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2th 5th April Grand Palais 2020 www.artparis.com An Overview of the French Scene : Common and Uncommon Stories Southern Stars : Barcelona, Lisbon, Madrid and Porto


revista VIAGENS

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João Moreira | Editorial #3 Gonçalo Cadilhe | Grande entrevista #4 João Albuquerque Carreiras | Viajar é preciso #14 Afonso Reis Cabral | Leva-me contigo #16 Raimundo Mendes da Silva | Apontamentos de Moçambique #22 João Pedro Costa | Eu viajante, ele turista #46 André Serpa Soares | Viajar cá para dentro #47 Luiz Garcia | Viagem ao começo de mim #48 Paulo Duarte, sj | Viajar: regresso à plenitude de si #51 Pedro Martins | Richard Zimler #52 João Albuquerque Carreiras | Electric road trip #54 Therbio Felipe M. Cezar | Cicloturismo Humahuaca - Argentina #72 Luiz Garcia | Cristiana da Luz #76 Hugo Macedo | África adentro #80 Regina de Azevedo Pinto | Amar é dar o que não temos #88 António Ferrari | Alterações climáticas: do plano à acção #92 Salvato Teles de Menezes | Entrevista #96 Patrícia Sarrico | Introdução à história da cerâmica #104 Torbjørn Kvasbø | XIV Bienal Internacional Cerâmica Artística de Aveiro #108 Virgínia Fróis | Guizos e os outros acontecimentos em seminário #111 Ana Luísa Soares e Ana Raquel Cunha | Árvores de Lisboa #116 Marta Gonzaga | Lisboa e o resto não é só paisagem #118 Santa Casa da Misericórdia de Lisboa | Convite para três viagens... #120 Paulo Almeida Fernandes | Com três desenhos se conta... #126 Vanessa Pires de Almeida | a viagem pela consciência #130 Lisbonar | O nosso guia de Lisboa #133 Ana Pérez-Quiroga | Auto-retrato da artista...#142 Francisco Mallmann | outubro ounada #147 João Moreira | Escrever num quarto com vista #148 Jonathan Coe | Entrevista #150 Michelle Dean | Susan Sontag: a história de uma feiticeira #154 Bernardo Mascarenhas de Lemos | Consulta de almoço #166 Sofia Viana | Talvez #169 Denise C. Rolo | Leituras #170 João Albuquerque Carreiras | Postais perdidos #172 João Albuquerque Carreiras | Dez anos de histórias #174 Inês Favila #181 João Albuquerque Carreiras | Na liga dos grandes #186 Gustavo Homem | Vilar de Mouros my reflection #190 Mariana Claro | O que é nacional é bom #196 Pedro Santo Tirso | Entre Minas e a Madeira, por exemplo #198 José Paulo Teixeira | Viagens à volta do vinho #200 Joana da Franca | Chapéus há muitos #204 Pedro Nápoles | Raio Gourmetizador #205 Câmara Municipal de Viseu | Viseu #206


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Fotografia por Hugo Macedo


Editorial “Tem de se viajar para se descobrir, com os próprios olhos, que o mundo é muito pequeno e que é portanto absolutamente necessário fazer um esforço para dignificar a visão até se acabar por ver as coisas em grande. Tem de se viajar para nos darmos conta de que uma paixão, uma ideia, um homem só são importantes quando resistem a uma projecção no tempo e no espaço. Não há nada como afastarmo-nos um pouco para nos curarmos da psicose da proximidade, da deformação da proximidade, que nos atacou a todos. Tem de se viajar para se aprender – apesar de tudo – a conservar, a aperfeiçoar, a tolerar.” Josep Pla in Viagem de Autocarro, Edições Tinta da China

Numa edição dedicada às viagens, devo confessar que, no que me diz respeito, a cartografia da imaginação sempre se sobrepôs à cartografia real, talvez porque “a nossa geografia imaginária é infinitamente mais vasta do que a do mundo material”, como escreveu Alberto Manguel. As minhas grandes viagens foram ao País das Maravilhas e à Ilha de Lilliput; ao Centro da Terra e à Ilha Misteriosa; a Anastásia e à Cidade das Esmeraldas de Oz; e, porque não dizê-lo, ao Paraíso e à Ilha da Utopia. Os lugares imaginários, onde a diversidade e a riqueza são espantosas, sempre me fascinaram e continuam a fascinar. Por isso, mesmo nas viagens reais, aquelas em que temos de arcar com o peso das bagagens e com a angústia dos preparativos, o que sempre me encantou foi a possibilidade de construir efabulações a partir da realidade. Das ruas, das casas, dos jardins, das estórias, dos cheiros, das gentes. Durante anos, fui enchendo pequenos cadernos com notas sobre lugares que em quase nada correspondiam aos verdadeiros, ou, usando a expressão com que Jean Cocteau definiu o surrealismo, porventura “mais verdadeiros que os verdadeiros.” Dessas notas, que durante anos andaram perdidas dentro de caixotes por sótãos e garagens, sobressai um mapa do mundo modificado pela minha imaginação, unindo países distantes e separando vizinhos, erguendo bibliotecas em locais inóspitos, varrendo de verde planícies de betão e, sobretudo, misturando gentes. Hoje, talvez porque com a idade vem uma responsabilidade que condiciona a aventura e um angustiante desconforto em relação à separação prolongada de tudo o que amamos, dou por mim a viajar cada vez menos. No entanto, a contrario sensu, nunca me foi tão gratificante fazê-lo. Nestas viagens curtas, quase sempre fugindo ao incómodo de pernoitar fora de casa, tenho readquirido o gosto pelos longos silêncios partilhados, pelas deambulações solitárias por centros de cidades que já não reconheço, pela descoberta de pequenos segredos escondidos em becos e ruelas desconhecidas, por improváveis conversas com estranhos. Afinal de contas, como diz Alberto Manguel em Dicionário dos Lugares Imaginários: “não serão todas as nossas viagens, reais ou imaginárias, uma preparação para esse país que se situa ‘do outro lado do rio’: o país prestigioso, há muito esperado”? É, pois, de viagens que fala esta edição da Bica. Das viagens que fazemos ao interior de nós mesmos, de que nos escrevem o sacerdote jesuíta Paulo Duarte e o André Serpa Soares; das viagens que nos marcam para sempre, como a que relata, de forma extraordinária, o Professor Raimundo Mendes da Silva, a propósito de umas aulas sobre património que foi ministrar a Nampula, Moçambique; das viagens de reencontro com a nossa identidade, como a que o Luiz Garcia, catarinense de nascimento, fez ao interior de Trás-os-Montes; da caminhada solitária que o escritor Afonso Reis Cabral decidiu empreender pela EN2; da viagem pela consciência que a Vanessa Pires de Almeida nos desafia a fazer. Numa conversa inolvidável no B’ART, na Murtinheira, Gonçalo Cadilhe, o andarilho profissional que, com as suas crónicas, revolucionou a percepção que os portugueses tinham das viagens, contou-nos as estórias por trás de cada uma dessas epopeias, e revelou-nos a melhor onda que surfou. Salvato Teles de Menezes transportou-nos numa viagem inesperada pela história do cinema e da literatura norte-americana, durante uma entrevista a propósito do singular trabalho cultural que a Fundação D. Luís I está a desenvolver em Cascais, e, no âmbito do qual, conversámos, ainda, com o escritor Jonathan Coe, que se encontra na Cidadela, em residência literária, a convite da Fundação, com o apoio do Grupo Pestana, a propósito do seu recente livro, Middle England, e recolhemos, em exclusivo para a Bica, os depoimentos de Olivier Rolin e Michael Cunningham. Esperemos que gostem desta viagem. All aboard!

Propriedade: Studiobox, Publicidade e Gestão de Meios, Unipessoal Lda Direcção: Bruno Esteves Susana Andrade Edição: João Moreira João Albuquerque Carreiras Fotografia: Bruno Esteves e João Albuquerque Carreiras Arte: Studiobox Ilustração: João Albuquerque Carreiras Identidade Corporativa: Jorge Barrote Comercial: geral@revistabica.com +351 962 706 373 / 968 405 494 Impressão: Studiobox Periodicidade: Trimestral Tiragem: 5 000 unid. Depósito legal: 416462/16 Interdita a reprodução de quaisquer textos ou ilustrações por quaisquer meios. A Revista Bica é escrita em português, sem utilização do acordo ortográfico. Os conteúdos dos textos e as opiniões neles expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Capa: João Alburquerque Carreiras

APOIOS:


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Grande Entrevista


por João Moreira

Arquivo pessoal Gonçalo Cadilhe

“O mais importante para se levar numa viagem é uma boa ideia.” Gonçalo Cadilhe

A primeira viagem de Gonçalo Cadilhe, o figueirense de 51 anos que há mais de 30 percorre o mundo de mochila às costas, foi a Cantanhede, com os escuteiros, tinha na altura sete anos, e nem o susto de ser perseguido por um maluco com uma faca de barrar manteiga o impediu de repetir a experiência. Durante os cinco anos seguintes participou em mais de 100 acampamentos, sempre com o mesmo espírito de curiosidade e aventura do primeiro dia. Aos doze fez-se ao mar, em Buarcos, prancha na mão e uma vontade indomável de surfar a onda perfeita. Na época, a Figueira da Foz fazia parte de um roteiro obrigatório para os surfistas de todo o mundo e o contacto com esses aventureiros de “espírito livre” abriu-lhe os horizontes. Percebeu que “a vida é muito mais do que tirar um curso e depois ir trabalhar”. O curso, acabou mesmo por tirar, Gestão de Empresas, na Universidade Católica do Porto, e ainda trabalhou como director de marketing numa empresa, mas o apelo das viagens foi mais forte e em Fevereiro de 92, publicava, na Grande Reportagem, a primeira, de centenas de crónicas, que fariam dele o mais conhecido e conceituado “viajante profissional” de um país pouco habituado a viajar. Dez anos depois, iniciou a viagem da sua vida, uma volta ao mundo sem usar aviões, arrastando com ele, durante 19 meses, um país inteiro, a dormir em autocarros, à boleia de camiões ou em porões de cargueiros. Com Planisfério Pessoal, livro que compila esses relatos semanais publicados no Expresso, democratizou a percepção que os portugueses tinham das viagens e mudou, para sempre, o paradigma da escrita de viagens no nosso país. Desde aí nunca mais parou: aventurou-se África acima, a pé; viajou no tempo e na História Nos passos de Magalhães e nos de Santo António; durante doze meses, procurou, em outros tantos lugares do mundo, as doze ondas perfeitas, sempre com o intuito de nos mostrar O Esplendor do Mundo. Conversámos, com Gonçalo Cadilhe, sem efabulações como prometido, num dos melhores spots de praia do país, o B’ART, na Murtinheira, na companhia da Sónia e do Martim, num final de tarde quase tão perfeito como o dia em que apanhou a sua melhor onda em Arugam Bay, no Sri Lanka.

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Gonçalo Cadilhe


Como é que um figueirense, vira um viajante? Essa pergunta, de como comecei a viajar, independentemente de ser da Figueira da Foz ou não, nem se devia colocar. A grande questão deveria ser: porque é que em Portugal, nos anos oitenta, alguém com vinte anos, não viajava. Porque é que em Portugal se continua a viajar tão pouco? Porque não há dinheiro. A viagem é um bem de consumo. É um luxo para quem não tem dinheiro, para quem tem, é uma banalidade. Em regiões como a Austrália, a Nova Zelândia, a Califórnia, que são as que conheço melhor por causa do surf, existe uma enorme tradição de viajar, como acontece nos países nórdicos, na Holanda, e na Alemanha. Toda essa gente se farta de viajar. Desde os anos 80 que ouço falar no gap year e no bilhete round the world, que, por três mil euros, te permite viajar durante um ano. Se tiveres a facilidade (lá está, uma vez mais, a questão do poder de compra) de, durante os três anos da universidade, ao sábado à noite, trabalhares num part-time, que pode ser a distribuir pizzas, numa economia forte, juntas o dinheiro suficiente para estares um ano a viajar. Isso, na maioria dos países europeus é absolutamente banal e gera o hábito de viajar. No teu caso tiveste de andar a vindimar no Médoc e em Sauternes. Numa altura em que no Médoc e em Sauternes, só andavam a vindimar jovens estudantes universitários da chamada Europa Ocidental. Hoje em dia, vais ao Médoc à procura de trabalho e encontras tanta concorrência de extra-comunitários, de marroquinos, de gente de leste, e o trabalho é tão mal pago, que se acabou esse romantismo. As coisas mudaram muito. Regresso à questão inicial. Num país onde se viajava pouco, como é que te tornaste um viajante?

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Tive a sorte de começar a fazer surf com 12, 13 anos, aqui, na Figueira da Foz, em 1981, 1982, numa altura em que pouquíssima gente em Portugal fazia surf e ainda se chamavam os bombeiros ao domingo à tarde, quando se avistava gente na água a surfar, porque os domingueiros pensavam que eram náufragos (risos). Nessa época, a Figueira da Foz estava dentro de uma rota, que hoje já não tem grande predominância, mas na altura era uma referência para surfistas de todo o mundo, que

partia do País Basco e terminava em Marrocos, com uma série de ondas conhecidas a nível internacional. Desde os anos 60, gerações de surfistas, sobretudo australianos, desciam em Londres do avião, na tal volta ao mundo, compravam uma carrinha pão de forma num mercado à saída do aeroporto e juntavam-se em grupos de quatro, não se conhecendo de lado nenhum, para fazerem o mesmo itinerário: descer até ao País Basco, daí seguir a estrada que passava por Burgos e Salamanca, entrando em Portugal pela Guarda, fazer o IP5 até chegar a Aveiro, onde não havia nenhuma tradição de surf. A primeira grande etapa de surf era a Figueira da Foz, portanto eu cresci numa cidade que já estava no mapa dos surfistas e cresci a falar inglês com eles, o que me permitia perceber a maneira de olharem o mundo e isso abriu-me imenso os horizontes. Eles ficavam três, quatro semanas enquanto havia ondulação boa, quando a ondulação caía, desciam para a Ericeira, Peniche e depois Marrocos. Este era o circuito das ondas, geralmente incluído dentro de um ano a viajar pelo mundo, em que os meses de Setembro e Outubro eram passados em Portugal. Isto ainda hoje é válido, ou seja, ainda hoje se sabe que o melhor mês para estar em Biarritz é Agosto, o melhor mês para estar em Mundaka, uma onda no País Basco, é Setembro e em Portugal, Outubro. Não é por acaso que o campeonato do mundo que se realiza em Peniche é em Outubro. Portanto, nessa época, eles passavam por aqui, depois iam passar o inverno a Marrocos. Era um circuito que já estava bem definido. Foi aí que eu percebi que a vida é muito mais do que tirar um curso e depois ir trabalhar. Embora tenhas acabado por tirar o curso de Gestão de Empresas na Católica do Porto. Acabei por tirar, sabendo que serviria para uma vida paralela àquela que queria. A grande paixão era o surf… (Sorriso rasgado). A primeira prancha de surf que tive, esperei um ano e meio para a poder comprar. Comecei a fazer surf no verão de 81 e só no inverno, em Dezembro de 82, é que apareceu um australiano no parque de campismo, que queria vender a prancha e eu tinha dinheiro que chegasse para a comprar. Isto, para te dizer, que desde o início do surf que fiquei em contacto com a ideia do viajante. O surf está ligado às viagens, porque, obviamente, as ondas não vêm ter contigo, tens de ser tu a ir ter com elas. Esse foi o primeiro motor para eu viajar. Portanto, passei toda a adolescência a sonhar com viagens. Quando fui para a universidade já andava desesperado para encontrar uma alternativa. Realmente, no final dos anos 80, ninguém viajava, ninguém


De onde veio o gosto pela escrita? É inato. Sempre gostei de escrever. Talvez de muita leitura e… como não sabia pintar, sou incapaz de desenhar um gato, percebi que, dentro daquilo que me era fácil... … podias ter escolhido a música. Também andaste por lá, na Escola de Jazz do Porto… … mas, se calhar, não consegui fazer vida de viajante (risos). A forma de me tornar viajante foi vender reportagens, vender crónicas, a princípio muito a medo, muito formais. A primeira foi para a Grande Reportagem. Sim. Depois, foram dez anos a vender reportagens a todo o tipo de revistas e jornais. A verdade é que as tuas crónicas revolucionaram a forma de escrever sobre viagens em Portugal. Acho que, sobretudo, revolucionaram a percepção que os portugueses tinham da viagem. De repente, perceberam que viajar era uma coisa democrática. Liam as crónicas e pensavam: “este gajo vai com a mochila às costas, dorme no autocarro a noite toda para poupar o dinheiro do hotel, come nos mercados e às vezes tem de comer insectos ou molho de formigas” e começaram a perceber que também elas podiam fazer isso. Contribuíram para fazer desaparecer a percepção que os portugueses tinham, de que quem viajava e quem escrevia sobre viagens era um privilegiado e de que viajar era algo reservado às elites. Essa democratização do sonho talvez tenha sido revolucionária. Por outro lado, acho que também contribuíram para desmistificar a ideia, que ainda hoje existe um bocadinho em Portugal, de que a viagem é aventura e de que quem viaja é um tipo cheio de coragem. Não é. Hoje em dia, das coisas mais banais, homologadas, enquadradas, no sentido de

não ser out of the box, é viajar. A coisa mais corriqueira para um hooligan da classe média baixa inglesa que quer fugir ao inverno de Inglaterra, já não é ir para o Algarve porque já não é barato, é ir para a Tailândia. A maioria dos destinos são tão óbvios, tão massificados, tão acessíveis, que não percebo porque é que, em Portugal, as pessoas ainda se espantam quando alguém diz que vai três meses de mochila às costas para o Laos ou para a Birmânia. Está tudo tão banalizado, que tenho muita dificuldade em entender esse preconceito de associar viagem a aventura e coragem. Quando decidi tornar-me um viajante, a única coragem de que precisei foi para enfrentar a família por causa do preconceito de estar a abandonar um emprego de director de marketing e deixar uma casa que já tinha comprado. Essa foi a grande coragem, a de ir contra a mentalidade da época, porque quando saí, sabia que ia encontrar milhares de pessoas a fazer o mesmo que eu. O que mais te surpreendeu? O que me surpreendeu foi o mundo editorial dos guias de viagens. Um mundo que era absolutamente desconhecido em Portugal. O facto de existirem milhões de exemplares da Lonely Planet e do Guide du Routard, de cada livraria ter, pelo menos, uma parede dedicada só a livros de viagens. Lembras-te do primeiro guia que compraste? Lembro-me perfeitamente. Foi na minha segunda viagem, que foi ao México. Comprei o meu primeiro guia já na Cidade do México, na livraria do Consulado da Embaixada Francesa. Era uma livraria francesa, a que fui porque, no avião, estava um francês a consultar um Guide du Routard que tinha os preços dos hotéis, os horários dos comboios, a descrição dos monumentos. Perguntei-lhe onde podia comprar e fomos ver ao próprio guia e lá dizia onde se podia encontrar na Cidade do México, na tal livraria da Embaixada. Quando cheguei, comprei o meu primeiro guia, que me abriu a curiosidade para tudo o que era natural ou paisagístico, os highlights do país, que depois permitiam escrever as reportagens. Ia para fazer surf, mas com o guia, sabia que a três horas de autocarro conseguia ver as pirâmides, a cinco horas conseguia ver uma cidade Património UNESCO e comecei a recolher material para possíveis reportagens, que acabaram por pagar a viagem do surf. Foi assim que começou. Pagava-se melhor por uma reportagem de viagens, nessa altura? Pagava-se a mesma coisa. Já não escrevo para revistas, mas, basicamente, há uns

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tinha essa informação sobre as viagens da mochila às costas, os hostels, o bilhete round the world, ninguém sabia nada disso, só as elites é que viajavam e viajavam à maneira delas, organizando grandes expedições de jipe. Essas eram as aventuras. Eu apareci na cena com uma abordagem inédita em Portugal. Não fui eu que a inventei, pelo contrário, apenas a trouxe para cá e tive a sorte de ser o primeiro e no momento certo, no momento em que, no país, começaram a aparecer uma série de revistas de viagens. Estou a falar dos anos oitenta, noventa, depois todas as revistas generalistas passaram a ter uma secção ou duas de viagens.


três anos, surgiu um convite da Volta ao Mundo para escrever sobre um tema qualquer. Escrevi uma crónica e aquilo que me pagaram, não foi muito diferente do valor objectivo que, em 1981, ganhei a escrever para a Grande Reportagem. Na altura, era muito mais raro aparecer alguém a escrever um texto sobre uma viagem de mochila às costas do que agora, em que tens milhares de pessoas em Portugal a fazer a mesma viagem e quase pagam para verem o artigo publicado, portanto, mudou tudo. A curiosidade pela descoberta de locais e culturas diferentes surgiu com as viagens? Teve a ver com a educação que recebi. Com o facto de ter nascido numa família, culturalmente de classe média alta, com gosto pela leitura. Depois, entrei para os escuteiros, onde todos eram da mesma classe cultural e o nível de conversas era interessante. Pode dizer-se que cresci interessado e curioso, ou melhor, com as ferramentas culturais para me interessar e ser curioso por coisas que acabaram por me ser úteis na escrita. Quais foram os autores que mais te influenciaram?

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JJá depois de tomada a decisão de escrever e de vender o que escrevia, comecei a ter modelos de referências literárias. Desde logo, Raymond Carver, um autor com uma escrita muito sucinta e que termina os contos de uma forma curiosa, deixando tudo em aberto. Se leres o que escrevo, percebes que gosto muito de deixar tudo em aberto, embora goste de fechar mais do que Carver (risos). Depois, gosto muito do estilo seco de Raymond Chandler, talvez por ter viajado por São Francisco e ter sentido curiosidade em ler esse ambiente de detectives. Sempre gostei muito das histórias do Raymond Chandler embora não tenho o hábito de ler policiais, no entanto, o estilo do Raymond fascina-me. Lês as primeiras páginas de um Philip Marlowe e aquilo é mesmo roído até ao osso, há uma economia de palavras que é extraordinária. Talvez esses sejam os autores me mais me influenciaram, quer no estilo de escrita, quer na forma de conduzir a narrativa. No entanto, existe uma qualidade que considero ser verdadeiramente minha, do meu trabalho, da minha escrita, que é a capacidade de associar ideias que, aparentemente não têm nada a ver e, a partir daí, despertar no leitor aquela sensação: ‘olha que interessante, nunca tinha pensado nisso’. Um dos elogios que mais recebo dos leitores e que, confesso gosto de ouvir, é: ‘nunca me tinha acontecido ler um livro de uma só vez’. Essa capacidade de prender o

leitor, sem grandes efabulações, se calhar, aprendi com esses autores que referenciei. Também houve outro escritor importante para mim, ainda antes de começar a publicar livros, Italo Calvino. O que mais gostei nele e tentei reproduzir, foi a forma como explica ideias muito complicadas de uma maneira muito simples. Vê-se que há ali um trabalho extraordinário. Calvino devia ser uma daquelas mentes que andava por sítios onde nunca ninguém se lembrou de andar, mas, depois, quando passava ao papel, voltava à terra. Tinha a capacidade extraordinária de usar a linguagem apropriada, certeira para situações um bocadinho complicadas. Sempre que tenho uma coisa mais complicada para dizer, tento fazê-lo com o mínimo de palavras e o máximo de lucidez. Estas referências literárias foram importantes, quando comecei a escrever livros, porque quando escrevia crónicas nunca tinha estas preocupações. Aliás, nos anos 90, o que escrevia nem eram bem crónicas. Crónica será aquilo que faço hoje, para a Visão, onde, sob um título genérico, escrevo sobre o que quero. Outra coisa, era o que fazia nessa época, em que o tema tinha de ser discutido. Por exemplo, chegava à redacção e dizia: “estive em Nova Inglaterra e visitei uma seita extinta que se chama os shakers e tudo o que fizeram é monumento nacional”. ‘Isso interessa-nos’. Ia para casa escrever sobre shakers, não sobre algo de que me lembrava relacionado com o surf, ao ver o trenó utilizado por eles, ia escrever sobre os shakers, ponto. É nesse sentido que digo que não eram crónicas, eram reportagens. Não tinha, nem amplitude, nem liberdade para estar a pensar num estilo. A primeira vez que eu submeti uma crónica ao Miguel Sousa Tavares, era um texto muito pessoal sobre a minha viagem ao México, onde escrevia sobre as coisas que me tinham acontecido: que tinha dormido no autocarro, que tinha apanhado uma diarreia, que conheci não sei quem que me queria vender cogumelos mágicos. Ele mandou-me a famosa carta de resposta do Miguel Sousa Tavares a desancar, porque o jornalismo é para servir o leitor e não a si próprio. Durante dez anos segui essa máxima: escrever coisas para servir o leitor. Quando é que se deu o Grito do Ipiranga? Quando surgiu a ideia de fazer a viagem de volta ao mundo. Aí percebi que o paradigma tinha mudado. Eu ia fazer uma coisa única em Portugal, no jornalismo, e percebi que as pessoas não queriam descrições de monumentos, queriam saber o que é que se estava a passar comigo. Isso ficou claro ao fim de algumas semanas de publicação, quando comecei a receber notificações, o feedback do Expresso, dos meus Pais, dos


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meus amigos e me consciencializei que o país andava doido a ler o que escrevia, que toda a gente comentava, que o Expresso tinha aumentado as vendas por causa da viagem. A mensagem era muito clara, o grande interesse é contar o que se está a passar contigo. Foi o tal Grito do Ipiranga, que permitiu que eu começasse a escrever sobre viagens de uma forma literária e não jornalística. A primeira viagem foi ao México, a partir daí percorreste milhões de quilómetros e conheceste milhares de locais. Qual foi a viagem que mais te preencheu?

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Em relação à forma como elas nos podem bater, as viagens, é preciso que eu conte uma história. Com sete anos, entrei para os escuteiros e fui acampar para Cantanhede. É preciso entender o que isso significou para um garoto de sete anos, num Portugal muito fechado e onde os miúdos tinham muito poucas experiências. O meu filho tem sete anos e parece difícil que alguma coisa o entusiasme. Não porque seja um miúdo presunçoso, mas porque, hoje, os miúdos têm imensas solicitações, há muita coisa a acontecer, de 15 em 15 dias um deles faz anos, lá vão eles para os insufláveis e para a equitação e para o parque aventura. A nossa vida era muito mais plana, mais básica. Com sete anos fiz o primeiro acampamento em Cantanhede, onde aconteceu o episódio do maluco que apareceu com uma faca de barrar manteiga. Nós achámos aquilo o máximo e subimos às árvores a rir e a chorar. Isso foi muito intenso para mim, foi a minha primeira viagem e marcou-me muito mais do que ir ao Afeganistão com 36 anos. Com os escuteiros, até aos 14 anos, cheguei a ter 100 noites de campo, o que significa que durante esses anos não falhei um acampamento. Depois, com o surf comecei a ter emoções muito fortes, nas primeiras viagens. Vale a pena mencioná-las: com 16 anos fui com um amigo da Figueira para Biarritz, depois, já no registo das viagens solitárias, fui para os Açores, depois, a viagem ao México, a primeira paga profissionalmente. Por isso, para a pergunta que me fizeste, não consigo ter uma resposta única. É óbvio que a viagem de 19 meses de volta ao mundo sem aviões, foi algo que ficará para sempre na minha memória, até porque me transformou numa figura pública. Toda a gente se recorda de mim por causa dessa viagem e pelas que fiz para a RTP, que também chamaram a atenção de muita gente. Não consigo ser ingrato, por isso tenho de reconhecer que a viagem da volta ao mundo mudou a minha vida, deu-me aquilo que sou hoje, foi, talvez, a mais importante da minha vida.

Agora, em termos de achievement, de realização pessoal, no sentido de conseguir completar uma viagem e ter sérias dúvidas se isso seria repetível, quer por mim, quer por outra pessoa, foi a travessia do Continente Africano a pé, por terra, partindo da Cidade do Cabo, África acima. Esses nove meses a levar chapadas quando atravessava as fronteiras por ser branco, a dormir na berma da estrada porque o camião que me tinha dado boleia não tinha faróis, a viver a incerteza dos vistos, a ausência de guias de viagem, tateando, perguntando às pessoas que diziam aquilo que achavam que eu queria ouvir, constituíram a viagem mais difícil que já fiz. Depois a Viagem do Magalhães, porque me obrigou a entrar em contacto com um mundo completamente diferente. De repente, pensas: não posso estar o resto da vida a viver na berma da estrada, tenho de dar um passo em frente. Daí resultou a descoberta da possibilidade de viajar no tempo, de voltar 500 anos atrás, de escrever um livro que relata duas viagens paralelas, sendo que, numa delas, a viagem histórica, és obrigado a ter contacto com académicos, professores universitários que te reconhecem autoridade intelectual para falarem contigo e isso foi muito gratificante. No final, resultou num bom livro e num bom documentário. Essa foi uma das viagens que me preencheu o ego. A descoberta da figura do Santo António sob uma perspectiva laica. Fartei-me de pesquisar sobre Santo António e não encontrei uma única abordagem laica feita por um agnóstico, por alguém que olha para Santo António e pensa “este homem viveu num período da história extraordinário, mas tudo o que se diz sobre ele é sob o olhar dos crentes, sobre milagres”. Por isso decidi fazer uma abordagem de investigação científica e foi muito gratificante. Nem te vou revelar o que penso que será a minha próxima grande viagem, porque acho que só a vou poder concretizar daqui a dois anos. É, uma vez mais, um tema de uma originalidade brutal, por isso não vou falar dele. Durante essas viagens, quais foram os momentos mais extraordinários que viveste? Imensos! Mas, esses sim, consigo hierarquizar, fazer um top five. Desde logo, as travessias oceânicas em cargueiro durante a viagem da volta ao mundo, quando tive de apanhar quatro vezes cargueiros, uma para atravessar o Atlântico, outra para atravessar do Pacífico para a Oceânia, a terceira da Oceânia para a China e a quarta de Jacar-


Regressemos à tua praia, ao surf. Qual foi a onda que mais curtiste apanhar? Eu já estive em ondas muito boas e já vi muitas a funcionar muito bem, mas o dia em que talvez tudo se tenha conjugado, em que todos os astros estavam alinhados e eu no máximo das minhas capacidades, em que as ondas parecia que vinham ter comigo e a luz e temperatura da água estavam perfeitas, foi em Arugam, no Sri Lanka. É óbvio que a Figueira, feitas as contas, talvez seja o local onde tenho apanhado as melhores ondas ao longo da vida e onde desfruto melhor das ondas boas, porque sou daqui, tenho livre acesso, não tenho de passar pela peneira dos locals, além do meu surf se adaptar melhor aqui, por isso, a Figueira da Foz, concretamente Buarcos, será sempre o lugar onde fiz as melhores ondas. Resumindo, houve um dia luminoso, onde todos os astros se alinharam, em Arugam Bay, que coincidiu com o último dia da minha viagem de volta ao mundo a fazer surf, “doze meses, doze ondas”, que realizei quando fiz quarenta anos, esse momento constitui o apogeu, a maneira perfeita de encerrar um ano à volta do mundo só para fazer surf. O que é que mudou no mundo das via-

gens desde que começaste a viajar? Mudou tudo. As vendas dos bilhetes de avião, a forma de reservar hotéis, a informação. Chego a ter pena das pessoas que começam agora a viajar, porque nunca mais poderão ter o sentimento de descoberta, de surpresa, de exultação pela conquista da viagem. Hoje já não há conquista, é o contrário, tens de te defender do excesso de solicitações e ofertas, para que consigas perceber exactamente o que queres. É incrível, vais ao Google para saber a data em que os portugueses chegaram a Bangkok, escreves Bangkok e passado um segundo está o booking.com a oferecer-te hotéis. Não queres viajar e és obrigado a pensar em viajar, ou seja, há uma falta de privacidade no teu sonho de viagem. São tantas as ferramentas que te impõe hoje, o Google Earth, o Street View, que quando sais de um aeroporto já não precisas de perguntar onde estão os autocarros para o centro da cidade, porque já consultaste isso online. Há tempos recebi um email, na sequência da viagem à Argélia, de um tipo que queria dar a volta ao Mediterrâneo em dorso de cavalo. O que é que eu lhe tinha para dizer? Nada. Não faço a mínima ideia como se alimenta um cavalo. As pessoas estão tão desesperadas para fazer alguma coisa que não seja imposta, que já estão dispostas a quase tudo. Há dias ligaram da Visão para um depoimento sobre turismo macabro, porque parece que as pessoas já não sabem o que fazer para tornar as viagens interessantes, então vão ver Chernobyl, locais de massacres, vão fazer selfies em Auschwitz, pagam para ir para palcos de guerra fazer turismo. Mas, apesar de tudo, apesar da banalização, é sempre bom viajar, continua a ser melhor viajar do que não viajar. O que mudou em ti? Acho que mudou tudo. Há coisas que não mudam, claro. A índole, aquilo que faz parte da tua maneira de ser. O facto de teres um sorriso pronto, mesmo na adversidade. Isso é teu, ou é português? Não, não é nada português. Portugal é uma construção, não é uma constatação. A ideia de que somos todos iguais é uma construção que permitiu criar uma espécie de identidade nacional que definia que os portugueses eram assim, ou assado. Não são nada. São mal-educados, a última coisa que te dão é um sorriso. Vim agora de Itália e em cada sítio em que entras, ainda não meteste o pé na porta e já estás a ouvir ‘bom dia, em que posso ser útil?’. Aqui, entras num café e para tomar uma bica e quase tens de pedir por favor.

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ta para Bombaim no Oceano Índico. Outra grande emoção, outro grande momento, foram os cinco, seis dias de trekking de sobrevivência no fish river canyon, na Namíbia. Realmente, é um sítio onde não vai ninguém, a que só se tem acesso fazendo trekking e em sobrevivência, porque não há lá nada em baixo, não há postos de abrigo, não há comidinha (risos). A ida ao Afeganistão, que continua off limits, mas é um país muito bonito em termos de paisagem e património. Chegar ao limite oriental do Estreito de Magalhães, onde Fernão de Magalhães percebeu que tinha vencido a sua aposta, foi outro dos momentos marcantes. Lembro-me que estavam dois graus negativos no ar, com vento, e metendo a mão na água do estreito, a temperatura era de cinco graus. Então, fiz essa brincadeira, deixar a mão ao ar livre durante alguns segundos e depois meter no mar a cinco graus, parecia que queimava. Algo mais banal, mas que me marcou muito, foi ter ido a Bagan, na Birmânia (actual Myanmar), país que esteve fechado durante muitos anos aos turistas. Quando cheguei a Bagan, que é um sítio arqueológico extraordinário, uma planície abandonada com 4000 templos a sair do meio da planície, não estava à espera de encontrar aquilo, por isso, quando cheguei, subi ao primeiro templo e olhei em minha volta e foi um momento muito forte.


Mas regressando à pergunta, há coisas que não mudaram, que fazem parte da índole. Um certo altruísmo, no sentido em que se vejo alguém a precisar de ajuda, não hesito em ajudar. Por exemplo, há uns anos atrás, encontrei uns americanos num comboio nocturno de Budapeste para Veneza, não sabiam que não podiam pagar com cartão e o revisor da Croácia ou da Hungria exigiu que eles pagassem ou teriam de descer do comboio, eu percebi que eles estavam a ser sinceros e como tinha liras italianas, paguei-lhes o bilhete e dei-lhes o contacto para me fazerem uma transferência bancária. Quando chegámos a Veneza ouvi gritar o meu nome, eram eles que vinham atrás de mim para que os acompanhasse a uma caixa multibanco para me pagarem. Muitos anos depois, para aí há uns sete anos, emprestei dinheiro a um venezuelano a quem tinham roubado a carteira e não tinha dinheiro para o regresso e passado três dias tinha-me depositado. Por isso, a índole não mudou. No resto, sinto que mudei muito. Envelheci (risos). Uma pessoa muda muito quando envelhece. Tenho 50 anos e as coisas que faço para um tipo de 50 anos, fazem sentir-me velho. Não me sinto velho a subir as escadas ou a ir comprar pão, mas sinto-me velho a fazer surf nas ondas de Buarcos, sinto que já não é a mesma coisa, assim como, quando tenho uma noite mal dormida, nomeadamente com o jet lag, ou quando tenho mesmo de viajar de noite, nesses momentos percebo que o tempo está a passar por mim e que tenho necessidade de ajustar a viagem com ‘V’ grande à idade que vou tendo.

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Foto: Bruno Esteves


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VIAJAR É PRECISO por João Albuquerque Carreiras

Mais tarde pude começar a levar o meu corpo para outras paragens, longe deste meu país do qual cada vez mais gosto, à medida que mais lugares conheço. Foi como uma droga de adição rápida de que não nos queremos libertar depois de provar, e de que queremos mais, e de que queremos melhor, e de que queremos mais e melhor. E que vamos experimentando em novas formas: sozinho ou bem acompanhado, por cidades cosmopolitas ou aldeias perdidas no tempo, por mares próximos ou montanhas longínquas. Viajar passou a ser parte essencial da minha vida e do meu equilíbrio, uma terapia sem a qual não passo. Comecei por viajar com grupos de amigos, mas fui entendendo que cada viagem deve ser feita na companhia certa, sendo que desta escolha depende grande parte do prazer da viagem. Há viagens para fazer com amigos, outras com uma boa companhia e outras com a nossa própria e única companhia. Por isso me recuso a embarcar em pacotes que me levam em grupo para um qualquer lugar onde me obrigam a conviver com pessoas que não conheço, e de quem provavelmente não gostarei. Prefiro o egoísmo libertário de escolher o meu caminho, sozinho ou com pouca companhia que permita escolhas ágeis e individuais. Há uma sensação libertadora de viajar sozinho que é difícil de descrever, um desafio ao

que somos, aos nossos medos, às nossas forças, a essa coisa difícil que é termos de nos aturar a nós próprios. Não discuto com quem se recusa a fazê-lo, nem me acho especial por gostar disso, apenas duvido que se viajasse sempre acompanhado pudesse ter experimentado a sensação de mudar a minha vida viajando. Gosto de parar quando tenho fome ou simplesmente porque gosto do aspecto de um café, de alterar todo o itinerário a meio, de ficar mais um dia num lugar de que gostei, de jantar com alguém que acabei de conhecer no hostel, de dormir mais, se o corpo assim o pede. Gosto de fugir de lugares turísticos e de pensar que passo por local, gosto de deixar algo por ver para um dia voltar. Gosto mais de estar do que de correr em busca de acabar a caderneta de cromos de cada lugar. Reconheço que sou snob em relação a turistas e insisto em me considerar um viajante, coisas minhas de querer que cada viagem seja diferente, que seja única, que seja minha. No regresso ficam as memórias, os cheiros, as notas nos cadernos. Aquele almoço no Quintal em Alagoas, a noite louca em Medellin – onde claramente fui onde não deveria –, subir pendurado no bonde de Santa Teresa sobre os arcos da Lapa, tomar um Pisco Sour a olhar o Licancabur e sentir a vastidão do isolamento de São Pedro de Atacama, ouvir Amália ao entrar num hostel em Istambul, demorar cinco horas a negociar uma almofada em Selçuk, sair em braços do Matt Molloys depois de uma épica jam session de música tradicional, caminhar despreocupado entre a Bombonera e o Caminito depois de um almoço memorável no Carlitos, olhar o fim do mundo desde Ushuaia, dormir olhando as estrelas no meio do deserto marroquino, chegar a pé a Machu Picchu e sentir-me irreversivelmente pequeno. O mundo é demasiado imenso para quem gosta de viajar, de não pensar em limites ou fronteiras, de querer, sempre, conhecer algo de novo e ser surpreendido pela beleza e diversidade deste planeta a que chamamos terra. Mesmo que tenhamos os livros ou os filmes. Ou melhor, apesar dos livros ou dos filmes.

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Há muitos anos dei a volta o mundo em 80 dias com Júlio Verne, naveguei mares afora em busca da Moby Dick, aventurei-me nas florestas com Jack London, fui ao Congo com o Tintin e à Sibéria com Corto Maltese, cheguei a uma ilha de amores que não entendia. Comecei a viajar através dos livros, ainda sem quase ter saído da minha cidade natal. E pelo cinema, que me levou a uma África que não era minha, ao Vietnam em Apocalipse, ao Cairo em busca de uma Arca Perdida, a ver Florença desde um quarto com vista e a acompanhar as viagens de um Turista Acidental. Ou pela televisão, que me mostrou a Inglaterra aristocrática de Brideshead, o mundo futuro de Conan e as cidades do ouro de Esteban e Zia. Viajei muito na minha cama, no sofá da sala e no escuro de salas de cinema antigas ainda com plateia e balcão.


LEVA-ME CONTIGO

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PORTUGAL A PÉ PELA ESTRADA N


por Afonso Reis Cabral

Antes das coisas úteis vêm as inúteis. Essas, as que nascem na cabeça, são as mais pequenas e as maiores. No meu escritório trabalha também um pintor. Ocupou a cozinha por causa da luz, que entra por uma janela diminuta, qual câmara escura, e trouxe com ele telas brancas e madeiras virgens e barros por moldar. Estes partem-se muitas vezes por acidente – eu até gosto das estatuetas anatomicamente perfeitas com cabeças e braços amputados –, mas as telas nunca ficam por preencher. Não sei como nasce aquilo. Ele põe-lhe as cores e as cores arranjam-se entre si em figuras femininas, florestas, bailarinos e caras de espanto. Mas sei que, antes de haver tinta na ponta do pincel, houve coisas inúteis na cabeça. Essas coisas inúteis, tratadas com o cuidado que merecem, acabam como coisas úteis na tela. Tudo o que é belo é útil. Depois de ter decidido partir, a estrada enrolou-se à volta dos meus pensamentos como uma jibóia de muitos quilómetros. Em vez de alcatrão, havia o medo de não conseguir, a fanfarronice de certas horas em que me achei capaz de tudo, inclusive caminhar do Shire até Mordor, o desânimo por me ter comprometido com uma ideia fútil que vinha do nada e ao nada levava. E a vontade de ver – de ir – de ser atravessado pela vida. Agora, a estrada era a minha tela e eu fazia como o pintor, preenchia-a de coisas inúteis esperando que as tintas se transformassem em quadro. Um dia, em Março, dei por mim a caminhar depois do pequeno-almoço. Passei pela mota e segui. Passei pelo carro e segui. Não tinha dito às minhas pernas para irem, mas elas devem ter achado que o cérebro já levava vários dias de coisas inúteis. Chegara a hora das coisas úteis, como amestrar o corpo. Duas horas depois, avistava o escritório, que fica a oito quilómetros de casa. Abrira duas bolhas na planta do pé esquerdo – as mesmas que mais tarde, regressado a casa, me pediram para comprar urgentemente sapatilhas adequadas –, mas o passeio pela Nacional 2 tinha começado.

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NACIONAL 2


Nunca estive na casa de partida de uma corrida. Imagino os adversários em posição, o corpo quente e tenso, as bancadas em silêncio à espera do sinal. Esta antevisão, que associo a uma forma de paz, encontro-a na Decathlon. Tudo nessa loja está prestes a partir: os equipamentos das prateleiras, as tendas alinhadas, os barcos insufláveis, as compressas para as dores, as bicicletas, os sacos de boxe. Ali aguardam pequenos paraísos ou grandes torturas. Pensava nisto quando perguntei pela quinta vez à funcionária: «Mas tem mesmo a certeza de que estas sapatilhas aguentam bem a estrada?» Ela acanhou-se perante a ideia de 738 quilómetros numas sapatilhas Redmond Columbia de sessenta e nove euros, mas, como eram as únicas do meu tamanho, respondeu-me que aguentavam e eu dei-me por satisfeito. Semanas mais tarde, na manhã em que cheguei a Faro, beijei as sapatilhas por terem suportado o que a estrada e eu lhes fizemos. Depois comprei a parafernália que serve de tábua de salvação no caminho: mochila de quarenta litros com arejamento nas costas, bolsos vários e capa contra a chuva; bexiga de plástico para dois litros de água, equipada com um tubo e biberão; kit de primeiros socorros; colete amarelo, espécie de segunda pele; quinze pares de meias anti-bolha; pomadas várias que mantêm os pés lubrificados; boné com protecção na zona do pescoço; power bank para ir dando de comer ao telemóvel. Nos treinos que se seguiram, descobri que em duas patas se vê mais do que em quatro rodas. Pelo menos, vê-se mais lentamente. Lisboa está bordada a hortas, antes do Parque das Nações dá para perguntar aos últimos agricultores como se monda a terra. Eles às vezes não respondem mas eu digo-lhes que gostava de ter uma horta como as deles. Talvez achem que há hortas a menos para pessoas a mais. Problemas do mercado imobiliário.

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Na faixa da Infante Dom Henrique, de Braço de Prata a Santa Apolónia, habita muita gente que ali fica em barracas, tendas e caixas de cartão. Quando lhes acenei, recuaram. Depois acenaram eles e recuei eu. Encontrei uns a comer, outros a cantar. Debaixo do viaduto que leva à estação, perto dos carris da zona portuária, julguei ter visto restos de fogueiras – portanto, de noite, não passam tanto frio. Ainda assim, viviam melhor do que o Nuno, um gajo que eu conhecera dias antes e que vende pássaros em Gondomar. A casa chei-

rava a animal morto. A cozinha a animal bem morto. No quintal havia um pitbull manso, incomodado com tanta miséria, que nem sequer me ladrou ou mostrou os caninos. O Nuno também não mostrava os dentes porque quase não os tinha. «Esta é a minha cruz», disse quando lhe perguntei pela tatuagem de Cristo que começava perto do pescoço. Falámos da cruz: muitas horas debaixo de água como soldador submarino, bastante azoto nas veias, onde também foi juntando álcool e uns chutos de heroína. Agora era aquilo que se via, alguém mais limpo mas ainda não completamente limpo, um vendedor de pássaros numa casa suja. Quando me deu a caixa com o dom-fafe, pensei libertar o pássaro como homenagem, houvesse ao menos alguém livre daquela miséria, mas levei-o para casa e prendi-o no aviário. Apesar de ter muitas fêmeas, recusa-se a galá-las. Num dos treinos, cerquei Lisboa com um fio imaginário feito dos meus passos. Foram quarenta e um quilómetros nos quais reparei que a cidade já não pertence ao lisboeta ou ao turista: agora pertence às trotinetas. São bichos tão frágeis, quais garças-boeiras, que abrandei o passo sempre que me aproximei delas. Ao montá-las, o ser humano deixa-as exaustas. Perto das Docas, observava um grupo de raparigas bonitas, distraídas umas com as outras, quando ouvi campainhas vindas de todas as direcções. E em segundos várias trotinetas cruzaram-se e rasaram as raparigas. Os rapazes em cima delas berravam como índios a exigir escalpes. Enxameando as raparigas, os apaches aceleraram para se exibirem enquanto perguntavam: «Estavam perdidas, as meninas?» Elas levantaram os braços para lhes responderem: «Sem vocês, claro que estávamos.» Eu continuei o meu caminho e não sei o que aconteceu depois, mas vinha a calhar se cada uma tivesse seguido com cada um em cima das trotinetas. Em direcção ao pôr-do-sol ou assim. Uns quilómetros depois, na frente ribeirinha da Expo, deparei-me com a prova de que as trotinetas são mesmo aves vulneráveis: de vinte em vinte metros, encontrei-as afundadas no lodo da baixa-mar. Eram catorze de enfiada – e eu tenho a certeza de que a décima quarta, ao ver os cadáveres das amigas, teve um curtocircuito de desgosto e atirou-se ela mesma ao rio. De Alcântara a Cascais, a água e o sol lavavam tudo, os passeantes assemelhavam-se, caminhavam da mesma maneira. Uns de tronco nu, outros com os bonés virados para


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Foto: João Reis Antão


trás, alguns a ouvir música e uns quantos a namorar – todos tão contentes e com ar de quem nunca ansiou que, por momentos, o mundo ficou contido na marginal e não tinha início nem fim. Enquanto via o rio tornar-se foz, aprendi que as minhas pernas são mesmo irmãs: partilham a dor à vez. Durante o dia, caminhava. À noite, lia. Palmilhei o País do Algarve ao Minho com Nuno Ferreira, no seu Portugal de Perto. Estudei sobre a estrada no maravilhoso guia Portugal de Norte a Sul pela Mítica Estrada Nacional 2. Subi ao Evereste com João Garcia e ao Annapurna com Herzog. Jon Krakauer apresentou-me Chris McCandless e este, por sua vez, disse-me para ler O Apelo da Floresta, de Jack London. O livro não tem grande interesse, excepto ter sido sugerido por um parceiro de caminhadas. Em Walking to Listen, Andrew Forsthoefel descreveu-me como caminhou de costa a costa nos EUA. Seguindo-lhe o exemplo, decidi pedir conselhos a quem encontrasse pelo caminho. E Paulo Moura, jornalista e autor de Longe do Mar, fez-me crer que encontraria muitas histórias na estrada. Entusiasmando-se com as leituras, o meu Walter Mitty quis apoderar-se de mim e isso preocupou-me. Apesar de ter fomentado as coisas inúteis e tratado das úteis, apesar do equipamento e dos cento e trinta quilómetros de treino, a estrada bem podia nunca acontecer. Resultar nas frustrações de um sonhador. Para dar coça ao Walter Mitty, tornei o projecto oficial: publiquei um texto no Facebook acompanhado de uma foto com o boné do Forrest Gump. Agora, que gente invisível gritava «Walk, Afonso, walk!», não podia desistir. Para além das leituras, pesquisei sobre a Nacional 2. Descobri as pessoas da estrada – aqueles que a percorrem publicando sobre ela online. Aqueles que a amam, porque aqui amor significa o tempo que lhe dedicam. E percebi que ainda ninguém a tinha palmilhado. À descoberta da estrada e das pessoas da estrada juntou-se o objectivo empolgante de ser o primeiro, mesmo numa coisa tão insignificante como ir de um ponto ao outro. Nas semanas que faltavam até 22 de Abril, encolhi o caminho para que nele coubesse

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a ambição recém-nascida: ser o primeiro. Embora ainda não lhe tivesse posto os pés em cima, a estrada já era mais minha do que de quem a fizera de carro, mota ou bicicleta. O caminho quase tinha sumido, pequeno e

mesquinho, quando descobri que um grupo de amigos, todos com mais de sessenta anos, começara a empreitada. Segui-os pelo Facebook, reagindo a princípio com desapontamento: que azar, a poucas semanas de meter eu os pés no alcatrão... Enquanto acompanhava os quilómetros e via as fotos, comecei a conhecê-los pelos bonés, pelos bigodes, pelas expressões cansadas. Na Nacional 2 há tempo para cansaço e para camaradagem. Imaginava-os amigos de sempre, por fim reformados e com calma para as conversas que interessam. Chegaram a Faro três semanas antes de eu partir e são uns gajos espectaculares. Por causa deles, o caminho ficou de novo grande como sempre foi. Na última noite antes da caminhada, pensava em como eu e as minhas pernas havíamos andado mais de uma centena de quilómetros. Em como o meu cérebro e eu estávamos decididos, melhor dizendo, conformados. E em como, na manhã seguinte, os passos mais difíceis seriam para sair da cama. Se conseguisse fazer a Nacional 2, talvez me tornasse andróide e pudesse dizer «I’ve seen things you people wouldn’t believe». Nesse momento, embora fosse caminhar sozinho, desejei que um qualquer cão me acompanhasse. Estaríamos bem um para o outro: eu tão cão como ele rafeiro, os dois vadios da estrada. Só esperava não ficar pelo caminho, o que era bem possível, embora um bom falhanço também fosse uma boa coisa. É que o Walter Mitty podia ressurgir em qualquer etapa da jornada; para o conter, propus-me publicar um diário do caminho. Ei-lo aqui, com as paisagens e as pessoas.


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Apontamentos de Moรงambique

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Raimundo Mendes da Silva 13-28 Julho 2019


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Moçambique

Estar quinze dias em Moçambique a dar aulas sobre património não é uma tarefa extraordinária, não move o mundo, não é diferente do que muitos fazem, já fizeram e voltarão a fazer. Não é, no entanto, em termos pessoais, uma banalidade, nem nunca o seria, aqui ou noutro lado do mundo, mais próximo ou mais longínquo, porque há toda uma vontade de ensinar o melhor que sei e aprender tudo o que puder. Não quero escrever crónicas de Moçambique e muito menos achar que vou ficar a perceber este mundo tão igual e tão diferente, mas acho que, para melhor memória e melhor partilha, posso escrever alguns apontamentos de momentos e sensações, mais reais ou mais efabulados, que substituam as fotografias que não tiro, sobretudo na cidade, por não ser local para isso ou porque não conseguiriam reproduzir a complexidade e a mística dos locais e das situações.

Muralha da Fortaleza de São de São Sebastião, na Ilha de Moçambique (Ilha) Aula na Capela de Nossa Senhora do Baluarte (Ilha)

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Tentarei então fazê-lo, sem carácter regular, sempre que surjam motivos que os inspirem, e nunca ultrapassarei cerca de três ou quatro parágrafos e mil caracteres. Em jeito de antecipação de um índice virtual, quero falar do lixo urbano, do caminho para a universidade, das fotografias, dos alunos, do comboio e… do que me vier a ocorrer.


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Comboio

À noite, no meu quarto, ouço um apito de comboio. É um apito curto e único, claro, mas pouco intenso. Pela nitidez do som, diria que o comboio estava mesmo ali em frente, na rua, a deslizar sobre carris imaginários. Nalgumas noites, o apito repete-se uma, duas, três vezes de dez em dez minutos. Nunca vi o comboio, nem sei se alguém viu. Até hoje pensei que o som existisse sozinho ou fosse imaginário. Mas não. Diz quem sabe que o comboio existe, é grande, silencioso e discreto, escondido entre muros que o ocultam e que dividem a cidade a meio: de um lado pedra e cal e, do outro, assentamentos informais, que é o mesmo que dizer: enormes bairros clandestinos muito pobres. O comboio desliza sobre os carris que foram recentemente revistos e afinados para que neles passe rápido e discreto, de noite, quantas vezes for necessário e sem hora marcada, carregado de carvão mineral para o porto marítimo de Nacala, mais a Norte. Hoje, a caminho da Universidade, vi, ao longe, uma passagem de nível. É aí que o comboio apita uma vez, só uma vez, de forma curta e clara. Estou quase tentado a acreditar que existe, com uma enorme máquina diesel, um maquinista solitário e dezenas de vagões de carvão.

Vista de Nampula Passagem de nível (Nampula) Carruagens de transporte de carvão

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Digno de filme!


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Lixo urbano

Em Nampula os passeios só existem em ruas principais e estão em mau estado: há buracos de metro a metro, o cimento e a terra alternam como no xadrez, há montes e vales. Mas em Nampula os passeios estão limpos, sobretudo pela manhã, como se a noite os tivesse varrido na perfeição, deixando penteada a poeira mais persistente. E onde está o lixo? Não sei. E onde se despeja o lixo doméstico? Não sei. E como se faz a recolha do lixo? Não sei. Ao fim de dois dias tivemos que perguntar a um dos três seguranças do prédio. O primeiro não percebeu a pergunta, mas o segundo lá nos informou que havia dois contentores na cidade: um mais perto, no Conselho Municipal, e outro bem mais longe. Quando o motorista da universidade chegou para nos apanhar, pedimos que passasse junto de um dos contentores para deixar os nossos sacos de lixo, mas ele não o fez, comentando entre dentes qualquer coisa que não conseguimos perceber. Talvez tenha dito: “depois”.

Nampula (centro da cidade) Nampula (centro da cidade) Nampula (centro da cidade)

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De facto, “depois”, a caminho da universidade, já na estrada de terra, com valetas feitas pela chuva com mais de um metro de altura e um piso digno de montanha russa, parou de repente e disse-me: “É aqui! Abra a janela e atire!” Não era uma sugestão. Era uma ordem!!


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Caminho da Universidade

Saímos de casa duas horas antes das aulas, que é o tempo certo para ir avançando de forma errática, felizmente lenta, na “nacional um”, parando aqui e ali para dar boleia a alguém conhecido do Sataca (*) e, depois, enfrentar a estrada de terra e chegar a um campus paradisíaco, onde só destoa o guarda armado no portão. É tempo, então, de ultimar os preparativos da aula, ver se há eletricidade e, não menos importante, receber os alunos. A “nacional um” é um rio de carros com tapete de alcatrão e com bordas crivadas de gente que anda, que vende, que espera, que corre para a boleia ou para o “chapa”. Há lojas, há tendas, há portas, há oficinas, há padarias, há telemóveis. Há tudo o que se possa imaginar. Estas bermas são o rebordo bordado de um pano muito mais cru que se estende lá atrás, com milhares de barracas, onde se rasga a estrada de terra, também ela rasgada pelas chuvas, numa indecisão entre ser caminho ou rio, mas com a certeza de que mais se parece com um mar de pó vermelho. “Só para Toyotas” dizem os condutores. “Os outros não aguentam”.

Estrada Nacional N1, Nampula, saída Sudoeste Estrada Nacional N1, Nampula, saída Sudoeste Estrada do Marrere (arredores de Nampula) Estrada Nacional N1, Nampula, saída Sudoeste Unilúrio (Campus do Marrere) Unilúrio (Campus do Marrere) Alunos de Mestrado da Unilúrio (Património e desenvolvimento)

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À noite, o regresso é de jipe, com um aluno, e tudo parece diferente, ou melhor, tudo parece impossível nesta condução pela esquerda, mergulhados num mar de faróis com luzes azuis cintilantes, com o rádio sintonizado num programa sobre racismo. Chegamos sempre bem! (*) assim se chama o motorista da universidade


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Mas o que é que lhes passou pela cabeça?

Fui hoje a Mossuril, de jipe, com duas horas de estrada de terra para cada lado. Um banho de país real que não deixa adiar a pergunta: mas o que é que lhes passou pela cabeça? Se a pergunta fosse só aplicada a uma determinada época estaríamos mais tranquilos, mas o problema é que, nem sabemos o que passou pela cabeça dos governantes portugueses do Estado Novo quando julgaram que podiam dominar um país desta força e dimensão, nem o que passou pela cabeça da UNESCO quando definiu valores excecionais (e a manter) na Ilha de Moçambique que amarram as pessoas a (muito) más condições de vida, como não sabemos o que passa pela cabeça de todos quantos decidem inventar modelos de desenvolvimento que não pensam naqueles a quem se destinam. Aos primeiros, é bom de ver o que lhes passou pela cabeça. Basta olhar para um enorme comboio carregado de carvão. Ah!, afinal o comboio existe! Vimo-lo ontem durante a viagem, a ladear a estrada, sempre dentro da sua cerca, ainda que mais transparente quando atravessa campos de cultivo. Aos segundos dir-se-ia que precisam de viver lá algum tempo para perceber que é preciso incentivar e apoiar projetos que envolvam a população na reconstrução de uma memória que lhes permita assumir o legado construído e melhorá-lo, criando uma nova identidade, que incorpore a antiga e melhore as suas condições de vida.

Estátua de Luís de Camões (Ilha) Aldeia construída em macute (estrada Nampula – Ilha) Comboio de transporte de carvão para o Porto de Nacala

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Aos terceiros talvez não tenha passado nada de muito especial pela cabeça, por serem apenas universitários ou por não resistirem à banal procura de novas (mas tão antigas) formas de poder.


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Avó Willow

A avó Willow existe! Não só existe, como tem imensas irmãs, também em África, espalhadas pelas florestas a perder de vista. Em Moçambique não é um salgueiro como na Pocahontas e quase juraria que seria um embondeiro. Também podia ser uma das muitas árvores de raízes aéreas, cujos nomes nem imagino, mas o embondeiro é uma aposta mais segura. Não faltam as Pocahontas, mulheres de olhar brilhante e sorriso sereno, envoltas nas capulanas, nem as lendas, nem a neblina que as alimenta e as torna quase reais. Saímos às seis horas da manhã de Nampula em direção à Ilha de Moçambique, para uma viagem de 180 km. Na cidade, o Sol já tinha nascido, mas, logo adiante, estava neblina cerrada que mais parecia um prolongamento da noite. Durante várias dezenas de quilómetros tudo eram sombras, silhuetas e pequenos brilhos que, de repente, se iluminaram como quem passa para o outro lado do espelho. Agora é verde e terra, casas e culturas, árvores centenárias e afloramentos rochosos milenares, termiteiras fervilhantes como os (muitos) miúdos a brincar à volta das casas. A esta hora, o chão de terra das aldeias por que passamos já está varrido. É uma tarefa diária impressionante: não há uma erva, uma folha, um plástico à volta das casas. Varre-se tanto que as raízes das árvores são agora veias salientes de uma mão que se apoia no chão e protege, qual avó Willow, toda a aldeia.

Estrada Nampula-Ilha (amanhecer) Mangueira no Campus do Marrere (Unilúrio) Campus do Marrere (Unilúrio) Árvore de raízes aéreas (Jopétompé) na Ilha Afloramento rochoso característico a caminho da Ilha Parque público (Norte da Ilha)

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Ao fim de três horas chegámos à entrada da ponte que liga a Ilha ao continente. Aí começam muitas histórias. Talvez algumas me entusiasme a contar.


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Os “putos”

Nas palavras de Ary dos Santos, cantadas pelo Carlos do Carmo, “Parecem bandos de pardais à solta / Os putos, os putos / São como índios, capitães da malta / Os putos, os putos…”. Já os tinha visto em Nampula, mas ontem de manhã, na Ilha, fui abalroado pela onda esfusiante e “pateta”, aqui como em qualquer lado do planeta, dos “putos” da escola primária. Risos, empurrões, correrias, numa alegria contagiante. São os mesmos que na véspera, domingo, queriam fazer de guias, vender um pardal ou simplesmente contar a história da ilha a troco de uma moeda e que agora nos ignoram. Agora estão aprumados na sua camisa azul clara e nas calças ou saias azul marinho, ainda que fique na dúvida com quantos botões chegarão ao fim da semana, tantos são os saltos e os atropelos. As aulas começaram às sete da manhã e acabaram cedo. O resto do dia é para “aprenderem a ser homens”. Atrás vem uma onda mais suave, sem corridas, com muitos risos, provocações inofensivas (entre eles e elas) e evidentes cumplicidades. As camisas são brancas e as gravatas pretas, muitas com um nó que já conheceu melhores dias, sobretudo nos rapazes. São os alunos do secundário. No caminho para Nampula, estas ondas de azul claro vão-se repetindo em muitas aldeias e, embora de forma mais rara, também se veem, aqui e ali, as mesmas ondas brancas.

Miúdos na plataforma de coral, na baixa-mar, a “ganhar a vida” Regresso da escola (Ilha) Intervalo das aulas no Parque dos Continuadores da Revolução (Nampula)

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São muitos. São muitos, mesmo, ... “os putos”.


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Arca mágica

O mangal (ou manguezal) é como uma arca mágica de onde saem as coisas mais incríveis que nunca imaginámos pudessem lá nascer. Mas importa sublinhar, para evitar confusões, que esta arca não se assemelha em nada a uma cartola de ilusionista, porque daí saem falsos coelhos, fruto de falsa magia. Aqui, tudo é magia real. Do mangal sai madeira de construção, saem varas, saem fibras, sai matéria para fazer carvão, sai caranguejo, camarão e siri… O mangal é um ecossistema complexo que faz a transição entre a terra e o mar, onde o que se passa debaixo de água é tão complexo e emaranhado como o que está acima da superfície, como se a natureza se tivesse divertido, com traço livre, a fazer rabiscos infindáveis e, depois, tivesse traçado uma linha horizontal para separar o ar da água. Cada um destes rabiscos é um ramo de uma das muitas espécies de árvores (?) do mangal. Os seus nomes têm muitas vezes a ver com a cor dominante: mangue-vermelho, mangue-preto, … Quando nas bermas das estradas emerge um atado de varas para a construção de casas de macute, arrastado às costas de alguém, de onde virá? Do mangal. Quando se multiplicam os sacos brancos cheios de carvão, com crista bem preta, protegida com rede, para mostrar a qualidade do produto, de onde veio a madeira para o fazer? Do mangual.

Cobertura característica com folha de palma e vara de mangal O mangal em Mossuril Construção de macute com vara de mangal e barro

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O mangal está a ser destruído um pouco por toda a costa do Índico e o planeta vai sobreviver, mas as populações talvez não.


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Jangada de pedra

Quando a maré enche, a Ilha de Moçambique parece estar a flutuar, porque o mar escavou com tal arte a base da plataforma rochosa, deixando um rebordo superior em todo o seu contorno, que parece estar a passar-lhe por baixo. No Ilhéu de São Lourenço, quando a vaga vem de sul, os nossos olhos ficam confusos e já não é o mar que avança com a força do vento, mas é aquela massa rochosa que vai ao seu encontro, navegando como um cargueiro de pouco calado, em que o fortim, à ré, é a ponte de comando. Se Saramago não esteve aqui e aqui não se inspirou para o título da Jangada de Pedra algo esteve errado na conjugação dos astros. É que, não só flutua o ilhéu, como tudo o resto, numa constante incerteza do amanhã. Resta saber que âncoras tem esta jangada, que amarras a prendem e que ventos a esperam - aqueles que os mais novos e empenhados dizem tardar a chegar. Estão na força da vida, pensam, têm sonhos e projetos e discursam sem trégua, com raciocínio lógico e consequente, quando quebram estas distâncias que sempre começam por nos separar: a idade, o estatuto, o modo de falar, a origem … Não sei se serão comandantes, imediatos ou homens e mulheres do leme, mas não têm medo do mar!

Alunos e docentes da Unilúrio e da Universidade de Coimbra (Ilha) Ilhéu de São Lourenço (junto à ponta Sul da Ilha de Moçambique) Apanha de búzios e outros bens na baixa-mar (Ilha) Embarcação de pesca local (Ilha)

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PS: Pesquisei e não encontrei o resultado desejado. A Fundação José Saramago dedicou a Jangada de Pedra ao apoio às vítimas do terramoto do Haiti. Para Moçambique, depois da tempestade Idai, a campanha da fundação centrou-se numa edição especial de O Conto da Ilha Desconhecida.


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É preciso respirar

Termino como comecei: não quis escrever crónicas de Moçambique e muito menos achar que vou ficar a perceber este mundo tão igual e tão diferente, mas foi bom escrever e partilhar alguns apontamentos de momentos e sensações. Aqui, como em qualquer lugar do planeta, é preciso tempo para ver, para ouvir, para recear, para discordar, para ter curiosidade, para cativar e ser cativado. Não faço a menor ideia do que aprenderam realmente estes estudantes, apesar de serem eles a maior (única?) razão desta missão, mas tenho a forte convicção (certeza?) de que não foi tempo perdido. Escapou-me alguma coisa realmente importante em tudo isto? Escapa sempre! Estará o Mia Couto coberto de razão com a crónica dos sete sapatos sujos?

Capela de Nossa Senhora do Baluarte (Ilha) Praia de Mossuril (continente a Norte da Ilha) Viagem de regresso a Maputo na LAM Ponte que liga a Ilha de Moçambique ao continente (década de 60) A muralha da Fortaleza transformada em objeto pedagógico A função e funcionamento das padieiras (fortaleza) “Despedida” da Fortaleza de São sebastião A vida da plataforma coralina na baixa-mar (Ilha)

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É preciso respirar… mas voltaria!


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Eu viajante, ele turista por João Pedro Costa

No filme “Um Chá no Deserto” (uma infeliz tradução do lindíssimo título The Sheltering Sky) do Bernardo Bertolucci, ao desembarcarem no porto marroquino de Tanger, os personagens da Debra Winger e do John Malkovich indignam-se com o companheiro de viagem que os apelida, aos três, de turistas. Na circunstância ela corrige, “não somos turistas somos viajantes”. Todos nós, sempre ou algumas vezes, começamos a gostar de nos reconhecer nesta ideia. Eu o viajante, eles os turistas. Somos influenciados pelo cinema, mas também por pensadores e filósofos para quem as viagens são transformadoras do eu, por poetas e romancistas que cantaram viagens, descreveram trajetos, destinos e culturas, ao mesmo tempo expondo as reflecções e emoções que as viagens propiciam. Há quem procure no trajeto ou no destino essa fórmula do viajante que envolve destinos improváveis, insegurança e desconforto. Viajar para países hostis aos estrangeiros, off season para a praia, ao frio e à chuva para destinos urbanos, deliberadamente na penúria dar a volta ao mundo, ou recorrer à boleia de Carregueiros para fazer a circunavegação, são exemplos contemporâneos que nos chegam escritos em livros ou em blog. Essa ideia de que somos viajantes ou de que, no mínimo, quando no destino, nos comportamos mais como um tipo que vive nesse lugar, do que propriamente como um turista, é-nos apelativa. É a imagem de um residente com algum tempo livre. Pelo menos quando saímos de casa, particularmente para o estrangeiro, saímos a dizer que vamos viajar. – “Então o que vais fazer estas férias? – “Vou uns dias à praia e depois vou viajar”. Depois somos todos turistas.

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– “Vou para Miami.” Nestas férias para Miami, o frete, aposto, é a viagem. Começa logo na ida de carro para o aeroporto. Um frete, ainda que, deste, os que vivem com o aeroporto na cidade, com muita sorte, nada saibam. Isto, a não ser que, nalguma vez, numa viagem de longo curso, tenham, como eu, tido a infeliz ideia de ir apanhar o avião a Madrid e aí sabem exatamente ao que me estou a referir! Bom, depois, pelo menos para os que viajam pouco de avião, sempre há uma excitaçãozinha na tensão de ir comprar os cigarros ao freeshop, embarcar, estar instalado, levantar voo. Objetivo cumprido. É uma excitação natural. Queremos que tudo corra bem e vamos na viagem em que andámos muito tempo a depositar espectativas e a imaginar. Vamos para a festa, que diabo! Já na vinda, nem essa excitação nos resta. Só queremos chegar. No dia a seguir, mais vezes do que não, o primeiro dia de trabalho, refilamos com os autores do Star Trek que nos prometeram o teletransporte e até hoje, nada! Para a esmagadora maioria das pessoas, ou para a maioria das pessoas nas circunstâncias das suas vidas, a viagem é um obstáculo. As condicionantes impostas pelo feitio ou formação, pelas dificuldades linguísticas, pelo tempo, pelo dinheiro, se viajam sozinhas ou não, com filhos ou não, levam a que o ato da viagem seja apenas um desnecessário desconforto que se tem de vencer para chegar ao destino, ou a sucessivos destinos, conforme se tenham programado as férias. Vamos de avião em vez de comboio. O comboio até era capaz de ser mais cómodo, mas o avião é mais rápido. Não vamos pelas estradas, aquelas que nos permitiriam ver os países ou regiões porque passamos, fazer uma paragem num miradouro ou, talvez, para uma refeição num restaurante da região, e uma dormida num hotel de charme, em vez de um urbano hotel boutique, já no destino. Vamos pela autoestrada “se não nunca mais lá chegamos” e, quando muito, se tivermos fome, “comemos alguma coisa no caminho”. Pode argumentar-se que não estou a falar de viagens, mas de turismo. Acontece que, na sua esmagadora maioria, as viagens são, no máximo, turismo de massas individual. Individual porque desenhamos as nossas férias e não viajamos em grupo, mas ainda assim turismo de massas, porque os caminhos usados e os lugares para onde vamos são para todos, e são explorados por empresas do setor. Ainda assim, não tenho duvidas, vale a pena ir. A atenção mais alerta para o que é novo, e as proporções desmesuradas que ganham todos os percalços quando se está longe de casa, aproximam-nos do tal viajante. Pode a transformação pessoal ser um objetivo demasiado ambicioso, mas há sempre lugar para o crescimento. Quanto ao filme, esse, continua com os personagens a explicar que o que caracteriza o viajante é que, ao contrário do turista, parte não sabendo quando regressa, ou mesmo se regressa. Pergunto-me se haverá assim tanta gente a abraçar esta ideia de viagem. É que eu não.


Viajar cá para dentro por André Serpa Soares

A grande viagem que temos de fazer é cá para dentro. Para dentro de nós. Não somos a casa em que vivemos, os restaurantes trendy em que comemos, o poder que conquistamos, os carros que conduzimos, as marcas que vestimos, os smartphones que utilizamos, as praias paradisíacas em que nos fotografamos e que depois partilhamos nas redes… Não somo nada disso. Ou somos muito mais, muito antes de tudo isso. A grande viagem que temos de fazer é ao que somos de facto, na essência, livres da materialidade e aparência de que nos vamos rodeando ao longo da vida. Não é preciso abandonarmos tudo. Como em qualquer outra viagem, é óptimo ir, mas muito mais importante é ter para onde regressar. E voltar.

Não é possível viajar e conhecer o mundo e os outros, sem nos conhecermos a nós próprios Mas também não é fácil conhecermo-nos a nós próprios sem viajar, sem sair da nossa zona de conforto, sem nos confrontarmos com o que é diverso. Para viajar, sobretudo para as viagens que mais importam, aquelas que nos confrontam e que nos ajudam a sabermos melhor quem realmente somos, é necessária a coragem da humildade, do despojamento. Quem não tem estas duas virtudes, a humildade e o despojamento, nunca viajou de verdade, nunca saiu de si, nunca viajará, nunca conhecerá o mundo para ganhar mundo. E, sem mundo, estamos condenados a conhecer apenas a nossa pequenez. O que é uma coisa muito triste.

Mas num exercício de abstração relativamente fácil, conseguimos viajar dentro de nós. É essencial conhecer as nossas paisagens intrínsecas, os horizontes que em nós encerramos, os mares que dentro de nós ondulam, os ventos que sopram, as gentes remotas que no nosso interior se cruzam. Porque só depois dessa viagem interior, dessa descoberta endógena, estamos prontos para todas as outras viagens, para ir ao encontro e descoberta do “outro”, sabendo quem é o “eu”. Infelizmente, muitas pessoas não conhecem este destino de viagem, o “eu”.

Não é fotogénico o suficiente para o Instagram. Não bronzeia nem tem festas nocturnas com cocktails exóticos e mulheres e homens lindos de morrer com os sorrisos mais brancos que há e a pele esticadinha que é uma maravilha.

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Ele não é vendido em pacotes “tudo incluído” nas agências de viagens.


Viagem ao começo de mim por Luiz Garcia

Quisera ter a memória paquidérmica de meu amigo Joaquim. Ele era capaz de lembrar, com pormenores irritantes, como aos quatro anos espremia pintinhos com os pés para saciar sua curiosidade no mínimo sádica. Mesmo tendo os fatos seguintes acontecido já em minha adolescência, faltam-me aqueles detalhes que dariam robustez e apelo à narrativa. O que me resta é a imaginação para dar tempero a essas memórias que, apesar de empalidecidas pelas décadas passadas, ainda carregam o impacto das experiências transformadoras de uma vida. Eu mal havia feito 12 anos quando meu pai desistiu do Brasil. Não que o País lhe tivesse sido ingrato. Ele até amealhara algumas economias desde sua juventude, mas, depois de uma viagem saudosa a Portugal passados 20 anos de seu êxodo, a ideia de retornar à pátria-mãe o seduziu. Nunca lhe sondei, eu já adulto, o que o motivara a voltar à terra de onde tão precocemente havia partido. Talvez, durante todos aqueles anos de desterro, tenha se sentido um alienígena incurável, incapaz de abraçar a nação que o hospedou. Quando surgiu a oportunidade, nos primeiros anos da década de 80, vendeu o que tinha e repatriou-se com a esposa e os quatro filhos brasileiros.

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Ainda hoje soa-me enigmática aquela decisão de retornar, uma vez que, meninote, ele justamente deixara as altas terras de Trás-os-Montes para fugir da rotina penosa da aldeia. Agora, voltava para aquele sertão agreste português contrariando os melhores argumentos, obediente a uma ideia irrefreável que só me ocorre chamar de saudade. Saudade da terra que, mesmo inóspita para um gurizote, era a terra que o trouxera ao mundo e nele imprimira tão entranhadamente a marca de ser português. Minha viagem para lá não tinha passagem de volta. Nosso pai nos levava para o Portugal profundo, rural e, depois descobriria, um Portugal enrijecedor. Mesmo morando fora de um grande centro, eu era um adolescente urbano, acostumado à vida de comodidades de uma cidade. Para onde nosso pai

nos degredaria havia uma natureza bruta, um cotidiano de trabalho muscular e uma dieta estranha ao paladar. Hoje reconheço que aqueles anos forjaram muito de minha têmpera, minha resiliência e minha fortaleza ante as contrariedades. Mas, à época, os serviços comezinhos da vida campesina pesavam-me. Tirar esterco das lojas, plantar batatas, regar as lavouras, ripar negrilhos, ir ao feno, colher batatas, fazer a vindima, cortar lenha, juntar castanhas e arrancar torgos. Sempre havia o que fazer. E se não houvesse, havia o vizinho que carecia de mais braços, pois ali vigorava uma ordem comunitária. Lembro-me especialmente do Polícia, de cujo apelido jamais soube a origem. Só me recordo de que não raramente eu era destacado para acompanhá-lo na lida no campo. Ele era um simpático às modernidades. Tinha uma geringonça barulhenta que lhe permitira abandonar a fatigante gadanha na ceifa do feno. Mas a máquina não era perfeita. Precisava de uma peça humana acessória que aliviasse o esforço da ceifadora quando acumulava feno em suas lâminas. E lá passava eu o dia a ser assistente de máquina, a reduzir-lhe o desgaste das peças. Ao final do dia, voltávamos nós três para a aldeia: Polícia asseava a máquina zelosamente, guardava-a na loja e depois me remunerava: oferecia-me alguns cêntimos de escudo, o suficiente para comprar um Sumol. O trabalho não era a única aspereza do lugar. Exposto ao frio cortante das montanhas portuguesas, meu corpo congelava, não calibrado que estava para temperaturas abaixo de zero. Para piorar, meu pai havia construído nossa casa à entrada do povoado, algo distante da rede elétrica que atendia a aldeia. Demoraram seis meses para que a fiação chegasse à casa. Até então, os banhos improvisados numa banheira no quarto de banho gélido eram um desafio à higiene. O único cômodo que oferecia conforto térmico era a cozinha, onde um fogão à lenha irradiava ondas de prazer em forma de calor. As manhãs eram críticas. Do caminho de casa até o ponto de ônibus, num vale onde as geadas cobriam os lameiros com um manto esplendorosamente branco,


meu cabelo umedecido se tornava um bloco rugoso de gelo. Na escola, em Bragança, as roupas não davam conta de aplacar o frio. Lembro que me agarrava aos aquecedores de água espalhados pelos corredores com uma volúpia quase sexual. O tempo ali se desdobrava ao ritmo dos humores das estações, livre do ditame tirânico dos relógios. Não importava a precisão dos minutos. Enquanto havia luz, havia labor a fazer. Quando o sol se indispunha e o frio lancinante se instalava, buscava-se o abrigo à lareira e cada um preenchia o ócio como lhe aprazia. Sob a pouca luz jorrada pela clarabóia da cozinha, minha avó fiava a própria lã, que depois usava para tricotar meias para os seus. Meu avô se divertia provocando o cão, quando não a própria companheira de dezenas de invernos. As casas erguidas sobre maciços de pedra denunciavam a ancestralidade da aldeia. Não fossem as reformas em algumas, um viajante do tempo teria dificuldade para se situar na cronologia dos séculos. Por merecer menos atenção de seus donos, os palheiros pareciam ainda mais antigos, com suas paredes expondo a nudez de pedras milenares. Sua função era guardar feno para os dias de chuva ou neve, quando as vacas e ovelhas permaneciam nas lojas. Mas, nas tardes entediantes, os miúdos entravam furtivamente para brincar, mais ainda porque a mera transgressão já era uma quebra da monotonia, uma injeção de adrenalina contra o tédio das horas. À noite, os frequentadores eram outros. Casais de amantes se escondiam ali para a emoção clandestina de instantes de prazer. Sob a discrição da forragem, era como se penetrassem um mundo paralelo, de livre gozo dos sentidos, alheio à língua ferina dos moralistas. Os encontros secretos, porém, logo deixavam de ser secretos, pois as paredes vetustas não guardavam segredo por muito tempo e, de boca em boca, toda a aldeia acabava por assuntar o caso.

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Antes que se perguntem, já vou dizendo que nunca usei os palheiros para tal finalidade. Não que não tenha sentido vontade. À época, vivia sob o império dos hormônios da adolescência e sensível às primeiras erupções do amor. Mas o coração escolhera mal. Se não bastasse a inexperiência no mister da sedução, a eleita não tinha olhos para mim. Era um amor que se realizava em minúsculas emoções e grandes devaneios. Um amor que se inflava com o próprio gás de sua frustração. Sem ser retribuído, sua recompensa era a capacidade de sentir-se grande mesmo assim, um amor capaz de bastar-se e sublimar-se no sentimento.

Um dia soube que voltaríamos a morar no Brasil. Meus pais justificaram que teríamos mais oportunidades de vida de volta ao país natal. Acho que concordei. Terminava a viagem de quatro anos ao coração português. Nesse tempo, eu espichara e adquirira um sotaque estranho aos brasileiros. Mas a maior mudança não eram essas coisas mais visíveis. Porque, diferente da maioria das viagens que serve para dar à fala um lustre de erudição e cultura, aquela viagem me redesenhara intimamente. Eu me tornara um jovem enrijecido pela lida, pelo frio e pelo amor incorrespondido. Da mesma forma que as facilidades do mundo moderno têm produzido pessoas pouco resilientes à dificuldade e à frustração - o que explica parcialmente a epidemia mundial de deprimidos, esse Portugal que conheci há 30 anos, rudimentar e simples, me ensinou a enxergar a vida com essa discreta bravura dos transmontanos, para quem viver é aceitar os rigores e os prazeres como a síntese natural e inescapável da existência. Deixei Portugal em 1986, mas Portugal nunca me deixaria. As lembranças desses anos passeiam em mim desde então. Quando os dias ficam amargos, lembro das agruras daquele tempo e me reteso para o desafio. Nos dias em que minha cama foi um palco de solidão, era o amor da puberdade que dançava lindamente em meus sonhos.


Viajar: regresso à plenitude de si por Paulo Duarte, sj

O meu pai levou-me ao aeródromo. Era um dia de Festival Aéreo. Muitas pessoas, da cidade e outras tantas de lugares por mim desconhecidos. Do tamanho de criança tudo era grande, imenso, deslumbrante. Os sons das avionetas, a agitação das pessoas, a emoção em aproximar-me daquela máquina que me levaria aos céus. O sonho de voar já me acompanhava há muito, apesar da tenra idade. Sempre quis ser como o Super-Homem e assim voar e ajudar os outros. Ainda no jardim infantil, tendo 4 ou 5 anos, a minha sala iria ter “Índios” como tema de carnaval, com os fatos feitos de jornais. Eu cheguei mascarado de Super-Homem, tal não era o fascínio. A Educadora lá me fez umas riscas. Mas eu estava de azul e vermelho, com capa. Fechava os olhos, elevava o braço ao alto e imaginava-me a levantar voo a caminho do infinito. Naquele dia, a capa tinha asas e o infinito foi uma belíssima viagem pela costa algarvia. Recordo o som dos motores e a emoção de ver lá longe as casas e o imenso mar de nova perspectiva. As viagens dão-nos outra perspectiva da vida, no regresso. Com mais ou menos impacto, não somos os mesmos. Algo novo acontece. O livro do Génesis começa com os mitos da criação. Também o da expulsão do paraíso, que não é mais do que a grande viagem do regresso do ser humano a si mesmo, à sua plenitude. Não é por acaso que de seguida são relatadas, além do mito do dilúvio com a viagem de Noé, as três outras grandes viagens dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob. Lidas, não tanto desde a historicidade, mas da profundidade da essência e da existência, cada viagem é um convite à beleza do caminho no encontro do divino presente no ser humano, sem cair em endeusamentos. Pena que se tenha carregado com moralismo muitas das histórias pois, tal como as

viagens, convidam a regressar à autenticidade de quem somos. Adam, ou seja, o ser humano, na dualidade de masculino e feminino, retirado e modelado da Adamah, terra, vive a pressa de ser como Deus. Acaba por comer o fruto da árvore do cumprido e do ainda não cumprido, apercebendo-se de seguida que está nu, frágil, vulnerável e com medo. Aí ecoa a primeira pergunta divina: “onde estás?” Para se encontrar, tem de sair. A saída torna-se oportunidade de descoberta. Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano é mistério. Tudo se torna aprendizagem no desvelar da misteriosa complexidade do ser humano. Libertar-se, sair das correntes do mau entendimento do divino, como o poder ou o controle, e perceber como a diversidade é caminho de compreensão e de amor. Onze anos depois do primeiro voo, entrei novamente num avião. Já tinha voltado a ser passageiro. Desta vez, começava a voar como tripulante. Seria um “super-homem” quase diariamente, nos muitos voos ao longo de três anos de comissário na PGA Portugália Airlines. Num dos voos, sobrevoávamos Madrid. Conseguia ver a mancha da cidade. “Vejo Madrid”, pensei. Anos mais tarde, já depois de ter mudado de Companhia, da aérea para a de Jesus, vivi em Madrid. Num dos primeiros dias chegado à cidade fui dar um passeio. “Vejo Madrid”, pensei. Fiquei parado com a frase, surgindo-me na memória a imagem daquele voo em que afinal comecei a ver Madrid. Ver, descobrir, entrar na essência das coisas é um aproximar que ajuda a mudar perspectivas. Entrar pelas ruas e ruelas de Madrid foi começar a conhecer a cidade de outra perspectiva. Entrar pelas histórias, acontecimentos, sonhos, frustrações, erros e ganhos, dons e pecados das pessoas é ganhar consciência da misteriosa complexidade do ser humano. Senhores passageiros, perdão, leitores, com maior ou menor turbulência, paragens, medos, surpresas, deslumbramentos, sintam-se sempre bem-vindos a bordo da viagem ao regresso da plenitude de si.

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9 anos. A idade com que voei pela primeira vez graças a um momento de sorte. O aeródromo de Portimão ofereceu uma viagem de avioneta a um aluno de cada sala das Escolas Primárias da cidade. Recordo perfeitamente a professora a enrolar os papelinhos em branco e um com “viagem” escrito, a colocá-los na caixa e dizer para tirarmos. Entre o frio na barriga e a explosão de alegria, “viagem” era desenrolada: ganhei.


Richard Zimler O português de Roslyn Heights, o americano da Foz do Douro por Pedro Martins

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Richard e o seu irmão falecido, Jerry, enquanto crianças - Cedida por Richard Zimler

Alguém na plateia perguntava a Richard Zimler quais eram os seus sonhos. “Os meus sonhos são muito banais: continuar a escrever, continuar casado com o Alexandre e ter boa saúde. Isso, e um bom peixinho grelhado”, respondeu com a sua típica espontaneidade. Os risos dos alunos presentes no auditório da Escola Secundária Miguel Torga não se fizeram esperar. Este português de Roslyn Heights e norte-americano da Foz do Douro dava uma “não-palestra”, como o próprio definiu, aos adolescentes da escola de Queluz. Muitos apenas o conheciam graças à obra analisada pela professora Maria Henrique, “O Último Cabalista de Lisboa” - a sua primeira obra literária, publicada em 1996.

embora admita, entre sorrisos, que “os seus olhos verdes ajudaram”. San Francisco também era uma cidade assolada pela SIDA. A epidemia ceifara a vida de diversas pessoas próximas, entre elas, Jerry, o irmão do meio do escritor. Queriam deixar a tristeza para trás e começar uma nova vida, “num lugar onde ninguém falasse da doença”. O convite para Quintanilha leccionar física no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) abriu as portas à sua vinda. A residência na Foz do Douro acabou por se alargar à Avenida de Roma, em Lisboa, quando o professor do ICBAS foi eleito deputado à Assembleia da República. “Hoje, passamos 4 a 5 dias por semana na capital”, afirma.

Richard havia chegado a Portugal seis anos antes. Entrara “pela Serra do Montesinho, em Trás-os-Montes”, como relembra Alexandre Quintanilha, seu companheiro há 40 anos e marido há nove. O casal chegou ao Porto no verão desse ano. Deixavam a Califórnia onde tinham vivido desde a década de 70. Na cidade de San Francisco fica o Café Flore, no qual Alexandre não conseguira resistir “ao sorriso aberto nem ao seu grande nariz”,

O físico não esconde as dificuldades dos dois primeiros anos. “Portugal era um país muito fechado. Várias vezes pensamos em voltar”, afirma. Richard ainda não vê o país como algo perfeito. “Ainda há corrupção, desigualdade e muita dificuldade em cumprir horários”, afirma. A demora dos portugueses em aceitar a igualdade entre casais hétero e homossexuais foi uma das suas maiores provações.


Zimler não esconde o preconceito inicialmente sofrido por ser americano. “Chegámos a Portugal no final da Guerra Fria. Culpavam-me por a política do governo norte-americano. Diziam que não existia uma cultura americana.”, relembra o nova-iorquino. “Cheguei a ser insultado por um aluno da Escola Superior de Jornalismo num exame oral”, acrescenta. Esse episódio representou uma excepção no seu curto período de docência na ESJ do Porto. Os estudantes de Teoria do Jornalismo e Teoria da Comunicação Social ficavam fascinados com este professor completamente diferente. “Ele falava um português muito enrolado, ainda com sotaque”, diz Vasco Ribeiro, actualmente docente na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) e aluno de Zimler de 1992 a 1994. “Muita da matéria ensinada por ele era desconhecida em Portugal. Isso inspirou-nos”, acrescenta. Esta pequena carreira viria a acabar em 2006, quando a direção da FLUP se recusou a dar-lhe licença sem vencimento. Ruth, a sua mãe e a única pessoa da sua família com quem

Richard e Ruth, a sua mãe - Cedida por Richard Zimler

ainda tinha proximidade, encontrava-se nos seus últimos meses de vida. “Eu quis cuidar dela e vi-me obrigado a deixar a universidade”. Quintanilha aponta a inveja dos colegas como um motivo para essa recusa. “Eles não gostavam de ver um professor com um mestrado em Stanford”. As tragédias também representam oportunidades. Richard aproveitou esse momento para se dedicar à escrita. “Sempre gostei de escrever, daí ter sido jornalista durante oito anos. Aquele era o momento certo”. A forma como magnetiza as pessoas à sua volta não passa despercebida. Num país conservador como Portugal, “a exuberância e as cores vivas das suas roupas poderiam ser mal recebidas”, afirma Manuel Alberto Valente, editor da Porto Editora e actual responsável pela edição das suas obras, “mas o público português adora o Richard”. A sua origem nova-iorquina ajuda a esta aceitação. “A extravagância num estrangeiro é vista com um certo charme” afirma o seu cônjuge. Um dos ímanes para o público é o seu amor por Portugal, país no qual se naturalizou em 2002. “Os portugueses gostam de criticar o seu país, mas adoram quando o elogiam”, afirma Maria da Piedade Ferreira, editora do nova-iorquino durante dez anos. A paixão por Portugal foi um gosto adquirido. “A simpatia das pessoas, a segurança e o sossego ajudaram-me a ficar. Além disso há bons cafés”, aponta entre risos.

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Mas Zimler admite que nunca sofreu homofobia na “Califórnia europeia”, ao contrário dos Estados Unidos. “Eu perdi muito amigos quando saí do armário. Cheguei a ser despedido da Chevron” relembra. O próprio pai, Robert, desmaiou quando o seu filho assumiu a sua homossexualidade. “Ele ficou mais calmo perto do fim da sua vida”, mas o escritor revela que “era um homem com poucas afinidades”.


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ELECTRIC ROAD TRIP por João Albuquerque Carreiras

Será possível dar a volta a Portugal em 9 dias apenas movido a energia eléctrica? Foi este o desafio que a Bica abraçou com o apoio da BMW Portugal. Ao volante de um BMW i3, saí de Lisboa em direcção a Paredes de Coura, onde presenciei um histórico concerto de Patti Smith. Daí a Valença, olhando Espanha desde a fortaleza e acompanhando o Minho, fronteira entre os dois países, até à sua foz, para depois descer em direcção ao Porto. Passagem em Aveiro e Figueira da Foz, fugindo às auto-estradas, até chegar a Coimbra e daí descer a costa oeste terminando uma etapa em Lisboa. Como era Agosto, a costa alentejana mereceu dois dias, passados por maravilhosas praias como Vale Figueiras ou Cordoama. No Algarve tentei fugir da confusão, entrando em Sagres e Lagos e logo seguindo para Faro. Depois Tavira, Cacela Velha e Vila Real de Santo António, de novo com Espanha à vista. Regresso a Lisboa pelo interior do Alentejo profundo, parando na bela e quente Mértola. Sim, foi possível, testando o serviço de carregamento BMW Charge Now, lançado ao público em Setembro, alternando carregamentos rápidos e lentos, até carregando durante a noite em parques de campismo. Para quem não sabe, existem várias formas de carregar a bateria de um carro, variando no tempo demorado para a carregar na totalidade: numa tomada normal (cerca de 12 horas) e nos pontos públicos com tomadas de carregamento semi-rápido (cerca de 8 horas) e rápido (45 minutos a 1 hora). Para os pontos públicos é necessário um cartão (usei o BMW Charge Now), sendo que os carregamentos rápidos são pagos. Para encontrar estes pontos recorri ao GPS do carro, mas também se pode usar a APP da MOBI.E. Etapa 1: Lisboa | Paredes de Coura A primeira etapa era logo das mais complicadas, cerca de 450 Km, apenas com paragens para carregamentos, na primeira vez que guiava um carro inteiramente eléctrico, e querendo chegar a Coura a horas do concerto de Patti Smith (prioridades importantes). Os primeiros quilómetros chegaram para perceber que era necessário encontrar um equilíbrio entre a vitalidade do carro, que facilmente ganhava velocidade, e o acréscimo de consumo à medida que essa velocidade aumentava. Nada melhor para cumprir o código da estrada e evitar multas por excesso de velocidade. Dada a distância a percorrer, decidi apontar para duas paragens para carregar e manter uma velocidade dentro do razoável. Afinal, numa distância assim seria sempre importante descansar um pouco a meio da viagem. A primeira paragem seria na Área de Serviço de Pombal, mas uma vez que o posto de carregamento estava ocupado arrisquei seguir até ao próximo ponto, a Área de Serviço da Mealhada. Primeira utilização do cartão BMW Charge Now e opção pelo carregamento rápido, o que permitiu uma pausa para descanso e para um café de uns 45 minutos que deixou a bateria a quase 90%.

Foram algumas horas, mais do que demoraria num carro de combustível fóssil, mas tendo tempo, um carro bem silencioso e boa música, foi agradável e permitiu chegar, dado o bom planeamento, a horas do desejado concerto.

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A distância a percorrer talvez permitisse ser feita sem mais paragens, mas a custo de baixar em demasia a velocidade média, por isso foi planeado mais um carregamento, com um pequeno desvio para a A7, e para a Área de Serviço de Famalicão, onde bastou uma paragem mais pequena para esticar as pernas, pois não era necessário mais do que um carregamento rápido para chegar tranquilamente ao destino final.


Etapa 2: Paredes de Coura | Valença | Vila Nova de Cerveira | Caminha | Foz do Minho | Moledo | Vila Praia de Âncora | Viana do Castelo | Santuário de Santa Luzia | Porto À chegada logo deixei o carro a carregar na casa onde me instalei e assim dormiu até ao dia seguinte, em que acordou com a bateria quase no máximo. Era dia de subir até ter Espanha à vista e seguir pela costa para Oeste até dobrar para Sul e terminar no Porto. Há alguns anos que não ia a Valença, mas a ideia que tinha dessa visita manteve-se, excepto a surpresa, que o não deveria ter sido dado que era Domingo, da cidade estar literalmente invadida por espanhóis. A solidez das muralhas e a arquitectura do centro amuralhado torna a cidade de uma beleza que nos faz parar no tempo, não foram a incontáveis lojas que vendem lençóis ao quilo, para delírio evidente dos visitantes do outro lado do rio. Seguindo para Oeste, na realidade Sudoeste, paragem para almoço de Vila Nova de Cerveira, na praça central bem enfeitada para alguma festa, onde a vertente artística da vila, que alberga uma importante Bienal, se mostrava em vários artistas pintando na praça. Acompanhando o rio, fronteira natural com Espanha, a paragem em Caminha, também ela invadida por hordas de “nuestros hermanos”, revelou uma procissão onde seguiam muitas pessoas nos belíssimos trajes típicos minhotos. Ali ao lado, a Foz do Minho fazia mudar a direcção para rumo ao Sul, com uma fria paragem na bela praia de Moledo, apenas para admirar a paisagem que o tempo não estava para praias. A próxima paragem seria Viana do Castelo, mas foram inevitáveis breves detenções em Vila Praia de Âncora e Afife, para ir admirando a costa Minhota. Como o planeamento da viagem pendeu mais para as questões logísticas do que turísticas, onde a ideia era ir deixando andar as coisas ao ritmo do momento, a visita ao centro de Viana teve de ser abortada, pois decorriam as festas da Sra. da Agonia e o trânsito infernal para entrar na cidade fazia prever a impossibilidade de estacionar o carro. A opção foi então pela vista e pala subida ao Santuário de Santa Luzia, onde a cidade e a costa desfilam aos nossos pés. Enquanto o sol de punha continuei para sul, até chegar ao Porto para um jantar bem tardio, com o carro a dormir sem carregamento, que foi deixado para a manhã seguinte num ponto rápido.

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1 Valença | 2 Caminha | 3 Caminha | 4 Caminha | 5 Vila Nova de Cerveira | 6 Vila Nova de Cerveira


Etapa 3: Porto| Aveiro | Gafanhas | Costa Nova | Praia de Mira | Quiaios | Murtinheira | Serra da Boa Viagem | Figueira da Foz | Coimbra O passeio matinal pela baixa do Porto mostrou uma cidade bem movimentada, apesar de ser Agosto, com muitos turistas a encherem as ruelas do centro histórico. Após uma rápida olhada para Gaia, desde a Ribeira e sobre o Douro, era tempo de fazer um carregamento rápido para seguir viagem. O ponto escolhido situava-se em Gaia, já a caminho da saída para sul, e mostrou um dos problemas que podem acontecer a quem precisa de carregamentos em ponto públicos nas grandes cidades. Muitos dos TVDE a operar são eléctricos ou híbridos e os seus condutores aproveitam tempos de descanso para carregar as viaturas. Assim, tive de esperar que um desses condutores carregasse o carro e fizesse uma pequena sesta, obrigando a uma pausa mais longa do que a esperada. Já com a bateria carregada, segui por autoestrada até à próxima paragem, Aveiro. Mais uma vez fui surpreendido no centro pela quantidade de turistas, enquanto deambulava junto aos canais e aproveitava para comer um inevitável doce de ovos moles. A partir daqui, a ideia era aproveitar para fazer o caminho até Coimbra fora das autoestradas e junto à costa, usufruindo da viagem. Assim, segui rumo às gafanhas, com paragem para relembrar as casas listadas da Costa Nova. A paisagem em direcção a sul mostra uma interessante coabitação de paisagem meio agrícola, meio costeira, com uma arquitectura no mínimo peculiar. Antes de chegar à praia de Mira, uma grande área queimada trouxe à memória a devastação anual deste país por fogos de dimensões descontroladas e de como a paisagem precisava de um outro ordenamento. Mas isso são questões que não cabem nesta crónica. Fui seguindo a costa até chegar a uma das minhas praias preferidas, a bela e (felizmente) pouco conhecida Murtinheira, onde se impunha uma paragem no bar da praia enquanto o sol se ia escondendo. Antes que a noite chegasse dirigi-me à Figueira, a minha praia “de vida”, pela estrada da Serra da Boa Viagem, por entre pinheiros, até descer para Buarcos com a baía a meus pés e muitas lembranças virem à memória. Não me detive muito na Figueira e segui em direcção a Coimbra para um jantar uma vez mais tardio, após o qual, para não arriscar filas pela manhã, logo carreguei a bateria num ponto rápido antes de dormir.

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1 Porto | 2 Porto | 3 Aveiro | 4 Costa Nova | 5 Nacional 109 | 6 Murtinheira


Etapa 4: Coimbra | Batalha | Alcobaça | Nazaré (Sitio e vila) | Praia do Salgado | São Martinho do Porto | Óbidos | Lisboa Aproveitando que o carro já estava preparado para seguir viagem, houve tempo para um passeio matinal por Coimbra, deambulando pelo centro histórico, Quebra-Costas, Sé Velha, pela magnífica Universidade. De novo muitos turistas, mostrando que, felizmente, não é só Lisboa o destino de quem nos visita. A etapa do centro iria me levar a lugares que faz tempo não visitava e que são, sem dúvida, dos nossos mais importantes monumentos, mas antes passagem por Fátima para breve passagem no Santuário. A partir daqui volto a sair das autoestradas e a optar pela condução em estrada até chegar à realmente espantosa igreja da Batalha e a maravilhar-me com esta pérola do gótico, onde o teto parece subir aos céus. Sorrio por ouvir falar espanhol em meu redor e na ironia de os ver apreciar tão simbólico monumento. Claro que depois da Batalha o destino seguinte era Alcobaça, mas, por azar de quem não planejou os detalhes turísticos, era feriado municipal e a visita ao mosteiro ficou-se por admirá-lo desde uma esplanada fronteira enquanto me deliciava com um doce de ovos local. Após o périplo pelo interior, era tempo de retomar a costa, pelo que segui destino à Nazaré, logo acolhido por placas dizendo “rooms, chambres, zimmer” ao lado de idosas sentadas em cadeiras de camping, começando pelo Sítio, onde por um milagre, dada a confusão de carros e gentes, consegui lugar para estacionar. A vista é belíssima sobre a vila, a praia e as praias seguintes até S. Martinho do Porto. Na descida à vila não paro, pois uma das mais populares praias do país estava, como seria de esperar em Agosto, lotada, e o tempo não permitia grandes delongas. Por estrada secundária sigo até São Martinho do Porto, com paragem na Praia do Salgado para olhar o mar que batia forte. Passagem na baía e a viagem segue para chegar ainda de dia a Óbidos. O sol quase se punha, mas ainda com a luz a fugir, tempo para um sempre bonito passeio por dentro das muralhas de Óbidos, por entre estrageiros que haviam tomado a pacata vila. A parte turística do dia estava a terminar e era tempo de rumar a Lisboa para merecido descanso e carregamento do carro. Apanhando mais uns TVDE na zona junto onde iria dormir, a custo encontrei um ponto público semi-rápido a walking distance, onde deixei o carro a dormir e carregar bateria enquanto eu fazia o mesmo.

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1 Coimbra | 2 Coimbra | 3 Fátima | 4 Batalha | 5 Nazaré | 6 Óbidos


Etapa 5: Lisboa | Arrábida | Setubal | Ferry | Troia |Comporta | Praia da Aberta Nova | Camping da Ilha do Pessegueiro | Vila Nova de Milfontes Com o carro devidamente carregado era tempo de atravessar o Tejo rumo ao Sul do país. Deixando para trás as praias da Caparica, a primeira paragem seria na Arrábida, essa belíssima serra virada ao mar de águas cristalinas, onde guiar é um prazer para disfrutar lentamente. Como o acesso às praias estava vedado ao trânsito automóvel, foi pela estrada sobre a encosta que me dirigi até Setúbal, ali onde o Sado se entrega ao mar. Também aqui chegou o turismo e foi a escutar francês e espanhol que ataquei um inevitável choco frito, bem perto da Avenida Luísa Todi. Entre a opção de fazer um desvio de mais de uma hora e apanhar o ferry até Tróia, optei pela segunda solução, apesar do preço obsceno para um trajecto de 20 minutos. Depois, foi começar a aproveitar a beleza e tranquilidade da estrada junto à costa, passando pela Comporta e uma necessária paragem para um mergulho refrescante na Aberta Nova. O ponto final para o dia seria o Camping da Ilha do Pessegueiro, aproveitando a possibilidade para carregar bateria. Assim, antes do sol se pôr segui rumo a Porto Covo e depois ao Parque de Campismo. Há muitos anos não acampava e temia pela montagem da tenda, mas no final tudo correu melhor que o esperado e com tudo montado pude seguir para Vila Nova de Milfontes e aproveitar o jantar com uma amiga. A vila estava bem concorrida e agradeci estar num carro eléctrico para poder estacionar bem no centro junto a um ponto de carregamento lento e assim carregar e resolver o problema de estacionamento. O jantar foi tão agradável que esqueci que o camping tinha hora de entrada para carros. O resultado foi que não deu para carregar durante a noite. O que poderia ser um grave problema não o foi tanto pois ao planejar a viagem deixei um dia em aberto para qualquer eventualidade. Assim, quando no dia seguinte era suposto rumar a Lagos, acabei por ter de alterar os planos.

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1 Arrábida | 2 Arrábida | 3 Ferry Setúbal – Tróia | 4 Setúbal | 5 Setúbal | 6 Parque de Campismo da Ilha do Pessegueiro


Etapa 6: Camping da Ilha do Pessegueiro | Cabo Sardão | Zambujeira do Mar | Praia do Vale Figueiras | Camping do Serrão Tendo que fazer uma etapa mais curta, decidi avançar lentamente pela costa e aproveitar para fazer algumas horas tranquilas de praia. A primeira paragem foi no Cabo Sardão, com o farol envolto numa belíssima paisagem. Lugar para parar e perceber como a natureza não se cansa de nos maravilhar. Ao lado um campo de futebol parece cenário de um filme indie. Usufruindo da paisagem segui até à Zambujeira do Mar, onde aproveitei o almoço para um carregamento lento, para o qual tive de literalmente atirar o carro para cima do passeio, pois dois engraçadinhos acharam por bem estacionar nos lugares de carregamento. Felizmente ninguém apareceu a reclamar do estranho estacionamento. O centro da vila estava calmo, com as pessoas a dividirem-se entre a sombra dos restaurantes e a praia. Era tempo de parar um pouco, apanhar sol e dar uns valentes mergulhos que o calor pedia. A praia escolhida foi a do Vale Figueiras, onde, juntando o útil ao agradável, poderia estar com outra amiga que já lá estava de papo para o ar. Realmente esta nossa costa do Alentejo é uma constante surpresa, praia após praia. Que beleza! O carro e eu precisávamos de descanso e o resto do dia foi mesmo de dolce fare niente. A verdade é que pelas imediações não havia nenhum carregamento rápido e a opção foi mesmo encurtar esta etapa e carregar durante a noite no Parque de Campismo do Serrão, desta vez sem enganos na hora de entrada para não facilitar.

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1 Cabo Sardão | 2 Cabo Sardão | 3 Cabo Sardão | 4 Pedralva | 5 Praia de Vale Figueiras | 6 Zambujeira do Mar


Etapa 7: Camping do Serrão | Sagres | Cabo de São Vicente | Fortaleza de Sagres | Praia da Cordoama| Lagos | Tavira | Faro Já descansado e de carro carregado, era com pena que teria de deixar esta costa e seguir rumo aos Algarves, mas se queria cumprir o objectivo assim teria de ser. Até ao fim da Europa, foi essa a próxima paragem, ali no Cabo de São Vicente, onde a Europa acaba e o mar começa. Nem os muitos turistas distraem da paisagem imponente, dessas formas rochosas que mostram o poder do mar como que esculpidas pela mão de um experiente artesão. Passagem na Fortaleza e almoço retemperador na vila de Sagres, com muita água para acalmar o calor intenso. Era preciso mais um mergulho e para isso volto um pouco atrás para a magnífica praia da Cordoama, onde me ponho um pouco de molho, aproveitando o mar calmo e a temperatura mais do que razoável. Mas hoje não era dia de descanso e lá segui para Lagos, onde me comecei a relembrar porque há anos não vinha ao Algarve em Agosto. Tinha uma ideia simpática do centro de Lagos, mas durante o passeio fui tentando perceber porquê, combatendo a ideia de que estava num horrendo lugar invadido por uma horda de gente. Consegui o distanciamento de perceber que realmente o lugar é interessante, só não podendo ser visitado nesta época. O plano seria ficar num parque de campismo perto de Tavira, destino previsto para o próximo dia, mas pela segunda vez me relembrei porque me recusava a vir ao Algarve em Agosto. O parque estava cheio, assim como outro nas proximidades e ainda outro onde arrisquei ir. No meio de tudo isto era noite e nada de lugar para dormir. Nas buscas pela net, a única alternativa na zona de Tavira seria um hotel ao simpático preço de 340 euros por noite. Achando que há melhores formas de gastar dinheiro e tendo a bateria ainda com alguma autonomia, avancei para um hostel em Faro onde ainda havia lugar e a um preço acessível. Era até boa ideia ficar por esta cidade onde tinha duas opções de carregamento rápido.

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1 Sagres | 2 Cordoama | 3 Cordoama | 4 Lagos | 5 Lagos | 6 Lagos


Etapa 8: Faro | Vila Real de Santo António | Castro Marim | Cacela Velha | Praia da Fábrica | Faro Após o pequeno almoço relembro que o centro de Faro é coisa bonita, com belíssimas igrejas, e tantas vezes injustamente esquecido quando se fala de Algarve. Prolongo um café numa bomba de gasolina junto a um posto de carregamento rápido onde dou a energia necessária ao carro para poder prosseguir viagem. Hoje queria ver de novo Espanha. A primeira paragem foi então bem de frente a Espanha, deambulando pala malha urbana pombalina de Vila Real de Santo António, réplica da Baixa de Lisboa. Mais um canto de Portugal atingido nesta viagem, onde ficou só a faltar Rio de Onor ou Miranda do Douro. Passando por Castro Marim, segui para Cacela Velha, uma pérola (não, não era uma piada relacionada com ostras) deste Algarve. A simplicidade e a vista fazem apetecer ficar por aqui, mas o calor ameaça de novo e ali bem do lado, junto à Fábrica, há uma praia, e mais uma amiga, a chamar por mim. Como a maré está baixa não preciso de barquinho para passar, com água pelos joelhos, a ria e chegar à praia, onde basta andar uns 100 metros para estar tranquilamente sem ninguém em cima de mim. Este Algarve já está a ficar demasiado conhecido, mas ainda é possível, em pleno Agosto, usufruir de uma belíssima praia no descanso de não ter ninguém sentado ao nosso colo. Com conselhos de um local, consigo jantar num lugar que nunca descobriria, com uma qualidade e um preço que me faz esquecer onde estou. Estupenda a salada de estopeta de atum. Para não complicar a coisa, volto a Faro para dormir no mesmo lugar.

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1 Cacela Velha | 2 Cacela Velha | 3 Castro Marim | 4 Vila Real de Santo António | 5 Faro | 6 Cacela Velha


Etapa 9: Faro | Tavira | Praia do Cabeço | Mértola | Aljustrel | Lisboa Novo carregamento rápido a acompanhar um café prolongado. É dia de regresso a casa e o trajecto não é o mais fácil, pois no caminho pelo interior do Alentejo apenas em Aljustrel há um carregamento rápido. Como os trajectos aqui no Algarve foram um pouco anárquicos, só hoje me dirijo a Tavira, talvez a mais bela cidade da região. Este é mesmo outro Algarve, onde a herança árabe persiste no branco omnipresente, sobrevivendo ao urbanismo desastroso dos anos 60 a 80 que destruiu boa parte da região. Uma delícia o passeio pelo centro, acompanhando o rio Séqua/Gilão, passando a ponte onde o mesmo muda de nome. Merecia mais tempo de passeio, mas a viagem ainda é longa e está planeado um mergulho na praia do Cabeço, para refrescar o corpo e prepará-lo para a travessia do Alentejo interior. Sigo em direcção a Vila Real de Santo António antes de virar para norte e seguir o rumo fora da rapidez das autoestradas, começando uma etapa onde a paisagem se torna irreversivelmente o actor principal. O meu meio sangue alentejano vem sempre à tona quando passo nesta região, há uma parte de mim que aqui pertence, a esta paisagem vasta, como que sem limites. Sigo bordejando o Parque Natural do Vale do Guadiana até arriscar um desvio para, no meio de um calor insano, esticar as pernas na bela Mértola. O branco, de novo o branco. Este é dia de paletas sólidas, o branco das povoações, o castanho dos prados secos e o verde dos sobreiros. A beleza pode ser tão simples. A viagem aproximava-se do fim, mas ainda faltava um último carregamento que, por ironia, quase corria mal. Até Lisboa só havia mais um ponto de carregamento rápido na bomba de gasolina de Aljustrel na A2. Ao começar o carregamento vejo que algo se passa e após ligar para a MobiE vejo confirmados os meus receios, a tomada de carregamento rápido está com problemas, mas pior é o meu problema de ter autonomia para 40 Km e estar em Aljustrel. Por sugestão da MobiE, que verificou que o ponto de carregamento do outro lado da autoestrada estava em funcionamento, peço na bomba para que me deixem passar pela estrada interna para o outro lado, pedido que felizemente é atendido e me poupa a dormir na bomba enquanto o carro é carregado em versão lentas. Claro que ainda tenho de esperar que uma “simpática” menina carregue o carro até 100% enquanto troca mensagens no telemóvel. Enfim, perco tempo mas consigo carregar e chegar a Lisboa a tempo de um tardio jantar, mais de 2.200 quilómetros depois. Sim, foi possível. E sim, Portugal é, sem ponta de nacionalismo, um país lindíssimo.

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1 Alentejo | 2 Mértola | 3 Mértola | 4 Mértola | 5 Tavira | 6 Tavira


Cicloturismo Humahuaca - Argentina por Therbio Felipe M. Cezar

Foi incrível a sensação de praticar cicloturismo por Humahuaca, na Província de Jujuy, no Noroeste da Argentina.

Nelas, é fácil sentir o cheiro de chipa (pão ázimo) sendo assada em uma grelha na calçada.

Aproveitando que estava a fazer cicloturismo desde Foz do Iguaçu, junto à Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, até as Grandes Salinas, em uma viagem de bicicleta por mais de 2.400km em 30 dias, Humahuaca era uma localidade que gostava muito de conhecer.

É um convite aos sentidos.

Pessoalmente, além das paisagens naturais, o que mais me movia era a possibilidade de encontrar os diferentes matizes culturais, capazes de causar grande impacto em meus horizontes. Subi pedalando a Ruta 9, desde Salta, em direção à linda província de Jujuy, no verão de 2006. É lindo perceber a paisagem mudar a cada metro. Imaginava, então, o quanto também seriam outras as características do povo e sua cultura. Humahuaca, uma grande surpresa Depois de desfrutar das localidades de San Salvador de Jujuy, Yala, Maimara, Tilcara, Huacalera e Uquía, percebi que, nesta direção, poderia chegar tranquilamente à Bolívia. Mas, havia logo à frente algo que mereceria toda minha atenção: a impressionante Quebrada de Humahuaca, um cânion gigantesco, imponente, que destaca o vale do Rio Grande. Este lugar é Patrimônio Mundial da UNESCO desde julho de 2003. Então, próxima parada: cicloturismo em Humahuaca!

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O cicloviajante encontrará a pequena Humahuaca localizada a 3.000m de altitude e distante, aproximadamente, 1.500 km de Buenos Aires. Esta histórica localidade do noroeste argentino é composta de vielas e ruas estreitas de terra ou pedra.

À época desta cicloviagem (2005/2006), minhas fotos ainda eram feitas em uma câmera Zenith usando rolo de filme. Portanto, isso me possibilitava ter mais tempo para admirar as gentes e seu modo de vida, antes de tentar capturar os instantâneos do cotidiano. Um lugar, muitos significados A palavra Humahuaca tem sua origem em uma das muitas culturas ancestrais originárias daquela região, os omaguacas. Porém, o significado do nome é “Rio Sagrado”, antigo símbolo daquilo que só muda para seguir sendo o mesmo, segundo os habitantes locais. Transitando pelas praças e vielas, se percebe nativos da etnia coya, realizando trocas uns com os outros e buscando vender algo de artesanato ou, simplesmente, visitando a cidade. Porém, é junto ao Cabildo que se encontra o ponto da aglomeração e de comércio informal. Humahuaca foi rota de grupamentos pré-incaicos e via de comércio entre o Rio de La Plata e Potosí, no sudoeste da Bolívia. Hoje, vive basicamente do turismo, e é um dos primeiros sítios cicloturísticos para quem chega ao país, através da Bolívia. Para todo lado que se observe, há uma forte presença andina nos rostos e na indumentária. Os lugareños, por sua vez, são muito hospitaleiros, sorriem com facilidade sem faltar com o respeito. Aliás, é bom alertar que se trata de um lugar turístico, mas nem por isto os habitantes deixam de ser educados. Portanto, quando o turista não quer comprar o que oferecem, respeitam e ainda se despedem com um sorriso.


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Monumento aos Heróis da Independência Antes mesmo de seguir pedalando, vale dar uma recorrida a pé pela cidade. Assim, se chega ao Monumento aos Heróis da Independência, erguido pelo artista Ernesto Soto Avendaño, na colina de Santa Bárbara. A imagem em destaque é a do chasqui (mensageiro) indígena Pedro Socompa, que leva a notícia da liberdade ao povo. As casas de adobe quadricentenárias estão por toda parte, algumas restauradas abrigando bares, cafés e hostels. À noite, há um espetáculo à parte quando lamparinas e lampiões, nas fachadas das casas, dão um toque sépia ao cenário. As pessoas, por sua vez, turistas ou não, estão às ruas, encantados pelo som de carnavalitos, com erke, charangoe bombo leguero, instrumentos da musicalidade folclórica regional. Crianças de todas as idades, então, se permitem cantar e brincar no mesmo espaço, sem riscos, com segurança. Muitos motivos para fazer cicloturismo em Humahuaca Realizar cicloturismo em Humahuaca é um convite para deixar a cidade em direção ao mais rural dos interiores regionais daquele noroeste argentino. Os caminhos que adentram a Quebrada singram por meio da ravina, deixando o cicloturista entre paredões e as trilhas que cruzam o Rio Grande inúmeras vezes. A vontade que toma conta do cicloturista é de não parar de pedalar, a fim de ver tudo o que seja possível contemplar. Na gastronomia, pratos à base de carne de lhama ensopada com ervilhas, humitas (tipo uma pamonha de milho) e cazuela de cordero com papas, são algumas das opções para todos os bolsos e paladares. Os dias se passaram em meio à interação com várias pessoas que buscavam, como nós, o melhor da cena jujeña. A energia cultural desta linda localidade faz crer que o turismo pode trazer benefícios plurais para a comunidade.

Fica o convite para conhecer este pedaço da Argentina pouco difundido, até mesmo, pelo próprio país. Humahuaca e a Província de Jujuy, excelente destino para cicloviagens.

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Mais que tudo, em nenhum momento, se sente insegurança, então, os cicloturistas são bem-vindos. Neste aspecto, o Brasil tem que aprender muito com os países-irmãos sul americanos.


Cristiana da Luz

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As mulheres vão à Índia!


por Luiz Garcia

Há gente que, movida por tensões interiores, busca a ajuda dos médicos do corpo ou da mente para resolver frustrações e vazios interiores, muitas vezes gatilhos para toda uma gama de sofrimentos e desequilíbrios emocionais. Para aplacar esse mal-estar, outros preferem o confessionário de um padre ou ainda acabam recorrendo ao consolo de homens de todo tipo de fé. Numa dessas crises disparadas pela ânsia de dar um sentido mais realizador à vida, Cristiana da Luz decidiu embarcar num avião, atravessar meio mundo e buscar respostas num país milenar e fantasticamente singular. Hoje com 44 anos, a professora de língua inglesa e especializada em formação em processos de coaching não só é uma visitante recorrente desse país exótico - para nossos padrões ocidentais - como é também uma anfitriã para brasileiras curiosas pela cultura ancestral da Índia. A chapecoense, hoje radicada na capital de Santa Catarina, desde 2012 leva grupos de mulheres para explorar destinos fascinantes e inspiradores desse país, instigadas pela possibilidade de encontrar na quebra de paradigmas e na visão de mundo hindu uma resposta para sua sede de autoconhecimento. Conversamos pelas redes sociais com Cristiana da Luz sobre os impulsos interiores que a levaram até a Índia, sobre a experiência das dezenas de mulheres a quem ela já apresentou esse intrigante país e, para encerrar, pedimos uma indicação dos melhores roteiros para quem deseja se aventurar numa viagem cheia de descobertas. Em que momento da sua vida surgiu o interesse pela Índia? Foi uma curiosidade ou uma necessidade de busca interior? Acredito que os grandes passos que damos na vida, aqueles que dão sentido à nossa existência, sempre nascem de uma busca interior. Busca essa em ampliar nossa compreensão sobre nossas escolhas em uma in-

terpretação mais profunda de quem somos. A Índia pulsou em mim em um momento que me desafiava a ir ao encontro com a mulher que eu havia me tornado até ali e principalmente com a que teria espaço para existir em um futuro próximo. Eu buscava olhar melhor para mim, queria entender melhor meu fluxo, minha natureza íntima. Queria ressignificar sentimentos como a mágoa e também potencializar minha energia feminina. Queria pisar em um país que, apesar da sua longa existência, mantinha suas raízes e continuava a surpreender visitantes do mundo. Queria me desafiar a estar no “caos organizado” como é também chamada a Índia e identificar em mim o que precisava ir para o lugar. Queria compreender o que sustentava aqueles sorrisos largos apesar da precariedade financeira. Queria interpretar o brilho dos olhos dos indianos ao se conectar com quem cruzasse meu caminho. Bem, eu até tinha vários “quereres” mas admito que mergulhei na ideia praticamente sem expectativas para que pudesse ser surpreendida por cada detalhe. E por fim: penso que o jeito “exótico” da Índia era uma externalização de tudo em que eu não me enquadrava no “padrão social”, o que gerava em mim uma sensação de liberdade. Quais foram as suas primeiras impressões? Impressões sensoriais. O movimento incessante de rostos que me olhavam, o cheiro de incenso que se misturava aos temperos, o som dos mantras que se destacavam em meio a tanta buzina e palavras soltas e a cor do céu encoberta pela poluição. Pisar na Índia é tocar um solo sagrado, porque na pele você sente a energia mesmo sem acreditar nela. Estar entre os indianos é se comunicar mais com o coração do que com o conteúdo das tuas questões. Também nasceu em mim a falta de compreensão, chegando até a não aceitar a quantidade de lixo, o que serviu para eu me auto questionar, buscando argumentos suficientes que me explicassem tudo aquilo que carregava na vida sem fazer sentido algum: relações tóxicas, bens materiais supérfluos, meu ego que preenchia parte das minhas preciosas horas diárias e muitos outros lixos de sentimentos e comportamentos insignificantes.

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Depois de descobrir novos caminhos de vida em contato com a tradição hindu, coach brasileira guia outras mulheres numa experiência de autoconhecimento pelos roteiros mais fascinantes do país de Mahatma Gandhi.


O que a fascinou nessa primeira experiência? O que ainda me fascina hoje e todas as demais vezes; a pureza. A Cristiana identificou imediatamente ali uma oportunidade de vida? Identifiquei minha busca pessoal na direção do equilíbrio, na direção do simples, e principalmente do espiritual. Assim, tomei a decisão de continuar me permitindo nessa evolução e oportunizar isso para mais mulheres; no entanto essas experiências se desenharam em viagens sabáticas com um roteiro escolhido a partir de minhas vivências e encontros. Há anos que a viagem da Índia é uma jornada com propósito, com um roteiro inteligente, acompanhado por mim e por uma guia local e juntas entregamos nosso melhor com sutileza e respeito ao processo individual de cada viajante. O que buscam as pessoas que você leva para a Índia? Qual é o perfil dos viajantes? Buscam um tempo para elas, buscam vivências que engrandeçam seu caminho e façam sentido; buscam pedir pouco e receber o necessário e, acima de tudo, buscam aprendizados que reflitam em suas vidas e na vida de quem amam. As expectativas delas se confirmam? Ou elas têm uma visão estereotipada ou fantasiosa da Índia? Cada uma no seu processo tem também uma visão única e individual. A grande maioria se apaixona e quer voltar, mas há também aquelas que retornam com mais perguntas do que quando foram. Sobre fantasiar, claro que isso também acontece e aí mais uma vez cabe a maturidade para traduzir a real Índia que se apresenta. Eu, particularmente, acredito que isso é o incrível nas viagens, as diversas percepções, os diferentes sentimentos que afloram ao olhar o mesmo cenário. A Índia é desaconselhável para algum tipo de pessoa?

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Acredito que todo país é aconselhável para todos, pois - ou vai potencializar o que já se acredita e espera, ou mexer com algo que não estamos preparados e aí vem a oportunidade de amadurecer, de transcender. Estar de frente com o que te gera desconforto é ter a oportunidade de visitar uma “parte tua” mal resolvida. Que traço cultural ou comportamento social dos indianos mais lhe causa estranheza mesmo depois de todas as viagens?

O desapego. Que roteiros são imperdíveis? Quais seriam os destinos Top 5? Ridhikesh é a capital espiritual da Índia! Foi lá que os Beatles ficaram por um bom tempo e escreveram alguns sucessos; lá também é o destino para quem busca meditação, ayurveda, ioga e paz! O melhor para aproveitar esse local é ficar em um ashram (hotéis espirituais) para viver a simplicidade da Índia, como mostram as cenas do filme “Comer, rezar e amar”, com a Julia Roberts. Ah, se você vai a Rishikesh vá de trem e entenderá o quão surreal é esse trajeto... O famoso “chai” sendo servido durante a viagem, meninos que passam vendendo livros usados nos vagões e as montanhas do Himalaia que te entregam uma vista reflexiva! Agra tem muito mais do que Taj, que é considerado o maior símbolo de amor do planeta. A viagem de ônibus de Dehli até lá é imperdível pelo que se vê no caminho! Jaipur, se conseguir vá para o Diwali (Festival de Luz), que acontece no final de outubro. Você pode celebrar o festival que marca o início desse novo ciclo em um palácio junto a uma família real! Lá também tem o caminho até o palácio real onde você chega sendo levado por um elefante... Tatuagem de henna, óleos, festas noturnas ...tudo com muita luz e velas que enfeitam e dão vida ao festival! Dehli é o caos organizado. Os templos antigos exigem que você, além de tirar o calçado, ainda passe por um córrego de água pra limpar sua energia. Tem castelos, mercados públicos para você comprar aquelas roupas bemmmm coloridas, gente sorrindo por todo lado, muita poluição que às vezes impede até os voos, um trânsito que merece ser estudado. Tem a velha Dehli pra te surpreender, baladas, macacos e muita coisa para prender teu olhar! Varanasi é um dos lugares mais questionadores que já pisei! Muitos corpos sendo levados em meio a multidão para a cremação na beira do Ganges (em macas, arrastados por bicicleta em folhas, sob os carros). Foi lá que Buda alcançou o Nirvana e suas cinzas foram jogadas no rio Ganges que passa por lá! Muita, mas muita fumaça das cremações que são milhares, o que faz com que você encontre restos de corpos ao fazer o passeio para ver o sol nascer. Rituais, flor de lótus, lojas incríveis e uma experiência única!


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África adentro [83]

POR HUGO MACEDO


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Amar é dar o que não temos por Regina de Azevedo Pinto

Jordânia, Campo de Zaatari, 14 de Julho de 2019 O calor veste o manto opulento da ubiquidade. É caprichoso. Uma jaula invisível que nos encarcera e nos faz almejar a todos os minutos uma sombra que se traduz num raro oásis. Destila-se paciência de forma a arrefecer o desespero. A resiliência ganha uma nova forma térmica, a aceitação. Campo de Zaatari, 80.000 pessoas, onde cerca de 60.000 são residentes, o maior campo de refugiados no Oriente Médio, o segundo maior do mundo, recebe os grandes fluxos de refugiados sírios. Mais de metade da população são crianças, representando desafios relacionados ao restabelecimento da educação interrompida abruptamente pela guerra. Uma em cada três crianças não frequenta a escola. Conseguimos entrar no campo, estávamos lá. As pessoas, a azáfama, as bicicletas, as lojas, o comércio, os salões de beleza, as padarias, os olhares, o pó, o odor, eram reais, tinham forma e cheiro, Zaatari é uma autêntica cidade, e nós estávamos lá. Fomos recebidos na casa de uma família síria que vive no campo desde 2013, um agregado familiar de 4 pessoas, duas crianças de 1 e 4 anos. A simplicidade, a vontade de agradar e a hospitalidade era uma constante perene. A casa era pequena, as divisórias eram lençóis, as paredes de zinco e a comodidade substituída por uma simpatia refastelada e alegria muito confortável.

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-“São 15h, ainda há electricidade!” - Diziam eles com ânimo na voz. Viraram a ventoinha para nós, queriam que nos livrássemos do calor que tínhamos agar-

rado ao corpo. Serviram-nos um copo de água de uma garrafa aberta à nossa frente. Ainda hoje volateia a dúvida sobre o terraço das minhas inquietudes se era para ter a confirmação de que a água era engarrafada. Aquelas observações supérfluas mas persistentes que ficam a pairar na cabeça à procura do seu espaço. De bicicleta foram buscar um sumo de laranja e umas bolachas, mostravam-me que estavam boas através de gestos. Sentei-me com a alma no chão, estava rasa com um balão por encher. Repentinamente mas de forma envergonhada primos, o cunhado e dois amigos começaram a espreitar de soslaio pela porta entrando rapidamente para a casa aperfeiçoando a roda de calor humano. Olhavam com curiosidade e atenção, queriam agradar e antecipar qualquer necessidade, e eu que só queria ficar ali a ouvir e a contemplar as suas narrativas. - “Cristiano Ronaldo “– Sussurraram eles enquanto esticavam os lábios. O futebol é indubitavelmente um elo agregador. Passaram-me o bebé para o colo. Chamava-se Sultan. Tinha apenas 1 ano de idade, nasceu em Zaatari. A irmã olhava envergonhada para todo este cenário com um olhar inquieto como se estivesse a ver um quadro que lhe causava alguma confusão. Escondia-se atrás da costas da mãe enquanto esta lhe dizia para se portar bem porque tinham visitas. O seu olhar era banhado pela inocência da idade acompanhado por uma dúvida persistente. -“Leva-o para Portugal, vai ter uma vida melhor!” - Disse a mãe enquanto esboçava um sorriso. Respondi-lhe mecanicamente que não podia emanando nas minhas palavras hesitação.


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Os pais riam-se da situação de constrangimento alheio, estavam contentes por nos receber. Quiserem logo tirar fotografias e trocar números de telemóvel, diziam-nos que quando saíssem do campo podíamo-nos encontrar. - “O mundo é pequeno, a guerra está quase a acabar! Agora não podemos voltar, Bashar al-Assad montou uma armadilha, disse que podíamos voltar e que estaríamos perdoados e que não seríamos perseguidos, que teríamos paz. Tive familiares que passaram a fronteira e nunca mais apareceram…mas tudo isto vai mudar um dia, temos fé!” Remeti-me a um silêncio mineral. A religião ajuda a morrer mas também a viver. Só me conseguia lembrar das palavras de Anna Arendt em a Banalidade do Mal, seriam as pessoas terrivelmente normais? Não por profunda convicção ideológica mas sim pela incapacidade de pensar através do ponto de vista de outra pessoa… não sei. Tentando mudar de assunto perguntei se queriam ir para a Europa, a resposta foi rápida: -“Fazer o quê? Não temos lá ninguém, aqui estamos bem e seguros! “ - Retorquiu com prontidão enquanto a esposa aquiescia com as sobrancelhas arqueadas. -“ Tranquei a minha casa e tenho aqui as chaves comigo, vê? Todos os dias ligo para lá, ninguém atende, a nossa casa está à nossa espera, vamos atravessar aquelas montanhas outra vez e vou abrir a porta de minha casa com a minha família, eu sou sírio!” – Respondeu-me com esperança em cada sílaba, mesmo que não tivesse tradutor conseguia perceber a sua intenção pela veemência e revolta das suas palavras. A língua é apenas a fórmula pela qual nos expressamos, os sentimos são perceptíveis à nossa intuição. -“Fugimos da guerra e da morte, há momentos na vida em que a única escolha que temos é a vida, é a única coisa que nos resta, tudo o resto fica para trás!” – Dizia-me ele de forma plácida sem eu ter perguntado nada. Eu limitava-me apenas a acenar com a cabeça.

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-“Termos conseguido chegar até aqui foi recuperar a liberdade e a segurança.” – Acrescentou. Segurança e esperança foi a palavra que mais se repetiu no decorrer da nossa conversa, como se fosse um sino de uma igreja sempre a dar horas a todos os minutos. Mostrou-me uma nova definição de raça, não na sua concepção biológica. A que eu tinha era muito insípida e morna, esta era estonteante! Mostrou-me de uma forma calma e singela, conformista mas não resignada o significado de perder casa mas nunca a sua identidade, de perder terra mas nunca o sentimento de pertença, de perder o seu país mas nunca a sua nacionalidade. Tinha raça! Todos os que superam a adversidade, a dor, a frustração, o preconceito, o caos andam fora do padrão,

são controlados por uma motivação inexplicável. A vida é um intervalo entre duas datas, mas a deles não, têm dois intervalos onde a resiliência venceu a contrariedade devido à grande capacidade de adaptabilidade. Pairava uma esperança empoleirada na brisa tíbia que corria da ventoinha, um silêncio tácito e construtivo. As crianças frequentavam escola, parte da família estava reunida, pois fugiram todos na mesma altura. Alguns familiares desapareceram. Sentiam-se seguros ali, têm electividade das 5h às 17h, têm água, recebem um rendimento mensal que lhes é atribuído conforme o número de filhos, estavam todos juntos, conseguiram fugir e isso era o mais importante. Dormiam à noite sem medo, juntos. Nestes momentos recebemos sempre mais do que damos. Perguntaram-me se iria voltar um dia, eu disse que sim, mesmo sabendo que a imprevisibilidade do futuro nos amarra a sentimentos que nos curvam perante as situações, o que poderia eu dizer? Somos a média das cinco pessoas mais próximas de nós e aquelas pessoas eram uma equação de humildade e de força indescritíveis. As viagens aproximam-nos de nós e das necessidades dos outros. Percebemos que esperar também é uma viagem, tal como ouvir, tiramos o pulso aos nossos sentimentos, começamos a decifra-los com mais clareza, a vida é vista com outra percepção, ficamos com um tato emocional mais apurado. Percebemos que todas as dores que nos invadem são didácticas, são dores que escorrem para a solidão, uma solidão criativa e libertadora com efeito lenitivo. Deixamos de ser meros repetidores de dados, começamos a mudar o algoritmo e percebemos que a verdadeira felicidade nasce no solo da generosidade. Fica sempre um pouco de perfume nas mãos de quem deu uma rosa. O mundo não está a mudar, ele sempre girou, a rotação da Terra nunca parou. O que não pode perder movimento é a solidariedade e a responsabilidade. Parafraseando Papa Francisco, a resposta ao desafio colocado pelas migrações contemporâneas pode-se resumir em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. É urgente demorarmo-nos na solidariedade, não sermos séquitos da globalização da indiferença, do estigma, do preconceito. É urgente olharmos para o lado, lermos os sinais do tempo, é o futuro de todos. “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”. Amar é dar o que não temos!


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Alterações climáticas: do plano à acção

O secretário-geral António Guterres abriu a Cimeira de Acção Climática da ONU 2019.A Cimeira foi convocada pelo secretário-geral e teve como objetivo encontrar novos caminhos e acções práticas para mudar a resposta global no combate às alterações climáticas, bem como aumentar a ambição e acelerar o cumprimento dos objetivos do Acordo de Paris.


UN Photo/Cia Pak

Há pouco mais de um ano, uma adolescente sueca começou a protestar sozinha em frente ao Parlamento do seu país. Ao faltar às aulas todas as sextas-feiras, a rapariga, então com 15 anos, pretendia chamar a atenção para a inércia dos líderes mundiais no combate às alterações climáticas. A esta adolescente juntaram-se muitos outros jovens em idade escolar, primeiro na Suécia, depois em vários países europeus, de seguida, um pouco por todo o mundo. A crescente exposição deste protesto nas redes sociais fez com que a indignação de Greta Thunberg saltasse fronteiras, tornando-se um movimento mundial que, de imediato, chamou à atenção dos líderes políticos. A “Greve pelo Clima” merece agora a maior atenção da imprensa, é viral nas redes sociais e espelho do descontentamento das gerações mais jovens, e não só, pela falta de ação climática daqueles que conduzem os destinos políticos de todos. Este inédito fenómeno global de mobilização em torno da emergência climática coincide com uma das grandes prioridades da agenda e da liderança do secretário-geral das Nações Unidas: o combate às alterações climáticas. Muito recentemente, António Guterres visitou a região da Pacífico, Moçambique e as Bahamas, algumas das áreas recentemente afetadas por episódios climáticos cada vez mais intensos e destruidores, tendo a oportunidade de ver os seus efeitos devastadores. Com efeito, a subida do nível das águas do mar, as secas cada vez mais prolongadas, o desaparecimento dos icebergs, a maior ocorrência de tempestades tropicais e de furacões, e o branqueamento dos corais são apenas alguns dos exemplos que, de acordo com a ciência, estão relacionados com as emissões de gases para a atmosfera e a forma como estas influenciam o clima. Com o objetivo de mobilizar os decisores mas também os empresários, as organizações internacionais, as organizações não-governamentais e todos as partes relevantes, o secretário-geral convocou a Cimeira de Ação Climática para que os Estados-membros apresentassem planos concretos para a redução de emissões de gazes

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por António Ferrari


para a atmosfera e para a adaptação a um novo paradigma económico que se baseará numa economia mais verde e mais respeitadora dos recursos existentes. Neste contexto, foi também dada uma especial atenção à juventude, tendo sido organizada uma Cimeira paralela que reuniu os principais ativistas e associações de jovens, e que serviu de fórum de discussão para as suas preocupações, anseios, planos de ação e formas de ativismo. Greta Thunberg foi, de facto, uma presença marcante na Cimeira de Ação Climática que contou também com a presença de chefes de Estado e de Governo, empresários, instituições financeiras e académicas, entre muitas outras partes interessadas. Desta Cimeira saíram muitas iniciativas que vão, seguramente, mudar a forma como o mundo irá doravante lidar com a questão das alterações climáticas, evidenciando o reconhecimento de que o ritmo da ação climática deve ser acelerado rapidamente.

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Mais de 70 países e grandes economias subnacionais, como a Califórnia, comprometeram-se a ser neutros na emissão de carbono até 2050. Portugal está entre eles. Do Paquistão à Guatemala, da Colômbia à Nigéria, da Nova Zelândia aos Barbados, muitos países prometeram plantar mais de 11 mil milhões de árvores. Adicionalmente, mais de 100 líderes empresariais anunciaram que vão realizar ações concretas para alinhar as suas práticas com as metas do Acordo de Paris e acelerar a transição da economia cinza para a verde. Houve ainda um grupo constituído por alguns dos maiores proprietários de ativos do mundo, responsável pela gestão de mais de 2 biliões de dólares, que prometeu também mudar as suas carteiras de ativos para investimentos neutros em carbono, até 2050. A esta iniciativa soma-se um recente apelo de um grupo de gestores de ativos, que representa quase metade do capital investido no mundo, cerca de 34 biliões de dólares, para que os líderes mundiais aumentem os preços do carbono e eliminem gradualmente os subsídios aos combustíveis fósseis e à energia do carvão em todo o mundo. Para além destes planos, houve ainda alguns países que fizeram saber, de forma muito assertiva, como irão impulsionar a ação climática. França, por exemplo, anunciou que não fará acordos comerciais com países que adotem políticas contrárias ao Acordo de Paris. Já o Reino Unido vai duplicar a sua contribuição geral para o financiamento internacional do clima e a China, um dos maiores emissores, garantiu que irá reduzir as emissões em mais de 12 mil milhões de toneladas anualmente. Por outro lado, a União Europeia irá dotar pelo menos 25% do seu próximo orçamento a atividades relacionadas ao clima e a Rússia irá ratificar o Acordo de Paris. Outro resultado prático desta cimeira foi o anúncio da criação da Plataforma de Investimento Climático

que pretende mobilizar 1 bilião de dólares para investimentos em energia limpa, até 2025, em 20 países menos desenvolvidos. O secretário-geral da ONU instou governos, empresas e pessoas de todas as regiões do planeta a unirem-se a estas iniciativas e prometeu continuar a lutar por maior ambição e ação, explicando que o sistema das Nações Unidas irá apoiar a implementação dos planos apresentados durante esta Cimeira, com um relatório inicial que será apresentado na COP25, que terá lugar em dezembro próximo, em Santiago do Chile. Na sua intervenção durante a sessão de encerramento da Cimeira de Ação Climática, António Guterres constatou que, com esta Cimeira, foi dado o primeiro passo para uma ação climática à escala global, mas sublinhou que há ainda “um longo caminho a percorrer”. Para que se consigam combater as alterações climáticas de forma efetiva serão necessários mais planos concretos, mais ambição de mais países e de mais empresas. Todos, sem exceção devem participar, todos, sem exceção têm um papel importante a desempenhar.


ALT I CE AR E N A & F I L , L I SB O N N OV EM B ER 4 –7, 2 0 1 9

G U O P I N G , HUAWE I BRA D S M I T H , M IC RO SO FT K AT H E RI N E M A H E R , WIK IP E D IA JA D E N S M I T H , JUST WAT E R H A N S V E S T BE RG , VE RIZO N M E L A N I E P E RK I NS , C ANVA

W L AD I M I R K L I TS CH KO / E LI E SEI D MA N , TI ND E R KOL IN DA G R ABAR - K I TAROVI C , P RE S I D E NT O F CROATI A DE V IN W E N I G , EBAY / M ARC RAIB ERT , BO S TO N DY NAM I CS K AT E BR AN DT , G O O G L E / ADA M D ’A N GELO , Q UO RA M AN I K G UP TA , UB ER / W E R N ER VO GEL S , AM AZO N GIL L IA N TAN S , B O O K IN G .CO M / K RI ST EN GA RC I A D U MO N T , M Z B ECK Y LY N CH , W W E / DAV I D EU N , SAM S UNG AL I CI A T I L L M AN , SA P / RO N A L D I N H O , TEQ BALL ROH IT P R A SA D , A M A ZO N A L EXA / N AN A AKU FO -A D D O , P RE S I D E NT O F G HANA P H IL SP E N C E R , M IC RO S O F T / CH RI S TI A N A F I GU ERES , M I S S I O N 2020 KR IST IN L E M K AU , J P M O RGA N C H A SE / DA N I EL GRI ED ER , TO M M Y HI LF I G E R F E R N AN D O M ACH AD O , B URG E R KI NG / A KO N , AKO I N A N D MA N Y MOR E S P EA KER S TO BE A N N O UN C E D

BOOK T I C K E TS NOW [97]

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SALVATO TELES DE MENEZES Preciso de medir a casa. Os quartos, um a um: comprimento, largura, pé-direito. Avaliar a superfície entregue à névoa e os seus pontos frágeis (janelas, portas e postigos). Conhecer melhor o brilho da cera delida ou a sombra que se oculta nas galerias de caruncho; e o pó, as manchas de humidade nos tectos, a serradura interior da madeira. Numa tarde assim, tão cheia de água, registar ainda o fino diapasão das goteiras, a pouca transparência lá de fora, cada vez mais turva: como absorve ela o murmúrio dos móveis? A fita métrica deve estar na gaveta superior direita da cómoda holandesa, onde sempre esteve; a chave, vejo-a daqui: chama de níquel vacilando na fechadura do último gavetão. Calcular com rigor o espaço em que posso mexer-me, a distância entre as coisas, o sítio certo das cadeiras. Andar altas horas através da casa: às escuras e sem tropeções. Carlos de Oliveira, Finisterra – Paisagem e povoamento

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Professor de Literatura Inglesa, Norte-americana e de Teoria da Literatura, Director Editorial de Livros Horizonte, consultor da Bertrand e da Quetzal Editores, fundador e Director de Programação do Festival de Cinema de Troia, tradutor de Mário Vargas Llosa, Fernando del Paso, William Shakespeare, Woody Allen, Vladimir Nabokov, Saul Bellow, Guillermo Cabrera Infante, entre outros, ex-Vice-Presidente e Presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e, porventura o epíteto de que mais se orgulha, amigo do genial escritor Carlos de Oliveira, Salvato Teles de Menezes é um conversador nato. Sentado no seu gabinete da Fundação D. Luís I de que é Presidente, conversou com a Bica sobre cinema e literatura, política cultural e a acção da Fundação D. Luís I no Concelho de Cascais, sobre o seu lado calvinista e o gosto pelos prazeres da existência.


Bruno Esteves

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por JoĂŁo Moreira


O Senhor Professor, um homem ligado ao cinema… Isso é mentira. Eu não sou um homem ligado ao cinema. Isso é uma ideia falsa. Para a qual o Senhor Professor contribuiu um bocadinho. Isso é verdade (risos). Mas corresponde a uma época da qual eu me quero esquecer. Estava equivocado em várias matérias e o entendimento que eu tinha do cinema já não é o mesmo que tenho hoje. É completamente diferente. Portanto, aquilo que pensava nessa altura, em termos institucionais, já não é o que penso hoje. A ideia que tinha sobre o que era necessário fazer, o que eu entendia que era necessário fazer, hoje estou convencido que estava equivocado. Não totalmente, mas estava equivocado. Portanto, foi uma experiência que até podia ter repetido, mas, se o fizesse, seria sempre com maus resultados. A minha primeira preocupação foi sempre a literatura e não o cinema. Agora, entendo é que o cinema tem uma relação muito estreita com a literatura e, depois, com a evolução tecnológica. Não há nenhuma arte que tenha uma relação mais directa com a evolução tecnológica do que o cinema. Por outro lado, o cinema tem uma estrutura narrativa que se aproxima da literatura, sem prejuízo das múltiplas contribuições de outras artes. No caso português essa ligação é quase umbilical?

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Sim, isso é muito evidente. Nem sempre da melhor maneira, porque há, naturalmente, que ter em conta a especificidade da linguagem cinematográfica. Num livro, nós podemos voltar atrás quando nos esquecemos de qualquer coisa; no cinema, quando estamos numa sala, a ver um filme, não podemos pedir ao projeccionista para parar e voltar atrás porque sentimos que nos escapou qualquer coisa importante. Hoje em dia, isso está um bocado ultrapassado com os novos meios de reprodução. Mas estamos a falar de cinema dentro de uma sala de escura. Por acaso, há dias, ouvi Martin Scorsese, que é, na minha opinião, o maior cineasta vivo, dizer que as nossas casas estão a aproximar-se cada vez mais de salas de cinema. É capaz de ter razão. O sonho do cinéfilo é poder estar sentado numa sala de cinema, sozinho, a fumar um charuto, muito provavelmente, e a assistir ao filme. Regressando à questão inicial, a minha aproximação ao cinema fez-se por via da literatura e por uma memória da minha infância noroestina. De vez em quando, apareciam na minha aldeia umas pessoas enviadas pelo governo do tempo, o do Dr. Salazar, que iam projectar uns filmes nas paredes brancas da escola: foi a primeira vez que vi cinema. A segunda vez foi quando um irmão mais velho me levou à sede do concelho, Vila Nova de Cerveira, com o único e exclusivo fito de irmos ver um filme, na época natalícia, passado no Salão dos Bombeiros, chamado, salvo o erro, A Vida de Cristo. Nesse filme, há um momento em que um soldado romano atinge Cristo com uma

lança, com Cristo já crucificado, e dá-se um tremor de terra brutal e os romanos caem todos pelos buracos que se vão abrindo e os judeus ficam a levitar. Achei aquilo uma coisa extraordinária e pensei: como é possível que haja uns tipos que morrem em buracos que se abrem sem ninguém perceber porquê e outros ficam a pairar? É a chamada justiça poética cinematográfica. Certamente com um toque de religiosidade que também convinha à época. Mas a verdade é que achei aquilo notável. Devia ter para aí uns nove anos e depois fui vendo filmes, uns a seguir aos outros. Achei muita graça. Era mais fácil ver filmes do que estar a ler, gastava menos tempo (risos). Isso é um desincentivo à leitura (risos)... Não, porque eu estimulo a leitura. Considero que não há nenhuma experiência tão extraordinária como a da leitura. E essa ideia de que os livros poderão acabar é perfeitamente idiota. Em Portugal é que essa ideia pode ocorrer, porque quando entramos nas livrarias, costumamos andar por lá bastante sozinhos. Mas se formos, por exemplo, a Londres ou Nova Iorque as livrarias estão sempre cheias de pessoas. Há muita gente que gosta de ler livros e isso é muito importante. Aqui, em Cascais, até recuperámos um projecto que, para mim, foi muito importante, a Biblioteca Itinerante. Aliás, como se sabe, a primeira começou em Braga, ideia de Victor Sá: foi ele que iniciou essa coisa das bibliotecas itinerantes, depois Branquinho da Fonseca trouxe o projecto para Cascais, atraindo a atenção do Dr. Azeredo Perdigão, à época Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, que o convidou para o desenvolver a nível nacional. Foi essencial para mim, na minha juventude. O meu pai era professor, havia livros na nossa casa, é claro, mas ele não gostava muito de romances, talvez tivesse aquela ideia que ainda persistiu durante algum tempo de que o romance era uma coisa negativa para a formação dos jovens, que podia induzir em comportamentos... Menos próprios. Exactamente. Comportamentos menos próprios para a idade. Por isso consegui ler os grandes romances por ter existido essa biblioteca itinerante que ia à minha aldeia durante as férias grandes liceais. Foi assim que li os grandes escritores norte-americanos traduzidos, os grandes escritores portugueses e os grandes escritores franceses e russos. Foi uma experiência particularmente enriquecedora e essa lembrança levou-me a pensar que talvez não fosse mau recuperarmos a Biblioteca Itinerante em Cascais, ainda para mais tendo uma ligação tão directa com Branquinho da Fonseca. Como tem sido a aceitação? EExtraordinária. No verão vamos às praias e durante o resto do ano vamos a zonas onde existem associações culturais, a parques, a jardins. Tem sido muito gratificante e com resultados extremamente positivos. Foi, aliás, com grande satisfação que ouvi a Ministra da


Cultura dizer que gostaria de recuperar esta ideia e que iria propor ou que teria já proposto à Fundação Calouste Gulbenkian retomar as bibliotecas itinerantes.

so próprio, com base num espaço geográfico concreto, a Gândara, que é uma espécie de Yoknapatawpha County faulkneriano. É um caso único..

De modo que tudo isto foi importante para a minha formação.

E um bocadinho injustiçado.

A literatura americana é a sua paixão. Sim, gosto muito de literatura americana e de literatura portuguesa de uma determinada época. Mas, em relação à literatura americana, durante muito tempo, não passava de uma imitação da literatura inglesa. James Fenimore Cooper é uma espécie de Walter Scott que, no entanto, teve, juntamente com Brockden Brown, entre outros, um papel importante na afirmação da identidade americana. A literatura teve um papel central na criação dessa identidade. A partir do momento em que se liberta da síndrome colonial, começa a desenvolver-se, até chegar aos dois grandes génios da literatura americana, pelo século XIX, que são Nathaniel Hawthorne e Herman Melville. Então, com Melville, o salto é brutal, é um salto em frente extraordinário. Embora Melville seja um discípulo de Hawthorne, enquanto Hawthorne é um escritor, até pela delicadeza dos seus temas e do seu estilo, que se poderia dizer medieval, Melville é um escritor barroco. De grande, de enormíssima importância. Eu costumava dizer nas minhas aulas de literatura que há três livros que é absolutamente indispensável ler e que os meus alunos, obrigatoriamente, tinham de ler. Um é a Bíblia, outro é Guerra e Paz e outro, Moby Dick. A partir daí já podemos falar sobre muito mais coisas, mas estes três livros são absolutamente fundamentais. Mas é claro que a literatura americana não fica por aí, vem Mark Twain, um escritor prodigioso que é preciso reavaliar, e Jack London, que é outro grande escritor. Depois vêm alguns escritores dos anos 20 e 30 do século passado, dignos de particular atenção: para mim, o mais importante de todos é Dashiell Hammett, não porque escreva romances policiais, porque poderia escrever outra coisa qualquer, mas porque é um estilista de altíssimo nível. E depois vêm todos os outros grandes escritores: Steinbeck, Hemingway, Faulkner ou mesmo Kerouac. Relativamente à literatura portuguesa, gosto daqueles escritores que têm um grande conhecimento dos grandes autores americanos dos anos 30, 40 e 50. É o caso de Carlos de Oliveira e José Cardoso Pires. Aliás, tive a felicidade de ser amigo dos dois e, durante um período da minha vida em que vivi na zona do Saldanha, todos os dias tomava café no Toni dos Bifes com Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Augusto Abelaira, Nuno Judice, Gastão Cruz e outros: julgo que todos íamos lá para prestar homenagem a Carlos de Oliveira, que é, para mim, o maior escritor português dos últimos cem anos. É um escritor prodigioso, de grande depuração, que criou um univer-

Sim, hoje em dia não se lhe presta a atenção que ele merece. Como acontece, aliás, a outros. A Fundação D. Luís I tem desempenhado um papel muito relevante na área da literatura, nomeadamente através do projecto das residências literárias, convidando autores muito relevantes a nível mundial, para virem escrever durante dois meses para Cascais. Sim. Convidámos Olivier Rolin, que esteve na Cidadela em Agosto do ano passado, onde escreveu uma boa parte do romance agora publicado, “Peregrinação”, que é finalista do prémio Goncourt. Aliás, nos agradecimentos pode ler-se, «por fim quero agradecer a fundação D. Luís I que me convidou a fazer uma residência em Cascais, durante a qual escrevi uma grande parte deste livro», portanto, a ideia funcionou. Depois, esteve Michael Cunningham e agora temos cá Jonathan Coe. Não fazem a coisa por menos (risos). NNão são nada maus, de facto (risos). O papel da nossa vogal do Conselho Directivo, Filipa Melo, tem sido fundamental, porque é ela que tem a responsabilidade de acompanhar este processo e é com ela que discutimos os escritores que devem ser convidados. A seguir virão Javier Cercas e o vencedor do Prémio Camões, o cabo-verdiano Germano de Almeida. Como vê, tudo se encadeia. No âmbito da literatura, também criámos, em conjunto com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a Cátedra Cascais Interartes, na qual atribuímos uma bolsa de cinco mil euros a quem estudar os escritores que viveram ou que têm uma relação com Cascais. Não é obrigatório que tenham cá vivido ou que tenham cá nascido, mas que tenham uma relação com Cascais, e há alguns importantes: o Almeida Garrett, o Herberto Helder, o Mircea Eliade, a Maria Amália Vaz de Carvalho, o Fernando Pessoa, o Ramalho Ortigão, o José da Cunha Brochado, um que aprecio muito, o Rubén A., o Branquinho da Fonseca e o próprio Eça de Queirós, que passava cá grandes temporadas. Quando é que o Salvato Teles de Menezes decidiu vir para Cascais? Acabei por vir para Cascais há 24 anos, a convite de um amigo, e foi a melhor coisa que fiz. Não está arrependido, portanto? Foi a melhor decisão que tomei. Quando a Fundação D. Luís I foi criada, tínhamos um instrumento, mas não tínhamos uma estratégia nem o espaço de intervenção adequado para esse instrumento funcionar. A Fundação actuava aqui, ali, acolá, conforme era necessário e, sobretudo, no Centro Cultural de Cascais. Com a chegada de Carlos Carreiras à Presidência da Câmara, isso mudou. A ele

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Depois, lá andei a dar umas aulas de Literatura Inglesa e Americana e de Teoria de Literatura, até acabar por chegar aqui.


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No que às artes performativas diz respeito, irão para o Monte Estoril, onde se iniciou a recuperação do Edifício Cruzeiro, obra da responsabilidade do Arquitecto Miguel Arruda, onde ficarão instalados o TEC, Teatro Experimental de Cascais e a sua Escola de Teatro, a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras, a OCCO, além de uma biblioteca especializada em cinema e teatro e um auditório com capacidade para 400 lugares. Portanto, o Edifício Cruzeiro, será uma Academia das Artes, um cluster dedicado às artes performativas. Também se vão iniciar as obras na Casa Reynaldo dos Santos e Irene Quilhó dos Santos, na Parede, onde, sob a tutela da Professora Maria de Sousa, uma investigadora portuguesa do Porto, que trabalhou nos Estados Unidos durante muito tempo e há cerca de 30 anos fez uma descoberta notável que permitiu um grande desenvolvimento no tratamento do cancro, instalaremos um centro de estudos das relações que é possível estabelecer entre arte, cultura e ciência. Na casa está já todo o acervo que o Professor Reynaldo dos Santos doou à Câmara Municipal de Cascais, a que se somará o acervo pessoal da Professora Maria de Sousa. Estamos, igualmente, a negociar a vinda do acervo de Bartolomeu dos Santos, que é neto do Professor Reynaldo dos Santos, para depois, a partir desse núcleo, desenvolvermos esse centro de investigação das relações entre cultura, arte e ciência. Esses projectos coincidem com a reabilitação de espaços que estavam... …não digo devolutos, mas pelo menos desaproveitados. A Casa Reynaldo dos Santos, por exemplo, estava a precisar de uma intervenção de pouca monta, mas o Edifício Cruzeiro que, pouca gente saberá, foi o primeiro centro comercial do país, estava completamente degradado e devoluto. No entanto, tão importante como a reabilitação é a ocupação e dinamização desses espaços. Nós não queremos ter museus onde as pessoas vão só de vez em quando, queremos ter espaços que tenham vida própria, em que haja actividade constante, e isso implica outra visão. É nesse caminho que estamos a evoluir e, de facto, e não digo isto por nenhuma razão de simpatia, mas porque gosto de reconhecer o trabalho das pessoas, deve reconhecer-se o papel importantíssimo do Presidente Carlos Carreiras, porque, de facto, tem uma visão estratégica para Cascais. Os políticos, normalmente, são tácticos e há muito bons tácticos, trabalhei com alguns, não vou dizer quem, porque podem ficar ofendi-

dos, porque julgam todos que têm uma grande visão estratégica, mas não têm. Aqui, há essa visão estratégica e depois há os passos tácticos necessários para conseguir atingir o grande desígnio. É preciso perceber que a cultura pode ter um papel importante do ponto de vista do desenvolvimento económico e social. Embora ainda persista a ideia de que a Cultura é um sorvedouro de dinheiro sem contrapartidas. Sim, há isso. Na generalidade pensam isso. Não percebem que com a cultura se pode ganhar muito dinheiro. Aquilo que nós, em Cascais, estamos a tentar fazer, no fundo, é perceber as linhas de força que se vão afirmando em termos da cultura e da arte contemporâneas, sem deixar de considerar a importância da tradição. Procuramos olhar para a cultura tendo em consideração as experiências do passado, com a consciência da evolução constante que hoje a vida imprime a tudo, não só à cultura. O facto de Cascais ter uma tradição cultural reconhecida contribuiu o desenvolvimento deste plano estratégico de que fala? E já agora, considera a estabilidade política a nível autárquico essencial para a implementação dessa visão estratégica? Isso é muito importante. Cascais é um sítio especial, não há dúvidas sobre isso. E teve a sorte de ter pessoas que contribuíram muito para se criar aqui uma percepção diferente da importância da cultura. Desde que teve como vereador da cultura o escritor José Jorge Letria, sofreu uma alteração no modo como as pessoas passaram a encarar esse fenómeno. Isso foi muito importante, porque se iniciou um trabalho cuja continuidade nunca foi posta em causa por nenhum dos presidentes que houve até agora.. O que é raro. Raríssimo. Criou-se um espírito que favoreceu um entendimento diferente do que é a cultura e isso é importante. Nomeadamente, a noção de que a cultura contribui para aquilo que é a ambição principal, creio eu, de qualquer presidente de câmara - a qualidade de vida dos seus munícipes. E o actual presidente tem consciência, como os anteriores, de certa maneira, tiveram, de que a cultura desempenha um papel fundamental na garantia dessa qualidade. Sendo que, como disse, o Presidente Carlos Carreiras percebeu que, para além do que já tinha sido feito, era necessário dar um salto em frente, quer em termos quantitativos quer em termos qualitativos e que, para isso ser bem-sucedido, era importante reorganizar e disponibilizar meios para que se pudessem efectivar essas alterações. Foi o que aconteceu. Por exemplo, quem teve a ideia do Bairro dos Museus não fui eu, foi o Presidente da Câmara. Eu e os meus colegas do Conselho Directivo sempre achámos, efetivamente, que seria muito mais interessante podermos actuar em rede, ou como se diz hoje, aproveitando as sinergias, essa palavra tão bonita (risos), mas quem teve a ideia, foi o Presidente Carlos Carreiras.

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se deve toda esta presença da Fundação D. Luís I na vida cultural e artística de Cascais. Hoje em dia, a Fundação D. Luís I gere, sob o ponto de vista programático, o Bairro dos Museus, que inclui todos os equipamentos culturais que estão nesta área geográfica: a Casa das Histórias Paula Rego, o Museu Condes de Castro Guimarães, a Casa de Santa Maria, o Museu do Mar, no fundo, equipamentos direccionados para as artes plásticas, embora nele desenvolvamos diversas outras actividades: ciclos de cinema, leitura de poemas, congressos de música, etc.


O nome Bairro, surgiu pela tradição da designação que existe na vila? Também, mas surgiu, sobretudo, porque era mais fácil de apresentar internacionalmente. Museum Quarter funciona muito bem e nós, é preciso que se diga, temos, cada vez mais, essa preocupação de atracção do público internacional. Temos isso como um objectivo claro. Curiosamente, apresentámos, porque fomos convidados a isso, uma candidatura a Destination of Sustainable Cultural Tourism Awards 2019 e vencemos a categoria de Heritage Interpretation, o que nos deixou muito satisfeitos. O turismo cultural, em Cascais, desempenha um papel fundamental em termos económicos. É importantíssimo para a nossa economia, daí esse desígnio, não só de atrairmos turistas, como de estar presentes no estrangeiro, e temo-lo feito de múltiplas maneiras, sobretudo através dos acervos Casa de Histórias Paula Rego e da Fundação D. Luís I. Por exemplo, as obras que temos no acervo da Casa de Histórias Paula Rego, quer as obras que estão em depósito cedidas pela pintora, quer as obras que fazem parte da doação que, no contrato inicial feito com a pintora, passaram a ser propriedade da Câmara Municipal de Cascais, têm sido por nós emprestadas a inúmeros grandes museus internacionais. Isso desperta, não só a curiosidade, como permite desenvolver contactos essenciais em todo o mundo que nos dão a garantia de que estamos a caminhar no bom sentido. Com passos seguros, mas não lentos.

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A falta de meios financeiros para o sector, de que os agentes culturais regularmente se queixam, é o principal entrave à dinâmica cultural do país? Não me parece que a falta de dinheiro seja o motivo principal. No sector cultural, uma coisa que não há em Portugal, em quase lugar nenhum, é organização. Os portugueses não gostam de ponderar, gostam de improvisar. Só que as melhores improvisações são fruto da ponderação, para serem boas dão um trabalhão, portanto, é preciso organização. E a organização passa por ter as pessoas certas nos sítios certos, passa por ter uma equilibrada distribuição dos meios e, naturalmente, passa por definir critérios de avaliação da capacidade de execução dos programas que forem aprovados. Eu acho que se faz tudo ao contrário. Não há, de facto, essa vontade de organizar. Por isso é que sou calvinista, em boa verdade. É porque os católicos, que eu respeito muito, acreditam que vão ter o pagamento no Céu, enquanto os calvinistas, como têm um Deus muito cruel e ainda por cima acreditam na predestinação, acham que o pagamento é na Terra. Por isso é que aquele livro de Nathaniel Hawthorne chamado Letra Escarlate é tão bom, é porque trata destes dilemas morais e estes dilemas morais são importantes para se poder alcançar aquilo que, julgo eu, se veio cá ao mundo fazer, que é melhorar as coisas de alguma ma-

neira, não é? De facto, há muitas maneiras de melhorar as coisas, mas é preciso ser-se capaz de as organizar devidamente. Além dos já enunciados, quais são os futuros projectos da Fundação D. Luís I para Cascais? NNo âmbito da música, vamos realizar, com a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras (OCCO), uma residência musical muito especial. Convidámos a grande compositora búlgara Dobrinka Tabakova, que em 2017 foi nomeada compositora residente da BBC Concert Orchestra e que ganhou um Grammy com o seu álbum de estreia, String Paths, gravado pela EMC Records, para vir a Cascais, onde realizará um concerto com a OCCO, com obras suas, um recital de música de câmara, com solistas da OCCO, uma conferência sobre composição sob o tema Modality in Music, culminando com uma grande performance, em 2021, de uma peça que ela está a escrever de propósito para a BBC, para a Orquestra Sinfónica de Estocolmo e para nós, que contará com uma parte dedicada a Inglaterra, uma à Suécia e uma a Portugal, e que deverá ser interpretada aqui, em Cascais, por Hugo Ticciati. Um projecto bastante ambicioso que terá uma importância muito grande para nós. Finalmente, na primeira semana de Julho de 2021, ao longo de cinco dias, o Centro de Congressos do Estoril vai acolher a 49.ª edição de Medieval and Renaissance International Music Conference – MedRen Cascais 2021 – organizada pelo CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Universidade Nova de Lisboa) em parceria connosco, que é o mais importante evento científico mundial da área da Música e da Musicologia da Idade Média e do Renascimento. Cascais em grande, nos próximos tempos. Sim, mas, como lhe disse, para chegar aqui é preciso estratégia e organização. Carlos de Oliveira, sempre ele, escreve o seguinte, num dos mais belos momentos de um livro chamado Aprendiz de Feiticeiro: «Suspiro, lembrem-se de que estou diante das estrelas, afinal referi-me apenas à conjuntura exterior do processo, digamos assim, mas o que ele exige antes de mais, deixemos de lérias, é um alicerce de uma personalidade diferenciada, o talento que modela a névoa interior, sílaba a sílaba, até lhe dar um rosto próprio, sem isso nada feito. Não há processo que me valha.” Portanto, é preciso organização e depois pessoas talentosas, como temos em Cascais, para executar os projectos que derivarem da tal ponderação que deve ser feita. “And there is a Catskill eagle in some souls that can alike dive down into the blackest gorges, and soar out of them again and become invisible in the sunny spaces. And even if he for ever flies within the gorge, that gorge is in the mountains; so that even in his lowest swoop the mountain eagle is still higher than other birds upon the plain, even though they soar.” Herman Melville, Moby Dick


Rua da Palma, 246, 1100-394 Lisboa

Segunda a sábado, das 10h às 19h, encerra aos feriados +351 218 844 060

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Entrada gratuita | Catálogo disponível para venda


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Introdução à História da Cerâmica Percurso do azulejo de fachada de Aveiro por Patrícia Sarrico

“No barro de Aveiro, dos barreiros que ofereceram aqui, e aqui oferecem, por toda a parte, a céu-aberto, a matéria mesquinha que se transforma e se transcende, afeiçoada pela arte, ungida pela fé e purificada pelo fogo, no céu dos Aveirenses. É de barro, em Aveiro, a corte do Céu...” David Cristo

O desenvolvimento da cidade esteve, desde sempre, ligado às actividades económicas, principalmente às directamente relacionadas com o elemento água, seja no comércio naval, nas actividades piscatória ou na produção de sal. O documento mais antigo que testemunha o sal como valor de troca é de 959. Porém, é a construção de muralhas em torno da urbe, no século XV, que reflecte a prosperidade alcançada, onde em breve se instalam instituições de assistência, que ajudariam a amenizar os anos vindouros difíceis do fecho da barra. O século XIX, com a sua abertura artificial mediante a utilização da pedra das muralhas, permite a edificação de uma nova cidade e o aparecimento de novos elementos. Cidade sem pedra, mas rica em argila, a profissão de oleiro encontra-se registada como sendo das mais antigas. É nesta vasta experiência que a indústria cerâmica local adquire consciência da generosidade plástica do barro e polvilha as fachadas de azulejo, tornando-a única na sua riqueza caleidoscópica. A aplicação de azulejos no exterior dos edifícios generaliza-se no Brasil para onde se exportavam em grandes quantidades, servindo, inclusive, de lastro aos navios. O azulejo adopta-se como elemento estruturante da arquitectura mas também funciona como reflector de luz e calor, diminuindo a temperatura no interior dos edifícios e como protecção da humidade característica daquela

região. Como refere Rafael Salinas Calado, “partiu com a família real e a côrte” (Calado 1996 7). Regressa mais tarde, apelidado por Santos Simões, como “azulejo de torna viagem” (Simões 2001 300). O primeiro edifício da cidade a ter a fachada revestida na sua íntegra por azulejos (provenientes de uma das fábricas do Porto) surgiu em 1857, propriedade do “brasileiro” Sebastião de Carvalho Lima. Foram fundamentalmente as fábricas do Porto a modificar as características urbanas da época, com a produção local a ter a sua origem em 1892, com a fundação da fábrica da Fonte Nova, tendo sido a principal produtora de azulejos para o distrito de Aveiro. Para além dos azulejos semi-industriais de padrão e estampilhados, produziu painéis decorativos de vários estilos, cuja execução esteve principalmente a cargo de Francisco Pereira e Licínio Pinto. Pelas tipologias de azulejo que produziu, é inquestionável que esta fábrica tenha criado um estilo próprio, inconfundível, difundindo as siglas FN por dezenas de edifícios da cidade. Acompanhando o gosto da época, no início do século XX surge um conjunto de edifícios de decoração Arte Nova e é também o azulejo que, em Aveiro, distingue as manifestações arquitectónicas deste estilo das demais. A Fonte Nova foi uma das três principais fábricas nacionais na produção de azulejaria característica desta nova manifestação artística. Nesta fase, surgiram na cidade amplas alterações. Foi para isso determinante a política fontista, que beneficiava o desenvolvimento dos eixos de comunicação, tendo-se construído o caminho-de-ferro local em 1864.

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Uma cidade deve ser considerada tendo em conta as particularidades que certificam a sua singularidade e a conduzem para além do comum. No caso de Aveiro, essa característica provém-lhe inequivocamente do sal, da água e da luz.


No artigo do Conselheiro José Ferreira da Cunha e Sousa “A memória sobre Aveiro”, é atestado que (…) só depois da passagem da linha-férrea em Aveiro é que os seus melhoramentos se foram desenvolvendo sucessivamente” (Neves 1940 87). Igualmente relevante para a época é a criação da Escola de Desenho Industrial em 1893. Fundada pelo arquitecto, pintor, professor e director da escola Francisco Silva Rocha, teve uma importância inequívoca na azulejaria das primeiras décadas do século XX. Pela sua vivência e pelos livros que encomendou a Paris, imprime algum cosmopolitismo na produção da cidade (Rodrigues 2001 49). O Campeão das Províncias, em 1903, revela a recuperação da região e o incremento das obras “(…) a catividade no seu auge, fazendo mover os machinismos, os trabalhos manuaes, em todos os diversos ramos da indústria nacional e local. O pedreiro, o serralheiro, o carpinteiro, o pintor, o fabricante da telha, do adobo, do azulejo, tudo trabalha sem descanso” (Neves 1997 37). Após uma época de desenvolvimento económico, ao longo da primeira década do século XX, as dificuldades na fábrica da Fonte Nova começaram a surgir. Ao pressentir a iminente falência, João Aleluia, pintor, desde muito jovem, deste centro de produção, funda, em 1905, no Largo dos Santos Mártires, uma pequena unidade cerâmica. O local estava fora da malha urbana, mas próximo de vários canais da ria, o que facilitaria o escoamento da sua produção. Produziu especialmente azulejos de revestimento estampilhados, com apontamentos manuais, criando padrões de motivos decorativos de características gráficas acentuadas, que desenvolveram de forma única as suas capacidades de animação das fachadas.

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Com a produção dos Santos Mártires a ser cada vez mais procurada, a pequena área que a fábrica ocupava não permitia a sua expansão. Em 1922, numa vasta propriedade na qual é instalada a melhor tecnologia disponível na época, emerge a Fábrica Aleluia, dando continuidade à antiga unidade. Maquinaria mais actual consegue maior produção, propondo uma qualificação artística, atenta aos novos movimentos estéticos internacionais, preocupação que manteve em permanência. Actualmente, para além do fabrico de azulejos em série, podemos ob-

servar, em todo o país, painéis executados para grandes artistas como Júlio Pomar e Eduardo Nery. Num esforço constante de adaptação, hoje, é no complexo universitário que se qualifica a intervenção do território, laboratório dos grandes arquitectos contemporâneos, mas onde, apesar da existência de um dinâmico Departamento de Cerâmica e Vidro, a azulejaria como material de revestimento não ocupa lugar. Assumindo-se como uma das cidades mais importantes do país, em constante crescimento económico, Aveiro alia a conservação do património às imposições presentes ao seu desenvolvimento, não relegando um dos principais temas caracterizadores: a qualidade de vida. Estes são os elementos que, em conjugação, nela se sentem e o sentido nela vivido é imaterial e permutável – como a luz de que se reveste. A azulejaria de padrão semi-industrial renova a paisagem urbana ao cobrir as fachadas dos edifícios, a partir da segunda metade do século XIX. O azulejo definiu de forma emblemática o carácter local da arquitectura da região de Aveiro, pelo que deve ser considerado como elemento patrimonial importante a preservar.

Patrícia Sarrico, Introdução de Percurso do azuleijo de fachada de Aveiro: Dinâmicas para a sua salvaguarda Tese de Mestrado em Museologia e Património Cultural da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Painel de azulejos da Fábrica da Fonte Nova no Museu Arte Nova [1907] c. 2010 Museu da Cidade | Imagoteca Painel de azulejos de Cândido Teles [1985] 2016 Ricardo Meireles, Busílis da Comunicação CMAveiro Fábrica Aleluia c. 1970 Museu da Cidade | Imagoteca


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XIV Bienal Internacional Cerâmica Artística de Aveiro Mensagem do Presidente do Júri - Torbjørn Kvasbø Congratulo os artistas participantes na XIV Bienal de Aveiro. Sem a vossa generosa contribuição este evento não seria possível. Tem sido um prazer estar envolvido na avaliação do vosso trabalho: a qualidade das obras concorrentes foi muito elevada. As vossas obras de arte representam uma rica diversidade, grande variedade de conteúdo, expressão, dimensão, forma, cor, estruturas e texturas, bem como na utilização do material cerâmico e nas técnicas cerâmicas enquanto linguagem. Inovadora, experimental e crítica. Aqui se encontra muito para ver, aprender e refletir. O formato expositivo deste tipo de exposição tem os seus limites: não existe curadoria, não existe uma ideia condutora, as obras submetidas pelos artistas são escolhas individuais de algumas das melhores obras existentes nos seus estúdios, os artistas são responsáveis pelas despesas de envio, o que acarreta limites à dimensão dos trabalhos. Mas esta é uma oportunidade para todos os criadores do campo da cerâmica participarem, amadores, estudantes, emergentes e mestres. Aqui não interessa quem és, se tens um “nome”, onde já expuseste, que tipo de rede social possuis, o currículo. Desde que a obra seja avaliada e admitida por um júri profissional. Frequentemente vimos jovens artistas internacionalmente desconhecidos serem reconhecidos e receberem prémios por obras extraordinárias. Assim, por favor, continuem a candidatar-se, enviem imagens do vosso trabalho. Mostrem ao mundo quem são e o que fazem!

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Este tipo de exposição apresenta alguns princípios dúbios: muito trabalho e responsabilidade colocado no artista, é caro para o artista, podem não voltar a ver o vosso trabalho se não conseguirem financiar o transporte de retorno e terem de “doar” a obra, as obras raramente são vendidas nestes eventos. Mas se o organizador fizer o seu trabalho de forma profissional, a exposição internacional que alcançam através desta muito qualificada revisão por pares é o investimento mais valioso que podem fazer na vossa carreira. Assim é muito importante que qualquer organizador deste tipo de evento dê aos artistas o máximo de exposição através de todos os meios de comunicação social disponíveis, e através da realização de um catálogo profissional, analógico e digital. É assim que o organizador recompensa os artistas.

A Bienal de Aveiro é internacional, nesta edição existiram candidaturas de 37 nações, num total de 246 candidaturas correspondendo a 385 obras. 25 Nacionalidades estão representadas na exposição final, 98 obras de 78 artistas. O júri tinha 5 membros, dos quais 3 são artistas profissionais, e 2 são membros da Academia Internacional de Cerâmica. Reunimos duas vezes: a primeira vez em Fevereiro para verificar todas as candidaturas e efetuar escolhas, depois o segundo encontro, em Junho, após a receção das obras, para fazer a verificação final e selecionar os premiados e a atribuição de menções honrosas. Congratulamos o organizador da exposição, o Município de Aveiro. Desde 1989 que a Câmara Municipal organiza a Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro e, em 2019, a 14ª edição vai ter lugar. A Bienal de Aveiro é inteiramente financiada pelo Município. A equipa de 5 pessoas são funcionários a tempo inteiro e trabalham para a Bienal quantas horas forem necessárias. O evento é muito bem planeado e organizado, profissional em todas as matérias e detalhes. O arquiteto da exposição é um dos membros do júri. Academia Internacional de Cerâmica (AIC) A Bienal tem uma declaração clara e o objetivo do evento demonstrado em relação aos objetivos da Academia Internacional de Cerâmica (AIC). Dois membros da AIC são membros do júri. A XIV Bienal de Aveiro cumpre os requisitos e requerimentos para o apoio da AIC em relação a eventos internacionais e para a utilização do logotipo da AIC. De acordo com as regras da AIC os dois primeiros lugares de uma competição internacional (tal como a KOCEF, Mino, Seto, Yingge, Vallauris, Aveiro, etc.) serão selecionados como novos membros da AIC sem necessidade de candidatura e pagamento de inscrição, se um membro da AIC integrar o júri. Os membros do júri que integram a AIC apresentarão os vencedores por escrito ao Secretariado. Os vencedores não serão eleitos, mas aclamados pelo Conselho da AIC. Torbjørn Kvasbø Presidente do Júri Artista ceramista e Presidente da Academia Internacional de Cerâmica


1º PRÉMIO

Artista: Sara Dario Obra: Come foglie al vento Descrição: Photo-serigraphy. Porcelain. Dimensão: 35x35x25cm


2º PRÉMIO

Artista: Carlos Enxuto Obra: Olhar sem ver Descrição: Realizada através de lastras e roda de oleiro, transformada pelo fogo a 1280ºC em atmosfera redutora, decalque cerâmico aplicado a 850ºC em 3º fogo. Pasta de grés, engobe de porcelana, vidrado transparente e decalque cerâmico. Dimensão: 185x18x50cm

3º PRÉMIO

Artista: Salih Veysel Özel Obra: Plate tablets Descrição: Mixed techniques (wheel throwing, handbuilding and moulding). Ceramic clay, glaze, 1200ºC. Dimensão: 105x31x7cm


Guizos e os outros acontecimentos em seminário

por Virgínia Fróis

A Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e o Centro de Investigação VICARTE assumiram a organização e a produção e a Associação Cultural Oficinas do Convento ofereceu espaço de trabalho. Para o seminário fizemos equipa com Pedro Fortuna e Fernando Quintas investigadores do VICARTE. As actividades interligam a experimentação e a reflexão e são desde logo uma partilha entre pares, uma abertura aos cidadãos, pretendem tocar novos públicos e ensaiar novos modos de fruição da cerâmica e da arte. 1 GUIZOS é uma obra que combina várias ideias a partir de um foco: objectos sonoros feitos em cerâmica. A obra foi realizada num processo colaborativo realizada por sete participantes: Artemis Hostalacio; Beatriz Loreti; Carlota Silva; José Sotomayor; Rute Triães; Virgínia Fróis e Zandra Miranda. Cada um desenvolveu variações do tema criando objectos sonoros cerâmicos com a sua marca autoral, com a intenção de serem instalados no espaço público da Cidade de Aveiro, proporcionando ao espectador o jogo e o contacto directo com o seu corpo e a descoberta de um percurso. O núcleo central da obra concentra-se no Claustro da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro, prolongando-se com elementos pontuais para o interior de algumas lojas situadas ao longo do percurso até ao Museu de Aveiro/ Santa Joana, onde se encontra a exposição da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro. As ideias desenvolveram-se a partir da observação de objectos sonoros de precursão: o guizo/cascavel como objecto central, a referência. O sino é usado em muitas culturas e é um sinal, uma consciência, uma presença. No alargamento do conceito observamos os berloques as rocas e as pulseiras, sinalizações de presença, conhecidas também as dimensões simbólicas e protectoras destes objectos em diferentes manifestações presentes em cele-

brações religiosas ou em cortejos profanos. Esta obra inscreve-se num modelo colaborativo e foi produzida por um colectivo constituído por alunos da Unidade Curricular Laboratório de Cerâmica da Faculdade de Belas-Artes de Universidade de Lisboa (FBA. UL) que frequentaram 2º semestre do ano lectivo 2018/19 em diferentes níveis da aprendizagem da cerâmica. A este grupo juntei dois convidados: um ex-aluno e uma investigadora em final de pós-doutoramento da Universidade de São João del Rei no Brasil. Interessava-me criar um grupo heterogéneo. A cada participante foi dada informação sobre o tema, algumas referências e a possibilidade de criar um conjunto de elementos com identidade num campo muito aberto de possibilidades. As ideias desenvolveram-se na partilha, ampliando o conceito da obra Guizos. No processo criativo e na pesquisa, o movimento, o corpo e o som estiveram presentes, desde os primeiros gestos desde o amassar da matéria. No silêncio de dar forma, cada um imaginou os resultados sonoros. Os objectos foram feitos para serem manipulados, para haver uma relação sensível com o corpo do outro. As obras foram realizadas em duas oficinas de cerâmica, a da FBA.UL e a da Associação de Arte e Comunicação Oficinas do Convento – OCT. Na FBA.UL usámos matérias cerâmicas recicladas e nas Oficinas da Cerâmica e da Terra a porcelana e o grés de sal. Experimentámos vários processos técnicos da cerâmica: o raku, a faiança, o grés e a porcelana. A instalação no espaço público destes objectos criou a necessidade de uma relação de partilha com os comerciantes da rua, assim solicitamos-lhes a mediação, tornarem-se actores na Bienal. Esperamos que o espectador escute, mexa nos objectos cerâmicos, accione o som, experimente o leve, o pesado, o rugoso, o liso, o brilhante. Uns objectos estão suspensos, outros pousados, e todos pedindo para ser tocados, usados. Nesta proximidade, propomos uma outra relação com a obra de arte. A instalação no espaço público/urbano assume-se como uma partilha pretende criar relações com o espaço e com o corpo. Pretendemos interpelar o espectador no espaço da cidade, propondo-lhe um circuito e o jogo do sensível.

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Apresentamos um programa que se constitui por uma exposição GUIZOS e um SEMINÁRIO. Resultante do convite da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro a Virgínia Fróis para criação de uma obra cerâmica para o espaço público, esta concretizou num projecto colaborativo, a experimentação e num seminário, a reflexão.


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ticipativos e a CERÂMICA

No dia 16 de Novembro no anfiteatro do Museu de Aveiro terá lugar um Seminário que reúne especialistas portugueses e estrangeiros com o objectivo de trocar conhecimentos e de partilhar experiências envolvendo a comunidade científica e artística e abre-se a um público mais vasto fora da academia. A Cerâmica tem dado corpo a obras de Arte Pública e Participação - práticas artísticas que incluem os cidadãos nos processos artísticos com diferentes abordagens. Neste seminário daremos a conhecer as práticas colaborativas e participativas seus enquadramentos no campo da arte. Partindo da prática e das metodologias ensaiadas pelos artistas e com este conhecimento contribuir para novas abordagens incentivando novas criações. Pretende igualmente promover o debate, entrelaçar reflexões e práticas, levantar questões inerentes à formação e prática dos artistas nos domínios da educação e da cidadania. Pensar a autoria em projectos de criação partilhada. Em Portugal existe um corpo de trabalho desenvolvido por investigadores da FBAUL inseridos nos Centros de Investigação CIEBA e Vicarte, onde estas práticas e as suas bases teóricas são questionadas e experimentadas. O programa divide-se em três painéis, Espaço público e participação /contextos teóricos e activismo, Interacções / Arte e a cidadania e Construções / Arte e os locais de produção. Os oradores convidados Cristina Cruzeiro, Elaine Santos, Françoise Schein, Mário Campos, Helena Elias, Maja Echer, Bie Michels, Sérgio Vicente e Zandra Coelho. Apresento alguns dos casos de estudo a partir das sinopses dos conferencistas: Celeida Tostes (1929-1995), O Muro, obra participativa realizada em 1982, foi uma proposta artística ambiental, que também teve a intenção de integrar classes sociais através do processo criativo. Muitas pessoas estiveram envolvidas, principalmente da comunidade do Morro do Chapéu Mangueira, no Rio de Janeiro. A obra teve um grande impacto na sociedade e no meio artístico desencadeando discussões e abrindo o campo da arte ao activismo, a arte social como uma possibilidade de acção dos artistas. Le Grand BanKet - Bruxelas O Projecto Inscrir criado pela artista Françoise Schein, vai apresentar diferentes obras criadas na defesa dos direitos humanos em vários países. Elege o azulejo como suporte na sequência da experiência do trabalho para a estação do metro do parque em Lisboa. Vai expor ideias defendendo “a cerâmica como ferramenta de ensino da filosofia de vida”.

Planisfério O PI  - Planisfério da Interculturalidade é um mural cerâmico que existe desde 2015 no Centro Cívico do Fróis, uma nova centralidade no Monte de Caparica, em Almada O PI foi um projeto educativo de coesão social em ambiente escolar, com participação voluntária, que foi criado para dar continuidade ao processo de Arte Pública com Envolvimento Comunitário Mastro Montemor-o-Novo Transpondo o processo de construção das bandeiras e enfeites em papel para o campo da cerâmica. O processo criativo resulta de trocas de conhecimento e partilha de histórias com os moradores e passantes. Durante este processo, as constelações entre indivíduos e os seus quotidianos (tomadas como estabelecidas e imutáveis) transformam-se e desenvolvem um novo sentido. Projecto Ressonâncias O projecto Ressonâncias, idealizado pela escultora portuguesa Virgínia Fróis parte de uma poética muito individual da autora e ganha asas ao ser proposto como prática compartilhada com um grupo de estudantes da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo), em São Paulo, Brasil. A abertura da dinâmica construtiva a novos agentes criadores traz elementos inesperados ao projecto inicial, que cresce ainda sob a orientação da autora. Esses estudantes e artistas que participaram do projecto original, por sua vez, assumem a função de multiplicadores do projecto, levando a proposta para grupo ampliado em São João del Rei, na UFSJ (Universidade Federal de São João del Rei), em Minas Gerais, Brasil. Em exibições mais recentes dos resultados do projecto e revisitando sua trajetória enquanto processo criativo, podemos perceber o quanto a proposta inicial se amplia e ganha novos influxos em termos formais e simbólicos à medida que os seus desdobramentos avançam e distanciam-se de sua autoria original. Desta forma, podemos tomar o projecto Ressonâncias como uma situação exemplar para se refletir sobre os diversos graus de abertura de um processo criativo compartilhado e sobre a problemática da autoria. O seminário buscará a reflexão e apresentará um campo de múltiplas possibilidades, com casos de estudo cujos resultados podem ser discutidos. A partilha como base fundamental para o desenvolvimento e a arte como um empoderamento dos cidadãos, o ser em comunidade. E com isto pretendemos criar espaço para novas obras e reflexões em edições futuras e deste modo celebrar a vida e os 30 anos desta Bienal.

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Seminário internacional: Os processos par-


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Celeida ao lado dos grandes adobes e parte dos integrantes da construção do Muro. Fonte: (SILVA & LONTRA, 2014, p. 94-95)


Árvores de Lisboa

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por Ana Luísa Soares Ana Raquel Cunha


Dracaena draco L. Dragoeiro O dragoeiro deve ao seu valor ornamental e utilitário e à sua capacidade de adaptação o facto de ter viajado para destinos espalhados por todos os continentes. Em Lisboa é uma marca da Macaronésia presente principalmente em jardins com carácter histórico e botânico, dos quais destacamos: Parque Botânico da Tapada da Ajuda, Jardim Botânico da Ajuda, Jardim Botânico de Lisboa, Jardim Botânico Tropical e Jardim da Estrela. Foi a cor da sua seiva, designada sangue-de-draco, que depois de oxidada forma uma resina de cor vermelho sangue, que fundamentou o seu nome. Aquela seiva, utilizada em fármacos e em tinturaria, constituiu nos tempos iniciais de povoamento europeu da Macaronésia um importante produto de exportação. É uma planta com elevado valor estético, devido à sua estrutura singular, mas encontra-se vulnerável no estado selvagem devido à importância da sua seiva e à destruição e ocupação do seu habitat devido à expansão das áreas agrícolas e urbanas. Planta perenifólia de porte arbóreo, até 8 m de altura, copa densa, umbeliforme, de grande diâmetro, com seiva vermelho-escura, o seu tronco é robusto e fibroso e apresenta um ritidoma de cor acinzentada. As suas folhas são coriáceas simples, de cor verde acinzentado, acastanhada na base. As inflorescências são longas (60-120 cm de comprimento), com flores numerosas, de cor verde-esbranquiçado, aromáticas e dispostas em panículas. O seu fruto é uma baga, esférica (cerca de 15 mm de diâmetro), inicialmente esverdeada, tornando-se alaranjada quando madura. É uma espécie originária da região biogeográfica atlântica da Macaronésia, nativa dos arquipélagos das Canárias, Madeira e Açores e aparece também em Cabo Verde. Referências: Vasconcelos, T., Soares, A.L., Cunha, A.R., Forte, P. &

Arsénio, P. (2018, Outubro). Dracaena draco (L.) L. subsp. caboverdeana Marrero Rodr. & R.Almeida. Parque Botâ-

nico da Tapada da Ajuda, Instituto Superior de Agronomia,

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Universidade de Lisboa. 2 p.


Lisboa e o resto não é só paisagem

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por Marta Gonzaga


Mas eu não gosto de viver só a realidade dos que amo. Preciso muito de conhecer também a dos estranhos, compreendê-los, fotografá-los e escrevê-los, até não serem

tão estranhos. Não me puxem para um grupo - “nós às sextas (...) tu vais fazer parte e vais gostar muito”. Isso não pode acontecer, porque sufoco só com a ideia. Para fotografar, prefiro ir sozinha. Se estou a escrever preciso de silêncio. Gosto de ir a festas onde só conheço o dono da casa e lido muito bem com o desconhecido. Preciso desse desconhecido e uma cidade grande tem sempre tanto para nos surpreender. No que importa, andamos todos ao mesmo. Resumidamente, em busca da felicidade. Um sorriso abre portas em todo o mundo e temme dado muitas alegrias. Quem viaja quer saber se é seguro. Quando me fazem esta pergunta, lembro-me de quando, durante as aulas de condução, me ensinaram a não mandar passar as pessoas na passadeira, pois o peão, reconhecendo “a autoridade” de quem vai ao volante não olha para mais nada, e precipita-se para a estrada. Nunca direi que uma viagem é segura, porque quero que olhem para os dois lados antes de atravessar. Mas não é no desconhecido ou nas diferenças culturais, que está o perigo. O perigo é igual em todo o mundo. O perigoso é o ladrão, o criminoso, a pessoa que tem o coração fechado e preconceituoso. Ou as estradas com buracos e sem proteções; as pontes sem manutenção; os barcos sem revisão; os carros mal tratados; o excesso de álcool, entre tantos outros, que podem estar à nossa porta. Na cidade grande ou na aldeia pacata na ponta extrema do nosso mundo. Sou do género que vê e ouve tudo. Imagino que uma companhia útil em viagem é um descanso para os mais distraídos, e preciso tanto de viajar que me deveria ser prescrito com receita medica. Viaja com cuidados, mas não deixes de o fazer. O prejuízo que o medo causa é muito maior. Viver no centro da cidade, mesmo com os desatinos que isso causa nas nossas vidas, é para os resistentes. Para os que se queixam do barulho, das casas velhas e pequenas, dos turistas (a quem por muitas vezes acidentalmente respondemos com simpatia), da falta de estacionamento, do lixo. Mas que por muito que se reclame, não conseguimos abrir mão da viagem longa que pode ser atravessar Lisboa em hora de ponta, com truques que só os desesperados e curiosos conhecem e que às vezes nos deixa presos atrás da camioneta do lixo. Não tem problema, até porque às vezes, nessas filas, vai a passar, mesmo ao lado, a pessoa que não vemos há tantos anos e que nos apetecia mesmo encontrar.

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Os preços das casas, mas também as lojas do cidadão que se deslocaram, levaram uma parte dos nossos vizinhos que vinham ao centro tratar dos assuntos da vidinha. Ainda assim, toda a gente vem cá parar. A cada um de vocês hei-de ver, pelo menos, mais uma vez na vida. Exactamente porque estou bem no centro. E assim, vamos saber coisas uns dos outros, porque continuamos próximos, nesta imensa cidade virtual, onde quase todos os amigos continuam juntos.


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Convite para três viagens… por Santa Casa da Misericórdia de Lisboa SCML

Convite para três viagens ….

Nos dias de hoje, cultura, turismo e sociedade pressupõem novos paradigmas aos quais os agentes culturais não podem permanecer indiferentes. O que o turista de hoje procura e valoriza nos destinos que selecciona, são aspectos que envolvam alguma interactividade e autenticidade. Como tal procura cada vez mais, experiências multissensoriais e o envolvimento emocional com os locais que visita. A experiência de visita deverá por isso contemplar quatro vertentes fundamentais: Educação, Entretenimento, Emoção e Experimentação. Nesta perspectiva, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem vindo a oferecer uma programação cultural variada que procura corresponder às expectativas de diversos públicos que visitam ou residem na cidade de Lisboa, permitindo a estes, incursões por múltiplas e longínquas culturas, dando-lhes a conhecer civilizações e tradições milenares. O Oriente tem estado particularmente em foco como destino na programação cultural deste último semestre através de três itinerários nos quais o público é convidado a participar.

Em 1619, a Companhia de Jesus encomendou ao jovem pintor André Reinoso um conjunto de 20 telas representando episódios da vida de São Francisco Xavier (1506-1552), padre jesuíta navarro que foi o missionário do Oriente, na época, em que se pugnava em Roma pela sua canonização. O conjunto pictórico foi instalado na sacristia da Igreja de São Roque e totalmente criado com composições inéditas, representando a passagem do santo missionário por várias paragens no Oriente,

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O primeiro consiste numa viagem ao Oriente, seguindo o itinerário xaveriano no ano em que se comemoram os 400 anos do ciclo pictórico vida e lenda de São Francisco Xavier, pintado por André Reinoso.


desde Moçambique ao Japão, sendo hoje considerado uma das obras-primas da arte portuguesa e mesmo da arte mundial.

o público para estas culturas milenares permitindo-lhe experienciar até os sabores do Vietname.

Nesta viagem, Moçambique é o ponto de partida e Goa o de chegada. No meio aportaremos na Índia, Sri Lanka, Malásia, Indonésia, Japão e China. Este programa inclui visitas temáticas, workshops, teatro, música, dança, gastronomia, conferências e conversas abertas, que transportam os visitantes para as civilizações asiáticas que os portugueses encontraram nas suas expedições.

Uma terceira viagem a iniciar ainda em Dezembro de 2019, tem por destino a China ao tempo dos Imperadores contemporâneos do Rei Magnânimo.

Cada uma das paragens do itinerário de São Francisco do Xavier será assinalada, ao longo de um mês, por diversas actividades no Museu de São Roque e pela exposição de uma peça convidada que evoca a cultura dos povos que os portugueses do século XVI encontraram. Um segundo itinerário, transporta o visitante para uma viagem ao Vietname, propondo descobrir alguns aspectos da cultura da antiga Cochinchina, actual Vietname. Este itinerário inscreve-se no contexto da celebração do 100º aniversário do decreto imperial que consente a utilização do alfabeto latino, na língua oficial do Vietname, o Quôc Ngu’, romanizada pelo Jesuíta português Francisco de Pina no início do século XVII e continuado pelo jesuíta francês Alexandre de Rhodes. A adoção do Quôc Ngu’ permitiu combater o analfabetismo, por ser de mais fácil apreensão do que os ideogramas da escrita chinesa, possibilitando recuperar a dignidade da cultura vietnamita que assim pôs termo à influência milenar da cultura chinesa. Por outro lado, em São Roque conservam-se as relíquias de André Phú Yên (Catequista André), primeiro mártir cristão do Vietname que ainda hoje é muito venerado pela extensa comunidade católica vietnamita, que ascende mais de 10 milhões de cristãos.

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A exposição da relíquia do Beato André de Phú Yên, a evocação do jesuíta português Francisco de Pina e uma conferência Internacional sobre a romanização/lusitanização da língua vietnamita são três dos momentos marcantes de uma viagem pela cultura e tradições vietnamitas, viagem essa animada por sessões de música, poesia e teatro de marionetes, para além de artes plásticas e visuais que transportarão

Nesta, será apresentada ao público a exposição “Um Rei e três Imperadores: Portugal, a China e Macau no tempo de D. João V”, a pretexto de três grandes comemorações: os 40 anos do restabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a China, os 20 anos da transferência de poderes de Macau para a China e os 450 anos da fundação da Misericórdia de Macau. Estas três efemérides são o mote para melhor conhecer as relações diplomáticas comerciais, culturais e até religiosas entre Portugal e a China. A aproximação a esta cultura será veiculada através de uma selecção de obras de provenientes de instituições públicas e colecções privadas, nacionais e internacionais, que ilustram o tempo das embaixadas e da cortesia, o tempo do chá e da porcelana, o tempo dos fascínios, intercâmbios e tensões e por fim Macau no tempo dos novos tempos.


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Com três desenhos se conta a história de um grande pintor

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por Paulo Almeida Fernandes*

O Museu de Lisboa possui três desenhos de Francisco Vieira de Matos (1699-1783), pintor régio de D. João V e de D. José, artista famoso no seu tempo e muito elogiado por figuras do Romantismo português, que a História melhor conhece pelo nome de Vieira Lusitano. O primeiro desses desenhos - uma alegoria ao atentado do rei D. José - foi adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1958. Os outros dois – um retrato régio e um desenho preparatório para o teto da basílica de Nossa Senhora dos Mártires - são fruto de investimentos mais recentes, que vieram reforçar o Museu de Lisboa com obras que ilustram a atividade e qualidade de um dos mais relevantes pintores de Lisboa e a profunda relação que este artista estabeleceu com o património barroco da capital do país. Formado nos círculos romanos de inícios do século XVIII (sobretudo com os pintores Benedetto Lutti e Francesco Trevisani), e trabalhando entre Roma e Lisboa, Vieira Lusitano gozou de uma carreira longa, que ultrapassou cinco décadas de intenso labor. Por vontade própria, afastou-se da criação artística a partir de 1774, ano do falecimento de sua mulher, Inês de Lima. Nos últimos anos de vida, recolhido ao convento do Beato António, em Xabregas, dedicou-se a escrever a autobiografia, um relato poético e auto-elogioso da obra e da vida, que o próprio designou O insigne pintor e leal esposo (publicado em Lisboa, em 1780), título que alude às duas dimensões maiores da sua existência: o ofício de pintor e o elogio do amor heroico (porque proibido) que sentiu por Inês de Lima. Ao serviço do rei D. João V desde 1721 (pouco depois de concluída a aprendizagem em Roma) e pintor régio desde 1733, Vieira Lusitano desenhou, gravou e pintou para a corte, mas Lisboa mereceu-lhe atenção especial. A cidade foi mesmo tema e destino de grande parte da sua produção e é ainda em Lisboa que se preserva o principal núcleo das suas obras. O pintor sobreviveu ao terramoto de 1755, mas muitas realizações que concebeu para a capital perderam-se naquela tripla catástrofe - sismo, incêndio e maremoto -, em particular o ciclo pictórico para a igreja patriarcal, ou o teto do corpo da basílica dos Mártires. Muitas dessas perdidas partes de Lisboa conhecem-se apenas graças a desenhos do autor, alguns preparatórios, outros realizados após o cataclismo, como memórias pessoais de parcelas desaparecidas da própria história de Vieira Lusitano.

O teto da antiga basílica dos Mártires. Ou de como a Lisboa anterior ao terramoto de 1755 sobrevive ainda, fragmentada e dispersa, na Lisboa de hoje Umas das obras agora expostas pela primeira vez no Museu de Lisboa é o Tecto da egreja dos Martyres de Lxª, desenho a sanguínea, assinado por Vieira Lusitano e datado de 1750. Este esboço esteve desaparecido durante muitos anos, mas foi visto e copiado em finais do século XIX pelo olisipógrafo Júlio de Castilho. Hoje faz parte do acervo do Museu de Lisboa e é uma peça essencial para caracterizar não só a obra lisboeta de Vieira Lusitano, como o carácter obsessivo do seu processo criativo, que o motivou a constantemente explorar opções de composição, de disposição de cenas e objetos, de diálogo gestual entre figuras, de incidência de focos de iluminação, bem como de exercício constante e diário do traço do desenho. Graças a este multifacetado processo criativo, muitas realizações de Vieira Lusitano que chegaram até hoje foram esboços propositadamente não finalizados, destinados a resolver questões de pormenor nas obras finais, ou a elucidar potenciais encomendadores sobre o andamento dos projetos. Para a basílica dos Mártires, uma das primeiras igrejas construídas após a conquista de Lisboa aos muçulmanos em 1147, Vieira Lusitano concebeu uma cena glorificadora do rei D. Afonso Henriques, longínquo antecessor do monarca que, por aqueles meados do século XVIII, patrocinava a reconstrução do templo: D. João V. A origem desta igreja recua ao dia 21 de novembro de 1147, data em que, por patrocínio de D. Afonso Henriques, se lançou a primeira pedra, no sítio que havia sido convertido em cemitério dos cruzados normandos e ingleses mortos no cerco a Lisboa. Por razões estratégicas, o local fora previamente escolhido para acampamento de parte do exército estrangeiro que protagonizou a conquista da cidade. Por essa razão, é possível que se tenha reservado uma área para cemitério e outra para culto religioso, sendo este último um espaço provisório e rudimentar onde alguns cronistas do século XVII asseguram que esteve depositada uma imagem inglesa de Nossa Senhora. O edifício, que passou por várias reformas até ao século XVIII, fora consumido por um incêndio em 1746 e a reconstrução havia sido bastante rápida, devendo a obra de pin-


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Tecto da Egreja dos Martyres de Lxª Vieira Lusitano, 1750 Sanguínea s/ papel Museu de Lisboa, ML.DES.4577 Fot. José Avelar / Museu de Lisboa


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Teto da nave da Basílica dos Mártires Pedro Alexandrino, c. 1786 Fot. José Avelar / Museu de Lisboa, 2018


O Tecto da egreja dos Martyres de Lxª é um dos três desenhos agora expostos e que permitem desvendar parte essencial do processo criativo de Vieira Lusitano. Outros temas são também alvo de atenção na exposição Vieira Lusitano. A partir de 3 desenhos, como o diálogo entre desenho, pintura e gravura (técnicas que Vieira Lusitano tanto cultivou e

inovou na sua oficina), o estatuto do retrato régio como obra de propaganda e de transmissão subliminar de conceitos de autoridade (pela discreta posição de alguns atributos, por exemplo), a mitologia clássica como expressão erudita e alegórica para episódios contemporâneos, ou a observância militante de um processo criativo metódico, que o levou a executar numerosas abordagens a cada tema, em sucessivas etapas de esquissos propositadamente inacabados. Em todas essas dimensões, Vieira Lusitano promoveu o elogio do desenho, pedra angular da sua arte.

Vieira Lusitano. A partir de 3 desenhos é uma exposição temporária organizada pelo Museu de Lisboa. Está patente no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta até 22 de fevereiro de 2020. Conta com projeto científico de Rita Fragoso de Almeida e Paulo Almeida Fernandes, projeto expositivo de Joana Cintra Gomes e projeto gráfico de Paula Serpa.

Tecto da Egreja dos Martyres de Lxª Júlio de Castilho, 1887 Tinta-da-china s/ papel Museu de Lisboa, MC.DES.4290

*Técnico superior do Museu de Lisboa. Doutor em História da Arte pela Universidade de Coimbra.

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tura do teto ter sido possivelmente a última grande encomenda dessa campanha. Cinco anos depois, o terramoto destruiu o templo e, na reconstrução de Lisboa, optou-se por edificar uma nova basílica noutra área do bairro que viria a ser conhecido por Chiado. A igreja transitou, assim, da fachada Sul do antigo Convento de São Francisco (hoje Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa) para a atual Rua Garrett. Naquele ano de 1750, a obra para a cartela central do teto dos Mártires não era tarefa fácil. A grande altura da pintura e a sua posição vertical face ao observador eram constrangimentos imediatos à ação de Vieira Lusitano, mas outros problemas existiam, como o formato da cartela e, sobretudo, a obrigatoriedade em dispor um conjunto alargado de figuras, segundo uma conceção iconográfica narrativa que agregava numa só obra de arte diferentes cenas, que tinham ainda de ser dialogantes entre si. A opção foi ilustrar um muito cristão Afonso Henriques, ajoelhado e acompanhado nessa atitude penitente por um cruzado inglês que a tradição apelida de Guilherme de Longa Espada, mas que deve identificar-se com Guilherme de Corni, futuro senhor de Atouguia da Baleia. Ambos são acompanhados pelos escudos português e inglês, e entregam humildemente a um anjo a primeira pedra da construção da igreja e apresentam em pergaminho o projeto construtivo, elemento que não foi aqui ainda desenhado, porque se trata de um estudo preparatório. Esse anjo comunica com a Virgem Maria, anunciando a boa nova que traz o rei de Portugal e simultaneamente intercedendo pela alma dos dois cavaleiros. No topo da composição, Nossa Senhora recebe a oferenda e agradece a atitude do monarca. Está coroada, tem o Menino Jesus ao colo e é acompanhada por uma corte celestial composta pelos mártires de 1147, as almas dos cruzados tombados no cerco de Lisboa, que se apresentam de armadura, portando escudos com monograma cristológico e as palmas, símbolo reservado aos mártires do cristianismo. Do teto pintado por Vieira Lusitano conhecem-se dois desenhos – o do Museu de Lisboa e outro, mais completo, do acervo do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, em Évora (também patente na exposição) – e alguns estudos parcelares de composição. Foi uma das suas maiores e mais afamadas obras, um cometa no barroco português, como lhe chamou Victor dos Reis. Por essa razão, na nova basílica dos Mártires, o teto executado pelo pintor Pedro Alexandrino (1729-1810) ao redor de 1786 repetiu, em traços gerais, a obra de Vieira Lusitano, que aquele provavelmente ainda conhecera na antiga basílica…


a viagem pela consciência por Vanessa Pires de Almeida

À semelhança do perigo da leitura excessiva, exposto por Schopenhauer, residem perigos na intemperança da viagem. A excessiva exposição ao lugar dos outros, ao pensamento dos outros, sem espaço para a reflexão, enfraquece a consciência e a compreensão dos fenómenos, dos lugares, nas relações que estes têm com o passado, com o contexto físico, e com a cultura que os interpreta e constrói. O desenfreado percorrer de lugares distantes, sem qualquer disquisição, não cria raízes de entendimento, mas aproxima-se do “vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele tomou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar os próprios olhos” (Schopenhauer, 1851: 129). Ao contrário de um deslumbramento pela novidade, a viagem detém a sua maior importância na clareza com que pode desvendar outros olhares, outros comportamentos, tornando-nos, como dizia Miguel de Cervantes, homens ponderados. Ponderados, porque, ao renunciarmos, ainda que inconscientemente, aos preconceitos que opacificam a perceção da nossa circunstância, nos é permitido detetar a malha das relações que descansa no desconhecido. A viagem não serve, assim, para descobrir um mundo novo, mas para redescobrir o mundo que conhecemos.

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Não me esqueço da minha primeira viagem, empreendida pela faculdade. Uma viagem de estudo pelas obras de arquitetos que invadiam a nossa existência, sem pedir licença. Arquitetos como Fernando Távora, Álvaro Siza, Sérgio Fernandez, enquadrados nos ideais e preceitos de um movimento que, ainda, proliferava pelos ensinamentos das escolas de arquitetura, pelo menos das escolas do norte do país.

Não me esqueço do momento de aproximação à Casa de Ofir, de Fernando Távora, no qual vislumbrei a importância da contextualização dos conceitos apreendidos, da interpretação dos princípios que, embora podendo ser considerados universais, apenas adquiriam a sua relevância, ou, pelo menos, um pleno entendimento, quando relacionados e integrados na história construída, ao longo dos tempos, pelas pessoas. Não me esqueço do momento em que distingui os conceitos-manifesto do processo de projeto. Um processo que advém do desígnio e o imprime no desenho, o qual resulta de uma investigação apurada de modos de fazer e não de uma mera superfície imagética. Não me esqueço, na Casa de Ofir, da parede do corpo que nos orientava para a entrada, pontuada pela chaminé da lareira, elemento definidor e caracterizador da vivência na casa portuguesa, ou da cobertura inclinada desse mesmo corpo, revestida a telha cerâmica e composta apenas por uma água, assimilando, simultaneamente, os sistemas construtivos da arquitetura tradicional e as soluções de demanda pela luz da arquitetura industrial. Ou das múltiplas alcovas, na Vill’Alcina, de Sérgio Fernandez, que se associavam num braço que se projetava, para deleite da paisagem. Porém, esqueço-me de muitos lugares por onde passei, e por onde passo, que, por breves momentos, detêm a minha atenção, como a de uma criança que pasma pela sedutora novidade. Bibliografia Schopenhauer, A. (1851). Sobre a leitura e os livros in A arte de Escrever. Coleção L&PM Pocket. Vol. 479. L&PM, Porto Alegre. 2009. Pessoa, F. (1982). Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol. II. Ática, Lisboa. P.387.


Viajar? Para viajar basta existir.

Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu

destino, debruçado sobre as ruas e as praças,

sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são. Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo?

Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir. «Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.»

Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo

Entepfuhl de onde se partiu.

Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem.

Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar?

Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações? A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

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Bernardo Soares in Livro do Desassossego


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Tradicional

Cosmopolita

Alternativo Hipster

Multicultural

LIS BO NAR O Nosso Guia de Lisboa

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Clรกssico


Mapade

Lisboa COA

PR

SLM

AP

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ZR


AR

BXM

AV GM

CA

BCS

BC

ZR - Zona Ribeirinha AP - Alcântara | Pampulha COA - Campo de Ourique | Amoreiras SLM - Santos | Lapa | Madragoa PR - Príncipe Real BCS - Bica | Cais do Sodré BA - Bairro Alto AV - Avenida BC - Baixa Chiado CA - Castelo | Alfama GM - Graça | Mouraria AR - Almirante Reis BXM - Beato | Xabregas | Marvila FC - Fora do centro [137]

BA


CLÁSSICO GAMBRINUS | AV RESTAURANTE

CAFÉ

O clássico dos clássicos. A melhor barra e o melhor serviço de Lisboa, que nos faz sentir príncipes ainda que apenas comamos um prego e uns magníficos croquetes com mostarda da casa. Se lhe apetecer algo fora da carta, peça, quem sabe poderá ser surpreendido.

Todo os dias das 08h00 às 02h00 Rua Garrett, 120 1200-026 Lisboa +351 213 469 541

Todos os dias das 12h00 à 01h30

BAR SNOB | PR

Rua das Portas de Santo Antão, 23 1150-264 Lisboa +351 213 421 466 www.gambrinuslisboa.com

PINÓQUIO | AV RESTAURANTE

As ameijoas esguicham água a quem passa demasiado junto ao aquário. O melhor é mesmo comê-las seguidas de um prego e imperial estupidamente gelada. Muito movimentado dada a sua localização turística e perto de teatros. Todos os dias das 12h00 às 00h00 Praça dos Restauradores, 79 1250-188 Lisboa +351 213 465 106 www.restaurantepinoquio.pt

BAR

No Snob quase nada mudou. O bife continua bom e o cozido, às sextas, irrepreensível e o Sr. Albino cortês e atencioso como sempre. O quase é reservado ao famoso gelo à Snob, que era picado de grandes blocos e que deixou de existir para dar lugar ao gelo de máquina, mas nem esta pequena contrariedade retira vontade de nos perdermos noite fora em conversas bem regadas. Todos os dias das 16h00 às 03h00 Rua do Século, 178 1200-438 Lisboa +351 213 463 723 www.snobarestaurante.com

BAR PROCÓPIO | COA BAR

O POLEIRO | FC

O mais antigo dos clássicos bares lisboetas voltou a estar na moda e ainda bem. Com o melhor barman da cidade, o Sr. Luís, sempre atento aos pormenores e um ambiente familiar, o bar de Alice Pinto Coelho por onde ainda é habitual passarem artistas das mais diversas áreas é o mais icónico da capital.

Segunda a Sábado das 12h15 às 15h00 e das 19h15 às 23h00 Rua de Entrecampos, 30 A 1700 158 Lisboa +351 217 976 265 www.opoleiro.com

Segunda a Sexta das 18h00 às 03h00 Sábado a partir das 21h00 Alto de São Francisco, 21 A 1250-096 Lisboa

RESTAURANTE

PARIS EM LISBOA | BC

+351 213 852 851 www.barprocopio.com

LOJA

BRITISH BAR | BCS

Segunda a Sábado das 10h00 às 19h00 Rua Garrett, 77 1200-273 Lisboa +351 213 424 329 www.parisemlisboa.pt

Segunda a Sábado das 12h00 às 04h00 Rua Bernadino Costa, 52 1200-053 Lisboa +351 213 422 367

LUVARIA ULYSSES | BC LOJA

Segunda a Sábado das 10h00 às 19h00 Rua do Carmo, 87-A 1200-093 Lisboa +351 213 420 295 www.luvariaulisses.com

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A BRASILEIRA | BC

BAR

COELHO DA ROCHA | COA RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Rua Coelho da Rocha, 104 1350-079 Lisboa +351 213 900 855 www.facebook.com/restaurantecoelhodarocha


TRADICIONAL GINJINHA SEM RIVAL | BC

A VIDA PORTUGUESA | AR

Todos os dias das 07h00 às 00h00 Rua das Portas de Santo Antão, 7 1150-268 Lisboa +351 213 468 231 www.lojascomhistoria.pt/lojas/a-ginjinha-sem-rival

Qualquer uma das lojas é um antro de bom gosto e perdição, mas a do Intendente é só uma das mais belas lojas de Lisboa. Tudo é português e ficaria sempre tão bem em nossa casa. Sabonetes Ach Brito e Claus, faiança Bordallo, Cadernos Emílio Braga e tantos outros produtos ignorados durante anos até que esta maravilhosa loja os ressuscitou. Mais que uma loja isto é verdadeiro serviço público.

BAR

TABERNA DA RUA DAS FLORES | BCS RESTAURANTE

Um dos nossos restaurantes preferidos de Lisboa. Excelente comida, ambiente descontraído e um único e enorme problema… não aceitam reservas e está quase sempre cheio. Tente chegar cedo e deixar o nome antes da lista fechar. Vale mesmo a pena. De Segunda a Sábado das 12h00 às 00h00 Rua das Flores, 103 1200-194 Lisboa +351 213 479 418

TASQUINHA DO LAGARTO | FC RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 15h30 e das 19h00 às 22h30 Rua de Campolide, 258 1070-039 Lisboa +351 213 883 202 www.facebook.com/tasquinhadolagarto

LOJA

Loja Chiado: Todos os dias das 10h30 às 19h30 Largo do Intendente Pina Manique, 23 1100-285 Lisboa +351 211 974 512 lojaintendente@avidaportuguesa.com

DAS FLORES | BCS RESTAURANTE

Um dos segredos mais bem guardados da cidade. Só serve almoços e a espera é, normalmente, prolongada, mas nada que um dos melhores croquetes de Lisboa e uma imperial bebida ao balcão ou mesmo na calçada não resolvam, porque depois tudo vale a pena. Às sextas o bacalhau com grão é irrepreensível. De Segunda a Sábado das 12h00 às 15h30 Rua das Flores, 76/78 1200-213 Lisboa +351 213 428 828

CONSERVEIRA DE LISBOA | CA SINAL VERMELHO | BA RESTAURANTE

O melhor da cozinha portuguesa em pleno Bairro Alto. Sempre cheio com ambiente descontraído. Segunda das 19h00 às 00h00 Terça a Sexta das 12h30 às 00h30 Sábado das 19h00 às 00h30 Rua das Gáveas, 89 1200-206 Lisboa +351 213 461 252/+351 213 431 281 www.facebook.com/RestauranteSinalVermelho

LOJA

Há uma pequena loja no Mercado da Ribeira, mas não é comparável à experiência da loja original onde nos podemos perder no aconselhamento entre sardinha e cavalas, em limão ou tomate picante, todas dentro de embalagens tão deliciosamente vintage como é delicioso o seu conteúdo. Uma instituição. Segunda a Sábado das 09h00 às 19h00 Rua dos Bacalhoeiros, 34 1100-071 Lisboa +351 218 864 009 www.conserveiradelisboa.pt

MANTEIGARIA SILVA | BC DANÇAS DE SALÃO Rua Silva Carvalho, 225 1250-250 Lisboa +351 213 885 366 www.alunosdeapolo.com

CHARCUTARIA

Segunda a Sábado das 09h00 às 19h30 Rua Dom Antão de Almada, 1 D 1100-197 Lisboa +351 213 424 905 www.manteigariasilva.pt

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ALUNOS DE APOLO | COA


COSMOPOLITA PAP’AÇORDA | BCS RESTAURANTE

Se as paredes da sua anterior localização no Bairro Alto falassem, ficaríamos a saber a história da Lisboa sofisticada dos últimos 30 anos. Agora no Mercado da Ribeira, continua a servir deliciosa comida portuguesa, sendo imperdíveis os fritos, que evitamos noutros lugares, em particular os peixes, sejam jaquinzinhos, ou sável acompanhado de açorda de ovas. Ainda é um lugar para ver e ser visto. Segunda- encerrado Domingo a Quarta das 12h00 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h00 às 02h00 Mercado da Ribeira, 49 - 1º Andar 1200-479 Lisboa +351 213 464 811 www.papacorda.com

CINCO LOUNGE | PR BAR

Lisboa não tinha tradição de cocktails ou bares dos mesmos. Não tinha, até abrir o Cinco que lentamente conquistou a cidade e se tornou a referência cocketeleira. A dificuldade será escolher o que lhe apetece por entre a enorme lista. O melhor é pedir uma sugestão e deixar-se ir. Segunda a Domingo das 21h00 às 02h00 Rua Ruben A Leitão, 17 A 1200-392 Lisboa +352 914 668 242 www.cincolounge.com

EMBAIXADA | PR LOJA

Um ambiente neo-árabe transformado numa espécie de centro comercial com lojas, muitas de criadores portugueses, ocupando as salas do antigo palácio. Com direito a restaurantes nos jardins, exposições no primeiro piso e um bar de gin. Aqui, vir de compras é em bom. Segunda a Sábado das 11h00 às 02h00 Domingo das 14h00 às 02h00 Praça do Príncipe Real, 26 1250-184 Lisboa +351 965 309 154 www.embaixadalx.pt

COMPANHIA PORTUGUEZA DO CHÁ | BCS BAR

De repente Lisboa civilizou-se e passou a ter um lugar para comprar chá, daqueles que apetece mesmo. Onde ficamos a cheirar lotes evitando pedir um saquinho de cada um. Uma viagem pelos aromas que pode ser rematada com uma geleia de chá para lanches mais gulosos.

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Segunda a Sábado das 10h30 às 19h30 Rua do Poço dos Negros, 105 1200-342 Lisboa +351 213 951 614

LUX-FRÁGIL | ZR BAR

“A” discoteca de Lisboa, que seria fantástica em qualquer parte do mundo, mas que aqui ainda acrescenta um nascer do sol como não há. Quinta a Sábado das 23h00 às 06h00 Avenida Infante Dom Henrique, Armazém A, Cais da Pedra a Stª Apolónia 1950-376 Lisboa +351 218 820 890 www.luxfragil.com

RED FROG | AV RESTAURANTE

Terça a Sábado das 12h30 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Largo de São Carlos, 10 1200-410 Lisboa +351 213 420 607 www.belcanto.pt

THE FEETING ROOM | BC LOJA

Segunda a Quinta e Domingo das 10h00 às 20h00 Sexta a Sábado das 10h00 às 21h00 Calçada do Sacramento, 26 1200-203 Lisboa

INFAME | AR

RESTAURANTE/BAR Restaurante: Segunda a Quinta das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 22h30 Sexta a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 22h30 Domingo das 11h00 às 00h00 Bar: Domingo a Quinta das 10h30 às 00h00 Sexta a Sábado das 10h30 às 02h00 Largo do Intendente Pina Manique, 4 1100-285 Lisboa +351 218 804 008 www.infame.pt

GALERIAS DE SÃO BENTO | BCS LOJA

Rua de São Bento, 25-35 1200-109 Lisboa +351 912 984 929 www.galeriasdesaobento.com


HIPSTER QUIOSQUE DO OLIVEIRA | PR

ANJOS 70 | FC

QUIOSQUE PRÍNCIPE REAL

CAFÉ/GALERIA DE ARTE

Ponto de encontro de fim de tarde ou princípio de noite para a fauna do Príncipe Real e Bairro Alto. Espere um ambiente muito cool misturado com turistas.

Nunca se sabe o que poderá estar a acontecer neste espaço. Aulas de flamenco, yoga, capoeira ou ginástica, noites de fado, workshops de colagem, bailes de forró, ou festas de música electrónica. Um espaço único em Lisboa.

Todos os dias das 07h00 às 21h00 Praça do Príncipe Real 1250-301 Lisboa +351 213 428 334

LOUNGE | BCS

Segunda das 17h00 às 23h00 Quarta a Sexta das 17h00 às 23h00 Sábado e Domingo das 15h00 às 23h00 Regueirão Dos Anjos, 70 1150-011 Lisboa www.anjos70.org

BAR

Segunda a Domingo das 22h00 às 04h00 Rua da Moeda, 1 - Porta O/P 1200-275 Lisboa +351 213 973 730 www.loungelisboa.com.pt/blog

TABACARIA | BCS BAR

Um pequeno bar numa antiga tabacaria, com excelentes bebidas preparadas a preceito. Os clientes espalham-se em volta da esquina e o cenário parece ter sido montado para uma filmagem. Onda cool e boa música. Segunda a Quinta e Domingo das 18h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 03h00 Rua de São Paulo, 75/77 1200-426 Lisboa +351 211 521 550 www.a-tabacaria.negocio.site

TABERNÁCULO | BCS BAR

Todos os dias das 14h00 às 02h00 Rua de São Paulo, 218 1200-109 Lisboa +351 213 470 216 www.facebook.com/tabernaculobyhernani

MUSIC BOX | BCS ESPECTÁCULOS

Segunda a Sábado das 23h00 às 06h00 Rua Nova do Carvalho, 24 1200-292 Lisboa +351 213 473 188 www.musicboxlisboa.com

SKY WALKER | BA LOJA

Mochilas, ténis e roupa para se poder sentir verdadeiramente hipster. Segunda a Sábado das 10h00 às 21h00 Domingo das 14h00 às 20h00 Rua do Norte, 12 1200-286 Lisboa +351 213 461 048 www.facebook.com/Skywalkerlx

O BOM O MAU E O VILÃO | BCS BAR

Uma casa de copos e cultura. Uma casa, porque de um apartamento se trata, transmitindo por isso mesmo um ambiente caseiro, de copos porque tem bares bem servidos, de cultura porque para além do piano muitas vezes utilizado, é variada a programação que vai do cinema à música. Segunda a Quinta das 19h00 às 02h00 Sexta a Domingo da 19h00 às 03h00 Rua do Alecrim, 21 1200-014 Lisboa +351 964 531 423 www.facebook.com/obomomaueovilao

FÁBRICA MUSA | BXM BAR

Terça das 16h00 às 00h00 Quarta das 17h00 às 00h00 Quintas das 20h00 às 00h00 Sexta das 18h00 às 02h00 Sábado das 13h00 às 02h00 Domingo das 13h00 às 22h00 Rua do Açúcar, 83 1950-006 Lisboa +351 213 877 777

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Sempre óptima música em bom ambiente e com um horário de fecho bem conveniente (4h00). O melhor prolongamento da noite do Bairro Alto ou Cais do Sodré, antes de decidir se a noite é para ir até ao fim.


ALTERNATIVO DAMAS | GM

BAR/SALA DE CONCERTOS Uma sala de concertos que é um bar e um (bom) restaurante. O lugar para onde se deslocaram os desiludidos com a transformação comercial e turística do Bairro Alto. A melhor programação alternativa da cidade. Terça das 12h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 18h00 às 02h00 Sexta das 18h00 às 04h00 Sábado das 12h00 às 04h00 Domingo das 18h00 às 00h00 Rua da Voz do Operário, 60 1100-621 Lisboa +351 964 964 416 www.facebook.com/DAMASLISBOA/

CINEMA IDEAL | BCS CINEMA

Quando os cinemas de rua fecharam, abriu o Ideal, com programação alternativa e cuidada. Rua do Loreto, 15 1200-086 Lisboa +351 210 998 295 www.cinemaideal.pt

FINALMENTE | PR BAR

O bar gay mais antigo da cidade, por onde passou meia Lisboa nos tempos em que a noite a n que mantém um show de travestis em periodicidade diária. Para uma noite realmente diferente. Vá numa segunda-feira quando a noite parece morta e divirta-se com as audições do “lugar às novas”. Segunda a Domingo das 00h00 às 06h00 Rua de Palmeiras, 38 1200-313 Lisboa +351 213 479 923 info@finalmenteclub.com www.finalmenteclub.com

CASA INDEPENDENTE | AR

MIRADOURO DO ADAMASTOR | BCS ESPLANADA

O mítico Adamastor, onde o por do sol é mais bonito, o quiosque serve bebidas e tostas a preços para portugueses e o cheiro de substâncias ilícitas envolve um ambiente descontraído onde se cruzam músicos de rua, turistas e lisboetas. Era assim até a Câmara Municipal o encerrar a ameaçar enjaulá-lo. Segunda a Domingo das 10h00 às 04h00 Miradouro de Rua de Santa Catarina 1200-109 Lisboa +351 213 430 582

ZDB | BA

ASSOCIAÇÃO CULTURAL A instituição da vanguarda cultural de Lisboa. As novas tendências passam sempre por aqui. Rua da Barroca, 59 1200-049 Lisboa +351 213 430 205 www.zedosbois.org

INCÓGNITO | BC BAR

Simplesmente a melhor música de Lisboa, para quem gosta de indie pop-rock. Mesmo com espaço à cunha, podemos dançar como se não houvesse amanhã ao som de Smiths, The Strokes ou Arcade Fire. Quarta a Sábado das 23h00 às 04h00 Rua Poiais de São Bento, 37 1200-346 Lisboa +351 213 908 755 www.facebook.com/incognitomusicbar

CHAPITÔ | CA A já histórica escola de circo com melhor vista do mundo. Aqui tem o rio a seus pés.

BAR

Não é um bar, não é uma sala de espectáculos, não é uma associação cultural. É um pouco disto tudo e um dos grandes responsáveis pela revitalização do Largo do Intendente. Um terraço perfeito para uma noite de verão e uma boa programação musical.

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Terça a Quinta das 17h00 às 00h00 Sexta e Sábado das 17h00 às 02h00 Largo do Intendente, 45 1100-285 Lisboa +351 218 872 842 www.casaindependente.com

Costa do Castelo, 1/7 1149-079 Lisboa +351 218 855 550 www.chapito.org

VODAFONE FM www.vodafone.fm


MULTICULTURAL BELLA CIAO | BC

LIVRARIA TRAVESSA | PR

Não espere pizzas nem massas com ananás. Aqui a comida é italiana de Itália, verdadeira cuccina della mamma. Não perca a massa com bróculos e o melhor tiramisu de Lisboa.

Todos os dias das 10h00 às 22h00 Rua da Escola Politécnica, 46 1250-096 Lisboa +351 213 460 553 www.facebook.com/LivrariaDaTravessaLisboa

RESTAURANTE

Segunda a Quinta das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 00h00 Sexta e Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 à 01h00 Rua de São Julião, 74/76 1100-526 Lisboa +351 210 935 708 www.cantinabellaciao.wixsite.com/bellaciao

PISTOLA Y CORAZÓN | BCS RESTAURANTE

Vá cedo, ou prepare-se para esperar. Aqui não há reservas, mas margaritas gulosas que não se consegue parar de beber. E tacos, muitos e variados, num ambiente animado e ruidoso. Almoço: Terça a Sexta das 12h00 às 15h00 Jantar: Segunda a Domingo das 18h00 às 00h00 Almoço: Domingo das 12h00 às 15h00 Rua da Boavista, 16 1200-427 Lisboa +351 213 420 482 www.pistolaycorazon.com

CAXEMIRA | BC RESTAURANTE

O melhor indiano de Lisboa, por isso sempre cheio. Não se assuste com a entrada, suba ao primeiro andar, não perca as chamuças e vá provando os pratos. Sim, porque vai voltar várias vezes. Segunda a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 18h30 às 22h00 Rua Condes de Monsanto, 4 1100 Lisboa +351 218 865 486/+351 218 874 791

LIVRARIA

CAFEH TEHRAN | PR RESTAURANTE

Todos os dias das 12h00 às 00h00 Terça - Encerrado Praça das Flores, 40 1200-192 Lisboa +351 210 736 530 www.facebook.com/CafehTehran

ÁGUA DE BEBER | BCS BAR

Quarta, Quinta e Domingo das 18h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 03h00 Travessa de São Paulo, 8 1200-431 Lisboa +351 214 039 956

KAFFEEHAUS | BC RESTAURANTE BAR

Segunda das 12h00 às 16h00 Terça a Sexta das 12h00 às 00h00 Sábado das 11h00 às 00h00 Domingo e Feriados das 11h00 às 20h00 Rua Anchieta, 3 1200-023 Lisboa +351 210 956 828 www.kaffeehaus-lisboa.com

EL ÚLTIMO TANGO | BA Um dos melhores bifes de Lisboa, de carne argentina, grelhado, acompanhados de batata assada com manteiga de ervas e salada de agrião. Tudo em ambiente calmo, para fumadores e com o melhor tango do mundo como banda sonora. Segunda a Quinta das 19h30 às 23h00 Sexta e Sábado das 19h30 às 23h30 Rua do Diário de Notícias, 62 1200-145 Lisboa +351 213 420 341

TANTURA | BC RESTAURANTE

Terça a Domingo das 18h30 às 20h00 Rua do Trombeta, 1D Bairro Alto 1200-471 Lisboa +351 218 096 035 www.tantura.pt

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RESTAURANTE


Ana Pérez-Quiroga

Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade

No Fanal à descoberta da floresta Laurissilva, património da Mundial da Humanidade - UNESCO Esta floresta representa 20% do território da ilha e situa-se a uma altitude entre os 300 m e os 1400 m na costa norte e os 700 m e os 1600 m na costa sul. É uma das florestas húmidas subtropicais mais bem preservadas do planeta e a sua origem data da Época Terciária (20 milhões de anos). Constituída por lauráceas - loureiro, o vinhático, o til, e o barbusano, maioritariamente. Fazer uma caminhada nesta floresta e seguir uma levada (canais de irrigação), é um dos prazeres maiores que se pode desfrutar.

MUDAS - Museu de Arte Contemporânea da Madeira Situado na Calheta, este espaço é vocacionado para manifestações artísticas contemporâneas. Os dois edifícios, Museu (da autoria do Arq. Paulo David) e a Galeria (antiga casa das Mudas) permitem mostrar uma parte significativa da sua coleção de arte, espetáculos performativos, musicais, cinema e ainda projetos das residências artísticas como foi o meu caso. Patente até 20 de janeiro de 2021 a exposição/instalação intitulada “¿De que casa eres? Los niños de Rusia. Episodios de un cotidiano #2”.

Fajã dos Padres

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Este terreno de cultivo à beira-mar tem uma falésia de 250m de altura, sendo possível o seu acesso por teleférico ou barco. A viagem no teleférico é surpreendente pelas múltiplas vistas sobre a fajã. Um cais e uma praia de seixos rolados, um restaurante com uma comida deliciosa (feita com produtos locais), uma unidade hoteleira (com casas independentes), um produção agrícola biológica que comercializam (com umas mangas e bananas surpreendentes) e uma vinha da famosa casta Malvasia (foi com um vinho da Madeira desta propriedade que a declaração de Independência dos EUA foi celebrada), tornam este complexo extraordinário.


Madeira

Um passeio por sítios inesquecíveis

Bananas As famosas bananas da madeira, são plantadas até 250 m de altitude e devido ao declive da ilha, obriga a construção em socalcos (poios), irrigados pelas levadas. As bananeiras nascem de um rizoma que pode viver 15 anos, cada bananeira mede entre 1,30 a 1,70 m de altura, têm um ciclo de vida de um ano e habitualmente, cada árvore dá 1 cacho de bananas, variando o número entre 5 a 20 pencas (grupos de até 20 bananas) e pesar até 50 kg. As novas bananeiras que nascem são os rebentos da anterior, que morre ou é cortada servindo a sua seiva de alimento a nova. Estas são biológicas, há já imensas plantações que apostam numa agricultura sustentável.

Museu da Fotografia da Madeira Atelier Vicente’s Um novo museu no centro histórico do Funchal, para visitar demoradamente. O Atelier Vicente’s foi o primeiro estúdio de fotografia do País, aberto em 1848 por Vicente Gomes da Silva. Do seu espólio podemos ver, a casa e o mobiliário de origem restaurado, diversos cenários para a criação de ambientes fotográficos, uma coleção de máquinas fotográficas, o laboratório de revelação e impressão, e possui ainda um património surpreendente, um arquivo fotográfico de cerca de 800 mil negativos, feitos entre 1870 e 1978.

Quinta das Vinhas A minha estadia, de 21 dias, foi passada num dos espaços hoteleiros mais acolhedores onde já tive a oportunidade de ficar. Esta Quinta, no Estreito da Calheta, pertence à mesma família desde o início da colonização da ilha. Uma casa principal e diversas casas de lavoura, foram reconvertidas em alojamento e estão orientadas com vista para o mar, proporcionando uma tranquilidade sem fim. Esta propriedade com 2 hectares de vinha biológica, possui mais de 70 castas diferentes, o que fazem dela um caso de estudo vinhateiro. Algumas das árvores que aqui se encontram estão classificadas como espécies a proteger, é o caso deste carvalhos gigantes que tutelam a casa principal.


Belmond Reid’s Palace Vista da varanda, na hora do lanche, o famoso chá da tarde, que é uma instituição. Os empregados atenciosos, o serviço irrepreensível, a variedade e quantidade tornam esta refeição da tarde num verdadeiro banquete. É imperdível. William Reid mandou construir este hotel em 1891, com projeto dos arquitetos George Somers Clarke e John Thomas Micklethwaite e é, para mim, o mais lindo hotel da Madeira. Propriedade do grupo hoteleiro Belmond Ltd.

Mercado do Lavradores Projeto do Arq. Edmundo Tavares, um das grandes obras ao gosto do Estado Novo, foi inaugurado em 1940, no centro do Funchal. Notável a decoração dos painéis de azulejos com temática regional pintados por João Rodrigues e executados na Fábrica de Cerâmica Constância / Faiança Battistini de Maria de Portugal em Lisboa. Continua a ser ainda hoje um dos locais de atração turística, pela variedade de produtos que se podem comprar.

Senhora do Monte

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Festas da Padroeira do Funchal, que este ano foram de 5 a 15 de agosto, sendo o dia 14, o dia da Santa e o dia 15, o dia do Santo de Guarda. Diversas lendas estão associadas a esta igreja, que remonta a 1470, ano da sua primitiva construção. O Imperador Carlos I de Habsburgo da Áustria está sepultado nesta igreja, foi beatificado pelo Papa João Paulo II em 2004, e é um lugar de romaria e devoção. Carlos I viveu na Quinta do Monte também conhecida por Quinta dos Jardins do Imperador, onde faleceu em 1922, quinta em fase de requalificação por parte da Câmara. Como nota de interesse, esta quinta pertenceu durante um breve período à pintora Lourdes Castro. É do Monte que partem os Carros de cesta de vime que descem a encosta. Uma experiência cheia de adrenalina.


Mercado em Santo (António) da Serra Espetadas de carne, uma das especialidades gastronómicas, a não perder. Cada um compra a carne a seu gosto no talho do mercado e assa-as na churrasqueira em frente. As mesas para comer estão sempre prontas e o pão e as bebidas são compradas noutra loja ao lado. Aberto aos domingos das 9 às 6 da tarde. bancas de flores propiciam um agradável aroma ao espaço.

Casa de prazer Casa de prazer, é uma casa de fresco, de construção em madeira, que se ergue em local fresco, de brisas suaves e com vista, ao lado da casa principal, tanto nos centros urbanos como nas quintas. São de um requinte e detalhe extremo, os desenhos geométricos que o trabalho em talha possibilita refletem o gosto dos seus proprietários, tal como esta casa de prazer que se encontra no jardim da Casa-Museu Frederico de Freitas e que me proporcionou, com o seu mobiliário de vime pintado em azul pastel, um belo descanso.

Pico do Areeiro

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Tem 1818m de altitude e é o terceiro ponto mais alto da ilha. É fascinante o que podemos ver à nossa volta do cimo do marco geodésico, para além dos picos que nos rodeiam (Ruivo, o mais alto com 1861 e o das Torres, com 1851 m,) vemos ainda a Ponta de São Lourenço, o Curral das Freiras e a ilha de Porto Santo, mas não tive essa sorte, porque estavam as nuvens muito baixas). Pode-se fazer uma caminhada entre o Areeiro e o Ruivo, um percurso deslumbrante, vocacionado para os mais experientes.


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outubro ounada por Francisco Mallmann

nós estávamos juntas então você disse que não pode mais amar um homem como eu que sempre escorrega para o outro lado da palavra olha eu nunca quis refundar a infância recontar os anos retornar no tempo olha eu nunca quis chamar o mundo de casa mas sempre que posso eu tiro os sapatos

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você pode ir embora sim


Escrever num quarto com vista Literatura na Baía de Cascais

“Acabei de chegar, mas acho que encontrei o local perfeito para escrever o meu próximo livro.” Jonathan Coe

A vila de Cascais tem vindo a receber alguns dos mais destacados escritores mundiais, por iniciativa da Fundação D. Luís I, através do Programa de Residências Internacionais de Escrita. Iniciado em 2018, já acolheu nomes consagrados da literatura internacional, como Olivier Rolin, Michael Cunningham e Jonathan Coe, que acabou de chegar à Cidadela. Organizado no âmbito da acção cultural da Câmara Municipal de Cascais, o programa funciona por convite a autores com prestígio internacional, que, durante dois meses, além de escrever, podem divulgar o seu trabalho em Portugal, através de intercâmbios com agentes culturais portugueses, nomeadamente a participação num jantar quinzenal com convidados (Book Dinner Club), a participação num festival literário fora de Lisboa e a realização de duas Masterclass, uma aberta ao público e outra, exclusiva para estudantes de Escrita de Ficção.

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No final da sua estadia, Olivier Rolin confessou, “[…] já tenho saudades da minha estada em Cascais... ali escrevi quase 150 páginas. Senti-me verdadeiramente em casa; não compreendo, aliás, por que já lá não estou!”, durante a qual escreveu cerca de metade do seu livro “Peregrinação”, recentemente publicado em Portugal, onde homenageia a língua e literatura portuguesas e que foi seleccionado para finalista do conceituado Prémio Goncourt.

Michael Cunningham escreveu: “Cascais salvou o meu próximo livro”, que ainda não foi publicado, mas se aguarda com expectativa. Já estão previstas para 2020, as presenças dos romancistas Javier Cercas (Abril a Junho de 2020) e Germano Almeida (Prémio Camões 2018). A Bica tem o gosto de publicar os depoimentos de Olivier Rolin e de Michael Cunningham e uma pequena conversa com Jonathan Coe, recém-chegado a Cascais.


por Olivier Rolin

Portugal sempre me acolheu muito bem, desde a tradução do meu segundo livro, há... 30 anos! Mais uma vez, foi assim. TUDO me foi agradável: o mar diante da janela; os barcos e as nuvens; os faróis à noite (sou um pouco marinheiro); a beleza da Cidadela e do hotel que nela se dissimula de um modo tão discreto, tão elegante; a amabilidade, não, mais do que isso, a atenção constante e muito afetuosa dos meus anfitriões, os da Fundação Dom Luís I, bem como os da pousada Pestana Cidadela Cascais; a Língua Portuguesa, na qual (finalmente!) fiz progressos; a presença na cidade de Lisboa, ao mesmo tempo próxima e distante, no término desse pequeno comboio a bordo do qual por vezes temos a impressão de estar num barco... Ah, quase me esquecia: e os charutos do Professor Salvato! De qualquer forma: já tenho saudades da minha estada em Cascais... Ali escrevi quase 150 páginas. Senti-me verdadeiramente em casa; não compreendo, aliás, por que já lá não estou! Obrigado, e até breve!

por Michael Cunningham

20 de Outubro de 2019 Cheguei à residência da Fundação D. Luís em Cascais no início de maio de 2019, com um rascunho de um romance que parecia estar a passar pelo ralo proverbial. O livro simplesmente se recusou a encontrar um foco, a ganhar impulso ou a produzir personagens convincentes e complicados. Embora contivesse várias palavras escritas em várias páginas, faltava-lhe quase todos os elementos que um romance requer. Isso acontece. Um escritor, mesmo aquele que está envolvido há algum tempo, pode se perder num livro em particular. Essa condição parece surgir do material que acha extraordinariamente difícil, misturado com o puro mistério da própria criatividade, que tem um jeito de ir e vir sem muito aviso prévio. Eu estava pensando seriamente em abandonar o livro completamente, depois de quase dois anos de esforço, quando parti para Cascais. Não é exagero dizer que os meus dois meses na residência literalmente resgataram o romance. Dois meses de solidão em um país estrangeiro para mim - com tudo o que implica em foco e uma nova perspectiva sobre o próprio mundo - acabaram por ser exatamente o que o romance precisava. Desde que voltei, vejo-me a dizer a amigos que passei o tempo em dois países estrangeiros paralelos: o país de Portugal e o país do romance.

Na verdade, não posso expressar adequadamente minha gratidão à fundação.

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O romance ainda não está terminado, mas está vivo, depois de quase ter sido entregue à morte. Deverá estar finalizado até o final de dezembro próximo, graças ao presente desses dois meses.


Jonathan Coe “O Coração de Inglaterra”

Jonathan Coe nasceu no interior de Inglaterra, em 1961, mas vive em Londres há cinquenta anos e, como afirma, quase começa a entender a cidade. Europeísta convicto, acordou chocado com a notícia da vitória do Brexit, no dia seguinte ao referendo que abalou a política europeia. Decidiu que o seu próximo livro seria sobre o tema. O Coração de Inglaterra, que acaba de ser editado em Portugal pela Porto Editora, recupera as personagens de Rotters Club, devolvendo-as a uma Inglaterra dividida.

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Conversámos com o autor de Exposição e Que Grande Banquete! sobre o seu mais recente livro, sobre o Brexit e sobre o humor britânico, na Livraria Déjà Lu, na Cidadela de Cascais, onde acabou de chegar para dois meses de residência literária


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O livro acaba em Setembro de 2018, há mais de um ano, e, sinceramente, nessa altura estava mais optimista do que estou agora, porque me parecia que, então, iríamos abandonar a EU em condições razoáveis, que estavam a ser negociadas por Theresa May, mas com a ascensão de Boris Johnson, parece que as posições se extremaram, que os ingleses estão ainda mais divididos, talvez por Boris se ter rodeado de políticos neoliberais, que têm contribuído para uma viragem à direita da política britânica e isso implicou um extremar de posições. Para o Jonathan, que é um europeísta convicto, porque é que o Leave venceu? De facto, eu não quero abandonar a EU. Acho que a Grã-Bretanha devia permanecer na União, no entanto, já não há nada a fazer. Agora, porque é que aconteceu? Por todo a Europa, há pessoas chateadas com a União Europeia e movimentos radicais a crescer de forma preocupante. Mesmo em Portugal, segundo sei, pela primeira vez, a extrema direita chegou ao Parlamento. Felizmente elegeu só um deputado. Na Grã-Bretanha, as pessoas também estão descontentes com o sistema político, porque não lhes trás prosperidade, não promove uma repartição igualitária dos recursos, sentem-se negligenciadas, frustradas e o que a campanha pelo Leave, inteligentemente fez, foi pegar neste sentimento de descontentamento e direccioná-lo para Bruxelas. “Se sairmos da EU, tudo ficará bem.” Esta foi a grande mentira da campanha pela saída, mas foi uma mentira muito eficiente.

Eu já andava há bastante tempo com a vontade de escrever um livro que recuperasse as personagens de Rotters Club, mostrando como seria a sua evolução até ao presente, entretanto, aconteceu o Brexit e senti uma urgência enorme de escrever sobre isso. Ainda hesitei, mas pensei, “porquê não misturar?”. Foi o que aconteceu, até porque, para escrever sobre algo tão recente, era confortável ter personagens que já conhecia bem. Uma das características particulares da sua escrita é aquilo a que nós, continentais, chamamos british sense of humor, de que gostamos muito e que foi imagem de marca de alguns dos mais importantes escritores ingleses do século passado, Evelyn Waugh, Wodehouse, Mitford, David Lodge. Como está o humor na Inglaterra nos tempos que correm? Felizmente o humor britânico não mudou muito nos últimos 100 anos, embora tema que o humor utilizado por todos esses autores de que fala e talvez por mim próprio, hoje, em Inglaterra, seja considerado antiquado. Costuma dizer-se que as nuances do humor se perdem na tradução, mas, curiosamente, os meus leitores franceses, italianos, portugueses, entendem melhor esse humor do que os britânicos, que preferem os aspectos mais sérios da minha escrita. Estranho, não é? (Risos). Talvez não (risos). Há uma história que define isso muito bem. Na Alemanha, todos os natais, passa na televisão uma comédia inglesa chamada Dinner for One, que todos os alemães sabem de cor, porque acham que é a súmula do humor britânico. Em Inglaterra ninguém faz ideia do que seja. (Gargalhada).

A eficiência dessa campanha resultou, sobretudo, na provícia, porque as grandes cidades votaram pela continuidade.

Já tem na cabeça o romance que se prepara para começar a escrever aqui, em Cascais?

Resultou, desde logo, em Inglaterra, porque na Escócia, na Irlanda do Norte e, penso que em Gales, o Remain venceu. Depois, Londres votou pela manutenção por larga maioria, 75%, se não me engano, por isso sim, foi um problema das pequenas cidades e vilas da província, que é exactamente onde focalizo o meu livro.

Sim, já tenho, mas não gosto de falar no trabalho que estou a desenvolver, embora possa revelar que é algo completamente diferente do que já fiz anteriormente e, pela primeira vez, desde há muito, me questiono se serei capaz de escrever este romance. É um livro sobre humor e sobre como o humor e a literatura são intemporais. Não sei mesmo se serei capaz, mas estou muito feliz por estar aqui, e por poder começar este trabalho neste local maravilhoso e inspirador.

Revisitando as personagens de Rotters Club. Revisitando, antes de mais, uma região onde já não vivo, mas que continuo a conhecer muito bem, porque tenho lá família. No fundo, senti que estava numa óptima posição para escrever este livro, porque me considero um londrino, vivo em Londres há cinquenta anos, começo a entender Londres (risos), mas nasci nos Midlands, por isso senti-me confortável a escrever um livro que retrata essas duas Inglaterras muito diversas.

por João Moreira

Bruno Esteves

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Em Middle England, o seu mais recente romance, debruça-se sobre a grande questão política, do momento, no Reino Unido e na Europa, o Brexit.


Susan Sontag: A história de uma feiticeira Toda a gente sabe quem é a cronista e escritora Dorothy Parker; a sua “homóloga” britânica Rebecca West; a filósofa e política Hannah Arendt; Joan Didion, Susan Sontag, Nora Ephron... Estas são algumas das mulheres retratadas neste livro. De proveniências e famílias intelectuais e artísticas muito diversas, o que têm estas mulheres em comum? O talento, a argúcia, a precisão do pensamento. E o brilhantismo e o arrojo das opiniões que tinham e expressavam desassombradamente. Biografias, resenhas críticas, citações, anedotas, piadas, polémicas, este é um livro que põe as suas protagonistas em diálogo entre si e em diálogo com as mulheres do ano 2018. Este é um extracto de Afiadas: As Mulheres que Fizeram da Opinião uma Arte, de Michelle Dean, a publicar em Janeiro pela Quetzal. Francisco José Viegas

A muito circunspecta e jovem Susan Sontag não podia ter tido um começo mais idiossincrático como escritora. Uma recensão crítica no Times chamava a The Benefactor “um anti-romance picaresco,” o que, embora afirmado com intenção elogiosa, não podia contribuir para torná-lo um sucesso de vendas. O livro segue o percurso de um narrador de sessenta anos, do sexo masculino, Hyppolite, enquanto vai vivendo em Pais uma vida de boémia. O seu discurso é sinuoso e introspectivo. Nos apontamentos que mais tarde publicou, Sontag afirmou que tentou descrever a “reductio ad absurdum de uma perspectiva estética da vida – ou seja, a consciência solipsista,” mas talvez ao descrever o solipsismo Sontag apenas tenha conseguido penetrar profundamente na sua própria consciência. Nem todos estão preparados para entender as minudências de tais mecanismos mentais, e isso deve ter contribuído bastante para que o livro não se tenha tornado um êxito comercial. Diga-se, contudo, que Arendt, a quem o editor tinha enviado o original para que desse uma opinião, escreveu-lhe, rasgando-se em elogios: Acabei há pouco de ler o romance de Susan Sonntag [sic] e penso que é extraordinário. As minhas sinceras felicitações: pode ter descoberto uma escritora de elevado gabarito. Ela é, sem sombra dúvida, muito original e soube caldear essa originalidade com o que aprendeu com a literatura francesa. Por mim, não vejo nenhum mal nisso. Admiro sobretudo a sua rigorosa consistência, que lhe permite evitar qualquer descontrolo imaginativo, e o modo como consegue criar uma história a partir de sonhos e pensamentos (...). Senti um enorme prazer ao ler este livro e terei todo o gosto em estar presente na sessão de lançamento. Não é muito claro o que Sontag conhecia então da obra de Arendt. Nos cadernos com as suas anotações, As Origens do Totalitarismo não consta da lista de livros a ler, nem, de resto, qualquer outra obra de Arendt. Contudo, nos arquivos que Sontag doou à U.C.L.A. há um exemplar do livro sobre Rahel Varnhagen com vários sublinhados a lápis e ao lado a exclamação “AH!” (Sontag terá sido a única pessoa em todo o mundo que se divertia com a prosa de Arendt.) Quando se conheceram, já ela era admiradora de Arendt. De facto, em 1967 Mary McCarthy brincava com Arendt a propósito da forma como Sontag procurava criar laços de amizade com ela:

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Quando outro dia a vi em casa dos Lowells, pareceu-me claro que fazia todos os possíveis para te conquistar. Ou então estava apaixonada por ti, o que vem a dar no mesmo. Mas diz-me cá: foi bem sucedida?


A observação era de carácter jocoso, mas a verdade é que McCarthy e Sontag estavam destinadas a ser rivais uma da outra. Há uma história várias vezes contada que diz que McCarthy costumava referir-se a Sontag como “uma imitação de mim.” Uma versão mais dramática da vez em que isso aconteceu dá conta de que McCarthy terá chegado ao pé de Sontag numa festa nos primeiros anos da década de sessenta para lhe dizer qualquer coisa como isto: “Constou-me que a Susan é o meu novo ‘eu’.” Não se sabe bem se tal encontro aconteceu mesmo. A própria Sontag afirmou ter conhecimento da história, mas afiançando que não se lembrava de a ter ouvido directamente da boca da McCarthy. E declarou aos biógrafos de McCarthy não ser capaz de dizer onde ou quando McCarthy possa ter dito aquilo. Numa entrada dos seus diários relativa a 1964, Sontag retrata McCarthy de forma neutra, o que deixa perceber que, pelo menos no início, o antagonismo era inexistente: O sorriso de Mary McCarthy – cabelo grisalho – vestido estampado de baixo custo + fofoca social . Ela é o [romance] The Group. Trata bem o marido. Este primeiro encontro deve ter decorrido em casa dos Lowells, segundo afirmou Sontag mais tarde, apenas lhe tendo ficado na memória uma conversa relativamente banal, na qual não houve elogios nem qualquer frase que se pudesse classificar como insultuosa. Apenas reteve o facto de McCarthy lhe ter dito que era óbvio que não era de Nova Iorque. - Realmente não sou. Embora sempre tenha querido viver nesta cidade, sinto que não pertenço aqui. Mas como soube? terá respondido Sontag. - Porque a Susan sorri por tudo e por nada, disse McCarthy. É de supor que um comentário deste tipo tenha impedido o diálogo de prosseguir. “Mary McCarthy pode fazer com aquele seu sorriso tudo o que quiser, inclusive simplesmente sorrir.” Mas, pelo menos de início, McCarthy foi atenciosa para com Sontag. Em 1964 escreveu aos seus amigos, incluindo Sonia Orwell, a interceder para que a apresentassem nos círculos intelectuais europeus. Em Nova Iorque, convidou-a várias vezes para jantar, mas sem que isso representasse para McCarthy mais do que o cumprimento dos seus ritos sociais. Contudo, no convite que lhe enviou para um deles anotou o seguinte: P.S.: Reparei que escrevi o seu nome com dois enes na carta que escrevi à Sonia [Orwell]. Assim, será esse o nome a indicar junto do balcão do American Express. Acontece que McCarthy estava parcialmente equivocada no que diz respeito às origens de Sontag. Esta nascera em Nova Iorque, em 1933, e viveu em Long Island com os avós durante algum tempo. A mãe, Mildred Rosenblatt, vivia com eles quando deu à luz Sontag, porque não o quis fazer na China, onde o marido, Jack Rosenblatt, trabalhava. Tal como o pai de Dorothy Parker, Jack Rosenblatt era comerciante de peles. Tinha uma empresa de média dimensão, relativamente bem sucedida. Mas contraíra tuberculose ainda em jovem e a doença veio a matá-lo ainda Sontag não completara cinco anos. Só um ano volvido após a sua morte, Mildred Rosenblatt arranjou coragem para dizer a Susan e à sua irmã Judith, que o pai falecera. E este converteu-se numa sofrida obsessão para Sontag, ao ponto de ter escrito num dos seus contos o seguinte: “Farto-me de chorar quando vejo no cinema uma cena em que o pai regressa a casa após uma longa e desesperada ausência e abraça o filho. Ou os filhos.” Mildred, por outro lado, era uma presença asfixiante. A partir de certa altura, tornou-se alcoólica e na inteira dependência da filha mais velha, que lhe garantiu apoio e segurança. Uma das primeiras entradas dos diários, escrita aos quinze anos, mostra uma preocupação pelo bem-estar da sua mãe que não pode deixar de ser considerada exorbitante: “Só a Mãe existe no meu pensamento, é tão bonita, a sua pele é tão suave e tem por mim tanto amor.” A mãe, entretanto, voltara a casar-se, desta vez com um piloto-aviador possuidor de várias condecorações, chamado Nathan Sontag. Tanto Susan como a irmã, Judith, adoptaram o seu apelido, apesar de ele não as ter adoptado. A família viveu primeiro em Tucson e depois em Los Angeles, onde Sontag estudou, na North Hollywood High School. Diga-se em abono da verdade que Sontag, logo desde a adolescência, não mostrou inclinação para a vivência dos grandes espaços e das longas horas de ócio que são apanágio da costa oeste. Nos fragmentos autobiográficos que deixou, publicados ou não, é evidente a sua inquietação. “Eu tinha a sensação de que era marginal em relação à minha própria vida,” escreveu ela num deles. Havia qualquer coisa nela, de facto, que não encaixava ali.

Pensei para comigo: “Este idiota não sabe que o mundo também tem homens inteligentes. Acha que são todos como ele.” Porque, por muito isolada que eu estivesse, nunca me passaria pela cabeça que não houvesse gente como eu em qualquer lado.

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Em Los Angeles frequentava habitualmente a única livraria em Hollywood Boulevard digna desse nome, a Pickwick. Ler foi o seu primeiro escape. Na sua prosa, os livros surgem muitas vezes ligados a um imaginário de viagens, havendo mesmo momentos em que se lhes referia como “naves espaciais.” O consolo que achava na leitura rapidamente se transformou em orgulho e, depois, numa superioridade contraproducente. Na verdade, a leitura fez com que se fosse afastando das pessoas com quem convivia no dia-a-dia, ou seja, dos colegas e da família. Em “Pilgrimage,” o seu ensaio declaradamente autobiográfico, afirma que Nathan Sontag lhe dizia muitas vezes: “Sue, a leres dessa maneira, nunca vais encontrar marido.”


Mas esse mundo, contudo, comportava também decepções. Em “Pilgrimage,” Sontag conta como numa visita ao grande escritor Thomas Mann, que admirava profundamente e vivia então no bairro Pacific Palisades, ficou “lívida de vergonha.” Acontece que ele gostava de Hemingway, um escritor que ela estava longe de apreciar. E “falava como se estivesse a fazer a recensão de um livro.” Ela visitara-o na esperança de sentir a exaltação que os seus livros faziam adivinhar, mas nada vislumbrou. Para Sontag, a relação entre as duas coisas acabou por tornar-se um tema recorrente na sua escrita. Em busca de uma espécie de meca onde as pessoas apenas falassem de ideias e de arte, Sontag começou a ser leitora da Partisan Review. Sendo filha de pessoas a quem tais temas nunca despertaram qualquer interesse, Sontag teve de fazer um esforço enorme para se adaptar à compreensão de uma nova linguagem. Uma amiga confessou a um biógrafo de Sontag que ela não tinha percebido nenhum dos artigos que lera no primeiro número que comprou. Curiosamente, Sontag veio mais tarde a ser conhecida como pessoa intimidante e mesmo, segundo alguns, pretensiosa. (Uma amiga, Terry Castle, investigadora e professora universitária, recorda-se de a ter ouvido dizer que adorava “as óperas menos conhecidas de Händel”). Contudo, não restam dúvidas de que tinha trabalhado arduamente para adquirir um estilo de escrita que havia de permitir-lhe falar de arte de vanguarda no futuro. Foi um processo não natural, pelo qual lutou, e por isso o valorizava tanto. A sua experiência provava que a erudição era possível através da leitura. Mais tarde, quando lhe pediam que indicasse os nomes que mais tinham contribuído para a sua definição como escritora, começava sempre por referir Lionel Trilling. As influências de Walter Benjamin, Eias Canetti e Roland Barthes chegaram, portanto, muito depois. Note-se que na obra de todos eles abundavam alusões e referências com base na leitura atenta de outros autores num estilo que indicava uma forte preparação académica. Considerando tudo isso, talvez não seja de estranhar que a única pessoa cuja influência Sontag sempre negou foi Mary McCarthy. E mostrava-se mesmo peremptoriamente assertiva quando se lhe referia: McCarthy era uma “escritora que nunca me interessou.” É fácil imaginar porquê. A escrita de McCarthy raras vezes possuía qualidades que a pudessem empolgar, adstrita como estava à realidade social de uma classe com a qual Sontag nunca se sentiu à vontade, na vida como na escrita. Por outro lado, embora sem o dizer de forma explícita, Sontag dava a entender que no mundo dos homens inteligentes no qual desejava participar, a sua condição de mulher não a preocupava por aí além. De facto, nesses primeiros anos nunca pareceu atribuir qualquer valor à questão de saber como a receberiam esses homens que considerava intelectuais sérios. Havia percorrido já um longo caminho. A entrada na universidade deu-lhe a primeira possibilidade de sair de uma vida de certo modo “à margem.” Planeou tudo com o máximo cuidado, acabando o curso secundário o mais depressa possível a fim de cumprir essa vontade sem demoras. Desde jovem que Sontag tinha a ambição de ir para a universidade de Chicago; nela se estudavam as grandes obras da literatura, o que ia ao encontro das necessidades intelectuais de uma jovem como ela, sedenta de conhecimento. A sua mãe, contudo, talvez ainda não preparada para cortar o cordão umbilical, insistiu em que fosse para Berkeley durante um semestre, o que veio a acontecer em 1949, tinha ela dezasseis anos. Aí, no programa de troca de livros de estudo, Sontag conheceu uma mulher jovem e alta chamada Harriet Sohmers, que viria a tornar-se fundamental ao longo de toda a sua juventude. A pergunta que Sohmers costumava fazer para entabular conversa era perfeita para qualquer jovem rapariga com aspirações intelectuais: “Já leste O Bosque da Noite?” Pouco antes de terminar o curso, Sontag começou a interrogar-se sobre se sentia atracção por mulheres. Tinha-se esforçado por reprimir esse impulso saindo com homens e fingindo ter atracções que não existiam. Sohmers foi quem a apresentou nos círculos lésbicos de São Francisco quando viveu em Berkeley e foi também a primeira mulher com quem dormiu. A experiência foi por ela contada como a de uma autêntica libertação: A minha noção da sexualidade transformou-se por completo – Graças a Deus! – a bissexualidade como expressão da plenitude de um indivíduo – e a rejeição frontal da perversão – sim, porque é uma perversão – que limita a experiência sexual, tentando retirar-lhe a fisicalidade com coisas como a idealização da castidade até surgir a “pessoa certa” – a abolição da pura sensação física sem amor, da experiência plural.

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Depois de descoberto o seu caminho para a sensualidade, Sontag começou por ter um longo romance com Sohmers e depois com outra mulher. Nas páginas do seu diário escreveu que se sentia renascida. Recriminou-se por ter duvidado quando a mãe lhe sugeriu Berkeley, pensando que não teria tido estas experiências se não tivesse ido para São Francisco. Ao longo de toda a sua vida, Sontag namorou com mulheres e homens, mostrando-se por vezes reticente em classificar a sua sexualidade, apesar de a maioria das suas relações mais importantes terem sido com mulheres. Era uma forma de libertação pessoal, do foro privado. Foi sempre uma pessoa reservada, sendo poucos os textos autobiográficos. Mesmo o eu de enunciação da sua obra, a voz que nela fala, não é corporizada numa pessoa, tal como em Rebecca West. A sua voz afirma-se como uma força da natureza, mas sem experiências especificamente pessoais a relatar. Houve em certos meios grande desilusão por Sontag nunca se ter assumido publicamente como bissexual ou lésbica. Mas a relutância em fazê-lo talvez não estivesse relacionada com a ocultação da sua homossexualidade. Acontecia, muito simplesmente, que ela separava muito claramente as circunstâncias pessoais da sua vida da obra que dava a ler.


Sontag estava há já algum tempo em Berkeley quando recebeu uma carta da universidade de Chicago a informá-la da sua admissão e também de que lhe fora atribuída uma bolsa de estudo. Levava no espírito a firme vontade de se dedicar ao estudo do rigoroso currículo do curso quando lá chegou no Outono de 1949. Em Chicago, houve vários professores por quem Sontag nutriu forte admiração. Apaixonou-se por Kenneth Burke, que, quando jovem estudante, partilhara um apartamento em Paris com Hart Crane e Djuna Barnes. (“Pode imaginar o que isso significou para mim,” disse Sontag numa entrevista.) Mas foi com um homem que lá conheceu, no segundo ano, Philip Rieff, que viria a casar-se poucos dias após o primeiro encontro. Poderá parecer uma reviravolta surpreendente na sua vida, considerando as relações homossexuais que teve em São Francisco, mas Sontag afirmou sempre que a sua escolha tinha sido feita por amor e em total liberdade. No entanto, é possível que tenha havido outras motivações. Durante os primeiros meses em Chicago, Sontag leu um ensaio de um aluno de Freud que afirmava nas primeiras páginas o seguinte: As investigações que levámos a cabo mostram à evidência que, no caso dos homossexuais, a via da heterossexualidade sofre uma espécie de bloqueio, mas seria incorrecto considerar que ficou obstruída para sempre. Por outro lado, numa carta que guardou entre os seus diários, Sontag contou a uma amiga da escola secundária que o dinheiro que o pai deixara à mãe acabara e que o negócio do tio tinha ido à falência. “Agora ele precisa de todo o dinheiro que possa arranjar para não ir parar à prisão – e já não consegue sustentar-nos.” O mais provável era que tivesse de trabalhar, a não ser que encontrasse outra fonte de rendimento que lhe permitisse prosseguir os estudos universitários. Philip Rieff era onze anos mais velho do que a sua mulher. Tinha tirado o curso de sociologia e preparava uma tese de doutoramento sobre Freud. Tinha fama de ser um professor fascinante, mas com tendência para a melancolia. Sontag nunca se referiu acerca da eventual atracção física que os uniu, mas o vínculo intelectual, esse, foi transformador. Sontag contou numa entrevista que, quando lhe perguntou se queria casar com ele, ela respondeu: “Deves estar a brincar!”. Mas não estava. E foi a forte manifestação do seu desejo que a levou a aceitar. “Caso-me com o Philip em plena consciência + por medo da minha tendência para o comportamento auto-lesivo,” escreveu ela nos seus cadernos. Não era propriamente o tipo de reacção que se podia esperar de uma jovem noiva, mas por outro lado, a verdade é que tudo indicava tratar-se de um casamento de conveniência. De início, a parceria funcionou. Os Rieffs passaram “sete anos a conversar.” Os debates começavam durante o dia e prolongavam-se pela noite fora, continuavam no quarto e até na casa de banho. Começaram a trabalhar juntos no livro que ele estava a escrever sobre Freud. A este propósito, Sontag virá dizer mais tarde que tinha sido ela a autora. Entretanto, acabou o curso e foi com Rieff para Boston, onde ele ia leccionar na universidade Brandeis. Começou a preparar o mestrado em filosofia, primeiro na universidade de Connecticutt e depois em Harvard, onde também se doutorou. Em 1952, ainda antes de fazer vinte anos, deu à luz um filho, David. Contrariamente ao que se passou entre Rebecca West e H. G. Wells, cujo filho também nasceu quando a mãe tinha dezanove anos e tentava ainda perceber o seu lugar no mundo, o casamento com Rieff foi benéfico para Sontag, pelo menos no início. Ia no caminho certo para atingir o estrelato académico. Os professores elogiavam a sua inteligência fora do comum e foi a melhor aluna do seu curso em Harvard. E após alguns anos do que parecia, visto de fora, uma espécie de idílio intelectual, a American Association of University Women ofereceu-lhe finalmente uma bolsa de estudo em Oxford para o ano lectivo de 1957/1958, que aceitou com a anuência inicial de Rieff. Nessa altura, a vida demasiado equilibrada que levava com Rieff começou a provocar irritação em Sontag. Enquanto foi casada com ele não publicou nada, à excepção de uma crítica desinteressante das traduções de Ezra Pound para a New Leader. Mais tarde, no seu romance In America, a narradora de Sontag descreveria como descobriu, aos dezoito anos, que tinha casado com uma imitação de Edward Casaubon. Casaubon era uma personagem de Middlemarch, de George Eliot, o idoso marido da protagonista do romance, Dorothea Brooke, que fica condenada para sempre a uma vida infeliz devido ao compromisso estabelecido quando era ainda muito jovem.

“Demorei nove anos a decidir que tinha o direito, o direito moral, entenda-se, de me divorciar do Senhor Casaubon,” conta a narradora de In America. O ano em Oxford representou o fim da linha para os Rieffs. Sontag foi sozinha. Quanto a David, passou a viver com os avós. Após quatro meses em Oxford, Sontag desistiu da bolsa e partiu para Paris a fim de frequentar a Sorbonne e conhecer melhor a cultura

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“Quem inventou o casamento só pode ter sido um especialista em tortura,” escreveu Sontag no seu diário relativo a 1956. “É uma instituição que corrói e mata os sentimentos.” O que em tempos chegara a parecer uma união entre almas gémeas tornou-se numa espécie de prisão. Rieff era possessivo e na opinião de Sontag um “ditador emocional.” Susan sentia-se perdida. Contou a Joan Acocella ter ido sozinha ao cinema ver Rock Around the Clock, um filme comercial, sem grande significado, mas divertido, feito com a intenção de aproveitar o sucesso da canção com o mesmo nome, que obteve grande sucesso em 1956. Ela adorou o filme, mas de repente apercebeu-se de que não tinha ninguém com quem falar sobre ele.


francesa. Aí voltou a encontrar Harriet Sohmers, reataram a relação e conheceu através dela a dramaturga cubana María Irene Fornés. Quando voltou para Boston, em 1958, sentiu a auto-estima suficientemente em alta para poder dizer a Philip Rieff, logo no aeroporto, que queria o divórcio. Foi buscar David aos avós e mudou-se com ele para Nova Iorque. Fornés foi ter lá com eles. Um dia, as duas estavam a uma mesa no café Le Figaro, em Greenwich Village, a falar da vontade que tinham de escrever, mas debatendo-se com a questão de não saberem bem como começar. Na versão de Sontag – consta que há várias –, Fornés ter-lhe-á dito: “Olha, porque não começas já a escrever o teu romance?” Eu respondi: “Sim, hei-de pensar nisso.” E ela disse: “Não estás a perceber, eu queria mesmo dizer já, agora, neste momento.” Ao que parece, a conversa fez com que saísse logo do café, fosse para casa e escrevesse as primeiras três páginas do romance que viria a chamar-se The Benefactor. Como disse mais tarde, a conversa representou uma espécie de “cheque em branco.” Continuou a escrever ao longo dos quatro anos seguintes e muitas vezes com David ao colo, segundo as suas próprias palavras. O processo de gestação do livro duraria mais do que a sua relação com Fornés. Quando estava perto de terminar, David tinha dez anos e Sontag gostava de contar que o filho ficava a seu lado a acender-lhe os cigarros enquanto escrevia à máquina. O livro não se vendeu ao ponto de a fazer ganhar dinheiro e não obteve críticas muito favoráveis – uma delas dizia mesmo como estranho elogio que respirava uma “segurança arguta, serena e doméstica” –, mas o simples facto de publicar um romance fez com que Sontag se sentisse mais confiante no ambiente de Nova Iorque. Conheceu numa festa um dos coordenadores da Partisan Review, William Phillips, e perguntou-lhe se podia escrever para a revista. E ele encarregou-a da crítica de teatro. “A Mary teve essa função a seu cargo durante algum tempo, como deves saber,” terá ele observado na ocasião. Sontag não tinha grande interesse por teatro, mas como desejava, mais do que tudo, publicar na Partisan Review, aceitou. Escreveu duas críticas, nas quais se afastou do tema a tratar, usando várias derivas que a levavam sempre à sua verdadeira paxão, o cinema, até se dar conta que não lhe era possível continuar. O que ela queria era ser romancista, segundo dizia às pessoas. Mas, em termos de edição, o panorama literário não era nada favorável. Tal como lhe disse Dwight Macdonald, “agora já ninguém se interessa por ficção, Susan.” Foram, portanto, os ensaios de Sontag a despertar o interesse das pessoas. O primeiro a obter um reconhecimento acima da média foi “Notes on Camp,” publicado na Partisan Review no Outono de 1964. “Há muitas coisas no mundo que ainda não foram nomeadas,” assim começava o ensaio. “E há outras que, embora tenham um nome, nunca foram descritas.” O camp, segundo argumentava, era uma sensibilidade consagrada ao artifício em que o estilo se sobrepõe dissimuladamente ao conteúdo. O tom despreocupado e sedutor do ensaio casava na perfeição com o tema e foi recebido de braços abertos. Sontag tinha conseguido definir uma tendência, e essa tendência, com o tempo, viria por sua vez a definir Sontag. A sua fama estava em ascensão desde a publicação de The Benefactor: ganhou o prémio da revista Mademoiselle, publicou um conto na Harper’s e, de um dia para o outro, foi convidada para fazer crítica literária na New York Times Book Review. Mas nada chamou tanto a atenção como o ensaio referido. Sontag acabou por tornar-se, assim, uma espécie de guru da cultura pop. O debate em torno do camp foi naquele tempo muito aceso, não podendo, por isso, deixar de suscitar algumas reacções mais adversas. Em Março de 1965, um colaborador do New York Times conseguiu mesmo descortinar um profissional anónimo, que evocava para denunciar o fenómeno: “Basicamente, o camp é uma forma de regressão, uma maneira sentimentalista e adolescente de desafiar a autoridade,” disse um psiquiatra anti-camp a um amigo, recentemente. “O camp é, em suma, uma maneira de fugir da realidade e das responsabilidades que ela encerra. Assim, em certo sentido, é não só infantil como potencialmente perigoso para a sociedade – é doentio e decadente.”

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A esta distância, este tom de alarme pode parecer-nos estranho, mas apenas porque, tendo o camp sido tão assimilado e integrado, é difícil vê-lo como algo de radical que, em 1964, suscitava aquele tipo de reacções. Os intelectuais de Nova Iorque, apesar dos seus ideais comunistas, não davam grande espaço aos verdadeiros proscritos culturais. Não admiravam os escritores da geração beat e sobre Allen Ginsberg, por exemplo, não tinham mesmo nada a dizer. A cultura queer era para eles praticamente inexistente. Nada traduz melhor a resistência que opunham do que parte de uma carta que Philip Rahv enviou a Mary McCarthy, em Abril de 1965, depois de a revista Time ter feito uma resenha favorável do ensaio “Notes on Camp”, dando-lhe assim um destaque inabitual para um texto publicado numa pequena revista: O estilo camp de Susan Sontag, agora muito na moda, considera vanguarda todo e qualquer tipo de perversão. Os homossexuais e os pornógrafos, masculinos e femininos, dominam em toda a linha. Mas a própria Susan, quem é? Na minha opinião, da cintura para cima a rapariga até é bastante convencional. Os maricas adoram-na porque atribui valor intelectual à sua frivolidade. Ela, por sua vez, chama-me moralista conservador, segundo consta.


Notes on Camp colocava a cultura popular num lugar que raramente ocupara. Todos os fenómenos que Sontag apresenta como “fazendo parte do cânone do camp” são fortes manifestações da cultura popular. King Kong e a banda desenhada Flash Gordon são bons exemplos disso. O espírito do ensaio era essencialmente democrático, libertando as pessoas de terem de classificar os seus gostos como bons ou maus. O camp permitia que o mau gosto fosse uma coisa positiva, ou, por outras palavras, que as pessoas se divertissem. “É ridículo ser solene e académico na análise do camp,” escreve Sontag. “Quem o faz corre o risco de produzir uma obra camp de má qualidade.” A esta distância, percebe-se nesse intuito uma modéstia calculada, mas não nos podemos esquecer que a jovem Sontag não era ainda a escritora convencida e impertinente dos últimos ensaios. Ainda procurava o seu estilo próprio e, de facto, se o compararmos com os textos sobre Walter Benjamin ou Elias Canetti e com os livros de crítica cultural que mais tarde publicou, “Notes on Camp” não parece ter sido escrito pela mesma pessoa. Talvez por essa razão, tal como a sua amiga Terry Castle observou, esse ensaio tenha deixado de lhe agradar. Castle defende também a existência de motivos mais profundos, declarando que a afinidade de Sontag pelo camp era de ordem claramente homossexual e demasiado reveladora da sua sexualidade para que Sontag se sentisse confortável com isso. A ser assim, tal ocultação não podia deixar de parecer estranha e enigmática aos olhos dos homossexuais que leram “Notes on Camp” em 1964 e puderam constatar como ela encarava a sua comunidade e o modo como nela se integrava, sem nada esconder. “Contra a Interpretação”, outro dos primeiros ensaios mais importantes de Sontag, foi publicado alguns meses mais tarde na Evergreen Review. À primeira vista, parece uma refutação de tudo o que Sontag passaria o resto da vida a defender. “A interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte,” afirma ela. Ora, aparentemente, trata-se de uma ideia antiga que é apresentada de uma maneira nova: os críticos fazem crítica porque não são capazes de fazer arte. Mas essa maneira nova contém um elemento sedutor que as palavras finais de Sontag nesse ensaio sintetizam quando afirma que “em vez da hermenêutica, precisamos de um erotismo da arte.” Muitos interpretaram isto de forma errada, supondo que Sontag pretendia atacar toda a crítica de arte. Ela própria, de resto, mantendo-se fiel aos seus princípios, nunca deixou de escrever sobre arte. O que quis sustentar, diria mais tarde, relacionava-se com a interacção entre a forma e o conteúdo em arte, ou seja, baseava-se na ideia de que o meio usado tem importância também a nível semântico. A maneira mais simples de poder compreender-se o alcance dessa posição seria dizer que para Susan Sontag os actos de pensar e de escrever eram experiências eróticas e sensuais em si mesmas e por si mesmas. Tentou transmitir isto repetindo à exaustão um conjunto de frases semelhantes entre si e usando palavras pretensiosas como “antítese” e “inefável,” tornando-as acessíveis e, até certo ponto, belas. Foi a maneira que escolheu para comunicar as suas ideias sem cair no tom coloquial do discurso na primeira pessoa. Depois do impacto que “Notes on Camp” e “Contra a Interpretação” suscitaram, a editora Farrar, Straus and Giroux, já responsável pela publicação de The Benefactor, achou que era o momento oportuno para dar à estampa um livro de ensaios com esses textos, o que veio a acontecer em 1966. O livro, que se chamou Contra a Interpretação, aproveitando o título do célebre ensaio de Sontag, mereceu muito mais atenção crítica do que o romance e deu uma nova oportunidade à imprensa generalista de ficar impressionada com ela. Tal como afirmava um artigo não assinado da Vogue, “não havia consenso” sobre se a sua obra “ficaria na história ou não era senão uma farsa audaciosa.” Na imprensa, Sontag era considerada impostora pela maioria dos críticos. Um deles disse mesmo que ela não passava de “uma rapariga de língua afiada, uma espécie de aprendiz de Mary McCarthy a tentar forçar o seu caminho na cultura contemporânea,” antes de criticar o livro de forma severa. Outro fez a seguinte observação no Washington Post: Enquanto autora destes ensaios, Susan Sontag é uma pessoa de quem não é fácil gostar. O seu tom irrita, é ríspido e estridente. E não há nada neste livro que indique que se importa com o que os outros possam pensar do seu estilo ou das suas maneiras.

Não é exagero afirmar que grande parte do que foi escrito sobre ela tem relação directa com o seu aspecto físico. Mesmo nos ensaios mais sérios, há quase sempre um comentário que é deixado cair sobre a sua aparência. Os rios de tinta gastos a descrevê-la podem resumir-se deste modo: era extremamente atraente. Mas, do meu ponto de vista, ela tinha uma relação mais complicada com a beleza do que davam a entender o gáudio dos admiradores e a qualidade excepcional das suas fotografias. Os seus cadernos contêm muitas advertências para tomar banho mais vezes e era frequente as pessoas daquela época comentarem que tinha um ar desleixado, com o cabelo solto afastado do rosto, mas sem estar

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Nem todas as críticas eram deste teor; as do Los Angeles Times e da New Leader foram favoráveis a Sontag. Mas ataques pessoais como o referido não constituíam excepção. Na maior parte das vezes, os críticos partiam de uma opinião de ordem pessoal acerca de Sontag, contribuindo assim para que a personalidade da escritora passasse a ser motivo de tanto debate como aquilo que escrevia. A característica algo difusa de uma certa “imagem” tornou-se, assim, marca de reputação literária tão importante como a própria escrita. A sua editora foi suficientemente perspicaz para perceber que podia tirar partido da atracção inegável e enigmática que Sontag suscitava. A capa da edição de bolso de Contra a Interpretação – que, contra todas as expectativas, se tornara um êxito de vendas –, tinha uma simples fotografia de Sontag em primeiro plano, tirada pelo fotógrafo Harry Hess, em que ela olhava de lado, por cima do ombro.


penteado. Isto acontecia mesmo quando ia à televisão; numa entrevista, o cabelo despenteado e a falta de maquilhagem contrastava exuberantemente com a franja cortada de forma elegante da realizadora Agnès Varda. Sontag vestia sempre de preto, estratégia típica dos que não querem ter de pensar em coisas de vestuário. Anos mais tarde dizia-se que não tinha qualquer problema em levantar a saia para mostrar as cicatrizes cirúrgicas. Embora seja privilégio das pessoas atraentes não terem de preocupar-se com a sua aparência, a indiferença manifestada por Sontag era genuína e não estudada. Gostava que o seu aspecto físico lhe abrisse portas, mas não lhe interessava perder muito tempo com isso. Por outro lado, sempre a preocupou, desde o início, a imagem que a publicidade tentou fazer passar. As fotografias começavam a subjugar a pessoa. Um editor britânico propôs-lhe uma edição limitada de Contra a Interpretação, com reproduções de fotografias de Rauschenberg, mas Sontag recusou: Seria esse um dos momentos superchiques – eu e Rauschenberg – que acabaria por fazer furor na LIFE e na TIME + que iria confirmar a minha imagem de rapariga ‘com o tal clique,’ a nova Mary McCarthy, rainha do mcluhanismo + camp, que estou a tentar combater? Feliz ou infelizmente, a recusa de Sontag em ser uma rapariga “com o tal clique” não resultou. Nas suas entrevistas era costume vir à baila a citação de alguém que lhe chamara a “Natalie Wood da vanguarda nos Estados Unidos.” Publicou um segundo romance, Death Kit, mas a sua aceitação por parte do público não ofuscou a crescente notariedade que estava a ter como ensaísta. Tal como The Benefactor, Death Kit tem um enredo bastante simples: um homem de negócios da Pensilvânia passa grande parte do romance a interrogar-se sobre se sua recordação de ter morto um trabalhador ferroviário é verdadeira ou falsa. O livro está pejado de referências, num estilo então muito na moda em França. Gore Vidal, na sua crítica para o Chicago Tribune, pôs o dedo na ferida, explicando porque não funcionou: Estranhamente, Susan Sontag fracassa como romancista precisamente no que a tem tornado única e relevante entre os escritores americanos: a sua vasta formação naquilo a que os departamentos de estudos anglo-americanos chamam literatura comparada (...). Esta cultura adquirida distingue-a da maior parte dos romancistas americanos, bons e maus, que não lêem quase nada, a julgar pela frouxa consistência da sua obra e pela banalidade das reflexões que por vezes nos dão a ler. Havia muito poucos críticos interessados na questão da vanguarda como Sontag. Na verdade, a imprensa maioritária estava virada para temas muito mais simples. “Se houvesse justiça neste mundo, Susan Sontag devia ser feia ou ter, pelo menos, um aspecto banal,” comentava uma crítica do Washington Post. “Nenhuma rapariga assim atraente devia ter direito a tanta inteligência.” Carolyn Heilbrun, feminista e professora universitária, encarregada pelo New York Times de entrevistar Sontag, ficou tão impressionada que, em vez de transcrever o diálogo, escreveu um artigo em que não fazia uma única citação – “Não é possível citá-la, porque as suas palavras, cristalizadas fora do contexto que as produziu, tornam-se simplistas e falsas.” Em teoria, tratava-se de um elogio. A entrevista parecia mais um poema em prosa. De facto, a descrição de Sontag era feita com base numa retórica amplificada mais própria de um texto acerca de uma celebridade do que da crítica de um livro: Quando comecei a ler sobre Susan Sontag, pensei: Meu Deus, ela é Marylin Monroe, linda, bem-sucedida, maldita, a precisar (e é a melhor frase de Arthur Miller) de abençoada aprovação. É costume ouvir dizer que na vida dos americanos não há segundas oportunidades. Uma espécie de “death kit,” realmente. E é provável que os críticos queiram encontrar neste romance uma pessoa chamada Susan Sontag. Mas acontece que ela não está lá. E até o livro já não é o seu livro, só um nome o mantém ligado à sua existência junto dos leitores. Ela sabe que já não é o tipo de livro que ela própria gostasse de ler. No auge da fama, Sontag acedeu a que um escritor que colaborava na Esquire fizesse o seu perfil, tendo-lhe dito: “Uma lenda é uma espécie de cauda (...). Está-nos agarrada quer queiramos quer não. Segue-nos sem piedade para todo o lado, desajeitada, inútil, sem qualquer relação connosco.” É claro que há sempre algum melodrama na modéstia, porque quem consegue rejeitar-se enquanto lenda sabe que o é. Mas é fácil perceber que ela tinha razão: a imagem pública que Susan Sontag projectava nos finais dos anos sessenta tinha menos a ver com a sua obra do que ela desejaria. No entanto, a fama de Sontag não deixava de ter as suas vantagens. Muitos intelectuais do seu tempo sentiram-se intimidados pela imagem que a imprensa projectava dela. No início de 1969, por exemplo, Sontag recebeu uma carta inesperada de Philip Roth, que tinha um novo romance acabado de sair, O Complexo de Portnoy. A revista New York publicara recentemente o seu perfil, e logo nas primeiras páginas do artigo, Roth referia-se a Sontag como “Sue. Suzy Q. Suzy Q. Sontag.” Ao que parece, quando viu as suas palavras impressas, Roth encheu-se de remorsos e escreveu-lhe de imediato uma carta:

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Uma vez que, quer o saibas ou não, sempre me senti seduzido pelo teu encanto pessoal e admiro a integridade do teu trabalho, fiquei consternado com a interpretação errónea e deturpada por parte do jornalista do que me lembro de ter dito e do modo como o disse. Parecia uma desculpa demasiado elegante para aquilo que não podia ser considerado senão como um ligeiro insulto. Mas dava bem a ideia da importância que Sontag tinha alcançado, apesar das críticas pouco entusiasmantes à sua obra. A verdade é que impunha um enorme respeito como pensa-


dora e intelectual. Não era fácil, de facto, intimidar Philip Roth, que não era propriamente conhecido por pedir desculpas a quem quer que fosse. À medida que a sua notoriedade crescia, Sontag foi sentindo a necessidade de deixar a crítica e o ensaio. Começou então a escrever um terceiro romance. Dedicou-se também ao cinema, após ter recebido uma oferta da Suécia para fazer uma série de documentários sobre arte, e apesar de contar com uma verba reduzida. E, em vez de crítica abstracta, passou a escrever sobre temas da actualidade. Em 1967, a Partisan Review fez um inquérito sobre o tema “What’s Happening in America?”. A resposta de Sontag ao questionário era uma crítica à situação de um país ao qual, de certa forma, nunca sentiu pertencer; nesse ataque utilizou metáforas da sua infância na Califórnia: Os Estados Unidos dos dias de hoje, com Donald Reagan armado em novo paizinho da Califórnia e John Wayne a trincar costeletas na Casa Branca, continuam a ser o mesmo país de labregos que Mencken descrevia. Não sendo pessoa dada a apregoar os valores patrióticos, Sontag insistia em que, se os Estados Unidos eram, de facto, “o cume a que tinha chegado a civilização branca ocidental (...), então há um problema grave com a civilização branca ocidental.” A raça branca, escreveu ela, é “o cancro da história da humanidade.” Uma vez mais, um ensaio publicado numa pequena revista transformou-se de um momento para o outro em notícia. William F. Buckley, o escritor conservador e fundador da National Review, aproveitou a frase referida e outras do artigo de Sontag para escrever um editorial de rara violência. Sontag, “uma jovenzinha com um palmo de cara,” escreveu ele sarcasticamente, não passava de uma simples pró-comunista. Um professor de sociologia da Universidade de Toronto, ficou de tal forma horrorizado que nem sequer conseguiu escrever o nome da “intelectual alienada” que fora capaz, por motivos “auto-destruidores,” de escrever uma frase daquelas. E a expressão “cancro da história da humanidade” acabou por persegui-la ao longo de toda a sua vida. Entretanto, a sua obra começava a ser divulgada para além das páginas das pequenas revistas. Nos finais de 1968, Sontag viajou até ao Vietname a fim de recolher informações para um artigo encomendado pela Esquire, cujo coordenador editorial era Harold Hayes. Hayes estava ansioso por transformar a revista de moda masculina numa revista literária, e Sontag podia ajudá-lo a concretizar esse objectivo. Não se pode dizer que tivesse sido uma viagem de carácter independente. Sontag era convidada dos norte-vietnamitas, que na altura costumavam convidar escritores famosos e activistas pacifistas para verem o que estava a acontecer no país, numa clara manifestação de propaganda política. Embora Sontag tenha revelado que não pôde visitar o país sem ter sempre por perto os seus guias norte-vietnamitas, não pensou nas implicações éticas que esse facto podia ter sobre a sua reportagem. Mas, com isso em mente, teve o cuidado de apresentar o artigo não como uma descrição fidedigna da situação no Vietname, mas como experiência pessoal. Pela primeira vez, escrevia uma confissão sincera sobre algo que tinha vivido realmente: Triste e furiosa durante quatro anos por saber do insuportável sofrimento do povo vietnamita às mãos do governo do meu país, agora que estava ali, a ser obsequiada com prendas e flores e retórica e chá e uma amabilidade a todos os títulos exagerada, não senti nada de muito diferente do que tinha sentido a dezasseis mil quilómetros de distância. Como este excerto dá a entender, o artigo completo – do tamanho aproximado de um conto, e publicado mais tarde como livro – não tratava tanto dos vietnamitas, como do modo como Sontag os via e reagia perante eles. A jornalista Frances Fitzgerald, ao fazer a crítica do livro para a New York Review of Books, comparava a sua abordagem a um paciente numa sessão de psicanálise. Sontag estava menos empenhada em compreender o seu país do que em compreender o império em que vivia. Descobria-se a si mesma, até entre o que considerava ser a bondade do povo vietnamita, a ansiar pela “assombrosa variedade de prazeres intelectuais e estéticos” que o seu “pouco ético” país possuía. “Não há dúvida de que “é impossível um americano incorporar o Vietname na sua consciência,” dizia ela a terminar. Sontag não foi, seguramente, a única jornalista americana a fazer uma viagem assim e a sentir-se frustrada. Na verdade, dois anos antes de Sontag chegar a Hanói, Mary McCarthy fizera o mesmo, tendo publicado as suas impressões na New York Review of Books. A análise que ela fez da situação era, de certo modo, mais directa do que a de Sontag, mas o livro que daí resultou é um documento, em geral, menos reflexivo:

O estilo directo de McCarthy prejudicou-a, porque parecia traduzir uma posição de concordância em relação ao alegado pelos norte-vietnamitas. Além disso, apontavam-se-lhe também erros de ordem factual: Fitzgerald, no artigo que escreveu para a New York Review of Books, referia-se às falhas de McCarthy com alguma delicadeza, afirmando que ela ganharia muito em “agir como um etnólogo atento, que dá o maior valor às suas provas.” Nenhum dos livros obteve então qualquer sucesso. Mais tarde,

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Confesso que quando visitei o Vietname no início do passado mês de Fevereiro ia à procura de documentação que condenasse o governo americano e encontrei-a, embora muitas vezes por acaso ou quando um funcionário me transmitia uma informação oficial.


Sontag chegou a mostrar-se envergonhada em relação ao seu, dizendo: “Eu era mesmo tonta nesses tempos.” Ainda assim, McCarthy escreveu a Sontag quando o seu livro saiu, em parte com a intenção de manifestar o paralelismo que via na maneira de pensar de ambas. “É interessante verificar como também tu te sentiste obrigada a um exame de consciência,” escreveu McCarthy. “Possivelmente é egoísmo feminino...” O mais certo é censurarem-te por escreveres sobre uma pessoa com o nome de Susan Sontag, em vez de falares de escolas, hospitais, etc. Mas não tenho dúvidas de que estás no caminho certo. E foste até mais longe do que eu, porque afirmas sem qualquer rebuço: “Este livro é sobre mim.” A escritora mais velha tinha identificado com precisão a evolução estilística de Sontag. Dez anos antes, numa nota dos seus cadernos, esta tinha posto o dedo na ferida. “O meu ‘eu’ é frágil, cauteloso, demasiado racional. Os bons escritores são tremendamente egoístas, o que faz com que, em certos casos, se tornem uns tolos.” O ensaio de Hanói foi uma experiência para uma escritora que até então quase nunca escrevera na primeira pessoa e revelou um tipo de confiança que não lhe era habitual. Mesmo os críticos que não gostavam dela – Herbert Mitgang, do New York Times, começava a sua crítica chamando-lhe “pin-up literária do último ano” – viram-se forçados a admitir que se tratava de um ensaio muito bem construído. McCarthy, por seu lado, reconhecia isso claramente. À sua carta de três páginas acrescentou um pós-escrito invulgarmente tímido em que dizia: “Suponho que já terás lido o meu livro. Mas, se não o fizeste, vê o último capítulo, pois é lá que está o mais importante.” Não era uma carta hostil, mas notava-se uma certa incredulidade e deixava no ar uma pergunta: como é possível que a nossa escrita convirja desta maneira? Entretanto, Sontag sentia-se cada vez mais frustrada com a sua reputação pública como ensaísta. “Vou deixar de escrever ensaios,” disse Sontag numa entrevista em Outubro de 1970. Para mim, isso é coisa do passado. Há dois anos que me dedico ao cinema. E cansa-me que continuem a considerar-me sobretudo ensaísta. Tenho a certeza de que Norman Mailer não gostava nada de ter sido conhecido durante vinte anos como o autor de Os Nus e os Mortos, apesar de ter feito muitas outras coisas. É como se nos referíssemos a Frank Sinatra e apenas estivéssemos a pensar no jovem Frankie de 1943. Mas acontece que, de facto, Sontag também não conseguia escapar ao seu “Frankie.” Os filmes que fazia eram arrasados pela crítica. Eram abstractos e aborrecidos. E, o que não é de somenos, trouxeram enormes problemas financeiros a Sontag, que, trabalhando em países estrangeiros com orçamentos reduzidos, raramente ganhou dinheiro com eles. Ficou cheia de dívidas e ao fim de alguns anos viu-se obrigada a arrepiar caminho. Por outro lado, a auto-estima foi muito abalada, conforme deu conta nos seus cadernos, devido à recepção terrível que os seus filmes tiveram. Para conseguir arranjar dinheiro, propôs à editora Farrar, Straus and Giroux livros que nunca chegou a terminar, como um sobre a China, por exemplo, que, segundo ia dizendo às pessoas, seria uma espécie de cruzamento entre Hannah Arendt e Donald Barthelme. A partir de então, começou também a falar com mais liberdade do feminismo e do movimento das mulheres. A carreira de Sontag dava os primeiros passos quando o movimento feminista de segunda vaga começou a ganhar força nos finais dos anos sessenta. Como movimento organizado, o feminismo esteve adormecido durante quase quarenta anos. A energia das sufragistas, segundo os historiadores, fora sugada pelas melindrosas. Assegurado o direito ao voto por parte das mulheres, as mais jovens tinham dificuldade em identificar-se com as lutas das suas antecessoras. Isto quer dizer que não se perguntava a uma escritora, como hoje se faz habitualmente, se ela era ou não “feminista.” Parker e West declararam ser simpatizantes do movimento sufragista, mas as feministas não exigiram muito delas. Quanto a McCarthy e a Arendt, esta questão não se lhes pôs, muito simplesmente porque o feminismo, enquanto movimento organizado, não existiu durante a maior parte da sua carreira como escritoras.

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No início dos anos setenta, quando Sontag se tornou a intelectual mais importante dos Estados Unidos, o movimento das mulheres estava no auge, com marchas, manifestações e vários grupos a organizar-se em toda a parte, sobretudo em Nova Iorque. O New York Radical Women, um grupo formado pela crítica e jornalista Ellen Willis, entre outras, começava a ter algum protagonismo em Nova Iorque. Os círculos de consciencialização dominavam. E, aos poucos, quando os debates começaram a surgir com frequência nos meios de comunicação social, ficou-se na expectativa de ouvir Sontag declarar a sua adesão ao movimento. A grande maioria dos intelectuais de Nova Iorque olhava com desdém para a energia descontrolada e caótica do movimento. Não conseguiam compreendê-lo. A maior parte deles parecia mesmo achá-lo completamente gratuito. E foi então que Sontag começou a exibir uma atitude contestatária não muito diferente da tal escritora que “nunca foi muito importante para ela,” Mary McCarthy. Entregou-se ao cumprimento dessa atitude de uma forma mais entusiasta e livre do que qualquer outro membro do círculo da Partisan Review e da New York Review of Books.


A primeira vez que Sontag falou aberta e assumidamente como feminista foi em 1971. Fez parte do painel de um debate sobre o feminismo que teve lugar na Câmara Municipal e confrontou Norman Mailer devido a um ensaio desdenhoso que este publicara na Harper’s sobre o movimento de mulheres chamado “The Prisoner of Sex.” Tal como um rapazinho de escola, Mailer, aos quarenta e oito anos, achava que podia atrair a atenção das mulheres através de provocações. O ensaio falava das grandes figuras do movimento feminista, avaliando o seu grau de atracção física ao mesmo tempo que atacava e desvalorizava as suas ideias. Uma delas foi Kate Millet, uma famosa crítica feminista, autora do polémico livro Política Sexual, a quem chamou nada mais nada menos do que “vaca maçadora.” Bella Abzug, advogada e futura congressista, por seu lado, merecia o epíteto de “mandona insuportável.” Sontag, que naquela noite não fazia parte da mesa, encontrando-se na plateia, levantou-se e pôs uma questão a Mailer. “Norman, devo dizer-te que as mulheres acham que a maneira como tu, talvez com a melhor das intenções, falas com elas é condescendente,” disse ela num tom calmo, quase irónico, mas assertivo. “Uma das razões é o modo como usas a palavra senhora”, continuou a dizer. “Não gosto que me chamem “senhora escritora,” Norman. Percebo que a ti te pareça uma coisa lisonjeira, mas a nós não nos soa bem. Parece-nos que mulher escritora é um pouco melhor. Queira-se ou não, as palavras têm importância, somos os dois escritores e sabemos essas coisas.” Mais tarde, Sontag deu uma longa entrevista à Vogue, voltando a afirmar que ela própria sentia os efeitos da descriminação na sua vida enquanto escritora. A entrevistadora emitiu a opinião de que, até àquele momento, tinha a sensação de que Sontag “partilhava do desprezo de Mailer pelas mulheres intelectuais.” Onde foi buscar essa ideia? Pelo menos metade dos intelectuais que conheço são mulheres. Não posso estar mais solidária com os problemas das mulheres nem mais incomodada com a sua situação. Mas a raiva que sinto é já tão antiga que no dia-a-dia não dou por ela. Para mim é a história mais velha que o mundo conhece. Para reforçar o seu ponto de vista, Sontag publicou logo a seguir um ensaio na Partisan Review, inicialmente destinado à revista Ms., ainda a dar os primeiros passos. Mas como a publicação de Gloria Steinem considerou o artigo de Sontag demasiado didáctico, esta levou-o aos “boys.” E foram eles que lhe deram o título de “The Third World of Women.” Uma das recomendações do artigo era que as mulheres deviam revoltar-se abertamente contra o patriarcado: “Deviam assobiar aos homens na rua, assaltar salões de beleza, montar piquetes nas fábricas que produzem brinquedos sexuais, aderir em massa ao lesbianismo militante, providenciar apoio feminista aos divórcios, fundar centros de reabilitação para quem queira deixar a maquilhagem, adoptar o apelido das mães.” A sua indignação, contudo, parece ter-se esgotado nesse artigo, dado que foi a única vez em que abordou o tema do feminismo na sua prosa ensaística. O projecto de escrita a que se dedicou depois ocorreu-lhe após um almoço com Barbara Epstein, em 1972. Acabara de ver uma exposição de fotografias de Diane Arbus no Museu de Arte Moderna. Começou a vociferar contra elas e Epstein sugeriu-lhe que escrevesse um ensaio sobre a exposição para a New York Review of Books. Durante os cinco anos seguintes, Sontag escreveu seis, que acabaram por constituir o livro Ensaios sobre Fotografia. Houve um crítico que sugeriu que essa colecção de ensaios se devia chamar Contra a Fotografia, porque em certos momentos Sontag parecia estar a pôr em causa a prática da fotografia em si. “Formam uma gramática, e, mais do que isso, constituem uma ética da visão,” escreveu ela acerca das fotografias. Muitas vezes, Sontag não via nada de recomendável nessa ética. Segundo afirmava, as fotografias apresentam-se frequentemente como a imagem de uma realidade, mas, por trás de uma moldura, há sempre um motivo oculto. A popularidade generalizada da prática de fotografar esteve também sob a sua mira: “A fotografia, ao mesmo tempo que pode comprovar uma experiência, também a pode negar, se a limita à fotogenia, convertendo-a numa imagem e num espaço de memória.” Como precisava de dinheiro, começou também a escrever com regularidade para a Vogue. Esses artigos nunca foram editados em livro. Um deles, escrito em co-autoria com David Rieff, então com vinte e três anos, aconselhava as leitoras sobre “como ser optimista” em 1975. Entre os conselhos, lia-se: “Aceitar que nascemos para morrer, que o nosso sofrimento é inútil, e que temos sempre medo, seja onde for que estivermos.” Num outro artigo, intitulado “A Woman’s Beauty: Put-Down or Power Source?”, incitava as leitoras da revista de moda americana mais famosa a reflectir sobre “o modo como se ensina as mulheres a dar importância à beleza, encorajar o narcisismo, reforçar a dependência e a imaturidade.” E prosseguia:

Sempre que questionavam os seus princípios feministas, Sontag costumava ripostar com uma intensidade dez vezes maior. Uma das pessoas que o fez foi a poetisa Adrienne Rich, que já estava profundamente implicada no movimento das mulheres quando se dispôs a ler o ensaio de Sontag sobre Leni Riefenstahl, “Fascinating Fascism,” na edição de Fevereiro de 1975 da New York Review of Books.

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Aquilo que a maior parte das mulheres aceita como a idealização lisonjeira do seu sexo é uma maneira de fazer com que as mulheres se sintam inferiores ao que são – ou podem vir a ser. Porque o ideal de beleza é aplicado como forma de auto-repressão.


Rich ficou incomodada com a afirmação de Sontag de que Riefenstahl participava em tantos festivais de cinema porque “as feministas ficariam a perder se tivessem de sacrificar a única mulher que realizou filmes que todos consideram ser de primeira qualidade” e escreveu à revista a perguntar por que motivo as feministas estavam a ser culpabilizadas. Sontag, sentindo-se ofendida, reagiu nas páginas da New York Review of Books num texto de quase duas mil palavras sobre a “carta lisonjeira e condenatória” de Rich. Salientou que o seu ensaio, não era, na verdade, sobre o feminismo, mas sobre a estética fascista, e que o facto de Rich ter salientado apenas o que a incomodara era emblemático da estreiteza de vistas que percorre o movimento das mulheres e que ela detestava com todas as forças. “Como qualquer suposta verdade moral, o feminismo é redutor e simplista,” argumentou Sontag. As duas mulheres vieram depois a trocar correspondência e reconciliaram-se, admitindo que tinham interesses comuns que era importante explorar. “A tua maneira de pensar interessa-me desde há muitos anos, embora partamos de pressupostos diferentes,” escreveu Rich a Sontag. Contudo, Sontag voltaria a defender as ideias do debate com Rich em entrevistas posteriores. Muita gente viu nisso a prova de que Sontag era contra o feminismo, uma crença que persisitiu apesar do que escreveu sobre a política de género e o feminismo. A partir de certa altura, passou a tratar os entrevistadores de forma áspera quando lhe falavam disso. “Visto que também sou feminista, não vejo que haja qualquer coisa a resolver entre mim e ‘elas’,” afirmou uma vez. Mas todas estas questões passaram para segundo plano quando, no Outono de 1975, Sontag foi diagnosticada com cancro da mama. Os médicos disseram a David Rieff que era improvável que sobrevivesse. Era um tumor de grau 4 e, embora não tivessem dito a Sontag que estava a morrer, ela tinha plena consciência dos riscos. Decidiu submeter-se a uma mastectomia radical na esperança de que, se retirasse mais tecido do que era estrictamente necessário, pudesse ter mais possibilidades de resistir. Resultou, e o cancro entrou em remissão. No entanto a experiência transformou-a profundamente. O tratamento, segundo escreveu, deixou-a traumatizada e exausta, como se tivesse feito sozinha toda a guerra do Vietname. O meu corpo é invasivo, colonizador. Estão a ser usadas armas químicas em mim. Tenho de levantar a cabeça e reagir. Na altura, sentia-se “arrasada,” dando a entender que se tinha tornado “opaca para si mesma.” E chegou a pensar que podia ser possível que alguns dos seus sentimentos reprimidos – o ressentimento contra a mãe, o facto de ser lésbica, o seu desapontamento em relação ao que produzia enquanto arte – lhe tivessem causado o cancro. Sabia perfeitamente que eram pensamentos irracionais. E quando convalescia percebeu que devia libertar-se deles por completo. O processo da purga traduziu-se na escrita de A Doença como Metáfora. Este longo ensaio, publicado em forma de livro em 1975, não é, tecnicamente, uma autobiografia. Sontag fala do modo como a humanidade dourou a pílula em relação à tuberculose e ao cancro, sem nunca falar especificamente dos tratamentos ou de vivências pessoais, tanto de afectividade como de crueldade, por parte dos médicos. Mas, quando lhe perguntavam, dizia de forma bastante clara que considerava o texto um grito de angústia: Não fui capaz de criar distância. Foi um livro escrito num momento de raiva, medo, angústia, terror, indignação – numa altura em que estava muito doente e a recuperação era lenta (...). Mas não me tornei imbecil só porque passei a ter cancro. A Doença como Metáfora converteu-se num instrumento de protesto. O problema de Sontag com as metáforas que os romancistas e escritores associavam à doença estava relacionado com o facto de terem tendência para culpabilizar a vítima, como ela própria fizera durante um breve período, de resto, quando estava doente. Dirigiu a sua ira aos “cancerófobos” como Norman Mailer, que exprimira entretanto a opinião de que, se não tivesse esfaqueado a mulher (assim libertando pela prática “um genuíno sentimento assassino”), teria contraído cancro e “já estaria morto há uns bons pares de anos.” Escreveu também sobre Alice James, a irmã mais nova de Henry James, que morreu de cancro da mama cerca de cem anos antes. Nessas passagens, embora o discurso não seja na primeira pessoa, o texto é claramente pessoal, evidenciando uma ira à flor da pele. Muitos críticos, entre eles John Leonard, futuro crítico literário do New York Times, atacaram Sontag por ter usado o cancro como metáfora para a situação nos

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Estados Unidos. (Lembremo-nos do que Sontag afirmou em 1967: a raça branca era “o cancro da história da humanidade.”) Todos, contudo, percebiam o que estava por trás da raiva que inspirava aquele tipo de escrita e, ainda que tivessem reservas quanto a alguns aspectos do livro, sentiram-se subjugados por ele. O crítico irlandês Denis Donoghue comentou o seguinte no New York Times: O livro A Doença como Metáfora inquietou-me bastante. Li-o três vezes e continuo sem encontrar justificação para as acusações que contém. Mas também é verdade que se trata de uma obra muito perspicaz no modo como interpreta as nossas atitudes em relação à loucura ou às doenças do coração, por exemplo.


Donoghue prossegue dizendo que considera o estilo de Sontag um pouco rude, acrescentando que, para ela, “a escrita é combate.” Isto podia ser considerado uma crítica. Mas em comparação com o estilo cerebral e distanciado do início, não há dúvida de que havia uma evolução. Na maior parte das vezes, não era ainda capaz de escrever na primeira pessoa. Mas revoltava-se. E as pessoas, por entre os raciocínios intelectuais e as referências a obras de arte e a filósofos que só podiam conhecer depois de ela falar deles, escutavam o testemunho de uma experiência humana devastadora e medonha. O estilo sério de A Doença como Metáfora correspondia à imagem que Sontag sempre quis transmitir de si: uma intelectual séria. Mas “Notes on Camp” foi o texto que marcou a sua existência para sempre, imortalizando o seu nome no contexto da cultura popular. Não era coisa que lhe agradasse. A sua amiga Terry Castle contou que se lembrava de ter estado com ela numa festa, nos finais dos anos 1990, e de um convidado ter tido a infeliz ideia de dizer a Sontag que adorara aquele ensaio. Com as narinas dilatadas, Sontag fita-o directamente nos olhos como um basilisco. Como pode dizer uma parvoíce dessas? Não tenho qualquer interesse em falar desse ensaio, tanto agora como de futuro. Gostaria que nem sequer o tivesse mencionado. É um texto desactualizado, intelectualmente morto. Será que nunca leu mais nenhuma das minhas obras? Não anda informado? E ia crescendo numa espiral de fúria – com a qual havíamos de ficar familiarizados nas duas semanas seguintes –, enquanto todos os outros a observavam, horrorizados e quase em estado de hipnose. A frustração pelo modo como “Notes on Camp” a perseguia devia-se em parte ao desejo que tinha de se afastar da obra escrita na juventude. Mas, por outro lado, perturbava-a genuinamente o modo como o ensaio tinha sido interpretado. Nos anos oitenta e noventa, Sontag viria a testemunhar o ressurgimento do interesse intelectual pela cultura pop, a par do esforço que a grande arte fazia para sobreviver. Sentiu-se de alguma forma responsável, mas, como é evidente, a responsabilidade não foi só sua. Tinha tido vários companheiros de viagem na defesa da cultura pop, contando-se entre eles uma crítica de cinema chamada Pauline Kael. ©Quetzal.

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Pré-publicação do livro Afiadas: As Mulheres que Fizeram da Opinião uma Arte, de Michelle Dean, Edições Quetzal.


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CONSULTA DE ALMOÇO Mal comecei a subir a Avenida Fontes Pereira de Melo, entre os números 51 e 53 encontrei um velho conhecido. Ele estava impecavelmente vestido. Fato azul escuro, primorosamente vincado, sapatos de atacadores pretos bem engraxados, e um relógio, também ele preto, bonito e discreto. Depois da chamada small talk inicial começámos a ter uma conversa mais verdadeira, pelo que fiquei genuinamente interessado no que ele estava a dizer. Contou-me que trabalhava, agora, como consultor na maior consultora do país, enquanto apontava para o edifício em frente: “É exactamente aqui que trabalho. Somos cerca de dois mil consultores. Cada um tem o seu número tal, como cada gabinete, de maneira a facilitar a logística entre os vários departamentos. E também porque, devo admitir, uma grande percentagem dos nossos colaboradores não sabe ler. Sabe apenas identificar números e guiar-se por eles”. O meu olhar percorreu melhor a imponente estrutura e quando chegou ao topo deu conta de um grande letreiro que dizia “SÓ CONSULTORES” em letras de caixa alta, sob as quais podia ler-se a seguinte frase: “Do amor, à família, ao negócio – consultamos tudo por si”. Fiquei curioso, pois não percebi bem qual a especialização do seu trabalho. O meu velho conhecido explicou-me que ali não havia um ramo de consultoria específica. Fazia-se consultoria de todo o tipo e era por isso mesmo que os serviços da sua empresa eram tão requisitados: “Fazemos consultoria de tudo: desde o melhor desodorizante para axilas sensíveis à melhor parte do porco para agradar à sogra num jantar de família, até ao número de cigarros que um doente canceroso pode fumar. E, na verdade, é isso que torna o meu trabalho tão fascinante! Aconselharmos os nossos clientes da melhor maneira sobre qualquer trivialidade ou conflito existencial”. Disse-lhe que estava surpreso com o que me acabava de descrever e contente de o ver realizado profissionalmente. Educadamente, comuniquei-lhe que estava a caminho do almoço. Foi então que ele me convidou para me juntar a si e aos seus colegas, no restaurante do último andar do edifício. Em jeito de cerimónia, mas movido pela curiosidade, aceitei o convite. Entrei no dito prédio. Estava fresco, com o ar condicionado ligado forte, o chão de mármore bem polido. O acesso aos elevadores era feito através de um gradeamento onde se tinha de passar o cartão com o respectivo número de identificação. Eu passei pela pequena porta do lado – a dos clientes. Como era hora de almoço havia bastante movimento nos corredores junto aos elevadores. Os vários consultores passavam para cá e para lá, apressadamente. Tal como o meu conhecido, estavam todos impecavelmente bem vestidos. Havia mais homens do que mulheres, em movimento, mas todos, sem excepção, se deslocavam depressa e com auricular. Enquanto esperava pelo elevador reparei num consultor mais novo, que parou por momentos em frente de um grande espelho. Sacou de um pente, penteou o cabelo já muito bem penteado e seguiu no seu costumado alvoroço. Lembrei-me daquela música do Mac De Marco chamada Blue Boy e que diz: Blue boy worried about the world ́s eyes (...) – blue boy – worried about his hair cut7. Ri-me para dentro pois estava perante uma gigantesca amostra de Blue Boys.

7. Trecho de letra de uma música do artista canadiano Mac de Marco: “Rapaz azul preocupado com o olhar do mundo – rapaz azul – preocupado com o seu corte de cabelo”. Não sabe do que estou a falar? Seja novamente moderno e procure a música na internet. (N. do A.).

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Entrámos no elevador e fomos até ao décimo sétimo andar, o último. Mal as portas se abriram, surgiu uma fantástica vista panorâmica sobre a cidade. No meio da sala havia uma enorme mesa corrida. Devia ter espaço para mais de quarenta pessoas. Grande parte dos lugares já estavam ocupados e, a pedido do meu companheiro, sentei-me junto dele, mesmo no centro da mesa. Esperámos que todos se sentassem. Contei trinta e três homens e apenas nove mulheres. Era impossível distinguir quem quer que fosse. Estavam todos vestidos da mesma maneira e todos presos entre o auricular e o celular. Ouvia-se imenso barulho na sala, mas não era da conversa de quem se sentava à mesa. Era das chamadas telefónicas que cada um efectuava. Só se calaram quando um velho muito magro e vestido de branco entrou sala adentro com uma gigantesca travessa nos braços: “Meus senhores e minhas senhoras, o almoço está servido! Uma vaca inteira para vocês. Bom proveito!”. Mal se ausentou da sala, todos os que estavam sentados à mesa retiraram os auriculares e colocaram os telefones de lado enquanto colavam o olhar naquela enorme


fatia de carne. Pareciam estar em estado de hipnose, como se a sua vida de consultores dependesse do naco. Ninguém falava, estava tudo de olhos postos na travessa. Até que um dos “penteadinhos” se levantou e começou a cortar lentamente uma fatia do lombo. Ninguém se mexeu e a sala permaneceu silenciosa. Quando o rapaz que se servia colocou o pedaço no seu prato, todos se levantaram empunhando faca e garfo, lançando-se à enorme travessa. Pareciam porcos numa pocilga. Todos procuravam a melhor parte da carne e ninguém se entendia entre si. Começaram aos berros e a confusão atingiu uma proporção imensa. Cada um berrava mais alto do que o outro e a tensão explodiu. Antes que desse por isso, uma das poucas meninas que estava à mesa virou-se para outra e disse: “Sua cabra! Eu também quero lombo!” e para afastá-la do seu pedaço, espetou-lhe o garfo na mão. A outra menina ripostou espetando-lhe por sua vez o garfo. Os rapazes nem se aperceberam e, enquanto um tirava duas fatias de lombo, outros três saltaram para cima dele e começaram a espancá-lo enquanto, do outro lado da mesa, outros quatro se batiam ferozmente por um pedaço da mesma carne. Quando pensei que a situação não poderia tornar-se mais infernal, eis que os consultores e consultoras se atiraram uns aos outros num autêntico acto de canibalismo. Os mais fortes começaram, literalmente, a comer os mais fracos. Trincavam-lhes as orelhas para que não pudessem ouvir, espetavam-lhes os garfos nos olhos para que não pudessem ver e, impiedosamente, arrancavam-lhes os lábios para que não pudessem falar. Aquilo que era suposto ser um almoço tranquilo tornou-se numa visão do inferno, visualmente insuportável, e eu estava ali no meio, completamente assustado, enquanto o meu anfitrião, já a jorrar sangue pela cara, atacava selvaticamente um dos seus colegas, dando-lhe trincas na cara, cuspindo pedaço a pedaço. Os gritos transmitiam uma dor insuportável, e foi então que decidi correr para o elevador e pôr-me a milhas dos consultores. Toquei a campainha de chamada do elevador freneticamente, só me queria ver livre daquela dantesca visão. As portas lá se abriram. Toquei para o zero e, de novo, incessantemente, no botão de fecho de portas. Mal se fecharam, respirei fundo e senti um enorme alívio. Quando estava a chegar ao piso zero, volto a ser surpreendido! O elevador não pára e segue para o menos um. Depois para o menos dois, menos três e por aí fora até parar no piso menos sete, o último do edifício inteiro. As portas abriram-se automaticamente e confesso que o relaxe momentâneo deu de novo lugar ao nervosismo. À minha frente estava um enorme corredor, mas não se via o seu fim, graças à fraquíssima iluminação. A curiosidade foi maior e arrisquei-me a descobrir o piso menos sete. A luz obscura e o cheiro nauseabundo a esgoto com sopa fora de prazo indicavam o abandono daquele lugar. À medida que ia avançando pelo longo corredor passava por pequenas salas, também elas pouco iluminadas, que se apresentavam à direita e à esquerda. Continuei pelo corredor fora até que ouvi barulho vindo de uma das salas mais à frente. Devagar, caminhei na sua direcção e coloquei discretamente a cabeça para dentro da porta, para ver o que se passava. Vi quatro reflectores em forma rectangular e quatro criaturas vidradas numa imagem, a escrever num teclado a ritmo acelerado. Não lhes conseguia ver bem a cara, pois confundia-se com a cor cal das paredes, também elas mal tratadas e cheias de fissuras. A luz era pouca e quase toda a iluminação vinha dos quatro ecrãs. Ainda assim foi-me possível observar os catorze relógios de vários tamanhos e feitios, dispersos pela sala. As quatro criaturas estavam tão submersas que nem deram pela minha pessoa. Prossegui pelo corredor e fui-me apercebendo que, a partir dali, em cada sala havia sempre quatro luzes artificiais e quatro indivíduos a controlá-las. Ainda não tinha entendido bem que sítio sinistro era aquele, nem o que ali se passava. Seria uma espécie de prisão? Um castigo aplicado por errada conduta? Até que, chegado ao fim do estreito corredor, um letreiro meio a desfazer-se indicava: “Estagiários”. Estava tudo explicado. Enquanto me dirigia de novo para o elevador pensei que, pelo menos, se livraram daquele almoço infernal e que a sandes que cada um trouxera os protegeu de serem comidos vivos. O cheiro do piso menos sete era de facto insuportável e pus-me a andar dali para fora de maneira a não cair naquele ambiente devastador.

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Assim que voltei a respirar o ar da Fontes Pereira de Melo, recomecei a subir esta avenida em direcção à Praça Duque de Saldanha.

Excerto do livro “Passeio Moderno” de Bernado Mascarenhas de Lemos


Talvez por Sofia Viana

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Antes da pele e do acaso Do golpe do meu ou do teu tempo O requinte do arrepio entre a sede e o limite Não há improviso que me valha Morri tantas vezes e agora preciso sê-lo Matei tantas vezes e a inocência falha talvez o medo se repita Talvez eu seja a ilha Talvez eu seja a água Antes do cerco da fisionomia dos trapos o fogo que conserva os elefantes secretos, talvez só o amor me permita!


Leituras por Denise C. Rolo*

«Serotonina» de Michel Houellebecq

Quando o assunto é a saúde mental, deparo-me frequentemente, nos inúmeros artigos sobre o tema, com a mensagem de que se trata de um capricho globalizado. A depressão, à luz de uma sociedade cada vez mais exigente, é vendida na ideia dicotómica dos fortes em detrimento dos fracos que se deixaram sucumbir, certamente, no seguimento de um coração vulnerável. Cada vez mais a vulnerabilidade é assumida como sinónimo de fraqueza. Enaltecem-se as pessoas cujos ponteiros se esticam muito para lá das conhecidas vinte e quatro horas, pessoas que trazem na ponta da língua a pressa dos dias, o telemóvel hiperativo e a cabeça que se subdivide nas mais hercúleas tarefas. Hoje brindamos tudo isto como bravura da (suposta) grandiosidade humana.

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Quando o assunto é Michel Houellebecq, a sua escrita depressiva vem rapidamente à superfície, como um ponto vincado que o define num reflexo de histórias aparentemente cruas e sombrias. Há, porém, uma base inesperada de onde tudo isto surge: é no amor que o autor se centra em (quase) tudo o que nos escreve. Talvez seja esse um dos grandes motivos, como ainda recentemente li, para estarmos perante um dos escritores mais humanistas de sempre. Ao ler «Serotonina» o leitor irá descobrir uma escrita incisiva. O autor é mordaz, irónico, inconveniente muitas vezes mas é, em igual medida, sentimentalista. Pergunte-me porquê. Eu respondo-lhe que só alguém com o coração desarrumado poderá, alguma vez, aspirar a algo mais do que uma vida pacata, mesmo que falemos em aspirações preguiçosas. É ponto assente na premissa deste livro.

Florent-Claude Labrouste tem 46 anos de idade, vive uma vida desafogada na sequência do seu trabalho como funcionário do Ministério da Agricultura. Não gosta do seu nome, não gosta de muitas coisas. “(...) Deus tinha disposto de mim mas eu não era, não era na verdade, nunca tinha sido nada sessão um cobarde inconsistente, e tinha já quarenta e seis anos e não fora capaz de gerir a minha própria vida, enfim, parecia deveras plausível que a segunda parte da minha existência acabasse por ser, à imagem da primeira, um frouxo e doloroso desabamento.” Tudo na vida deste homem parece pautado pelo marasmo. A panóplia considerável de indiferença atinge também a sua namorada japonesa, cerca de vinte anos mais nova. Inicialmente, o viço da idade e vaidade da jovem despertou-lhe o interesse do corpo mas, rapidamente, o vazio instala-se e o abismo cresce. “(...) o número de objectos necessários para manter o seu estatuto de mulher era absolutamente alucinante, as mulheres ignoram-no em geral, mas é uma coisa que desagrada aos homens, que os enoja mesmo, que acaba por lhes dar a sensação de terem adquirido um produto adulterado que só mantém graças a artifícios infinitos (...).” Será numa viagem com destino a Espanha, na tentativa rogada de passar uns dias de férias com a namorada, que uma viragem parece acontecer na vida deste homem. Serão duas jovens indefesas, quando lhe


pedem ajuda com o carro, que o farão sentirse atingido na idade já firme, no passar do tempo e no vácuo a que tem dedicado toda a sua vida. O vórtice de pensamentos bloqueados de Florent-Claude é assim criado através de uma passagem quase despercebida, uma evidência inegável do brilhantismo do autor. «Serotonina» é um livro escrito à luz desse tema universal: a procura de um sentido na vida, a procura constante de respostas que nos justifiquem. É no confronto com as desilusões de um homem cansado que o leitor perceberá a tendência de nos refugiarmos numa couraça de autoproteção, de um ego inflamado que não suporta críticas e, muito menos, suposições sobre uma vida que tomamos como nossa para, mais lá à frente, percebermos o quanto desejaríamos que não fosse só nossa, tão individual.

struções sobre como não morrer enquanto a vida nos pulsa cá dentro. O primeiro passo é, para surpresa de muitos, deixar-se ir ao ritmo dos corações vulneráveis. Título: Serotonina Autor: Michel Houellebecq Editor: Alfaguara Portugal Páginas: 280

“Seria eu capaz de ser feliz na solidão? Não acreditava nisso. Seria capaz de ser feliz no geral? É o tipo de perguntas que, creio, devem evitar fazer-se.” Terá sido Florent-Claude Labrouste, em toda a sua vida, esse homem perdido entre passado e presente? Adianto-lhe que não e descobrir o motivo que lhe inflama esta desmotivação tão viva, é o que nos motiva a nós, leitores, procurar uma resposta. Perceber que essa resposta está muito longe das expectativas em torno dessa grandiosidade movida pela pressa dos dias, é a ironia vendida por Houellebecq. A procura incessante de um sentido em nós mesmos, em Deus, no mundo, não nos deixará, nunca, sair do mesmo lugar. A consciência cansada deste personagem abrir-lhe-á os olhos, quase à falsa fé, para o fazer ver aquilo que sempre esteve à sua frente: serse humano é a resposta em si mesma e é nossa a culpa de vivermos uma infelicidade mascarada. “(...) não é o futuro, é o passado que nos mata, que volta para nos moer e nos minar, e que acaba finalmente por nos matar.”

Para os grandiosos e para os cobardes desta vida, ler Houellebecq é uma obrigatoriedade. Para assustar uns, para empurrar outros, faça de «Serotonina» um manual de in-

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Como viver perante tamanha consciência de auto-responsabilidade? Tomemos um comprimido e assumamos a iminência dos seus efeitos secundários. É que quando o assunto é a saúde mental, à luz de uma sociedade cada vez mais automatizada, a ideia de depressão como capricho assume, forçosamente, a resposta de quem quer fugir à vulnerabilidade.


Postais Perdidos

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por JoĂŁo Albuquerque Carreiras


Buenos Aires, Argentina 24-XI-08 Minha querida Sabes que ganhei gosto a esta coisa de viajar sozinho, mas nesta viagem gostava de te ter aqui. Gostava, porque esta cidade pede companhia, porque esta não é uma cidade só de pontos turísticos a visitar, é uma cidade com uma alma que pede ser vivida. Um arrastar prolongado por vinho de jantares opíparos com a melhor carne que alguma vez comi. Passeios de compras por Palermo - sim, eu não costumo ser de compras, mas estas lojas tiram uma criatura consumista de dentro de mim - enchendo alegremente as mãos de sacos. Deambular em Santelmo, por entre um enorme charme decadente, que bem sabes tanto gosto, controlando impulsos de transportar por atacado antiquários de art deco para Portugal. Petiscar uma pilha de empanadas com Quilmes. Simplesmente passear. Entrar na Ateneu e ver que uma livraria pode ser um monumento. Perceber que o tango se tornou turístico, mas ainda se pode encontrar genuíno. Buenos Aires aparenta ser uma Paris ou Madrid sul-americana, é isso que as suas fachadas contam, mas entrando para dentro dessas fachadas encontra-se a alma porteña, que vai muito mais além de uma cópia da Europa porque é única. Como Borges, Piazzolla ou Maradona. Mais ainda que tudo o resto falta-me companhia para o tango, para poder tentar aprender ao menos alguns passos desta dança encantatória. Entrar contigo milongas adentro e ter a ousadia de dançar no meio de quem se move quase sem pisar o chão em balanços sensuais e intensos. E tentar, ao menos tentar, seguir o bandonéon, ainda que sem a alma porteña. Diz o ditado, com razão, que são precisos dois para o tango, foi mesmo isso que me faltou, dançar contigo o tango de Buenos Aires.

Beijo grande,

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João


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Dez Anos de Histórias por João Albuquerque Carreiras

No âmbito desta comemoração está patente a exposição “Paula Rego: Olhar para dentro”, com curadoria de Catarina Alfaro, que incide no trabalho em gravura da artista, começado nos anos cinquenta, mas que atinge a maturidade após 1980. A gravura permite à artista contar uma multiplicidade de histórias nem sempre possível nos quadros a óleo, nomeadamente com séries temáticas. A exposição reúne uma grande parte da obra gráfica da artista, bem como desenhos preparatórios para a execução das gravuras, chapas de cobre do processo de gravação e trabalhos de gravura mais recentes e menos conhecidos.

A CHPR integra o Bairro dos Museus de Cascais, sendo gerido pela Fundação D. Luís I, presidida por Salvato Teles de Menezes, que refere a sua importância para a vila de Cascais “É de salientar o papel que a Casa das Histórias Paula Rego, a par de outros equipamentos, como o Centro Cultural de Cascais e o Museu Condes de Castro Guimarães, desempenha como motor das atividades culturais e artísticas desenvolvidas no âmbito do Bairro dos Museus, cuja criação se deve à iniciativa do executivo da Câmara Municipal de Cascais”. A CHPR deve a sua origem a um protocolo firmado entre Câmara Municipal de Cascais, através do seu presidente Carlos Carreiras, e a artista, possível dado “o excecional relacionamento que mantemos com Artista e Família, em especial a partir do momento em que tive o gosto de me deslocar ao ateliê de Londres para assinar o contrato que ainda está vigente e que, em breve, será substituído por outro praticamente idêntico e com a mesma duração de dez anos.”

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A Casa das Histórias Paula Rego (CHPR) celebra este ano o seu décimo aniversário, que vem sendo celebrado num programa preparado pelo Serviço Cultural e Educativo do Bairro dos Museus de Cascais. Nesta sua existência, o museu acolheu mais de 30 exposições, entre pintura, gravura e desenho de Paula Rego, tendo recebido cerca de 630 mil visitantes, nas palavras de Catarina Alfaro, coordenadora da programação e conservação do museu, “Durante esta década de existência, as exposições realizadas na Casa das Histórias Paula Rego contaram com colaborações e parcerias com outros grandes museus internacionais, que muito contribuíram para a afirmação da singularidade e importância deste museu dedicado à mais reconhecida artista portuguesa contemporânea”.


“Com a Casa das Histórias, dir-se-ia que Eduardo Souto de Moura se aproxima de uma abordagem ‘regionalista’, distanciando-se do abstracionismo moderno dominante na sua obra. Um regionalismo, todavia, não crítico e estranho ao significado de ‘resistência’ que justificou outras abordagens no Portugal dos anos oitenta do século passado. Neste espaço museológico para Cascais, Souto de Moura associa determinados dispositivos formais a heranças de composição arquitetónica, fórmulas de implantação e usos de escala que se podem facilmente contextualizar numa geografia muito particular. A proximidade com a obra de Raul Lino acontece, portanto, num enquadramento paisagístico ‘a Sul’, sem expedientes decorativos e despojada de recursos pitorescos.”

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Ana Vaz Milheiro


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“É uma honra para mim assistir, ainda que longe, às comemorações do 10º Aniversário do museu que me é dedicado. Aguardo com expetativa a continuidade deste valioso projeto, em colaboração estreita com a Câmara Municipal de Cascais e a Fundação D. Luís I, através da assinatura de um novo contrato com a duração de dez anos. Quero ainda agradecer a todos aqueles que têm contribuído para o êxito alcançado na Casa das Histórias Paula Rego”

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Paula Rego


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“O Verão ensina a mesma prece à papoila e ao monge (…) Um monge, muitas vezes, não sabe se é monge ou se é papoila. E uma papoila não sabe, muitas vezes, se é uma papoila ou se e um monge. Porque partilhamos do mesmo oceano de sentido, do mesmo silêncio, do mesmo gesto. Cabemos ambos no olhar de Deus.” D. Jose Tolentino de Mendoça

“5th hour-artist’s book”

INÊS FAVILA


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“7th hour-artist’s book”

“23rd hour-artist’s book”


“Or are we dancers II”


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“Vanishing point I”

“Vanishing point V”


Há uma procura pelo momento da transformação, pelo momento em que algo se diminui para dar lugar ao crescimento de outra realidade. Elaboro exercícios de respostas impossíveis (para o meu entendimento), sem nunca deixar de as procurar. Reflexões acerca da dança terrena, de avanços e recuos, de quem procura, como num caminho em ponto de fuga, diminuir-se para melhor se entregar aos braços do amor de Deus. Reflexões que abordam o confronto entre a vida espiritual, as vivências quotidianas e as questões sociais.

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Exposição no Espaço Andrade Corvo (Fundação Altice), Lisboa, 2019


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Na liga dos grandes GANSO @paredesdecoura por João Albuquerque Carreiras

Uma das mais promissoras bandas do novo rock português, os Ganso (Thomas Oulman, João Sala, Gonçalo Bicudo, Luís Ricciardi, Miguel Barreira), estreou-se no palco principal de um grande festival na edição deste ano do Vodafone Paredes de Coura, entrando assim na liga dos grandes. O concerto abriu o palco onde tocariam Patti Smith e Suede, quando a luz do dia ainda pairava sobre o belo anfiteatro de Coura. Apesar da hora, foi perante bastante público junto ao palco, e outro tanto aproveitando para escutar o concerto deitado na relva, que os Ganso avançaram para um belo concerto, que terminou com stage diving, crowd surfing e mosh, prova da alegria de quem assistiu.

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Falámos com eles (João e Gonçalo) logo depois de terminarem um concerto que por certo não esquecerão.


Como foi a vossa estreia num grande festival que, pelo que sei, é dos vossos favoritos? Muito especial mesmo. Ainda nem dá para falar bem do assunto. Quando soubemos que íamos tocar já foi incrível, mas faltava tocar mesmo e esforçámo-nos bastante para este concerto porque (não que os outros concertos não sejam importantes) foi o concerto que demos para maior público e por isso sentimos mais responsabilidade. Estamos muito felizes, ainda agora acabou de acontecer e ainda não tivemos tempo para descer à terra, mas temos a noite toda e os próximos dias para digerir.

OO vosso novo disco, “Não tarda”, é um disco na linha do anterior (“Pá Pá Pá”, 2017)? Não, nada. Teve uma aproximação muito diferente, pois começámos a usar teclados dos anos 80 e uma aproximação mais cuidada à composição. Está um nível bem acima de maturidade, com som foi mais definido, pois diziam-nos que não se percebiam bem as letras e neste disco está tudo lá. Tem um som menos lo-fi.

Posso pedir-vos para nos contarem a história dos Ganso? Existem desde quando?)? A banda existe desde 2015 e foi formada por iniciativa do Thomas. Nós andámos todos na mesma escola e o Thomas veio um dia falar comigo (João) na noite, porque ele sabia que eu tocava e estava a tocar com o Luís, o Gil e o Vasco (que já não estão na banda). Começámos a gravar e aí apareceu o Miguel, que substituiu o Luís que teve de ir embora, e depois o Vasco foi embora e veio o Bicudo, já no final do “Costela Ofendida”. Ele entrou e começámos a compor o “Pá Pá Pá”. Os primeiros concertos foram ainda com o Vasco e depois entrou o Bicudo.

Antes deste concerto há algum concerto que tenha sido especial, sendo que todos os concertos, especialmente no início, são especiais?

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Um bem especial foi, há um ano, o “Ganso e amigos”, no Musicbox. Convidámos alguns amigos músicos a participar e houve duetos e solos de guitarra surpresa. Acabou com 12 pessoas em palco a tocar a nossa versão (Cuca Monga) do “Evil Ways” do Santana, traduzido para português à pedrada. (risos)

Vocês estão muito ligados aos Capitão Fausto, através da Cucamonga. Sentem que há uma corrente de amigos que se está a impor como um conjunto? A Cucamonga é isso mesmo, uma corrente, uma editora de amigos. Antes de ir gravar ao estúdio deles (Fausto), eu conhecia a banda e não os conhecia pessoalmente, mas logo nos tornámos amigos. No ano passado entraram os Reis da República (onde o Bicudo também toca) e lançaram um disco. Este ano também vai surgir um disco de outra banda que eu (João) também faço parte, os Zarco.

É bom haver editoras que marquem pelo conjunto. Finalmente, quais são as vossas referências, de onde surge o vosso som? Sabendo que é sempre difícil responder a essa pergunta. EDepende de cada um de nós e de cada trabalho. As referências para o “Pá Pá Pá”, não foram as mesmas que para o “Costela Ofendida” ou para o “Não tarda”. Para este disco houve muito city pop japonês ou Steely Dan (a música com que entrámos hoje em palco). Toda uma vibe urbana e chuvosa, muito anos 80 no Japão. Em Portugal, o Paulo de Carvalho, que tem dois discos chamados “Cabra Cega” (1981) e “Abracadabra” (1982), que fogem muito ao resto da sua discografia. A nível nacional é uma das referências para este álbum. Depois cada um de nós foi buscar influências em cada instrumento de pessoas (instrumentistas) específicas e não tanto a bandas específicas.


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VILAR DE MOUROS MY REFLECTION Crónica da edição 2019 do festival mais antigo da Península Ibérica por Gustavo Homem

Nas semanas que antecederam a minha ida, estava deveras entusiasmado. confesso, principalmente porque iria ser a primeira vez que pisaria o solo sagrado do mítico Festival de Vilar de Mouros (um crime, eu sei), uma referência no panorama festivaleiro nacional, europeu e, porque não dizê-lo, mundial. Uma pequena aldeia ‘gaulesa’ que, à semelhança das famosas histórias de Uderzo & Goscinny, se reveste de uma aura mística e onde as suas gentes são deveras irredutíveis e orgulhosas do seu petit pedaço de paraíso.

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Cheguei e assentei arraiais na quarta-feira, dia 21 de Agosto, portanto, um dia antes do helter skelter das filas e dos concertos. Fui bem recebido, menos pela abundante mosquitada que por esta altura já tinha marcado o seu território e que não estava disposta a dar tréguas, no que iria ser uma batalha que se prolongaria até ao fim do festival. Repelente pelo corpinho e a (possível) armadura pronta, let the games begin.


Estacionar, uma breve investida ao café que por essa altura já fervilhava com festivaleiros em pleno warm up, dois dedos de conversa, um par de finos cada e ala para a tenda, descanso exigia-se, dado que se adivinhavam três intensos dias pela frente. O camping estava óptimo. Longe de um qualquer resort, como é óbvio e ainda bem. Em contexto de festival de música reina e reinará sempre a vertente do-it-yourself, amanha-te com o que tens e improvisa quando necessário, o que na verdade torna a experiência mais saborosa e até enriquecedora. Muita sombra, bons pré-fabricados com vários banhos e wc’s, sacos do lixo estrategicamente colocados, bancas para lavar a loiça, chuveiros ao ar livre e até um spot com várias tomadas para carregar telemóveis e demais gadgets. E claro, o mítico Rio Coura logo ali ao lado, para deleite da malta. Estávamos em casa. Dia 1, rise and shine, bom dia Vilar de Mouros. O calor era intenso. Depois do almoço convidava a uma ida ao café, esplanada, sombra, fino a estalar, convívio. Aquecer os motores para o fim da tarde, altura em que começariam os concertos no recinto. Dar uma volta pela freguesia, uma vista de olhos pelas tendas de merchandising, tratar da acreditação e siga para o olho da tempestade. 19h30. Ainda pouca gente no recinto. Os lisboetas Tape Junk assumem o palco secundário MEO, com a sempre difícil tarefa de dar o pontapé de saída do festival e dar o mote para as restantes bandas. O quarteto composto por João Correia, Frankie Chavez, Nuno Lucas e António Dias cumpriu. Conseguiram cativar a malta presente com o seu Couch Pop (título aliás do mais recente álbum da banda) e proporcionar um óptimo concerto. Ao contrário dos portugueses Tape Junk, a banda que se seguiu no mesmo palco, os britânicos (veteranos) The Wedding Present, não estiveram tão felizes, quiçá pela hora a que tocaram (20h30, hora da janta

para muita malta) ou simplesmente porque não estavam nos seus dias ou com o feeling. David Gedge, vocalista e único resistente da alienação original desta banda que remonta, nas suas origens, a 1985, bem puxou por quem assistia, mas apesar da sonoridade até se ter revelado bem agradável, o feedback não foi o esperado. Sorry lads, melhores concertos virão. 21h30. Hora de inaugurar o palco EDP, palco principal, os pratos principais. Anna Margaret Michelle Calvi toma conta do plateau. Esta moça londrina proporcionou o primeiro grande concerto do festival, com um rock vibrante e cativante que pôs a malta a mexer e a pedir por mais. Senhora de uma destreza admirável na guitarra, aliou uma pujante (e sexy) prestação em palco com sonoridades, tanto instrumentais como vocais, muito interessantes e originais. Um excelente aperitivo para os pesos-pesados que se avizinhavam. Voltei ao palco MEO. Necessitava de uma terapia de choque, uma dose de adrenalina, um blast from the past, os bons e velhos (velhos são os trapos, ora) Therapy? trataram disso. Ó se trataram. Era sem dúvida um dos concertos que mais esperava, não só pelo que a banda significava para mim, mas também pela curiosidade que tinha em constatar se os rapazes vindos do pedaço mais pequeno da Irlanda estavam em forma. E estavam, sim senhor, ao ponto de fazer inveja a muita banda com rapazolas nos seus vintes. O vocalista Andy Cairns, então, parece que fez um pacto com o diabo ou encontrou o elixir da eterna juventude, tal a forma como abanava a carola, dedilhava freneticamente a sua guitarra e puxava pela malta como se fossem os loucos 90’s. Os clássicos estiveram lá todos, ‘Die Laughing’, a já mítica rendição da ‘Isolation’ dos Joy Division, ‘Teethgrinder’, a lovely ‘Diane’, a pequena, mas frenética ‘Nowhere’ e a inevitável ‘Screamager’... que belo revival, que concerto potente, a terapia funcionou às mil maravilhas. Well done boys. Sensivelmente dez para a meia-noite. Palco principal. Straight from Blackwood, Wales, the Manic Street Preachers... os preachers de Gales subiam ao palco. O James Dean (não é esse que estão a pensar), vocalista e um dos masterminds da banda, debitou o que todos esperavam, um mellow rock de qualidade, com letras impactantes, algumas delas com o cariz político e social que sempre os caracterizou. Entraram logo em grande com a nostálgica ‘Motorcycle Emptiness’, para mais à frente brindarem o público (já em grande número por esta altura) com ‘The

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Eram, por esta altura, já umas nove e tal da noite, tendo em conta isso, foi decidido democraticamente sacar das tendas, arranjar um lugar supimpa no camping, arrumar as malas e restantes apetrechos e tratar do que já apertava: a fome. Pegar no veículo e abalar até Caminha para jantar. Chegados lá a fome era tanta que se exigia um banquete à medida. Optámos pelo restaurante ‘Muralha de Caminha’ (passo a pub), onde tirámos, literalmente, a barriga de misérias e fizemos questão de comer (e beber) bem. Qualidade cinco estrelas. Um pequeno passeio à beira do Rio Minho para ajudar à digestão e fizemo-nos de novo à estrada de volta a Vilar de Mouros.


Everlasting’, ‘Everything Must Go’, a (personal favourite) ‘A Design For Life’, seguida da ‘Suicide is Painless’ (cover do Johnny Mandel e tema da mítica série televisiva MASH), uma versão muito bem conseguida (e bem recebida) da ‘Sweet Child O’Mine’ dos Guns N’Roses, acabando em beleza com a ‘If You Tolerate This Your Children Will Be Next’, que serviu para consciencializar a malta e pôr um apropriado ponto de exclamação num concerto muito bem conseguido. Bravo indeed.

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Um compasso de espera e eis que pisam o palco principal os cabeças de cartaz do dia e um dos concertos mais esperados do certame, os míticos The Cult surgem preparados para corresponder às expectativas e proporcionar um final de noite memorável. O vocalista, Ian Astbury, apresenta-se em grande forma, munido do seu casaco de cabedal e óculos escuros, saúda os presentes e dá o mote à sua banda para encetarem as festividades. Como um verdadeiro Rei Sol, ataca desde logo com a ‘Sun King’ seguida da ‘New York City’, num começo de concerto pujante. Seguem-se malhas como ‘Sweet Soul Sister’, ‘Fire Woman’, de uma assentada as míticas ‘Rain’, ‘She Sells Sanctuary’ e ‘Wild Flower’, todas fielmente cantadas em uníssono pelo Ian e pelo público, acabando com a ‘Love Removal Machine’, último clássico para dar por terminada uma prestação sólida, cativante e do agrado geral. O culto mantém-se, está de boa saúde e recomenda-se. Obrigado Ian e companhia. Concluídos que estavam todos os concertos era hora de fazer uma visita ao after-party onde a malta se podia divertir por mais umas horas antes do merecido descanso. E é neste ponto que reside uma das minhas (poucas) críticas em relação à organização, dado que foi recorrente ao longo dos dias todos do festival a incompreensível insistência em música electrónica nos mencionados after-parties… incompreensível dado que tratando-se de um festival assumidamente e tradicionalmente marcado pelo rock não deixa de ser deveras questionável a opção por esse tipo de sonoridade (nada contra a música electrónica e quem a aprecia, óbvio), pareceu descabida e descontextualizada, para o descontentamento de grande parte da malta que, de facto, esperava outra oferta. Ainda assim, deu para um último convívio, uns poucos finos e ala para o ninho. 23 de Agosto, segundo dia de concertos. Muito calor, outra vez. Mais gente, mais festivaleiros, mais tendas, uma sexta-feira que se previa em grande. Mais gente significava também maior rigor na logística por parte da organização, um esforço extra, no sentido de receber da melhor maneira todo um mar de gente ansiosa por aproveitar ao máximo tudo o que Vilar de Mouros tinha e tem para ofere-

cer. O que me leva à segunda crítica... vá não gosto do termo ‘crítica’, demasiado pesado, optemos por ‘reparo’... (rewind)... o que me leva ao segundo reparo, que por acaso não me afectou pessoalmente, mas que transtornou quem se deslocava para a localidade, que foi a questão dos transportes que foram disponibilizados pela organização para encaminharem os festivaleiros até à povoação. De acordo com relatos que consegui recolher na altura, foram escassos e de timing questionável, os horários não foram devidamente cumpridos e o volume de passageiros excedeu as previsões iniciais, criando uma certa decepção e confusão entre os visitantes, obrigando muitos a arranjar outras alternativas não tão viáveis e mais morosas. Tudo eventualmente foi ultrapassado, mas fica o reparo para as próximas edições, com a certeza que haverá melhorias nesse departamento. Depois de uma tarde de compras, de umas deliciosas chapas no Rio Coura e de umas cervejolas no tasco, era chegada a hora do segundo round de concertos. Mais uma vez, pelas 19h00, a malta começou, pouco a pouco, a dirigir-se para o recinto. Conforme as horas avançavam mais filas se formavam, uma constante nesse dia. No palco secundário os veteranos holandeses Clan of Xymox davam o pontapé de saída, com o seu synthpop característico, deram uma óptima réplica e aguçaram ainda mais o apetite do muito pessoal que por ali já se concentrava. Deram lugar, no mesmo palco, aos britânicos The House of Love, que debitaram competentemente o seu rock alternativo, talvez sem o feedback que desejariam, mas cumprindo briosamente a sua missão. Hora da janta, estômago devidamente forrado, virei agulhas para o palco principal, onde por volta das 21h30 apareceram os britânicos Nitzer Ebb, pioneiros na cena synthpop/ industrial, a caminho dos quarenta anos de carreira. À semelhança de outras bandas, aparentavam estar um tanto ou quanto descontextualizados, no sentido em que a química entre público e banda foi titubeante ao longo de todo o concerto. Talvez a ânsia pelos ‘pratos principais’ ou o pouco conhecimento em relação à banda, de grande parte da malta, tenha contribuído para isso. De qualquer forma foi diferente, sem dúvida especial para os connaisseurs e para todos aqueles que desconheciam (ou conheciam pouco), mas que demonstraram claros sinais de aprovação. Solid show, Essex boys. Dez para as onze, palco secundário. Uma das bandas mais esperadas prepara-se para entrar em cena. Dispensam grandes apresentações, na verdade, mas eu faço-a, com pompa e circunstância: Hailing from Leeds,


England, for your exquisite pleasure and mine, the undisputed kings (or, if you will, queens) of gothic rock, The Sisters of Mercy...! ...luzes (várias), câmaras (também várias), acção. O icónico vocalista Andrew Eldritch e seus cúmplices, envoltos numa aura e todo um ambience que só esta banda consegue replicar, vão directos ao assunto: kick off com a ‘More’ que deixou desde logo o público a pedir mesmo por more, ‘Crash and Burn’, ‘No Time to Cry’, ‘First and Last and Always’, a poderosa one-two punch ‘Dominion/Mother Russia’ seguida da ‘When You Don’t See Me’ e quatro clássicos para concluir com chave de ouro esta poderosa e nostálgica prestação: ‘Lucretia My Reflection’ (wink wink), ‘Vision Thing’ e as tão esperadas ‘Temple of Love’ e ‘This Corrosion’. And scene, descompressão.

não deixar os seus créditos por mãos alheias, debitando um longo e rico setlist com todas aquelas malhas incontornáveis, para gáudio dos aficionados do hardcore melódico/skate punk/punk la la la, whatever, destes sempre bem dispostos californianos. Uma entrada em grande com ‘Americana’, ‘All I Want’ e ‘Come Out and Play’, seguidas de ‘Want You Bad’, ‘Original Prankster’ e ‘Bad Habit’ (com uma cover improvisada de AC/DC lá pelo meio), siga a rusga com ‹Gotta Get Away›, karaoke geral na ‹Why Don›t You Get a Job?› e na ‹Pretty Fly (For a White Guy)›, acabando com ‘The Kids Aren’t Alright’. Já chega? Não. Um pequeno encore, com ‘You’re Gonna Go Far, Kid’ e a inevitável ‘Self Esteem’, que acabou de vez com o tanque de reserva. Esgotados mas satisfeitos, dose cavalar de teen angst.

Sim, o som não foi dos melhores e mereciam o palco principal... sim, talvez a voz já não seja a mesma que era e a desenvoltura não é a de outrora, mas, caramba, tivemos todos o privilégio de usufruir da sonoridade inconfundível e marcante destes senhores. E valeu a pena cada segundo, podem crer que valeu.

Dia 3, último dia de festividades. O cansaço acumulava-se, noites mal dormidas, lixo acumulado, o típico nestas ocasiões. Mas, como sempre, it ain’t over till the fat lady sings, só acaba quando a última banda toca o último acorde. E mesmo aí nunca é certo. Depois de uma sesta prolongada para recarregar baterias e aguentar o que resta da festarola, foi tempo de uma boa jantarada em pleno camping, para logo em seguida irmos directos ao assunto.

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Cada vez mais gente no recinto, filas para o multibanco, comida e bebida cada vez maiores. Estado de sítio! Não o caos, mas o suficiente para testar a paciência de muita malta. ‘Faz parte’, ‘Ossos do ofício’ diziam muitos. E é verdade, em Roma sê romano, é lidar com isso da melhor forma e não se deixar abater por esses (previsíveis) contratempos. Adiante. Meia-noite. Os britânicos Skunk Anansie tomam conta do palco principal. Banda também ela aguardada por muitos. Não defraudaram as expectativas. Foram iguais a si próprios, pragmáticos, directos ao assunto e sem medo de agarrar a multidão pelos colarinhos, muito à imagem da sua destemida vocalista Skin, dona de uma capacidade vocal invulgar e de um à vontade em palco desconcertante, ladeada de um conjunto de músicos deveras competente. Fez de tudo a lady Skin: gritou, chorou, acarinhou e, ou ou ou, até deu para uma caminhada intimista por entre o público, qual Jesus a caminhar sobre a água, num momento digno de registo. Os clássicos estiveram lá todos ou quase todos: A frenética ‘Charlie Big Potato’, ‘Because of You’, ‘Twisted (Everyday Hurts)’, ‘Weak’, ‘Hedonism’, momento mais intimista da praxe com a ‘Secretly’, estas e tantas outras contribuíram para um concerto vibrante, nostálgico e cheio de substância. É daquelas bandas que nunca desilude, we thank you.

Chegados ao recinto já os Jarojupe tomavam conta do palco secundário. Rapaziada do distrito, estavam a jogar em casa, são repetentes no festival e não andam aqui desde ontem, debitaram o seu rock clássico com a força e competência que sempre os caracterizou. Pouco depois, foi a vez dos britânicos Gang of Four (mais rapaziada de Leeds) com o seu post-punk/funk-rock que merecia mais entusiasmo por parte da malta que por esta hora ainda se preocupava em encontrar o melhor sítio para saciar a fome. Ultrapassada a fase da janta, batiam já as 21h30 quando os lisboetas Linda Martini se apresentaram no palco principal, onde fizeram valer o seu post-rock característico e protagonizaram quiçá a primeira grande prestação da noite. Calculistas e eficazes, já um nome a considerar cá pelo burgo. Uma ligeira guinadela para o palco secundário onde o grupo de rock britânico Fischer-Z se mostrava à malta. Veteranos nestas andanças, foram um bom complemento aos lisboetas que minutos antes tinham estado no palco principal, um new wave refrescante, com muito humor à mistura, num concerto que apesar de morno se revelou deveras agradável, pena o desinteresse quase geral do público presente.

O cansaço já se manifestava, o corpinho já estava na reserva, mas havia ainda fuel para um último bailarico. Os yankees The Offspring tinham em mãos a tarefa de manter a malta acordada e a mexer. O vocalista Dexter Holland e seus comparsas fizeram questão de

23h30. Hora de reivindicação, revolta, rebeldia, nostalgia e... punho no ar? É, isso mesmo. Hora de agitar o sistema com os norte-americanos Prophets of Rage, um misto de Rage Against the Machine, Cypress Hill e Public Enemy, uma fusão quase perfeita entre rock e


te!’. Punho em riste, comunhão total entre banda e público, um concerto pujante e que ficará na memória durante muito tempo... damn. Depois daquela dose de adrenalina hora de descansar, certo? Errado. Ainda a malta estava a recuperar o fôlego e já os Gogol Bordello se preparavam para acabar a edição deste ano em grande com o seu gipsy punk contagiante a que ninguém fica indiferente. ‘Immigrant Punk’, a esperada ‘Wonderlust King’, ‘Alcohol’ (mais não por favor), ‘Trans-Continental Hustle’, ‘Passport’, ‘Pala Tute’ e ‘Baro Foro’ fizeram parte de um setlist típico deste irrequieto conjunto que é uma verdadeira sociedade das nações, dado as diferentes proveniências dos membros da banda. Um frenético mas adequado ponto de exclamação nas festividades, sorriso de orelha a orelha, dever cumprido, hora do adeus e até para o ano. Foste acolhedor como sempre Vilar de Mouros, estás e estarás aí para as curvas e aguardamos por ti o tempo que for preciso. Continuarás a ser um verdadeiro tesouro nacional e uma referência incontornável no que a festivais de música diz respeito. One of a kind. Um abraço do tamanho do mundo a todos os que nele investem e a todos os que o acarinham. Até já.

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hip-hop. Atrevo-me a dizer que foi O concerto do festival, por várias razões, pela energia que transmitiram, pelo entusiasmo que provocaram na muita malta presente e pelo setlist... e que setlist. Um blast from the past para muitos, uma montanha-russa de memórias e momentos, músicas que acompanhámos durante toda a nossa adolescência até à idade adulta, tudo isto envolto numa monumental poeirada que se instalou por quase todo o recinto. Perdi a conta às vezes que os vocalistas B-Real e Chuck D desafiaram a malta com uns sonoros JUMP! JUMP! JUMP!, ao que o pessoal respondia sempre afirmativamente, sem apelo nem agravo, daí o consequente acumular de poeira. Sacrifício necessário, it’s all in the game man. Entrada com a música que dá o nome à banda, da autoria dos míticos Public Enemy, seguida da primeira dose de Rage Against the Machine com ‘Testify’, ‘Guerrilla Radio’, ‘Know Your Enemy’ e ‘Take the Power Back’, um medley Cypress Hill/House of Pain com ‘Insane in the Brain’ e ‘Jump Around’ (poeira a dobrar), ‘Sleep Now in the Fire’, uma versão instrumental da ‘Cochise’ dos Audioslave (parte vocal foi da responsabilidade do público), e uma última salva de Rage Against the Machine com ‘Bullet in the Head’, ‘Bulls on Parade’, ‘Killing in the Name’ (queue de piretes da praxe) e ‘Bombtrack’... tudo isto com uma mensagem de fundo em jeito de desafio, promovida pela banda: ‘Façam Portugal enraivecer novamen-


O que é Nacional é Bom!!! Bochechas de Porco preto em vinho tinto com açorda de berbigão Para 4 Pessoas Ingredientes: Para as bochechas:

por Chef Mariana Claro

- 800 g de bochechas de porco preto

- 1 litro de vinho tinto

- 1 cebola

- 2 dentes de alho

- 1 folha de louro

- 100 ml de molho de soja

- 250 g de polpa de tomate

- 50 g de mel

- 20 ml de azeite

- q.b de sal

- q.b de pimenta preta Para a açorda:

- 80 g de alho

- 500 g de berbigão vivo

- 100 ml de azeite

- 600 g de pão de mafra duro

- q.b de sal

- 80 g de coentros

Confecção: Para as bochechas: 1. Temperar as bochechas com o vinho, a polpa de tomate, o molho de soja e deixar marinar no frigorifico durante 24 horas. 2. Picar a cebola e o alho. 3. Numa panela adicionar o azeite, a cebola, o alho e a folha de louro e deixar refogar. 4. Adicionar as bochechas ao refogado.

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5. Acreseentar a marinada ao refogado e colocar o lume no mínimo. 6. Adicionar o mel e deixar a cozinhar durante 1/1.30h.


Para a Açorda: 1. Cortar o pão aos cubos grosseiros e adicionar água de forma a amolecer. 2. Laminar o alho. 3. Numa panela adicionar o azeite, seguidamente o alho e o berbigão, colocando uma tampa de forma a que este abra. 4. Retirar o berbigão e reservar. 5. Adicionar o pão e 500 ml de água, deixar cozinhar no mínimo e mexer até formar uma papa. 6. Adicionar o berbigão sem a concha. 7. Picar e adicionar coentros. 8. Empratar como na fotografia.

Receita da autoria: Mami Organic Food, Rua Viriato 13, Picoas Plaza

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Chef Mariana Claro


Entre Minas e a Madeira, por exemplo por Pedro Santo Tirso

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O meu sempre presente editor telefona-me. Está perto o prazo, viajar é o tema. Feliz acaso: preparo-me para partir para o Funchal. Viajar provoca, tanto quanto a experiência de vida me vai permitindo perceber, uma suave angústia ao bebedor consciente. Cava-se entre quase todos eles um fosso entre o conservador e o progressista, entre o paroquial e o cosmopolita. Há exceções. Mas não há sempre? Deixemo-las para depois.


ele pede-a porque é a cerveja madeirense. Apesar de ser pouco amigo de aguardente, este tipo de bebedor transfigura-se perante a poncha, bebida no Funchal ou arredores. É a bebida local! É certo, novamente, que a poncha, quando bem feita (boa aguardente de cana), é maravilhosa. Aliás, como quase tudo o que é bem feito com limão. A aguardente aqui é detalhe, como é também na Margarita e por aí fora. Mas divago. Voltemos ao Sercial de onde o bebedor cosmopolita nunca quererá sair. Mas mais: quererá levá-lo consigo. Um dos traços do viajante bebedor, por oposição ao bebedor viajante, é que o primeiro gosta muito de beber, mas gosta ainda mais de viajar. Ele viaja e a bebida torna-se também viagem, não pode trazê-lo de volta a casa. Para ele é impensável continuar a beber o que já conhece ou o que é habitual. Ele quer da bebida o mesmo que quer da viagem: mudança. Por isso, Coral, poncha e um Sercial de ’82. E sabem-lhe como néctares que são. O mesmo cidadão confrontado com uma viagem profissional a Minas Gerais, investiga de véspera a melhor cachaça mineira, para não correr o risco de comprar coisa parecida. Ele quer cachaça, descobre Prosa & Viola, fica contente. Será a melhor cachaça que já bebeu na vida? Por certo. Não só porque na Europa só bebeu derivados e afins, sucedâneos xaropados de algo que se faz passar por cachaça, mas porque está a beber Prosa & Viola na capital do boteco, enquanto come um pastel. A bebida ganha outro sabor. O cidadão abalança-se para uma Backer Pilsen já sem qualquer planeamento, mas apenas porque uns locais lhe disseram que é cerveja de confiança. Até lhe sabe melhor. Para o cosmopolita, viajar é estar perpetuamente a responder a uma promessa de recomeço, mas brindado com a possibilidade de se renovar mais do que principiar. Ele não começa de novo a gostar de cerveja, nem descobre o prazer do vinho em cada viagem. Ele renova com a bebida a aliança que estabelecera há muito tempo, essa fonte de cultura e de pertença, por mais que se viaje e se escape. Há no meio quem escape a esta cisão, a este fosso alcoólico? Viajar proporciona sempre um encontro com as nossas bebidas preferidas. Sejam aquelas que sempre nos acompanham, sejam aquelas que assim descobrimos. O que muda é o olhar do bebedor. E a única exceção a este vai-vem de íntimas disposições é aquele velho cliché estafado de que bebendo se viaja sem sair do lugar. E mesmo aí a bebida não deixa de nos acompanhar. Já Edmondo de Amicis, em 1881, no seu “Efeitos psicológicos do vinho” notava que os bebedores por vezes conseguem com o vinho viajar para dentro. Mas dessa viagem, por mais literatura, poesia, terapia ou hipnose, que sabemos realmente nós? Dessas viagens não falemos agora.

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O bebedor viaja. Seja de carro ou de avião, sai da sua zona de conforto, por muito que goste de viajar. O conforto torna-se, porventura, outro. E aqui começa a cisão. Há os que vão, mas buscando manter-se bebendo o que sempre bebem no conforto do lar, no seu bar de eleição, em casa de amigos. Viajar, sim, mas com estatuto diplomático etílico. Onde meus pés pararem e minhas espaldas descansarem, aí esteja a minha aguardente de Borba, com 30 anos de ponderação. É isto possível? Claro que sim. Cidadão bebedor que planeie poderá dar a volta ao mundo sempre bebendo a sua dieta. Dá trabalho? Sim! Mas, que diabos, o que não dá trabalho nesta vida? Há que respeitar este tipo de cidadãos. Há até que admirar este tipo de cidadãos. Certo bebedor habituou-se ao seu Yoichi 10 anos e pretende circular pelos continentes bebendo esse espécime escocês naturalizado japonês. Nunca se viveu em melhor altura para isto. A globalização, por paradoxal que possa parecer, é o melhor amigo do conservador. O cidadão aterra em qualquer cidade do mundo, mesmo que munido da sua própria garrafa de whisky nipónico (por segurança) e pode já ir instruído sobre como chegar ao local mais próximo onde, não só poderá desfrutar do seu Yoichi 10 anos (ou, no limite, o de 12 anos, desfaçatez que está disposto a conceder), como poderá até bebê-lo num ambiente elegante, como esperaria fazer junto dos seus. Este tipo de cidadão encara viajar, quer goste muito ou pouco, como uma extensão natural do seu mundo. Daí que o seu mundo, em podendo, deva ir atrás. É censurável? Não posso ir tão longe, mesmo não padecendo de semelhante condição. Confesso até um certo respeito, admiração mesmo. O exercício de preparar, de planear a extensão da existência para além do sustento próximo do lar, do local de trabalho, da cidade onde se vive, para outros países, outros continentes, merece reconhecimento. Há algo de estimável em querer manter os hábitos de bebida não obstante a mudança. Se tudo muda, que a âncora seja a bebida. Viajar torna-se assim mais prazenteiro, com a segurança dos hábitos elementares firmados. Ganha-se uma renovada segurança na exploração dos novos locais. Há quem sinta que não possa viajar-se de outra maneira. Há, contudo, quem ache exatamente o contrário. Ao invés do tipo agora estudado, este espécime planeia, não o modo como poderá continuar a beber a bebida que sempre bebe, mas como poderá descobrir novas bebidas. As bebidas autóctones, as bebidas genuínas. Aquelas que lhe escapam, lá do outro lado, no seu hemisfério. Este é o bebedor cosmopolita. E, sinceramente, às vezes um pouco fatigante. Antes de chegar ele já estudou a bebida local. Admitamos por exemplo que vai ao Funchal. Se quer uma cerveja pede Coral. É certo que a Coral é provavelmente umas das melhores cervejas do mundo (a loura, entenda-se) mas


Viagens à volta do Vinho

Trás-os-Montes por José Paulo Teixeira*

Mapa: Clube Vinhos Portugueses

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Situada a Nordeste de Portugal, a Região de Trás-os-Montes, revela-se uma Região com características muito próprias, marcada pelo relevo acentuado das cadeias montanhosas e bacias hidrográficas que a cruzam. A Região de Trás-os-Montes é uma zona montanhosa, de altitude elevada e com solos essencialmente graníticos, com algumas manchas de xisto. O clima é continental rigoroso, muito seco e quente no verão e com invernos prolongados e gélidos. A vinha surge desde os vales exuberantes na sua vegetação, até aos planaltos e encostas secas de solos pobres e com fraca pluviosidade, convivendo com as culturas tradicionais da região: olivais, amendoais, árvores de fruto e bosques, criando um mosaico variado na paisagem, muito característico da região. Apesar de ser relativamente jovem no que respeita à sua demarcação e denominação, a actividade vitivinícola é de origem secular, como provam os vários lagares talhados na rocha existentes desde a época Romana ou pré-Romana.


CARACTERÍSTICAS DOS VINHOS Relativamente à especificidade dos vinhos da região de Trás-os-Montes, para além da diversidade, existem traços comuns a todos. Os brancos revelam-se muito frutados, minerais e com paladar harmonioso, este, marcado por uma boa acidez que lhes confere frescura e complexidade. No caso dos tintos, caracterizam-se, sobretudo, pela sua frescura, que advém da composição fenólica, a revelar taninos frescos e concentrados, aos quais o tempo atribui elegância e carácter. São vinhos com complexidade aromática intensa, encorpados e com boa estrutura, o que os torna vinhos muito gastronómicos. Sub-regiões Apesar de características muito próprias, na região de Trás-os-Montes verifica-se a existência de vários microclimas, que aliados às diferenças existentes na constituição dos solos, bem como à maior adaptabilidade de determinadas castas, permitem obter vinhos muito diferenciados. Tais diferenças permitiram definir três sub-regiões para a produção de vinhos de qualidade, com direito a DO Trás-os-Montes. Os critérios tidos em conta foram essencialmente as altitudes, exposição solar, clima e a constituição dos solos. Sub-região de Chaves Localizada na fronteira com Espanha, para Norte, as vinhas situam-se nas encostas de pequenos vales que se encontram no vale do Rio Tâmega. Nesta sub-região, os solos são essencialmente graníticos, com várias manchas de xisto, a altitude ronda os 350 a

400 m, valores elevados de pluviosidade e teores elevados de humidade relativa. Área Geográfica: Abrange os concelhos de Chaves e Vila Pouca de Aguiar Sub-região de Valpaços A sub-região de Valpaços localiza-se no centro do coração da Terra Quente Transmontana. Amplamente reconhecida pela produção de vinhos que remontam a tempos romanos, tal presença está intrinsecamente marcada nas rochas, através do maior número de lagares cavados na rocha até hoje identificados. Nesta Sub-região, os solos apresentam diferenças significativas, ocorrendo uma maior incidência de manchas de xisto, existindo muitas zonas de transição com solos graníticos, com a altitude a rondar os 450 a 650 m. No que se refere ao clima, verifica-se a ocorrência de temperaturas mais elevadas durante o verão e valores mais baixos de humidade relativa, bem como valores inferiores de pluviosidade. Área Geográfica: Abrange os concelhos de Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Murça, Valpaços e Vinhais Sub-região do Planalto Mirandês Localizada no sudeste da Região de Trás-os-Montes, na sub-região do Planalto Mirandês é o rio Douro que influência o cultivo da vinha. Os solos são essencialmente xistosos, a altitude ronda os 350 a 600 m, verificando-se a ocorrência de grandes amplitudes térmicas e muito baixos teores de humidade relativa, bem como de incidência de ventos. Tais características, associadas ao tradicional modo de condução da vinha em taça, permitem um maior controlo da vinha, inibindo o desenvolvimento de certas doenças e permitindo, desta forma, uma viticultura praticamente biológica. Área Geográfica: Abrange os concelhos de Miranda do Douro, Mogadouro, Vimioso, Freixo de Espada à Cinta e Torre de Moncorvo Aliados a todos estes factores de clima, solo e tradição, que diferenciam os vinhedos e os seus vinhos, são parte fundamental e indissociável da equação as castas que nele se cultivam, pelo que é imperativo que se conheçam as características de cada uma. A genuinidade do vinho na sua forma mais pura pode-se encontrar nesta região isolada e desconhecida, vale a pena explorar! … Sem esquecer que, … “Para lá do Marão, mandam os que lá estão”! Saudações vínicas e Boas Provas. *Sommelier

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É uma região que esteve isolada e desvalorizada durante muito tempo, porém, o que perdeu em inovação e técnica, ganhou em tradição e genuinidade. A existência de vinhas velhas com uma grande variedade de castas centenárias, marca de forma peculiar a qualidade dos seus vinhos. As castas plantadas são, praticamente, todas comuns nas três sub-regiões. Nas tintas, destaque para a Touriga Nacional, Bastardo, Marufo, Tinta Roriz, Touriga Franca e Trincadeira. Nas brancas, as de maior expressão são, a Côdega do Larinho, Fernão Pires, Gouveio, Malvasia Fina, Rabigato, Síria e Viosinho. A Região Demarcada de Trás-os-Montes encontra-se subdividida em três sub-regiões, Chaves, Valpaços e Planalto Mirandês, dispostas ao longo dos vales dos rios que as atravessam. É importante conhecer, dentro dos elos comum que as unes, as especificidades de cada uma, pois têm características bastante distintas, que dão origem a vinhos diferentes.


Castas Tintas As castas Tintas mais representativas de Trás-os-Montes são: Tinta Amarela, Bastardo, Tinta Gorda, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca. Tinta Amarela É uma casta difícil, especialmente vigorosa, necessitando de refreio permanente e cuidados extremos no controle da produção. Os rendimentos são, por regra, elevados, mas irregulares e imponderáveis. Caracteriza-se por ter cachos médios e muito compactos, mostrando-se extremamente sensível às doenças e à podridão. Os vinhos são tendencialmente florais, mais vegetais quando a maturação é deficiente, ricos em cor e acidez, ligeiramente alcoólicos e com boas condições para envelhecer bem em garrafa. Bastardo Casta vigorosa, de produtividade média, sendo sensível ao míldio e ao oídio e medianamente sensível à podridão cinzenta, apresentando média susceptibilidade ao desavinho. O cacho é pequeno e muito compacto, com bago pequeno a médio, de forma arredondada, cor negro-azul, com película espessa, polpa não corada, rija, pouco suculenta e com sabor indefinido. É uma casta de maturação precoce. Os mostos possuem um potencial alcoólico alto e uma acidez baixa. Os correspondentes vinhos apresentam uma intensidade de cor muito baixa (rosada), aroma “quente” resultado de teores alcoólicos elevados, aliado ao pouco corpo, o que lhe confere uma estrutura/potencial de envelhecimento baixo. Tinta Gorda Casta de porte semi-erecto, vigor e produtividade médios, é pouco sensível ao míldio e ao oídio e sensível à podridão cinzenta. Casta de maturação tardia. Os mostos possuem um potencial alcoólico baixo e uma acidez fixa média. Os vinhos apresentam uma intensidade de cor baixa (rubi aberto), aroma simples de leve travo a frutos vermelhos. Possui uma estrutura/potencial de envelhecimento baixo. Touriga Nacional No passado, chegou a dominar a região do Dão, tendo sido igualmente relevante no Douro, antes da invasão da filoxera, sabendo-se que hoje ambas as regiões reclamam a sua paternidade. É uma casta nobre e muito apreciada em Portugal. A pele grossa, rica em matéria corante, ajuda a obter cores intensas e profundas. A abundância dos aromas primários é uma das imagens de marca da casta, apresentando-se simultaneamente floral e frutada, sempre intensa e explosiva. Pouco produtiva, é capaz de produzir vinhos equilibrados, com boas graduações alcoólicas e excelente capacidade de envelhecimento.

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Tinta Roriz É a casta ibérica por excelência, uma das raras variedades a ser valorizada dos dois lados da fronteira, convivendo em Portugal sob dois apelidos: Aragonês e Tinta Roriz. É uma casta precoce,

muito vigorosa e produtiva, facilmente adaptável a diferentes climas e solos. Se o vigor for controlado, oferece vinhos que concertam elegância e robustez, fruta farta e especiarias, num registo profundo e vivo. Prefere climas quentes e secos, temperados por solos arenosos ou argilo-calcários. É tendencialmente uma casta de lote, beneficiando recorrentemente da companhia de outras castas. Touriga Franca A popularidade desta casta, fundamenta-se na extrema versatilidade, produtividade, equilíbrio e regularidade da produção, bem como na boa sanidade geral. Desenvolve-se num ciclo vegetativo longo, proporcionando vinhos ricos em cor. Apresenta cachos médios ou grandes, de bagos médios e arredondados. Graças à forte concentração de taninos, contribui para o bom envelhecimento dos lotes onde participa. Oferece fruta farta, proporcionando vinhos de corpo denso e estrutura firme mas, simultaneamente, elegantes. Por regra, os vinhos sugerem notas florais de rosas, flores silvestres, amoras e esteva, sendo regularmente associada com as castas Tinta Roriz e Touriga Nacional.

Brancas As castas brancas mais representativas da Região de Trás-os-Montes são: Viosinho, Gouveio, Côdega de Larinho, Rabigato, Malvasia Fina e Fernão Pires. Viosinho De génese transmontana, a casta Viosinho sobrevive dispersa pelas vinhas velhas brancas. É uma variedade de valorização recente, contudo, é uma variedade pouco produtiva, com rendimentos muito baixos, o que ajuda a explicar a popularidade reduzida. Apesar de pouco aromática, oferece um excelente equilíbrio entre açúcar e acidez, proporcionando vinhos estruturados, encorpados e ricos em álcool. Apresenta cachos e bagos pequenos, de maturação precoce, muito sensíveis ao oídio e à podridão, preferindo os climas quentes e soalheiros. Dá origem a vinhos estruturados e potentes, a que, no entanto, falta habitualmente vigor e frescura. Por isso é regularmente lotada com outras castas, capazes de acrescentar a acidez e riqueza aromática que por vezes lhe parecem faltar. Gouveio Profícua no Douro, a casta Gouveio encontra-se hoje disseminada por todo o território continental. Durante anos foi catalogada erradamente como Verdelho, condição que conduziu a algum desacerto entre as duas nomenclaturas. É uma casta produtiva e relativamente temporã, medianamente generosa nos rendimentos, sensível ao oídio e às chuvas tardias, com cachos médios e compactos que produzem uvas pequenas de cor verde-amarelada. Por ser uma casta naturalmente rica em ácidos, que proporciona vinhos frescos e vivos, a sua difusão a Sul, sobretudo no Alentejo, tem sido frutuosa e célere. Dá origem a vinhos de acidez firme e boa graduação alcoólica, encorpados, de aromas frescos e citrinos, com notas a pêssego e anis, com bom equilíbrio entre acidez e açúcar. Desfruta de boas condições para apresentar um bom envelhecimento em garrafa.


Côdega De Larinho Casta de vigor e produtividade média, sendo sensível ao míldio e pouco sensível ao oídio e à podridão cinzenta. O cacho é grande e compacto, com bago de tamanho médio, arredondado, de cor amarelada, com película medianamente espessa e polpa suculenta. É uma casta de maturação média, os mostos possuem um potencial alcoólico médio e uma acidez baixa. O vinho apresenta-se normalmente de cor citrina com aroma bastante complexo, frutado intenso (frutos tropicais) e floral. Na boca mostra algum défice em frescura (pouco ácido), compensado com um excelente perfil aromático e grande persistência. Normalmente, uma correcção ácida melhora o perfil gustativo destes vinhos. Síria Casta de porte semi-erecto, vigorosa e de produtividade média, é moderadamente sensível ao míldio, muito sensível ao oídio e sensível à podridão cinzenta. Apresenta um cacho de tamanho médio e compacto, com bago de tamanho médio a grande, de forma elíptica curta, cor verde amarelada, com película medianamente espessa, polpa rija e suculenta e de sabor indefinido. Casta de maturação média. Os mostos possuem um potencial alcoólico e uma acidez médios. Os vinhos produzidos são de cor citrina, aroma frutado de média intensidade, revelando-se na boca pouco complexos, mas com um bom equilíbrio na relação álcool/acidez.

bem como a versatilidade, precocidade e riqueza em compostos aromáticos, ajudam a explicar a popularidade. Por ser uma casta muito plástica é utilizada igualmente em estreme e lote, aceitando ainda a espumantização e a vindima em colheita tardia, para a obtenção de vinhos doces. Por regra, os vinhos de Fernão Pires devem ser bebidos jovens. Sensível às geadas, prefere os solos férteis, de clima temperado ou quente. Os descritores aromáticos que lhe estão associados alternam entre a lima, limão, ervas aromáticas, rosa, tangerina e laranjeira. Para além de Portugal, a casta Fernão Pires tem sido plantada com algum sucesso na África do Sul e Austrália.

Bibliografia: Comissão Vitivinícola Regional de Trás-os-Montes Portugal By Wine Infovini Site Wine

Rabigato De origem duriense, a casta Rabigato estende-se por todo o Douro Superior. Por erro, no passado foi relacionada com a casta Rabo de Ovelha, variedade com a qual não aparenta qualquer semelhança. Os vinhos oferecem acidez viva e bem equilibrada, boas graduações alcoólicas, frescura e estrutura, características que a elevaram ao estatuto de casta promissora no Douro. Apresenta cachos médios e bagos pequenos, de cor verde amarelada. Poderá, nas melhores localizações, ser vinificada em estreme, oferecendo notas aromáticas de acácia e flor de laranjeira, sensações vegetais e, tradicionalmente, uma mineralidade atrevida. É a boca, porém, que justifica a sua reputação, com uma acidez mordaz e penetrante, capaz de rejuvenescer os vinhos brancos. Malvasia Fina A Malvasia Fina está presente no interior norte de Portugal, é particularmente sensível ao oídio e moderadamente à podridão, míldio e desavinho, proporcionando rendimentos extremamente variáveis e inconsistentes. Os vinhos anunciam, por regra, sintomas melados, no nariz e boca, vagas notas de cera e noz-moscada, aliados a sensações fumadas, mesmo quando o vinho não sofre qualquer estágio em madeira. Os vinhos de Malvasia Fina são tradicionalmente discretos, pouco intensos, razoavelmente frescos e medianamente complexos. É uma casta de lote que, nas regiões mais frescas e quando vindimada cedo, funciona como base de Espumantes.

É uma das castas brancas mais plantadas em Portugal, ocupando uma mancha regular que se estende por todo o país. A produtividade elevada,

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Fernão Pires


Chapéus há muitos

COMPANHEIROS DE LONGAS CAMINHADAS SOB O FRIO E A CHUVA.

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Waan Pithansonbat

por Joana da Franca


RAIO GOURMETIZADOR

Sobre mamas por Pedro Nápoles

Cresci a ver o leite sair de uns pacotes moles e a ter de ser fervido em casa. Para beber era preciso usar um passador, porque por muito divertidos que fiquem os bigodes, nunca adorei aquela nata. Para adicionar, discutia-se lá em casa qual a marca de chocolate a utilizar ou a simples utilização de café. O que não tinha discussão era que o leite era gordo, aliás acho que nem outra coisa havia. Depois houve a perseguição ao leite e que fazia tanto mal que era preciso reduzir a gordura, então surgiram os meios-gordos e a água suja (vulgo leite magro). Nessa altura gostava mesmo de leite e deleitava-me com leite o mais gordo possível, de preferência o sublime Vigor nas suas belas garrafas de vidro. Por ter crescido na província, desde cedo soube de onde vinha o leite e, felizmente, tive várias vezes a possibilidade de beber o impagável leite acabado de sair da vaquinha, após massagem suave das tetas. Aquela gordura e sabor intenso e a sensação primitiva de ligação directa à natureza das coisas. Acredito que muitas crianças de hoje pensem que o leite saia dos pacotes – e a carne das embalagens ou que o peixe tem formato de douradinhos – o que é uma pena e talvez explique muita coisa.

amendoeiras ou as tetas da soja. Aprendi que o leite era o que distinguia os mamíferos e de repente tenho a soja e o coco não só considerados como animais, mas mais concretamente como mamíferos. Não sei o que se seguirá e se vamos ter carne de alfarrobeira ou peixe de algas marinhas. Não achei que os OGM tivessem chegado tão longe, mas aparentemente o mundo vegetal e animal sofreram mutações tais que já não as acompanho. Deve ser uma obsessão minha com a língua, mas tenho essa coisa de achar que as palavras têm um significado e não outro e que as liberdades poéticas ficam para os poetas, que poderão falar do leite das azinheiras ou do sangue das oliveiras, agora este pulular de mamas vegetais deixa-me realmente inquieto quanto ao rumo que o mundo está a tomar.

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Estávamos nisto e de repente, graças à descoberta de uma massiva intolerância à lactose, começo a ouvir falar de leite de soja, de coco ou de amêndoa. E todos os meus conhecimentos das ciências naturais são postos à prova a imaginar as mamas das


Viseu por Câmara Municipal de Viseu

Viseu é uma cidade feliz e vibrante, histórica e criativa no coração de Portugal. Esta identidade humana que respira por todos os poros transmite-se na arte de bem receber, que lhe é indissociável. De Janeiro a Dezembro! Viseu é a Cidade de Viriato e a Cidade de Grão Vasco, a Cidade-Jardim da Beira e a Cidade Vinhateira do Dão. Este mix de atributos, associado a uma agenda de eventos vibrante, faz de Viseu um destino imperdível no coração de Portugal. Um destino ativo de cultura e património, de vinhos e gastronomia, de parques e jardins, de inovação e bem-estar. Viseu é uma experiência surpreendente, onde cabe ainda um rico território de aldeias e tradições humanas a redescobrir. Viseu é a confirmação de que não é preciso ir longe para viver uma experiência inesquecível.

Fotografia por: Rui da Cruz


Fotografia por: JosĂŠ Alfredo

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Fotografia por: CM Viseu

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Bica 9  

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