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revista

EDIÇÃO

#02

O m e l h o r d e S a n ta C ata r i n a e d o m u n d o


4 BRAVÍ S S I MA


carta ao leitor

C

om muito entusiasmo, apresentamos a segunda edição da revista BRAVÍSSIMA. Ela tem o mesmo objetivo do Bravíssima Private Residence. Ou seja: reunir excelentes profissionais de cada área específica para, juntos, realizar um produto extremamente bem cuidado e proporcionar intensa satisfação. Assim como o Bravíssima Private Residence cuida de implementar um empreendimento de altíssimo padrão, respeitando em minúcias a natureza ao seu redor, também a revista BRAVÍSSIMA se esmera em colocar em prática um plano de leitura muito agradável, sem deixar de lado em momento algum o melhor do jornalismo: informações de qualidade, textos escritos por especialistas, fotografias de louvável apuro estético e paginação inovadora e irrepreensível. Se o projeto Bravíssima Private Residence conta com craques da arquitetura do quilate de Arthur Casas – por sinal, contemplado com um bem urdido perfil, assinado por Lyna Barbosa – e Benedito Abbud, também a publicação que o caríssimo leitor tem agora em mãos escalou um time de craques consagrados. As fotografias do ensaio de moda, por exemplo, foram feitas, com exclusividade, por ninguém menos que JR Duran. Já os textos de gastronomia, sobre as ostras de Santa Catarina e o caviar, têm a assinatura de Silvio Lancellotti. As duas reportagens de Lancellotti, por sinal, exemplificam a pauta geral desta edição. O intento foi seguir duas vertentes, com idêntico desvelo. De um lado, celebrar alguns dos muitos orgulhos de Santa Catarina, todos eles de âmbito internacional: as célebres ostras; as pousadas encantadoras; a reintegração ao meio ambiente dos papagaios-do-peito-roxo; a instalação de indústrias do porte da BMW e da Azimut; a pujança do Porto de Itajaí; o esmero na produção dos vinhos Pericó; a escalada do surfe regional. A outra vertente deste número de BRAVÍSSIMA consiste em brindar a alguns dos mais delicados prazeres do mundo: o caviar russo; os sapatos e as bolsas das principais grifes; a emblemática marca Gucci; as relíquias aéreas do Museu da TAM; os helicópteros Robinson (importados pelo empreendedor Dalvaro Ferreira Lima); os refinados espumantes da Cantine Ferrari; o principal shopping de luxo de Las Vegas; os grandes restaurantes de Paris, Milão, Nova York e Londres; as novidades da alta relojoaria. Enfim, uma edição de apaixonantes prazeres – incluindo o de morar bem à beira-mar. Boa leitura.

O Editor

5 BRAVÍ S S I MA


sumário 02 16 arthur casas

12 pelo mundo Hotéis escolhidos a dedo para você se hospedar como um príncipe em Milão, Veneza, Ilhas Maurício e Nova York

Conheça a vida e a obra deste arquiteto que desenha ambientes desde a infância

2 4 d a lva r o ferreira

3 2 g a b r i e l medina

Mais conhecido como Dalvinho, o proprietário da Power Helicópteros em Ribeirão Preto é um campeão de vendas

Aos 15 anos, o atual campeão mundial de surfe já deixava sua marca nas ondas da praia Mole, em Florianópolis

40 ecologia

73 b r av í s s i m a

Sem medo do desafio, o Instituto Espaço Silvestre assume a missão de salvar da extinção os papagaios-do-peito-roxo

Na praia Brava do Norte, em Itajaí, um empreendimento que celebra a arte de morar bem em meio à natureza intocada

48 azimut Com produção na fábrica de Itajaí a pleno vapor, estaleiro italiano celebra o primeiro barco de 83 pés feito em SC

58 bmw Ao abrir fábrica em Araquari (SC), a montadora alemã ganha mais combustível para desbancar rivais no segmento premium

6 4 p o u s a d a s de luxo Três refúgios catarinenses à beira-mar: estilo próprio com padrão internacional

94

moda

O verão está chegando. E JR Duran mostra como entrar com o pé direito na próxima estação


104 luxo

112

Entre sapatos e bolsas, grifes como Manolo Blahnik, Christian Louboutin e Valentino (foto) são as preferidas das fashionistas

O litoral catarinense sempre reserva surpresas. Uma das mais saborosas são as ostras, célebres em todo o país

ostras

118 roteiro Londres, Paris, Milão e Nova York. Confira nossa lista exclusiva dos melhores endereços para se comer bem nessas cidades

126 cantine ferrari Os espumantes da centenária casa italiana dão um toque especial às celebrações

134 vinícola pericó Entre os melhores produtores nacionais, a Pericó traz em seus rótulos a alma do terroir da serra de São Joaquim

142

surfe

Depois que gaúchos e cariocas desafiaram as ondas catarinenses, uma geração pioneira transformou o surfe em umas marcas registradas do estado

156 las vegas Em Nevada, na capital do entretenimento e do jogo, o The Shops at Crystals tem tudo num único endereço, exceto a modéstia

150 relógios Sob a forma de joias de pulso ou de modelos esportivos, a excelência da alta relojoaria suíça está presente nas boutiques brasileiras

162 museu ta m Vale a pena visitar esse verdadeiro santuário da aviação mundial em São Carlos, no interior de São Paulo

168 c av i a r Raras e sedutoras, as ovas do esturjão branco chegaram à gastronomia por acaso. Nada poderia ser mais divino

174 gu cc i

182 economia

188 memória

Marca com o puro DNA do made in Italy, a Gucci une elegância, esportividade, bom gosto e tradição inigualáveis

Segundo maior porto do Brasil, Itajaí projeta crescimento com a ampliação da sua capacidade. Um antídoto para tempos de crise

Em mais de 200 anos, o porto de Itajaí abriu a região para o mundo e desenvolveu a economia local


colaboradores Veja quem ajudou a fazer esta edição de Bravíssima

jr duran Ele nasceu Josep Ruaix na pequena Mataró, perto de Barcelona, e emigrou com a família para o Brasil em 1970. Aqui se transformou em JR Duran, lenda viva da fotografia nativa, o “fotógrafo das estrelas”, homem que clicou mais da metade de todas as capas da Playboy brasileira. Mas nem só de imagens vive esse catalão, aventureiro e viajante incansável. Ele vai além, como escritor, autor de uma trilogia de estimulantes romances policiais – Lisboa, Santos e Cidade Sem Sombras, que tem o porto de Macau como cenário. Nesta edição de Bravíssima, coube a Duran assinar o editorial de moda.

s i lv i o

marion

lancellotti

frank

Arquiteto, ele foi aluno de Lina Bo Bardi. Como jornalista, ajudou a fundar as revistas Veja e Isto É. Mantém um blog sobre esportes no portal R7. E cozinha desde criança, levado ao fogão pelas mãos do pai. Um dos nomes mais respeitados da cena gastronômica brasileira, dono de um conhecimento enciclopédico, Silvio Lancellotti nos brinda nesta edição com dois textos suculentos – a história do caviar, as raras e caras ovas do esturjão do mar Cáspio, e as ostras de Santa Catarina, hoje um padrão de excelência para quem aprecia os melhores frutos do mar.

Amazona tarimbada, ela tem paixão pelos cavalos. Tanto que cumpriu grandes travessias ao longo da lagoa dos Patos (RS) e nas trilhas da Galiza, Espanha, trotando pelo caminho de Santiago de Compostela. Marion passou diversos anos no jornal O Estado de S.Paulo e hoje colabora com a MIT Revista e a The President, em São Paulo. Sua obsessão pelos detalhes e pela correção da informação denota a ascendência alemã. Versátil, neste número ela fala das delícias do consumo em Las Vegas, nos Estados Unidos. E sobre os não menos deliciosos hotéis de luxo no litoral catarinense – Felissimo, Ponta dos Ganchos e Quinta do Bucanero.

marcello borges Os amigos de Marcello costumam dizer que ele se parece com um lorde do Almirantado britânico. E não sem razão. Profundo conhecedor de relógios, bebida e charutos, este paulistano discorre com a mesma fleugma e elegância sobre temas tão diversos quanto a obra de Ian Fleming – o criador de James Bond – ou a caça aos patos selvagens na Escócia. Cofundador da revista Pulso, formado em direito pela velha Academia do Largo de São Francisco e professor da Associação Brasileira de Sommeliers, ele assina aqui a história do espumante italiano Giulio Ferrari e dos vinhos da vinícola catarinense Pericó.

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marcio

Lu c i a n a Z o n ta

s i lva n a assumpção Carioca da gema, nascida em Copacabana, e paulistana por adoção, Silvana trabalhou no Jornal da Tarde e nas revistas Veja, CartaCapital, Forbes e The President, da qual foi diretora de redação. Cobriu durante anos as áreas de negócios e economia, entrevistando protagonistas como Roberto Setubal e Abílio Diniz. Isso a credenciou para escrever sobre a grife italiana Gucci, um dos gigantes do mundo da moda, bem como sobre o fascínio que bolsas e sapatos de marcas icônicas – Chanel, Prada, Jimmy Choo, Dior – exercem sobre a alma feminina.

jumpei

Luciana Zonta é jornalista por opção (formada pela Universidade do Vale do Itajaí), viajante por vocação e catarinense da gema por destino. Gosta de gente, de fotografia e de livros e curte escrever sobre quase tudo. Em especial, sobre portos (escreveu a reportagem sobre a força econômica do Porto de Itajaí desta edição), praias, arquitetura e gastronomia. Entre uma pauta e outra, é mãe de Davi e aprendiz de fotógrafa. Ao longo de oito anos trabalhou no Jornal de Santa Catarina, da RBS. Hoje é empresária (com MBA executivo em Estratégias Empresariais), sócia do Jornal de Santa Catarina, da RBS.

W ALTERSON SARDENBERG S º Ele é um dos mais competentes e respeitados jornalistas brasileiros, graças à precisão de seu texto e ao bom humor contagiante. Berg, como é mais conhecido, já passou pelas redações de Manchete, Placar,, Próxima Viagem. Roqueiro de carteirinha, é ainda amante de viagens para lugares exóticos, como as ilhas Fiji. Além de cuidar da chefia de reportagem e da edição deste número, ainda encontrou tempo para escrever sobre o Instituto Espaço Silvestre em Itajaí. Uma ação ambiental da empresária Ligia Jahn e da bióloga Vanessa Kanaan para salvar os papagaios-do-peito-roxo.

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Márcio “Crazy Jap” Jumpei é um portento da natureza. Nascido em Votuporanga, interior paulista, o publisher da revista de aviação e estilo de vida HiGH cuida da parte comercial, fotografa, escreve, edita – e ainda testa motos, carros e aviões. Impagável contador de piadas e piloto veterano, ele teve o privilégio de comandar os mais variados tipos de aeronaves, de monomotores agrícolas a caças supersônicos. Ninguém mais capacitado, portanto, para descrever a saga aérea de Dalvaro Barbosa Ferreira Lima, o Dalvinho, proprietário da Power Helicópteros.


expediente

CONSELHO EDITORIAL José Carlos Trossini Presidente da Taroii Investment Group Carlos Alberto de Moraes Schettert Presidente da Nex Group

PUBLICIDADE Diretor executivo André Cheron andrecheron@customeditora.com.br diretor comercial Oswaldo Otero Lara Filho (Buga) oswaldolara@customeditora.com.br Gerentes de Publicidade e Novos Negócios Marco Taconi marcotaconi@customeditora.com.br Fernando Bonfá fernandobonfa@customeditora.com.br

publishers André Cheron e Fernando Paiva REDAÇÃO Diretor editorial Fernando Paiva fernandopaiva@customeditora.com.br diretor editorial adjunto Mario Ciccone mario@customeditora.com.br redator-chefe Walterson Sardenberg So berg@customeditora.com.br Repórter Juliana Amato julianaamato@customeditora.com.br digital Renata Silvestre renatasilvestre@customeditora.com.br

ADMINISTRATIVO/FINANCEIRO Analista financeira Carina Rodarte carina@customeditora.com.br Assistente Alessandro Ceron alessandroceron@customeditora.com.br

ARTE DiretorA Mariana Manini marianamanini@customeditora.com.br editor Guilherme Freitas guilhermefreitas@customeditora.com.br assistente Raphael Alves raphaelalves@customeditora.com.br prepress Daniel Vasques danielvasques@customeditora.com.br

CTP, impressão e acabamento Intergraf

Custom Editora Ltda. Av. Nove de Julho, 5.593, 9º andar, Jardim Paulista São Paulo (SP) – CEP 01407-200 Tel. (11) 3708-9702 www.customeditora.com.br

PROJETO GRÁFICO Mariana Manini COLABORARAM NESTE NÚMERO Texto Carla Lencastre, Cristiano Rigo Dalcin, Gilberto Ungaretti, Joca Baggio, José Eduardo Mendonça, Luciana Zonta, Lyna Barbosa, Marcello Borges, Marcio Jumpei, Marion Frank, Mauro Marcelo Alves, Silvana Assumpção, Silvio Lancellotti Fotografia Adriano Gambarini, JR Duran Tratamento de imagens Felipe Batistela Revisão Goretti Tenorio

ATENDIMENTO AO LEITOR atendimentoaoleitor@customeditora.com.br Tel. (11) 3708-9702 www.customeditora.com.br

Bravíssima Private Residence Av. José Medeiros de Vieira, 500 Praia Brava Norte • Itajaí, Santa Catarina • CEP 88306-800 Sugestões e comentários revista@bravissima.com.br www.bravissima.com.br

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P E LO M U N D O

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HOT SPOTS Hospitalidade asiática em palazzo milanês, serenidade em Veneza, respeito ao meio ambiente em Nova York e influência oriental na África estão entre as apostas mais recentes da hotelaria de alto luxo

por

Carla Lencastre

L U XO O R I E N TA L , D E S I G N I TA L I A N O No dia 30 de julho, foi inaugurada a

minutos de caminhada do Duomo, da

no novo aeroporto de Doha e os hotéis

esperada filial italiana da rede asiática

Galleria Vittorio Emanuele, do Teatro

Bvlgari de Milão e Londres.

Mandarin Oriental. O momento não

alla Scala e da Via Montenapoleone. O

Os 104 quartos e suítes distribuídos em

poderia ser melhor: com a Expo Milano

hotel ocupa quatro prédios do século

cinco andares têm piso em tacos de

2015, até o fim de outubro, a capital da

18 e alia o tradicional luxo oriental ao

madeira e decoração em estilo clássico,

moda e do design italianos espera bater

design italiano contemporâneo, em um

com tons de preto, branco e bege. O pé-

o recorde anual de visitantes e receber

projeto do badalado escritório Antonio

direito varia de acordo com o andar. Os

20 milhões de pessoas. O novo MO

Citterio Patricia Viel Interiors, que tem no

pavimentos mais baixos têm teto mais

Milão fica no Centro, a menos de dez

currículo os lounges da Qatar Airways

alto: ali residia a aristocracia em gerações

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passadas. Nos andares mais altos, onde moravam os empregados, o pédireito é um pouco mais baixo. Amplas janelas no quarto andar e no quinto compensam a diferença de altura. Antonio Guida, chef premiado com duas estrelas Michelin pela cozinha do hotel Il Pellicano, na Toscana, e discípulo do francês Pierre Gagnaire, comanda o restaurante Seta. Tanto o elegante restaurante como o animado bar com chão e paredes de mármore preto e branco oferecem acesso aos belos

Os pátios internos do Mandarin

pátios internos do hotel.

são de século 18. A decoração dos quartos, contemporânea

Mandarin Oriental, Milão. Via Andegari 9. Tel. +39 02 8731 8888.

GOLFE NO OCEANO ÍNDICO Depois de seis meses fechado para reformas em todos os quartos e nas áreas comuns, o emblemático Le Touessrok, nas ilhas Maurício, tem sua reabertura marcada para novembro com a bandeira da rede de luxo asiática Shangri-la. São 200 quartos e suítes, todos com vista para o oceano Índico, na baía Trou d’Eau Douce. Há uma piscina somente para adultos, um spa com dez salas de tratamento, quatro restaurantes e um bar. Le Touessrok vai continuar oferecendo acesso exclusivo à Ilot Mangénie e também à Ile aux Cerfs, onde fica o campo de golfe cercado pelo mar. O design é do campeão alemão Bernhard Langer. Shangri-La Le Touessrok Resort & Spa, Ilhas Maurício. Trou d’Eau Douce. Tel. +230 402 7400.

O Shangri-La, nas ilhas Maurício, é o próprio Éden — e todo reformado

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PELO MUNDO

U M A I L H A PA R A C H A M A R D E S UA Não há muito espaço em Veneza para

gratuitamente, o dia inteiro.

surgir um novo hotel, ainda mais um

O resort reúne 250 quartos repletos

resort com piscina. Mas o JW Marriott

de luz natural, um spa que se anuncia

encontrou uma ilha para chamar de

como o maior de Veneza, piscina ao

sua na Laguna di San Marco, a apenas

ar livre com uma vista para a laguna

20 minutos de barco da Piazza San

e a Piazza San Marco, restaurante

Marco, e inaugurou em março seu

panorâmico, centenas de oliveiras e

Venice Resort & Spa. Um dos hotéis

roseiras, pomar e horta. A gastronomia

de luxo mais aguardados deste ano,

tem a grife de Giancarlo Perbellini, chef

o primeiro estabelecimento do grupo

baseado em Verona com duas estrelas

americano na Itália fica na Isola delle

Michelin. No cardápio, destaque para

Rose, uma ilha artificial do século 19,

a polenta com bacalhau, duas iguarias

com 16 hectares de área. Parte do

clássicas da cozinha veneziana.

hotel ocupa um hospital do início do século passado. O trajeto entre o hotel e a Piazza San Marco é oferecido

O Marriott de Veneza fica dentro de um lago, a 20 minutos de barco da Piazza San Marco

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JW Marriott Resort & Spa, Veneza. Isola delle Rose, Laguna di San Marco. Tel. +39 041 296 811.


1 Hotel: ecológico em todos os detalhes

T udo v erde em N o v a Y or k “A 1 Hotels não é uma marca. É uma

uma quadra do Central Park, de

cada aposento foram criados com

causa.” Quem diz é o fundador da

quem emula o verde. Tudo foi bolado

antigos pregos e moedas. Uma vez

rede hoteleira americana, Barry

para proteger o meio ambiente.

por mês, as luzes das áreas comuns

Sternlicht, criador de outra cadeia

A começar, claro, pelas fontes

são desligadas e o hotel é iluminado

de renome, a W. Ele se refere a uma

energéticas. Os detalhes assombram.

por velas. Recados são escritos em

proposta inédita: montar a mais

No lobby, há sempre produtos

quadros-negros, para evitar gastos

ecológica de todas as redes de luxo.

orgânicos gratuitos para os hóspedes.

com papel. Deu tão certo que vem aí

O primeiro hotel da marca surgiu

Cada um dos 229 quartos tem

mais um hotel da rede, também em

em South Beach, Miami, em abril.

tapete para ioga e é decorado com

NY, o Brooklyn Bridge Park.

Inaugurado três meses depois, o 1

madeira recuperada e trabalhada por

Hotel de Nova York fica a apenas

artesãos. Os números na porta de

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1 Hotel New York. Sixth Avenue, 1414, Manhattan. Tel. +1 212- 703-2001.


Jhonatan Chicaroni

perfil

16 BRAVĂ? S S I MA


talento precoce “A arquitetura já nasceu comigo”, diz Arthur Casas, que projeta imóveis desde criança. Conheça a vida e a obra deste mago das pranchetas

por

Ly n a B a r b o s a

17 BRAVÍ S S I MA


perfil

Q

uem entra no estúdio de Arthur de Mattos Casas, no elegante bairro de Higienópolis, em São Paulo, não tem vontade de sair. Projetado pelo arquiteto de 54 anos, o lugar dá mostras da boa e sábia arquitetura: promover o bem-estar, o conforto e a sensação de harmonia plena. Dono de uma invejável trajetória profissional traçada desde que saiu dos bancos da tradicional Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 1983, Arthur cruzou fronteiras brasileiras, atravessou os mares e esparramou sua filosofia do bem viver nas concepções dos espaços de moradia, trabalho, lazer e urbanismo. Diz ele: “A arquitetura de um lugar precisa contar uma história, oferecer referências e dialogar com o entorno para, assim, acolher quem nele habita ou esteja por ali de passagem”. Procede. Uma das mais perfeitas traduções dessa atitude é o projeto arquitetônico das residências e do design de interiores dos apartamentos das dez torres que integram o condomínio Bravíssima, em Itajaí, Santa Catarina. “No desenho das casas, aproveitamos ao máximo a topografia do terreno, encaixando-as de forma a trazer a natureza para o interior e aproveitar a bela vista que se tem do mar”, conta. “Utilizamos também materiais que mimetizam um pouco a mata, como a madeira, a pedra e o tijolo.” No projeto de interiores do condomínio horizontal, a linguagem deu-se nos mesmos moldes. “O design foi pensado para afinar-se com as linhas do projeto construtivo.” Sim, a postura multidisciplinar de Arthur de Mattos Casas ao desfilar por diferentes universos dessa relação do homem com o meio em que habita é algo incansável. Arthur Casas desenhou o pavilhão A cabeça não para de funcionar. Não suporta a mesmice. brasileiro para a Expo Milão de 2015. Em seu olhar, a arquitetura desdobra-se, desnuda, revira e Uma malha sustentada por cabos remexe dentro dos mais diferentes usos. E, em cada uso, de aço oscila entre zero e 5 metros surge outra montanha de soluções até encontrar o limiar de altura por onde caminham os perfeito de sua criação – que, claro, deve ainda atender visitantes. Abaixo desse piso inclinado, aos anseios do cliente. “Não consigo ver a arquitetura diversas espécies da flora tropical como um assunto só”, diz. “Gosto da diversidade.” Sempre foi assim. Quando criança, aos 7 anos, ele passava horas desenhando casas. Era a diversão preferida do menino. “Naquela época, nos anos 1960, estavam em completa efervescência os bairros projetados pela Companhia City de São Paulo”, ele relembra, com especial apreço pelas casas sem muros, as calçadas ajardinadas, as ruas arborizadas. Arthur morava na City Lapa, numa casa projetada por um bom arquiteto, e gostava de observar as construções ao redor. “Era uma arquitetura para ser vista. Hoje os altos muros, infelizmente, precisam esconder tudo”, lamenta. E emenda: “A arquitetura já nasceu comigo”.

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BRAVร S S I MA

Raphael Azevedo Franรงa


perfil

E nasceu mesmo. Arthur respira o tempo todo o traço, a forma, os ângulos, os materiais, a inserção do ser humano no espaço. Com o olhar sempre aventureiro, vasculha um mundo de referências e cria uma espécie de biblioteca mental. Às prateleiras dessa biblioteca soma-se o seu fascínio pelos princípios da escola Bauhaus, fundada na Alemanha em 1919 pelo arquiteto Walter Gropius, que unificou disciplinas como arquitetura, escultura, pintura e desenho industrial. “A Bauhaus revolucionou o design e a arquitetura ao buscar formas e linhas simplificadas, retas e puras”, explica. É tudo o que Arthur mais valoriza em suas criações: uma construção limpa, com aberturas amplas, sem muitas paredes internas, livre de excessos para que o cliente ali coloque suas memórias, cores e histórias. “Afinal, a casa é o homem e o homem é a casa”, acredita. “Um se torna a extensão do outro.” Para Arthur a concepção de um projeto – resiEle sempre valoriza dencial, comercial ou urbanístico – é um momento as linhas retas, a de grande conflito até se chegar à resposta que o faça sentir pleno com o objeto de criação. “Mas não sou construção limpa, de devaneios”, avisa. “Sou muito objetivo.” A objecom aberturas tividade, porém, tem algumas premissas. Arthur não amplas, sem muitas gosta de conversar com ninguém enquanto processa a ideia. Prefere fazer os primeiros rabiscos em casa, paredes internas. em São Paulo, ou na praia. Mas garante que, quando Enfim, livre de foca no projeto, leva no máximo um dia para o nasexcessos, como cimento da criação. “Geralmente ela surge enquanto durmo”, conta. “Brota do sonho; no dia seguinte, coensina a bauhaus loco os primeiros traços no papel assim que acordo.” Arthur é um nostálgico quanto a alguns métodos. “Gosto de desenhar na prancheta”, diz. “Ela ainda é minha companheira”, continua o arquiteto, que hoje reúne um talentoso time de cerca de 40 arquitetos no escritório. Uma moçada criativa e antenadíssima com a alta tecnologia. Muitas vezes o insight surge com uma proposta bem diferente daquilo que foi pedido pelo cliente. E, para surpresa de Arthur, o cliente aprova com a seguinte frase: “Mas era exatamente isso que eu queria!” Psicologismos à parte, pode-se dizer que a sensibilidade do arquiteto enxerga por detrás das palavras do cliente. É a leitura feita nas entrelinhas durante as conversas para se discutir o projeto. A relação que Arthur de Mattos Casas estabelece entre a arquitetura e o design do mobiliário vem de longe. Sua carreira começou com a criação de móveis na década de 1980. “Eu criava, produzia e vendia na minha loja”, conta. Já na década seguinte, o traço da arquitetura propriamente dito começou a pulsar mais forte.

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Babi Carvalho

Babi Carvalho

Nas duas imagens acima, o décor para um apartamento na cidade de Nova York. À elegante Hotel Emiliano, na rua Oscar Freire, em São Paulo. Abaixo, uma de suas mais festejadas realizações recentes: o restaurante

Tuca Reinés

Tuca Reinés

esquerda e à direita, ambientes criados para o

instalado na avenida Juscelino Kubitschek

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Leonardo Finotti

Leonardo Finotti

paulistano de cozinha franco-italiana Kaá,


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A produção de cadeiras e mesas deu lugar a projetos de casas que atiçavam até os olhares mais distraídos. Daí para diante a inquietação do arquiteto abraçou o mundo. Em 2000, ele pegou um voo para Nova York com a missão e a determinação de abrir um escritório por lá. A batalha foi grande. “A economia brasileira estava bem ruim, como está hoje”, relembra. “Resolvi cavar mais um espaço.” Não foi fácil. Os Estados Unidos também entraram em crise. “Como sou persistente e insistente, mantive o escritório”, conta. “E hoje, posso dizer, ele vai muito bem.” Segundo Arthur, o americano valoriza bastante a arquitetura brasileira. De São Paulo e Nova York, Arthur pilota projetos em Tóquio, Londres e Buenos Aires, entre outras cidades, sempre com sua marca inconfundível: a visão holística da arquitetura, na qual o projeto, o homem e o ambiente são colocados no centro das criações. Embora sua lista de prêmios e de concursos seja extensa, o arquiteto observa: “Adoro uma premiação, mas fico muito mais feliz quando o escritório ganha um concurso”. E explica: “No concurso, o escritório não é identificado, somos apenas um número. O júri não sabe quem assina. Ou seja, existe mais isenção. Já na premiação, a banca sabe quem é quem, o que pode influenciar a votar num escritório já consagrado”. Nos últimos anos o Studio Mattos Casas venceu grandes concursos, como o da requalificação dos três Largos do Pelourinho, em Salvador, Bahia; o da construção do Campus Cabral, em Curitiba, da Universidade Federal do Paraná (UFPR); e o do Pavilhão Brasileiro para a Expo Milão 2015. A irmã de Arthur guardou e mandou No currículo do arquiteto, os livros dão voz enquadrar os desenhos que o garoto fez às suas obras. Em 2007, lançou São Paulo na Arquiaos 9 anos, em 1970. Como este, acima. tetura de Arthur Casas, que explora a relação de seu Ao lado, o arquiteto hoje, como gosta de trabalho com a cidade. O livro é organizado em trabalhar: desenhando na prancheta quatro capítulos, cada um com uma característica típica da metrópole paulista – Modernismo, Cosmopolismo, Caos Urbano e Detalhismo. Esgotou-se rapidamente nas livrarias. Em tempo: saindo do forno pela editora espanhola Polígrafa, a obra ganha mais 400 páginas, recheadas de fotos, croquis e desenhos. “O lançamento está previsto para outubro”, comemora. E é para comemorar mesmo. Afinal, a alma dos projetos que saem da mente de Arthur Casas credita um valor imensurável à relação de valor do homem com o seu habitat, com o chão e o teto que nos protege.

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perfil

Hangar da Power Helicópteros em Ribeirão Preto, SP

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O grande

VOO de Dalvinho

Veja como o paulista Dalvaro Barbosa Ferreira Lima se tornou um campeão de vendas de helicópteros

por

Marcio Jumpei

Fabio Codato

Fotos Power Divulgação

25 BRAVÍ S S I MA


perfil

‘P

or que sair de Ribeirão Preto?”, ele meros para se orgulhar. “De lá para cá, vendemos mais de pergunta. “Gosto daqui. Fui criado 800 helicópteros”, calcula Dalvinho. Na última década, a aqui. Tenho uma qualidade de vida empresa abriu o leque para aviões. “Comercializamos por que não teria em uma grande capital.” volta de 50 jatos executivos”, conta, ressalvando que o forQuem fala assim, decidido, é Dal- te ainda são os helicópteros da Robinson. Podem ser os varo Barbosa Ferreira Lima, um dos R44 e R44 Raven II (para quatro ocupantes) ou o R66 empresários que mais vendem aero- (de cinco lugares), este último movido a turbina. O contrato com a Robinson, no entanto, não é de exnaves no Brasil. Em especial, helicópteros. Sim, Dalvaro, ou Dalvinho, como os amigos o chamam, é um dos principais clusividade. A Power também vende helicópteros de outras responsáveis por a cidade de São Paulo ter a maior frota con- marcas, como os AirBus e o AgustaWestland. E se você quicentrada desses veículos voadores no planeta – cerca de 400 ser comprar um jato executivo Cessna Citation ou Embraer, unidades. No comando da Power Helicópteros, ele foi por novo ou usado, também é com a empresa de Dalvinho. Pudera. A estrutura da Power, três anos seguidos o campeão de veninstalada no aeroporto Dr. Leite Lodas mundial da Robinson. Conhece? pes, em Ribeirão Preto, tornou-se Trata-se do maior fabricante mundial Durante três anos extensa o suficiente para oferecer não desses bólidos para uso civil. Está insele foi o principal apenas vendas, mas também trabatalado em Torrance, na Califórnia, Eslhos de manutenção e instrução. O tados Unidos. vendedor de hangar tem 5 mil metros quadrados, “Ganhei o prêmio de 2011 a helicópteros da com confortáveis salas para passagei2013”, conta o paulista de 54 anos. Robinson, o maior ros e tripulantes. E, ainda, espaço de “A crise geral diminuiu esse faturasobra. Não à toa, a empresa também mento, mas continuamos vendendo fabricante desses é especializada em manutenção de bem”, diz. Instalada em Ribeirão bólidos para uso modelos da família AirBus Esquilo e Preto, a 316 quilômetros da capital, civil. Uma proeza EC130. O cliente conta ainda com a desde o início da década de 1990, a assessoria para a compra de equipaPower Helicópteros, de fato, tem nú-

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Da esquerda para a direita: Ronaldo Crissiuma (Columbia Trading), Dalvinho, Eduardo Marson (Helibras) e Altamiro Bezerra (Neymar Sport e Marketing). Abaixo, os Robinson

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Andre Hawle

perfil

O logotipo da poderosa Power, pintado na carenagem das aeronaves, costuma ser mantido intato pelos compradores. Como ocorreu com Neymar, pai do craque — ele aparece com Dalvinho na foto acima à esquerda. A Power acabou virando uma grife

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da Baleia, litoral norte de São Paulo. Um dos quatro motores da aeronave A vida de dalvinho pegou fogo, obrigando o pouso no mar, mas bem próximo da praia. Graças à é oferecer aos destreza do piloto, ninguém saiu ferido. compradores em Depois de uma bem-sucedida carreipotencial o que ra na Varig, Dalvaro pai fundou uma companhia aérea, a Horizonte Aviação, ele mais Ama neste em Ribeirão Preto. mundo: o prazer de “Voei com ele desde moleque, voar. Seu hobby é o que foi maravilhoso. Tirei o meu brevê aos 18 anos”, conta Dalvinho. pilotar helicópteros No entanto, relembra que a Power foi obra de seus próprios esforços. “Toda a ideia da empresa saiu da minha cabeça, comecei do zero”, diz. Aos 18 anos, Dalvinho Influência paterna Ele teve a quem puxar. Seu pai, Dalvaro Lima, viveu uma foi estudar nos Estados Unidos. “Morei por lá durante dez bela história na aviação. Tirou o brevê em Taubaté (SP) e, anos”, explica. Primeiro, na Califórnia. “Montei uma emdurante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), alistou-se presa para receber turistas”, recorda-se. Depois, foi residir na Força Aérea Brasileira (FAB). Voou em missões de pa- em Waikiki, na ilha de Oahu, Havaí. “Passei a trabalhar trulhamento da nossa costa e chegou a fazer curso de caça com vendas de jet skis e, quando a importação voltou a ser nos EUA, mas a guerra terminou antes que fosse combater permitida no Brasil, no comecinho dos anos 1990, retorna Itália. Seguiu a carreira militar como instrutor de voo no nei ao país. Achei que era um bom momento.” No Brasil, Dalvinho continuou vendendo jet skis. SoCampo dos Afonsos (RJ). Logo passou para a aviação comercial, como comandante da Real Aerovias. Em 1957, virou bretudo da marca Kawasaki. Mas a paixão por voar fez notícia quando teve de pousar um Douglas DC-4 na praia com que mudasse de ares. “Abri uma escola de pilotos de mentos opcionais, como rádios e aviônicos, além de serviços como gerenciamento e logística de voo. Com seu jeito simples, Dalvinho, um interiorano típico no linguajar, pode não parecer um grande negociante à primeira vista. Mas não só é um empresário extremamente hábil como também um homem que ama o que vende: o prazer de voar. “Meu hobby é helicóptero”, revela. “Minha carteira soma 10 mil horas de voo como piloto, contando aviões e helicópteros. Só de ultraleve são 3 mil horas.”

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perfil

sequentemente, sempre há carros ou embarcações premium sendo expostos. bom de marketing, Dalvinho também é um expert em maele transformou rketing. Tem faro. Não raro, as aeronaves que sua equipe vende são entregues suas festas de com um enorme logotipo da Power aniversário estampado nas laterais. E ninguém o em megaeventos remove. Virou grife. Em 2013 em plena Labace, a maior longe dos centros feira da aviação executiva da América urbanos, em que Latina, que acontece em São Paulo, lá pousam mais de 100 estava Dalvinho entregando as chaves de um helicóptero Airbus EC130B4 helicópteros para o empresário de ninguém menos que Neymar. O craque do futebol acabara de assinar com o Barcelona. “Ficamos amigos”, diz Dalvinho. Para a Power foi um gol de placa. Tempos depois, Neymar também fechou a compra de Amigo de Neymar A festa acontece numa propriedade de Dalvinho perto de um Embraer Phenom 100E e agora, em 2015, de um CesDelfinópolis (MG), na serra da Canastra. O quórum é sem- sna Citation Sovereign. O Phenom, usado para voos mais pre muito bom, claro, com muita gente aterrissando com as curtos, está avaliado em US$ 4,4 milhões. O Sovereign, com suas próprias aeronaves – a maioria vendida pela Power. Para maior raio de ação, ano 2010, vale cerca de R$ 35 milhões. os convidados que não têm como chegar voando, é coloca- Ambos foram negociados por intermédio da Power. Graças da à disposição uma ponte aérea ligando o evento a Ribeirão à popularidade do astro, a foto do jogador de futebol sentaPreto e outras cidades da região. Numa dessas ocasiões, a con- do na escada do seu Phenom 100E ganhou o mundo. Com tagem da frota pousada passava dos 100 helicópteros. Con- o logo da Power bem ao lado. helicópteros. Também oferecia voos panorâmicos”, diz. “Só mais tarde passei para manutenção e vendas.” Tornar-se campeão de vendas de helicópteros longe das capitais, em uma área mais propícia ao agronegócio, pode ser algo impossível para muitos. Mas não para Dalvinho. Pai de Marcelo (25 anos, que mora no exterior), Tatiana (24, que trabalha na Power) e de Giovana e Luana (8 e 6 anos), Dalvinho é daqueles que conquistam o cliente com sua prosa tranquila. Ele sabe ser aguerrido nas negociações. Por conta disso, até transformou seu aniversário em evento corporativo.

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Uma das celebrações de aniversário de Dalvinho em sua fazenda em Delfinópolis (MG) — ele aparece na foto no alto à direita, na companhia do empresário e ex-piloto de automobilismo André Ribeiro. A infraestrutura montada impressiona, com exposição de grandes marcas de carro, bufês de altíssimo padrão e vinhos dos melhores produtores. Visto do alto (a bordo de um helicóptero, claro) tudo impressiona ainda

Fabio Codato

mais. Repare na quantidade de tendas

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perfil

Dá-lhe,

garoto! A ascensão de Gabriel Medina, fenômeno do surfe internacional, foi marcada pelas ondas de Santa Catarina

por

Cristiano Rigo Dalcin

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O garoto paulista tornou-se campeão

Divulgação

mundial aos 20 anos

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perfil

G

abriel Medina tinha somente 15 anos quando assombrou a praia Mole, em Florianópolis, ao vencer o ídolo local Neco Padaratz em 2009. Tratava-se da final de um evento internacional da então chamada Associação dos Surfistas Profissionais (ASP) – a atual World Surf League (WSL). Se aquele garoto começava a chamar atenção da mídia especializada, para a família a vitória representou apenas o resultado do talento aliado à determinação. Gabriel estava fadado ao sucesso. A mãe, Simone, e o padrasto, Charles Rodrigues, perceberam o dom quando o menino venceu sua primeira competição, aos 11 anos, em Búzios, no litoral do Rio de Janeiro. “Pelo visto, temos um atleta de ponta

em casa”, comentou Simone na ocasião. Em seguida, outras vitórias vieram e o casal teve uma séria conversa com o garoto. “Perguntamos se ele sonhava em competir ou se preferia levar uma vida normal, buscar uma profissão e ter o surfe como lazer”, diz Charles. “Quero ser campeão do mundo de surfe”, sintetizou o garoto. O caminho para chegar ao topo começou a ser traçado pelo casal, com uma rígida disciplina imposta por Charles, que também é o técnico e atua como caddie (responsável pelas pranchas reservas) durante as etapas do circuito mundial. Determinado a ter de 10 a 12 horas de sono por dia, o surfista procura dormir sempre antes das 22h. Acorda cedo para se dedicar a um intenso treino físico pela manhã e a duas sessões de surfe diárias. Tudo isso é importante, mas não explica o sucesso meteórico. “Tem muito a ver com o talento fora do

comum dele”, destaca Charles. Simone completa e ressalta a educação oferecida ao filho: “Gabriel foi criado dentro de princípios que estão um pouco esquecidos hoje em dia. Respeito, acima de tudo. Nunca vi meu filho se gabar de uma manobra”, conta. A família foi peça fundamental no caminho que culminou com o título mundial em 2014. Paulistano, Charles é pai de Sofia – e padrasto de Felipe e Gabriel. Em uma de suas viagens para a praia de Maresias, município de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, para pegar onda, Charles arranjou emprego em uma pizzaria e ficou por lá sem suspeitar do que o destino lhe reservava. A história de Simone, mãe de Gabriel, é parecida. Também paulistana, ela se mudou para Maresias, em busca dos famosos “tubos”. Era surfista. Eles começaram a namorar quando Gabriel tinha 8 anos e Felipe, 5.

Gabriel em ação, fazendo uma das manobras que lhe valeram muitos pontos no Campeonato Mundial: um tubo de back-side. Ou seja, ele surfa no meio da onda, mas de costas para ela, o que dificulta bastante a performance

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Getty Images

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Fotos Getty Images

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Quando gabriel tinha 11 anos, sua mãe e seu padrasto perguntaram o que pretendia com o surfe. “Quero ser campeão mundial”, respondeu

Mais tarde veio Sofia, que se tornaria o “amuleto” de Gabriel e guardiã dos troféus do atleta. “A família é muito unida”, observa André Marechal, pastor da Igreja Bola de Neve, frequentada por Simone, evangélica. A estratégia do casal foi manter o filho por perto. Charles e Simone descartaram a ideia de que seria preciso o garoto viajar para fora do país se quisesse se dar bem no cenário internacional, uma vez que o litoral brasileiro estaria aquém na qualidade das ondas em relação a Havaí, Indonésia, Polinésia Francesa, Austrália e Estados Unidos. Mas quis o destino que Gabriel fosse apresentado ao circuito mundial na esteira da chamada “Brazilian Storm” (Tempestade Brasileira), grupo da nova geração de brasileiros que revelou um novo perfil de surfista profissional. É consenso entre veteranos e especialistas que essa é a mais bem

preparada e talentosa geração do nosso surfe, com mais de um nome capaz de conquistar um título mundial. “Hoje a turma já entra no circuito mundial sabendo muito, com bagagem em ondas de nível internacional, preparo físico e rotina de atletas”, lista Fábio Gouveia, que, ao lado de Teco Padaratz, colocou o surfe brasileiro no cenário do circuito mundial. Santa Catarina sempre foi um ponto importante na carreira do futuro campeão mundial. Em 2011, no caminho rumo à elite, o paulista arrepiou nas ondas da praia da Vila, em Imbituba. Com uma atuação histórica, Gabriel levantou a torcida na areia e conquistou o título do evento com maior pontuação do World Qualifying Series, a segunda divisão do surfe internacional. Começou ali sua arrancada definitiva para integrar o seleto grupo dos 34 melhores surfistas do planeta a

partir do segundo semestre de 2012. Já na elite, Gabriel fez o que nenhum outro estreante havia feito ao vencer dois eventos em seis meses. Mostrou ainda que sabia aliar seu talento natural ao formato da competição, dominado por baterias de apenas dois competidores (homem a homem). Focado, ele não se contentou apenas em pertencer à nata do surfe: direcionou todas as energias para dentro d’água. “Me dou bem com todos e sou um cara tímido, mas no mar não entro para fazer amigos, entro para vencer”, afirma. “Gosto de desafios.” Já diante dos holofotes do circuito mundial, o paulista chamou atenção do americano Kelly Slater, considerado o maior surfista de todos os tempos, que reconheceu a gana diferenciada do prodígio brasileiro. “Ele é apaixonado por competição e um atleta talentoso. Com esse perfil, vai acabar vencendo”, previu.

Com a mãe, Simone, e o padrasto, Charles, que se conheceram na praia de Maresias , no litoral norte de São Paulo, onde pegaram muitas ondas. Ao lado, Gabriel praticando a sua marca registrada: o chamado aéreo, que dispensa explicações

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perfil

“Ele é o melhor talento surgido no surfe desde kelly slater”, disse o ex-campeão mundial Joel Parkinson, ainda no ano de 2012

Em 2012, durante um treino no Havaí, Gabriel deu mais uma prova do talento ao acertar uma das manobras mais difíceis do esporte: o back flip, um salto mortal de costas. A façanha, gravada em vídeo, repercutiu no mundo e só foi repetida por quatro surfistas desde então. Mais uma vez as águas de Santa Catarina ficariam marcadas na biografia do guri. Foi nelas que ele conquistou o título mundial na categoria Pro Júnior, para surfistas de até 20 anos de idade, no dia 2 de novembro de 2013. Disposto a fechar um ciclo da carreira, Gabriel decolou nas ondas da praia da Joaquina, em Florianópolis, para levantar o troféu da categoria. Campeão mundial em 2012, o australiano Joel Parkinson deu uma declaração que ajuda a entender o estrondo de Gabriel no esporte: “Acho que ele não precisa se sentir pressionado a vencer a competição em 2014, pois, se não vencer agora, com certeza irá vencer mais para a frente”, vatici-

nou. “É o maior talento surgido no esporte desde Kelly Slater.” Nosso herói, no entanto, se manteve inabalável. Faturou o título máximo aos 20 anos, com direito a carnaval da torcida brasileira em Pipeline, o epicentro do surfe internacional, no North Shore da ilha de Oahu, Havaí. Adversário na briga pelo título, Kelly Slater (11 vezes campeão mundial) tentou desestabilizar o brasileiro, apesar dos constantes elogios. “Ele é o líder do ranking, o peso da vitória está sobre ele”, cutucou. Gabriel, chamado de “homem de gelo” por Flávio “Teco” Padaratz, devolveu: “Sou um novato; Kelly é o campeão”. Com o tempo, os adversários aprenderam que o menino não reage a provocações. Gabriel é capaz de aliar as manobras aéreas aos movimentos tradicionais, conhecido como surfe de linha, aplicando batidas na crista da onda ou se encaixando nos tubos. “Consegui adaptar meu estilo, que é o de arriscar sempre, àquilo que

pontua mais, ou seja, as sequências de manobras na mesma onda, que rendem mais pontos do que um aéreo gigante”, explica. “Nas etapas em que despontei, em Fiji e em Teahupoo, na Polinésia Francesa, foi assim, sem nenhum aéreo, só fazendo o que os juízes queriam ver.” O ano de Gabriel foi impecável. “Ninguém surfou melhor do que ele em 2014”, enfatiza Charles. Além de vencer três etapas (Austrália, Fiji e Polinésia Francesa), ficou entre os primeiros cinco colocados em oito dos 11 eventos do circuito. E assim fez história como o primeiro brasileiro a conquistar o título mundial da World Surf League, o mais importante do surfe profissional. É compreensível que em 2015 sua performance não venha sendo a mesma. Costuma acontecer depois das grandes vitórias. Seja como for, quem já mostrou tamanho repertório de manobras tem tudo para repetir a façanha nas próximas edições do campeonato mundial.

Gabriel sempre se deu bem nas categorias de base do esporte. Em 2013, venceu o HD World Junior Championship, para surfistas até 20 anos. Estava em casa: na praia da Joaquina, em Florianópolis, um dos melhores points do país

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Daniel Smorigo

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E C O LO G I A

liberdade para os roxinhos! O Instituto Espaço Silvestre vem salvando da extinção um dos pássaros que povoavam o céu do país: o papagaio-do-peito-roxo

por

W a lt e r s o n S a r d e n b e r g S º

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Instituto Espaço Silvestre

Ligia Jahn, presidente da ONG, feliz com a reintegração das aves à natureza

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ECOLOGIA

H

avia milhares e milhares de papagaios-de-peito-roxo voando por aqui. A rigor, fala-se em mais de um milhão. No Brasil, esse pássaro sul-americano – que também habita a Argentina e o Paraguai – se espalhava do Rio Grande do Sul a uma ampla área da Bahia. Eram comuns revoadas de até 3 mil exemplares de Amazona vinacea, seu nome científico. Devia ser uma beleza. Esse espetáculo grandioso, no entanto, ficou no passado, embora nem tão remoto assim. Dois fatores foram decisivos na brutal diminuição da população dessas aves: o desmatamento indiscriminado e o comércio ilegal de animais silvestres. Hoje há no continente, segundo as estimativas mais otimistas, apenas cerca de 3 mil sobreviventes – 2,5 mil deles em território brasileiro. Sobreviventes é bem a palavra. O número não deixa dúvidas: trata-se de um animal em óbvio risco de extinção, considerado “espécie em perigo” pela União Internacional para a Conservação da Natureza e Recursos Naturais. Ainda bem que existe gente como Ligia Jahn e Vanessa T. Kanaan. Elas bem poderiam se dedicar estritamente à sua vida profissional e pessoal. Em um caso, na iniciativa privada. No outro, na universidade. Ligia é uma bem-sucedida empresária em Itajaí. Foi proprietária de uma editora especializada em fotografia. No momento, está à frente de uma companhia que compra imóveis para locação. Vanessa, por sua vez, mora em Florianópolis e tem uma brilhante carreira acadêmica. É psicóloga e bióloga. Fez doutorado em zootecnia na Purdue University, nos Estados Unidos, e pós-doutorado em ecologia na Universidade Federal de Santa Catarina. Pois bem, há cinco anos, Ligia e Vanessa juntaram forças, com outras voluntárias, em torno de um objetivo em comum: fazer de tudo a fim de evitar a extinção do papagaio-de-peito-roxo. Para isso foi criada uma uma organização não governamental (ONG), o Instituto Espaço Silvestre, com sede em Itajaí. “Restou no Brasil apenas 1% de matas de araucárias, o hábitat dos pagagaios da espécie, e a maior parte dessas áreas remanescentes fica justamente no Paraná e em Santa Catarina”, conta Vanessa, diretora técnica do Espaço Silvestre. “Portanto, estamos no lugar certo.”

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Instituto Espaço Silvestre

Vanessa Kanaan

Um grupo de mais de 100 voluntários ajuda a cuidar dos pássaros desde as primeiras horas em que são acolhidos no instituto

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ECOLOGIA

A ideia básica é resgatar papagaios vitimados pelo tráfico de animais silvestres, readequá-los ao convívio na natureza e introduzi-los no oeste catarinense, no Parque Nacional das Araucárias, uma área de 12.841 hectares – cada hectare equivale às medidas de um campo de futebol. “É uma operação que exige muitos cuidados, muita paciência e dedicação”, conta Ligia Jahn, mantenedora de aves e presidente do Instituto Espaço Silvestre. “Mas vem sendo bem-sucedida.” Os papagaios, resgatados pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis) e outros órgãos preservacionistas, são encaminhados à sede da ONG, onde há amplos viveiros. Quase sempre chegam em estado pouco animador. Tiveram as asas cortadas. Foram submetidos a alimentação imprópria. Acabaram privados da companhia de outros papagaios da espécie. Enfim, passaram por diversos maus-tratos. Eis a primeira medida estabelecida pelo Projeto Silvestre: submeter os roxinhos, como são chamados carinhosamente, a mais de 20 exames veterináAssim que os roxinhos chegam rios. Uma vez recuperados em um minucioso tratamento de saúde, o passo seguinte é reabilitá-los à sede do ESPaço Silvestre, para o convívio entre seus pares. “Essa fase dura de passam por mais de 20 exames quatro a seis meses”, conta Vanessa. “É preciso, por veterinários. Só então começam exemplo, que reaprendam a voar e a se relacionar com os demais roxinhos. Só depois podem ser dea ser integrados a seus pares volvidos à vida na natureza.” Infelizmente, nem todas as aves que chegam às mãos do Espaço Silvestre são capazes de completar esse ciclo. “Alguns papagaios não conseguem mais voar, por problemas físicos, ainda que estimulados a isso”, diz Vanessa. O que fazer? Ligia Jahn responde: “Esses continuam na sede do Espaço Silvestre. O intento é, mais tarde, reencaminhá-los a zoológicos que passem pelo nosso crivo”.

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Av i s r a r a Saiba mais sobre os roxinhos Nome científico: Amazona vinacea Nomes vulgares: papagaio-do-peito-roxo, roxinho, papagaio-caboclo, curraleiro e jurueba Tamanho: na idade adulta, chega a medir 30 centímetros de comprimento Características: sua plumagem geral é verde, mas com penas arroxeadas no peito — daí o nome. A extremidade das asas é verde-azulada. O bico tem aspecto avermelhado, com a ponta acizentada. Imita a voz humana, mas com menos eficiência que o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva)

Vanessa Kanaan

Hábitat: mata Atlântica

Hoje, há por volta de 3 mil exemplares da espécie à solta. E pensar que a população desses pássaros chegou a 1 milhão

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ECOLOGIA

Até o momento, três levas de papagaios-de-peito-roxo completaram o estágio de reabilitação e foram O monitoramento na área em soltas no Parque Nacional das Araucárias, localizado nos municípios de Passos Maia e Ponte Serrada e ofique os papagaios são soltos cializado há uma década. A primeira soltura, em 2011, revelou que, há mais de um ano, contemplou 13 aves. No ano seguinte, esse número estão nascendo filhotes de cresceu para 30 indivíduos. Por fim, em 5 de junho de 2015, comemorou-se a soltura de 33 papagaios. “Por aves criadas em cativeiro coincidência, ocorreu no Dia Mundial do Meio Ambiente. Não deixa de ser altamente simbólico”, comenta Vanessa. Há um grupo de outros 17 papagaios em processo de reabilitação nos viveiros da ONG. Toda essa ação seria infrutífera caso os moradores da região do Parque Nacional das Araucárias continuassem, como fizeram seus antepassados, recolhendo os papagaios para venda. “Houve todo um trabalho de educação ambiental para interromper esse processo”, conta Ligia. Vanessa emenda: “Por intermédio de oficinas da Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e outros órgãos, conseguimos reverter a demanda econômica. Em vez de os moradores ganharem dinheiro vendendo animais silvestres, passaram a ter rendimentos com artesanato, usando como temas o papagaio-de-peito-roxo e a araucária”. Dessa forma, os próprios moradores, hoje, trabalham para evitar a venda de animais silvestres. Em outubro, com a abertura à visitação do Parque Nacional das Araucárias, eles ganharão um estímulo econômico extra para reforçar essa atitude. De qualquer maneira, a população dos roxinhos conta com o monitoramento constante da equipe do Espaço Silvestre. Foi por obra dessa observação científica que despontou uma das melhores notícias em julho do ano passado. Naquele mês, a equipe encontrou um ninho com três roxinhos recém-nascidos, filhos de um casal que já viveu em cativeiro. De lá para cá, a história vem se repetindo. Para sorte dos roxinhos – e de quem pretende viver em um planeta melhor. O Instituto Espaço Silvestre é patrocinado pelo grupo de investimentos Taroii, a Fundação Boticário, o site Biofaces, o Refúgio das Aves e três grupos de estudos alemães (ZGAP, SPS e FbP).

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Fotos Instituto Espaço Silvestre

A bióloga Vanessa Kanaan, de boné, é a diretora técnica. Está presente do viveiro ao acompanhamento na natureza

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e stilo

Da Itália para

itajaí Em cinco anos, a italiana Azimut Yachts multiplicou por cinco sua produção anual de lanchas de luxo em Santa Catarina. E, num lance ousado, lança seu primeiro iate de 83 pés feito aqui

por

gilberto ungaretti

Nas águas catarinenses, a ágil Azimut 42, toda feita feita no Brasil

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BRAVĂ? S S I MA

Fotos Alberto de Abreu Sodre


ESTILO

A

prefeitura de Itajaí teve uma grande ideia: construir na cidade um polo dedicado apenas à fabricação de barcos de lazer. Para isso, reservou uma área de 200 mil metros quadrados (o equivalente a 30 campos de futebol colocados lado a lado), às margens do rio Itajaí-Açu. O objetivo era atrair grandes estaleiros internacionais (italianos, ingleses, americanos e franceses, em especial) que, atingidos pela crise de 2008, tentavam conquistar uma fatia do crescente mercado náutico brasileiro. Já no primeiro momento, a oferta (que incluía benefícios fiscais) atraiu um gigante do setor no mundo: a Azimut Yachts, um dos braços do grupo italiano Azimut-Benetti, líder mundial na fabricação de iates, megaiates e lanchas de luxo. O grupo tem mais de 2,2 mil funcionários, representações em mais de 60 países e faturamento anual de R$ 2,2 bilhões. Guardadas as proporções, é algo como a vinda da Volkswagen para o Brasil no final dos anos 1950. Criada em 1969 pelo universitário Paolo Vitelli, a empresa tem sede em Turim, quatro fábricas na Itália e apenas uma fora do país: justamente a de Itajaí. “Em 2015, devem sair da unidade catarinense cerca de 35 embarcações novas, além da venda das seminovas e importadas”, prevê Francesco Caputo, diretor comercial e de marketing do estaleiro para a América do Sul. Até a temporada 2016-2017, a expectativa é de quase dobrar a produção, visando também a exportação para os demais países latino-americanos. “Comparada com o primeiro ano de atividades no Brasil, nossa produção aumentou em mais de cinco vezes”, comemora Caputo.

Francesco Caputo, diretor comercial e de marketing do estaleiro para a América do Sul (à direita), comemora os cinco anos de atuação no Brasil com o lançamento do imenso modelo de 83 pés – ou seja, 25, 29 metros de comprimento

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Maré boa

Para quem se surpreende com os investimentos do estaleiro italiano no Brasil, num cenário econômico delicado, a explicação está no dinamismo do mercado náutico, que, para o consumidor de alto padrão que consome o luxo dos iates de maior porte, tem registrado índices de crescimento. “O público triplo A não sente tanto os reflexos da crise, e isso é comprovado por meio do crescimento de vendas em barcos maiores que 60 pés: 30 a 35% de aumento em dimensões, em relação à temporada náutica anterior”, explica Francesco Caputo. Por sua vez, Ferruccio Luppi acredita que as bases da economia brasileira são fortes. “As preocupações de hoje devem-se à gestão, não ao país”, analisa o CEO do grupo Azimut-Benetti. “Vocês provavelmente têm que resolver alguns erros, aliviar a burocracia, introduzir reformas na administração, investir mais na infraestrutura, mas não tenho dúvida de que se manterão entre os maiores e serão o mais importante país da América Latina”, finaliza Luppi, que, em matéria de otimismo, não economiza.

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Ao alto, o modelo de 70 pés (21,33 metros de comprimento). Acima, o salão e uma das suítes da lancha. À direita, o modelo de 43 pés (13,10 metros ). Ambas as embarcações, desenhadas na Itália, são construídas no Polo Náutico de Santa Catarina

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Embora o estaleiro seja italiano, os barcos da Azimut Yachts tornaram-se muito famosos no Brasil. Isso porque, no decorrer de 15 anos, a empresa manteve um contrato de parceria com a brasileira Intermarine para a produção, com adaptações, de alguns modelos em território nacional. Esse acordo terminou após a morte do empresário Gilberto Ramalho, dono da Intermarine e velho amigo do presidente da Azimut, Paolo Vitelli. Com o fim da parceria entre as duas empresas, e a crise mundial deflagrada pelos Estados Unidos em 2008, a marca italiana decidiu fazer ela mesma algumas de suas lanchas no país. Por quê? “A cada dois anos o consumidor brasileiro troca de iate, enquanto na Europa isso acontece a cada quatro”, avaliou Luca Morando, CEO da Azimut à época. “Isso sinaliza uma boa oportunidade de negócio.” Por consumidor, leia-se aquele brasileiro que pertence à classe AAA, já que cada barco da Azimut custa entre R$ 3 milhões e R$ 20 milhões, considerando apenas os modelos construídos no país. Os planos para a fábrica de Itajaí andaram rápido. Inaugurada em julho de 2010 com investimento de R$ 200 milhões (distribuídos por cinco anos), a Azimut Yachts gerou cerca de mil empregos na região, 300 deles diretos. Os primeiros barcos foram para a água em 2011. A começar pelos modelos Azimut 43 e 60, com 22 unidades entregues já no segundo ano de produção. Um grande

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A z i m u t Yac h t s em números • As instalações do estaleiro italiano no Brasil foram inauguradas em julho de 2010, ao custo de R$ 200 milhões. • As operações da Azimut em Itajaí geraram cerca de mil novos empregos na região, 300 deles diretos. • Em 2010, a fábrica ocupava um galpão de 3 mil metros quadrados no Polo Náutico de Itajaí. No momento, a área abrange 16 mil metros quadrados. • Em cinco anos, a produção anual da empresa no Brasil aumentou em mais de 5 vezes. • A previsão é de crescer 35% nesta temporada. • Atualmente, são produzidas 30 unidades por ano, de seis modelos de lanchas com flybridge, de 42, 43, 50, 60, 70 e 83 pés. • No caso da recém-lançada Azimut de 83 pés (preço estimado, R$ 20 milhões), a previsão é entregar dois iates apenas no segundo semestre deste ano. • Com 39 modelos de barcos entre as suas três marcas, o grupo atua em 66 países. • Metade das vendas provém da marca Benetti, de mega e gigaiates, de 50 metros até 110 metros de comprimento. • Desde o ano 2000, a AzimutBenetti é o maior produtor de iates de mais de 24 metros. • Em 2014, faturou € 630 milhões. • O craque Neymar é o proprietário de uma Azimut 78 importada, que custou R$ 15 milhões. Tem quatro suítes e acomoda até 10 pessoas para pernoite.

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começo! Depois, nesta ordem, vieram as Azimut 48, 70 e 42. Todas fazem parte da linha Flybridge Collection, com flybridge (ou tijupá, patamar acima do convés de onde se pode comandar o barco). Além do luxo, do conforto e do padrão de construção característicos do estaleiro italiano, os iates Azimut trazem um toque de exclusividade: a plataforma de popa ampliada, com espaço gourmet e churrasqueira. “O brasileiro aprecia muito a utilização da área traseira do barco”, explica Caputo. “Pensando nisso, incluímos mais esse atrativo nos barcos construídos no país, para que os clientes possam desfrutar ao máximo a experiência a bordo, com direito à preparação do churrasco, uma das paixões nacionais.” Em 2015, outra novidade. E das grandes: a primeira Azimut fabricada em Itajaí com mais de 25 metros de comprimento, o que em medida náutica equivale a 80 pés, dimensão mínima para uma embarcação ser incluída na categoria dos iates. “Estamos lançando o nosso primeiro iate de 83 pés fabricado no Brasil”, confirma Caputo. Ele se refere ao palácio flutuante Azimut 83, com três conveses, quatro suítes, camas enormes, banheira de hidromassagem, uma jacuzzi ao ar livre, ar condicionado, living, cozinha, área externa privilegiada (com espaço gourmet na praça de popa) e flybridge maior que o convencional.

A Azimut de 42 pés (12,80 metros de comprimento) navegando e dois de seus detalhes: o flybridge (um segundo posto de comando, situado um patamar acima do convés) e a casa de máquinas, com dois motores de 335 mph cada uma

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A maior lancha da Azimut construída em Santa Catarina, a de 83 pés, prima pelo espaço, seja na cozinha (acima), no salão (ao lado) ou no flybridge (na outra página). Um barco e tanto!

L INHA D O TE M P O Criada em 1969 pelo universitário Paolo Vitelli,

Lançou o Azimut 105,

A Azimut comprou a

em Turim, no norte da Itália, a Azimut Yachts

na época o maior

italiana Benetti, que já

se transformou no maior grupo privado do

barco do mundo

fabricava megaiates desde 1973, e

mercado náutico de lazer no mundo

produzido em série

estabeleceu o grupo Azimut-Benetti

1969

1982

1985

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Detalhe: a primeira unidade dessa 83 pés nem saiu da fábrica e já tem dono. O estaleiro revela que uma segunda vai para a água ainda neste ano. Em matéria de bom início, nada melhor. Mas a Azimut Yachts quer mais. Atual homem forte do grupo Azimut-Benetti, o italiano Ferruccio Luppi diz que, em vez de competir com as marcas locais, deseja ser uma referência de estilo italiano, de barcos totalmente feitos com componentes made in Italy, ou seja: de primeira linha. “Nossa intenção é ter uma fatia de 20% do mercado, além de exportar para outros países da América do Sul.” Por estilo italiano leia-se um casco bonito e elegante, ambientes com bom design e acabamento e mobiliário nobres. E, para deixar o que já é belo ainda mais requintado, o estaleiro está lançando a primeira versão da Azimut 60 com o interior assinado por uma grife italiana de alta moda, que pode ser a Missoni, a Armani ou a Loro Piana. Possivelmente será o barco mais “grifado” de nossas águas.

Adquiriu a Gobbi

Comprou a Fraser Yachts,

Começou a

Instalou uma fábrica

e sua marca

empresa de turismo

operar suas

no Polo Náutico de

Atlantis, de

náutico de luxo e venda

próprias

Itajaí, a primeira

lanchas esportivas

de iates seminovos

marinas

do grupo fora da Itália

2001

2003

2004

2010

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M OTO R

Paixão germânica Esses alemães têm sangue quente. Com fábrica em Araquari (SC), a BMW acelera para ganhar mais mercado no Brasil e conta com os fãs da Linha M

por

M a r i o C i cc o n e

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Fotos Divulgação

O M6 é um dos mais poderosos bólidos de uma linha que emplacou

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MOTOR

L

auda contra Hunt, Villeneuve contra Arnoux, Piquet contra Mansell, Senna contra Prost, Schumacher contra Hill. Algumas dessas disputas históricas da Fórmula 1 terminaram na área de escape. Mas, acredite: você não viu nada. Poucas rivalidades são tão acirradas quanta as disputas nas pistas da categoria DTM (Deutsche Tourenwagen Masters). A rixa entre as marcas alemãs Audi, BMW e Mercedes-Benz está visível nos para-lamas amassados dos 24 pilotos do campeonato. Em etapa realizada no Red Bull Ring, em Spielberg, Áustria, um carro da Audi tirou duas Mercedes da pista batendo na traseira de uma delas. O chefe da Audi chegou a se desculpar por ter ordenado no rádio: “Empurre-o para fora”. O rival respondeu à altura: “Eles querem guerra”. Bate-boca à parte, o objetivo está muito acima do pódio: levar a tecnologia das pistas para as ruas. A BMW usa isso ao pé da letra. Neste ano, em apenas quatro meses a nova bomba d’água utilizada na DTM apareceu num X6 M de série. “A DTM é o campo de provas da Linha M”, explica Renato Fabrini, gerente nacional de vendas da BMW Brasil. Responsável por 5% das vendas do Grupo BMW no Brasil, a Linha M, de alta performance, prevê um aumento gradual desse resultado. A razão é simples de entender: ela conquista fãs. “São os clientes mais bem informados sobre a BMW e seus concorrentes”, conta Fabrini. “Eles são fiéis e

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O M3 (acima) e o M4 (ao lado) derivam diretamente de veículos feitos para as pistas. São muito ágeis e agressivos, como, por sinal, requer a categoria de competição DTM, uma das mais renhidas do planeta

sabem tudo antes mesmo de o carro chegar ao Brasil.” Esses veículos são testados pelos pilotos da divisão Motorsport, que inclui outras categorias de turismo e de monopostos. Arturo Piñeiro, CEO do BMW Group Brasil, comenta: “O conhecimento técnico dessa equipe de pilotos proporciona o desenvolvimento e acerto no produto final comercializado em escala de produção”. Paixão pela estrada Em uma experiência proposta pela concessionária Autostar e a própria BMW, BRAVÍSSIMA teve à disposição três modelos da linha M: Série M3, M4 e M6 Gran Coupé.


O modelo M6 chega a 250 km/h. Segundo a BMW, iria até 330 km/h, não fosse a instalação de um dispositivo que funciona como limitador de velocidade

Optou pelo último, o maior e mais possante deles. Longilíneo, o carro parecia um barco de 80 pés da Azimut. Claro, ele é mais pesado do que os outros dois. Porém, incrivelmente potente. Sob o capô, um motor 5.0 de 10 cilindros gera 507 cavalos. BRAVÍSSIMA acelerou na rodovia dos Bandeirantes, que liga as regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas. Com topografia que une retas longas e alguns declives, a estrada bem que poderia ser uma Autobahn brasileira. O carro ganha velocidade de forma consistente. No modo Sport+, o ronco do motor fica ainda mais forte. Se preferir, o condutor pode desligar o controle de tração. O resultado é um bólido ainda estável, porém mais agressivo nas respostas. Em momentos de pouco juízo, a equipe de testes ultrapassou os 200 km/h. Chegou a 242 km/h – e o M6 queria mais. O veículo conta com limitador de velocidade para 250 km/h. Segundo a montadora, a ausência desse recurso levaria o carro a atingir até 330 km/h. A bordo deste Gran

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Coupé, um piloto de testes completou uma volta nos 22 quilômetros do Circuito Norte de Nürburgring, na Alemanha, em 8 minutos. Embora não aconselhe ninguém a andar acima dos limites de velocidade, Arturo Piñeiro é apaixonado por dirigir em rodovias. Ele guiou algumas vezes em Autobahn na Alemanha e nas míticas estradas dos Estados Unidos, quando morou por lá. “Recordo de viagens pela costa oeste americana a bordo de um BMW Série 7, um os melhores da marca em prazer de condução.” Além dos ágeis e agressivos M3 e M4, a Linha M conta com o poderoso M5, que compartilha o mesmo motor da M6 (Coupé e Gran Coupé). A montadora também aposta no novo X6 M. O modelo anterior foi um grande sucesso no Brasil. “Foram disponibilizadas para o país dez unidades. Sete delas tiveram como compradores clientes de Belém (PA), um mercado em ascensão”, conta Fabrini. A montadora também


MOTOR

€ 200 milhões foram investidos na fábrica da marca na cidade catarinense

organiza programas de treinamentos mundo afora, inclusive no Brasil. Os clientes podem participar do Driver Training e de eventos como o BMW Ultimate Experience, para testar modelos da marca. Araquari Inserido entre os cinco estados brasileiros com mais emplacamentos de BMW, Santa Catarina acolheu a primeira fábrica de automóveis da marca na América Latina. Em 2009, Manaus já havia recebido uma unidade de motocicletas. Localizada em Araquari, a 138 quilômetros de Florianópolis, a 30ª unidade da montadora esparrama-se em uma área de 1,5 milhão de metros quadrados (um terço desse total é pavimentado). É o resultado de um investimento de 200 milhões de euros. Emprega diretamente 500 pessoas e gera outros 2.500 empregos indiretos. Piñeiro entusiasma-se: “Muitas atividades de qualificação de nossa mão de obra estão em andamento, a exemplo de parceria com o Senai de Santa Catarina para a formação de mecânicos de produção veicular, com duração de dois anos, o programa Jovem Aprendiz”. A unidade já produz três modelos: BMW Série 3, BMW X1 e BMW Série 1. Até o fim de 2015, o BMW X3 e o MINI Countryman aumentarão a lista. A Linha M continuará sendo importada. “O coração do nosso centro de treinamento sempre foi a linha de montagem, de modo que toda a nossa equipe fosse qualificada considerando os rigorosos procedimentos do BMW Group”, diz Gerald Degen, vice-presidente sênior do BMW Group Brasil e responsável pela fábrica de Araquari. Ele continua: “Isso nos permite iniciar a produção respeitando os padrões de qualidade da empresa mundialmente, seja na Alemanha, na China

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Johanes Duarte

de araquari

ou no Brasil”. Por que Araquari foi a cidade escolhida? “A localização de nossa fábrica é estratégica”, explica Piñeiro. “Entre outros motivos, estamos próximos a polos importantes em nossa cadeia de fornecedores, como Joinville (SC) e São José dos Pinhais (PR).” Futuro elétrico Para 2016, a montadora faz um pouco de mistério. Ainda mais por se tratar de um ano de Salão do Automóvel. Piñeiro, porém, dá uma pista e aponta uma meta: “Buscamos cada vez mais ter a mesma oferta de produtos compatível com o mercado europeu”.


Da esquerda para a direita: um M3 na concessionária Autostar, em São Paulo; Arturo Piñeiro, CEO do BMW Group Brasil; uma fração da fábrica em Araquari e, por fim, um Série 3 produzido no Brasil e assinado por todos os funcionários

A BMW faz questão de lançar o olhar mais adiante. Enquanto a Linha M é puro desempenho, a Linha i é a resposta para uma indústria automobilística mais sustentável. Com os modelos BMW i3 e i8, a montadora espera superar o rótulo de um produto de nicho. As vendas chegaram a 31 unidades no ano: 22 do compacto elétrico i3 e nove do esportivo híbrido i8. Um resultado e tanto para carros que podem custar de R$ 200 mil a R$ 700 mil. Nas palavras do CEO da montadora, o caminho ainda é longo para esse cenário mudar no Brasil. “Todos os países onde a mobilidade elétrica já é realidade contaram com incentivos do governo. Isso se dá por meio de subsídios fiscais ou parcerias com estacionamentos para gratuidade”, relata Piñeiro. “Ao ampliar essa frota, o desenvolvimento da infraetrutura acontece em paralelo.” Segundo o executivo, a BMW firmou parceria com a rede Multiplan de shopping centers para oferecer pontos de recarga pública

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de automóveis elétricos e Plug-In híbridos da BMW i. Com isso, os proprietários dos modelos BMW i3 e BMW i8, além de outros veículos elétricos compatíveis, poderão ir até os locais contemplados e utilizar o dispositivo BMW i Wallbox. “Acreditamos nos veículos elétricos e híbridos como alternativa de mobilidade urbana.” O antigo preconceito em relação a carros elétricos dizia respeito a desempenho. Algo que ficou para trás. Um veículo desses tem uma resposta instantânea e surpreendente ao acelerador. É muito mais do que marketing ecológico. Afinal, estamos falando de um BMW.


pousada s

Em Santa Catarina, três endereços à beira-mar equiparam a hotelaria nacional ao que há de melhor no mundo – sob a moldura de uma natureza sem rival

Um luxo de

por

Marion Frank

Ponta dos Ganchos: um lugar como raros outros

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Divulgação

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POUSADAS

O

Brasil tem inúmeros predicados, em especial os que a natureza concedeu. E o litoral catarinense aí está para exaltar a grandeza desse dote, algo que ainda hoje deixa o estrangeiro (e também o brasileiro) de queixo caído, por mais acostumados às maravilhas do planeta. O efeito acaba por ser surpreendente porque a esse luxo natural tem sido acrescido o que o homem constrói há décadas com igual requinte. É o caso, por exemplo, do Felissimo Exclusive Hotel. Encravado no topo de uma colina, 500 metros acima do nível do mar, está de frente para a praia dos Amores, continuação da praia Brava amada pelos surfistas, no Balneário Camboriú (distante 80 quilômetros de Florianópolis). Outrora, foi a casa de veraneio do casal Grace e Robert Schramm, uma das primeiras erguidas nesse trecho de costa nos anos 1980. Acabou remodelada para se tornar o que hoje é destaque da cadeia Design Hotels, espécie de clube dos endereços de luxo da hotelaria internacional. Joaquim Benedito Barbosa Gomes, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, costuma perambular por suas dependências. Ele que tem se ocupado em dar palestras pelas cidades do estado. Bonitonas e bonitões da TV e do cinema nacionais (Bruna Marquezine e Cauã ReySão nove suítes e dois lofts privativos, onde predominam a madeira mond incluídos) também fulguram com ree o branco. Há sempre uma varanda, avançando pela paisagem emolgularidade na lista de hóspedes. Pudera. No durada ora pelo Atlântico, ora pela montanha e pelos jardins da casa. Felissimo, respira-se a atmosfera da elegânO estilo de decoração, de cores suaves e móveis rústicos, mas conforcia, de um mundo que só pode existir dessa táveis, remete ao sul da França – a Provença, igualmente rodeada de maneira. É chique na medida certa – e isso serra e mar. O loft maior, o de número oito (Diamond, de 60 metros faz a diferença para a clientela. quadrados) tem ambientes integrados e spa, com serviços de cromoterapia e massagem indiana (Samkhya Sparsha), afora jardim exclusivo. Quanto à suíte de medidas “modestas” (Superior, de 35 metros quadrados), o charme está no banheiro de teto envidraçado. Clientes de estilo esportivo (e não só) gostam de conhecer os arredores, passeando de bicicleta ou simplesmente a pé. Na volta ao hotel, a procura é pelo Bistrô, aberto junto ao deque da piscina e do ofurô, com cardápio montado sobretudo com o que vem do mar. Porque reinos do prazer, como é o caso do Felissimo, também estão habituados a atiçar o apetite. A decoração do Felissimo une requinte e despojamento. Tudo isso em amplos espaços, de frente para a praia dos Amores

Gente bonita Essa trilha hoteleira que almeja satisfazer todo tipo de desejo conduz naturalmente a outro endereço catarinense, o Ponta dos Ganchos

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O Felissimo Hotel, em Balneário camboriú, já hospedou dos globais

Fotos Divulgação

Bruna Marquezine e Cauã Reymond ao magistrado joaquim barbosa

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POUSADAS

Exclusive Resort. Distante 40 quilômetros da capital do estado, em uma O Ponta dos Ganchos península particular do município de Governador Celso Ramos, ele acena tem amplas varandas com 25 bangalôs que se misturam ao verde das encostas ou ocupam ilhota ensolaradas, ponte que unida ao continente por ponte suspensa – todos de janelas abertas, claro, leva a uma ilha exclusiva para o mar da cor de esmeralda que dá fama a esse litoral. O clima é grane piscinas particulares dioso: há chalés de área maior que a de muito imóvel dos grandes centros salpicadas nas encostas. urbanos, caso daquele com 300 metros quadrados, com piscina de borda Quem quer outra vida? infinita no deque, adega particularmente bem abastecida no quarto e academia de ginástica grante da renomada cadeia The Leading Hotels of the World. Explorar no piso inferior. Eis algumas características trilhas pela mata Atlântica, passear de escuna até a ilha do Campeche ou comuns a todos os bangalôs: camas enormes, visitar a reserva biológica da ilha do Arvoredo – local ideal para a prática jacuzzis ao ar livre ou ao abrigo do teto de vido mergulho – são destaques entre as opções. Refeições fora do restaudro – e lareira, porque esta, afinal, é a costa de rante? Onde der mais gosto, na praia ou no bangalô, basta avisar com anSanta Catarina, onde o sol reina, mas também tecedência. Idem se a escolha for um jantar a velas, ambientado na varanfaz frio, típico do sul do país. da e com garçom exclusivo. Inesquecível. Ou, como admitiu a jornalista A opulência de instalações só tem rival em Edwina Langley, em artigo recente para a revista inglesa Absolutely, “...isto outro tipo de riqueza, a das atividades ao ar aqui é literalmente o paraíso e só pode atrair gente bonita!” (no caso, ela se livre programadas pelo Ponta dos Ganchos referia ao casal Beyoncé e Jay-Z, que pousaram no resort). Exclusive Resort, desde agosto de 2014 inteBaleias-francas Por fim, esse caminho exclusivo conduz à praia do Rosa, no sul catarinense (no município de Imbituba, a cerca de 70 quilômetros de

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Fotos Divulgação

Instalado em Governador Celso Ramos, o Ponta dos Ganchos resort é grandioso. um de seus chalés tem 300 metros quadrados

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a belíssima pousada Quinta do bucanero ocupa em área construída menos de 10% de seu belo terreno em uma colina diante da praia do Rosa

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Fotos Divulgação

Florianópolis), e à Quinta do Bucanero. Destino singular em tudo o A Quinta do Bucanero que lhe diz respeito, a começar pelo apreço ao meio ambiente, visível tem apenas 12 aposentos desde o início de sua instalação na região, no início dos anos 1990. Épopara os hóspedes. Toda a ca em que ainda pouco se trabalhava com essa orientação na hotelaria exclusividade, enfim, para nacional – dos 17 mil metros quadrados de propriedade, menos de 10% desfrutar uma das baías correspondem à área construída. A pousada, de dez quartos e duas sumais belas do país ítes (chamadas de Casa Mar e a Casa Terra), também se distingue pelo dedo da dona, a gaúcha Jaqueline Biazus, que, ao lado do marido, Cézar “Bocão” Pedo casal Deborah e Raul Boesel (curitibano que fez nome no mundo da goraro, ex-piloto de corridas de automóvel, Fórmula Indy americana): “Já nos hospedamos várias vezes aqui e, quanse mostra preocupada em criar o ambiente do voltamos, sempre nos deparamos com uma novidade”, diz Deborah. de tranquilidade e conforto que tem con“Isso prova que a pousada não para no tempo.” quistado clientela dentro e fora do país. Caso

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POUSADAS

Esse retorno positivo é fácil de entender: nos quartos, de decoração Cada detalhe da Quinta do despojada e móveis artesanais, o silêncio só é perturbado pelo quebrar Bucanero, na praia do Rosa, das ondas, enquanto o aroma delicado de cada sachê costurado à mão pela revela não só o bom gosto do proprietária se faz presente aqui e ali nos armários – detalhe eficiente, ele casal de donos. Mas também sua que vai embora com a mala do cliente, levando junto um quê da pousapresença constante no cotidiano da. Outra primazia: o café da manhã, com pães, geleias e outros quitutes da pousada catarinense servidos com igual deferência tanto para os hóspedes como para o casal proprietário. Que, por sinal, vive nas proximidades, pois a dar à luz os filhotes entre julho e novembro. Das janelas do hotel visBucanero é uma extensão do próprio lar, daí lumbra-se esse que é seguramente um dos grandes espetáculos da Terra, o cuidado de sol a sol. assim como o cenário de lagoa e das águas do mar que convidam para E porque a praia do Rosa é um lugar a prática de windsurf e kitesurf – sim, venta bastante neste pedaço de especial, paraíso dos surfistas desde os anos costa. Ou então, fazendo foco na direção oposta, explorar a cavalo a mata 1970, as baleias-francas aqui aparecem para que recobre a serra do Mar. Um luxo de passatempo.

Um fim de tarde refestelado na Quinta do Bucanero vendo do alto o

Divulgação

mar fica ainda melhor depois de um passeio para ver as baleias-francas

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b r av í s s i m a

Entre a montanha

e o mar Na praia Brava, em Itajaí, o lugar certo para se viver em meio a uma unidade de preservação

Agustin Mica

por

w a lt e r s o n s a r d e n b e r g s º

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BRAV í s s i m a

S

Rivo Biehl

ão nada menos que 290 mil metros quadrados de uma área privilegiada, que começa na montanha e desce em suave declive até o mar. Toda ela incrustada em plena mata Atlântica. O Bravíssima Private Residence fica na idílica praia Brava Norte, em Itajaí, Santa Catarina. Como chegar? O empreendimento está a 110 quilômetros de Florianópolis, a cinco quilômetros de Balneário Camboriú e a apenas oito quilômetros do Aeroporto Internacional de Navegantes. Tudo aqui foi pensado em minúcias para oferecer o máximo de qualidade de vida sem comprometer o meio ambiente. A começar pela pavimentação ecológica, a reutilização das águas das chuvas e pelo emprego de energia solar. Além da exuberância da natureza, o Bravíssima Private Residence se caracteriza pela baixa ocupação – tem acesso exclusivo –, pela arquitetura que se integra à vegetação e, em especial, pelo engajamento na causa da sustentabilidade.

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Uma área de 161 mil metros quadrados dentro do empreendimento foi transformada em uma RPPN (Reserva Particular de Patrimônio Natural). Isso significa o compromisso de preservar em caráter perpétuo a fauna e a flora do lugar, sem qualquer exceção. Esse é um contrato firmado com as gerações futuras. O Bravíssima Private Residence acena com duas áreas de moradia. Uma delas é constituída por dez torres de apenas cinco pavimentos cada uma, com ampla distância entre elas. A outra consiste em 57 terrenos para a construção de casas, ou já com as residências prontas, erguidas com desenho contemporâneo e assinadas por arquitetos renomados. Seja qual for a preferência do morador, haverá espaço de sobra. Cada torre tem somente nove exclusivos apartamentos. Cabe escolher entre seis dimensões diferentes. Há apartamentos de 350, 400 e 450 metros quadrados de área privativa. Já as coberturas são dúplex, contam com elevadores internos, jacuzzi ao ar livre e piscina com raia de 12 metros. Estão

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BRAV í s s i m a

Adriano Gambarini

disponíveis em 630, 720 e 800 metros quadrados de área privativa. Importantíssimo: todas as unidades têm vista para o mar. Esse mesmo cuidado foi tomado com relação ao condomínio de casas. Todos os terrenos também têm uma incrível e privilegiada vista para o mar da praia Brava, tanto aqueles com área total de 2.500 metros quadrados quanto os demais, com 5.000 metros quadrados. Em comum, as torres e o condomínio dispõem de serviços de concierge, sistema de segurança e automação de alta tecnologia, energia com cabeamento subterrâneo, internet via fibra óptica com alta performance, estação própria de

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Rivo Biehl

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Rivo Biehl

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taroii.com.br

Paixão, audácia e persistência. 79 BRAVÍ S S I MA


M E I O AMBI E N T E

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tratamento de esgoto e heliponto com helicóptero de propriedade compartilhada entre os condôminos. Cada apartamento dá direito a quatro ou cinco vagas na garagem. À parte, 50 vagas são destinadas a visitantes. Dentro do Bravíssima Private Residence circula-se em pequenos carros elétricos, iguais aos utilizados em campos de golfe. Vale lembrar que 90% das obras de infraestrutura estão prontas. Mais: foram concluídos 100% da pavimentação e da drenagem. O condomínio de casas será entregue até dezembro de 2016. Um dos grandes convites do Bravíssima Private Residence é a atenção reservada ao lazer na área comum – bastante incomum, por sinal. São quase 20 mil metros quadrados que incluem piscinas – uma delas com borda infinita, de cara para o mar –, quadra poliesportiva, quadra de tênis

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Rivo Biehl

Rivo Biehl


Adriano Gambarini

Adriano Gambarini

Tudo no Bravíssima Private Residence foi pensado em minúcias para que a fauna e a flora locais se perpetuem, em nome da preservação e crescimento da mata Atlântica

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BRAV í s s i m a

coberta, sala de jogos, espaço teen, garage band, cozinha gourmet, vestiários. Há ainda trilhas em meio à mata para caminhadas, espaço kids, academia de ginástica, piscina aquecida com raia de 25 metros, espaço mulher, biblioteca com cyberspace, lan house, bar, saunas úmida e seca, cinema, salas de festa individuais para cada torre e dois grandes salões exclusivos do condomínio dentro desse verdadeiro clube. Sem se esquecer da instigante Cave Bravíssima, com centenas de rótulos de diferentes terroirs, montada sob os auspícios da centenária vinícola italiana Cantine Ferrari, fundada em Trento, no ano de 1902 (veja reportagem na página 126). É a primeira investida do gênero da vinícola fora do território italiano. Por fim, resta ressaltar que a praia Brava, apesar do nome, pode ser frequentada tranquilamente por toda a família em seus três quilômetros de orla. O Bravíssima Private Residence está instalado justamente na parte norte, em que a praia é menos urbana e melhor resguardou a vegetação original. São 900 metros de uma praia deslumbrante, cercada de muito verde e com uma vista de tirar o fôlego. Um verdadeiro paraíso.

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Fotos Rivo Biehl

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Adriano Gambarini

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A praia Brava, em Itajaí, ao lado de Balneário Camboriú, revela-se um refúgio em meio ao verde, agraciado pelo frescor da brisa marinha. Mantê-la como exemplo é um compromisso com o meio ambiente

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verde O retorno do

Depois de 500 anos de predação sistemática, a mata Atlântica volta a crescer. E, com ela, a beleza cênica, o lazer, o ecoturismo, a qualidade de vida e o controle do equilíbrio do clima

José Eduardo Mendonça fotos a d r i a n o g a m b a r i n i

texto

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A floresta não é nenhum vale de idílios pastorais, de dríades, ninfas e elfos brincalhões. As criaturas das árvores estão envolvidas em batalhas titânicas,

em câmera lenta , de que nós, frenéticos humanos de vida curta, nem sequer podemos suspeitar.

(Warren Dean, brasilianista americano)

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M E I O AMBI E N T E

A

mata Atlântica, que um dia se espalhou por 1,3 milhão de quilômetros quadrados por 17 estados brasileiros, com suas formações florestais e ecossistemas como restingas, manguezais e campos de altitude, diminuiu demais. Tem hoje 22% de seus remanescentes de vegetação nativa. Desses, apenas 7% em bom estado de conservação em fragmentos de mais de 100 hectares. A boa notícia é que a mata Atlântica voltou a crescer. Isso se deve em grande parte, claro, à ação de conservacionistas e cientistas. Há cerca de 40 anos eles começavam a denunciar publicamente o terrível grau de destruição, iniciado em escala muito pequena quando da chegada do homem, há cerca de 13 mil anos, e de forma notável depois que os portugueses aqui aportaram. Um dos primeiros atos dos lusitanos foi derrubar uma árvore, de cujo tronco fizeram uma cruz rústica para a celebração da primeira missa. Segundo o mais recente relatório do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, divulgado em 27 de maio de 2015 pela SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento do bioma recuou 24%. As quedas aconteceram em 11 estados. Nove deles sofreram desmatamentos menores que 100 hectares. O país agora abre os olhos para a necessidade de recuperar as áreas já devastadas. O Brasil também presta muita atenção no turismo sustentável e ecológico e ainda no luxo que se pode oferecer em uma de suas áreas mais privilegiadas. Trata-se do vale do Itajaí, sede do maior porto pesqueiro do país. A vista é favorecida pelo fato de a região ser virtualmente plana – seu ponto mais alto fica a 170 metros de altitude. No litoral centro-norte de Santa Catarina, tem como seu foco a praia Brava, local de famosos agitos, ou, se turistas e moradores preferirem, recantos de paz e tranquilidade. São quase três quilômetros de orla, point para os amantes do voo livre e do surfe. Natureza não falta. O Parque Nacional da Serra do Itajaí representa 0,05% da área total original do bioma mata Atlântica em todo o Brasil – e 0,55% de sua área remanescente. Pode parecer pouco, mas é um dos três grandes fragmentos florestais ainda existentes no estado e a segunda maior unidade de conservação de proteção integral na natureza no sul do país. Abrir trilhas, queimar lenha Os primeiros humanos que ocuparam a região do Parque Nacional da Serra do Itajaí foram os ameríndios, provavelmente há pouco mais de 5 mil anos. É provável que nesse local tenham causado impactos ambientais, ainda que ínfimos se comparados com aqueles provocados pela ação dos europeus, principalmente sobre a fauna cinegética (aquela vítima da caça), com provável extinção de algumas espécies. A biodiversidade, objeto maior de proteção desse parque, é rica, com o registro de 357 espécies de árvores (47% das espécies ocorrentes em Santa Catarina), 220 de aves (38% de todas as aves e 68% das espécies terrestres do estado), 39 de anfíbios e 56 de mamíferos. Da lista de espécies ameaçadas que estão protegidas nessa unidade de conservação, constam o papagaio-de-peito-roxo, o gavião-pomba, o papo-branco, o gato-maracajá, a maria-da-restinga e a onça-parda, ou suçuarana. A mata Atlântica é um hotspot mundial. Ou seja, um dos locais mais ricos em biodiver-

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sidade e mais ameaçados do planeta – daí sua decretação como Reserva da Biosfera pela Unesco e Patrimônio Nacional, na Constituição Federal de 1988. Sua composição original forma um mosaico de vegetações definidas como florestas ombrófila densa, aberta e mista; florestas estacional decidual e semidecidual; campos de altitude, mangues e restingas. Ou seja, sua preservação é fundamental para saúde tanto do ecossistema brasileiro como do planetário. Desde 2014, quando da criação do parque nacional, tornou-se impossível, pela força da lei, fazer um projeto na região que não seja comprovadamente sustentável. Se o que sobrou é belo, rico e deslumbrante, fica difícil imaginar o que pareceu aos olhos dos primeiros e perplexos portugueses. À época, no entanto, não havia qualquer cuidado com a preservação. Era necessário desbravar, abrir trilhas, queimar lenha e usar todos os recursos possíveis para um selvagem projeto econômico. História da devastação Tudo começou nos anos 1500 com o pau-brasil, cuja extração no início chegou a 1.300 toneladas por ano. Não adiantou muito a queixa da Coroa portuguesa, no começo do século 17, de que com as atividades “as madeiras virão a acabar e perder de todo”, como relata o brasilianista americano Warren Dean, em seu monumental A Ferro e Fogo – A História e a Devastação da Mata Atlântica Brasileira, de 1995, o melhor e mais bem documentado livro sobre o tema. Depois chegaram, ainda no século 16, o gado, e a partir dele o comércio do seu couro (início do século 18), e a cana-de-açúcar. No caso do gado, seus criadores utilizavam uma única e poderosa arma: as queimadas. Em meio a isso, no século 17, foram introduzidos implementos de ferro, que tornavam fácil a derrubada das florestas. Outros períodos predatórios foram os ciclos do ouro e dos diamantes, descobertos no século 18. Extraíram-se 1 milhão de quilos de ouro (números oficiais e pouco confiáveis) e 2,4 milhões de quilates de diamantes. Isso levou a expansão urbana a áreas ainda intocadas e à tranformação da floresta em charnecas. A cultura do café, em enormes extensões de terra (a ameaça mais intensa do que qualquer outra atividade nos últimos 300 anos), e a industrialização a partir do século 19 e mais intensamente no século 20, com setores como o metalúrgico – um devorador de energia, obtida então em grande parte da madeira –, além da consequente urbanização, também contribuíram para proporcionar um grau quase irreversível de predação da vegetação. Mata sobrevivente Mesmo assim, com toda a sua redução e fragmentação, a mata Atlântica ainda ostenta em torno de 20 mil espécies vegetais (cerca de 35% das existentes no país), incluindo diversas ameaçadas de extinção. Essa diversidade é maior que a de alguns continentes, como América do Norte e Europa. Trata-se, assim, de uma prioridade na conservação da natureza que ainda resta no planeta. A mata Atlântica tem importância vital para 120 milhões de brasileiros que vivem em seu domínio, onde são gerados cerca de 70% do PIB nacional, que dependem de seus vitais serviços ambientais. Ela regula o fluxo dos mananciais hídricos, assegura a fertilidade do solo, controla o equilíbrio climático e protege escarpas e encostas das serras, além de preservar um patrimônio histórico e cultural imenso. Sem esquecer que suas paisagens oferecem formidáveis belezas cênicas.

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moda

summer time Em uma dessas manhãs você vai se levantar cantando e abrirá suas asas, como diz a letra da canção “Summertime”, escrita por DuBose Heyward sobre a estação do Sol

fotos

jr duran

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Body Tigresse Shorts Roxy Colar Bendita Benedita Cinto B. Luxo

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Camisa Tigresse Calças Magrella Brincos Lool AnÊis Camila Klein

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Jaqueta Coca-Cola Clothing Calテァas Forum テ田ulos Gucci Relテウgio Tommy Hilfiger Tテェnis Calvin Klein

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Body Lenny Calรงas Le Lis Blanc

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Ele: Polo Colcci Calças Lacoste Tênis West Coast Ela: Blusa Iorane Biquíni A. Niemeyer Brincos Maria Dolores Pulseira Hector Albertazzi Sandálias Schultz

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Top e calรงas Fit Colar Camila Klein Pulseira H.Stern Sandรกlias Michael Kors

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Jaqueta e calテァas Ellus Camisa Forum テ田ulos Gucci Tテェnis Lacoste

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Vestido Fit

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Fotos JR Duran Edição de moda Cesar Fassina (Aba Mgt) Produção de moda Clessi Cardoso Beleza Letícia De Carvalho (Amuse-Ment) usou produtos Dior, O Boticário e L’Oréal Assistente de beleza Gui Chapina (Amuse-Ment) Modelos Ana Luisa Ferreira (Mega SP) e Martin Tag (Closer) Fotos realizadas no Estúdio Pier 88 Tel. 11 3647 4600 studiopier88.com

Tigresse 11 3755 1174 Roxy roxybrasil.com.br Bendita Benedita 11 3567 8107 B. Luxo 11 3062 6479 Magrella 61 3365 1150 Lool 11 3037 7244 Camila Klein 11 3884 4503 Coca Cola Clothing 11 4432 0721 Forum 11 3667 5999 Gucci 11 3047 4040 Tommy Hilfiger 11 4496 7439 Calvin Klein 11 2388 8250 Lenny 11 3032 2663 Le Lis Blanc 11 3031 3284 Colcci 11 3823 2807 Lacoste 11 3823 2807 West Coast westcoast.com.br Iorane 31 3646 2855 A. Niemeyer 11 3034 4411 Maria Dolores 62 3255 3025 HectorAlbertazzi hectoralbertazzi.com.br Schultz 11 2388 8222 Fit 11 3088 6548 H Stern www.hstern.com Michael Kors michaelkors.com

Vestido Adriana Degreas Brincos Lool Pulseira Camila Klein Sandálias Anna Capri

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FA S H I O N

O grande

FETICHE Madonna já disse que um sapato Manolo Blahnik é melhor que sexo. Você pode discordar: tem também Louboutin, Jimmy Choo, Valentino... E tem as bolsas, ah, as bolsas!

por

M

S i l v a n a Ass u m p ç ã o

enina adora desfilar com os saltos altos e as bolsas da mãe. Começa assim uma paixão que, em geral, só cresce ao longo da vida e foi eternizada entre o público feminino por Carrie Bradshaw, a personagem de Sarah Jessica Parker no seriado Sex and the City. Graças à compulsão de Carrie por sapatos, em especial os do estilista espanhol Manolo Blahnik (que Madonna afirmou serem melhores que sexo), muitas mulheres “saíram do armário” e se assumiram como addicts. A internet está cheia de grupos de “viciadas em sapatos” capazes de detonar salários na ânsia de adquirir scarpins, peep toes, ankle boots e outros objetos de desejo. Até a neurociência já foi chamada a explicar essa fixação feminina e revelou o seguinte: as áreas do cérebro ligadas aos órgãos sexuais e aos pés ficam muito próximas – daí a estreita conexão entre prazer, sedução e calçados. Mas só uma bolsa transfere para a dona personalidade, estilo ou status até quando apenas displicentemente pousada ao lado dela. Se uma peça de roupa e mesmo um calçado sempre dependem da anatomia da pessoa para surtir todo seuGanchos: efeito estético, nada altera a impressão causaPontaodos um da porcomo umararos bolsa. Muita gente pode considerar tudo isso lugar outros

pura frivolidade, mas, como mostrou o filósofo e ensaísta suíço Alain de Botton no livro Arquitetura da Felicidade (Ed. Rocco), o lado visual da vida nos toca de maneira profunda. Ele observa que sempre que escolhemos um objeto colocamos em ação o mesmo sistema de eleições que rege a escolha de um amigo. Gostamos daquele objeto porque tem “uma atitude” que nos atrai, exprime quem somos ou desejamos ser. Quem curte moda sabe, enfim, o valor de um bom acessório. “Bolsa e sapato são boas maneiras de se identificar estilisticamente sem ter de se estressar com o look inteiro”, costuma dizer Miuccia Prada, a cabeça das marcas Prada e Miu Miu. Nem sempre os objetos materiais carregaram tantos afetos. O infernal feitiço de transformar coisas da vida prática em portadoras de “felicidade” e “identidade”, além de utilidade, nasceu somente com a modernização industrial na segunda metade do século 19. Antes dela não existiam o design de produtos, as marcas da moda, a própria moda, as vitrines, os cartazes, a fotografia, a propaganda. Os artigos originais das grandes grifes são luxos acessíveis a poucos, mas ditam as formas replicadas por todos os fabricantes e assim, de certa maneira, se democratizam. Confira algumas das marcas e modelos mais influentes da história e da atualidade no sedutor domínio das bolsas e dos sapatos.

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A bolsa de ombro Chanel em matelassê, com alça de

revolucionária – a primeira bolsa social feita para ser

corrente dourada, ganhou esse número por ter sido lançada

usada a tiracolo. Chanel teve a ideia por estar cansada

em fevereiro de 1955. O 5 era o número de sorte de Coco

de carregar suas bolsas na mão e perdê-las. A fabricação

Chanel, sortilégio que se confirmou, entre outras ocasiões,

requer 60 moldes e passa por 180 etapas, em seis

quando a fórmula ideal do célebre parfum nº 5 calhou

diferentes ateliês. A produção é 100% manual e realizada

de ser a quinta entre as dez preparadas para testes pelo

por artesãos com ao menos 20 anos de casa. O interior

perfumista (mas o dia de seu lançamento, 5/5 de 1921, foi

da bolsa tem vários compartimentos, inclusive um secreto

calculadamente escolhido). Assim esta bolsa, também

na aba e três apenas para batons. O couro deve ser o mais

nascida sob o signo de um duplo 5, mantém-se há 60 anos

macio possível, sem que a bolsa fique mole. Para tanto, a

como ícone da moda.

costura do acolchoado do matelassê segue uma receita

Com um desenho inspirado nas pastas usadas pelos carteiros franceses dos anos 1940, foi uma peça

mantida em segredo. A corrente é a última coisa a ser colocada. O preço: US$ 3.300.

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Divulgação

chanel 2.55


fashion

LOUIS VUITTON A LV é a grife de luxo mais valiosa do mundo e uma das mais antigas, criada em 1854, quando o jovem artesão Louis Vuitton abriu sua loja em Paris para produzir malas e baús de viagem. As famosas padronagens Monogram e Damier nasceram para distinguir seus produtos dos imitadores [o monograma LV foi criado pelo filho Georges em 1896, e o “tabuleiro de damas” (damier) em 1888]. Ambas são características do canvas ou toile Vuitton, lona especial impermeável tão cara quanto o couro e que torna suas peças inconfundíveis. Alças e acabamentos de couro cru, que escurecem com o tempo, e fechos banhados a ouro também são a cara da LV. Quando ocupou a direção artística da casa (até 2014), o americano Mark Jacobs introduziu algumas padronagens de estilo pop, como a Monogram colorida e a de cerejas, criadas pelo artista japonês Takashi Murakami. Dois modelos se destacam: Speedy (foto), bolsa de mão tipo baú, com cadeado; e o casual Neverfull, de ombro, tipo saco, sem fecho ou zíper, com tiras para ajuste da abertura nas laterais. Ambas são feitas em três tamanhos nos canvas Damier e Monogram. Recentemente a Neverfull foi lançada também em cores lisas e vibrantes. Seus preços variam de US$ 900 a US$ 1.200.

VALENTINO O italiano Valentino Clemente Ludovico Garavani, nascido em 1932, é talvez a maior estrela viva do mundo da moda. Sua fama foi construída na alta costura a partir dos anos 1960 e esta ainda é uma fonte de lucros de importância de sua marca. Mas como todas as demais grifes de couture seu mix se estende a toda a diversidade de itens que realmente sustenta esses impérios globais – os acessórios, perfumes, cosméticos etc. No campo dos sapatos e bolsas, o brand Valentino reúne à sua tradição de classe e qualidade o espírito jovem e ousado da moda contemporânea. Bolsas estampadas com notas musicais, botas altas com motivos florais ou modelos sociais de salto agulha crivados de spikes, botas de chuva de borracha, não há tendência que não represente e eleve ao topo do bom gosto. A coleção de sapatos Valentino tem preços que vão de US$ 600 a US$ 6 mil.

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LOUBOUTIN A marca registrada das criações do francês meio vietnamita

1991. Também trabalhou nas maisons Dior, Chanel e Saint

Christian Louboutin são as solas vermelhas, que viraram

Laurent. A primeira cliente estrelada foi a princesa Caroline

uma obsessão mundial. Um dos estilistas de sapatos

de Mônaco. Logo divas da elegância como Diane von

mais influentes da atualidade, nasceu em 1964, desenhou

Fürstenberg e Catherine Deneuve também subiram em

sapatos desde a adolescência e em 1981 foi trabalhar na

seus saltos altíssimos. Louboutin já usou bilhetes de ônibus

maison de Charles Jourdan (o mestre já havia morrido em

e tampas de cerveja na decoração de seus sapatos e adotou

1976). Lá se iniciou no segredo de um perfeito salto agulha,

irrestritamente os spikes punk. Os preços de seus sapatos

seu primeiro sucesso ao abrir sua maison em Paris em

ficam entre US$ 700 e US$ 2 mil.

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fashion

JIMMY CHOO O malaio radicado em Londres nasceu em 1948 numa família de sapateiros e aos 11 anos de idade fez seu primeiro par. Completou estudos técnicos em Londres e abriu sua primeira loja em 1986. Antes já fazia peças sob encomenda para iniciadas que haviam descoberto seu trabalho num pequeno ateliê. A mais ilustre delas era a princesa Diana. Em 1988 um editorial da revista Vogue projetou as criações de Jimmy – que mais parecem joalheria, empregando rendas, sedas, veludos, pedras e cristais. Onze anos depois, a editora de acessórios da Vogue britânica Tamara Mellon associou-se a Choo e conduziu a marca a uma extraordinária expansão. Em 2001, o artesão e budista saiu da sociedade e mais tarde retomou uma produção separada, pequena e artesanal, a Jimmy Choo Couture line. A Jimmy Choo original passou por várias mudanças societárias e iniciou outras linhas de produtos. Os preços de sapatos estão entre US$ 500 e US$ 1.500 no site da marca.

PROENZA SCHOULER Estrela em ascensão, a marca nova-iorquina de roupas e acessórios femininos fundada em 2002 vem revolucionando a moda americana e arrebanhando todos os prêmios da área desde sua estreia. Seus produtos somam manufatura de alto nível e um estilo casual refinado, inspirado na arte contemporânea e cultura jovem. O brand é a união dos nomes de família de solteiras das mães de seus fundadores – o casal Jack McCollough e Lazaro Hernandez. Sua primeira loja foi aberta somente em 2012 na avenida Madison. Em 2013 veio a segunda, no bairro do Soho. O modelo satchel PS1, lançado com a primeira coleção de bolsas da marca, em 2008, já se tornou um clássico. Sua versão mais cultuada é feita de couro navy e vendida por US$ 1.877.

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KELLY E BIRKIN - HERMÈS A Hermès foi fundada em 1837 por Thierry Hermès para

bolsa do início ao fim, gastando para isso no mínimo 25 horas. Se

fazer artigos de selaria. Muitos anos depois surgiram as

for de crocodilo, o processo é mais demorado. São necessários

bolsas, carteiras e demais acessórios femininos da marca.

dois bichos para fazer uma Kelly, e a Hermès usa animais criados

Seus primeiro modelo de bolsa foi a Kelly, criada em 1935 e

com cuidados especiais para não esfregarem muito a barriga

assim batizada só em 1955 em homenagem à princesa de

e o papo (as melhores peles) no chão. Em 1984, nasceu a que

Mônaco, Grace Kelly, que fez dela uma assinatura pessoal. A

se tornou até hoje o maior sucesso da Hermès, a bolsa Birkin,

bolsa virou febre a partir de 1956, quando Grace apareceu

a pedido da atriz e cantora Jane Birkin. É um pouco maior, em

numa foto da revista Life tapando a barriga com uma de

forma de trapézio, com uma tira para graduar a abertura disposta

suas Hermès, supostamente para esconder a gravidez.

perpendicularmente a esta. Dizem que a lista de espera por uma

Febre de desejo, já que a mais básica Kelly custa 13.400

Birkin chega a três anos. A parte interna é sempre forrada de

euros e só é feita sob encomenda.

couro da exata cor do que foi usado no exterior. Birkins ou Kellys

A cliente escolhe a cor e o couro e um mesmo artesão faz a

chegam a mais de US$ 20 mil conforme o material.

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fashion

PRADA A marca que o diabo gosta nasceu em 1913 em Milão fundada pelos fratelli Mario e Martino Prada. Sua especialidade eram malas, bolsas e acessórios de viagem de alto luxo. Logo sua loja na galeria Vittorio Emanuele tornou-se fornecedora oficial da família real italiana e endereço obrigatório da aristocracia europeia. Em 1978, a neta de um dos fundadores, Miuccia, assumiu a direção junto com seu então futuro marido, Patrizio Bertelli. Com talento e vocação para ousar, lançou em 1985 uma bolsa de linhas básicas e depois uma bela mochila de náilon preto. Esses e outros acessórios do mesmo material tornaram-se cults entre mulheres modernas, modelos e celebridades. Da mesma época são os sapatos que parecem tênis (ou tênis que parecem sapatos), de solados grossos, que continuam a ser tendência. Muitos calçados femininos Prada são pesados e de linhas masculinas. Miuccia Prada é uma estilista provocativa e, tanto na Prada quanto na Miu Miu, marca um pouco mais acessível para o público mais jovem que criou, vive lançando conceitos que são choques culturais. Os preços de suas bolsas, dependendo do tamanho, tipo, material e modelo, variam entre US$ 500 e US$ 8 mil. Os sapatos, de US$ 500 a US$ 1.500.

MANOLO BLAHNIK O designer de sapatos adorado por Madonna nasceu no arquipélago espanhol das Ilhas Canárias em 1942. Estudou literatura e arquitetura na Suíça mas largou os cursos. Começou como fotógrafo do jornal Sunday Times de Londres e só se encontrou como criador de sapatos depois de conhecer a lendária diretora da Vogue americana Diana Vreeland, em 1971. Vreeland foi uma de suas mais carismáticas clientes, ao lado de outras como a princesa Diana, Bianca Jagger (que entrou com um Blahnik nos pés na famosa festa do Studio 54, em Nova York, em que chegou montada a cavalo, nos anos 1970), Jerry Hall e Marisa Berenson. Os sapatos de Blahnik são preciosos nos materiais, muitas vezes extravagantes. Na Berddorf Goodman de NY encontram-se Blanhiks entre US$ 700 e US$ 2 mil.

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LADY DIOR O mestre Christian Dior inaugurou sua maison em 1947 no

no ano seguinte, depois que a princesa Diana ganhou uma

número 30 da avenue Montaigne, endereço que a marca

de presente da primeira-dama francesa e apaixonou-se pelo

ocupa até hoje. Morreu dez anos depois. Nesse curto espaço

modelo. Desde 2008 é a atriz francesa Marion Cotillard

de tempo brilhou como o maior nome da alta costura e

que personifica essa bolsa em que tilintam suavemente as

eternizou uma marca. Seu sucesso foi instantâneo ao lançar

quatro letras da marca banhadas a ouro, penduradas numa

o New Look, que moldou a “cara” da mulher dos anos 1950.

das bases da alça. O modelo clássico é de mão e há uma

O termo marca o retorno da feminilidade e do luxo que

versão mais jovem com uma alça de ombro opcional. O

haviam sido deixados para trás na Segunda Guerra Mundial.

couro estofado é pespontado em linhas perpendiculares

Dior foi precursor no licenciamento de produtos. Os sapatos

e diagonais que criam um círculo em relevo no centro,

da marca eram feitos sob licença por um dos maiores

desenho que Dior copiou das cadeiras de Napoleão III e

nomes de todos os tempos nessa arte, Charles Jourdan

transformou em seu emblema. Dependendo do tamanho

(morto em 1976). No campo dos acessórios o maior ícone

e do material (couro de crocodilo, cobra, prateado),

da Dior é a bolsa Lady Dior, de 1994. Recebeu esse nome

os preços vão de cerca de US$ 3 mil a US$ 15 mil.

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D E L Í C I A S D O L I TO R A L

mar

© Creative Commons

As águas de Santa Catarina são ricas na produção das mais saborosas ostras do país

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precioso S i lv i o L a n c e lo t t i

Cultivada com todo o cuidado em “gaiolas”, elas são uma força econômica. E sempre aguçam o paladar

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© Creative Commons

por


DELÍCIAS DO LITORAL

samente afixadas graças a conexões potentes em seu interior. Engenhosamente, filtra a água e absorve fitoplâncton, ou microalgas, através de guelras micrométricas, dispostas em pares. Quando um parasita invade, digamos, a sua moradia, libera uma substância peculiar, a madrepérola, que se enrodilha no inimigo e se cristaliza. A madrepérola reveste a superfície interna das conchas e pode estimular uma pérola. Não existe a possibilidade de uma ostra intoxicar o seu devorador – desde que tal personagem não padeça de uma propensão alergênica. Mesmo quando acontece uma derrama de óleo ou uma proliferação de algas ruinosas, conforme ocorreu em Santa Catarina de 2008 a 2012, o risco parece insignificante. Basta principal riqueza marinha de deixar a ostra em paz, Santa Catarina tem o nome escridurante algum tempo. to em latim e certidão de origem Sozinha, ela filtra todas lavrada em japonês. Trata-se da as sujidades e toxinas. maravilha que a ciência batizou de A ostra de santa Fundamental: não torCastrossea gigas, ou ostra-do-pacíficatarina é da turá-la com alterações co – 95% de toda a produção do bruscas de temperatupaís provém de lá. O nome em latim, claro, se justifica, mesmíssima espécie ra. Em Florianópolis, a desde que o cientista Carolus Linnaeus (1707-1778), que cresce nas temperatura da água se um multímodo sueco, idealizou a taxonomia, forma águas da França. preserva equilibradísengenhosa de se catalogarem os seres vivos. Mas orisima, baixa, mais para gem lavrada em japonês? E ostra-do-pacífico, de onde Só que aqui ela o frio do que para o cásurgiu essa maluquice que foi parar no sul do Brasil? dispõe de muito mais lido, circunstância que Não é tão simples de se explicar. Bastante lóginutrientes para se estimula a oxigenação co, no entanto, de se justificar. A ostra é um molusco ideal e a proteção dos que adere ao casco dos navios e, assim, cruza os ditornar gostosíssima nutrientes. versos oceanos do planeta. Provavelmente, no século Os gauleses se orgu15, quando a Europa começou a investigar o Orienlham da sua ostra. Aliás, te, suas embarcações se encheram de exemplares da ninguém no universo craca, incrustadas nos arredores das quilhas, exemplares que liberaram sementes no Mediterrâneo e no canal sabe utilizá-la melhor na gastronomia. Só que a água onde da Mancha. Da Escandinávia até Gênova, em contato com medra a ostra basilar da França (aliás, a mesma C. gigas) geralespécies nativas, a espécie oriental cuidou de desenvolver mente atinge 6 metros de profundidade e padece de carência uma ostra de resistência fenomenal. Daí, a partir do século de nutrientes. Em Santa Catarina, média de 150 centímetros 16, quando navegadores da Holanda, da França, da Espanha de profundidade, e um providencial movimento de correntes e de Portugal iniciaram sua exploração da costa do Brasil – desde a costa, os nutrientes transbordam. de Santa Catarina até o rio Guaíba, no Rio Grande do Sul Paixão recente –, o processo se repetiu. Curiosamente, o estado sulista e boa parte do Brasil apePor uma série de razões a ostra nativa, primitiva, catarinense, depressa se destacou. Em especial, pela sua resistibili- nas mergulharam no desfrute da ostra de Santa Catarina nos dade. A ostra é um molusco bivalve, de duas conchas vigoro- meados da década de 1980 – quando bravos pesquisadores

A

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© Creative Commons Istock

O governo do estado, o governo federal e cerca de 30 organizações apoiam a instalação de fazendas de ostras. Cabe aos pesquisadores da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola (a Cida) orientar quem pretenda se estabecer no ramo. Ostra é com eles. O limãozinho fica por conta do consumidor

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DELÍCIAS DO LITORAL

da Universidade Federal no estado implantaram por lá um caixas plásticas. Numa unidade de beneficiamento o conlaboratório de pesquisas e decidiram disseminar suas desco- teúdo das caixas passa por uma higienização ainda mais bertas. Hoje, especialmente nos entornos da ilha que hospe- detalhada, com água clorada e jatos de bomba de pressão. da Florianópolis, Santa Catarina acusa o registro de 820 fa- Enfim, se perpetra o embalamento em caixas de isopor zendas definidas e demarcadas. Cerca de 700 famílias tocam com gelo filtrado. Caixas lacradas e rotuladas. essas propriedades, com o apoio de perto de 30 associações Santa Catarina oferece três tamanhos de ostra: 1) a Baby, municipais, do governo do estado e do governo federal. Ar- de 7 centímetros, recolhida entre sete e oito meses; 2) a Média, redondadamente, a produção de ostras se aproxima, e veloz- de 9 centímetros, entre nove e dez meses; 3) a Master, que lá, mente, das 4 mil toneladas anuais, o triplo na última década. de brincadeira, trocadilho duvidoso, se transformou em “osDe maneira a se minimizarem os problemas de conta- travagante”. São 11 centímetros, entre 11 e 12 meses. Claro que minação eventual, a solerte Cida (Companhia Integrada de a “vagante” fascina pelo volume. Contudo, não existem difeDesenvolvimento Agrícola) implantou 16 pontos de moni- renças de paladar entre os três tamanhos. Única crítica que toração. Por circunstâncias incontroláveis, coisa da fragili- faço à C. gigas: por uma questão genética, não resulta em pédade atávica de qualquer ostra, no seu processo de matura- rola. Dia desses, todavia, ao comer um prataço de mexilhões ção há uma perda de 40%. Os técnicos da Cida pretendem (Perna perna) entre a barra do rio Itajaí e o Atlântico, o cientista rebaixar esse perigo aos limites dos 30%. Carlos Magno, da UFSC, mordiscou o incômodo do que seria Entre outras tarefas fundamentais, cabe a eles orientar (do um cascalho. Não era. Magno atestou que se tratava de uma zero) quem deseje fundar mais uma das fazendas. E espécie de pérola, negra. o procedimento, ainda que exaustivo, penoso, é lindo. Jamais imaginara que Tudo principia nas sementeiras da UFSC em Barra da mexilhões pudessem Lagoa, no leste da Ilha. Ali, os técnicos da universidade perpetrar algo assemeacalentam um berçário – cada micro-ostra se assemelhado. Sim, pela própria A cultura da ostra lha a um grão de areia. Cada ciclo resulta em 1,5 milhão espontaneidade daqueno estado começou de unidades. Daí, essas preciosidades acabarão encaile processo, pérola irrexadas em dispositivos que permitirão seu crescimento gular, longe do redondinos anos 1980. De lá sem o perigo da predação: redes de malha fina, gaiolas nho ideal. para cá, formaramapelidadas de “lanternas” que se dependuram em long liMagno decidiu tose 820 fazendas de nes, fileiras e fileiras paralelas de cordames da superfície, car um método novo, de sobre boias, nas quais todos os exemplares crescem, sem forma a chegar à pérola cultivo. No total, que ninguém os atrapalhe. De quando em quando, apenegra perfeita. Basta elas produzem nas, um dos técnicos verifica o crescimento e a eventual incomodar os múscuuma média de 4 mil necessidade de transferência para gaiolas maiores. Cada los dos mexilhões com qual pode hospedar 80 quilos. um toque pontudo de toneladas por ano talco. Os músculos reagirão e lutarão pela sua Pérolas negras dignidade. Criarão, ao O plantio se inaugura em janeiro. O amadureredor do ponto em que cimento ideal ocorre na água mais fria de junhohouve o toque, uma ca-julho. No trajeto, os técnicos acompanham, minuciosamente, a expansão da safra, em 16 pontos de mada de carbonato de cálcio, a raiz da pérola. Por que negra? monitoramento. Na manhã de cada entrega se retiram os O pesquisador ainda não descobriu. Meramente constatou conjuntos da água, faz-se a sua limpeza com escovas higie- que, em um dos mexilhões alaranjados, a pedrinha que brota nizadíssimas, de maneira a se eliminarem os excessos de é mais escura do que nos brancos. Quais são as fêmeas e quais incrustações nas cascas, e se espalham as preciosidades em os machos? Claro, os machos, mais feios, são brancos...

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Um técnico cuida da higienização das ostras, tão logo retiradas do mar. Ele aplica água clorada e

Agência RBS

jatos de bomba de pressão

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Divulgação

gastronomia

a mesa

L’Absinthe: no melhor

ponto de Paris, um reduto da gastronomia francesa

Quatro

Os melhores endereços para comer bem em Londres, Paris, Milão e Nova York

por

M a u r o M a r c e lo A lv e s

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BRAVÍ S S I MA


Se comer todos os dias é obrigatório, comer por prazer se situa em uma escala ascendente quando estamos viajando. Alguns almoços ou jantares podem se tornar inesquecíveis, fazendo a viagem ganhar muito em emoção. Certas cidades são bem conhecidas por terem uma vocação especial para exibir restaurantes, bares e outros locais que garantem momentos de variada intensidade – nos mais descontraídos, nos bem-comportados ou nos grandes clássicos. Aqui, opções em quatro metrópoles líderes em gastronomia: Londres, Paris, Milão e Nova York.

1

Londres

C h i lt e r n F i r e h o u s e Difícil conseguir uma reserva, mas vale muito tentar (a melhor dica para isso é se hospedar no próprio hotel onde fica o restaurante, em Marylebone). Sensação do momento em Londres, é chefiado pelo português Nuno Mendes, que muitos chamam de visionário ao mesclar técnicas tradicionais ibéricas e japonesas com um olhar moderníssimo – e até subversivo – para os padrões atuais da culinária. Chiltern Street, 1, tel. (44) 20 7073-7676 www.chilternfirehouse.com

Um simples steak chega à mesa assim,

© Alamy Photos

© Creative Commons

no subversivo Chiltern Firehouse

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Simon John Owen

George Apostolidis

gastronomia

Bar Boulud London Bistrô e wine bar instalado dentro do hotel Mandarin Oriental, em um prédio de 1889, diante do Hyde Park. Tem um jeito parisiense e grife do chef francoamericano Daniel Boulud. O lugar é alegre, vibrante. Aqui, os bons vinhos (destaque para Bourgogne e Rhône)

Square

ganham a companhia das terrines

Ambiente clássico e refinado, típico da

e patês do mago charcutier francês

atmosfera londrina, com alta cozinha

Gilles Verot, além de pratos rápidos

registrada a partir de uma pegada

gostosos – seu búrguer, segundo

contemporânea longe de modismos.

o jornal brtitânico The Observer, é

Serviço elegante, sem afetação, e um

simplesmente o melhor da cidade.

conjunto de pratos com excelente

Mandarin Oriental Hotel, Knightsbridge, 66, tel. (44) 20 7235-2000 www.mandarinoriental.com/london/ dining/bar-boulud

City Social Com uma vista impressionante sobre a

integração dos ingredientes e ótimas sobremesas. A longa carta de vinhos é muito bem selecionada. Bruton Street, 6-10, Mayfair, tel. (44) 20 7495- 7150 www.squarerestaurant.com

City — o centro financeiro da cidade —, a casa de Jason Atherton, instalada no

As duas imagens ao alto são do

24º andar, encanta com o ambiente e

adorável Bar Boulud. As demais do

a comida, que é bem variada, graças às

City Social, não menos encantador Fotos Divulgação

especialidades europeias servidas com generosidade e apetitosa apresentação. Não deixe de usufruir alguns momentos no Social Bar, com drinques clássicos e boa música ao vivo. Old Broad Street, 25, 24th Floor, tel. (44) 20 7877-7703 www.citysociallondon.com

120 BRAVÍ S S I MA


2

Paris

L ’ Ab s i n t h e Se você estiver flanando entre a avenue de l’Opéra e a place Vendôme, no mítico 1er Arrondissement de Paris, entre no clima e vá a esse reduto da gastronomia francesa tocado desde sempre com competência pela família Rostang. Pratos bem-servidos em ambiente de brasserie chique e serviço ágil. Place du Marché Saint-Honoré, 24, tel. (33) 1 4926-9004 www.restaurantabsinthe.com

Epicure Le Bristol Comandado por Éric Frechon, um dos mais respeitados chefs da atual cena gastronômica parisiense, esse três estrelas Michelin garante uma noite no mais alto estilo no Le Bristol, hotel onde Woody Allen filmou Meia-Noite em Paris. Cozinha francesa sólida com toques de intensa criatividade. Rue du Faubourg Saint-Honoré, 112, tel. (33) 1 5343-4300 www.lebristolparis.com

O L’Absinthe (acima) e o Epicure Le Bristol (abaixo e ao lado): preciosos

121 BRAVÍ S S I MA


gastronomia

Le Comptoir Experimente a comida saborosa do enfant terrible Yves Camdeborde, chef que inaugurou na capital francesa a onda “bistronomique”, na qual o que conta é o valor dos ingredientes e seu preparo, não a frescura. Melhor reservar. Le Comptoir du Relais Saint-Germain, 9, Carrefour de l’Odéon, St-Germain-des-Prés, tel. (33) 1 4427-0779 www.hotel-paris-relais-saint-germain.com

Jacques GEnin Para quem ama chocolate, a loja do ex-chef da Maison du Chocolat Jacques Genin é um templo. Cacaus das melhores procedências são combinados e aromatizados com plantas e especiarias. Sabores

Rue de Turenne, 133, no Marais, e rue de Varenne, 27, Rive Gauche, tel. (33) 1 5371-7221 www.jacquesgenin.fr

Se você ama chocolate. eis aqui o seu endereço: Jacques Genin, de Paris

3

© Creative Commons

memoráveis.

Milão Il Ristorante T r u s s a r d i a l l a Sc a l a Perto da célebre Galleria Vittorio Emanuele II e do clássico Teatro alla Scala, o espaço Trussardi de Milão oferece moda, arte e gastronomia em um projeto único. Lá dentro se encontra um dos melhores restaurantes do país, que mescla as influências francesa e italiana com bons produtos de cada estação. Piazza della Scala, 5, tel. (39) 02 8068-8201 www.trussardiallascala.com

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Peck É muito mais do que se imagina em gastronomia. Você pode almoçar ou jantar no restaurante, tomar um vinho ou drinque no belo bar, mas esse empório de produtos gourmet surpreende e vai além. Símbolo gastronômico de Milão desde 1883, o Peck pode ser descrito como um exagero de elegância e também de azeites, balsâmicos, embutidos, trufas, vinhos, massas, temperos, conservas, queijos, chás, cafés, acessórios para bar e cozinha etc. etc.

Fotos Divulgação

Via Spadari, 9, tel. (39) 02 802-3161 www.peck.it

Peck: para comer, bebericar e até comprar produtos gourmet

I n n o c e n t i E va s i o n i Se o dia estiver bonito não deixe de tentar uma mesa ao ar livre nesse giardino ristorante. O lugar é lindo e os bem-humorados chefs Eros Picco e Tommaso Arrigoni nos fazem imergir na cozinha clássica italiana, trabalhada com desenvoltura atual. Fica em uma pequena travessa perto da Viale Certosa e fecha aos domingos. Via privata della Bindellina, 20155, tel. (39) 02 3300-1882 www.innocentievasioni.com

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Divulgação

gastronomia

C a r l o C r a cc o Cozinha italiana contemporânea com a técnica impecável do chef Carlo Cracco, qualificada pelo diário americano Wall Street Journal nada mais nada menos como “Food of Love”. Com duas estrelas Michelin, tem Divulgação

ainda uma soberba carta de vinhos

4

Nova York

E l e v e n M a d i s o n Pa r k Praticamente uma unanimidade como o número 1 dos Estados Unidos, ele traduz toda a sofisticação urbana da cidade por meio de sua impactante cozinha. As surpresas do chef francês Daniel Humm encantam e intrigam pelo primoroso acabamento. Os ingredientes mostram uma qualidade artesanal e orgânica superior nos frutos do mar, legumes e verduras, ervas silvestres, foie gras, caviar e carnes de pequenos produtores. Madison Avenue, 11, tel. (1) 212 889-0905 www.elevenmadisonpark.com

A culinária e o serviço são tão altos quanto o pé-direito deste restaurante, considerado o número 1 dos EUA

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com cerca de 2 mil rótulos. Via Victor Hugo, 4, tel. (39) 02 87-6774 www.ristorantecracco.it


M i n e t ta Tav e r n Se você quer aproveitar os dias na cidade para topar com gente da moda, estrelas de cinema e artsy types, um dos endereços seguros é essa casa com ares de cinema. Vale sorver um champanhe ou drinque no bar para ver os representantes das tribos antes de tentar uma mesa para comer uma das carnes dry aged que fazem o sucesso do lugar.

O chamado beautiful people frequenta a Minetta Tavern (à direita). Já o David Burke (abaixo) é o templo do celebrado chef que batiza a casa

Fotos © Creative Commons

MacDougal Street, 113, entre Bleecker & West 3rd Streets, tel. (1) 212 475-3850 www.minettatavernny.com

Dav i d B u r k e K i t c h e n O ambiente é muito gostoso, com decoração de Thomas Schlesser inspirada no SoHo. O celebrado David Burke apresenta sua versão da cozinha americana moderna, com preocupação na escolha de matériaprima saudável e na qual a criatividade não esconde o sabor dos pratos. Grand Street, 23, Soho, tel. (1) 212 201-9119 www.davidburkekitchen.com

Rogue and Canon Bar e restaurante com deliciosos búrgueres, drinques e um típico brunch em ambiente descolado e aconchegante. O bar com uma muralha de garrafas fervilha com drinques no começo da noite. Fica bem na divisa entre SoHo e West Village. West Houston Street, 128, tel. (1) 646 398-8700 www.rogueandcanon.com

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BEBIDA S

Comemoração à beleza de Sophia Loren e à qualidade de um Ferrari

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Celebração à italiana Os espumantes da Cantine Ferrari estão nas melhores festas há nada menos que 113 anos

por

Marcello Borges

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bebidas

N

a Itália, o sobrenome Ferrari é um dos três mais comuns. Fica atrás apenas de Rossi e de Russo entre os mais numerosos. Mas no restante do planeta basta ouvir a palavra Ferrari para fazer a associação com a fábrica de carros esporte. É inevitável. Isso não incomoda a casa Giulio Ferrari. Sua preocupação é outra: continuar produzindo, em Trento, alguns dos melhores vinhos espumantes da Itália. Como vem fazendo desde 1902. Essa história começou quando Giulio Ferrari foi à França, estudar na Escola de Viticultura de Montpellier. Voltou para casa com a obsessão de produzir um vinho capaz de competir com os melhores champanhes franceses. Pioneiro, foi um dos primeiros viticultores italianos a dedicar seus vinhedos quase que apenas à Chardonnay, uva utilizada na produção dos finos blanc de blancs da França. Hoje, a região do Trentino, no norte do país, é a maior zona vinífera de uvas Chardonnay da Itália. Recebeu, inclusive, a devida denominação de origem controlada, a DOC. Desde o início, Giulio optou pelo método tradicional

de produção empregado na região de Champagne. Ou seja, a segunda fermentação ocorre em garrafa, com rémuage (mudança de posição) diária e posterior remoção das leveduras. A excelente resposta dos primeiros consumidores mostrou que era o caminho correto. Ferrari continuou seguindo a tradição. Sua maior preocupação era encontrar alguém para dar continuidade à empresa que fundou. Ferrari não tinha filhos. Acabou encontrando seu sucessor: o proprietário de uma loja de vinhos em Trento. Era Bruno Lunelli, que adquiriu a vinícola e aumentou a produção sem comprometer a qualidade. Giulio continuou a trabalhar na empresa até sua morte, em 1965. Na época da venda, em 1952, a Ferrari produzia apenas 10 mil garrafas por ano, concentrando-se na qualidade. Camilla Lunelli, uma das netas de Bruno, conta que certa vez Ferrari recebeu um pedido de 2.500 garrafas da empresa de cruzeiros marítimos Costa. Ele forneceu apenas 60 garrafas. E explicou: “Perdão, mas não fabrico refrigerantes”. Os filhos de Bruno – Franco, Gino e Mauro – deram continuidade à nova atividade familiar, firmando os espumantes Ferrari como líderes do segmento na Itália e uma

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Uma propaganda da Ferrari, ainda nos tempos do primeiro dono

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bebidas

espécie de vinho oficial de comemorações do país. Entre 1970 e 2000, foram lançados alguns dos rótulos que notabilizaram a casa no cenário internacional. Os primeiros rosés, por exemplo. O método de produção era então praticamente desconhecido na Itália.

na mais qualidade às uvas. A produção de Pinot Noir no Trento é de 15 toneladas por hectare, e a Ferrari restringe ainda mais esse número para 8 a 9 toneladas por hectare. Isso graças à poda verde – manutenção dos melhores cachos na videira – para garantir uvas mais aromáticas. Com elas, a marca produz uma gama ampla de espumantes, que começa pela linha Agricultura sustentável Clássica (Brut, Rosé e Demi-Sec), Atualmente, a terceira geração dos Todos os vinhos com mais de dois anos de envelheLunelli, com Camilla, Marcello, Matteo da Ferrari são cimento em garrafa. Os espumantes e Alessandro, mantém o nível de exBrut dessa linha trazem aromas florais celência dos espumantes. Entre outros Trentodoc. Ou seja, e frutados, com toque de levedura. cuidados, o respeito ao terroir. Todos os Seguem as rígidas A linha Maximum tem versões vinhos da Ferrari são Trentodoc – nome normas regionais Brut e Rosé, com mais de três anos de que se dá aos espumantes do Trentino garrafa. Na Rosé, a uva Chardonnay que seguem as normas do Istituto Trento recebe a companhia da Pinot Noir, reDOC. Entre outras exigências, devem sultando em delicado aroma de frutas silvestres. A linha ser feitos apenas com uvas da região, cultivadas em altitude Perlé é feita com uvas colhidas à mão e selecionadas. O vicom métodos agrícolas sustentáveis e orgânicos. nho passa cinco anos em contato com as leveduras. Ganha O clima da área proporciona alternância de dias quentes notas de panificação e frutadas e toques florais. Já o Perlé e noites frias, com uma amplitude térmica que proporcio-

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É raro encontrar algo em comum entre o artista plástico americano Andy Warhol e a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher, além do óbvia fama internacional e de terem vivido o seu auge no século passado. Outra semelhança: ambos degustaram de bom grado um espumante Ferrari

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bebidas

A nova sede da empresa em Trento, cidade onde a Ferrari começou há 113 anos. Abaixo, Marcello, Matteo, Alessandro e Camilla, a terceira geração da família Lunelli, a quem o pioneiro Giulio Ferrari vendeu

Mondadori/ Getty Images

a empresa na década de 1950

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Nero, como o nome sugere, é um espumante blanc de noirs, feito exclusivamente com uvas da casta Pinot Noir.

rafa. Em seguida, o fotógrafo oficial da cerimônia começou a tirar fotos de todos os ângulos, despertando a curiosidade dos Lunelli, que perguntaram a razão. O fotógrafo explicou: “Sou amigo de Ernest Borgnine, que adorava os espumantes Festa do Oscar A Ferrari é responsável também pela linha Reserve, que da Ferrari, e ele vai ficar alucinado ao ver essas fotos”. No dia inclui o Riserva Lunelli, com primeira fermentação em gran- seguinte, Borgnine convidou os diretores da Ferrari para almoçar em sua villa em Hollywood. des barris de carvalho austríaco, seguida Há pouco, durante a Expo Milade sete anos de presença das leveduras. O no 2015, o primeiro-ministro italiano resultado é uma bebida de alta compleO presidente da Matteo Renzi almoçou com o presixidade. Há, ainda, o Giulio Ferrari Refrança, Hollande, dente francês François Hollande no serva del Fondatore, com um mínimo de Palazzo Italia. Entre os convidados dez anos de contato com as leveduras, o elogiou o Ferrari estavam o escritor Umberto Eco e o que se traduz aromaticamente em notas para o premiê da ex-ministro da Cultura da França Jack frutadas, de mel, florais e de especiarias. Itália, Renzi Lang. O menu siciliano foi acompaPor fim, a Giulio Ferrari Collection é nhado de vinhos como Soave, Bardoproduzida com uvas do vinhedo de Maso lino e o espumante Ferrari. Quando Pianizza apenas em algumas safras e com Hollande elogiou o Ferrari, o premiê italiano, empolgado, notáveis 16 anos em contato com leveduras. Os vinhos da casa Ferrari ganharam fama até em disse: “Você vai me desculpar, mas este nosso espumante Hollywood, conta Camilla Lunelli. Numa noite de entrega tem sabor melhor que champanhe”. Mesmo descontando o do Oscar, em Los Angeles, a Ferrari montou um estande. patriotismo de Renzi, plenamente justificável, é necessário De repente, surgiu uma moça que ganhara um prêmio pe- admitir: espumantes como os Ferrari são membros obrigalos figurinos. Ela colocou sua estatueta ao lado de uma gar- tórios da elite mundial de sua categoria.

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vinhos

In vino

A Pericó é um case de sucesso e de confiança no potencial vinícola de Santa Catarina

por

Marcello Borges

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Fotos: Reprodução

As vinhas da empresa estão em São Joaquim, a 1.300 metros de altitude

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vinhos

A

história dos Weege poderia ilustrar um bom case de sucesso nas escolas de administração. Wilhelm e Bertha Karsten Weege, da Pomerânia (hoje pertencente à Polônia), fundaram a empresa que levava seu nome em 1906, com atividades em torno do comércio, especialmente de alimentos. Anos depois, em 1960, seus descendentes criaram uma loja de departamentos, algo inédito na região de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina. Em 1968, fundaram a Malwee, empresa da área têxtil da família. Wandér, neto do casal Weege, pensando na passagem do comando da empresa para seus filhos – o mais jovem, Guilherme, assumiu a presidência em 2011 –, adquiriu terras em São Joaquim, a 1.300 metros de altitude, região credenciada pela Epagri (Empresa de Pesquisa Agrope-

cuária e Extensão Rural de Santa Catarina) para a produção de vinhos finos. E, em 2002, fundou a Vinícola Pericó, hoje com 450 hectares no Pericó Valley, dos quais 40 dedicados à viticultura. Rótulos Taipa Rosé Foi o pioneiro da vinícola, sendo o primeiro rosé brasileiro com passagem por barricas de carvalho francês. As uvas são bordalesas, Cabernet Sauvignon e Merlot, aportando notas florais, frutas vermelhas frescas ao nariz, além da presença da baunilha decorrente da passagem pelo carvalho de Alliers. Na opinião deste autor, um dos melhores rosés do Brasil.

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Vigneto Sauvignon Blanc Primeiro vinho branco da Pericó, com aroma de grape-


São 40 hectares dedicados à viticultura, em uma propriedade de 450 hectares

Outros vinhos tranquilos fruit, maracujá, aspargo e exceda Pericó são o Plume Charlente acidez, tornando-o ótimo Fundada há apenas 13 anos, a donnay, com passagem por acompanhante para a culinária barricas de carvalho francês japonesa e pratos leves, ou para empresa conquistou prêmios – mantidas geladas – e que ser desfrutado à beira da piscivaliosos, como o da expovinis vai bem com carnes brancas; o na. Também degustado recenBasalto, um corte de Cabernet temente por mim, revelou-se Sauvignon (cerca de 60%) e de como gratificante surpresa, com ótima tipicidade. Não foi à toa que recebeu o prêmio de Merlot com vocação para churrascos e carnes como costela; o Minerato, que privilegia a Merlot (75%), acompanhada da melhor vinho branco nacional da Expovinis 2015. Cabernet Sauvignon (25%) e presença de especiarias e café; e o Equação, um varietal de Cabernet Sauvignon com aroBasaltino Pinot Noir O primeiro tinto da casa de São Joaquim foi bem auxi- ma de frutas vermelhas maduras. liado pelo clima de altitude. Frutas silvestres vermelhas, toEspumantes que defumado, notas de couro e ótima acidez, com taninos Como muitos já sabem, os vinhos espumantes têm se revefinos, também um destaque digno de menção em qualquer lado como uma das principais vocações da vinicultura brasileidegustação de vinhos brasileiros.

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vinhos

prepare a taça! O amplo portfólio da Pericó abrange de tintos varietais e assemblages a brancos com notas frutais e perfeita acidez. Sem esquecer os espumantes, que fazem muito sucesso no exterior, e uma grande novidade: o Icewine, o primeiro vinho brasileiro para sobremesas produzido com uvas congeladas 1

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11 1. Taipa. Um rosé fino seco feito com 60% Cabernet Sauvignon e 40% Merlot. 2. O Plume é um 100% Chardonnay, muito frutado. 3. Vigneto, um Sauvignon Blanc com notas de frutas tropicais. 4. O espumante Cave Pericó Moscatel harmoniza com sobremesas e queijos azuis. 5. São 75% de Cabernet Sauvignon e 25% de Merlot. Assim é produzido o Basalto. 6. O Pinot Noir Basaltino tem notas de ameixa, mirtilo, amora, cereja e café. 7. Elegante, o Minerato é uma assemblage de Merlot (75%) e Cabernet Sauvignon (25%). 8. Para produzir o Icewine colhem-se uvas congeladas. 9. O espumante Branco Brut tem ótima acidez. 10. Rosé Brut: outra variação concorrida. 11. O clássico método francês de produzir

Fotos Divulgação

espumantes é um dos trunfos do Camenoise Nature

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Reprodução

vinhos

ra, e a Pericó procurou inovar também nessa área. O resultado foi o Cave Pericó Branco Brut, um espumante produzido pelo método tradicional – segunda fermentação em garrafa e rémuage diária – com uvas Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay. As duas primeiras, que são uvas tintas, foram vinificadas em branco. Com 22 meses de contato sobre as leveduras, produziu-se um espumante de boa complexidade, com presença de frutas brancas, tostado e leveduras. O Cave Pericó Rosé Brut foi o primeiro espumante do tipo produzido nas terras de altitude de Santa Catarina, em 2008. Aqui, as uvas tintas Cabernet Sauvignon e Merlot contribuem para o tom rosado do vinho, com prensagem um pouco mais intensa para extração da cor. O método de produção desse espumante é o Charmat, com a segunda fermentação em autoclaves mantidas em temperatura controlada. Além desses espumantes, a casa oferece o Cave Pericó Champenoise Nature, feito pelo método tradicional com as três uvas já mencionadas e sem adição de açúcar, mantendo-o

extra-brut. Ainda há o Cave Pericó Branco e o Rosé Demi-Sec, com 20,8 g/l de açúcar, e o Cave Pericó Moscatel, feito com uvas Moscato Bianco (80%) e Moscato Giallo (20%). Os três últimos são produzidos pelo processo Charmat. Icewine Finalmente, é obrigatório falar do Pericó Icewine, o primeiro “vinho de gelo” do Brasil. Tecnicamente, os vinhos de gelo utilizam uvas colhidas tardiamente, a ponto de estarem congeladas no vinhedo. Dizem que nasceram em 1794, na Francônia alemã, quando os produtores não tiveram alternativa senão fazer vinhos com uvas congeladas. Para seu espanto, o conteúdo de açúcar do mosto estava elevado, pois o congelamento da uva concentrou o teor de sacarose, resultando em um vinho de sobremesa de excelente acidez. O processo, contudo, tem seus riscos: as uvas podem apodrecer e a colheita ser perdida caso se demore demais para colhê-las.

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Depois de enfrentar as frias temperaturas, a maior parte das castas descansa em barris de carvalho francês

durante 60 dias, passando deA colheita deve ser feita de pois por barricas novas de carmadrugada, quando o nível de A Pericó é pioneira em produzir valho francês de Allier. Seu teor acidez está mais alto. As uvas alcoólico é de 15%, com açúcar são levadas à cantina e prensaespumantes rosé brut nas da ordem de 80 a 90 g/l, segundas ainda congeladas. A produterras de altitude do estado do o enólogo Jefferson Nunes. ção é muito menor em virtude Foi lançado numa ação ousada da desidratação das uvas. Para se de marketing da Pericó, exatater uma ideia, no Canadá – um dos principais produtores mundiais de icewine, ao lado da Ale- mente no dia 10/10/10, às 10h10min10seg, com produção manha e da Áustria – são necessários 3,5 quilos de uva Riesling limitada a 3.633 garrafas de 200 ml. Trata-se de um vinho com presença aromática de frupara fazer uma garrafa de 375 ml de icewine. Se fossem colhidas no momento normal, essas uvas produziriam uma quantidade tas (goiaba, uva-passa) e toques florais, com excelente acidez e corpo. Acompanha bem queijos como gorgonzola, seis a sete vezes maior de vinho branco seco. Pois nos dias 4 e 12 de junho de 2009 a Pericó registrou, brie ou camembert, e foie gras. Se infelizmente ainda existe certo preconceito do brasileinum de seus vinhedos, temperaturas na faixa de 7,5 graus Celsius negativos, o que permitiu a colheita das uvas Caber- ro com relação ao vinho nacional, creio que essa postura deve net Sauvignon ainda congeladas. Após a prensagem, o suco mudar. Isso graças a vinhos como os da Pericó, principalmente fermentou em tanques de aço com temperatura controlada em degustações às cegas, nas quais a verdade está na taça...

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João Augusto Souza / Agência RBS

e sporte

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Meio século de

alto-astral O surfe catarinense começou pelas mãos (ou seriam os pés?) de gaúchos e cariocas. Mas marcou sua história com esportistas locais de primeiro time

p or

Cristiano Rigo Dalcin

O costão Joaquina/ Gravatá: um dos ótimos points em Florianópolis

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Arquivo Família Sefton

S

O surfe em Imbituba ganhou força com um QG instalado no “Chalé dos Catão”. Tratava-se da célebre residência de férias do clã carioca homônimo, dono da concessão para exploração do porto de Imbituba. O herdeiro Toni Catão, já falecido, liderava uma turma de surfistas que acampava por meses em frente à praia da Vila. Entre eles, alguns nomes que ajudariam a desenvolver o esporte, como Roberto Perdigão e Arnaldo Spyer. Na companhia de Flávio Boabaid, eles seriam os responsáveis por eventos que marcaram época, realizados pela Master Produções. Mas, a rigor, o surfe moderno deSanta catarina tem sembarcou no estado pelas mãos (ou nada menos que 127 seriam os pés?) de outro carioca. Anpraias boas para tes de chegar a Florianópolis em 1974, Fernando Moniz, o Marreco, havia o surfe. não foi à descoberto, em dupla com o amigo toa que surfistas Lars Krüger, uma onda perfeita. Ela cariocas e gaúchos quebrava ao lado do molhe sul de Itajaí, construído no início da década de começaram a 1970. Marreco começou a produzir desembarcar ainda pranchas. Os adolescentes de Itajaí nos anos 1960 passaram a frequentar o local. Por ironia do destino, a praia de Atalaia tinha

anta Catarina tem 513 quilômetros de litoral e nada menos que 127 praias boas para o surfe. Mas só na metade dos anos 1960 os surfistas começaram a explorar o relevo recortado do estado, com suas generosas baías e costões. Eram aventureiros vindos de outros estados. Em geral, do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. Hoje, depois de meio século, Santa Catarina é uma força indiscutível na história do surfe brasileiro, incrementa a indústria que abastece milhares de praticantes no Brasil e revela talentos. Tem mais: conquistou um lugar cativo como palco de grandes eventos internacionais e nacionais. Os primeiros registros datam de 1964 e 1965, quando as famílias Johannpeter e Sefton, radicadas no Rio Grande do Sul, resolveram desvendar as praias ainda desertas de Imbituba e Garopaba, no sul catarinense. “Era um verdadeiro surfari”, define Paulo Sefton. Ele acompanhava o pai, Fernando, e o irmão, Ricardo, em viagens que chegavam a durar 15 horas, entre Porto Alegre e Imbituba. Uma jornada épica. Ao lado dos irmãos Klaus e Jorge Gerdau Johannpeter, os Sefton traziam na bagagem as primeiras pranchas de resina usadas na região, então laminadas pelo construtor de barcos Mário Peccini em Porto Alegre.

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O Farol de Santa Marta (ao alto) era o destino de verão da família de Paulo Sefton, que aparece na página ao lado com as pranchas moniquilha na capota de um bravo Chevrolet Opala. Foto dos anos 1970, época das duas publicações especializadas ao lado


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Fotos Arquivo Pessoal

Arquivo Família Sefton


esporte

Jarbas Soares

ondas tão perfeitas que, apesar de ter sido descoberta por “forasteiros”, tornou-se o palco mais intenso do chamado “localismo”. Ou seja, o repúdio, por vezes violento, dos surfistas locais à presença de surfistas vindos de outras praias. Isso foi mais intimidante nas décadas de 1980 e 1990. Ainda nos anos 1970, em Florianópolis o surfe fazia a cabeça de duas dezenas de jovens. Na realidade, as praias do leste, como Joaquina e Barra da Lagoa, tinham uma frequência reduzida. Os points da moçada eram as águas limpas das praias do bairro de Coqueiros, no continente. Celso Ramos Neto, Edson Pires, Ricardo Schroeder, Niltinho Ramos e os irmãos Paulo e Geraldo Correia fizeram parte dessa primeira geração do surfe na Ilha. Até então, as pranchas vinham do Rio de Janeiro, onde o esporte já era praticado desde a década de 1950. Seja como for, quando Marreco chegou a Florianópolis, em 1974, já havia dois fabricantes de pranchas: Em 1974 já havia o baiano Jorge Hupsel, que instatrês fabricantes lou sua fábrica em 1971, e o carioca de pranchas no Paulinho Guinle, o Piu. Ambos jogaram suas amarras em Santa Cataestado. E dos bons. rina em busca de ondas e liberdade Naquele ano, por para fazer o que amavam. “Viajar sinal, aconteceu para Florianópolis naquela época era como um americano ir para Baja o primeiro California ou para o México”, comcampeonato digno para Marreco, 63 anos, há 15 anos desse nome vivendo longe do mar, em Urubici, na Serra Catarinense.

Flávio “Teco” Padaratz aparece abaixo com Bira Schauffer, ex-presidente da Fecasurf, em foto de 1991. Ao lado, David Husadel surfando na praia da Joaquina, em Florianópolis, na década de 1980. Na outra imagem, Husadel e Luís Neguinho comemoram no pódio do Festival Olimpikus. O ano: 1982

No sul do estado, o visionário Jair Fernandes, o Machucho, explorava novas matérias-primas para pranchas. Daí o apelido Professor Pardal, como ficaria conhecido. Com o acesso aos equipamentos, a turma só aumentou. Despontaram outros surfistas de talento, lista que inclui Alexandre Fontes, Flávio Boabaid, Roberto Polli, Ronaldo Lobato, Ary Pereira Oliveira, Tarcísio Shaeffer, Edson Coxinha e Renato Ávilla da Silva. É bom lembrar que Marreco não impulsionou o surfe apenas na água, com suas manobras fortes. Fora do mar, ele participou da direção técnica dos primeiros campeonatos. O evento pioneiro foi realizado em 1974, em duas categorias e com representantes de Joinville, Balneário Camboriú, Imbituba e Florianópolis. Tarcísio Shaeffer, venceu na Júnior (Sub18) e Caxito Douat, o grande nome da época, na Sênior. “A gente via desde o início que o surfe tinha potencial e realmente se familiarizou em Floripa”, lembra Tarcísio, o Ciso, 57 anos e 40 de esporte. “Só que, diferentemente do Rio de Janeiro, onde o pessoal morava em frente à praia, aqui residíamos no Centro e nem íamos às praias mais distantes, como a Mole e o Campeche.”

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Fotos Arquivo Pessoal


esporte

Outros campeonatos viriam. Marcou época o Rock, Surf O shaper Jair Fernandes, & Brotos, em 1976. O surfe catarinense entrava de vez na era o Machucho, posa, da competição. Eventos como o Festival Olympikus (1982) orgulhoso, mostrando e OP Pro (1985) tiveram status de Campeonato Brasileiro. uma de suas criações Tamanho empenho culminou no Hang Loose Pro Contest, etapa do circuito mundial realizada em 1986 e 1987. “Graças ao surfe, do dia para a noite Florianópolis se transformou em apenas Floripa para o resto do país”, destaca o repórter de surfe Maurio Borges, dono de um detalhado acervo histórico sobre o esporte em Santa Catarina. “Aquelas provas foram um divisor de águas para a cidade: Floripa passou a ver o surfe também como atividade econômica e social.” A primeira geração de profissionais foi forjada no início de 1980. Já então, cada região catarinense tinha seus representantes. Bita Pereira, Roberto Lima e Zeno Brito se destacavam da indústria, já na década de 1990. nos eventos pela capital. David HuFundada em 1980, a Associação CaA primeira geração sadel, Bilo Wetter, Saulo Lyra e Ícaro tarinense de Surf (ACS) promoveu o Cavalheiro deram continuidade à seprimeiro circuito catarinense, com quade surfistas mente plantada por Carlos Santos, o tro etapas. Em 1987, a entidade passou profissionais Havaiano, em Balneário Camboriú. a ser reconhecida como Federação Cacatarinenses foi para Único tricampeão catarinense protarinense de Surf (Fecasurf ), atuando fissional e campeão brasileiro antes com as associações locais. Rebatizado, o as ondas nos anos da era do circuito brasileiro, David órgão implantou os circuitos profissional 1980. Hoje, o estado Husadel lembra-se das primeiras e amador. Um ano mais tarde, a praia da pode se orgulhar aventuras sobre as ondas em CamJoaquina foi palco para a criação da Asboriú. “Eu tinha 11 para 12 anos e sociação Brasileira de Surf Profissional de sete títulos surfava com uma prancha de isopor”, (Abrasp). Enfim, um circuito brasileiro internacionais conta. “Aliás, qualquer coisa que fluprofissional foi instituído. tuava naquela época virava prancha.” Os resultados não demoraram Segundo Husadel, a turma vinha de a aparecer, com destaque para sete Blumenau ou de Brusque. “Era gente títulos mundiais. Flávio “Teco” Pade famílias endinheiradas e que frequentava a praia Cen- daratz foi bicampeão, e o irmão, Neco Padaratz, campeão tral”, relembra. “Quando queríamos ir para Navegantes do World Qualifying Series (a segunda divisão do circuito ou para a praia da Atalaia, em Itajaí, era uma aventura. Era mundial). Jacqueline Silva tornou-se bicampeã da mesma como se fosse viajar para a Indonésia”, acrescenta Husa- divisão entre as meninas. No mais recente, em 2012, Madel, hoje morador de Florianópolis. theus Navarro conquistou o título mundial Sub-18 da InEm Imbituba, o surfe ficou estagnado devido à poluição ternational Surfing Association (ISA), dez anos depois de gerada pela Indústria Carboquímica Catarinense (ICC), outro catarinense, Alejo Muniz, que voltou a fazer parte da em frente à praia da Vila. Além da poeira vermelha e da elite do surfe mundial em 2016. Jean da Silva e Tomas Herchuva ácida, a cidade ainda convivia com o sucesso das vi- mes completam o hall da fama catarinense com seus títulos zinhas Garopaba e Laguna, que exploravam o turismo ala- de campeões nacionais. Uma história que completou meio vancado pelo surfe, situação que só mudou com a extinção século domando as ondas. Sempre em alto-astral.

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Arquivo Pessoal

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A LTA R E LO J O A R I A

Precisão

absoluta Esportivos, clássicos, aviadores, náuticos, joias de pulso. O mundo dos relógios nasce na Suíça e chega às vitrines das boutiques brasileiras. Acompanhe aqui uma seleção de lançamentos que já nascem icônicos

por

M a r i o C i cc o n e

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A u d emars P i g u e t

Diamantes e ouro rosa Quem em sã consciência tentaria desmentir Marilyn Monroe? No filme musical Os Homens Preferem as Loiras (1953), ela eternizou a frase: “Diamantes são os melhores amigos de uma mulher”. Esse mantra hollywoodiano é seguido à risca no novíssimo modelo Royal Oak, da Audemars Piguet. São mais de 40 diamantes em corte baguete junto a uma caixa de aço inoxidável com borda de ouro rosa. Esportivo, cheio de estilo e bastante feminino, o modelo tem ainda ponteiros com revestimento luminescente. A Audemars Piguet é uma das poucas grifes da alta relojoaria que permanece sob o controle das famílias fundadoras. É assim desde 1875. No Brasil, Frattina e Sara Joias têm representação oficial da marca. audemarspiguet.com

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A LTA R E L O J O A R I A

IWC

O P o rt u g i e s e r fa z 75 a n o s A pequena cidade suíça de Schaffhausen, a um lago de distância da Alemanha, provavelmente não se imagina sem a IWC. A maison fundada por um americano mantém na cidade sua base de operações e, inclusive, uma escola de formação de relojoeiros. Com rigor artesanal, a IWC escreveu sua história entre relógios clássicos aviadores, de mergulho e até edições em homenagem ao escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, piloto e autor de uma obra que vai muito além da novela O Pequeno Príncipe. Em 2015, a marca celebra o jubileu de 75 anos da linha Portugieser. Um dos modelos comemorativos é o Portugieser Calendário Anual, a primeira peça da IWC com esse tipo de data. Tudo está indicado em três janelas, em semicírculo, na posição 12 horas. O modelo, assim como as demais coleções, pode ser encontrado ou encomendado na boutique da marca, no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo. iwc.com

C ar t ier

Movimento à mostra Cores fortes e temas de animais — muito caros aos mercados chinês e russo — se transformam em verdadeiras joias de pulso. A cada salão de alta relojoaria, a cada nova boutique, a Cartier não economiza na exuberância de suas peças. Em sua nova coleção, ela decidiu mostrar o mecanismo interno das máquinas. É assim o Rotonde de Cartier Grande Complicação Esqueleto, com diâmetro de 45 mm. Eis aqui uma das glórias da manufatura suíça. Caixa e coroa são de platina, com cabochão de safira azul. Entre as funções estão turbilhão voador, repetidor de minutos e calendário perpétuo. Das 578 peças que compõem o movimento, 47 são rubis. Para completar, a pulseira de croco preto tem fivela de ouro branco, além de vidro e fundo de safira. Se isso não bastasse, é resistente à água (até 30 metros de profundidade). A exemplo dos melhores chefs parisienses, a Cartier sabe como ninguém escolher os ingredientes. cartier.com

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pia g e t

u lt r a f i n o Com boutique aberta neste ano no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, a Piaget conquista o cliente brasileiro com joias de pulso produzidas unicamente com materiais nobres. Nada abaixo de ouro. Além disso, detém o recorde dos mecanismos de menor espessura. Atente para este modelo apresentado em janeiro no Salão Internacional da Alta Relojoaria em Genebra. Trata-se do Piaget Altiplano Skeleton. Tem o mecanismo mais fino do mundo, com apenas 2,4 mm de espessura. Recorde atrás de recorde, a maison se supera em peças exclusivas como esta. Trata-se de uma edição limitada de 150 unidades, com uma delicada caixa de ouro branco e 38 mm de diâmetro. Além disso, sendo um Skeleton, a peça mostra parte do mecanismo. Um orgulho para a grife que se dedica a relógios multifuncionais em espessuras cada vez mais exíguas. piaget.com

P anerai

Estilo inconfundível Como falar de Panerai sem citar sua íntima relação com a Marinha da Itália? Antes de chegar ao público, ela foi por muito tempo fornecedora exclusiva dos homens-rã daquele país. De Panerai no pulso, aliás, os mergulhadores peninsulares causaram baixas expressivas na frota britânica durante a Segunda Guerra Mundial. Winston Churchill teve de dobrar a dose de seu conhaque. Com um estilo ao mesmo tempo simples e sofisticado, a Panerai revisita continuamente seus modelos clássicos. É o caso deste Radiomir 1940, sólido e de excelente legibilidade mesmo à noite. Minimalista, a peça tem diâmetro de 45 mm e caixa de ouro vermelho (composto com uma liga metálica que mescla cobre e platina para reduzir a oxidação). No verso, o fundo é aberto para admirar o state of art do mecanismo, calibre P.3001/10 de corda manual. A marca tem uma boutique no Brasil, no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo. panerai.com

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A LTA R E L O J O A R I A

M on t b l anc

a s s i n at u r a i c ô n i c a Sinônimo de instrumento de escrita de altíssimo padrão, a Montblanc já expandiu o seu universo há muito tempo. A icônica marca, que leva o nome da mais elevada e famosa montanha dos Alpes, transfere sua atmosfera elegante também para acessórios de couro, perfumes e relógios. Na alta relojoaria, a sede de Le Locle, na Suíça, produz itens exclusivos e que trazem história anterior até à da própria Montblanc. É o caso do Montblanc Homage to Nicolas Rieussec II. O nome é uma referência ao inventor e relojoeiro que patenteou o primeiro cronógrafo. Edição limitada de 565 peças, este cronógrafo traz elementos de um peça desenvolvida por Rieussec em 1825, como a escolha das cores, os números romanos e o formato dos ponteiros. Vale destacar também o sistema de luminosidade Mysterious Super-LumiNova, que permite ao mostrador emanar mais claridade e destacar os elementos estéticos do modelo clássico. Apresentado no Salão de Genebra, o cronográfo é a maior novidade da maison para o Brasil no segundo semestre de 2015. montblanc.com

V ac h eron C ons t an t in

Clássico esportivo Ter um modelo Vacheron Constantin é conduzir a história no pulso. A primeira oficina do jovem suíço Jean-Marc Vacheron foi aberta em 1755, quando a Europa estava ainda longe de conhecer os rumos ditados pela Revolução Francesa. O nome Vacheron Constantin surgiria apenas em 1819, quando a empresa associou-se a François Constantin. É a relojoaria mais antiga em atividade ininterrupta, com 260 anos. Entre especialistas, é comum ouvir que a Vacheron consegue unir com rara capacidade a tecnologia dos mecanismos e um acabamento de joalheria. Dos lançamentos de 2015, a grife destaca novos modelos do icônico Patrimony, além do esportivo Overseas Dual Time Self-Winding Steel and Titanium. Este último é feito para mergulhadores. Tem caixa de aço e borda de titânio, mostrador de ardósia e resistência à pressão da água até 150 metros de profundidade. As pulseiras são de couro de crocodilo ou borracha. A única boutique brasileira da marca está instalada no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo. vacheron-constantin.com

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Rolex

Pa r a velejar A Rolex não é nada modesta ao se autodefinir. A marca se confunde com a própria imagem da relojoaria de luxo. Trafega com desenvoltura dos modelos tradicionais aos esportivos. Lançado na edição 2015 do Salão da Basileia (o Baselworld), o Rolex Oyster Perpetual Yacht-Master foi concebido em dois tamanhos (40 mm e o novo 37 mm). Tem caixa de ouro Everose 18 quilates e luneta giratória. O fundo fosco e os numerais polidos proporcionam um belo contraste com a caixa dourada, que se torna ainda mais evidente com a pulseira preta. Esta é produzida a partir de elastômeros e tem fecho de ouro, além de um sistema de “almofadas” que estabiliza e acomoda o relógio no pulso. Feito para o mar, o modelo nasceu para ser resistente. Por isso, suporta profundidade de até 100 metros. rolex.com.br

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LIFESTYLE

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Por fora, o shopping é tão ousado quanto por dentro

Um só

endereço Tudo o que há de mais reluzente no mundo do luxo está à venda no The Shops at Crystals, o mega shopping center de Las Vegas

Marion Frank

Creative Commons

por

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LIFESTYLE

N

o meio do nada, uma cidade. E, no meio dela, um shopping center. “O” shopping, please. A cidade? Las Vegas, que despontou em pleno deserto, no estado de Nevada, Estados Unidos, para se tornar o que os americanos gostam de chamar de “a capital mundial do entretenimento”. E é difícil rebater, tamanha a abundância e o requinte das possibilidades de diversão, nos cassinos, bares e teatros – a maioria 24 horas no ar. O shopping? The Shops at Crystals, que se diferencia da concorrência por: a) ser inteiramente dedicado ao luxo; b) só abrigar lojas de tamanho mega. “No Crystals, tudo foge do normal, sobretudo as boutiques”, comenta Silvia Luise Hackmann, diretora de marketing da Bonotel Exclusive Travel, operadora de turismo de luxo do destino Las Vegas para o Brasil. “Faz parte do contrato que a loja do Crystals seja a maior da marca nos Estados Unidos.” Um excesso, à semelhança da cidade. Aberto em 2009, na Strip Boulevard – onde tudo gira

em torno do consumo e do lazer –, o shopping faz parte do CityCenter, um desses empreendimentos que fazem pensar em uma cidade dentro de outra, incluindo hotéis (Mandarin Oriental), resort com cassino (Aria), torres residenciais (Veer), spas, galerias de arte etc. Em plena recessão, o Crystals começou a funcionar com 29 lojas. Hoje, são 46 (veja quadro), sem contar os inúmeros restaurantes e as quatro galerias de arte. “Nossas vendas aumentaram 8%, é incrível!”, comemorou recentemente o diretor-geral Farid Matraki à revista Travel Weekly sobre o desempenho comercial do shopping entre 2013 e 2014. Nomes icônicos da moda feminina – Valentino, Balenciaga e Versace, por exemplo – estão instalados em boutiques de 300 metros quadrados. Tom Ford, sinônimo do que é fashion também para homens, em 700 metros quadrados. Louis Vuitton, de fama nos artigos de couro, em loja de dois andares. No blog do Crystals, há quem diga que a melhor coisa “é se perder lá dentro”. É o que pode acontecer na joalheria Tiffany & Co., com seus mil metros quadrados de área

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Darius Kuzmickas

Luxo de A a V Conheça todas as lojas do The Shops at Crystals

A decoração interna Corbis

do The Shops at Crystals é tão ousada – e elegante – quanto a lingerie da marca

distribuídos por quatro andares. “É tudo tão grande que dá até para encontrar promoções”, prossegue Silvia, da Bonotel Exclusive Travel. “Há espaço para isso, seja qual for a marca.” Alfaiataria italiana su misura, aquela que trabalha o terno centímetro por centímetro à mão? A empresa vem de Nápoles e se chama Kiton. Idem a roupa de estilo ultrafeminino de Stella McCartney – na boutique, de cores claras e muito vidro, não há uma peça sequer de couro ou pele: a estilista, vegetariana ferrenha, é contra o uso de tudo que tenha procedência animal. Sim, aquela seleção nota 10 de marcas de roupas, joias e acessórios a que o brasileiro de fina estirpe está habituado a admirar (e consumir) ao redor do mundo também se faz notar. Caso de Fendi, Gucci, Cartier, Hermès, Prada, Bvlgari e Rimowa, entre outros. Mas será no Crystals que ele (e ela, claro) poderá fantasiar com a sensual lingerie de Kiki de Montparnasse. A marca francesa de roupa íntima consegue a proeza de ser chique até mesmo na produção de chicotinhos e outros “instrumentos de prazer” (máscara bordada, de gaze negro, por cerca de US$ 250).

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francesa Kiki de Montparnasse, uma das 46 lojas presentes

• Audemars Piguet • Balenciaga • Bally • Bottega Veneta • Brunello Cucinelli • Bvlgari • Céline • Cartier • Christian Dior • Dolce & Gabbana Men’s • Dolce & Gabbana Women’s • Donna Karan • Emilio Pucci • Ermenegildo Zegna • Fendi • Gucci • Harry Winston • Hermès • Ilori Optical • Jimmy Choo • Kiki de Montparnasse • Kiton • Lalique • Lanvin • Loro Piana • Louis Vuitton • Mikimoto • Miu Miu • Nanette Lepore • The News • Paul Smith • Porsche Design • Prada • Richard Mille • Rimowa • Roberto Cavalli • Saint Laurent • Sisley • Stella McCartney • TAG Heuer • Tiffany & Co. • Tom Ford • Tourbillon • Valentino • Van Cleef & Arpels • Versace


LIFESTYLE

Instalada de modo teatral, tendo como destaque principal a imensa cama de casal, coberta de seda, na loja Kiki de Montparnasse predomina um clima de elegância e ousadia que, aliás, se faz notar em todo o The Shops at Crystals. A começar por seu desenho arquitetônico: uma pilha de cristais, de ângulos agudos apontados para o céu, inteiramente envidraçada, criação de Daniel Libeskind – o mesmo arquiteto que assina o projeto do novo No blog do World Trade Center em Crystals, há Nova York. No design de interiores, de autoria de quem diga que David Rockwell, se soa melhor coisa bressai a Casa da Árvo“é se perder re, instalação que ocupa lá dentro” três pisos do shopping e abriga, em um de seus terraços, o delicioso restaurante Mastro’s Ocean. A ideia? Trazer para dentro das quatro paredes um pouco da natureza verdejante, versão abstrata – e 100% eco-friendly – de um parque urbano.

Exatamente por isso, o Crystals é adornado aqui e ali por colunas de água que emergem do solo, iluminadas por neon, que produzem imagens de sonho ao longo dos corredores. Afora o luxo de contar, em galeria anexa, com aquela que é considerada a maior coleção de arte integrada a um espaço público de Las Vegas, com obras de artistas contemporâneos renomados (leia-se Henry Moore, Frank Stella e Nancy Rubins, por exemplo). De volta ao interior do prédio, talvez seja hora de se apressar para participar do lançamento de uma coleção sui generis – como foi o caso da “The Strip Collection”, linha de sapatos criada por Sarah Jessica Parker, atriz de Sex in the City. Seus stiletti de saltos finos e altíssimos, em cores vibrantes, foram um dos hits do comércio de luxo do Crystals, em meados de abril passado. A própria SJP, como é chamada pela imprensa americanos, deu o ar da graça, estimulando ainda mais as vendas. Preço médio do par? Só US$ 350. SJP, que faz dobradinha com a Zappos Couture na venda online das suas coleções, teve um espaço montado exclusivamente para o evento pelo Crystals. Insuperável.

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Getty Images

Assim como Las Vegas, tudo é gigantesco. A loja da Louis Vuitton, por exemplo, tem dois andares. À direita, a atriz Jessica Parker lançando, em pessoa, a sua coleção de sapatos

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pa i x ã o

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Sonho

alado Idealizado pelos irmãos Rolim e João Amaro, o Museu TAM reúne 120 aeronaves, num impecável acervo vivo da memória aeronáutica brasileira e mundial

Texto e fotos

f e r n a n d o pa i va

O

ano era 1993 e os dois irmãos estavam exultantes. Depois de muito trabalho, haviam finalmente terminado a restauração do velho monomotor Cessna 195B. De asa alta e vidros esverdeados, branco com listras azuis e cinzas, prefixo PT-LDK (Papa Tango-Lima Delta Kilo, no alfabeto fonético internacional da aviação), o aparelho de 1951 fora o primeiro modelo de luxo fabricado no pós-guerra pela Cessna. Graças a seu conforto, tornara-se o preferido entre executivos e homens de negócio. Os irmãos, os paulistas Rolim e João Amaro, acionistas da TAM e apaixonados por aviação, sorriram satisfeitos. De repente, a inspiração: por que não começar uma coleção de aeronaves clássicas perto de São Paulo, para poder voar com os amigos nos fins de semana? O primeiro exemplar, afinal, estava bem ali, diante deles, novinho em folha, brilhando à luz do sol.

Ao lado, o imenso caça-bombardeiro Republic P-47 Thunderbolt. Abastecido e municiado, ele chegava a pesar 8 toneladas. Foi utilizado pela FAB na Itália, na Segunda Guerra

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pa i x ão

Três anos se passaram e, depois de adquirir alguns aviões, Rolim e João perceberam que seu hobby precisava ter destino maior – algo que recuperasse para valer a memória da aviação brasileira e mundial. Era o começo do projeto Asas de um Sonho, que levaria uma década para se materializar, infelizmente sem a presença do comandante Rolim, morto num acidente de helicóptero no Paraguai em 2001. O Asas de um Sonho foi inaugurado em 2006 com 32 aeronaves num hangar de 9.500 metros quadrados, contíguo ao centro de manutenção da TAM. Aproveitava parcialmente as instalações da finada CBT – Companhia Brasileira de Tratores, em São Carlos, a 270 quilômetros da capital paulista. Em 2008, foi fechado para ampliação. Em junho de 2010 era reinaugurado como Museu TAM, agora ampliado para 20 mil metros quadrados de área construída. Sua coleção de 120 aeronaves, 91 delas em exposição, é a maior do mundo mantida por uma companhia aérea privada. Para quem gosta de aviação, é o paraíso. Mesmo quem não é fanático vai se divertir – e se ilustrar – com a história e as histórias do lugar. Entre os exemplares que integraram a frota da TAM, ali estão o Fokker 100, o Fokker 27 e o Embraer EMB-110C Bandeirante, que serviu como trampolim para que a companhia Diversos modelos passasse de táxi aéreo a empresa aérea regional. estão em perfeito Diversos modelos estão em perfeito funcionamento. É o funcionamento, caso do Curtiss-Robin C2, verde com faixa amarela, de 1928, motor radial, cabine fechada e três assentos de vime. É o avião Como o Curtiss-robin mais antigo do Brasil em condições de voo, que o próprio João de 1928, o avião mais Amaro faz questão de pilotar ao menos uma vez por ano.

antigo do Brasil em

De São Paulo ao Alasca condição de voar Outra estrela atende pelo nome de Lockheed Constellation, descomunal quadrimotor de passageiros de linhas afiladas e cauda tripla. Com 35 metros de comprimento, produzido entre 1943 e 1958 nos EUA, está pintado com as cores da Panair do Brasil. Perto dele descansa o lendário Jahú, um Savoia-Marchetti S-55, único exemplar preservado no planeta. Foi o hidroavião que cruzou o Atlântico em 1927, saindo da Itália, tripulado por João Ribeiro de Barros, João Negrão, Newton Braga e Vasco Cinquini. Lendários protagonistas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) também estão presentes. Caso dos dois grandes rivais da Batalha da Inglaterra, o caça britânico Supermarine Spitfire e seu colega alemão Messerschmitt BF 109. O enorme Republic P-47 Thunderbolt é outro matador de respeito. Trata-se do mais caro e mais pesado (8 toneladas, abastecido e municiado) caça monomotor já produzido, espécie de tanque de guerra voador, equipado com 8 metralhadoras .50 e utilizado pela Força Aérea Brasileira (FAB) na campanha da Itália. Não deixe de ver ainda o célebre “Tê-Meia”, como é conhecido entre nós o North American T-6 Texan. Responsável pelo treina-

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No alto, a partir da esquerda, em sentido horário: Grumman P-16E Tracker, antissubmarino baseado no porta-aviões Minas Gerais. Detalhe do caça Messerschmitt BF-109 . North American T-6 Texan, o “Tê-Meia”. Dois Cessna 305A Bird Dog utilizados pelos EUA nas guerras da Coreia e do Vietnã. Vista geral do museu, com planador, monomotor e helicóptero. Biplano Waco de 1927, do Correio Aéreo Nacional

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pa i x ão

mento de diversas gerações de pilotos militares brasileiros, criado em 1937 e desativado pela FAB apenas em 1974, ele foi o primeiro avião utilizado pela Esquadrilha da Fumaça. Em 1951, a bordo de um pequeno monomotor Cessna 140, de apenas 90 cavalos, a brasileira Ada Rogato (1910-1986) realizou um reide aéreo solitário de 51.064 quilômetros, percorrendo as três Américas, de São Paulo ao Alasca, em seis longos meses. Com incontáveis dedicatórias e lembranças de boas-vindas rabiscadas sobre a pintura, o Cessninha de Ada, terceira mulher a conseguir o brevê de piloto no Brasil – e a primeira de planador –, está lá, inteiramente original. O diário da morte Semelhante ao de Ada, outro Cessna 140 é certamente a peça mais emocionante da coleção. A pintura está gasta, as asas amassadas, a fuselagem de alumínio coberta por trepadeiras e mato. Pertenceu a Milton Verdi, paulista de São José do Rio Preto que, em 29 de agosto de 1960, foi obrigado a fazer um pouso de emergência na Bolívia. Com ele viajava o cunhado, Antônio Augusto Gonçalves. Os dois protagonizaram uma das mais trágicas histórias da aviação nacional. Verdi e Gonçalves voavam de Corumbá (MS) para Santa Cruz de la Sierra, onde pretendiam comprar O cessna 140 um motor de avião. Com o combustível no fim, procuraram de milton verdi, durante uma hora uma clareira na mata fechada para reabasteque caiu na selva cer: levavam um galão de 20 litros a bordo. Pousaram, mas não conseguiram levantar voo novamente. O calor intenso e a falta boliviana em 1960, d’água levaram Gonçalves ao desespero: tomado pelo delírio, é certamente o avião ele resolveu beber gasolina e morreu no dia 7 de setembro. Vermais emocionante di ainda sobreviveria por outros 60 dias, comendo pássaros e jabutis. Enquanto isso, a família, angustiada, lutava em vão para de todo o acervo organizar uma expedição de busca e salvamento. Todo esse drama foi registrado por Verdi em mapas, cadernetas de voo e algumas revistas. Ele morreu de inanição, provavelmente entre 6 e 7 de novembro. Na véspera do Natal, o Cessna foi localizado. Gonçalves estava sob a asa, e Verdi, dentro do avião, como se estivesse dormindo. Em 4 de janeiro de 1961 os corpos chegaram a Rio Preto, onde foram sepultados. Com base nas anotações, o advogado Walter Dias, tio de Verdi, publicou na edição gaúcha do jornal Última Hora, sob forma de folhetim, a macabra epopeia. Logo surgia O Diário da Morte: a Tragédia do Cessna 140, livro que teve duas edições esgotadas. No ano 2000, durante os trabalhos de prospecção para a construção de um gasoduto na selva boliviana, os operários encontraram um avião coberto de folhagens. Era o Cessna de Verdi. Levado para o Museu TAM, o monomotor está exposto da mesma forma que foi encontrado, num caprichoso diorama. Ao lado, fotos de Verdi, do acidente, reportagens e um trecho tocante do relato do piloto. De uma parede de vidro escorre incessantemente água, a tão desejada fonte de vida cuja falta levou os dois tripulantes à morte. www.museutam.com.br

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Acima, um Fokker 100 que integrava a frota da TAM. Abaixo, diorama mostra como o Cessna 140 de Milton Verdi foi encontrado na selva boliviana, 40 anos depois da tragĂŠdia que terminou com a morte do piloto e de seu cunhado

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pa l a d a r

Pérolas

gastronômicas O primeiro caviar chegou à boca do primeiro cozinheiro de forma acidental, durante a limpeza de uma fêmea de esturjão branco para o rei Eduardo II. Que bom que acidentes acontecem!

por

s i lv i o l a n c e l lo t t i

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PALADAR

J

á houve um tempo, nos meados do século 19, em que o esturjão (Acipenser oxyrinchus oxyrinchus), peixe cujas ovas redundam no caviar beluga, hoje reduzido às águas salgadas do mar Cáspio, na Ásia, vivia até mesmo na foz do rio Hudson, em Nova York. Então, qualquer moleque de rua, na ilha de Manhattan, podia comprar um quilo do produto pelo equivalente a 10 centavos de real. Logo, porém, a captura predatória e a poluição reduziram os cardumes a menos de 5% do seu volume histórico. Pior, até no Cáspio a poluição ameaça o esturjão de uma extinção cruel. Curiosamente, não consta que gregos ou romanos desfrutassem o caviar. Foi na Grã-Bretanha do príncípio do século 14 que, ao limpar uma fêmea que pretendia grelhar, um cozinheiro, hoje anônimo, acidentalmente levou algumas ovas à boca e se magnetizou pelo seu sabor. Igualmente fascinado, o monarca Eduardo II (1284-1327), patrão do mestre-cuca, logo declarou o esturjão “Peixe Real”. E real o esturjão ficou até recentemente, já à beira do desaparecimento, quando Elizabeth II abdicou da sua posse. Na atualidade, sob estrito controle das autoridades da Rússia, do Irã, do Cazaquistão e do Turcomenistão, remanescem cardumes do peixe na foz dos rios Volga e Ural. No decorrer do século passado, com a portentosa industrialização das margens do Cáspio, o esturjão não se adaptou à constante derrama de substâncias químicas nas águas do seu meio ambiente. A poluição destrói, a cada ano, cerca de meio milhão de exemplares, levando com ela mais de 300 toneladas de caviar. Beluga, ossetra, sevruga e sterlet Existem, essencialmente, quatro tipos de caviar que se consideram os legítimos: beluga, ossetra, sevruga e sterlet. Essa ordem não é apenas alfabética – corresponde, também, à qualidade e, claro, a seus preços. O caviar que provém do esturjão beluga, além de ovas de maior diâmetro, custa bem mais, de R$ 17 mil a R$ 24 mil por quilo. Em situação crítica, tal peixe ostenta ovas de cor reluzentemente negra. Ocasionalmente, como em 2008, quando o seu volume desabou para somente 96 toneladas/ ano, a CITES, entidade internacional de proteção às espécies ameaçadas, proibiu as exportações de quase todo o Cáspio. Apenas o Irã, dotado de uma legislação mais bem aparelhada, pôde prosseguir nos seus negócios.

Um beluga necessita de duas décadas para atingir a justa maturação, quando chega a pesar 900 quilos. O peixe, apelidado de gawad, exclusivo do Irã, chega a 100 anos de idade e oferece ovas maravilhosas, na cor das pérolas. O ossetra, ou oestrova, ocupa a segunda posição. Fundamentalmente de ovas macias e bem escuras, entre o negro e o acastanhado, em determinados casos sua tonalidade exibe lindos reflexos dourados. Essa espécie encontra-se atualmente extinta na natureza, mas cientistas de Israel vêm desenvolvendo um modo de criar em cativeiro o Acipenser gueldenstaedtii, primo do oxyrinchus. Outro tipo de parente, o Acipenser baerii, siberiano, também se tornou, desde 2009, objeto de pesquisas de cativeiro. Pode pesar entre 220 e 250 quilos, e atingir até 50 anos de vida. Segue-se o sevruga, caviar do Acipenser stellatus, peixe de 200 quilos e mais de 2 metros de comprimento, que se reproduz com mais rapidez que seus familiares – e, por isso, apresenta uma relação melhor entre custo e benefício. Ou, um caviar mais barato. As suas ovas, entretanto, são bem menorzinhas, suavemente acinzentadas. Presentemente, o sevruga, que se embala em latas vermelhas, corresponde a 50% do caviar do planeta. Resta descrever o sterlet, ou Acipenser ruthenus, o menor de todos os integrantes da estirpe do esturjão – singularmente magro, em torno de 1 metro de comprimento. Alcança a maturidade por volta dos seis anos e dificilmente supera os 15 quilos. Uma fêmea bem fecundada ostenta até 40 mil ovas, o que representa cerca de 40 gramas de caviar de minipelotinhas douradas. Embora seja um peixe prolífico, o sterlet padece com a poluição e com o fato de sua bexiga natatória dispor de um colágeno impecável para ser usado em processos de clarificação dos vinhos e das cervejas. Assim, em muitos casos, elimina-se o sterlet sem extrair as ovas. Uma operação delicada Aliás, como se retiram as ovas de uma fêmea de esturjão? O procedimento mais comum consiste em imobilizar o peixe fora das águas, aguardar que ele pare de se debater e daí, por meio do lancetamento, recolher as ovas. O peixe, é claro, morre. De maneira a se manter a vida do esturjão, há quem o submeta a uma cirurgia na qual se extraem as ovas. Esse, porém, é um procedimento muito doloroso e estressante, do qual nem sempre o peixe se recupera. Mesmo

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Imagem do esturjão feita pelo fotógrafo húngaro Robert Capa, na então União Soviética, pouco depois da Segunda

© Robert Capa/Magnum Photos

Guerra Mundial

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PALADAR

Na Suécia, na Noruega, na Dinamarca e na Finlândia, auquando resiste às consequências de tal cirurgia, nada sugere que o esturjão consiga, de novo, uma reprodução. O método sente o caviar de verdade, se consome uma pasta feita com mais moderno, e menos agressivo, é muito complexo. Con- ovas de bacalhau. No sul da Itália e em várias partes do Mesiste em utilizar um aparelho de ultrassom para determinar diterrâneo, se tornou comuníssima a bottarga, de ovas deo momento exato em que, através de uma incisão no mús- sidratadas de tainha, servidas em blocos ou mesmo raladas culo urogenital do peixe, se atinja o local exato do qual, por sobre o macarrão. Em outras regiões da Europa, oferecidas sucção, possam ser recolhidas as ovas. Trata-se, porém, de em jarras transparentes, existem as ovas negras e rubras do peixe-dragão ou do peixe-pedra, habitantes costumeiros dos procedimento bastante caro e demorado. Em qualquer circunstância, as ovas precisam ser coletadas aquários públicos do planeta. Ou as maravilhosas, brilhanteno menor intervalo de tempo – para que não desperdicem mente aboboradas, ovas de salmão. No Brasil, cada vez mais seu frescor. Quer dizer, precisam ser retiradas assim que o es- os restaurantes realizam alquimias com ovas de tainha. turjão sai da água, no próprio barco em que foi acomodado. O banquete para a aristocracia sueca Com os dedos mesmo, o pescador como que embola as ovas, No caso do caviar legítimo, aquele de esturjão, do beluga ao meigamente, e as coloca numa peneira, a fim de separá-las de fibras, de sujidades e de gorduras inúteis. Simultaneamente, sterlet, nos restaurantes se exige que vá à mesa dentro da sua embalagem, e que o maître só abra a lata se lança sal sobre as ovas, de 4 a 6% do seu diante do cliente. Não se trata de uma peso, na dependência do tipo de caviar tola tradição – mas, de uma respeitosa que se deseja perpetrar. Problema terríOs parceiros obrigação, uma prova de autenticidade. vel: quanto mais sal se espargir, menor o Na própria mesa, mesmo, se despeja o perfeitos para o risco da deterioração do caviar; quanto conteúdo num recipiente de porcelana, menos sal se espalhar, maior será a sua caviar são o creme de prata, de cristal ou de madrepérola. qualidade e, obviamente, maior será o azedo e o blinis, Acompanham o caviar torradinhas coseu preço. O caviar que todos os experts metidas na hora ou os celebrados blinis uma panquequinha consideram imbatível é o chamado malos(leia-se blinísss, com a tônica no i final). sol – um termo, no idioma da Rússia, que arredondada e Trata-se de um gênero de panquequisignifica, literalmente, “pouco sal”. Na ultratenra nhas arredondadas, ultratenras, feitas à Rússia, de qualquer forma, se prioriza a base de farinha de trigo, leite e fermento, segurança; no Irã, o sabor. Por isso, macom cerca de 3 milímetros de espessura, lossol à parte, o caviar da Rússia sempre suavemente enfornadas em calor brando. Sobre os blinis se deganha um teor de sal superior ao do Irã. Como nem tudo parece perfeito, no Irã do pouco sal se posita uma camada de creme azedo e, sobre este, o caviar. Claro, pela sua raridade e pelo seu alto valor monetário, assegura a preservação do caviar graças à adição de borato de sódio, um conservante também utilizado na higienização de reserva-se o caviar às ocasiões singulares. Eu já ousei, todapróteses dentárias, na limpeza de objetos de metal e no sane- via. Num banquete que coordenei, em 1986, para a aristoamento das peças de couro curtido. O borato funciona ainda cracia da Suécia, no Grand Hotel de Estocolmo, preparei, como um flavorizante capaz de acentuar o sabor do caviar. como entrada, uma sopa cremosa de mandioquinha – a velha papinha de bebê do interior do Brasil. Por cima, uma Mas já foi terminantemente proibido nos Estados Unidos. Judeus ortodoxos não comem caviar porque provém de um colheradinha de ovas de salmão e outra de ovas de sterlet. A peixe de escamas, o que é vetado pelos preceitos da culinária decoração mereceu aplausos gerais. Para completar, a parceria compulsória: um vinho branco, kosher. Em seu lugar, recorrem a um sucedâneo inusitado: pelotinhas resultantes da coagulação do sumo de algas. Ironia: no espumante, o prosecco; ou, para repetir os dignos adjetivos, Irã, um país que se locupleta largamente da exportação do ca- o autêntico e legítimo champanhe. E, como afirmava o meu viar, os islamitas ortodoxos obedecem a um idêntico princípio. preceptor, o chef Roger Vergé, voilá...

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M A D E I N I TA LY

Apenas

o MÁXIMO A Gucci resume a qualidade e o bom gosto italianos com sua refinada elegância esportiva e uma tradição quase centenária

por

S i l v a n a Ass u m p ç ã o

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As duas letras “G” entrelaçadas: um marcante traço de união – e poder

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E

ntre todas as marcas de luxo da moda made in Italy, talvez nenhuma represente melhor a identidade cultural da Itália do que a Gucci. Afinal, um de seus emblemas mais marcantes, que adorna vários de seus artigos de couro, é a faixa de tecido com duas listas verdes e uma vermelha no centro – cores da bandeira italiana. Agora pense naquele conhecido detalhe metálico que lembra a junção de dois estribos de montaria. Visualizou o fecho da bolsa feminina Gucci que Jacqueline Kennedy eternizou – a bolsa Jackie? Ou o peito do pé do mocassim Gucci, um clássico para todos os sexos? O modelo inclusive integra a coleção permanente de moda do MoMA – Metropolitan Museum of Art de Nova York. Mas, por muito associados que sejam, esses dois elementos de estilo da Gucci – a faixa com as cores da bandeira e as ferragens de inspiração equestre – não nasceram juntos. O primeira só surgiu quando seus produtos começaram a ser exportados, na década de 1950. Já o célebre detalhe metálico faz parte de sua história desde a estreia, em 1921, como manufatura de artigos de couro para viagem, vestuário e montaria. Curiosamente, a italianíssima Gucci nasceu com sotaque britânico. “Specialità Valigeria Inglese”, anunciava o letreiro da pequena fábrica e bottega no número 7 da via Della Vigna Nuova, em Florença, a cidade natal do direttore Guccio Gucci. Com um nome tão eufônico, pode-se dizer que esse florentino já veio ao mundo predestinado a virar grife. Mas Guccio não precisou se valer da vibrante aliteração para fazer de sua assinatura uma marca forte. A qualidade dos produtos – bolsas, malas, valises, cintos, luvas, sapatos e outras peças de couro – logo notabilizou seu sobrenome e consagrou seu estilo, inspirado nas encomendas de itens para equitação feitas pela aristocrática clientela toscana. A fama crescente de qualidade, beleza e requinte de acabamento rapidamente espalhou-se, fazendo com que, ainda na década de 1920, a casa Gucci já fosse um ponto de visita obrigatório da alta sociedade italiana e europeia de passagem por Florença.

1. As duas listas verdes e uma vermelha: cores da bandeira da Itália. 2. O mocassim masculino é um dos clássicos da grife. 3. A estampa Diamante: marcante. 4. Lenços floridos são outra tradição Gucci. Foram criados para Grace Kelly. 5. A bolsa com cabo de bambu começou a ser produzida na Segunda Guerra Mundial.

6. Flora é também o nome do perfume. 7. A bolsa Jackie. Sim, criada para Jacqueline Kennedy. 8. As ferragens de inspiração equestre viraram até pulseira.

Um posto no Hotel Savoy O segredo de Gucci foi aproveitar a experiência inglesa adquirida durante sua juventude, quando acompanhou a mudança da família para Londres e lá trabalhou, por alguns anos, como mensageiro no elegante

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9. Só na década de 1960 os produtos passaram a ter o logotipo “GG”


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Corbis

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Hotel Savoy. Um esteta de gosto apurado no vestir, como todo bom italiano – ainda mais um filho de Florença, com sua rica tradição em couros, e de um pai comerciante de manufaturas italianas finas –, o jovem Gucci tornou-se arguto observador do guarda-roupa, malas e acessórios da nobreza britânica que frequentava o hotel. Gente como Winston Churchill e o rei Eduardo VII, além de ricos e famosos de todos os países. Voltou para Florença determinado a aplicar a mestria incomparável dos artesãos da Toscana a tudo que assimilara sobre estilo inglês, a fim de produzir artigos de couro altamente refinados. Os dois belos e gordos “GG” das iniciais de Guccio Gucci também seriam um logotipo praticamente pronto para usar nessa hora. Mas só vieram a formar a icônica marca dos “GG” entrelaçados na década de 1960, com a empresa já sob o comando de Aldo, Vasco, Ugo e Rodolfo, filhos do fundador. Nascidos entre 1905 e 1912, eles já trabalhavam com o pai havia muitos anos, sendo que Aldo e Rodolfo foram os que lideraram a Gucci por mais tempo depois da morte do patriarca, em 1953. Mas o destino de sua dinastia empresarial, hoje na quarta geração (embora o negócio não seja mais familiar) foi dramático como poucos. Os herdeiros se envolveram em

guccio gucci, o fundador, inspirou-se na elegância dos hóspedes do hotel savoy, em londres, onde foi mensageiro

escândalos financeiros, guerras em tribunais e até em assassinato. Em 2014, a socialite Patrizia Reggiani foi libertada após 16 anos de prisão por mandar matar seu ex-marido, Maurizio Gucci, filho de Rodolfo, então capo da companhia e dono de 50% de suas ações. Ela pagou 300 mil euros a um atirador, que o alvejou na entrada do escritório da empresa em Milão, em 1995. O casal já era divorciado desde 1991, e Patrizia carregava mágoas amorosas. A causa do crime, porém, foi o temor de que Maurizio se casasse novamente, em prejuízo da herança de suas filhas.

A princesa Grace Kelly com o lenço Gucci criado especialmente para ela

Berçário de clássicos Nos anos 1990-2000, depois de diversas alterações societárias e da abertura do capital, a empresa tornou-se parte do grupo francês Kering, o antigo PPR (Pinault-Printemps-Rédoute). Se sua trajetória revelou-se acidentada, nada impediu que nos longos anos de comando dos Gucci fossem criados todos os ícones da marca e aberto também o caminho para que ela se tornasse um moderno império mundial da moda. Ao longo das décadas, a produção se diversificou, avançando pelos terrenos das roupas, óculos, perfumes e joalheria. A marca foi tam-

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bém revitalizada a partir de 1994, com o início da direção criativa do americano Thomas Carlyle Ford, mais conhecido como Tom Ford, que produziu inovações e releituras de seus diversos clássicos. Esses nascidos todos sob a batuta dos Gucci. O primeiro a merecer o título surgiu ainda debaixo do olhar do fundador, na década de 1940: a linda bolsa Gucci com alças e fecho de bambu queimado – recurso usado para driblar a escassez de matérias-primas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que se transformou num símbolo atemporal de elegância. Na mesma época começaram os experimentos com materiais como a lona de algodão, a juta e o cânhamo, que levaram à célebre faixa verde e vermelha e aos emblemáticos mocassins da década seguinte. Vêm adiante, nos anos 1960, a bolsa Jackie e as esportivas hobo bags unissex, desestruturadas, de alças largas. Também o lenço de seda floral, outro ícone da marca, criado para a princesa de Mônaco Grace Kelly. E ainda, claro, o logotipo dos “GG”. Mais à frente, na década de 1970, aparecem as correntes e pulseiras Gucci de elos elípticos, divididos ao meio e vazados dos dois lados. Havia das bem espessas até as finíssimas, as de ouro e as de prata, as de uma só ou

Jacqueline Kennedy usando a célebre bolsa Jackie: as duas juntas faziam chover

Uma pesquisa de mercado revelou: a gucci é a segunda grife mais desejada do planeta. Só perde para a louis vuitton

várias voltas, todas elas um luxo para se presentear o amado ou a amada. Reinterpretações dessas correntes continuam existindo, e uma peça de joalheria Gucci será sempre um presente magnífico. Mas aquelas foram quase uma febre, copiadas por todos os lados. As transformações se aceleram a partir da década de 1990. Com Tom Ford na direção criativa, a marca se reinventou, dobrou suas vendas e mais que duplicou seu valor de mercado, passando de cerca de US$ 4,3 bilhões a US$ 10 bilhões entre 1994 e 2004. Em 2007, foi considerada a grife mais desejada do mundo pela empresa de pesquisas Nielsen – e segue no topo do segmento de luxo na moda. Só perde para a Louis Vuitton. Convenhamos: não são muitas as que aliam, como a Gucci, uma sofisticação ao mesmo tempo refinada e casual, sem exageros, fácil de agradar, de altíssima qualidade artesanal e longa tradição. Muitas das mais famosas grifes da moda italiana, como Valentino, Giorgio Armani, Dolce & Gabbana, Cavalli ou Versace, ainda têm seus fundadores vivos ou estão na primeira geração de comando. Gucci não. Ela orbita em outro patamar histórico. Na mesma esfera em que se encontram Fendi, Prada, Salvatore Ferragamo ou Bvlgari, como um símbolo centenário do bom gosto.

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Getty Images

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economia

Imagem habitual: os portêineres (imensos guindastes azuis) em ação

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A cidade do

porto Itajaí tem o segundo maior complexo portuário do país. E ele não para de crescer

por

Dani Bonifácio

A

L u c i a n a Z o n ta

imagem dos grandes guindastes azuis – os portêineres –, que carregam e descarregam navios mercantes, impressiona. É a marca registrada de Itajaí, de 202 mil habitantes e localizada na maior bacia hidrográfica de Santa Catarina. Em especial, quando vistos do canteiro central da avenida Marcos Konder. O porto está para Itajaí assim como a lagoa da Conceição está para Florianópolis ou a Oktoberfest, para Blumenau. Em movimentação de contêineres, Itajaí só perde para Santos, o maior complexo portuário da América Latina. É o porto, também, o principal responsável pelos números orgulhosos que a cidade exibe. Principalmente desde o fim do ano passado. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta o município como o de economia mais forte de Santa Catarina. Com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 19,7 bilhões, Itajaí desbancou Joinville – o maior município do estado e também o mais industrializado –, que vinha ocupando o primeiro lugar até 2013. Pelo porto passam hoje 70% de todo o frango congelado produzido no oeste catarinense, em direção a diversos países.

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economia

No cotidiano, a relação entre navios e moradores vai além do passatempo preferido de domingo. É quando famílias e casais de namorados se espalham pelo molhe – um comprido espigão de pedra construído a fim de garantir segurança às manobras – para apreciar o movimento das embarcações que chegam ou deixam a cidade a poucos metros dos olhos. Dos R$ 7 milhões de receita média mensal de Imposto Sobre Serviços (ISS), 69% são provenientes da atividade portuária. A APM Terminals, companhia responsável por operar as cargas no porto, está no topo da lista das 100 empresas que mais arrecadam para Itajaí. O desempenho econômico se reflete diretamente no bolso de quem vive na cidade. Segundo o IBGE, Itajaí está em segundo lugar do estado no ranking de PIB per capita, com R$ 104 mil/ano, atrás somente de outro município portuário, São Francisco do Sul, com R$ 115 mil/ano. Cadeia logística De Chapecó, onde estão instaladas as principais indústrias de frango congelado, até Itajaí são 566 quilômetros. A logística entre um ponto e outro ativa uma demanda paralela que inclui empresas de transportes, terminais retroportuários, agências marítimas e profissionais autônomos responsáveis por movimentar a carga até o destino final – que pode ser lugares tão diferentes entre si quanto Estados Unidos, Japão, Alemanha ou Oriente Médio. No entorno do porto de Itajaí, a rede logística é tão importante quanto o próprio terminal de embarque e desembarque de cargas. A cidade, que até a década de 1960 exportava basicamente a madeira extraída da região, hoje é forte na movimentação de contêineres por causa de investimentos iniciados em 2001. Na época, buscaram-se parcerias na iniciativa privada, por intermédio do arrendamento de dois berços, para equipar o terminal com guindastes de terra e dotando-o de infraestrutura para atender os chamados navios conteineiros. O superintendente do Porto de Itajaí, Antônio Ayres dos Santos Júnior, afirma que a cidade está à frente dos demais municípios catarinenses em arrecadação devido à sua posição logística estratégica. “Unimos um estado com uma produção de bens de alto valor agregado a um porto aparelhado e a uma rede de apoio com condições de atender ao mercado da carga congelada”, afirma. No momento, o Complexo Portuário do Itajaí – que inclui um terminal privado na cidade de Navegantes, na margem oposta – tem como principal desafio permanecer no mapa dos grandes navios que fazem a rota comercial no Brasil. A prioridade é a urgente ampliação da largura da bacia de evolução na foz do rio. Hoje, o porto está limitado a receber embarcações com comprimento máximo de 306 metros. No ano passado, os terminais chegaram a perder serviços de navios em razão da limitação da bacia.

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O desempenho financeiro do porto reflete diretamente no bolso dos moradores. Itajaí tem o segundo maior pib do estado de santa catarina

Itajaí tem intensa vida econômica. Graças, principalmente, à movimentação dos muitos contêineres. Por exemplo: 69% do recolhimento de Imposto Sobre Serviços vem da atividade portuária


Victor Schneider

MADE IN BRAZIL Conheça os principais produtos exportados pelos maiores portos brasileiros

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Santos (SP) • Açúcar • Soja • Milho • Álcool

Suape (PE) • Combustíveis e óleos minerais • Produtos químicos • Minérios • Frutas

Itajaí (SC) • Frango • Carne • Madeira • Mecânicos e eletrônicos

Paranaguá (PR) • Soja • Farelos • Fertilizantes • Açúcar


Fotos Ainhoa Sanchez / Volvo Ocean Race

economia

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Na segunda vez que foi sede brasileira da Fórmula 1 da vela, Itajaí recebeu 352 mil visitantes. Isso impulsionou a construção da marina (foto de baixo, à direita)

as duas edições da regata volvo ocean race ajudaram a afirmar a vocação náutica da cidade, que está em vias de inaugurar sua primeira marina

Um contrato assinado pelo governo do estado no valor de R$ 104 milhões vai possibilitar a construção da primeira fase da nova bacia de evolução e acesso aquaviário ao porto. Isso permitirá a Itajaí operar navios com até 335 metros de comprimento e 48 metros de boca, como já ocorre com os portos de Santos (SP), Suape (PE) e São Francisco do Sul (SC). A nova bacia é considerada fundamental para a cidade se manter competitiva no mercado, num momento em que os armadores estão otimizando seus serviços e ampliando os tamanhos dos navios. “Esta é a obra mais importante na atualidade”, diz Ricardo Arten, diretor-superintendente da APM Terminals Brasil. “Quando estiver pronta, vamos conseguir recuperar serviços que foram embora e aumentar o potencial de movimentação de cargas.” Perfil náutico A relação histórica com o encontro entre rio e mar tem gerado um potencial econômico paralelo ao da movimentação de cargas pelo porto local. Desde 2012, quando abrigou pela primeira vez a etapa brasileira da regata Volvo Ocean Race – considerada a Fórmula 1 da vela no mundo –, Itajaí despertou para um novo momento náutico e passou a investir em relacionamento e infraestrutura com o objetivo de desenvolver o que o poder público chama de “vocação natural da cidade”. Naquele ano, passaram pela Vila da Regata nada menos que 282 mil pessoas. Em abril deste ano, na segunda edição da Itajaí Stopover, foram 352 mil visitantes. Para o secretário municipal de turismo, Agnaldo Santos, a vocação náutica de Itajaí não chega a ser uma novidade. Afinal, as relações comerciais promovidas pelo porto mercante e porto pesqueiro (aqui desembarca anualmente o maior volume de pescado do Brasil) são antigos pilares econômicos da cidade. O município investiu ainda na construção de um píer turístico, aberto em 1998, para recepção de navios transatlânticos e passou a abrigar embarcações de cruzeiro entre os meses de novembro e março. A partir de outubro de 2015, Itajaí também terá uma marina – a primeira da cidade – para embarcações de passeio. Construída no lado esquerdo na baía Afonso Wippel (Saco da Fazenda), a estrutura abrigará um total de 908 vagas náuticas, entre secas e molhadas. Na primeira etapa da obra, serão 320 vagas. O restante deverá ser concluído até 2019. O investimento total é de R$ 40 milhões. O gerente de engenharia da Marina Itajaí, Jetro Barbosa de Oliveira, explica que a expectativa é iniciar a operação com 100% das vagas ocupadas. Segundo Oliveira, a procura se intensificou durante a Volvo Ocean Race, quando amantes dos esportes náuticos de todo o Brasil conheceram Itajaí.

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memória

Ancoradouro da

história Já em 1800 a foz do rio Itajaí passou a ser utilizada como porto

por

Joca Baggio

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o atraque de novos navios para o embarque de madeira. Cena comum no século passado

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Fotos Centro de Documentação e Memória Histórica da Fundação Genésio Miranda Lins

Estivadores aguardando


memória

A

história do porto de Itajaí está intimamente associada ao rio Itajaí-Açu, que aparece com diferentes nomes em cartas náuticas elaboradas desde 1516 para orientar a navegação e revelar o Novo Mundo à Europa. Mas foi somente por volta de 1800 que sua foz passou a ser vista como ancoradouro. Em suas margens, na desembocadura do rio Itajaí-Mirim, já se desenvolvia a chamada carpintaria de ribeira, de construção naval. Desde o fim do século 18 os moradores do vale do Itajaí usavam o local como porto natural para escoar sua produção. No começo do século 19, com o aparecimento na costa brasileira de barcaças holandesas conhecidas como sumacas, o porto de Itajaí ganhou projeção. As notícias acerca de condições seguras para operar as tais sumacas e da existência de madeira nobre na região espalharam-se como um rastilho, atraindo novos negócios. Resultado: começaram a ser construídas barcaças que transportavam a produção local para o Rio de Janeiro, inclusive a madeira utilizada nas obras do Museu Real. Mesmo que de forma precária, iniciava-se nesse contexto a navegação de cabotagem, que mudou o cenário de Itajaí. O crescimento da atividade marítima incentivou a instalação de trapiches de madeira na foz do rio Itajaí-Açu. Eles eram montados por comerciantes que embarcavam suas cargas com destino, principalmente, ao Rio de Janeiro. Mas o porto natural não perdeu importância e continuou sendo referência na No século 19, o circulação fluvial. Também era ali mesmo porto que que desembarcavam os imigrantes que se instalaram no interior enviava cargas para de Santa Catarina.

o rio de janeiro viu

Comércio exterior O atracadouro da cidade já era considerado um porto praticável e de localização estratégica quando uma decisão imperial de 1855 determinou a

o desembarque dos imigrantes europeus que se instalaram no interior do estado

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O porto antigo, com seus trapiches de madeira, nos tempos em que ainda se escrevia Itajaí com “h” e “y”. Exatamente: Porto de Itajahy


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memória

Dois registros da primeira métade do século 20, quando o comércio de madeira era tão intenso

instalação de uma mesa de rendas – espécie de aduana com menos atribuições – em Itajaí e, quatro anos depois, a Assembleia Provincial elevou Itajaí à categoria de município. A madeira representava uma boa fatia das operações, seguida dos produtos coloniais. Essa movimentação levou à abertura do porto de Itajaí ao comércio exterior. Precisamente em 1869, com a elevação da mesa de rendas à categoria de alfândega. Com o porto autorizado a realizar operações de importação e exportação, as melhorias nas condições operacionais e a modernização das frotas, a tendência de crescimento da atividade portuária se concretizou. As rotas foram ampliadas e a cabotagem se estendeu para portos como o de Buenos Aires e outros da América do Sul. Dez anos após sua implantação, a arrecadação da alfândega era uma das mais expressivas do sul do Brasil. Foi apenas no século 20, porém, que o porto de Itajaí teve acesso à navegação de longo curso. Com o fim da Segunda Guerra Mundial (1945) e alavancada pelas negociações internacionais, a economia da cidade e de todo o vale se expandiu. As transações entre Brasil e Estados Unidos foram intensificadas e Itajaí ganhou notoriedade no cenário de comércio exterior. A madeira continuava sendo a vedete, mas outras cargas passaram a ocupar lugar de destaque. Os embarques de açúcar aumentaram, o crescimento da indústria da carne no estado impulsionou as exportações de congelados e, no final do século 20, houve o advento dos contêineres, que revolucionou totalmente o cenário urbano. Hoje o Complexo Portuário do Itajaí é o segundo do Brasil em exportação de carga acondicionada em contêineres. Investimento e progresso Os primeiros investimentos no porto foram feitos na época do Império, com a contratação de peritos para elaborarem estudos visando diminuir as dificuldades de acesso à barra do rio Itajaí-Açu. Entretanto, ao final dos 67 anos de regime monárquico, os problemas não haviam sido solucionados. As esperanças aumentaram com a chegada da República. O governo federal organizou em 1895 a Comissão de Melhoramentos do Rio Itajaí, o que resultou na elaboração de muitos estudos e, inclusive, algumas obras. Muitos projetos foram retomados no início do século 20 com a criação da Comissão de Melhoramentos dos Portos de Santa Catarina.

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que havia serrarias próximas ao ancoradouro

Concluiu-se o Farol de Cabeçudas. Além disso, bancos de areia foram removidos. Essas medidas, no entanto, ainda não eram suficientes. Foi com o catarinense Lauro Muller (18631926) à frente do Ministério da Viação que, em 1905, começaram as obras de espigões, molhes e guias correntes que garantiriam a proteção das margens do rio. Esses trabalhos prosseguiram até 1914. O conjunto de ações previa também a construção de um novo cais de 700 metros e muralhas de proteção, além de cais de saneamento. Mais tarde, entre 1923 e 1936, com Victor Konder (1886-1941) no comando do mesmo ministério, foi resolvido um dos principais problemas: a redução do

durante boa parte do século passado, a vedete das exportações era a madeira. Hoje, são os congelados, acondicionados em contêineres


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memória

O retrato mostra uma Itajaí nos tempos em que quase todos os navios eram a vapor — e quase todos os homens usavam chapéu

A área portuária cresce sempre, apesar de problemas como as enchentes Pontal do Saco da Fazenda, além do aprofundamento dos canais e a construção do Molhe Norte, o que deu ao porto a configuração atual. Na década de 1930 os navios atracavam ainda nos trapiches de madeira, mas o incremento da atividade exigia novas estruturas. Assim, na década seguinte, teve início a construção da primeira fase das obras de cais, de 233 metros, onde atualmente está localizado o porto de Itajaí. Em 1950 foi aprovada a construção de mais 270 metros de cais e, logo depois, de mais 200 metros, dando ao porto a configuração que ele teve até 2010, quando a iniciativa privada concluiu as obras do prolongamento do cais. Hoje, o Porto Público de Itajaí e a APM Terminals, arrendatária das operações com contêineres na cidade, operam com cerca de mil metros de cais, sendo que 450 metros estão em obras de reforço e realinhamento. Resistência As adversidades climáticas sempre foram as grandes inimigas do porto de Itajaí, que teve a sua primeira inundação registrada em 1880, o que gerou o assoreamento do rio. Mais de um século depois, em julho de 1983, uma enchente arrastou 390 metros do cais e, no ano seguinte, outra cheia trouxe ainda mais prejuízos. O cronograma de recuperação foi concluído somente em 1989. Em 2008, o porto foi abalado por nova enchente. A correnteza arrastou para o fundo do rio uma área de cais correspondente a

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e assoreamentos. Hoje, são mais de mil metros de cais

dois berços de atracação e provocou o assoreamento dos canais de acesso e da bacia de evolução. As obras de recuperação foram assumidas pelo governo federal e a inauguração ocorreu no final de 2010. Em 2011, mais uma enchente causou o abalroamento da parte do cais recém-construída pela APM Terminals. A área foi reerguida e voltou a operar em dois anos. Os desafios para os próximos anos têm como foco a conclusão das obras dos novos acessos que possibilitarão operações com navios maiores, a conclusão das obras dos berços 3 e 4 e seu arrendamento, bem como a construção de um novo terminal de passageiros e a implementação do Centro Comercial Portuário.


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