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Crônica: Henrique Lessa – henriquelessa.75@globo.com - http://www.reidoscaminhos.blogspot.com Ilustração: Pedro Celso

Beira de estrada

Frete Futebol Clube E

- Vamos fazer uma coisa. Eu levo vocês, mas não posso esperar o fim do jogo. – disse. - Tá..O motorista depois de consertar o ônibus vai nos pegar. E o teu preço? - Vou cobrar mil cruzeiros pra levar vocês até o campo. Tudo combinado, o time entrou no baú e toquei pra Areal. No campo fiquei sabendo que o melhor jogador do time tinha perdido o ônibus e estava vindo de carona. A partida, que valia uma linda taça, começou e resolvi assistir um pouco. Aos vinte minutos do primeiro tempo o time local vencia por 4 a 1. Mesmo assim, assisti até acabar o primeiro tempo, quando fui falar com o presidente do time: - O ônibus deve estar chegando. Estou indo embora... - Acabaram de avisar que a caixa de marcha quebrou e o motorista está esperando socorro da empresa.Vai demorar.Você podia levar a gente de volta pra Petrópolis? - Se vocês virarem o jogo no segundo tempo, levo o time pra casa e não cobro nada. Se vocês perderem, vou cobrar dois mil cruzeiros. Topa? falei, já pensando no lucro. O presidente do time ficou embatucado sem saber o que responder. Então, viu o seu melhor jogador chegar e conhecendo a fera, topou a aposta. Achei graça já prevendo o lucro do carreto e tive certeza disso, quando vi de perto o tal cracão: - É esse o melhor do time? Ele tem as pernas tortas ou estou enxergando mal? - Tem sim, respondeu o presidente. Mas ele joga muito. Você vai ver... Vai daí que o cracão entrou, deu o passe para dois gols e fez mais dois, um deles driblando até o goleiro, virando o jogo em 5 a 4, ganhando a taça e a volta do time para Petrópolis, de graça. Naquele dia, fui um dos primeiros Joões,“vítima”do talento de um jogador chamado, Garrincha, que mais tarde viria a encantar o mundo com a sua arte. l

scutei essa história, de um velho pescador na praia de Piratininga, em Niterói. Ele foi caminhoneiro e largou a estrada para se aventurar no mar. Não é por ele ser pescador e excaminhoneiro, que não vou acreditar na sua história. “Meu nome é João. Fui caminhoneiro por muitos anos. Um dia, descarreguei móveis em Juiz de Fora, e voltava vazio para o Rio de Janeiro quando vi o ônibus parado no acostamento, do outro lado da pista, com os passageiros em sua volta. Fui passando quando um dos passageiros, gritou: - Ei, motorista... Como bom caminhoneiro, parei no acostamento. Um passageiro atravessou a pista: - Será que o amigo podia nos ajudar?- perguntou - O que está acontecendo?perguntei - Nós somos de Petrópolis. Temos uma partida de futebol em Areal e o nosso ônibus quebrou. O motorista está tentando consertar, mas, pode demorar... - E o que eu posso fazer por vocês? - Quero saber se você está com o caminhão vazio... - Tô. Descarreguei em Juiz de Fora e vou pra casa, no Rio. - Não quer fazer um carreto levando a gente pra jogar? - Você sabe que não podemos carregar ninguém na carroceria? - Eu sei. Mas, a tua carroceria é baú e a gente vai quietinho dentro dela. - Tá! Quanto vocês vão me pagar? - Faz o teu preço que eu falo com o pessoal. - Se for cobrar o preço dos móveis que carrego, vai ficar um pouco puxado. Cobro um percentual do valor dos móveis. Quanto vale o teu time?- brinquei. - Pra nós vale muito. Mas, na verdade não temos muito dinheiro disponível. - Nem os times grandes, têm, né? Podemos fazer uma intéra... Então, lembrei do tempo que jogava futebol no meu bairro e fiquei com pena deles:

73 Caminhoneiro


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