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revista claraboia © copyright ou melhor copirraite 2011 de todos os leitores pela herança cultural da humanidade que pesa sobre vossos ombros.

Todos os direitos não são reservados à editora alternativa Urbes. Todos possuem o direito de reproduzir partes ou o todo desta revista. Já que a propriedade intelectual não é propriedade privada e sim uma construção coletiva de geração em geração. Como ninguém é um iluminado, os escritos sempre, nos seus mais profundos abismos, não deixam de ser em certa forma um plágio. Inclusive agora este é um plágio.


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SUMÁRIO Poemas O mundo precisa de mais poesia Eu sou poeta Anne Lucy Preâmbulo do meu desejo A ti NOITES-SOLIDÃO O despautério Óleo Julio Lira Sem rumo Conheço que desconheço Indecisão Chuva Claraboia pantagruel Palhaço Manifesto

pág. 05 pág. 05 pág. 06 pág. 06 pág. 07 pág. 07 pág. 08 pág. 08 pág. 08 pág. 08 pág. 09 pág. 09 pág. 09 pág. 09

Contos Arcas Ferreira

Clarissa na Cidade As transfigurações de um tempo imóvel Ceci

O gozo sem vida de Joana A facilidade de reconhecer um professor do ensino básico público, segundo um mendigo T.R Borges O garfo e os óculos na transmutação do tempo O pogonologista As duas náuseas Julio Lira

Anne Lucy

pág. 11 pág. 12 pág. 13 pág. 14 pág. 15 pág. 16 pág. 17 pág. 19

A bactéria abstêmia

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C'est La Vie! Rio de lágrimas

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Crônicas T.R Borges

Freud, a dengue e sua PICADURA Mazoca Demian como leitor de Napoleão Bonaparte, Cícero e seu xenofobismo paraense A mendiga, a nudez, a loucura e Nelson Rodrigues…

pág. 23 pág. 24 pág. 24

Anne Lucy

O despertar de uma nova realidade

pág. 25


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EDITORIAL “Prefiro não fazer”, sentenciava Bartleby – O escriturário de Wall Street. O personagem de Melville nos sugere uma boa resposta para aqueles sedentos de explicações sobre a demora, de quase três anos, da publicação do segundo número da revista claraboia. Mas não, não fomos acometidos pela Síndrome de Barteblay, senão seria o fim da revista. Poderíamos argumentar várias coisas, desde a corrida louca do cotidiano, a recusa de uma agenda editorial similar ao mercado capitalista ou até a ausência de criatividade. Mas não, como o que nos move a escrever é antes de tudo o prazer, nossa Síndrome, se é que podemos chamar assim, poderia ser a Síndrome de Cossery. O autor que escrevia uma linha por dia e vivendo o instante eterno do momento. É este o processo de criação dos autores. Alguns representados por seus codinomes, como personagens da ficção, outros revelando seus nomes reais, mesmo sabendo que a realidade é fruto e produto da criação. Por sinal, aqui o ato da criação aflora uma instigante apologia ao ofício do artista. Aquele que persegue a si procurando o outro no mundo. Na representação desatinada do banal e na saudade da morte. No erotismo através de sua voraz leveza. Na beleza que se reveste de luta política. Na minúcia do ser subsumido. No diverso e no disperso, qual claraboia que se refrata em muitas cores em forma de poemas, contos e crônicas. Possíveis leitoras e leitores, escrevendo “uma linha por dia” a revista está de volta às ruas e às redes. Acaso venha a dor, que seja acompanhada de muito gozo qual o ato de escrever. T.R Borges e Arcas Ferreira

revista claraboia, em minúsculas - apenas para refletir sobre a existência da vida. A imagem da luz aqui também não faz alusão a nenhuma vontade de ruptura com as mentalidades e com o tempo. Somos contemporâneos! Vivemos o tempo presente. Não é por isso que deixamos de acreditar na validade das tradições construídas no passado. E com relação ao devenir os posicionamentos são divergentes. Daí claraboia representar a face multifacetada inscrita nos textos de seus autores. revista claraboia Fissura que emite fachos de pensamentos próprios lidos diretamente no livro do mundo, e em outros formatos de livros, numa constante procura de clareza da qual provém o mote para a arte de escrever. Portanto, o que nos move são o prazer e a felicidade de pensar. Arcas Ferreira

CAFÉ PRETO EXPEDIENTE REVISTA ELETRÔNICA: www.revistaclaraboia.blogspot.com AUTORES: Anne Lucy - Arcas Ferreira - Julio Lira - Pantagruel - T.R Borges CAPA: T.R Borges DESENHOS: Roberta Paredes DIAGRAMAÇÃO, LAYOUT E ARTE FINAL: Anne Lucy REVISÃO: Arcasferreira CONTATO: e-mail: revistaclaraboia@hotmail.com Tel: (92) 9133-1799 / 9177-1984 Manaus - Amazonas / Dezembro de 2011


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POEMAS


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O mundo precisa de mais poesia Anne Lucy O mundo precisa de mais poesia para derreter os corações gelados, dar luz aos desesperados, abrigo aos sem paixão, conforto ao coração e serenidade na vida. O mundo precisa de mais poesia para desmistificar essa natureza humana dita cruel, que não é natural, mas reflexo de uma vida levada sem paixão, sem gozo, sem harmonia. O mundo precisa de mais poesia para que gritemos que somos coloridos, sexualmente diversificados, religiosamente criados de maneiras diferentes e nem por isso deixamos de ser iguais. O mundo precisa de mais poesia para mostrar aos charlatões que todo esse teatro um dia cairá por terra, e o teu mal causado será em breve recompensado com dor. O mundo precisa de mais poesia porque não só de pão vive o homem, mas de abstração, de sentimentos que as letras têm o poder de concretizar. O mundo precisa de mais poesia para que a vida se torne mais leve, e os dias insaciáveis, porque a palavra permanece, os ensinamentos permanecem, a força de uma idéia nunca morre. O mundo precisa de mais poesia para que eu e você nos libertemos e caminhemos para a construção de uma nova era, de uma nova fase, porque sem poesia a vida não vale.

Eu sou poeta Anne Lucy Neste mundo de tanta dor não tenho medo de confessar: - Eu sou poeta! Onde tudo parece ter perdido o valor grito com o maior ardor: - Eu sou poeta! Não me incomodo que de mim riam por ter orgulho de ser algo ultrapassado que não tem valor comercial Eu quero mesmo ser imoral, ilegal e se bobear eu te engordo das mais belas palavras Eu sou repleta das pequenas coisas de gestos simples e ideais fortes as palavras são o meu norte E não me diga que não tenho salvação por que morrerei errada se o errado é ser poeta Quero viver plenamente dessa vida aproveitar apenas o que me for conveniente


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Preâmbulo do meu desejo Anne Lucy Com a minúcia de um ritual, beije meus pés Depois massageie-os Beije meus joelhos, os dois Beije minhas coxas interna e externamente Pule para meu umbigo Passe a língua ao seu redor suavemente Não deixe muita saliva Use seus sentidos - todos Sinta o odor que cada parte do meu corpo exala Me vire bruscamente, mas com cuidado Resvale seu nariz no córrego das minhas costas Deslize as pontas dos dedos em minhas costelas Me deixe com bolinhas por todo o corpo Olhe, cheire, deguste, ouça meus seios Depois beije um por um que é para não rolar ciúmes Muita atenção ao pescoço Ele tem o poder de arrepiar todos os meus pêlos Beije meu queixo, bochechas e suas covas Minhas olheiras tão marcadas por te esperar Meus olhos acostumados de te ver no pensamento Minha testa como um pedido respeitoso Para que eu abra minhas portas Encha suas mãos com os meus cabelos Memorize o nível de sua maciez Embriague-se com o seu cheiro Só então, depois de percorrer meus mundos Beije meus lábios: o primeiro e os segundos...

A ti Anne Lucy A ti, Todo o frescor da minha juventude Toda a resistência de minha carne Todos os cheiros dos meus poros Todas as cicatrizes já curadas E tantas, e tantas vezes revisitadas Toda minha confiança, esperança Toda a minha criação, inspiração Tudo aquilo que me fez e me faz Tudo o que me satisfaz A ti, e tão somente e sem tardar Sem promessas e convenções, me dôo Neste momento, neste lugar, sem mais Até quando tiver que durar


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NOITES-SOLIDÃO Julio Lira

Morro e está tudo acabado! E quem há de escrever-me uma ode? Das lembranças do meu andar apressado? Da força bruta de quem só se sacode? Em um muro velho o nome de um clube já extinto! Quando irão recordar-me em baile? Cambaleando pelos cantos obscuros A procura de alegria em algum detalhe? Acaba tudo E é como se nem houvesse existido Como se as coisas de que precisei Fossem todas sem sentido! Cessa o desejo E corre-se um estranho risco De nessas noites-solidão Não sermos mais do que prisco!

O despautério Julio Lira Ainda ontem Nada bastava a uma criança em desespero No fino trato de um vento qualquer Nem bastava um cachorro abandonado na esquina Em uma caixa de sapato molhada! Nem bastava a concordância de um verbo, Nem o despautério de um riso! Quando passa-se os anos, Na experiência de tal desespero, Sente-se que o passar do vento Não passa de um sapato sorridente, Pois apertante do vento que não concorda Com o meu cachorro experiente! Então, basta uma despautérica caixa Para me abandonar ao fino trato Dessa esquina infantil, A qual ainda ontem tal verbo concordava!

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Óleo

Sem rumo

Júlio Lira

Júlio Lira

Existe entre nós e o mundo uma vontade e entre a vontade e nós um absurdo!

não, não me tratem como patroa, mesmo que minhas rotas sejam á-toa, invariavelmente á-toa, gosto mais de popa que de proa

Conheço que desconheço Júlio Lira Morria e não sabia que morria! Parecia que a margarida ainda brotava Como poeira ao vento, ao céu E fingia engajadamente que tudo era normal Como compasso de música Música de algum compositor sem sucesso Música barata, música barata Amizade barata Nova música ainda não interpretada Como desconhecida Como ti desconheço Não ti conheci!

Indecisão Julio Lira Quantas paixões e quantos amores Desperdiçados pelas impossibilidades Desses poucos amigos de amargos sabores, E dessas poucas liberdades? Quantos encontros e quantas dores Mal aproveitados por todas as cidades Rimando os versos com as podres flores Dançando a música das vaidades? Quantas homenagens e quantos louvores, Sem propósitos ou objetos Ao viver tantos lindos terrores Desses momentos tão indigestos? Quando ao soar de tantos tambores, Desaba-me o céu como a queda do teto É o ponto final no apagar de minhas cores, Bem no começo de um caminho incerto!


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Chuva pantagruel a gota d'água cai, na pele do tempo, reconstruindo o momento.

Palhaço pantagruel Percebi que me completava no riso, palheta mais criativa do tempo. No duplo. Na metáfora do vento, nos gestos transmutados em múltiplo.

Claraboia pantagruel Parece um sopro, uma voz, um canto. Um gesto, logo depois do outro. Insólito como no sonho, dos sonos fraturados. Muitas cores nos olhares inseridos. Mas é, decerto, um clarão, na polifonia dessa voz. No deserto da multidão.

Manifesto pantagruel Árvores estão deitadas. Há corpos no chão dos campos. O canto juntou as massas, na luta que vem há tempos.


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CONTOS


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Clarissa na Cidade pantagruel ... outro dia, aproveitando o oportuno mormaço da tarde, espicha suas asas curtas e entra procurando os minúsculos insetos. O medo inúmero foi vencido. O neon obsta, às vezes, mas está apagado agora. Prediletas são as aranhas e seus filhotes, escondidos nesse céu. Voou num voo taciturno. Ao quarto. Ao segundo. Ao primeiro. Ao terceiro canto. Canto, por um momento. É preciso, porque a felicidade é uma fissura. Mas, de súbito, o céu tornou-se insólito. Na esquina cortaram as mangíferas. Ergueram esperanças eletrônicas. Dezembro anônimo. Tempo em que todos correm para buscar o sol virtual e colocar ao lado de galhos amarelo-pretos e vermelhos. E os verde-verdes das índicas? Fumaça, muita fumaça, desde uma até as treze. Meia noite uma lua, que vem torta, a esconde por trás das luzes fluorescentes. Et cetera. É na Barroso que vive Clarissa. Virou-se depois que conseguiu fugir de uma gaiola caída de um caminhão quando entrou na Cidade. Por um acaso (só ele é absoluto), a armação de madeira espatifou-se no asfalto esburacado. Tudo ficou diferente. Foi quando Clarissa na urbe... Preciso voar pra fora desse céu. Esconder-me no vão do telhado dos Correios. Aqui resido porque ontem, quatro de novembro de mil novecentos e noventa e seis, aproximadamente às dezoito horas e trinta minutos, a bemol assassinou minhas amigas. Ficou o que elas me contaram antes de morrer (a memória é a matemática dos cientistas, por isso eu prefiro lembrar. Minha natureza de pássaro): eram frondosas, ancestrais de asiáticas seiscentistas. Alimentavam invisíveis meninos na multidão das ruas frenéticas. Quebravam, de propósito, os vidros de carros barulhentos, jogando seus frutos. E abraçavam bêbados notívagos quando, descidos da vida, paravam para jorrar água e espuma quente em seus pés de caule sólido. Anoiteceu. É preciso que as aves urbanas diurnas deem lugar à revoada de andorinhas, que nessa hora começaram a disputar postes e fios de alta-tensão porque das mangíferas índicas restam somente raízes profundas, porém submersas nos sedimentos da memória. Mas o que vive, afinal, são as lembranças de Clarissa na Cidade.


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As transfigurações de um tempo imóvel Arcas Ferreira Para meus pais, irmãos e irmãs. Quando fui levar a carta pro meu irmão que há dois anos estava em Manaus, estudando na Escola Técnica, vi o rosto de jovens afixados nas paredes externas do correio. Não entendia o significado da palavra: PROCURA-SE, parecia com os desenhos animados de bang-bang que assistíamos na TV do seu Lico. Aos dez anos, aquilo era mais um mistério. Em casa ninguém sabia me responder. Mamãe apenas dizia meu filho uma criança não deve se preocupar com coisas estranhas. Aí que tudo ficava confuso em minha cabeça de menino. Cinco meses que o Carlos havia sumido. E nós nos perguntávamos pra onde. Os outros colegas do futebol diziam que ele tinha ido servir o Exército. Nem sua mãe dava notícias dele. Tudo que fazia era, após a missa do domingo, ir chorar lá no cemitério. Diante do caixilho de seu marido, o professor Tomas Meirelles. Até hoje a cidade se pergunta por que aquele homem distinto teria um fim tão trágico? Qual o motivo de ter se enforcado em seu próprio quarto? Nem os policiais conseguiram desvendar esse mistério. Certa vez, quando fugi para pular n'água lá no trapiche, ouvi o beiço de moça branca dizendo a outros estivadores que o professor Meirelles era vermelho. Fiquei com medo de perguntar o que isso significava pro papai. Ele com certeza iria querer saber onde eu teria ouvido aquilo. Guardei por muito tempo aquela dúvida. Foi essa fotografia que me fez voltar. Há o registro da data no verso: dezesseis de Julho de 1969. Era o dia da Santa. Olhando pra ela me vem ao ouvido inúmeras vozes, em uníssono... Flor do Carmelo É alegria Salve! Salve! Maria Salve! Salve! Maria As lágrimas e os pés descalços de paixão anunciavam a chegada do andor e da gente, sacros. Da imagem brotam suas transfigurações irreais: um céu no entardecer. Um sorriso tímido de menino de dez anos de idade sobre um cavalinho de pau. Seu pai carregando pipocas e guaraná em mãos fortes de quem trabalha no pesado o dia inteiro. A mãe ainda jovem em seu vestido novo, esboçando um instante eterno de alegria. Os irmãos num sorriso largo. Caminhamos da casa até o arraial de Nossa Senhora do Carmo. Foi lá que papai chamou o Sócio pra tirar esse retrato: recordação daquela infância imóvel. Fiquei muito feliz quando, dias depois, ao redor da mesa no almoço de domingo celebramos aquela imagem, já no álbum da família. Quanto ao Carlos, lembro-me bem. Naqueles anos mesmo sendo muito mais velho que a gente, parava para jogar no gol. Costumava carregar debaixo de braços franzinos panfletos, sempre bem escondidos, os quais distribuía na frente das escolas, e um livro, cujo nome do autor certa vez me esforcei pra ler, mas não consegui. Nunca vi nenhum nome parecido na biblioteca da escola. Depois de muito tempo eu iria saber que se tratava de Maiakovski. Entendi também que a poesia era a grande paixão daquele jovem que um dia optou em torna-se um guerrilheiro.


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Ceci Arcas Ferreira Segunda. O sol entrando pela janela reacendeu a luz no quarto do motel da Rua Portugal. Não era mais ontem, o dia mudou. Os lençóis amarrotados e os travesseiros no chão, as flores plásticas no vazo de vidro e uma imitação bem feita de “A tentação de Santo Antônio” dava o tom de alguma coisa indizível. A dor fina e chata no peito incomodava. Pega a calcinha e os outros pertences caminhando para o banho matinal. A água fria nos seios lhe faz lembrar instantes anteriores na cama. Cama, palavra tão antiga como o gesto prazenteiro do descanso. Um momento pouco oportuno no seu cotidiano. “… o corpo pede um pouco mais de calma”. Era o que alguém assobiava nalgum lugar. Arrastou-se para a rua. Tinha meia hora para chegar. Chegar. Parece que nunca chegou. Melhor vislumbrar chegando. Era o que dizia “estou chegando, estou chegando...” no final das noites de sábado, após o cinema, a pipoca e o papo intelectual. Não via muita coisa além dos olhos fundos, o cheiro do cigarro, a delicadeza e os poemas de Noel que ele costuma ler. Talvez tenha sido seduzida pelo encanto do encontro. Surreal, encontrar alguém de vinte e muitos anos apaixonado por Rosa. Mas, às vezes chegava à conclusão que ele não valia mesmo a comida que ela pagava pra ele. Desmoronava. Vazia. Fazia de tudo pra fugir. Escondia-se. Desligava o celular. E torcia pra que o final de semana chegasse para meter-se no meio do mato. Atrevia-se em um torneio de motociclos. Terapia. Talvez. Por vezes resolvia. Vinha leve. Pronta pra semana. Depois entortava. E corria pro mesmo lugar do primeiro encontro. Lá estava. Entre os amigos. Tudo reacendia. Um ciclo que nutria a náusea cotidiana. Recomeçava com o som da voz rouca, chamado... ... “Ceci!” Dali a poucos metros uma mosca varejeira depositava ovos nos sonhos da panificadora. A objetiva faria um registro clandestino daquele andar infantil. O corpo parou para tomar, apressadamente, o café matinal. “Sem açúcar!”


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O gozo sem vida de Joana T.R Borges Sentiu molhar sua cueca. Era seu sêmen. Estava ejaculando sem gozar. Raimundo estava no trabalho. Eis o motivo do ´gozo` não gozado. Trabalhava na construção civil. Era peão. Sempre que manuseava a britadeira, como agora, acontecia cedo ou tarde isso - ejaculava por causa de seu movimento intenso. Quando acontecia, ele parava a máquina e olhava ao seu redor com olhos de cansaço seu ambiente de trabalho. Desta vez, não foi diferente, olhou aquele ambiente inseguro do trabalho. Uma mega construção de um centro comercial, o maior do Amazonas, numa área de terra fofa e molhada. Repleta de palmeiras e buritizeiros. Lembrou naquele instante de sua família e de todas as outras de seus companheiros de trabalho, principalmente aqueles acidentados. Pelo menos ganhava o adicional de periculosidade. Pensou ele. Naquele mesmo momento, do outro lado da cidade dos manaós, Joana gozava de verdade. Um gozo esplêndido. Cheio de vida. Coisa que não tinha em casa. Necessitava do adultério. Já conhecia a ladainha diária de Raimundo quando negava a sua dita 'masculinidade', como se isso e a orientação do desejo fosse de fato a representação da masculinidade. Ela sempre pronta para o acasalamento, enquanto ele sempre negava o coito. No fundo Joana acreditava gostar do adultério, não era somente uma necessidade. Porém conservava certo pudor, por causa do tempo junto com Raimundo. Depois de sair da casa abandonada onde estivera gozando com o amante, foi até a casa da Jurema – sua amiga mais íntima. - Ju, acredita que já estou amigada com o Raimundo há 20 anos? - Sério Jô? - Sim, já não agüento mais! O homem antes não negava coro. Agora ta o contrário. Sempre com a mesma história. Além do que, ta uma merda lá em casa. Sempre brigamos. Raimundo tinha ido ao banheiro. Na volta retornou com tudo ao trabalho. Só pensava no final do mês, para receber o salário e poder comprar a comida dos meninos e beber aquela cerveja ouvindo o grande waldick Soriano com os amigos, sua única válvula de escape. E quem sabe se animar mais e conseguir suprir as necessidades de sua nega. Respirou grande otimismo. Começou a manusear a britadeira com mais alegria. Preciso de pouco para ser feliz. Pensou Raimundo. O ambiente de trabalho era totalmente inseguro. Como é de costume. Raimundo estava trabalhando próximo a uma barragem. Aconteceu o já imaginado. Naquele momento foi soterrado com a sua queda. Todos seus companheiros tentaram juntos tirar seus amigos de trabalho, pois não só ele fora soterrado, mas uma dezena de peões. Esses grandes trabalhadores artistas, que faziam belos prédios, não conseguiram sair com vida desse atroz acidente.Um ´acidente previsto´, já que trabalhavam perigosamente. Nessa noite Joana não ouviria mais a ladinha diária de Raimundo. Trim, trimm, trimm. O telefone velho preto no canto da sala toca na casa do recém finado Raimundo, em uma tarde quente e aconchegante na zona leste. Joana, com seu cabelo bicolor e saia rodada vermelha, atende o telefone e recebe a noticia do falecimento do dito cujo. O homem do 'recursos humano' da empresa, informa ainda que ela providenciará o pagamento de uma indenização para família, além de um cala-boca a mais para a esposa não comentar nada com ninguém sobre o acontecido. O mesmo homem já tinha cuidado de molhar as velhas mãos calejadas de dinheiro sujo dos jornais de Manaus. Para que mais um grande 'empreendimento' seja construído sem notícias de mortes de trabalhadores. Enquanto isso, Ricardo Bittencurt dono do estúpido centro comercial tomava seu whiskey com o ar condicionado no cú. Ao redor de pessoas-fantasmas exibindo ao seu lado uma mulher – que vendeu não somente o seu corpo, mas também a alma- que chamava de amor. Toda essa comédia humana como subterfúgio do vazio de uma vida repleta da estupidez humana característica dessa gente de existência soberba. Joana sentiu uma coisa estranha, dor e alegria ao mesmo tempo. Desligou o telefone. Imaginou como seria boa sua vida sem o Raimundo. Sentiu vontade de transar novamente. Ligou para José. Marcaram o encontro. Usou o pretexto de ir resolver coisas para o velório e enterro do ex- companheiro como justificava para poder ir ao encontro de José. Chegou ao centro da cidade já há noite. Desceu a Avenida Eduardo Ribeiro. De súbito parou na frente do arrogante Teatro Amazonas, olhou seu cocar com certo estranhamento e por detrás viu aquela lua triste e fria. Simultaneamente ouviu tocar o sino da igreja São Sebastião como se fosse o som da solidão. Sentiu a noite. Entrou no motel barato procurando o prazer. A noite acabou para Joana como um gozo. Não o gozo de antes, quando Raimundo estava vivo. Mas um gozo estranho, mais fraco, mais triste. Um gozo sem pudor e sem vida. Simplesmente um gozo sem o adultério.


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A facilidade de reconhecer um professor do ensino básico público, segundo um mendigo T.R Borges " (...)Tente me ensinar das tuas coisas Que a vida é séria, e a guerra é dura Mas se não puder, cale essa boca, Pedro E deixa eu viver minha loucura(...)" Raul Seixas

Após mais um dia de rotina do absurdo nas salas de aula, fui com meus parcos passos taciturnos rumo ao meu fuscão 77 para ir embora, quando subitamente um salto insólito de um velho mendigo quebra uma rotina extenuante. No novo vagão da realidade, ele me vem com um riso mordaz e irônico e me diz: "Aquele pivete infame estava certo mesmo... ainda tentaram persuadi-lo de uma suposta mediocridade e burrice... ahhh!!! Escolas, instituições sociais fictícias e falidas... deixo a você, meu pobre professor, o mini-tratado de como reconhecer um professor do ensino básico público." Pego perplexo aquele papel de pão rabiscado por letras miúdas e infantis, com a interrogação evidente de como aquele miserável soube de minha profissão. Vou lendo em transe cada frase e símbolos anexos nas palavras desse suposto ex-aluno da escola contemporânea "Mini-tratado da arte de reconhecer um professor de ensino básico público Advertência: Caro leitor, a primeira coisa a saber é se a criatura tem o que chamam de "título", "Diploma", "canudo", "certificado" (nunca entendi o porquê desses nomes e suas sutilezas para descrever uma ficção) apto a lecionar. Após essa informação basta observar um ponto dentre os enumerados abaixo para reconhecer a profissão do desconhecido como sendo professor. Eis as míseras características: Se for graduado.. .1. e pega ônibus: é professor 2. e possui um carro velho: é professor. 3. e possui um carro do ano (junto com um carnê a ser pago até morrer) todo arranhado pelos alunos: é professor. 4. e mais da metade de sua minúscula remuneração vai para as "cotinhas" e “vaquinhas": é professor. 5. e tira muitas cópias nas lojinhas do bairro com seu dinheiro: é professor. 6. e trabalha em casa sem receber: é professor. 7. e vive cansado e taciturno: é professor. 8. e vive pensando em trocar de profissão: é professor. 9. e vive sonhado em passar num concurso público federal: é professor. 10. e possui uma costa larga - por assumir todas as culpas de sua profissão: é professor.. Poderia chamar esse mini-tratado de silogismos da profissão fodida ou Decálogo do Professorado. Pedro” Enquanto lia religiosamente o decálogo, o riso do mendigo me nauseava, um riso de loucura... quando acabei de ler fixei os olhos no seu riso, cujo falava "Cadê professor sua sapiência?". Puto da vida, vomitei ódio nele: "És louco criatura? Não sou professor! E quem é você para me questionar?" Ele com uma preguiça característica removeu do chão o papel que eu tinha jogado, virou de costa para mim junto com aquele riso e lá na beira da esquina falou em voz alta: "Não estou lhe questionando professor! E pode me chamar de pedro, até mais ver..."


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os óculos e o garfo no tempo da transmutação. Ruminar Rememorar Hoje tenho óculos, barba, feijão, Mário Lago e o vermelho vivo. Estes são meus autênticos Óculos, lógico herdeiro do vô tico e de outros. Meus óculos são contemporâneos. Tentando tirar o desbotado azulado do vermelho de outrora. Mas calma, não são os óculos do vô Tico. Parecem mas não são. Óculos que vejo o mundo, que o transformo. Óculos que lêem o livro vermelho desbotado. Óculos aparelhos auditivos fissurados por Mário Lago. Óculos que engrossam a vida. Óculos que cozinham. ah ruminação... gerou em mim hoje um ser de óculos. Imaginem! o tempo, ser imóvel que passa, e o acaso, ser absoluto que gera, Mas...ironicamente (vai ver foi essa fissura fixadas nos óculos) ao me ver blasfemando sobre os óculos e as modinhas (como eles nomeavam as boas músicas) cantadas pelo vovô. Leo você quer usar óculos quando crescer meu filho? Pois, parece que tu vai usar!hein!? Falou vó Ziloca lá da sala, e dor, é melhor , bem melhor a ilusão do amor...” do dia a voz do vô Tico: “...E vou vivendo assim feliz, na ilusão de ser feliz. Se o amor , só nos causa sofrimento minha barriga e minha cabeça. Enquanto lá no fundo da cozinha, com cheiro de comida, vinha como protocolo Olhos fissurados pelos óculos e nesse dia também pelo relógio de parede. Está quase na hora do almoço, pensava Óculos. Vermelho desbotado. Barbudo... medo do barbudo, mas milhares de pessoas o odiavam, principalmente suas ideias. tinha medo daquele livro e do velho estampado na capa. Depois descobriria que não só eu tinha a lerem o livro vermelho desbotado com uma pequena gravura de um velho barbudo. Lembro que Rangia a cadeira de balanço todo dia quando chegava da escola, lá estavam os óculos e o vovô cabeça de menino. Óculos... (evidentemente hoje sei todos esses nomes, na época desconhecidos) ruminavam na minha Jackson do pandeiro, Francisco Alves, Adoniran Barbosa, Nelson Rodrigues, etecetera. escola. Mais ainda, o insólito ritual cotidiano no ato de cozinhar, cantar seus: Mário Lago, óculos ovais e a estranheza de ver um homem todo dia a preparar minha comida antes de ir a Pensava muito outrora, no tamanho da chatice das músicas cantadas por ele, a feiúra de seus demais para o meu coração, acreditando em tudo que o amor mentindo sempre diz...” Continuou o vô Tico para matar minha curiosidade. Óculos.Vida. Feijão. “...chega bem,e é tinha apenas quatorze anos de idade. É pra engrossar o caldo do feijão, caba safado! Nunca entendi bem porque carga d´guas vovô me apelidava de “velinho”, Para engrossar a vida, velinho! Respondia vô Tico com seu riso cantalorado. Pra que fazer isso vô? Indagava menino com sua curiosidade memorável. (estranhamente o utensílio de cozinha com características do cozinheiro e vice-versa) cantarolava ele, enquanto amassava com um garfo velho e torto os grãos de feijão. transfigurados em aparelhos auditivos. “...Nada além, nada além de uma ilusão...” Meus olhos infantis fixos e cheios de fissura por aqueles óculos. Óculos estes, a princípio, Dantes tinha aversão (apesar da estranha fissura) a óculos, barba, feijão, Mário Lago e o vermelho desbotado. Ruminar. Rememorar.

O garfo e os óculos na transmutação do tempo “...Todo começo também é um fim. E todo fim é um recomeço...” Alessandra Leão Epígrafe ao Airton Guimarães. Obs: segundo o dicionário Aurélio, a palavra epígrafe significa citação no começo da obra, no caso do conto.


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O pogonologista T.R Borges “Organizemos então uma greve geral das putas do Rio de janeiro!” conclamou o professor Nunes em resposta ao Aloar, no seminário de Antropologia da prostituição. Para gargalhada geral do público universitário. Praça. Eu vagabundeava nesse espaço da urbe quando na fissura de um instante me surgem imagens alegóricas de tempos longínquos transvertidas na voz de Nunes. “Ágora, a grande praça pública grega, cujo seus “cidadãos” exerciam e praticavam sua famigerada democracia. Local mais frequentado pelo parteiro Sócrates. Onde em sua frente se podia vislumbrar a soberba morada dos deuses gregos, a acrópole”. Essa fugaz imagem me faz rememorar suas saudosas aulas de história da filosofia. O que teria motivado sua desistência? E sua recusa a vida universitária? Mais de dez anos sem notícias dele. A última vez que o vi, com aqueles grandes cabelos embaraçados, as barbas por fazer há uns quatro anos, segurava cinco livros. Dos quais três lembro os autores: E.M Cioran; Samuel Rawet e Albert Cossery. Os outros dois tratavam da piromancia e pogonologia. Parco municipal é o nome da praça onde estou agora. Manaus, cidade situada no meio da floresta amazônica, é o novo itinerário de minha viagem filosófica pelo mundo (inexplicavelmente após terminar meu curso de filosofia me tornei um mochileiro) advirto não ser pesquisador naturalista como o foi Alexandre Rodrigues Ferreira, que saiu pela Amazônia pesquisando a fauna, flora e etc. Nunes me fez gostar de pogonologia, viajo o mundo estudando as barbas e aproveito para pesquisar a universalidade da estupidez humana e suas sutis mesquinharias. Esta praça me foi sugerida por um menino mambembe quando contou como ela é conhecida por aqui: praça das putas. “Observem como todas as praças de qualquer cidade cuja são habitadas por seres infames, como párias e prostitutas, os servos da impostura teimam em falar que se encontram abandonadas. É mais uma dessas mentiras proferidas nesse ar magistralmente hipócrita. No entanto, estes próprios cidadãos não conseguem resistir ao sensual prazer infame desses ventos. E mesmo assim continuam a bazofiar depois de noites fabulosas. Ironicamente o escárnio toma conta de desmentir essa verdade e mostra que as praças, ao invés de abandonadas e inúteis, são grandes palcos da polidez ralé contra a vida civilizatória da ambição.” Disse o professor Nunes ao responder uma pergunta da platéia. “Mas Nunes, a grande questão não é do mau caratismo ou do caráter duplo da moral desses representantes burgueses que você chama de 'servos da impostura'. Não companheiro. Não é uma questão moral. O grande problema é a questão política de opressão e exploração, o corpo feminino como mercadoria. Com todo respeito, acredito que você esteja equivocado na sua posição. Você eleva uma situação degradante, a prostituição, para uma suposta 'polidez ralé'. Pior ainda, você sugere haver uma luta contra 'a vida civilizatória da ambição'. Somente a classe trabalhadora com seus métodos de luta é que podem contra o capitalismo, como exemplo a greve geral!” Interveio o professor Aloar, com sua posição marxista. Nunes, com sua ironia, indaga-o no mesmo instante: todo assalariado faz parte da classe trabalhadora, certo? “Sim”, respondeu Aloar. “Organizemos então uma greve geral das putas do Rio de janeiro!”... As razões da recusa da vida acadêmica por parte de Nunes me são tão inexplicáveis quanto as do suicídio do professor Aloar, sejam elas de ordem do consciente ou do inconsciente. Aquela imagem de uma barricada de livros e ele enforcado com sua calça, dar-me asco ainda hoje. No velório, Nunes com sua acidez pessimista, sussurrou no meu ouvido: o marxista esqueceu que o homem, como percebeu Cioran, secreta desastres. Apesar de uns estudantes mais próximos de Aloar, falarem de sua desistência do marxismo e insinuarem o motivo ter sido um extremo pessimismo existencial provocado pela leitura de Schopenhauer, recuso-me a cair em explicações fácies, ou qualquer outra especulação. Acredito que no fundo essas razões e lógicas só o sabem a plenária solitária desses homens.


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Um dos espaços que mais gosto das urbes são as praças. Espaços que gozam certa liberdade, extensão territorial pública livre de edificações e casas. Local do ócio, da recriação, da solidão, do coletivo, do diálogo, do protesto, das greves e da convivência. Em frente à praça das putas ao invés de uma acrópole tem um prédio do INSS e os debates dos cidadãos como na Grécia antiga dão lugar a um espetáculo incomum: um pária com suas indumentárias farrapadamente artísticas numa comunhão com o fogo. Não se sabia ao certo o que era, se um show circense, uma revolta contra si, uma revolução de um homem só contra o prédio do INSS, uma briga com os deuses ou uma labareda de riso contra todo transeunte que passasse por ali. Essa imagem insólita paralisou meus parcos passos e me fez contemplar essa verdadeira arte que resiste em brotar de terras aparentemente infecundas, atoladas na imundície dessa várzea cultural imperialista. As chamas perto de sua cabeça se tornavam transparentes no pico mais alto do fogo e maravilhosamente misturavam-se com as ex-chamas do sol convertido em calor, simbolizando uma profética mensagem. O mendigo estava com a cabeça enrolada em um plástico dessas redes de supermercados mundiais, como se fosse turbante mulçumano, correndo perigo de ser incendiado. Como que querendo adivinhar e advertir com o fogo o perigo eminente simbolizado pelo plástico e o supermercado. Antros do imperialismo que fornece a fome e o desastre ambiental. A louvável estética do pária fez-me lembrar de Nunes. Após ver os livros que ele lia, eu procurava-os para lê-los também. Foi como descobri a piromancia (ou ignispício). O mendigo fazia naquele instante uma espécie de ignispício – arte de adivinhar por meio do fogo – misturado com escárnio. Não se exibia ali aquele louco para sua corriqueira arte da mendicância. Apenas pelo prazer do sublime mistério do fogo, sua representação do movimento e ferramenta de luta. Foi quando um desses cidadãos descido de um carro que só tem quem rouba, roubo de exploração, fez com que o artista da infâmia interrompesse seu espetáculo. Quando no auge de sua hipocrisia, como quem fala pra si mesmo no espelho e tenta se convencer que é o cara, olhou com olhos de pena e desprezo por aquele miserável e jogou moedas no chão em frente ao profeta do caos, achando que conseguia comprar tudo. O pária apagou o fogo tirou seu turbante plástico colocou as moedas serenamente nele. Nesse mesmo instante o cidadão da impostura estufou o peito com sua arrogante humildade. O mendigo colocou as moedas no saco plástico e com uma indiferença sagaz, pôs a lhe devolver as moedas e lhe disse: enfie no seu cú! Esse acontecimento me rememorou as mesquinharias de orgulhoso e humildade nos subsolos das relações entre os professores da faculdade de filosofia. Apesar do aparente respeito entre os debates de Nunes com Aloar, residiam ali um soberbo orgulho e uma charlatã humildade. Minhas viagens cada vez mais demonstram o caráter universal dessas sutilezas. Todos nós somos acometidos. Eu mesmo quando vou lecionar a história da barba e o quanto a pogonologia me facilita a vida (por exemplo, confio mais em homens de barba do que sem) sinto resquícios desses sentimentos. Vou me aproximando do mendigo, para lhe conferir o rosto (verificar se tem barba). Mas o véu de tecido com plástico tornava minha curiosidade impossível. Ao chegar mais perto, sou supreendido por ele: Meu caro pode sair da frente do meu sol! Depois daquelas palavras, sorri e falei: Isso foi o que Diógenes – o cínico – disse ao Alexandre o grande. Sem hesitar continuei: gostei de sua arte e do acontecimento. Queria apenas ler uma frase que a associação do momento me fez lembrar. O enigmático mendigo respondeu: seja breve meu caro. Peguei meu caderno de anotações e pus a ler um trecho da novela do Samuel Rawet, daquele livro que um dia vi debaixo do fino braço de Nunes: “… devia ser humilde, e foi humilde até à anulação. Devia ser justo, e foi justo até o desespero. E nessa sucessão de devia, tornou-se plasma informe nas mãos do mestre. E sobrava-lhe ainda a lição do orgulho quando descobriu o charlatanismo da humildade.” Após a leitura, ele serenamente colocou a mão no rosto e tirou o véu devagar. Sua barba grisalha começou a aparecer e junto com ela um sorriso irônico e conhecido. Foi então que ouvi dele aquela pergunta repleta de narcisismo, orgulho e a charlatã humildade: Como andas caro Nahuel?


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As duas náuseas T.R Borges Diagnóstico: Duas náuseas, uma fisiológica e a outra filosófica! Remédio: para a primeira Prazol,Gastrogel ou Dramim B6, para a segunda (aviso logo vai só remediar um pouco) Sartre, Camus, Schopenhauer, Nietzsche, Cioran e até Marx. Disse um médico taciturno e com cabeça baixa- por nome Hipócrates - a um pobre homem comum desses que vagam pelas ruas.

A bactéria abstêmia Júlio Lira Nos prontuários deste mundo incandescente, reza a receita que se contrai bactérias intestinais e sofre-se com a abstinência etílica, como se faltasse mágoa a um caminhante solitário. Mas nos noticiários da semana nos jornais sensacionalistas, corre o vulgar boato de que, pela primeira vez na história, uma bactéria contraiu alguém e sofreu pela abstinência etílica. Doutor, disse o paciente ao médico sem doutorado, o que devo tomar para livrá-la de mim? e o médico respondeulhe se essa bactéria tomasse cachaça não teria te pegado. Aguardamos ansiosamente o desfecho dessa triste história, para a bactéria é claro!


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C'est La Vie! Anne Lucy Querida Isabel, Desde que você foi para a belíssima Paris, cursar seu tão sonhado intercâmbio, tanta coisa aconteceu. Tenho tanto para te contar... Mas vou ater-me ao que está mais presente em meus pensamentos. Como ainda sou à moda antiga, resolvi te escrever essa carta. E-mails são abstratos e frios demais para mim. Tu sabes que escrevo pra acalentar meus demônios, não para espantá-los. Eles são meu termômetro. Quando as coisas estão frias de mais, eles vêm me atormentar e me trazem um pouco de calor. Também mostram, que estou viva, e consequentemente as emoções, sejam elas boas ou ruins, sempre farão parte de mim. Eu preciso deles, e a escrita é vital para minha saúde mental e emocional. Como sou um pouco retraída, através das palavras posso me libertar um pouco, e é maravilhoso poder compartilhar isso com você. Ando triste, pensativa, preocupada, apreensiva e seus demais sinônimos. Minha vida tem girado em torno de cuidar de quem sempre cuidou de mim. Isso não é a parte ruim. O que mais me dói é ver como somos frágeis e passageiros. É ver como a rosa mais bela do meu jardim, que era tão viva e forte, está murchando aos poucos bem diante dos meus olhos, sem que eu possa fazer muita coisa pra reverter isso, afinal, é o sentido natural da vida. Somos mortais. A velhice pode ser cruel. Não só para o idoso, mas também para quem está diariamente ao seu lado. Os males que vão aparecendo por causa da idade são quase todos impossíveis de ser revertidos e olha que não poupamos esforços para melhorá-los, querida Bel... Foram tempos difíceis. Juro que perdi a conta de quantos médicos, tanto convencionais como espirituais, levei minha Avó, aquela Dona Carmem, que você ainda chegou a ver cheia de vitalidade. Quase todos foram por indicação de alguém que dizia: Esse médico curou fulana, tenho certeza que ela vai ficar boa com ele. E até agora nada... Eu tento entender o quão difícil é para os parentes que vêm, uma vez ou outra visitá-la, aceitarem sua condição. Como é difícil verem, o estado debilitado em que ela se encontra. E minha batalha mais dura tem sido justamente com eles. De procurar entendê-los, querida amiga. Por que é tão mais fácil que eles me julguem e apontem o dedo na minha cara, enquanto uma mão amiga, uma ajuda poderia resolver muita coisa? É, vai ver eu ainda seja aquela garotinha ingênua de quando nos conhecemos, para aceitar como as relações humanas, muitas vezes, são cruéis. Mas o que eu gostaria de poder falar para cada um deles, é que ninguém sente dor maior do que eu, por ver aquela mulher forte, guerreira e independente, estar tão frágil como uma criança e eu agora estar parecendo sua mãe. Até posso dizer que meu amor de neta, que também é amor de filha, agora tem um 'Q' de amor materno. Eu só gostaria que eles também me entendessem e que ao invés de me criticarem, por também querer viver, que se colocassem em meu lugar. Quando se é jovem, queremos tudo para ontem, e eles já passaram por isso, mas parece que não querem lembrar. Nenhum deles abriu mão de seus projetos, planos e tarefas para se dedicar exclusivamente a alguém. Eles não sabem o que é isso. Querida Isabel, você não sabe como tem sido difícil fazê-los entender que eu também preciso construir minha vida, afinal não posso, não tenho e principalmente não quero ter que depender de alguém para sempre. Quero ter minhas coisas e fazer, eu mesma, meu próprio caminho. É muito fácil, que eles me digam, o que tenho e devo fazer, mas em algum momento eles pararam pra ouvir o que eu quero? Em algum momento ofereceram ajuda concreta, para que juntos pudéssemos melhorar a vida dela? Não, não e não! Eles só pensam em si e em seus interesses. Adorada Bel, quero que fique bem claro que minha Avó, não é, e nunca será um fardo na minha vida. Se fosse preciso ficar mais tempo vivendo como estou, só para cuidar dela, eu ficaria. Mesmo que isso custasse meu futuro e minha alegria. Acontece que não dá pra aceitar ouvir tantos absurdos de quem a vê pouquíssimas vezes. Só quem convive sabe como é difícil lidar com todas as situações específicas que ela exige. E por favor Isabel, entenda e me ajude a fazê-los entender: que eu não sou de ferro! Ao contrário, me considero frágil demais... Fora a escrita, minhas lágrimas estão sendo minha válvula de escape. Dor só sabe quem sente. Ânsia por liberdade só tem, quem se sente preso. E amor, só é amor quando você se doa. Não era pra ser assim, mas é só esse amor que todos conhecem. Eu, como sempre, tagarelando somente sobre minhas coisas. Fale-me de você! Já leu os originais em francês de Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus? Nossa, você deve estar tendo experiências incríveis. Vou aguardar sua carta resposta. Nada de e-mails, ouviu?! Amiga de todas as crises e alegrias, desculpa o desabafo tão acalorado. Minha intenção não é te dar preocupação, mas eu precisava disso. Talvez por sentir que você me lendo daí, pudesse me transmitir essa sua ótima energia e diminuir minha dor. Seja como for, vou internalizar isso pra me sentir mais forte e agüentar as várias e várias provações que a vida ainda me reserva. E como você costuma dizer: C'est La Vie! Com um enorme carinho e uma gigantesca saudade, sua sempre amiga, Bárbara.


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Rio de lágrimas Anne Lucy Eu era uma pessoa comum, com uma vida comum igual a tantas outras... Mas um dia dormi chorando e quando acordei estava dentro de uma canoa em um rio de lágrimas. Demorei pra entender toda aquela situação e compreender se eu estava acordada ou ainda dormindo. Começaram a cair pingos salgados no meu rosto e sua textura líquida respondeu minha dúvida: eu não estava sonhando. Mas como havia parado ali? Tentei relembrar todo o caminho anterior a minha chegada aqui, mas só conseguia lembrar que dormi chorando. Eu estava presa em uma imensidão, não conseguia ver terra ao meu redor, apenas água salgada. E aqueles pingos que pausadamente caiam do céu, caiam como se fossem bombas ao meu lado. Engraçado, em momento algum tive medo, porque era uma imagem linda de se ver. A cada gota cristalina que parecia cair em câmera lenta, fazia com que eu me acalmasse cada vez mais e conseguisse ver beleza em toda aquela paisagem e situação absurda. Mas minha curiosidade foi aumentando e não havia ninguém além de mim que pudesse me dizer onde eu estava. Tive vontade de me jogar na água, de me embrenhar naquele mundo desconhecido e talvez descobrir alguma resposta. Eu também poderia estar engana quanto a estar acordada ou não, e se me jogasse na água poderia, de fato, ter essa certeza. Só que eu não sabia nadar... se fosse sonho eu estava segura, sentiria agonia, falta de ar, mas não morreria. Mas e se não fosse? Resolvi ficar na canoa, afinal estava caminhando pra onde o curso das águas de lágrimas me guiava. “Alguma hora vai aparecer algo que faça sentido”. Eu repetia isso como um mantra, talvez com a intenção de me manter calma e sã. Mas nem minhas palavras pareciam fazer mais sentido. Será que estou ficando louca? Que estou delirando? Que estou em coma? As possibilidades começaram a me corroer. Gritei. Não poderia saber quais delas seriam a correta. Parei, respirei e tentei esvaziar minha mente. Até que os pingos cessaram e o céu que estava escuro foi se abrindo aos poucos. Tudo começava a clarear. A água salgada e sem movimento, se tornou doce e pude ver peixes brilhantes que pulavam ao redor da canoa. Mas nada daquilo continuava a fazer sentido. Eu devo ter acordado dentro de um livro. Na vida real não é assim que as coisas funcionam. E pela primeira vez, senti uma certa liberdade de estar em um lugar sem sentido e de eu não precisar também fazer sentido. Acreditei então que havia criado um lugar só meu, onde eu pudesse ser e fazer o que eu quisesse, nesse mundo eu saberia até nadar. Criei coragem e me joguei no rio. A água tinha a temperatura ideal de um abraço e surpreendentemente eu podia respirar debaixo d´água. E eu me entreguei a esse mundo, não sei se um dia volto. Acho que sempre pertenci a esse lugar e passei muito tempo dormindo e sonhando com mundos diferentes. As lágrimas já não existem, as dúvidas também não. Só a certeza de saber quem sou.


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CRテ年ICAS


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Freud, a dengue e sua PICADURA T.R Borges Quem imaginaria que o Aedes aegypti, o tão temido mosquito da dengue e o médico austríaco Freud poderiam ser relacionados num textículo (ou seria testículo, se falando de Freud?) como este? Por causa da incompetência dos governos de plantão misturado com a ignorância do populacho a dengue tornou-se uma epidemia no Brasil em pleno século XXI. Manaus, mesmo depois de o mosquito fazer um desastre no Rio de Janeiro, conseguiu a proeza de ter entrado em calamidade pública. É nesses momentos críticos que mais aflora a criatividade do povo. Com a suposta intenção de ajudar a prevenção da doença um popular fez o seguinte cartaz: “ Não seja o próximo a levar PICADURA da dengue!” Freud acreditava que o desejo sexual é a energia motivacional primária da vida humana gerida pelo inconsciente. Imaginem, quantas donas de casas, estudantes, executivas, putas, santas, professoras, veados, enrustidos, transexuais e simpatizantes não ficariam com um imenso tesão pela PICADURA? Já não sei se a dengue foi a causa ou a consequência desse original cartaz…


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Mazoca Demian como leitor de Napoleão Bonaparte, Cícero e seu xenofobismo paraense T.R Borges Na manhã de certa segunda-feira, fevereiro de 2011, o Lacaio prefeito Mazoca Demian em visita populista a uma comunidade com área de risco, realizou mais um de seus espetáculos esdrúxulos com um cinismo já conhecido (virtude da arte de governança aprendida e ensinada durante quase 30 anos no Amazonas). Durante diálogo com uma moradora da comunidade o embusteiro Mazoca, depois de ouvi-la falar que não tinha condições de morar em outro lugar, bufando feito um boi berrou: “Minha filha, então, morra, morra!” Para não acabar o show cínico por aí, terminou com um velho preconceito conhecido por aqui contra os paraenses – uma espécie de xenofobismo paraense. O mau menino, como ficou conhecido, em sua prática de cinismo político conseguiu governar (e continua governando) o povo baré há tanto tempo graças a leitura de várias cartilhas sobre a arte de governar, uma delas é de Napoleão Bonaparte. Mazoca leu tantas vezes ao espelho essa máxima: "Não tenhais, sobretudo, medo do povo, ele é mais conservador do que vós." que compreendendo magnificamente bem, acabou sendo conhecido e amado pelo populacho manauara como o político do “rouba, mas faz!” Após o episódio, revirando a memória para encontrar mais cartilhas de onde provavelmente bebeu Mazoca Demian - esse vivaldino, acabo lembrando a de Cícero. Uma das frases dessa ilustre cartilha reflete bem a mentalidade de nosso populacho: "O povo considera poucas coisas a partir da realidade, e muitas a partir da crença."

A mendiga, a nudez, a loucura e Nelson Rodrigues… T.R Borges A irrupção mecânica das ideias de “normalidade” das pessoas expressas no cotidiano, por ações e palavras, me assustam. No levar apressado dos dias atuais, nesse caldeirão de nivelamento da opinião, as cabeças atrofiadas para a loucura do pensar geram seres apáticos, tediosos e preconceituosos. Foi nesse cenário da miséria existencial “pósmoderna”, que avistei uma mendiga nua. Através dos ônibus e carros, os “normais” miravam os olhares sentenciosos àquela cena insólita. “Oh santo Deus, como podem os médicos deixarem essa louca na rua!” resmungou uma velha senhora. “Que obscenidade!” murmurou outra. “É um atentado ao pudor!” esbravejou um estudante de Direito. “Cadê os hospitais psiquiátricos?”. O último e mais radical falou, “Tem é que mandar matar pessoas assim!”. Onde estaria a verdadeira insanidade? Na mendiga nua a vagar ociosamente com sua arte de mendicância pela rua, ou num bando de gente alucinados pela ambição falando tudo aquilo? Tempos nossos, fabricam tudo, até insanidades! Naquele instante, pensei intensamente na beleza da nudez em si .Observei o corpo da mendiga e os farrapos cobrindo os corpos das pessoas. Como não seria interessante e bonito se todos nós andássemos nus? Foi quando recordei uma frase do Nelson Rodrigues, por sinal um dos melhores dramaturgos brasileiros e também o mais reacionário, e a recitei de um só tom no ônibus: “Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu.” Desci do coletivo guiado por olhares de cólera e incompreensão, enquanto eu imaginava fascinado esse mundo rodrigueano.


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O despertar de uma nova realidade Anne Lucy Logo na entrada de um dos vários colégios municipais da cidade de Manaus, deparo-me com uma estrutura pequena e simples. Poucos funcionários e poucos alunos... Poucos alunos? Ah! Era dia de planejamento, foi avisado na sexta-feira, mas a pequena que estava ao meu lado faltou aula e não ficou sabendo. - Só vim gastar dinheiro! Reclamou. Devia ter uns oito anos. Corpinho franzino, cabelos desgrenhados, voz aguda e forte. Eu sabia que estava vendo uma criança, porém, se eu fechasse os olhos e só ouvisse aquela voz forte, junto com seu palavreado adulto demais para sua idade, teria dúvidas. Minutos depois chegou um amiguinho seu, também desavisado, fazendo alarde e falando alto que haviam levado seu primo. Ela fez cara de assustada e levou as mãos à boca. Eu, que estava perto, não me contive e perguntei para onde o haviam levado. Ele parecia ser um pouco mais novo que ela. Olhou-me desconfiado, como se olha um desconhecido, tufou seu pequenino tórax e falou: - Os “cara” do carro preto! - Carro preto? - É um carro todo preto que passa por aqui, pega as crianças pra matar e tirar os olhos e a língua. A pequena franzina deu um pulo e começou a tagarelar que vive assustada com essas coisas, que deviam anotar a placa do carro e pegar esses assassinos de crianças e concluiu: - Então deixa eu ir, que vou voltar a pé pra casa e é uma longa viagem. Entrei no colégio com todo aquele diálogo na cabeça... - Trinnnnn! A primeira campainha do outro dia toca e aquela multidão tão eufórica e cheia de vivacidade enche aquele espaço que há poucos segundos estava vazio. São tantos rostos cheios de expressividade, outros que não o encaram por causa da timidez, porém, todos carregados de uma beleza peculiar. Os fotografei mentalmente e os guardei na parede da minha memória. Nesse dia a euforia estava maior, pois estavam aguardando um ônibus para o tão esperado passeio pelos principais pontos turísticos. Sim, porque a grande maioria dessas crianças que vivem à margem, são turistas dentro de sua própria cidade. Depois de longa espera, vieram avisar que os ônibus não vinham. Todos ficaram extremamente chateados. Uma delas até deixou uma pequena lágrima cair, e essa lágrima parecia dizer: Por que nada dá certo? - Trinnnnn! A última campainha tocou e lá vão eles voltarem para suas rotinas e realidades. Cheios de frustrações, mas carregando esperança para que amanhã dê tudo certo. Parei atônita observando cada rosto, cada expressão, cada modo de agir. Fiquei imaginando como seria seu dia-a-dia, o relacionamento com sua família, pelo o quê elas já passaram e vivenciaram... Vai ver a única coisa que elas queriam realmente eram oportunidades de viver e se desenvolver. Porém, no final o triste mesmo é perceber que independentemente de suas histórias, a essas crianças há muito mais tormentos do que o bicho papão que mora nas suas imaginações.


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Correspondências Espaço reservado as leitoras e leitores CLARABÓIA. Excelente o nome escolhido para essa revista amazônica. Além de seu conhecido significado remete também à jibóia, essa mãe de todas as serpentes. Vivi uns três meses em Manaus, lá por 1969. Os primeiros dias, numa academia de judô e depois num quartinho de subsolo na Rua Igarapé de Manaus, onde havia apenas uma rede e um gancho na parede onde pendurava minha mochila. Duas calças, meia dúzia de camisas, um sabonete levado de Belém do Pará, sete ou oito livros. As noites eram intermináveis. Os mosquitos subiam do Igarapé para visitar-me. A rede rangendo de um lado para outro. O suor causando um dilúvio no meu corpo e no meu sistema nervoso central. Meus amigos eram dois urubus que já de manhã, pousavam na minúscula janela a espera que eu lhes ofertasse os restos de algum enlatado da noite anterior. Recordo-me bem que pareciam frangos e que eram negros como o ébano. Algumas vezes cheguei a indagar-me se aquelas visitas matinais não tinham uma finalidade mais macabra. Mas tinha apenas vinte anos. Ninguém morre com vinte anos, mesmo confinado num subterrâneo insalubre e comendo enlatados vindos do outro lado do planeta. A zona franca! O cheiro do caruru com arroz nas esquinas lá pelas nove da noite. As putinhas nas sombras das árvores ou nos portais a media luz das lojas de um muçulmano. Muita fome reprimida. A soberba do Teatro Amazonas! As cadeiras desconfortáveis da biblioteca, um casarão azul numa esquina ruidosa. Ponta Negra! Uma menina libanesa que me apertava a mão na escuridão do cinema, o sol e as chuvaradas inesperadas. Estas são as memórias que me aparecem na associação livre deste momento. Vida longa para a revista! Ezio Flavio Bazzo/Brasília-DF Boa pessoal! Fico feliz em ver gente jovem dando a cara a tapa - sinto que meu trabalho, iniciado ha 16 anos (quando eu já não era propriamente uma criança) tem continuidade. Porque essa é a lógica da vida: uma corrida de revezamento. E, por favor, sem piadas, a passagem do bastão se dá de uma forma natural. Mas é preciso que haja trabalho. Não basta ficar olhando pro tempo, se achar um gênio incompreendido, e esperar que as coisas aconteçam. Mesmo que você acredite em milagres, não espere por eles: seja você o seu próprio milagre, ainda que um milagrinho... Zemaria Pinto/Manaus-AM

Publicações dos autores em outros meios

Anne Lucy Publica em http://atestadodoobvio.blogspot.com/ Arcas Ferreira Publicou na Revista eletrônica Travessias n.2 e n.5 - www.unioeste.br/travessias Julio Lira Publica em www.facebook.com/profile.php?id=100003171301344 (Julio César Lira Chaves) Pantagruel Publica exclusivamente na revista claraboia T.R Borges Publica em http://coresdaacidez.blogspot.com/


n.2  

Chega às ruas a revista clarabóia. Em minúsculas - apenas para refletir sobre a existência da vida. A imagem da luz aqui também não faz alu...

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