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CONDOMÍNIO & SOLUÇÕES

OVNI Por Jane Araújo

Jornalista - Escritora

Subiram em direção ao ponto de ônibus da 312 Norte. Iam ao encontro dos amigos no Beirute. A tarde estava amena, tinham tempo de sobra para chegar lá, os amigos só deixavam o jornal por volta das 18 horas. Passava pouco das 17, o mês era abril, o ano, 1974. O trânsito tranquilo, pois a cidade ainda era a idealizada pelos construtores, com poucos carros trafegando, ônibus suficientes para a população viajar sem se espremer, nada de correria ou rush, apenas uma movimentação animada que alterava naquele horário a impressão de inércia e vazio que pairava durante o resto do dia na Capital Federal. Enquanto caminhavam, o sol se punha lentamente a suas vistas, bem na linha do horizonte, já pela metade. O horizonte parecia próximo, no cerrado onde construiriam depois as quadras 900. Até então só havia as 700 naquela área, mesmo assim, nem todas estavam concluídas. O sol parecia desproporcionalmente grande. Cerrando os olhos para ver melhor ao longe – Lilia ainda não descobrira que era um pouco míope – perguntou à irmã, “aquilo é o sol? Márcia que estava distraída cuidando dos carros que subiam a pista antes de fazerem a travessia da W3, encarou o horizonte, “acho que é,” disse displicente. “Não está meio grande?” insistiu Lívia. “É”, respondeu a irmã olhando agora com mais atenção. “Grande demais, não acha?” continuou Lívia. “É, estranho.” Lívia analisou com mais cuidado o suposto astro-rei, aí teve um estalo, “é uma placa, está dando um reflexo forte, tá vendo?” “É”, assentiu a irmã. “E não pode ser o sol, é do tamanho de um fusca, caramba!” - observou a mais nova. Já estavam do outro lado da pista, mas não pararam no ponto de ônibus para onde se dirigiram. “Mas uma placa ali, naquele lugar?” pensou alto. “Não é muito estranho?” Márcia nada disse, embora não tirasse os olhos do horizonte. “Vamos lá ver?” sugeriu Lília e sem esperar resposta rumou para a 712. Márcia a seguiu meio que hipnotizada também. Ninguém reparava nas duas nem no sol-monstro que as assombrava. Curiosamente, quanto mais se aproximavam, mais a coisa parecia grande e estranha. “É um sol estranho”, Lilia meio que murmurou pra si mesma, sem ter certeza de nada. As duas não conseguiam mais parar, seguindo resolutas em direção ao sol, o gigante que não terminava de se pôr, a impressão era de que o tempo parara. Olharam para trás e viram que se distanciaram um bocado. As quadras 700 eram meio vazias, sem movimento algum. Voltaram a olhar o horizonte. Márcia, mais cética, disse categoricamente, “é o sol, aqui ele é grande mesmo”. Lília concordou, embora pouco convicta. Já praticamente dentro do cerrado, assustaram-se quando a coisa pareceu se reduzir à dimensão natural e moveu para trás. “Ai, meu Deus!” berrou Lília, dando uns passos para trás. A coisa crescia, diminuía, movia de lado, para trás. “Céus! O que é isso”, disse Márcia aterrorizada. “Um disco voador! É um disco voador, caramba!” gritou Lília, verbalizando aquilo que já pensara antes, mas não ousara dizer. “E está vindo nos pegar!” O objeto, que ficara estático enquanto esse diálogo ocorria, moveu na direção delas súbita e rapidamente. As duas não tiveram dúvidas, viraram para trás e desabalaram em direção à civilização como se perseguidas por uma manada de búfalos. Correram o mais que puderam e só quando se sentiram a salvo pararam e olharam para trás. Para surpresa das duas não havia mais nada no horizonte. Em silêncio, seguiram direto para o ponto de ônibus, sinalizaram quando surgiu um táxi descendo no sentido Norte-Sul, o carro parou, se enfiaram dentro dele atabalhoadamente, ambas com taquicardia. Quando pararam de arfar e tiveram certeza de que o perigo passara, Márcia instruiu o motorista para deixá-las no Beirute. Lília, sem se conter, perguntou-lhe à queima-roupa, “ o senhor acredita em disco voador?” Surpreso, o homem voltou-se um pouco para trás e balbuciou alguma coisa ininteligível. “Acabamos de ver um”, declarou Lília. O taxista então tentou contemporizar com algumas tiradas sobre falarem que eles são muito comuns na região do planalto central, que tem grupo de acompanhamento que se reúne em locais onde relatam muitas aparições, inclusive um general do Exército coordena um grupo desses caçadores de OVNI. Depois calou-se e prosseguiu em direção ao bar. Olhando Lília pelo retrovisor, não pode se furtar ao pensamento que teve ao ouvi-la quase gritar que acabaram de ver um disco-voador: “Pobre garota, tão linda, novinha e já maluca”. Revista on-line : www.condominioesolucoes.com.br

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REVISTA CONDOMÍNIO & SOLUÇÕES - EDIÇÃO VI  

Revista voltada para o mundo condominial, síndicos, prefeitos de quadras, administradores prediais no Distrito Federal e Entorno.

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