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números não são precisos, mas desde 1969, mulheres, principalmente de origem indígena, desaparecem na estrada, que é um dos trechos mais isolados da América do Norte (mais informações no site www. highwayoftears.ca ou no meu blog www. julihirata.com). Escrevi diversos posts sobre essa estrada e adaptei meu trajeto para evitar o trecho mais isolado. Ainda assim, peguei um trecho da estrada, de Prince George a Jasper. No meu primeiro dia pedalando pela estrada, uma pick-up vermelha com o vidro traseiro quebrado passou por mim várias vezes, em ambos os sentidos. Como o homem carregava toras de madeira na caçamba supus que fosse um trabalhador local. À tarde, uma tempestade estava se formando no céu e resolvi parar o pedal do dia em uma área de descanso, na beira da estrada. Minutos depois, a mesma pickup vermelha parou e o homem veio falar comigo. Nossa conversa, que durou alguns minutos, foi estranhíssima e me senti bem ameaçada. O homem me perguntou se eu sabia dos crimes que aconteciam naquela estrada e que estar sozinha, ali, era praticamente pedir para morrer. Não foi uma boa noite, aquela.

T Você fez a travessia da Dalton Highway sob neve e muito frio. O medo ocupou que papel diante da incerteza? Poderias nos dar a sua particular visão a respeito?

J A Dalton Highway foi o melhor começo

que eu poderia ter tido. Foi um choque de realidade. A estrada é difícil, isolada, gelada e selvagem. Senti coisas que nunca havia sentido e, literalmente, senti que se não ficasse atenta, poderia facilmente morrer ali. O frio é um anestésico poderoso. Eu

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REVISTA BICICLETA

não sentia fome, não sentia sede e no final do dia mesmo com o sol alto (o pôr-do-sol acontecia por volta das 22 h 30 min) eu, mesmo cansada, não conseguia dormir. Tem um trecho do meu blog que expressa muito bem os 10 dias que vivi em Dalton: "Eu precisava me alimentar e me hidratar! Tirei uma lata de sopa e comecei a aquecê-la em banho-maria. Aproveitei para esquentar um pouco de neve para beber. Olhei a lata aberta e o cheiro da sopa de queijo me alertou imediatamente! Pensei: onde está meu spray anti-urso? Olhei assustada ao redor, como se um urso estivesse só esperando eu me dar conta de que ele existia para se materializar ao meu lado. Estava completamente nublado, tudo branco. Eu não conseguia distinguir o chão do ar. Parecia que eu estava em uma folha de papel branco. Se um urso polar (três dias antes, em Deadhorse havia tido um alerta de urso polar na área) branquinho andasse na minha direção, eu só o veria, provavelmente, quando este estivesse já bem perto de mim. Fiquei paranoica. Girei duas vezes o corpo, olhando 360 graus com atenção. Olhei para a panela com a lata de sopa. Coloquei a água na caramanhola, fechei a panela com a lata dentro, coloquei dentro do alforje e voltei a pedalar. Foi quando eu me senti pequena. Muito pequena. Olhei tudo ao meu redor, parei. Ouvi o silêncio e senti. O que eu estava fazendo? Onde eu estava? Eu estava tremendo de novo. Bebi um pouco de água morna. Que delícia! Tirei a máscara e me permiti respirar o ar gelado. Era quase como respirar algo sólido. Se o frio continuasse me assustando e me impedindo de pensar daquele jeito, eu certamente teria problemas, talvez sérios, 

Revista Bicicleta Edição Digital 03  

Janeiro / Fevereiro 2017

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