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REVISTA Jul/Ago 2018 • Nº 76

GERAÇÃO Y DESAFIA BANCOS Millennials esnobam os bancos, mas querem serviços bancários. Como falar com eles?

CIAB FEBRABAN 2018 Congresso de tecnologia debate poder crescente do universo digital. Com o tema “Inteligência Exponencial”, bate novo recorde de público

FINTECH DAY E HACKATON Conheça as ideias inovadoras para o mercado bancário dos vencedores nas competições promovidas no CIAB FEBRABAN


sumário

CONSELHO CIAB FEBRABAN 2018 Maurício Minas-Bradesco (presidente), Gustavo Fosse – Banco do Brasil (diretor setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN), Gustavo Roxo – BTG Pactual, Jorge Ramalho – Itaú-Unibanco, José Paiva – Santander, Naran Peçanha Araújo – Caixa, Antônio Gustavo Matos do Vale – Banco do Brasil

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Congresso de TI CIAB FEBRABAN 2018 debate crescimento do poder computacional e tecnologias adotadas pelos bancos na revolução digital dos serviços financeiros

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Competição entre startups Inclusão e biometria facial são temas vencedores do Fintech Day

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Maratona de programação Ferramenta de gestão e comércio por aplicativo de mensagens vence 2º Hackathon

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Capa Bancos partem para a conquista dos millennials

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Tanmay Bakshi Canadense de 14 anos, consultor global em inteligência artificial, é destaque no CIAB

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Inovação Projetos baseados em blockchain podem fazer parte do cotidiano da população em 2020

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Entrevista com futurista Investir em eficiência não basta; o cliente quer mais atenção do banco

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Pequenas empresas Instituições e startups criam soluções e apps de gestão para pmes

P2P Pagamentos instantâneos podem alcançar 3,3 bilhões de transações anuais no Brasil

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COMISSÃO DE CONTEÚDO: Gustavo Roxo – BTG Pactual, e Marcelo Frontini – Bradesco (Coordenação); Adauto Del Favero – Bradesco; Antonio André R. Santos – B³; Antonio Lombardi Neto – Rede; Arcádio Souto Tato – Santander; Arlete Stahl – Santander; Carlos Augusto de Oliveira – Original; Carolina Souza – FEBRABAN; Claudia Haddad – Itaú Unibanco; Cristiane Mara Nunes – Citibank; Daniel Teixeira Dias – B³; Eliane Grotti Borges – Caixa; Fabio Napoli – Itaú Unibanco; Gustavo de Souza Fosse – Banco do Brasil; Jorge Krug – Banrisul; Keiji Sakai – consultor; Mario Lopes – Societe Generale; Paulo Vaz – Banco do Brasil; Ricardo Nery – Citibank; Ronei Maranssati – Banco do Brasil; Thatiane Fonseca – Bradesco; Wallace Jagiello – Banco Votorantim DIRETORIA DE EVENTOS FEBRABAN: Nair Macedo (diretora), Marcelo Assumpção, Élita Cristina Borges Simionato, Fernanda Paradizo Castillo, Ludmila Prado, Leticia Rodrigues, Marília de Meo Borges, Keti Granzotto Casarri, Gabriela Borghi, Erika Segalla, Rodrigo Cainã de Araújo REVISTA DO CIAB FEBRABAN DIRETORIA DE COMUNICAÇÃO: Sergio Leo (diretor), Adriana Mompean, Cleide Sanchez Rodriguez, Arthur Chioramital, Carlos Cidra, Thiago Silva, Anna Carolina Gabiatti MARKETING: Roseli Rapouso PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO: Ideia Visual Esta é uma publicação da Federação Brasileira de Bancos – FEBRABAN, Av. Brigadeiro Faria Lima, 1485 – 15º andar – Torre Norte – 01452-921 – São Paulo – SP Copyright 2018 - julho/agosto. Todos os direitos reservados. Ilustração da capa: Filipe Rocha Imagens das páginas 19, 34, 40, 43, 44, 49, 54, 60, 62, 68, 73 e 76: Shutterstock

Tecnologia e sustentabilidade Economia verde e finanças digitais promovem inclusão

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editorial

Gustavo Fosse Diretor Setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN

CIAB FEBRABAN 2018: um novo recorde de participantes

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aior congresso de tecnologia da informação para o setor financeiro da América Latina, o CIAB FEBRABAN 2018 mais uma vez registrou recorde de participantes: 23.150 visitantes circularam pela exposição nos três dias de evento, um aumento de 9% em relação a 2017. Nosso fórum de TI teve a presença de 170 expositores, 30 fintechs e mais de 350 palestrantes. Nos três dias de evento, os bancos mostraram e debateram os avanços obtidos com tecnologias como internet das coisas, inteligência artificial e computação cognitiva, usadas para aprimorar a experiência digital dos correntistas. Os principais resultados de nosso congresso de tecnologia podem ser conferidos nas reportagens da 76ª da revista CIAB FEBRABAN, que traz um panorama dos assuntos de maior destaque do fórum de TI, debatidos em palestras e posteriormente aprofundados por nossa equipe com os mais renomados executivos do segmento financeiro presentes no evento. Nossa matéria de capa aborda o que os bancos estão fazendo para conquistar uma fatia de seus clientes conhecida por geração dos millennials, público que desafia as instituições financeiras na busca de produtos e soluções tecnológicas que precisam ser interativas e eficientes. O assunto foi objeto de muitas conversas nos corredores do congresso, e debatido no painel “Cliente 3.0 - Estamos Preparados Para Atendê-los?”, no segundo dia do evento. Para atender e conquistar a confiança destes clientes, apuramos que os bancos usam inteligência artificial nos atendimentos em redes sociais, oferecem dispositivos vestíveis para pagamentos, fazem consultorias financeiras

por whatsapp até de madrugada, e investem na contratação de profissionais diferenciados, como o “jornadeiro”, que pensa exclusivamente sobre a “jornada do usuário” nas operações bancárias. O CIAB FEBRABAN 2018 também priorizou uma importante discussão para o setor durante o evento: os preparativos para adotar no país o sistema de pagamentos de pessoa para pessoa, o P2P, capaz de ampliar o uso de meios eletrônicos. Nossa reportagem traz a análise dos principais executivos deste setor e também do Banco Central para o novo modelo, que poderá alcançar 3,3 bilhões de transações anuais no Brasil. O blockchain, tecnologia que chama a atenção do mercado financeiro por seu grande potencial de mudar as práticas do setor, também foi um dos destaques da programação de palestras do CIAB FEBRABAN 2018: um dos principais pontos do congresso deste ano foi a apresentação do protótipo desenvolvido pelo grupo Blockchain FEBRABAN que, se revelar viabilidade comercial, poderá reforçar a segurança na adesão de clientes ao receber um determinado serviço ou solução digital. Nesta edição da revista, ainda teremos entrevista feita com o futurista Ben Pring, que abordou as necessidades de talentos inovadores para as áreas como realidade virtual, análise de dados e inteligência artificial, como programadores, cientistas e analistas. Temos, ainda, entrevista com o canadense, filho de indianos, Tanmay Bakshi, de apenas 14 anos, que presta consultoria para empresas ao redor do mundo, incluindo a IBM, a quem ajuda a desenvolver o Watson, seu projeto de inteligência artificial. Desejo a todos uma excelente leitura! n revista CIAB FEBRABAN

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O poder do universo digital Por Adriana Mompean

CIAB FEBRABAN 2018 debate a InteligĂŞncia Exponencial

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universo digital no mundo dobra de tamanho a cada dois anos e ocupará 44 trilhões de gigabytes até 2020, de acordo com estatísticas divulgadas pela multinacional EMC, com pesquisa e análise da consultoria IDC. O debate sobre o volume de dados que a humanidade produzirá e as necessidades de poder computacional e de tecnologias como a inteligência cognitiva, nesta revolução digital, marcaram as principais discussões do CIAB FEBRABAN 2018, realizado entre 12 e 14 de junho no Expo Center Transamerica. Na abertura do evento, o presidente da FEBRABAN, Murilo Portugal, destacou que o tema central do congresso, a Inteligência Exponencial, sugere não só a complexidade e o tamanho dos desafios do setor, mas principal-

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“O PROCESSAMENTO DE DADOS COM BASE NA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E EM ALGORITMOS COMPLEXOS É CADA VEZ MAIS IMPORTANTE PARA PRATICAMENTE TODOS OS SETORES ECONÔMICOS” Murilo Portugal, presidente da FEBRABAN revista CIAB FEBRABAN

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Maurício Minas, vice-presidente executivo do Bradesco e presidente do Conselho do CIAB FEBRABAN, destacou os investimentos feitos pelos bancos em TI, de R$ 19,5 bilhões em 2017

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mente mostra o caminho a seguir para enfrentar estes desafios: “com cada vez mais inteligência, com exponencialmente mais inteligência, com inteligência várias vezes a inteligência”. De acordo com ele, os indivíduos não são apenas consumidores de informação, mas também produtores. Os dados, inclusive os dados pessoais, são hoje um dos principais insumos da economia globalizada baseada em tecnologia. “O processamento de dados com base na inteligência artificial e em algoritmos complexos é cada vez mais importante para praticamente todos os setores econômicos”, afirmou. “A economia atual é cada vez mais uma economia dirigida pelos dados, que se tornaram um elemento essencial para qualquer empresa, com enorme potencial para aumentar a eficiência na prestação de serviços, para criar produtos ajustados às necessidades das pessoas; expandir negócios; impulsionar a economia e gerar novos empregos.”


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Maurício Minas, vice-presidente executivo do Bradesco e presidente do Conselho do CIAB FEBRABAN, chamou atenção para os expressivos investimentos feitos pelas instituições brasileiras em tecnologia, que vêm mudando hábitos e costumes, interferindo nas relações pessoais e no ambiente de negócios dos mais variados setores da economia. “Checamos o saldo bancário, fazemos pagamentos, transferências entre contas, contratamos crédito e investimentos por meio do mobile banking”, destacou. Minas afirmou que no ano passado foram destinados R$ 19,5 bilhões em tecnologia da informação pelo setor, que se manteve na média dos últimos anos - em torno dos R$ 20 bilhões. “Nenhum outro setor da economia direciona tamanho volume de recursos para tecnologia. O setor bancário ficou no mesmo nível do governo, que historicamente tem a liderança no ranking dos investimentos.” Também presente na abertura do evento, Otávio Damaso, diretor de Regulação do Banco Central, afirmou que o regulador apoia o processo de inovação no sistema financeiro, e tem adotado nos últimos anos inúmeras medidas para que as instituições financeiras e as fintechs se adaptem à revolução digital que transforma todo o segmento. “A regulação é extremamente importante para dar segurança jurídica para o processo de inovação no sistema financeiro e também para fomentar o desenvolvimento do mercado financeiro e de crédito no Brasil”, disse.

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“A REGULAÇÃO É EXTREMAMENTE IMPORTANTE PARA DAR SEGURANÇA JURÍDICA PARA O PROCESSO DE INOVAÇÃO NO SISTEMA FINANCEIRO” Otávio Damaso, diretor de Regulação do Banco Central

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Bancos valorizam atuação nas redes sociais Por André Luís Nery

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Candido Bracher, presidente do Itaú Unibanco, diz que uma jornada de transformação dos bancos não é possível sem mudanças no trabalho interno

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star onde o cliente está. É assim que os executivos dos grandes bancos brasileiros presentes ao CIAB FEBRABAN 2018 analisaram a necessidade de oferecer serviços aos clientes em grandes plataformas digitais, como Facebook, WhatsApp, Messenger e Twitter. São serviços com inteligência artificial, que permitem às instituições melhorar seus processos de atendimento com os clientes. “A inte-

ligência artificial vem, de fato, para dar mais conveniência para os nossos clientes, facilitar a vida das pessoas, não só as dos clientes”, ressalta Suzan Barreto do Nascimento, superintendente de Tecnologia do Santander. Um dos bancos que tem usado inteligência artificial para atender clientes no WhatsApp é o Bradesco. “Estamos com um público de clientes bem restritos, porque é o começo


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ainda, mas a tendência é isso evoluir”, afirma Marcelo Ribeiro Câmara, gerente de Departamento de Pesquisa e Inovação do Bradesco. Para operações por meio da plataforma, o cliente precisa fazer um cadastro, explica Câmara. “A gente precisa saber quem está do outro lado”, diz. “Mas um cliente que não tenha cadastro consegue conversar de maneira aberta, sem precisar falar da conta dele ou de dados mais específicos.” A Caixa Econômica Federal também está testando serviços pelo WhatsApp. “Por meio deste canal, nós já fazemos o trabalho de divulgação de informações internas para os nossos funcionários”, destaca Rodrigo Evangelista de Castro, gerente nacional de Arquitetura Tecnológica da Caixa. “Também mandamos alertas financeiros, de depósitos do FGTS e de programas sociais, para milhões de clientes no nosso (projeto) piloto, que será expandido gradualmente.” Para Marcus Vinícius Cotta, gerente-executivo do Banco do Brasil, as instituições devem estar atentas às tecnologias que vão surgindo e aos modelos de negócios que estão mudando. “Estamos em um cenário que é o cliente quem manda. Hoje ele está com o

poder na palma das mãos”, ressalta. “Para um cliente mudar de fornecedor, basta um clique no celular, que ele te deleta; fidelidade de clientes hoje em dia não existe mais”, alerta. O objetivo das instituições financeiras é interagir com os clientes no meio em que eles estejam. Um exemplo disso foi a parceria que o Banco do Brasil fez em fevereiro com o Facebook, o que permite aos clientes fazer transações bancárias pelo aplicativo de bate-papo Messenger. Para Gustavo Fosse, diretor de TI do Banco do Brasil, "o cliente tem o poder de compra, ele define o que quer comprar", por isso, muito mais do que clientes, as empresas precisam de fãs. "Hoje o Banco do Brasil procura, além de fidelidade, ter fãs. E para ter fãs, eu preciso trabalhar em cima de dados e prever o que meu cliente quer”, diz. “A gente precisa levar a coisa certa, no momento certo e na hora certa para o nosso cliente. Só assim vamos ter fãs", complementa.

Para Gustavo Fosse, diretor de TI do Banco do Brasil, as empresas precisam de fãs, e, para isso, precisam trabalhar em cima de dados e prever o que o cliente quer

Concorrência Sobre as notícias de que essas grandes empresas digitais, como Amazon, Facebook e Google, estariam testando modelos de negócios volrevista CIAB FEBRABAN

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tados ao mercado financeiro, o presidente do Itaú Unibanco, Candido Botelho Bracher, na palestra de abertura do CIAB FEBRABAN, disse ter dúvidas “se seria muito interessante para elas” entrarem no mercado financeiro como competidores. O executivo acredita, no entanto, que essas grandes empresas devem servir de modelo de inovação e referência. “Eu acho importante olhar essas empresas; embora não sejam nossos concorrentes, os clientes são os mesmos”, diz Bracher, que citou como exemplo uma experiência que teve com o Uber, aplicativo que presta serviço de transporte privado. “O Uber não é um concorrente do Itaú Unibanco, mas outro dia chamei um Uber, fiz alguma coisa errada e vieram dois”, conta. “Evidentemente, peguei só um. Fui para casa e vi que chegaram duas cobranças. Fiquei pensando como eu faria para estornar uma cobrança, se teria que escrever, explicar o que tinha acontecido. Entrei e em três cliques a cobrança estava estornada”, afirmou. Bracher pensou quantos cliques seriam necessários para alguém estornar uma tarifa do banco cobrada indevidamente. “Certamente mais de três cliques”, disse. “Embora, o Uber não seja o nosso concorrente, esse cliente do Uber, eu, é cliente do banco também; e esse padrão de atendimento, essa experiência de cliente que você tem com essas empresas, em parte, influencia a expectativa que você cria em relação ao atendimento financeiro”, destacou durante a palestra no CIAB FEBRABAN.

“QUEM FAZ A TRANSFORMAÇÃO DIGITAL SÃO AS PESSOAS” Marino Aguiar, CIO do Santander

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Não existe transformação digital sem pessoas No congresso de tecnologia, os executivos dos grandes bancos brasileiros enfatizaram que a transformação digital não trata apenas de tecnologia, mas de envolvimento dos recursos hu-


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manos. Não há como se manter relevante na era digital sem profissionais capacitados, pois as tomadas de decisões precisam ser cada vez mais rápidas e eficazes. Mesmo os bancos públicos, que só podem contratar através de concursos, têm realizado seleções internas para atrair profissionais para suas áreas de tecnologia. “A transformação digital não acontece sem as pessoas, sem engajamento; precisa mudar a cultura a partir das pessoas”, diz Rodrigo Evangelista de Castro, superintendente de Arquitetura Empresarial na diretoria de Transformação Digital da Caixa. Visão parecida tem Marino Aguiar, CIO do Banco Santander. “Quem faz a transformação digital são as pessoas”, enfatizou. Por isso, é preciso mudar a cultura interna. Segundo o presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, “não é possível se lançar em uma jornada de transformação sem mudar a forma como nós trabalhamos internamente”. “Se os clientes hoje desejam ter mais autonomia, processos mais rápidos, nós também precisamos permitir aos nossos

colaboradores um grau de autonomia maior e a possibilidade de fazerem entregas mais rápidas”, defendeu o executivo. O diretor de Recursos Humanos do Bradesco, Victor Queiroz, citou a UniBrad (Universidade Corporativa Bradesco) como uma ferramenta fundamental para auxiliar no processo de transformação digital dentro da corporação. Segundo ele, a tecnologia da informação é uma alavanca importante de um “processo cognitivo para tornar as decisões mais assertivas; mas as pessoas são o diferencial”. “As tomadas de decisões podem ser cada mais vez subsidiadas por dados, mas, em última instância, a relação humana influencia completamente esses processos de tomada de decisão”, diz. A transformação digital também obrigou as corporações a darem mais autonomia aos profissionais, já que as decisões têm que ser tomadas cada vez mais rapidamente. Por isso, como destaca o CEO e membro do Conselho de Administração do Banco BTG Pactual, Roberto Sallouti, é necessário dar espaço para que

“A GENTE INCENTIVA AS PESSOAS A DAREM IDEIAS, A ERRAREM NO TAMANHO CERTO, A NÃO SE INCOMODAREM EM TOMAR INICIATIVA Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual

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Claudia Politanski, vice-presidente do Itaú Unibanco, diz que maior desafio das instituições é criar condições para que empreendedorismo possa ser incorporado nas grandes empresas

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todos, desde os estagiários, possam contribuir para o crescimento da empresa. “A gente incentiva as pessoas a darem ideias, a errarem no tamanho certo, a não se incomodarem em tomar iniciativa; a gente não pune a criatividade”, disse Sallouti, também palestrante do congresso de TI. Para o CIO de Tecnologia do Banco Sofisa, Daniel Müller, “a transformação digital precisa permear todas as áreas da organização” e “ter pessoas com mindset [mentalidade] correto, sintonizadas com esse desafio”, pois só assim conseguirá atender as necessidades que os clientes exigem. “Não adianta começar a fazer uma transformação digital pela área de tecnologia; precisa todo mundo fazer isso em conjunto”, ressaltou. “Você precisa puxar as pessoas pelo propósito da companhia.” Além disso, as grandes empresas enfrentam desafios para atrair talentos. Segundo Claudia Politanski, vice-presidente do Itaú Unibanco, também palestrante do CIAB FEBRABAN, muitos jovens têm procurado alternativas fora das grandes empresas porque querem empreender, ter um propósito. “O maior desafio que nós empresas temos é justamente criar condições para que este empreendedorismo possa acontecer nas nossas empresas, para que haja espaço de interação, criatividade, flexibilidade, para que a capacidade de empreender possa ser incorporada dentro das grandes empresas.”


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No dia a dia do cliente Por Marcelo Burgos

Futurista Gerd Leonhard, no CIAB FEBRABAN: só a eficiência não fará a diferença; os bancos têm de investir no relacionamento com o cliente

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futuro bancário, não restam muitas dúvidas, também será definido pelas fintechs e pelas empresas bigtech - que capturam cada vez mais a cadeia de valor do setor, fornecendo serviços como pagamentos e até mesmo contas de poupança. Os novos participantes representam um desafio para todos, aumentando as expectativas e as formas de serviço, e entrando na relação entre as instituições financeiras e seus clientes. Os diferenciais vão muito além de melhorar ofertas bancárias online ou tornar produtos e serviços atuais “mais digitais”. E exigem que bancos avancem no dia a dia dos clientes, prestando assistência antes, durante e depois de cada transação financeira. A opinião é do futurista Gerd Leonhard, um dos keynote speakers do CIAB FEBRABAN 2018, CEO da “The Futures Agency” (em português, “A agência do futuro”), que fica em Zurique, na Suíça, e tem o objetivo de ajudar clientes a descobrir, entender e a criar o futuro que desejam. Outro fator determinante da evolução da indústria de pagamentos são as ofertas de serviços financeiros feitas aos clientes pelas redes sociais. Para Leonhard, as redes sociais,

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integradas às bandeiras dos bancos, precisam oferecer operações simples, seguras e inteligentes. E segundo o especialista, analytics, computação cognitiva e inteligência artificial formam a tríade de tecnologias que vai desvelar esse admirável mundo do futuro. “Ele é muito melhor do que você imagina”, garante. De acordo com o especialista, o futuro está mais conectado à maneira como se pensa do que ao momento em que isso ocorrerá de fato. “O futuro não está mais no tempo e qualquer previsão tem de levar em conta a escala e a imprevisibilidade”, disse Leonard. O universo digital dobra a cada dois anos e ocupará 44 trilhões de gigabytes até 2020, sendo que 2 milhões trafegarão em dispositivos conectados à internet. “Pensar em um modelo de negócios já é confiná-lo a um modelo ultrapassado”, afirma o futurista. Ele arrisca algumas características, como um banco nos moldes do Spotify (aplicativo de música): “fluído, poderoso, barato e personalizado, feito a partir do zero”. Gerd acha muito difícil traçar caminhos, mas também aposta em algumas quebras de paradigmas. Ele acha, por exemplo, que a eficiência, pura e simples, não atrairá tanto mais o cliente no


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futuro. Para o especialista, é o relacionamento que fará a diferença, já que o cliente bancário quer uma instituição que se preocupe com sua comodidade, por exemplo. O cliente já não quer ir mais a agências para fazer serviços bancários, e demanda informações financeiras e a capacidade de realizar transações de onde estiver, destaca o futurista. Além disso, os algoritmos beneficiarão o novo ecossistema bancário ao aumentar as interações e o envolvimento do usuário. Com isso, o engajamento ficará mais forte, porque o consumidor desfrutará dos benefícios de um parceiro financeiro que poderá

Gerd Leonhard acredita que eficiência não atrairá tanto mais o cliente no futuro, e o relacionamento entre instituição e consumidor, que quer comodidade, é o que fará a diferença

antecipar suas necessidades, recomendando soluções ideais. O futurista também afirmou que acredita no valor das máquinas. “Elas estarão em absolutamente todos os lugares daqui a cinco anos”, diz. “Provavelmente, nossos netos nunca dirigirão um automóvel”, prevê. revista CIAB FEBRABAN

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Máquinas que aprendem

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ual é a diferença entre inteligência artificial, machine learning e aprendizado profundo? Para os especialistas que estiveram este ano no CIAB FEBRABAN para falar de futuro, uma coisa é certa: esses conceitos remodelarão a forma de vivermos e fazermos negócios. Termo falado pela primeira vez em 1956 pelo estudioso John McCarthy, a inteligência artificial envolve máquinas que podem executar tarefas características da inteligência humana. Isso inclui teoricamente coisas como planejamento e compreensão. Já o machine learning é uma maneira de alcançar

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essa inteligência. Analogias normalmente ocorrem com o aprendizado de crianças. “Mas é impossível comparar. Uma criança pode fazer afirmações sobre o mundo, coisa que o computador não pode, e dificilmente poderá”, explica a irlandesa Nell Watson, engenheira, empreendedora, futurista e uma das mais renomadas palestrantes da atualidade no tema inteligência artificial e keynote speaker do congresso de TI. “A criança tem acesso ao sistema estruturado de aprendizado, mas também ao não estruturado, que é a vida”, afirma. Segundo a especialista, o aprendizado da máquina é uma


forma de “treinar” um algoritmo para que ele possa aprender. O treinamento envolve alimentar enorme quantidades de dados ao algoritmo e permitir que este se ajuste e melhore.

O aprendizado profundo é uma das muitas abordagens para o aprendizado da máquina. Foi inspirado pela estrutura e função do cérebro, ou seja, a interconexão de muitos neurônios. Redes Neurais Artificiais (RNAs) são algoritmos que imitam a estrutura biológica do cérebro. Nas RNAs existem “neurônios” que possuem camadas e conexões com outros “neurônios”. Cada camada seleciona um recurso específico para aprender, como curvas/ bordas no reconhecimento de imagem. É essa camada que dá nome ao aprendizado profundo. A profundidade é criada usando várias camadas em oposição a uma única camada. Nas palestras dos futuristas feitas no CIAB FEBRABAN este ano, a discussão mais recorrente foi a convivência entre homens e máquinas. Não há dúvidas da presença crescente das máquinas no nosso dia a dia - uma vez que elas já estão lá, em nossos aparelhos integrados cada vez mais na internet das coisas - e ao mundo, por mais que eles ainda não tenham a cara dos robôs da ficção científica. Sem entender como deixamos estes seres estranhos chegarem progressivamente mais perto de nós, começamos a formular perguntas cada vez mais difíceis de responder. A especialista Nell Watson começa com a questão mais complicada, porque espelha a realidade: "uma máquina pode ser capaz de comportamento ético?". Sem resposta, ela emenda uma questão ainda mais retórica: "Pode um dia um ser humano ser capaz de ter um comportamento ético?”, compara. “Estamos diante de uma singularidade moral movida pela máquina no futuro próxi-

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Aprendizagem profunda

mo, e surpreendentemente, máquinas amorais serão menos problemáticas que as supermorais”. O que ela quer dizer é que ensinar padrões rígidos demais às máquinas poderá ser um problema sério, uma vez que elas terão dificuldades em relativizar conceitos. Se a convivência com a inteligência artificial é uma grande questão para as empresas, o assunto muda de proporção quando a computação quântica é abordada. “Nela, os bits tradicionais dos computadores são substituídos pelos qubits, uma versão quântica que não possui apenas dois ‘valores’, mas uma infinidade deles”, explica Chris Schnabel, gerente desta área na IBM, que proferiu a palestra Computa-

A futurista Nell Watson durante palestra sobre inteligência artificial no CIAB FEBRABAN 2018

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Chris Schnabel, da IBM, diz que empresas estão investindo em computação quântica para resolverem problemas considerados inimagináveis

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ção Quântica - A Nova Era do Processamento. O bit é a menor unidade de informação que pode ser armazenada ou transmitida, e pode assumir somente dois valores: 0 ou 1. Uma analogia para entender o bit são as posições de um interruptor de luz - a posição desligada pode ser representada por 0, enquanto a posição ligada pode ser representada por 1. Já o qubit é uma unidade de informação quântica, que pode ser 1, 0, ou os dois ao mesmo tempo. “O fato de um qubit poder assumir três valores em vez de um é o que torna possível realizar cálculos até então inviáveis”, afirma Schnabel. “Sendo assim, as gigantes estão investindo pesado na tecnologia para saírem na frente e terem em mãos computadores capazes de resolver problemas inimagináveis.” Segundo Schnabel, tudo ainda é recente e as companhias não sabem ao certo como esse futuro quântico

se dará. “No entanto, nenhuma delas pode ficar de fora dessa corrida tecnológica”, explica. A IBM anunciou recentemente o IBM Q, uma plataforma que abriga computação quântica na nuvem, e em novembro do ano passado, a companhia revelou dois novos processadores de computadores quânticos, de 20 qubits e 50 qubits. “Com o objetivo de popularizar o tema e torná-lo comercialmente viável nos próximos anos, a companhia está incentivando fortemente a experiência do computador quântico por meio de sua plataforma IBM Q. A empresa segue a mesma estratégia usada na promoção do Watson, seu sistema de inteligência artificial cognitiva já amplamente usado no mundo”, explica Chris. Em março deste ano, o Google também evoluiu em seu projeto apresentando o processador Bristlecone, que pode atingir capacidade de 72 qubits. (Marcelo Burgos) n


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Inclusão e biometria facial são temas das fintechs vencedoras no CIAB FEBRABAN Por Claudia Rolli

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Soluções de “CPF facial”, aplicativos para não bancarizados e app com base em blockchain serão apresentadas para executivos das principais instituições financeiras do país


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nclusão financeira e segurança nas transações por aplicativos, novas plataformas para transações financeiras e algoritmos de biometria facial são temas que estão não só no foco de novas tecnologias no setor financeiro, mas que também levaram três fintechs brasileiras a vencer a disputa do CIAB Fintech Day neste ano. A FullFace, startup especializada na identificação de pessoas por meio de algoritmo de biometria facial; a Ewally, empresa de tecnologia com uma carteira digital baseada em blockchain; e o Banco Digital da Maré, fintech social que atende regiões sem acesso ao sistema financeiro com um app de meio de pagamento, se destacaram entre as 14 finalistas de seis países que participaram do 28º CIAB FEBRABAN, maior feira do setor de tecnologia bancária e da indústria financeira da América Latina, e venceram a competição.

As três empresas poderão apresentar seus projetos a executivos das principais instituições financeiras e as duas que obtiveram melhor avaliação – FullFace e Ewally – participarão da feira internacional Money 2020, evento que ocorrerá em Las Vegas (EUA) em outubro, com patrocínio do CIAB FEBRABAN. Criada em 2013, a FullFace desenvolveu uma tecnologia que funciona com uma espécie de CPF facial de cada pessoa. “Pesquisamos muito o tema e, apesar de termos criado a empresa há mais tempo, sentimos que o mercado ficou mais maduro para as soluções que envolvem biometria facial só de dois anos para cá”, diz Danny Kabiljo, engenheiro civil e CEO da empresa. “Antes, nos consideravam muito futurísticos; algo que parecia realidade de filmes como Minority Report ou Star Trek”, brinca. Com o sócio e CTO da empresa, José Guerrero, graduado em Sistema de Informa-

Equipe da FullFace desenvolveu tecnologia que funciona com uma espécie de CPF facial de cada pessoa; precisão da biometria facial chega a 99%

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Integrantes da Ewally desenvolveram app para não bancarizados que permite fazer depósito, saque, ter cartão e pagar conta

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ção Universidade de Harvard e com doutorado no MIT (sigla em inglês para o Instituto de Tecnologia de Massachusetts), a FullFace criou, após dois anos de pesquisa, um algoritmo que permite fazer um reconhecimento facial “sob medida”, acessível a diferentes setores e tipos de negócio. A companhia aérea Gol é uma das empresas que adotou o produto em seu check-in e a primeira do setor, no mundo, a usar a tecnologia de identificação de pessoas por meio de algoritmo de biometria facial da Fullface. “Já estamos completando um ano de uso e conseguimos aprimorar nosso algoritmo; a métrica é constante e posso dizer que a aplicação está estável”, diz o engenheiro. A precisão da biometria facial chega a 99%, com 1.024 pontos da face analisados que geram, em tempo real, medidas e proporções capazes de permitir a geração de um código único para cada pessoa. Até então, o que existia no mercado mundial analisava 86 pontos. O software

leva 0,05 décimos de segundo, por exemplo, para diferenciar dois irmãos gêmeos e também impede o uso de fotos para enganar o sistema. A solução da Fullface já recebeu apoio de um grupo de investidores-anjos e a empresa foi convidada a se instalar no Cubo, do Itaú Unibanco, além de receber menção no relatório mundial do grupo Gartner, como uma das startups mais disruptivas do setor. A previsão é faturar R$ 2,5 milhões neste ano e a empresa negocia com duas instituições o algoritmo de biometria facial no setor bancário. A solução já é usada nos setores de saúde e educação e está em estudo no varejo.

Caixa eletrônico ambulante Com a experiência que trouxe do setor de telecomunicações, de inclusão digital e do World Economic Forum, o engenheiro André Cunha, CEO da Ewally, mirou o setor financeiro com um objetivo: atender a população não bancarizada, quase 55 milhões de pessoas sem acesso a serviços


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Grupo do Banco Maré fez app com base em blockchain, em que as pessoas podem comprar no comércio, por meio de QR Code, e também podem pagar contas

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como pagamento de ou transferência de dinheiro. Foi assim que nasceu a Ewally em 2013 para democratizar serviços financeiros, usando sua formação de engenheiro. “A tecnologia é toda nossa. Qualquer pessoa em qualquer localidade pode fazer depósito, saque, ter cartão e pagar uma conta”, diz Cunha, ao explicar que o aplicativo atende também microempreendedores individuais – os MEIs. “São autônomos, gente que não tem condição de manter uma conta e pagar tarifas, e muitos estão com nome restrito. Criamos esse conceito de transformar cada ser humano em um caixa eletrônico ambulante, como se fosse um banco”, completa. Mas como alguém pode ser um caixa eletrônico? Ele explica: “na prática, o app funciona como o Uber, que conecta um motorista a quem precisa do serviço.” A pessoa faz tudo pelo celular, com a maioria das tarifas gratuitas; basta baixar o app

e se cadastrar. O usuário tem de ter uma senha e a tecnologia usada tem mecanismo antifraude, explica o CEO da fintech. Ao acionar o app da Ewally, a solução procura as pessoas mais próximas do usuário interessado em fazer a transação – como um saque, por exemplo. São os “agentes Ewally”, que recebem uma comissão a cada operação. “O sistema vai buscar o primeiro que aceitar a sua ‘corrida’, ou, a sua transação. Conecta as duas partes, e as coloca em contato para se encontrarem.” Os dois lados podem conferir, por meio de comentários e notas concedidas por outros clientes do app, a eficiência de cada um e decidir se vão fazer a transação. Assim que é feita, o usuário também dá uma classificação para o serviço, como a nota que o motorista do Uber recebe. A credibilidade do sistema vem dessa avaliação, ressalta Vitor Cunha, diretor da empresa e filho de André. “Se houver uma tentativa de fraude, nossos analistas já conseguem identi-


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ficar, além de que essa pessoa já teria recebido nota zero de outro usuário.” A Ewally já tem mais de 20 mil usuários e a meta é chegar a 2 milhões nos próximos cinco anos. Entre os usuários, a maior parte está na faixa de 18 a 35 anos, 55% são homens, espalhados por diferentes regiões do país – muitas delas sem acesso a lotéricas nem agências. Pelas regras atuais é permitida a movimentação de até R$ 5 mil por mês. A startup foi escolhida para participar do programa internacional da Oracle, em que desenvolve um sistema específico de pagamento de contas, baseado na tecnologia de blockchain. Também foi uma das escolhidas

no InovaBra, do Bradesco, e já passou por processo de aceleração da Artemisia, uma organização sem fins lucrativos, pioneira na disseminação e no fomento de negócios de impacto social no Brasil. A empresa negocia a solução com um grande banco, além de uma parceria de negócios com a Cielo e já estuda a oferta de novos serviços. A concessão de crédito entre as pessoas (peer to peer lending), após o Banco Central regulamentar essa operação de empréstimos coletivos, é um dos negócios em desenvolvimento pela Ewally para 2019. Para a criação da empresa, foram investidos inicialmente R$ 6 milhões, prin-

App de monitoramento ganha disputa entre insurtechs Um aplicativo de monitoramento preventivo que alerta autoridades e pessoas próximas do usuário sobre situações de perigo venceu a competição realizada pela primeira vez no CIAB FEBRABAN com as insurtechs, as startups de seguros. A solução da Nearbee inclui desde proteção familiar até rastreadores de bicicletas, animais domésticos e aplicações de segurança comunitária. A plataforma apresentada pela Nearbee concorreu com mais 2 insurtechs: Bitix, plataforma de e-commerce para planos de saúde; e Straton Care Cyber, que faz comparação e contratação online de seguro cibernético. O app permite que em emergências, o usuário consiga ajuda instantânea de amigos e familiares pré-cadastrados e socorristas voluntários; ofereça ajuda para pessoas próximas; e veja quantas pessoas próximas estão aptas a ajudar no momento em que for preciso. Felipe Fontes, CEO e fundador da Nearbee, acredita que há um movimento de consolidação do “mercado da proteção”, que vai desde a proteção preventiva, como monitoramento eletrônico, até a reparação de danos, através de seguros. “Os clientes, cada vez mais, buscam soluções completas, que os protejam preventivamente, os ajudem em uma emergência e reparem eventuais danos”, afirma. “Assim, seguradoras têm a oportunidade de criar este tipo de canais de relacionamento e serviços aos seus clientes”, complementa. (Adriana Mompean) revista CIAB FEBRABAN

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cipalmente em tecnologia, e hoje a Ewally emprega 20 pessoas. “Pretendemos dobrar em breve”, diz Cunha. Outro serviço que deve entrar em operação neste semestre é a transferência internacional de recursos – de quem está no Brasil para o exterior e vice-versa. “O objetivo é reduzir o custo da remessa, por volta de 50% e atender não só os EUA, mas também Japão e Cuba, por exemplo, com a população de médicos deste país que trabalham por aqui”, diz o presidente da Ewally.

WhatsApp dos bancos Para atender as regiões sem acesso ao sistema financeiro e com foco na inclusão financeira, o analista de sistemas Alexander Albuquerque montou o Banco Maré, nome que surgiu em homenagem às 17 comunidades que compõe o Complexo da Maré, na zona norte do Rio, onde a startup começou a operar. São cerca de 200 mil moradores nesse conjunto de favelas. “A ideia inicial era atender um pedido dos líderes da comunidade para criar um meio de pagamento para os moradores porque não há agências no local e as pessoas têm de se deslocar, pegar ônibus para ir ao banco pagar uma conta ou fazer uma transferência”, conta Albuquerque. “Com ajuda de amigos, criamos um aplicativo, com base em blockchain, em que as pessoas podem comprar no comércio local, por meio de QR Code, e também podem pagar suas contas”, explica. O app criado funciona como o e-Chat na China, que atende milhões de pessoas que usam a solução para pagar contas. A antiga creche abandonada da Maré, antes sede da associação de bairro, onde os moradores iam buscar suas correspondências, virou a agência do banco virtual na comunidade. “Começamos com duas pessoas e hoje temos dez trabalhando, que foram contratadas

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da própria Maré, sete delas já cursando a faculdade”, diz o analista. Após quase dois anos de preparação e R$ 500 mil investidos, a empresa passou por processos de aceleração, do Facebook e Artemisia. Agora já está chegando em comunidades de outras regiões do país, como na de Heliópolis (SP) e, ainda neste semestre, também em Paraisópolis (SP). No Rio, a expansão será para a Rocinha e Rio das Pedras. Somente no complexo da Maré são 9 mil usuários; e a meta é chegar até dezembro com 120 mil clientes no país todo. Uma parceria com a Caixa deve levar os serviços do banco para a região de Arapiraca (PE), que podem ser estendidos para todo o Nordeste. “Queremos ser o WhatsApp dos bancos: uma plataforma simples e usada por qualquer pessoa, de qualquer classe social”, diz Albuquerque. “É assim que vemos o acesso ao sistema financeiro.” Além de um cartão pré-pago para pagar contas e uma moeda social – batizada de palafita em homenagem às primeiras casas construídas na Baía de Guanabara (RJ), – o banco está fechando parceria com a RioCard, para oferecer o serviço de recarga do bilhete único. Gerente regional do banco, Jeane Oliveira é uma das moradoras de uma das comunidades da Maré, que precisava gastar quase R$ 8 de transporte público para chegar a uma agência bancária. “Precisava pegar um ônibus até Bonsucesso, levava uma hora para ir e voltar e fora o tempo na fila”, conta. “Um dia me apresentaram o banco, eu estava com bebê no colo e decidi dar um voto de confiança; daí para frente, virei cliente e depois funcionária.” “Comecei como atendente, na agência que funciona em parceria com o comércio lá na comunidade e hoje sou gerente regional do Rio. Com a ajuda do banco, estudo economia.” n


maratona de programação

Ferramenta de gestão e comércio por aplicativo de mensagens vence 2º Hackathon Por Maíra Teixeira

Evento teve o objetivo de incentivar desenvolvimento de soluções de finanças digitais para micro e pequeno empreendedor

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cliente conversa com o dono do pet shop do bairro e efetua a compra de remédio para seu cachorro por meio de aplicativo de conversa. Recebe o boleto, paga e combina se vai pegar na loja ou se espera a entrega em casa. Concluída a venda, o comerciante atualiza o sistema no mesmo ambiente, fazendo, inclusive, a baixa no estoque. Isso é feito usando apenas um aplicativo, o GestãoZap, extensão para o navegador que funciona de forma similar ao WhatsApp Web, desenvolvida e programada na 2ª edição do Hackathon CIAB FEBRABAN - disputa entre programadores e desenvolvedores promovida no congresso de TI. A ideia do time vencedor da competição inspirou-se na falta de experiência em gestão do pequeno empresário e microempreendedor. “Identificamos que existem várias ferramentas de gestão, mas que era preciso tirar uma hora do dia para fazer o processo”, explica Ulysses Rocha, desenvolvedor do GestãoZap. “Micro e

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pequeno empreendedor usam muito o WhatsApp Web e pensamos que essa ferramenta de gestão tinha de ser a mais prática, mais ágil; e foi o que fizemos.” Os idealizadores do projeto planejam receber, como retorno, 3% do valor das operações efetivadas. A ferramenta de gestão financeira e CRM (termo em inglês para Gestão de Relacionamento com o Cliente) para o microempreendedor via extensão para computador funciona com os contatos da agenda do comerciante e da loja. Para chegar à final do Hackathon CIAB FEBRABAN 2018, o GestãoZap precisou superar 19 protótipos de ferramentas tecnológicas orientadas para a inclusão financeira dos pequenos negócios. “O tema deste ano reflete o interesse dos bancos em desenvolver soluções de alta tecnologia para um país com um número cada vez maior de micro, pequenos e médios empreendedores”, conta Bruno Diniz, sócio-diretor da Spiralem, em-


Luiz Michelini

maratona de programação

MARATONA

de casa, por exemplo”, afirma. De acordo com Assumpção, as soluções para esse tipo de empreendedor começam com educação financeira para combater as taxas de insucesso, decorrentes da falta de visão administrativa. A relevância do setor é crescente e geradora de riqueza no país. Segundo dados do Sebrae, as Micro e Pequenas Empresas (MPEs) responderam por 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado, ou 16,1 milhões postos de trabalho em junho/2018. Já os microempreendedores chegavam a cerca de 7 milhões de MEIs, segundo o Portal do Empreendedor.

A primeira etapa da disputa foi realizada ao longo de 32 horas ininterruptas de programação e desenvolvimento de negócio, na Digital House, nos dias 9 e 10 de junho. Ao todo, 20 times apresentaram seus projetos no fim de semana, do qual saíram quatro finalistas. Cada grupo concorrente tinha de ser formado por programador, designer, especialista em finanças e especialista em negócios. A meta proposta pela organização foi objetiva: desenvolver um produto ou solução de inclusão financeira dos pequenos negócios. Quatro requisitos eram obrigatórios nos projetos: modelo de negócios, viabilidade, validação e aderência aos desafios.

presa especializada em inovação, contratada pela FEBRABAN para fazer o hackathon pelo segundo ano consecutivo. O gerente de eventos da Federação, Marcelo Assumpção, afirma que os grandes bancos têm trabalhado para resolver uma lacuna no sistema financeiro e buscam incluir os pequenos empreendedores, como pipoqueiros, camelôs, costureiras, neste mercado. “Esse público abre conta de pessoa física e usa para o negócio também; isso gera confusão, pois usam lucros para pagar contas

Equipe vencedora do 2º Hackathon CIAB FEBRABAN desenvolveu o aplicativo GestãoZap, extensão para o navegador que funciona de forma similar ao WhatsApp Web

Próximos passos Agora, a equipe do GestãoZap se reunirá com os bancos, mas o grupo já comemora os contatos realizados no congresso de TI. “Fizemos um bom parceiro na feira, depois de ganhar o hackthon; e já vamos utilizar um sistema de pagamento existente para geração e pagamento de boleto, que deve ficar pronto no fim de agosto, começo de setembro”, conta Rocha. n revista CIAB FEBRABAN

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inovação nas pmes

Instituições financeiras e startups criam soluções e apps de gestão para incentivar pequenas empresas Por Maíra Teixeira

Importância de segmento que mais emprega no Brasil leva bancos e bandeiras de cartões a soluções que integram negócio, administração e meios de pagamentos

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segmento que mais gera empregos no Brasil tem inspirado uma revolução, provocada pela necessidade de inovar em processos que afetam o dia a dia do brasileiro. Seja na massificação do uso das tecnologias ou pela gestão administrativa facilitada por aplicativos, sites ou plataformas, as pequenas e médias empresas (PMEs) e microempreendedores individuais (MEIs) têm chamado a atenção do setor financeiro. Os números do setor justificam o interesse: o Brasil tem cerca de 20 milhões de pequenas e médias empresas e MEIs (o que representa 98,5% do total de empresas no Brasil e geram 54% dos empregos formais no país). Mesmo com todo esse potencial, é preciso entender as dificuldades deste público para que as inovações sejam úteis e gerem os

“TODO EMPREENDEDOR BUSCA E MERECE O SUCESSO, MAS ELE PRECISA ENTENDER AS FORMALIDADES, BUROCRACIAS” Pedro Romero, do ContaAzul

fluxos e resultados necessários. O setor financeiro tem feito a lição de casa, com soluções tecnológicas para os diversos tamanhos de empresas, e está atento às necessidades de personalização e inovações capazes de integrar consumidor, fornecedor, instituições e até contadores. As PMEs e MEIs enfrentam dificuldades comuns, como os desafios na administração do negócio e gerenciamento de fluxo de caixa, a menor capacidade de investimento, a confusão entre a existência da pessoa física com a jurírevista CIAB FEBRABAN

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“QUEREMOS FORMAR UM ECOSSISTEMA DE BANCOS, ADQUIRENTES E COMÉRCIO, QUE VALORIZE A BOA GESTÃO” Maria Regina Botter, da Visa

dica e a falta de noções de gestão. “Todo empreendedor busca e merece o sucesso, mas ele precisa entender as formalidades, burocracias; não é algo simples”, afirma Pedro Romero, head de Desenvolvimento de Novos Negócios do ContaAzul – plataforma de soluções que oferece serviços e ferramentas que ajudam na expansão do negócio e na capacidade de decisão do gestor.

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Segundo especialistas, um dos principais problemas é a falta de controle e separação entre pessoa jurídica da empresa e a pessoa física de seu proprietário. “Os pequenos empreendedores, pela falta de conhecimento administrativo, podem não ver o negócio todo, em decorrência da falta de visão ampla”, afirma Romero. Para Douglas Almeida, responsável por acesso à mercados e serviços financeiros do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), a mortalidade precoce das pequenas e médias empresas tem relação com a visão dissociada entre a administração e a venda do produto ou serviço. “É preciso


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capacitação e educação financeira para que as PMEs cresçam, consigam obter crédito para expansão e cheguem à maturidade”, analisa Almeida. “As contas juntas prejudicam o desenvolvimento do negócio; o empreendedor sabe desenvolver uma ideia e vender, mas peca na gestão”, complementa.

Soluções tecnológicas O ContaAzul reúne um sistema de gestão online em um site que inclui contadores no processo, e integra todo o negócio com ambiente fiscal, regulatório e financeiro. “Centralizamos numa plataforma as informações, e automatizamos as rotinas com integrações de pagamentos e recebimento de consumidores e fornecedores, recolhimentos de taxas e impostos”, diz Romero. O ambiente, diz ele, propicia a visualização e acompanhamento de dados estratégicos que auxiliam nas decisões de forma simples e rotineira. “Os pequenos empresários ganham tempo para se dedicar ao negócio”, afirma. O ContaAzul é um serviço vendido por meio de assinatura de planos, com valores entre R$ 79 e R$ 409.

Controle

Cidmar Luis Stoffel, da Sicredi: cooperativa aposta no acesso ao crédito para quem é produtivo e coloca público em contato com os meios de pagamentos digitais

Marcos Suguio

A Visa desenvolve várias frentes de trabalho em parceria com bancos e startups para trazer soluções ao setor financeiro. Uma delas é o Visa Payment Control, ferramenta que cria parâmetros de controle de custos e gas-

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tos. “Temos o cartão do sócio, que permite segmentar desembolsos para uma pessoa de acordo com a área pela qual é responsável”, explica Maria Regina Botter, diretora de produtos da Visa. De acordo com ela, enquanto um sócio faz transações em postos de gasolina, restaurantes e serviços gerais, outro fica responsável pela compra de suprimentos, celulares, maquinários etc. “O uso gera alertas e mensagens que informam as transações em tempo real.” A empresa enxerga potencial muito grande neste segmento. “É uma oportunidade de atuar junto, promovendo educação e inclusão financeira; queremos formar um ecossistema de bancos, adquirentes e comércio, que valorize a boa gestão”, afirma Maria Regina. Outra solução oferecida pela Visa é o ExpenseOn, uma plataforma integrada que automatiza todo o processo de gerenciamento de reembolso de despesas das empresas, trazendo redução do tempo gasto na prestação de contas, aumento de produtividade das equipes e redução das despesas corporativas.

Universalização dos meios A cooperativa Sicredi aposta no acesso ao crédito para quem é produtivo, de maneira simples, pondo seu público em contato com os meios de pagamentos digitais. A instituição, que tem quase 1.600 agências no Brasil, investe fortemente nas agências digitais. “Todo associado tem conta poupança e organizador financeiro; cria-se assim o hábito de observar as movimentações financeiras e suas finalidades, como numa fotografia do que está acontecendo com os recursos que entram e saem”, afirma Cidmar Luis Stoffel, diretor-executivo de produtos e negócios no Banco Cooperativo Sicredi. A instituição tem implantado “agências contêineres” (sem caixas, sem ATM, sem tran-

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sação em dinheiro) e formula estratégias para as ações mais inovadoras. Um exemplo ocorre em Cafeara (PR), cidade de 3.000 habitantes e que tem hoje 400 correntistas do Sicredi. Em 25 de agosto, a cooperativa realizará, em parceria com a Visa, uma quermesse para apresentar e incentivar o uso de meios de pagamentos digitais. Neste dia será “proibido” usar dinheiro e todos os estabelecimentos serão incentivados a usar as máquinas leitoras de cartões da instituição (e terão as cobranças nas transações suspensas). No evento, serão oferecidos aos novos associados cartão de crédito sem anuidade; e, para não associados, serão distribuídos pulseiras e cartão pré-pago com crédito para pequenas compras, como as de alimentos na quermesse. “Idealizamos esse evento para que toda a comunidade possa ter a sensação de ser bancarizada e saber como é fácil usar a tecnologia”, afirma Stoffel.

Transporte público O mercado de benefícios e cartões pré-pagos também simplifica soluções para empresas com poucos funcionários. A Mastercard testa em Jundiaí (SP) o pagamento de viagens em toda frota de ônibus públicos por meio de cartão com tecnologia de aproximação. O desconto da passagem pode ser em cartões de crédito, débito e pré-pagos, ou por meio de smartphones e wearables (como pulseiras e outros vestíveis), de forma simples e inteligente: basta aproximar no validador e passar pela catraca. “Essa é a primeira experiência na América Latina, e ocorre depois de um projeto-piloto realizado em Londres”, conta Paulo Frossard, vice-presidente de Desenvolvimento de Mercado da Mastercard para Brasil e Cone Sul. n


O novo cliente digital

Na conquista dos millennials Por Françoise Terzian

Com idades entre 18 e 36 anos, a geração que nasceu ou alcançou a maioridade neste milênio será a maioria da população em 2020. Ela vai mudar a ordem mundial e também a forma como se vive, trafega pelas ruas, faz compras e também se relaciona com os bancos. Para atendê-los, as instituições financeiras já iniciaram uma profunda mudança em seus produtos e soluções bancárias

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O novo cliente digital

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esde a abertura do banco hoje considerado o mais antigo do mundo, o Monte dei Paschi di Siena, na região italiana da Toscana em 1472, o universo bancário evoluiu anos-luz, incentivado especialmente pela união da computação e telefonia - e as instituições brasileiras, que só no ano passado investiram R$ 19,5 bilhões em tecnologia da informação, estão entre as mais avançadas nesse processo. Apesar de toda evolução que transformou o Brasil em um modelo de tecnologia bancária para o mundo, porém, o momento é de mudanças profundas para o setor. O motivo das transformações é a fatia da população conhecida por geração dos millennials (leia mais nesta edição). Esse público desafia os bancos na busca de produtos e soluções tecnológicas que precisam ser interativas e eficientes, mas sem perder o contato humano. É um segmento exigente, muito bem informado e multiconectado, esteja onde estiver, a qualquer hora do dia ou da noite. Para atender e conquistar a confiança destes clientes, os bancos usam inteligência artificial nos atendimentos em redes sociais, oferecem dispositivos vestíveis para pagamentos, fazem consultorias financeiras por whatsapp até de madrugada, e investem na contratação de profissionais diferenciados, como o “jornadeiro”, que pensa exclusivamente no que os especialistas chamam de “jornada do usuário” (e antes chamavam de “experiência do cliente”) nas operações bancárias. A intensificação de ações para atender os millennials se justifica para garantir a fidelidade de um cliente que sinaliza a intenção de deixar de usar instituições tradicionais. De acordo com um levantamento da consultoria Everis, apresentado no CIAB FEBRABAN 2018, um terço dos millennials revelou que espera abandonar os bancos nos próximos cinco anos. E

“PARA FALAR COM ELES [MILLENNIALS], OS BANCOS PRECISAM PASSAR POR UMA TRANSFORMAÇÃO QUE NÃO É TECNOLÓGICA, MAS HUMANOLÓGICA” José Ignacio Núñes, da Everis

metade deles imagina que os serviços oferecidos poderão ser supridos por fintechs ou outros tipos de soluções que devem chegar ao mercado. A Goldman Sachs estima que nada menos do que US$ 4,7 trilhões saiam da receita global dos bancos com destino às fintechs. No estudo comportamental “Cliente 3.0 - Estamos Preparados para Atendê-los?”, a Everis ouviu mais de 700 millennials no Brasil, de outubro de 2017 a fevereiro de 2018 - considerando como millennials pessoas nascidas entre 1980 e 1996. E o resultado revela que o Brasil é o 7º dentre os países com revista CIAB FEBRABAN

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mais membros dessa que é a geração mais bem informada da história. São 51 milhões de brasileiros. “Eles nasceram no mundo digital; são multiculturais, ansiosos, filhos da globalização, eco-responsáveis e abraçam a diversidade”, afirma José Ignacio Núñes, diretor da Prática e Bancos da Everis. Com enorme acesso a informações, os millennials são exigentes e estão sempre atentos. A pesquisa mostra que impressionantes 84% das pessoas nessa geração têm conhecimento de que são cobradas taxas de corretagem e administração em contas de investimento. E eles demandam ajuda: 64% demonstram necessidade por auxílio para gastar dinheiro com mais inteligência. Para eles, uma compra não representa apenas uma simples aquisição; significa, principalmente, valores éticos que eles desejam passar para o seu círculo social, dentro e fora das redes sociais. Cerca de 90% dos millennials

checam o celular até 15 minutos depois de acordarem, apontou o estudo Millennials and Wealth Management, da Deloitte, que considerou este público os nascidos entre 1980 até a virada do século 21.

Ações dos bancos “Não estamos vivendo uma era de mudanças, mas uma mudança de era”, define Jeferson Ricardo Garcia Honorato, superintendente-executivo do Next, plataforma 100% digital do Bradesco. Os millennials já respondem por cerca de 25% da população brasileira e têm grande poder de consumo. E, além deles, há hoje um total de 58 milhões de brasileiros hiperconectados – para quem o celular é uma extensão de suas mãos, e o Whatsapp, Instagram, Facebook e YouTube, uma extensão de suas vidas. De olho neles, o Next foi lançado em outubro de 2017. “Se alguém quiser uma con-

Afinal, quem são os millennials? Há controvérsias sobre a classificação dos millennials - também conhecidos por geração do milênio, Y e da internet. Enquanto alguns os definem como aqueles nascidos entre o início dos anos 80 e o início dos anos 2000, outros acreditam se tratar daqueles nascidos entre 1980 e meados dos anos 1990. Dados oficiais, no entanto, apontam que os verdadeiros millennials são, na média, aqueles que vieram ao mundo entre 1982 e 2002. Ou seja, os com idade entre 18 e 36 anos. Embora não haja consenso sobre os anos exatos em que as gerações atuais começam e terminam, elas nasceram antes da difusão dos computadores e telefones celulares. Mas, é importante ressaltar que um bom número de especialistas acredita existirem três grupos de millennials: aqueles que se formaram antes da grande recessão (crise econômica de 2007 e 2008), aqueles que se formaram durante a grande recessão e os graduados pós-recessão (Françoise Terzian).

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O cliente do futuro Perfil dos millenials (nascidos entre 1980 e 1996)

Vida financeira

3 Média da geração nasceu já nasceu no mundo digital, são multiculturais, eco-responsáveis e defendem a diversidade

3 9 em cada 10 millennials brasileiros querem comprar sua casa

3 São exigentes e querem que seus valores éticos passem para o seu círculo social, dentro e fora das redes sociais

3 Quando se trata de dinheiro, as “experiências” vencem as “coisas”: 78% escolheriam gastar dinheiro com uma experiência desejável ou evento, em vez de comprar algo desejável; e 55% disseram que estão gastando mais do que nunca em eventos e experiências ao vivo

3 Brasil fica em 7º lugar dentre os países com mais pessoas da geração millennial no mundo, com 51 milhões de pessoas

O que querem 3 73% dizem que seu maior sonho é viajar e conhecer outras culturas ao redor do mundo 3 43% esperam ganhar o suficiente para ter uma vida confortável; menos de 10% declaram querer enriquecer 3 43% esperam poder bancar pequenos luxos em seus futuros 3 42% estão interessados em ajudar as empresas a desenvolver futuros produtos ou serviços 3 Maior sonho de 42% dos millennials é ter um diploma

3 56% se consideram consumidores moderados; 24%, compulsivos; 15%, econômicos; e 5% acham que são “pão-duros” 3 84% têm interesse em ter sua própria empresa no futuro 3 38% dos millennials têm um objetivo mensal de economia, quase o dobro da porcentagem registrada entre da geração boomers -nascida entre 1945 e 1960

Fonte: “Estudo Comportamental Cliente 3.0 - Estamos preparados para atendê-lo?”, da Everis

3 Querem que marcas tragam consigo discurso com posicionamentos claros sobre assuntos como sustentabilidade, racismo e homofobia

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Como pensam os millennials

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Daiille Costa Toigo, advogada especialista em Direito Empresarial e Digital, 34 anos

Daiille Toigo faz praticamente tudo pelo celular: paga conta, vê o extrato, faz transferências e pagamentos

Ela faz tudo pelo aplicativos de bancos seja comercial ou de investimento. “Uso o mobile banking para minha conta pessoal no Itaú e Santander. Para o escritório, utilizo o Banco do Brasil”, conta a advogada Daiille Costa Toigo, que escreveu o livro Internet Banking: A responsabilidade Civil das Instituições Financeiras. Hoje, ela faz praticamente tudo pelo celular - paga conta, vê o extrato, faz transferências e pagamentos. “Só não consigo pedir bloqueio de talão de cheque, efetuar contrato de câmbio e consultar ou realizar resgate de pontuação de cartão de crédito.” Em uma agência bancária, ela só pisa quando precisa fazer mudança cadastral e efetuar algumas TEDs, ou seja: em casos raros que demandam assinatura. O celular também é seu aliado para fazer compras pela internet e controlar processos e andamento através do programa jurídico do escritório.

Breno Barros, diretor de Inovação e Negócios da Stefanini, 36 anos Heavy user de celular e de mobile banking, Breno Barros, diretor de Inovação e Negócios da Stefanini, usa vários bancos pelo celular - Itaú, Santander, Banco Original, Nubank e Agibank. “Resolvo tudo que preciso pelos apps; não me recordo da última vez que acessei o internet banking pelo computador”, diz ele. “Faço tudo pelo celular, inclusive mandar comprovantes pelo WhatsApp.” Como usuário assíduo dos apps, ele comenta ter percebido um problema que nenhum banco conseguiu resolver, que é a in-

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capacidade de estar, de fato, presente no dia a dia dos clientes. “A verdade é que os bancos não conseguem se relacionar comigo, eles não criam produtos aderentes às expectativas das pessoas”, critica. “Não quero comprar um carro, quero viajar; e não vejo nenhum deles me oferecendo um pacote de empréstimos para isso, hoje, o que eles oferecem ainda está concentrado em consulta de saldos, pagamento de contas e transferência”, diz. “Não consigo ver diferença de um banco para o outro. As inovações estão muito marginais.”


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Daniella Duques diz que se interessaria mais por ofertas de financiamento para um curso, intercâmbio ou viagem

Daniella Duques, analista de Assuntos Médicos da divisão de Consumer Health da Bayer, 29 anos “Eu pago para não ir ao banco”, brinca Daniella Duques, analista de Assuntos Médicos da divisão de Consumer Health da Bayer. Para isso, até o notebook ficou de lado. Quando o assunto é operação bancária, ela usa os apps Itaú, Itaú Tokpag (aplicativo para enviar e receber dinheiro), Itaucard e Banco Inter (100% digital, para investimentos). E faz tudo que pode pelo celular - paga contas, faz transferências, solicita serviços como cartão de crédito adicional, acompanha o extrato da conta corrente e poupança, assim como as movimentações da fatura do

cartão de crédito. Daniella também já contratou empréstimo consignado e habilitou o teclado do app do Itaú para efetuar transferências pelo WhatsApp. “Só vou ao banco mesmo para sacar ou depositar, e isso uma vez a cada dois meses”, conta. No mundo físico, raramente paga em espécie. Prefere usar o cartão. Em relação aos apps dos bancos, ela reparou que as ofertas recebidas sempre estão relacionadas à compra de um carro ou de uma casa, o que não desperta o seu interesse no momento. “Trabalho e moro perto da estação de trem e vivo de aluguel. Não estou pensando em adquirir um carro e nem um lugar fixo nesse momento”, afirma. “Realmente, seria mais interessante se a oferta fosse para financiar um curso, um intercâmbio ou uma viagem, coisas que me atrairiam muito mais.”

Para Barros, falta inovação e personalização de serviços e produtos para os bancos digitais. “O Bank of America, nos Estados Unidos, fez parceria com a American Airlines, Uber e Starbucks; quando você compra passagem pelo app do banco, consegue reservar Uber e reserva Starbucks para tomar na hora que chega ao aeroporto; são facilidades que vêm acompanhadas de milhas.”

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Breno Barros diz que ainda falta inovação e personalização de serviços e produtos para os bancos digitais


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“OS DISPOSITIVOS VESTÍVEIS SÃO UMA SOLUÇÃO PARA FACILITAR O DIA A DIA” Alexandre Zancani, do Santander

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sultoria às 3h via chat do Whatsapp, terá”, conta Honorato. “O pico de atendimento dos nossos clientes acontece das 22h à 1h.” Essa geração quer que os serviços financeiros adaptem-se à sua realidade, oferecendo fluidez, autonomia e tecnologia. O desejo dos millennials é encontrar nas plataformas financeiras o mesmo tipo de experiência que têm em outras plataformas digitais como Facebook, Whatsapp e Spotfy. “O objetivo do Next é justamente conquistar este público, mas não está restrito a ele: o cliente altamente conectado está em todas as gerações.”

Diante desse novo olhar, as marcas precisam trazer em seu discurso posicionamentos claros sobre assuntos como sustentabilidade, racismo, homofobia, transparência, facilidade, compartilhamento e ganho coletivo. E os bancos têm urgência em capturar essa nova geração como cliente. “Se demorarem, será tarde demais”, alerta Núñes. “Os millennials estão convencendo gerações anteriores a sair dos bancos ou a utilizar menos seus serviços; eles são influenciadores enormes das gerações anteriores e isso é perigoso.” Os millennials querem uma evolução total. Eles não querem bancos, mas precisam dos serviços bancários. Eles precisam de financiamento, mas não querem falar com um senhor atrás de uma mesa. Sonham em viajar ou fazer um intercâmbio ou curso especial, segundo mostram diversos estudos, como o da Everis (leia mais nesta edição). “Para falar com eles, os bancos precisam passar por uma transformação que não é tecnológica, mas humanológica; é preciso transformar o banco na cultura deles; falar com a linguagem deles”, diz Núñes. “Por isso, os bancos têm incorporado pessoas de outras áreas, para uma mudança de mentalidade.” Atenta a esse movimento, a operação argentina do Santander, lá conhecido por Santander Río, está trazendo mentes do universo digital para a sua operação. Um exemplo foi a contratação de Federico Procaccini, ex-número 1 do Google Argentina, que assumiu como CEO do Openbank Argentina - banco digital do Grupo Santander, que inicia suas operações no país latino no próximo ano. O executivo também já comandou o Mercado Livre na Argentina e foi eleito CEO inovador de 2017 no país, segundo a consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC). O que se espera do executivo é uma importante contribuição para o crescimento


O novo cliente digital

O banco montou uma equipe de atendimento diversificada para atender o novo cliente digital em múltiplos canais - das redes sociais às URAs (Unidade de Resposta Audível). “O atual contexto geracional impulsionado pelos millennials exige uma dedicação constante na construção da experiência do cliente”, garante Sanches. “O Itaú tem uma das melhores equipes de UX (do inglês user experience – experiência do usuário) do mercado, responsável por entregar soluções de alta tecnologia.”

“O ATUAL CONTEXTO GERACIONAL IMPULSIONADO PELOS MILLENNIALS EXIGE UMA DEDICAÇÃO CONSTANTE NA CONSTRUÇÃO DA EXPERIÊNCIA DO CLIENTE” Wagner Sanches, do Itaú Unibanco

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digital do Santander na Argentina, conforme afirmou Enrique Cristofani, presidente-executivo do Santander Río. No Brasil, um dos alvos dos investimentos da instituição é o canal digital, com 9 milhões de clientes. “A geração X (nascida de 1961 a 1981) está cada vez mais conectada, mas a geração Y já nasceu inserida num mundo tecnológico com TV a cabo e internet, portanto, com tendência a se relacionar com o banco por meio dos canais digitais”, observa Alexandre Zancani, diretor de Negócios Digitais do Santander. O executivo lembra que o foco da instituição não é garantir a fidelidade de um público específico, mas oferecer uma melhor experiência a todas as gerações, segmentos e faixas etárias. Hoje, uma das ofertas é o aplicativo Santander Way, que transforma o celular em uma carteira digital e permite realizar pagamentos por aproximação. O banco também desenvolveu o Santander Pass, a versão do cartão para pagamentos na forma de adesivo ou pulseira. “Você pode sair com sua pulseira do Santander Pass e pagar nas máquinas de cartão sem precisar levar a carteira. Os dispositivos vestíveis são uma solução para facilitar o dia a dia. Os pagamentos são realizados por aproximação (tecnologia NFC) e sem a necessidade de senhas, para valores inferiores a R$ 50”, conta Zancani. No Itaú Unibanco, entre as iniciativas adotadas para aproximar o novo cenário à cultura interna do banco, estão os programas de treinamento e capacitação em novas abordagens e metodologias, como Design Thinking (Desenvolvimento Ágil e Centralidade no Cliente). “Incentivamos o intra-empreendedorismo com hackathons (maratonas de programação) e ações de inovação entre áreas”, explica Wagner Sanches, diretor-executivo do Itaú Unibanco.

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O novo cliente digital

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“TEMOS O CIENTISTA DE DADOS E TAMBÉM A FIGURA DO ‘JORNADEIRO’, AQUELE QUE PENSA NA JORNADA DOS USUÁRIOS” Luca Cavalcanti, do Bradesco

Num contexto de interações digitais, o intuito é atrair o cliente com experiências mais humanas e que tenham propósito. A personalização de ofertas é um foco da instituição e o banco acredita que tem conseguido aumentar seu alcance, à medida que mais dados comportamentais vêm sendo adicionados. Para atender às necessidades dos millennials, o Banco do Brasil também vem aumentando seu leque de serviços digitais. “Esse é um público que convive com as novas tecnologias desde a infância e lida com naturalidade com todos os avanços e novos paradigmas que o

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mundo digital oferece”, afirma Flávio Morais, gerente-executivo da diretoria de Clientes Pessoas Físicas do BB. “Entender e conhecer os anseios dos clientes é fundamental para estreitar o relacionamento.” A revisão de portfólio, o lançamento de produtos totalmente digitais e a criação de novos modelos de relacionamento são exemplos de ações estratégicas que aproximam cliente e banco. Hoje, 83% dos clientes que realizam abertura de contas pelo mobile no Banco do Brasil têm entre 18 e 40 anos. “Um exemplo de pioneirismo do BB foi o lançamento da combinação da praticidade do WhatsApp com a inteligência artificial para prestar atendimento, incluindo transações bancárias, via chatbot”, conta Morais. As mesmas funcionalidades também estão no Facebook e no Twitter. Estas ferramentas estão preparadas para atender os clientes sobre os mais diversos temas, como cartão, conta corrente, investimentos, linhas de crédito, solução de dívidas, programa de relacionamento e câmbio. O Bradesco também está inovando para trazer novos formatos aos millennials. E, para isso, o banco busca preparar o funcionário para esse mundo novo, o que exige uma mudança de olhares e habilidades. “Não adianta eu ter o algoritmo se as pessoas não estiverem trabalhando de forma colaborativa entre departamentos e também startups”, diz Luca Cavalcanti, diretor-executivo de Pesquisa, Inovação e Canais Digitais do Bradesco. Hoje, existe um time de antropólogos atuando tanto na tradicional instituição quanto no Next. Eles ajudam a compreender como pensam e agem os usuários hiperconectados. “Temos o cientista de dados e também a figura do ‘jornadeiro’, aquele que pensa na jornada dos usuários”, diz Cavalcanti.


Millennials querem ajuda de banco para atingir metas

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uestionados sobre quais ações esperam de seu banco e o que o tornaria diferente, os entrevistados no “Estudo Comportamental Cliente 3.0 - Estamos preparados para atendê-lo?”, da Everis, afirmaram que querem ajuda da instituição financeira no planejamento de metas pessoas e pedem auxílio para fazer investimentos, com explicações sobre como funcionam os produtos de forma clara e simples. Outra preocupação da geração é o controle de gastos. O levantamento revelou que, apesar de terem planos financeiros, 24% mantêm um orçamento doméstico, e apenas 33% fazem todos os pagamentos em dia ou não têm dívidas.

Segundo o estudo, 84% dos millennials têm interesse em ter sua própria empresa no futuro, e para isso, esperam assessoria de seu banco na criação desta companhia. Também querem menos burocracia e pedem que o banco “acabe com a papelada”. Quando se trata de dinheiro, as “experiências” vencem as “coisas” na opinião dos millennials: 78% escolheriam gastar dinheiro com uma experiência desejável ou evento, em vez de comprar algo desejável; e 55% disseram que estão gastando mais do que nunca em eventos e experiências ao vivo. Entre as ações que a geração espera dos bancos também está a ajuda com planos para cursar universidades fora do país (Adriana Mompean). n revista CIAB FEBRABAN

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entrevista

O futuro tem 14 anos Por Marcelo Burgos

Aos 9 anos, Tanmay Bakshi, um dos destaques do CIAB FEBRABAN 2018, já tinha feito – e vendia – um aplicativo para o Iphone. Hoje, cinco anos depois, presta consultoria para empresas ao redor do mundo, incluindo a IBM

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le pretende ensinar 100 mil pessoas a fazer programação por meio do Youtube. E na lista de projetos atuais um compromisso: melhorar a vida de pessoas com deficiência, usando tecnologia. Enquanto a maioria dos jovens não tem sequer ideia da carreira a seguir, Bakshi, que, à primeira vista, parece um adolescente comum, com um sorriso espontâneo que transita entre a timidez e a simpatia, chegou aos 14 anos com o destino profissional bem definido, e um currículo impressionante. Bakshi, um dos destaques do CIAB FEBRABAN 2018, recentemente desenvolveu o assistente digital chamado "AskTanmay" aplicativo do sistema IBM Watson, baseado na Web, que responde a questões pesando as melhores alternativas possíveis. Isso significa que, ao contrário do sistema binário tradicional, este tem um leque infinitamente maior de possibilidades. Um parque de diversão para programadores. Com seu potencial e a suas habilidades de comunicação, Bakshi foi convidado para passar três meses no IBM Canada Lab, em Markham,

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e no IBM Bluemix Garage, em Toronto, para tocar projetos com desenvolvedores sêniores da IBM. Sua relação com todos os seus clientes, como a IBM, é de consultoria e parceria em projetos comuns. Como começou a história de Bakshi na computação ? Ele mesmo descreve, com a fala acelerada, uma das características mais marcantes de sua personalidade. “Desde pequeno, eu via meu pai, que era programador, mexer com aqueles símbolos e máquinas e achava que era mágica”, lembra. “Fui aumentando a minha intimidade com aquele universo até que, aos 9 anos, consegui criar um aplicativo, o "tTables”, dentro do sistema IOs, para resolver um problema sério com o qual eu convivia: a tabuada! O aplicativo facilita a aprendizagem dos processos de multiplicação.” Da matemática para a programação foi só uma questão de tempo. Três anos depois, ele se tornou o desenvolvedor de software mais jovem do mundo. Morador de Brampton, no Canadá, e filho de um casal de imigrantes indianos, Tanmay Bakshi acredita


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entrevista

Tanmay Bakshi, de apenas 14 anos, foi um dos destaques do CIAB FEBRABAN: canadense tem projeto de tecnologia para ajudar deficientes

que ser um adolescente também o ajuda na missão de ensinar às pessoas programação por meio de plataformas e linguagens jovens. Por isso, ele usa o YouTube como seu posto de ensino e tomou para si a tarefa de responder aos seus alunos perguntas sobre inteligência artificial, aprendizado automático, algoritmos e redes neurais. Tudo isso com a ajuda dos pais, com quem forma uma equipe (que o acompanhou revista CIAB FEBRABAN

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entrevista

durante a entrevista à revista CIAB FEBRABAN, em um sofá ao lado, discretamente). Seu pai, Puneet Baksh, largou o emprego de programador para administrar a carreira do filho e acompanhá-lo em compromissos profissionais - como a apresentação durante o CIAB, maior feira de tecnologia do setor financeiro da América Latina, para uma plateia de 3.500 participantes. “Não dava pra fazer tudo bem”, explicou Baksh. Quem o ouve no palco se contagia com o entusiasmo e a sua forma de falar, que segue o ritmo dos algoritmos que cria. Na entrevista, ele lamentou não ter a chance de conhecer lugares em São Paulo, tipicamente frequentados por adolescentes; logo depois do evento teria de voltar ao Canadá, onde cursa escola regular, apesar de ser um gênio da computação. Além dos deveres de casa, suas atividades se renovam com frequência, quando abraça objetivos novos como o ensino de programação por YouTube e os projetos que vêm ocupando seu tempo recentemente, sobre os quais falou em São Paulo.

Rotina e projetos futuros O jovem canadense conta que passa 40% de seu dia na programação, mas também gosta de andar de bicicleta, jogar tênis de mesa com amigos e videogames, enquanto tenta aprender a empinar pipa. Em sua palestra no CIAB FEBRABAN, Bakshi detalhou algumas de suas histórias e atribuiu ao espírito de explorador a razão de

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empreender sua carreira em tecnologia. Ele se surpreende que o interesse em inteligência artificial o tenha levado à parceria com Boo, uma jovem com síndrome de Rett, desordem do desenvolvimento neurológico que dificulta sua conexão com o mundo. Bakshi explica que criar essa conexão em pessoas isoladas pela falta de comunicação é um direcionamento do trabalho que fará a partir de agora. “Boo, aos 22 anos, experimenta a mais absoluta solidão da desconexão. E a inteligência artificial que eu estou pesquisando vai ajudá-la a se conectar.” Diferentemente do cientista Stephen Hawkings (1942- 2018), que se comunicava teclando em seu computador com a ajuda da boca ou das bochechas, Boo vai ganhar uma voz por meio da inteligência artificial para se comunicar diretamente por meio de suas ondas cerebrais, uma vez que ela não consegue usar nenhuma parte do seu corpo. Inicialmente, serão estímulos como “sim” ou “não”, entretanto, ele acredita que futuramente poderá ajudar mais no tratamento de pessoas como ela. “Eu acredito que entre 15 e 20 anos, poderemos ajudar pessoas com severas deficiências a se comunicar, conversar e a se conectar com o mundo inteiro”, aposta Bakshi. Dar a voz a quem não tem usado os mais sofisticados sistemas de inteligência artificial é, certamente, uma tarefa do terceiro milênio, muito além de criar uma linguagem de computação. n


inovação

Transações mais ágeis e seguras Por Katia Simões

Desafio de levar o uso do blockchain para o consumidor final ainda tira o sono dos especialistas; mas projetos baseados nessa tecnologia podem fazer parte do cotidiano da população em 2020

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o segundo semestre de 2017, um lote de lombo suíno congelado e fatiado da marca Sadia teve todo o seu trânsito pelo mercado rastreado por meio de blockchain, desde a data do abate dos animais até a chegada da carne às mãos do consumidor no supermercado. O projeto, batizado Food Tracking, foi desenvolvido na Garagem 1157 – espaço criado pela IBM para acelerar inovações e aplicações na nuvem – e usou a plataforma de blockchain da IBM, baseada no Linux Foundation´s Hyperledger Fabric. Para virar realidade, contou com a parceria da rede Carrefour Brasil e da BRF, uma das maiores empresas de alimentos do mundo. Foram oito semanas de trabalho, iniciadas na fábrica de Santa Catarina, onde foram coletadas informações como data do abate, corte e nome das pessoas responsáveis pelo manuseio do produto. Na sequência, a equipe mapeou o transporte e o armazenamento nos centros de distribuição, até a chegada à loja do hipermercado na capital paulista. Na loja do

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inovação

Carrefour dos Jardins, a solução tecnológica foi experimentada por consumidores que, a partir da leitura de um QRCode afixado na embalagem, podiam conhecer as informações detalhadas das etapas de produção e distribuição. Foi a primeira vez em que uma rede de hipermercados no Brasil adotou a tecnologia do blockchain para rastrear produtos de ponta a ponta. Segundo os responsáveis pelo projeto, a empresa ganha pela agilidade do processo; e o consumidor, por poder acompanhar o nível de qualidade do que irá consumir. Relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial prevê que em 2025, 10% do PIB serão armazenados em tecnologias relacionadas com blockchain. O instituto de pesquisas Gartner, por sua vez, assinala que o uso da tecnologia deverá gerar US$ 3 trilhões em valor agregado até 2030. Os números enchem os olhos, mas a adoção da tecnologia está mais lenta do que previam os especialistas. “Em 2016, acreditávamos que, em 2018, haveria muito mais projetos em produção, muito mais uso do blockchain do que estamos assistindo”, afirma Paschoal Baptista, sócio da área da indústria de serviços financeiros da Deloitte. “Esse tempo foi transferido para 2020, quando efetivamente teremos passado da exploração para a prática; as pessoas comuns usufruirão da tecnologia, sem saber que estão usando.” Segundo Marie Wieck, gerente geral de blockchain da IBM e um dos destaques do CIAB FEBRABAN 2018, a tecnologia traz a

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“O POTENCIAL DE TRANSFORMAÇÃO DO BLOCKCHAIN NA NEGOCIAÇÃO ENTRE EMPRESAS É TÃO GRANDE QUANTO FOI O DA INTERNET NA FORMA COMO NOS COMUNICAMOS” Marie Wieck, gerente geral de blockchain da IBM revista CIAB FEBRABAN

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Paschoal Baptista, da Deloitte, acredita que em 2020 teremos passado da exploração do blockchain para a prática: “AS PESSOAS COMUNS USUFRUIRÃO DA TECNOLOGIA, SEM SABER QUE ESTÃO USANDO”

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possibilidade de transformar a comunicação e de otimizar as transações mais complexas. “O seu potencial de transformação no B2B (do inglês business to business, ou negociação entre empresas) é tão grande quanto foi o da internet na forma como nos comunicamos”, afirma. “A diferença é que, com o blockchain, não conectamos um ponto a outro, mas muitos pontos, e com o elemento-chave da conexão segura de dados.” Entre as indústrias com maior potencial de exploração da tecnologia, a executiva destaca as de logística, imobiliária, seguros e o mercado de capitais. De forma simplificada, a cadeia de blocos, ou blockchain em inglês, pode ser definida como um grande banco de dados, público, remoto, praticamente inviolável, no qual podem ser registrados arquivos digitais de todo tipo. Cada item armazenado é datado e dá origem a uma espécie de assinatura, formada por uma sequência de letras e números. Os

dados das transações realizadas são replicados em diversos computadores. Formam o peer to peer, sistema de envio de dados ponto a ponto, sem uso de um servidor central. A tecnologia funciona de forma descentralizada, o que impossibilita a ação de pessoas dispostas a invadir os sistemas em benefício próprio ou do grupo. Tudo suportado por uma nuvem computacional. Na visão de Paschoal Baptista, quanto mais rápido avançar a adoção da internet das coisas no cotidiano das pessoas, mais será necessário associar a assinatura digital para cada informação com a ajuda do blockchain. A opinião é compartilhada por Airtom Nascimento, vice-presidente da Stefanini, multinacional brasileira de TI. “O blockchain veio para solucionar problemas, para dar agilidade, transparência e confiabilidade às transações”, diz. “Em menos de cinco anos fará parte do dia-a-dia das pessoas e das empresas.”


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Caminho sem volta Richard Flávio da Silva, superintendente-executivo do Santander, observa que no Brasil, assim como na Europa e nos Estados Unidos, já se ultrapassou o ponto, na curva de aprendizado, em que se buscava entender o blockchain como uma hipótese ou uma ideia. “Há muitos casos práticos, muita coisa sendo realizada principalmente nas áreas de trading finance e em vários elos da cadeia logística, da produção à entrega do produto.” Até mesmo a questão da confidencialidade das informações já está sendo bem trabalhada, a ponto do HSBC anunciar a realização da primeira operação de comércio internacional usando apenas blockchain em maio deste ano.” Trata-se da comercialização de um carregamento de soja da Argentina para a Malásia, feita para a Cargil e realizada em parceria com o banco holandês Dutch ING. A plataforma utilizada para fechar o negócio, batizada de Corda Blockchain, foi desenvolvida pelo consórcio R3, do qual o HSBC e o banco ING são integrantes. Segundo Richard, daqui em diante será tudo uma questão de ajustes, mas se trata de um caminho sem volta. O Santander anunciou em abril deste ano, o serviço On Pay FX, que adota o blockchain para fazer transferências internacionais entre pessoas físicas, com acesso pelo app do banco para smartphones. Segundo Ana Botín, presidente mundial do Grupo Santander, o serviço está disponível em apenas alguns países, entre eles o Brasil. “Clientes do Reino Unido podem usar o One Pay para transferir moeda pela Europa e para os Estados Unidos; na Espanha, clientes podem transferir para o Reino Unido e os EUA, enquanto os consumidores do Brasil e da Polônia podem transferir para o Reino Unido”, afirma. O banco afirma que acrescentará mais moedas e destinos nos próximos meses.

O serviço está disponível inicialmente para clientes Select, com um limite de transação de até US$ 3.000. A tecnologia usada é o xCurrent, da startup Riplle, e sua aplicação permite baixar o tempo das transferências, de dois dias para até duas horas. Até o fim do ano, prevê o banco, os brasileiros poderão enviar euros por esse sistema para diversos países da União Europeia, além da Espanha.

Muito além do setor financeiro O uso do blockchain também tende a revolucionar a armazenagem de dados digitais em vários setores, entre eles, o agrícola. A implementação de sensores em cultivos poderá auxiliar no fornecimento de dados sobre as condições e tipos de solo, incidência de pragas ou doenças, clima e quantidade de fertilizantes e de água necessários para cada produto. De olho nesse universo, entrou em operação, em 2016, a Bart.Digital, uma das primeiras startups brasileiras a usar a tecnologia com foco no agronegócio. A empresa desenvolveu um sistema que utiliza blockchain para automatizar o sistema de Barter (escambo, em inglês), como é chamado, no agronegócio, o modelo de troca de insumos por produtos agrícolas entre produtores, distribuidores, cooperativas e o varejo. A cadeia de distribuição e comércio aceita a produção futura dos agricultores e pecuaristas como “moeda” de aquisição de seus artigos e serviços. Isso gera uma espécie de mercado paralelo, em que as negociações são feitas por telefone e acertadas por e-mail. “Usamos a tecnologia blockchain para trazer uma camada de segurança na negociação entre os players da cadeia agrícola, tornando as modalidades de crédito mais eficientes, ágeis e transparentes para o mercado”, diz Renato Girotto, CEO da Bart.Digital. revista CIAB FEBRABAN

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inovação

Tema foi destaque no CIAB FEBRABAN

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alestras com a temática do blockchain foram um dos destaques do CIAB FEBRABAN 2018. Um dos principais pontos do congresso foi a apresentação do protótipo desenvolvido pelo grupo Blockchain FEBRABAN, criado na Federação Brasileira de Bancos em 2016 para estudar e elaborar projetos comuns com o uso da tecnologia entre as instituições financeiras participantes. Além de bancos, também participam do GT Blockchain FEBRABAN o Banco Central, B3, CIP, Anbima e BNDES. Durante o congresso de tecnologia, o grupo apresentou um protótipo do que seria um sistema que aplica o blockchain para compartilhar e qualificar informações de segurança sobre dispositivos móveis que venham a ser usados pelos clientes, na sua relação com o banco. De acordo com Adilson Fernandes da Conceição, coordenador do GT Blockchain da FEBRABAN, no início do processo, são verificados registros disponíveis para saber se o dispositivo do cliente que acessa a rede bancária já teve algum problema de segurança. A partir dessas informações, os bancos poderão enriquecer seus sistemas antifraude para determinar se um dispositivo específico não é confiável por ser, por exemplo, um aparelho perdido, furtado ou roubado. Tudo começa quando o cliente usa o aplicativo da instituição, inserindo suas informações básicas, como dados pessoais. Ao confirmar o envio dos dados, o aplicativo da

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instituição financeira coleta informações de hardware e software do dispositivo móvel, e envia estas informações para uma camada de API, que faz as validações, gerando um token (espécie de código identificador), que representa o dispositivo. A camada de API agrupa o CPF do cliente ao token gerado e envia à plataforma de blockchain. Cada instituição participante da rede de blockchain, recebe a mesma informação instantaneamente e, a partir deste momento, pode consultar os dados, qualificando um dispositivo móvel como confiável ou não, de acordo com suas políticas. O protótipo idealizado pelo GT Blockchain terá de ser validado pelos bancos e refinado para evoluir para um projeto-piloto, onde poderá ser testado de forma controlada. Embora ainda enxerguem o blockchain como uma tecnologia desafiadora, os bancos nacionais começaram a dar os primeiros passos em direção ao seu uso no cotidiano. “O blockchain não irá resolver todas as equações, mas pode ser a melhor solução para determinados problemas”, afirma George Marcel, responsável por blockchain no Bradesco. “Estamos estudando a fundo a tecnologia e já temos exemplos de provas-conceito realizadas com parceiros do mercado.” O principal teste, segundo o executivo, foi o compartilhamento de cadastro com outras instituições. Segundo Marcel, sem o blockchain, seria necessário constituir uma empresa só para


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realizar o cadastramento e manter a posse e o controle de todos os cadastros ali feitos. “Com o blockchain, partindo da premissa que os dados pertencem ao cliente, é ele quem autoriza com quem deseja compartilhar as informações, com um propósito definido, como abrir uma conta, pegar um crédito”, diz Marcel. “O blockchain se mostrou viável para esse tipo de compartilhamento.” O Itaú, por sua vez, criou um centro de excelência para monitoramento do impacto da tecnologia no dia-a-dia do banco. De lá, saiu a proposta de usar o blockchain para guardar as chamadas margens de garantia de derivados negociados em balcão, que são contratadas por investidores. Até então, as fórmulas de negociação eram registradas pelo banco por meio de troca de e-mails. Com a implantação do blockchain, baseado na tecnologia R3 Corda, a “fórmula” foi armazenada de maneira crip-

tografada e confiável, segundo Igor Freitas, superintendente de Arquitetura Corporativa do Itaú Unibanco. Na visão do executivo, são grandes os desafios para a adoção do blockchain nas instituições financeiras. “Os obstáculos vão desde o tamanho do volume de dados exigidos para os bancos, o número de transações confirmadas por segundo e a criação de um processo de identificação seguro até a legislação e a própria governança”, declara. O BNDES decidiu bancar o desafio e, em parceria com o banco alemão KFW, pôs em teste o aplicativo TruBudget, que registra os gastos públicos de forma que fiquem visíveis para todos, mostrando como os recursos do banco estão sendo usados para financiar os projetos escolhidos. Os exemplos começam a se multiplicar. (Kátia Simões e Adriana Mompean)

Integrantes do grupo Blockchain FEBRABAN durante o CIAB: grupo apresentou um protótipo que aplica o blockchain para compartilhar informações de segurança sobre dispositivos móveis

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inovação

Startups investem na tecnologia

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mbora ainda bastante desconhecida pela maioria das pessoas, a tecnologia blockchain já está entre as “top 10” nas áreas de segurança corporativa, armazenamento de dados e compartilhamento de arquivos. Mas, enquanto os gigantes do mercado se movem lentamente, as startups põem a tecnologia na rua com rapidez, acertando deficiências e lacunas com o bloco na rua. É o caso da produtora de filmes Bossa Nova, que conta com a plataforma de vídeo Paratii. Trata-se de uma nova proposta desenhada com a tecnologia de blockchain para se produzir, distribuir, vender e consumir vídeo na rede. Construída sobre protocolos abertos, foi projetada para recompensar todos os usuários que contribuíram com o sistema em nível social, econômico ou técnico. O conteúdo roda na máquina de cada pessoa interessada, dispensando os custos de um data center centralizado. “É uma forma de valorizar o produtor independente, democratizar o acesso e expandir os limites dos modelos de negócios atrelados a conteúdos”, diz Felipe Pereira, executivo da Bossa Nova. O setor de educação pode ser um grande beneficiado, pelo menos no que depender da Meu Diploma Digital. A startup transforma o

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conteúdo de qualquer diploma em uma representação digital única e a publica em blockchain, para que tenha marcação no tempo. “Os detentores dos diplomas poderão ter a segurança de que sempre conseguirão provar a autenticidade do documento para qualquer pessoa ou instituição”, diz o executivo Guilherme Carvalho. “Quando as universidades emitirem diplomas em blockchain a tendência é que a falsificação dos certificados universitários, muito grande no país, chegue próxima de zero.” Flavio Siviero, da Uniproof, por sua vez, afirma que no futuro o uso da tecnologia blockchain pode transformar os cartórios convencionais em espaços pouco frequentados. “Não será o fim dos cartórios, porque a legislação brasileira não permite, mas eles não terão mais razão para existir.” A startup criou uma plataforma para permitir o registro de documentos eletrônicos em cartórios de títulos e documentos amparada pela confiança da tecnologia de blockchain. O serviço é oferecido aos usuários, que podem registrar documentos eletrônicos com fé pública, com guarda e conservação no cartório e na plataforma, de qualquer documento em substituição ao original, físico ou eletrônico, sem efeitos contra terceiros (Kátia Simões). n


entrevista

Inovação criará novas profissões Por Claudia Rolli

Para o futurista Ben Pring, que fez a palestra de encerramento do CIAB FEBRABAN 2018, áreas como realidade virtual, análise de dados e inteligência artificial, vão demandar cada vez mais pessoas qualificadas, como programadores, cientistas e analistas

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uso intensivo de tecnologias como blockchain, analytics e big data traz avanços, impactos e desafios importantes para o mercado de trabalho: se por um lado, empregos serão extintos; do outro, a inovação cria inúmeras oportunidades para novas profissões. “As pessoas temem que muitos empregos sejam destruídos pelas máquinas, pela tecnologia, mas a realidade é que os empregos vão mudar, na medida em que as pessoas se unirem à tecnologia”, diz Ben Pring, diretor do Centro para o Futuro do Trabalho da Cognizant Technology Solutions, empresa norte-americana de tecnologia da informação, que fez a palestra de encerramento do CIAB FEBRABAN 2018. Pring é um dos principais nomes no mundo quando o assunto é estudar o impacto da inovação tecnológica no dia a dia do trabalho. Áreas como realidade virtual, análise de dados e inteligência artificial vão demandar cada vez mais pessoas qualificadas, como programado-

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res, cientistas e analistas, que possam traduzir as informações armazenadas em serviços mais relevantes e acessíveis para os consumidores. No setor financeiro não é e nem será diferente. “É preciso se adaptar às mudanças”, diz. Pring é autor dos livros “What To Do When Machines do Everything” (2017) e “How the Digital Lives of People, Things, and Organizations are Changing the Rules of Business” (2014), duas obras que marcaram o tema. Formado em Filosofia pela Universidade de Manchester, no Reino Unido, onde cresceu, ele trabalhou como analista sênior durante 15 anos no grupo Gartner, pesquisando áreas como cloud computing (computação em nuvem) e global sourcing (prática de terceirização do mercado global de bens e serviços). Chamado hoje de “futurista”, seu trabalho é fazer previsões sobre as mudanças que afetam o mundo do trabalho e analisar as estratégias de negócios e de TI para organizações de todos os tipos e setores.

“O TRABALHO ESTÁ MUDANDO DEVIDO À AUTOMAÇÃO E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, MAS A MÁQUINA PRECISA DA INTERFACE DOS HUMANOS”

A seguir, os principais trechos da entrevista que Ben Pring concedeu com exclusividade para a revista CIAB FEBRABAN. Qual é o futuro do trabalho em sua opinião? Ben Pring – As pessoas que conseguirem se adaptar às novas tecnologias vão se dar bem. O problema é o que acontecerá com aqueles que ficarão para trás. Não há uma fórmula para resolver isso. Os governos têm um papel a desempenhar, os educadores e mundo dos negócios também têm. Estive na Itália, recentemente, e vários políticos mais experientes, executivos, economistas, da Europa e dos EUA, estão todos se questionando sobre isso. Meu argumento é que tudo passa pela revista CIAB FEBRABAN

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entrevista

questão de educação, o futuro, as carreiras, as áreas de atuação. As novas gerações de tecnologias vão surgir para tornar o nosso trabalho melhor. E, claro, as pessoas que não se prepararem terão problemas. No Centro para o Futuro do Trabalho da Cognizant, estimamos que 12% dos empregos serão substituídos, 75%, aprimorados e 13% serão inventados. Que profissões vão desaparecer? Ben Pring – Uma profissão em si não desaparece; as funções que os profissionais executam sim. O que vai sumir é a forma como as tarefas são feitas hoje. Todo trabalho é feito de tarefas, e as máquinas serão mais e mais usadas para essas novas tarefas. Isso vai acontecer com educação, banking, saúde, transporte, em todas as áreas. O trabalho está mudando devido à automação e inteligência artificial, mas a máquina precisa da interface dos humanos. Um motorista de caminhão hoje, em 20 anos, e daqui a 40 anos não será mais um motorista da forma como pensamos. Os veículos se tornarão inteligentes e isso muda a tarefa de ser um motorista. E quais novas profissões vão surgir? Ben Pring – Haverá nos próximos dez, vinte, trinta anos uma explosão de oportunidades de trabalho em áreas como realidade virtual, blockchain, inteligência artificial, ciências da computação. E isso tanto para técnicos, como criadores de códigos e jogos, programadores, profissionais que estão descobrindo diferentes maneiras de usar a tecnologia. Pense, no setor

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financeiro, em trabalhadores especializados para lidar com segurança da informação ou com open banking. O sr. mencionou em sua palestra no CIAB que as funções mais valorizadas serão na área de análise de dados. Por que razão? Ben Pring – Tem tanta informação sendo gerada, com tanta interação e intensidade, entre bancos, companhias áreas, redes sociais, que é preciso ter pessoas que interpretem e desenvolvam softwares para manejar os dados, para que faça sentido lê-los e usá-los. É como encontrar agulha no palheiro. Não é preciso ser um cientista brilhante para fazer esse trabalho. Mas é preciso manipular planilhas, números. A função de investigador de dados vai ajudar os negócios a encontrarem valor. No setor bancário, por exemplo, algumas instituições de alguns países já se preparam melhor para entender os consumidores e trazer novos serviços aos seus clientes. Que tipo de serviços? Ben Pring – De vários bancos tradicionais, como o do banco de investimentos Goldman Sachs, por exemplo, que colocou aplicativo com novos serviços para atender millenniuns. [Apple e Goldman Sachs também planejam lançar um novo cartão de crédito e estudam oferecer empréstimos pessoais a quem comprar produtos na Apple Store, segundo jornais dos EUA]. O app é todo baseado em inteligência artificial e poucas pessoas de fato trabalham nele. O Bank of América, com a assistente virtual Erica, também está interagindo, com machine learning, com os clientes de forma


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interessante. Quanto maior e mais frequente é a interação, mas inteligente a Erica se torna. Uma das possibilidades é reconhecer pedidos como quando alguém for viajar para fora do país solicitar desbloqueio do cartão de crédito, por voz ou digitando. É uma maneira inteligente de lidar com os clientes e tornar suas pequenas experiências melhores. Como o sr. vê a relação das fintechs e bancos? Elas ameaçam os negócios dos bancos? Ben Pring – Algumas fintechs podem se dar bem, mas a maioria deve mesmo ser adquirida pelos bancos. Há mais de 20 anos, Bill Gates, com aquela companhia dele lá atrás, disse que os bancos eram dinossauros. No sentido de devorar os demais. Se uma companhia pequena encontra um nicho, um negócio singular, a grande vai lá e compra. Tem sido assim. Em um futuro breve, como o sr. vê a relação dos bancos com os clientes? Só haverá agências virtuais ou há espaço para as físicas? Ben Pring – Creio que alguns bancos físicos devam existir, mas em menor quantidade que hoje. Há muitas agências, espaços físicos, que estão inutilizados. Os millennials usam mobile e online banking; não usam agências físicas, e só se vai na agência buscar dinheiro, quando realmente é necessário. Os bancos ainda não sabem o que fazer e não podem se livrar, por questões de até valor patrimonial em seus balanços. Mas recentemente debatemos em seminários que os bancos podem liderar outro tipo de empreendimento e

atividade com as comunidades locais. Nos EUA, o WeWork é um exemplo de uso de espaço, especialmente por jovens que pagam mensalmente valor baixo, pelo espaço de antigos escritórios. É como um espaço de coworking, em que as agências bancárias podem se tornar filiais desses escritórios locando espaço, emprestando dinheiro, várias atividades em um local só. Qual é a recomendação para quem está começando a pensar no futuro e no trabalho? Ben Pring – Quem tem 16 anos hoje, é bom e gosta de matemática, deve prestar atenção em áreas como engenharia, ciências da computação, biotecnologia. E os educadores também precisam mudar. Na escola do meu filho em Boston (EUA), ele ganha quatro pontos se estudar francês e dois se estudar Stem [sigla em inglês usada para designar quatro áreas do conhecimento: Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática]. Na outra ponta também, a tecnologia também é comum. Minha mãe tem 90 anos, nunca trabalhou com computadores, ganhou celular, iPads, e usa tudo. A transição que vimos ocorrer nos últimos 40 anos vai acontecer novamente. Será preciso se sentir confortável falando com as máquinas e se acostumar aos assistentes virtuais. O uso da voz nos dispositivos e do reconhecimento facial será cada vez mais intenso. Quem está na faixa dos 50 não terá de se preocupar, mas as pessoas que estão na faixa dos 30 devem sim. Por que motivo? Ben Pring – Porque se você tem 30, terá mais 40 anos de trabalho pela frente e as mudanças revista CIAB FEBRABAN

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entrevista

serão muito mais profundas e intensas. Essas pessoas são as que estão em perigo se não aprenderem novas habilidades. E o que fazer quando as máquinas fazem tudo, como diz o título de seu livro? Ben Pring – As máquinas nunca farão todas as coisas. Nem agora, nem em 10 anos nem daqui a 40 anos. Elas certamente farão mais, mas nunca tudo. A transformação digital já está mudando os negócios, é fato. Como lidar eticamente com essas mudanças? Ben Pring – Participei do conselho consultivo do Programa do Trabalho na Harvard Law School para criar modelos de contratos sociais nesse mundo de nova relação entre máquinas, pessoas e capital. A nossa sociedade, nos últimos 40 anos, desenvolveu o conceito de vencedor. Se você é o Roger Federer, ganha centenas de milhões de dólares por ano. Mas, se você é o 20º melhor tenista do mundo no ranking, você ganha somente um milhão. Este gap acontece em todos os setores, em todas as indústrias. Esse é um grande desafio. Em algumas áreas, por causa das novas tecnologias e do acesso restrito a elas, isso pode piorar ainda mais. Não podemos ter vencedores ganhando quantias obscenas de dinheiro e todo o resto da população vivendo em condições ainda piores de vida. A tecnologia tem de gerar bem-estar, inclusão social e digital. As máquinas terão papel absolutamente central na forma de criar riqueza e nós temos de pensar em como vamos distribuir essa riqueza.

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Qual o caminho para isso? Ben Pring – A educação tem de mudar e a mentalidade das organizações tem de mudar. As sociedades são feitas de indivíduos, instituições, políticos. Todo mundo precisa pensar nisso. Somos capitalistas, precisamos viver, ganhar, ok, isso é natural. Mas ter somente poucas pessoas subindo, fazendo sucesso não é sinal de uma sociedade sadia. Se as pessoas entenderem as novas tecnologias, tiverem acesso e treinamento, isso pode mudar. A Cognizant empenhou US$ 100 milhões nos EUA para treinar e educar crianças carentes em áreas como Bronx (NY) e devemos expandir esse investimento para outras regiões do mundo. O senhor disse em sua palestra que precisamos ser bons seres humanos, o que isso significa exatamente neste cenário de transformações físicas e digitais? Ben Pring – Nós precisamos, como indivíduos nos ajudar, nos importar com as outras pessoas. Em inglês dizemos os três “Cs”, que são coaching, connecting e caring [treinar, conectar e cuidar]. No futuro, essa forma de pensar vai fazer diferença entre as instituições que vão ou não se dar bem, entre as escolhas dos consumidores. Em um mundo transparente, como o nosso, as suas ideias são expostas de uma forma muito rápida. Se você age mal, não pode mais se esconder. Tudo é mostrado online. As companhias que efetivamente se comportam bem, tratam bem seus clientes e os reconhecem, fazem boas margens de lucro. O lucro é consequência, e não tem nada errado com isso. Mas as companhias que só pensam no resultado não vão se diferenciar das demais. n


meios eletrônicos de pagamento

Os impactos do P2P Por Martha Funke

Novo modelo pode alcançar 3,3 bilhões de transações anuais no Brasil, com mais conveniência para o consumidor e menor custo para estabelecimentos

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Flávio Túlio Vilela, do Banco Central: BC deve enviar para análise do Grupo de Trabalho de Pagamentos Instantâneos nova versão dos requisitos para o funcionamento do modelo

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s pagamentos instantâneos devem chegar ao Brasil em, no máximo, um ano; e podem reproduzir por aqui a velocidade de expansão que o sistema alcança ao redor do mundo. Segundo estudo da Accenture preparado para a Mastercard, a facilidade da transferência instantânea de valores, seja entre pessoas (P2P, do inglês peer-to-peer), entre pessoas e estabelecimentos (P2M, de person-to-merchant) ou entre estabelecimentos (M2M, ou merchant-to-merchant), tem potencial para alcançar 3,3 bilhões de transações anuais no Brasil, com valor em torno de R$ 48 bilhões. O volume representa perto de 20% do número de transações realizadas hoje com meios de pagamento eletrônicos no país, de 15 bilhões ao ano. Segundo o estudo, 96% das transações realizadas com base no modelo virão da substituição de papel-moeda, e o restante ocupará espaço, principalmente, entre os canais bancários e os boletos. Já em relação

ao volume financeiro, 88% devem resultar da substituição de papel-moeda, 4% de cheques, 3% de canais dos bancos, e 3% de boletos. O modelo pressupõe a oferta de operações simples, em tempo real, com disponibilidade 24 horas, sete dias por semana, envolvendo quantias debitadas de contas-correntes ou contas de pagamento. A tarefa exige a interoperabilidade entre dois universos atualmente estanques, o bancário e o de meios eletrônicos de pagamentos, e regulação para sustentá-la. Os temas estão em discussão no Grupo de Trabalho de Pagamentos Instantâneos (GTPI), criado pelo Banco Central (BC) com representantes dos diferentes segmentos envolvidos.

Modelo pode se tornar o ‘novo normal’ Segundo Flávio Túlio Vilela, chefe do Departamento de Operações Bancárias e de Sistema de Pagamentos (Deban) do Banco Central, o revista CIAB FEBRABAN

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meios eletrônicos de pagamento

Luiz Michelini

“SUGERIMOS AO BANCO CENTRAL A DEFINIÇÃO DE UMA CÂMARA CENTRALIZADA ENTRE OS DOIS UNIVERSOS, PARA FACILITAR O CONTROLE DE FLUXO” Fernando Chacon, presidente da Abecs

BC deve enviar para análise do Grupo de Trabalho de Pagamentos Instantâneos uma nova versão dos requisitos para o funcionamento do modelo até o final de agosto. Os requisitos a serem definidos incluem os relacionados à camada de negócios, como velocidade, conveniência e facilidade de uso; e regras gerais sobre o ecossistema. Outros pontos se referem às camadas de compensação – como a política de acesso aos arranjos e infraestruturas, além da interoperabilidade – e de liquidação, inclusive com definição do papel que o BC deve desempenhar na oferta do serviço e na provisão de liquidez. Também são avaliados requisitos técnicos em relação a padronização, segurança e arcabouço de gerenciamento de risco dos prestadores de serviços de pagamentos (PSPs). “O Banco Central acredita que os pagamentos instantâneos têm o potencial de se tornarem o ‘novo normal’ em opções de pagamento

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eletrônico em médio prazo”, afirma Vilela. Os consumidores ganham conveniência e facilidade de uso, já que iniciar um pagamento instantâneo será tão simples quanto selecionar um contato no telefone celular ou ler um código único de identificação, como um QR Code. Tudo que será necessário é um smartphone, uma conta em um PSP de sua escolha e o aplicativo desse PSP.

Concorrência com cartões Para comerciantes, a ausência de intermediários reduz o custo de aceitação; e o acesso imediato aos recursos gerados com a venda deve aumentar a eficiência na gestão de fluxo de caixa e reduzir a necessidade de obtenção de empréstimos, defende Túlio Vilela. “O comerciante precisará ter somente um código único de identificação para ser lido pelos clientes por meio do smartphone”, descreve. “Nesse código estarão contidas todas


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as informações necessárias para que os recursos sejam transferidos instantaneamente da conta do consumidor para a conta do comerciante no PSP escolhido.” O Banco Central tem a expectativa de que os pagamentos instantâneos se tornem o substituto mais próximo do dinheiro, avalia o executivo. Além disso, diz ele, o BC acredita que eles poderão concorrer com os cartões de crédito e de débito, o que pode levar a uma redução das taxas atualmente cobradas dos comerciantes para o uso desses instrumentos.

Sugestões em pauta

Fernando Teles, da Visa, afirma que soluções contactless para meios de pagamento mostra curvas de adoção exponenciais: “A CONVENIÊNCIA É MUITO GRANDE”

Luiz Michelini

Até agora, as propostas levam em conta soluções apoiadas tanto nos sistemas tradicionais de liquidação financeira do universo bancário – que já oferece instrumentos similares, mas de menor disponibilidade, como TEDs –, quanto no formato tradicional de quatro partes da indústria de cartões (emissores, adquirentes, bandeiras e portador). “Sugerimos ao Banco Central a definição de uma câmara centralizada entre os dois universos, para facilitar o controle de fluxo”, detalha Fernando Chacon, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Cartões e Serviços (Abecs). “Estamos aguardando instruções sobre a determinação de padrões.”

De acordo com o presidente da Mastercard para o Brasil e América do Sul, João Pedro Paro Neto, a integração em uma câmara permitirá a convivência de diferentes modelos de negócios. Como exemplo, um usuário poderá acessar o aplicativo de seu banco em seu celular ou computador para enviar recursos de sua conta corrente para um cartão ou vice-versa. “A ideia é ter modelos e soluções de autenticação interoperáveis”, diz. “A autorização será fornecida pelo banco ou emissor, o ‘dono’ do cliente, responsável por sua autenticação.” Do ponto de vista tecnológico, a solução funcionaria como um switch, uma espécie de roteador, entre os dois mundos, explica Percival Jatobá, vice-presidente de Produtos, Soluções e Inovação da Visa do Brasil e coordenador do grupo de trabalho sobre P2P da própria Abecs.

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Redução de custos e novas fintechs

diários, para diminuir os custos de transação para todas as partes envolvidas. “É nesse contexto que o modelo baseado em cartões será avaliado”, adianta Flávio Túlio Vilela, do BC. A similaridade ao modelo da TED está em pauta, mas a necessidade de uma infraestrutura centralizada para interligar os diversos prestadores de serviços de pagamento ainda está em análise, principalmente em relação ao papel do BC. Outros pontos avaliados dizem respeito a questões de governança, política de acesso e tratamento não discriminatório entre participante, já que o BC entende que um modelo baseado em transações entre contas – sejam correntes, de pagamento, salário ou poupança – é propício para o aparecimento de fintechs. Segundo Vilela, as fintechs podem se constituir tanto como instituições de pagamento, que ofertariam contas de pagamento para seus clientes, quanto como prestadores de serviço de iniciação de pagamento, ou empresas contratadas por um usuário para iniciar pagamentos em seu nome a partir de uma conta mantida em outro PSP. “Essa figura, ainda não regulamentada no Brasil, mas que já existe na União Europeia, por exemplo, é importante para estimular a concorrência entre os diversos prestadores de serviços de pagamentos, como bancos e instituições de pagamento”, defende Vilela. Ele explica que o Banco Central estuda a melhor forma de regulamentar a existência dessa figura, de forma a propiciar mais opções para consumidores e lojistas.

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Entre as premissas para o estudo do modelo de P2P estudado no grupo de trabalho do Banco Central está a necessidade de modelos simples, com a menor quantidade possível de interme-

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Para João Pedro Paro Neto, da Mastercard, a integração do P2P em uma câmara permitirá a convivência de diferentes modelos de negócios


meios eletrônicos de pagamento

Meios eletrônicos podem intermediar 60% do consumo até 2023

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lém dos pagamentos instantâneos, novidades como maiores prazos para crédito parcelado e estímulo ao uso do cartão de débito devem acelerar a expansão dos meios de pagamento eletrônicos no país e contribuir para que sua participação no consumo das famílias alcance até 60% nos próximos cinco anos. O setor é um dos poucos a manter crescimento de dois dígitos nos últimos anos, o que o levou a ultrapassar a barreira do trilhão. Em 2017, foi movimentado R$ 1,36 trilhão por esse canal. Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões e Serviços (Abecs), o aumento chegou, no primeiro trimestre deste ano, a 14,4%. Hoje, os meios eletrônicos respondem por R$ 1 em cada R$ 3 gastos pelas famílias no Brasil. A primeira opção a chegar ao mercado será o “novo crediário”, nome provisório do produto criado para atender a demanda do regulador por redução do prazo de recebimento dos lojistas e, ao mesmo tempo, satisfazer o desejo do consumidor de parcelar os pagamentos de suas compras em até 36 vezes. A meta é ocupar espaços dos crediários próprios (boletos) e do tradicional parcelado lojista, conhecido como parcelado sem juros, atualmente responsável por cerca de 60% do negócio de cartões de crédito. revista CIAB FEBRABAN

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meios eletrônicos de pagamento

Segundo o presidente da Abecs, Fernando Chacon, uma pesquisa com consumidores definirá o nome do novo produto, que facilitará a oferta de parcelamento por pequenos estabelecimentos, aqueles com menor disponibilidade de capital de giro. “Os emissores cobrarão encargos sobre o financiamento, e assumiram o compromisso de oferecer preços competitivos, com taxas diferentes em relação a modelos como o crédito rotativo”, aponta.

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Lançamentos no CIAB FEBRABAN 2018 Internet das coisas e biometria foram algumas das estrelas em produtos e soluções do setor de meios de pagamento durante o congresso de tecnologia

Espaço para o débito

MASTERCARD

A expansão do uso de cartão de débito é outra grande fronteira de crescimento para os meios de pagamento eletrônicos no país. “O volume de saques em ATMs supera em quase cinco vezes o volume de compras com cartão de débito”, observa Fernando Teles, country manager da Visa. Ainda é necessário resolver questões como os modelos de negócios e a padronização tecnológica. O formato atual dificulta o uso do débito para pagamento de grandes valores e de despesas recorrentes. Por outro lado, a padronização de tecnologias de autenticação e tokenização, que está sendo desenvolvida mundialmente e deve chegar ao Brasil no ano que vem, ajudará a adoção dos cartões de débito para operações não presentes, aquelas realizadas por internet e aplicativos, lembra Paro Neto, da Mastercard. Soluções sem contato (contactless) também têm perspectiva de crescimento acelerado. “A experiência mostra curvas de adoção exponenciais; a conveniência é muito grande”, diz Teles, da Visa.

Em parceria com a GM, mostrou como um veículo interativo, conectado e seguro se torna um meio de pagamento, com uso de recursos de Internet das Coisas e autenticação de transações por biometria, íris, digital ou voz (foto). Também criou uma simulação de loja onde o consumidor pode provar roupas e acessórios por meio de um sistema que funciona como espelho virtual e permite a compra, também por autenticação por biometria, íris, digital ou voz. A marca também demonstrou a tecnologia antifraude NuDetect, que reconhece padrões biométricos e comportamentais do consumidor. Divulgação


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A realidade virtual foi apresentada aos visitantes em duas experiências: o pagamento de transporte público sem contato (foto) e a simulação de compras no varejo, com interação por meio de um provador de roupas virtual e pagamento por dispositivos vestíveis (pulseiras, anel, celulares e relógios). Também foi possível interagir com a simulação de uma geladeira capaz de identificar e comprar produtos, com pagamento por meio do Visa Checkout. A bandeira também anunciou parceria com a rede de autoatendimento Saque e Pague para permitir saque e, em segundo momento, depósito e emissão instantânea de cartões nos terminais da rede.

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VISA

CIELO O destaque foi o LIO (foto), terminal inteligente com plataforma operacional aberta que permite desenvolvimento de aplicativos e conexão a sistemas capazes de transformar a maquininha em interface de caixa registradora, estoque digital ou gerenciador de pedidos, por exemplo. Os aplicativos estão disponíveis na Cielo Store e o terminal oferece gratuitamente o sistema de gestão Negócio PRO.

GERTEC

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A empresa também adotou o conceito de terminal inteligente (foto). Neste caso, com sistema operacional Android. A ideia é contar com um PDV (ponto de venda móvel) para receber pagamentos via tarja, chip e sem contato, com opções como fone de ouvido para deficientes visuais, câmera para leitura de QR Codes, dispositivo com ou sem impressão e plataforma para gerenciamento remoto do parque de dispositivos. n

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Economia verde e finanças digitais promovem inclusão Por Claudia Rolli

Tecnologia é fundamental para promover a Agenda 2030, de desenvolvimento sustentável, afirma diretora de Inovação da ONU Mulheres; para Fiona Bayat-Renoux, finanças digitais podem trazer crescimento de 5% a 10% do PIB nas economias emergentes até 2025

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tecnologia e sustentabilidade

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mundo precisa de ao menos US$ 5 trilhões por ano, ou quase três vezes o PIB do Brasil, para promover o desenvolvimento sustentável com a Agenda 2030, compromisso que reúne programas, ações e diretrizes para orientar os trabalhos da ONU (Organização das Nações Unidas) e de seus 193 países-membros. Para atingir essa meta, o sistema financeiro tem de unir as necessidades do mundo das finanças com o desenvolvimento sustentável, dando destaque a projetos da economia verde, principalmente os que consideram negócios com energia limpa e minimizam os impactos das mudanças climáticas, além de expandir o uso de tecnologias digitais.

A avaliação é de Fiona Bayat-Renoux, diretora de Inovação da ONU Mulheres e diretora da Aliança Financeira Digital Sustentável, uma parceria público-privada voltada a aproveitar o poder das tecnologias digitais para finanças sustentáveis, fundada pela UN Environment (o braço de meio ambiente da ONU) e a chinesa Ant Financial Services. As entidades também participam do grupo de estudos de Finanças Sustentáveis do G20, formado pelos ministros de finanças e chefes dos bancos centrais das 19 maiores economias do mundo e da União Europeia. Concluídas em agosto de 2015, as negociações da Agenda 2030 culminaram em um documento com 17 Objetivos do Desenvolvi-

“AS FINANÇAS DIGITAIS SÃO FERRAMENTAS PODEROSAS PARA DESBLOQUEAR BARREIRAS AO INVESTIMENTO” Fiona BayatRenoux, da ONU Mulheres

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tecnologia e sustentabilidade

Carlo Pereira, da Rede Brasil do Pacto Global, diz que é preciso encontrar caminhos que mostrem como a economia digital pode ajudar a acelerar a implementação de uma economia verde

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mento Sustentável, os chamados ODS, e 169 metas correspondentes. São compromissos que englobam questões como o financiamento para o desenvolvimento, a transferência de tecnologia, a capacitação técnica e o comércio internacional entre as nações. A agenda é um plano de ação para proteger o planeta da degradação - com a defesa do consumo e da produção sustentáveis, da gestão de recursos naturais e de medidas urgentes para combater a mudança de clima – e para erradicar a pobreza extrema, em todas as suas formas e dimensões. “Há muitas barreiras ainda para se vencer, quando se pensa nessa agenda ambiciosa”, diz Fiona, que esteve no CIAB FEBRABAN 2018 como participante do painel “Perspectivas do G20 e das Nações Unidas sobre Finanças Digitais e Desenvolvimento Sustentável”. “Um terço da terra arável do mundo está ameaçado por degradação; metade dos maiores aquíferos do planeta também está abaixo do ponto necessário de sustentabilidade; e 17% da população mundial não têm sequer acesso a eletricidade.” No mundo das finanças também há desafios. A especialista lembra que menos de 1% da emissão de títulos hoje no mundo é composta pelos chamados títulos verdes, apesar dos avanços já registrados. “Somente entre 5% e 10% dos empréstimos feitos pelos bancos são empréstimos verdes”, diz, com base na média registrada pelos países que mensuram esse indicador. No Brasil, o financiamento bancário para economia verde cresceu 33,4% em 2017 sobre o ano anterior, com a destinação de R$ 309 bilhões para empresas e setores da economia verde, segundo levantamento da FEBRABAN. Participaram do estudo 15 dos maiores bancos do país, que juntos representam 87% do R$ 1,72 bilhão da carteira de financiamentos do setor no ano passado.


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Marcos Tulio Ramos, presidente e fundador da EasyCrédito

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Alternativas “As finanças digitais são ferramentas poderosas para desbloquear barreiras ao investimento, capacitar as pessoas para enfrentar o desafio, aproveitar a oportunidade de um futuro limpo e acessível e promover a inclusão financeira”, diz Fiona. “O lema da Agenda 2030 é não vamos deixar ninguém para trás; e, para isso, precisamos do esforço de todo mundo e de todos os setores da economia”, ressalta Carlo Pereira, secretário-executivo da Rede Brasil do Pacto Global. “O G20 também está debruçado no tema para encontrar caminhos que mostrem como a economia digital pode ajudar a acelerar a implementação de uma economia verde.” A prestação de serviços financeiros por celular, por exemplo, pode beneficiar bilhões de pessoas e estimular o crescimento inclusivo, adicionando US$ 3,7 trilhões ao PIB das economias emergentes no período de uma

década e gerando 95 milhões de empregos, de acordo com um estudo do Instituto Global McKinsey, de 2015. “As finanças digitais podem trazer um crescimento do PIB de 5% a 10% até 2025 entre as economias emergentes”, afirma Fiona, a partir dos dados do MGI. Big data, inteligência artificial & automação, blockchain e internet das coisas (IoT) são tecnologias que permitem essa expansão, ao reduzir custos, promover a transparência e integridade, acelerar a inclusão e o acesso à informação para integrar o digital à economia real. E como fazer isso na prática? Um dos exemplos citados por Fiona para mostrar como a força digital pode promover o desenvolvimento sustentável e combater as mudanças climáticas é o projeto da chinesa Ant Financial Services, fintech afiliada ao Alibaba Group Holding, que permite aos consumidores o uso de plataformas de pagamento móvel para controlar gastos e medir o consumo diário de energia.


Por meio de um app, o Ant Forest ou “Floresta das Formigas”, o programa permite que os usuários registrem suas emissões diárias de carbono, calculando, por exemplo, se caminham ou vão de carro para algum destino, ou se pagam uma conta online em vez de ir até um banco. Toda a energia economizada é transformada em uma árvore virtual, que cresce à medida que mais carbono é salvo. Quando a árvore cresce o suficiente, os parceiros da Ant plantam árvores reais no deserto. Em agosto de 2016, quando o app foi lançado, até março deste ano, mais de 300 milhões de pessoas na China participaram do projeto - ou seja, mais de um quinto da população chinesa - com uma redução de 8 mil toneladas de emissão de carbono por dia. Até dezembro de 2017, 13 milhões de árvores reais haviam sido plantadas e 8 km2 de florestas adotadas. No Quênia, a empresa do ramo de energia M-Kopa desenvolveu um sistema que permite conectar casas à energia solar com preços acessíveis. Os consumidores compram um kit, com um painel solar e uma unidade de controle, que aciona luzes LED e carrega dispositivos como celulares, por meio de uma tecnologia móvel e IoT. A energia solar é usada no lugar daquela gerada a partir do querosene, mais utilizado nas regiões mais distantes, sem acesso à eletricidade e outras fontes. Até janeiro deste ano, 600 mil casas haviam aderido ao programa, o que gera uma economia de 75 milhões de horas de iluminação sem querosene por mês. Os clientes, em um prazo de quatro anos, devem economizar US$ 450 milhões, segundo estimativa da empresa.

Sem acesso Ainda existem 2 bilhões de pessoas e 200 milhões de micro, pequenas e médias empresas

em economias emergentes sem acesso à poupança e ao crédito. “Mesmo aqueles com acesso devem muitas vezes pagar altas taxas por uma gama limitada de produtos. O crescimento econômico sofre. Mas uma solução está certa nas mãos das pessoas: um celular”, menciona o estudo do Instituto Global McKinsey. “O primeiro contato, hoje, do usuário que entra no mercado financeiro já é pelo celular”, confirma Marcos Tulio Ramos, presidente e fundador da EasyCrédito, criada em 2005. “Mas ele também ainda encontra dificuldades para acessar plataformas mais robustas e com tecnologias mais avançadas: a rede cai, a infraestrutura ainda é insuficiente.” No Brasil, a EasyCrédito é uma das fintechs que atua para expandir o crédito no país e ampliar o alcance dos serviços digitais. “Funcionamos como um marketplace de serviços de crédito, conectando quem tem pouco ou nenhum acesso às instituições financeiras às empresas que oferecem o serviço, desde empréstimos, financiamentos, cartão de crédito, e já antecipamos a análise das informações crédito, a partir de informações disponíveis nos dados públicos do governo, nos bureaus de crédito e nas redes sociais”, diz Ramos. O executivo diz que, apesar de muitos brasileiros terem acesso ao recebimento de benefícios sociais e salários por meio do sistema bancário, ainda há carência de acesso a dois serviços financeiros básicos: crédito e poupança. A EasyCrédito tem hoje mais de um milhão de usuários e mais de 40 empresas oferecendo crédito pela sua plataforma. Mais de 40% dos usuários buscam crédito para financiar atividades produtivas – principalmente pequenos negócios. Em maio deste ano, a fintech venceu um edital da Desenvolve SP, Agência de Desenvolvimento Paulista, para testar um novo


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tecnologia e sustentabilidade

Leandro Vilain, diretor de Negócios e Operações da FEBRABAN: decisões e ações do setor bancário não impactam só a própria empresa ou a instituição financeira, mas sim a sociedade de forma geral

modelo de financiamento e desburocratizar o acesso dos microempreendedores individuais (MEIs) ao crédito sustentável. Como parte de um projeto-piloto do Sebrae e do BNDES nas comunidades de Heliópolis e Paraisópolis, em São Paulo, a fintech vai desenvolver uma plataforma web exclusiva para receber propostas e cruzar informações que vão facilitar a avaliação de risco e acelerar a liberação de recursos. A agência paulista vai gerir a carteira de clientes.

Parcerias e desafios Para os representantes do setor bancário, as parcerias entre as instituições tradicionais e as fintechs são fundamentais para promover a inclusão e aumentar o acesso à economia digital - um dos maiores desafios para quem trabalha em larga escala. “O setor bancário tem um papel relevante e extremamente desafiador na medida em que as decisões e as ações tomadas não

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impactam só a própria empresa ou a instituição financeira, mas sim a sociedade de uma forma geral”, diz Leandro Vilain, diretor de Negócios e Operações da FEBRABAN, ao se referir aos números que envolvem as operações feitas na indústria financeira. Segundo Vilain, qualquer processo feito num banco pode envolver milhões de transações por dia. “O sistema de pagamento de contas, que passa por mudanças neste momento, gera 3,8 bilhões pagamentos por ano ou quase 12 mil por segundo. As escalas que ocorrem no setor financeiro são um grande desafio”, completa. A regulação das novas tecnologias, a inovação acessível e a contratação de serviços eficientes e, ao mesmo tempo, “amigáveis” aos clientes são outros desafios apontados pelos especialistas para que o desenvolvimento caminhe de forma sustentável com as finanças digitais. n


Revista_CIAB_FEBRABAN_76_ago18  

A Revista CIAB FEBRABAN é a única publicação periódica com a marca FEBRABAN, distribuída diretamente para os principais executivos dos Banco...

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