Issuu on Google+

Jan/Fev 2017 • Nº 67

REVISTA

ALÍVIO ONLINE PARA DEVEDORES Quase um quarto do total de acordos firmados para quitar dívidas já é contratado de forma virtual nos maiores bancos do país

EDUCAÇÃO FINANCEIRA PLATAFORMAS VIRTUAIS, CURSOS E VÍDEOS NA INTERNET AJUDAM A COMBATER SUPERENDIVIDAMENTO

CIAB FEBRABAN 2017 COMPETIÇÃO ENTRE FINTECHS CRESCERÁ EM CONGRESSO DE TI


sumário

28

CONSELHO CIAB FEBRABAN 2017

Ciab FEBRABAN 2017 Competição entre fintechs aumentará em congresso de TI para o setor financeiro

COMISSÃO DE CONTEÚDO: Keiji Sakai - BM&FBOVESPA, Adauto Del Favero – Bradesco, Thatiane Gomes da Fonseca – Bradesco, Antonio Lombardi Neto - Rede, Carlos Augusto de Oliveira – Original, Cláudia Haddad – Itaú Unibanco, Cristiane Mara Nunes – Citi, Ricardo Nery – Citi, Eliane Grotti Borges – Caixa, Fernando Pellisario de Godoy – Caixa, Gustavo de Souza Fosse – Banco do Brasil, Hilda Raquel Guiaro Sicuto – Santander, Jairo Avritchir- UBS, Ana Lucia Coutinho – UBS, Jorge Krug – Banrisul, Lusmary Ribero – BTG Pactual, Mario Lopes - Societe Generale, Nilton Cesar Gratao – FEBRABAN, Paulo Cherberle- Bradesco, Ronei Maranssati – Banco do Brasil, Wallace Jagiello - Banco Votorantim

8

Renegociação de dívidas Bancos investem em plataformas de renegociação online para se aproximarem de clientes endividados e facilitarem, pelos canais digitais, o pagamento de débitos em atraso

Maurício Minas-Bradesco (presidente), Gustavo Fosse – Banco do Brasil (diretor setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN), Geraldo Dezena – Banco do Brasil, Gustavo Roxo – BTG Pactual, Jorge Ramalho – Itaú-Unibanco, José Paiva – Santander, Naran Peçanha Araújo – Caixa

32

Bancos e Fintechs Pesquisa mostra que 75% dos consumidores preferem adquirir novos serviços digitais na instituição em que já são clientes

DIRETORIA DE EVENTOS FEBRABAN: Nair Macedo (diretora), Marcelo Assumpção, Élita Cristina Borges Simionato, Anna Carolina A. Tapias, Mayra Bazzo Tome, Fernanda Paradizo Castillo, Ludmila Prado, Marília de Meo Borges, Keti Granzotto Casarri REVISTA DO CIAB FEBRABAN DIRETORIA DE COMUNICAÇÃO: Sergio Leo (diretor), Adriana Mompean, Cleide Sanchez Rodriguez, Evelin Ribeiro, Anna Carolina Gabiatti, Jessica Magalhães Graça MARKETING: Roseli Rapouso

18

Educação Financeira Instituições financeiras usam tecnologia em programas de incentivo ao uso consciente do crédito

PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO: Ideia Visual Esta é uma publicação da Federação Brasileira de Bancos – FEBRABAN, Av. Brigadeiro Faria Lima, 1485 – 15º andar – Torre Norte – 01452-921 – São Paulo – SP

38

Copyright 2017 - janeiro/fevereiro. Todos os direitos reservados.

Moedas virtuais Criptomoedas Zcash e Monero tentam consolidar-se como alternativa ao Bitcoin

www.ciab.org.br www.facebook.com/CiabFEBRABAN Twitter: @ciabfebraban

4

revista Ciab FEBRABAN

www.febraban.org.br imprensa@febraban.org.br Twitter: @febraban


editorial

Gustavo Fosse Diretor Setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN

Ano novo: tempo de organizar contas e planejar orçamento

T

odo ano começa com despesas à porta: impostos como o IPVA e o IPTU, gastos com material escolar, matrículas e outros compromissos. Não é raro que dívidas contraídas no final do ano anterior venham somar-se às despesas típicas dos primeiros meses de um novo ano, carregando o período de gastos consideráveis para grande parte dos brasileiros. Apesar de ser uma época de acúmulo de contas, esse período também pode tornar-se uma oportunidade para que o consumidor planeje melhor seu ano, renegocie dívidas com credores, organize o orçamento para melhor aproveitar os meses à frente. Em nossa primeira edição de 2017, teremos duas reportagens que mostram como a tecnologia tem sido usada pelos bancos para ajudar as pessoas nesse esforço de botar as contas em dia e preparar-se para o futuro. Nossa capa traz matéria sobre a renegociação de dívidas online para que o cliente saia do vermelho em seus financiamentos, no cartão de crédito e no cheque especial. Mostramos como as instituições financeiras investem em plataformas de renegociação online para se aproximarem cada vez mais dos clientes endividados e facilitarem o pagamento de débitos em atraso pelos canais digitais. Quase um quarto do total de acordos firmados para quitar dívidas já é contratado de forma online em parte dos bancos e cerca de meio mi-

lhão de contratos foram renegociados nos últimos dois anos nos cinco maiores bancos públicos e privados. Entre as vantagens da renegociação online está a discrição no atendimento, uma vez que o cliente não precisa falar com o gerente, e também a possibilidade da realização de várias simulações de pagamento antes do fechamento do acordo. Em outra matéria, mostramos as ferramentas usadas pelos bancos no combate ao superendividamento. Por meio de plataformas virtuais, cursos online, web series e vídeos, as instituições financeiras orientam clientes com medidas preventivas de combate à inadimplência e sobre o uso consciente do crédito. As novidades do Ciab FEBRABAN 2017, o maior e melhor evento de TI para o setor financeiro da América Latina, também é tema de reportagem. Neste ano, a competição entre fintechs crescerá no evento, com a participação de 21 startups que apresentarão suas soluções para um júri formado por especialistas de grandes bancos e empresas de tecnologias. Outra reportagem sobre as startups traz pesquisa revelando que 75% dos consumidores manifestaram a sua preferência por adquirir novos serviços digitais a partir da própria instituição financeira em que são clientes, ou por meio de outro fornecedor tradicional como os bancos. Um excelente início de ano a todos e uma ótima leitura! n revista Ciab FEBRABAN

5


contas em dia

Negociação virtual Por Claudia Rolli

Bancos investem na renegociação de débitos para que cliente saia do vermelho em seus empréstimos, financiamentos, cartão de crédito e cheque especial

8

revista Ciab FEBRABAN


contas em dia

Divulgação

“O MOMENTO ECONÔMICO DO PAÍS EM 2016 CONTRIBUIU PARA O AUMENTO DA QUANTIDADE DE RENEGOCIAÇÕES REALIZADAS E O CONSEQUENTE USO DA SOLUÇÃO ONLINE” Walter Malieni Júnior, do Banco do Brasil

E

m um cenário de recessão da economia, aumento da inadimplência e crédito mais restrito, as principais instituições financeiras do país investem em plataformas de renegociação online para se aproximarem cada vez mais dos clientes endividados e facilitarem o pagamento de débitos em atraso pelos canais digitais. A discrição no atendimento – uma vez que o cliente não precisa falar com o gerente e sofre menor constrangimento na cobrança feita por telefone – aliada à conveniência de não precisar se deslocar a uma agência e à flexibilidade de horário são as principais razões apontadas para explicar o avanço das negociações de modo virtual. Quase um quarto do total de acordos firmados para quitar dívidas já é contratado de forma online em parte dos bancos, como o Banco do Brasil, o primeiro a criar uma plataforma desse tipo, no final de 2014. Na Caixa,

o percentual de dívidas resolvidas de modo virtual é de 12,5%, com a recente criação de um portal na internet em julho. A renegociação de débitos de até 60 dias em atraso triplicou em 2016 nos canais digitais do Santander, na comparação com o ano anterior. Cerca de meio milhão de contratos foram renegociados nos últimos dois anos nos cinco maiores bancos públicos e privados, segundo analistas desse segmento e executivos. Somente em uma das instituições, o BB, foram feitos, em um único dia, 16 acordos por hora, envolvendo a recuperação de R$ 102,5 mil a cada 60 minutos. Do lado dos bancos, soluções operacionais como as de renegociação online permitem a simplificação de processos e o aumento do uso dos canais de autoatendimento, com maiores ganhos de escala e produtividade. Bancos como o Bradesco e o Itaú Unibanco também revista Ciab FEBRABAN

9


Solange Macedo/Divulgação

contas em dia

"OS CLIENTES ESTÃO CADA VEZ MAIS DIGITAIS E NOS DEMANDAM PRODUTOS E SERVIÇOS COM ESTE PERFIL. ESSA TAMBÉM É UMA REALIDADE PARA A RENEGOCIAÇÃO” Adriano Pedroti, do Itaú Unibanco

10

revista Ciab FEBRABAN

firmam parcerias com empresas especializadas, startups e fintechs - que unem soluções tecnológicas a serviços de renegociação financeira -, para ajudar os devedores a encontrarem uma maneira de resolver suas pendências com cartão de crédito, cheque especial, financiamentos de veículos, empréstimos imobiliários e outras. Correntistas e empresas já interagem com as instituições financeiras enviando propostas para quitar débitos por meio de redes sociais, apps para smartphones e internet banking. Equipes são treinadas para orientar e conversar com os clientes pelo Facebook, WhatsApp e SMS, além de chats dos portais de renegociação. Desde que criou o Portal Solução de Dívidas, há dois anos, o Banco do Brasil fechou 335 mil acordos de dívidas com pessoas físicas (com valor médio de R$ 7 mil por cliente) e empresas (R$ 69 mil). O montante contratado chegou a R$ 3,58 bilhões – 68,5% de pessoas físicas. “O momento econômico do país em 2016 contribuiu para o aumento da quantidade de renegociações realizadas e o consequente uso da solução online”, diz Walter Malieni Júnior, vice-presidente de controles internos e gestão de riscos do BB até dezembro, e agora vice-presidente de distribuição de varejo e gestão de pessoas do banco. O número de consumidores negativados no país chegou a 59 milhões, de acordo com dados mais recentes da Serasa Experian – quase um em cada quatro brasileiros. "É natural que, pelo valor de endividamento e complexidade organizacional das empresas, esse público necessite de um maior tempo de amadurecimento para efetivar a negociação, em comparação com as pessoas físicas”, diz Malieni Júnior. “Mesmo assim, já registramos mais de 16 mil acordos envolvendo clientes PJ desde o lançamento da solução.” A ideia de criar o portal virtual de renegociação surgiu de um funcionário do banco


contas em dia

Para caber no bolso

por meio do Pensa BB, programa que incentiva os empregados a criarem soluções inovadoras. Em setembro, a instituição abriu a possibilidade de renegociar pelo celular, com a inclusão da função Solução de Dívidas no aplicativo do BB. Foram registrados, desde então, 33 mil acordos, envolvendo R$ 238 milhões em renegociações feitas por clientes pessoas físicas. Em um único dia (27 de dezembro) foram feitos 399 acordos envolvendo R$ 2,46 milhões. A partir deste ano, os clientes pessoas jurídicas (PJs) também poderão renegociar débitos por meio do app do banco. Nas redes sociais, o BB também tem se aproximado dos endividados. Desde setembro, o cliente (pessoa física e jurídica) já pode enviar a proposta de pagamento pelo Facebook por mensagem privativa (inbox) na fan page do BB. Oito em cada dez renegociações firmadas via internet são cumpridas pelos clientes, segundo dados do BB de até agosto. A taxa (80%) é maior que a do mercado de empresas especializadas em cobrança (70%). Segundo o BB, os clientes que adotam a solução de autoatendimento para renegociar débitos apresentam índice de efetividade de pagamento das parcelas 10% superior aos que usam outros canais. A maioria também opta pelo parcelamento, apesar de o banco oferecer descontos para a quitação de débitos à vista – 65% são contratados sem abatimento.

Ana Nascimento/ Assessoria da Caixa

"O FATO DE NÃO TER QUE SE EXPOR FACILITA E PROMOVE COMODIDADE AO CLIENTE QUE DESEJA REGULARIZAR EMPRÉSTIMOS E FINANCIAMENTOS" Francisco Lopes, da Caixa

No Santander, a negociação de débitos pelos canais digitais foi três vezes maior em 2016 do que no ano anterior, quando o banco passou a oferecer o serviço por meio do chat do internet banking. Dívidas em atraso de até 60 dias de cheque especial, cartão e crédito pessoal já podem ser negociadas para pagamento em até 72 meses pelo app do Santander desde julho de 2016. As empresas têm acesso ao serviço pela internet há quatro meses e pelos caixas eletrônicos desde outubro. Neste ano, o Santander ampliou o serviço pelo app para clientes com débitos em atrasos

revista Ciab FEBRABAN

11


contas em dia

Divulgação

“OS CANAIS DIGITAIS PERMITEM QUE OS CLIENTES REALIZEM VÁRIAS SIMULAÇÕES PARA SABER SE A PROPOSTA CABE NO BOLSO” Maxnaun Gutierrez, do Santander

superiores a 60 dias, parcelando em até 120 vezes. "Os canais digitais permitem que os clientes realizem várias simulações para saber se a proposta cabe no bolso”, diz Maxnaun Gutierrez, superintendente-executivo de e-commerce do Santander. “Por meio do aplicativo ou do internet banking, eles possuem mais privacidade e a possibilidade de uso em qualquer lugar e a qualquer momento.” A negociação presencial ainda é a preferida. Mas, hoje, 17% dos contratos são finalizados quando o cliente procura o chat do Santander para renegociar as dívidas. Com o desemprego elevado e a renda em queda, a tendência é de crescimento das renegociações físicas e virtuais, tanto das famílias como das empresas, avaliam economistas e executivos do setor. O Itaú Unibanco registrou em 2016 um aumento de 50% nos acessos de clientes que

12

revista Ciab FEBRABAN

buscaram os canais digitais e efetivamente renegociaram dívidas. Esse crescimento foi três vezes maior quando comparado a outros canais tradicionais do banco, explica Adriano Pedroti, diretor de crédito e cobrança do Itaú Unibanco. A expectativa é de o número aumentar em 2017, impulsionado pelo avanço do uso do mobile nas transações bancárias. "Os clientes estão cada vez mais digitais e nos demandam produtos e serviços com este perfil.” De acordo com Pedroti, essa também é uma realidade para renegociação, já que o cliente consegue, em poucos segundos, solucionar suas pendências pelos diversos canais digitais. Desde o início de 2015, o Itaú Unibanco oferece a possibilidade de renegociar pelo site; e o serviço está disponível pelo app há um ano. Além de um feirão para ajudar os inadimplentes, o banco prepara uma parceria com a Kita-


contas em dia

usuário acessa o portal até o que fecha o navegador. Ao menos 300 mil acessos por mês são feitos ao portal Kitado, com índice de efetividade de 16% a 40%, dependendo do perfil, faixa de atraso e desconto negociado.

Pelas redes sociais Na Caixa, a média diária foi de 235 acordos para pagamento de dívidas entre julho, quando a operação virtual foi criada no site, até novem-

Mario Bock/Divulgação

do, startup de recuperação de crédito online. Em cerca de dois meses, os clientes poderão utilizar o serviço. O volume de acessos na Kitado é maior entre os devedores pessoas físicas (PFs), mas a procura das empresas já chama atenção. Sem revelar detalhes, a Kitado, que, além do Itaú, tem parceria com o Banco Pan e outras instituições, recebeu, pelo portal, o pagamento de um único boleto com o valor de R$ 80 mil, um dos maiores já registrados. Foram 278 mil acordos feitos em 2016, com R$ 300 milhões de créditos recuperados de forma virtual. Paulo de Tarso, um dos fundadores da Kitado, acredita que a plataforma permite uma maior compreensão sobre o devedor. “No digital, conseguimos mapear dados sobre a intenção do devedor em pagar a dívida e a disponibilidade de recursos, o que permite aplicar descontos dinâmicos de acordo com o perfil de cada usuário, considerando, por exemplo, se ele já pagou uma dívida no passado”, diz o executivo. “Para os credores, a conta é simples: se a experiência é melhor para o devedor, provavelmente será para a empresa também.” Não há somente ganhos de escala no ambiente digital ao prestar um serviço mais rápido. O atendimento também faz a diferença, diz Tarso, ao mencionar um estudo da Accenture, segundo o qual as empresas brasileiras perderam, juntas, US$ 217 bilhões em 2015, com a migração de clientes para a concorrência por estarem insatisfeitos com os serviços prestados. “Em um pa��s em que cerca de 60 milhões de pessoas estão endividadas, garantir a ótima experiência na hora de recuperar crédito passa a ser um fator obrigatório para a estratégia de crescimento das empresas”, afirma Tarso. Em levantamento recente, a empresa constatou que 30% dos acordos online são feitos em menos de três minutos, desde o momento em que o

Nicola Tingas, economista da Acrefi, diz que a renegociação online é uma ferramenta produtiva e menos onerosa para clientes e credores revista Ciab FEBRABAN

13


contas em dia

bro de 2016. No período foram 36 mil contratos e R$ 120 milhões negociados. O serviço está disponível para pessoas físicas pela internet, pela página da Caixa no Facebook e pelo app do banco na opção Negociação de Dívidas. Nesses canais, a cada dia, 11 mil clientes, em média, acessam as informações; e um quinto das propostas é concretizado. Entre julho e setembro, metade dos valores gerados por boletos online foram recebidos pela Caixa – um total de R$ 40 milhões. “O fato de não ter que se expor, conversar com um gerente sobre sua situação de dificuldade momentânea, facilita e promove comodidade ao cliente que deseja regularizar empréstimos e financiamentos”, diz Francisco Lopes, superintendente nacional de recuperação de crédito da Caixa. Para os bancos, ainda há potencial para a renegociação online se expandir, porque parte dos clientes resiste a operações desse tipo, com desconfiança de fraudes na internet, e parte sente necessidade de discutir sua situação pessoalmente com um gerente. Atento às mudanças decorrentes da digitalização bancária, o Bradesco informou que investe em soluções multicanais para o cliente escolher os meios e os serviços que melhor atendam as suas necessidades. Pelo site do banco, os clientes podem negociar dívidas de capital de giro a financiamentos de bens e veículos. A instituição não detalha prazos, juros nem a quantidade de acordos firmados. Mas afirma que avalia caso a caso para oferecer as melhores condições para cada cliente. No final de 2015, o Bradesco firmou parcerias com os portais de renegociação Quero Quitar e Acordo Certo, especializados em serviços de renegociação online de dívidas. “Trata-se de ambiente totalmente digital, cujos portais

14

revista Ciab FEBRABAN

possibilitam reunir, de um lado, os consumidores que querem solucionar suas pendências financeiras, e de outro, o banco, que busca maior eficiência e melhores resultados para os processos de cobrança”, informa o Bradesco. A parceria prevê o envio de e-mails, SMS e carta-convite para os clientes acessarem esses canais e conhecerem as formas de renegociação de dívidas propostas pelo banco. Para o economista Nicola Tingas, da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), a renegociação online é uma ferramenta produtiva e menos onerosa a clientes e credores, mas requer uma avaliação prévia de valores, prazos e condições de pagamento para ser eficaz. “O cliente deve saber sua real condição financeira para que a solução de uma dívida antiga não se torne no futuro próximo um novo problema.” O uso de canais digitais para a renegociação deve continuar em expansão, mas não provocará a extinção dos meios tradicionais, diz Eduardo Tambellini, sócio-consultor da GoOn, empresa de gestão de risco de crédito. “Existem pessoas que preferem interagir por chat, outras por WhatsApp, mas há uma grande parcela que prefere a interação humana”, diz. “É um dos fatores pelos quais as empresas não devem simplesmente substituir 100% de seus callcenters por autonegociadores.” O contato presencial permite ao cliente dar detalhes de seu orçamento mensal, expressar sua história e condições, e até mesmo receber orientação financeira, avalia Reinaldo Domingos, presidente da Abefin (Associação Brasileira de Educadores Financeiros). “É preciso lembrar que a administração das finanças é comportamental; tem mais relação com os hábitos fomentados ao longo da vida do que apenas com os números e as taxas de juros.” n


PARA SAIR DO VERMELHO Bancos incrementam canais digitais para incentivar renegociação de dívidas e firmam parcerias com startups que unem soluções tecnológicas e serviços financeiros

BANCO DO BRASIL n Portal criado pelo banco pode ser acessado por

pessoas físicas e empresas pelo internet banking (http://www.bb.com.br/pbb/pagina-inicial/voce/ produtos-e-servicos/solucao-de-dividas#/) n Correntistas (pessoas físicas) podem renegociar

desde setembro pelo app no celular e no tablet; empresas terão acesso ao serviço a partir de 2017

prazos, taxas e valor de parcelamento; feito o acordo online, o cliente pode imprimir o boleto pelo site n O devedor faz um cadastro, informa CPF e e-mail;

visualiza as formas de pagamento da dívida e depois escolhe uma das propostas para fechar o acordo virtual

n É possível definir contratos renegociados em um

único acordo ou separadamente, escolher valor da entrada, parcelar em até 60 meses n Renegociação pode ser feita desde setembro pelo

Facebook do BB por clientes ou empresas por meio de mensagem inbox

CAIXA n Ao acessar o site https://www.negociar.caixa.

gov.br/sineb/clienteIdentifica.jsp, o cliente recebe no celular o código de acesso para fazer a renegociação n A

BRADESCO n É possível enviar proposta online e negociar dívidas

de capital de giro a financiamento de veículos n Após

enviar a proposta pelo site (https://banco. bradesco/html/classic/produtos-servicos/maisprodutos-servicos/regularizacao-de-divida.shtm) e o prazo de pagamento, a agência faz contato com o cliente ou empresa para formalizar o acordo

n O

banco tem parceria com os portais Quero Quitar e Acordo Certo, especializados em negociar de forma virtual; o cliente pode simular

16

revista Ciab FEBRABAN

proposta pode ser feita também pelo Facebook e, pelo app, a opção “negociação de dívidas” permite o acesso ao serviço de clientes pessoas físicas


OS PRÓS E CONTRAS NA NEGOCIAÇÃO ONLINE 3 O constrangimento para formalizar o acordo é menor n Dívidas de empréstimos e financiamentos com

atraso igual ou superior a 60 dias e no limite de R$ 49 mil podem ser parceladas em até 96 meses; é preciso pagar 10% na primeira parcela n Débitos

com menos de 60 dias de atraso podem ser regularizados pelo telefone 0800-726-8068, e dívidas de cartão de crédito e financiamento habitacional têm outras condições específicas de renegociação pelo site

ITAÚ UNIBANCO n A renegociação pode ser feita pelos canais

tradicionais ou digitais (internet e app) e campanhas especiais são feitas durante o ano com ofertas diferenciadas, como o feirão de renegociação n Clientes e empresas podem, desde 2015, negociar

contratos em atraso pelo site (https://www.itau. com.br/renegocie/), acionar consultores via chat, verificar ou imprimir boletos e sugerir proposta de renegociação n Pelo app, o banco oferece os mesmos serviços

desde 2016 n Parcerias

com empresas e portais especializados em renegociação, como a startup Kitado que atua na recuperação de créditos, estão sendo firmadas

3 Há possibilidade de fazer várias simulações antes fechar o acordo 3 Flexibilidade de horário 3 A interação por chat, WhatsApp e SMS é prática, mas menos pessoal 3 O devedor deve prestar atenção aos dados da negociação (prazo, parcelas, juros) 3 É preciso ter cuidado com fraudes 3 Na dúvida, o cliente deve procurar o banco antes de pagar qualquer boleto online

SANTANDER n Clientes (pessoas físicas) podem renegociar pelo

chat do app do banco desde julho e no internet banking desde 2015, além dos canais tradicionais n As empresas têm o serviço desde setembro pelo

canal de internet banking e desde outubro pelos caixas eletrônicos n No app Santander, os clientes podem renegociar

dívidas em atraso (de 1 a 60 dias) de cheque especial, cartão e crédito pessoal por meio de chat; não há valor máximo para a negociação e o parcelamento é de até 72 meses n Clientes com atrasos acima de 60 dias poderão ter

acesso à renegociação, em até 120 parcelas, pelo app do banco a partir de 2017

Fonte: bancos

revista Ciab FEBRABAN

17


educação financeira

Tecnologia é aliada de bancos para o uso do crédito consciente Por Claudia Rolli

Plataformas virtuais, cursos online, web series e vídeos ajudam no combate ao superendividamento

18

revista Ciab FEBRABAN


educação financeira

O

“POR MEIO DA TECNOLOGIA, CONSEGUIMOS AUMENTAR A DISSEMINAÇÃO DE INFORMAÇÕES E NOS FAZER PRESENTES EM DIVERSOS LUGARES” Denise Hills, do Itaú Unibanco

Solange Macedo/Divulgação

uso do crédito consciente para evitar o superendividamento, principalmente em produtos como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial, é alvo dos principais programas e ações de educação financeira dos maiores bancos do país. O objetivo é incentivar o cliente a conhecer e migrar para linhas de parcelamento mais baratas e assim diminuir o comprometimento de sua renda. Para ajudar a reduzir a vulnerabilidade financeira do consumidor, as instituições usam a tecnologia – por meio de plataformas virtuais, cursos online, web series e vídeos – com inovações que incluem central de atendimento com especialistas em crédito, capazes de interagir em tempo real com clientes e gerentes; medidas preventivas de combate à inadimplência, para os propensos ao endividamento; e programas em comunidades de baixa renda, escolas e ONGs. As iniciativas dos bancos estão alinhadas às medidas anunciadas no final de dezembro pelo Banco Central para aumentar o nível de

revista Ciab FEBRABAN

19


Divulgação

educação financeira

“A FALTA DE CULTURA FINANCEIRA É UM PROBLEMA MUITO MAIS ESTRUTURAL DO QUE IMAGINÁVAMOS. O BRASILEIRO AINDA NÃO ESTÁ PREPARADO PARA TER UMA RELAÇÃO ADEQUADA COM O CRÉDITO” Raul Moreira, da Alelo

20

revista Ciab FEBRABAN

educação financeira do brasileiro, aperfeiçoar mecanismos de solução de conflitos e reduzir o custo do crédito. O Itaú Unibanco planeja expandir neste ano ações do programa “Uso consciente do dinheiro” para os funcionários, que já teve 24 milhões de visitantes em seu portal desde 2011, e investir em projetos para mulheres empreendedoras. “Por meio da tecnologia, conseguimos aumentar a disseminação de informações e nos fazer presentes em diversos lugares”, diz Denise Hills, superintendente de sustentabilidade e negócios inclusivos do Itaú Unibanco. “Nossa assessoria financeira é realizada via Skype, temos e-learnings (cursos online) e programa para colaboradores das empresas clientes com conteúdos no formato de vídeo.” Com os sites Proteja, Invista e Crédito Consciente, o banco atingiu, em dois anos, 7,4 milhões de visitantes. Em 2016, a campanha “Vida Real” entrou no ar no canal do banco para mostrar histórias reais de pessoas e seus dilemas financeiros. A série já teve mais de 42 milhões de visualizações. O Banco do Brasil criou uma central de atendimento com cem especialistas em uso responsável do crédito para reorientar quem ainda usa linhas de crédito mais caras – como rotativo do cartão de crédito ou cheque especial - e tem à disposição opções melhores de crédito pessoal ou consignado. Uma solução tecnológica permite à equipe atuar em tempo real, com as agências, para buscar alternativas aos clientes, considerando perfil, renda, endividamento e necessidade. O sistema foi batizado de “Melhor Oferta”. As ações são parte da campanha Crédito Consciente, iniciada em 2015, quando o BB reestruturou o CRM (Customer Relationship Management ou Gestão de Relacionamento


educação financeira

com um contador que exibirá o tempo de uso do recurso. “O cliente deixa de pegar um empréstimo disponível para quitar o rotativo ou cheque especial porque afirma que não quer se endividar; chega a pagar três ou quatro vezes mais (nos juros desses produtos) e não enxerga que já está endividado”, diz Raul Moreira, que até dezembro ocupava o cargo de vice-presidente de negócios de varejo do BB e hoje preside a Alelo, empresa de cartões-benefício, formada por Banco do Brasil e Bradesco.

Para João Carlos Gomes da Silva, do Bradesco, o endividamento é um caminho que leva as pessoas a perceberem o quanto é importante entender as mudanças, prioridades e excesso no consumo

Egberto Nogueira/Imã Foto Galeria​/Divulgação

com os Clientes) e identificou “anomalias” no uso do crédito, nas palavras de técnicos do setor. Cerca de 6,5 milhões de clientes tomadores de crédito do BB (10% da base total do banco) já são abordados pelo CRM em diferentes canais (ATMs, extratos, app, internet) sobre a existência de linhas de crédito mais baratas. Deste total, 2 milhões de clientes, que acessam regularmente o rotativo do cartão de crédito, em períodos de até 60 dias, quando deveriam usá-lo de forma emergencial, receberão mensagens por SMS a partir de março,

revista Ciab FEBRABAN

21


Carlos Della Rocca/Divulgação

educação financeira

“O AUTOCONHECIMENTO DAS SUAS FINANÇAS E O ENVOLVIMENTO DA FAMÍLIA NO PLANEJAMENTO SÃO ESSENCIAIS PARA EVITAR CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS” Linda Murasawa, do Santander

O comportamento está em várias faixas de renda, instrução e idade. “A falta de cultura financeira é um problema muito mais estrutural do que imaginávamos. O brasileiro ainda não está preparado para ter uma relação adequada com o crédito”, afirma Moreira. Para João Carlos Gomes da Silva, diretor de empréstimos e financiamentos do Bradesco, o endividamento é um caminho que leva as pessoas a perceberem o quanto é importante entender as mudanças de cenário do país, prioridades,

22

revista Ciab FEBRABAN

excessos no consumo e controle financeiro. Com ações presenciais nos municípios, comunidades e associações, o Bradesco tem estimulado o uso consciente de recursos financeiros entre pessoas físicas e jurídicas. Desde 2010, foram realizadas mais de mil palestras com a participação de 32 mil pessoas. “Atualmente, uma grande parcela da população ainda está fora do sistema financeiro devido a vários fatores, entre eles, a falta de conhecimento ou acesso”, afirma Silva. “O cenário apresenta grandes oportunidades para trabalhos como o que desenvolvemos.” De acordo com o executivo, mais do que fazer participar do sistema financeiro, é importante incluir as pessoas “de forma orientada e esclarecida”.


As ações virtuais e presenciais relacionadas à educação financeira do Santander atingiram cerca de 5 milhões de pessoas em 2015. Em plataformas digitais como o Portal de Sustentabilidade, o Santander oferece conteúdos voltados para o tema. O programa “Negócios e Empresas” aborda o assunto com pessoas jurídicas, e o portal “Conta pra mim” estimula a troca de ideias relacionadas à vida financeira. “O autoconhecimento das suas finanças e o envolvimento da família no planejamento são essenciais para evitar consequências negativas, como o endividamento e a perda da qualidade de vida”, diz Linda Murasawa, superintendente-executiva de desenvolvimento sustentável e sustentabilidade do Santander. Já a Caixa, com cursos e vídeos online e conteúdos de educação financeira em seu site, registrou mais de 350 mil acessos no segundo semestre de 2016. Apps como o Poupançudos e outro em desenvolvimento, com games para jovens e adultos, assim como ações feitas em escolas públicas e privadas, incentivam o hábito de poupar. Para instruir comunidades carentes e beneficiários de programas sociais, a Caixa fez parceria com entidades e empresas com projetos em finanças sustentáveis. “A utilização de ferramentas tecnológicas para realizar a gestão financeira torna-se uma aliada no desenvolvimento da educação financeira no dia a dia”, diz Jeyson Leyser Cordeiro, superintendente nacional de estratégia para pessoa física da Caixa. n

Ana Nascimento/ Divulgação

educação financeira

"A UTILIZAÇÃO DE FERRAMENTAS TECNOLÓGICAS PARA REALIZAR A GESTÃO FINANCEIRA TORNA-SE UMA ALIADA NO DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA NO DIA A DIA” Jeyson Leyser Cordeiro, da Caixa revista Ciab FEBRABAN

23


educação financeira

Programas de educação financeira orientam clientes, funcionários e toda a sociedade sobre o uso consciente do dinheiro

Saber escolher crédito adequado evita superendividamento SANTANDER 3 Programa Parceiros em Ação para microempreendedores de comunidades de baixa renda 3 Portal Conta Pra Mim, para pessoas enviarem vídeos com dicas, e portal de sustentabilidade 3 Palestras para funcionários de empresas com a folha de pagamento no banco 3 Programa de Apoio Pessoal com atendimento e suporte a funcionários que precisam de orientação financeira 3 Escola Brasil

ITAÚ UNIBANCO 3 Ação preventiva aborda clientes que demonstram propensão à inadimplência e oferece produtos mais adequados 3 Portal interativo Uso consciente do dinheiro com assessoria financeira via Skype, cursos, entre outras ações 3 Ação voluntária com a Fundação Itaú Social para jovens de ONGs e escolas públicas de São Paulo 3 Campanha “Vida Real” com web serie e histórias reais de pessoas, e plataforma “Mito ou Verdade Itaú” para esclarecer dúvidas 3 Plataforma de e-learnings para funcionários com videoaulas, cursos e assessoria confidencial 3 Programa para colaboradores de empresas clientes disponível para mais de 700 companhias com PABs (postos de atendimento bancário)

24

revista Ciab FEBRABAN


educação financeira

BRADESCO 3 Portal com foco na importância do crédito responsável e no controle da vida financeira

Egberto Nogueira/Imã Foto Galeria​/Divulgação

3 Atendimento personalizado de acordo com perfil e atividade econômica para apoiar o desenvolvimento de clientes pessoa física ou jurídica 3 Programa com palestras em feiras e eventos em parceria com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) 3 Ações presenciais em municípios, comunidades e associações para estimular o uso consciente dos recursos financeiros

BANCO DO BRASIL 3 Central de atendimento com especialistas em uso do crédito orienta clientes que usam rotativo do cartão de crédito e cheque especial a migrarem para linhas mais baratas 3 App gerenciador de finanças pessoais para mobile será lançado neste trimestre 3 App Trato ensina pais e filhos com jogos e tarefas sobre educação financeira 3 Universidade do Cliente, com portal para universitário e ações como o Pensa Universitário, que premiará ideias voltadas à inovação bancária 3 Portal de educação financeira do site com cursos, dicas e jogos para mobile que ensinam crianças sobre a importância de poupar

CAIXA 3 Site orienta sobre crédito e ações para não bancarizados, como abertura de conta para beneficiários de programas sociais 3 Projeto de aceleração de startups desenvolverá ações e soluções de finanças sustentáveis em comunidades carentes 3 Projeto TIM Multibank Caixa com cursos para moradores de comunidades no RJ busca a inclusão financeira, com acesso a conta pré-paga no celular 3 Programa Poupançudos nas escolas de ensino fundamental e palestras para alunos de graduação, 2º grau (período noturno) e prestadores de serviço da Caixa 3 App que incentiva jovens e adultos a poupar, por meio de games, está em desenvolvimento 3 Cursos online e presencial, videoaulas, palestras, dicas em extratos também são iniciativas usadas para educar o consumidor Fonte: bancos

revista Ciab FEBRABAN

25


educação financeira

Tecnologia impulsiona programas de educação financeira Por Adriana Mompean

A

liar a tecnologia com programas de educação financeira, para tornar o tema mais agradável e convidativo a diferentes públicos, faz parte da estratégia da Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF-Brasil) para o biênio 2017-2018. A organização da sociedade civil de interesse público cria projetos para desenvolver nos cidadãos um comportamento financeiro saudável e consciente, capaz de aumentar a qualidade e garantir o êxito de seus projetos de vida. A AEF-Brasil é mantida por quatro instituições representantes do mercado financeiro – Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais); BM&FBovespa, CNSeg (Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização) e FEBRABAN- Federação Brasileira de Bancos. De acordo com Claudia Forte, superintendente da AEF-Brasil, para o biênio 2017-2018, o direcionamento estratégico da associação é composto por quatro componentes, todos de base tecnológica, que serão lançados na 4ª Semana Nacional de Educação Financeira, entre 8 e 14 de maio. A Semana Enef é uma iniciativa do Comitê Nacional de Educação Financeira (Conef ) para promover a Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef ). Na ocasião, diversas ações educacionais serão realizadas em todo o país.

26

revista Ciab FEBRABAN


educação financeira

Entre os lançamentos da AEF-Brasil está um game multiplataforma que funcionará no esquema do jogo Sin City – em que o participante constrói e administra uma cidade. No game, que rodará em tablets, PCs e aplicativos de celular, o jogador aprenderá conceitos de educação financeira e terá que lidar com responsabilidades da vida real, como pagar contas. Outra novidade será uma plataforma que garantirá o acesso a todas as ações dos membros do Conef e de iniciativas de educação financeira pelo país. “Com a plataforma, a expectativa é atingir 300 mil usuários até o final do ano”, avalia Claudia Forte, superintendente da AEF-Brasil. Outros dois componentes estratégicos da associação, atualmente presidida por Murilo Portugal, da FEBRABAN, serão parcerias com secretarias de Educação e universidades em to-

dos os Estados do país, que se propuserem a fazer a capacitação dos professores de maneira online e presencial. Está prevista, ainda, uma campanha de comunicação com a TV Escola, voltada para o professor, em parceria com o MEC. O objetivo é atingir 700 mil professores. Na opinião de Claudia Forte, a tecnologia precisa ser transformada em um instrumento para ajudar professores, que hoje passam pelo menos 30% do tempo de aula pedindo aos alunos para manter silêncio ou para desligar os celulares. “A tecnologia pode ser um grande vilã nas relações se não soubermos usá-la; mas no processo educacional é uma grande aliada, quando desmistificada”, afirma. “Pode ser usada para aliar experiência dos professores com as expectativas dos alunos. É um grande caminho que devemos percorrer para vencer as diferenças sociais no Brasil.” n revista Ciab FEBRABAN

27


congresso de tecnologia

Competição entre fintechs crescerá no Ciab 2017 Por Adriana Mompean

28

revista Ciab FEBRABAN


Cacalos Garrastazu/FEBRABAN

Vinte e uma startups participarão de campeonato entre fintechs no maior fórum de tecnologia da informação para o setor financeiro da América Latina. Congresso ocorrerá entre 6 e 8 de junho no Transamerica Expo Center, em São Paulo

Ciab Fintech Day 2016 contou com painéis e palestras de debates sobre riscos e oportunidades gerados pelas novas tecnologias disruptivas, além de competição entre as startups

S

urgidas com a digitalização da indústria e dos serviços e a popularização dos smartphones, as fintechs apostam em inovação para revolucionar os serviços financeiros. Esse fenômeno, acompanhado com interesse pelas instituições financeiras, ganhará, neste ano, maior destaque no Ciab FEBRABAN, que ocorrerá entre 6 e 8 de junho. Os organizadores selecionarão 21 startups para participar de uma competição no Lounge Fintech 2017, que no ano passado contou com nove empresas participantes. As fintechs selecionadas apresentarão suas soluções para um júri formado por especialistas de grandes bancos e empresas de tecnologias. Três vencedoras se reunirão com executivos das instituições financeiras para estudar possibilidades de negócios e parcerias. revista Ciab FEBRABAN

29


congresso de tecnologia

Ciab FEBRABAN 2017 Data: de 6 a 8 de junho Local: Transamerica Expo Center, em São Paulo Tema: Ser Digital Trilhas: • Experiência do Cliente • Produtos • Transformação digital

Assuntos em debate: • Fintechs • Blockchain • Meios de pagamento • Seguros • Moedas virtuais • Cloud computing • Segurança da informação

Evento entre fintechs 3 Campeonato entre fintechs em que 21 startups serão selecionadas para apresentar suas soluções para um júri formado por especialistas de grandes bancos e empresas de tecnologia 3 Três vencedoras se reunirão com executivos de bancos para estudar possibilidades de negócios e parcerias com as instituições financeiras 3 As mais de 200 fintechs brasileiras serão convidadas para se inscreverem no programa 3 Bancos poderão indicar fintechs internacionais para a competição. Não poderão ser indicadas as fintechs que participaram do Ciab 2016 3 Cada fintech terá 5 minutos para a apresentação de seu trabalho, mais 3 minutos para perguntas e respostas

30

revista Ciab FEBRABAN

Os critérios de avaliação serão: 3 Experiência do Cliente: Como o projeto oferece uma grande experiência ao cliente? 3 Audácia: A tecnologia oferece soluções para grandes problemas? 3 Inovação e Simplicidade: a tecnologia simplifica um processo complexo? 3 Escalabilidade: o projeto tem possibilidade de crescimento/futuro? 3 Equipe executora: serão avaliadas características da equipe executora do projeto


congresso de tecnologia

FotoAndres/FEBRABAN

De acordo com Marcelo Assumpção, gerente de relacionamento de eventos da FEBRABAN, todas as startups participantes do evento afirmaram, em pesquisa realizada no Fintech Day 2016, que conseguiram agendar reuniões com bancos de todos os portes durante e após o Ciab FEBRABAN. “Isto comprova o sucesso da iniciativa para gerar parcerias e negócios”, afirma. “Neste ano serão convidadas para participar do evento as mais de 200 fintechs brasileiras; no ano passado, convidamos 60.” De acordo com Assumpção, para participar e ser selecionada, é necessário que a startup apresente soluções disruptivas para o mercado financeiro. No ano passado, as empresas mostraram produtos e soluções para as áreas de adiantamento de recebíveis, crédito, financiamento, pagamentos, empréstimos, moedas virtuais, transferência eletrônica, quitação de dívidas e gamification. Os bancos também poderão indicar fintechs internacionais para a competição. Neste

ano, o Lounge Fintech terá área com mais de 500 metros quadrados para acomodar um número maior de expositores e mudará de localização: ficará ao lado do auditório principal do evento de TI.

Ser digital A 27ª edição do Ciab FEBRABAN terá como tema central “Ser Digital”. O objetivo é debater a transformação vivida globalmente pelas instituições financeiras que exige investimentos dos bancos na oferta de uma experiência diferenciada para os clientes, com soluções e produtos inovadores. O congresso de TI será organizado em três temas, as “trilhas” do evento: Experiência do Cliente, Produtos e Transformação Digital. Além da temática das fintechs, outros assuntos que serão debatidos entre congressistas e especialistas do setor financeiro serão blockchain, moedas virtuais, cloud computing, segurança da informação e meios de pagamento. n

Loung Fintech da 26ª edição do Ciab FEBRABAN; neste ano, o espaço terá área com mais de 500 metros quadrados para acomodar um número maior de expositores

revista Ciab FEBRABAN

31


Bancos e fintechs

Inovar, sim; mas com segurança Por Júlia Zillig

Consumidores não abrem mão dos bancos na hora de receber novas soluções tecnológicas, revela estudo internacional. Em paralelo, parcerias entre instituições financeiras e fintechs ganham força

A

s fintechs, startups financeiras com estruturas enxutas e forte apoio de novas tecnologias, estão no centro das atenções do mercado financeiro por oferecerem produtos e serviços personalizados com custos reduzidos. Entretanto, na hora de adquirir um novo serviço digital, o cliente prefere fazê-lo a partir da própria instituição financeira em que é cliente ou por meio de um fornecedor que seja tradicional como os bancos. O comportamento foi identificado em 75% dos entrevistados na pesquisa Fintechs Disruption in Financial Services – a Consumer Perspective, feita pela empresa CGI nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Suécia e Cingapura. E no Brasil, o cenário é semelhante. Para Augusto Kaway, senior director consulting da CGI, muitas fintechs ainda não têm a transparência necessária - um dos principais ativos das instituições financeiras - para ganhar

32

revista Ciab FEBRABAN


Bancos e fintechs

Bancos e fintechs A união que pode dar certo

Bancos

Fintechs

• Segurança das operações • Compliance e regulamentação • Serviços de qualidade • Transparência • Confiança • Base de clientes

• Novas tecnologias • Expertise digital • Soluções inovadoras • Custos menores

Clientes bem atendidos, com agilidade e facilidade, tendo acesso a produtos inovadores e com um custo menor

revista Ciab FEBRABAN

33


Divulgação Accenture

Divulgação CA Technologies

Bancos e fintechs

Para Guilherme Horn, da Accenture, a parceria entre bancos e fintechs permitirá que as instituições financeiras tradicionais desenvolvam produtos centrados no cliente

Júlio Carvalho, da CA Technologies, afirma que o Brasil adota novas tecnologias de forma gradativa

a confiança dos clientes. “O cliente quer que o banco o ajude na gestão da vida financeira; cada dia mais, busca facilidade pela sua fidelidade”, enfatiza. A segurança das operações, na opinião do especialista, é o grande ativo dos bancos. “E eles não podem perder isso.” O estudo World Fintechs Report 2017, realizado pela Capgemini em parceria com o LinkedIn, reforça essa premissa. Apenas 24% dos consumidores entrevistados confiam nas startups financeiras. “No Brasil, o cenário das fintechs ainda está na fase de experimentação”, afirma Rodrigo Corumba, vice-presidente de serviços financeiros da Capgemini Brasil. “Os bancos brasileiros são vistos como moder-

34

revista Ciab FEBRABAN

nizados, porém ainda há oportunidades de melhoria no relacionamento com os clientes, momento em que as startups podem ajudar.” O consumidor brasileiro tem um perfil bastante sensível à inovação e é atraído por ela. Segundo levantamento da Pew Research Center (PRC), o Brasil ocupa o sétimo lugar no consumo de internet no mundo. Porém, segundo Júlio Carvalho, diretor de pré-vendas de segurança e API managment da CA Technologies para a América Latina, o país adota novas tecnologias de forma gradativa. “Não é comum, por exemplo, um correntista brasileiro encerrar sua conta em uma instituição financeira tradicional antes


Bancos e fintechs

A força das fintechs no Brasil

de testar e comprovar a eficiência de novos serviços, seja de uma fintech ou de um novo banco digital.”

De mãos dadas

Divulgação Capgemini

A postura do novo consumidor, que quer serviços mais ágeis, soluções inovadoras e custos menores, fez com que as instituições financeiras brasileiras, de modo geral, mudassem de postura e olhassem as fintechs como possíveis parceiras, não mais como competidoras. Segundo Moutusi Sau, analista de pesquisa do Gartner internacional, um relacionamento mútuo entre bancos e fintechs é benéfico para o consumidor. “Enquanto as fintechs se beneficiam da base de clientes dos bancos, as instituições financeiras testam e afinam novas tecnologias.”

Atuam em 16 segmentos: grande parte das fintechs atua na área de pagamentos (31%)

35% delas encontram-se em pleno crescimento

Maior mercado de fintechs da América Latina (219 startups financeiras)

Mais de 50% das startups financeiras estão instaladas em São Paulo

Fonte: Finnovation (em conjunto com o Finnovista e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento)

Para Rodrigo Corumba, da Capgemini, o cenário das fintechs no Brasil ainda está na fase experimental revista Ciab FEBRABAN

35


Bancos e fintechs

Divulgação CGI

Para Augusto Kaway, a segurança das operações é o grande ativo dos bancos

Divulgação Resource

Quando não estão trabalhando em conjunto com as fintechs, muitas instituições financeiras criam suas próprias startups ou investem em incubadoras em busca de inovações. Moutusi destaca o sucesso de iniciativas de bancos brasileiros, como o laboratório do Banco do Brasil no Vale do Silício (EUA), e a criação do Cubo, incubadora mantida há cerca de um ano pelo Itaú. “O Bradesco também está colocando suas APIs (Application Programming Interface) à disposição das fintechs, incentivando-as a desenvolver e experimentar várias soluções para o banco”, destaca. Para Kaway, da CGI, o sistema financeiro brasileiro está um passo à frente nesse relacionamento com as fintechs, mesmo lidando

36

revista Ciab FEBRABAN

“COM AS FINTECHS, OS BANCOS PODEM INCLUIR EM SEU PORTFÓLIO CARTÃO SEM TAXAS, MICROSSEGUROS E EMPRÉSTIMOS COM TAXAS COMPETITIVAS PARA A POPULAÇÃO NÃO BANCARIZADA” Paulo Marcelo, CEO da Resource


Bancos e fintechs

A visão do consumidor • Quer ter acesso às novas tecnologias, a partir do banco no qual ele tem relacionamento. Ainda falta confiança no trabalho direto das fintechs

• Quer facilidade, com a possibilidade de fazer suas movimentações financeiras, incluindo pagamentos e investimentos, via celular

• Almeja desfrutar de uma gestão personalizada de sua vida financeira, tendo acesso a tudo o que envolve essa movimentação em um só canal

• Sua maior preocupação é a questão da segurança: tem medo da falta de proteção de dados e fraudes financeiras

• Espera vivenciar uma experiência digital personalizada, ao receber ofertas de produtos e serviços baseados em seu estilo de vida e consumo Fontes: Fintech Disruption in Financial Services – a Consumer Perspective (CGI) e World Fintech Report 2017 (Capgemini)

com alguns pontos delicados, como a questão cultural. “Há um legado deixado da época dos mainframes, além da cultura interna: os bancos já estão começando a flexibilizar seus processos, mas precisam adotar a mesma postura com seus ativos de TI.” Na opinião de Rodrigo Corumba, da Capgemini, a terceirização de serviços para essas fintechs é outra opção a ser adotada pelos bancos, “principalmente para serviços das áreas de cobrança, recuperação de crédito, liquidação de tesouraria, funding para operações de crédito, entre outras”.

Perspectivas Na opinião dos especialistas ouvidos pela revista Ciab FEBRABAN, o futuro do relacionamento entre fintechs e bancos é definido em

uma palavra: colaboração. Para Guilherme Horn, líder de inovação aberta da Accenture para a América Latina, os bancos podem aprender com o “mindset (mentalidade) das fintechs”. “Isso permitirá que as instituições financeiras tradicionais desenvolvam produtos centrados diretamente no cliente.” A evolução desse relacionamento possibilitará ainda que os bancos tirem proveito de um mercado que apresenta potencial de expansão: os serviços financeiros voltados para a população de baixa renda que ainda não está no sistema bancário convencional. “Com as fintechs, os bancos podem incluir em seu portfólio cartão sem taxas, microsseguros, empréstimos com taxas competitivas, permitindo a inclusão dessa população não bancarizada”, conclui Paulo Marcelo, CEO da Resource. n revista Ciab FEBRABAN

37


moedas anônimas

Dinheiro sem rastro Por Maurício Moraes

Ao apostar no anonimato das transações, duas criptomoedas – Zcash e Monero – ganham terreno e tentam consolidar-se como alternativa ao Bitcoin

38

revista Ciab FEBRABAN


moedas anônimas

Divulgação

O

Bitcoin trouxe inovações capazes de revolucionar o sistema financeiro, mas está longe de ser uma tecnologia perfeita. Desde que a criptomoeda ganhou popularidade, engenheiros e programadores tentam criar alternativas capazes de superar alguns dos seus problemas e, com isso, inventar a moeda digital definitiva. Duas delas ganharam espaço no ano passado, por garantirem o anonimato das transações: o Monero e o Zcash. Criado em 2014, o Monero tornou-se um sucesso no segundo semestre de 2016, ao ser aceito por dois mercados ilegais da internet, o Oasis e o Alphabay – ambos interessados na sua capacidade de encobrir a identidade dos usuários e o valor das operações. Em outubro surgiu o Zcash, com a proposta de resolver um problema que dificulta a adoção do blockchain por instituições financeiras: o caráter público de todas as informações registradas. O Zcash permite registrar as transações e comprová-las, mas observadores externos não podem ver as quantias trocadas ou as identidades dos envolvidos. As informações, no entanto, podem ser fornecidas para órgãos de

João Paulo Oliveira, da Foxbit: tecnologia que permite anonimato das transações pode ajudar os bancos a usar o blockchain

revista Ciab FEBRABAN

39


moedas anônimas

Rafaela Bonogli

Jonatas Leandro, da IBM: criptomoedas que ocultam identidade e transações estão mais próximas do dinheiro real

fiscalização. “O blockchain do Bitcoin é totalmente público e transparente; todo mundo sabe de tudo”, explica João Paulo Oliveira, sócio-diretor da corretora de ativos digitais Foxbit. De acordo com o executivo, em um ambiente de um blockchain privado, onde um banco faz uma transação com o cliente, em princípio, a instituição não gostaria que outro banco soubesse daquilo. “Ele precisa provar para todo mundo que aquela transação foi feita, está segura, mas não quer revelar quem é o cliente ou o volume da transação”, afirma. “O Zcash permite fazer isso. Foi um avanço tecnológico criptográfico”, complementa. O desenvolvimento do protocolo do Zcash começou há três anos e envolveu pesquisadores das Universidades Johns Hopkins e de Tel Aviv e dos Institutos de Tecnologia

40

revista Ciab FEBRABAN

de Massachusetts (MIT) e de Israel (Technion). Quando o Zcash saiu do papel, seu valor disparou e chegou a valer mais de 3 mil Bitcoins – no fechamento desta edição, a cotação do Bitcoin era de R$ 2,928. Depois que a especulação passou, o preço despencou para menos de 1 Bitcoin. Isso não significa que a moeda tenha perdido importância, mas que passa, ainda, por uma fase instável. Oliveira, da Foxbit, aposta que o Zcash vai se recuperar. Ele também acredita que as inovações trazidas deverão ser analisadas mais de perto por instituições financeiras e órgãos governamentais. Por trás da critptomoeda está uma startup, a Zcash, o que pode favorecer acordos e parcerias. O Monero tem uma história semelhante. A preocupação com a privacidade, tanto das


moedas anônimas

Divulgação

Paschoal Baptista, da Deloitte: corretoras estão preocupadas em garantir o know your customer, o que tira parte do anonimato

transações como das partes envolvidas, está presente desde que a criptomoeda foi criada. Não é possível acompanhar o que está acontecendo no blockchain e, por isso, mercados ilegais passaram a adotá-la no ano passado. “O Monero tem o espírito da internet livre”, afirma Paschoal Baptista, sócio de serviços financeiros da Deloitte. “Os algoritmos deles não são baseados no mesmo modelo do Bitcoin.” No entanto, assim como no Zcash, quem faz as transações sabe exatamente quanto foi transferido e de onde veio o dinheiro – o anonimato é apenas para quem não participa do negócio.

Checagem na entrada

Zcash, Monero e outras criptomoedas que prometem sigilo total esbarram, no entanto, em uma particularidade: é preciso converter

dinheiro real em virtual para operar com cada uma delas e, nesse processo, não há segredo. “Todas as corretoras que trocam dinheiro por Bitcoin ou outras moedas hoje têm a preocupação de fazer uma política de know your customer (conheça o seu cliente)”, destaca Baptista, da Deloitte. Embora isso não seja obrigatório, é uma maneira de evitar problemas no futuro – inclusive com as autoridades, que podem investigá-las. “Ao lembrar de blockchain como a internet dos valores, na hora em que entrar um bem é preciso saber que ele é legítimo, que existe”, diz Baptista. Logo, a privacidade não é completa. Mas, uma vez que uma quantia estiver convertida em Monero ou Zcash, acompanhar o trajeto posterior desses recursos é muito difícil. revista Ciab FEBRABAN

41


moedas anônimas

Por esse motivo, as duas criptomoedas estão mais próximas do dinheiro em papel do que o Bitcoin. Imagine que você recebe uma cédula de R$ 100 e faz compras com ela. Dificilmente alguém conseguirá acompanhar tudo o que foi feito com essa nota, sejam transações legais ou criminosas. “As criptomoedas tentam, com toda a tecnologia adotada, reestabelecer um modelo de intercâmbio financeiro que a gente conhece há milhares de anos, com dinheiro vivo”, explica Jonatas Leandro, consultor da IBM Brasil para Blockchain. Mesmo com o sucesso recente, ainda é cedo para saber se Zcash ou Monero vão vingar. “Moedas têm surgido, ganhado hype (fama) e na sequência entram numa velocidade de cruzeiro ou numa queda às vezes pouco acentuada, mas com participação de mercado muito pequena”, afirma Leandro. O grande teste será quando existir um grande volume de operações, algo distante, por enquanto. Ainda é cedo para se preocupar com essas e outras criptomoedas. O volume de transações, hoje, levando-se em conta todas as que existem, é muito reduzido para oferecer risco ao sistema financeiro. “Como têm baixa escala, nessse momento, elas não têm chance de gerar um colapso, de criar uma grande confusão”, diz Rony Sakuragui, gerente de pesquisa e inovação do Bradesco. Para o executivo, as vantagens trazidas por Zcash e Monero também não significam que uma delas vai se tornar a principal moeda digital do mundo. “Em tecnologia, muitas vezes, um padrão vinga não somente porque ele era o melhor, mas porque já tinha uma adoção muito grande.” Nesse caso, o Bitcoin saiu na frente. Os bancos vêm acompanhando essas inovações bem de perto e estão dispostos a

42

revista Ciab FEBRABAN

experimentar as novas tecnologias, ajudando a criar modelos disruptivos que poderão ser usados no futuro. O Santander, por exemplo, criou um laboratório na Espanha que permite a clientes fazerem a conversão de dinheiro em outra criptomoeda, a Ethereum. “Precisamos ter o espírito de uma grande fintech”, afirma Richard Flávio da Silva, superintendente executivo de tecnologia do Santander. Uma vez que estejam participando desse processo, os bancos não vão deixar de lado suas obrigações, como prevenir a lavagem de dinheiro e praticar o conceito de know your customer. Isso dificultaria o uso de Monero ou Zcash para atividades ilegais nessas instituições.

Risco é do usuário Hoje existem mais de mil criptomoedas diferentes, todas elas criadas com o objetivo de atender a uma necessidade específica ou aprimorar a tecnologia para transações virtuais. De acordo com a assessoria de imprensa do Banco Central, a instituição se pronunciou sobre a aquisição de moedas virtuais no Comunicado nº 26.306, de 19 de fevereiro de 2014. O documento afirma que não há garantia de conversão para moedas oficiais por nenhuma autoridade monetária, ou seja, não há qualquer regulação ou supervisão. Por isso, diante das grandes variações de valor dessas moedas, o risco é todo do usuário. A assessoria ressaltou ainda que o uso de critptomoedas em atividades ilícitas pode resultar em investigações. Se forem feitas operações por instituições autorizadas a operar pelo Banco Central, elas estarão sujeitas também a supervisão por meio de instrumentos já existentes – incluindo regras de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo. n



Revista ciab 67 fev17