Page 124

cidade com a conveniente desculpa de preparação e, se não fosse a imensa vontade de pedalar, poderíamos ficar ali alguns meses sem nunca parar de se surpreender. Era ano novo chinês, Têt. Ano 4712. Ano da cabra. Vermelho e dourado. Muita festa, comida e álcool de arroz. Happy Water, segundo tradução livre. O primeiro jantar do ano foi na casa da Tsú, uma mulher Hmong de cerca de 30 anos, três filhos, 1,40 m de altura, doce demais e forte como um touro. Carregava dezenas de quilos de lenha nas costas, além dos filhos. Bebia e trabalhava mais do que o marido e o sogro. Tinha as mãos marcadas de azul. Sempre. Do mesmo tom das roupas, tingidas com folhas de Índigo. Preparou a comida em uma fogueira no meio da sala e espalhou um banquete em pequenos potes de cerâmica. A família toda se reunia em volta da mesa. Consequência das festanças milenares e do “arroz”, a Dreza sofria de dor de cabeça. Mesmo tentando disfarçar o desconforto, foi descoberta. Tsu tinha uma solução infalível para aquele conhecido mal-estar. Um chifre oco de cabra, um pouco de carvão em brasa e um cuspe garantiram a pressão crescente que aumentava à medida que o artefato fora grudado na testa da Dreza, que agora mais parecia um unicórnio. Vinte minutos seriam suficientes para que a dor estancasse. Passados dez minutos, arranquei o chifre que se prendia tão fortemente à cabeça dela que parecia fazer parte do

seu corpo. Uma marca roxa saliente, do tamanho de uma bola de tênis de mesa, a acompanhou por mais de dez dias. A dor de cabeça desapareceu. Na manhã da nossa partida, as crianças ganharam sapatos novos da avó, que morava há alguns quilômetros. Calçados e vestidos impecavelmente com as roupas da tribo, seguiram para agradecer o presente. Em pouco tempo o cuidado com os sapatos sucumbiu à lama. Como deve ser. O pneu das bicicletas afundava em companhia. Era dia 28 de fevereiro e aproveitamos o cortejo para, finalmente, começar. Pelo meio. A dor de cabeça, que agora era minha, desapareceu na primeira subida. Vinte e cinco quilômetros morro acima, até a conveniente “cachoeira dos amores”. Suava álcool de arroz. Aproveitamos para fazer uma pequena trilha de uma hora e pouco até uma queda maior dentro do parque nacional do Fanzirpan, maior pico da região. Descida. E como a esmola era demais, logo nos primeiros quilômetros de mais de 20, comecei a ter problemas com o meu freio, que, obviamente, não funcionava direito naquela inclinação e com todo aquele peso. Shimino. Parei algumas vezes para ajustar, regular e apertar sem muito resultado. Acabamos levando para descer o mesmo que gastamos para subir. Invadido pelos japoneses, franceses, dividido em dois na Guerra Fria e reunificado com a derrota das tropas americanas em 1975, sob o comando de Ho Chi Mihn, o Vietnã conta hoje

Revista Bicicleta Edição Digital 03  

Janeiro / Fevereiro 2017

Revista Bicicleta Edição Digital 03  

Janeiro / Fevereiro 2017

Advertisement