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REVISTA

Nov/Dez 2015 • Nº 60

LEVE SEU BANCO NO BOLSO

Comodidade e segurança fazem com que participação do mobile banking passe de 11% das operações bancárias, em 2014, para 21% no primeiro semestre deste ano

MÁQUINAS DE PAGAMENTO ESTÃO PRONTAS PARA RECEBER POR CELULAR

ESPECIALISTA DA IBM DEFENDE ESTRATÉGIA PROATIVA NA GUERRA CONTRA CRIMES CIBERNÉTICOS


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revista Ciab FEBRABAN


revista Ciab FEBRABAN

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sumário

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CONSELHO CIAB FEBRABAN

Capa Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária revela que participação do mobile banking no total de transações bancárias avançou de 11%, em dezembro de 2014, para 20,87% em junho deste ano

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Cyber Security Líder Mundial de Combate à Fraude e à Indústria do Crime da IBM defende melhorias em estratégias de gestão

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Maurício Minas-Bradesco (presidente), Gustavo Fosse – Banco do Brasil (diretor setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN), Geraldo Dezena – Banco do Brasil, Gilson Girardi – HSBC, Gustavo Roxo – BTG Pactual, Jorge Ramalho – Itaú-Unibanco, José Paiva – Santander, Keiji Sakai – BM&FBOVESPA, Roberto Zambon – Caixa COMISSÃO DE CONTEÚDO: Keiji Sakai – BM&FBOVESPA (coordenador), Nilton Cesar Gratão – FEBRABAN, Adauto Del Favero – HSBC, Antonio Lombardi Neto – Rede, Carlos Augusto de Oliveira – Original, Eliane Grotti Borges – Caixa, Mário Lopes – Societè Generali, Marco Aurélio Crestoni – CITI, Paulo Cherberle – Bradesco, Ricardo Shigueaki Nozuma – Santander, Ronei Maranssati – Banco do Brasil, Jorge Krug – Banrisul, Lusmary Ribeiro – BTG Pactual, Wallace Jagiello – Banco Votorantim DIRETORIA DE EVENTOS FEBRABAN: Nair Macedo (diretora), Marcelo Assumpção, Élita Cristina Borges Simionato, Érika Kumbrevicius de Oliveira, Fernanda Paradizo Castillo, Hilda Solera, Ludmila Prado, Marília de Meo Borges, Renata Moreira Carvalho, Keti Granzotto Casarri

Ciab 2016

REVISTA DO CIAB FEBRABAN

Congresso de Tecnologia da Informação para o setor financeiro discutirá o mercado digital

DIRETORIA DE COMUNICAÇÃO: Sergio Leo (diretor), Adriana Mompean, Cleide Sanchez Rodriguez, Anna Carolina Gabiatti

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PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO: Ideia Visual

Bitcoin Moeda digital desafia meios de pagamento tradicionais

MARKETING: Roseli Rapouso, Silvia Mazzola

Esta é uma publicação da Federação Brasileira de Bancos – FEBRABAN, Av. Brigadeiro Faria Lima, 1485 – 15º andar – Torre Norte – 01452-921 – São Paulo – SP Copyright 2015 - novembro/dezembro. Todos os direitos reservados.

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POS Máquinas de pagamento preparam-se para salto tecnológico

www.ciab.org.br www.facebook.com/CiabFEBRABAN Twitter: @ciabfebraban

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revista Ciab FEBRABAN

CORREÇÃO Diferentemente do publicado na reportagem “Menos riscos, mais oportunidades”, na edição 59 da revista Ciab FEBRABAN, Maurício Minas é vice-presidente do banco Bradesco.

www.febraban.org.br imprensa@febraban.org.br Twitter: @febraban


editorial

Gustavo Fosse Diretor Setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN

Segurança: prioridade máxima para os bancos

O

Brasil é reconhecido internacionalmente pela qualidade e profundidade de sua regulação bancária, bem como por ter um dos setores financeiros que mais investe em tecnologia da informação no mundo. Em 2014, os gastos em TI somaram R$ 21,5 bilhões, após crescerem, em média, 6% ao ano desde 2010. O setor financeiro é um dos mais importantes do mercado de TI brasileiro, sendo que 18% dos gastos em tecnologia da informação em 2014 foram feitos pelo segmento. O volumoso aporte de recurso despendido pelas instituições brasileiras está em paridade com outros países, como França, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. Nos últimos anos, o uso de tecnologias biométricas tornou-se cada vez mais proeminente para evitar e combater fraudes. Também há investimentos significativos para proteger as transações realizadas pelos clientes em canais como internet e mobile banking. Fortalecer a segurança é prioridade absoluta para os bancos. O desafio das instituições é desenvolver formas de identificação e autenticação que impossibilitem as fraudes sem dificultar o acesso aos serviços. A estabilidade macroeconômica e monetária e as constantes mudanças ocorridas na sociedade nos últimos anos decorrentes do aumento da hiperconectividade foram responsáveis por mudanças significativas nas relações de consumo. Atualmente, mais da metade da população tem acesso à internet. O mercado de smartphones continua apresentando um crescimento importante nos últimos sete anos, e atingiu, em 2014, 41% dos brasileiros. A sociedade tem cada vez mais um comportamento

digital. Em 2014, internet e mobile banking ganharam mais relevância para as transações bancárias, chegando a 50% do total. Nesta edição da revista Ciab FEBRABAN, nossa matéria de capa traz um estudo exclusivo mostrando que, já no primeiro semestre deste ano, as transações por internet e mobile banking atingiram 58% do total das operações bancárias, percentual que poderá aumentar substancialmente até o final de 2015. Em relação apenas ao mobile banking, as transações com a plataforma já somam 21% do total, nos primeiros seis meses do ano, ante 11% registrados em 2014. Entretanto, é imprescindível destacar que, quando abordamos o tema da segurança da informação, todos têm um papel importante a desempenhar, e os consumidores são essenciais neste processo, já que, por muitas vezes, o cliente é induzido através de engenharia social a informar os seus códigos e senhas para estelionatários. Os bancos procuram conscientizar seus clientes sobre o uso seguro dos canais de autoatendimento, por meio de mensagens educativas e dicas de segurança em seus sites. Nesta edição de final de ano da revista Ciab FEBRABAN, preparamos um guia de segurança para que o consumidor realize suas compras de Natal e pague suas contas de começo de ano com ainda mais tranquilidade. Teremos também uma entrevista com David Dixon, líder mundial de combate à fraude e a indústria do crime da IBM, e uma reportagem sobre o bitcoin, moeda digital e também sistema de pagamento baseado em protocolos de internet e código aberto. Uma ótima leitura e boas festas a todos! n revista Ciab FEBRABAN

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revolução nos meios de pagamento

Transações no mobile banking avançam em 2015 Por Felipe Datt

Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária revela que operações com smartphones avançaram de 11% de participação, em dezembro de 2014, para 20,87% em junho deste ano

S

eja para compras, comparação de preços ou o acesso instantâneo à rede de contatos, os smartphones têm atributos que humilham qualquer concorrência: comodidade, flexibilidade, facilidade de uso e rapidez. A utilização desses celulares transforma hábitos e comportamentos dos usuários, e isso explica por que o comércio móvel

cresce a uma taxa anual quase quatro vezes superior ao e-commerce, o comércio virtual. Esses aparelhos inteligentes e conectados à internet já absorvem 55% da base instalada de celulares no Brasil e facilitaram desde a chamada de táxi ao delivery do jantar com pagamentos em poucos cliques, passando pelas compras no varejo diretamente nos aplicativos.

Compras na ponta dos dedos 2013

Gastos via mobile (em R$ bilhões)

R$ 4,88

2014

R$ 13,21

2015

R$ 27,40 (+107%)

R$ 121,28

Gastos no e-commerce (em R$ bilhões)

R$ 94,02

(+29%)

R$ 57,43 Fonte: Pesquisa “As Compras Online dos Consumidores Brasileiros em 2015”, da PayPal e da Ipsos

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revolução nos meios de pagamento

A migração dessas tarefas corriqueiras para a ponta dos dedos não está restrita ao universo dos consumidores: o mobile banking, no primeiro semestre de 2015, chegou ao segundo lugar entre os canais de atendimento prediletos dos usuários do sistema bancário brasileiro, graças às mesmas qualidades que fizeram dos smartphones uma ferramenta de consumo. A mobilidade modifica, também, a maneira como os correntistas se relacionam com seus bancos. Além da conferência de saldos e extratos ao pagamento de contas, as instituições bancárias do Brasil já permitem, por celular, contratação de financiamento, transferência de recursos, depósito de cheques e até mesmo o relacionamento entre cliente e banco. E o fenômeno pode estar apenas começando. As operações bancárias feitas por intermédio de aplicativos instalados em smartphones e tablets crescem a uma velocidade avassaladora desde 2010, conforme constataram as Pesquisas de Tecnologia Bancária realizadas anualmente pela FEBRABAN. E 2015 deve terminar como um marco nessa tendência. As estatísticas de transações bancárias do primeiro semestre do ano, que a revista Ciab FE-

2016*

2017* R$ 59,53

R$ 41,15

(+45%)

(+50%)

R$ 181,89 R$ 150,94

(+21%)

(+24%)

*projeção

BRABAN divulga em primeira mão, mostram crescimento, em números absolutos, das transações realizadas em praticamente todos os canais de atendimento. Mas, a passo firme e acelerado, o mobile banking avançou de uma fatia de participação de 11% das transações, em dezembro de 2014, para 20,87% em junho deste ano. As operações registradas com mobile banking no primeiro semestre de 2015 totalizaram 4,9 bilhões nas sete principais instituições financeiras do país: Banco do Brasil, Caixa, Itaú Unibanco, Bradesco, Santander, HSBC e Banrisul. O montante representa 93% do total de transações por esse canal registradas em todo o ano de 2014, quando foram consultadas 20 instituições financeiras na Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária. “O mobile se consolida a cada dia. Passar de 11% das transações para 21%, em um período de seis meses, é extraordinário”, destaca o diretor setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN, Gustavo Fosse. “Nenhum canal teve um salto desses até hoje.” A pesquisa prévia do primeiro semestre deste ano, nestas sete instituições, revela que o internet banking mantém a dianteira de participação nos canais de atendimento, com 37,41%. Transações com internet banking, que crescem em ritmo mais moderado, somaram, no primeiro semestre de 2015, 8,7 bilhões. Atingiram metade das operações registradas em todo o ano passado em um universo pesquisado maior - 20 instituições bancárias com 18,6 bilhões de operações. A comparação com as pesquisas anteriores da FEBRABAN em todos os canais de atendimento ajuda a entender a estrondosa popularização do mobile banking entre os correntistas: em 2010, o internet banking (via computadores) originava 35% das transações bancárias no Brasil, os terminais de autoatendimento (ATMS) abocanhavam 28%, as agências, 13%, e o mobile banking, nesse ano, não passava de um “traço” nas revista Ciab FEBRABAN

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Divulgação

revolução nos meios de pagamento

“NA REALIDADE, TODO MÊS O MOBILE BATE UM RECORDE.”

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ternet, hoje ele faz isso três vezes ao dia no dispositivo móvel”, opina o diretor-executivo do Itaú Unibanco, Ricardo Guerra. “O mobile direciona uma mudança de comportamentos." Sob a frieza da matemática, a realidade é que, em um intervalo inferior a cinco anos, o mobile consolidou-se como o segundo principal canal de transações bancárias no Brasil. Ultrapassar o internet banking é questão de tempo? Em alguns bancos, esse fenômeno já começou.

Antranik Haroutiounian, do Bradesco

A hora e a vez dos aplicativos

estatísticas; em 2014, computadores e notebooks responderam por 39% das transações no internet banking, os ATMS viram a participação cair para 21% e a operação na “boca do caixa” respondeu por 7%. O mobile banking, que, em 2012, originava 2% das transações bancárias no Brasil, triplicou sua participação em 2013 (6%) e quase dobrou esse percentual em 2014, quando chegou a 11% das transações bancárias. De 2010 a 2014, o número de contas bancárias habilitadas a utilizar o recurso saltou de 780 mil para 25,4 milhões. As estatísticas permitem concluir que vantagens como maior comodidade e flexibilidade de realizar uma operação a qualquer hora, em qualquer lugar, levam o correntista a transferir, progressivamente, um maior número de transações no sistema financeiro para movimentações realizadas na palma das mãos. Isso não significou, entretanto, queda nas transações nos demais canais de atendimento, pelo contrário. Mesmo com a mudança, o número de transações bancárias expandiu-se nesse intervalo de tempo, passando de 29 bilhões, em 2010, para 47 bilhões, no ano passado. “Com o mobile banking, o correntista aumentou o número de transações; se antes ele verificava o extrato a cada dois dias no ATM ou na in-

“2015 foi o ano do mobile”, garante o diretor de Negócios Digitais do Banco do Brasil, Marco Mastroeni, ao falar, sem exagero, sobre a importância da mobilidade para os correntistas do banco. Há dois anos, o mobile banking ainda buscava um lugar entre as preferências dos clientes e respondia por 6% das transações totais – percentual alinhado com a média do mercado. O internet banking respondia por 31%. Em dezembro do ano passado, enquanto a participação da web manteve-se estagnada, o mobile avançou para 14%, mais do que dobrando o share em um ano. Em abril de 2015, o jogo avançou: a participação do mobile no total de transações do Banco do Brasil atingiu 40%. O crescimento coincidiu com o lançamento, no final de 2014, da nova versão do aplicativo do banco. De dezembro de 2014 a setembro deste ano, a base de correntistas cadastrados e que fizeram o download do app nas lojas virtuais do Google ou da Apple passou de quatro para sete milhões. Em setembro, 6,2 milhões acessaram a conta via app ao menos uma vez. “O novo aplicativo melhorou a percepção do cliente sobre a facilidade de utilizar o banco”, diz Mastroeni. “Quando o assunto é mobilidade, se não pensarmos primeiro no usuário não conseguiremos um nível de engajamento, relacionamento e utilização adequado.”


revolução nos meios de pagamento

O crescimento do mobile Transações bancárias por origem (em bilhões) 47

41 37

11% 3% 3%

6% 3% 4%

2% 4% 4%

7%

1º semestre/2015

9% 16%

11%

15%

16%

23 21%

23% 25%

40%

38%

2012

39%

2013

2014

20,87% 1,56% 3% 6,48% 12,97%

MOBILE

17,72%

ATM

37,41%

INTERNET

CORRESPONDENTES CONTACT CENTERS AGÊNCIAS POS

2015*

Total de transações por canal (em bilhões) 2012

2013

2014

2015*

Mobile

0,8

2,3

5,3

4,8

Correspondentes

1,4

1,3

1,4

364 (mil)

Contact centers

1,6

1,5

1,3

702 (mil)

4

3,8

3,5

1,5

POS

5,7

6,4

7,4

3

ATM

9,1

9,4

9,7

4,1

Internet

14

16,6

18,6

8,7

Total de transações em bilhões

37

41

47

23,43

Agências

*até junho Fonte: FEBRABAN

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Carlos Della Rocca

revolução nos meios de pagamento

“O MOBILE É 24 HORAS, SETE DIAS POR SEMANA” Massimo Campodonico, do Santander

A tecnologia foi aprovada. Pesquisa realizada pelo site especializado Mobile Time em 2015 colocou o Banco do Brasil em décimo lugar entre os apps mais presentes na home screen (tela inicial) dos aparelhos inteligentes dos usuários – o único banco a aparecer no Top 10. No Bradesco, o mobile banking também galga posições a cada mês e já ameaça a liderança da internet. No consolidado de 2015 até outubro, smartphones e tablets respondiam por 31% das transações e a web por 41%. No décimo mês do ano, apenas, o banco viu o mobile atingir 35% das transações. “Temos uma média diária de 12,2 milhões de transações online e 10,8 milhões móveis; mas tivemos um pico de 17,2 milhões de transações nesse canal no dia 30 de novembro, uma marca histórica”, afirma Antranik Haroutiounian, superintendente de Canais Digitais. “Na realidade, todo mês o mobile bate um recorde.” No Santander, a virada é questão de tempo. Com o lançamento do novo aplicativo, no final do ano passado, o número de usuários habilitados dobrou, atingindo 30% da base de correntistas, e o total de transações cresceu 2,5 vezes. A expectativa é que, em dois anos, absorva 80% dos clientes. “O mobile é 24 horas, sete dias por semana. O acesso sim-

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plificado e o fácil manuseio fazem com que o dia a dia migre para o celular”, diz Massimo Campodonico, superintendente-executivo de Canais de Relacionamento. “O cliente deixa de ligar para o call center e se deslocar à agência, e esses canais serão direcionados a transações mais complexas. Isso traz eficiência ao banco.” Recordes à parte, é consenso que o crescimento a índices chineses desse canal na indústria bancária brasileira não mostrará sinais de inflexão tão cedo. Conforme dados da FEBRABAN, um em cada quatro correntistas no Brasil já movimentava sua conta pelo celular em 2014. O dado coloca o País em quinto lugar quando comparada a penetração do mobile banking e a população bancarizada, atrás apenas da Turquia (43%), EUA (35%), Cingapura (34%) e Reino Unido (25%) e à frente de Alemanha (21%) e França (19%). O espaço para crescimento é enorme, considerando a população não bancarizada e aquela que possui conta bancária, mas não um smartphone. Também não restam dúvidas que a popularização do canal ocorre de forma exponencialmente mais rápida do que a verificada, há duas décadas, quando o internet banking engatinhava. Uma das razões para isso é a consolidação do smartphone como elemento de inclusão digital para uma boa parcela dos brasileiros. Pesquisa de 2015 do Comitê Gestor da Internet no Brasil mostra que 81,5 milhões de pessoas acessam a internet por esses dispositivos. Isso equivale a 47% da população brasileira com 10 anos ou mais – em 2011, a proporção de usuários de Internet pelo celular era de 15% da população. Para 19% dos usuários, o aparelho é o único meio de acesso à rede. Outra razão para a forte adesão é que a popularização do internet banking na última década abriu caminho para o usuário estreitar a relação com o banco pelos dispositivos móveis. “Ao lançar seu site, em maio de 1996, o


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Participação dos gastos online totais por tipo de dispositivo

Desktop, notebook e laptop

Smartphone

Tablets

Compras em sites locais 1

76%

13%

7%

Compras em sites do exterior 2

74%

14%

8%

1 2

total gasto online compras internacionais

Fonte: Pesquisa “As Compras Online dos Consumidores Brasileiros em 2015”, da PayPal e da Ipsos

a migração do consumo de produtos e serviços das lojas físicas (ou mesmo no e-commerce) para esses aparelhos mudaram comportamentos e expectativas – e ainda que não estejam diretamente relacionadas à interação dos usuários com os bancos, acabaram por exigir respostas rápidas das instituições, como veremos adiante.

Mundo móvel

M-commerce

Pesquisa da consultoria eMarketer projeta que, em 2016, mais de dois bilhões de pessoas ao redor do globo terão um smartphone. O número de usuários desses dispositivos inteligentes chegará a 2,5 bilhões em 2018. No Brasil, a venda de smartphones teve alta de 55% em 2014, na comparação com o ano anterior, alcançando 54,5 milhões de unidades, mostra pesquisa da consultoria IDC. É o equivalente a 104 aparelhos comercializados por minuto. Outro estudo de 2015, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), mostra que o número de smartphones em uso no Brasil passou o de computadores e tablets: 154 milhões, contra 152 milhões. Mais do que um fenômeno de consumo, o smartphone transformou a vida dos usuários. A facilidade em pesquisar preços e informações em plataformas especializadas, o acesso full time à lista de contatos nas redes sociais, a agilidade no processo de tomada de decisão e

Assim como o mobile banking, as compras efetuadas pelos aparelhos móveis vivenciam um Divulgação

Bradesco foi apenas o quinto banco no mundo a oferecer o serviço”, lembra Haroutiounian, do Bradesco, comentando que foi necessário habituar as pessoas a usar o computador no relacionamento com o banco. “Não havia razão para não ocorrer o mesmo no relacionamento com o banco pelo smartphone.”

“O MOBILE DIRECIONA UMA MUDANÇA DE COMPORTAMENTOS” Ricardo Guerra, do Itaú revista Ciab FEBRABAN

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Divulgação

boom particular. Pesquisa conjunta da PayPal e da Ipsos mostram que o m-commerce (mobile commerce) no Brasil passará de um faturamento de R$ 13,21 bilhões, em 2014, para R$ 27,40 bilhões este ano, um crescimento de 107%. Como base de comparação, o e-commerce tradicional deverá faturar R$ 121,28 bilhões este ano (os dados embutem o m-commerce). Na prática, os índices de crescimento no m-commerce deverão superar os do e-commerce em quase quatro vezes este ano. Para 2017, as projeções são que as compras móveis atinjam R$ 59,53 bilhões. Outro levantamento conjunto dessas empresas, realizado em fevereiro de 2015, mostrava que o percentual de brasileiros que comprou por meio de smartphones em 2014 (34%) é superior à média dos demais 22 países do estudo (33%). “A migração de parte do volume de compras online para o celular ocorre pela melhoria da experiência oferecida pelos varejistas brasileiros, com a adoção de novas tecnologias de pagamento e aplicativos mais

amigáveis”, explica Renato Pelissaro, diretor de Marketing do PayPal para a América Latina. “A simplificação ajuda o usuário a se sentir mais confortável; e há mercados novos que já nascem no celular, como os aplicativos de táxi.” Essa mudança de comportamento mexe com as instituições financeiras. O mobile permite ao banco atender à necessidade do cliente assim que ela aparece. “Por outro lado, smartphones, aplicativos e redes sociais mudaram a forma como as pessoas consomem produtos e serviços: as decisões são muito mais rápidas e as expectativas mudaram”, ressalta Ricardo Guerra, do Itaú. “O cliente espera um relacionamento com o banco nesse mesmo ritmo de qualidade e intensidade; temos que entender essa expectativa e superá-la.” Com a migração da vida social e do hábito de consumo para o dispositivo móvel, o usuário pede cada vez mais comodidade e, sobretudo, aplicativos cada vez mais fáceis de usar, seguros, intuitivos e funcionais. Especialmente na época de festas de final de ano e de férias, em que o consumo aumenta e as contas se acumulam, a conveniência de conferir extratos, saldos, efetuar transferências e pagar boleto de contas ao alcance dos dedos tornam essa necessidade mais evidente. “Há clientes que já acham demorado ligar o computador para pagar uma conta”, diz Gustavo Fosse, da FEBRABAN.

Os bancos se armam

“2015 FOI O ANO DO MOBILE” Marco Mastroeni, do Banco do Brasil

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revista Ciab FEBRABAN

As transações sem movimentação financeira conferência de extratos e saldos - lideram na preferência dos usuários de mobile. Em 2014, as transações contábeis, com movimentação de dinheiro, totalizaram apenas 4% de tudo o que feito nesses dispositivos pelos correntistas. Mas isso não significa que o usuário tenha receio de pagar contas e efetuar transferências. Na realidade, com o aumento expressivo do número de operações nesses dispositivos,


Divulgação

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as transações com movimentação monetária acabam diluidas nas estatísticas totais. Mas é consenso entre os bancos de que elas não param de crescer. O pagamento de boletos por meio da captura do código de barras pela câmera fotográfica, por exemplo, é febre entre os usuários dos aplicativos. Atento à necessidade de atender o cliente “no seu tempo”, o Itaú lançou em setembro um aplicativo batizado Pagcontas. Entre as funcionalidades, o usuário que recebe um boleto de compra no formato PDF por e-mail, por exemplo, pode abrir o arquivo por meio do app, pagá-lo na hora, armazená-lo, agendar o pagamento para a data mais conveniente ou, ainda, programar para ser lembrado da data do vencimento. Para aumentar a segurança das compras, o banco lançou, também em outubro, uma solução que permite ao correntista, por meio do seu aplicativo, gerar um número temporário de cartão de crédito que pode ser utilizado em apenas uma transação na internet. O pagamento fica vinculado ao cartão original do correntista. No Banco do Brasil, 7% da contratação de crédito pessoal novo já é feita pelo celular. O aplicativo do BB também permite que o usuário programe o saque de dinheiro antes mesmo de chegar ao terminal de autoatendimento. Uma vez no ATM, é necessário apenas apontar o dispositivo para a máquina e escanear o QR Code - uma espécie de código de barras bidimensional - sem a necessidade de uso do cartão, tornando o processo mais rápido e seguro. Outra ação que já ocorre é a possibilidade de contratação de financiamento para a compra de veículos pelo celular. O cliente com limite pré-aprovado consegue comparar a oferta de financiamento da concessionária com a oferecida pelo banco. Se optar pela segunda, ele pode capturar a foto da nota fiscal - ou do

“A MIGRAÇÃO DE PARTE DO VOLUME DE COMPRAS ONLINE PARA O CELULAR OCORRE PELA MELHORIA DA EXPERIÊNCIA OFERECIDA PELOS VAREJISTAS BRASILEIROS” Renato Pelissaro, do PayPal

documento de transferência, o DUT, em caso de veículos usados -, e o dinheiro é transferido para a concessionária, sem necessidade de visita à agência. “Lançamos a novidade em outubro e, mesmo sem divulgação, foram R$ 8 milhões em financiamento contratado”, diz Mastroeni. Recentemente, o Bradesco passou a oferecer uma nova funcionalidade em seu aplicativo: o depósito de cheques. De maneira simples, é possível capturar offline a imagem do documento. Uma vez acessada a conta, o cliente seleciona o arquivo digitalizado e transmite ao banco, sem necessidade de ida à agência ou a um ATM. Além disso, o banco solucionou uma das questões que, possivelmente, dificultam o crescimento ainda mais vigoroso desse canal: fechou parceria com as quatro principais operadoras (Vivo, Claro, Oi e Tim) para garantir o acesso gratuito dos clientes ao seu app. “Quem paga a conta para a operadora é o Bradesco”, informa Haroutiounian. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações, cerca de 75% dos usuários no Brasil possuem planos pré-pagos, com pacotes de dados quem nem sempre são suficientes para todo o mês. n revista Ciab FEBRABAN

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Realize suas transações bancárias com segurança Senhas

l Ao escolher senhas, evite as que possam ser facilmente descobertas por terceiros (datas de nascimento, números de telefone, de documento de identidade, da residência, da placa do automóvel, ou sequências de números, letras ou teclas). Evite também o uso de palavras ou nomes de pessoas l Jamais revele sua senha a terceiros l Ao digitar sua senha, mantenha o corpo próximo à máquina para evitar que outros possam vê-la ou descobri-la pela movimentação dos dedos no teclado l Se alguém lhe contatar por telefone, dizendo-se funcionário de banco e pedir-lhe para dizer ou digitar sua senha, não o faça em hipótese alguma l Cuidado ao usar telefones de terceiros, principalmente os celulares, para acessar sua conta, pois sua senha poderá ficar registrada na memória do aparelho. Digite sua senha somente quando a ligação for de sua iniciativa e em aparelhos próprios ou de pessoas e empresas de sua absoluta confiança l Troque suas senhas periodicamente. O procedimento é fácil. Se tiver dúvida, peça orientação a um funcionário do banco de sua confiança

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Internet

l Mantenha o antivírus atualizado instalado no computador que utilizar para ter acesso aos serviços bancários l Só use equipamento efetivamente confiável. Não realize operações em equipamentos públicos ou que não tenham programas antivírus atualizados nem em equipamento que não conheça. Existem programas utilizados por fraudadores para capturar as informações do cliente quando digitadas no computador l Não execute programas nem abra arquivos de origem desconhecida. Eles podem conter vírus e outras aplicações prejudiciais, que ficam ocultas para o usuário e permitem a ação de fraudadores sobre sua conta, a partir de informações capturadas após a digitação no teclado l Use somente provedores confiáveis l Cuidado com e-mails não solicitados ou de procedência desconhecida, especialmente se tiverem arquivos anexados. Correspondências eletrônicas também podem trazer programas desconhecidos que oferecem diversos tipos de riscos à segurança do usuário. É mais seguro deletar os e-mails não solicitados e que você não tenha absoluta certeza que procedam de fonte confiável

l Evite sites arriscados e só faça downloads (transferência de arquivos para o seu computador) de sites que conheça e saiba que são confiáveis l Utilize sempre as versões de browsers (programas de navegação) mais atualizadas, pois geralmente incorporam melhores mecanismos de segurança l Quando for efetuar pagamentos ou realizar outras operações financeiras, você pode certificar-se que está no site desejado, seja do banco ou outro qualquer, clicando sobre o cadeado e/ou a chave de segurança que aparece quando se entra na área de segurança do site. O certificado de habilitação do site, concedido por um certificador internacional, aparecerá na tela, confirmando sua autenticidade, juntamente com informações sobre o nível de criptografia utilizada naquela área pelo responsável pelo site (SSL) l Acompanhe os lançamentos em sua conta corrente. Caso constate qualquer crédito ou débito irregular, entre imediatamente em contato com o banco l Se estiver em dúvida sobre a segurança de algum procedimento que executou, entre em contato com o banco. Prevenção é a melhor forma de segurança


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Cartões

l Nunca empreste seu cartão para ninguém nem permita que estranhos o examinem sob qualquer pretexto l Não deixe seu cartão sem assinatura l Se não conseguir memorizar a senha e precisar anotá-la, guarde a anotação em lugar diferente do cartão, reduzindo seus riscos em caso de roubo ou perda l Caso seu cartão seja roubado, perdido ou extraviado, comunique o fato imediatamente à Central de Atendimento do banco, pedindo o cancelamento. Em caso de assalto, também registre a ocorrência na delegacia mais próxima

Cheques l Tome especial cuidado com esbarrões ou encontros acidentais, que possam levá-lo a perder de vista, temporariamente, o seu cartão magnético. Se isso ocorrer, verifique se o cartão que está em seu poder é realmente o seu. Em caso negativo, comunique o fato imediatamente ao banco l Ao efetuar pagamentos com seu cartão, não deixe que ele fique longe do seu controle e tome cuidado para que ninguém observe a digitação de sua senha l Solicite sempre a via do comprovante de venda e, antes de assiná-lo, confira o valor declarado da compra l Ao sair, só leve cartões e talões de cheques se for utilizá-los. Assim, você evita riscos desnecessários l Se for efetuar compras com seu cartão pela internet, procure antes saber se o site é confiável e se tem sistema de segurança para garantia das transações

l Emita sempre cheques nominais e cruzados l Ao preencher cheques, elimine os espaços vazios e evite rasuras l Controle seus depósitos e retiradas no canhoto l Evite circular com talões de cheques. Leve apenas a quantidade de folhas que pretende utilizar no dia. Faça o mesmo com os cartões de crédito l Quando receber um novo talão, confira os dados referentes ao nome, número da conta corrente e CPF e a quantidade de cheques do talonário l Tome o máximo de cautela na guarda dos talões. Destaque a folha de requisição e guarde em separado l Nunca deixe requisições ou cheques assinados no talão l Destrua os talões de contas inativas l Separe os cheques de qualquer documento pessoal

Caixas automáticos

l Antes de iniciar a transação, verifique na tela se o equipamento está ativo ou inoperante. Caso esteja inoperante, não insira seu cartão l Se o caixa eletrônico ou equipamento do banco no comércio estiver inoperante, não aceite oferta de estranhos de passar seu cartão em terminal avulso, mesmo que se apresentem como funcionários do banco. Frauda-

dores têm utilizado esse golpe para clonar (copiar os dados) cartões e obter senhas l Ao digitar sua senha, mantenha o corpo próximo à máquina, para evitar que outros possam vê-la ou descobri-la pelo movimento dos dedos no teclado l Prefira utilizar os caixas automáticos instalados em locais de grande movimentação e, se possível, em ambientes internos - shoppings, lojas de conveniência, postos de gasolina etc l Sempre que possível, faça seus saques no horário comercial, quando o movimento de pessoas é maior, evitando o período noturno. Quando precisar realmente sacar dinheiro à noite, leve um ou mais acompanhantes adultos para que fiquem fora da cabine, como se estivessem na fila

l Nunca aceite ou solicite ajuda de estranhos, mesmo que não lhe pareçam suspeitos l Esteja atento à presença de pessoas suspeitas ou curiosas no interior da cabine ou nas proximidades. Na dúvida, não faça a operação l Caso não consiga concluir uma operação, aperte a tecla “anula” ou “cancela” l Em caso de retenção do cartão no caixa automático, aperte as teclas “anula” ou “cancela” e comunique-se imediatamente com o banco. Tente utilizar o telefone da cabine para comunicar o fato. Se ele não estiver funcionando, pode tratar-se de tentativa de golpe. Nesses casos, nunca aceite ajuda de desconhecidos

Fonte: Guia de Segurança da FEBRABAN

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segurança

Instituições financeiras devem melhorar estratégias de gestão Por Adriana Mompean

Líder Mundial de Combate à Fraude e à Indústria do Crime da IBM defende estratégia proativa na guerra contra crimes cibernéticos Divulgação

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David Dixon, líder Mundial de Combate à Fraude e à Indústria do Crime da IBM

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rganizações criminosas bem financiadas empregam pessoas altamente qualificadas com doutorados e MBAs para explorar vulnerabilidades e promover ataques cibernéticos contra instituições e empresas. Este é o cenário atual e extremamente preocupante enfrentado pelas empresas que atuam no ambiente virtual, segundo David Dixon, líder Mundial de Combate à Fraude e à Indústria do Crime da IBM, um dos palestrantes do 5º Congresso Internacional de Gestão de Riscos realizado recentemente pela FEBRABAN. Na guerra contra crimes e ameaças virtuais, o especialista defende que as instituições financeiras tenham uma estratégia proativa para combater ataques cibernéticos, fraudes e evitar riscos financeiros, o que exige uma boa governança. “Nós temos que melhorar as estratégias de gestão, incluindo perfis de riscos; temos que compartilhar mais inteligência, informações; e é necessário ter uma abordagem


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muito mais estratégica para lidar com todas essas questões”, disse Dixon durante o congresso. Dixon também afirmou à revista Ciab FEBRABAN que usuários e empresas devem ser vigilantes e seguir constantemente protocolos de segurança. O especialista da IBM defende, ainda, que as empresas mantenham um plano de ação definido para lidar com fraudes e ataques cibernéticos. “O plano precisa estar pronto para ser ativado 24 horas por dia; velocidade e precisão para lidar com o evento são fundamentais para o resultado”, recomenda. “Medidas precisam ser tomadas para limitar os danos, proteger os clientes e notificar as autoridades.” É possível garantir 100% de segurança em sistemas online? David Dixon - No ambiente dinâmico atual ninguém pode garantir 100% de segurança em sistemas online. O mundo está mudando constantemente com novas tecnologias e serviços são introduzidos frequentemente, e em cada introdução, existem novos pontos de vulnerabilidade. Os criminosos são especialistas em achar e explorar estes pontos de vulnerabilidade. Em sua palestra, você disse que grupos criminais organizados e globais atacam e exploram vulnerabilidades de dados e informações. Qual é a origem dessa vulnerabilidade? São os usuários ou as empresas os responsáveis? David Dixon - Existem muitas organizações criminosas operando. As maiores são bem financiadas e empregam pessoas altamente qualificadas, alguns com doutorados e MBAs para descobrir as vulnerabilidades e modos de explorá-las. A questão sobre quem é responsável pelas vulnerabilidades é difícil de responder. Depois da ocorrência de um ataque e quando aprendemos sobre uma vulnerabilidade em particular, muitas vezes podemos ras-

trear e determinar como ela foi explorada e quem sofreu o risco. Neste ponto, podemos colocar uma medida de proteção para impedir ações futuras. Mas a realidade é que esta é uma guerra. As tentativas continuam ocorrendo e sempre mudando. Assim, todos nós somos responsáveis por ser vigilantes, e em seguir constantemente protocolos de segurança. O Brasil está particularmente exposto a estes grupos? David Dixon - Eu acho que o Brasil tem um risco maior do que a média, porque o Brasil tem riquezas e riqueza é alvo. Quando falo em riqueza, refiro-me à propriedade intelectual, bem como ativos financeiros e físicos. Como os atacantes cibernéticos podem explorar ferramentas de engenharia social? O que o usuário pode e deve fazer para evitar um ataque virtual? David Dixon - Há uma imensa série de metodologias criminosas que usam engenharia social como parte do padrão de ataque. Os usuários precisam estar conscientes do potencial de etapas aparentemente normais que possam ser realmente “manipulação social”. Há muitas maneiras de usar técnicas de engenharia social para extrair dados de vítimas. Estas incluem o uso de redes sociais para que criminosos se tornem amigos do seu alvo, finjam um telefonema do banco, de uma equipe de empresa de segurança e de companhias de seguro para extrair informações e abordar o usuário pessoalmente. Há casos documentados de falsas identidades virtuais utilizadas por criminosos que procuram entrar em círculos sociais específicos para realizar seus ataques contra seus integrantes. Então, é preciso estar na ofensiva, ser vigilante e cauteloso em cada sentimento mínimo de desconfiança. Siga padrões de segurança: não abra e-mails inesperados, nunca forneça número revista Ciab FEBRABAN

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o ajuste entre o controle dos custos e valor do risco para chegar a um nível de risco aceitável.

de contas, acesso ou detalhes de senhas em locais não seguros, e seja cuidadoso com o que posta em mídias sociais. Proteja os seus ativos pessoais e seja ainda mais vigilante em proteger os ativos corporativos, no qual criminosos têm mais a ganhar e há mais risco. O que as instituições financeiras podem fazer, em termos de estratégias de gestão, para impedir crimes cibernéticos, riscos financeiros e fraudes? David Dixon - As instituições financeiras precisam ter uma estratégia proativa para lidar com esses riscos crescentes. A boa governança exige que você saiba os riscos que enfrenta, tenha uma compreensão do tamanho do risco, entenda seus controles, que possa medir e monitorar a eficácia de controle e crescimento do risco, e que possa tomar medidas eficazes para promover mudanças nos riscos e/ou na eficácia do controle. Você não pode eliminar todos os riscos, mas pode gerenciar

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Muitos ataques cibernéticos não visam necessariamente benefícios financeiros e podem causar danos ou humilhações públicas para companhias e governos. Outros crimes resultam em perdas milionárias para empresas e instituições. Qual é o tipo de ataque cibernético mais comum? David Dixon - A maior parte dos ataques cibernéticos visa garantir o benefício financeiro. O roubo de ativos, o roubo de informações que possam ser vendidas ou exploradas, o roubo de propriedade intelectual por razões de concorrência, todos têm objetivos comuns. Nós também vemos ataques para fins de destruição de reputações corporativas ou destruição de informações para impedir a ação corporativa. Vemos também alguns que foram estratégicos para nações. Os alvos clássicos são instituições financeiras, onde o ganho monetário é imediato. No entanto, hoje quase qualquer empresa com presença online é um alvo. Estas incluem varejistas, governo, companhias de saúde, seguros, associações sem fins lucrativos etc. Os tipos de ataques vão desde o roubo de credenciais, interrupção de serviços (DDoS, por exemplo, que é um ataque que faz com que ocorra uma sobrecarga em um servidor ou computador para deixar indisponíveis recursos do sistema), forjamento de dados e espionagem até ataques muito mais sofisticados contra infraestruturas críticas. Os criminosos ainda querem dinheiro no final das contas, mas a maneira como eles podem ganhar dinheiro pode vir de várias formas atualmente, como a venda de dados médicos ou o roubo de credenciais para vários sites. Os ataques cibernéticos mudaram nos últimos anos? Quais são as principais alterações? David Dixon - Ataques cibernéticos mudam constantemente. Há vários fatores que causam


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isto, como a mudança de tecnologias que o consumidor usa (por exemplo, smartphones ou dispositivos conectados), as tecnologias de segurança implantadas que forçam os atacantes a evoluir, e o tipo de dados que se conecta à internet. Ataques mais inteligentes, rápidos e mutáveis estão se tornando norma. Os ataques diretos são complementados com ações explorando fornecedores, parceiros e conexões de clientes. Este é um jogo de gato e rato entre criminosos e pesquisadores de segurança que não vai parar. Os gastos dos bancos brasileiros com tecnologia da informação totalizaram R$ 21,5 bilhões em 2014, o que põe o país em paridade com países desenvolvidos como França e Alemanha. E o setor bancário destina aproximadamente 10% desse investimento para segurança da informação. Como o senhor analisa o sistema de segurança da informação das instituições financeiras brasileiras? David Dixon - Existem metodologias formais que avaliam a situação dos programas de segurança da informação e de prevenção de fraudes em gestão de riscos nas instituições. Não há atalhos. O que está se tornando crítico é a necessidade, das instituições financeiras, de ter uma abordagem mais ampla de risco além de segurança da informação ou gestão de fraude. Estas são questões mais amplas e integradas que precisam ser vistas. Em sua opinião, o acesso biométrico, como impressão digital, por exemplo, para operações bancárias é a melhor maneira para prevenir fraudes nas transações? David Dixon - Na minha opinião, a biometria deveria ser considerada como mais uma ferramenta de acesso de segurança, não a melhor ferramenta. Neste novo mundo, nós precisamos de múltiplas camadas de segurança. Então, eu acredito que uma impressão digital possa ser suficiente para uma

transação de baixo risco, algo que o cliente tenha feito na mesma localidade e por múltiplas vezes. Entretanto, eu não acho que a primeira vez que uma alta transferência bancária para uma localidade de alto risco deva ser aceita com a validação de impressão digital ou reconhecimento facial. Múltiplos canais, múltiplas camadas de validação, tudo combinado, é o que precisamos ter. Que tipos de planos de contingência as empresas devem ter para minimizar danos após a ocorrência de um crime virtual? David Dixon - As empresas precisam de um plano de ação definido para lidar com fraudes e ataques cibernéticos. O plano precisa estar pronto para ser ativado a qualquer instante, 24 horas por dia. Velocidade e precisão para lidar com o evento são fundamentais para o resultado. Medidas precisam ser tomadas para limitar os danos, proteger os clientes e notificar as autoridades. Quais são as principais ameaças relacionadas com o setor financeiro em relação a ataques cibernéticos em um futuro próximo? David Dixon - A proteção das informações do cliente e da instituição é vital. As instituições devem saber com quem estão lidando e serem capazes de validar que o acesso é a partir de uma entidade conhecida. Este é um desafio que requer capacidade de segurança da informação e gerenciamento significativo de fraude atuando em conjunto. Que outras considerações o senhor gostaria de fazer sobre o tema? David Dixon - O desafio parece assustador, mas é factível. Instituições de sucesso vão crescer, prosperar e manter sua base de clientes leais ao lidar com os adversários emergentes. Mas para isto, será necessário empregar processos e tecnologias para se manter um passo à frente da atividade potencialmente fraudulenta. n revista Ciab FEBRABAN

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Ciab 2016 discutirá o mercado digital no setor financeiro Por Adriana Mompean

26ª edição do congresso de tecnologia da informação, que ocorrerá de 21 a 23 de junho no Transamerica Expo Center, em São Paulo, também abordará temas como novos negócios surgidos por meio de dispositivos móveis, mudança de comportamento dos consumidores, computação cognitiva e a chamada internet das coisas

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ntenados com a nova realidade digital, os organizadores do Ciab 2016, maior congresso de tecnologia da informação para o setor financeiro da América Latina, querem reforçar o papel pioneiro do evento na identificação de oportunidades de negócios e soluções relevantes no segmento de TI. Entre os temas principais já definidos para a edição especial do congresso para visitantes, expositores e patrocinadores, está o mercado digital no setor financeiro. O 26º Ciab FEBRABAN acontecerá de 21 a 23 de junho do próximo ano. Com o tema central “Cultura Digital Transformando a Sociedade”, o congresso abordará a mudança de comportamento dos clientes provocada pelas novas tendências digitais e as transformações nas empresas provocadas pelas demandas por avanços tecnológicos. A 26ª edição do Ciab será realizada no Transamerica Expo Center, em São Paulo.

“O CIAB FEBRABAN É UM FÓRUM CRIADO PARA INCENTIVAR O DESENVOLVIMENTO DA TECNOLOGIA E INOVAÇÃO BANCÁRIA” Gustavo Fosse, diretor setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN

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De 21 a 23 de junho de 2016 Transamerica Expo Center São Paulo

“No Ciab de 2016, discutiremos as principais novidades tecnológicas no segmento financeiro. O digital no mercado financeiro, seja em bancos, seguradoras ou em meio de pagamentos, será um dos principais assuntos abordados no congresso”, destaca Keiji Sakai, coordenador da comissão de conteúdo do Ciab FEBRABAN. “Pretendemos também debater assuntos relacionados às criptomoedas (moeda virtual que utiliza criptografia) e adoção do blockchain (base que contém os metadados das transações digitais) no mercado financeiro.” De acordo com Sakai, o Ciab 2016 também apresentará cases inovadores de instituições financeiras nacionais e globais em assuntos como computação cognitiva (a chamada inteligência artificial), internet das coisas, novos negócios surgidos através de dispositivos móveis e a mudança de comportamento dos consumidores. “Segurança da informação continua sendo um dos assuntos de maior importância no congresso, com uma trilha de painéis específica sobre o assunto”, acrescentou. O congresso de tecnologia ainda abordará a temática das fintechs – empresas, geralmente

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“NESTE ANO, FIZEMOS MUDANÇAS RELEVANTES PARA CONSOLIDAR AINDA MAIS A POSIÇÃO DO CIAB COMO O MAIOR EVENTO DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO PARA O SETOR FINANCEIRO DA AMÉRICA LATINA” Alvir Hoffmann, vice-presidente da FEBRABAN

startups, atuantes no setor financeiro com a prestação de serviços – que aceleram a inovação desse mercado. Haverá painéis específicos sobre as companhias do segmento. “O Ciab FEBRABAN é um fórum criado para incentivar o desenvolvimento da tecnologia e inovação bancária, e promove discussões relevantes sobre tendências de aplicações em


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congresso de tecnologia

TI para um público altamente qualificado, formado por executivos e profissionais que transitam entre as finanças e a tecnologia”, afirma Gustavo Fosse, diretor setorial de Tecnologia e Automação Bancária da FEBRABAN.

Expositores e patrocinadores Lançado oficialmente no final de agosto, o Ciab 2016 já registrou mais de 90% da área de exposição do congresso vendida. O Espaço Empreendedor do evento já teve a área total comercializada, e o Espaço Internacional registrou 80% de sua área reservada. De acordo com os organizadores, 25 patrocinadores também já garantiram presença no fórum, entre eles, empresas como Accenture, Atos, CA, Capgemini, Cetip, CIP, Cisco, Dell, Deloitte, Embratel, EMC, HP, IBM, New Space, Oki e Scopus. Em 2016, o Ciab FEBRABAN também contará com novos patrocinadores como EY, Symantec, Perto e SAP. Além disso, 88 expositores já estão confirmados para o evento. No lançamento do congresso, Alvir Hoffman, vice-presidente da FEBRABAN, destacou que o Ciab 2016 repetirá as parcerias firmadas neste ano com a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), e com a Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNSeg). “Neste ano, fizemos mudanças relevantes para consolidar ainda mais a posição do Ciab como o maior evento de tecnologia da informação para o setor financeiro da América Latina”, disse. “A incorporação dos temas de meios de pagamento e de seguros ao nosso fórum e o sucesso dos debates realizados nessas duas trilhas temáticas transformaram o evento em um espaço para debates com conteúdos ainda mais diversificados.” n

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Bitcoin: como será o futuro da moeda num mundo cada vez mais sem dinheiro Por Charles Nisz

Moeda digital, que desperta debates sobre inovações no setor financeiro, difere dos padrões monetários tradicionais e tem transações validadas por usuários em todo mundo

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odos precisam de serviços bancários, ninguém precisa de bancos”, diz Guga Stocco, chefe de Inovação do Banco Original. A frase e seu exagero resumem boa parte das discussões despertadas por inovações tecnológicas que trazem mudanças profundas no setor financeiro. Uma dessas inovações é o bitcoin, moeda digital e também sistema de pagamento baseado em protocolos de internet e código aberto, criada em 2009 por Satoshi Nakamoto, um nome cercado de mistérios. O bitcoin, até recentemente tema exclusivo de especialistas e aficionados por tecnologia, apareceu pela primeira vez num estudo publicado em 2008, e, hoje, inspira discussões na cúpula de instituições financeiras no país. Está longe, porém, de ser um tema popular. Ainda.

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moeda eletrônica

Além de ser desconhecida a real identidade do seu criador (leia mais nesta edição), o bitcoin não é um conceito de fácil compreensão: o mecanismo de funcionamento foge ao padrão das moedas tradicionais. Isso porque o bitcoin traz embutido o registro de transações feitas na rede (blockchain) - como se cada cédula tivesse impressa em si o registro de todas as compras e vendas efetuadas com aquela moeda. Só por isso, o bitcoin já difere dos padrões monetários tradicionais. Adicione a isso o fato de o bitcoin não ter um banco central que o emita, ou outra entidade reguladora para controlar sua cotação, e que as transações são validadas mundo afora pelos milhões de usuários dessa rede peer-to-peer (do inglês entre pares, uma rede administrada por iguais). É a primeira emissão descentralizada de moeda na história econômica contemporânea. revista Ciab FEBRABAN

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Para Guga Stocco, do Banco Original, os jovens e a massiva utilização da internet são dois fatores capazes de impulsionar o bitcoin

“Com a crescente digitalização do mundo, faz todo sentido termos uma moeda eletrônica”, afirma Stocco. O executivo faz coro com Marc Andreesen, criador do Netscape, o primeiro navegador da internet. Para ele, chegou a hora de reinventar o setor financeiro, um ramo de atividade com poucas alterações em sua essência desde a sua criação na Idade Média. “Não precisamos de 100 mil pessoas em Wall Street e de datacenters gigantescos para controlar o sistema financeiro” diz Andreessen. O uso do bitcoin já começa a movimentar bilhões todos os anos, segundo João Paulo Oliveira, fundador da Pagchain, uma plataforma de pagamentos para comércio eletrônico. A empresa de Oliveira recebe os bitcoins usados pelos consumidores para efetuar uma compra e repassa o valor em dinheiro para a loja onde a aquisição foi feita. “Muitos negócios estão sendo criados a partir do blockchain”, afirma Oliveira. O blockchain é a plataforma que regis-

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tra e valida as transações feitas usando o bitcoin. Atualmente, o principal uso é para comércio eletrônico e remessas de dinheiro entre países; ao usar dinheiro digital, a transação evita tributos e taxas cambiais. Peter Smith, fundador da empresa Blockchain, cuja missão é tornar essas transações eletrônicas mais seguras, vê grandes oportunidades no setor de micropagamentos, que deverá revolucionar segmentos nos quais os clientes fazem compras de valor pequeno, como livros e músicas em formato digital. Segundo Oliveira, da PagCoin, em menos de 10 anos, 10% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial deverão ser transacionados em moedas digitais. De acordo com o executivo da empresa sediada no Recife, todas essas mudanças deverão propiciar mais inclusão financeira. “Muitas pessoas que hoje não têm acesso a serviços de bancarização poderão utilizar esses meios de pagamento via computador ou celular”, diz Oliveira. Essa disrupção não era possível até 2010. “O sistema computacional capaz de propiciar essa evolução só surgiu no fim da década passada”, completa. Os cerca de cinco milhões de usuários do sistema da BlockChain realizam 90 mil transações por dia usando a plataforma de validação de bitcoins da empresa. Essa movimentação faz com que a companhia tenha um valor de mercado estimado em US$ 5 bilhões, segundo levantamento do site norte-americano CrunchBase. Já existem 165 empresas no mesmo ramo de atividade da BlockChain - trabalhando na inovação de moedas digitais. Há críticas ao bitcoin: além das flutuações na cotação, seu uso comporta atividades criminais, como a compra de drogas e de outros serviços ilícitos na chamada deep web - a camada subterrânea da internet. Atualmente, o valor de um bitcoin está por volta de US$ 354.


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O curioso caso de Satoshi Nakamoto

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uitos livros que contam a história do bitcoin trazem capítulos sobre quem poderia ser (ou quem são) Satoshi Nakamoto. Desde 2011, Nakamoto não aparece online, quando deixou um enigmático e-mail com a frase: “Fui fazer outras coisas”. Talvez por achar que o bitcoin já estivesse consolidado o suficiente após cinco anos de existência. Diferentes livros contam histórias distintas sobre Nakamoto. Um deles supõe que o criador do bitcoin seja, na verdade, britânico – em seus e-mails, o misterioso programador usa o termo britânico bloody hard (em português: muito difícil). Outras versões dão conta que ele seria um sociólogo finlandês, um estudante irlandês ou, realmente, um matemático nipônico. Por análise do estilo de escrita, pesquisadores de linguagem supõem que os inventores da moeda digital sejam os criptógrafos norte-americanos Nick Szabo e Hal Finney. O primeiro nega. O segundo morreu em 2014. Boatos sobre a identidade de Satoshi Nakamoto viraram lenda urbana. Entretanto, o sumiço de Nakamoto não apenas garantiu publicidade frequente ao bitcoin, como forneceu um mito criador para a moeda. A au-

sência de Nakamoto, porém, causa, por vezes, problemas ao desenvolvimento de sua criação. Nos primórdios, era ele quem coordenava as melhorias no software da moeda digital. Sem Nakamoto, todas as decisões da comunidade de programadores acontecem por unanimidade – uma receita para a paralisia. Atualmente, grupos brigam para saber quais serão os rumos do bitcoin. Mas se Nakamoto reaparecer, a moeda perderá um pouco da sua aura descentralizante, já que muito do sucesso da moeda virtual ocorre por conta da não existência de um líder.

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Como funciona uma transação com bitcoin

Carteiras e endereços 1

Luciana é uma lojista que pretende aceitar bitcoins e Alberto quer comprar um produto usando a moeda digital. Irão aproveitar a rede de bitcoins, semelhante a outras redes peer to peer (P2P, “entre pares”, em português) usadas no compartilhamento de arquivos musicais ou filmes.

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Luciana e Alberto adquirem carteiras de bitcoins, arquivos de computador capazes de gerar endereços de bitcoins (uma série de letras e números, em geral em torno de 33 caracteres). As carteiras são criadas após preencher um cadastro, em sites específicos na internet, por meio de aplicativos ou, ainda, programas de computador. Por essas carteiras (wallets), eles geram os endereços com uma chave privada, só acessível pelo dono da carteira, e uma pública, verificável por qualquer pessoa registrada na rede de bitcoins.

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Para obter a moeda virtual, Alberto criou um ou mais endereços. Informando um endereço, ele pediu bitcoins em sites criados para distribuir gratuitamente bitcoins doados por participantes do sistema, ou os comprou em uma corretora que os troca por dinheiro tradicional, ou ainda recebeu bitcoins em pagamento por alguma transação.

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Luciana, por meio do programa em sua carteira, cria um novo endereço (a sequência de números, como 1DkyBEKt5S2GDtv7aQw6rQepAvnsRyHoYM ), e o comunica, por e-mail ou por um QRCode, a Alberto, para que ele envie a ela o pagamento.

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Alberto pede ao programa de sua carteira para enviar os bitcoins, o que é feito automaticamente, associando os bitcoins ao endereço público e assinando a transação com a chave secreta registrada na carteira.


moeda eletrônica

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Para concluir a transação, ela precisa ser validada, o que é feita pelos mineradores (miners): usuários da rede, com computadores possantes capazes de realizar os cálculos matemáticos necessários.

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Hugo, Paulo e Olivia são mineradores; participantes da rede colaborativa e descentralizada do bitcoin, eles buscam na rede as transações efetivadas recentemente e checam para ver se a chave pública pertence a um emissor válido.

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Por meio de seus computadores, os mineradores competem entre si para tentar ser o primeiro a encaixar, por meio de criptografia, os dados da transação entre Alberto e Luciana na cadeia de blocos (blockchain) - uma espécie de registro público mantido na rede e informado a todos os participantes.

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Alguns minutos após a transação, o computador de Hugo consegue gerar um código criptografado que encaixa a transação em um bloco. A cadeia de blocos incorpora a transação entre Alberto e Luciana ao bloco, de uma maneira que torna virtualmente impossível alterar esse registro.

Como recompensa pela tarefa, Hugo ganha uma quantia em bitcoins, que poderá usar livremente como moeda.

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A transação entre Alberto e Luciana está, agora, visível a todos que, periodicamente têm atualizada em suas carteiras a informação sobre a cadeia de blocos com o registro de todas as transações já realizadas. Os dados públicos trazem informação sobre os momentos em que aqueles bitcoins foram utilizados, desde sua criação, mas não têm informações sobre a identidade real de Alberto ou Luciana, apenas a sequência de números que expressa os endereços gerados para a transação. revista Ciab FEBRABAN

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moeda eletrônica

Uma analogia para entender a quebra de paradigma trazida pelo bitcoin é pensar no Napster, o serviço de compartilhamento de música que causou calafrios na indústria fonográfica na virada dos anos 2000. Muitos serviços peer-to-peer foram realmente usados para pirataria, mas nos anos seguintes, essa tecnologia propiciou produtos como o Skype, o Spotify (streaming de música) e o próprio bitcoin. A base do bitcoin é a criptografia e o software de código aberto – permitindo que os programadores sejam livres para desenvolver aplicações como as descritas por Stocco e Oliveira. A criptografia desmembra uma mensagem só capaz de ser recomposta por quem tiver a chave criptográfica. Essa ferramenta associada ao segredo está sendo usada para dar mais liberdade e segurança às transações financeiras.

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Futuro De acordo com Stocco, do Banco Original, o futuro desse tipo de moeda é promissor: a possibilidade de rastrear as transações poderá resolver muitos dos problemas de governos e empresas no controle financeiro dessas movimentações. “Até os cartórios estão usando o sistema da blockchain para certificar a emissão de documentos”, exemplifica Stocco. A visão é compartilhada por Oliveira: “Quem sabe, no futuro, a gente não tenha dinheiro programável, gerido por algoritmos computacionais?”, indaga o também professor. Stocco também prevê uma maior uniformização do setor financeiro. “Muitas transações hoje são complicadas e, talvez por isso, burláveis, por haver muita discrepância nos critérios de regulação nas diversas partes do globo” avalia. “O uso do bitcoin aponta para uma maior facilidade nas transações.” No entanto, nem Stocco nem Oliveira apontam o fim de instituições financeiras. “Bancos proveem liquidez e isso é uma função que apenas os bancos são capazes de providenciar”, afirma Oliveira. Para o chefe de Inovação do Banco Original, a dificuldade de adoção do bitcoin decorre da sua proposta ambiciosa em revolucionar as finanças: o bitcoin está para a moeda digital como o DOS estava para os sistemas operacionais de computadores. Quando a Microsoft criou o Windows, um sistema operacional com interface visual, o uso de computadores pessoais finalmente deslanchou. A moeda digital tem tudo para ser sucesso também no Brasil, aposta Stocco. A população jovem e a massiva utilização da internet são dois fatores capazes de impulsionar esse sucesso. No entanto, a falta de capacitação técnica pode ser um entrave, lamenta o executivo. “A maioria das startups que lideram a inovação no setor estão nos EUA”, informa. n


evolução tecnológica em POS

Encostou, pagou Por Maurício Moraes

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cena tornou-se comum: o atendente apresenta a máquina de pagamento – conhecida tecnicamente como terminal POS, do inglês point of sale, ponto de venda –, o consumidor informa se usará cartão de débito ou de crédito, digita a senha e recebe o comprovante. Com essa praticidade, o país superou pela primeira vez, neste ano, o volume de R$ 1 trilhão em transações desse tipo. Em breve, no entanto, tudo isso poderá ser ainda mais simples e rápido. Bastará encostar o celular no terminal para pagar uma compra em frações de segundo. E todo o processo de baixa no estoque e contabilidade também vai ocorrer de modo automático. As famosas maquininhas preparam-se para um novo salto tecnológico. Hoje existem cerca de 4,4 milhões de POS no Brasil, uma rede considerada com uma das mais avançadas do planeta. “É uma indústria que, em 20 anos, se reinventou”, afirma Ricardo de Barros Vieira, diretor-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). No terceiro trimestre de 2015 ocorreram 2,9 bilhões de transações com cartão, a maioria delas realizada por esses terminais. A maior parte das máquinas já está preparada para transações sem a leitura física do cartão, por meio da tecnologia de Comunicação por Campo de Proximidade – em inglês, Near Field Communication, ou NFC. O sistema permite que um pagamento seja feito no momento em que se encosta o celular em uma das máquinas, de maneira semelhante à usada com bilhetes de plástico no transporte público de várias cidades. O desafio está em popularizar essa alternativa. “É um processo de aculturamento”, diz Vieira. “O

Raul Moreira, vice-presidente de Negócios de Varejo do Banco do Brasil, acredita que as pessoas também aprenderão a usar o NFC à medida que usarem cada vez mais os cartões virtuais

equipamento precisa estar preparado e os cartões, aptos a isso; depois, tem investimentos em treinamento, em divulgação e capacitação.” O sistema usa cartões virtuais, cujos dados ficam armazenados no telefone. Boa parte dos celulares vendidos no Brasil atualmente são smartphones com os sistemas operacionais Android e Windows Phone. Muitos desses aparelhos já possuem NFC. Logo, o que falta é fazer a ligação entre as duas pontas. É um processo que pode ser comparado à transformação ocorrida com o uso dos cartões com chip. “Não foi da noite para o dia, foi aos poucos: foram colocando equipamentos, emitindo cartões, e depois começaram a usar”, afirma o diretor-executivo da Abecs. “Hoje dificilmente alguém usa cartão sem chip nos grandes centros brasileiros; nos Estados Unidos, ainda se usa tarja magnética.”


Transações com a nova tecnologia já começaram a ocorrer, em uma escala pequena. O cartão virtual Ourocard-e, criado pelo Banco do Brasil, já foi usado em mais de 700 mil operações este ano. A instituição não divulga o número exato, mas revela que uma pequena parcela desses pagamentos foi feita por meio de NFC. “Se a transação foi abaixo de R$ 50, nem é preciso digitar a senha”, afirma Raul Moreira, vice-presidente de Negócios de Varejo do Banco do Brasil. “A operação é autenticada e segura, por meio da criptografia do celular.” Para o executivo, a massificação da tecnologia ocorrerá no longo prazo. Ele acredita que as pessoas também aprenderão a usar o NFC à medida que usarem cada vez mais os cartões virtuais. Essa mudança deverá ser capitaneada pelos consumidores mais jovens, abertos ao uso de inovações. “As pessoas que se interessam por

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Rogério Panca, diretor de Meios de Pagamento do Banco do Brasil, destaca que o uso do Ourocard-e em lojas físicas é simples e rápido: o tempo da transação chega a ser 70% menor se os valores forem inferiores a R$ 50 revista Ciab FEBRABAN

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essa novidade percebem que a utilização do Ourocard-e em lojas físicas é muito simples”, diz Rogério Panca, diretor de Meios de Pagamento do Banco do Brasil. Um dos principais atrativos é a rapidez. O tempo da transação chega a ser 70% menor se os valores forem inferiores a R$ 50. Nem sempre, no entanto, o NFC representa um ganho se comparado aos meios tradicionais. Em compras acima de R$ 50, por exemplo, é necessário utilizar senha, o que torna a operação parecida com o uso de cartões de plástico. “O grande desafio agora é começar a treinar os atendentes que operam POS que já aceitam NFC, para que eles compreendam esse novo tipo de transação”, diz Moreira.

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Na vanguarda das mudanças A adaptação a novos tipos de ferramenta costuma ocorrer com rapidez no país. Por isso, a expectativa é a de que o NFC comece a avançar com maior velocidade em 2016. “O que percebemos é que o Brasil lidera esses movimentos; é pioneiro em uma série de iniciativas quando falamos de tecnologia”, afirma Frederico Alves Souza, diretor da Rede. A empresa é a segunda maior no país em transações por cartões de débito e crédito, com R$ 93,9 bilhões capturados em 1,9 milhão de máquinas instaladas no terceiro trimestre de 2015. Na Rede, 100% dos terminais já estão preparados para aceitar pagamentos que usem NFC. “Mas o uso efetivo da tecnologia depen-


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de, entre outros fatores, da emissão dos cartões e da infraestrutura da internet”, diz Souza. “Quando estamos falando de tecnologia, temos que entender que sempre existe um processo natural evolutivo. Um exemplo clássico foi a mudança da tarja para o chip, por conta da segurança, que obrigou praticamente todos, emissores, bandeiras e adquirentes, a se ajustarem ao novo modelo.” Apesar das dificuldades iniciais, os terminais comportaram as duas tecnologias. Com o NFC, o processo é parecido - ou seja, as máquinas continuam a aceitar cartões tradicionais e trazem mais essa opção. A adesão aos pagamentos com celular vai ganhar força em múltiplas frentes a partir de 2016. De acordo com Pedro Coutinho, CEO da Getnet, a adoção da tecnologia está prestes a avançar no país, uma vez que a maior parte das máquinas está preparada para isso. “Acreditamos que os pagamentos com celular terão maior adesão tanto do consumidor como das partes envolvidas no ecossistema de pagamentos: bancos, adquirentes, bandeiras e lojistas”, afirma. “É uma tendência que irá se consolidar mais fortemente nos próximos anos.” Embora o número de transações com cartões de débito e crédito seja enorme, ainda há bastante espaço para crescer. Dados da Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária 2014 mostram que 60% da população brasileira é bancarizada. “Também há uma grande parcela da população que ainda utiliza dinheiro e cheques para pagamentos, e lojistas e profissionais autônomos que não aceitam cartões”, explica Coutinho. O crescimento econômico do país nos últimos anos levou o acesso a cartões a um número maior de pessoas nas classes C e D. O gasto mensal das famílias aumentou e, consequentemente, impulsionou a quantidade de

operações por POS. A Getnet registrou 1 bilhão de transações em 2014. O público jovem também trouxe a demanda pelo uso de smartphones para pagamentos, a experiência de compra multicanal, a necessidade de comparar preços pela internet e a consulta de reputação da empresa em rankings virtuais. “Com a chegada dos millenials, nascidos a partir dos anos 80, surge um novo comportamento digital, com novas necessidades de adequação para a indústria de meios de pagamento”, destaca o CEO da Getnet. “Esse novo perfil de consumidor tem levado a indústria a inovar e a processar as transações cada vez mais rápido.” Na Getnet, 99% das transações são aprovadas em até 1 segundo. revista Ciab FEBRABAN

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Uma transformação rápida m menos de três décadas, o POS passou por uma evolução acelerada. No final dos anos 80, os primeiros modelos usados no Brasil pareciam máquinas de escrever com uma impressora matricial do lado. “Essas máquinas ficavam no Sheraton, no Copacabana Palace, ou seja, em poucos estabelecimentos de grande porte e internacionais”, lembra Gustavo de Almeida Kruger Neto, presidente da Almeida Kruger, que mantém o Museu do Cartão de Crédito. Na década de 90, o tamanho dos aparelhos diminuiu bastante e a transmissão de dados passou a ser feita por telefone fixo. Mais tarde vieram as opções com envio de informações pela rede celular, por GPRS – uma rede de dados bem mais lenta do que as atuais. Hoje, começam a se popularizar as versões com conexão 3G e com wi-fi. Também é relativamente recente a adoção de POS que aceitam cartões com chip, algo ainda raro nos Estados Unidos. Outra tendência que começa a apontar é a transformação de smartphones e tablets em POS, por meio da conexão de pequenos dispositivos de leitura aos aparelhos. Entre as pioneiras nessa tecnologia está a startup Square, cria-

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Gustavo de Almeida Kruger Neto, presidente da Almeida Kruger

da por Jack Dorsey, um dos fundadores do Twitter. Têm se popularizado ainda as transações diretas por redes sociais e por meios de pagamento online, como o PayPal. Com a digitalização do dinheiro, a concorrência só vai aumentar.


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Máquinas mais inteligentes Além de incorporar o NFC, as máquinas POS vão se tornar muito mais inteligentes em breve. Novos modelos capazes de ampliar a automação comercial estão chegando ao mercado. Quando uma compra é feita nesses aparelhos, por exemplo, a informação é enviada digitalmente e já informa a mudança ao sistema que controla o estoque da loja e também à contabilidade. Tudo ocorre de maneira integrada e instantânea, trazendo eficiência para os lojistas. Nos terminais atuais, não há uma comunicação entre os diferentes sistemas. A Rede fechou uma parceria exclusiva com a Poynt, uma startup americana que criou um novo tipo de POS. “O chamado ‘smart terminal’ promete fazer pelas maquininhas o que o smartphone fez pelo celular, permitindo, inclusive, que o lojista instale diferentes aplicativos em sua

máquina para ajudar na gestão de suas vendas ou de programas de fidelidade”, diz Frederico Souza, da Rede. As novas máquinas contam com telas sensíveis ao toque e aceitam múltiplos meios de pagamento. Elas devem começar a chegar ao mercado brasileiro no início de 2016. Muito mais mudanças estão por vir. “O POS do futuro terá as funcionalidades de um celular ou tablet junto às de um POS tradicional, para que se integre a uma nuvem de dados e seja atualizado a partir dela”, afirma Pedro Coutinho, da Getnet. “Além disso, haverá modelos com tela touchscreen, que permitem uma melhor interação com o consumidor final e comunicação personalizada. E o que a indústria tem chamado de Smart POS, ou POS Inteligente, que, além das funcionalidades de meio de pagamento, permitirá novas integrações por aplicativos.” n revista Ciab FEBRABAN

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A Revista Ciab é a única publicação periódica com a marca FEBRABAN, distribuída diretamente para os principais executivos dos Bancos Brasile...

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