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APRESENTAÇÃO Chega às ruas a revista claraboia. Em minúsculas apenas para refletir sobre a existência da vida. A imagem da luz aqui também não faz alusão a nenhuma vontade de ruptura com as mentalidades e com o tempo. Somos contemporâneos! Vivemos o tempo presente. Não é por isso que deixamos de acreditar na validade das tradições construídas no passado. E com relação ao devenir os posicionamentos são divergentes. Daí claraboia representar a face multifacetada inscrita nos textos de seus autores. revista claraboia Fissura que emite fachos de pensamentos próprios lidos diretamente no livro do mundo, e em outros formatos de livros, numa constante procura de clareza da qual provém o mote para a arte de escrever. Portanto, possíveis leitores e leitoras, o que nos move são o prazer e a felicidade de pensar. Os editores

CAFÉ PRETO EXPEDIENTE Autores dessa edição: Anne Lucy - Arcasferreira - Julio Lira - Pantagruel - Thiago Borges Editores: Anne Lucy - Arcasferreira - Thiago Borges Capa: Thiago Borges Diagramação: Anne Lucy Revisão: Gilberto Vasconcelos Contatos e-mail: revistaclaraboia@hotmail.com blog: http://revistaclaraboia.blogspot.com Tel: (92) 9133-1799 Manaus - Amazonas / Julho 2009

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UM CAOS DELIRANTE (ou O poema do meu caos) Epígrafe “Bendito seja o caos, porque é sintoma de liberdade!” Enrique Galván “...do caos nascem as estrelas.” Charles Chaplin

Um caos delirante habita meu ser Misturam-se Romances, Filosofias, Revoluções, Teorias, Poesias, músicas aos Vermes cotidianos, dores estomacais e erupções nasais avermelhadas do sangue. Sou todo assim... Um caos delirante dentro de mim! Nesse mundo em mim caótico nascem contradições ao qual me contradigo! Pois sou "amplo, contenho multidões!" Exatamente como Walt Whitman Um caos delirante habita meu ser confrontam-se cachaças, cervejas, festas amores, amigos, sorrisos as dores, temores, horrores crises, desgraças, baratas Sou todo assim... Um caos delirante dentro de mim! No entanto este não é estático é um processo dinâmico, uma transfiguração nunca é! Pois está sempre sendo! De multidões e contradições nascem o uno e a síntese 2


e do novo advêm novamente contradições e multidões Dentro de mim! Eis Hegel e sua dialética no Poema do meu caos. Onde na poesia se materializa a dialética Marxista! Um caos delirante habita meu ser Certo dia Raul ao olhar-me profundamente Não tardou a perceber O caos delirante ao deter Num instante meu espírito altivo, Extraordinariamente no momento Em que havia surgido tal cântico “... dois problemas se misturam a verdade do Universo e a prestação que vai vencer!...” Sou todo assim... Um caos delirante dentro de mim! Foi nesse dia que compreendi A dimensão de manter O caos dentro de si pois " o Homem é uma metáfora revestida de carne!" Caro camarada Arcângelo agora penso eu com meus botões não seria o Homem uma metáfora CAÓTICA revestida de carne?

Será? Não sei... Só sei que Reina o caos Porém este é diferente é um caos calculado e mensurável. Suas etapas são previstas por certos limites sou assim um caos Algébrico tal qual uma formula matemática, pronto à espera da aritmética! Sou todo assim um caos delirante! Carrego esse caos dentro de mim, como se fosse uma bagagem Uma bagagem permanente e dinâmica para uma viagem sem fim! Sou então um caos delirante! Thiago Borges

“É preciso manter o caos dentro de si, para dar à luz a uma estrela dançante!" Talvez então seja eu Uma Estrela dançante? Como concebeu Nietzsche? 3


INCÓGNITA Me dei conta de que não me tenho E quando tenho, não me obedeço E quando me obedeço, me desminto E quando me julgo, me desconheço O lado vadia, louca, vingativa Insiste em me afogar O lado criança, meiga, emotiva Vive a me afugentar Desconheço a estabilidade A força de vontade E tudo o que se chama De normalidade Tenho tudo de incerto De funesto e indeciso Tenho tudo o que quero E é tudo o que preciso! Anne Lucy

ME Enquanto esvazio o copo, Esvazio-me! Bebo-me! Seco-me! Acaba o líquido, Acabo-me! Termino-me! Extirpo-me! No rastro da espuma do fundo, Enxergo-me! Miro-me! Objetivo-me! Então jogo o resto no ralo, Estrago-me! Desperdiço-me! Exonero-me! E termino a noite vazio, Esvazio-me! Extirpo-me! Enxergo-me! E desperdiço-me! Julio Lira

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MADALENA OU O ETERNO RETORNO DO NADA Arcasferreira Faltavam poucos minutos para a hora exata em que costumava chegar. Antes, em casa logo que despertou, o espelho lhe revelou uma vaga lembrança de quando sonhava e, estranho, um silêncio lhe rondou os ouvidos. Logo percebeu que o barulho estava lá, sons que identificavam o caos daquela cidade que há muito vivia. O silêncio, vinha da alma! Ele não costumava dar Bom diiiaaaaa! As palavras não eram nada naquele lugar sem palavras, pensou. A poucos passos de sua mesa, a mesma saia azul falando ao telefone. Fantasiou, procurando o inalcançável odor da felicidade. Depois veio uma sensação nauseante. O lugar cheirava a papéis velhos e homens pálidos. Então, deixou que mais uma vez sua vida fosse protocolada. Longas horas se passaram. Até que percebeu que já era o momento de parar. Os outros se preparavam para o chope da sexta. Com gestos incógnitos dissimulou, taciturno. Agora, trafegando pela Rua das Acácias e longe das cores do fim do dia incomum, decidiu voltar pra casa. Ao descer do ônibus, o bairro não teve a chance de ver seu corpo cansado parar e pedir, como sempre fazia eternamente àquela hora, fingindo certo humor, por favor, um copo. Que nada, a silhueta transmutando no calor da alameda quase sem luz. E insetos fugindo de seus paços. Imagem que nenhuma lembrança descreveria, tampouco a solidão do momento. Minutos depois, entrou em casa sem deixar o ranger da porta despertar o ronco que vinha lá do quarto. Seu cão, já não rosnava mais. Ficava sempre ali, no mesmo canto, quieto. Na cozinha, Lavou as mãos para tomar um gole de algo, viu que estavam mais sujas. Entre os dedos, bactérias extraídas dos calhamaços que carimbara o dia inteiro. Nem toda água do mundo limparia suas mãos pútridas, pensou. Mais uma vez estava vendo coisas, talvez fosse o cansaço. Exausto. Foi dormir. Na cama, após o banho, sentiu o peso de não ter ficado na rua. Mas qual seria a razão insólita? Sabe-se lá. Pegou no sono. Despertou e percebeu que havia sonhado com carimbos, cachaça, papéis e água. Tava pirando! Olhou pro relógio na parede do quarto: quase na hora de ir pro trabalho. 5


Quis tomar café. Chegou a pôr a chaleira no fogo. Adoçou-o, já depositado na xícara, mas, logo desistiu. A merda do relógio não deixou. Nem beijou, nem nada! Correu... Apressando os passos ainda daria pra pegar o mesmo ônibus, e “quem sabe hoje sentar mais perto dela”, dois traços carnudos a caminho da escola. Mas, ao ver-se, novamente como um perseguidor, no reflexo do vidro da janela “daquela lata de sardinhas humanas”, passou ligeiramente as mãos sobre as rugas do rosto e de súbito, as nuvens ficaram cinzas. A infância lhe veio como subterfúgio e quando percebeu já estava com os pés nos paralelepípedos que lhe levariam ao trabalho diário. Chegou. Depositou seu corpo de oitenta e cinco quilos e um metro e setenta e dois de altura na mesma cadeira que sentava há anos, ladeada pela mesa de cedro empilhada de papéis seiláoquê à espera de carimbos. E nada. Uma pausa lhe fez sentir sede, como quem quer sentir a si mesmo. Tentou beber água, mas não conseguiu sorver uma gota. Segurando com a mão direita o copo descartável, e com a outra o lado esquerdo do peito, viu a dor refratada no liquido precioso que transbordava o copo, minutos antes de cair duro. Que aconteceu com ele? Perguntaram a Fruteira, Copo e Maçãs, recordação centenária dos tempos áureos pendurada naquela parede morta e ausente de sonhos. Doze e trinta. O barulho chato do telefone fez Madalena deixar tudo e correr entre os móveis da sala, sob o olhar de Clarice deixada na rede do quarto, para confirmar o desejo que vinha crescendo nos últimos anos.

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ATESTADO DO ÓBVIO Diante da minha grande e visível imbecilidade Ou melhor, inutilidade Declaro para todos os fins Que a vida é um grande sarcasmo Declaro tão somente E com todo o respeito que não tenho Que tudo aquilo que nos fere Serve inevitavelmente Para nosso deleite e para nossa auto-afirmação Eu, que não possuo moral alguma Digo que tua vida não tem função A não ser à contemplação Pela minha vasta inexperiência Em assuntos corriqueiros E minha grande experiência Por aquilo que nunca vi Digo e repito Que tudo merece ser experimentado E usado até o ponto de total desgaste Pra no final ser apenas comentado Assim, fica o registro De uma óbvia mortal Que não sabe o que fazer da vida Que usa as palavras com desdém E mesmo assim se acha no direito De ser alguma coisa pra alguém. Anne Lucy

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A 'INTEGRAÇÃO' DA EXISTÊNCIA (ou A inauguração da vida) Thiago Borges Aos companheiros, Arcângelo e Eldo A vida voa. A lapidação peculiar promovida pelo tempo na escultura da existência é quase sempre um fato não perceptível e indolor. Paulo viveu nesse dia um desses momentos em que a lapides do tempo extraordinariamente torna-se dolor e assim perceptível. Defrontou-se com o conceito mais belamente angustiante da existência: a liberdade, onde o corpo e o espírito sempre estão paralelos em compreensão. Chico, localizado na grande área de seu time, chuta a bola rumo à parte simétrica do campo. Com o intuito de que o lançamento seja alcançado pelo atacante para a finalização de um possível gol. - Vaii... Paulo! Essa é pra ti! Gritou Chico. - Deixa comigo Chicão! Paulo respondeu na mesma entonação. O sol estava tinindo o campo de brilho e calor, como sempre acontece no verão, na única e eterna estação do ano em Manaus. Seus raios ultravioletas caem do céu como que não caíssem, como se o sol estivesse em órbita por cima da cabeça de Paulo e a distância do diâmetro das duas “esferas”, a cabeça e o sol, fosse menor que a unidade de medida mais ínfima da Terra. No entanto, era um raio leve e forte. Paulo sentiu-se correr em grande velocidade rumo ao encontro da bola. O vento como sempre preguiçoso aqui nessa região, não atrapalhava nem diminuía sua rapidez. 8


Havia uma força de atração entre ele e a bola, tal era essa força que parecia a bola um imã e Paulo um metal. E quando a bola feito pássaro cai na mesma linha vetorial dos raios solares, Paulo tufa o peito e a domina feito Garrincha e chuta a bola no gol como Ronaldo fenômeno. A bola adestrada entra na gaveta do armário da trave. Este lance lindo lhe caiu como um delírio. E de fato o era. - Porraa Paulo! Tu não és mais o mesmo! Tá uma égua! Bolão perfeito pra ti e perdes! A bola lançada por Chico gerou uma disputa entre Paulo e um jogador do time adversário. O jogador entre seus dezenove anos corre muito mais rápido que Paulo, este por sua vez, tentando correr alcança apenas a potência de sua vontade no imaginário. Enquanto na realidade vê o jogador adversário chegando ao encontro da bola dez vezes na sua frente. O jogador domina a bola e salva o seu time de um possível gol. Paulo abaixa a cabeça, com a impressão de cair sozinha, como se estivesse carregando um peso e começa a andar rastejante. Esse tristonho belo momento o faz recordar de uma conversa que teve com seu amigo Panta em um desses botecos maravilhosos feitos para beber a existência, onde o tal camarada lhe cantou o homem com uma frase: - É Chicão... “O homem é uma metáfora revestida de carne!”. O tempo me roubou tudo, não sou mais o mesmo! Respondeu Paulo para Chico. Chico olhou profundamente nos olhos de Paulo, aquele tinha vinte e nove anos de vivência enquanto este tinha isto apenas de futebol e carregava mais vinte anos na bagagem da vida, como se o olhar de Paulo fosse traduzir as ondas sonoras cuspidas de sua boca. Esse dia, não como os outros dias, Paulo não bebeu a existência nem chutou a liberdade e sim, a existência havia lhe bebido e a liberdade lhe chutado.

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Ele ficou extremamente perplexo de como um momento corriqueiro dentro de uma partida de futebol com seus amigos, havia lhe sugerido pensamentos intensamente filosóficos sobre sua existência. Já que acreditava que a liberdade é indissociável da existência. Em casa antes de dormir um pensamento fugaz, porém atroz, se converteu levemente em um sentimento doloroso. Não só a liberdade havia lhe afligindo, mas também a própria existência. Lembrara que já havia pensado sobre a morte e de como a achava injusta e terrível. Nesse dia, pensou o oposto. Como seria um ser eterno? Este pensamento havia lhe batido muito mais terrível, doloroso e demasiado angustiante. Pensou: o homem está perdido em um imenso labirinto sem fim, e pior sem solução. Deitado em sua cama como de costume contou a parte mais interessante de seu dia para sua mulher e todos os pensamentos envolvidos, inclusive este último, ela aconselhou-o a não pensar “nessas coisas” e ir dormir, após isso os dois ficaram mudos. Instantes depois Paulo virou-se para sua companheira em seu hábito natural para dar o beijo derradeiro do dia como boa noite. Em um lapso pensou: O homem ávido por tentar entender o que é a existência, acaba por não conseguir compreender que ela não é compreensível. É simples e dura como uma pedra. Esse paradoxo é a sua crueza. Sua compreensão consiste em vivê-la e é exatamente por ela ser contradição em si que é estranhamente bela. Paulo beijou-a com um carinho indizível e sentiu-a como se fosse a própria existência personificada.

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AMOR VADIO Esse amor é coisa louca Que me bate, tira a roupa Numa transfusão de sentidos Procurando todos os motivos Pra se realizar... Coisa doida, coisa cara Que machuca mas logo sara É uma espécie de redenção Sou sua escrava, sua dona Sua menina, sua matrona Num jogo de existir Nada em troca, tudo vale Para que ele cresça e repare Que só tem valor em mim. Anne Lucy

SOU Sou tu eu Sou sentimento seu Sou mundo meu Todinho teu Sou teu macho Sou teu bandido Sou tua revolução E teu homenzarrão Sou tua poesia Sou teu pão Sou e apenas sou A soma: eu mais tu Que não dá dois Mas dá um, Dá um infinito! Sou e apenas sou Meus eu's E mais os seus! Thiago Borges 11


“MEU PRIMEIRO DE MAIO” Para Vladímir Maiakóvski No dia do trabalhador Rememorando suas lutas Posto nesta tarde nua Ponho-me a deleitar Em greve na rua Com o despertar Não apenas dos trabalhadores fabris Ou das construções civis Mas, sim Com trabalhadores do espírito humano Pedreiros da emoção Montadores da alma Eis o ato sublime da construção humana Rememoro assim as lutas Do homem completo Que produz bens materiais E bens espirituais Bem como o trabalhador que fabrica Riqueza material Tal qual um papel e uma caneta O trabalhador espiritual Talha uma música ou um poema Jogando cimento No divertimento Do trabalhador material Que nesse único momento Desprende-se de sua alienação Um trabalhador Luta por salários O outro Versa contra os salafrários E nesse pensamento grevista Minhas cordas vocais de agitação Gritam de indignação: - Prestem atenção! - queremos PAZ, POESIA E PÃO.

A vida é luta Luta-se pra viver! Após este instante De um sentimento agonizante De dor e alegria Sinto-me como se as palavras fossem secas Retiro-me Não da luta Nem da vida Mas da estrada dessa página Para molhar minhas palavras! Thiago Borges

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A OUTRA CIDADE Arcasferreira À memória de Bruno e Enoque. “Ao meu destino que é doçura e vício, (...)”. E fecho o livro. Amanhã continuo. Amanhece. Ontem havia deixado restos de hoje ou viceversa. Teias no chão, roupas espalhadas pelo teto, uma mesa e moscas sobre jeans sujos; insetos perseguindo restos num prato em baixo do beliche; óculos sobre a pia do banheiro. No ralo, vermes microscópicos; um dom Bosco vazio; no canto direito de quem sai, ou entra, a porta e suas fissuras. Deitados no beliche estão dormindo. Eu, acordando. Olho pra baixo, no piso de tacos encardidos está o livro; na página marcada...“Obedecerei como um predestinado; (...)”. Mas, fecho logo em seguida, porque naquele instante prefiro, preguiçosamente, sair da rede e procurar a janela, ver o dia. Azul? Levo rapidamente as mãos sobre meus olhos, imaginando por instantes, como seria falar sobre as nuvens sem jamais ter observado os tigres que se formam na metamorfose das cores. Seria, talvez, como inventar outra Cidade, penso. São as primeiras horas da segunda metade do dia. Algo parece estranho para uma rua localizada no coração do caos. Da sacada, os sinos e o cocar do teatro. É domingo! Um fardo cai sobre meus ombros raquíticos. Então decido voltar pra rede. Abro novamente o livro, quero ler o poema, e ...“Mártir sem culpa, dócil condenado, (...)”. Repentinamente, há chuva e há imensa lembrança, como quem sorve a tarde olhando pro grande rio do tempo. O cheiro da vida me faz ver o mundo fitando a libélula presa às teias da laje do teto.

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De súbito, batem à porta. Antes ouvi o telefone tocando. É pra você. Deixo o livro, mas carrego o lápis que sempre uso pra riscar páginas. Sim?! Do outro lado em uníssono um grito surdo e, tão forte, mas tudo que restou foi meu esboço deixado na parede do 202: manto de chuva no silêncio das Acácias hora de partir. Largo o aparelho olhando pro pequeno vão do corredor. Agora, me despeço do segundo andar, descendo os sete degraus a caminho da Rua. Nenhuma janela observou quando saí sem dizer pra onde. Mas tive a sensação que os prédios, narradores da Rua Barroso, confabulavam a meu respeito. Depois do telefonema as nuvens pareciam monstros, os anjos: ratos imensos. Quero ficar sozinho. Até mesmo desprezo a amizade das avenidas que àquela hora estavam completamente desertas. Na esquina, o canteiro de obras me faz lembrar a centenária mangifera indica engolida pela urbe. Chego ao terminal de ônibus e me perco nas poucas pessoas que estavam ali. Vejo meu duplo. É hora de pegar o zero sete. Penso nas flores, nas metáforas daquela cidade que carrego em minhas mãos. Quando leio uma estrofe a mais: ...“Cujo fervor, porém, atiça o suplicio.” A chuva parou, abro as janelas daquela lata de sardinhas para fugir dos odores da gente triste. Então, meu subterfúgio recrudesce na feroz imagem das águas do rio Negro inundando a memória da cidade velha.

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VIVER: O VERBO (ou canção ao verbo viver)

Canto! Canto! Canto a vida enquanto Converso! Dentro do universo dos Meus versos!

Canto! Canto! Canto não porque sou um Ser diverso! Nem porque conheço o tal Do verbo! Canto! Simplesmente Canto! A poesia Do meu Viver! Thiago Borges

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DIALÉTICA A vida é uma eterna nostalgia Que te faz viver o passado E ter saudades do futuro Que de vez pras tantas Leva-te ao encontro daquilo que já foi E te dá esperança Por aquilo que não voltará Penso em como seria belo Todos os momentos poder guardar Pra quando quisesse os ter Apenas os admirar E os manipular até o ponto Que eu quisesse chegar Para logo depois Me decepcionar... Penso na verdade Como tudo seria um tédio Se tudo fosse previsível E pra dor tivesse remédio A vida tem graça No desconhecido Ela é boa, é pirraça É o mundo no umbigo 16


É aquilo que grita, que geme, que torce É aquilo que ri, que se descontrola E que pisa na bola Na hora de marcar um gol Ah! Eu sei bem como é ser feliz! Ter na palma da mão Tudo aquilo que eu sempre quis! Ter um cão adorável Pra poder brincar Ter uma cama confortável Pra poder me jogar Ter amigos que não são amigos E sim verdadeiros irmãos E uma família bendita Que sempre me deu a mão Ter sorriso nos lábios Ter alegria no pulmão E o coração a pulsar No ritmo do meu violão

Sentir carinho pelos animais Se emocionar com o céu azul Poder apreciar tudo o mais Ouvindo um novo blues Ter um amor transcendental Com transas de cores e sons Algo nada convencional Sujos de vários batons... A vida é mesmo muito louca Uma hora te dá o paraíso Na outra te bota na forca É alegria constante Pra tristeza permanecer É dose delirante De uma jornada de enlouquecer

Ah! Eu sei bem o que é ser feliz Mas eu não quero Ser tudo aquilo que eu sempre quis Me queixar mais não Com a ajuda de todos Se queixa resolvesse Pra tudo já tinha solução! Anne Lucy

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ALAMEDA 69 Arcasferreira. O calendário da parede indicando o dia de Hoje. O relógio no pulso marcando o absoluto acaso. O sol da tarde, o urro do imenso rio e o exótico labirinto da clarabóia, produzida pelos raios que entram pelas fissuras da janela desenhando cores indescritíveis, anunciam o início de outra temporalidade. Momento propício para a súbita fuga. Os passos foram longos até chegarem à Avenida. De lá se avistava a alameda. Na casa a fotografia, emoldurada por uma tessitura mitológica recrudescendo o movimento monolítico, como sempre, primeira coisa que lhes chamou a atenção: Um pedaço de céu por trás de figuras femininas já encardidas. Dois sorrisos tímidos e perfilados em frente ao colégio do Carmo. A Mãe carregando o Livro em braços fortes e leves. Matiz dourada dessa infinita “dança imóvel”. Minutos depois já estavam no quarto. Ela, querendo fugir da velha metáfora que dissimula seu corpo, fecha os olhos e deseja o absurdo. Está cansada da fuga, da repetição do mesmo. Sedenta. Igual lobo à caça de meninos. Suas mãos cinzelando a outra face enquanto latentes cantos entoam o desejo numa linguagem desarrazoada. Lá fora jasmins roçavam o musgo da parede abandonada e no mercado de peixes o odor, as águas e suas espumas ferozes batiam nos degraus da antiga escadaria. Os telhados calados, o cheiro úmido da chuva celebra a outra metade da vida. Cansadas da inexorável procura, adormeceram finitamente por toda a noite até que num segundo a pequena cidade desperta. Ensimesmados, aqueles olhares antes providos de luz, agora esfumam um claro-escuro das lentes publicadas nas páginas em branco e preto do impresso À Ilha. Onde traz em uma de suas linhas estropiadas o seguinte excerto: “[...]. No móvel bordado seus hábitos e lençóis tristes revelam a inenarrável cumplicidade insólita [...]”. ,dia outro seria hoje ou vice-versa...

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IDADE DE OURO No soprar desse vento atroz, Que leva consigo a ruína dos meus sentimentos, Quisera eu por um breve momento Sentir desatarem-se alguns desses nós. E nas andanças desses meus parcos passos Pudesse soltar um grito ainda preso aos pulmões. Deixar viver mais um pouco os leões Andando e cantando, seguir o descompasso. Um raio que brota da natureza fugaz O mundo de ponta-cabeça na cabeça de um rapaz O sentimento de alivio na descontinuidade! De tudo o que veio e já ficou para trás Do que me interessava e agora não mais Resta-me a idéia de que vivo a minha idade! Julio Lira HEFESTO pantagruel Intencionava tomar um café àquela hora. Preto de preferência. Mas se deu conta, minutos mais tarde, que pedira “um pingado, moça”. Era assim. Inconstante como a temperatura da cidade onde nascera num dia qualquer de outubro. Os espelhos das portas de vidro da padaria filtram seu estereótipo dúbio. Nem alto, nem magro. Nem velho, nem moço. Barba por fazer, sugerindo latente transgressão. Sem pressa. Mas apressado circunstancialmente. A púrpura no vão da xícara traduzia o instante eterno. 19


Falta um tempo para entendermos o caos Que habita as entranhas desses non senses Enquanto andasse pelas colinas escuras Do ser! Em busca de algo mais Algo mais que nos complete Diante desses enigmas, Pois é só por enquanto Que baixamos a cabeça no andar Não há reinado que nos baste Que atenda aos anseios hedonistas Da nossa pele de humano Do nosso corpo animal E continuamos sem entender A redução desses momentos Quando as entranhas tornam-se caóticas E as colinas, entendimentos. Julio Lira

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FORTES LAÇOS Na incrível beatitude desse meu desespero Vivo um sorriso escondido na algema Despertando ocultamente durante meu enterro, Acabando friamente meu poema! Há longa tradição nesse esmero, Faço força pra quebrar esses grilhões Faço força, mas não força por inteiro Gosto mesmo de envolver-me em turbilhões. Sem propósito nenhum Corro lento contra o vento Corro só por passatempo Às vezes vôo como Anum. Desesperado, sigo lento Para dentro do meu orgulho Onde não há vozes, nem barulho Vivo apenas meu talento. Julio Lira

PÓLENSIA Ó poesia... Do bagaço da dor Tiras tu com ávido ardor Grandes sumos de alegria! Ó poesia... Faça de minha sina O corpo como travessia Da liberdade, tu ensinas! Ó poesia... Com liberdade plena Afasta-me da morte fria Ao escrever um poema! Ó poesia... Porto seguro da alegria Eternizou o poeta da vila E fez de mim, o poeta fovila! Thiago Borges

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SEMI-HOMEM Sou um semi-homem Em estado seminovo Um pouco semi-selvagem Certamente sem-teto Vivendo num cemitério! Sou um semifeio De origem seminal Em estado seminu Cria uma semiótica Que elas acham sem igual!

POIESIS Não! Hoje não quero escrever Não há neblina e nem frio Que faça querer Rimar verbos Não! Hoje só quero viver Não há ódio e nem mágoa Que me faça reescrever Sequer os provérbios

Sou um semideus Nessa terra sem-fim Mesmo antes semi-roto Aprendi a ser semibárbaro Sem entrar no seminário! Sou um semi-analfabeto Dentro desse semicírculo De pessoas semipreciosas Deixando-me semimorto Nessa minha semivida! Thiago Borges

Não há companhia, nem solidão, Nem mesmo agonia ou perdão Com o qual pegue em lápis Não há instante ou momento, Nem mesmo reclamação ou lamento Com os quais chegue a tais ápices! Julio Lira 22


POESIA Faço poesia como quem aprende a andar Meio insegura e sem direção Caindo, levantando... Mas sempre mantendo a atenção Faço poesia meio que na escuridão Não vejo o horizonte, nem aonde vou chegar Tateando vou longe, sem hora de voltar De uma longa jornada Faço poesia meio de banda Pego a rima, faço samba Brinco com as palavras como os bambas Em época de carnaval Faço poesia, às vezes, sem querer Quando me pego pensando na vida Em tudo o que quero escrever O ritmo se concretiza Faço poesia por que é a forma que me cabe Porque não há tradução que cale O que precisa ser dito Em horas de angústia Faço poesia por que sim E não me perguntes por que não Por que sei que só assim Posso acalentar meu pobre coração Anne Lucy

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ito

fin e in

c

ão taç tes i g ão a sa zan m e v i o i n go vê nd e ant Gra mas a s que t r fo u to Esp imen o con v nç Mo bala vi m ca tir a Nu n u nd u par i n f in im so ass sidão m ou o Alg imen que nda e a zul bém em ai a Um mas d stos do tam eu b i a o r c t g , Lá -te do m os és t o i j u e e f T é sv a Per ue ari ia Ma or q m l c n , ca ago Da a n a ter udos ir... a c a s rt Bu nto s e pa i u s Já ter q Anne Lucy Em

e Par

Certa mente certamente mente Certamente mente certa mente Mente Certa Certamente! Thiago Borges 24

n.1  

Chega às ruas a revista clarabóia. Em minúsculas - apenas para refletir sobre a existência da vida. A imagem da luz aqui também não faz alu...

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