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mesa com um celular ou iPad sem interagir, sem fazer uso da palavra falada! Deparamos com artigos e matérias chamando a atenção para a geração “touch”, ou seja, geração “tocar”. Mas, na realidade, o que estamos perdendo são exatamente essas oportunidades de “tocar” as pessoas, de interagir no sentido pleno da palavra, já que os devices de integração nos levam a comportamentos mais individualizados. Ver que o brinquedo e até mesmo a chupeta perdem, sensivelmente, lugar na vida de nossos bebês, é algo para refletir... Quais serão as consequências de nossas escolhas? Qual é o limite? Ele existe? O que estamos tirando de nossos bebês e crianças ou dando a eles quando escolhemos incentivar tal prática? Também temos pesquisas que mostram que a criança brasileira é, no mundo, a segunda mais exposta a tempo na frente da TV. Mostram que o sol brilha lá fora e que, muitas vezes, tanto a família como a escola optam por “conter” seus filhos e alunos em casa, em classe ou na frente da TV, como uma espécie de tranquilizante ou calmante de crianças. Penso que reflexões como estas deveriam, cada vez mais, impregnar nossas análises sobre o ato e a escolha de como educar, porque o que proporcionamos aos nossos pequenos mostra muito de nós mesmos. O caso dos adultos também não é muito diferente. De um tempo para cá, parece que é condição ter aparelhos gigantes de TV em

restaurantes e bares. Não usamos a televisão para distrair apenas as crianças, mas também os adultos, que entre uma conversa e outra dão uma espiadela ou descaradamente fixam seus olhos sem pudor nenhum no programa predileto, e literalmente abrem mão do ato saudável e necessário que é simplesmente jogar conversa fora! Assim, vejo um desafio interessante para todos: avaliar como queremos manter esta relação midiática com o mundo que nos cerca e como podemos ajudar nossos filhos a desenvolver mais recursos para absorver tudo o que está por vir. Porque isso é só o começo, mas quem escreve o roteiro da nossa vida somos nós! Desde que tenhamos recursos. O que desejamos, realmente, proporcionar aos nossos filhos − sejam esses bebês, crianças ou adolescentes − com esta enxurrada de tecnologia? Será que precisamos dar incondicionalmente tudo o que eles pedem? Aliás, os bebês não pediram os celulares, eles foram expostos a eles, apresentados por um adulto que acredita que os aparelhos sejam os mediadores competentes da relação. Será?

Claudia Siqueira atua há 20 anos na área de Educação. Historiadora, pedagoga, pós-graduada em “Aperfeiçoamento de docentes de Educação Infantil e Ensino” (PUC), pós-graduada em “Pedagogia de Projetos e Tecnologias Educacionais” (USP), Magistério com especialização em Educação Infantil. Apresentou projetos de educação no Japão, EUA, América Latina e Europa. e-mail: csiqueira03@gmail.com.

ed. 156  

Revista Circuito

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