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edição #1 · ano 1 · maio 2013

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índice combustão #1 · ano 1 · maio 2013

04_ Editorial: Libertas quae sera tamen (?) 05_ Rapidinhas: O antimilitarismo de Stanley Kubrick 06_ No fio da navalha 14_ Ensaio: Fernanda Castro 26_ Um relato nada imparcial sobre o subsolo da UFV 34_ Poema: Gabriel Novais 35_ Charge: Maurício Einhorn Filho 36_ Cigarros são importantes demais para ficarem nas mãos de um Júri 38_ Aos pamonhas, o meu desprezo 39_ Vergonha: o que você faz quando está sozinho? 42_ Resenha do caralho: Cinquenta tons de tédio

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Editorial Libertas quae sera tamen (?) Viçosa é um município do estado de Minas Gerais. Minas Gerais tem como lema, estampando em sua bandeira a frase “liberdade ainda que tardia”. Portanto, Viçosa carrega consigo os ideais de liberdade que adornam seu estandarte, certo? Essa seria a dedução lógica do raciocínio de qualquer pessoa que aqui chegasse, seja para morar ou apenas a passeio. O que entristece é que essa máxima tem passado longe das nossas tão esburacadas ruas. Foi preciso que mais de 200 pessoas perdessem a liberdade de viver, em Santa Maria-RS, para que as autoridades daqui percebessem que os locais que deveriam servir de lazer e divertimento são panelas de pressão que, ao menor sinal de emergência, não oferecem para onde correr ou escapar da tragédia. A saída encontrada pelo poder executivo da cidade foi a de fechar todos os locais que oferecem risco; Viçosa submergiu numa onda de proibicionismo e vigilância nunca antes vista. Ora, se os estabelecimentos não ofereciam o mínimo, como é que essas casas foram abertas? O funcionamento das mesmas depende, exclusivamente, de um alvará expedido pelo Corpo de Bombeiros,

que agora, junto à fiscalização municipal, sela todas as entradas. Optou-se pela força exercida através de uma canetada, sem nenhum debate. Enquanto dinheiro se esvai em investimentos naufragados e empregos são perdidos por um alvará que não chega. Viçosa é uma cidade universitária. Assim como Santa Maria. E essa relação “cidade vs universidade” vem se tornando, a cada dia, mais problemática, para o azar dos dois lados. Viçosenses pedem a “regularização” (para não dizer “impedimento”) das festas estudantis, enquanto os estudantes insistem em cometer os mesmos erros que levaram a população a exigir o agravamento das leis municipais. Fica claro que a situação não está boa para ninguém. O lazer fica comprometido. O repouso é afetado. As liberdades são tolhidas e, a cada semana, vemos, nos jornais e nas reuniões da edilidade, a questão ser debatida sem nunca haver uma solução. Qual é o limite da liberdade? Vigilância e cerceamento do direito de se divertir? Não há dúvidas de que a liberdade não é um direito, mas sim, uma sine qua non condição humana de convívio social. Ainda que com ordem e segurança. No momento, nem uma coisa nem outra. ■

EXPEDIENTE #1 | ANO 1 | MAIO '13 Editor Laio Brandão Diagramação Daniel Fardin Pedro Augusto Rodrigo Castro

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Redatores Eduardo Nascimento Jr. Laio Brandão Pedro Augusto Rodrigo Castro Thiago Soares

Colaboradores César De Lucca Gabriel Novais Mauricio Einhorn Publisher Xisto Press

Contato combustaoxp@gmail.com Facebook fb.me/revistacombustao


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S o antimilitarismo de kubrick Thiago Soares

tanley Kubrick nunca enxergou nas guerras o heroísmo que outros diretores viram. Seus filmes sobre o tema não procuram valorizar atos de bravura. É a crítica aos que promovem essas guerras e seus interesses mesquinhos o grande mote para o qual ele procura apontar suas lentes. Nos três filmes de sua carreira que tratam do tema de forma direta, o diretor nova-iorquino se vale de todos os traços técnicos pelos quais ficou conhecido (enquadramentos laterais, fotografia meticulosa, abuso de planos sequência) para demonstrar todo um processo de deterioração moral que a Guerra estabelece. Longe da pirotecnia patriótica de filmes como O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998) ou Falcão Negro em Perigo (Black Hawk Down, 2001), os filmes de Kubrick são para quem busca uma reflexão mais crítica em relação ao tema. Governantes e oficiais inescrupulosos, soldados desumanizados, razões irracionais para os conflitos; é assim que o diretor conta a história militar do século 20. Em Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957) o diretor usa como pano de fundo a Primeira Guerra Mundial. Motivado pela

ambição de ser promovido, um general Francês ordena um ataque suicida aos alemães. Fracassando, ele encaminha três soldados à corte marcial para abafar seus próprios erros na ofensiva. Crítica tão forte à covardia que não foram poucos os países a proibir a exibição do filme quando lançado. Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964) é uma comédia que flerta com o pastelão para tripudiar, em plena guerra fria, do clima de paranóia que a corrida armamentista engendrou mundo a fora. Contando com a atuação sempre magistral de Peter Sellers, na carne de três personagens; é, talvez, a obra-prima inquestionável de Kubrick. Full Metal Jacket (1987). O filme se divide em duas partes: em um primeiro momento jovens soldados são entregues as mãos de um sádico sargento Hartmann. Ali são treinados para que possam cumprir com eficiência seu papel na Guerra do Vietnã: Matar “amarelos”. Kubrick é veemente ao apontar que o processo de desumanização começa bem antes dos campos de batalha. Pra guerra, já são enviados caçadores prontos. Já crentes na condição de inferioridade dos inimigos. Prontos para a barbárie! ■ combustão

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texto Laio Brandão fotos Fábio Moura

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Escanhoar é verbo que talvez não se use ali, provavelmente seja até exótico. Mas bem que viria a calhar. De frente à rua, tão próxima dos automóveis ao ponto de se interromper uma conversa até que cesse o ronco musculoso dos ônibus ou o grito rouco das velhas motocicletas. No térreo de um velho sobrado de tijolo virado, elevado sobre os barrotes de madeira boa, a Barbearia Balbino funciona há mais de 50 anos. Embora no vocábulo não encontre representações à altura que lhe façam jus, o corte aprimorado e a freguesia ampla e fidelizada

fizeram parte da história desse distinto estabelecimento. Duas portas humildes de zinco, pintadas de marrom - consequência de um reforço imposto pela selvageria humana, que por três vezes arrombou as antigas frágeis portas de madeira, usando pés de cabra e outras celeradas ferramentas -, e uma placa singela, tradicional que poderia ser considerada estilo retrô, se não fosse ela mesma antiga de verdade -, são o que compõe a fachada branca da pequena construção de duas lajes. Foi ali que homens, mulheres, jovens e crianças cederam sua concombustão

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fiança aos serviços de José Santos Lima, José Balbino, ou simplesmente, Balbino. Responsável pela primeira impressão causada por qualquer indivíduo em diferentes situações - a própria imagem -, Balbino atravessou o tempo e viveu no trabalho o avanço da história, que percorreu o fio da navalha, os gumes da tesoura e desaguou em parafernálias como a máquina elétrica e o secador de cabelo. Ao longo das civilizações de diferentes culturas do mundo, aos homens com barba foram atribuídas diferentes características. Da sabedoria à falta de higiene, da potência sexual ao refinamento e do status social à excentricidade. A responsabilidade de dar ao pai de família ou ao jovem conquistador uma aparência cujo valor simbólico vinha empostado na própria cara foi tarefa que o barbeiro, jamais cabeleireiro - como gosta de afirmar -, considera cumprida com habilidade e competência. À revelia dos tempos, por onde modelos ditaram as tendências do futuro da moda, cortes como Buscaré, Príncipe Danilo e Americano atravessaram gerações, e hoje, com alguma esporadicidade, ainda servem de estilo em lugar de moicanos e “surfistas”. - Meus clientes, do meu tempo, muitos já morreram, ainda saem uns cortes tradicionais, mas hoje a moda é o tal do “Neymar”, eu não gosto

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muito, mas a gente faz. A profissão, apesar de hoje ser encarada como terapia, é ainda levada a sério, mas sem a vivacidade dos dias passados. O corpo pede, e a mente aceita, cessa o frenesi do investimento e da procura por clientes. Entretanto, sua “missão” – a forma como classifica os encargos de barbeiro – é ainda executada com responsabilidade, sem leniência, mas no fluxo monótono da paciência octogenária. No ritmo das conversas com visitantes en passant, a tesoura e o pente bailam rentes as orelhas

A cada serviço descrito a origem humilde é enfatizada, o valor do trabalho exaltado, mas sem nunca pôr-se como vítima das circunstâncias.

do homem entronado na cadeira de madeira maciça. Aos poucos, a cabeleira ensebada, depois de um dia de trabalho, vai-se despejando pelo chão, e os antigoss instrumentos empunhados pelas mãos do velho barbeiro num flerte vão definindo com precisão milimétrica costeletas, franja e “pezinho”. O mesmo acontece com a barba. Mudam os instrumentos, mas não a paciência e a calma de quem já repetiu o processo um sem número

de vezes. Assim como o cabelo, a barba tem suas variações, cujo desenho pode revelar a personalidade do cliente ou necessidade de adequar a feição ao formato de rosto. O pincel, - ou pé de coelho – amacia e prepara a superfície, vindo logo após a navalha traçando rente aos poros o gosto do barbeado. Muitas vezes sem rumo ou opção específica, o cliente deixa ao sabor do barbeiro a escolha do corte, situação na qual Balbino aplica seu jargão como uma luva, que se tornou quase uma filosofia de vida: “Confiança não se compra, se adquire”. E confiança é condição fundamental para o cliente deixar ao gosto do babeiro a missão de cuidar de sua própria aparência. Nada que sessenta anos de tesoura, pente, pincel e navalha não possam conquistar. Entretanto, não foram esses instrumentos que renderam a Balbino dos Santos o primeiro rosto a ser escanhoado. Na década de 40, o pincel era outro... As cerdas, que por tanto tempo assearam da pele suave à mais áspera, um dia lustraram brutas superfícies. Couro cru ou curtido, botas e sapatos eram lavados em graxa. Pra chegar ao topo, quando jovem, Balbino começou pelos pés. Munido de sua caixa de engraxate, as mãos ligeiras do infante corriam dos calcanhares às falanges. Dos saltos aos bicos largos e finos. A gorjeta era


modesta, mas o suficiente pra ajudar em casa. Salário não havia, o botim era do patrão. Portanto, aos moleques, as gorjetas. Esse foi o início de muitos de sua geração. O ofício de engraxate era a porta de entrada para a barbearia, e a caixa, o degrau para “ocupar uma cadeira”. Entre um emprego e outro, foi adquirindo experiência, seja vendendo jornais, vendendo frutas ou carregando encomendas da estação ou malas no hotel. - Diferente das mulheres, que podiam aprender um ofício sem pressa, o homem tinha que trabalhar. Eu não podia me dedicar a aprender uma profissão, tinha que fazer alguma coisa. A fala mansa quase silencia quando a memória busca na auto-

biografia as lembranças da meninice. Das idas aos alojamentos da antiga Escola de Agricultura e Veterinária (ESAV), buscar trouxas de roupa pra mãe, Dona Balbina, que era lavadeira; das visitas ao DCE, onde se reunia com alunos pra ajudar a organizar as festas, carregando equipamentos, ajudando a montar as barracas e conseguir um trocado. A cada serviço descrito a origem humilde é enfatizada, o valor do trabalho exaltado, mas sem nunca pôrse como vítima das circunstâncias. O exemplo dentro de casa, talvez, sirva de referência. Único homem de nove irmãos, dos quais havia oito Marias: da Conceição, da Glória, do Carmo, das Dores, de Lourdes, Auxiliadora, Terezinha e Luzia. Seu Balbino viu todas

crescerem com saúde. A humildade não é, em momento algum, representada senão como um fator de dificuldade que impediu voos mais altos, mas nunca como uma mazela que impediu a felicidade, a dignidade e qualidade de vida. O ano era 1946, e o barbeiromestre, Geraldo Gomide. Balbino revela que, entre um bico e outro e as lustradas de sapato, o dono da barbearia onde trabalhava considerou justo e oportuno ensinar-lhe o ofício da profissão. Além de honesto e esforçado, gerava bons dividendos para o estabelecimento. Aos dezesseis anos, regozija-se, tirou a carteira de trabalho. O ponto era privilegiado, na antiga rua Arthur Bernardes, hoje o Calçadão. Aos domingos, dia em que combustão

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barbearias não abriam, o futuro barbeiro legava aos menores as caixas de engraxate e punha a beca de salão – camisas brancas de manga e gravata preta – no aguardo dos clientes. As cobaias, obviamente, os clientes menos exigentes: jovens e crianças; os serviços, quase sempre, os mais simples: pelar o couro da molecada. A pirraça dos pequenos era de praxe, com a ausência das práticas máquinas elétricas, o corte rente ao couro era feito com uma ferramenta manual, que repuxava os cabelos da meninada irrequieta, causando ouriço. - “Não faz assim com o menino, Balbino”. Eles me falam até hoje, mas tem vez que a criança não para quieta, aí repuxa mesmo. E nessa toada é que a transição das caixas para as cadeiras foi ocorrendo. O dinheiro foi rendendo e a independência se aproximando. Foi então que, aos 18, conseguiu assumir uma cadeira fixa, quando Mestre Geraldo fora trabalhar na prefeitura. - Me esforcei mais do que alguns pra conseguir. O pai de Nonô (outro tradicional barbeiro de Viçosa), por exemplo, era dono de barbearia, então ele tinha privilégios. Memória viva de Viçosa, Balbino presenciou também fatos antológicos da história nacional. Mineiro, com parentes fluminenses radicados em Duque de Caxias, as idas ao Rio

foram comuns ao longo da vida. De qualquer forma, a primeira vez, com o perdão do jargão, ele nunca vai esquecer. O ano era 1950, o Rio de Janeiro, ainda a capital da república e os onze dias correram ligeiros. Entre visitas “aos amigos e parentes”, o adolescente conheceu a capital e viu acontecer, in loco, a maior festa simbólica que o ex-país do futebol poderia oferecer: a copa do mundo. O agora barbeiro assistiu a dois jogos da seleção nacional, o Brasil 7x1 Suécia, uma vitória acachapante, a catarse coletiva que deu ao jovem mineiro as dimensões da paixão nacional pelo esporte, e o Brasil 6x1 Espanha, outra saraivada tupiniquim, que levou o escrete a final, e que por outros motivos também marcou: “foi uma coisa que eu jamais vou esquecer”. - Era ano de eleição, 1950, e eu estava ali, a banda do Flamengo, parece, estava tocando, e o prefeito do Rio era Mendes de Moraes. Quando ele foi anunciado, todos aplaudiram muito, pois ele tinha construído o Maracanã, quando o alto-falante anunciou a chegada do Getúlio Vargas, ele não foi muito aplaudido, não... À final, ele não assistiu. A razão, simples: - Pra falar a verdade, o “mineirão” aqui teve medo do Brasil ven-

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cer e do Maracanã vir abaixo. Nunca na minha vida eu tinha visto tanta gente como lá. Tinha medo de poder acontecer algum acidente. A passagem comprada e a dificuldade de encontrar um ingresso a preços módicos, nas mãos de cambistas, influenciaram na decisão, mas foi mesmo o medo do Colosso estremecer de euforia que o despachou do litoral. Medo que não transparecia nos bailes noturnos de Viçosa, onde “nativos não tinham chance, as garotas só queriam os estudantes”. Pé de valsa confesso, ele não aceita bem a fama de namorador, mas não recusa com firmeza. O riso tímido diz que sim, mas talvez a moral da idade seja mais comedida e tente dizer não. Os bailes eram vários, nos clubes, na Liga Operária – da qual viria a ser presidente em 77 – e no “Clube da Raça Negra”, que se não tinha esse nome de verdade, apenas o valor simbólico. “As meninas me tiravam pra dançar”. A época era boa. O progresso ia se aproximando e o esforço sendo recompensado. Aos 24 anos comprou a barbearia, trabalhou muito. Os tempos eram outros e havia muita freguesia. A cadeira, agora própria, deu trabalho pra conseguir. Passada de mestre pra pupilo, Balbino foi o terceiro dono da peça de

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madeira maciça, vinda de São Paulo. Arthur Bernardes um dia sentara nela, quando era ainda do primeiro dono. O valor: 10 contos de reis, dos quais ele deu seis e ficou devendo quatro, que pagou em seis meses. - Aí eu pensei, agora tenho que casar. Casar e morar no que é meu. A casa é a mesma até hoje. Localizada bem no centro da cidade, lugar privilegiado, mas que, na época, era ainda à beira da uma grande roça que era o bairro de Ramos. Comprar a casa deu trabalho. À procura de um terreno, José dos Santos Balbino contou com a ajuda de amigos, pois sendo um deles um comerciante de imóveis, deu a ele o privilégio de comprar a casa que já era de seu interesse. O tom é de agradecimento, mas o esforço pessoal sempre exaltado. - O Plínio sabia do meu interesse, então disse que ia separar pra a mim a parte que eu queria. Eu gostava de pular carnaval, sabe, não pulei, fui vender confete, lança-perfume... Suei muito pra pagar, viu. Cadeira, barbearia, casa e esposa - senhora Wanda Rezende Lima. Mas faltavam filhos. Vieram cinco. Não de uma vez. José, assim como o pai, Balbino, foi o único homem entre tantas irmãs. “Só uma que não se formou porque casou e saiu e da cidade”, ressalva.

Pela cadeira, já lhe foi oferecido 5 mil pratas. “Pedi 10 pra não vender; hoje vendo, não sou dono de nada, só tomo conta”, parafraseando Henry Ford.


Mas foi lá que todos os cinco foram criados. O terreno difícil palmilhado até a estabilidade foi coroado com os bons resultados e o alcance da finalidade última do indivíduo, a felicidade. Sócio benemérito e conselheiro até hoje da Liga Operária, sendo o mais velho do grupo, a memória viva se descobre nas conversas que a cada ano rareiam, “porque o meu time, de 40, 50 anos atrás, muitos já morreram”. E como conversa quando encontra alguém que lhe ouça. O percurso da natureza humana não falha. Nasce, cresce e se fortalece. E todo auge tem sua queda, embora a dança e a ginástica ainda embalem e mantenham em atividade o corpo e espírito, o ritmo é reduzido. A morte é pauta recorrente: - Estou sendo preparado, fisicamente já estou pronto, cumpri as metas. Nessa idade a gente se preocupa com a cabeça, com o conforto do espírito. A primeira esposa, ponto nevrálgico, é assunto melindroso que ainda incomoda, as palavras sequer

saem. Partiu há mais de 10 anos. O que não o desanimou por todo, já que outra senhora dos Santos Lima agora ocupa o outro lado da cama. Aliete Paula Nascimento tem o riso fácil e o verbo corrido, fala com a efusão que o marido não tem. Casados desde 2002, também ano de Copa do Mundo, a história tem seu encanto, o lugar não poderia ser outro: as danças no clube. “Ela me chamou pra dançar, não sabia dançar, não. Mas eu sabia, né?”. Até cerveja tomou, confessa, “pra ficar mais solto; depois de tanto tempo, é diferente, precisa se soltar”. As últimas histórias vêm também do litoral. Mas não do Rio. As idas aos balneários do Espírito Santo, as viagens com a esposa e lua de mel simbólica. - Fiquei várias vezes na casa da minha irmã, no Espírito Santo. Você acredita que ela tinha coragem de me cobrar? Quando estava com ela, ainda ajudava com tudo nas despesas. Quando ia sozinho, ela me cobrava, vê se pode, é triste... A incredulidade é o reflexo de

quem cresceu com o respeito, adquiriu valores fortes, que dizem mais sobre o esforço e auto cobrança do que sobre preconceito ou carolice. “As coisas estão maculadas, muito interesse em tudo, até essa tesoura. Olha, é Paraguai. Você duvida?”Com licença, mas eu, não. O desinteresse é o mesmo ao olhar para o prédio, no fim do expediente. “Dou mais uns três anos pra isso aqui, eles vão derrubar pra fazer um prédio”. Pela cadeira, já lhe foi oferecido 5 mil pratas. “Pedi 10 pra não vender; hoje vendo, não sou dono de nada, só tomo conta”, parafraseando Henry Ford. A porta fecha, os carros mal passam. É noite. A volta pra casa revela o desânimo nos investimentos, a vida segue orgânica, em seu ritmo natural, mas se algo acontecer ao prédio da Barbearia encerra-se ali a história. A este que vos fala, vem a filosofia própria do navalhista: confiança não se compra, se adquire. Acho que consegui a dele, ao menos por algumas horas de conversa. ■

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FERNANDA CASTRO ensaio por ROBERTA MONTEIrO

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UM RELATO NADA IMPARCIAL SOBRE O SUBSOLO DA UFV texto Rodrigo Castro fotos Eduardo Nascimento e Rodrigo Castro 26

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Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias era o último filme da “Maratona do Leste Europeu”, mostra exibida no Cine Carcará, praticamente no quintal da reitoria da Universidade Federal de Viçosa. O porão do Centro de Vivência abriga, pelo menos até que alguma autoridade administrativa decida em contrário, Centros e Diretórios Acadêmicos, Associações (como a de Pós-graduandos e de Moradores do Alojamento), o Diretório Central

dos Estudantes e o Cineclube Carcará - juntamente com o cinema batizado com o mesmo nome do bicho do cineclube. Além do exibidor – eu –, estavam mais seis ou sete pessoas dentro do cinema para assistir ao vencedor da Palma de Ouro de Cannes de 2007, dirigido por Christian Mungiu. O mês de julho não costuma ser dos mais quentes, principalmente depois das nove da noite, mas, pelo menos para quem esteve no Porão nesse 2 de julho, a

noite pegou fogo – literalmente. A conclusão óbvia da perícia é que o incêndio fora criminoso, e não havia ninguém que convivesse no porão que já não soubesse que, sim, o incêndio só poderia ter sido criminoso. Assim, restava investigar quem tinha sido o criminoso, mas nem polícia nem a UFV pareciam e parecem estar muito interessadas nisso. E se você está curioso para saber o que aconteceu depois que um incêndio criminoso destruiu combustão

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um centro acadêmico, inundou o Porão de fumaça e fuligem e, se não fosse pela ação dos bombeiros (e de algumas boas almas que tentavam apagar o fogo antes que os bombeiros chegassem ao local), provavelmente teria se alastrado pelo cinema e demais unidades do lugar, com certeza se surpreenderá com a resposta: n-a-d-a! Para que não se dê crédito às teorias conspiratórias de que algo muito estranho aconteceu, houve uma atitude da Universidade: mandou interditar o porão, sob a desculpa de risco de curtoscircuitos, novos incêndios e... só! Foram praticamente três meses com tapumes proibindo o acesso ao Porão, enquanto os estudantes que lá viviam tiveram que retirar objetos de dentro das salas, o que não impediu que alguns outros centros e diretórios acadêmicos sofressem atos de vandalismo e depredação, sem contar os furtos.

Três meses sem que nenhuma explicação oficial fosse dada a ninguém, a não ser em conversas informais fora dos registros. Três meses em que o movimento estudantil se enfraqueceu, esfacelado que fora, cada centro e diretório para seu lado. Três meses sem que o cinema funcionasse, interrompendo as atividades de mais de quatro décadas do Carcará. Três meses que serviram para mostrar como a UFV se importa pouco com o que se passa debaixo de seus olhos – e logo ali, ao lado da reitoria, quase no mesmo local em que há um estacionamento reservado às autoridades administrativas. Fato curioso é a contradição entre o que o laudo da perícia policial atestou – que o local que fora afetado limitou-se apenas ao hall de entrada do Porão, que os policiais chamariam de “entrada do DCE” (um observador mais atento notará que o hall em questão

ARQUIVO DCE/UFV

Reunião de estudantes para definir a reocupação do Porão 28

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A conclusão óbvia da perícia é que o incêndio fora criminoso, e não havia ninguém que convivesse no porão que já não soubesse que, sim, o incêndio só poderia ter sido criminoso.

corresponde exatamente a uma das paredes do Centro Acadêmico de Ciências Sociais – CACIS – , que ficou totalmente inutilizado, e às portas do Cine Carcará, que, por sua vez, não sofreram nenhum prejuízo) - e a justificativa dada pela UFV para proibir o acesso ao Porão, que nas palavras de Lucas Braga, estudante do sexto período de Ciências Biológicas e membro do CABio , “não tinha mais condição [de usar o Porão], pois tinha afetado toda a estrutura física, estrutura da rede elétrica, já tinham desligado água, luz, banheiro, pois não havia condição de voltar de forma

alguma”. Quando perguntado sobre baseado em quê a Reitoria havia dado essa informação, cedida em uma reunião após o incêndio e antes do laudo da perícia policial ficar pronto, Lucas não responde, pois simplesmente não se sabe de onde veio a informação. Se eu e mais alguns cinéfilos reclamamos da falta que o cinema nos fez durante a interdição, o estudante relembra que o Movimento Estudantil também perdeu um pouco da força nesses três meses em que cada um foi para seu canto – ou melhor, para seu Centro de Ciências. “Aqui é um espaço que

tá todo mundo junto. Por mais que sejam poucos representantes de cada centro acadêmico, é um momento que você visualiza todo mundo e facilita a comunicação. A articulação e a comunicação são mais fáceis, na hora do almoço todo mundo se reunia...”. Não bastasse o incêndio por si só causar danos materiais e provocar o afastamento das pessoas, a interdição deixou o que já era de certa forma um local abandonado completamente inóspito – e, assim, oito computadores foram roubados de dentro de alguns CAs. Balancete do ocorrido: prejuízo financeiro, salas depredadas e interditado o

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local onde ao menos a centelha de fogo (sem trocadilhos) do ME permanecia acesa, com acesso restrito e controlado pelo porteiro do Centro de Vivência. Então, depois que o tempo passou e uma notável sensação de que fomos enganados tomou conta de algumas pessoas. Uma reunião entre CAs e DAs decidiu: o porão seria reocupado. “A gente chegou na quinta-feira de manhã [13 de outubro], abrindo os tapumes pretos. Chegamos, abrimos, tiramos foto de tudo antes de ocupar. Na terça-feira, antes de ocupar, eu e um amigo do CA tiramos fotos do local antes para ver como estava a estrutura, deixar registrado as alterações que a gente fizesse depois, com o desenvolvimento das nossas atividades. Aí na quinta-feira a gente pulou, viu como estava o espaço, o pessoal ficou meio bobo, olhando pros lados, mas logo depois

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cada um pegou a vassoura e tiramos o lixo, resto de entulho.” No final das contas, o Porão está como sempre esteve: imundo, insalubre, mas vivo. O local parece nunca ter sido limpo. Aliás, de acordo com Lucas, é isso mesmo. “Nunca foi limpo. A gente já discute isso há mais de um ano, a questão da limpeza, mas não tem nenhum funcionário responsável pela limpeza daqui.” É uma terra de ninguém, em que um lado poderoso – o administrativo – lava as mãos da responsabilidade de gerir um espaço cedido pela Universidade ao DCE, CAs, DAs e demais associações e organizações – e cuja cessão, inclusive, venceu em março, de acordo com o próprio DCE, sem que nenhuma providência tenha sido tomada até agora. Se o desejo da UFV, como apontam boatos e teorias conspiratórias,


é tomar o espaço para si, para fazer dele o quê ninguém imagina, ganhou agora um forte motivo para jogar quem lá está na ilegalidade, já que o vencimento da cessão tornaria a ocupação ilegítima. E por falar em ilegalidade, Lucas ressalta um fato curioso: “Hora nenhuma as reuniões foram gravadas, nem por parte da reitoria, nem por parte da gente. A única informação que a gente tem é uns vídeos, que logo a reitora pediu pra parar quando ela viu que tava gravando. Não teve ata nem nada. Mostra nosso despreparo e o preparo da Administração.” As reuniões a que se refere o estudante aconteceram após o a reocupação do Porão, quando foi avisado à Reitoria da UFV que o local havia sido retomado pelos estudantes. Assim, logo em seguida à ação, duas reuniões foram realizadas, na quinta-feira e outra na sexta, para apenas reiterar o que já havia sido dito: não era seguro estar no Porão, havia risco potencial de

novos acidentes, a estrutura estava comprometida, com o agravante, agora, de terem “invadido” o local, tornando-os ilegais. Como prova de que a UFV agiu de forma correta, uma nova reunião foi convocada entre algumas Pró-reitorias e os representantes dos órgãos do porão (menos o Cineclube Carcará, que não foi citado no convite feito pela Próreitoria de Assuntos Comunitários). Além de mostrar planos futuros de construção de uma nova sede para abrigar tais órgãos, fizeram questão de reiterar o fato de terem prontamente disponibilizado novos locais para que todos pudessem retomar suas tarefas cotidianas. Porém, se esqueceram de um

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Esse descaso não é mérito da atual gestão, empossada em 2010. É fruto de anos sem que ninguém, a não ser os próprios estudantes e demais pessoas que utilizam o espaço, tivesse o mínimo de cuidado e vontade de fazer do Porão um lugar mais agradável, ao menos propício para visitação.

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detalhe relevante, que não passou despercebido pelos que foram mais prejudicados com a interdição do Porão. “Colocaram doze CAs onde mal caberia quatro. Muitos CAs que levaram computador, móveis, ficaram sem proteção, expostos a fatores ambientais, chuva, sol, degradação do patrimônio público.” Assim, uma tremenda confusão está causada por conta do descaso da Administração da UFV para com um dos setores de sua estrutura. O porão do Centro de Vivência faz parte, como o próprio nome indica, do Centro de Vivência. Não há razão porque deixar que ele lentamente apodreça, a ponto de que um incêndio causado por um desconhecido (ou desconhecidos) cause todo esse transtorno para todos que usufruem do local. Esse descaso não é mérito da atual gestão, empossada ano passado. É fruto de anos sem que ninguém, a não ser os próprios estudantes e demais pessoas que utilizam o espaço, tivesse o mínimo de cuidado e vontade de fazer do Porão um lugar mais agradável, ao menos propício para visitação. O próprio Cine Carcará é um exemplo desse descaso, já que, apesar de ser gerido pelo Cineclube, que é autônomo, é patrimônio da Universidade, mas,

pelo menos nos últimos quatro anos, não me lembro de ter sido realizada uma limpeza sequer – e o Cineclube não é o único que utiliza o cinema para realizar suas mostras, pois o espaço é aberto a professores, estudantes e demais interessados em utilizá-lo. Duas saídas foram apresentadas para quem esteve na reunião com os Pró-reitores: a) aceitar a nova sede e, enquanto ela não sai do papel, resignar-se com o que já foi feito – o que significa permanecer nas salas e condições que foram cedidas; e b) aceitar a reforma do porão, mas que implicaria novamente a saída imediata de todos que estão lá, para, também, voltar para as condições oferecidas já citadas. Não há a possibilidade de permanecer no Porão enquanto a nova sede não fica pronta? Não! O motivo? O mesmo de sempre. Insiste-se na tese de que o local está todo comprometido, mesmo que a perícia tenha deixado claro que apenas uma pequena parte tenha sofrido danos causados pelo fogo. Enquanto o resultado da sindicância aberta pela UFV não é vem a público, as dúvidas e as teorias continuarão a atormentar e azedar a relação de autoridades administrativas e os estudantes que vivem no subsolo da Universidade. ■

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GABRIEL NOVAIS

por gabriel novais

tem sido difícil escovar os dentes como sinto prazer em fazer sendo destro, insisto em esfregar e girar a escova de um jeito canhoto minha mulher já desistiu de mim, o silêncio é o que tenho dos meus filhos, meus velhos insistem na benzedeira loucura - é o que eles dizem ser não acreditava nisso mas toda essa casa suja, todos essas cartas, todos esses dentes estão me levando a crer

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por Mauricio Einhorn Filho

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Cigarros são algo muito importante para ficarem nas mãos de um Júri

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Laio Brandão

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o rastro da fumaça ejetada pelo politicamente correto nos últimos tempos, lembrei-me de ter terminado recentemente O Júri, livro de 1996, de John Grisham. Não é obra de fôlego, apesar de suas 506 páginas, qualquer fumante é capaz de consumi-la em poucos dias. Editado pela Rocco, com tradução de Aulyde Soares Rodrigues, os 43 capítulos trazem exatamente o fumo como base de sustentação para a trama. Nascido no Arkansas, e formado em direito pela Universidade do Mississipi, a atividade de advogado influenciou a temática de quase toda a obra de Grisham. Buscando esmerilhar as brechas do sistema jurídico americano, além do tempo de carreira e experiência pessoal, o autor conta com uma equipe de pesquisas que sustentam sua narrativa recheada de dados e informações de bastidores, daí a riqueza de detalhes das descrições feitas - com dados, nuances e a revelações de que muitas vezes beiram à realidade -, que se nada revelam senão o contexto da própria cena a que querem aludir,

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caem como uma luva para as adaptações cinematográficas feitas com quase todos os seus escritos. No romance em questão, o advogado Wendell Rohr e sua equipe de magistrados, representando a família Wood, entram em litígio contra a indústria do tabaco pela morte de Jacob Wood, que partira após anos de pitadas incessantes, deixando filhos e esposa. A multa milionária exigida, além da punição ao grande conglomerado do fumo, abriria um flanco jurídico tão profícuo quanto uma mina de rubis; havendo um precedente de condenação por morte de consumo de tabaco em processos civis, outros tantos singrariam na mesma empreitada em busca de, senão justiça, um pé de meia rechonchudo. É esta tensão pecuniária que põe no centro da roda de negociações a grandiloquência na escolha assertiva dos 12 jurados que compõem a bancada. Do outro lado da trincheira, representando a Big Tobbaco – termo atribuído aos grandes produtores de cigarro –, Durwood Cable, como advogado de defesa, e Mr. Rankin Fitch e sua vultosa

equipe de “consultoria” de jurados. Verdadeiros espiões-detetives, a turba Fitchiana conta com hackers, fotógrafos, grafólogos, psicólogos e toda uma parafernália tecnológica que lhe permitem deduzir de antemão desde a posição política à crença religiosa, e do sorvete preferido ao tipo sanguíneo do jurado em potencial. Tudo em prol da escolha assertiva daqueles que, a priori, seriam a favor das cigarrilhas, no julgamento. O livro pouco nos diz, pouco traz de subjacente, além de seu politicamente encrustado na moral da história. Embora se ouça de lá e de cá todo tipo de argumento, a narrativa mais se parece com uma grande reportagem. Nenhum grande discurso ou depoimento ascende a algo mais – não há universo onírico algum. Todo esforço retórico se mantém no plano dos negócios e alcançam no máximo boas discussões sobre liberdade... de consumir. Médicos, marqueteiros, especialistas em geral, pesquisadores, publicitários, empresários e lobistas fazem a sanha na cabeça do júri com depoimentos. A narrativa segue a máxima do “não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de dizeres”, entretanto prevalece a tática de Churchill (obrigado, Paulo Francis, pela citação), de achar “muito razoável que numa reunião todos tenham a hora e oportunidade de se manifestar por algum tempo”, mas que no fim, concordem com ele. E o resultado é o mais provável: politicamente correto. Tem se tornado comum falar mal dos cigarros, embora não arrisque aferir a causa e consequência, se o público exigiu ou foi direcio-

nado a isso. Na visão de David Musto, professor de história da medicina da Universidade de Yale, o movimento contra o consumo de tabaco (álcool e outras drogas) é cíclico, de aproximadamente 70 anos cada, de condenação extremada até simpatia ao cigarro. De acordo com Musto, a atual onda começou por volta de 1980 e vai durar até a primeira metade do século 21. Apesar da precisão e sagacidade dos diálogos, como é usual de toda obra que tenha como base o Direito, tem se tornado, de modo geral, fastidioso reservar algum tempo a obras que envolvam o cigarro como tema. Independente da forma que assuma, o sentido será o mesmo, mais do mesmo. A literatura enquanto arte – considerada como tal – deve ter a liberdade de divergir sem compromisso algum da realidade e do discurso hegemônico. Tem ela própria a autonomia de fazê-lo, embora o público concorde ou não, literatura está para o gosto e apreciação, não para concordância. A ANVISA deveria fiscalizar isso, ficando a indústria cultural mais tediosa, a decepção fará as pessoas fumarem mais. ■ combustão

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AOS PAMONHAS, O MEU DESPREZO T

ô com trauma dessa palavra: “domar”, todo mundo promete um futuro desses pra mim, mas até agora, nada.

César De Lucca São palavras de uma amiga. Motivo dessas mal traçadas. Mote da crítica. Vivemos numa sociedade bunda-mole, e nada me comprova mais isso do que as palavras de minha amiga. Hoje em dia, o Merthiolate não arde, bater nos filhos é caso de polícia e ser chamado de “gordo” pelos coleguinhas de escola virou “bullying”. Parabéns, idiotas da objetividade, o mundo está politicamente correto, asseado e com gel e brilhantina no cabelo. A vida, antiga fonte de prazeres e riscos, deu lugar a uma usina de responsabilidades. Tudo é regrado, tudo é delimitado. Se você passa do limite, lá vem a Justiça te condenar por fazer mau uso da sua liberdade de expressão, de ir e vir ou de fazer tudo aquilo que a lei não veda. O problema é que hoje ela veda tudo! E essa lei não é a lei do Congresso, nem a de Gerson, é a lei-costume, é o que o povo ensina e faz. Sabe-se lá como chegou até aqui, mas chegou. E agora nos resta chorar. E baixo. Porque se reclamar, é reacionário (ou revolucionário). O importante é

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não involuirmos, pois chegamos ao pretendido: pessoas boas, limpas, educadas, todas iguais. Quando mais novo, nós nos orgulhávamos das cicatrizes conquistadas por brincar com um cachorro bravo, ou cair de uma árvore brincando de pique-esconde. E o orgulho era ainda maior quando você se lembrava dos piores e mais longos minutos da sua vida: o interregno de sofrimento psicológico entre mostrar a ferida para a mãe e receber o toque sulfúrico do Merthiolate. Mas não hoje! O Merthiolate não arde; sair de casa é coisa de moleque de roça e, pouco a pouco, a preparação do menino para se tornar um homem e encarar os diversos problemas da vida perdeu o lúdico. E aí é que volto ao início. Minha amiga não tem um homem que a dome porque os homens desaprenderam a domar. Se tornaram pamonhas. Quem resolve seus problemas é a mãe, com carinho e conselhos falados com a voz suave e calma. Ele não apanha, ele não se machuca. E quando se machuca, aguarda em posição fetal pelo Merthiolate que não dói! O homem se tornou cada vez mais indefeso. A valorização da mulher trouxe consigo um temor enorme para nós. Era muito simples dominar uma mulher “com-

prada” por meio de um casamento, que passava o tempo todo em casa cozinhando e ninando os filhos. Mas ela resolveu colocar um terno, saltos altos e foi fazer uma reunião de negócios. E ela fechou o negócio! E agora, machão? Minha amiga sente falta de alguém capaz de domá-la, sem qualquer machismo aqui. Ninguém quer um retorno aos tempos antigos, para que a esposa torne-se, outra vez, mero objeto de adorno na relação. Nivelar por baixo nunca foi solução. É o homem que tem que avançar, aprendendo a conviver com a mulher de igual para igual. Entendendo que sua antiga posição de macho dominante perdeu o sentido. Essa falta de ser domada que a mulher sente não tem nada a ver com a dominação do marido que subjugava e fazia o que bem entendia nos matrimônios do tempo do czar. Ausenta-se do homem moderno a capacidade de tomar as rédeas e fazer sentir-se segura sua companheira. O novo desafio desse homem é dar à companheira, ao lado da companhia melosa das novelas e romances, um homem. Daqueles que abrem o pote de palmito, trocam a resistência do chuveiro e resolvem o problema. Na cama ou no trânsito. ■


V er go nh a : Rodrigo Castro

o que você faz quando está sozinho?

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hame é angustiante. Isso poderia ser o melhor resumo do filme, mas preciso ir além. Boa parte da crítica institucionalizada não gostou, e isso não vem ao caso aqui. Faço minhas as palavras de Werner Herzog, em entrevista para revista CULT: uma crítica não me faz gostar do/ir assistir ao filme ou não. Dito isso, alerto: isso não é uma crítica. Uma análise, talvez. Michael Fassbender como Brandon é o conflito em pessoa. Ele não precisa falar, só precisa ser visto - e como incomoda ver sua personagem em tela! É um ser perturbado, meio taciturno, sem, no entanto, ser esquisito ou estranho. Basta, para isso, ver sua relação com os colegas de trabalho. É muito amistoso, mas respeitando aquela distância civilizada entre a liberdade de cada um. Aliás, essa esquisitice não aparece, geralmente, em pessoas como Brandon, bem-sucedido num emprego que, ao que tudo indica, lhe deixa realizado, ao menos financeiramente (isso não é uma lição de moral: o filme apenas não é focado no fato de Brandon gostar realmente do emprego ou não; ele é apenas retratado como um executivo bem-sucedido e bem pago).

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O mundo cercado de pornografia de Brandon - ah sim, ele é viciado em sexo/pornografia - começa a ruir quando sua irmã aparece de surpresa devido a compromissos profissionais. Retificando: não é bem uma surpresa, visto que o jovem executivo ignora inúmeros chamados da irmã. O ponto é que o que antes estava em ordem sai do eixo pela presença de um intruso em seu universo particular. A sequência em que Brandon discute com Sissy (a irmã), na sala, é exemplar, e não precisa de muita explicação, pois a própria irmã dá a resposta do problema: tudo o que ela faz, a partir da chegada ao apar-

tamento, irrita-o profundamente - e, ao que parece, sem motivo algum. O motivo é menos torpe do que parece: a presença de Sissy faz com que Brandon precise controlar seu vício, que é muito mais difícil de esconder do que fumar um baseado ou cheirar uma carreirinha num banheiro - ou beber irresponsavelmente de diversas fontes escondidas pela casa. Ele precisa de seu espaço para se satisfazer. O sexo necessita do outro - ou, no mínimo, de um local para se masturbar sem ser perturbado. Por isso ele consegue se virar no banheiro da empresa, num espaço reduzidíssimo, mas que lhe garante o mínimo de

privacidade e proteção de que precisa. Ainda sobre o trabalho, mesmo quando o chefe-amigão conta-lhe de toda a sujeira que tinha no HD, percebe-se uma certa ponta de indignação no olhar de Brandon quando perguntado se foi o estagiário quem deixou aquilo tudo por lá - é como se ele dissesse claro que não foi o estagiário, é MEU computador! Assim, o que antes o que era apenas a angústia de dependente solitário - que por mais que gerasse certo sentimento de compadecimento - onde havia privacidade, aos poucos torna-se insuportável quando é preciso esconder-se e esconder o motivo de toda aquela vergonha

O limite transborda quando Sissy pega o irmão no ato, se masturbando no banheiro e, em seguida(...), bisbilhota o computador do irmão e, de cara, abre um chat de sexo virtual, tornando o que já estava ruim, insuportável.

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O sexo necessita do outro - ou, no mínimo, de um local para se masturbar sem ser perturbado. Por isso ele consegue se virar no banheiro da empresa, num espaço reduzidíssimo, mas que lhe garante o mínimo de privacidade e proteção de que precisa.

dos outros. Afinal, o que vão pensar do rapaz bonito e charmoso bem-sucedido que ganha todas no emprego se descobrirem que ele é viciado em... sexo? O limite transborda quando Sissy pega o irmão no ato, se masturbando no banheiro e, em seguida, ainda em meio aos pedidos de desculpas pela situação constrangedora, bisbilhota o computador do irmão e, de cara, abre um chat de sexo virtual, tornando o que já estava ruim, insuportável. É aí que todo aquele “lixo” vai, literalmente,

pro saco, como se isso bastasse para se livrar do vício que o consumia, até que, como se vivesse uma crise de abstinência sexual, Brandon vai procurar sexo em qualquer lugar – e a partir desse momento há uma sequência sensacional em que ele é espancado na saída de um bar, entra numa boate gay e faz um threesome com duas desconhecidas (mais um pouco sobre essa cena abaixo). A duração dos planos é um dos pontos altos do filme. Mais do que uma simples oposição de duas “escolas” cinematográficas - a europeia

e a americana, de quadros rápidos - os planos, em toda sua duração sim, eles são bem arrastados - contribuem para gerar toda a aflição das cenas, mostrando a personagem de Fassbender em sua agonia condenada à eternidade. É só olhar para a cara não tão prazerosa do ménage final: Brandon parece estar esgotado. A questão, portanto, não exige que o espectador esteja acostumado ou não ao estilo europeu mais “devagar” de se construir planos, mas sim de compartilhar do melancólico mundo de Brandon.■

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por Pedro Augusto Ficha Técnica Título original: Fifty Shades of Grey: A XXX Adaptation Ano: 2012 Duração: 158 minutos Diretor : Jim Powers

Cinquenta tons de tédio

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ão, não fui obrigado a ler um livro. A Smash Pictures furou o olho da Universal Pictures, que havia comprado os direitos da E.L. James (escritora do livro original) e fez uma adaptação pornô desse livreco que causou rebuliço pelo mundo. Daí, você vai todo empenhado na esperança de assistir a um pornô com muito sadismo e sacanagem, mas encontra apenas outro pornozinho cheio de diálogos inverossímeis e com a transa mecânica de sempre. Descrever o desprazer que é assistir a esse filme não é uma tarefa fácil. Tirando uma cena em que o tal do Christian Grey, vivido pelo metelão Ryan Driller, faz a Anastacia Steele, interpretada porcamente – não no bom sentido – pela Allie Haze, ficar com duas bolinhas de pompoarismo durante uma festa... o resto é só viagem errada.

Pra início de conversa, Anastacia era virgem antes de conhecer o senhor Grey (a Allie Haze fazendo papel de virgem...). Eles fazem um contrato e o tranzão tira a virgindade dela. Até aí tranquilo, mas na cena seguinte a garotinha inexperiente já se mostra apta a colocar o piru do misterioso senhor na traqueia. Sem qualquer dificuldade, é claro. Entre as várias sequências do filme, a segunda deveria ser a mais legalzinha. Isso porque Alexis Ford é a estrela, tudo muito bom... ela é uma delícia... mas há um pequeno porém: é comida de pau mole. E o pior: em ângulos realmente escrotos, várias cenas de bola no períneo. Aliás, uma péssima tendência que percorre todo o filme. Há uma deixa para uma possível boa cena. Julia Ann interpretando a mentora do Sr. Grey, uma dominatrix experiente. Mais uma decepção. Ela é frouxa e a cena

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Elenco: Alexis Ford, Allie Haze, Julia Ann, Johnny Castle, Logan Pierce, Ryan Driller

não tem nada de edificante além dos 43 anos de experiência de Julia. Pra terminar com chave de ouro, tem um discursinho da Allie Haze falando algo bem próximo de “se seu bofe quiser inovar no sexo, te dar uns tapas ou afins seria legal você considerar isso, afinal é o seu amado”. Tão profundo que eu quase chorei por não ter ninguém pra fazer um bondage... Resumindo, é tudo muito ruim. Não sei até que ponto é culpa do enredo do livro ou da direção do filme. O que fica bem claro é que o filme em si não vale a pena ser visto, porque além dos problemas nas cenas individuais, ele é mal construído, os cortes pra pau dentro, os ângulos horríveis e é claro, a atuação tenebrosa. No fim das contas, o único elemento de sadismo que sobra é a atitude do diretor em esperar que alguém assista aquilo durante duas horas e meia. ■

“No fim das contas, o único elemento de sadismo que sobra é a atitude do diretor em esperar que alguém assista aquilo durante duas horas e meia.”

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Revista Combustão #1