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Jul/Ago 2016 • Nº 64

REVISTA

A revolução das fintechs Bancos debatem no 260 Ciab FEBRABAN como aproveitar as soluções trazidas por jovens empresas inovadoras no setor financeiro

Entrevista com Roberto Setubal Incertezas econômicas não impedirão “fortes” investimentos dos bancos em tecnologia

Henrique Meirelles no Ciab Tecnologia muda relação da sociedade com dinheiro


sumรกrio

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revista Ciab FEBRABAN


seguranรงa

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sumário

Conselho Ciab FEBRABAN 2016

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Maior congresso de TI para o setor financeiro da América Latina debate tecnologias emergentes

Bancos integram consórcio sobre blockchain

Ciab 2016

Maurício Minas-Bradesco (presidente), Gustavo Fosse – Banco do Brasil (diretor setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN), Geraldo Dezena – Banco do Brasil, Gilson Girardi – HSBC, Gustavo Roxo – BTG Pactual, Jorge Ramalho – Itaú-Unibanco, José Paiva – Santander, Keiji Sakai – BM&FBOVESPA, Roberto Zambon – Caixa Comissão de Conteúdo: Keiji Sakai – BM&FBOVESPA (coordenador), Nilton Cesar Gratão – FEBRABAN, Adauto Del Favero – HSBC, Antonio Lombardi Neto – Rede, Carlos Augusto de Oliveira – Original, Eliane Grotti Borges – Caixa, Mário Lopes – Societè Generali, Marco Aurélio Crestoni – CITI, Paulo Cherberle – Bradesco, Ricardo Shigueaki Nozuma – Santander, Ronei Maranssati – Banco do Brasil, Jorge Krug – Banrisul, Lusmary Ribeiro – BTG Pactual, Wallace Jagiello – Banco Votorantim

Tecnologia

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Entrevista com Roberto Setubal Internet trará mais de um milhão de novas contas ao Itaú em 2017

Diretoria de Eventos FEBRABAN: Nair Macedo (diretora), Marcelo Assumpção, Élita Cristina Borges Simionato, Anna Carolina Abrunhosa Tapias, Mayra Bazzo Tome, Fernanda Paradizo Castillo, Ludmila Prado, Marília de Meo Borges, Renata Moreira Carvalho, Keti Granzotto Casarri

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Inteligência artificial Computação cognitiva abre novo horizonte de negócios

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Nova demanda

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Startups de serviços financeiros Fintechs trazem desafios e oportunidades para bancos

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Inovação Seguradoras frente a frente com mudanças

Revista do Ciab FEBRABAN Diretoria de Comunicação: Sergio Leo (diretor), Adriana Mompean, Cleide Sanchez Rodriguez, Evelin Ribeiro, Anna Carolina Gabiatti, Jessica Magalhães Graça Marketing: Roseli Rapouso, Silvia Mazzola

Bancos digitais personalizam produtos para clientes

Projeto Gráfico e Editoração: Ideia Visual

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Esta é uma publicação da Federação Brasileira de Bancos – FEBRABAN, Av. Brigadeiro Faria Lima, 1485 – 15º andar – Torre Norte – 01452-921 – São Paulo – SP

Meios de pagamento Cartão de plástico será desconstruído com novas tecnologias

Copyright 2016 - julho/agosto. Todos os direitos reservados.

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Caixas eletrônicos Fabricantes lançam ATMs antibombas e terminais virtuais

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revista Ciab FEBRABAN

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editorial

Gustavo Fosse Diretor Setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN

Transformação digital

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mudança de comportamento dos clientes provocada pelas novas tendências digitais e as transformações nas empresas em resposta às demandas por avanços tecnológicos foram alguns dos principais assuntos debatidos no 26º Ciab FEBRABAN, ocorrido entre 21 e 23 de junho, em São Paulo. Com o tema central “Cultura Digital Transformando a Sociedade”, o congresso de tecnologia da informação para o setor financeiro, considerado o mais importante da América Latina, recebeu palestrantes de peso, como o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, que lotaram o principal auditório do evento. Como em outros setores, o segmento financeiro também passa por mudanças, com modelos disruptivos de negócios que já transformaram a indústria da música e a dos transportes, para citar os exemplos mais evidentes. A aproximação dos bancos com as fintechs, empresas desbravadoras de um novo horizonte tecnológico do setor, foi um dos grandes destaques desta edição do congresso, e o assunto é o tema da capa desta edição da revista Ciab FEBRABAN. Essas startups chamam a atenção das instituições financeiras tradicionais por criarem modelos de negócios, produtos e serviços inovadores com forte apoio da tecnologia. Os bancos acompanham com interesse o desenvolvimento das fintechs, porque inovações tecnológicas capazes de trazer benefícios ao consumidor mantendo a solidez e a confiabilidade dos serviços contribuem para a expansão e aumento da qualidade do serviço bancário. Muitas dessas empresas precisam, legalmente, vincular-se a uma instituição financeira para prestarem seus serviços. Os bancos desenvolvem estratégias próprias para lidar com esse elemento de inovação e já mostram exemplos bem-sucedidos

de associação com empresas capazes de aproveitar, com grande eficiência, as oportunidades trazidas pela tecnologia. Além de painéis específicos para discutir o tema, o Ciab FEBRABAN 2016 também abriu, pela primeira vez, um espaço privilegiado na programação para incentivar negócios entre instituições financeiras e as startups, por meio da realização do Ciab Fintech Day, assunto que também será abordado nesta edição. Outro grande tema de destaque do 26º Ciab FEBRABAN foi o debate sobre o blockchain, uma tecnologia que permite certificar transações em uma plataforma aberta e criptografada, que começa a chamar a atenção dos bancos por abrir novas fronteiras em plataformas de negociações, remessas de dinheiro, identificação e autorização de transações, confirmação de pagamentos e outras operações, com significativa redução de custos. A edição 64 de nossa revista dá um completo panorama do que foi o 26° Ciab FEBRABAN, onde também se discutiram novidades como o uso de sistemas de inteligência artificial e os desdobramentos da 4ª Revolução Industrial. As inovações da indústria de meios de pagamento lançadas para atender consumidores cada vez mais exigentes e conectados e as estratégias implementadas pelos profissionais da área de segurança da informação também foram temas de reportagens. A revista ainda traz uma entrevista exclusiva com Roberto Setubal, que revelou as expectativas do Itaú sobre a abertura de contas bancárias pela internet e o crescimento do mobile banking na instituição financeira. Nesta edição da revista, convido a todos a navegar pelos principais resultados do 26º Ciab FEBRABAN, o melhor palco para discutir as transformações advindas de uma cultura cada vez mais digital para os profissionais do setor financeiro. Uma boa leitura! n revista Ciab FEBRABAN

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Maior congresso de tecnologia da informação do setor financeiro da América Latina analisa o fenômeno das fintechs, empresas que revolucionam transações no mercado financeiro

É inovação? Interessa aos bancos Por Adriana Mompean

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erviços financeiros mais ágeis, com menos exigências, soluções inovadoras e custos menores, oferecidos com tecnologia de ponta. Assim podemos definir as fintechs, como são conhecidas as startups de tecnologia que atuam no campo das finanças e desafiam modelos de negócios tradicionais, um fenômeno que está revolucionando o mercado financeiro. As estratégias dos bancos para lidar com essa novidade e aproveitá-la em seus projetos de inovação, com exemplos bem-sucedidos de parcerias entre as instituições financeiras e estas empresas, estiveram no centro de debates do 26º Ciab FEBRABAN, ocorrido entre 21 e 23 de junho em São Paulo. Um dos destaques desta edição do fórum de TI foi a realização do Ciab Fintech Day, com nove startups selecionadas para apresentar suas


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“O setor bancário, longe de temer as novidades, tem se aproveitado delas para sofisticar e expandir serviços” Murilo Portugal, presidente da FEBRABAN

soluções. Um júri formado por especialistas de grandes bancos e empresas de tecnologia escolheu as três vencedoras, que se reuniram com executivos das instituições financeiras para estudar possibilidades de negócios e parcerias. Atentos aos desafios impostos pela disrupção digital, os organizadores do Ciab 2016 também promoveram debates relevantes para os profissionais do setor bancário e de finanças, como o uso da tecnologia do blockchain para registros e transações bancárias e o desenvolvimento de novos produtos e serviços baseados na capacidade de aprendizado das máquinas e na chamada computação cognitiva. Duzentos palestrantes apresentaram as principais soluções e inovações de tecnologia para o setor bancário em uma área de mais de 22 mil m², no Transamerica Expo Center. Com

tema central “Cultura Digital Transformando a Sociedade”, o fórum contou com mais de 60 painéis, divididos em cinco trilhas técnicas: TI e Telecom, Segurança da Informação, Meios de Pagamentos, Seguros e Bancos Internacionais, de Investimento, Comerciais e Financeiras.

Pioneirismo O presidente da FEBRABAN, Murilo Portugal, destacou que os bancos acompanham com interesse as empresas emergentes e inovadoras apelidadas de fintechs, levando a discussão para o fórum de TI. “O setor bancário, longe de temer as novidades, tem se aproveitado delas para sofisticar e expandir serviços que facilitam bilhões de pagamentos e recebimentos através do sistema brasileiro de pagamentos”, afirmou, ao abrir o evento. revista Ciab FEBRABAN

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A tecnologia está mudando a relação da sociedade com o dinheiro e, principalmente, com o sistema financeiro, o que resulta em custos mais baixos, transparência, melhores serviços e velocidade nas transações financeiras. A análise foi feita pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que abriu o último dia de atividades da 26ª edição do Ciab FEBRABAN, em uma das mais concorridas palestras do fórum de tecnologia. “A tecnologia, hoje, não só já é o presente, como cada vez mais o futuro do sistema financeiro. O e-commerce cada vez mais chega às transações financeiras e chega

para ficar.” O ministro também relatou que a tecnologia pode ser a solução para resolver dificuldades em serviços percebidas, muitas vezes, na relação da sociedade com o sistema financeiro. “É um desafio de todos aqui presentes”, disse para uma plateia formada pelos renomados executivos do sistema financeiro e congressistas do evento de TI. Em boa parte de sua apresentação, Meirelles abordou a situação econômica brasileira. O ministro ressaltou que o Brasil vive hoje um momento de decisão, intensificado pela crise econômica, que pode levar o Brasil neste ano a ter a maior recessão desde que o Produto Interno Bruto (PIB) começou a ser medido em 1902. Meirelles destacou que as despesas públicas não podem continuar a crescer no país – de 1997 até 2015, elas cresceram em termos reais, acima da inflação, quase 6% ao ano. Também relatou que há uma previsão de deficit de R$ 170 bilhões. “Essa trajetória não é sustentável a longo prazo.” O ministro afirmou que o governo não permitirá mais que o crescimento dos gastos públicos supere a inflação. “Tem que manter um controle rígido”, disse o ministro, defendendo que a determinação seja de longo prazo, pelos próximos 20 anos.

Portugal também ressaltou que os bancos brasileiros estão entre os pioneiros no uso da biometria para garantir a segurança nas transações digitais. A oferta de serviços por meio de aplicativos para celulares e computadores permite aos bancos estar cada vez mais presentes no cotidiano dos clientes, e ampliar a qualidade e quantidade dos serviços oferecidos, ressaltou. “No futuro não muito distante, é possível imaginar um cenário em que as pessoas transitarão na internet tendo como ponto de

partida a página ou aplicativo de seu banco, que lhe trará os serviços tradicionais aliados a facilidades de consumo e de navegação nas redes sociais”, afirmou Portugal. O brasileiro tem no “setor bancário a sua referência em termos de modernização e inovação”, disse o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, em seu discurso, também na abertura do Ciab FEBRABAN. Essa característica, disse ele, já estava presente no primeiro ano em que par-

Tecnologia muda relação da sociedade com dinheiro, diz Henrique Meirelles

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O ministro da Fazenda relatou durante sua palestra que tem recebido representantes de alguns setores da economia, como industriais, que reportam ociosidade acima de 40%. “Isso é uma situação dramática da economia: nós termos um parque de fábricas parado, com investimentos recentes, dotado de tecnologia e parado em 50% da sua capacidade.” O ministro também afirmou que toda grande crise oferece oportunidade. “A crise de 99 ofereceu oportunidade além da responsabilidade fiscal. A crise de 2002, 2003 ofereceu uma grande oportunidade de uma estabilização monetária, inflação etc. Então, eu acho que este é o momento exatamente em que a sociedade demanda soluções.” De acordo com o ministro, o governo quer estabelecer confiança na economia, para que o país volte a crescer. É a partir daí, segundo ele, que é possível aumentar a arrecadação e o superávit primário, ter maiores recursos para o consumo e a volta de investimentos. “A ideia é entrarmos num período de crescimento sustentado no Brasil.” (Adriana Mompean)

ticipou do congresso de tecnologia, quando ainda era prefeito de São Paulo. “São a porta de entrada da tecnologia para o desenvolvimento do país: é a partir dos bancos, que [a tecnologia] é distribuída por todos os outros setores, com muita rapidez e capilaridade.” Antes da solenidade de abertura, Kassab percorreu o Ciab com Murilo Portugal e os organizadores do evento. O ministro declarou-se impressionado com os avanços da computação cognitiva e de tecnologias

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“O brasileiro tem no setor bancário a sua referência em termos de modernização e inovação” Gilberto Kassab, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações

que estavam presentes em anos anteriores e estão cada vez mais aperfeiçoadas. “É efetivamente a tradução de quanto o Brasil pode avançar e quanto o nosso desenvolvimento pode crescer tendo como um de seus principais pilares o setor de bancos.” Também estiveram na abertura o diretor Setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN, Gustavo Fosse, e o chefe do Departamento de Tecnologia da Informação do Banco Central, Marcelo José Oliveira Yared. revista Ciab FEBRABAN

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“Tivemos discussões que contribuirão para que o setor financeiro brasileiro continue como precursor de inovações, um exemplo para os mercados de outros países”

Cultura digital Logo após a abertura, o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, proferiu a palestra “Cultura Digital Transformando a Sociedade”, tema central do evento, com exemplos das iniciativas do banco que preside para aumentar o componente digital em suas operações. Setubal

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Gustavo Fosse, diretor setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN

Cerca de 3.000 congressistas participaram do evento neste ano, um aumento de 50% em relação ao fórum do ano passado. Dezoito mil pessoas circularam pelo congresso, que contou com a presença de 127 expositores e 41 patrocinadores. “O Ciab FEBRABAN tem crescido a cada ano e nesta edição, em especial, dedicamos meses de planejamento para trazer os maiores especialistas de mercado e escolher temas que realmente têm movimentado o setor”, afirmou Gustavo Fosse. “Tivemos discussões que contribuirão para que o setor financeiro brasileiro continue como precursor de inovações, um exemplo para os mercados de outros países.”

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Para Greg Brandeau, inovação não significa apenas criar uma nova tecnologia; consiste em promover algo realmente relevante e útil


falou sobre o impacto da tecnologia nas transformações da sociedade. Dos 7,4 bilhões de habitantes do globo terrestre, 3,4 bilhões são usuários de internet, citou. “Os números no Brasil também são bastante relevantes: mais da metade da população hoje já é usuária de internet; temos uma atividade nas mídias sociais muito elevada comparada com qualquer país do mundo, e 89 milhões de smartphones que também dão uma dimensão de como as interações via digital estão crescendo rapidamente.” Setubal mostrou que, no Itaú, o número total de transações pelos canais tradicionais (agência, caixa eletrônico e telefone) passou de 74%, em 2008, para 29% no primeiro trimestre de 2016. No mesmo período, as operações com os canais eletrônicos remotos (celular e internet) aumentaram de 26% para 71% do total. Segundo o executivo, a tecnologia sempre fez parte do DNA do banco, desde a introdução comercial dos computadores nas empresas, e, em particular, nos bancos, no final dos anos 50 e começo dos anos 60. Ele relembrou que em 1983 o Itaú inaugurou o primeiro caixa eletrônico do Brasil, e citou que, em 2014, o banco criou um modelo inovador de relacionamento com o cliente: o Personnalité Digital, que permite atendimento personalizado do banco por e-mail, WhatsApp, SMS, telefone e Skype. De acordo com Setubal, a criação de uma infraestrutura e da arquitetura necessárias para lidar com o mundo digital é um dos maiores desafios atualmente para o banco. “É um desafio que é pouco visto pelo cliente”, disse. “Ter essa infraestrutura bem montada, bem preparada, uma arquitetura correta dos nossos sistemas interligados entre si e interagindo diretamente com os clientes, é sem dúvida um dos elementos essenciais, um pilar essencial,

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para que a gente consiga ter clientes satisfeitos.” (leia entrevista exclusiva com Roberto Setubal nesta edição).

Keynotes Inovação não significa apenas criar uma nova tecnologia. Consiste em promover algo que prove ser relevante e útil. Com este argumento, Greg Brandeau, considerado um dos mais renomados especialistas em inovação do mundo, encerrou o primeiro dia de atividades do Ciab FEBRABAN com a palestra “Guiando a Inovação: Impulsionando o ‘Gênio Coletivo’ de sua empresa”. Atual presidente da Maker Media, Brandeau iniciou sua carreira trabalhando na NeXT Computer, de Steve Jobs foi diretor vice-presidente e diretor de tecnologia da The Walt Disney Studios, e também vice-presidente sênior de tecnologia na Pixar. Na empresa de animação digital, Brandeau foi o responsável pela tecnologia por trás de sucessos como Toy Story (1995), Monstros (2001), Procurando

Tim Harford, colunista do jornal britânico Financial Times, na palestra “A arte de cometer bons erros”

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Nemo (2003) e Carros (2006), que mudaram a indústria dos filmes animados. Três conceitos abordados por Brandeau para que as empresas se tornem realmente inovadoras foram o destaque da apresentação no Ciab: a habilidade de gerar ideias através de debates; a aptidão de testar e refinar ideias por meio de buscas rápidas, reflexão e ajustes; e, ainda, a capacidade de promover decisões integradas. Brandeau destacou que as organizações interessadas em ser inovadoras devem ancorar-se em valores como ambição, responsabilidade, colaboração e capacidade de aprendizagem. “É importante que se construa uma comunidade com um propósito que deve ser compartilhado e regras de engajamento”, afirmou. A necessidade de aprender a abraçar os insucessos e de lidar com adaptações constantes foi o tema escolhido por Tim Harford, colunista do jornal britânico Financial Times, na palestra “A arte de cometer bons erros”, que encerrou o segundo dia do congresso de tecnologia. “Se você ler a biografia dos grandes líderes, você encontrará erros e mais erros”, afirmou. “Mas podemos cometer bons erros, e o aprendizado pode nos levar ao sucesso”, complementou o jornalista, famoso por abordar uma linguagem popular em seus artigos com temas complexos de economia. O britânico listou quatro motivos pelos quais as pessoas cometem erros. O primeiro é o psicológico. “Não é fácil fazer algo diferente do resto da multidão. As pessoas não querem discordar da maioria, não querem tentar coisas novas.” O segundo e terceiro tipos de erros mais comuns estão ligados ao processo de realimentação das informações, o“feedback”. “É necessário ver se as ideias estão funcionando, precisamos do retorno dos clientes, dos funcionários”,

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disse. “É essencial falar com as pessoas certas. Se você não obtém feedback, vai continuar cometendo os mesmos erros.” O jornalista também alertou para processos de feedback caros e lentos. “Temos que aprender a dar um retorno rápido e o mais barato possível.” Por último, Tim Harford destacou que muitas pessoas depois de cometerem o erro, continuam com a mesma atitude, pelo receio de admitir que estavam erradas. “O problema é recusar-se a parar e a aprender”, disse. É possível consertar os fracassos transformando-os em grandes sucessos, concluiu o britânico. “É preciso compreender os obstáculos existentes para transformá-los em uma aprendizagem bem-sucedida.”

Esportistas Os benefícios da tecnologia para aprimorar o rendimento de esportistas foi o tema escolhido para o encerramento do Ciab FEBRABAN 2016, ano de Olimpíada sediada no Brasil (que tem entre os principais patrocinadores um dos maiores bancos do país, o Bradesco). A última palestra do evento teve a participação dos medalhistas olímpicos Tande, Lars Grael e Fernando Scherer, o Xuxa, e debate mediado pela apresentadora Fernanda Gentil, da TV Globo. Grael, que tem duas medalhas olímpicas, relatou como a tecnologia permitiu, literalmente, um maior avanço em seu esporte, com novos materiais, mais leves e resistentes. “Barcos de madeira viraram de fibra de vidro; os mastros de madeira se tornaram de alumínio; e as velas feitas de algodão egípcio viraram sintéticas de poliéster”, afirmou. “Eu vivi a chegada da fibra de carbono, o kevlar, material que proporcionou uma revolução muito grande neste esporte”, afirmou. De acordo com o velejador, “hoje os barcos estão voando sob a água”.


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O jogador de vôlei Tande, campeão olímpico em Barcelona em 1992, listou, entre as mudanças desencadeadas pela tecnologia em seu esporte, inovações manejadas por pessoas que pisam fora das quadras, não precisam saltar e muito menos tocar na bola. Houve, claro, mudanças no equipamento usado por cada esportista: os modelos de tênis evoluíram, os uniformes ganharam tecidos aprimorados para absorver melhor o suor e os jogadores passaram a usar um canhão de bolas para treinar saques. “Mas o principal foi a estatística, que revolucionou o esporte: marcar na hora do jogo os percentuais de cada jogador para orientá-lo contra erros é fundamental durante o jogo”, afirmou. “O time que não tiver alguém fa-

zendo estatística no banco, começará atrás no jogo e terá dificuldades.” Sete vezes medalha de ouro em Jogos Pan-Americanos e duas vezes medalhista olímpico, Fernando Scherer, o Xuxa, lembrou, durante a palestra, que a tecnologia trouxe uma revolução a partir de 1998, com a filmagem dos treinos. No esporte, como em toda atividade humana, o feedback é fundamental, e a tecnologia, um instrumento precioso para garantir essas informações sobre o desempenho real. “Atualmente, os atletas treinam com equipamento que mede a pressão da braçada para ver se o movimento feito com o braço direito está igual ao do esquerdo, essencial para você conseguir nadar o mais reto possível”, disse. “A tecnologia está em tudo hoje no esporte e faz os recordes caírem”, finalizou o atleta. n

Os medalhistas olímpicos Fernando Scherer, o Xuxa, Lars Grael e Tande, com a apresentadora Fernanda Gentil, falaram sobre os benefícios que a tecnologia traz para aprimorar o rendimento de esportistas

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entrevista

Internet reduz custos e trará mais de um milhão de novas contas ao Itaú em 2017, diz Setubal Por Adriana Mompean

Para o presidente do Itaú Unibanco, um dos destaques do 26º Ciab FEBRABAN, em até três anos o celular será o principal canal de comunicação entre o banco e o cliente

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ais de um milhão de novos clientes abrirão contas por meio da internet no Itaú Unibanco em 2017, de acordo com estimativa feita por Roberto Setubal, presidente da instituição financeira, em entrevista exclusiva concedida à revista Ciab FEBRABAN. Setubal afirma que as incertezas no cenário econômico não impedirão “fortes” investimentos em tecnologia nos bancos. Ele diz que a redução de custos com o avanço tecnológico possibilita que mais pessoas acessem os serviços bancários e façam mais transações financeiras, e também prevê que, em um período entre dois e três anos, o celular será o principal canal de comunicação do cliente com o banco. “É uma tendência inevitável”, afirmou o executivo, considerado uma das vozes mais influentes do empresariado brasileiro. Para Setubal, que neste ano foi um dos destaques do 26º Ciab FEBRABAN, a tecnologia traz ao setor financeiro oportunidades de alcançar mais clientes e de projetar melhores serviços para o consumidor. “Os bancos têm aproveitado as oportunidades realizando investimentos que acompanham o comportamento desse consumidor cada vez mais digital.”


entrevista

O Itaú vem investindo muito no relacionamento digital com o cliente nos últimos anos. O que a tecnologia proporcionou de melhoria na experiência do cliente? Roberto Setubal – Investimos constantemente para melhorar a experiência do cliente de diversas formas. Hoje, em função dos aportes pesados em infraestrutura, temos uma disponibilidade altíssima, ou quase permanente, que garante o acesso ao banco muito superior ao que era dois ou três anos atrás. Ampliamos bastante a oferta de produtos e serviços para que o cliente consiga fazer praticamente tudo por meio do celular de forma segura. Aliás, segurança é outro aspecto que requer investimentos grandes. Também investimos constantemente em usabilidade para facilitar a interação do cliente com o banco, mas sei que este é um item que requer evolução constante. O Itaú e a Microsoft anunciaram recentemente uma parceria para desenvolverem empresas de tecnologia no Brasil. Como este tipo de parceria pode gerar oportunidades de melhores serviços e produtos para o cliente? Roberto Setubal – A Microsoft é uma das nossas parceiras no Cubo, plataforma de coworking e empreendedorismo tecnológico que inauguramos em 2015, em São Paulo. Essa é

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Na entrevista a seguir, o presidente do Itaú Unibanco também falou sobre o fenômeno das fintechs, startups de tecnologia do setor financeiro que têm desafiado as empresas tradicionais do setor. “As fintechs são um desafio e, ao mesmo tempo, uma oportunidade. Um desafio porque muitas são nossas concorrentes, mas também considero que são oportunidades, porque podemos fazer parcerias e aprender com elas.”

uma iniciativa que nos ajuda a desenvolver o melhor modelo para trabalharmos em conjunto com as mais de 50 startups residentes e, dessa forma, estarmos próximos a esse ecossistema cada vez mais relevante. A tecnologia traz ao setor financeiro oportunidades de alcançar mais clientes e de projetar melhores serviços para o consumidor.

Roberto Setubal durante palestra no Ciab FEBRABAN 2016

Em sua opinião, os bancos brasileiros sabem aproveitar estas oportunidades? Roberto Setubal – O setor bancário brasileiro é considerado um dos mais modernos do mundo. Os bancos têm aproveitado as oportunidades realizando investimentos que acompanham o comportamento desse consumidor cada vez mais digital. Mesmo em um cenário econômico mais desafiador, o Brasil está entre os 10 países que mais investem em tecnologia (fonte: Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2015). revista Ciab FEBRABAN

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entrevista

Auditório lotado na palestra de Roberto Setubal no Ciab FEBRABAN

O Brasil tem uma taxa de bancarização de quase 90%, segundo dados do Banco Central. Em sua opinião, ainda é possível aumentar este percentual? Que tipos de produtos e soluções os bancos ainda podem desenvolver para a população que não é bancarizada? Roberto Setubal – A relação entre bancarização e custo é direta, ou seja, quanto menor os custos de servir o cliente, maior o acesso. A tecnologia vem, ao longo dos anos, baixando o custo unitário, possibilitando mais pessoas acessarem serviços e fazer mais transações. A cada ano novos clientes conseguem acesso aos serviços bancários graças à tecnologia. Por exemplo: em breve a abertura de uma conta corrente no Itaú, através da internet, será uma realidade. Acreditamos que em 2017 vamos atrair mais de um milhão de novos correntistas que abrirão suas contas neste canal. De acordo com a Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2015, o mobile banking já representa 21% de todas as transações feitas pelos clientes e hoje é o se-

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gundo canal mais usado para transações bancárias, ficando atrás apenas do internet banking, com 33% de participação. O número de transações via mobile banking no Brasil cresceu mais de 100 vezes desde 2011. O senhor acredita que neste ano o mobile banking se tornará o canal preferido do cliente para suas transações? Roberto Setubal – Acreditamos que em dois ou três anos o celular será o principal canal de comunicação do banco com o cliente. Isso fica claro ao olharmos a velocidade de crescimento das transações de mobile banking, que hoje já representam 20% do total de participação dos canais do banco. É uma tendência inevitável. Novas tecnologias desorganizaram indústrias inteiras nas últimas décadas, como a do cinema e a da música. Como o senhor analisa o fenômeno das fintechs? Os bancos estão preparados para enfrentar empresas que trazem novas ofertas de serviços financeiros? Roberto Setubal – O mundo hoje é dinâmico. O consumidor muda e isso faz com que o mercado mude também. As fintechs são um


entrevista

desafio e, ao mesmo tempo, uma oportunidade. Um desafio porque muitas são nossas concorrentes, mas também considero que são oportunidades porque podemos fazer parcerias e aprender com elas. Não por acaso, apostamos no ano passado na criação do Cubo. A iniciativa tem nos ajudado a entender qual melhor modelo para trabalharmos em parceria com startups e, dessa forma, melhorar a experiência dos consumidores. Temos a nossa disposição hoje um arsenal tecnológico como big data, melhorando a análise do perfil dos clientes e a entrega de ofertas diferenciadas; o cloud computing, que tem o poder de reduzir nossos custos, entre outros exemplos que nos tornaram mais capazes e aptos a competir com as fintechs. Sabemos que novos competidores entrarão no mercado, levando clientes e pressionando margens, o que na minha opinião é inevitável, mas acreditamos que seremos um dos vencedores. A Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2015 revelou que mais da metade das operações bancárias já são feitas por mobile banking e internet banking. Neste cenário, como fica agora o perfil das agências bancárias? Elas terão mais um perfil de negócios? Roberto Setubal – Acredito que ao longo do tempo haverá redução no número de agências bancárias, como já observamos em outros países, e que já começou por aqui também. Será um processo lento, mas ocorrerá inevitavelmente; no entanto, ainda que em menor número, elas continuarão existindo por muitos anos pelo menos. A tendência é elas adquirirem um papel menos transacional e mais de atendimento, especialmente para aqueles clientes que buscam o canal físico ao digital.

O atual cenário de incertezas políticas e econômicas traz quais consequências para a estratégia de investimentos do banco em tecnologia? Roberto Setubal – A crise não altera as oportunidades que estão à nossa frente. Mesmo que no curto prazo a economia ande mais devagar, vamos continuar nessa agenda. Além disso, acredito que o Brasil vai se recuperar e voltaremos a crescer. Sabemos que sem investimentos fortes em tecnologia o futuro dos bancos ficará ameaçado. Como os clientes do Itaú têm reagido às novidades mencionadas pelo senhor na sua apresentação? Roberto Setubal – As novidades que apresentei são o resultado daquilo que nossos clientes nos demandam. A primeira coisa que pensamos é na necessidade do cliente. Trabalhamos para construir um negócio em que ele é o grande beneficiário. Pelas respostas que temos recebido e pelos resultados alcançados, acredito que estamos no caminho certo. A tendência é o banco ficar cada vez mais digital, que é o que o cliente deseja. Isso torna a oferta de produtos e atendimento mais eficiente. As pessoas mais velhas e as menos familiarizadas com tecnologia têm dificuldade de acompanhar e lidar com as inovações. Como os senhores têm lidado com esse tipo de cliente? Roberto Setubal – De fato, os jovens têm mais facilidade e se adaptam mais rapidamente, mas observamos uso crescente de internet mesmo nos clientes de mais idade, e sabemos que eles também valorizam e gostam, apenas levam mais tempo para se adaptar. De qualquer forma, manteremos os formatos tradicionais de atendimento para quem preferir esse caminho. O cliente é quem vai escolher como prefere ser atendido, ele é o senhor a ser servido. n revista Ciab FEBRABAN

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ambiente de negócios

Fintechs desafiam e atraem interesse de bancos Por Toni Sciarretta

Instituições buscam parcerias com startups de TI do setor financeiro para adquirir e testar novas tecnologias ou mesmo contratá-las como fornecedores de produtos e serviços

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ambiente de negócios

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ma nova forma de fazer negócios, impulsionada pela geração habituada com a internet desde o nascimento, a partir dos anos 80, elimina intermediários, busca a comparação exaustiva de produtos e preços, e valoriza o testemunho (ou reclamação) de outros consumidores. É nesse ambiente que sites e aplicativos criados por jovens recém-saídos das universidades fazem agora transações que, até pouco tempo, eram exclusividade das agências bancárias e outros canais de atendimento das instituições financeiras: pagamentos de contas, renegociação de dívidas, transferência de valores e contratações de seguros. As chamadas fintechs, startups de tecnologia do setor financeiro, têm desafiado as empresas tradicionais do setor, como afirmou o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, na abertura do 26º Ciab FEBRABAN. “Se a gente não souber trabalhar, olhando tudo o que está acontecendo no mundo, corre o risco de ficar para trás”, disse Setubal, em sua palestra no Ciab, reconhecendo que nunca esteve tão envolvido com tecnologia nos 22 anos em que está à frente do maior banco privado do país. O desafio vem sob a forma de serviços de qualidade, ágeis, convenientes e com preço competitivo, e tem levado instituições financeiras tradicionais a aprender com os novatos sobre como lidar com o novo ambiente de negócios. Mas as fintechs também encontram desafios, elas próprias, que a associação com os bancos pode ajudar a enfrentar. Vistas como as “entrantes” do setor, as fintechs surgiram com a popularização dos smartphones e a digitalização da indústria e dos serviços. Elas são a vertente financeira da revolução digital que obrigou empresas de diferentes setores_ gravadoras de música, radiodifusão, imprensa, telecomunicações,

Para Rodrigo Corumba, vice-presidente da Capgemini, o apelo das fintechs passa por resolver de forma simples os problemas dos clientes

comércio varejista, moda, entre outras_ a rever antigos processos em nome da interação contínua com o consumidor. Com estrutura enxuta e sem a pressão de reguladores e do compliance das grandes empresas, essas startups conseguem entregar com rapidez e transparência serviços que respondem a demandas bastante específicas dos clientes, como aprovar um empréstimo, fazer a cotação de um seguro ou escolher um investimento. Algumas escapam, inclusive, dos impostos locais por oferecerem serviços do exterior ou atuarem em nichos fora do escopo da legislação tributária local. Por outro lado, as fintechs esbarram em limitações de difícil superação para empresas de pequeno porte. Uma delas é a dificuldade de captar dinheiro, o insumo de maior relevância na competição dentro do sistema financeiro. revista Ciab FEBRABAN

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Estamos vivendo uma bolha de fintech? Nove em cada dez startups do Vale do Silício hoje se dedicam a serviços financeiros, a maioria atuante na cadeia de pagamentos móveis. Juntas, essas empresas já receberam um total de US$ 27,5 bilhões em investimentos de fundos de venture capital desde 2010, segundo a consultoria Accenture. Os investimentos nas fintechs são tão expressivos que alguns críticos questionam se não estamos prestes a ver o estouro de uma bolha fintech, como ocorreu com as empresas pontocom em 2000. Profissionais de sucesso também largam carreiras promissoras em setores tradicionais para abrir sua própria fintech, exatamente como aconteceu pouco antes de 2000. Empresas sem receita são novamente avaliadas por múltiplos considerados irreais se forem analisadas as perspectivas de geração de caixa. Veterano dos investimentos em tecnologia, o ex-Goldman Sachs J.Christopher Flowers, hoje na firma de private equity (companhia que investe em empresa ainda não listada em Bolsa para fomentar seu crescimento) que leva seu nome, disse recentemente ao The Wall Street Journal que a revolução fintech vai acabar mal para a maioria das startups do setor. Isso porque as empresas que fazem empréstimo online, por exemplo, tendem a ficar com os piores clientes. “Nas finanças, quem expande mais rapidamente os empréstimos são sempre os que mais perderão”, disse. “Não esperem que o bitcoin ocupe o lugar do dólar nem que a Visa quebre. Os bancos são tão necessários para as transações que não há cenário em que eles não façam parte da foto”, completou.

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Para Alessandro Hadami, diretor de inovação e pagamentos digitais do Lloyds Group, há várias semelhanças do que chama de bolha atual das fintechs com a das pontocom em 2000. No entanto, afirma ele, o tamanho da bolha atual é apenas uma fração da anterior. Isso porque, à época, a internet tinha cerca de 500 milhões de usuários, enquanto hoje soma mais de 3,3 bilhões. “Os serviços financeiros são produtos tipicamente digitais que podem ser vendidos remotamente, diferentemente da complexidade do passado quando se pensava em vender bens físicos. A qualidade dos negócios que estamos vendo hoje também é bastante superior a de 2000”, disse. Robert Contri, chefe global de serviços financeiros da Deloitte, afirma que os US$ 27,5 bilhões investidos nas fintechs sugerem, de fato, a emergência de uma bolha. No entanto, pondera ele, esse volume é apenas uma pequena porcentagem dos US$ 390 bilhões investidos em tecnologia da informação em 2015, estimados pela consultoria Gartner. “É verdade que as fintechs têm tido valuations [avaliações de valor do negócio, com base na expectativa de receita de longa duração] muito acima das demais startups; isso ocorre simplesmente porque elas precisam de muito mais dinheiro para entrar em um mercado consolidado” argumenta. “Os preços são elevados porque os investidores veem uma oportunidade de entrar nesse negócio.” Contri lembra ainda que, além dos bancos, algumas fintechs são disputadas também por gigantes digitais como Amazon, Google, Facebook e Apple, o que impulsiona ainda mais os preços dessas empresas.


ambiente de negócios

FINTECH BOOM Fundos de venture capital aumentam financiamentos em startups financeiras

27,565* 22,265 Volume global de investimentos, em US$ bilhões

Fonte: Accenture

1,791 2010

2,537 2011

12,688 3,175 2012

4,590

2013

2014

2015

2016*

* até o 1º trimestre

No Brasil, elas não podem fazer empréstimos se não estiverem associadas a uma instituição financeira. Por esse motivo, muitas fintechs buscam se associar a bancos. A maioria também não conta com áreas importantes de suporte para implementação dos serviços e o cumprimento dos contratos com os clientes, como assessoria jurídica, ouvidoria, atendimento ao consumidor e mesmo tecnologia. Pouquíssimas estão também preparadas para lidar com questões de segurança da informação que, em breve, serão exigidas também pelos reguladores. Nos EUA, o Federal Reserve (Banco Central americano) trabalha com outras agências na elaboração de procedimentos mínimos de segurança exigidos nas transações e manipulação de informações dos clientes.

Indicação e confiança Para Rodrigo Corumba, vice-presidente de serviços financeiros da consultoria Capgemini, parceira tecnológica da Caixa Econômica

Federal, o apelo das fintechs passa por resolver de forma simples os problemas dos clientes sem o inconveniente de deslocamentos desnecessários, ligações telefônicas longas ou o assédio de funcionários tentando empurrar outros produtos para cumprir metas de venda. Por esse motivo, destaca ele, os clientes estão mais dispostos a recomendar aos amigos os serviços que descobriram em fintechs do que o dos bancos tradicionais. Uma pesquisa da consultoria feita neste ano com 16 mil pessoas, em 32 países, mostra que 54,9% dos entrevistados recomendariam um serviço prestado por uma fintech, enquanto apenas 38,4% indicariam o de um banco. Na América Latina, a recomendação das fintechs atinge 67,2%, segundo a Capgemini. Curiosamente, a mesma pesquisa revelou que as instituições financeiras tradicionais ainda são detentoras de mais confiança dos clientes do que as fintechs; 54,5% dos entrevistados disseram ter confiança total no seu banco, enrevista Ciab FEBRABAN

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ambiente de negócios

quanto apenas 30,8% deram o mesmo crédito às fintechs.

Banking x bancos No último Ciab, Robert Contri, chefe global de serviços financeiros da consultoria Deloitte, chocou a plateia em sua apresentação ao descrever como factível, num futuro não muito

distante, um cenário em que os clientes fazem diretamente, com aplicativos, serviços hoje prestados exclusivamente pelos bancos. “Podemos ter empréstimos sendo feitos por organizações que não têm depósitos; serviços sem agências bancárias, seguros vendidos sem corretores, investimentos sem gestores de recursos, planejamento financeiro

MADE IN BRAZIL No país, maioria investe em pagamentos digitais

130 é o numero

de fintechs brasileiras mapeadas pelo FintechLab

1 em cada 5 fintechs tem mais de 20 funcionários

3 em cada 10

faturam mais de R$ 1 milhão por ano

2/3 já receberam algum aporte de capital

Pagamentos Gerenciamento financeiro Empréstimos e negociação de dívida Funding Investimentos Eficiência financeira

Bitcoin e blockchain Seguros

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31 18 16 10 8 7 5 5

Fonte: FintechLab

Segmentos de atuação (participação, em % do total)


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sem planejadores, transações sem traders, fusões e aquisições sem advisors etc”, afirmou. “Não sei se será assim, mas são, todos, cenários possíveis.” O cenário hipotético vai ao encontro da afirmação atribuída ao empresário Bill Gates, fundador da Microsoft, e repetida pelos entusiastas de serviços tecnológicos, de que as pessoas não precisam de bancos, mas de serviços bancários_ “we don’t need bank, but banking”.“Mas não acho que será esse o caminho; o mais provável é que tenhamos um pouco disso convivendo com os serviços feitos pelos bancos tradicionais”, completou Contri.

Vários bancos estrangeiros e brasileiros têm buscado parcerias com fintechs para adquirir e testar novas tecnologias ou mesmo contratá-las como fornecedoras de produtos e serviços. Para algumas instituições, as fintechs funcionam como um laboratório de “oxigenação” e de reciclagem de processos, além de celeiro para encontrar novos talentos profissionais. “Todos os grandes bancos estão investindo pesado em fintechs; não estão sentados, esperando para ver o que vai acontecer”, disse Sajal Mukherjee, líder de transformação bancária global da IBM, destacado para estudar a transformação dos serviços bancários. “Esses bancos aproveitam o contato com as fintechs para se tornarem instituições digitais; e a maior dificuldade é a cultural.” Nos Estados Unidos, bancos como Goldman Sachs, Morgan Stanley e JP Morgan Chase investem em plataformas de pagamentos e outros serviços financeiros de fintechs do Vale do Silício. Os três lideram um consórcio com a participação de 40 instituições financeiras globais, da qual o brasileiro Itaú Unibanco faz parte, para acertar a padronização e discutir o uso da tecnologia de moeda virtual.

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Cooperação e parcerias

Robert Contri, da Deloitte, chocou a plateia do Ciab FEBRABAN ao descrever como factível, num futuro não muito distante, um cenário em que os clientes fazem diretamente, com aplicativos, serviços hoje prestados exclusivamente pelos bancos

“Vejo como um desafio, mas também como uma oportunidade porque podemos fazer parcerias e aprender muito com elas; acredito muito mais em redução de margens do que em perda de mercado”, disse Roberto Setubal, no Ciab. “Redução, porque essas empresas trazem novas formas de fazer o serviço que os bancos prestam; isso, certamente, vai levar à pressão de preço”, explicou. “Por outro lado, nós, bancos, via tecnologia, teremos uma grande capacidade de reduzir custos operacionais; as margens vão se reduzir, mas os custos também, e essa equação continuará fechando, se soubermos trabalhar direito”, completou. O primeiro banco brasileiro a se aproximar das fintechs no Brasil foi o Bradesco, revista Ciab FEBRABAN

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“Todos os grandes bancos estão investindo pesado em fintechs; não estão sentados, esperando para ver o que vai acontecer” Sajal Mukherjee, da IBM

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Segundo Rony Sakuragui, consultor de gestão de tecnologia da Scopus/Bradesco, uma startup selecionada pelo Bradesco consegue potencializar a captação de recursos junto à sua rede de investidores. Cada startup recebe em média R$ 150 mil indiretos do Bradesco, a maioria sob a forma de serviços contratados para melhorar o desenvolvimento de seus produtos. Em troca, o banco não pega uma participação na empresa, como ocorre normalmente nesse tipo de parceria. “Esse modelo funciona porque conseguimos engajar o empreendedor a fazer uma experimentação e a entregar algo que realmente funciona”, afirma Sakuragui. “Coloca-

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que lançou ainda em 2014 o seu programa InovaBra. O programa, que está na segunda edição, seleciona em média 10 startups por ano, a maioria desenvolvendo produtos financeiros com aplicação potencial no banco. Essas fintechs passam a interagir durante seis meses com o alto comando do Bradesco, em visitas frequentes à Cidade de Deus, na sede do banco, em Osasco. No final do programa, as empresas que concluírem com sucesso a formatação de suas soluções terão a possibilidade de comercializar seus produtos para o Bradesco. O banco pode ainda se tornar um investidor estratégico nessa startup ou mesmo comprá-la.

“O banco aprende, antes de tudo, a trabalhar com as startups; aprende a lidar com as tecnologias de fora, métodos de trabalho diferentes” Erica Jannini, do Itaú Unibanco


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Rodrigo Cury, do Santander, afirma que banco vai desenvolver soluções para demandas próprias

mos o produto à prova em áreas diferentes do banco _comercial, jurídico, tecnologia etc_ e, ao final, sai formatado em condições de ser vendido para uma grande corporação.” De acordo com o consultor, como contrapartida, o Bradesco consegue experimentar essas inovações em um tempo menor e com um custo inferior ao que teria se tentasse fazer internamente. No ano passado, o Itaú criou o Cubo, espaço de coworking em São Paulo, que já conta com 55 startups em funcionamento. Inspirado nos chamados ecossistemas de inovação do Vale do Silício, o Cubo busca reunir num mesmo local startups de diferentes naturezas, investidores de venture capital (capital de risco), especializados em aportar recursos em empresas nascentes, além de fornecedores de tecnologia e grandes empresas para fomentar o empreendedorismo digital.

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Após um ano de funcionamento, o banco contabiliza o treinamento de mais de 3.000 funcionários em eventos no Cubo. “O banco aprende, antes de tudo, a trabalhar com as startups; aprende a lidar com as tecnologias de fora, métodos de trabalho diferentes, tanto de desenvolvimento quanto na forma de pensar em novos negócios”, disse Erica Jannini, superintendente de gestão de TI do Itaú. “Aprendemos a trabalhar com essa cultura de escassez, mas com uma agilidade maior; é uma mudança cultural muito grande.” Na aproximação com o mundo digital, o Santander escolheu replicar no Brasil um laboratório de inovações desenvolvido pela Mastercard em Dublin, na Irlanda. Chamado SantanderLab, a ideia inicial era focar no desenvolvimento de produtos de meios de pagamentos por causa da parceria com a bandeira de cartões. No entanto, outras áreas do banco se interessaram em participar e agora o laboratório trabalhará também com demandas das dos segmentos de seguros e de investimentos, entre outros setores. Diferentemente do Cubo, que abriga startups fora do banco e de diferentes áreas de atuação, o SantanderLab vai desenvolver soluções para demandas próprias. “Esse laboratório vai ter funcionários do banco _ou do Lab_ trabalhando exclusivamente para o Santander”, disse Rodrigo Cury, superintendente de cartões do Santander. Para atuar especificamente com as fintechs, o Santander preferiu seguir com seu programa de apoio à pesquisa universitária, o Universia. O banco também faz concursos para aportar recursos em startups que despertarem o seu interesse. O Banco do Brasil também prepara novidades sobre parcerias com startups e universidades para anunciar em agosto. Até então, a


seguranรงa

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Ciab premia startup de renegociação de dívida

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O site QueroQuitar, que faz a renegociação online de dívida em atraso, foi o primeiro colocado na premiação de melhor fintech participante da última edição do Ciab FEBRABAN, ocorrida entre 21 e 23 de junho, em São Paulo. O QueroQuitar, que tem hoje 498 mil consumidores cadastrados, garante oferecer diversas oportunidades de acordo para recuperar um total de R$ 1,6 bilhão de dívidas de inadimplentes. Segundo Marc Antonio Lahoud, fundador da startup, a principal inovação do site foi criar um canal transparente que possibilite uma negociação rápida e sem constrangimentos para os devedores. “Mais do que recuperar créditos, recuperamos clientes para as empresas. Temos 60 milhões de CPF negativados, 40% da população brasileira. São pessoas que não têm crédito e não podem consumir”, disse Lahoud. A startup também participou do programa InovaBRA, do Bradesco. Participaram da etapa final da premiação nove fintechs, que puderam expor seus trabalhos para um júri composto por profis-

sionais dos setores de tecnologia e de negócios dos bancos. As startups foram analisadas segundo critérios como inovação, simplicidade, relevância, possibilidade de expansão e qualidade dos gestores. O segundo lugar ficou com a EasyCredito, uma startup que avalia e oferece crédito de diferentes instituições para consumidores com pouco ou nenhum acesso a serviços financeiros. Para analisar o crédito dos consumidores, a EasyCredito busca informações nas redes sociais, além dos serviços de geolocalização e dos bureaus de crédito. “Verificamos a popularidade do usuário nas redes sociais, seu perfil no Facebook e no LinkedIn. Normalmente, somos os primeiros a saber se a pessoa tem um novo trabalho. Também sabemos se mudou de endereço antes mesmo de ela atualizar os dados no banco”, disse o fundador Marcos Ramos. A israelense PayKey foi a terceira colocada neste ano com a plataforma que permite realizar transferências de pequenos valores entre usuários dentro de redes sociais

instituição tem dado preferência a programas internos para incentivar o empreendedorismo entre os funcionários. Um dos projetos incubados desenvolveu um aplicativo para celular que gerencia as filas nas agências. O app, que indicará em tempo real o tempo de espera previsto, deve substituir em breve os totens físicos que imprimem senhas por ordem de chegada nas agências. O portal de renegociação de dívidas também surgiu desse programa.

Segundo Marco Mastroeni, diretor de negócios digitais do BB, o próximo passo será atuar com grupos fora do banco. "O convívio com essas startups é muito importante. É onde você vê, de fato, os problemas reais dos clientes para depois gerar uma solução”, afirma. “Hoje, levamos mais de um ano para desenvolver um produto e depois descobrimos que ele não funciona; esse ambiente favorece conceber rapidamente um


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como o Facebook Messenger, WhatsApp e Twitter. A proposta da startup é permitir que os pagamentos sejam efetuados da mesma forma com que ocorrem as mensagens instantâneas. Para efetuar as transações, no entanto, os usuários precisam conectar o seu internet banking às redes sociais. No momento, a startup israelense testa a plataforma em um projeto-piloto do Citibank. A empresa faz parte também do FinTech Innovation Lab da Accenture, em Londres, que conta com o financiamento de 16 bancos internacionais. “Transferir dinheiro tem que ser tão fácil como bater papo no WhatsApp ou no Messenger”, disse Omer Paz, fundador da PayKey, que esteve no Ciab para apresentar a solução às instituições financeiras nacionais. “Nossa tecnologia pode atingir mais de 2 bilhões de pessoas.”

produto, errar logo, se for o caso, descartá-lo ou aperfeiçoá-lo”, complementa.

Outras iniciativas Fora dos grandes bancos, a Porto Seguro também desenvolveu a aceleradora de startups Oxigênio, em parceria com a americana Plug and Play, aceleradora do Vale do Silício. O foco também é gerar soluções para demandas de interesse da Porto Seguro.

Omer Paz, da PayKey; Marc Antonio Lahoud, da QueroQuitar, e Marcos Ramos, da EasyCredito: empresas vencedoras do Ciab Fintech Day

O tema fintech motivou a criação de um grupo de trabalho no Banco Central focado especificamente na digitalização de documentos, que permitiu a abertura de instituições totalmente digitais no país, como o Banco Original. O grupo também acompanha os debates internacionais para regulamentar o uso de moedas eletrônicas, como o bitcoin. Na FEBRABAN (Federação Brasileira de Bancos), o assunto também é acompanhado com interesse, especialmente por trazer ao mercado inovações tecnológicas com benefícios ao consumidor. A entidade defende que a atualização das normas e do arcabouço legal hoje existentes seja capaz de garantir condições equivalentes de atuação para os agentes do mercado e facilitar a absorção de novas tecnologias e processos pelas instituições financeiras já existentes, sem tolher a contribuição das empresas inovadoras mais recentes para o bom funcionamento do sistema. Diante das demandas do cliente hiperconectado e das inúmeras possibilidades de serviços prestados pelo mundo digital, o setor financeiro não quer ser o próximo taxista surpreendido tarde demais por um aplicativo como o Uber. n revista Ciab FEBRABAN

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Conectar para segurar Por Denise Bueno

Internet das coisas oferece oportunidade para que mercado segurador se aproxime de clientes

E

m seguros, a frase “o futuro pertence às fintechs” espalha-se como um mantra. Boa parte dos executivos acredita que os pequenos empreendedores com grandes ideias vão ditar o ritmo e a forma de inovação do mercado. “A integração com a internet das coisas (IoT) e a exploração do big data para incrementar a experiência do consumidor e reduzir os riscos são os caminhos prováveis para a evolução do setor”, afirmou Daniel Rocha, diretor de Serviços Financeiros da Capgemini, durante

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a 26ª edição do Ciab FEBRABAN. Ciente disso, a CNseg (Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização) selecionará em agosto cinco projetos com estas startups que agreguem valor ao mercado de seguros. Estão previstos investimentos de R$ 1 milhão nesta primeira etapa, informou Marco Barros, diretor geral da CNseg e um dos idealizadores do projeto. “O progra-


ma pretende estimular e colaborar com o empreendedorismo, identificando ideias e, consequentemente, seus impactos diante das inovações que chegam ao setor.” Apresentada no Ciab FEBRABAN, a pesquisa Voice of the Consumer (Voz do Consumidor) realizada pela Capgemini e pela Efma com mais de 15,5 mil usuários de seguradoras do mundo inteiro traz dados que estimulam todos no mundo de seguros a correr atrás de núcleos de aceleradoras de startups. Um deles é relevante para quem está na posição de espectador. Aproximadamente um quarto dos clientes da geração Y diz que provavelmente contrataria seguros de empresas de tecnologia não tradicionais, o que significa que há no ar uma grande ameaça de novos concorrentes. “Na BB Seguridade, nos preocupamos muito mais com empresas de tecnologia que podem vender seguro do que com competidores tradicionais”, afirmou a diretora Angela Beatriz. “Tenho participado de eventos sobre inovação dentro e fora do Brasil e percebo que

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o modelo disruptivo pode não vir de uma seguradora, mas de uma empresa que investe em conhecer a dor do cliente”, afirmou. Segundo ela, a praticidade gera uma utilização muito grande. O canal mobile, uma vez acertado, pode mudar as vendas de patamar,

A voz do consumidor*

Daniel Rocha, da Capgemini, afirma que a integração com a internet das coisas (IoT) e a exploração do big data são os caminhos prováveis para a evolução do setor de seguros

Um quarto de todos os clientes planeja comprar ou renovar o seguro por meio de canais digitais nos próximos 12 meses Mais de 45% dos clientes da classe A e B da geração X (nascidos entre os anos 60 e meados dos 70) devem adotar ecossistemas inteligentes, dispositivos conectados e vestíveis. Já na geração Y (nascidos entre o fim dos anos 70 e no início dos 90), esse percentual sobe para 50% 31% dos clientes com alto poder aquisitivo afirmam que podem vir a contratar seguros de empresas de tecnologia, percentual que sobe para 47% entre os clientes mais abonados da geração Y Apenas 16% das seguradoras acreditam que os clientes aceitarão carros sem motoristas, enquanto 23% dos clientes demonstram esse interesse * Fonte: Pesquisa Capgemini

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caso a empresa de seguros atenda completamente as necessidades do cliente. “O mobile já supera as transações via internet em cinco vezes, e, juntos, representam mais de 60% das transações realizadas no BB.”, diz. “Já vemos essa tendência nas empresas que compõem o grupo BB Seguridade”. Em tempos de crise, as seguradoras afirmam que precisam analisar muito antes de investir em tecnologia e também aguardam mudanças na regulamentação para poderem adotar processos mais simples, como, por exemplo,

fechar um negócio sem assinatura do cliente ou mesmo sem um corretor de seguros, o que hoje não é permitido pelo arcabouço legal do setor, regulado pela Superintendência de Seguros Privados (Susep). “Não adianta mais relutar. O Uber é um exemplo clássico. Pode ter protestos, mas se o cliente quer, a regulamentação virá”, comentou Fabiano Droguetti, diretor de Operações e Gestão de Aplicações da Tivit. Segundo Marcelo Blay, CEO da Minuto Seguros, a complexidade dos produtos e a fal-

Porto Seguro integra startups em atividades A Porto Seguro, maior seguradora de automóvel do Brasil, deu o pontapé inicial do mercado deste segmento em relação ao tema fintech, não na relação com clientes, mas também para aumentar sua eficiência e gerir pessoal. No final do ano passado abriu a Oxigênio, a aceleradora do grupo, e, em junho deste ano, já tinha cinco projetos escolhidos para integração a várias empresas do grupo. Outros sete estão em análise, previstos para entrar em cena até o primeiro trimestre de 2017. A Bynd, startup de caronas com mais de 15 mil usuários em quatro clientes corporativos, passou a ser oferecida aos funcionários da Porto Seguro. Quem dá e quem recebe caronas ganha pontos e os acumula no cartão, para trocar por milhas ou outros produtos. “O app oferece experiência de uso simples e em tempo real para conectar pessoas e promover integração, economia e sustentabilidade nas empresas; e tem grande sinergia com a Porto Cartões”, explicou Italo Firmino, da Oxigênio, a aceleradora do grupo.

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A PDVend é um ponto de venda para loja física que permite a varejistas vender produtos e gerenciar lojas por meio de tablets e celulares. A sinergia com a Porto está no uso do sistema pelos prestadores de serviços que atendem clientes da seguradora. A Planejei descomplica o planejamento financeiro. Foi criado o robô Marvin, um consultor que acompanha os objetivos e metas do usuário diariamente. Ele é 100% automático, integrado com bancos e cartões e pode ser aproveitado pela Porto Vida e Previdência. O Trackage monitora bagagens, indica sua localização exata e alerta sobre eventuais violações em tempo real. É um app indicado para ser integrado ao seguro viagem. Já a Telep complementa a atuação da Conecta, empresa de telecomunicações do grupo. O aplicativo móvel permite que as empresas economizem nas contas telefônicas, monitorando e analisando os gastos dos funcionários, identificando o mau uso e cobranças indevidas, e sugerindo o plano mais adequado para as necessidades de cada empresa.


Fernando Nogueira César, da Dell, proferiu a palestra sobre a revolução gerada pela internet das coisas

“Na BB Seguridade, nos preocupamos muito mais com empresas de tecnologia que podem vender seguro do que com competidores tradicionais” Angela Beatriz, da BB Seguridade

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ta de conhecimento a respeito do seguro em si fazem com que o elemento humano ainda seja parte importante do processo de contratação. “Até o Google, gigante do mundo da tecnologia, decidiu interromper sua incursão no mundo da venda de seguros pela internet, pois chegou à conclusão que os clientes precisam de um apoio humano durante e após o processo de contratação.” Até 2015, as startups no setor eram todas corretoras de seguros, como a Minuto Seguros, Smartia, Sossego, TaCerto, Escolher Seguro, Bidu e Compara. Eram chamadas praticamente de comparadoras de preços de automóvel. Só que rapidamente elas passaram a acompanhar a jornada digital do consumidor, trazendo, para o mercado de seguros, novos clientes, principalmente os que faziam buscas que remetiam à organização das próprias férias. O seguro viagem passou a ser o produto de maior sucesso dessas fintechs. E, a partir daí, vieram os seguros de carros, de vida, para animais, de acidentes pessoais, entre outros. Neste segundo semestre, mais duas plataformas digitais de peso devem entrar na disputa pelos consumidores: a Youse, da Caixa Seguradora, e a ThinkSeg, idealizada por André Gregori, ex-BTG Pactual. O plano de negócios da ThinkSeg prevê investimentos de R$ 50 milhões no prazo de cinco anos, com 300 mil itens segurados e mais de 2 milhões de usuários. “É realmente uma nova forma de fazer negócio, que vai ao encontro do que o cliente quer comprar e pagar, e não mais daquilo que uma empresa quer vender”, explica Gregori, que há quatro anos viaja o

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InsurTechs no mundo empréstimo, como, por exemplo, pelo período de uma hora. Todo o processo é feito num smartphone Lemonade, um aplicativo que se propõe a aproximar grupos de pessoas querendo comprar seguros e investidores querendo bancar esse risco Bought by Many se especializou em juntar pessoas com necessidades específicas para solicitar o desenvolvimento de produtos adequados ou pleitear descontos O aplicativo Oscar é tido com um de mais sucesso nos EUA e atua com saúde. O app é muito simples e intuitivo, e tem a função de ajudar as pessoas a buscarem na rede referenciada médicos e clínicas para agendamento de consultas. Os usuários podem informar pelo aplicativo quais são os sintomas e assim um atendente pode iniciar o primeiro atendimento médico já pelo telefone A escocesa Cuvva faz o seguro do carro emprestado de um amigo, pelo tempo do

A Sure faz o seguro viagem específico para o voo, cobrindo desde o momento em que o avião levanta voo até o pouso A Kroodle usa o perfil da pessoa no Facebook para coletar informações importantes na formação do preço, permitindo a compra de seguro de vida em apenas um passo O Metromile, empresa sediada em São Francisco (EUA), é a mais famosa por cobrar por milha dirigida, além de monitorar o uso de combustível, a manutenção do veículo e sua localização

A Social Intelligence busca informações nas redes sociais para ajudar seguradoras a precificar um risco com carência de dados

mundo pesquisando novas formas de negócios em seguros. Segundo Daniel Rocha, da Capgemini, mais de US$ 16 bilhões já foram investidos em fintechs de seguros nos Estados Unidos. O especialista acredita na tendência de que a geração Y, apesar de se comunicar com frequência com as seguradoras, tenha menos experiências positivas com elas do que os consumidores de outras faixas etárias. Esse público interage mais em todos os canais de comunicação, principalmente nos digitais, sendo até 2,5 mais vezes nas

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O Snapsheet é um aplicativo que permite que o cliente tire as fotos de seu carro batido e, em menos de três horas, já receba um orçamento para o conserto A Spex atua no dia-a-dia de vistoriadores através de ferramentas tecnológicas que facilitam a análise de documentos A Bauxy permite que os segurados apenas tirem uma foto do recibo de pagamento de um conserto de lente de óculos e faz todo o processo para ajudar o cliente a receber o ressarcimento da seguradora Até em organização há espaço para as startups ajudarem no tema seguros. A Knip e a Getafe, por exemplo, permitem que o cliente armazene em apenas um lugar todas as informações sobre seus seguros

mídias sociais do que os outros clientes, e duas vezes mais por meio de dispositivos móveis. Fernando Nogueira César, gerente da Dell que proferiu a palestra sobre a revolução gerada pela IoT, mostrou o potencial transformador da indústria de seguros. Os smartwatches, que servem para monitorar a frequência cardíaca e as atividades dos usuários, ajudarão cada vez mais as empresas de seguro de vida a fazerem estimativas mais precisas sobre a expectativa de vida de seus clientes. As conexões tecnológicas com a casa podem mandar avisos de fogo, água ou assalto.


A mudança também já é realidade no segmento de seguro de carros. Estão ficando cada vez mais populares produtos como “PAYD – Pay as You Drive” (pague baseado no uso do veículo) e PHYDd – “Pay How You Drive” (pague baseado em como você dirige). No Brasil, as seguradoras começam a ingressar neste segmento, usando informações geradas através da IoT e telemática para prevenção de acidentes e precificação de riscos. A Porto Seguro acompanha um grupo de jovens com esse objetivo, e a Liberty Seguros pôs em prática um projeto-piloto que está perto de se tornar uma estratégia definitiva. O mesmo acontece com os grandes riscos, como os existentes para seguros de plataformas de petróleo, portos e satélites. Resseguradoras e seguradoras já usam drones para inspecionar riscos, como ocorreu em agosto de 2015 na China. O incêndio do porto Tianjin, com mais de 100 mortos, durou dias e deixou uma conta de mais de US$ 3,5 bilhões para as seguradoras. O uso de drones e imagens de satélite permitiram uma primeira avaliação dos estragos, mais agilidade dos gestores de riscos que puderam mitigar perdas, e mais rapidez no pagamento de indenizações aos clientes. Segundo Cristiano Barbieri, diretor de TI da SulAmérica, a área de tecnologia da informação tem que funcionar como uma startup, e não mais como uma área tecnológica. “Temos de ser muito mais inovadores, mais baratos e mais rápidos”, afirma. Barbieri acredita que o setor terá fintechs parceiras, usará fintechs de concorrentes e outras startups para ajudar a consolidar toda a cadeia de valor. A SulAmérica, uma companhia que atua em todos os segmentos e que tem 7 milhões de clientes, conseguiu chegar há mais de 5 milhões de transações e 1 milhão de downloads em seu aplicativo de saúde. Ele cita também o cartão virtual de saúde, com a

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integração

qual o segurado checa descontos em farmácias e o andamento do pedido de reembolso, entre outras funções. “Isso gerou a redução de mais de 1 milhão de ligações no call center”, conta. As seis palestras realizadas na Trilha de Seguros no Ciab FEBRABAN 2016 deixaram claro que as companhias de seguros estão atentas aos danos causados às operadoras de Telecom com comunicadores instantâneos, como o WhatsApp. E as companhias estão assustadas com o impacto do que chamam de InsurTech, ou seja, a explosão de startups no mercado segurador. Segundo estudo da PricewaterhouseCoopers, uma em cada cinco seguradoras no mundo está engajada com uma fintech para inovar algum ponto da cadeia entre a criação de produtos ao atendimento do cliente. No Brasil, a tendência é a mesma: com parcerias entre fintechs, seguradoras e corretores reinventam-se para agregar valor nessa cadeia de negócio. “O cliente é o protagonista”, garantiu Cristiano Barbieri, diretor da SulAmérica. n

Para Cristiano Barbieri, da SulAmérica, a área de tecnologia da informação tem que funcionar como uma startup, e não mais como uma área tecnológica

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Decifrar para não ser devorado Por Ediane Tiago

Bancos brasileiros integram consórcio internacional para soluções baseadas em plataformas de contabilidade distribuída

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blockchain

"os bancos ainda não sabem como utilizar a tecnologia em seus negócios" Fábio Chesini, do Gartner

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este ano, o Ciab FEBRABAN recebeu profissionais ávidos por decifrar o blockchain – uma tecnologia recente, ainda de difícil entendimento para leigos, também conhecida como plataforma de contabilidade distribuída. Os auditórios lotaram e houve quem assistisse às palestras em pé. Nos corredores e estandes, o tema também agitou o congresso. O interesse em torno da tecnologia foi incentivado pela entrada do Itaú Unibanco e do Bradesco no consócio internacional R3, que lidera a pesquisa e o desenvolvimento de soluções baseadas em blockchain para um grupo formado por mais de 50 instituições financeiras em todo o mundo. O mercado financeiro está globalmente empenhado em dominar o blockchain – uma grande rede contábil que integra, de forma

"bancos brasileiros vão disseminar soluções na América Latina" Charley Cooper, do R3

descentralizada, transações realizadas com diferentes ativos (físicos, digitais e contratos). “A diferença está na movimentação de valores diretamente entre as partes, sem intermediários”, explicou Fábio Chesini, diretor de pesquisa do Gartner. Os bancos ainda não sabem como utilizar a tecnologia em seus negócios, diz ele. “É uma ruptura importante para o setor; as instituições financeiras precisam redefinir a forma como trabalham”, confirmou Nitin Gaur, diretor do laboratório de blockchain da IBM. Na prática, adotar o blockchain significa deixar um modelo centralizado e fechado para operar de forma aberta. “O maior desafio é construir uma rede de confiança, com sistemas capazes de assegurar clientes e instituições”, disse Gaur. A única certeza do mercado é que não dá para fugir desta onda tecnológica. Os esperevista Ciab FEBRABAN

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blockchain

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cialistas que se apresentaram durante o Ciab FEBRABAN 2016 foram categóricos: a contabilidade distribuída é uma ruptura tão importante para os serviços financeiros como foi a internet. “Não há opção: quem não desvendar o blockchain, será devorado por ele”, disse Marco Aurélio Crestoni, chefe do escritório de tecnologia do Citi. Por isso, é tão importante criar um ecossistema para desenvolver as soluções. “Também é algo que não dá para tocar sozinho”, lembrou Crestoni. “A adesão dos bancos brasileiros é fundamental para disseminar a tecnologia na América Latina”, destacou Charley Cooper, diretor do R3. Ele reconhece a importância global do Brasil em tecnologia bancária e acredita que as instituições brasileiras terão papel relevante no desenvolvimento do blockchain.

"associação com o R3 permite entender onde existe maior benefício para o consumidor" Mauricio Salas, do Itaú Unibanco

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Cooper lembrou que o R3 já lançou uma plataforma de contabilidade distribuída para o mercado financeiro, chamada Corda. “Alguns de nossos clientes estão operando a solução para testá-la e validá-la.” Além dela, o executivo afirmou que o R3 está identificando soluções para resolver problemas de negócios específicos do setor bancário. “Pretendemos lançar novos produtos no próximo ano.” Mauricio Salas, superintendente de arquitetura do Itaú Unibanco, fez questão de lembrar que o Itaú foi o primeiro banco brasileiro a se juntar ao R3 (no final de abril). “A associação nos permite estudar a tecnologia e seus casos de uso; o objetivo é entender onde existe maior benefício para o consumidor e oportunidade de captura de eficiência para os nossos negócios”, explicou. O Itaú, segundo o executivo, aprofunda os conhecimentos técnicos sobre o blockchain para analisar como a tecnologia pode mudar a indústria financeira e seus modelos de negócios. “Nosso centro de competência interno tem discutido e acompanhado a evolução do blockchain”, diz. Além de comandar os trabalhos com as áreas de negócios do banco, a equipe do Itaú realiza eventos para discutir o tema com especialistas, fintechs e outras empresas. O Bradesco anunciou associação com o R3 durante o Ciab. “Esta é uma das nossas frentes de trabalho”, afirmou Rony Sakuragui, consultor de Gestão de Tecnologia da Scopus/Bradesco. O consórcio tornou-se a voz dos bancos na pesquisa e desenvolvimento de soluções de contabilidade distribuída, e é uma ponte importante para criar padrões globais de operação, disse ele. “Estamos avaliando se vamos ou não testar o Corda”, adiantou. Para ampliar a capacidade de análise de soluções, a equipe da Scopus trabalha com a área de tecnologia e inovação do Bradesco. O interesse em blockchain também se reflete na se-


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blockchain

"a integração de serviços financeiros a cadeias produtivas mais avançadas amplia a base de testes"

"o Brasil precisa ser mais ágil na elaboração de regras para a tecnologia"

leção de fintechs, pelo programa InovaBra (que apoia financeiramente projetos de empresas novatas), e a conversa com outros bancos. “A ideia é ter uma espécie de comitê brasileiro, do qual o R3 quer participar”, diz Sakuragui. O Bradesco anunciou que, até o final deste ano, começará a testar soluções de contabilidade distribuída. Serão dois serviços distintos. “Fechamos parcerias com duas fintechs, ambas participantes do InovaBra, para aprender sobre a tecnologia e avançar nos pilotos”, comenta Sakuragui. A eWally desenvolveu uma carteira digital_ que pode ser utilizada em telefones inteligentes (smartphones)_ baseada na tecnologia de contabilidade distribuída. O serviço consiste em permitir depósitos e saques pela rede de cor-

respondentes bancários Bradesco Expresso. Já a BitOne, também selecionada pelo Bradesco, desenvolve soluções para facilitar transferências de valores, processamento de pagamentos e gestão financeira. “Vamos testar as soluções e também o modelo de inovação aberta”, explicou Sakuragui. Para testes em larga escala, lembra Gaur, os bancos podem buscar integração aos negócios de cadeias produtivas mais avançadas em soluções de blockchain, com os segmentos de saúde e logística. “Essas redes estão se formando e há intensa troca de valores e produtos; como há sempre um ativo físico relacionado, a segurança é maior”, disse. Joaquim Kiyoshi Kavakama, superintendente geral da Câmara Interbancária de

Paschoal Baptista, da Deloitte

Nitin Gaur, da IBM

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blockchain

"os órgãos reguladores têm de participar do processo"

Joaquim Kavakama, da CIP

Pagamentos (CIP), alertou sobre outro ponto importante: a regulamentação. “No setor financeiro, não dá para lançar uma tecnologia nova sem conversar com os reguladores”, disse. Por isso, ele vê sinalização positiva na entrada de entidades como Banco Central, Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da própria CIP na discussão. “É preciso um consórcio de bancos brasileiros que converse com essas entidades; todos têm de andar juntos”, comentou. De acordo com Paschoal Pipolo Baptista, sócio da Deloitte, 80% dos maiores bancos do mundo estão envolvidos com projetos de blockchain. Os investimentos em fintechs dedicadas à tecnologia também têm crescido. Nos últimos três anos, US$ 1 bilhão foram aplicados em novatas com projetos de contabilidade distribuída. Os ganhos anuais projetados para a indústria financeira chegam a US$ 20 bilhões.

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“Para aproveitar o potencial da tecnologia e da criação dela, o Brasil tem de ser mais ágil em discutir a regulamentação”, alertou Baptista. Além de observar as regras vigentes em cada país, a tecnologia enfrenta outros desafios. Segundo Kavakama, é preciso formar mão de obra especializada em blockchain (o tema é novo para todos), criar padrões de operação (uma rede ampla e global só funcionará se todas as instituições envolvidas conversarem) e garantir a latência (tempo de resposta) e a escalabilidade da solução. Até agora, apenas a criptomoeda bitcoin tem utilizado a tecnologia em larga escala. “Quando falamos em transações bancárias, o volume de transações é exponencialmente maior”, explicou Kavakama. Além de transacionar moedas e valores, o blockchain tem sido visto como tecnologia interessante para administrar contratos e solucionar problemas internos de negócios dos bancos. Exemplos disso são aplicações voltadas para redes internas de conciliação. O principal ganho está na redução de custos. “A facilidade operacional motiva o uso em processos burocráticos”, afirmou Baptista. A área de contratos eletrônicos inteligentes é a principal porta de entrada apontada pelos especialistas para os bancos. Neste caso, é possível criar uma base de documentos com regras estabelecidas e provisão para transferência de propriedade. “Tudo codificado no contrato”, disse Baptista. Com isso, as transações tornam-se à prova de adulteração e são autoexecutáveis, eliminando a necessidade de intermediários para validá-las. Alex Batlin, gerente sênior de inovação do UBS, alertou que a capacidade de inovação é que diferenciará os bancos em um mercado cada vez mais competitivo. “Quem não enxergar isso, verá seus clientes migrarem para instituições novas e agressivas na oferta de produtos e serviços inovadores”, concluiu. n


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inteligência artificial

De mãos dadas, máquina e o ser humano Por Júlia Zillig

A computação cognitiva abre novo horizonte e põe o cliente em destaque na cadeia de negócios financeiros

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inteligência artificial

IBM apresentou no Ciab FEBRABAN o NAO, modelo de robô que pode operar com a plataforma cognitiva Watson e é adotado na indústria financeira

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Maurício Minas, vice-presidente do Bradesco, moderador do painel “A 4ª Revolução Industrial” no Ciab FEBRABAN 2016; executivo destacou durante o debate as mudanças ocasionadas pelas plataformas digitais para o consumidor

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grande volume de informações gerado no mundo não para de crescer: cerca de 2,5 exabytes_ 2,5 quintilhões de bytes ou 2,5 bilhões de gigabytes _ de novos dados são criados a cada dia. Somada a isso, a mudança do perfil do consumidor, hiperconectado e mais exigente em suas relações, trouxe um importante desafio para a indústria financeira: trabalhar a entrega de produtos com mais rapidez e segurança, com novos sistemas e ferramentas capazes de tornar a operação interna ainda mais eficiente. “Hoje, as áreas de negócios e TI têm que trabalhar juntas, em completa simbiose, por conta dos pilares dessa nova era”, enfatizou Adam Woodhouse, CIO Advisory Financial Systems da KPMG, que falou no painel “A 4ª Revolução Industrial” no 26º Ciab FEBRABAN, ocorrido entre 21 e 23 de junho, em São Paulo. Baseada na internet das coisas (IoT), inteligência artificial (IA), big data, computação cognitiva e nas plataformas colaborativas, a nova revolução leva as empresas a buscar caminhos ainda pouco conhecidos, onde a tecnologia é o principal guia. "Saímos da era da progra-

mação e entramos na era cognitiva", disse Vivek Bajaj, vice-presidente de Negócios Bancários Globais e Financeiros da IBM, que participou do painel “Computação Cognitiva na Prática”. Ainda em seus primeiros passos, a computação cognitiva sinaliza transformações importantes na forma de fazer negócios. Os computadores estão deixando de ser executores de instruções pré-definidas, com base em dados revista Ciab FEBRABAN

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Geraldo Dezena, do Banco do Brasil, diz que até outubro deve entrar em operação o Assistente Mobile BB, que auxilia a navegação no aplicativo do banco a partir de solicitações feitas de maneira natural, via voz

“Saímos da era da programação e entramos na era cognitiva” Vivek Bajaj, da IBM

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programados, para se tornar máquinas pensantes, com capacidade analítica, que interagem com linguagem natural. São capazes de dar a resposta para problemas os quais não foram programados, estabelecendo novas regras. De acordo com Guruduth Banavar, vice-presidente de Computação Cognitiva da IBM Research e palestrante do painel “Machine Intelligence”, uma máquina hoje pode trabalhar um grande volume de dados, por meio de Machine Learning (sub-campo da inteligência artificial dedicado ao desenvolvimento de algoritmos e técnicas que possibilitam aprendizado ao computador), raciocinando vários passos à frente. Segundo Banavar, com a competência para tratar rapidamente de um enorme volume de dados e de testar hipóteses muitos passos além da capacidade humana, as máquinas “são capazes inclusive de detectar comportamentos e sentimentos dos usuários”. Para realizar esse trabalho, a análise seria com-

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inteligência artificial


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inteligência artificial

Marcelo Camara, do Bradesco, destaca que plataforma cognitiva da IBM é usada em produtos do banco

Otto Berkes, da CA Technologies, diz que segurança deve ser robusta nas transações, mas sem criar atritos com processo de inovação

plementada por pessoas com capacidades tipicamente humanas, como intuição e empatia, além do alcance dos computadores.

Customer Analytic Insights (ACAI), apresentada durante o Ciab FEBRABAN, com o intuito de auxiliar as empresas de serviços financeiros na busca pela personalização do atendimento. Tendo como plataforma o software Microsoft Dynamics CRM, a tecnologia é baseada em IA e tem como princípio a “aplicação líquida”, segundo Milton Cruz, Sales Director da Avanade. “A solução se molda ao perfil do usuário que a está acessando, por meio do cruzamento de dados estruturados e não estruturados.” Pode ser adaptada para oferecer serviços e produtos individualizados em tempo real para os clientes, mas também para tornar o trabalho dos funcionários mais produtivo.

Raio X Somente em tecnologia da informação, os bancos investiram cerca de R$ 19 bilhões no ano passado, segundo a Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2015. Inicialmente, áreas como atendimento ao cliente, riscos e compliance têm potencial promissor para a aplicação da computação cognitiva. Mas, de acordo com Bajaj, da IBM, cerca de 50% dos projetos têm como foco o atendimento ao cliente, pela forte demanda de personalização das experiências. Empresas de tecnologia estão investindo no desenvolvimento de soluções que tragam essa individualização, como é o caso da Accenture e da Avanade, que, juntas, criaram a solução Accenture

Aconselhamento Uma das diretrizes já adotadas pelas empresas é a aposta na criação de agentes virtuais para solucionar dúvidas e fazer operações junto revista Ciab FEBRABAN

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inteligência artificial

Para caçar hackers, IBM usa detetive do século 21: o supercomputador Watson Por Charles Nisz

A ideia da IBM é fazer com que esse assistente de detetive use as habilidades linguísticas para escanear cerca de 15 mil documentos sobre segurança da informação por mês, indicando aos profissionais de segurança quais dessas fontes são confiáveis. O sistema também é capaz de aprender em quais documentos deve confiar. “O Watson entende quando um especialista em segurança dá uma nota positiva ou negativa para determinada fonte de informação, e usa isso posteriormente para catalogar novos documentos”, explicou o engenheiro da IBM.

Sherlock Holmes dizia que John Watson não era brilhante, mas era capaz de conduzir a luz. A IBM inspirou-se nas histórias criadas por Arthur Conan Doyle para criar um assistente capaz de auxiliar os cientistas da computação na luta contra os hackers. Lançada em maio de 2016, a nova versão da plataforma tecnológica Watson é a nova arma contra o cibercrime.

O valor do Watson está na capacidade de escanear dados numa escala inimaginável para um humano. Tal ajuda é de enorme valia para quem trabalha com segurança da informação: até 2020, haverá 1,5 milhão de postos de trabalho não preenchidos nesse setor por falta de mão de obra qualificada. Para deixar o cenário ainda mais dramático, a consultoria Juniper Research estima que os crimes cibernéticos causarão prejuízos na casa dos US$ 2 trilhões até 2019.

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Plataforma tecnológica Watson, da IBM, apresentada no Ciab FEBRABAN 2016

Criado em 2012, o Watson ficou famoso por vencer o programa de televisão americano Jeopardy (um jogo de perguntas e respostas). Segundo Jeff Crume, engenheiro da IBM, a principal vantagem sobre outros computadores é a capacidade dessa máquina de entender ironia, contexto e outras sutilezas da linguagem natural. “Isso é uma inovação diante de computadores como o Deep Blue_ famoso por vencer jogos contra campeões mundiais de xadrez. Antes, o computador só fazia cálculos, hoje ele é capaz de interações mais complexas”, explica Crume.

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Isso acontece porque, segundo um relatório do Ponemon Institute, os especialistas em segurança da informação gastam mais da metade do tempo investigando ameaças com base em fontes imprecisas ou alarmes falsos. Esse tempo desperdiçado em trabalho infrutífero custa, em média, US$ 1,25 milhão ao ano para cada empresa. “Além de analisar os dados, o Watson usa estatística para auxiliar os especialistas de segurança na hora de escolher a melhor maneira de lidar com um ataque virtual”, afirmou Jeff Crume. “A ideia não é substituir a mão de obra humana, mas economizar tempo e auxiliar os profissionais”, concluiu.


aos clientes, de onde quer que eles estejam: basta apenas que estejam conectados às instituições, via aplicativos. Em outra frente, a tecnologia pode ser embutida em um robô de verdade, que opera de maneira semelhante aos seres humanos. Um exemplo é o NAO, que traz a plataforma de computação cognitiva Watson da IBM e hoje atua em um projeto-piloto no hotel Hilton, nos Estados Unidos, onde aprende a se comportar como um concierge, auxiliando os hóspedes com informações turísticas e sobre o hotel. Instituições como Bradesco e o Banco do Brasil têm projetos cognitivos em fase de finalização. Até outubro, de acordo com Geraldo Dezena, vice-presidente de tecnologia do banco, deve entrar em operação o Assistente Mobile BB, disponível inicialmente para 500 mil clientes de alta renda, que auxilia a navegação no aplicativo do banco a partir de solicitações feitas de maneira natural, via voz. “Os clientes poderão solicitar transações por meio de frases completas”, afirmou. “A fala será interpretada e analisada pela solução, que foi treinada para identificar a intenção contida nas palavras, independentemente da forma em que os usuários expressem seu desejo.” Já no Bradesco, o Watson é o novo “funcionário” e, inclusive, já “fala” português. A plataforma cognitiva da IBM foi implantada no banco em janeiro e está em fase de testes. Marcelo Camara, gerente de Departamento, Pesquisa e Inovação do Bradesco, destaca que a tecnologia foi implementada em centenas de agências em vários locais do Brasil para, inicialmente, atender a uma demanda interna dos funcionários no esclarecimento de dúvidas. “Eles podem fazer as perguntas de várias maneiras via texto, pois o Watson tem a capacidade de assimilar sotaques, gírias e jeitos diferentes de falar”, afirmou. De acor-

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inteligência artificial

“As áreas de negócios e TI têm que trabalhar juntas, em completa simbiose” Adam Woodhouse, da KPMG

do com o executivo, a intenção inicial era adicionar no Watson dados sobre 11 produtos do banco até setembro. Mas essa meta foi cumprida em maio. No Brasil, já existem algumas iniciativas de peso no desenvolvimento de plataformas de inteligência artificial, seguindo a linha do Watson. No País, uma delas leva o nome de Sophie e traz a assinatura da Stefanini. Desenvolvida sob uma plataforma da CA Technologies, é capaz de interagir com usuários humanos e sistemas por meio de um conjunto de interfaces de texto e voz. “A proposta é tornar as interações com usuários, sejam eles pessoas físicas ou corporações, mais fluidas, simples e eficientes”, afirmou Alexandre Winetkzi, presidente da Woopi, revista Ciab FEBRABAN

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inteligência artificial

empresa de pesquisa e desenvolvimento da Stefanini e responsável pela implementação da tecnologia no Brasil.

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Análises e estratégias

“Máquinas são capazes de detectar comportamentos e sentimentos dos usuários” Guruduth Banavar, da IBM

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No Brasil, já existem algumas iniciativas em plataformas de inteligência artificial, como a Sophie, da Stefanini, capaz de interagir com usuários por meio de interfaces de texto e voz

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A computação cognitiva pode ser uma importante ferramenta para estratégias de crédito mais sofisticadas. Com o cruzamento de dados estruturados e não estruturados, provenientes de fontes como as redes sociais e de outros canais que traduzem o comportamento dos consumidores, é possível acompanhar o momento de vida do cliente, identificando demandas e antecipando a oferta de produtos de acordo com necessidades específicas. “Procuramos acompanhar a vida do cliente para fazer essas ofertas”, enfatizou Geraldo Dezena, do Banco do Brasil. Outra contribuição positiva é voltada para a prevenção de fraudes e crimes cibernéticos. Com a inovação em curso, os bancos reforçam o olhar para a segurança, na expectativa de trazer maior tranquilidade aos clientes, além de reforçar a confiança deles na marca. “Hoje há algoritmos capazes de interpretar padrões de comportamentos dos usuários nas redes, o que facilita a detecção de operações suspeitas”, afirmou Bajaj. A tecnologia já possibilita até “treinar” câmeras de segurança para identificar o comportamento das pessoas nos ATMs (caixas eletrônicos), por meio da análise de imagens, e avaliar se está ocorrendo um movimento suspeito que pode caracterizar um assalto, por exemplo. Por outro lado, o foco em segurança põe em questão a eficiência da inovação. Otto Berkes, Chief Technology Officer (CTO) global da CA Technologies e palestrante no painel “4ª Revolução Industrial”, acredita que é necessário balancear a equação. “A segurança tem que


inteligência artificial

A revolução industrial e a experiência do cliente

O cliente pode fazer todas as transações de onde estiver, nos quatro cantos do mundo, via aplicativos, mesmo quando estiver off-line

O usuário quer ser atendido com eficiência e rapidez. Para isso, vai contar com agentes virtuais, graças aos avanços da computação cognitiva, que terão a capacidade de esclarecer suas dúvidas a respeito de qualquer assunto relacionado à sua vida financeira, inclusive aconselhar sobre os melhores investimentos de acordo com seu perfil.

O cliente está no centro das relações comerciais. Mais do que nunca, ele é o protagonista desse universo

O consumidor não vai mais precisar ir a uma agência para depositar cheques ou dinheiro, ou validar um financiamento de um veículo. Com a captura fotográfica dos documentos, é possível fazer o depósito remotamente assim como o encaminhamento dos documentos para validar a linha de crédito, em qualquer hora do dia.

Em passos futuros, será possível concluir transações apenas com a análise da biometria.

Para pagar suas compras, o cliente pode contar também com o cartão digital – basta que a leitura seja feita via dispositivo para registrar a compra.

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inteligência artificial

Simão Kowalski, do Banco do Brasil, diz que banco dobrou o número de clientes que interagem digitalmente com a instituição entre 2013 e 2016

ser robusta, mas não pode atrapalhar a entrega de uma boa experiência; é preciso equilibrar essas duas forças, sem criar atritos.”

Experiência Hoje não basta apenas deter as informações, é preciso transformá-las em munição para a tomada de decisão. Lidar com os dados estruturados tornou-se fundamental para atender aos anseios dos consumidores. "Experiência é tudo", enfatizou Berkes, da CA Technologies. Mas a velocidade tem um papel essencial. “A rapidez com que uma empresa pode entender uma necessidade não preenchida no mercado e, em seguida, responder com uma solução é um diferencial competitivo”, complementou Woodhouse, da KPMG. “Hoje, o consumidor pode optar por diversos fornecedores, ou até mesmo trocá-los

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se ficar insatisfeito; o principal dessa mudança é a experiência alavancada pelas plataformas digitais”, analisou Mauricio Minas, vice-presidente do Bradesco, no painel “4ª Revolução Industrial”. “Vivemos um momento de ‘uberização’ da economia”, disse ele. Os agentes econômicos passam a ter comportamento volúvel e imediatista baseado na alta conectividade, muito parecido com o que as pessoas têm nas plataformas digitais, que, segundo o executivo, “traz riscos e oportunidades.” Com produtos cada vez mais “comoditizados”, aumenta o desafio da indústria financeira em dar um passo à frente na forma de entregá-los, enfatizou Simão Kowalski, diretor de Clientes Pessoas Físicas do Banco do Brasil e palestrante do painel “Experiência do Cliente nos Serviços Financeiros”. Segundo ele, entre 2013 e 2016, o banco dobrou o número de clientes que interagem digitalmente com a instituição_ de 3,6 milhões para 7,6 milhões; hoje, mais de 90% das transações feitas com o banco são digitais.

Próximos passos Para Estevão Lazanha, diretor de engenharia de dados do Itaú Unibanco, a palavra de ordem para o futuro _ nem tão longínquo_ é a integração de tecnologias. “Podemos esperar uma completa sinergia entre todos os canais: ofertas precisas, gestão financeira personalizada, maior segurança com detecção de fraudes, integração de biometria em todos os sistemas e sinergias com parceiros, com mais velocidade e precisão”, afirmou. “Será uma ferramenta poderosa na disciplina analítica da indústria.” Otto Berkes, da CA Tecnhologies, aposta em bancos 100% digitais. “A próxima geração vai querer vivenciar experiências unicamente digitais, sem utilizar dinheiro físico”, concluiu. n


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cultura digital

Novos clientes, demandas novas Por Jiane Carvalho

Avanço dos bancos digitais sofistica personalização dos produtos

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m meio a desafios tecnológicos e culturais com a migração para o ambiente digital, as instituições financeiras também precisam encarar um novo consumidor, que surgiu com os avanços econômicos e sociais da última década, tem demandas específicas e é bem mais exigente do que no passado. Estabelecer e manter um bom relacionamento com este cliente, segundo especialistas, vai muito além de propiciar um ambiente

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para transações financeiras. “Banco digital não pode ser só transacional ou só oferta realizada no digital, tem de ter educação financeira, relacionamento, curadoria de conteúdo e favorecer o dia a dia daquele cliente, dentro do que ele espera”, resumiu Renato Meirelles, presidente do instituto Data Popular. É o conceito de cliente no centro, mudança que vai levar à oferta de produtos cada vez mais personalizados.


cultura digital

O peso da internet no Brasil Usuários de internet: + de 50% conectados População total do Brasil: 200,4 milhões

Usuários ativos de mídias sociais: 3º país que mais usa redes sociais no mundo

Quantidade de smartphones: 89 milhões. É a 5ª maior base de aparelhos do mundo

71%

Comunicação via mobile: 71% da população se comunica por mobile

Fonte: Ipsos 2015/ Anatel 2014/ TGI/ Emarketer, dez-14/Consultoria Rizzo Franchise, jan-15/Going Beyond Data

Dados apresentados pelo instituto de pesquisa Data Popular no 26º Ciab FEBRABAN mostram a mudança no perfil de conexão dos brasileiros. As classes A e B, que eram dois terços dos usuários, hoje representam 30%. Do percentual que acessa a web, 69% têm idade entre 25 e 39 anos. O smartphone é o primeiro instrumento de acesso à internet para 49% das pessoas que possuem um celular. “E ainda tem gente que vai montar uma empresa, faz primeiro um site e só depois pensa em uma plataforma para mobile”, criticou Meirelles. Na última década, a renda dos 25% mais pobres cresceu 81%, enquanto a renda dos 25% mais ricos cresceu 30%. “É uma nova classe média surgindo, mas com demandas específicas: às vezes tem bolso de classe A, mas cabeça de classe C, e as empresas precisam entender isto”, comentou Meirelles. No item satisfação, a pesquisa revelou que 89% dos entrevistados estão hoje mais insatisfeitos com os serviços privados do que há um ano.

Evolução das classes econômicas* nos últimos 20 anos, em %

Classe Baixa Classe Média

Classe Alta

50

54 45

37 41 14

14

1995

2005

25 21 2015

* classe alta: renda familiar mensal igual ou superior a R$ 5.771; classe média: renda acima de R$ 1.806; classe baixa: até 1.262 mensais revista Ciab FEBRABAN

Fonte: Data Popular

Nasce um consumidor digital

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cultura digital

O sócio fundador da consultoria Consumoteca, Michel Alcoforado, tem visão semelhante. “É preciso entender melhor que consumidor é este, que tem mais smartphone do que PC, e cujo pico de uso na internet é à noite, porque usa wifi em casa para reduzir custo com telefonia.” Em sua opinião, os serviços e também o gerente digital precisam estar disponíveis à noite para este cliente. “Ter critérios como sexo, renda e idade para definir o consumidor é pouco; são informações que ficam na base da pirâmide”, disse ele, defendendo outros parâmetros de atendimento. “No meio, temos o perfil atitudinal, e, no topo, o momento de consumo; se a oferta de produto for boa, mas na hora errada, incomoda”, sugeriu.

"banco digital não pode se restringir à oferta de produtos no ambiente digital"

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Renato Meirelles, do Data Popular

Embora os números demonstrem a necessidade de atrair e fidelizar novos clientes no ambiente digital, as primeiras experiências com agências digitais no país começaram no topo da pirâmide. Um dos motivos é a necessidade de se proteger da concorrência. “É no topo da pirâmide que as fintechs atuam e também onde está boa parte do resultado dos bancos”, comentou o diretor de Negócios Digitais do Banco do Brasil (BB), Marco Mastroeni, instituição que prioriza os lançamentos da plataforma digital nos segmentos de alta renda (Private e Estilo). “Banco digital é diferente de canal digital, mobile banking e internet banking; nós estamos observando a reação de cada cliente e fazendo ajustes, já que a ideia é melhorar a experiência”, afirmou Simão Luiz Kovalski, diretor de Clientes Pessoas Físicas do Banco do Brasil. Um dos produtos de elevada aceitação é a contratação online de crédito para compra de veículos. “Da própria concessionária, ele usa o celular para simular, fazer uma proposta e contratar em até 30 minutos”, explica Kovalski. Toda a documentação do veículo é enviada por foto.

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cultura digital

No Banco do Brasil, 7% dos financiamentos de veículos aprovados são realizados pelo aplicativo, 68% dos quais feitos nos finais de semana. “Os números mostram a necessidade de ter o serviço o tempo todo disponível ao cliente, incluindo a checagem das imagens feitas por uma equipe.” Em 2013, o BB tinha 3 milhões de usuários digitais; hoje são 7,6 milhões. A previsão é encerrar o ano com R$ 3,5 bilhões em crédito contratado só pelo mobile. A abertura remota de conta – em teste no BB – será a grande novidade deste ano, permitida após decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN). Um dos primeiros bancos a aderir foi o Original, instituição que já nasceu 100% digital. “Nós nascemos do zero, já com arquitetura e cultura digitais, o que torna mais fácil este tipo de adaptação; é o nosso DNA”, comentou Alfredo Leite, consultor de Estratégia e Tecnologia do banco. O executivo lembra que o desafio para montar o primeiro banco totalmente digital do país, foi atender aos requisitos de negócios, mesmo com pouco tempo de desenvolvimento

"é preciso entender quem é o consumidor digital, um usuário que tem mais smartphone do que PC, e cujo pico de uso na internet é à noite" Michel Alcoforado, da consultoria Consumoteca

e teste. “Queríamos ter agilidade na oferta de novos produtos e dar autonomia de criação para a área de produtos, sempre com foco na demanda do consumidor.” Quando saiu a decisão do CMN, o Original já estava com o processo pronto para a abertura remota de conta. O aplicativo do banco tem uma ferramenta que captura as imagens dos documentos do proponente e os confronta com outras informações públicas da pessoa. “Nós pegamos a imagem, enviamos para os demais sistemas que validam o documento. O sistema usa imagens de satélite e também lógica para conferir numeração de CPF, RG e comprovantes de revista Ciab FEBRABAN

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cultura digital

“Com a incorporação das tecnologias digitais, é necessária uma arquitetura robusta e versátil, colocando a experiência do cliente em primeiro lugar” Jolivan Lopes Galvão Filho, do Bradesco

endereço”, explica José da Penha Monteiro Filho, diretor comercial da Stefanini, empresa responsável pelo desenvolvimento dos sistemas para o módulo de abertura de conta online do Banco Original. DNA digital também é a palavra usada por Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, para definir a vocação da instituição para as novas formas de relacionamento com o cliente. “Os números mostram a relevância de usar o meio digital, web e smartphone para falar com o cliente”, afirmou em sua palestra no 26º Ciab FEBRABAN. “Em poucos anos, o smartphone será o canal mais relevante na interação com os clientes. Vamos nos preparar para isto, focando na experiência deles.”

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Os números apresentados no Ciab FEBRABAN mostram a relevância das iniciativas digitais para o Itaú. Em 2008, 74% do número de transações eram feitas pelos canais tradicionais (terminal no caixa, ATM e telefone). No primeiro trimestre deste ano, o percentual caiu para 29%. Já o uso dos canais eletrônicos (celular e internet banking) saltou de 26% para 71%, na mesma base de comparação. A participação dos smartphones nas transações da instituição foi de 0% em 2008, passando para 20% neste ano. “O índice de satisfação do cliente que usa os acessos remotos é muito alto, ganhou nota 9 no ano passado”, disse Setubal. Para Jolivan Lopes Galvão Filho, gerente de Departamento do Bradesco, o processo de transformação digital dos bancos deve ganhar velocidade. “Com a incorporação das tecnologias digitais, é necessária uma arquitetura robusta e versátil, colocando a experiência do cliente em primeiro lugar. Transformação, sem valor, não é relevante”, diz Galvão, citando facilidades para o cliente como depósito remoto de cheques via foto enviada pelo aplicativo. “Outro ponto importante é a inteligência artificial; usamos como fator preditivo para a oferta personalizada na hora certa.” A velocidade de migração dos bancos tradicionais para o modelo digital, segundo Raymundo Vasconcelos, Chief Technologist da Hewlett Packard Enterprise (HPE), vai depender basicamente do apetite pelo risco. “As novas empresas, como Google e Uber, assumem muito risco, porque são ágeis para corrigir erros; arriscar é parte do sucesso delas”, explicou. Neste processo, a área de TI passa, também, a ser responsável pela criação do produto. “Os bancos terão de se reinventar, mudar toda a cultura interna para atender às demandas deste novo modelo de negócio digital.” n


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Com novas tecnologias, cartão de plástico será “desconstruído” Por Claudia Rolli

Avaliação é de executivos da indústria de meios de pagamento que lança e prepara inovações para atender consumidores e lojistas cada vez mais exigentes e conectados

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e uma pulseira, um anel, um carro e até mesmo uma geladeira já podem conectar-se à internet e servir como meio de pagamento, por quanto tempo ainda existirá o cartão de débito e crédito? Quem lida no dia a dia com inovações tecnológicas preparadas para atender consumidores cada vez mais conectados tem a resposta: o cartão de plástico, no formato como existe hoje, com chip e carregado na carteira, está mais para ser “desconstruído” do que “destruído”. “As novas tecnologias estão desconstruindo o cartão, utilizado com um número, data de validade, senha e código de segurança, para que tenha formatos distintos e proporcione outras experiências”, afirma Percival Jatobá, vice-presidente de Produtos da Visa do Brasil. “O cliente já assumiu o controle desse processo de mudanças e a indústria de meios de pagamento tem de acelerar para atender essa demanda.” Inovações na hora e na forma de pagar começam a aparecer nas parcerias entre operadoras de cartão e instituições financeiras do país. Bradesco e Visa lançaram em junho uma pulseira que permite pagar por aproxi-

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“O plástico é só a ponta de um iceberg do sistema de pagamentos. O caminho é o cliente ter uma conta única vinculada a diversos dispositivos” Marcelo Noronha, vice-presidente do Bradesco

mação, usando a tecnologia NFC (Near Field Communication). Com ela, o cliente pode ainda acompanhar seu histórico de transação, visualizar o saldo atualizado e fazer a recarga de crédito. Na primeira fase, 3.000 clientes selecionados testam o dispositivo de “vestir” nas máquinas de cartões com capacidade para receber pagamento sem contato. No Brasil, cerca de 70% dos 4,4 milhões de POS, como são chamados esses terminais, as “maquinirevista Ciab FEBRABAN

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escola, e assim a criança não precisa pagar com um cartão ou dinheiro. Algumas utilidades são óbvias, outras ainda vamos conhecer para definir o tamanho desse mercado”, afirma Alexandre Rappaport, diretor-geral do Bradesco Cartões. Para transações até R$ 50, não é necessário digitar a senha. A Visa também lançou um anel de pagamento, usado por 45 atletas patrocinados pela empresa, e um relógio em parceria com a Swatch que permitem pagar por aproximação. Este último já está à venda por R$ 725, em quatro modelos.

Alexandre Rappaport, do Bradesco, diz que pulseira que será lançada pelo banco poderá ser usada na compra de ingressos e até em cantina escolar

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nhas” de pagamento, estão prontos para a tecnologia NFC. Como a ideia é estimular o uso do dispositivo durante a Olimpíada do Rio, evento patrocinado pelo Bradesco e pela Visa, 4 mil terminais foram instalados nas áreas dos jogos para atender os portadores da pulseira. “O plástico é só a ponta de um iceberg do sistema de pagamentos. O caminho é o cliente ter uma conta única vinculada a diversos dispositivos, o celular, a pulseira, o anel ou até a própria mão, se o terminal estiver preparado para leitura biométrica. Por que não? É neste sentido que os bancos estão trabalhando”, diz Marcelo Noronha, vice-presidente do Bradesco. A pulseira ainda não tem data para chegar aos demais correntistas do banco, que quer antes analisar o comportamento dos clientes. “Pode ser usada na compra de ingressos, evitando filas, ou até na cantina da

Piscou-Pagou A Mastercard, além de testar a pulseira smartband e outros dispositivos que fazem o pagamento sem contato, planeja trazer ao país no próximo ano o Identity Check, um serviço de autenticação digital que reconhece o cliente por meio de suas características biométricas, como impressão digital, identificação da face e até batimento cardíaco. As negociações com os bancos daqui já começaram. A plataforma de reconhecimento facial, testada nos EUA e na Europa, chamou a atenção dos brasileiros, que já batizaram o serviço de “piscou-pagou”. O sistema foi apresentado no 26º Ciab FEBRABAN, congresso de tecnologia da informação, realizado em junho em São Paulo. Ao fazer uma compra online, o cliente seleciona o produto pelo smartphone e escolhe a forma de identificação para validar o processo de pagamento _ por meio de sua digital ou de uma “selfie”. Se a escolha for pela imagem, é preciso piscar para o serviço reconhecer o cliente. Com isso, se evita usar a foto da pessoa indevidamente. Assim que a identidade é verificada, o cliente retorna ao site da loja e finaliza a compra.


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Percival Jatobá, da Visa, afirma que as novas tecnologias estão descontruindo o cartão para que tenha formatos distintos e proporcione outras experiências

Nenhuma senha, número de cartão ou qualquer outro dado financeiro é necessário na transação porque o aplicativo do banco e a operadora, integrados para o uso dessa tecnologia, já têm as informações do cliente armazenadas. “A estratégia é ajudar os emissores a fazer negócios, com alternativas digitais que atendam da melhor forma seus clientes”, diz Marcelo Theodoro, diretor sênior de produtos digitais e inovação da Mastercard Brasil e Cone Sul. “Para as inovações chegarem ao mercado, tudo vai depender agora do apetite dos bancos e das adquirentes.”

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O apetite dos clientes para novidades parece ser grande. Há três anos, a cada 100 transações feitas pelas sete maiores instituições financeiras licenciadas pela Mastercard para emitir cartões da bandeira, seis eram digitais. No ano passado, esse número subiu para 17 _ incremento de 183%. E, em um prazo de três a quatro anos, a empresa estima que chegará entre 35 e 40. “Há uma oportunidade enorme de negócios ainda para ser resolvida por toda a indústria do setor. Uma delas é o índice de aprovação das transações em canais digitais que é muito menor do que o das presenciais”, diz o executivo da Mastercard. “Isso significa não só perda de dinheiro, mas de maneiras mais eficientes para melhorar a vida do consumidor.” Foram 15 bilhões de transações feitas no ano passado por 100 milhões de pessoas que usaram seus cartões na hora de comprar, e uma em cada oito dessas transações (por meio do celular, da internet e de máquinas de POS) não foi autorizada, destaca Rappaport, do Bradesco. “Apesar de todo o avanço no meio digital, esse momento em que o cliente não consegue completar a transação é o mais crítico de todos e precisa ser resolvido.” Os dados a respeito de dispositivos conectados também não deixam dúvida sobre o tamanho do desafio e do espaço que existe no sistema financeiro para inovar, garantir a segurança e simplificar as transações financeiras, dizem os especialistas. Hoje são cerca de 7 bilhões de aparelhos no mundo conectados à internet com potencial para uso como meio de pagamento, segundo estudo da Cisco. Até 2020, estima-se que esse número chegue a 50 bilhões, o que significa quase 7 dispositivos por pessoa, considerando uma população de 7,6 bilhões de pessoas.


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A internet das coisas também avança no Brasil, onde cerca de 10% dos domicílios já têm algum dispositivo que transmite e recebe dados por meio da internet, de acordo com a consultoria IDC. A previsão é que os dispositivos domésticos, que incluem desde televisores inteligentes a câmeras de segurança, movimentem US$ 37 milhões no país.

Parcerias digitais Além das inovações, dos cartões virtuais e das carteiras digitais, os bancos brasileiros adotam tecnologias e fazem acordos em programas que incluem desde o segmento de fidelidade até parcerias com redes de varejo, para incrementar e garantir segurança nas transações de comércio eletrônico. Bradesco e Banco do Brasil lançaram em junho a Livelo, empresa de programa de

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“A digitalização é uma forte tendência que muda e facilita todos os processos dos bancos” Raul Moreira, do Banco do Brasil

fidelidade baseada em uma plataforma de e-commerce que se assemelha a da Amazon, segundo executivos dos bancos. Hoje, 80% desse mercado está com Multiplus, controlada pela Latam Airlines, e Smiles, pela Gol. Com uma base de 10 milhões de clientes das duas instituições, o programa da Livelo tem acordos com varejistas, para acumular e trocar pontos, e pode ser acessado por meio de diferentes canais (aplicativo próprio, dos bancos ou pelo computador). São cerca de 500 mil produtos e serviços para troca de pontos, que incluem desde passagens aéreas de 750 companhias até recarga de crédito em celulares. De outra recente parceria entre BB e Bradesco, também surgiu a carteira digital Stelo, subsidiária do grupo Elo criada para garantir segurança nas transações de comércio eletrônico. A plataforma da Stelo funciona nos moldes


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do PayPal, para compras no e-commerce. No Banco do Brasil, 300 mil cartões digitais Ourocard-e já foram emitidos desde o final de 2014, quando a instituição intensificou seu processo de digitalização. O produto é criado de forma instantânea por meio do celular ou internet e funciona como um cartão “espelho” do cartão de plástico do cliente. O cartão digital pode ser criado para fazer uma única compra pela internet, ter data de validade e limites pré-estabelecidos, além de ser enviado para o celular de outra pessoa, que pode sacar esse dinheiro em um caixa eletrônico, por exemplo. O aplicativo Ourocard, lançado pelo BB em maio e em uso por 40 mil clientes na fase piloto, faz pagamento por aproximação e deve chegar a partir de agosto em larga escala aos potenciais clientes. Dos 23 milhões de correntistas do BB, 6 milhões são usuários de mobile banking. “A digitalização é uma forte tendência que muda e facilita todos os processos dos bancos”, diz Raul Moreira, vice-presidente de Negócios de Varejo do BB. “Antes, era preciso emitir um cartão de plástico, enviar faturas; a realidade já é outra, e o apelo não é só tecnológico, mas de flexibilidade para o cliente fazer seus pagamentos.” Ainda neste semestre, o Santander deve anunciar sua carteira digital e prepara uma nova solução digital para cartões virtuais. Recentemente, o banco relançou seu aplicativo móvel para pessoas físicas, antes chamado Minha Conta, e deve disponibilizar nos próximos meses uma versão para empresas. “Estamos trabalhando ainda em uma nova plataforma virtual para melhorar a experiência do cliente na hora do pagamento”, adianta Rodrigo Cury, superintendente executivo de Cartões do Santander. Ele informou que essa plataforma poderá ser acessada por um aplicativo no celular e “estará pronta em breve”.

A Caixa pretende ampliar neste semestre as parcerias com as bandeiras de cartões Mastercard e Visa para incrementar negócios na área digital. Um terço dos 83 milhões de correntistas do banco usa os canais eletrônicos de internet banking e celular. Com a carteira Caixa Masterpass, os clientes de cartão de crédito do banco podem fazer compras online e o sistema armazena dados dos cartões, endereço de entrega, entre outras informações. A TIM Multibank Caixa é uma conta pré-paga do banco que pode ser acessada pelo celular e faz transações como pagamento, transferência de dinheiro, recarga de celular, por meio do envio de mensagens de texto (SMS). O serviço atende hoje 12 Estados e deve ser ampliado para todo o país até dezembro. O banco também testa o pagamento sem contato, por meio da tecnologia NFC, com 40 mil clientes portadores de cartão de débito da Caixa Mastercard. Com o avanço dessas tecnologias, as redes adquirentes também investem em terminais inteligentes de cartões para atender os consumidores e lojistas. Essa nova geração de máquinas, chamadas de 2.0 ou Smart POS, permite usar aplicativos para gerenciar serviços que vão desde o controle de estoque e emissão de notas fiscais até recolhimento de impostos ou recarga de celulares. Com câmeras e leitores de biometria, permitem a leitura de código de barras e QR Code. Cielo e Rede (antiga Redecard), duas das maiores empresas na conexão do comércio aos pagamentos, começam a substituir as antigas máquinas de cartões por modelos inteligentes. Até dezembro, a Cielo deve instalar 50 mil unidades em todo o país e 1 milhão em um prazo de cinco anos. Na Rede, são 5 mil terminais em uso até agosto e a meta é chegar a 50 mil até dezembro. n revista Ciab FEBRABAN

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Entenda as novidades na hora de pagar Pulseira Bradesco Visa Meio de pagamento móvel de “vestir” (wearable), disponível exclusivamente no Brasil para um grupo de 3.000 clientes selecionados Usa a tecnologia NFC (Near Field Communication), que permite a troca de informações por transmissão sem cabo; basta aproximá-la da máquina de cartões

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Feita de silicone, é aceita em 4 mil terminais POS disponíveis nas instalações olímpicas e em todos os terminais do país preparados para essa tecnologia; deve estar disponível em breve para clientes do Bradesco

Relógio Swatch Bellamy Visa Meio de pagamento móvel de “vestir” à venda em quatro modelos, por R$ 725 Usa a tecnologia NFC

O nome do dispositivo, Bellamy (de bel ami, em francês, bom amigo), tem inspiração no livro do norte-americano Edward Bellamy, “Daqui a Cem Anos: Revendo o Futuro”, de 1888, em que o escritor fala de um mundo “utópico” onde o dinheiro foi substituído por cartões de crédito

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Funciona como um cartão pré-pago sem contato; os gastos são debitados de créditos previamente carregados e pode ser usado em terminais com essa tecnologia, dentro e fora do país

Anel Visa Pulseira smartband Mastercard Du Amorim/FEBRABAN

Serviço de pagamento móvel de “vestir” (wearable) em teste nos EUA Usa a tecnologia NFC, que permite a troca de informações por transmissão sem cabo, aproximando-se o aparelho da máquina de cartões

Meio de pagamento móvel de “vestir”, feito de cerâmica, em uso por 45 atletas patrocinados pela Visa nos jogos olímpicos Usa a tecnologia NFC Pode ser usado em terminais que aceitem pagamento por proximidade, ainda não tem data para ser vendido em larga escala no Brasil

Mobile Location Confirmation (MLC) Visa Serviço opcional que será oferecido por meio de aplicativos de bancos instalados nos smartphones dos clientes Usa informações de geolocalização do cliente, em tempo real, para checar se as transações feitas são legítimas ou não em compras realizadas

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O cliente baixa o aplicativo do banco, aceita termos de condição e uso, cadastra os cartões de débito e crédito que irá usar e o sistema da operadora (Visa) envia informações ao banco, que pode aceitar ou negar as transações, verificando se o dispositivo móvel está ou não na proximidade da operação de pagamento


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Identity Check Mastercard Serviço de autenticação digital que pode reconhecer o cliente por meio de suas características biométricas, como selfie (reconhecimento facial), impressão digital ou até batimento cardíaco Em teste nos Estados Unidos e na Europa, a plataforma é oferecida por meio de aplicativo móvel de um banco combinado ao da operadora, instalado no smartphone do cliente Ao fazer a compra online no celular, o cliente escolhe o produto e recebe um aviso no celular para usar o sistema de indentificação e escolher a forma de validar o pagamento, por impressão digital ou selfie (pisca para o serviço reconhecê-lo e evitar que uma foto sua seja usada indevidamente) Verificada a identidade, ele volta ao site da loja para completar a compra online e recebe um aviso no celular que a transação foi completada, sem precisar digitar senhas ou se cadastrar no site da loja Divulgação

TERMINAIS INTELIGENTES DE CARTÕES Cielo LIO

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Plataforma aberta que combina a função de pagamento com a gestão de negócios e permite receber aplicativos para gerenciar serviços como controle de estoques, criação de catálogo de produtos e serviços, registro de pedidos com leitura de código de barras por meio de uma câmera integrada, entre outros

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Usa sistema operacional próprio, o CieloOS, baseado em Android, conta com bluetooth e sistema multiconexão, de Wi-Fi e 3G

Smart Rede Terminal da Poynt de pagamento que ação funciona como um Divulg tablet com duas telas, uma voltada para o lojista e outra para o consumidor Usa um sistema que permite ao estabelecimento comercial fazer o download de aplicativos para efetuar diferentes serviços de automação e gestão de negócios, como solicitar relatórios de vendas, consultar cheques, recarga de celulares, entre outros

Verifone Carbon

Carteiras virtuais

Dispositivo portátil de pagamento com duas telas, uma para o lojista e outra para o consumidor; está em processo de certificação e deve chegar neste ano aos estabelecimentos

Aplicativos disponíveis dentro e fora do ambiente dos bancos que gerenciam diferentes cartões de débito e crédito dos usuários

Utiliza uma plataforma de comércio da Verifone baseada em nuvem, em que as empresas podem escolher aplicativos e serviços, combinados a programas de fidelidade, pontos, e cupons promocionais Possui integração com uma gaveta para guardar dinheiro e câmera para a leitura de código de barras; o lojista pode enviar mensagens para a tela do consumidor enquanto ele espera para fazer o pagamento

O cliente não precisa digitar dados pessoais e financeiros em sites de compra porque as informações já foram cadastradas e o lojista terá a confirmação da transação Redes de varejo também têm carteiras digitais em parceria com operadoras e bancos e armazenam informações de cartões e programas de fidelidade para compras no e-commerce

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Setor de cartões busca novas formas de uso e quer crescer em segmentos de serviços

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possibilidade de usar o cartão de débito para comprar bens de maior valor, como carros, motos ou até produtos eletroeletrônicos importados, deve chegar em breve ao varejo. Especialistas preveem que a mudança facilitará a vida do consumidor, aumentará a segurança e tornará os pagamentos mais simples e rápidos. A Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) já estuda como viabilizar essa forma de pagamento à vista em compras de produtos de valores superiores, como hometheathers na faixa de R$ 30 mil ou veículos acima R$ 50 mil. Hoje, cada instituição financeira define o limite máximo da compra no cartão de débito, mas, em média, esse valor é de R$ 2 mil. O cliente não precisará mais preencher cheques, fazer transferência bancária (por meio de TED ou DOC, com custo pago pelo correntista, dependendo do pacote de serviços do banco) ou pagar o boleto emitido pela loja. Terá a alternativa de sacar o cartão de débito e pagar à vista, na hora. A vantagem é a rapidez e a segurança no pagamento, avaliam especialistas do setor. A medida atende a um pedido do Banco Central (BC), que quer estimular a substituição de cheques e uso de dinheiro por transações com cartões. Quanto mais os meios eletrônicos de pagamento avançam, maior é a formalização da economia, e, por consequência, maior é a arrecadação de tributos para o governo.

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O uso dos cartões como meio de pagamento também torna a economia mais eficiente, ao reduzir custos de transação com cheques e papel moeda e acelerar o fluxo de negócios, dizem executivos do setor. O pagamento no débito aumentou 655% entre 2005 e 2015, de R$ 53 bilhões para R$ 400 bilhões. Já o número de cheques trocados no país teve queda de 65,5% nesse período, segundo o BC. A substituição de cheques por transações com cartões acelerou nos últimos anos. O volume movimentado no cheque caiu 12,2% na comparação do primeiro trimestre deste ano com igual período de 2007, enquanto no cartão (débito e crédito) subiu 368%. “O BC considera que a transação com cartão de débito é mais rápida, por ser online, e mais segura e eficiente do que a feita com cheque”, diz Marcelo Noronha, presidente da Abecs e vice-presidente do Bradesco. “É mais uma conveniência a ser oferecida ao cliente.” O uso do débito em compras de valor mais elevado deve chegar ao consumidor, segundo o executivo, “o mais breve possível”. O setor discute agora como estipular uma taxa de administração que não onere o varejo, uma vez que, a cada transação feita, o desconto das credenciadoras para o lojista, em média, é de 1,5% do valor da compra, segundo a Abecs. Uma das propostas é que a taxa cobrada em transações de valores mais elevados tenha uma parte fixa e uma proporcional. O desafio é como operacionalizar a cobrança na hora do pagamento. “Os principais desafios são as adaptações dos atuais modelos de risco dos emissores de cartão, que seriam ajustados a uma nova realidade que contempla transações em tempo real de alto valor, e uma possível reformulação do modelo de precificação, que hoje contempla

uma taxa percentual em relação ao valor da compra, mas seria inviável em caso de valores muito altos”, diz Ricardo de Barros Vieira, diretor-executivo da Abecs. “Estamos estudando exatamente alternativas para torná-lo viável.”

Crédito às famílias

Ricardo Vieira, da Abecs, diz que setor estuda alternativas para tornar viáveis transações em tempo real de alto valor

O cartão de crédito no Brasil também se consolidou como um meio de financiamento no país e tem potencial para crescer ainda mais, principalmente em um cenário de retração da economia. Sete em cada dez consumidores que financiaram compras no cartão não teriam comprado o bem de consumo sem essa forma de pagamento, segundo pesquisa da associação. “A carteira de crédito dos cartões é a terceira maior carteira de crédito para pessoas físicas no Brasil: atingiu R$ 165 bilhões no primeiro trimestre deste ano, ficando atrás do crédito imobiliário e do consignado”, afirma Noronha. “Além da inclusão financeira, garante o financiamento do comércio brasileiro com o parcelamento sem juros.” Entre janeiro e março deste ano, o volume movimentado na modalidade parcelado sem juros (duas vezes ou mais) correspondeu revista Ciab FEBRABAN

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Para Eduardo Chedid, da Elo Serviços, as transações por meio de cartões podem crescer na relação entre empresas e entre governo e contribuintes

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a mais da metade (52,2%) de todo o crédito concedido para consumo no Brasil. Os pagamentos com cartões respondem por 28,4% do consumo das famílias brasileiras. Nos Estados Unidos, esse percentual varia de 40% a 45%. O setor quer avançar no uso de cartões em segmentos como saúde, educação e seguros. De janeiro a março deste ano, o uso do crédito na área de saúde, por exemplo, aumentou 20,4%. Na educação, 15,2%. Para Eduardo Chedid, presidente da Elo Serviços, as transações por meio de cartões podem crescer não só no consumo das famílias, mas na relação entre empresas e entre governo e contribuintes (pessoas jurídicas e físicas). “Por que não usar o débito para pagar o IPTU, o condomínio e outros serviços?” questiona o executivo. “Hoje as transações com cartões entre empresas aqui no Brasil correspondem à metade da média mundial (15%).” Assim como há oportunidade para o uso do débito em compras de maior valor, existem oportunidades para substituir o papel moeda com o uso de novas tecnologias nos meios de pagamento, avalia Raul Moreira, vice-presidente de Negócios de Varejo do Banco do Brasil.

“A cultura ainda é de pagar pequenas compras com dinheiro: no ano passado, R$ 1 trilhão foram transacionados nos ATMs (caixas) no país”, diz Moreira. “Existe uma oportunidade enorme para substituir o papel moeda, com o avanço da tecnologia NFC (Near Field Communication) nos smartphones e outros dispositivos que surgem, assim como existe para grandes tíquetes no débito”, acredita ele. Alternativas para acabar com as altas taxas de juros do crédito rotativo _ com percentuais que ultrapassam 400% ao ano– também são avaliadas pelo setor. Uma das ideias é criar linhas mais baratas para clientes que não conseguem pagar o total da fatura do cartão de crédito no vencimento e, dessa forma, desestimular o rotativo, considerado um crédito emergencial. Segundo dados do Banco Central do primeiro trimestre deste ano, o rotativo representa em torno de 20% do saldo da carteira de cartões de crédito da pessoa física, atingindo R$ 36,2 bilhões no período. De todo o saldo de crédito destinado à pessoa física (incluindo todas as linhas de crédito), o rotativo do cartão representa 2,4%. “É impossível essa modalidade sozinha provocar o superendividamento da população”, diz Vieira, ao mencionar que 86% dos usuários de cartão de crédito pagam o valor integral da sua fatura, segundo pesquisa da Abecs feita pelo Datafolha. “Somente 4% pagam o valor mínimo, enquanto 6% optam por fazer o parcelamento da fatura. Além disso, o consumidor que entra no crédito rotativo do cartão fica, em média, apenas 15 dias, de acordo com o BC, o que confirma o seu papel de crédito emergencial. Isso mostra que a grande maioria das pessoas usa o cartão de crédito de forma consciente e sabe aproveitar seus benefícios sem pagar juros”, diz o diretor-executivo da associação. (Claudia Rolli) n


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Brasil entra na era do pagamento mobile Por Toni Sciarretta

Samsung lança aplicativo para pagamentos por celulares; Apple Pay ainda não tem data para estrear no país

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Brasil entrou oficialmente na era dos pagamentos feitos por aparelhos celulares, a nova fronteira da digitalização das transações eletrônicas, com o início da operação comercial do aplicativo Samsung Pay em parceria com os principais bancos brasileiros. Sem cobrar um percentual pelas transações, a fabricante coreana de smartphones lançou seu aplicativo em julho, na frente da rival americana Apple, a fabricante do iPhone_ que retém uma remuneração pelas operações efetuadas pelo Apple Pay. A jogada de marketing deve fazer do Samsung Pay o único aplicativo móvel a efetuar pagamentos por celulares brasileiros durante os Jogos Olímpicos, segundo Haley Kim, vice-presidente da Samsung. A empresa é patrocinadora oficial da Olimpíada. O Apple Pay, que ainda não tem data para estrear no Brasil, também pode ser aceito no país, porém apenas os aparelhos estrangeiros são habilitados para efetuar o pagamento pelo aplicativo.

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Por trás da disputa das chamadas Pays, está um mercado bilionário de pagamentos por cartões de crédito e débito que, lentamente, migra dos plásticos para a comodidade dos celulares. As transações financeiras pelos smartphones crescem exponencialmente: saltaram de US$ 52,9 bilhões para US$ 431,1 bilhões entre 2010 e 2015, segundo a consultoria Juniper. A expectativa é chegar a US$ 721 bilhões em 2017. Para os pagamentos móveis, que são ainda em volume insignificante, a previsão é que cheguem a US$ 142 bilhões até 2019, segundo estimativa da Forrester Research. No Brasil, a penetração dos smartphones também cresce rapidamente. De menos de 20 milhões de aparelhos, em 2011, os brasileiros deverão ter 168 milhões de unidades ainda em 2016, segundo a FGV (Fundação Getúlio Vargas). Para Rodrigo Cury, superintendente de cartões do Santander, a adoção da nova tecnologia pelo consumidor deverá ser bastante rápida devido à familiaridade do brasileiro com os smartphones. “É uma demanda dos clientes. São aplicações que vão facilitar a vida das pessoas. Quem não tiver vai perder negócios”, disse. “Trabalho na indústria de cartões há 20 anos e, desde o início, ouço que o cartão de plástico vai acabar”, afirma Rubens Fogli Neto, diretor de produtos digitais do Itaú. “Ficamos um bom tempo testando uma série de tecno-


logias que não tinham uma boa aceitação nem eram tão seguras; agora, estamos chegando a um ponto de inflexão: conseguimos ver um caminho mais claro do que vai acontecer com os pagamentos.” No Brasil, cerca de 70% dos terminais de cartões estão preparados para receber a tecnologia NFC. As fabricantes de terminais afirmam que a infraestrutura dos lojistas está pronta há mais de três anos para processar os pagamentos via celular. “Preparamos toda a infraestrutura para os usuários terem a melhor experiência possível nos pagamentos. E com muita segurança", disse Luiz Guilherme Roncato, da fabricante de POS Verifone. De olho nesse mercado _antigo território de disputa entre credenciadores, bandeiras e bancos emissores de cartões _ estão também gigantes digitais como Google, além de uma infinidade de startups fornecedoras de tecnologia para o novo sistema de pagamento móvel emergente. Cada uma das fabricantes de smartphones tenta emplacar a sua tecnologia de pagamento móvel para vender mais aparelhos. No Brasil, a Samsung tem 42% dos smartphones, enquanto a Apple chega a 11%, segundo a consultoria Gartner. O Samsung Pay trabalha com uma tecnologia chamada MST (Magnetic Secure Transmission), que reproduz as informações das tarjas magnéticas dos cartões _ tecnologia anterior aos chips. Por esse motivo, podem ser aceitos praticamente por qualquer terminal existente no país, mesmo os mais antigos. Outra vantagem da Samsung é que mesmo os aparelhos mais antigos poderão, em tese, usar o aplicativo. No Brasil, a Samsung fez testes com os bancos Santander e Banco do Brasil, que participaram dos últimos testes-piloto da nova tecnologia. Além dos dois, Bradesco, Itaú,

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Caixa e Porto Seguro também fizeram acordos para trabalhar com o aplicativo. O Brasil é o oitavo país a adotar a tecnologia. Desde o lançamento mundial em agosto de 2015, o Samsung Pay já conta com 5 milhões de usuários na Coreia do Sul, EUA, China, Espanha, Austrália, Cingapura e Porto Rico. Ao todo, já processou mais de US$ 1 bilhão de pagamentos apenas na Coreia do Sul. “É uma jornada que não tem volta. Conseguimos aliar conveniência com segurança”, disse Marcello Matar, gerente de marketing da Samsung. A Apple faz suspense sobre o lançamento do seu aplicativo de pagamentos no Brasil, mas a expectativa é que o Apple Pay também chegue ao país neste ano. O aplicativo _ que funciona apenas a partir dos modelos 6, 6s e SE do iPhone_ utiliza o NFC (Near Field Communication), uma das tecnologias mais antigas de pagamento por aproximação. Paralelamente, o Google desenvolve uma terceira tecnologia de pagamentos para o sistema Android. Chamado até o momento de Android Pay, os dados dos pagamentos ficam armazenados na nuvem por meio de contas virtuais de cartões. n

Samsung Pay trabalha com uma tecnologia chamada MST (Magnetic Secure Transmission), que reproduz as informações das tarjas magnéticas dos cartões

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A participação do mercado financeiro brasileiro no desenvolvimento de padrões internacionais de comunicação O crescente envolvimento dos reguladores nacionais e internacionais somado ao reconhecimento dos benefícios na adoção de padrões internacionais de comunicação para a indústria financeira evidencia a importância da participação do mercado financeiro nacional no processo de desenvolvimento destes padrões. As iniciativas apresentadas pelas delegações dos 80 países que compõem atualmente o Comitê Técnico ISO/TC68, órgão responsável pelo desenvolvimento de padrões internacionais para os mercados financeiros e de capitais, moldam o cenário da comunicação entre participantes destes mercados em todos os cinco continentes. Hoje, o mercado brasileiro é representado pela Comissão Brasileira de Padronização para serviços financeiros, a ABNT/CEE-112, que conta com a participação de associações e federações nacionais, infraestruturas do mercado financeiro, reguladores e demais prestadores de serviços para os mercados financeiros e de capitais brasileiro. Citadas nos Relatórios de Vigilância do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) de 2013 e 2014, do Banco Central do Brasil, as iniciativas da Comissão Brasileira de Padronização, que tiveram início em maio de 2008, têm como objetivo atender às necessidades comuns do mercado nacional, promovendo um trabalho conjunto em

prol da adoção de padrões internacionais. Dessa forma, a Comissão Brasileira de Padronização, dentro de seu mandato, atua na concepção, desenvolvimento, implementação e manutenção de padrões internacionais para o mercado financeiro brasileiro. A ABNT/CEE-112 é responsável por todas as ações nacionais de padronização sob o escopo do Comitê ISO/TC68, o que considera desde Códigos de Identificação, como ISIN e IBAN, até o desenho, documentação e desenvolvimento de mensagens padrão ISO 20022. As discussões na Comissão Brasileira abrangem todo o mercado financeiro, fazendo necessária a participação e representação de todos os segmentos em um só fórum. Entre os esforços que hoje compõem a agenda da Comissão Brasileira estão a padronização de mensagens ISO 20022 para iniciação de pagamentos entre as instituições financeiras e seus clientes; a utilização de mensagens ISO 20022 em um ambiente de pagamentos real-time; e a padronização no segmento de FinTechs e blockchains. Com uma comissão nacional atuante e participativa, há a segurança de uma convergência comum entre as instituições quanto às interpretações das melhores práticas e também a garantia de que os diversos segmentos do mercado financeiro se comuniquem de maneira uniforme e isonômica.

ABNT/CEE-112 – Comissão Brasileira de Padronização para Serviços Financeiros ISIN – International Securities Identification Number IBAN – International Bank Account Number ISO/TC68 – ISO Technical Committee for Financial Services ISO 20022 – Diagrama universal de mensagem para o setor financeiro Liliane Dutra, economista, especialista em Padronização e Integração de Informações, coordenadora da Comissão Brasileira de Estudo Especial de Serviços Financeiros - ABNT/CEE-112 e consultora da CIP para Padronização Internacional de Informações.

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Caixas antibombas e terminais virtuais chegam a bancos Por Claudia Rolli e Toni Sciarretta

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ATMs resistentes a ataques por explosão e caixas eletrônicos inteligentes foram apresentados no 26º Ciab FEBRABAN e começam a chegar às agências neste ano

NCR negocia com os bancos um novo modelo de caixa eletrônico com sistema de atendimento virtual na tela, onde o cliente interage com funcionário

Du Amorim/FEBRABAN

aixas eletrônicos a prova de bombas, terminais de atendimento com cofres e sensores que dificultam o acesso a cédulas em caso de explosão e equipamentos com telas virtuais que permitem que o cliente converse à distância com um funcionário do banco sem precisar entrar na agência. As inovações para atender os consumidores e o setor bancário de forma mais eficiente vão além do reforço à segurança: há, ainda, caixas eletrônicos inteligentes que emitem cartões de crédito e débito na hora, usam bitcoins (moeda digital), fazem o câmbio entre várias moedas e até interagem com o celular do cliente, encerrando uma transação móvel que começou no smartphone. A maioria dos terminais inteligentes que chega ao mercado já vem com a tecnologia de reciclagem de notas, sistema em que um cliente saca as cédulas depositadas por outro. Difundida no exterior, a reciclagem chegou atrasada ao Brasil devido à exigência de que os bancos tivessem de receber depósitos dentro de envelopes. A tecnologia reduz em até 30% a necessidade de abastecimento dos terminais, segundo a fabricante americana Diebold. Esses equipamentos, apresentados na última edição do Ciab FEBRABAN começam a chegar às agências neste ano. Oferecem serviços que

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Caixa antibomba da Oki apresentado durante o Ciab FEBRABAN 2016; ATM foi projetado e desenvolvido no Brasil e recebeu contribuições técnicas de especialistas do Japão

antes dependiam da retaguarda (backoffice) do banco, como emissão de cartões e transferências acima do valor vinculado à conta do cliente. Banco do Brasil, Bradesco, Caixa, Santander e Itaú são algumas das instituições que anunciaram que levarão essas novas tecnologias aos correntistas. Os caixas eletrônicos – ou ATMs (do inglês Automatic Teller Machine) – surgiram há cerca de 30 anos no processo de automação bancária e agora transformam-se para se adaptar à digitalização das transações financeiras. O investimento do setor em terminais inteligentes justifica-se não só do ponto de vista de segurança, mas do volume de transações ainda feito por meio dos ATMs. No ano passado, esse canal de atendimento foi o terceiro mais usado pelos brasileiros, com um volume de 10 bilhões de transações, segundo a Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2015. O total sacado nos 178 mil caixas espalhados no país chegou a R$ 1 trilhão.

Cofre ‘dois em um’ A empresa japonesa Oki e a brasileira Perto, fabricantes do segmento de automação, já negociam com os bancos os “caixas antibombas”, apresentados no 26º Ciab FEBRABAN. São ATMs com cofres bipartidos, que oferecem proteção contra ataques por explosão ao deixarem as cédulas e os repositórios de notas (cas-

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setes) em compartimentos blindados separados da parte superior do caixa. É como se fossem dois cofres em um. “É uma evolução em relação aos caixas anteriores, em que mecanismos e cassetes compartilhavam um mesmo compartimento. Na eventualidade de um ataque com explosivos, toda a força cinética gerada pela explosão se concentraria no compartimento superior”, diz João Lo Ré Chagas, gerente de produto automações da Oki. “O compartimento inferior, onde estão os cassetes, não exibe uma abertura para fora do equipamento (como o bocal de retirada de notas, por onde são colocados os explosivos) que possa ser usado em um segundo ataque por explosão. O aço é reforçado dificultando diversos tipos de ataque com máquinas de perfuração, corte ou por maçaricos”, completa. No caso da Oki, esse caixa foi projetado e desenvolvido no Brasil e recebeu contribuições técnicas de especialistas do Japão. O equipamento é fabricado em Jundiaí. Os caixas antibombas também têm um sistema de entintamento ativo, que detecta diversos tipos de ataques, como os feitos por maçaricos e cortes, e dispara o processo de tingimento das cédulas antes da conclusão do ataque. “Os sensores identificam o momento em que o cofre foi arrombado, antes da explosão. No sistema antigo, as cédulas eram inutilizadas somente após a explosão. E, dependendo


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sar de os números de ataques terem diminuído ou indicarem estabilidade em algumas regiões, segundo órgãos de segurança pública. Os investimentos em segurança bancária somaram R$ 9 bilhões em 2015, o triplo do valor gasto há dez anos, informa a FEBRABAN.

Sem envelope Até o final do ano, o Bradesco vai instalar 500 caixas eletrônicos em agências de pontos de atendimentos (PAs) que permitem fazer depósitos sem envelope e funcionam como máquinas recicladoras de cédulas.

FotoAndres/FEBRABAN

Entre as novidades apresentadas no Ciab, a Diebold mostrou o ILT (In Loby Teller), que permite ao usuário fazer transações bancárias sem interação com um funcionário

Cofre bipartido apresentado pela Perto durante o 26º Ciab FEBRABAN: ATM oferece proteção contra ataques por explosão ao deixar as cédulas e os repositórios de notas (cassetes) em compartimentos blindados separados

Du Amorim/FEBRABAN

da quantidade de explosivo e do tamanho do impacto, o estouro da bolsa de tinta podia ou não ocorrer”, explica o engenheiro Fabiano Cardoso, supervisor de projetos da área de desenvolvimento da Perto, empresa do Rio Grande do Sul. A tinta usada nesse processo tem uma composição especial e marca as notas, impedindo que sejam aceitas em bancos e estabelecimentos comerciais. Os caixas eletrônicos com segurança reforçada podem ficar na agência, em postos de atendimento ou em pontos de terceiros, segundo os fabricantes. A Caixa informou que deve licitar em breve a aquisição desses equipamentos mais adequados para combater ataques físicos a caixas eletrônicos. O Itaú prefere não detalhar suas iniciativas no reforço da segurança, mas confirma que investe continuamente para prevenir perdas. Os prejuízos com ataques aos ATMS chegam a cerca de R$ 60 milhões por ano, segundo estimativas do setor, de 2013. O dano não é só aos caixas, que têm de ser repostos, mas aos locais dos ataques que precisam ser reformados. Por essa razão, as instituições têm investido na aquisição de equipamentos antibombas e no aprimoramento da segurança bancária, ape-

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Caixa da Oki faz o câmbio entre várias moedas e também usa bitcoin (moeda digital)

As notas que são depositadas podem ser sacadas em seguida, assim há redução de custos porque não é necessário reabastecer constantemente os equipamentos. A reciclagem das notas é feita após um scanner instalado na máquina identificar os valores e, assim, o dinheiro depositado por um cliente vai para as mãos de outro. Os caixas serão adquiridos de duas das maiores fabricantes desse tipo de equipamento, a NCR e a Diebold, e devem ser instalados em regiões em que a demanda de depósitos é maior, segundo o banco. “A economia é, além de física, por causa da inexistência dos envelopes, de redução de backoffice”, afirma Luca Cavalcanti, diretor de canais digitais do Bradesco. A aquisição faz parte do projeto de inovação da instituição, que investiu R$ 5,7 bilhões em infraestrutura, tecnologia da informação e telecomunicações em 2015.

Caixa interativo A NCR também negocia com os bancos um novo modelo de caixa eletrônico com um sistema de atendimento virtual na tela, em que o cliente interage com o funcionário, conhecido como interactive teller. “O caixa funciona como um banco que atende o cliente 24 horas por dia, sete dias por semana. Operações normalmente feitas com o gerente ou somente na boca do caixa, no horário de funcionamento da agência, podem ser feitas aqui. Com isso, o ATM funciona como

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um banco”, diz João Pedro Perez, vice-presidente global de vendas e marketing da divisão de serviços financeiros da NCR. O terminal de atendimento já funciona nos EUA, na Europa e no Oriente Médio e possibilita serviços como abertura de uma conta, emissão de cartões até liberação para saque acima do limite estipulado ao cliente. O contato com o caixa do banco pode ser feito por um telefone instalado no caixa ou por meio de uma tela, dependendo do modelo do equipamento. “Essa tecnologia torna a agência cerca de 40% mais lucrativa: em vez de ter cinco ou seis caixas, posso ter o caixa interativo e reduzir o espaço físico da agência”, diz Perez. “Nos EUA, essa é uma tendência forte, porque o custo do imóvel é alto.” Segundo o executivo, com os caixas interativos, os bancos também não se distanciam do cliente – uma vez que, por meio da web e do telefone, os contatos passaram a ser mais superficiais. Na Diebold, a nova família de ATMs procura interagir com os demais canais digitais, como o smartphone. Um dos novos terminais não tem monitor acoplado e interage por meio do celular do usuário. Esse terminal consegue ler informações contidas em QR code, código de barras e NFC (Near Field Communication), como a utilizada no Apple Pay, dos celulares. Com ele, uma pessoa pode enviar um pagamento a outra por e-mail. O terminal lê o e-mail (ou qualquer outra forma de comunicação eletrônica) e libera as cédulas para o cliente. A empresa também apresentou no Ciab o ILT (In Loby Teller), que permite ao usuário descontar vários cheques de uma vez e fazer depósito com cédulas e moedas, além de outras operações bancárias, sem interação com um funcionário. De acordo com a companhia, o equipamento já despertou o interesse de alguns bancos brasileiros, mas até o momento ainda não está disponível no país. n


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