidade simplificada (talvez propositada). Acontece que Van Gogh conseguira, na sua dolorosa gravura, uma força tamanha de expressão plástica, que dificilmente em toda arte moderna poder-se-ia encontrar algo semelhante. Embora à primeira vista não passasse de um desenho que beirava o sentimentalismo de algumas ilustrações de caráter duvidoso, próprias para magazines (envolvendo o seu título redundante), mas que, no entanto, ultrapassando aquela consentida voluptuosidade de todo e qualquer nu, chegava aos arcanos da ofendida dignidade humana. Vincent conhecia o origem daquela prostituta vinda das ruas, dando-lhe abrigo e a mão protetora; depois a fizera pousar despida com a sua desgraçada e friorenta aparência. Sem qualquer reserva, o resultado desse insólito trabalho, duramente conseguido, ultrapassava todos aqueles que antes e depois dele tentaram representar as dores do mundo, mesmo Picasso com seu magistral Guernica; mesmo Goya representando os Horrores da Guerra; inclusive até Rembrandt do último período quando os seus trabalhos foram feitos quase sempre “sob o peso de uma dor permanente”. Num dos desenhos preparatórios para essa litografia, há uma observação que Van Gogh aproveitou de Michelet: “Como é que pode existir na terra uma mulher que seja sozinha e abandonada?” 30 de janeiro de 1991 Van Gogh: “Em um certo sentido, estou muito contente de não haver aprendido a pintar.”

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13 e 14 de fevereiro Durante quatro horas ininterruptas pintou uma paisagem, tentando conservar a palheta com cores as mais claras possíveis. No fim da tarde, ao ver a tela, disse com os seus botões: “Nada acrescentou ao meu trabalho, nem tampouco suprimiu...” Ainda não seria neste momento que batizaria a paisagem de Mosaico em Cores Claras. Continua a releitura do seu Van Gogh, e, como sempre, surge do espesso bosque de sua ignorância (jamais ouvira falar nos nomes desses aquarelistas citados tão ardorosamente pelo mestre) uma plêiade de cavalheiros misteriosos: Pinwell, Walker Herkomer e o belga Meunier. Era gratificante quando descobria um nome conhecido: “Havia escutado falar de Libermann...” diz Van Gogh. Apesar da exigüidade da informação, ele não tinha dúvida de que se tratava do pintor alemão Max Libermann, filho de uma influente família berlinense, amigo de Anton Mauve, a quem tanto Van Gogh se refere. Recordava que em meados dos anos quarenta, o seu amigo Ariano Suassuna foi a primeira pessoa a descobri-lo e admirá-lo como pintor. Juntos se extasiaram com a nobre e bela matéria colorida de Libermann. Comovia-o nas cartas de Vincent, sobretudo o seu tom, apaixonada sinceridade, mesmo quando se referia apenas aos materiais de trabalho. Às vezes o espírito do artista era tão forte – embora jamais tenha sido essa sua intenção – que os seus textos se confundiam com aquilo que chamam de boa literatura. “(...) As árvores eram soberbas; quase diria que havia um drama em cada uma delas. E, apesar de tudo, o conjunto da paisagem era sempre mais belo do


CAPA 45 »

que as árvores, atormentadas, consideradas cada uma, intrinsecamente – sobretudo porque o momento era tal -, pequenas e absurdas copas que tomavam um aspecto estranho, molhadas pela chuva e tangidas pelo vento. Esta imagem me fez ver de que maneira também um homem, de aspecto e atitudes absurdas, ou cheio de caprichosas excentricidades, bastasse tão somente que se sentisse tocado por uma dor verdadeira, ou que lhe atingisse uma desgraça, para transformar-se, de pronto, numa figura dramática de um extraordinário caráter”. 6 de março Ele estava refletindo, depois de ter folheado algumas reproduções de Van Gogh, no fascínio irresistível que tinha esse holandês em representar as coisas sólidas. Um seu amigo de São Paulo, professor Flávio Mota, além de ser um dos pioneiros e colaboradores para a fundação do MASP, seria por vocação um pintor nato, não fossem seus compromissos na Escola de Arquitetura de São Paulo. Costumava observar que A Cadeira com Cachimbo, de Van Gogh, além de ser uma contundente obra-prima de pintura, deveria ser utilizada didaticamente como estudo obrigatório para todos aqueles que desejassem aprender a pintar. “Prodigiosamente sólida e bem pintada”, repetia inúmeras vezes, o bom amigo Flávio. Foi a sua vez de lembrar, igualmente, o quanto essa cadeira influenciou os Picassos dos anos da guerra, até a sua ida ao mediterrâneo quando esse mestre, “com mulher nova”, dedicou-se à alegria de viver. Ele não podia esquecer também a admirável Cadeira de Gauguin, homenagem e uma quase declaração de amor do holandês, pelo mestre de Pont-Aven. Outrossim, não conhecia na história da pintura uma mesa de bilhar tão esquisitamente desenhada (apesar da sua rigorosa perspectiva), quanto aquela do Café da Noite de Van Gogh. O Quarto de Vicent em Arles, com a sua magnífica cama amarela, demonstrava a solidez absoluta na madeira provençal. A respeito desse quadro, numa carta ao seu amigo Gauguin, o holandês escreveu: “Divertiu-me muito fazer essa pequena cena interior de tão pouca importância em si: com tons discretos mas pincelados com largueza e pincel cheio: as paredes, lilás pálido; o assoalho, um vermelho diluído e esmaecido; as cadeiras e mesas, em amarelo-cromo; o travesseiro e os lençóis, em pálido verde-limão; a colcha, em vermelho-sangue; criado-mudo, laranja; a bacia, azul; e a janela, verde. O que desejo exprimir é um sentimento de repouso absoluto mediante todas essas cores diferentes sem nenhum branco, exceto pequena nota no espelho emoldurado de preto”. Da mesma forma, sabia admirar a solidez dos retratos bem estruturados, realizados por Van Gogh, mas nenhum deles tão impressionante quanto o de Armand Roulin, com chapéu azul na cabeça e paletó amarelo. Definitivamente, estava ali um elo de ligação entre toda a arte do retrato clássico holandês e o caminho aberto para as mais diferentes variações da pintura moderna.”

Caveira com cigarro, 1886. Óleo sobre tela, 32,5 x 24cm. Rijksmuseum Van Gogh, Amsterdã

A asa da loucura A editora Comunigraf está lançando o livro Vincent Van Gogh: Gênio, Criatividade e Psicopatologia de Sara Riwka B´raz Erlich, com texto em português, inglês e holandês. O objetivo é refletir sobre como a loucura do pós-impressionista afetou sua pintura, buscando entender sua genialidade e criatividade. A associação da loucura com a arte é muito antiga. Não foi só em Van Gogh que essa ligação aconteceu. Baudelaire um dia comentou: “Esta noite a asa da loucura passou por mim”. Porém, muitos outros se tornaram gênios do mundo artístico sem nunca terem chegado perto da linha tênue que separa a consciência da insanidade. O livro, baseado em teorias de diversos pensadores, tenta mostrar essa problemática. A personalidade criadora de Van Gogh existia antes dele ser acometido da loucura. Se assim não fosse, bastava ser louco para ser considerado um artista. Por outro lado, não se pode negar que, de alguma forma, a doença afetou sua arte. A espontaneidade, a irracionalidade e a liberdade do inconsciente podem ter agido como libertadores da criatividade. Vale salientar que o livro não se propõe a classificar ou identificar o tipo de doença psíquica que atingiu o artista. Vincent Van Gogh: Gênio, Criatividade e Psicopatologia Sara Riwka B´raz Erlich Editora Comunigraf 66 páginas Preço: R$ 20,00

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» 46 CAPA Mário Hélio

Destinos em fuga Se Van Gogh escapou da vida pelo suicídio, seu amigo Gauguin passou a vida fugindo da civilização Foto: Reprodução

Não dá para falar dos 150 anos de nascimento de Van Gogh (completados no dia 30 deste mês) sem referir o centenário de morte de Gauguin (a fazer-se em maio próximo). Eles são daqueles pares opostos de que, por ironia ou conveniência, se nutrem os contrários. Van Gogh e Gauguin são mais do que uma repetição de letras. Consoantes são pelo destino atroz quando, buscando um o paraíso ou o purgatório dos trópicos, o outro abismando cada vez mais intencionalmente sem remédio o inferno provável de si mesmo. Se não é possível pensar em Van Gogh sem evocar num ou noutro momento a figura de Gauguin, talvez pudesse ser necessário pensar neste lembrando Rimbaud. Ambos foram europeus que a si mesmos se exilaram, mas, de modo muito curioso, têm trajetórias opostas. Sabe-se que Rimbaud abandonou a poesia no auge, para tornar-se um homem de negócios que sonhava em ter uma estável família, dentro da mais perfeita ordem. Mas paradoxalmente, não se dava na Europa fria. Gauguin era um homem de negócios que tinha uma estável família, em perfeita ordem, quando resolve sair da vida convencional para mergulhar no desconhecido que ombreia com o selvagem (Camile Pissarro definia-o como um “horrível homem de negócios, pelo menos na forma de pensar”). A arte nele foi uma conquista da maturidade. Começa como colecionador, não como artista. E a pintura surge como um passatempo, ainda não era uma forma de vida. Os seus temas iniciais refletem pacatas cenas de família – por onde Cícero Dias terminou ele começou. Até encontrar voragens e abismos do Outro. Se o exílio é uma forma de idílio (e viceversa) ele conheceu bem aquela “calma e voluptuosidade” que se encontram nas viagens a paraísos. Não foi Baudelaire que teve aquele “abismo sempre em movimento”, de Pascal, apesar de referi-lo, foi Rimbaud. Nunca a vida quis lhe significar tranqüilidade. Tanto como poeta genial e intratável adolescente, e comerciante obsessivo e áspero, soube enfrentar a dor, e de certo modo procurá-la. Não fugiu somente dos tiros que levou de Verlaine, fugiu da vida européia. As balas de Verlaine foram somente uma parte insigniGauguin no ano de 1888 Continente . março, 03


CAPA 47 » Imagens: Reprodução

Vincent van Gogh Pinta Girassóis – Paul Gauguin, 1888

Paisagem Taitiana com Montanha – Paul Gauguin, 1893

ficante das tantas inquietações que o fizeram vagabundo e andarilho, uma espécie de peregrino profano, primeiro na Europa, depois na África. Doutra parte, o abismo não estava só em Van Gogh, apesar de sua vida e morte românticas, estava talvez ainda mais plenamente em Gauguin, também um peregrino de tipo muito especial. Quando se aproximou do Impressionismo, como diz Ingo F. Walther, “não volta o olhar indiferente para um mundo vivo, sempre em movimento, mas volta-o para a própria indiferença.”

O dandy nasceu em Gauguin depois do seu fracasso na Bolsa de Valores, onde era corretor, num sentido oposto ao de Rimbaud cuja vocação para o comércio foi precipitada pela sua crise no meio literário parisiense e seu total desencanto com a Europa. Seria interessante um inventário do amor e ódio dos escritores e artistas com os lugares. Talvez com a mesma intensidade com que Baudelaire detestava a Bélgica, Gauguin odiava a Dinamarca, apesar da mulher e dos cinco filhos (ou talvez ainda mais por isso, e uma exposição fracassada). No momento em que temas como novos colonialismos e globalizações estão na ordem do dia, o seu exemplo deve ser lembrado como de um desbravador. Em que se discute novamente a natureza, inclusive nos seus novos lugares-comuns, como a ecologia. Um misto muito especial de fuga e encontro define Gauguin, para além da Europa e do Pacífico Sul. A evocação constante da ironia de glória póstuma de Van Gogh, que vendeu um só quadro em vida miserável, logo se liga à de Gauguin, com uns parcos centavos no bolso para curar o filho da varíola e os cinco francos que ganhava por dia pregando cartazes. Mas é bom não romantizar em excesso a pobreza dos artistas. Todos eles, condenados à morte (como Villon) ou à vida eterna (como a sua ilusão supõe), pagam o preço de viverem noutro tempo e noutro mundo. A Bretanha (1886-1891) foi para Gauguin a primeira das várias estações de fuga. Lá é que pintou o famoso Cristo amarelo. Era o sintetismo suplantando o naturalismo. Como lembra Walther: “O amor de Gauguin pelos trópicos era uma fuga à civilização. Mas era também a procura da felicidade sentida nos dias de infância, que tinha passado na América Latina. Quando tinha um ano de idade, Paul, nascido em Paris, tinha ido com a família para o Peru.” Faltou ao comentarista dizer que essa ida ao Peru tem a ver com a sua avó, Flora Tristán. A ligação está sendo refeita no novo romance de Mario Vargas Llosa, O paraíso na esquina. A vida de Flora foi tão rica e aventurosa quanto a do seu neto. Mas isso já é outra história.

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» 48 CAPA

Personagem precursora Flora Tristán, avó de Gauguin, foi antecipadora do feminismo no século 19

Gravura anônima do século 19, sem identificação da personagem – do livro Flora Tristán – Leandro Konder

“As mulheres podem mais que os homens porque têm mais amor do que eles”. Com esta epígrafe, o professor Leandro Konder começa o excelente livro Flora Tristán – uma vida de mulher, uma paixão socialista. Ela não foi somente a autora da frase, levou-a à prática, especialmente no que diz respeito ao amor coletivo, pois a sua vida amorosa foi muito infeliz. É sobre essa “feminista, quando o termo ainda não existia”, e o seu contexto, que Mario Vargas Llosa compôs o seu mais novo romance, colocando-a como personagem central. No próximo mês completa-se o bicentenário de nascimento de Flore-Célestine-Thérèse-Henriette – Flora Tristán – nascida no dia 7 de abril de 1803, em Paris. O pai dela era peruano (oficial do exército espanhol), e é dele que vem o seu Tristán. Chamava-se Mariano Tristán Moscoso. A casa dos pais de Flora, em Paris, era freqüentada por figuras do porte de um Simon Bolívar. As más-línguas chegaram a suspeitar – mas é lenda – de que ele fosse o pai verdadeiro de Flora. Aquela que definiu o amor como sua “religião”, e confessou que “desde a idade de 14 anos, minha alma ardente o tinha deificado”, casou-se, aos 18 anos, no dia 3 de fevereiro de 1821, com André-François Chazal, um gravador e ilustrador. Mas nunca o amou. O casamento durou três anos. Foi dessa união ao mesmo tempo indiferente e infernal que

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nasceu Aline-Marie, que viria a ser mãe do pintor Paul Gauguin. Semi-analfabeta, Flora foi autodidata. Entre os livros foi que descobriu a sua grande paixão: o socialismo. O dia-a-dia como empregada doméstica de ingleses e outras ocupações que tais e o clima de repressão aos operários no reinado de Louis-Phillipe cristalizaram a sua formação política. Foi graças às idéias de Saint-Simon que ela começou a cultivar o socialismo, impulsionador do seu feminismo. A leitura do livro Uma reivindicação dos direitos da mulher, de Mary Wollstonecraft (1759-1797) ajudou a construir efetivamente o seu feminismo. Uma curiosidade: a autora era mãe de Mary Shelley, autora do famoso Frankenstein. A feminista que apanhava do marido e lutava com dificuldades para manter a família resolveu ir em busca das suas origens, no Peru. Era uma aventura cara, mas certamente não mais dura do que a que vivia todos os dias na Europa: tinha 30 anos nessa época. Foram 133 dias de enjôo, de vômitos. Mas não se seduziu pelo Peru. Ao contrário. Desprezou a sociedade e os poderosos da época e também externou vários preconceitos de européia, nos 21 meses que lá permaneceu. O seu primeiro livro se intitulou Necessidade de dar uma boa acolhida às mulheres estrangeiras, que foi bem recebido por Fourier, teórico do socialismo que Flaubert chamava de “caixeiro delirante”. Mas Flora ficou fascinada por ele. Outro utopista, Owen, também a interessou. Mas não seguiu como discípula de nenhum desses teóricos, apesar da simpatia e da influência inegável que exerceram sobre ela. Ela, que era contra a indissolubilidade do casamento e contra a pena de morte, continuou a ser contrária a ambos quando levou dois tiros do marido, no dia 10 de setembro de 1838. As balas se alojaram perto do seu coração e nunca mais saíram de lá. Mas não morreria disso. O coração não a mataria e sim uma congestão cerebral, no dia 14 de novembro de 1844.

Flora Tristán – Uma vida de mulher, uma paixão socialista – Leandro Konder – Editora Relume Dumará, Rio de Janeiro, 1994, 125 páginas.


CAPA 49 »

Uma viagem à utopia Vargas Llosa e a atração pela personalidade de Flora Tristán no quadro das utopias que marcaram o século 19

Foto: Guto Costa – ABL / AG

Vargas Llosa: utopistas encaram a história como uma escultura

Politicamente polêmico, o escritor peruano Mario Vargas Llosa ocupa, sem contestação, um lugar no alto do panteão da literatura mundial. Em fins de fevereiro, recebeu mais uma condecoração: o Prêmio Nabokov 2002 do Pen Club de Nova York, a ser entregue no próximo 20 de maio, por sua trajetória literária. Autor de obras consagradas como A casa verde (1965), Conversação na Catedral (1969), Batismo de fogo (1963) e Guerra do fim do mundo (1981), seu último romance – A festa do Bode (2000) – recebeu aclamação mundial. A crítica o colocou ao lado de obras emblemáticas sobre o tema das ditaduras latino-americanas, como Eu, o supremo, do paraguaio Augusto Roa Bastos; O recurso ao método, do cubano Alejo Carpentier; O outono do patriarca, do colombiano García Márquez, e O senhor presidente, do guatemalteco Miguel Angel Astúrias. Vargas Llosa também é autor de ensaios sobre literatura e de peças teatrais, entre as quais El loco de los balcones acaba de estrear em Lima, Peru. Para os críticos, a obra do romancista se caracteriza pela experimentação narrativa, construções complexas e

impecáveis, personagens bem delineados e domínio da linguagem. Por tais qualidades, tem sido recorrentemente apontado como candidato ao Prêmio Nobel. Nos últimos anos, Vargas Llosa distanciou-se do esquerdismo da juventude, adotando uma postura neo-liberal (rótulo que ele rejeita), tendo concorrido à presidência do seu país e sido derrotado por Alberto Fujimori. Respondendo às críticas, costuma declarar que rejeita os totalitarismos à esquerda e à direita. Ao decidir escrever um romance tendo Flora Tristán como principal personagem, afirmou o romancista, em conferência na Espanha, em julho de 2002: “O século 19 não foi apenas o século do romance e dos nacionalismos: foi também o das utopias. A culpa disso é da Grande Revolução de 1789. O cataclismo e as transformações sociais, que acarretou, convenceram tanto a seus partidários quanto a seus adversários, não apenas na França como no mundo inteiro, de que a história podia ser modelada como uma escultura, até alcançar a perfeição de uma obra de arte. Com uma condição: que a mente concebera previamente um plano ou modelo teórico a que logo a ação humana calçaria a realidade como uma mão a uma luva. Rastros desta idéia se podem encontrar bem longe, até na Grécia clássica. No Renascimento, ela se cristalizou em obras tão importantes quanto a Utopia, de sir Thomas Morus, fundadora de um gênero que se prolonga até nossos dias. Porém nunca antes, nem depois, como no século 19, foi tão poderosa, nem seduziu a tanta gente, nem gerou empresas intelectuais tão ousadas, nem inflamou a imaginação e o idealismo (às vezes a loucura) de tantos pensadores, revolucionários ou cidadãos comuns, a convicção de que, tendo as idéias adequadas e pondo a seu serviço a abnegação e a coragem necessárias, se podia trazer o Paraíso à terra e criar uma sociedade sem contradições nem injustiças, em que os homens e mulheres viveriam em paz e em ordem, compartindo os benefícios daqueles três princípios do ideal revolucionário de 89 harmoniosamente integrados: a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A esta dinastia de inconformistas, opositores radicais da sociedade em que nasceram e fanaticamente persuadidos de que era possível reformá-la pela raiz para erradicar as injustiças e o sofrimento e instaurar a felicidade humana, pertence Flora Tristán”. Vargas Llosa conclui sua explicação, definindo a personagem como “a temerária, a romântica justiceira que, primeiro em sua vida difícil e golpeada pela adversidade, depois em seus escritos e finalmente na apaixonada militância política dos seus últimos anos de vida, traçaria uma imagem de rebeldia, audácia, idealismo, ingenuidade, truculência e aventura que justifica plenamente o elogio do pai do Surrealismo, André Breton, para quem não houve um destino feminino que tenha deixado, no firmamento do espírito, uma semente tão vasta e luminosa”.

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» 50 CAPA Mario Vargas Llosa

Lançado agora em março, na Espanha, pela Editora Alfaguara, o novo romance do peruano Mario Vargas Llosa – O pa ara aíso na a outra a esquina a – tem como protagonistas Flora Tristán, francesa de origem peruana, percursora do feminismo e socialista, e seu neto, o pintor Paul Gauguin. Ele faz um contraponto entre duas utopias: a política e a artística. O livro não tem previsão de lançamento no Brasil. A seguir, leia em primeira mão um trecho do romance, no qual o pintor Gauguin ocupa o centro da cena.

Foto: Guto Costa – ABL / AG

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na outra esquina

O paraíso

Havia ido a Papeete verificar, como de costume, se havia chegado alguma correspondência de Paris. Eram deslocamentos que procurava evitar, pois a carruagem cobrava nove francos pela ida e nove pela volta e, além disso, havia aquele chacoalhar numa rota infame, sobretudo se estava encharcada. Partiu ao amanhecer, para regressar à tarde, porém o dilúvio cortou o caminho e o coche o deixou em Mataiea depois da meia-noite. A cabana estava às escuras. Era raro. Teha’amana não dormia jamais sem deixar uma pequena lâmpada acesa. Sentiu um aperto no coração: teria ido embora? Aqui, as mulheres se casavam e se descasavam como quem troca de camisa. Pelo menos nisso, o empenho dos missionários e pastores para que os maoris adotassem o modelo da estrita família cristã era inútil. Em assuntos domésticos, os nativos não haviam perdido de todo o espírito de seus ancestrais. Um belo dia, o marido ou a mulher se mandava e ninguém se surpreendia com isso. As famílias se faziam e desfaziam com uma facilidade impensável na Europa. Mas se Teha’amana se fora, tu irias sentir saudade. Dela, sim. Entrou na cabana e, cruzado o umbral, procurou nos bolsos a caixa de fósforos. Acendeu um e à luz da pequena chama amarelo-azulada que flamejava em seus dedos viu aquela imagem que nunca esqueceria e que, nos dias e semanas seguintes, trataria de resgatar, trabalhando nesse estado febril, de transe, em que havia pintado sempre seus melhores quadros. Uma imagem que, passado o tempo, permaneceria em sua memória como um desses momentos privilegiados, visionários, de sua vida no Taiti, quando acreditou tocar, viver, ainda que por uns ins-


Reprodução

CAPA 51

Paul Gauguin: O espírito do morto vigia (Manao tupapau), 1892

tantes, o que tinha vindo buscar nos mares do Sul, aquilo que, na Europa, não encontraria nunca porque tinha sido aniquilado pela civilização. Sobre o colchão, ao rés do solo, nua, de bruços, com as redondas nádegas levantadas e os ombros encurvados, rosto semi-voltado para ele, Teha’amana olhava-o com uma expressão de infinito espanto, os olhos, a boca e o nariz crispados numa careta de terror animal. Suas mãos se encharcaram também de susto. Seu coração latejava, desembestado. Deixou cair o fósforo que queimava as pontas dos dedos. Quando acendeu outro, a guria permanecia na mesma postura, com a mesma expressão, petrificada pelo medo. – Sou eu, sou eu, Koke – tranqüilizou-a, aproximando-se. Não tenhas medo, Teha’amana. Ela desatou a chorar, com soluços histéricos, e, em seu murmúrio incoerente, ele distinguiu, várias vezes, a palavra “tupapau”, “tupapau”. Era a primeira vez que a ouvia, mas já a havia lido. Sua memória recuperou de imediato, enquanto, abraçada contra seu peito, sentada em seus joelhos, Teha’amana se recobrava, que no livro Viagem às ilhas do Grande Oceano (Paris, 1837), escrito por um antigo cônsul francês, Antoine Moerenhout, figurava a palavra que agora Teha’amana repetia de maneira entrecortada, queixando-se por ele tê-la deixado às escuras, sem óleo no candeeiro, sabendo do seu medo do escuro, porque nas trevas apareciam os “tupapaus”. Então era isso, Koke: ao entrar na casa escura e acender o fósforo, Teha’amana te tomou por um fantasma. Assim, pois, existiam esses espíritos dos mortos, malignos, de garras curvas e presas de lobo que habitavam os ocos do mundo, as cavernas, as brenhas, os troncos esburacados e que saíam dos seus esconderijos para assustar os vivos e atormentá-los. Dizia Moerenhout, neste livro que te emprestou o colono Goupil, tão minucioso sobre os desaparecidos deuses e demônios dos maoris, antes que os europeus chegassem até aqui e matassem suas

crenças e costumes. E, por acaso, até falava deles, também, aquele romance de Loti que entusiasmou a Vincent e que, pela primeira vez, pôs em tua cabeça a idéia do Taiti. Não tinham desaparecido totalmente, depois de tudo. Algo desse belo passado pulsava sob a roupagem cristã que missionários e pastores lhes haviam imposto. Não falavam nunca disso e cada vez que Koke tratava de arrancar dos nativos algo sobre suas velhas crenças, do tempo em que eram livres como só podem sê-lo os selvagens, eles o olhavam sem compreender. Riam-se dele, de que estava falando?, como se o que seus ancestrais faziam, adoravam ou temiam houvesse se eclipsado de suas vidas. Não era verdade; pelo menos esse mito ainda estava vivo; demonstrava-o o murmúrio queixoso da garota que tinha em seus braços: “tupapau”, “tupapau”.

Tradução: Homero Fonseca, com colaboração de Marcelo Perez Continente . março, 03


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52 MARCO

ZERO

Alberto da Cunha Melo com ilustração de Zenival

O silêncio dos usurpados De como o intérprete vira autor de tudo que canta

Para evitar equívocos, começo dizendo que tenho um respeito quase sagrado por Luís Gonzaga, o eterno rei do baião, neste país saudoso de monarquias. A primeira composição musical que ouvi – era tão novo que não me lembro quando – foi Sabiá, (en)cantada por ele, e que chegava às casas através da Difusora do Padre, um serviço de som da Paróquia de Jaboatão-PE. Não era gratuito, e minha tia Maria pagou muitos “Sabiás”. Gonzaga, segundo o verbete da Grande Enciclopédia Larousse Cultural, “foi instrumentista, compositor e cantor brasileiro”, nesta ordem de atributos. Desde minha infância (vou fazer 61), toda composição que ele interpretava, magistralmente, transformava-se logo “naquela música de Luís Gonzaga”. Foram mais de duzentas. Por isso, quando no início do ano de 1989 – ano em que morreu – ele foi levado pelo famoso empresário Pinga à Diretoria de Assuntos Culturais da Fundarpe – Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – de que eu era titular, com o objetivo de conseguir uma audiência com o então governador Miguel Arraes (que não o rece-

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beu, mas essa é outra história...), no meio de nossa conversa, perguntei-lhe se era o autor das músicas que cantava. Ele me respondeu na hora, sem pestanejar, que não era compositor, só ajudava nos arranjos. Mas faltou dizer que eram suas aquelas estórias engraçadas que narrava no meio das canções... Aquele artista tem um merecido e extraordinário lugar na história da Música Popular Brasileira e, enquanto vivo, estarei sempre numa hipotética platéia, aplaudindo-o. Mas, gostaria de aplaudir, também, Zé Dantas (Sabiá, etc.), Humberto Teixeira (Asa Branca, etc.) e Zé Marcolino (Sala de Reboco, etc.), além de dezenas de outros notáveis compositores que enriqueceram o repertório de Luís Gonzaga, como os três citados, que são absolutamente desconhecidos do grande público. Não estou, no momento, preocupado com problemas de autoria no sentido de questionar certos tipos de usurpação, como aquela denunciada por José Nêumanne, em seu instigante artigo Belas Cantigas de Autor Incerto, onde lembra o caso de Zé do Norte, que registrou como suas as composições “Sodade”


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e Muié Rendeira, e cita o compositor Sinhô, para quem samba era “que nem passarinho, do primeiro que pegar”. Preocupo-me mais é com o absolutismo supremo do intérprete, que vira autor de tudo quanto canta. “Você ouviu a última música de Elba Ramalho?”. A cultura da omissão ou usurpação da autoria tornou-se algo tão banalizado que os próprios compositores submetem-se passivamente a ela e se conformam com os trocados que o Ecad porventura lhes repasse. Nos programas de auditório, nos palcos ao ar livre, nos trios elétricos, em toda a parte os intérpretes já entram cantando, e sequer o título da canção é citado, imagine o compositor... Os apresentadores poderiam dizer o título e a autoria, depois de anunciar o intérprete. “Ora, vai plantar batatas, idiota, você sabe lá o que é produção de espetáculo!” Seria esta a resposta de um produtor da Globo, a quem lhe fizesse tal sugestão. Pensando nessas coisas, nessa omissão/usurpação consentida, com muita má vontade li, inteirinha, a Lei nº 9.910,

de 19 de fevereiro de 1998, que consolida a legislação sobre direitos autorais. O seu Art. 24, inciso II, estabelece, entre os “direitos morais” do autor, “o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado (grifo meu), como sendo o do autor, na utilização de sua obra”. Não sou ingênuo o bastante para acreditar que tal dispositivo legal irá pegar, mesmo porque é de suspeitar que os compositores receiem, caso reclamem seu “direito moral” de citação, não mais serem convidados para parcerias ou que suas canções não mais sejam cantadas pelas grandes estrelas. Contentam-se com seus “direitos patrimoniais'”. Acredito, mesmo, que o próprio Ecad, a quem a nova Lei conferiu a qualidade de substituto processual, não vai se interessar em defender obscuros compositores que não cantem, como Chico, Caetano e Gil, suas próprias canções. As coisas continuarão como estão, isto é, o absolutismo dos intérpretes, na música popular, e a extorsão dos banqueiros, neste pobre país.

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Ilustrações de Tita do Rego Silva

Os sinais dos

tempos

A morte, unha-e e-c carne com a vida, e o amor, em carne viva, são a razão de ser dos contos do livro Faca O mito grego tem dois personagens que na tradução para o português chamam-se Anteu. Ambos foram assassinados. O de Halicarnasso – Anteu que a etimologia vincula a “flor” – morreu sufocado no fundo de um poço. O outro, cujo nome, Antaíos, indica “antagônico”, adversário, inimigo, teve morte mais épica, pois era um monstro, filho de Geia, a Terra. Conta-se que submetia todos os que passavam no deserto da Líbia e os obrigava a lutar com ele, vencendo todos. Hércules só conseguiu derrotá-lo porque descobriu que a sua energia provinha da Terra, e, suspendendo-o, pôde sufocá-lo. Dessa dupla asfixia , a lírica (do espaço fechado, por exemplo, o de um poço), e a épica – do espaço aberto, como o deserto – é que se nutrem as histórias de Ronaldo Correia de Brito, reunidas agora no livro de contos Faca (Cosac & Naif). Como numa espécie de novo Eclesiastes, todas as personagens parecem falar a cada gesto do tempo de morrer. É a morte – unha-e-carne com a vida, e o amor, em carne viva, coisa de mortais – a única razão de ser dessas narrativas. Como síntese, tanto do fechado quanto do aberto, tem-se a casa, uma espécie de Grande Personagem que aglutina e fecunda tudo no livro. Daí não ser ocasional a epígrafe do bíblico Isaías, no primeiro conto, A espera da volante, que se refere à casa, palavra que traduz a segunda letra do alfabeto hebraico, a primeira da criação – o bereshit –, por assim dizer o signo fundador da Gênese. Do mesmo modo que uma casa possui tanto da verticalidade de espaços abertos como um deserto, e do fechado (vertical como um poço ou horizontal como um túnel), tem algo de útero, de ninho, de nicho, de cofre. Uma casa aberta no deserto está prenhe ou à mercê de todos os ventos, palavra simples para dizer “alma”, substância do atemporal, do medo, da apreensão. Não é por acaso a importância que ganham os alpendres e os quartos nas tantas casas referidas no livro. O fechado e o aberto, a liberdade e a sufocação, a expansão e a angústia, a fuga e o encontro são pares definidores dessas histórias tão cheias de alma e espírito, quanto de carne e mente. Logo no começo do primeiro conto, sabe-se que “havia o alpendre na frente, onde o Velho ficava sentado e, atrás, a casa de três vãos, grande como a alma de um homem que vivera muito. Ninguém sabia quem existira primeiro, se o Velho ou a casa. Ele sempre fora visto ali, os cabelos perdendo o preto, como o dia, a luz.” A última frase explica muito de todo o livro: aproxima os personagens de forças da natureza. Não são somente “gente de carne e osso”, às vezes ganham uma presença ao mesmo tempo arrebatadora e inquietante das forças primais da natureza. “Ao coração de uma casa Continente . março, 03

chega-se de olhos fechados”, diz-se mais adiante na mesma história, mas, é fundamental saber que “a casa possuía muitas portas e janelas, sempre abertas”. Não é só a hospitalidade e os deveres da honra que ocupam esses espaços abertos e francos, é antes o da coragem e disposição para a vingança. Nada disso afasta as casas fechadas – que se podem fingir de abertas para melhor eficácia – da covardia, da apreensão, da traição, do medo. Tudo nessas histórias “foi há muito tempo”, e acabou de acontecer, é arcaico e estranhamente familiar, próprio e de qualquer parte. Há uma harmoniosa dialética de “o mundo e a casa”, que necessitaria de um estudo mais detido. A casa aberta fala de olhos despertos e de sono – como o gigante Argos. É de luz e trevas, como cada espírito que fala com e nos humanos. A casa do Velho – note-se a deliberada alegoria facilitada pela maiúscula – define-se como “canto do mundo”, “repouso dos medos”. É mais do que o sem-fim dos gaúchos e baianos, e do que os gerais das minas, é como um agreste sertão sem território, ou somente possuindo o território do desterro. Se a fuga e a espera, a expulsão e o convite dialogam entre si, querem dizer gestação. A casa que rendeu um belo poema a João Cabral (tua sedução é menos de mulher do que de casa) e a Davi Mourão Ferreira (“és a sombra da casa onde nasci”), fala de luminosidade e de trevas, de gestar – no duplo sentido, inclusive –, do nascer e do morrer. Mas não há só fala, há muito de referência a silêncio – fundamental para entender melhor essas histórias. Se “a alma clara esconderia salas escuras”, e havia “cavalos, fugas, estradas e um silêncio”, deve-se dizer que tão uma força natural e luminosa como a lua, é o punhal, talvez tão ou mais importante no livro quanto o objeto “faca” que lhe dá título. Numa mesma página desse primeiro conto, tem-se o despertar – dentro da noite, a vigília e a expectativa mais do que a insônia – “as palavras chegavam sem medo, como se fossem depositadas numa caixa de ferro e guardadas” – e o


AUTORES 55 » dormir (“os homens, quando dormem, não escondem nada”), e é desse duplo impulso – ao mesmo tempo alerta e à mercê, como o dia e a noite, que vivem os personagens de Faca. Se há um espaço da fatalidade, há um tempo da fuga, e um tempo da espreita – “a vida toda fora um espreitar de armadilhas”. Cada vez que são mais humanos – parede e meia com o desconhecido sempre – e prenhes de impulsos que os convertem em verdadeiras forças primais, os personagens do livro adquirem em muitos momentos um sopro das grandes tragédias, gregas ou shakespearianas – pouco importa o adjetivo – que pode muito bem ser exemplificado nesta passagem: “A vida do homem é perigosa, porque a morte se planta em lugares incertos. Andando, ele esbarra com ela, emboscada no meio do caminho. Parado, ela vem ao seu encontro, trajada em muitos disfarces. Há sinais que guardam a revelação do perigo. Viver é a ciência de decifrar estes sinais.” Isso poderia ter sido escrito por Sófocles, cinco séculos antes de Cristo, mas o foi por Ronaldo Correia de Brito, um contador de histórias desse estranho mundo dos homens, que os deuses deliberaram nascer nos longes do Ceará. Mas não seria exato referir as histórias de Ronaldo Correia de Brito apenas com essas disposições simbólicas, alegóricas ou alusivas, porque o mais evidente nelas é a fidelidade ao espaço e ao tempo das ações, mesmo que adquiram tons por vezes do fantasmagórico ou dos temores que povoam as superstições populares. Antes de tudo, os homens e mulheres, cujas vidas ele fez por reconstituir com a sua fantasia e capacidade de fabulação, falam da realidade que os engendrou. Se de um lado pode-se falar do universal que nelas há, deve-se sublinhar o muito de particular e especial que as distingue, sem concessões ao exótico. Os países atrasados econômica e socialmente como o Brasil têm a sua modernidade ambivalente e uma perversa relação com o tempo – por isso passado, presente e futuro implicam-se numa relação complexa, seja na visão de Freyre ou de Santo Agostinho. O arcaísmo que recende nessas histórias é menos fruto de uma construção literária e mais o reflexo de uma situação que insistiu em situar no Nordeste do Brasil um tipo ignoto de medievalidade num país que não teve Idade Média, mas move-se até hoje em simpatia – tanto no sentido simbólico quanto literal – por tudo o que é feudal. A ordália e a pena do talião – que ninguém se surpreenda – são patrimônios tanto da velha

Mesopotâmia quanto do Ceará dezenovesco que é refletido em Faca. O modo de vida e, talvez ainda mais, os modos de morte deixam isso às claras – morte morrida ou morte matada. Mundo com muitos reis e relativas leis, pode perfeitamente substituir o ordálio pela tortura, as cortes de justiça pelos cortes de facas, punhais e outras armas brancas. Há tanto o corpo a corpo quase erótico desse matar como se fosse copular ou sulcar a terra, quanto a distância dos revólveres e espingardas. Fogo e gelo. O despotismo e a vingança unem as mãos para significar mais do que dignificar um mundo de rígidas fronteiras sociais, com classes que não abandonam senão muito lentamente – em geral por decadência espontânea – os seus privilégios. Se na Espanha de Felipe V o duelo já era tido como “delito infame”, no Nordeste do Brasil, há pouco mais de cinqüenta anos era elevado como signo de coragem e honradez. Seja para denunciar as injustiças ou para aliviar suas dores, os repentistas do Nordeste refletem nos seus desafios esses duelos literais de uma sociedade em conflito, que muitas vezes sublima as suas agonias ou as sublinha em livros como Faca. Seja como for, não são exclusivos, dele participam todos os homens dessa América Latina, ainda em formação. Esses contos são líricos e elegíacos, falam de amores notáveis e mortais, tratam de vingança e coragem. De homens gentis que sagraram a hospitalidade, e também de bárbaros que só sabem “embriagar-se e lutar”. Mas há uma peleja tão épica quanto essa de duelos e enfrentamentos, a luta pela vida de todo dia, e nisto se irmana Ronaldo Correia de Brito não só com os seus consangüíneos da Grécia e da Índia, mas também os parentes mais próximos do México e da Argentina, que também tratam desse mesmo universo referido por José Hernandez: “Se cruzan por el disierto/ como um animal feroz;/ dan cada alarido atroz/ que hace erizar los cabellos./ Parece que a todos ellos/ los ha maldecido Dios.” (MH)

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56 AUTORES Marcelo Pereira

Xico Sá,

os machos e as fêmeas Crônicas do jornalista e escritor compendiam, com humor, as relações de homens e mulheres no caos urbano Foto: Divulgação

Xico Sá autografando seu livro em São Paulo

Xico Sá é um João Grilo de letras bem-humoradas. Para quem o conheceu ainda Francisco Reginaldo de Sá Menezes, retirante “xepeiro” da Casa do Estudante da Universidade Federal de Pernambuco, coisa dos anos 80, não é difícil de revê-lo, em carne, osso e palavras em Modos de Macho, Modinhas de Fêmea. A bem da verdade, e ele a sabia, diante do espelho, a natureza não caprichou no rapaz, quando adolescente. As carências do sertanejo de Santana do Cariri sobrepujavam o que ele poderia ter apolíneo ou hercúleo no revestimento do esqueleto de nordestino. O que não tinha de belezura, Xico Reginaldo tinha de lábia, de verve, poesia na ponta da língua afiada por leituras de Baudelaire, Rimbaud, Bashô, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Paulo Leminski, Oswald de Andrade, Irmãos Campos e o diabo a quatro. Ia de Machado de Assis, Aluísio Azevedo e o velho Gilberto Freyre a Sartre, Cabrera Infante e Bukowski. Ou seja: de um tudo e chega de citações. E escusem-me pelo lapso da não-citação de fêmeas do porte de Clarice Lispector, Olga Savary e tais. Continente . março, 03

Desafio à ciência, o mirrado bardo demonstrava capacidade intelectual privilegiada. A fome alimentou-lhe o espírito. Macho todo, apesar dos pesares, era um dom Juan do Cariri, em sua passagem pelo Recife. As mais belas e as nem tão belas estudantes do Centro de Artes e Comunicação, as freqüentadoras do Cantinho das Graças, do Bar do Abacaxi e do Bigode, das sessões de arte nos cinemas Trianon, São Luís, e Veneza, dos projetos Seis e Meia e Pixinguinha da vida e de sei mais lá, viam em Xico Sá o que somente as mulheres apaixonadas e em fogo interior eram capaz de admirar. Algumas, mais afoitas, sossegavam após mordidas e orgasmos. Dizem. E ele se dava bem. Lutava como um Sísifo para ser fiel a uma e a todas. Haja desenvoltura. Xico meteu a mão na própria cumbuca para colher as flores duvidosas da moral e dos bons costumes, para apalavrar Modos de Macho, Modinhas de Fêmea. A matriz de tudo é o seu sítio-homenagem O Carapuceiro, oásis de humor intelectual na Internet, e a coluna Macho, que assinou na Folha de S. Paulo, atualmente sob


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os cuidados de Fernando Bonassi. Rapaz sintonizado com as últimas modas da cultura tecnopop digital, confessa que sampleou textos escritos – e já regiamente pagos – para revistas como Trip e Playboy. Entre suas fontes primárias, entretanto, figuram os amigos mais íntimos e as confissões de alcova, sem esquecer é claro a faculdade dos botequins da Paulicéia Desvairada à Manguecéia Tresloucada. Nada mais importante, porém, que a experiência própria, a vivência, o passeio pelo udigrudi da vida e da alma, pelos becos da fome de prazer. Xico sabia que para abrir caminho próprio teria que arriscar. E isso ainda na Rádio Vale do Cariri, em Juazeiro (CE), quando, adolescente, começou a aplacar corações aflitos e solitários, no programa de Gevan Siqueira. Já em Pernambuco, seu humor esteve a serviço do jornal esportivo Tablóide, no qual assinava sob o pseudônimo de Mamadu Bobó. No pasquim anárquico O PequenoPríncipeaventurou-se a tecer rimas para classificados amorosos, a dar pitaco sobre a safadeza e aperreios alheios. Na então maior livraria do Brasil, Livro 7, aconselhava leitores, trabalhando de livreiro, e surrupiava, com a benemerência de Tarcísio Pereira, livros essenciais para sua formação humanística. Para ganhar o troco da cerveja e engatar uma trepada, valia-se da edição de livretos de poesia mimeografados, valendo-se das lições aprendidas em leituras de Oswald, Leminski, Bashô e uma penca de poetas marginais. Um deles, Biscoitos Finos, vinha com biscotinhos em forma de letras colados na capa, para deleite não dos leitores, mas das formigas e baratas nossas de cada dia. Eram petardos do tipo: “Estou passando a Passe A”; ou como neste conselho à mulher amada: “Na bunda/ não fecunda”. Xico Sá também foi um dos mentores-deflagradores do Movimento Mangue, principalmente na imprensa paulista, abrindo as portas de seu apartamento na Frei Caneca para acolher os amigos do Centro de Artes e Comunicação: Fred Rodrigues Montenegro (Fred 04), Renato Lins (Renato L.), DJ Dolores, Mestre Ambrósio, Eddie, Querosene Jacaré, Eduardo Ferreira, Cascabulho e tantos outros. Xico sabe que os louros da glória são efêmeros e cultiva amizades antigas como o jardineiro Tom Zé. Por isso, vez por outra, baldeia-se para o Recife: rua da Aurora, rua da Moeda, Candeias, Mercado da Madalena, revê o Recife Antigo, onde evoca os anos já distantes do baixo meretrício que tantas lições de vida lhe deu e que são aproveitadas no livro, como na crônica OHomemeaCidadedoHomem. Escolado pela vida, é claro que Xico Sá dedica um capítulo aos poucos dotados de beleza exterior. Em Da Serventia do Homem Feio diz, categórico: “Só um homem feio para desarmar certas criaturas. Somente um mal-amanhado, um mal-assombro, um cadeirudo cumpre alguns trabalhos de que nenhum Hércules é capaz”. E, parafraseador, sentencia: “O que certas mulheres precisam é apenas de um homem feio em suas vidas. Sem um feio, sujo e malvado não desabrocham, não ornam, não vão para frente”. No compêndio educativo do escriba Xico Sá o leitor vai saber porque “Os homens que não cospem mais no chão mas são exímios massagistas” (lógico que de olho nos dividendos amorosos), vai tomar partido na peleja entre homens que moram em casa arrumadinha e o muquifo de macho, pode aprender sobre a gastronomia de macho – a nordestina, não a francesa – e escolher seu time nas mesas-redondas dominicais sobre o sofrimento da paixão futebolística. Se o desejo é conhecer melhor as fêmeas, não deixe de ler o Manual do Lenhador Sensível. Como Xico Sá não é nenhum dogmático, pode-se concordar ou discordar de quase tudo o que ele maltraçou. Em algumas questões, todavia, é impossível não lhe dar razão, como no lamento sobre a extinção das dentucinhas, o triunfo das balzaquianas sobre as lolitas nabokovianas e a celebração da euforia das prozaquianas. Modos de macho, modinhas de E mais não deve se dizer para não estragar o fêmea – A educação sentimental prazer da leitura de Modos de Macho, Modinhas do homem de Fêmeas. Xico Sá – Editora Record, Rio de Janeiro, 2003

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Joaquim Nabuco em 1901

Dever político Livro busca trazer à tona a primeira geração a pensar e construir o Brasil “A verdade é que as vastas regiões exploradas pela escravidão colonial têm um único aspecto de tristeza e abandono: não há nelas o consórcio do homem com a terra”. Essa afirmação é do abolicionista Joaquim Nabuco, que chega às livrarias no ensaio Joaquim Nabuco o dever da política de José Almino de Alencar. Mais uma vez, é a editora Casa de Rui Barbosa que recupera a história do abolicionismo brasileiro e um dos seus maiores representantes. Joaquim Nabuco acreditava que a escravidão matava as faculdades mentais humanas. Ele percebeu que o trabalho servil era um determinante sociológico na formação nacional e, conseqüentemente, a sociedade brasileira do século 19 era totalmente estruturada nele. Esses alicerces fracos não poderiam garantir ao Brasil um futuro muito promissor. A indústria e o progresso nunca chegariam a um país onde a escravidão perdurasse. Nabuco deixa isso bem claro em uma frase do livro O Abolicionismo

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(1883): “Escravidão e indústria são termos que se excluíram para sempre”. O conjunto de sua obra apresenta a história das mudanças do final do século 19 (1878-1889), mostrando a evolução da sociedade brasileira, antes escravocrata e monarquista, que termina esse período como uma República abolicionista. É justamente nesse espaço de tempo que Nabuco vive intensamente sua vida pública e sua luta em prol do fim da escravidão. O livro O Abolicionismo nasce nesse período de idéias ferventes. Com a abolição da escravatura e a proclamação da República, pouco tempo depois, Nabuco, monarquista assumido, abandona a política e se refugia na família. O fim de sua vida pública vem junto com o fim da escravidão e do regime monárquico. É como se sua tarefa tivesse sido concluída. Disse ele: “E no dia que a escravidão foi abolida, senti distintamente que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração se tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o tornaram possível”. Apesar de acreditar na República Chilena, ele tinha convicção que, no Brasil, esse tipo de governo não funcionaria. Por isso, resistiu ao regime republicano até quando pôde. Ele afirmou, no capítulo final de Minha Formação, “a queda do império pusera fim a minha carreira política”. Segundo José Almino de Alencar, a proposta da obra é trazer à tona a primeira geração a pensar e construir o Brasil, que data


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do final do século 19. “Rui Barbosa, Rio Branco e o próprio Nabuco eram adultos pensantes, em 1870. Muitos dos temas discutidos, como a inserção do Brasil no mercado internacional, continuam tendo destaque na atualidade”, exemplifica. Ele define o seu livro como “o romance da formação de um político brasileiro do século 19”. A obra Joaquim Nabuco o dever da política é dividida em duas partes: a primeira traz o ensaio de Almino Radicalismo e Desencanto e a segunda as cartas trocadas entre Nabuco e o Barão de Jaceguai, tratando do fim da Monarquia, organizadas por ele e Ana Maria Pessoa dos Santos. De acordo com o autor, o radicalismo de Nabuco está presente nas suas avaliações e visões críticas da sociedade brasileira. O desencanto é com o país que, apesar da abolição da escravatura, não alcançou as glórias que ele sonhava.

Joaquim Nabuco o dever da política José Almino de Alencar Edições Casa Rui Barbosa 103 páginas Preço: R$ 23,00

Nabuco aos 15 anos, em 1864

Registro histórico Outra obra sobre Nabuco está sendo lançada, pela Topbooks. Joaquim Nabuco. Um Pensador do Império, de Ricardo Salles, faz um registro histórico da obra do abolicionista trazendo ao debate o período do Segundo Império e suas instabilidades, além do início da República. O livro destaca a importância da obra de Nabuco no processo democrático e na evolução da sociedade brasileira. Como não poderia deixar de ser, está impregnado dos ideais abolicionistas que lhe deram fama. A obra é uma ampliação do trabalho que ganhou o Concurso Nacional de Ensaios sobre Joaquim Nabuco, promovido pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Nestlé, em 1999. O autor, bacharel em História pela Universidade Católica do Rio de Janeiro e Doutor e Mestre também em História pela Universidade Federal Fluminense, já publicou outros títulos, Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do Exército, (Paz e Terra, 1990) e Nostalgia imperial. A formação da identidade nacional no Brasil do Segundo Reinado, (Topbooks, 1996), sempre relacionados a fatos marcantes da trajetória nacional.

Última foto de Nabuco, a 1º de janeiro de 1910, em Washington

Joaquim Nabuco. Um Pensador do Império Ricardo Salles – Editora Topbooks 343 páginas – Preço: R$ 39,00 Continente . março, 03


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60 AUTORES Luiz Carlos Monteiro

Ritual de solidariedade Livro de João Almino recebe o prêmio Casa de las Américas Foto: Divulgação

somente vai abandonar a mania de O prêmio Casa de las Américas passou rasgar seus papéis quando tem a casa a incluir escritores brasileiros, nos diversos incendiada. No entanto, ao assumir gêneros, a partir de 1980. Na oportunidaseu lado Diana, pode trazer à reflexão de da inclusão, o crítico Antonio Cândido passagens como esta, da quinta parte, discursou em Havana, em nome dos brasiA última estação do amor: “O texto leiros, caracterizando o Casa de las Améridefinitivo, vivo e único, que resume cas como “um ritual de solidariedade” dos tudo, e que é o instante presente, não povos latino-americanos. O mais recente pode ser um zero. É tudo, um todo brasileiro premiado no gênero romance que se refaz em todo, que nada abanfoi o norte-rio-grandense João Almino, dona, que incorpora o que pode ser com o livro As cinco estações do amor, recordado, embora admita o esquecipublicado pela Record em 2001. Esta mento; que existe no caos do ruído e obra, juntamente com Idéias para onde nos brancos silenciosos”. passar o fim do mundo (1987; 2ª edição, Este relato culturalmente sugestivo 2002) e Samba-enredo (1994), põe e psicologicamente instigante repartetermo ao que se convencionou chamar de se e alterna-se entre monólogo e diáloTrilogia de Brasília. go, intertexto e subjetividade, num esA narrativa de As cinco estações do Na prosa de Almino, Brasília respira pelos amor é tecida em torno da personagem poros e nervos angustiados de seus habitantes tilo que tangencia o literariamente preciso e acabado. A frases de uma econobipartida Ana/Diana, onde o romancista mia calculada sucedem-se períodos longos e revoluteantes, sem cria um clima de disputa permanente entre as duas partes conque o autor incorra no prolixo ou no derramado. O diálogo flitantes. Logo na primeira estação, “Aventuras da solidão”, a apresenta-se tanto em forma aspeada no interior do texto, copersonagem se autodefine: “É assim: quando sou quem sou, mo entremeado pelos signos gráficos costumeiros. sou Ana. Quando sou quem quero ser, Diana”. Através da riNa prosa de Almino, Brasília respira silenciosamente pelos queza da fala dessa personagem, concretiza-se o relato de uma poros e nervos angustiados de seus habitantes e pela desolação geração que teve suas vivências em Brasília, dos anos 70 até a de suas entrequadras. A sua condição de cidade planejada e fupassagem para o ano 2000. turista remonta a uma natureza domada e devastada pelo hoAcompanha-se o desenrolar das vidas do grupo dos “inúmem, à força de máquinas pesadas, cimento e concreto. A sua teis” e dos que lhes são próximos em seus principais meandros condição atual de cidade violenta incorpora uma breve amose veredas, em seus ritos incandescentes de amizade, desentragem de suicidas e assassinos em potencial, consumados ou canto, amores, desencontros e conquistas. Os nove “inúteis”, frustrados. Espelha um mundo urbano que expele e reproduz migrantes que terminam por adaptar-se ao cotidiano brasilienfrações de uma adolescência desajustada e sem perspectivas de se, selam uma promessa de encontrar-se na virada do século, crescimento individual e social, envolvida corriqueiramente trinta anos após terem se conhecido. E isto, para dar um balancom o consumo de álcool e entorpecentes, e com a execução ço em suas vidas, quando então já teriam alcançado a estatura de estupros, seqüestros e latrocínios. de cinqüentões. A juventude que presenciou o pós-68 em Brasília não foi O romance envolve, desde o início, questionamentos sobre diferente da de outros lugares. Seu esforço libertário e suas a sexualidade dos personagens. Dentre os “inúteis” passeiam experiências revolucionárias coincidiram com as palavras de mulheres sexualmente insatisfeitas com o casamento ou a soliordem lançadas no Rio, Recife ou São Paulo, tendo como modão, alguém que se traveste, outro que morre de aids, um delo ocidental Paris. Os “inúteis” construíram sua trajetória outro que tenta transar com todas as mulheres que encontra. política, profissional e existencial neste cenário, que se revela Apenas na quarta estação, Paixões de suicidas, é que o autor vai também como o do próprio país. Sua maturidade, como não se dispor a descrever uma cena sexual intensa, que se evidencia poderia deixar de ser, decorre da soma de experiências vividas. pela inteireza e naturalidade de sua suposta realização. MostraSe não preservaram integralmente os mesmos valores e expectatise inusitada a circunstância de estarem os dois amantes numa vas de quando jovens, o balanço que promovem, três décadas festa com outras pessoas que não se sabe se testemunham ou depois, vem ao menos demonstrar que não estiveram totalnão o que fazem. Cena que resulta de um sonho de Ana/Diamente mortos. na, anotado anteriormente pela personagem-escritora, que

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DOCE E ERUDITO Dizem pintores e poetas que, mais importante que o assunto, é o tratamento que se dá a ele na obra de arte. O conceito pode ser utilizado também em outras áreas. Por exemplo: o que pode tornar atraente um livro de receitas para além do público que gosta de culinária? A resposta pode ser um tratamento visual sofisticado, embasamento histórico e sociológico conseqüente, e a chancela de escritores como Gilberto Freyre, Machado, João Cabral, Cesário Verde, Jorge Amado, Gregório de Matos, Camões, Mário de Andrade, José de Alencar, Drummond, Aluísio de Azevedo, Bandeira, Camilo Castelo Branco, Lobato, Vinícius, Pessoa, Eça, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, Saramago, Érico Veríssimo e Shakespeare. Cansou? Não? Então tome mais Sérgio Buarque, Houaiss, Câmara Cascudo e Pedro Nava. A lista não termina aqui, mas vamos ao livro onde tudo isso acontece. Doces Sabores, uma parceria das pesquisadoras de São Paulo, Rosa Belluzzo e Marina Heck (Editora Studio Nobel, 180p., R$ 60,00),

ilustrado com magníficas fotos de guloseimas por Romulo Fialdini, percorre detalhada e analiticamente a história da cana-de-açúcar, desde sua descoberta na Índia, até o cultivo no Brasil e sua transformação em pratos que hoje fazem parte da tradição do país. Classifica também os tipos de açúcar e calda e, é claro, dá as receitas de vinhos e licores, bolos e doces. O livro é ainda ilustrado com quadros de Labat, Post e Debret, mostrando o cultivo da cana, sua transformação em açúcar e sua venda em forma de doces, além de rótulos de produtos antigos como a “Excellente Flor de Pipoca Beijos”. Ah, sim. O que fazem os escritores aqui? Cada um celebrizou, em verso e prosa, um quitute de sua preferência: Machado, o doce de coco; Drummond, o pé-de-moleque; Vinícius, o papo-de-anjo; Eça, o arroz doce; Cesário Verde, o pão-de-ló. Prova da importância da culinária de um povo. Gilberto Freyre que o diga, bem à sua maneira arrebatada: “Uma cozinha em crise significa uma civilização inteira em perigo: o perigo de descaracterizar-se”.

REVELAÇÕES AGUDAS

NU DIANTE DE UM GATO

VALIDAÇÃO DA OBRA DE ARTE

Depois do excelente romance O assassino cego, chega a nós mais uma obra da escritora canadense (já cogitada para o Nobel de Literatura) Margaret Atwood. É a coletânea de contos Dançarinas (Rocco, R$ 29,50, 216p.) Neles, com seu habitual sarcasmo e bom humor, a autora enfoca a vida de mulheres em cujas vidas rotineiras se instala de repente um elemento anômalo, desestabilizando-as e provocando revelações agudas. Da estudante gorda e grandalhona, subitamente tornada objeto de desejo de um jovem oriental, à menina que se apaixona pela marido de uma amiga da sua mãe, todas passam a observar a vida e os seres com maior curiosidade e compreensão, o que termina por transformá-las.

O criador do desconstrutivismo, Jacques Derrida, assina O animal que logo sou (Fundação Editora Unesp, R$ 15,00, 96 p.), aula proferida durante o terceiro colóquio de estudo da obra deste filósofo, ou antifilósofo argelino-francês, em Cerisy, 1997. A partir de uma situação corriqueira, o homem que pela manhã entra no banheiro e de repente se sente observado por seu gato, ou seja, o homem nu observado por um animal, Derrida, em estilo poético e circular, examina com originalidade questões como a crueldade, a dominação, o outro, a importância da nominação, em raciocínios que puxam raciocínios, falando “de maneira que me permita seguir a música da frase até a morte”, como ele mesmo confessa.

A idéia inicial era fazer um catálogo, mas Adoração – Nelson Leirner, de Moacir dos Anjos (Mamam/Ecco, R$ 25,00, 131 p.) terminou virando um livro. Feito a partir da exposição do mesmo nome, traz as imagens das obras e análises eficazes do próprio Moacir, também curador da mostra, exemplificando o quanto tem sido eixo do trabalho de Leirner o questionamento da validação de uma obra de arte, seja por instituições, seja pelo mercado de arte, seja pela apreciação (ou não-apreciação) do público. Uma segunda parte traz entrevista com o artista, em que se discute francamente a arte contemporânea brasileira, com destaque para a participação do igualmente curador e crítico Agnaldo Farias.

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» 62 AUTORES Pedro Lyra

A dimensão da vida Oitavo segmento de Confronto – Um diálogo com Deus, poema-llivro a sair E além de um tipo tão precário, uma vida mais ainda: por qualquer fragmento do corpo, podemos ser abatidos; viver, cumprir a vida, só por inteiro. Qualquer fragmento do corpo pode gerar uma dor. Prazer? Os dos cinco sentidos. E o do sexto, suma de todas as sensações: a aprazível, tão escassa; a penosa, tão constante. Os do espírito, reservaste para uma excêntrica minoria. E pode-se viver/morrer sofrendo – quase todos, mas nem viver e nem morrer gozando – ninguém. Ao nascer, já se pode sofrer de quase tudo; gozar, de quase nada. Consumimos a linfa e outros se apropriam dos restos da combustão: – ‘tá errado. Escolhemos um caminho e outros nos impõem um rumo divergente: – ‘tá errado. Abrimos o coração e o outro nem se toca com a ferida: – ‘tá errado. E aí estão os três pilares de nossa condição – todos retorcidos. ‘Tá tudo errado, tudo, em todo o mundo, todo, desde os primórdios, sempre! E talvez não haja mais sequer a hipótese de corrigir-se: as hordas se organizam pelo disponível, não pelo desejável. Mal começamos a forçar as portas da afirmação (tantas – menos uma – incertas sempre, fechadas todas as outras), já se escancara a do aniquilamento (também só uma – mas sempre certa e aberta sempre). E, entre a abertura e o fechamento, batidas e tropeços, reerguidas e mais batidas e mais tropeços até àquela queda da qual ninguém se ergue. E os que purgam na mesma provação (os outros todos) acrescem, por descarga, esses atritos Continente . março, 03

que podiam, por senda, partilhar. E aquela chama – o único Dom que a justifica – só em raros momentos a redime: no mais é frustração, desassossego e pena. E o bálsamo não se espalha pelo corpo como o veneno se esparrama pelo espírito. Só isto, a vida – ou nisto resumida. Só isto, a vida humana: um breve rastejar, entre o Big-bang e o Apocalipse (se é que houve um e que haverá o outro). Certo, o rastejar. E os próprios, de cada um, particulares: cada explosão, cada implosão. Nada além, aquém. É pouco. É muito pouco. Rasteiro, muito rasteiro. Brota dessa vacância e dessa insuficiência a sede de infinitude – essa sede e esse dilema. Seria esse desejo de eternidade terrestre o reflexo de uma celeste eternidade? Ou, ao contrário, apenas o seu foco? Ou não mais que um protesto da humana condição, tanto digno quanto inútil? E cada ser deste mundo (da tua cria ou da nossa) tem um ponto qualquer, nevrálgico ponto, por onde há de falir. Quem, com que intuito, o implantou? Tu não terias essa maldade nem teu rival essa competência. Nós que não fomos: não faríamos essa bobagem. Mas está lá, aqui. Podendo servir como um alerta, só funciona como repuxo. Tinha que ser para sempre, mas em voleios! E um mundo tão malfeito: gelo num pólo, fogo no outro; seca num canto, dilúvio no outro. Sempre em desequilíbrio e à beira do fim, que nunca chega. Se ultrapassar as agressões desta hora, não chegará mesmo mais.


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Mas se tombou até o Destinado por que não o seu patíbulo? Desde esse tombo, recobre o mundo um trapo de agonia. Mesmo pelas zonas habitáveis, súbito lavas rompem do íntimo da terra – e restam cinzas; a própria terra traga as superfícies – e restam escombros; o mar escamoteia os chãos e os céus – e resta a lama; ventos arrasam construções de séculos – e resta o pó. E por cinzas, escombros, lama e pó é que temos de ser éticos, amar o próximo como a nós mesmos e ainda pagar impostos. Tão inseguro, tudo – tanta a insegurança que parece mais um de teus milagres não haver mais desgraça no planeta. Mas a concessão do milagre é a negação dos fundamentos da fé. E tudo numa repetitividade que entedia, com uma fidelidade dispensável: que, ao menos umas vezes, rompesse o sol à meia-noite; que, de quando em quando, boiasse pelo céu uma lua verde ou, de repente, irrompesse uma segunda, qualquer a cor; que as árvores e as crianças começassem a crescer de modo perceptível; que, em certos dias, depois de certos fatos e de certos atos, o tempo, ao contrário de avançar, retrocedesse; ou girasse sobre si mesmo, em torno de um instante em flor; ou estancasse, numa concentração de vida, universal e redentora; que os discos-voadores pousassem, nem que fosse para um diálogo de mímica; que fosse dado brincar a intervalos mais estreitos, pelo menos tanto quanto os de se alimentar e de dormir, e que estes se dilatassem, ou que o tempo de amor tivesse a duração e a freqüência dos tempos de trabalho, e que estes se reduzissem; que os dias de marasmo de repente alvorecessem e os de euforia tocassem a hora 25. Podias nos brindar com algo disso, e por que não? Mas não, e nunca: tem sido sempre a mesma cósmica rotina, há bilênios, nesta monótona alternação de estações – as vergastas da canícula ou as flechas da gelidez; nesta mecânica alternação de horários – as armadilhas da escuridão ou os excessos da claridade. Só raramente, a carícia de uma brisa. Só de passagem, o abrigo de uma penumbra.

E, sendo circular, começa e acaba onde se está: qualquer ponto da Terra é seu princípio e seu término. E o trágico nem é que seja assim, que tenha sido prescrito assim (se é que o foi): é que não mude. E quando isto mudasse, tinha de novo que mudar, tempos depois, como devia ter mudado, tempos antes. Imensurável, nosso crédito – que não mudamos nada (por dentro). Seria essa a matriz, a fecunda matriz, da social e da erótica, da funcional e da política, outras mais trágicas rotinas? Rotina, rotina, a vida inteira, rotina, uma rotina só, [plural e constante, rotina. E quando irrompe o novo, irrompe a reação, só vencida com pranto e sangue, que rolou muito, que vazou muito, antes que começasse – cada um como um farol – a Terra, a girar em torno ao Sol (e girou sempre!); o homem, a exibir seu ancestral (e exibiu sempre!); o econômico, a embasar o social (e embasou sempre!). E foi o pranto e foi o sangue o óleo que alimentou esses faróis. Fizeste-o mesmo assim, plena consciência, ou apenas, de longe dele, toleras o resultado? Mas somos nós que o aturamos. Então não poderia mesmo ser diverso. Mas pode! O poder de criar inclui o de destruir, recriar. Se não queres mudá-lo, nós iremos acabar usurpando as tuas prerrogativas. Dispões de todas, mas nos bastam três: retraçar as órbitas, a corrigir os climas; rever os genes, a deter as perversões; clonar os seres a anular a morte. Recriar a vida, ao gosto dos viventes. Continente . março, 03


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64 AUTORES Alves da Mota

A lei

algemada

Acordara naquela manhã mais cedo que de costume. Assim fazia, sempre que tinha de viajar. Desta feita, para embrenhar-se no sertão brabo das terras cearenses. Viajar constituía a sua atividade de representante fazendário, defensor do Erário Nacional. Fiscal do Consumo (hoje, Auditor do Tesouro Nacional), obrigado ao desvelo das finanças do Governo Federal. Fiscalizador das contribuições devidas, do comércio e da indústria nas cidades brasileiras, do litoral ao sertão. Mais de quinze anos de bons serviços, sem um deslize, uma pequena falha no desempenho das funções. Quase duas dezenas de anos lutando contra a malta de sonegadores. Casta terrível de maus brasileiros, dilapidadores do Patrimônio Nacional. Conhecia o tipo de rapinadores que eram tais indivíduos, falsificadores de livros fiscais, adulteradores, partidários da velhacaria e do suborno. Mas estava sempre de olhos abertos contra as artimanhas dos sabidinhos. Dava duro em todos eles. Tentassem um dia suborná-lo e veriam com quantos paus se faz uma cangalha! Tais pensamentos acudiam à cabeça de Teodoro Ventura toda vez que ele se dispunha a empreender grandes caminhadas de semanas inteiras, como a que iniciava naquela bonita e limpa manhã de dezembro. Ia ele fiscalizar cidades interioranas, nem todas de fácil acesso, pela ausência de boas estradas, a maioria de chão de barro batido: vilas outras sem estrada nenhuma, só caminhos e veredas, varando grotas e chapadões, verdadeiros cafundós de Judas em lombo de animais ou a pé. Mas não se queixava: o trabalho tinha as suas compensações: bom ordenado, além de participação de 50%, do valor das multas aplicadas. Muito forte ainda (só 49 anos de idade), Ventura sentia-se bem na atividade, orgulhando-se da retidão no zelo do Patrimônio Federal. De trem ou de montaria, aonde fosse, levava com ele o otimismo de sempre, vigilante incansável das riquezas do Erário Público. Na época de Ventura (fins da década de 20) os primeiros automóveis e caminhões, presentes nas estradas brasileiras, não chegavam ainda às agruras sertanejas, face, como já se disse, à inexistência de estradas. Nordestino de origem, tendo cursado aqui as Humanidades, transferira-se para o sul do País. Alguns anos depois, retorna ao Nordeste, já funcionário fazendário. Prestando serviço em várias capitais nordestinas, acabou sendo transferido de vez para o Ceará. Residindo em Fortaleza, pouco ou nenhum conhecimento tinha das terras altas do Cariri, aonde ia agora atuar. Isso porém não constituía entrave à sua atividade de Fiscal do Consumo. Sabia o

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que eram as gentes sertanejas, em especial comerciantes e industriais, que só no ferrão pagavam os seus impostos. Depois de dois dias nas cidades do Crato e Juazeiro do Norte, onde tudo correra bem, Ventura continuou viagem sertão acima, até chegar à última povoação do itinerário traçado, uma pequena cidade, distante cerca de quinhentos e cinqüenta quilômetros de Fortaleza. Aliviado da canseira de duas semanas de intensa atividade na região, procurou acomodação no primeiro hotel-hospedaria que encontrara, aí se instalando com sua bagagem. Era um sábado e, às 9 horas, ao deixar o hotel em direção ao centro comercial, topou de início com a feira local, que tomava toda a rua principal da cidade, numa efervescência de gente como numa festa. A matutada, de chapéu-de-palha na cabeça, ia e vinha, de sacos às costas, cheios de mercadoria, a pé, montados em jegues ou puxando carrocinhas abarrotadas de gêneros; a gritaria dos vendilhões e compradores, uma balbúrdia dos diabos! Ventura quase não podia andar, por entre sacos de cereais, rumas de galinhas, louças de barro, barracas de comidas, além de uns caras apregoando folhetos de cordel, numa cantoria infernal ao som de velha e desconjuntada sanfona. Um parêntese importante: O povoado aonde fora Ventura bater com o costado era composto quase todo de gente aparentada entre si. O Delegado de Polícia era irmão de três ou quatro fazendeiros locais. O maior comerciante do lugar, dono de grande empório onde se comprava de tudo – desde a agulha e carretel de linha à faca-de-ponta; do serrote ao torno mecânico e do pano-de-café à rede de dormir – tinha irmãos, primos e sobrinhos em toda a cidade. O vigário da paróquia era tio do dono da padaria e padrinho de uma enxurrilhada de afilhados, de modo que toda a população ali constituía quase uma única família. Os feirantes tinham, quase todos, o mesmo sobrenome Silva ou Pereira. Ignorando tal particularidade que a ele nada interessava, o agente do Fisco seguiu ao longo da rua, deixando para trás as vendas e os estabelecimentos menores que via de um e de outro lado da artéria, até se deter diante de um grande armazém já no fim do arruado. Tratava-se do maior estabelecimento comercial da cidade, um prédio de fachada alta, com 4 ou 5 largas portas, abertas para a frente da feira. Após um instante, o agente entrou e encaminhou-se para o salão de vendas. Interpelou o primeiro balconista à sua frente, desejando saber quem era o proprietário do estabelecimento. O moço apontou um homem de uns cinqüenta anos de idade, de fartos bigodes, rosto barbeado, que se achava por trás


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de uma escrivaninha envernizada, ao lado de velha registradora “Nacional”, de uso manual. O fiscal do governo cumprimentou o comerciante e identificou-se, solicitando em seguida a apresentação dos livros fiscais da firma, para o devido exame. Achando natural tal exigência, o comerciante ponderou, no entanto, ser conveniente deixar para ser feito o serviço na parte da tarde, por não ser aquela a hora adequada. Toda aquela balbúrdia da feira, com gente entrando e saindo do armazém, podia atrapalhar. Gente ignorante podia falar besteira, murmurar pela feira que o seu estabelecimento estava sendo autuado... O representante do Fisco não aceitou as ponderações do vendeiro. – Isso não pode ser –, disse. A fiscalização não admite adiamento. O exame dos livros tem de ser feito na hora em que chega ao estabelecimento o funcionário do Governo, como manda a lei. E ele, Teodoro Ventura, agente credenciado, ali estava para verificação imediata dos livros da firma. O chefe da firma tentou ainda convencê-lo, mas Ventura estava decidido. Que fizesse descer os livros sem demora. – Muito bem –, disse. – O senhor terá os livros a sua disposição, já e já. Minutos depois estava o nosso Ventura instalado na própria escrivaninha do chefe do armazém, de cabeça enterrada nos grossos volumes contábeis. Terminado o exame, ele respirou fundo, anotou as irregularidades encontradas, arbitrou a multa correspondente, destacou do talão o canhoto, apresentando-o ao comerciante para pôr o “Ciente”. Depois disso, pensando já na gorda percentagem do 50% da multa, despediu-se e deixou a firma com a consciência do dever cumprido, recolhendo-se à hospedaria. Após o banho, almoçou e foi descansar numa espreguiçadeira, no terraço ao lado.

Ventura tirava já um cochilo quando é despertado pelo hospedeiro, que lhe anunciava visitas. Estranhando que alguém viesse visitá-lo naquele fim-de-mundo, mas sem se inquietar, o agente fiscal apresentou-se no salão do hotel, achando-se em presença de quatro indivíduos estranhos, que se acompanhavam do chefe da firma que ele havia autuado horas antes. Este, dirigindo-se a um dos que o acompanhavam, e que era o Delegado de Polícia da localidade, apontou o fiscal do Governo, como sendo o homem que a autoridade procurava. Então, o Delegado dirigindo-se a Ventura, deu-lhe sumária voz de prisão, acusado que era, do assassinado de um homem, naquela manhã, no pátio da feira. Os outros visitantes ali presentes, eram as testemunhas “de vista”, do crime. Atônito, mirando vezes seguidas o rosto do comerciante, Teodoro Ventura tentou protestar: Não, não havia cometido crime nenhum; devia haver engano da parte de quem o acusava. Ele deixara naquela manhã o estabelecimento do cidadão ali presente, seguindo para o hotel, e ali se achava. Aliás, estava já de malas arrumadas para partir na madrugada seguinte. Desculpas “amarelas”, obstadas pelas “testemunhas”, que declararam, peremptórias, ser ele, na verdade, o autor do homicídio. Diante da “evidência” dos fatos, o Delegado foi obrigado a colocar as algemas no zeloso Fiscal do Consumo, recolhendo-o em seguida à cadeia pública. Quanto ao crime, que a Ventura imputavam, fora cometido, na verdade, por um desordeiro, no pátio da feira, por questão de bebedeira. Todavia, as declarações das testemunhas – todas, sobrinhas do comerciante – não admitiam contestação...

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66 SABORES

PERNAMBUCANOS

Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti

Receitas de Como Água Para Chocolate “Como água para chocolate, no México, quer dizer água a pique de ferver ou alguém a pique de explodir”. Nina Horta (Não É Sopa)

Março é mês do Oscar. Tempo de lembrar filmes que ficarão para sempre em nossas memórias. Entre eles o mexicano Como Água Para Chocolate, de 1992, a história de 12 receitas. Baseado em livro homônimo de Laura Esquivel e dirigido por seu marido, Afonso Arau. Tudo se passa no pequeno e tranqüilo rancho de “La Graza”, fronteira entre México e Estados Unidos. Começo do século passado. Mama Elena educava as filhas Gertrudes, Rosaura e Tita com enorme rigor. Tinha um coração de pedra – por ter sufocado, ao longo da vida, uma paixão proibida. Seu marido morreu de tristeza, incapaz de suportar a insinuação dos amigos, de que outro homem seria o pai de Gertrudes. Seguindo a tradição familiar, Tita, a filha caçula, teria que permanecer solteira. Para cuidar da mãe. Tita nasceu na mesa da cozinha. E na cozinha foi criada. Entre cheiros de canja, tomilho, louro, leite fervido, alho e cebola. Um dia ela e a mãe, por causa de uma cebola, choraram rios de lágrimas que inundaram a cozinha e desceram pelas escadas. Mais tarde foram recolhidos, nessas escadas, 5 quilos de sal. Acabou desenvolvendo uma relação mística com os sabores. A velha e sábia Nacha, agregada da família, lhe ensinou todas as receitas. E corria em paz a vida. Assim foi até quando os ventos da tragédia tomaram conta da casa. Quando Tita se apaixona por Pedro. Então “compreendeu o que sente a massa ao entrar em contato com o óleo fervente” – assim disse do calor que lhe invadiu. Quando o viu, até temeu “que lhe surgissem bolhas no corpo, como a massa”. Mama Elena, por castigo, ofereceu a Pedro sua outra filha Rosaura. Proibido de se casar com Tita, era essa a única maneira de que pudessem permanecer juntos, sob o mesmo teto. A oferta foi aceita. E assim Continente . março, 03

foi. Tita preparou o bolo de casamento Chabella (1). Usou 170 ovos. Só não seguiu o conselho de Nacha – “não chore sobre a massa”. Razão porque, na festa, todos começaram a chorar – expiando remorsos, sonhando sonhos impossíveis, lembrando amores do passado. Inclusive Mama Elena – que corre ao quarto, em busca de retrato do seu amado, há tempos escondido em uma pequena caixa. Nacha morre nessa noite. E Tita assume seu lugar, na cozinha. Passa a se comunicar com Pedro pelos alimentos. O amor, para ela, é quente como a água que ferve, para fazer chocolate. Pedro lhe ofereceu rosas brancas. Tita aperta essas rosas com tanta força, contra o peito, que os espinhos lhe arranham a pele. E as pétalas ficam vermelhas, cor de sangue. Nesse momento escutou a voz da velha Nacha sussurando, só para ela, mandando preparar “codornas ao molho de pétalas de rosas” (2). Todos arderam de prazer. Gertrudes foge nua, na garupa de um revolucionário de Zapata. Mama Elena pensa em seu amor proibido e diz frases desconexas: “os homens não são importantes para se viver; pior é comer pimenta sem água por perto”. O desejo de alimentar o filho recém-nascido de Pedro faz com que o peito de Tita tenha leite.


SABORES PERNAMBUCANOS 67 » Foto: Divulgação

Cena do filme, Como Ægua para chocolate, de Alfonso Arau

Mama Elena reconhece o perigo que é manter aqueles dois na mesma casa. E faz com que Pedro, Rosaura e a criança viajem. O bebê morre e Tita enlouquece de saudade. É tratada por um médico americano, Dr. John. A avó desse médico, “Luz do Amanhecer”, uma velha índia kakapoo, ensinava que “todos nascemos com uma caixa de fósforo por dentro, que não podemos acender sozinhos. Necessitamos de oxigênio e da ajuda de uma vela. O oxigênio vem da boca da pessoa amada. E a vela pode ser uma melodia, uma palavra, um som, qualquer coisa que acenda um de nossos fósforos”. John pede a mão de Tita. Ela aceita, mas o casamento nunca se realiza. Mama Elena morre. E voltam todos para o rancho – Tita, Pedro, Rosaura e também Esperança, a nova filha do casal. Gertrudes, a nua, volta como se nada tivesse acontecido. Rosaura morre de desgosto. Dia de Reis, Tita prepara “Rosca de Reis” (3). Esperança, filha de Pedro, casa com um filho de John. Tita prepara o jantar do casamento. Depois de comer, todos se abraçam e se beijam. Os noivos se vão. Tudo tem seu tempo próprio. Como a calda de caramelo – “molhe os dedos na água fria, mergulhe-os na calda e depois na água de novo. Se a calda endurecer, é porque está no ponto certo”. Pedro e Tita ficam sozinhos, na casa, pela primeira vez em suas vidas. Ainda não sabiam que seria também a última. Dirigem-se à cabana cheia de velas. No céu, relâmpagos e trovões. Pedro se deita. E, como se tivesse cumprido sua missão na terra, morre em paz. Tita o cobre com um manto que brilha como brilham as estrelas. E

lembra os ensinamento da velha índia – “se uma intensa emoção acender todos os fósforos ao mesmo tempo, produzirá uma luz tão forte que veremos um túnel esplendoroso que nos mostra o caminho, que esquecemos ao nascer, e que nos chama de volta a nossa perdida origem divina”. Então se deita junto a ele. Feliz. Nunca mais os dois seriam vistos. O fogo toma conta de tudo. Tempos depois, a filha de Esperança abre o velho livro de receitas de Tita. Foi tudo o que escapou do incêndio. Sente saudades da comida dela. Da sua conversa. Do cheiro de sua cozinha. Das tortas de Natal. De seus conselhos – entre eles, “colocar um pedaço de cebola na cabeça, para evitar as lágrimas. O ruim de chorar, quando se pica a cebola, não é o fato de chorar e sim que às vezes não se consegue parar”. Só então se dá conta que o conselho não vale só para a cozinha. A seu lado, silenciosos, os fantasmas de Nacha e Tita. A noite começa a descer, lentamente. Os primeiros raios de lua iluminam o velho fogão. E segue a vida. Continente . março, 03


PERNAMBUCANOS

(1) BOLO CHABELLA INGREDIENTES: ½ xícara de açúcar, 6 gemas, 2 ovos, 1 xícara de farinha de trigo, 1 colher de sopa de raspa de limão, ¾ de xícara de geléia de damasco. COBERTURA: 2 xícaras de açúcar de confeiteiro, 1 colher de sobremesa de suco de limão, 2 claras PREPARO: Na batedeira, bata os ovos, 2 gemas e o açúcar, até obter uma mistura clara. Junte as gemas restantes, a casca de limão e continue batendo. Acrescente a farinha de trigo e misture cuidadosamente. Coloque em 2 formas com 25 cm de diâmetro e asse em forno pré-aquecido. Depois de frio, recheie com a geléia de damasco e cubra com as claras batidas, bem firmes, com açúcar e raspa de limão.

(2) CODORNAS AO MOLHO DE PÉTALAS DE ROSAS INGREDIENTES: 6 codornas, 12 rosas vermelhas, 12 castanhas portuguesas, 3 colheres de sopa de manteiga, 2 colheres de sopa de anis, 2 colheres de sopa de mel, 2 dentes de alho, 2 gotas de essência de rosas, 3 copos de água, sal e pimenta. PREPARO: Limpe e tempere as codornas com sal e pimenta. Amarre as pernas e doure na manteiga. Em outra panela doure o alho com o restante da manteiga. Junte o purê de castanha (depois de cozida em água e sal), o mel, as pétalas (amassadas no pilão, junto com o anis), a água e o sal. Deixe cozinhando em fogo brando. Peneire esse molho e acrescente a essência de rosas e as codornas. Decore o prato com pétalas de rosas.

(3) ROSCA DE REIS INGREDIENTES: 125g de fermento fresco, 2kg de farinha de trigo, 10 ovos, ½ litro de leite, 325g de açúcar, 325g de manteiga, 20g de sal, 2 colheres de sopa de água de flor de laranjeira, raspas da casca de um limão, 10g de canela em pó, 250g de frutas cristalizadas, manteiga para untar a forma, trigo para polvilhar a forma, 3 ovos batidos para pincelar a rosca, açúcar de confeiteiro para polvilhar a rosca. PREPARO: Desmanche o fermento em leite morno, com um quarto da farinha. Amasse e deixe descansar por 2 horas. Coloque o restante da farinha na mesa. No centro, o leite restante, os ovos, o açúcar, a manteiga, o sal, as raspas de limão e a água de flor de laranjeira. Amasse bem. Junte a massa anterior que já cresceu de tamanho. Incorpore bem as duas massas. Deixe descansar novamente, até atingir o dobro do tamanho. Abra a massa em forma de tira. Recheie com um creme feito com 80g de açúcar, 300ml de leite, 2 gemas e 35g de maisena. Por cima do creme coloque as frutas cristalizadas e a canela. Enrole e torça a tira, como uma rosca. Coloque em assadeira untada e polvilhada. Cubra com guardanapo e deixe dobrar de volume.Pincele com as gemas batidas, decore com algumas frutas cristalizadas. Leve ao forno até dourar. Polvilhe açúcar de confeiteiro em cima.

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Foto: Divulgação

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ESPETÁCULOS

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Festival reprisa melhores do ano São 28 peças adultas, infantis e de rua que serão mostradas no Recife, entre 14 de março e 6 de abril De 14 de março a 6 de abril está acontecendo no Recife o 11º Festival Todos Verão Teatro, exibindo as melhores montagens locais do ano que passou, incluindo 20 espetáculos adultos e 8 infantis. Produzido pela Federação de Teatro Amador de Pernambuco, Feteape, agitou cena local de 1976 a 1978 – sendo assim o mais antigo projeto de artes cênicas do Estado – deu uma parada de dez anos e foi retomado em 1992. Desde então vem se firmando como um importante momento de realização na produção teatral da cidade, ocupando os palcos do Teatro do Parque e Teatro Armazém 14, além de seis montagens de rua. Companhias dos municípios de Limoeiro (Mata Norte), Caruaru (Agreste), Petrolina (Sertão), Vitória de Santo Antão, Jaboatão dos Guararapes, Olinda e Paulista (Grande Recife) e da capital apresentarão textos clássicos como O diário de um louco, do russo Nikolai Gogol, numa adaptação de Rubem Rocha Filho, pela Arte em Cena, de Caruaru; Uma tragédia florentina, de Oscar Wilde, pela Cia. Máscaras de Teatro, de Petrolina; e, ainda, Antígona, de Sófocles, levado pela Cia. de Teatro de Paulista. Recife apresenta a montagem de O arquiteto e o imperador da Assíria, de Fernando Arrabal, um dos expoentes do Teatro do Absurdo. A dramaturgia nacional está representada por O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, numa realização da Dramart Produções; Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, em espetáculo da Cia. Spectrus de Artes Cênicas; e Plenos Pecados, uma adaptação do romance erótico A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro. Na lista de encenações de textos dos autores pernambucanos está a peça Parabéns para você, de Sandro Guerra, com a Cia. dos 10; O Bar das Ilusões, de Marcus Vinícius, pelo grupo Haja Teatro; e A viola do Diabo, de Ladjane Bandeira, com a Cia. Teatro de Paulista. Para as crianças há várias opções, incluindo as adaptações de um conto de Graciliano Ramos, Na terra dos meninos pelados, e do romance de Robert Louis Stevenson, A Ilha do Tesouro; Entre os espetáculos de rua há O boi às avessas, com texto coletivo do Grupo Arteiros e Quem ensinou o Diabo a amassar o pão?, também uma criação coletiva do Grupo vem cá vem ver. Durante o festival serão ministradas oficinas de direção teatral, por Roberto Lúcio; de circo, pela Escola Pernambucana de Circo; de teatro popular, pelo Movimento de Teatro Popular de Pernambuco; e de teatro para crianças, por Marco Camarotti. No dia 27 de março, Dia Mundial do Teatro e do Circo, haverá uma festa comemorativa no Pátio de São Pedro. Maiores informações na Feteape, pelo fone (81) 3224.9130.

João Grilo e Chicó, em O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna

Nas Voragens do Pecado, com o Grudage, do Cabo

Abaixo, Na Mancha Ninguém me Pega, com o grupo Em Cena Arte, do Recife

O Arquiteto e o Imperador da Assíria, de Arrabal. Ao lado, Parabéns Pra Você

Severino Florêncio em O Diário de um Louco, de Gogol Continente . março, 03

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70 ESPETÁCULOS

Hipérion Curso profissionalizante realiza trabalho inédito em Pernambuco Fotos: Divulgação

Gerson Lobo e Karla Laet, dois alunos do curso, preparam-se para trabalhar em teatro e vídeo

A escassez de oportunidades no cenário artístico de Pernambuco levou o ator e empresário Wilson Almeida a criar a Hipérion Produções Artísticas. Trata-se de um curso profissionalizante de atores e produtores na área de cinema, teatro e televisão que pretende revelar novos talentos e introduzi-los no mercado de trabalho. A idéia do projeto surgiu em 2000, mas as primeiras turmas só foram iniciadas no ano passado. O curso é dividido em vários módulos, que vão desde expressão corporal até as técnicas de encenação e interpretação. Em um ano a Hipérion já produziu três peças de teatro, entre elas O Pequeno Dicionário Amoroso de José Roberto Torero, e oito vídeos. Foi na área teatral que a Hipérion mais se destacou. Além das três peças, que serviram como a prova pública dos alunosatores, houve ainda um festival de esquetes (peças curtas), que foram produzidos pelos próprios alunos e algumas até mesma escritas por eles, pondo em prática as aulas de roteirização. Pelo destaque que o teatro alcançou, este ano a estrutura da escola vai mudar. “Vimos que havia alunos que preferiam teatro e outros, vídeo, então decidimos dividir em dois. Este mês começam as inscrições para o curso de teatro”, explicou Wilson Almeida. Os festivais de esquetes tiveram duas etapas, nos quais foram premiados os melhores trabalhos e de onde saíram os esquetes que concorrem à final neste mês. As premiações para os melhores atores incluíram uma coleção completa das obras de Stanislavski, autor da linha teórica seguida pelo curso. Para Carlos Florêncio, aluno, e ator de teatro há mais de dez anos, a Hi-

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périon foi uma maneira de se reciclar. “Gostei da idéia, de todos os módulos e ainda me atualizei nas técnicas teatrais”, elogiou. Pitória, nome artístico de Florêncio, ganhou o prêmio de melhor ator na primeira etapa do Festival de Esquetes. Wilson Almeida já tem para este ano vários projetos encaminhados. Além de fazer o aprimoramento dos cursos oferecidos, quer pôr na vitrine a maior parte do que foi produzido em 2002. “Vamos tentar colocar o que de melhor foi feito aqui, nos vários festivais que acontecerem dentro e fora de Pernambuco”, adiantou. Outra proposta a ser posta em prática é o maior intercâmbio com diferentes centros de teatro do nordeste e do Brasil, na tentativa de ampliar a visibilidade da escola. “Esse ano algumas produtoras de fora já procuraram nossos alunos. A idéia é aumentar o número ainda mais”, completou. No lado mais profissional, a Hipérion está preparando o Circuito Alternativo de Teatro, um palco itinerante que pretende circular pelas principais casas noturnas do Recife, apresentando peças de quinze minutos numa produção que envolve os professores e os melhores alunos da escola. O primeiro texto escolhido para trabalho foi As mentiras que os homens contam, de Luís Fernando Veríssimo. Segundo o empresário, a Hipérion Produções Artísticas é um trabalho inédito em Pernambuco. “Não sei se existe um curso que abrange tantas áreas nem no eixo Rio-São Paulo”, destacou. Este mês começam as inscrições para os primeiros módulos do ano. Por enquanto, só serão voltados para a área teatral.


DIÁRIO DE UMA VÍBORA 71 » Joel Silveira

Foto: AFP

Se fosse maio...

Praça de São Pedro, Roma

Se fosse maio, Roma não estaria assim fechada e arredia, quase uma estranha Se fosse maio, este crepúsculo romano não findaria assim tão de repente,como uma lâmpada que alguém tivesse apagado. Se fosse maio, o começo da noite seria apenas uma indicação no relógio, porque lá adiante o velho muro da Porta Picciana, que vejo daqui da varanda do Excelsior, diria à tarde: “Não passarás” – e a tarde não passaria. Se fosse maio, Roma não estaria assim fechada e arredia, quase uma estranha (ou uma mãe amuada), a me soprar no rosto um vento inimigo e a me encharcar os cabelos com uma chuva tão hostil. Mas é maio nos olhos da moça que me conta dos seus impetuosos e até agora frustrados sonhos de aventureira, ansiosa por pisar em todos os chãos do mundo: “Eu queria ser assim como você, de profissão assim, errante, sem pouso”. De-

senha para mim na toalha quadriculada do pequeno restaurante o complicado itinerário que um dia – um dia de maio – a levará até Hong Kong, cidade que ela ainda não conhece, mas que ela já fez sua. É maio na bebida que bebemos; é maio, muito maio, na complicada história de Vicky, a esguia modelo que deixou em Barcelona a mãe, o noivo e a insônia e para lá não quer mais voltar, porque aqui é maio e lá, para ela, nunca é. E subitamente, na insólita madrugada, maio f loresce na banca dos jornais. E como é maio, compramos, a moça e eu, violetas e rosas e vamos beber a água da fonte. E ninguém vai mais dormir, porque é maio, porque maio chegou sem avisar – e não podemos deixá-lo sozinho nesta fria e fechada noite de dezembro.

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72 ESPECIAL Marcelo Abreu

Não destruam

Pyongyang

A vida artística na capital do socialismo fantástico Nos projetos arquitetônicos apresentados em perspectiva e nas maquetes, as avenidas são sempre espaçosas e com pouco trânsito, as árvores bem podadas crescem sempre alinhadas, os espaços construídos são generosos e a população escassa caminha tranqüila, mães puxando crianças em idade escolar pelo braço, casais passeando vagarosamente. Pyongyang, a capital da Coréia do Norte, parece um desses projetos arquitetônicos levados à prática, a realização da cidade socialista perfeita. A preocupação com a imagem, uma constante do regime, leva a uma teatralização do cotidiano, ao uso do ritual, ao culto ao dirigente, à padronização obcecada de gestos e palavras. Todo mundo sabe que o regime que governa a Coréia do Norte tem um programa ilegal de armas nucleares, que ameaça com retórica

Manifestação oficial na Praça Kim Il Sung, no centro da capital norte-coreana

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incendiária seus vizinhos e que submete sua população à fome enquanto investe pesado na militarização, entre outras ações pouco elogiáveis. Mas o que uma visita ao país demonstra é que, paralelamente a todos os aspectos condenáveis citados acima, esse integrante do ‘eixo do mal’ também produz uma cultura artística e arquitetônica única no mundo de hoje e que precisa ser melhor conhecida e estudada. Não adianta simplesmente jogar a arte e arquitetura norte-coreana no cesto do realismo socialista de Stalin. O modelo cultural da Coréia juntou às influências do marxismo internacionalista, elementos filosóficos asiáticos determinantes. A herança confucionista, oficialmente renegada pelo sistema, veio misturar-se à tradição soviética para engendrar uma forma de ver o mundo e cultuar o líder sem precedentes no contexto contemporâneo. Kim Il Sung, o generalíssimo fundador da República Popular, teve muito tempo para poder imprimir a sua marca em todos os aspectos da vida nacional. Enquanto Stalin governou 32 anos, Kim ficou no comando durante 49 anos. E ao morrer, deixou como sucessor o filho Kim Jong Il, que tem, nos últimos oito anos, continuando, e até aumentando em alguns aspectos, o culto à personalidade. Pyongyang, com seus dois milhões de habitantes, é uma cidade sem paralelo no mundo. Largas avenidas, prédios gigantescos, passagens subterrâneas para pedestres, metrô eficiente, e poucos automóveis fazem da capital um

Fotos: Reprodução


ESPECIAL

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cenário higienizado para um regime que se diz invencível e superior a todos os outros. O Palácio Memorial de Kumsusan, onde Kim Il Sung, embalsamado, recebe visitas de delegações estrangeiras; a Grande Casa de Estudos do Povo, uma biblioteca gigante no centro da capital; o edifício do Conselho de Estado (com pôsteres de Marx e Lênin na fachada); a Praça Kim Il Sung, palco das grandes manifestações políticas orquestradas pelo regime (presença obrigatória para todos os convocados); a majestosa avenida Sungni (Vitória). O Palácio das Crianças de Mangyongdae; a avenida Kwangbok (Libertação) construída de uma tacada só, com arranha-céus residenciais e bondinhos circulando no meio como em uma verdadeira maquete viva; a avenida Chongchun com seus dez complexos esportivos; os três gigantescos estádios de futebol. E uma infinidade de grandes teatros, centros culturais, cinemas, instituições de ensino e doutrinação. Quem usa todo esse cenário? Apenas a elite do regime, burocratas, quadros dirigentes, militares e suas famílias e alguns interioranos que ganham o privilégio de visitar a capital. A entrada na cidade é controlada por barreiras do exército. Os deficientes físicos e anões foram retirados para não manchar a imagem de perfeição. Até as mulheres grávidas têm seus movimentos controlados na rua. Parece ficção de mau gosto mas não é. A população freqüenta circos, teatros e cinemas de forma planejada e organizada. Os ingressos são distribuídos pelas organizações de massa (sindicatos, associações, companhias estatais). O indivíduo não consome cultura no sentido ocidental. Na prática, a

Avenidas largas e arborizadas marcam a paisagem urbana da capital

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74 ESPECIAL

Aonde ides, querido líder, a esta hora avançada da noite? De Shin Yeung Ki

sua categoria profissional o convoca para uma sessão de educação política, através do espetáculo. Onde mais, no mundo atual, toda a produção artística é dedicada apenas ao culto de dois homens? Tudo gira em torno do culto. O próprio sentimento universal do amor foi alterado de tal forma que se tornou apenas, no discurso oficial, a devoção filial ao pai da nação, o bonachão simpático Kim Il Sung e ao seu filho querido, o excêntrico Kim Jong Il. Aonde ides, querido líder, a esta hora avançada da noite? Este é o nome de um quadro pintado a óleo que mostra um grupo de pessoas em uma plataforma de estação de trem, agasalhados e enfrentando uma nevasca, olhando preocupados em direção a um vagão de trem. São nortecoreanos simples, preocupados com o destino e as façanhas do grande líder Kim Il Sung, em pintura de Shin Yeung Ki exposta em uma galeria de Pyongyang. Os tons azulados, a neve abundante, o aspecto devocional das expressões faciais, a cortina da janela do trem que guarda a privacidade do líder, tudo lembra um belo cartão de Natal. São características que marcam toda a arte norte-coreana produzida nas últimas cinco décadas. Mais curioso ainda é que os líderes coreanos não são apenas incentivadores das artes. Um deles, o atual Kim Jong Il, se considera mesmo um artista, apaixonado por cinema, sobretudo. Na juventude – já gordinho, entroncado e cabelo penteado Continente . março, 03

para cima – interessou-se por balé e chegou a instruir pessoalmente algumas pessoas sobre a arte da dança. Depois escreveu um livro sobre teoria do cinema e produziu vários filmes. Posteriormente, pintou e bordou, inclusive no sentido literal. É um dos patronos do Instituto de Bordados de Pyongyang, detentor de prêmios internacionais, segundo eles. Escreveu também libretos para óperas revolucionárias. Esteticamente, toda a produção artística exalta valores do regime de forma exuberante. Nas esculturas e pinturas, garotinhas com ramos de trigo nas mãos, os militares de punhos fechados, em clareiras no meio da floresta, ouvindo atentamente os conselhos do grande líder. Na música de orquestra e nas óperas, corais de mais de cem vozes cantam, com os pulmões inflados, canções cujos títulos em português seriam As bênçãos do General ou Seguirei o caminho que o Partido desejar. No cinema, documentários mostram façanhas dos líderes e na ficção histórica, a guerra de libertação contra os japoneses é sempre vencida por Kim Il Sung. Na história rescrita pelo regime, a bomba de Hiroshima não tem nenhuma importância na derrota dos japoneses e de sua posterior retirada da Coréia. Kim Il Sung é tido como o único responsável pela libertação da pátria. Dentro da ideologia desenvolvida por Kim Il Sung e continuada pelo seu filho, o mundo exterior é que representa o mal histórico. Afinal, a Coréia foi, ao longo dos séculos, repetidamente invadida e espoliada por chineses, japoneses, mongóis e, supostamente, pelos norte-americanos, que ocuparam o sul da península depois da Segunda Guerra Mundial. A história coreana, portanto, explica a forte rejeição ao mundo exterior. Então, respeitável público mundial, do lado esquerdo do ringue, Kim filho, herdeiro dileto, ascendência quase divina. À direita, Bush filho, eleito diretamente pelas confusas urnas da democracia. Está armado o conflito e façam suas apostas. A questão norte-coreana coloca em discussão novamente os conceitos de democracia ocidental versus tradição asiática. Seria possível a implantação de um sistema semelhante em um país sem tradição confucionista? Faz-nos também olhar para nossa tribo, supostamente capitalista e livre. O discurso ocidental seria mesmo pluralista? Deve ter a arte algum papel social? São, afinal de contas, questões que desapareceram com o chamado “fim das utopias”? Na precária e incerta sobrevivência do regime norte-coreano, o que está em jogo é também o direito à existência de uma sociedade diferente, regida por valores políticoreligiosos impensáveis no Ocidente. Existência que, entre outras coisas, tem como alto preço a manutenção de uma fantasia totalitária que usa a arte como uma extrema forma de ilusão das massas. Afinal, na capital do socialismo fantástico, a maquiagem certamente é uma forma de arte.


ESPECIAL

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Egas Moniz Bandeira

A Coréia do Norte

vis-à à-v vis aos EUA

A tensão na península coreana envolve interesses complexos, inclusive da poderosa China Fotos: Reprodução

Em 1994, o governo dos EUA firmou um acordo com o da Coréia do Norte, mediante o qual lhe garantiu o fornecimento anual de 500.000 toneladas de óleo, anualmente, e a ajuda à construção de duas usinas nucleares para fins pacíficos, em troca da paralisação do seu programa nuclear. O presidente Bill Clinton assim conseguiu resolver, diplomaticamente, uma crise, evitando a proliferação de armas nucleares. Posteriormente, em junho de 2000, os chefes de Estado da Coréia do Norte, Kim Jong-Il, e da Coréia do Sul, Kim Dae-Jung, encontraram-se em Pyongyang e essa reunião histórica trouxe a esperança de que os dois países, divididos há mais de meio século e com regimes políticos diferentes, se reaproximassem, ainda que vagarosamente. E houve também progressos concretos, possibilitando reunião de famílias, alguns investimentos e abertura de rodovia e ferrovia através da fronteira mais fortificada do mundo. Esse processo de reaproximação, chamado de “política da luz do sol”, resultou no Prêmio Nobel da Paz para Kim DaeJung, presidente da Coréia do Sul, mas foi interrompido com a ascensão ao governo dos EUA de George W. Bush, que colocou a Coréia do Norte como parte do que chamou de “eixo do mal”, juntamente com o Iraque e o Irã – vinculação errada, uma vez que esses três países têm muito mais diferenças do que semelhanças – e tratou de isolá-la, depois de que vários países, inclusive o Brasil, com ela estabeleceram relações diplomáticas. Foram os EUA que desencadearam a crise com a Coréia do Norte, ao acusá-la de haver admitido a continuação do programa nuclear para fins militares. Porém, ao contrário das notícias veiculadas por várias agências, a Coréia do Norte não admitiu oficialmente a continuação do programa nuclear. O governo dos EUA foi que asseverou que “altos funcionários norte-coreanos”, em conversa particular, fizeram essa revelação, em conseqüência da qual o presidente George W. Bush suspendeu o fornecimento do óleo, juntamente com a Coréia do Sul, o Japão e a União Européia, o que levou o governo de Pyongyang a reativar a usina nuclear de Yongbyon, paralisada desde 1994, alegando a necessidade de produzir energia, e a denunciar o tratado de NãoProliferação de Energia Atômica, razão pela qual a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) remeteu a questão para o Conselho de Segurança da ONU. Os EUA receiam que essas iniciativas visem a fins militares. Alguns analistas supõem que a Coréia do Norte, como já o fez em 1994, esteja tomando essas medidas para efeito de barganha e para obter vantagens econômicas, como, por exemplo, o fornecimento de mais óleo e alimentos. Até agora, porém, a crise

O Ryugyuong, o maior hotel do mundo, se for concluído na capital da Coréia do Norte

só trouxe desvantagens para a Coréia do Norte. Não só não recebe mais óleo depois das acusações dos EUA, como também a ajuda internacional contra a fome no país abruptamente despencou nos últimos meses. Se a crise terminar como em 1994, o que é o mais provável, ela poderá realmente alcançar seus objetivos, embora já o acordo anterior não tenha conseguido prevenir a catástrofe humanitária que assolou a Coréia do Norte, especialmente no fim dos anos 90. A Coréia do Norte, mais rica do que a Coréia do Sul em minérios, é, entretanto, mais pobre em terra arável e há anos sofre devastadora crise econômica, com a população a passar fome, apesar de que o número de crianças mal-nutridas tenha caído de 61% para 21%, nos últimos cinco Continente . março, 03

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76 ESPECIAL

Pyongyang à noite: vista da margem do rio Dedong

anos segundo um estudo feito pelo Unicef e pelo Programa Mundial de Alimentação. O que parece mais provável é um entendimento com os EUA, como em 1994, especialmente em virtude da guerra com o Iraque. A Coréia do Norte tem pouca importância estratégica para os EUA, salvo a possibilidade de poder manter tropas diretamente na fronteira com a China, depois de uma eventual reunificação das duas Coréias, possibilidade cada vez mais improvável devido ao recrudescimento do anti-americanismo na Coréia do Sul, onde os EUA são percebidos como aliados dos generais que durante muito tempo exerceram ditadura. À China também não agrada a presença dos EUA na península. Ela apoiou militarmente a Coréia do Norte na guerra contra a Coréia do Sul, no início dos anos 50, deixando de avançar contra Taiwan, onde se instalara o governo de Chiang Kai-Shek, protegido pelos EUA,

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e se tornou seu principal aliado. Entretanto, desde que Deng Xiaoping, nos anos 80, começou a promover a abertura econômica chinesa, a Coréia do Norte perdeu muito de sua importância para o governo de Pequim, ao mesmo tempo em que se tornou ainda mais dependente de sua ajuda, devido ao desmoronamento da União Soviética. A China é, portanto, um país que pode desempenhar importante papel nesse conflito com os EUA, pois quer aumentar sua influência e Kim Jong-Il, que exerce a ditadura na Coréia do Norte, está a perturbar seus interesses, ao transformá-la em foco de instabilidade na região. Porém, conquanto alguns analistas infiram que a influência de Pequim tenha diminuído, é possível que Kim Jong-Il tenha tomado a atitude de desafiar os EUA, com o seu aval, a fim de dificultar a guerra contra o Iraque. Mas o agravamento do conflito não interessa à China, nem à Coréia do Sul, cujo presidente Roh Moo-Hyun, eleito em 2002, está tentando continuar a política da “luz do sol”, de seu predecessor Kim DaeJung, que é comparada com Ostpolitik de Willy Brandt. A Coréia do Sul pode perder com a reunificação, mas também ganhar, inclusive herdando o suposto armamento atômico da Coréia do Norte, que a tornaria uma potência nuclear. A euforia com a reunificação esfriou, no entanto, diante das conseqüências e dificuldades que a Alemanha passou a enfrentar, como conseqüência dos altos custos de sua reunificação em 1990. Em face de tal perspectiva, o governo de Seul, ao que parece, pretende intermediar uma solução para o problema com os EUA e preparar lentamente o caminho para a reunificação, evitando ao mesmo tempo o imediato colapso da Coréia do Norte, que produziria efeitos ainda mais negativos, como, por exemplo, o repentino fluxo de refugiados, através de fronteiras, tanto para o Sul da península, como para a China.


ESPECIAL 77 » Foto: Reuters/Suhaib Salem

Bagdá, fundada em 762 d.C pela dinastia dos Abácidas, era conhecida nos seus primeiros anos como Medinat as-Salaam - A Cidade da Paz

Tiranias

mesopotâmicas

Saddam Hussein abandona o caminho da riqueza em busca do ideal de pan-arabismo nas terras da antiga Babilônia

Nabucodonosor, Hamurabi, Assurbanipal, Saddam Hussein. Nos arredores da Torre de Babel, uma encruzilhada histórica reúne caminhos que levaram da invenção da roda e da astronomia à ganância pela exploração do petróleo e ao pan-arabismo. O Iraque poderia ser um dos países mais ricos do Oriente Médio e boa parte de sua população estaria passeando nos grandes carros importados – e com ar condicionado – enquanto a classe trabalhadora importada da Ásia faria os trabalhos pesados. É assim em outras partes da região rica em petróleo e a prosperidade estava chegando a muita gente no Iraque dos anos 70, até que o poder subiu à cabeça do general Saddam Hussein. Duas guerras num período de vinte anos e o país foi arrasado. Saddam Hussein atacou o Irã em 1980 e manteve o conflito durante oito anos. Em 1990, radicalizando as idéias do seu Partido Baath (Ressurreição), que prega a unidade entre as nações árabes, e alegando antigas disputas territoriais, invadiu e anexou o Kuwait, o rico vizinho do sul. O Iraque seria arrasado pelas tropas americanas cinco meses depois, mas Saddam sobreviveu quando os generais americanos receberam ordens para não invadir Bagdá. O resto é história recente: bloqueio econômico, perda de soberania sobre áreas do território iraquiano, fome e privações.

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78 ESPECIAL

Considerado berço da civilização e situado na antiga Mesopotâmia – terra entre rios Tigre e Eufrates –, o Iraque sintetiza alguns dos dramas do mundo contemporâneo: a transição violenta da monarquia para a república, a explosão desenvolvimentista com sérios reflexos no meio ambiente e no estilo de vida tradicional e uma política externa ousada e desastrosa. Dos seus 24 milhões de habitantes, 80% são da etnia árabe. Há mais de três milhões de curdos no norte do país e mais 1,2 milhões de pessoas pertencentes a povos minoritários como turcomanos, yezidis e os chamados “árabes do pântano” ou madans. Assim como o Irã, a maioria dos muçulmanos do Iraque é xiita. Só que, no Iraque, o poder político está concentrado com os sunitas minoritários, entre os quais se inclui Saddam Hussein. No território de 434 mil quilômetros quadrados, transcorre o jogo de escondeesconde das inspeções internacionais para achar armas de destruição em massa. A situação geopolítica iraquiana é das mais complexas: no sul, faz fronteira com o Kuwait e a Arábia Saudita – inimigos tradicionais – e seus defensores norteamericanos. No leste, fica o Irã dos aiatolás xiitas, detestados por Saddam Hussein. No norte, a Turquia e sua minoria curda (os curdos, povo que não é semita mas indo-europeu, exigem há décadas a criação de um estado independente na região). E no oeste, a Jordânia (com quem tem uma aliança tácita) e a Síria da família Assad, governada por uma versão diferente das idéias pan-arábicas e, portanto, rival do regime de Hussein. O Iraque detém uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Já teve uma das economias mais prósperas do Oriente Médio, baseada na venda de petróleo. Sua renda per capita já beirou os U$ 3 mil anuais e o país importava mão-de-obra do resto da região. As coisas começaram a piorar com os gastos da guerra Irã-Iraque, iniciada por Saddam, e pela aventura militar no Kuwait, que resultou na primeira Guerra do Golfo. A capital Bagdá, fundada em 762 d.C pela dinastia dos Abácidas (a segunda grande dinastia do islã), era conhecida nos seus primeiros anos como Medinat as-Salaam – A Cidade da Paz. Situada às margens do rio Tigre, era o centro do mundo e seu nome evocava as lendas das mil e uma noites árabes. Além do sofrimento humano, as guerras têm ajudado a deteriorar grandes monumentos da civilização mundial localizados no país. Foi no sul do Iraque onde surgiu uma das primeiras civilizações, a dos sumérios, inventores do sistema de escrita cuneiforme, protótipo dos alfabetos ocidentais, possivelmente a

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mais importante invenção da história humana. Os sumérios habitavam a Caldéia e criaram Ur, considerada como a mais antiga cidade do mundo, de onde partiu Abraão, patriarca de judeus, cristão e muçulmanos. Na Guerra do Golfo, o ziggurat de Ur (o templo tradicional), com seus 3.500 anos, ficou crivado de balas. Mais para o norte, o território do Iraque abrigou no passado impérios como Acádia e Babilônia. A 90 quilômetros ao sul de Bagdá ficam as ruínas de Babilônia, hoje reduzidas a uma gigantesca estátua de um leão, desgastada pelo tempo. A mesma Babilônia que já teve seus jardins suspensos, uma das sete maravilhas do Mundo Antigo. Ainda mais ao norte, o velho Iraque abrigou a temível civilização assíria, que teve na cidade de Nínive sua terceira capital. Hoje as ruínas ficam nos arredores de Mosul, uma das maiores cidades do país, localizada na região dominada pelos curdos. Em Kerbala, 108 quilômetros a sudoeste de Bagdá, aconteceu, em 680 d.C., a famosa batalha do mesmo nome, na qual foi assassinado Ali ibn Hussein, primo e genro do profeta Maomé, acontecimento que intensificou o racha entre muçulmanos sunitas e xiitas. Em nenhum outro lugar do Iraque, as velhas civilizações da Mesopotâmia sobreviveram tanto tempo como nos pântanos do sudoeste, nas proximidades da cidade de Basra e da fronteira com o Irã. Os pântanos e sua rica vegetação propiciavam a manutenção de uma civilização quase flutuante, baseada na extração do junco, que servia para a construção de canoas e moradias para a população. Essa sobrevivência duraria até somente o final dos anos 80 do século 20. Região propícia para infiltração de tropas inimigas, os pântanos foram inicialmente atacados durante a guerra contra o Irã. Em 1991, no rescaldo da Guerra do Golfo, Saddam voltou-se contra os curdos no norte do país e contra os árabes dos pântanos no sul, com o objetivo de conter uma rebelião xiita na região. Bombardeou os pântanos com agentes químicos e com napalm. No ano seguinte, resolveu drenar a água da região desviando o curso de rios. Em seis meses, a ação das forças de segurança transformou os pântanos em um deserto e forçou a retirada da população local. Quarenta mil pessoas foram viver como refugiadas no Irã, e entre 100 a 150 mil se espalharam dentro do próprio Iraque, onde não podem seguir o seu estilo de vida tradicional. Segundo a ONU, é um dos maiores desastres ecológicos do mundo. (MA)

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ESPECIAL 79 »

De Hitler a Bush

Fotos: Preston Kenes / AFP

Luiz Alberto Moniz Bandeira

O Iraque e o New American Century A política belicista de Bush está conseguindo o que a intensa propaganda comunista não logrou: o isolamento dos EUA

Em 1933, agentes da Gestapo induziram Marinus van der Lubbe, doente mental e fichado como comunista, a empreender o incêndio do Reichstag (Parlamento alemão), conforme a idéia de dois próceres do nazismo, Joseph Goebbels e Hermann Goering, fato esse que permitiu a Adolf Hitler obter poderes extraordinários e implantar a ditadura, legalmente, sem revogar uma linha sequer da Constituição de Weimar. Em 25 de outubro de 1939, pouco antes de invadir a Polônia, Adolf Hitler, falando ao Alto Comando da Wehrmacht, disse: “Darei uma razão propagandística para começar a guerra, não importa se é plausível ou não.Ao vencedor não se pergunta depois se ele disse ou não a verdade”. Seu grandioso projeto era estender o domínio da Alemanha do Atlântico aos Urais e de Narvik ao Suez, transformar em realidade o refrão do hino nacional – Deutscheland über Alles – e construir o Grande Império Germânico – III Reich – para durar pelo menos um milênio. Quase 70 anos depois, George W. Bush ganhou a presidência dos EUA, mediante um golpe judicial. O atentado terrorista contra o World Trade Center e o Pentágono (11/09/2001), que a CIA e o FBI, apesar de ter informações nada fizeram para impedir, permitiu que seu governo se legitimasse e ele, seis dias depois (17/09/2001), assinou um documento de duas páginas e meia, classificado como Top Secret, no qual delineou a campanha no Afeganistão, como parte da guerra global contra o terroris-

O atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center está servindo como “razão propagandista”

mo, e ordenou ao Pentágono que iniciasse o planejamento de opções militares para a invasão do Iraque. Em seguida, não só solicitou e obteve do Congresso poderes para fazer a guerra contra o terror, que começou com o bombardeio e a ocupação do Afeganistão, como tratou de montar, gradualmente, um sistema repressivo, violando os direitos civis nos EUA. Após esses fatos, George W. Bush ordenou ao Pentágono a elaboração de planos de contingência para o uso de armas nucleares contra sete países, não somente a Rússia e os que denominou como “eixo do mal” – Iraque, Irã e Coréia do Norte – mas também a China, Líbia e Síria. Em abril de 2002, proclamou então seu propósito de Continente . março, 03


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80 ESPECIAL Foto: Ana Carolina Fernandes / Folha Imagem

derrubar Saddam Hussein e mudar o regime político no Iraque, em aberrante desrespeito ao princípio de não-intervenção nos assuntos internos de outros países, acordado no Tratado de Westphalia, de 1648. E, no de 1º de junho, falando aos cadetes de West Point, anunciou a mudança na estratégia de segurança nacional dos EUA, substituindo a doutrina de containment and deterrence pela de preemptive attacks, ou seja, de ataques preventivos e, se necessário, unilaterais, contra grupos terroristas ou países percebidos como ameaça, o que viola o Direito Internacional moderno, que apenas autoriza o uso da força em defesa própria, para combater ameaças reais, não potenciais, mas não como ação preventiva e antecipada. The war on terror will not be won on the defensive – George W. Bush declarou. De fato, ele deixou claro que seu projeto era ampliar e consolidar a hegemonia dos EUA sobre todas as regiões, remodelando os países, conforme seus interesses econômicos e políticos, ao declarar que pretendia estender a paz, evidentemente a pax americana, encorajando free and open societies on every continent, e, para não deixar a menor dúvida, acrescentou: The requirements of freedom apply fully to Africa and Latin America and the entire Islamic world. O atentado contra as Torres Gêmeas do World Trade Center e o Pentágono serviu mais uma vez como “razão propagandística”, justificativa para o estabelecimento de um estado de guerra permanente, atendendo aos interesses do complexo industrialmilitar-petrolífero, ao mesmo tempo em que, após repudiar o acordo de Kyoto e denunciar o tratado anti-balístico (ABM) com a URSS, Bush não apenas retirou a assinatura dos EUA do tratado que criou a Corte Penal de Haia, para julgar crimes de genocídio, crimes contra a humanidade e outros crimes de guerra, como tratou de pressionar os outros países, com ameaças, com o objetivo de isentar os soldados americanos e não os submeter à sua jurisdição. Em realidade, a doutrina de preemptive attacks foi formulada, no início dos anos 90, por um pequeno círculo de teóricos conservadores, entre os quais Paul Wolfowitz, e I. Lewis “Scooter” Lybby, que há muito tempo pressionavam no sentido de que os EUA alargassem a função das armas nucleares, a fim de garantir sua superioridade militar e exercer influência econômica, política e estratégica. Em 1992, o então secretário de Defesa, Dick Cheney, emitiu um documento, elaborado, em larga medida, por Paul. D. Wolfowitz, que era seu sub-secretário, definindo que a primeira missão política e militar dos EUA, após a Guerra Fria, consistia em assegurar que nenhum poder rival emergisse na Europa, Ásia e na extinta URSS. Na época, o presidente George Bush, pai de George W., não acolheu a idéia. Bill Clinton elegeu-se presidente, em 1993, e os lobbies (Munitions Industrial Base Task Force, The Heritage Foundation e outros) acusaram-no de continuar o desmantelamento sistemático da defesa nacional, que o presidente Ronald Reagan reconstruíra nos anos 80, e que a força militar, por ele proposta, era muito pequena para defender os interesses dos EUA. E, em 3 de junho 1997, um grupo composto por Jeb Bush, irmão de George W. Bush, Dick Cheney, Francis Fukuyama, o teórico do fim da história com a vitória do liberalismo, I. Lewis Continente . março, 03

“Todo Mundo Islâmico” está incluído na doutrina da Pax americana

Libby, Paul Wolfowitz, Donald Rumsfeld e outros, a mesma caterva que se assenhoreou do poder em 2000/2001, emitiu uma declaração, lançando o Project for the New American Century (Projeto para o Novo Século Americano) com a proposta de aumentar os gastos com defesa, fortalecer os vínculos democráticos e desafiar os “regimes hostis aos interesses e valores” americanos, promover a “liberdade política” em todo o mundo, e aceitar para os EUA o papel exclusivo em “preservar e estender uma ordem internacional amigável (friendly) à nossa segurança, nossa prosperidade e nossos princípios”. Se Hitler e os nazistas pretenderam impor Deutschland ber alles, ( a Alemanha para todos), George W. Bush e os radicais de direita que o cercam querem impor America for all. Os radicais da direita, que o presidente George W. Bush representa, estão intimamente vinculados aos interesses não apenas da indústria petrolífera, como muitos imaginam, mas também do complexo industrial-militar. Essas indústrias bélicas necessitam experimentar os novos armamentos e tecnologias em guerra real e gastar os estoques que possuem e receber novas encomendas do


ESPECIAL 81 » Foto: Paul S. Richards / AFP

Foto: Reuters / Handout

Bush ordenou ao Pentágono a elaboração de planos nucleares contra sete países

Saddam Hussein recebeu apoio americano em 1983, para fazer face à maior ameaça, o Irã

governo americano. Além do mais, a derrota de Saddam Hussein permitirá que os EUA ocupem o Iraque, controlem as reservas de petróleo e consolidem sua predominância na região. Depois será a vez da Síria, do Irã, do Egito, da Líbia e de outros países. Os meios do poderio militar dos EUA cresceram enormemente, mas por isso mesmo se tornaram quase inúteis. Salvo em países insignificantes, como Granada, as forças armadas americanas podem apenas destruir, mas não alcançam seus objetivos. É o que está a ocorrer no Afeganistão. A luta continua e, mais cedo ou mais tarde, recrescerá e os custos da ocupação, em vidas e recursos financeiros, aumentarão cada vez mais. A guerra contra o Iraque pode ter resultados catastróficos, mesmo que os EUA aniquilem o regime de Saddam Hussein. Conforme o presidente de Egito, Hosni Mubarak, advertiu, a guerra contra o Iraque provavelmente acarretará uma situação de “desordem e caos”, nos paises árabes, desestabilizando-os, pois nenhum governante terá condições de reprimir o ressentimento popular. Não se pode descartar a hipótese de uma erupção revolucionária contra o governo do general Pervez Musharraf, no Paquistão, e o seu arsenal atômico cair sob o controle dos extremistas islâmicos. Entretanto, convencidos do seu poderio econômico e militar, os governantes americanos quase sempre demonstraram enorme incapacidade de prever as conseqüências de suas políticas, a longo prazo, pois só percebem seus interesses imediatos. Como o próprio Henry Kissinger reconheceu, foi a administração do presidente Ronald Reagan (1981-1989) que restaurou as relações econômicas e diplomáticas com o Iraque e encorajou os aliados dos EUA, na Europa, a fornecer equi-

pamentos militares a Saddam Hussein, por considerar que o Irã era a maior ameaça aos seus interesses. Foi o próprio Donald H. Rumsfeld, secretário de Defesa de George W. Bush, que durante o conflito Irã-Iraque (1980-88) foi a Bagdad (dezembro de 1983), onde promoveu o entendimento com Saddam Hussein, e o governo norte-americano, inclusive depois que George H. Bush, o pai, assumiu a presidência (1989-1993) autorizou a venda ao Iraque de numerosos produtos com aplicação civil e militar, inclusive produtos químicos venenosos e vírus biológicos mortais, tais como antrax e a peste bubônica. Vinte anos depois, em 2003, ele é um dos que mais pressionam, dentro da administração de George W. Bush, em favor da guerra contra o Iraque. Assim se confirma a previsão de Henry Kissinger, segundo a qual não importa como os próprios norte-americanos percebam seus objetivos, “uma explícita insistência na predominância unirá gradualmente o mundo contra os EUA e os forçará a imposições que eventualmente os deixarão isolados e esgotados”. É o que presidente George W. Bush está a conseguir, tornando os EUA uma superpotência irresponsável, fora da lei, e incompatibilizandoos com todo o resto do mundo, o que a intensa propaganda comunista, centrada no “imperialismo ianque”, não logrou, ao longo de mais de 40 anos de Guerra Fria. Que o presidente George W. Bush, com sua doutrina de guerra preventiva e recursos às armas nucleares, não converta Hitler em santo e faça os feitos do nazismo parecerem uma obra humanitária.

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82 ESPECIAL Umberto Eco

Grandes guerras, pequenas pazes Vários interesses multinacionais tendem a converter a guerra em algo endêmico e somente “pequenas pazes” localizadas podem reduzir a tensão global No final de dezembro, a Academia Universal das Culturas discutiu em Paris o tema de como se pode “imaginar” hoje a paz. Não definir ou desejar: imaginar. De maneira que a paz parece ser ainda não só uma meta distante, mas um objeto desconhecido. Os teólogos definiram a paz como a tranquillita ordinis. A tranquilidade de que ordem? Somos todos vítimas de um mito de origem: no início, havia um condição edênica, depois esta tranqüilidade foi violada pelo primeiro ato de violência. Mas Heráclito nos preveniu de que “a luta é a regra do mundo e a guerra é a geradora comum e senhora de todas as coisas”. No princípio, era a guerra, o homem é lobo do homem e a evolução implica uma luta pela vida. As grandes Pazes que havíamos conhecido na história, como a Paz Romana, ou em nossos dias a Paz Americana (mas também houve uma Paz Soviética, uma Paz Otomana, uma Paz Chinesa) foram resultado de uma conquista, de uma pressão militar contínuas, pelas quais se manteria uma certa ordem e se reduziria a conflitualidade no centro ao custo de tantas pequenas mas sanguinárias guerras periféricas. Pode gostar disso quem está dentro do olho do furacão, mas os que estão na periferia sofrem a violência que serve para manter o equilíbrio do sistema. “Nossa” paz se obtém sempre com o preço da guerra que sofrem os outros. Isso deveria nos levar então a uma conclusão cínica mas realista: se queres a paz (para ti), prepara a guerra (contra os outros). No entanto, há algumas décadas a guerra se converteu em algo tão complexo que não se conclui mais com uma situação de paz, mesmo provisória. No transcurso dos séculos o objetivo da guerra tem sido derrotar o inimigo em seu próprio território, mantendo-o na ignorância dos nossos movimentos para podermos pegá-lo de surpresa, conseguindo uma forte solidariedade sobre a frente interna. Agora, depois do Golfo e de Kosovo, vimos não só os jornalistas ocidentais falar das cidades inimigas bombardeadas, mas também os representantes dos países adversários que se expressavam livreContinente . março, 03

mente nas telas de nossas TVs. A mídia informava ao inimigo as posições e os movimentos dos “nossos” como se Mata Hari se houvesse convertido em diretora da TV local. Os chamados do inimigo em nossa própria casa e a evidência visual insuportável dos destroços da guerra levam a dizer que não se devia assassinar os inimigos (ou mostrar que se assassinavam só por erro) e por outro lado pareciam tornar insustentável a idéia que morresse um dos nossos. Faz-se uma guerra nestas condições? As coisas pioraram muito depois do 11 de setembro. O inimigo está em casa, mas agora a mídia não os pode monitorar mais, porque estão na clandestinidade. Cada ato terrorista vem ampliado pela mídia, que, assim, faz o jogo do adversário. Vão arrancar de Saddam as armas que lhe deram o Ocidente, e que talvez ainda esteja fornecendo, mas o verdadeiro inimigo nem sequer tem mais a necessidade de armas e de tecnologias próprias: usa aquelas dos que quer destruir. Se para bombardear Londres os alemães tiveram que fabricar em casa suas V1, para destruir as torres americanas foram usados dois aviões americanos. Cai por terra a divisão clara entre as frentes, e se as guerras são favoráveis aos


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fabricantes de armas, são péssimo negócio para as companhias aéreas, a indústria do turismo e a rede comercial globalizada. Desse modo, a nova forma da guerra é, por um lado, permanente, devido à imprevisibilidade do adversário, e de outro, porque cada beligerante tem medo de levá-la às últimas conseqüências. Vários interesses multinacionais tendem a converter a guerra em algo endêmico, mas não decisivo. Enfim, se uma vez a guerra em outros lugares garantia a paz no centro do império, agora é precisamente aí onde o inimigo golpeia com mais facilidade, e ali é que tem também seus próprios recursos financeiros nos bancos do adversário. A guerra em outro lugar não é mais garantia de paz na própria casa. Na era da globalização, a paz global termina sendo impossível. Resta então somente a possibilidade de trabalhar por uma paz com trabalho de formiga, criando sempre que possível situações pacífi-

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cas na imensa periferia das guerras que se seguirão, uma após outra. Uma paz local se estabelece quando, diante do cansaço dos contendores, uma Agência Negociadora se propõe como mediadora em uma zona precisa do mundo, e consegue uma diminuição da belicosidade. Uma série contínua destas “pequenas pazes” podem diminuir, a longo prazo, as condições de tensão produzidas da guerra permanente. Equivale a dizer que uma pequena paz hoje feita em Jerusalém contribuiria para a redução das tensões em todo o epicentro da guerra global. A paz universal é como o desejo da imortalidade, tão difícil de atingir que as religiões prometem a imortalidade não antes, mas depois da morte. Uma pequena paz, ao contrário, é como um gesto do médico que cura uma ferida. Não é uma promessa de imortalidade, mas um modo de retardar a morte. Continente . março, 03


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84 ENTREMEZ Ronaldo Correia de Brito

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lobo e o cordeiro Opondo-se à moral da fábula que afirma que contra a força não há argumento, milhões de pessoas no mundo empunham a bandeira branca

Vocês lembram a fábula? Esopo contou-a e La Fontaine a recontou. Um cordeiro bebia num rio e logo acima dele bebia um lobo. A fera podia saltarlhe logo no pescoço, mas, sem pretexto, não quis devorá-lo. – Por que você suja a água que eu estou bebendo? – perguntou o lobo. – Como posso sujála, se o senhor está bebendo acima de onde bebo? – respondeu o inocente cordeiro. Irritado, o lobo devolveu: – O ano passado falaste mal de mim. – Como pode ter sido, se no ano passado eu nem era nascido? – defendeu-se o cordeiro. – Então foi o teu irmão. – Senhor, é engano, eu nunca tive irmãos. O lobo não desistia. – Se não foi ele, foi o teu pai. E sem mais argumentos, pulou em cima do cordeiro e o engoliu. Que para dourar seus crimes, Sempre o sagaz prepotente Quer ter por base a razão, Inda que seja aparente. Os fabuladores permanecem atuais. Há algum tempo assistimos a um diálogo semelhante entre Estados Unidos e Iraque. A pele de cordeiro não assenta em Saddam Hussein, mas veste perfeitamente o povo iraquiano. Aos Estados Unidos, a pele de lobo ajusta-se como luva. O bote fatal ainda não foi dado, pelo menos até o momento em que escrevo este artigo, porque Bush e seus aliados carecem dos pretextos que dariam legalidade ao crime. A fome do Lobo Bush, todos sabemos, é por um sangue mais escuro, o petróleo. Ele a disfarça num discurso paranóico, carregado de intenções heróicas: a defesa da humanidade, não apenas do povo americano, de atentados terroristas, e de uma guerra química e biológica. Saddam repete o discurso do cordeiro, dissimulando o lobo voraz e cruel, o ditador sem escrúpulos que oprime os iraquianos, verdadeiros cordeiros desta fábula sem moral. O registro da história do homem nada mais é que uma sucessão de guerras, ascensão e queda de déspotas, povos dominando outros povos. Estranhamente, alguns tiranos assassinos, expansionistas e colonizadores receberam dos historiadores e romancistas o pedestal de heróis e benfeitores da humanidade. Basta ver como se referem ao persa Ciro, ao macedônio Alexandre,

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ENTREMEZ 85 Reprodução

Nairatma, uma das formas de Smasan Tara, a mais terrível das manifestações de Kali, cavalgando um cadáver. Miniatura, Himachal Pradesh, século 18

ao romano César e ao francês Napoleão. Todos possuíam pretextos e os mais rebuscados argumentos para matarem, aniquilando nações inteiras. Não compreendo a ótica da História que é tão generosa com esses bandidos citados, e é tão justa e inclemente com Hitler. Será que mudou a perspectiva do homem e do tempo? Será que a proximidade desses holocaustos nos faz ver os seus equívocos e horrores? Por que, então, caminhamos novamente em direção a uma nova catástrofe, que poderá ser a última? Será que não aprendemos com os exemplos? Os líderes dos povos têm verdadeiramente o poder de decisão que aparentam possuir? Tolstoi, analisando as guerras napoleônicas no seu livro Guerra e Paz, duvida desse poder e vontade em um único homem. Para ele, Napoleão movia-se como um fantoche vaidoso, inventando estratégias que não se cumpriam, fazendo desenhos de tropas que na hora do combate se mostravam inúteis. Tolstoi acreditava num movimento maior, uma força motriz que se gerava de tempos em tempos e que impelia multidões de homens, uns contra os outros. Seria uma pulsão para o caos? Impressionava ao escritor russo a periodicidade com que nações do Ocidente partiam para destruir povos do Oriente, e vive-versa. Insiste exaustivamente em seu livro que uma guerra se faz de muitas vontades.

E nega, a cada página, o poder desses homens que a História transforma em heróis: “Para os historiadores russos (é estranho e abominável dizê-lo), Napoleão, esse insignificante instrumento da História, que nunca em parte alguma, nem mesmo no exílio, deu prova de dignidade humana, é um objeto de admiração e entusiasmo, é grande.” Passados duzentos anos da campanha da Rússia, a população do mundo está acrescentada de cinco bilhões de almas e sob ameaça de um novo fim. No hinduismo existem três divindades que regulam esses movimentos de expansão e contração: Bhrama, a divindade que cria; Vishnu o conservador; e Shiva o destruidor. O universo, segundo essa religião, viveria em permanente alternância. O livro clássico Mahabharata relata que houve um tempo em que a população do mundo havia crescido excessivamente, ao ponto da Terra não suportar mais o seu peso. Bhrama decide que é preciso acabar com todos os habitantes do planeta. Houve protestos das divindades e a própria Morte, quando solicitada, recusou-se a cumprir o seu papel. A história é longa. Importa o que falou Bhrama para a Morte, quando exigia que ela cumprisse o seu papel: – Nada há para se fazer, nada para se deixar de fazer, por você ou por eles. Saúde-os, apenas, quando for chegada a hora de cada um. Nada mais terá a dizer, eles próprios se matarão. E somente os tolos lamentarão pelo que ninguém pode evitar. Opondo-se à moral da fábula que afirma que contra a força não há argumento; a favor de Tolstoi, que duvida do significado de um líder político; questionando o fatalismo hinduísta, que prega a passividade; milhões de pessoas no mundo empunham a bandeira branca da luta, contra a vontade dos que querem, mais uma vez, nos levar ao ponto sem retorno, o fim. Continente . março, 03


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86 TRADIÇÕES Gilmar de Carvalho com fotos de Fausta Lourenço

Mestres do Cariri Região mítica, oásis ao sul do Ceará, que se estende por parte da Paraíba, Pernambuco e Piauí, o Cariri é um celeiro de tradições. Da herança indígena, passando pelos engenhos de cana e chegando ao Padre Cícero, veio gente de todo o Nordeste para lá. O resultado é essa explosão multicultural. O Cariri é onde os caminhos se encontram e onde se cruzam ofícios, saberes, fazeres, crenças e narrativas que transformam esta região marcada pela linha regular da Chapada do Araripe em um território único.

Os Aniceto dançam e vibram nos palcos, nas feiras e nas festas da padroeira. São muito mais que uma banda cabaçal: incorporam à música a performance

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Os Aniceto

Véi Aniceto morreu com quase cem anos e deixou para os filhos a bandinha que tocava na feira do Crato (CE) e nas festas da padroeira. Zabumba, caixa, flauta de taboca, e depois os pratos de metal, porque toda tradição está sujeita a inovações, se atualiza e os pratos vieram na década de 30, por influência das paradas militares. Bandas cabaçais no Nordeste existem muitas. Umas se chamam esquenta muié e a de Caruaru foi talvez a primeira a ser apropriada pela Indústria Cultural. É onde entra a originalidade dos Aniceto. Eles são muito mais que uma banda cabaçal: incorporam à música a performance. O que eles fazem remete a tradições indígenas que se perderam no tempo e aqui se encontram vestígios, fragmentos, ecos. Os Cariris habitavam a chapada do Araripe. Lá se localizam

seus mitos e seus lugares encantados, como a lagoa, à qual se chega por um umbral mágico. Pontes de pedra, castelos, e narrativas que dão conta de como esse povo procurou entender suas relações com a natureza, com os outros homens, com os deuses. Houve um processo ideológico de esvaziamento dessa identidade. Os Cariris não são reconhecidos como etnia, mas sua força está em toda a região e os Aniceto são intérpretes de velhos rituais. Quando eles entram em cena é como se o tempo descongelasse, a flauta de Pã ressurgisse das camadas mais remotas de uma arqueologia da cultura e as danças que eles fazem imitasse animais míticos, como a coruja, o macaco, o gavião. Os Aniceto dançam e vibram no palco, nas renovações, nas feiras. Essa tradição passou do Véi para os filhos (Raimundo e Antônio), chega aos netos (Joval, Cícero e Adriano) e chega a um João Vítor, sobrinho, com seus oito anos. Tem jeito de que nunca vai se acabar porque a festa é essencial, desde Dioniso e essa dança ritual traz significados que ressoam junto aos que participam de suas performances e se envolvem neste canto e neste ritmo de trinado da flauta que eles mesmo fazem e da zabumba de couro curtido. Tudo tem seu tempo, e relatos de festas indígenas no Ceará remontam aos jesuítas na missão da Ibiapaba. O toque dos Aniceto tem a ver com colheita, com a alegria mesmo de viver, com a água farta que vem das nascentes da chapada e com o júbilo mais profundo de um povo que redescobre uma identidade perdida, se integra à natureza vendendo farinha na feira e encontrando álibis para a dança que nunca se repete porque nunca é igual na agilidade dos passos, no trancelim, na luta das facas, no ataque das abelhas e num repertório que surpreende, porque renovado permanentemente no contato com suas raízes e com a expectativa de sua gente.

As Cândido Do barro se fez o homem, como na metáfora bíblica. Depois veio o sopro de vida. E ainda hoje a argila desafia o homem, se oferecendo como material para a peça utilitária e para a cerâmica decorativa. Tem sido assim em todos os tempos, em todas as culturas. Cachimbos, urnas funerárias, potes e vasos. O barro acompanhou o homem como matéria plástica, flexível, que se deixa domar e que toma a forma sugerida pela dança das mãos. Muitas peças ficam cruas, outras vão para o forno que pode ser a coivara aberta no chão ou o forno de lenha feito também de adobe. Temos uma diversidade de cerâmicas que atestam as possibilidades criativas, e a maleabilidade da argila que está na quartinha, que deixa a água fresquinha, na panela que cozinha o feijão de corda e no santo votivo que orna o oratório do fiel. As feiras nordestinas mostram a diversidade dos materiais e das técnicas deste ofício antigo que integrou o homem à natureza e se fomos feitos do barro, a este chão um dia voltaremos no ciclo que se cumpre. É disso que tratam as Cândido, um grupo de mulheres que fazem do barro uma brincadeira de gente grande. No chão, sentadas em círculo, em sua Continente . março, 03


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88 TRADIÇÕES

casa em Juazeiro do Norte, mãe e filhas dão forma a um mundo de sonhos. Ciça do Barro Cru deixou sua marca, mas a fugacidade do barro não cozido fez dele uma referência mítica e afetiva. Cícera Fonseca fez máscaras, hieráticas, herança de civilizações antigas, como as peças de Brennand. Mas o que as Cândido (a mãe Maria e as filhas Maria de Lourdes e Maria do Socorro) fazem é uma crônica da vida de nosso povo e de nosso tempo. Elas inventaram o tema, escultura colada a um suporte também de barro, com um buraco que é fixado à parede. Eles são lúdicos e funcionam melhor se compostos, formando painéis que se integram, cada qual mantendo seu próprio caráter. As formas são variadas, as cores são fortes. Elas não se incomodam de trabalhar por encomenda. Qualquer sugestão

terá a leitura do ponto de vista delas, criadoras. E assim temos de vias-sacras a signos do zodíaco, de casais na rede a danças como a lambada, folguedos, como o bumba-meu-boi ou uma releitura das mamelucas de Eckhout. Depois de modeladas as peças vão para o forno. Muitas trincam, outras quebram. O que escapou é pintado, também no chão, outra roda se forma, elas contam histórias, falam do que vivem e do que fazem. Cada peça deve ter uma história. As narrativas funcionam como canto de trabalho e dão pistas para se compreender a tradição que elas inventaram dos temas e da recriação da vida nordestina que elas fazem ao modelar o barro.

Manoel Graciano

Manoel Graciano nasceu há 76 anos em Santana do Cariri, cidade da chapada do Araripe. Menino criado no mato, se embevecia com as presepadas da caipora, com os bichos que faziam a festa no céu e com as histórias que se contavam à noite, no terreiro das fazendas. Sua primeira aproximação com a madeira foi utilitária, na feitura de pilões para socar o milho, descascar o arroz ou preparar a paçoca. Depois teve a vinda para Juazeiro, em um ano de seca, onde de tão fragilizado foi trazido nos braços do pai. Quando chegou na terra

do Padre Cícero, os pilões continuaram como a encomenda básica, mas ele nunca se distanciou do mundo da roça, ritual que cumpre até hoje quando um de seus filhos (Nozinho) cuida de sua plantação de milho e feijão em Brejo Santo. Hoje seu Manoel é uma referência na escultura brasileira. São inconfundíveis suas eráldicas figuras de reisado e seus troncos, onde se envolvem bichos, flores e frutos que cristalizam a natureza em estado puro, como fósseis vivos. A casa de seu Manoel Graciano é um convite ao encantamento, onde os bichos convivem com toras de umburana no quintal e onde se pode vê-lo ( ou a seu filho Cícero) desbastar um tronco, enquanto dona Cícera lixa e pinta as peças ou prepara um café. Suas esculturas têm o toque do gênio. Seus jacarés, sapos e pássaros revelam uma relação íntima com a natureza. É uma relação visceral. As soluções formais de Graciano constituem um achado. As asas de seus anjos se projetam das peças de modo funcional e orgânico. Suas cores fortes dão um toque pessoal a um mundo. de sonhos. O material é a madeira que se deixa cortar pela força de seu gesto empunhando o facão, significando trabalho e festa, ritual e arte. Ele nos propõe uma integração com o mundo, com a delicadeza e brutalidade com que corta um presépio ou faz um pássaro alimentar sua cria. Mais que um dom, sua arte liga céus e terra, como tem sido desde os Cariris que povoaram essa terra, com seus ritos encantatórios que, ainda hoje e para sempre, ecoarão por esse chão como herança e raiz.

Joaquim Mulato A estrada a partir de Barbalha é sinuosa. Corta canaviais, lugares da memória de um tempo de fausto, de famílias tradicionais, e chega-se à casa velha de taipa do sítio Cabeceiras. Tudo tem um ar monástico, como se fosse uma cela, quase sem móveis, prevalecendo o oratório e a parede votiva, com velhas estampas. O garoto Joaquim ligou-se à ordem quando tinha 13 anos; Continente . março, 03

desde os 24 lidera o grupo (tem 82 anos), é seu decurião. Convida para sentar em bancos na calçada alta. É proprietário de terras, que herdou da mãe adotiva e que se estendem até o rio Salamanca, que ele cultiva e onde autorizou que se arranchassem várias famílias. O grupo é composto por homens. As mulheres rezam e cantam benditos antigos, como Maria Valei-Nos ou uma tradução para o


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português de um Stabat Mater (o Pranto). A figura chave é do Padre Ibiapina que teria introduzido o silício, as lâminas de açoites e os cânticos. Fala de um catolicismo triunfante, maniqueísta, que veio da Contra-Reforma. Seu Joaquim é também o escultor de santos expressivos, cortados com improvisados instrumentos, toscos, por conta de sua cata-

rata, pintados com esmalte barato, reproduzindo com vigor uma legenda dourada que inclui um Padre Cícero da devoção popular. Ele insiste na cor e diz que as peças cruas que faz são para museus, como as 55 que fez para o MAUC (Museu de Arte da UFC). A escultura veio por conta da devoção. No início fazia móveis e começou a cortar os santos como uma manifestação de fé. São imagens de Cristo, Nossa Senhora da Conceição, Santo Antônio (padroeiro de Barbalha) e São Sebastião, o protetor contra a fome, a sede, a peste e a guerra. Sua Senhora Santana, cortada em uma peça única, em que a mãe envolve a filha é de uma solução escultórica surpreendente. É comovente ouvir o grupo cantar. Eles descartam um apocalipse da mídia e a presença dos jovens no grupo pode ser indício de sua permanência. E assim se mantém a tradição de uma fé cujos limites desafiam a dimensão humana da dor e que tem na escultura uma forma de ritual e arte. E sob o comando de Joaquim Mulato, o grupo caminha, noite adentro, bodejando benditos e cumprindo um compromisso cujas raízes se perdem no tempo e no espaço do Cariri.

Expedito Seleiro O gado entrou na cultura cearense por conta das boiadas que atravessavam nosso território em direção ao Piauí. O vaqueiro sempre foi uma referência mítica. Com sua armadura medieval de couro, arreios e botas, este cruzado sertanejo irradiou cultura, com sua decantada valentia e o canto plangente do aboio. Uma das mais antigas manifestações de nossa literatura oral foi o Rabicho da Geralda, cantado desde o século 18, que narrava a saga de um boi indomável, matriz talvez do Boi Mandingueiro do cordel, que se transformou no bumba-meu-boi e mantém viva essa tradição pastoral até os dias de hoje. Foi exatamente nesse roteiro que nasceu, em 1939, no município de Arneiroz, Expedito Veloso Carvalho, tendo seus pais, logo em seguida, se mudado para Crateús, sertão dos Inhamuns, onde o Ceará faz divisa com o Piauí. Família de seleiro, ofício que passou de avô para o pai até chegar a ele que, em 1951, se fixou em Nova Olinda, onde se instalou à rua Monsenhor Tavares, número 190. Expedito, com sua oficina Artencouro, faz maravilhas com esse material curtido. Suas bolsas e sandálias mostram que o design contemporâneo pode (e deve) ser tributário da tradição. E ele faz como ninguém a atualização da herança cangaceira, renovando-a e fazendo de seu ateliê o mostruário de um artesanato criativo, que busca nas raízes uma forma de legitimação. Expedito é o criador que rompe com sua própria linha de montagem: “Mesmo quando faço uma coisa parecida, boto uma diferença”. Do alto de sua sabedoria e inventiva ele comanda três filhos e quatro artífices nesta difícil arte de domar o couro e fazer

maravilhas utilitárias (selas, gibões, perneiras, chapéus e sapatos campeiros) ou de puro adorno, objetos de um requinte que beira a perfeição. Estamos diante de uma arte que precisa ser repassada como legado vivo. É o novo ciclo do couro, em versão pós-moderna, reinventando mocassins e mochilas em versão sertaneja, para os que tiverem sensibilidade para compreender que a tradição e a contemporaneidade são as duas faces de uma mesma moeda.

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90 PATRIMÔNIO

Sala da casa do sociólogo Gilberto Freyre, onde hoje funciona a Fundação com o seu nome

Foto: Roberta Guimarães / Reprodução

Pernambuco preservado Livro documenta monumentos e sítios históricos tombados em Pernambuco, constituindo-se em poderoso apelo contra nossa amnésia histórica parte do bairro de São José foi posto abaixo para a construção de Primeiros europeus a pisar o solo brasileiro, os espanhóis uma avenida cuja função revelou-se polêmica. O difícil equilíbrio Francisco e Vicente Yañez Pinzón chegaram à costa de Pernamentre o imperativo de construir e a necessidade de conservar quase buco em janeiro de 1500, três meses antes de Pedro Álvares Cabral. nunca foi alcançado. O primeiro ponto avistado foi o promotório a que deram o nome A preocupação em preservar o patrimônio é coisa recente. Em de Santa Maria de la Consolación, depois rebatizado pelos portuPernambuco, nas últimas décadas, 76 monumentos e quatro sítios gueses – que chegaram e ficaram – de Cabo de Santo Agostinho. históricos foram tombados pelo Iphan – Instituto do Patrimônio Os devotos portugueses logo ergueram uma ermida, lá no alto, em Histórico e Artístico Nacional. Alguns eram pouco mais que ruínas. homenagem a Nossa Senhora de Nazaré. Em 1654, documentos Foto: Roberta Guimarães / Reprodução Agora, veio à luz um documento históricos já se referem à capelinha. Mas que registra esses bens arquitetônicos, reem 1635, os holandeses invadiram o lugar forçando a consciência preservacionista. e arrasaram o arraial, inclusive a ermida, É o livro Pernambuco Preservado, do que foi reconstruída em 1648. jornalista e historiador Leonardo Dantas Por essa época, o conde alemão MauSilva, em primorosa edição patrocinada rício de Nassau governava Pernambuco e por uma empresa privada (ex-estatal), a construiu um imponente – para os padrões Companhia Energética de Pernambuco da época – prédio para sediar o governo, o – Celpe. São 266 páginas com centenas Palácio das Torres ou Palácio Friburgum. de fotografias e textos informativos sobre Com a expulsão dos holandeses, o local foi cada monumento e sítio focalizado. São transformado em alojamento militar e igrejas e conventos (a maioria), palacetes, demolido em finais do século 18. sobrados, mercado, teatro, faculdade, São histórias de destruição do patriparques e marcos. No texto introdutório, mônio histórico, que se repetiram ao lono autor esclarece: “Mas, se lamentamos go do tempo, sob motivações políticas, Painel do teto do Convento de Santo Antônio, Igarassu, PE, 1749 pelo muito do patrimônio pernambucamilitares ou econômicas (demolir para o no desaparecido, vamos preservar a Memória do que nos resta e progresso). A conseqüência é que muito testemunho físico da noseste é o objetivo destas páginas que passo às mãos do paciente leisa existência social foi pulverizado ao longo do tempo, ajudando a tor”. Apenas um reparo: não é questão de paciência, mas de encaninstitucionalizar nossa alardeada amnésia histórica nacional. No tamento e compromisso. (HF) início do século 20, grande parte do Recife Antigo foi demolido para as obras de ampliação do porto. E ainda na década de 70, Continente . março, 03


Foto: Fred Jordão / Reprodução

PATRIMÔNIO 91 Foto: Fred Jordão / Reprodução

Palacete da rua Benfica, Recife, final da primeira metade do século 19 Foto: Geraldo Gomes / Reprodução

Igreja do Rosário dos Homens Brancos, Goiana, PE, século 17

Foto: Fred Jordão / Reprodução

Igreja do Rosário dos Homens Pretos, Goiana, PE, século 18

Foto: Fred Jordão / Reprodução

Sacristia do Convento Franciscano de N.S. das Neves, Olinda, 1630

Casa-grande e capela do Engenho Poço Comprido, Vicência, PE, século 18


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PRETO NO BRANCO

Geraldo Maia

Na sua generalidade, as bandas que se auto-intitulam “mangue” ou as que, de algum modo, pensam estar vinculadas à estética original do movimento, são ruins, muito ruins

O MOVIMENTO MANGUE BEAT E A MORTE DE DEUS O movimento mangue beat, que eclodiu no início da década de 90, mudou radicalmente o panorama da música pernambucana. A força, o talento e a ousadia estética de Chico Science e seus pares foram de uma evidência avassaladora, e representaram, de longe, o que de mais importante aconteceu no pop brasileiro dos anos 90. De quebra, aqueles jovens inquietos resgataram a auto-estima dos pernambucanos, que passaram a enxergar as manifestações da nossa cultura sob um referencial de excelência, como sendo algo de que nos deveríamos orgulhar, coisa que não acontecia desde os anos 70. Não é pouco. Hoje, no entanto, passada a euforia daqueles breves anos – tornados ainda mais breves com a morte prematura de Chico – e consolidadas, de alguma maneira, as carreiras das bandas mais criativas, o movimento arrefeceu e parece já não produzir mais nada de novo ou interessante. Na sua generalidade, as bandas que se auto-intitulam “mangue” ou as que, de algum modo, pensam estar vinculadas à estética original do movimento, são ruins, muito ruins. Mas o fato é que o “rótulo” pegou, virou tábua de salvação. Mangue é uma palavra que está em toda parte, incorporou-se ao vocabulário da galera. O mangue se espraiou, invadiu becos, porões e até os nobres salões da coisa pública – fundações, secretarias e órgãos afins da cultura. E quem, sob esse manto-protetor e deveras fraterno, se abriga, parece a salvo. De críticas, inclusive. Tão insólito isso quanto provinciano, tacanho mesmo. Voltei de Portugal há exatos quatro anos e, aqui e ali, encontro dificuldades para “abrir portas”, como se diz. Esbarro, Continente . março, 03

não sem freqüência, em argumentos do tipo “você não tem o perfil para esse projeto”, “seu trabalho é até interessante...mas não tem a cara...” e por aí vai. Certa vez liguei para um prestigiado produtor local, na tentativa de convidá-lo a assistir meu show, e a resposta que ouvi foi, literalmente, essa: “se sua banda tem “atitude”, algum veio mangue, ótimo, estarei lá. Caso contrário, procure pessoa mais indicada”. Ou seja, alardeia-se a pluralidade e exercita-se um samba de uma nota só. Um tédio! Hoje, por aqui, parece só adquirir e empunhar o tão cobiçado selo da modernidade, quem “incorpora” a estética mangue, ou aquilo que, num equívoco incompreensível, ficou “convencionado” como tal: parafernália eletrônica, beats e loops em profusão, barulho, muito barulho, gritaria, instrumentos desafinados, músicos “performáticos” no palco e a regra, embalada por um furor sádico, de não dar “trégua” ao ouvinte, ou seja: porrada no ouvido dele, que ninguém é de ferro. Foram banidas da cena a sutileza, a delicadeza, nuanças rítmicas, a leveza, a pausa, o silêncio. (Quem achar que estou deturpando / exagerando, que se dê ao trabalho de assistir a algumas pratas da casa). Minha sugestão é a seguinte: que algum expoente do movimento venha a público e, num gesto ritualístico de puro deleite autofágico, decrete a morte do movimento mangue beat. Isso mesmo. A morte do movimento mangue. Exatamente como fez Nietszche que, com seu espírito libérrimo, decretou a morte de Deus. No intuito, quiçá auspicioso de, paradoxalmente, nos salvar / resgatar a todos. Viva Zumbi! Viva Zapata!


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Olavo de Carvalho

Identificam o “popular” com o “democrático” e o “erudito” com o “elitista”. Nesse quadro, cantores pop milionários são vistos como personificações dos “excluídos”, enquanto professores esfarrapados e

ESTADO E CULTURA

eruditos, sem sapatos, são representantes da “elite”

Discutir essa questão em tese, pelo lado doutrinário, não faz o menor sentido, especialmente quando ela já vem articulada nos termos da alternativa “Estado versus iniciativa privada”, uma vez que esta alternativa se refere apenas aos meios de produzir e distribuir riquezas, ou seja, a um domínio que a cultura, no sentido próprio do termo, transcende infinitamente. O fato mesmo de se equacionar o problema na clave de uma alternativa econômica já subentende uma concepção miserável da cultura, na qual esta se reduz a instrumento do “desenvolvimento” – seja isto lá o que for – e, portanto, das políticas que alardeiam o poder de criá-lo. Quando se chega a esse ponto é preciso admitir que Fernando Alves Cristóvão, o grande crítico literário português, tinha toda a razão ao proclamar que “cultura é o novo nome da propaganda”. Do ponto de vista da ascensão espiritual do ser humano, que é a única coisa que interessa no fim das contas, perguntar se quem deve promover a cultura é o Estado ou a iniciativa privada é como perguntar se quem deve promover a salvação da alma são os proxenetas ou os traficantes de tóxicos. Nesse sentido, desejo sinceramente que os adeptos das duas correntes vão para o diabo e não me incomodem com suas discussões fúteis. A cultura começa com o aprendizado das primeiras habilidades – andar, falar – e culmina na penetração intelectiva do homem na compreensão daquilo que Platão chamava as “leis não escritas”. O universo da cultura está na zona intermediária, digamos, entre a primeira palavra aprendida e o Monte Sinai. O trajeto entre esses dois pontos assinala a passagem do conhecimento como recepção passiva ao conhecimento como conquista pessoal. Nos primeiros estágios, o ser humano depende inteiramente dos outros; no fim da caminhada está sozinho e tem de avançar sem outra ajuda exceto a de Deus. Isso mostra que a cultura tem, inseparavelmente, um aspecto democrático e um aspecto aristocrático, ou igualitário e seletivo: Continente . março, 03

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Quando o Estado e as empresas começam a discutir a quem pertence a cultura, é porque já não resta cultura nenhuma, e sim, somente aquele resíduo da sua decomposição, que pode ser transformado em slogan ideológico ou em mercadoria

de um lado, todos os seres humanos têm o direito de acesso ao conhecimento; de outro, tudo aquilo que a cultura tem de mais essencial e valioso não pode ser dado a ninguém e cada um tem de conquistá-lo sozinho, por um esforço de vontade pessoal a que ninguém pode obrigá-lo. A conclusão óbvia é que tanto o Estado como as empresas só podem ter a iniciativa em matéria de cultura no que se refere aos domínios mais baixos e elementares. Em tudo o que é dos domínios superiores, a iniciativa pertence inteiramente aos indivíduos inspirados, capazes de conquistá-los. Quem mandou Moisés subir ao Monte Sinai não foi o Estado nem a iniciativa privada: foi o próprio Deus, falando-lhe numa linguagem que só ele ouvia. O mesmo pode-se dizer de qualquer ser humano que descobriu qualquer coisa de importante em qualquer área do conhecimento ou criou algo de valioso nas artes: nem o Estado, nem a iniciativa privada poderiam ditar a Shakespeare os seus sonetos, ou ensinar a Leibniz os princípios do cálculo infinitesimal. Essa esfera superior da cultura é inteiramente autônoma em relação à organização econômica e política da sociedade, mas hoje em dia os administradores da cultura, os burocratas e mascates, nem sequer percebem que ela existe. Sua visão da cultura é tão limitada e deformada que chegam a reduzi-la a estereótipos caricaturais que nada têm a ver com a realidade. Continente . março, 03

Por exemplo, identificam o “popular” com o “democrático” e o “erudito” com o “elitista” – e, nesse quadro, cantores pop milionários são vistos como personificações dos “excluídos”, enquanto professores esfarrapados e eruditos, sem sapatos, são representantes da “elite privilegiada”. É alucinação, evidentemente, mas essa é hoje a doutrina oficial do Estado e da mídia no Brasil. Os burocratas e mascates, ao mesmo tempo que garantem para si um acesso privilegiado ao poder e aos bens deste mundo, fingem estar combatendo o “elitismo”, quando na verdade combatem apenas o espírito, a inteligência, a cultura superior, que invejam e odeiam, como o detentor de um quadro falsificado inveja e odeia o possuidor da obra autêntica. O debate cultural, assim, torna-se uma farsa completa, uma barreira intransponível que separa os homens do conhecimento. Cada um só pode dar o que tem. Se você investigar direitinho, verá que os indivíduos e grupos que dominam o establishment cultural são os mesmos, seja na esfera governamental ou privada. Seja com o dinheiro dos consumidores, seja com o dos impostos, que aliás é também o dos consumidores, essas pessoas, nos dois casos, darão ao povo o mesmo tipo de “cultura” que já vêm lhe dando há tempos, isto é, uma cultura limitada a valores lúdicos e instrumentais, os primeiros mais


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Quanto ao atual ministro da Cultura, ele já confessou publicamente ser apenas um “pseudo-intelectual de miolo mole” e por isso acho que é homem dotado de humildade suficiente para compreender que estou dizendo o óbvio

associados a atividades comerciais, como bens de consumo, os segundos a atividades políticas, sob a forma de propaganda ideológica e manipulação das massas. Acentuar mais um desses lados é uma questão de ocasião e de oportunismo. Quanto à cultura superior, no sentido exato do termo, só aqueles que a possuem efetivamente, como um bem integrado à sua personalidade, podem transmiti-la, e esses nunca perguntaram se deveriam fazê-lo através do Estado, das empresas ou de qualquer outro meio. Usam o que esteja à mão, porque o espírito é expansivo e generoso por essência. Quando o Estado e as empresas começam a discutir a quem pertence a cultura, é porque já não resta cultura nenhuma, e sim, somente aquele resíduo da sua decomposição, que pode ser transformado em slogan ideológico ou em mercadoria. E é tudo uma briga entre mascates e cabos eleitorais, cada um mais mesquinho e ruim que o outro, cada um se fazendo de mais “amigo do povo” e cada um agindo com mais desprezo à dignidade das almas humanas. N’A Divina Comédia, Dante pergunta: “Quanto dinheiro pediu Nosso Senhor a São Pedro para lhe dar em troca a chave do céu?” Dinheiro ou um cargo de ministro, no caso, dá na mesma. A cultura, nos seus aspectos superiores, é a chave do

céu. Quem a tem não hesita em dá-la de graça, ou, sem exigir nada, aceita apenas o necessário à sua subsistência. Os que não a têm vendem simulacros, seja em troca de dinheiro ou de votos, cada um com um emblema de bom-mocismo na testa. Que gente mais idiota! Quanto ao atual ministro da Cultura, ele já confessou publicamente ser apenas um “pseudo-intelectual de miolo mole”, e por isso acho que é homem dotado de humildade suficiente para compreender que estou dizendo o óbvio. Na verdade, a esquerda brasileira inteira se compõe de pseudointelectuais de miolo mole. O menos burro dentre eles é o que tem consciência de si. Fico feliz de que ele, e não qualquer dos outros, esteja no Ministério. Boa sorte, Gilberto Gil! Na verdade, ele é quem vai talvez nos dar sorte. Uma vez eu estava almoçando no restaurante Famiglia Mancini, em São Paulo, quando chegou um ladrão armado, deu uma coronhada na cabeça do gerente e começou a esvaziar o caixa. Quando viu que Gil estava no restaurante, subiu a uma cadeira e anunciou ao público que, em homenagem ao cantor, levaria apenas o dinheiro do caixa e não o dos fregueses. E saiu, entre aplausos gerais. Se a presença de Gilberto Gil no Ministério reduzir assim as ambições dos que pretendem ser donos da cultura, ele é que sairá entre aplausos gerais. Continente . março, 03


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ÚLTIMAS PALAVRAS

Rivaldo Paiva

Por quê? Por que nenhuma autoridade política dá valor à cultura e memória da Nação?

Na vida, as interrogações multiplicam-se numa sucessão de dúvidas que nunca entendemos bem, mercê não haver respostas no mínimo racionais. Vamos lá... Por que, quando marcamos uma consulta médica, não somos atendidos na hora, levamos chá de cadeira e sequer recebemos pedidos de desculpa por parte do médico? Por que, durante uma entrevista à imprensa, o político se agarra ao anfiguri para explicar nada? Por que tem tanto estadista no Brasil? Por que as balanças de feiras livres, mercados e supermercados nunca marcam o peso real da mercadoria vendida? Por que os governantes vivem pregando que um País só é grande e desenvolvido se investirem na educação e cultura e continuamos à mercê do esquecimento? Por que se diz que Deus é brasileiro? Por que as contra-indicações são maiores do que as indicações nas bulas de remédios? Por que só as noivas virgens devem subir ao altar vestidas de branco? Por que, ao mandarmos qualquer eletrodoméstico para a assistência técnica, o mesmo sempre apresenta defeito, obrigando-nos a retornar para os reparos que faltam? Por que, na compra de qualquer produto, os vendedores dão um valor, mas sempre diminuem o preço na hora de fechar o negócio? Por que a Receita Federal não glosa os sonegadores ricos? Por que os governos federal e estadual nunca resolveram a seca do Nordeste? Por que os jogadores de futebol, os cantores bregas e as dançarinas de trios elétricos ganham fortunas em detrimento da pobreza que assola o Brasil? Por que os motoristas só dirigem devagar justo na faixa de ultrapassagem?

Continente . março, 03

Por que os mentirosos piscam tanto quando encaram você olho no olho? Por que, depois de 500 anos, a maioria dos políticos ainda não tem seriedade? Por que a Justiça geralmente é lerda e tem tantos privilégios? Por que o padre, durante a missa, muda o tom de sua verdadeira voz e fala tão mansamente como se fosse o último dos humildes da face da terra? Por que as igrejas universais de reinos ainda ludibriam a boa fé do povo e as autoridades policiais não tomam providências? Por que a cada venda de um patrimônio do Brasil, nossas dívidas externas continuam subindo pelas cucuias? Por que, todas as vezes que não querem resolver um assunto de interesse da coletividade, os governantes mandam criar uma comissão para estudar o problema? Por que os guardas de trânsito não orientam os motoristas, só multam? Por que, previsto no Código Penal Brasileiro como contravenção, o jogo do bicho funciona livremente em todo território nacional? Por que todo narrador ou comentarista esportivo de rádio é sempre saudado como o melhor do Brasil? Por que nenhuma autoridade política dá valor à cultura e memória da nação brasileira, deixando nossa história ser consumida por traças e cupins em calabouços empoeirados do tempo? Por que fazem guerra para que jovens derramem sangue de outros jovens? Quem souber responder convincentemente, escreva para nosso novo Lula, presidente arretado, e será devidamente condecorado por relevante contribuição ao progresso das elucidações. Os meus leitores cativos, encucados, penhoradissimamente, agradecem.


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Continente #027 - Van Gogh  

150 anos do gênio holandês em textos exclusivos de Francisco Brennand.

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