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CONDOMÍNIO & SOLUÇÕES

O Papa e o Deputado O deputado estadual Saulo Diniz procurava se reeleger pela quarta vez para ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, na década de 60. Em que pese sempre obter uma votação representativa que poderia levá-lo à Câmara Federal, o deputado acreditava que estar perto do eleitorado, escutando as suas reivindicações era uma das fórmulas que poderia levá-lo, um dia, ao Governo do Estado de Minas Gerais. Além disso, por ser amigo de Juscelino Kubitschek e líder da bancada, e considerando que as conjunções políticas na época lhe eram favoráveis, julgava importante manter-se ocupando uma cadeira na Assembleia Legislativa. Entretanto, o deputado começava a encontrar certa resistência para se reeleger, já que a mídia o apontava como deputado de esquerda, o que sabiamente nunca confessou, por razões óbvias, tendo em vista a origem política da sua família: o seu pai Henrique Diniz e irmãos Bráulio, Dimitrieff e Henrique Diniz Filho, eram participantes ativos de células do execrado e perseguido Partido Comunista, em Moscou, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. A criatividade, inteligência, coragem, ousadia e a bagagem cultural levaram posteriormente o deputado Saulo Diniz a alçar voos inimagináveis na política: foi deputado em quatro legislaturas, ministro do TCDF, delegado do Brasil na Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra, e Embaixador Plenipotenciário. A sua reconhecida capacidade de realização possibilitoulhe ser o criador do Instituto Histórico e Geográfico de Brasília, da Associação Brasileira de Amparo aos Leprosos (ABAL)–MG e do Instituto de Medicina Nuclear – MG, quando o tema no primeiro mundo ainda era considerado, mesmo no setor de medicina, uma possibilidade esdrúxula. Mas as realizações não pararam por aí. O deputado também criou organizações e promoveu encontros internacionais tendo como tema a história universal, além de outros projetos sociais que beneficiaram as camadas mais pobres do estado de Minas Gerais. Mas o coroamento das realizações do deputado Saulo Diniz deu-se com a criação da Usiminas, história extraordinária, caracterizada pela ousadia, inteligência e principalmente criatividade, que foram alvos de matérias na revista Veja, no jornal Folha de São Paulo e no Jornal de Brasília, quando do aniversário da Siderúrgica. Mas esta é uma história para outra ocasião. O deputado Saulo Diniz, percebendo que sua reeleição corria sérios riscos por estar sendo apontado como simpatizante do Partido Comunista, convidou a sua esposa,

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por Domingos Sabino Diniz Maria da Conceição Sabino Diniz (irmã do escritor Fernando Sabino) para uma viagem à cidade de Roma, com o argumento de que iria obter do Papa uma benção pela criação da Associação Brasileira de Amparo aos Leprosos (ABAL). A esposa do deputado, conhecedora da efervescente imaginação do marido, procurou não questioná-lo, para não lhe criar ansiedade, mas previa que poderia acontecer algo inusitado. Entretanto, como católica fervorosa, ela viu na atitude do marido uma possibilidade ímpar de estar com o Papa e aceitou. Percebendo que precisava de mais argumentos que justificassem a solicitação da audiência, o deputado lembrou que algumas condecorações poderiam dar um aspecto oficial ao encontro e que as normas e liturgias que são necessárias para agraciar o personagem são tão criteriosas que muitas das vezes o agraciado se sente constrangido em não recebê-las. Entretanto, havia um problema: ele não estava em missão oficial. Depois de muito pensar numa solução para a questão, lembrou-se da Rua da Alfândega no Rio de Janeiro, que se caracteriza por ser um comércio que vende todo tipo de bugigangas. E foi lá que, algumas horas antes do embarque no aeroporto Santos Dumont, o deputado conseguiu uma faixa com as cores da bandeira nacional e um brasão de difícil interpretação. E assim nascia a “Associação Brasileira de Amparo aos Leprosos” (ABAL) pela qual o Papa Pio XII seria o primeiro a ser agraciado. Chegando a Roma, Saulo Diniz dirigiu-se ao Vaticano, onde foi recebido pelo bispo que era o “I Maestro di Câmera di S. S.”, e lá ele fez a seguinte explanação: ”Venho a Roma solicitar a Sua Santidade, o Papa Pio XII, uma benção para a Associação Brasileira de Amparo aos Leprosos (ABAL) que estou criando. Gostaria de lembrar que o estado de Minas Gerais tem o maior número de possuidores de hanseníase do Brasil e este fato é muito importante e simbólico, porque lembra uma passagem bíblica. Em razão disto, trouxe uma comenda da Associação para agraciar o Papa Pio Xll, pela benção que iremos receber. A comenda representa a nossa gratidão, como se fosse o retorno do único leproso que voltou para agradecer a Jesus.” ”Honorável deputado Saulo Diniz, que aqui está com a sua digníssima esposa, a quem saúdo com a benção de Deus, me permita a franqueza: o que Vossa Excelência está pleiteando, eu não tenho nenhum óbice. Mas devo lembrar a Vossa Excelência que uma audiência com o Papa é solicitada no mínimo com 2 anos de antecedência, a não ser que seja um Chefe de Estado. No entanto, Vossa Excelência chegou ontem

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REVISTA CONDOMINIO & SOLUÇÕES - EDIÇÃO I  

Revista voltada para o mundo condominial, síndicos, prefeitos de quadras, administradores prediais no Distrito Federal e Entorno.

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