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revista

João Moreira | Editorial #3 José Avillez | Grande entrevista #4 Patrícia Portela | Banquete da segunda árvore – O jardim #13 João Albuquerque Carreiras | Gula romana #16 João Pedro Costa | Turismo, xx-líbris da gula #22 Patrícia Portela | Banquete da segunda árvore – O outro jardim #25 Nuno Mendes | Lisboeta #30 Rita Santos | Comida Independente #38 Patrícia Portela | Banquete da segunda árvore – O pão e o pé #41 Susana Andrade | Alysson Muller #46 Bruno Esteves | Da Finisterra ao Golfo da Biscaia #52 Paulo Duarte, sj | Comer: momento de Ser #58 André Serpa Soares | Gula, sofreguidão e excessos #59 Luiz Garcia | Entre a gula e a virtude, comamos! #60 José Carreira | Palavra-chave da longevidade #62 Bernardo Mota Veiga | Gula ambiental #64 João Albuquerque Carreiras | Gonçalo Ribeiro Telles #66 Gonçalo Ribeiro Telles | A paisagem do futuro #68 Rafael Vieira | Azulejo publicitário português #76 Gustavo Freitas | Do Bairro Alto para o mundo... #83 Filipe Carvalheiro | Temporada música em São Roque #86 Rodrigo Cabral | By the bar #88 Ana Luísa Soares e Ana Raquel Cunha | Árvores de Lisboa #100 Pedro Martins| Um dia na vida dos novos mouros #102 Carolina Grilo | A celebração da herança alimentar romana... #106 Joana Sousa Monteiro | A persistência de um ícone... #109 Filipe Jorge | Lisboa e os seus arquitectos... #111 Vanessa Pires de Almeida | ...a obsessão por um domínio absoluto #121 João Moreira | Livraria da Travessa #122 Francisco Duarte Coelho | Segredos de Lisboa #127 Lisbonar | O nosso guia de Lisboa #129 Ana Pérez-Quiroga | Auto-retrato da artista...#138 Francisco Mallmann | eu&tu #145 Pedro Santos Guerreiro | Licença de porte de alma #146 Eduardo Arimateia | Livro venenoso #148 Denise C. Rolo | Leituras #150 Sofia Viana | Perguntas proibidas #153 João Albuquerque Carreiras | Postais perdidos #154 Itamar Vieira Junior | Um Camões para a pátria... #156 João Moreira | A propósito de João Gilberto... #158 João Moreira | Coura sem Paredes #167 Gustavo Homem | Feeling Alive #176 João Júlio Rumsey Teixeira | E depois da saciedade? #181 Verónica Melo | Eat Art de Dusseldorf ao Porto #182 José Pedro Pinto | João Salaviza – os primeiros filmes #186 Joana da Franca | Chapéus há muitos #190 Pedro Nápoles | Raio Gourmetizador #191 Mariana Claro | Gastrossexual #192 Pedro Santo Tirso | Do Vale de Elqui a Santiago – a Piscola #194 José Paulo Teixeira | Viagens à volta do vinho #196 Nuno Maia | Kompassus #200 Câmara Municipal de Viseu | Feira de São Mateus... #205

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GULA


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Fotografia por Hugo Macedo


Editorial “Tenho comigo próprio uma luta desmedida. Podendo, comia a lua.” Carlos Vaz Marques in Granta Portugal 9

Tenho saudades das antigas Páscoas beirãs. Do cheiro a jardins floridos de começo de Primavera, a granito lavado, a terra remexida e a bolos acabados de sair do forno. Tenho saudades da azáfama das limpezas para receber o Cristo Ressuscitado. Da cozinha cheia de gente e de doces e pudins e batatas acabadinhas de fritar e couves orvalhadas e tomates coração de boi. Das brincadeiras nas vinhas e nos pomares, com primos acabados de chegar, que só reencontrávamos nesta época do ano. Da abstinência de Sexta-feira Santa, mitigada por broas de sardinha, mais pecaminosas que qualquer lagosta. Dos folares do Café Central, de Vouzela, reservados, religiosamente, semanas antes, para que não faltassem à mesa de Domingo. Do aroma inconfundível dos raminhos de alecrim, cuidadosamente colocados sobre o cabrito, quase acabado de assar, e do açúcar queimado a ferro em brasa, sobre o Creme d’Água, receita ancestral da família, cuidadosamente guardada num caderno manuscrito a letra miudinha que só via a luz do dia em ocasiões solenes. Muito mais do que os Natais, as Páscoas eram momentos de família, de mesas fartas e de exageros, abençoados por quarenta dias de jejum e abstinência, a maioria das vezes, atenuados, às escondidas, por avós pouca atreitas a sacrifícios, ainda que em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, impostos aos mais pequenos. Para mim, as Páscoas beirãs eram sinónimo de horas passadas na cozinha, a rapar colheres de pau encharcadas de ovos moles e a catar amêndoas torradas das tartes, religiosamente reservadas para a chegada do compasso, anunciando a Ressurreição. Que me recorde, terá sido nestas páscoas que incorri, pela primeira vez, no Pecado Capital da Gula, para, pecador me confesso, não mais parar. É de Gula que falamos nesta edição da Bica. Nesse desejo incontrolável, além do necessário, por comida e bebida e, acrescento sem pudor, por música e arte e cinema e literatura e poesia e tudo de que gostamos desmesuradamente. Por isso, desafiámos o mais conceituado chef português, José Avillez, para uma conversa sobre o caminho que o levou à conquista de duas estrelas Michelin; fomos a Florianópolis perceber as influências gastronómicas portuguesas na cozinha do chef Alysson Muller; desvendámos o segredo por trás de um dos vinhos mais aclamados da Bairrada, o Kompassus, do gastrónomo e exímio cozinheiro, João Póvoa; visitámos Paredes de Coura, para numa apaixonante tarde de conversa com o contador de histórias e Presidente da Câmara, Vítor Paulo Pereira, perceber como a gula musical de quatro adolescentes mudou para sempre o rumo de uma vila do interior; convidámos a Rita Santos, que há anos viaja o mundo em busca dos melhores produtos biológicos, a escrever sobre a sua Comida Independente. Pelo meio, em jeito de homenagem, recordámos o mais genial dos músicos brasileiros, João Gilberto, numa inolvidável conversa com Carlos Alberto Afonso, na sua Toca do Vinicius, no Rio de Janeiro, e desafiámos o vencedor do Prémio Leya, Itamar Vieira Junior, para nos escrever sobre a recente atribuição do Prémio Camões ao “músico com olhos de mar”, Chico Buarque de Hollanda.

Propriedade: Studiobox, Publicidade e Gestão de Meios, Unipessoal Lda Direcção: Bruno Esteves Susana Andrade Edição: João Moreira João Albuquerque Carreiras Fotografia: Bruno Esteves e João Albuquerque Carreiras Arte: Studiobox Ilustração: João Albuquerque Carreiras Identidade Corporativa: Jorge Barrote Comercial: geral@revistabica.com +351 962 706 373 / 968 405 494 Impressão: Tondelgráfica, SA Periodicidade: Trimestral Tiragem: 5 000 unid. Depósito legal: 416462/16 Interdita a reprodução de quaisquer textos ou ilustrações por quaisquer meios. A Revista Bica é escrita em português, sem utilização do acordo ortográfico. Os conteúdos dos textos e as opiniões neles expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Capa: Fotografia Original Gabriel Lima

APOIOS:

Esta é uma Bica gulosa, para ser lida sem moderação.

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Finalmente, publicámos um dos mais extraordinários textos do Arquitecto Paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, o seu discurso de jubilação na Universidade de Évora, intitulado A Paisagem do Futuro. Relembrar o pensamento do “homem da razão antes de tempo”, além de uma obrigação, é um grito de alerta para a urgência de ordenamento de um território que, de ano para ano, é consumido pelo fogo e reduzido a cinzas.


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Grande Entrevista


José Avillez

por João Moreira

Grupo José Avillez

“As memórias afectivas, o encontro com o passado e a transformação de lembranças únicas vividas e recuperadas numa colherada. A herança de um passado fascinante, com a descoberta de novos mares, novas terras, novos povos, novos produtos. O explorar de um presente fervilhante e o imaginar apaixonadamente o futuro. Somos história, memória, conhecimento, criatividade, sonho, emoção e acção.” José Avillez

Aos seis anos fazia barcos de madeira com um canivete suíço e sonhava ser carpinteiro. Aconselhado por um primo, decidiu ser arquitecto, até ao momento de se inscrever na faculdade, altura em que outro primo o convenceu a optar por Comunicação Empresarial. Para tese de final de curso, escolheu um tema que mudaria a sua vida: Imagem e Identidade da Cozinha Portuguesa. José Avillez, o único chef de cuisine português com duas estrelas Michelin, começou a carreira no restaurante Fortaleza do Guincho, em Cascais, trabalhou com José Bento dos Santos na Quinta do Monte D’Oiro, estagiou com Alain Ducasse e Eric Frechon, e cumpriu o sonho de trabalhar com Ferran Adrià, no mítico El Bulli. De 2008 a 2011, assumiu a chefia da cozinha do célebre Tavares, onde conquistou a sua primeira estrela Michelin. Em 2011, inaugurou o seu primeiro restaurante, O Cantinho do Avillez, seguindo-se, no ano seguinte, o Belcanto, e, a partir daí, não mais parou, construindo um império que, hoje, conta com 12 espaços, de entre eles, a Tasca recentemente inaugurada no Dubai. José Avillez conversou com a Bica, no renovado Belcanto, recentemente incluído na restrita lista dos 50 melhores restaurantes do mundo, sobre uma adolescência que acabou cedo, a decisão de se dedicar à cozinha, impulsionada por Maria de Lourdes Modesto, a ligação ao Engenheiro José Bento dos Santos, a passagem pelo El Bulli, os desígnios da cozinha portuguesa, a necessidade de promover a nossa gastronomia, os seus restaurantes e a sua equipa, que não se cansa de elogiar.

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José Avillez such as he is.


A cozinha é mesmo “o seu fado”? Acho que sim, não foi um percurso planeado desde cedo, foi uma paixão que surgiu já no último ano da faculdade. Nunca imaginei que faria este caminho. É um orgulho enorme poder contribuir para dar a conhecer a cozinha portuguesa, além-fronteiras. Acredito que temos uma das melhores cozinhas do mundo.

Isso significa que há muito de tristeza e de saudade nas suas criações? Interpretei a palavra fado como destino, não como tristeza ou saudade. Espero que a cozinha que oferecemos possa criar boas memórias.

Numa entrevista, concedida pouco tempo depois de ter recebido a primeira estrela Michelin, ainda no Tavares, falava da cozinha técnico-emocional, onde o chef, na composição, quando pensa e experimenta os sabores, é influenciado pelas suas emoções. Esse é o segredo da sua cozinha? Quando cozinhamos para alguém, transmitimos as nossas emoções, e podemos querer ou não, dependendo do estilo de cozinha que estamos a oferecer, despertar emoções. Cozinhar é um acto de entrega. Todos os dias trabalhamos com grande dedicação para oferecer uma boa cozinha, uma cozinha preparada com bons produtos, com conhecimento e com um bom serviço. O serviço e o ambiente são muito importantes, e influenciam grandemente a forma como percepcionamos a cozinha.

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O que mudou desde o “Cubismo do Leitão” do Tavares, até à “Horta da Galinha dos Ovos de Ouro” do Belcanto? Na verdade, a “Horta da Galinha dos Ovos de Ouro” também nasceu no Tavares. Este ano faz dez anos que recebemos a primeira estrela Michelin, no Tavares. Em 2012, abrimos o Belcanto. Durante os três primeiros meses, estivemos sempre cheios com clientes do antigo Belcanto que tinham alguma expectativa sobre o novo Belcanto. Foram meses difíceis, porque estávamos a tentar conciliar uma carta – que era a continuação do trabalho que tínhamos começado no Tavares – com alguns clássicos do antigo Belcanto, porque não queríamos cortar completamente com o passado. Em Abril, recebemos um crítico importante do The New York Times que escreveu: “Estou a ver o futuro da cozinha portuguesa num copo de Martini invertido”, que era um sumo de azeitona com uma esfera de Martini, que tínhamos como aperitivo. A partir desse momento, o telefone não parou de tocar. Nesse mesmo ano, recebemos a primeira estrela Michlein no Belcanto, em

2014, recebemos a segunda estrela, e, este ano, em 2019, entrámos, pela primeira vez, na lista dos The World’s 50Best, no lugar 42 e renovámos o Belcanto, mudando o restaurante para um novo espaço e trabalhando na criação de novos pratos. Tem sido um caminho incrível. Agradeço muito à extraordinária equipa que me acompanha. Sem a equipa que tenho nada disto teria sido possível.

Li, que, quando recebeu o telefonema para o informarem que acabara de conquistar a sua primeira estrela Michelin, depois de comemorar com os colaboradores e brindar com os clientes, pensou: “Vamos trabalhar para a segunda”. Essa determinação tem sido fundamental na sua vida? As estrelas Michelin são um importante reconhecimento do trabalho e da dedicação de toda a equipa. No dia em que recebemos a primeira estrela Michelin, depois de uma breve comemoração e de referir quanto era importante aquele momento, sublinhei que também nos trazia uma responsabilidade acrescida e que no dia seguinte teríamos de trabalhar ainda mais e melhor.

Depois da segunda estrela Michelin atribuída ao Belcanto, que, entretanto, também foi considerado, pela revista Restaurant um dos 50 melhores restaurantes do mundo, o caminho é “trabalhar para a terceira” e entrar no Top Ten? Digo sempre à minha equipa que temos de trabalhar de forma empenhada para dar prazer a quem se senta à nossa mesa. Trabalhamos para sermos melhores, e uma das consequências poderá ser ganhar a terceira estrela, mas não nos devemos agarrar a isso enquanto objectivo maior, porque é contraproducente para a estabilidade motivacional da equipa. Desde o primeiro dia que o nosso foco é o cliente. A meu ver, devemos manter esse foco.

Aos seis anos, fazia barcos, de cascas de árvore, aos 17 queria seguir Arquitectura, licenciou-se em Comunicação Empresarial. Como é que acabou por se tornar o mais importante chef português? Quando era pequeno, adorava fazer construções em madeira com um canivete suíço, e o meu sonho era ser carpinteiro. Depois, um dia, devia eu ter seis anos, um primo, que já tinha dez anos, perguntou-me o que é que eu queria ser. Quando disse que queria ser carpinteiro, disse-me logo que nem pensar, porque ia ganhar pouco, e disse-me que era melhor escolher ser Advogado ou Arquitecto. Advogado, sabia que não queria ser. Por


A primeira conversa com a Maria de Lourdes Modesto, que conheceu através do seu tio Francisco, foi determinante para a sua decisão de se dedicar exclusivamente à gastronomia? Sim, foi a primeira pessoa com quem partilhei a decisão de querer ser cozinheiro. Nessa altura, não se falava na profissão de cozinheiro como agora. Quando lhe contei, os olhos brilharam, e disse-me que era uma profissão muito bonita. O apoio que me deu e a forma generosa como me recebeu foram muito importantes. Ainda hoje temos uma relação muito próxima e especial.

De que forma é que a autora da bíblia gastronómica nacional, “A Cozinha Tradicional Portuguesa”, marcou a sua carreira? Foi uma das pessoas que mais me ajudou e incentivou a seguir este rumo. Os ensinamentos que me passou foram muito importantes. Ainda hoje os guardo bem guardados, porque tenho consciência de que foram, são e serão imprescindíveis para tudo o que fiz, faço e irei fazer. Acha que já seria possível escrever uma nova bíblia gastronómica, “A Cozinha Contemporânea Portuguesa”, ou ainda estamos longe disso? Parece-me que essa pergunta deveria ser feita à Senhora D. Maria de Lourdes Modesto.

Outra das pessoas que marcou o seu percurso foi o Engenheiro José Bento dos Santos. Fale-nos dessa ligação ao Homem do Monte D’Oiro. Como referi, a minha tese de licenciatura foi sobre a Imagem e a Identidade da Cozinha Portuguesa, e, para esse trabalho, fiz as tais cem entrevistas. Foi no decorrer destas entrevistas que conheci o Engenheiro José Bento dos Santos, um grande especialista em gastronomia. O Engenheiro Bento dos Santos tem uma cultura extraordinária, e foi um mentor e um professor fantástico. Trabalhámos juntos algum tempo e, até hoje, mantemos uma ligação próxima.

Trabalhou no celebérrimo e saudoso El Bulli. Como foi essa experiência com o Ferran Adrià? Foi uma experiência transformadora, marcante e única. Foi ali que aprendi a libertar o meu pensamento e a minha criatividade. Entendi que criar é um acto de liberdade. Ferran Adrià é incrível, um inovador extraordinário com um pensamento fantástico. Ainda hoje, mantemos contacto, ficou uma enorme admiração e amizade.

O crescimento exponencial do turismo, nos últimos anos, foi determinante para o desenvolvimento e a afirmação de uma “cozinha contemporânea portuguesa”? Não só pela transformação de mentalidades, mas, sobretudo, pela sua viabilização financeira? Sim, na minha opinião, o facto de o turismo ter aumentado muito e ter deixado de ser tão sazonal promoveu um crescimento e uma evolução da cozinha em Portugal. Os chefs portugueses passaram a ter a oportunidade de abrir os seus próprios restaurantes e de servir as suas cozinhas a um público maior, mais regular. É de salientar também que chefs mais jovens têm tido a oportunidade de construir os seus projectos, e começam a ser referências, tais como António Galapito e Pedro Pena Bastos, o que também reflecte uma importante evolução do mercado.

Além da excelência gastronómica, os seus restaurantes são muito referenciados pela atenção aos pormenores. Estou a lembrar-me de uma cliente que gostou da camisa da farda do Cantinho do Avillez e o funcionário foi ao cacifo buscar uma que lá tinha, e ofereceu-lha. Ou outra em que um casal de ingleses chegou ao Belcanto para jantar, sem se aperceberem dos preços, e o José não os deixou ir embora sem lhes preparar um prato. Esse cuidado com as pessoas é o melhor marketing? Isto porque, já o ouvi di-

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isso, escolhi ser Arquitecto, e, até ao 12º ano, segui o caminho das Artes. No entanto, no dia em que me ia inscrever na Faculdade de Arquitectura, um outro primo falou-me de um curso, que tinha a certeza de que eu ia gostar, e foi assim que me inscrevi em Comunicação Empresarial, curso que terminei. A minha tese de final de curso foi sobre a Imagem e Identidade da Cozinha Portuguesa. Para esse trabalho, fiz cem entrevistas a cinquenta portugueses, sobre a identidade, e a cinquenta estrangeiros, sobre a imagem. Tive, como orientadora, Maria de Lourdes Modesto (a maior especialista em Cozinha Tradicional Portuguesa), e, de repente, conheci cem pessoas do meio: chefes de cozinha, gastrónomos, jornalistas, críticos, autores... Este trabalho foi uma porta de entrada para o futuro, e despertou a vontade de querer estagiar numa cozinha. Nesse último ano da faculdade, fiz o primeiro estágio, na cozinha da Fortaleza do Guincho. Assim que entrei naquela cozinha, o meu coração disparou, e senti uma emoção inexplicável. Percebi que aquele era o meu caminho. E, a partir daí, fui somando experiências, que me permitiram criar uma equipa extraordinária. Juntos chegámos até aqui.


zer, quando uma experiência é excelente, e supera as expectativas, um cliente é capaz de contá-la a 15 ou 20 pessoas. Digo sempre às equipas que, para mim, é importantíssimo superar expectativas. Devemos tentar marcar a diferença na vida das pessoas. A palavra-chave é cuidar. Há momentos que nunca mais se esquecem. E é espectacular se alguém guardar boas memórias relativas a Portugal. Será óptimo para o país, para o turismo, para todos.

Abriu, recentemente, a Tasca, no Dubai, num dos mais emblemáticos hotéis do mundo. Porquê o Dubai? Foi um convite que partiu do Hotel Mandarin Oriental. A proposta foi abrir a Tasca no Hotel Mandarin Oriental Jumeira, no Dubai, que ia começar a ser construído. Fiquei muito contente e orgulhoso com o convite. Tive a oportunidade de acompanhar a construção do hotel, desde o começo, e foi uma experiência espectacular. É o nosso primeiro restaurante fora de Portugal. Esta parceria com o Hotel Mandarin é um desafio, mas também uma importante oportunidade de aprendizagem, para mim e para a equipa. E é também uma excelente forma de divulgar Portugal e a gastronomia portuguesa, o que me deixa muito contente. Acredito que temos uma das melhores cozinhas do mundo e é importantíssimo conseguir divulgá-la.

Costuma afirmar que se tornou homem muito cedo, em consequência da morte precoce do seu pai, quando tinha sete anos. O homem da casa, com direito a tiro de caçadeira para afugentar ladrões e tudo. Essa precocidade foi essencial para atingir o topo da carreira aos quarenta? Foi um acontecimento que me fez crescer rapidamente e assumir a responsabilidade de ser o homem da casa. Com 12, 13 anos sentia-me mais adulto do que os meus amigos, tinha outras responsabilidades. É uma situação que nos marca e que talvez me tenha feito lutar e trabalhar mais, porque, desde cedo, tomei consciência da fragilidade da vida.

Sei que faz psicanálise. O equilíbrio emocional é essencial num chef? Reflecte-se nas suas criações?

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Fiz, já não faço. O autoconhecimento é importante. A psicanálise tira tudo, cá de dentro, para, depois, voltarmos a arrumar. Para mim, foi importante. Acredito que possa não ser para outras pessoas.


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Como é o dia-a-dia do José Avillez, responsável por um Grupo empresarial, casado, com dois filhos?

internacional, gostava muito que houvesse investimento, estratégia e vontade, nesse caminho. Seria muito bom para o país.

A agenda é organizada a longo prazo, e é muito intensa. Divido-me entre a cozinha e a gestão. Sem o apoio da minha família e da equipa extraordinária que me acompanha, nada disto seria possível. Sou muito grato por isso.

Se sair para jantar fora, que tipo de restaurante procura?

Costuma cozinhar em casa? Raramente, mas, aos Domingos ou nas férias, gosto de preparar um bom peixe.

Ainda é fácil encontrar produtos genuínos, frescos e de qualidade, apesar da homogeneização a que temos assistido? Sim, é. Há produtores que estão a fazer trabalhos incríveis. É possível encontrar muitos produtos de qualidade: vegetais, frutas, carnes, peixes, queijos, pães… Em Portugal temos bons produtos. Há muitos outros, mas só para referir alguns, destaco a Quinta do Poial, a Herdade do Freixo do Meio, a Gleba… e muitos outros.

A cozinha tradicional portuguesa ainda o surpreende? Sim, sem dúvida. Temos um país pequeno, mas muito rico pela diversidade geográfica. É difícil escolher uma experiência, mas talvez destaque um caldo verde, preparado ao pôr-do-sol, numa das aldeias que visitei no Minho. O Minho é, sem dúvida, uma das regiões mais bonitas de Portugal. A couve-galega, as batatas e as cebolas vieram directamente da horta, a água veio da fonte, o azeite e os enchidos tinham sido fumados de forma caseira. Não há palavras para descrever aquele Caldo Verde.

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Já abriu restaurantes com gastronomia de diversos países. Qual é, para si, a gastronomia mais interessante, e aquela que vai ser a “next big thing”? Procurámos contribuir para o aumento da notoriedade internacional do mercado português, convidando chefs de outros países, a trazer para Lisboa as suas cozinhas: Diego Muñoz, com quem abrimos a Cantina Peruana; Roberto Ruiz, com quem abrimos o mexicano Barra Cascabel; e Estanis Carenzo, com quem abrimos os restaurantes asiáticos Rei da China e Casa dos Prazeres. Penso que a abertura de restaurantes étnicos, em Lisboa, reforça a oferta gastronómica, de forma importante, e ajuda a aumentar o valor de Lisboa, enquanto destino gastronómico. Quanto à “next big thing”, claro que gostava que fosse a cozinha portuguesa, a nível

Que seja bom, independentemente do estilo.

Usando a provocação do Miguel Esteves Cardoso, “em Portugal não se come mal”? Temos excelentes pratos, excelentes produtos e bons restaurantes. Como já referi, acredito que temos uma das melhores cozinhas do mundo e alguns dos melhores produtos do mundo, como é o caso do nosso peixe e marisco. Fico contente com a visibilidade que a cozinha portuguesa está a ganhar. Os chefs internacionais, que conhecem a cozinha portuguesa, ficam admirados com a sua riqueza, tradição e qualidade. Era bom que se apostasse na sua divulgação. O país ficava a ganhar.


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AN UNAUTHORIZED EXHIBITION

OF ARTWORKS FROM PRIVATE COLLECTIONS BY THE ARTIST KNOWN AS

14 JUN » 27 OUT [12]

CORDOARIA NACIONAL BANKSYEXHIBITION.PT


Banquete da segunda ĂĄrvore o jardim

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por PatrĂ­cia Portela


No início havia um jardim não com uma, mas duas árvores. Gémeas. O jardim não tinha Tempo e debaixo de uma das árvores, não sabemos se sempre a mesma, realizava-se todos os anos um grande festim. Nesse dia desse festim, também não sabemos por que razão, comemorava-se, comendo. Trincavam-se as folhas, mascavam-se os ramos, chupavam-se as raízes, a seiva, as flores, saboreavam-se pequenos insectos e larvas, mas por estranho que pareça, nunca se comiam os frutos da árvore que dava abrigo a este banquete. Todos celebravam. Todos eram cegos. A árvore que os abrigava era tão velha e o clima era tão quente que os frutos nasciam secos e duravam séculos, intocados. Os pássaros, as aranhas, as abelhas e os ventos reuniam-se sempre neste dia, no topo dos ramos dessa mesma árvore para discutir filosofia, ver as pessoas comer, e recolher as migalhas que sobravam ao final do dia. Estes banquetes decorriam com frequência e sempre com rituais semelhantes, mas, no último banquete, alguém sugeriu experimentar, pela primeira vez, o fruto da árvore que os abrigava. Todos acharam uma bela ideia e o mais corajoso dos convidados apanhou um fruto, mordeu-o e passou-o ao próximo. Exactamente quando o fruto terminou a sua primeira volta, de mão em mão, de boca em boca, exactamente quando já todos o tinham saboreado, toda a restante fruta que ainda estava suspensa na árvore caiu, tocando o chão pela primeira vez. O clima mudou abruptamente. Todos os pássaros se levantaram em debandada, Todas as abelhas desapareceram, refugiando-se nas suas colmeias.

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Todas as aranhas dispersaram. Uma ventania levantou-se a norte acompanhada de uma chuva miudinha que


começou a cair, imparável. Todos os presentes ganharam o dom da visão e um enorme apetite. Olharam uns para os outros e perceberam quão diferentes eram uns dos outros, todos mulheres. Olharam à volta mais uma vez e viram, não muito longe da árvore onde partilhavam o banquete, uma Segunda árvore, com o mesmo tronco, as mesmas raízes, as mesmas folhas, mas frutos diferentes. Num impulso de fome, uma das mulheres correu para a Segunda árvore. Nesse preciso instante, dois estranhos entraram no jardim e um deles sussurrou ao ouvido dessa mulher. Alguém lá fora precisava de falar com ela com urgência. Conduziram-na até à saída. Ela nunca deixara o jardim, nunca tinha reparado que havia uma porta. Todas as outras mulheres se deixaram ficar. Ela saiu. Lá fora não encontrou ninguém. Ela virou costas, E não havia vestígios dos dois estranhos que a vieram buscar. Não percebendo o que se passa, Ela decide regressar ao banquete, mas no preciso momento em que se prepara para reentrar no jardim, um terramoto destrói tudo à sua volta, incluindo as duas árvores. Apenas ela sobrevive.

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Ela, a sua insaciável fome, e uma primeira e terrífica visão da morte.


Gula Romana O melhor café de Roma, com uma espuma para comer literalmente à colher. Sant’Eustachio

“Vera pizza romana” sem

gourmetizações e a preço de pizza, num ambiente familiar e ruidoso. E que venha com um jarro de tinto. Baffeto

Depois de uma pizza no Baffeto, um gelado para aconchegar. Frigidarium

Fiore di zucca panada com

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mozarela e anchova. Um favorito. Sanlollo


por João Albuquerque Carreiras

Carbonara é carbonara, um momento de felicidade. Il Fico

Cerveja artesanal, que isto não pode ser só vinho. Algures na noite de San Lorenzo

Tiramisú “em modernos”. Sú Tiramisú Não é uma gelataria, é um templo do pecado. Fatamorgana

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Jantar tardio no bairro boémio de San Lorenzo. Sanlollo


Mergulhar em queijo e vinho, um desporto fantástico. Ai Tre Scalini

Nem tudo é pasta ou pizza, “Porchetta di Ariccia com Senape”. Ai Tre Scalini

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Uma é loira, outra é morena. Ambas são artesanais. Open Barzilai


Sicília em Roma, teletransporte através de um “Cannoli di pistacchio”. Mercato centrale

Comida honesta em Trastevere, “Scaloppina alla Trasteverina”. Carlo Menta

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Primitivo + Tábua de carnes + Raviollis. Dá para ficar a dormir aqui? Mariolina


Não beber um Spritz em Roma é como não ver o Papa. Barzilai

Uma massinha num mercado onde (ainda) se ouve falar italiano. Mercato de Testaccio

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Ai este pistachio com laranja! Com panna, claro. Giolitti Testaccio


Patê caseiro para começar. Umas almôndegazinhas para o conforto. Ubriaco para rematar e acompanhar mais um primitivo que se sentia sozinho. Cul de Sac

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Uma grappa para terminar bem qualquer sessão. Brava! Ai Tre Scalini


Turismo, ex-líbris da gula por João Pedro Costa

Em janeiro a Organização Mundial de Turismo (OMT) emitia um comunicado à imprensa em que anunciava que no ano de 2018 se tinha atingido a meta prevista para 2020, 1,4 mil milhões de chegadas de turistas internacionais por todo o mundo. Dito em americano é ainda mais impressivo porque são 1,4 billions! Note-se que são chegadas internacionais, o que quer dizer que os que viajam dentro dos seus países não contam, e isso, em países com uma população como a da China ou com a facilidade de viajar internamente dos norte-americanos não é coisa de pouca monta. Acrescentam que cresceu 6%, em contraste com a economia global que cresceu 3,7% no mesmo ano.

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É muito natural que a OMT fique agradada com os bons resultados do turismo, assim como ficaram agradados os turistas, particularmente aqueles a quem, até há bem pouco tempo as viagens estavam vedadas, fosse por falta de rendimento discricionário que lhes permitisse viajar, fosse por razões políticas dos países de origem, que lhes dificultavam ou mesmo proibiam as viagens. Em boa verdade, ficam agradados todos os turistas ainda que, muitas vezes, se ponham na posição de só lhes agradar a sua viagem, não a dos outros. É um pouco como a bochecha do porco. É ótima, mas se houver à mesa demasiados a gostar, fica-se com medo que o que nos toca não seja suficiente.


Eis-nos chegados à gula! Esse pecado capital que, mesmo entre as pessoas mais frugais, não conheço quem não cometa. Há gulas para diversos gostos. Haverá mesmo gulas para todos os gostos, pois ela é da natureza humana e não haverá também falta de quem se queira arvorar em polícia da gula. É igualmente da natureza humana. Não quero ter de viver numa sociedade de pessoas sem gula. Sem o duro, por vezes estoico, esforço de lhe resistir, mas sempre sabendo que chegará o momento da doce rendição. A gula é um dos mais antigos motores da evolução da cozinha e dos vinhos. Encontramo-la evidentemente num refrigerante ou num pacote de batatas fritas gourmet que seguramente ninguém precisa de comer, evidenciamo-la popularmente numa sardinhada, justificamo-la urbanamente num qualquer restaurante de fast-food onde, claro, são os filhos que querem ir, ou quando comemos cozinha de autor, cuja sofisticação esconde, precisamente, a gula. Esta é, porém, apenas a gula diagnosticada e posta por escrito no início da Era Cristã. Há muito que a mesa perdeu a sua exclusividade. Os vícios pelas drogas ganharam o seu lugar, e é curioso verificar que Portugal teve o seu papel. O ópio veio de oriente, o tabaco, a canábis e a cocaína, das américas. Receio que, também aqui, tenhamos dado mundos ao mundo. Hoje, a nossa sociedade que entre, muitas outras características, é seguramente uma sociedade do muito, e do depressa, exponencia a gula de forma brutal. Podia, e se calhar devia argumentar que, mais do que precisamos, é o apelido do meio da nossa vida, mas não me interessa chegar a tanto. Fico-me apenas pelos outros alimentos. Depois dos alimentos do corpo, agora os alimentos das emoções e os do cérebro, e isto porque é ao turismo que quero voltar, e nada junta tão bem a necessidade gulosa destes três tipos de alimentos como esta atividade.

Perderam espaço as repetições do mesmo destino com o mesmo tipo de férias. A gula empurra-nos para novos lugares, com novas coisas para ver. Tal como no resto das nossas vidas, o espaço que dedicamos ao entretenimento esmaga aquele que dedicamos à cultura e isso reflete-se na forma como fazemos turismo. Vemos o mais possível, mas o tempo que dedicamos a cada sítio é absolutamente insuficiente para aquilo a que achamos que nos propomos. Não se conhecem pessoas e muito menos culturas em dois ou três dias. Não é essa a forma de criar novas relações nem é óbvio que as precisemos. Isso é gula. Vamos a um festival e ouvimos dois ou três concertos de seguida sem termos tempo para processar o que ouvimos em cada um deles. Isso é gula. Gastamos menos nos transportes e nos alojamentos para podermos gastar mais nos destinos, na compra de produtos locais e claro, a comer a beber mais do que precisamos. Gula. Tudo isto encimado por um vastíssimo número de fotografias que tirámos com telemóveis, máquinas fotográficas e muitas as vezes com as duas. Na hora ou à noite partilhamo-las com os nossos milhares de amigos do Instagram e do Facebook. Gula. E não me façam começar a falar dos cruzeiros! Mais uma vez nada de princípio tenho contra a gula, mas não sei se São Tomás de Aquino quando ordenava os pecados capitais do mais grave, para o menos grave e colocava a gula em sexto lugar, previa que um dia, muitos séculos depois, haveriam de existir tantos tipos de gula e um produto composto, que junta todas.

Precisamos de conhecer gente, dizemos. De conhecer novas culturas, novas realidades, novas paisagens e, de preferência, em curto espaço de tempo, para assim podermos ir ainda a mais um monumento nestas férias, ou a um novo sítio na primeira oportunidade.

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Férias de verão, férias de inverno, short breaks, uma ida a um festival de verão, a esperança de encaixar uma visita a um outro festival urbano e um fim de semana prolongado com os amigos fora da cidade. Se a tudo isto pudéssemos somar um cruzeiro, isso é que era! Talvez não para já que ainda somos novos, mas daqui a uns anos, de certeza.


atividades criativas para alunos e professores 2019-2020

Dia Aberto Professores Biblioteca Palácio Galveias 21 setembro das 14h às 18h30 Visitas, Oficinas, Cursos, Narração Oral e Projetos de Continuidade Arquivo Municipal de Lisboa, CAL – Centro de Arqueologia de Lisboa, Casa Fernando Pessoa, Castelo de S. Jorge, Divisão de Salvaguarda do Património Cultural, Galerias Municipais, LU.CA – Teatro Luís de Camões, Museu Bordalo Pinheiro, Museu da Marioneta, Museu de Lisboa, Museu do Aljube, Museu do Fado, Padrão dos Descobrimentos, Rede BLX – Bibliotecas de Belém, Camões, dos Olivais, Palácio Galveias e da Penha de França, e Teatro São Luiz

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Participação sujeita a inscrição prévia e ao limite da lotação. Inscrições descola@cm-lisboa.pt | 218 173 624 Mais informação www.egeac.pt | www.agendalx.pt

DMC DIREÇÃO MUNICIPAL DE CULTURA


Banquete da segunda รกrvore

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o outro jardim


No início o mundo não tinha apenas um jardim, mas dois, cada um com duas árvores. Gémeas. E enquanto uma mulher, num dos jardins, trincava o fruto da primeira árvore, um homem, que vivia no outro jardim, era convidado pelos deuses para um banquete. Claro que ele não sabia que eles eram deuses, Porque eles eram invisíveis, e ele era cego. Os deuses apresentaram-se ao homem como sendo estrangeiros, viajantes, de passagem, necessitados de uma pausa, de algo para comer, e pediram-lhe para descrever o seu mundo em troca de uma refeição partilhada com eles. O homem não tinha fome mas aceitou, cordialmente, o convite e começou a descrever o que o rodeava. Primeiro imitou o ar, soprando e movimentando as folhas do jardim. Depois, deixou-se cair com leveza, fez do ar um splash e imitou um rio, deixou-se correr até uma margem, nadou até se fazer um peixe que se transformou logo numa pedra, que se rebolou pelo chão, que se desfez em erva, que se contorceu numa planta, que cresceu até uma árvore e que se desmanchou num bando de pássaros que debandaram até ao outro jardim onde uma mulher estava prestes a trincar um fruto de uma Segunda Árvore. O homem fez uma pequena pausa para ouvir a debandada dos pássaros para depois imitar, um a um, todos os animais terrestres, por ordem de grandeza e de rugido, descrevendo-se também a si próprio com todos os seus detalhes. Fez uma vénia e retirou-se. Sendo invisíveis para o homem, os deuses também o eram para si próprios, e por isso nunca imaginaram que pudessem ser tão belos, e no preciso instante em que se viram pela primeira vez, uma estranha e inimaginável reacção química aconteceu: Os deuses emocionaram-se. Levantou-se uma ventania acompanhada de uma chuva miudinha que começou a cair, imparável. Tiveram logo ali a certeza de que nunca mais no resto das suas eternas vidas se poderiam impressionar tanto como naquele momento, proporcionado por uma criatura inventada por eles próprios para se exibirem o seu virtuosismo criador e pouco mais, uma fantasia banal que deveria terminar no sétimo dia com um banquete celestial, à volta de uma árvore.

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Mas o que este homem entendia sobre eles e sobre o mundo inteiro era tão perfeito que os deuses se interrogaram se a sua criação humana deveria desaparecer como estava previsto ou se, em vez disso, eram eles que deveriam partir para nunca mais regressarem à Terra. Foi assim, e em silêncio, que os deuses decidiram ali mesmo a sua extinção, sem concílios nem profecias e convidaram o homem para se sentar à sua mesa.


Um ligeiro tremor abalou a terra. Mas foi apenas um aviso. Que não avisou. O homem regressou ao banquete e encontrou-os a todos sentados à mesa. Os deuses, por terem decidido partir, já não eram invisíveis e já não eram deuses, mas continuavam a ser muitos, agora de carne e osso, tal como o homem, que ainda assim, ainda não os via. Foi a única vez que deuses e homens comeram juntos, à mesma mesa, como seres entre seres, devorando o repasto celestial com um prazer até então desconhecido. O banquete era infinito, suspenso e inconcebível e estendia-se por 2543 mesas, o mesmo número de estrelas que se conseguem ver da janela do quarto de Juno, ou Hera, ou Vénus, ou como lhe queiram chamar. Na primeira mesa serviam-se vários tipos de terra, acompanhadas de águas de diversas fontes, todas bebidas por uma palhinha. Numa segunda mesa ofereciam-se orvalhos diurnos e nocturnos. A terceira mesa apresentava vários tipos de raízes acompanhadas de xaropes e resinas, bebidas várias, e uma quantidade infinita de melaços. A quarta mesa dedicava-se aos pudins, aos pólenes, às poeiras de todo o Universo, das mais amargas às mais doces, e a quinta mesa convidava todos a provarem várias sementes com vários temperos. Na sexta mesa fez-se uma pausa com um sorvete de seivas, para limpar o palato. Na sétima mesa apresentaram-se todo o tipo de folhas secas, maduras, verdes, recheadas. Na oitava, um banquete de flores. Após duas mil quinhentas e quarenta e uma mesas, o mesmo número de psichés que Juno tinha espalhados pelo mundo fora, (prevenida para qualquer paragem inesperada ou aleatória - mas absolutamente necessária para se refrescar), mudaram-se todas as toalhas, todos os guardanapos e a na penúltima mesa serviram-se frutos secos. O homem que ainda não percebia o que era a fome, mas já era muito delicado, provou de tudo, elogiou a confecção de cada alimento e agradeceu cada nova iguaria. A comida era tão leve que não lhe pesava no estômago e ele ia provando sempre, sempre mais, até que, na penúltima mesa, trincou um fruto que lhe abriu o apetite. Comeu logo outro a seguir e logo outro e logo mais outro, e mais outro, e mais outro e num processo incompreensível de sinestesia, já não era cego.

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Sentado à cabeceira da mesa, o homem contemplou este banquete infinito, suspenso, inconcebível, e olhou, olhos nos olhos, cada um dos convidados estrangeiros.


Nesse preciso instante, noutro lugar, dois estranhos conduziam uma mulher para fora do seu jardim. Nesse preciso instante, os deuses pediam ao homem que se ausentasse por uns momentos. Dois deles acompanham-no até à saída e desapareceram. O homem ficou à espera, à porta do seu jardim. O homem esperou durante três milhões de anos que os estrangeiros se recompusessem da sua estranha emoção, que é como quem diz, por estas paragens, um segundo quântico. E enquanto esperava perguntava-se de onde poderiam estes estrangeiros vir senão havia mais nada no mundo senão aquele jardim, e imaginava que só poderiam vir de um sítio longe e escuro porque de outro modo não ficariam tão surpresos por verem o vento, e as pedras, ou um animal, e então, enquanto esperava, o homem conclui que estes estrangeiros só podiam vir de cima ou vir de baixo, pois ali onde ele vivia, tudo aquilo era estável e normal, não havia grande espaço para comoções diárias. Nesse mesmo instante, depois de milénios passados num magnífico e iluminado segundo quântico, exactamente quando concluía o seu raciocínio, um terramoto destruiu o seu jardim e todos os deuses, que agora transformados em homens, podiam morrer.

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Com um enorme apetite e um recente sentido da visão.


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Espetadas de carne com chouriço e louro Para 2

Tenho uma longínqua memória de comer espetadas de chouriço e carne de vaca em espetos de raminhos de louro

30 g de manteiga, mais um pouco para regar 2 dentes de alho, finamente esmagados 1 folha de louro 2 colheres de sopa de vinho Madeira 250 g de lombo de vaca, cortado em pedaços médios 1 cebola branca pequena 70 g de chouriço (sem pele), cortado em rodelas de 2 cm Uma pequena mão-cheia de folhas de salsa, finamente picadas Sumo de 1 limão pequeno espremido no momento Molho de piripíri (p. 156), para servir (opcional) Flor de sal e pimenta branca moída

e assadas em fogueira. Eram verdadeiramente fabulosas: o cheiro das folhas de louro acrescentava um incrível aroma à carne, e o chouriço fumado criava o equilíbrio perfeito de sabor e textura crocante. Se quiser, substitua a carne por anéis grossos de lulas frescas – mar e terra é uma das melhores combinações de espetada que pode ter. É muito bom servido com milho frito (p. 68) e uma simples salada de agrião com muita pimenta preta esmagada.

Demolhe em água, durante a noite, espetos de madeira ou raminhos de louro se os tiver. Isto irá ajudar a impedir que ardam. Derreta a manteiga numa frigideira em lume brando, junte o alho, a folha de louro e o vinho Madeira e refogue até ficar fragrante. Retire do lume e deixe arrefecer à temperatura ambiente. Depois, deite por cima da carne. Tempere com sal e pimenta. Deixe marinar no frigorífico durante 6 horas, ou durante a noite. Corte a cebola ao meio e separe as camadas de cada metade. Coloque-as numa tigela, cubra com água morna, deitando uma pitada de sal, e deixe demolhar durante 10-15 minutos. Isto irá fazer reduzir-lhe a intensidade. Enxugue os espetos com papel. Monte cada um, começando com uma cama de cebola, depois uma rodela de chouriço, e a seguir um pedaço de carne. Repita este processo até o espeto ficar cheio, deixando espaço na extremidade para poder pegar nele. Aqueça uma grande frigideira em lume forte e pincele-a com manteiga. Quando a frigideira estiver quente, disponha as espetadas e grelhe-as durante cerca de 2-3 minutos de cada lado, para médio-mal passado. Regue-as regularmente com manteiga durante a cozedura. Retire-as e deixe-as repousar. (Se usar uma churrasqueira, sele as espetadas na parte mais quente durante 3 minutos, depois transfira-as para um espaço menos quente e grelhe-as durante mais 2 minutos. Continue a regá-las com a manteiga derretida enquanto as grelha.) Aqueça os sucos da

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cozedura da frigideira, depois retire do lume e incorpore a salsa e o sumo de limão. Deite este molho em cima das espetadas antes de servir. Adoro borrifá-las com um pouco de molho de piripíri.


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Comida Independente por Rita Santos

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A Comida Independente pode começar por definir-se por aquilo que não é. Não é um restaurante. Não é uma mercearia “gourmet”. Não é uma loja Bio. Não é uma loja de produtos portugueses.


Começou pelo prazer dos sabores verdadeiros e prolongou-se numa reflexão sobre como nos organizamos à volta da comida. É na pequena escala que os produtores são artesãos e conhecedores do seu engenho, é aqui que se expressa o terroir. Na indústria alimentar normaliza-se, higieniza-se e conserva-se. Adicionam-se artifícios para compensar matérias primas pobres. Privilegia-se consistência e longevidade em detrimento do sabor. Quem diz sabor diz textura, rugosidade, acidez, energia, todas as sensações de desfrute na comida e no vinho. A comida transcende a nutrição. Os paladares constroem memórias, tornam-se parte de quem somos, como indivíduos e como povo. O pequeno retalho dá interesse a uma cidade, torna-a mais diversa, real. É lá que as pessoas se encontram, por onde passeiam e recolhem os achados que levam para casa. A vida prática atira as famílias para um consumo indiferenciado, em volume, onde se repetem as mesmas receitas. Com o mesmo orçamento, podemos comer melhor. Incluindo leguminosas, vegetais, reduzindo a carne e o peixe, mas escolhendo a melhor qualidade. Tirando mais partido dos alimentos, aromatizando, temperando, conservando naturalmente, evitando o desperdício. Começámos a visitar produtores há cerca de 3 anos. Recolhemos referências de cozinheiros, jornalistas, escritores, professores, feiras e organizações. Daí, surgiram outras referências, dos próprios produtores sobre outros. Descobrimos por nós mesmos no que consistia cada projeto. Desmontámos certificações e regiões demarcadas.

Incluímos produtores estrangeiros porque tivemos a sorte de encontrar parceiros que partilham a nossa filosofia e nos mostraram esse caminho. Concluímos que conhecendo o que se faz noutros lugares, compreendemos melhor o que nós próprios fazemos. Privilegiamos sempre os produtos locais, principalmente os frescos, que nos chegam de uma quinta biológica nos arredores de lisboa, ou o pão, de fermentação lenta. Já nos vinhos, chocolates, cafés, chás e queijos, temos outras origens. Porque a prova puxa à tertúlia, promovemos muitos encontros com os produtores – mais de 30 no nosso ano e meio de existência. Criámos também pequenos espaços de consumo no local, o que permite dar a provar vinhos a copo e fazer confeções simples com os produtos que temos na loja. A equipa está altamente envolvida e em constante busca de melhores produtos e práticas. Mas este não é um projeto sobre nós – pessoas da Comida Independente. É um projeto sobre nós todos. Tentamos representar as diversas regiões do país e ter variedade no que oferecemos. Ainda estamos a aprender, mal começámos. A Comida Independente é uma loja na Rua do Cais do Tojo, escondida no bairro de Santos. Tem por assinatura ‘Grandes produtos de pequenos produtores’ Não é restaurante, mercearia gourmet, bio ou português para turistas. É um lugar com muito sentimento e intenção. Venham.

Não é por uma produção ser pequena que é necessariamente boa – é preciso reunir práticas de excelência. Em primeiro lugar, tem que haver grande envolvimento do produtor. Com a matéria prima e com o processo. Se se tratar de um vinho, ele começa na vinha. É preciso que o produtor compreenda a vinha, como ela reage ao longo do tempo ao calor, aos ventos, à chuva. No processo de fermentação é preciso vigilância, num diálogo com o vinho como substância viva. Por isso visitamos recorrentemente os produtores de vinho, participamos nas vindimas e provamos das barricas.

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Os selos, marcas e embalagens têm o seu valor, a que sobrepomos um pensamento crítico. Temos uma linguagem simples e contemporânea. Queremos chegar a todas as gerações. Somos inclusivos e a atmosfera do espaço é simples, a fazer lembrar um mercado. Sacudimos a erudição tantas vezes associada à prova dos produtos especiais.


Autor: José Manuel Pedreirinho Formato: 23 x 31 cm Capa dura 176 páginas PVP: 30€ Edição em Português e Edição em Inglês

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Conhecer o Prémio Valmor de Arquitectura e a sua evolução, desde que foi regulamentado em 1902 é, de certa forma, compreender também a arquitectura e o próprio desenvolvimento da cidade de Lisboa, cujos limites do concelho definem o espaço geográfico da intervenção do Prémio. O Valmor constitui um excelente reflexo da arquitectura que se foi fazendo, e dos gostos dominantes em cada época, já que nele se espelham as modas predominantes. Nesta edição, ilustrada com 150 imagens, o autor analisa os diversos factores e contexto das obras premiadas nos 117 anos da existência do Prémio. Um livro indispensável para conhecer o processo de distinção da arquitectura pelo mais importante prémio instituído pelo Município de Lisboa, sob proposta testamental do Visconde de Valmor (1837-1898).

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Banquete da segunda árvore

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o pão e o pé


No início não foi destruído um jardim, foram destruídos dois, cada um com duas árvores. Num jardim sobreviveu apenas um homem, E noutro, uma mulher. gémeos. Quimeras. O abanão foi tão forte que há quem conte que os sobreviventes não podiam ter ficado inteiros. O impacto terá sido tão violento, que quem quer que seja que ali estivesse nesse momento, só poderia ter-se desintegrado ou fundido, acordando, após a catástrofe, sendo muito mais ou muito menos do que já era. Nunca ninguém saberá quem ou como se sobreviveu. Mas não é importante para o efeito. À porta dos jardins destruídos estavam um homem e uma mulher. Não. Minto. À porta dos jardins destruídos encontram-se duas quimeras. Gémeas. Metades de homens, metades de mulheres, metades de deuses, metades de mensageiros. Ela acha que ele é o estranho que precisa de falar com ela urgentemente. Ele pensa que ela é um dos estrangeiros que o convidara para um banquete. Ambos acreditam secretamente que o outro os salvou do terramoto, obrigando-os a sair do jardim. Ambos olham um para o outro pela primeira vez, mas porque olham pela primeira vez para o mundo, e por isso é provável que tenha sido este o primeiro momento de deslumbramento na História da Humanidade, mas nunca o poderemos confirmar; as únicas testemunhas foram um bando de pássaros que ainda hoje se recusam a falar e que, como já sabemos, sobrevoavam aquele homem e aquela mulher nesse mesmo momento, como se procurassem por ali uma árvore onde costumavam pousar. À porta dos jardins destruídos, estão um homem e uma mulher que não se conhecem, que não falam a mesma língua, mas que sentem, pela primeira vez, o mesmo aperto no estômago, o mesmo buraco infinito por preencher. Aliados na desolação e na fome, avançam, lado a lado, sem trocar palavras, à procura.

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Esgaravatam a terra, arrancam raízes, mastigam cinzas, sementes, insectos, grãos, folhas. Mas o buraco no estômago não cicatriza.


O Tempo, que na prática durava o mesmo, mas deixara de ser eterno para passar a ser em loop, e juntos, era agora ocupado por um homem e por uma mulher adiando a morte. O Tempo, por sua vez, afastando-se cada vez mais desse homem e dessa mulher, lá se ia, passando, aos milhares. Mas a fome, essa, não passava. Já não chegavam os ramos, nem os grãos, nem as folhas. Já não chegavam as sementes encontradas, já não chegavam as pernas, nem a vontade, e num crescendo, arrasador, uma profunda e desconhecida tristeza infiltrava-se nestas quimeras, ocupando todos os buracos livres dos seus corpos incompletos. O homem e a mulher, sentados num canto, desanimados, contemplavam o drama do mundo sem saber o que fazer, e sem perceber o que se ia fazendo sem eles. Ele e ela, parados por uma infelicidade que lhes desocupava as horas, tendo, no entanto tempo de observar o que se transformava à sua volta. Começaram a reparar nas ervas que cresciam, e nas sementes que se espalhavam com o vento, e na chuva que as humedecia, e nas espigas que se erguiam, e no sol que as cozia, e na sombra que as protegia. O homem e a mulher não podiam acreditar na sua sorte: o tempo oferecia-lhes pão. Saciavam assim a sua fome enquanto prometiam, de barriga cheia, que não partiriam para mais lado algum, fariam uma aliança eterna com essa melancolia que os alimentava. Montaram casa sobre a pedra onde se sentavam, tal como os pássaros fazem os ninhos nas árvores onde pousam, e ali ficaram, a dar desocupação ao tempo. Mas claro está, nem o clima nem as coincidências são sempre favoráveis. Os ventos nem sempre dispersam grãos na mesma direcção, nem sempre em dias radiosos, nem sempre esses dias são seguidos de outros de chuva; tudo precisa de quantidades certas que o acaso pode e pode não dar, e assim pão foi coisa que durante muito tempo não voltaram a ver. Como o desespero e a fome são duas coisas que tendem a tomar conta de nós se não tomamos nós conta delas, o terror apoderou-se da vida deste homem e desta mulher, consumidos pelo buraco negro que lhes ocupava o estômago, sentados numa terra que nunca mais deu pão. E por ali ficaram. Por muito e mais muito e eterno tempo. Um dia, tal e tanto era o ar que engoliam em vez de alimento, que teve o homem tamanho soluço que lhe fez deslizar o pé ligeiramente para a direita, o suficiente para se espetar numa estaca pontiaguda que há muito ali crescia. O homem aleijou-se à séria. O sangue não parava de jorrar e para o estancar, despetrificou-se a mulher para lhe lamber a ferida.

O sabor não era mau, lembrava-lhe um certo fruto, e ela lambeu o pé mais um bocadinho, e reparou numa pele que ficara levantada e ela puxou-a suavemente com os dentinhos e também não lhe soube nada mal, apesar de não ser propriamente suculenta;

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E gostou.


e reparou que ainda sobrara um pedacinho de pele levantada no calcanhar do homem, e esse sim, era tenrinho, e agora ela já não se conseguia controlar, cada lambidela mais voraz, cada pedaço arrancado mais apetitoso. A mulher comeu-lhe o pé inteiro. A dor era lancinante e o homem, para se salvar, pegou na mulher pelos cabelos e atirou-a para longe com quantas forças lhe restavam, salvando a tempo os seus ossos que, meio pendurados, ainda assim se aguentavam juntos. Nesse preciso instante, surgiram lobos, coiotes, raposas, linces, leões, leoas, tigres, gazelas, veados, javalis, hienas, bois, búfalos, mamutes, elefantes, rinocerontes, todos vindos não se sabe muito bem de onde. Todos se lançaram sobre o homem, e este sem poder correr. Era uma visão impressionante, se tivermos em conta que neste tempo em que parecia só haver um homem e uma mulher, afinal também já existiam bichos; bichos que até àquela tarde nunca se tinham avistado, bichos que podiam ser bocados de outros homens e de outras mulheres do jardim, bocados de mensageiros, bocados de deuses, de árvores, até há quem diga que podiam ser filhos inteiros de deuses desertores, de deuses que não quiseram partir com os outros deuses, deuses que levaram o homem, ou mesmo a mulher até à porta e que depois se escaparam, ou simplesmente bichos de outros bichos que simplesmente até agora não tinham dado sinal de vida até o momento. O que importa saber é que vinham agora todos na direcção deste homem e desta mulher e um lobo quase abocanhava o outro pé do homem se a mulher não se lançasse sobre ele para o abocanhar primeiro. Todos os animais desapareceram, disparados, tão rápidos como apareceram, ficando apenas a carcaça do lobo. O homem e a mulher olharam um para o outro e, esquecendo as desavenças, comeram o lobo, tal como ela lhe comera o pé. Desde esse dia deixaram os dois de desocupar o tempo e desde então nunca mais pararam de o ocupar. Caçando. E foi tão simples quanto isto. E o pé... sim, o pé entretanto voltou a crescer. Neste tempo de há muito tempo atrás, o corpo regenerava-se com maior facilidade, tanto por dentro, como por fora, carregava menos almas, menos infelicidades e menos fantasmas.

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Excerto de O Banquete, Patrícia Portela. Editorial Caminho, 2012


2th 5th April Grand Palais 2020 www.artparis.com An Overview of the French Scene : Common and Uncommon Stories

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Southern Stars : Barcelona, Lisbon, Madrid and Porto


Alysson Muller

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Sabores do mundo com identidade catarinense


por Susana Andrade

Grupo Alysson Muller

O “Rosso”, primeiro restaurante do chef Alysson Muller fica à beira mar, em Santo António de Lisboa, a mais açoreana das freguesias de Florianópolis. O local é paradisíaco, com uma vista soberba para a baía e um leve vislumbre de civilização ao fundo e nem o burburinho habitual num restaurante consegue sobrepor-se ao tranquilizador barulho cadenciado das ondas. Na varanda, ao fundo, uma rede convida ao descanso, sob um chão de conchas. Alysson Muller, natural de Biguaçu no continente, tem um porte imponente, a que uma simpatia desarmante, atenua o impacto visual inicial. “Amo Portugal!”, dispara enquanto vai abrindo um espumante de boas vindas, que ligará na perfeição com umas ostras fresquíssimas que nos aguardam numa mesa de madeira cuidadosamente situada junto ao mar. A partir daí, a conversa com o chef catarinense mais famoso do Brasil, correrá solta em torno da sua paixão pela gastronomia, o gosto por viajar, as influências que foram marcando as suas criações, os quatro restaurantes de que é proprietário e a aposta para o final do ano, de um novo espaço no centro da cidade. Tudo isto acompanhado por arroz de polvo com linguiça Blumenau, polvo à rosso, robalo com crosta de limão siciliano e um extraordinário siri em escudo de kryptonite.

Como é que começou este seu gosto pela cozinha?

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Eu sempre gostei muito de comer, sempre fui muito guloso (risos) e muito curioso. Venho do outro lado, de Biguaçu, de uma família humilde, mas sempre gostei de comer. Não faltava comida em minha casa, aquela comida básica dos brasileiros: arroz, bife, batata frita, feijão. Os meus pais tinham um restaurante em Biguaçu. Era um restaurante muito simples, de cozinha barata, mas onde gostava de cozinhar e de ir aprendendo. Entretanto, comecei a trabalhar como representante da “Pepsi” e fui estudando gastronomia, estudando, estudando muito. Por fim, fiz estágios em restaurantes de Florianópolis e de São Paulo, coisas curtas, mas sempre cozinhando, fazendo eventos e aprendendo. Depois comecei a tra-


balhar em restaurantes de amigos, primeiro como auxiliar de cozinha, depois como chef e foi aí que me tornei gerente de restaurante.

Essa experiência de gestão foi importante para o sucesso dos seus restaurantes? Foi fundamental. No início eu só trabalhava dentro da cozinha. Era chef e passava os dias a criar pratos, a fazer experiências. Depois, comecei a ver que as coisas não corriam bem, que a conta não fechava e que não ia dar certo. Percebi que tinha de me tornar dono do restaurante, gestor de restaurante. Foi quando comecei a aprender a gerir, a conhecer o restaurante não só pela comida, mas pelo sistema de serviço. Também comecei a estudar gestão de empresas, porque o restaurante é igual a uma empresa de pneus: se não comprar uma boa borracha, uma boa matéria prima, o pneu não vai ser bom; se o funcionário estiver desmotivado, o pneu vai sair torto; se não pagar bem pela matéria-prima, não vou conseguir vender bem; se o vendedor, que é o garçom, não estiver motivado e não for um bom vendedor, não vai vender e ficamos com problemas de desperdício; se não souber desenvolver bem o produto, com o passar do tempo, a concorrência vai ultrapassar. É tudo é igual, então, quis aprender gestão de empresas, a ler livros de fiscalidade, ler as histórias de empreendedores, de como conseguir motivar a equipa, porque hoje tenho 100 funcionários se eles não estiveram motivados, nada funciona.

Sempre autodidata? Sempre autodidata. Fazendo formações, lendo, estudando, querendo aprender sempre mais. Por exemplo, fazer a semana que vem, vou fazer um curso de gelados italianos. Comprei uma máquina italiana, uma Carpigiani, e vou fazer um curso de gelados em São Paulo. Quero fazer um sorvete top aqui na cidade, nos meus restaurantes. Toda a minha vida tenho procurado aprender, para depois poder criar com a minha identidade. Uma das coisas mais importantes que aprendi, foi a ouvir o feedback, o que é muito difícil, porque a gente não gosta de críticas. Eu sou do tipo português, português adora criticar, mas não gosta de críticas (risos). No início é complicado, mas é muito necessário porque a gente tem que ouvir quem come.

O que eu gosto na cozinha portuguesa é a simplicidade, é a qualidade da matéria-prima. Um chef não é mais importante do que o prato. E lá em Portugal, o prato é o mais importante, a matéria-prima, o carinho. Em muitos restaurantes, encontro tiazinhas, senhoras, daquelas que só sabem fazer três receitas na vida, só que as três são maravilhosas e fazem um restaurante. Que adianta fazer trinta? Fazer três bem feitas é maravilhoso. Eu gosto disso em Portugal. E, depois, Portugal tem o melhor peixe do mundo. Comer salmonete na brasa, em Setúbal, é de chorar.

Como surgiu a ideia de abrir o “Rosso”? Quando eu abri “O Rosso”, era um espaço muito mais simples, embora continue bastante rústico, como convém a um restaurante à beira mar, em madeira crua, chão de conchinhas e muita informalidade. Mas quando abri era muito simples e eu trabalhava como chef, por isso passava a vida dentro da cozinha. Foi uma fase difícil, porque a maioria dos chefs tem um grande defeito, um ego grande e eu tinha um ego enorme e achava que tinha de cozinhar para mim, não para os outros. Como passava a vida fechado na cozinha, não me apercebia das preferências dos clientes, não conversava com eles, e isso foi um erro tremendo. Em contrapartida, acertei em algumas coisas (risos), uma delas, que se revelou fundamental, foi só trabalhar com peixe do dia, com peixe fresco. Aqui, no Brasil, não existe tanta variedade de peixe como em Portugal, mas temos peixes muito bons. Na época em que abri o “Rosso”, em 2010, os restaurantes daqui só vendiam salmão e congrio congelados, vindos do Chile, ou linguado. Como comecei a trabalhar com peixe fresco: pescada amarela, robalo, garoupa, cherne, pargo, isso marcou um diferencial em relação à concorrência. Depois, a grande aposta foram os frutos do mar, sobretudo o polvo.

Que é o prato de referência.

Eu amo Portugal. Vou a Portugal, pelo menos, uma vez por ano, no ano passado fui três (risos) e adoro a cozinha portuguesa.

Exactamente. O Polvo à Rosso, que criei logo na abertura, em 2010, é o prato mais procurado. Tenho um amigo, que um dia veio comer aqui com um pessoal de São Paulo e pediu o polvo e todo o mundo e saiu dizendo que iam desafiar amigos a vir experimentar. Esse boca-a-boca funcionou tão bem que todas as semanas vinham pessoas experimentar o polvo e não parou mais.

Tem alguma raiz familiar em Portugal?

Hoje vende quatro toneladas por mês.

De onde vem a influência da gastronomia portuguesa?

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Não, não tenho raiz familiar, mas tenho uma paixão incrível pelo vosso país. Quando fui a primeira vez, foi paixão à primeira vista, e tenho regressado frequentemente.


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Verdade. Tirando Fevereiro que é o pior mês do ano para mim, por incrível que pareça, em que vendi uma média de 730 quilos por semana, vendo 950/ 900 quilos. A minha intenção é baixar para 600 quilos, porque durante muitos anos apostei em vender só o polvo, hoje quero diversificar, quero vender outros pratos. Por exemplo, agora tenho uma lula muito boa. Preciso de diversificar, porque não posso ficar dependente da venda de um só produto. Há dois anos, fiquei sem polvo, porque faltou, aqui, no Sul e tive de ir comprar, a um preço absurdo, no Norte do Brasil. E é preciso entender que de uma tonelada vendida por semana, depois de cozinhado, sobram 300 quilos, porque 70% é perda.

Mesmo assim é um grande volume. Sim, é volume. Eu não conheço ninguém, no Brasil, e nem sei se no mundo, que venda tanto polvo. A revista Forbes fez uma reportagem muito legal, dizendo que eu era o rei do polvo. Eles vieram investigar, ver as nossas notas fiscais, conferir tudo e fizeram uma grande matéria sobre o nosso polvo e, na época, se não estou enganado, só vendíamos 500 quilos por semana.

O polvo é o ex-libris do restaurante. Aqui tem polvo de todo o jeito. O Polvo à Rosso, com puré de mandioquinha, que é uma batata nossa, agridoce, que combina com o polvo e molho tarê, que é uma versão bem brasileira. O Polvo à Casa Nostra, uma versão italiana, com ragu de pimentões, aliche, azeitonas e alcaparras. E Polvo Grelhado dos Açores, com batatinha a murro. Não quis fazer um Polvo à Lagareiro muito tradicional de Portugal, porque queria criar algo com a minha identidade. Não quereria que o português que nos visita dissesse: “O polvo está bom, mas não está igual a Portugal”. Eu adoro a cozinha portuguesa, mas não quero replicar a cozinha portuguesa, eu sou brasileiro. Para acompanhar, a gente sempre serve o arroz de amêndoas, que é um clássico nosso e o pirão de peixe e camarão, que é da nossa região e define a identidade da Ilha.

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Entretanto abriu outros espaços. Abri o “Rosso” em 2010, depois, em 2013, fiz a minha primeira viagem a Itália e apaixonei-me pela gastronomia italiana. Em 2014, o Luís Carlos Serafim, meu amigo, abriu o Artusi, um restaurante de comida contemporânea. O restaurante não deu certo, fechou e eu fiz uma proposta para comprar o espaço. Entretanto, fiz mais uma viagem a Itália, para a região da Emília Romagna, no Norte, e foi mais uma fonte de inspiração. A ideia foi trazer uma proposta de um verdadeiro restaurante italiano para Florianópolis, fugindo aos espaços tradicionais italianos, antigos, do Sul, com aqueles

esparguetes à bolonhesa que não existem em Itália. Abri o Artusi e foi um sucesso, sobretudo o meu nhoque, que aprendi a fazer no Fasano, em São Paulo. Gosto muito de cozinha italiana. Hoje, quando sair daqui vou fazer um prato napolitano para minha mulher, um Polpettone à Napolitana com ragu napolitano e uma pasta seca. A minha mulher e a minha filha estão com desejos (risos), já comprei tudo e chegar a casa, vou preparar para elas.

Li, algures, que quando sai dos seus restaurantes ainda vai cozinhar para casa. É verdade. Até porque, praticamente, já não cozinho nos restaurantes. Só vou cozinhar quando crio pratos, quando vou dar o padrão, porque hoje, tenho 42 cozinheiros a trabalhar comigo. Em cada espaço há um chef que reproduz melhor do que eu as minhas criações. Se eu for fazer a receita que criei, já não faço tão bem (risos), porque ele só faz isso e a repetição leva à perfeição. Mas, voltando, o Artusi ainda hoje é um sucesso. No ano passado abrimos D.O. Pescador que é um espaço pequeno, de 40 lugares, dentro de um hotel, no centro da cidade para vender frutos do mar para quem é da região. Bem mais recente, com uma aposta na gastronomia asiática, em Julho surge o Karaba Asian Street Food no Passeio Primavera.

No início do próximo ano está prevista a abertura de mais um espaço. Verdade. Esse restaurante vai ser bem diferente dos outros quatro. Vai ser um restaurante grande, com proposta de bar, à noite, onde vamos trabalhar forte o frango, tanto da cozinha oriental, quanto da cozinha brasileira. Vai ter uma coxinha muito boa, vai ter aqueles espetinhos de frango com um molho oriental, vai ter uma boa empadinha de frango com catupiry, vai ter o bolovo clássico, aí vai ter galeto feito na brasa, galinha recheada, strogonoff de frango, yakisoba de frango, vai ter muita coisa e, durante o dia, vai ser uma proposta de cozinha barata. À noite, será um botequim à la carte.

O facto de morar em Florianópolis é inspirador para o seu trabalho? Ah, claro! Desde logo por causa da segurança. Eu amo a restauração e quero continuar a trabalhar nesta área e o facto de morar na região com melhor Índice de Qualidade de Vida do Brasil ajuda muito. Só se eu me sentir bem é que consigo motivar a minha equipe para trabalhar com carinho. E ter o privilégio de trabalhar em frente ao mar, nesse canto abençoado do Brasil é fundamental.


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Da Finisterra ao Golfo da Biscaia

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Uma viagem pelos sabores dos “frutos do mar�


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por Bruno Esteves


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Comer: momento de Ser por Paulo Duarte, SJ

“[Timóteo] não continues a beber só água, mas toma também um pouco de vinho, por causa do estômago e das tuas frequentes indisposições.” [1 Tim, 5-23] Estando a viver em terras do Minho é fácil encontrar mesas fartas. As meias-doses facilmente são dose e meia. Ainda mais como padre, é abundante a frequência com que me deparo com um “tem de comer isto”, um “coma mais um bocadinho”, um “não vai fazer a desfeita e não comer.” Sem esquecer o requinte pontilhado de satisfação: “fui eu que fiz”. Aí tudo desaba e há que provar a ou as iguarias, percebendo que o doce ou salgado já não são apenas comida, mas vida posta no prato. No final, se o padre gosta é como se ficasse a sensação de bênção dada, não apenas ao prato, mas a toda a pessoa.

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O fenómeno do encontro em comensalidade é tão antigo como a própria humanidade. O ser humano é o único que faz refeição do acto de comer. Precisamente na refeição experimenta que não se fundamenta a si mesmo, que vive em gesto de receber e que o biológico adquire um novo sentido e profundidade em virtude da sua capacidade espiritual e transcendente. No acto de comer, o ser humano estabelece uma relação primária e fundamental com a natureza e com os seus semelhantes. Comer não se trata, então, de uma simples acção biológica e fisiológica, mas um acto cultural. A forma de comer vincula com o próprio grupo e com a sua história. Esse vínculo torna-se reconhecimento da troca afectiva, criando comunidade. A festa, a celebração, rodeia-se de fartura, de abundância, para que ninguém se sinta excluído e todos possam viver a alegria da partilha. “Somos o que comemos!” Dito antigo, que manifesta que a realidade fora de nós transforma-se em nós. Normalmente, em tempos em que tudo se deve viver numa harmonia perfeita, onde a alimentação pode tornar-se uma obsessão de cuidado ou de exagero, apela-se ao referido dito para promover as dietas saudáveis, alertando para os efeitos nefastos dos abusos, nomeadamente da gordura, dos açúcares, do álcool. O Ser é afectado pelo mundo. A realidade fora de

nós alarga-se do alimento para imagens, conversas, silêncios, acontecimentos, situações, as quais há que digerir. Será apenas o excesso de fritos que pode deformar o Ser? Que dizer das imagens fortes de conflitos e de guerras, de mentira política e corrupção, que entram pela casa adentro à hora de jantar? Ou nos silêncios dos almoços rápidos com passagem pelas redes sociais onde as imagens provocam o despoletar de várias emoções, sem tempo para as digerir? Penso nas fotografias chocantes, com as suas variantes, de Alan Kurdi e, mais recentemente, Óscar e Valéria Martinez. Foram “ingeridas” até à exaustão, comentadas até à exaustão e espalhadas até à exaustão. É indigno, sim. No entanto, a volatilidade dos tempos exigentes de constante novidade faz com que se digira mal ou até mesmo não se digira a força das emoções, querendo mais, muito mais impacto como justificação de vida. Santo Inácio de Loyola nos Exercícios Espirituais apresenta, no que chama Princípio e Fundamento, a expressão “tanto quanto”. Depois de dizer que o ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus, recorda que todas as coisas são igualmente criadas para o ajudar a esse fim e que as deve usar “tanto quanto” sejam auxílio nesse caminho. Para os que não comungam da mesma crença que eu, proponho que se tome a realidade de todas as coisas e como tudo, do mais luminoso e apetecível ao mais sombrio e desprezível pode ajudar a humanizar, se bem vivido e digerido. Assim, será de fugir da gordura ou do vinho? Da informação sobre corrupção ou das chocantes mortes? Se, na consciência de caminho de cada um fazem desumanizar, sim. Se contribuem para que aumente o sentido de justiça e desejo que ninguém viva indignamente, não. Essa medida inaciana de “tanto quanto”, a qual pode fazer ponte com o conhecido “mantra dos tempos” em Eclesiastes, afere o que realmente importa: como está a minha vida comigo e com os outros? Assim, ao “somos o que comemos” acrescentaria que também somos “como e com quem comemos”.


Gula, sofreguidão e excessos por André Serpa Soares

A gula aplica-se à sofreguidão de comer e de beber. Quem é guloso peca. Verdadeiramente, porque no cristianismo, a gula é um dos sete pecados capitais. A gula é um permanente desejo insaciável por comida ou bebida. É nunca estar saciado, satisfeito. Querer sempre mais, sempre muito para além do necessário. Gulosos são os que sofrem de gula. Diria que já todos fomos gulosos várias vezes na vida. Com comida, bebida ou, em sentido figurado, com qualquer outra coisa. Sobretudo quando somos jovens, somos gulosos pela vida. Queremos conhecer tudo, experimentar tudo e, normalmente, acabamos por o fazer em excesso. Vivemos na vertigem da satisfação, do prazer, mas quando podemos alcançá-lo, parece que não chega, não é suficiente, é preciso mais e mais e mais. Na verdade, vivemos numa sociedade gulosa. A mensagem mediatizada que passa é a de que nunca nos devemos dar por satisfeitos, devemos sempre querer mais. Até nos discursos aparentemente dissociados desta questão. Tomemos, por exemplo, as referências quase diárias, ad nauseam mesmo, ao famigerado “crescimento económico”. Tal desiderato parece quase um fim em si mesmo. Crescer, crescer, crescer. É induzida a ideia de que, sem “crescimento”, não vamos a lado nenhum ou, pior, ficamos condenados à mais sórdida indigência material.

Está o “crescimento económico” ao serviço dos homens, serve para “alimentar” os homens, ou são os homens que servem o crescimento económico, são escravizados por este? Esta gula do abstrato “crescimento económico”, este permanente desejo insaciável, predador, de querer sempre mais, muito para além do que é necessário, é um pecado sim. Está a conduzir à destruição do meio ambiente, do planeta Terra, o único em que podemos habitar. Pelo caminho, destrói pessoas, vidas e sociedades. O crescimento económico não pode ser um fim em si mesmo. Ele só se justifica e só deve existir se servir as pessoas. Se todos nós, o somatório do nosso bem-estar individual, for cada vez maior. Mas um bem-estar holístico. “Nenhum homem é uma ilha”. Nada é um facto isolado. O “crescimento económico” não pode correr desenfreadamente, gulosamente, por si próprio. Temperança. É o que chega, progressivamente, com a idade. Que chegue também, rapidamente, à economia e à política.

É preciso “crescer”.

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Mas o “crescimento económico” é um fim em si mesmo? E quando é que chega? Quando é que é suficiente? Temos de crescer até que ponto?


Entre a gula e a virtude, comamos! por Luiz Garcia

Imagem Luiz Garcia - A gula demonstrada por Hieronymus Bosch em detalhe de The Seven Deadly Sins and the Four Last Things.

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Um grupo de doutos e velhos senhores se reúne para elaborar uma síntese definitiva para a salvação das almas humanas. Estão preocupados em sepultar os anos da indecência romana, que a tantos corrompeu o espírito com vícios e devassidão moral. Num mundo agora cristão, a culpa pela gradual derrocada do império de Roma era atribuída à frouxidão religiosa que vigorou por séculos. Os romanos haviam adorado deuses pagãos que, à vista dos tais senhores, eram permissivos com o desfrute de prazeres que afastavam o homem das aspirações divinas e induziam a depravação dos bons costumes. Os romanos haviam tombado na própria montanha de imoralidades. Na lista de vícios que estavam a compor aqueles homens de barbas, logo aparece a gula, o desejo irrefreável por comida e por bebida. Era, afinal, uma forma de egoísmo e cobiça, um impulso a desejar sempre mais, uma insatisfação permanente com o que se tem. E isso transgredia as leis do Criador, porque se opunha à temperança, a virtude excelsa de que os patriarcas da Igreja queriam dar exemplo. O homem não poderia se alçar às hostes divinas enquanto seu corpo deliberadamente consentia em estar aprisionado às paixões da carne, entregue ao deleite dos prazeres mundanos.


Séculos depois, Dante Alighiere, em “A divina comédia”, populariza a lista infernal e lá está a gula, representada no Terceiro Círculo, no Lago de Lama, onde os gulosos jazem imersos no próprio vômito. Cérbero, o cão de três cabeças (que mais modernamente ficou popular por conta da série de filmes de Harry Potter), ali está naquela zona abismal como algoz inclemente. Com apetite insaciável, ele arranha, esfola, esmaga, dilacera e esquarteja os espíritos dos gulosos. Essas imagens trevosas penetraram na cultura da civilização ocidental. Num princípio absoluto, os prazeres eram vistos como a porta larga e sedutora da danação, uma ideia que resistiria séculos afora e forjaria a mentalidade repressora da sociedade feudal e do entranhado conservadorismo da cultura burguesa. Uma e outra, porém, sempre estiveram fadadas a se confrontar com a própria hipocrisia. Mesmo empenhadas em encarnar as virtudes de Deus, as sociedades conviviam com o escândalo. No mundo privado, a intimidade flertava com as tentações dos sentidos. As vontades humanas não se elevaram à altura e na rapidez que esperavam os padres fundadores. O homem concordava intelectualmente com a ordem moral estabelecida, mas tinha dificuldade em repelir as forças poderosas que brotavam algures em sua profundeza. Isso porque, embora percebesse os estragos de uma vida licenciosa, ele intuía uma verdade desconfortável para os pregadores da condenação eterna. Por que Deus, em sua infinita sabedoria e infalibilidade, havia dotado o homem da capacidade de sentir prazer, se alguns de seus representantes oficiais iriam mais tarde condenar a gozo de tais prazeres? Em outras palavras, por que Deus daria aos seus filhos corpos com brinquedos deliciosos para depois os proibir de com eles brincar? Há uma síntese desse paradoxo num livro de Karen Blixen. Em “A festa de Babette”, duas irmãs são devotas herdeiras de uma vida de regrada abstinência ensinada por seu pai e profeta de uma comunidade religiosa enterrada no interior da Dinamarca. A existência ali é justificada pela supressão dos vícios, o que implicava banir os prazeres associados ao corpo, pois eram fonte das distrações, dos desvios e do obscurecimento da alma. Ocorre que a rotina das irmãs Martine é subi-

tamente alterada com a chegada da francesa Babette Hersant, em fuga do movimento repressor à Comuna de Paris. Ela passa a trabalhar como cozinheira das irmãs, reeditando pratos típicos da comunidade. Depois de 14 anos a serviço delas, Babette ganha o prêmio de uma loteria e tem a ideia de gastar os 10 mil francos num banquete em homenagem à memória do pai fundador da comunidade. A experiência do banquete seria libertadora. Os convidados, cujas vidas haviam sido a tradução da insipidez e da negação dos sentidos, viram-se surpreendidos momentaneamente por ondas sucessivas de prazer a inundar-lhes a boca. O sabor dos pratos requintados de Babette, que fora chef do prestigiadíssimo Café Anglais, expunha os convivas ao desconcerto de uma condição inédita: render-se ao prazer soberbo que excitava as papilas ao mesmo tempo em que a consciência vigiada por uma vida inteira de privação lhes cobrava desinteresse por tais apelos do sentido. Ao final, as irmãs se entregaram à felicidade de um prazer tão humano, a ponto de inverter ordem das coisas: “Babette, você encantará todos os anjos”, profetizou uma delas. Elas compreenderam que aquela felicidade, mesmo sensorial, não poderia desagradar a Deus. O banquete as fizera mais felizes, mais do que muitos anos de autocastração dos sentidos. O que haveria de errado nisso? A história da gula é a da própria narrativa do conflito travado na consciência humana, que ora reprimiu o desejo, ora o distensionou para explorar seus limites, oscilando entre versões variadas do hedonismo e do estoicismo gregos. Nessa gangorra, entre a abstinência e o regozijo, o homem descobre o caminho da virtude. Num movimento ancestral, a gula, no exercício dos excessos, permitiu desenvolver a sofisticação do paladar. O sentido mais apurado passa a valorizar mais as experiências episódicas do prazer à mesa do que a rotina repetitiva e calejante de comer abundantemente. Em vez do prazer da saciedade, o homem busca essa felicidade percebida pelas irmãs Martine, uma experiência que, se não fosse ocasional, não produziria as mesmas sensações extraordinárias. Porque todo prazer é intermitente, obedece a ciclos entre o gozo e o fastio. Comer pode ser uma experiência trivial e viciante, uma compensação diária para o desprazer da vida. Em sua história, a gula, porém, nos deixou uma lição. A felicidade suprema à mesa é quando todos os sentidos se excitam, se deleitam e se saciam completamente, para depois, sem pressa nem ansiedade, aguardarem a próxima oportunidade de plenitude. Comer só poderá ser transcendente quando for desnecessário.

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Os santos padres do Cristianismo primitivo facilmente completariam a lista dos pecados capitais. Fecharam a conta em sete, porque o número era simbólico e - acreditavam agradaria a Deus, que já tinha simpatia pelo algarismo: ele fizera o mundo em sete dias e dissera, pela voz de seu filho Jesus, que era necessário perdoar o semelhante não sete, mas setenta vezes sete.


Palavra-Chave da Longevidade: Frugalidade por José Carreira

“Atualmente, comer em excesso é, para a maioria dos países, um problema muito mais grave do que a fome.” (Yuval Noah Harari, in Homo Deus: História Breve do Amanhã, Elsinore, 2017) O filme “Seven”, protagonizado por Brad Pitt e Morgan Freeman, realizado por David Fincher, marcou-me bastante. Nunca mais esqueci a história do serial killer que escolhia as vítimas em função dos sete pecados capitais: Gula; Avareza; Luxúria; Ira; Inveja; Preguiça e Orgulho. O primeiro crime revela um homem obeso, amarrado, e obrigado a comer até à morte. A vítima teria cometido um dos pecados capitais: a Gula. Independentemente de considerarmos ou não a Gula um pecado capital, comer ou beber em excesso; ser glutão ou glutona; abusar das tentadoras gulodices, poderá potenciar putativos problemas de saúde, determinar a perda de qualidade de vida e contribuir para a morte prematura.

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A longevidade não tem na alarvidade uma aliada, muito pelo contrário. O mundo mudou e como constata Yuval Noah Harari, “Pela primeira vez na História há mais pessoas a morrerem por comerem demasiado do que por não terem o que comer, há mais pessoas a morrerem de velhice do que de doenças infeciosas.” O investigador Dan Buettner e a National Geographic identificaram, em 2005, pequenos oásis, em alguns pontos do globo, que reúnem pessoas com uma longevidade fora do comum: as Zonas Azuis. Além de vive-

rem mais anos, os homens e mulheres dessas regiões somam a esta conquista um bom estado geral de saúde. São cinco os nichos geográficos, as “Zonas Azuis”, que concentram uma população de uma longevidade excecional: Okinawa (Japão); Sardenha (Itália); Icária (Grécia); Loma Linda (Califórnia) e Península de Nicoya (Costa Rica). Ainda que distem milhares de quilómetros e sejam culturalmente muito distintas, as comunidades destas regiões partilham uma filosofia de vida com traços comuns: atividade física moderada e regular; intensa atividade social; papel central da família; hábitos de meditação e espiritualidade; consumo moderado de bebidas alcoólicas e são bastante frugais do ponto de vista alimentar. Privilegiam o consumo de legumes e frutas em detrimento da carne. Uma das regras de ouro é a restrição alimentar ou calórica, nos antípodas da GULA. Poderemos não conquistar a eternidade, ao imunizarmo-nos contra a GULA, mas estaremos a trilhar o caminho da nova longevidade, não abdicando do poder de maximizar a nossa possibilidade de envelhecermos saudáveis e felizes.


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Gula Ambiental por Bernardo Mota Veiga

A linha que separa a necessidade de uma gula desmedida é, no máximo, micrométrica. Por gula ou por necessidade, a verdade é que o meio ambiente está cada vez mais afastado da condição humana para uma vivência (melhor, sobrevivência) semelhante àquela em que todos fomos criados. Talvez nem todos tenham percebido ainda que o Planeta Terra não está, nem nunca esteve em risco. O que está verdadeiramente em risco somos nós pois o Planeta, esse persistirá como persistem os outros planetas, nem que se tenha que transformar num desertificado Marte ou Mercúrio...Nem que tenha que voltar a iniciar tudo de novo e voltar à época dos aminoácidos para reconstruir tudo de novo.

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Pensar que estamos a proteger o Planeta de cada vez que reciclamos uma tampa de garrafa é, no mínimo, arrogância Humana... ao reciclarmos essa tampa estamos sim a protegermo-nos a nós. Temos que mudar o “chip” urgentemente! O Planeta sobrepõe-se a qualquer uma das nossas atrocidades e vontades e, ainda que o discurso já tenha mudado nos últimos anos, muitos ainda pensam que toda a conversa acerca de aquecimento global, ambiente, biodiversidade e ecologia se resume à sobrevivência do terceiro calhau a contar do Sol. É o ser humano que está em risco de perder a sua casa, a biodiversidade necessária para a sua sobrevivência e tudo o que este planeta único nos dá e que justifica uma vida por cá em condições compatíveis com o que somos espiritual e fisicamente. Os locais inóspitos às nossas condições são cada vez maiores até que se resumirão a espaços que não terão espaço para todos. A palavra de ordem é coexistir e para coexistir é necessário entender este casulo terreno único e delicado e evitar os Efeitos Borboleta que geram cada vez mais impactos desproporcionais à variável que lhe deu origem.

Não temos dúvidas de que o mundo será mais elétrico e menos carbonizado, que o mundo será renovável (seja lá o que isso quer dizer) e que sol, vento, geotermia e hidro serão as palavras chave para nos levar à energia infinitamente grande com emissões infinitamente pequenas. Muitos temos estado a tratar disso a uma velocidade alucinante. Só em Portugal prevê-se que em 3 anos mais 10% da produção total de energia será Solar (3 anos é muito pouco tempo) a juntar aos cerca de 50% de energias renováveis que já são uma realidade. A questão energética, sim ou sim, será solucionada muito brevemente pois está entregue a profissionais dedicados, políticos motivados e, claro, envolvidos no racional económico favorável. O grande problema é que, sendo a energia abundante e renovável capaz de solucionar muitas das outras questões ambientais, fica a faltar tudo o resto, e esse resto é sobretudo respeito pelo outro e por todos os seres que coexistem e estão tão ameaçados por nós, quanto nós.


O ser Humano tem uma tão grande capacidade de solucionar problemas quanto de ser pessimista quanto a esses mesmos problemas. A verdade é que nos últimos anos solucionámos grande parte dos problemas que existiam à minha nascença. Consola saber que muitos arregaçaram as mangas e ignoraram o dramatismo dos média que pintam sempre o lado escuro do mundo, desacreditando na força humana para fazer do mundo um mundo melhor para todos. O livro “Factfullness” de Hans Rosling é de leitura obrigatória pelo menos para todos os que são da minha geração. Se tem pouco mais de 40 anos, estou certo de que ainda pensa que muitas das crianças raparigas não têm acesso à escola primária, que muita gente não tem acesso a água potável, e que uma grande parte das crianças não são sequer vacinadas. Era tudo verdade em 1980, quando começámos a ouvir notícias, mas as notícias não nos mostram o quanto grande parte dessa nossa perceção do mundo é hoje mentira. Na realidade 86% das crianças com mais de 15 anos têm capacidades básicas de ler ou escrever, 88% dos bebés com um ano tiveram acesso a vacinação (eram 22% em 1980) e 88% das pessoas têm água proveniente de fontes tratadas (eram 58% em 1980). Surpreendentemente, 90% das raparigas em idade de escola primária estão matriculadas (eram 65% em 1970) e enquanto em 1800, 85% da população mundial vivia abaixo do limiar da pobreza (em 1966 eram 50%), hoje são “apenas” 9% os que vivem com menos de dois dólares diários. Lembram-se de ouvir falar na Etiópia? Falava-se muito em tempos, mas hoje a Etiópia já não é considerada sequer um país subdesenvolvido. Nenhuma dessas manifestações de materialização Humana são enfatizadas nos média, nos média parece que só é notícia o que de mau acontece. Conseguem imaginar quantos milhares de heróis anónimos conseguiram tornar o mundo mais humano nos últimos 40 anos? E, já agora, o buraco do Ozono? Lembram-se ainda o que é feito dele?

Somos efetivamente capazes de tudo ao que nos propomos. Essa será talvez a maior das diferenciações do ser humano versus qualquer outro ser. É verdade que o ambiente é hoje uma catástrofe face ao que já foi, mas também é verdade que o ser humano, apesar da sua gula, tem acudido e construído de forma extraordinária um mundo melhor para todos. Os média destroem quase sempre as boas conquistas ao ignorá-las, e os média existem para satisfazer a gula Humana de informação que, curiosamente, parece alimentar-se mais com notícias más do que com as boas. Para dar início a qualquer atitude drástica de “correção ambiental”, temos primeiro que acabar drasticamente com a nossa priorização às coisas más que acontecem ao mundo, ao outro, a nós. Temos que olhar positivo e que dar tempo de antena ao bem. Temos que arrumar no esquecimento os que destroem e colocar na linha da frente os que constroem. O negativismo não é a regra, é a exceção, assim como o mau é a exceção e não a regra. Para nos salvarmos de um planeta inabitável, temos que confiar e ter o pragmatismo positivo de olhar o problema e agir já hoje, seja à escala micro (cada um de nós) seja à escala macro (institucionalmente). Não precisamos dos discursos catastróficos das ilhas de plástico, nem da desflorestação amazónica... precisamos sim, de fazer pequenas e grandes conquistas a cada dia, conquistando também a cada dia o respeito pelos que connosco coabitam e que contribuem com a sua existência para este fabuloso ecossistema. Digamos que depois de um período de gula, é tempo de dieta, neste caso uma dieta ambiental. Não sei se o mundo mudou ou se nós mudámos o mundo, mas se algures um dia alguém concluiu que o Homem é o centro do Universo, agora é melhor o Homem ser tão invisível quanto possível aos olhos do universo. Acreditemos que vamos conseguir sobreviver às condições que estamos a infligir ao Planeta, sejam elas quais forem.

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Consumo desmedido com desperdícios infindáveis, destruição de florestas, agricultura intensiva carregada de química, mega incêndios, caça desmedida, extinção de espécies. Esta parte não se faz só por decreto. O respeito só se consegue com uma melhor compreensão do Planeta como organismo vivo que assegura a nossa sobrevivência por ser como nos habituámos que fosse. Depois então, talvez consigamos acabar com a gula, porque a Terra tem tudo o que necessitamos, mas não tem suficiente para alimentar a nossa atual gula.


Gonçalo Ribeiro Teles 1993, Aula de Jubilação por João Albuquerque Carreiras

Pode parecer estranho publicarmos um artigo com 26 anos, mas, tirando um ou dois detalhes, é assustadora a actualidade das palavras de Gonçalo Ribeiro Telles, o homem da razão antes de tempo. Cresci a ouvir chamá-lo de sonhador, idealista, utópico, envelhecerei a ouvir citações suas como referências incontornáveis. Por sua causa escolhi o curso onde me formei, atraído pela sua intervenção pública, sempre consistente, mesmo quando não encontrava eco em quem de direito. Tive o privilégio de ainda assistir às suas aulas, das últimas que leccionou, momentos em que o saber saía sem guião. Portugal é um país melhor por causa de Gonçalo Ribeiro Telles e melhor seria se lhe tivessem dado razão no tempo certo. As páginas seguintes são uma lição sobre o que é a paisagem, em toda a sua riqueza e complexidade. Uma lição de há 26 anos que não foi aprendida e que ainda hoje deveria ser insistentemente ensinada. Basta olhar para um país onde a palavra ordenamento parece um palavrão impronunciável, um país onde todos os anos ardem hectares sem fim e que continuarão, tragicamente, a arder, enquanto não houver coragem de olhar o território como uma paisagem, em toda a sua complexidade e diversidade. Uma paisagem demora anos a construir e segundos a destruir.

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A paisagem do futuro poderia ser bela, diversa e complexa, mas para isso seria necessário aprender com as lições de quem sabe e com as tragédias que ocorrem quando não as escutamos. Haja vontade de aprender, haja vontade de querer um país com futuro.


João Albuquerque Carreiras

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GRT 1993, Aula de Jubilação


A Paisagem do Futuro * por Gonçalo Ribeiro Telles

1 - As paisagens tradicionais Ao percorrermos o nosso país ficamos, de quando em quando, deslumbrados com algumas paisagens que ainda surgem belas perante os nossos olhos apesar de, por vezes em extensões a perder de vista, o território já apresentar as marcas dum processo gradual de destruição biológica e física e de subdesenvolvimento cultural, o que, por conseguinte, se traduz numa degradação visual da paisagem. Esses troços de paisagem tradicional, que tão bem integram os aglomerados urbanos isolados no espaço rural, constituem uma herança cultural que, conjuntamente com a língua, é o principal alicerce da identidade de um povo que teima em sobreviver. Para além destas paisagens rurais e dos abalados centros históricos de algumas vilas e cidades, já nada, ou muito pouco, resta que possa estabelecer o elo visível que deve ligar o passado ao futuro. Quer isto dizer que a conservação das estruturas permanentes das paisagens tradicionais, quer rurais, quer urbanas, é indispensável, porque nessas paisagens foram acumuladas durante séculos experiências necessárias à continuação do processo de humanização do pedaço de terra que nos coube. Sem a humanização da paisagem, de harmonia com a Natureza, não haverá progresso, culturalmente consistente e socialmente justo. Não são as paisagens tradicionais, na sua forma biológica e cultural, nem a filosofia que presidiu à sua construção e aos respectivos sistemas de utilização do solo, nem as comunidades rurais que por elas velam, usufruindo da sua fertilidade, as causas responsáveis pelo atraso da agricultura, como, em 1957, tão bem apontou o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, no seu trabalho: «A miséria imerecida do nosso Mundo Rural».

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Oiçamos as suas palavras.

«Não é primariamente a pouca produtividade, nem o baixo nível de vida, nem o desconforto, nem o sub-desenvolvimento; é o Trabalho e portanto a vida «por conta alheia», é a não-comunhão nos bens e no Bem comum, (apetecia dizer: excomunhão de Bem comum…), é a desencarnação da moral pessoal, posta fora da moral social, é a insociabilidade radical e a insegurança potencial... Pensando na economia agrária e no meio rural, devemos reconhecer que nunca fomos ricos; éramos uma Nação de «remediados; somos hoje um povo de proletários». «As grandes e fáceis fortunas fizeram-se sempre e fazem-se hoje na aventura comercial e industrial, quer dentro quer fora do país. Outrora, essas grandes fortunas encontravam a terra cativa; hoje, está à sua mercê. Qual a proporção de solo nacional, sobretudo no Norte, que não esteja empalmado pela aventura industrial e comercial? E o que resta nas mãos da lavoura, se exceptuarmos algumas manchas agrícolas que resistiram à novas instituições legais e sociais, o que resta mais será da usura que da lavoura.» Em nome do dinheiro e de uma rentabilidade fácil dos investimentos, procurou-se que a terra respondesse, como qualquer indústria oportuna ou jogo de bolsa, àquilo a que se chamou progresso: a maximização da produção de bens no mais curto intervalo de tempo. As monoculturas extensivas da floresta industrial, a agro-química e a mecanização intensiva fizeram pensar que as paisagens tradicionais, com o seu equilíbrio e dinamismo próprio, estavam condenadas a desaparecer, bem como as populações que nelas e delas viviam estavam condenadas a emigrar. Vejamos como estão a ser destruídas duas das mais belas paisagens rurais do nosso país situadas em contextos geográficos diferentes. Vamo-nos referir, primeiro, ao Minho e Douro Litoral, e em seguida ao sul do Tejo.


No século XVI, vindo do México através de Sevilha, chegou o milho, cultura milagrosa que permitia altas produções de grão e de folhagem abundante para o gado. O milho ocupou então as pastagens dos vales e muitos prados de lima visto ser uma cultura exigente em água. Estas pastagens passaram a ser feitas apenas no Inverno. Por sua vez, a construção de socalcos subiu as encostas para se conseguirem mais terras cultivadas. Os gados subiam às serras e aos pastos comunitários de montanha, já utilizados pelos Lusitanos e Galaicos, porque a palha de milho não era suficiente para os alimentar. A nova cultura obrigava a obras de drenagem e despedrega, à construção de socalcos em pedra e a novas captações de água para rega, o que exigia muita mão-de-obra. Os matos (bouças) alargaram-se à custa da mata. O zonamento da paisagem permitia que cada exploração possuísse terras em cada uma das zonas definidas pela respectiva aptidão, o que garantia o equilíbrio e a autonomia da exploração. Edgar Fontes no seu trabalho, «A vinha na paisagem do Minho», escreve: «Todos sabem que não podem cultivar tudo por toda a parte, que há terras destinadas a serem «bouças e outras que deverão ser prados». Isto conduz necessariamente a uma fragmentação da propriedade. Muitos dos que superficialmente observam esta paisagem acham que seria indispensável proceder-se a um trabalho urgente de reagrupamento e não dizem que em alguns casos isso não seja aconselhável, que seria economicamente mais perfeito as áreas cultivadas por um mesmo lavrador serem preparadas. Nada mais errado quando se considera sobretudo a zona que estamos a estudar, pois só em casos particulares isso seria possível.» Na sua forma mais complexa, a paisagem minhota tradicional apresenta ainda a seguinte estrutura que convém melhorar sem a destruir. – Bouça: com mato e pinhal e formas residuais da mata natural que convém recuperar.

– Encosta: em socalcos com ramadas ou em terraços nas terras mais férteis e de menor declive (campo). – Veiga: compartimentada com uveiras cuja defesa é imprescindível (campo), com milho, feijão, batata ou centeio, trigo ou linho. – Bouça do brejo: com carvalhos e vegetação ripícola marginal junto ao rio. Estrutura zonada em que se intercalam, por vezes, hortas e pomares, olivais e soutos, e quintas muradas. Para lá desta estrutura complexa e diversificada, ainda existiam os «eidos» – pequenos casais agrícolas que repetem a organização das quintas em mini-espaços de grande produtividade. Aos «eidos» se deve o esbatimento económico e social das consequências da crise da indústria têxtil. A vinha aparece, principalmente, como elemento de compartimentação. Esta bela paisagem, reflectindo sabedoria e experiência, de extraordinária beleza, está a ser destruída ou abandonada por falta de quem possa dela viver. O seu processo de destruição iniciou-se pela florestação dos baldios imposta às comunidades serranas, o que impossibilitou, em termos económicos, a sua economia agro-pastoril. Por sua vez, a adubação química dos campos, que substituiu a fertilização com o estrume, não exige o esforço físico do transporte dos matos das bouças para as camas do gado e destas para as veigas, mas é difícil porque não há caminhos nem veículos apropriados para o efeito. As maiores produções, nos primeiros tempos, correspondem a uma gradual diminuição do fundo de fertilidade. O lavrador passou a jogar na roleta e ficou dependente do preço do adubo químico. A economia agrária tornou-se frágil, a emigração aumentou, as bouças são ocupadas por pinhal, por vezes consociado com o eucaliptal. As fábricas e as moradias dos emigrantes, respirando um êxito social, baseado no trabalho no estrangeiro, no comércio e na pequena indústria, invadem caoticamente os campos e as veigas, formando cordões contínuos ao longo das estradas, o que impossibilita o trabalho agrícola nos solos mais férteis.

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Após a descida das populações do alto das cumeadas, imposta pelos Romanos por razões económicas e de segurança, a zonagem da paisagem estabelecia que na zona mais húmida figurassem as pastagens e na mais seca se cultivasse o cereal e a vinha. As áreas mais declivosas reservavam-se para a mata e matos, donde se retirava a lenha e as «camas» para o gado.


Apenas os «eidos» mantêm um mínimo de sustento das famílias afectadas pela crise da indústria têxtil. Também alguns trabalhos de emparcelamento realizados com o objectivo de modernizar a agricultura têm contribuído para a eliminação da zonagem da paisagem e da compartimentação dos campos, ou seja, para a destruição da estrutura indispensável à existência da vida natural e à manutenção da fertilidade. Olhemos agora para o Portugal meridional. A defesa, o relevo e o clima tenderam a concentrar as populações em aglomerados urbanos por vezes à volta de castelos ou justificados pela qualidade dos solos que os envolvem. Na periferia das cidades, vilas e aldeias, surgiam hortas, pomares, ferregiais, vinhas, olivais e quintas, que constituíam uma fonte de alimentos frescos, um espaço de recreio e de ocupação dos tempos livres. Para lá deste anel, como espaço intersticial entre os pólos de mais intensa humanização, as charnecas e matas iam dando lugar aos montados e às culturas cerealíferas extensivas como resposta ao crescimento da população e ao comércio. Nos povoamentos mais abertos de azinheiras, cultivava-se o cereal com intervalos de três a sete anos pastados pelo porco de montanheiro, ovelhas ou bois. Os matos e estevais, resultantes de searas episódicas, realizadas de nove em nove anos ou mais, após lançado o fogo ao mato, eram percorridos pelas cabras, ovelhas e vacas, conforme o estado de crescimento da vegetação natural. Nos vales mais abertos e nas lezírias criavam-se cavalos e pastavam os bois de trabalho. A valorização industrial da cortiça e as campanhas do trigo vieram alterar esta paisagem.

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Nos solos mais pobres, arenosos ou xistosos, alastrou o sobreiro, que veio enriquecer as terras onde se faziam magras searas à custa da queima dos matos. A azinheira, perdendo interesse económico devido ao desaparecimento do porco de montanheira, passou a ser sistematicamente podada nas terras mais férteis, ou mesmo abatida, para dar lugar a searas. A lenha e o carvão tornaram-se produções que delapidaram o capital natural.

No entanto, a árvore — sobreiro ou azinheira —, enquanto se mantinha como um coberto do solo, relativamente denso, mantinha o equilíbrio da paisagem e possibilitava uma certa economia da água do solo. Por sua vez, as galerias ripícolas mantinham-se, ao longo dos cursos de água, com enorme benefício para a manutenção da vida silvestre e estabilidade e regularização desses cursos. Num curto intervalo de tempo, a campanha do trigo de 1930 provocou a erosão dos montados de sobro, com efeitos catastróficos: arrastamento da camada humífera e das partículas coloidais e correspondente diminuição da capacidade de campo e de absorção da água dos solos e correspondente destruição da manta humífera e das micorrizas. Deve-se ter, assim, iniciado a «doença dos sobreirais», acentuada actualmente pela lavoura praticada nos montados por máquinas mais potentes, que destroem o sistema radicular pastadeiro e o comportamento do solo. As árvores passaram a sofrer de sede no estio e a envelhecerem prematuramente. Para contrabalançar esse envelhecimento, são violentamente podadas, como medida de rejuvenescimento. Para tais podas também contribui a subida do preço do carvão e da lenha de sobro. A regeneração torna-se rara em extensas áreas do montado. Referimo-nos a duas paisagens do nosso país, uma, no Norte, sob a influência atlântica, outra, a sul do Tejo, de características meridionais, mas também sob influência atlântica. São belas paisagens, ecologicamente equilibradas, que estão em perigo de desaparecerem totalmente ante a chamada «modernização» da agricultura, política que tem por objectivo o fomento das monoculturas florestais de eucalipto e a agro-química depauperadora da fertilidade dos solos. As consequências são o despovoamento dos campos e serras, a desertificação e a simplificação da paisagem ou mesmo a sua morte. Como adiante veremos, há que inverter a nossa maneira exclusivamente analítica e sectorial de ver e sentir o território, e intervir nele de uma forma gradual e integrada. Há que completar o conhecimento analítico com o estudo do funcionamento dos sistemas ecológicos da paisagem e, por fim, desenvolver uma ideia criativa, através da síntese, que viabilize as transformações necessárias. Estas paisagens, tão afastadas na forma, estão sujeitas aos mesmos princípios ecológicos de equilíbrio. Em ambas funcionam sistemas contínuos que garantem a permanência, ou mesmo o aumento, do fundo de fertilidade.


A recuperação faz-se através da bouça e da água infiltrada. No montado, a árvore fornece a matéria orgânica (queda das folhas) e a sombra que evita o excesso de radiação solar. A folhagem caída melhora a capacidade de água no solo, e a sombra diminui a sua evaporação. A recuperação faz-se através da árvore e da água no solo. Podemos, através de rotações apropriadas, dispensar a bouça; não podemos é dispensar o seu papel como meio necessário à infiltração da água. No caso do montado, não podemos dispensar a sombra protectora da árvore nem a queda das folhas que garantem a sua regeneração. Há que manter ou implantar na paisagem uma estrutura permanente que garanta a infiltração, a biodiversidade e a drenagem. A estrutura permanente da paisagem exige a presença da mata e dos matos, das sebes, da árvore do montado e das galerias ripícolas distribuídas de uma forma contínua. Serão manchas ocupando os solos mais pobres e uma rede de corredores para os mais ricos. Esta estrutura, próxima das formações naturais, protegida da pastorícia e dos caçadores, condicionada a exploração de material lenhoso, constituirá como que o sistema arterial da paisagem global a que o Prof. Caldeira Cabral chamou o «Continuum Naturale». O Visconde de Coruche, notável agrónomo, já em 1882 escrevia, em considerações apresentadas no Conselho Superior de Agricultura, o seguinte: «As charnecas do Alentejo, assim como os montes do norte do reino, os matos, as pastagens naturais, as lameiras e todos os terrenos mais ou menos incultos de todos os países cultos, são complementos indispensáveis da lavoura e das parcelas cultivadas; são refúgios, larguezas, espaços, que, ou servem para a alimentação dos gados ou são mananciais inesgotáveis de lenhas, cepas, e também de estrumes muito mais baratos do que os adubos químicos artificiais, minerais e orgânicos, oferecidos pelo comércio e pela indústria.» 2 - A cidade e o campo Debrucemo-nos agora sobre a cidade e o seu ager. A cidade nasceu da agricultura e da necessidade de defesa de bens e populações. A urbe histórica, circunscrita a lugares estratégicos, situada no alto da colina, encostada ao rio e ao mar, cercada de muralhas, dominava um território de que dependia.

Campo e cidade eram objectos diferentes mas complementares de um mesmo sistema. «Urbe» e «ager» constituíam um todo. Com a invenção da máquina a vapor, o espaço urbano adquiriu dimensões territoriais e densidades demográficas que só na Antiguidade e na Alta Idade Média algumas cidades, esporadicamente, teriam atingido, ainda assim apenas comparáveis aos mais baixos da revolução industrial. Até essa revolução, o mundo urbano dos ofícios, comerciantes, mareantes, letrados e poderosos, vivia paredes meias com a ruralidade. As hortas, os pomares, ferregiais e olivais preenchiam espaços significativos do interior da cidade e continuavam na sua periferia onde as quintas de recreio ocupavam os melhores sítios que dispunham de água. Mundo rural e mundo urbano diferenciavam-se, mas não estavam separados um do outro. Se na cidade se desenvolve uma cultura erudita, esta inspira-se nos valores da ruralidade onde impera a Natureza. Virgílio, Plínio, Camões e Gil Vicente são exemplos, bem patentes, desse facto. O paraíso terrestre, para a civilização nascida na bacia mediterrânea, é, na verdade, um lugar-objecto e não um conjunto de coisas. Nele, a fonte, construção do homem, o riacho, serpenteando naturalmente, a amenidade do sítio e a diversidade da vida conjugam-se com a fertilidade e a produção de frutos saborosos. Camões no episódio da Ilha dos Amores recorre à vegetação própria dos portos, vergéis e pomares para idealizar o cenário onde os mareantes desembarcaram. Sobre a horta, Ilídio de Araújo comenta: «Sempre que é possível, a horta cola-se à habitação como que seja uma dependência, tão íntima como a cozinha e tão agarrada a ela como o quarto de dormir». Também a «urbe» está agarrada ao «agro» e este cola-se à cidade como a horta à habitação. A cidade nascida da revolução industrial espraiou-se, como mancha de óleo vazada em tampa de vidro, não respeitando nem vales, nem encostas abruptas, nem solos ricos. Mesmo no limiar de uma nova sociedade e, porventura, civilização, o processo então iniciado, em nome do progresso, continua a dominar o território e a destruir as nossas paisagens. Os subúrbios de cidades, como Lisboa, são bem o exemplo do caos e desumanização do espaço urbano a que corresponde a de-

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A bouça e o mato facilitam a infiltração da água que permite a alimentação dos freáticos e a sua captação. A mesma bouça fornece o mato para as camas do gado donde provém o estrume que garante a fertilidade e a produção.


sertificação e desmoronamento dos centros históricos. Actualmente, no nosso país, o espaço rural ainda é considerado um espaço destinado a ser conquistado indiscriminadamente pela cidade e seus tentáculos (estradas, vias rápidas, auto-estradas), ao longo dos quais se alinham moradias, enormes cartazes de publicidade, ofensivos da beleza das paisagens, cemitérios de veículos, depósitos de desperdícios e de entulho. Ao abrirem-se novas estradas e auto-estradas, o seu traçado não se integra numa política global de ordenamento do território e de organização da paisagem. Desprezam-se os sistemas locais e regionais de circulação e acessibilidade. A integração na paisagem das novas vias não é considerada tendo em atenção os sistemas ecológicos que nela funcionam nem a forma que apresenta. Sempre que não se podem admirar estas obras do progresso, nem aqueles símbolos da civilização do consumo, é porque ficamos entaipados entre colossais taludes, abertos quase a pique, revestidos de gabiões ou chapadas de betão com o fim de travar o seu desmoronamento. 3 - A «morte» da paisagem A paisagem como «eco» da comunidade nacional, na riqueza das suas formas e diversidade dos seus elementos está a morrer em Portugal. Para essa «morte» contribui a ideia de que o mundo rural é um espaço condenado ao atraso e sub-desenvolvimento, onde ainda vive uma população estagnada, envelhecida, uma espécie de resto antropológico que se opõe ao progresso.

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A decadência do mundo rural não resulta da estrutura, diversidade e essência das paisagens tradicionais, mas sim de uma política de desenvolvimento que tem tido por objectivo a maximização das produções no mais curto intervalo de tempo, sem se atender nem às consequências sociais, nem à degradação do espaço físico humanizado que essa atitude acarreta.

da fertilidade dos solos onde são obtidas, nem na sua distribuição nos diferentes mercados, provocou o descalabro de sistemas agrícolas diversificados, de base familiar e dependentes de mercados locais e regionais. Pretendeu-se, como muitos políticos e economistas desejaram, modernizar a agricultura, primeiro à custa da proletarização do rural, e mais tarde, da sua inutilidade perante a crescente mecanização, obrigando-o a abandonar lugares e aldeias, à procura de trabalho na cidade. Ficou aberto o espaço rural às monoculturas extensivas da floresta industrial e da agro-química, que terão como consequência o empobrecimento gradual dos solos. Pretendia-se competir em produtos já em excesso nos mercados europeus sem benefício para o nosso mundo rural e para as populações que passam fome por todo o mundo. O capitalismo e a empresa moderna primeiro proletarizaram o rural e depois, em face do progresso tecnológico, desempregaram-no. D. António Ferreira Gomes referia-se em 1957 à proletarização da seguinte maneira: «Quando se fala em proletariado, todos pensamos na indústria, na cidade e subúrbios, e nos seus sobressaltos (parece na verdade que um problema não existe desde que se possa calar...). Existe o proletarismo nos meios fabris e há que falar nele, até porque parece pensar-se às vezes que a expansão económica exige e justifica o seu aprovamento, com a esperança remota que essa expansão, por virtude intrínseca venha finalmente e sem mais a resolver o problema.» Para modernizar a agricultura, simplifica-se a paisagem até à sua morte, destrói-se a fertilidade, abre-se o caminho à desertificação e ao despovoamento dos campos e das serras. O povo rural é obrigado a emigrar para as grandes cidades e para o estrangeiro, ou é condenado ao subdesenvolvimento. A floresta industrial e a absurda plantação de exóticas são defendidas, uma vez que se considera o país com aptidão para a floresta, por as áreas próprias à cultura do trigo serem reduzidas. Por sua vez, os campos de golfe e as coutadas de caça poderão ajudar a promover o turismo, mas nunca poderão substituir a ruralidade nem ocupar áreas significativas do espaço rural.

Em 1943, numa conferência realizada no Instituto Superior de Agronomia, o Prof. Caldeira Cabral advertia que o objectivo da agricultura deveria ser «não só obter o rendimento ou até aumentá-lo através do tempo».

Portugal está a perder as suas aldeias, cujos habitantes reduzidos a idosos teimam em morrer nos lugares onde sempre viveram e que amam.

O excesso de determinadas produções, conseguidas muitas vezes sem pensar no futuro

As grandes concentrações urbanas não atingem, mesmo nos países desenvolvidos, mais de 8% do território nacional, mas o desgaste


Ao termos tido a honra de escrever o Prefácio do livro do Prof. Caldeira Cabral, «Fundamentos da Arquitectura Paisagista», referimo-nos à situação caótica em que se encontra o território português. A simplificação e degradação da paisagem, quer urbana, quer rural, conduzirá à sua morte. Referimo-nos aí ao incremento crescente das monoculturas, especialmente das florestais, à aplicação da agro-química, desprezando-se o emprego da matéria orgânica, na fertilização dos campos; à destruição da zonagem e compartimentação como estrutura fundamental da paisagem; ao alastramento indiscriminado das urbanizações; à construção insólita e desintegrada no espaço físico de infra-estruturas viárias; à canalização de ribeiras ou impermeabilização das suas margens e das áreas de máxima infiltração. Tudo isto tem conduzido à erosão do solo, a alterações prejudiciais do clima e microclimas, à desertificação e despovoamento das zonas mais desfavorecidas do interior do país, à marginalização social nas cidades e à pobreza generalizada. 4 - O futuro da Agricultura As comunidades rurais são depositárias de uma cultura e de conhecimentos ancestrais que a ciência tem explicado e a técnica deveria desenvolver, tendo, especialmente, em conta a diminuição do esforço físico e do tempo necessário para a execução das operações. Há muito tempo que cada família e aldeia deixou de se preocupar, exclusivamente, com a produção de alimentos e de fibras para o vestuário ou a colheita de ervas para medicamentos que lhes proporcionassem a sobrevivência. Hoje, a economia deve integrar-se em círculos sobrepostos, que irão desde os que respondem às necessidades locais e regionais diárias mais prementes ou os que garantem a segurança e continuidade cultural autónoma da comunidade até às de nível nacional e internacional, que devem contribuir para mais bem-estar, coerente distribuição da população no território e melhor qualidade de vida, isto é, para um desenvolvimento global do país assente na justiça e na defesa do futuro. Nada mais perigoso pensar que o progresso se realiza apenas através da produção a níveis nacional e internacional da economia. O papel que a agricultura deve desempenhar

não se cinge apenas a estes níveis; tem, pelo contrário, objectivos que cabem nas quatro alíneas seguintes: 1 - Produzir alimentos saudáveis para fornecimento de mercados locais, regionais, nacionais e internacionais. O Prof. Caldeira Cabral afirmou que o espaço rural é, conjuntamente com o mar, a única fonte insubstituível da alimentação do ser humano e que dele também depende a água potável disponível. 2 - Garantir o equilíbrio biológico e a estabilidade física do espaço rural e contribuir para o ordenamento das paisagens urbanas e metropolitanas. 3 - Possibilitar a existência de uma paisagem de alta qualidade ambiental e cultural, onde seja possível, agradável e pedagógico, o recreio. 4 - Numa paisagem, há que conservar o património genético das espécies selvagens e cultivadas, manter, ou mesmo aumentar, o fundo de fertilidade do espaço agrícola, porque ele, na sua globalidade de formas e funções, é o suporte dos elementos essenciais da biocenose na qual o homem se integra. 5 - Planear a paisagem global Vivemos numa época em que tudo está a ser posto em causa e já se anuncia não só uma nova sociedade mas até uma civilização diferente. Só prevalecerão, no essencial, as grandes metas da Justiça, da solidariedade e da dignidade da pessoa humana. Todos sentimos que algo muda porque os modelos de desenvolvimento, até agora seguidos se esgotaram, visto que os recursos naturais não podem ser explorados até à exaustão e o abismo entre a riqueza e a pobreza dos povos não deve continuar a aumentar. Importa tirar o máximo proveito dos benefícios que a civilização industrial nos legou no campo da medicina, da comunicação e do trabalho, os quais se traduziram numa maior esperança de vida, melhor informação, menor esforço físico no trabalho, mais tempos livres, reformas temporãs. Mas a sua herança traduz-se também no desemprego, no desequilíbrio social a nível mundial e das comunidades locais, na marginalização e rejeição social. Parecem existir todas as condições para que a sociedade reencontre o caminho da valorização do homem. Há que evitar a tragédia a que o actual modelo de desenvolvimento nos conduz e que atinge o território e as pessoas, promovendo a riqueza e o consumo exorbitante de alguns e a miséria e a fome de muitos outros.

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do modelo económico e social que provoca o seu crescimento atinge todo o espaço rural e a população que nele habita. O espaço rural continua a ser abundante, mas está em vias de total degradação.


Como evitar o caos e a visão sectorial materialista e exclusivamente analítica do território? Como já afirmámos, é necessário restaurar a «polis» apoiada na organização unitária do espaço, biofísico e cultural, de que depende a vida e também o progresso. A urbe e o ager deverão constituir uma unidade espacial interdependente. Há que «ruralizar a cidade e urbanizar o campo», sem que esta atitude invalide os valores próprios de cada uma destas faces da sociedade e da paisagem. As pessoas começam a poder viver novas situações que o mundo actual facilita. Não só se vive mais como a idade da reforma é mais cedo, circula-se e comunica-se com mais facilidade, o esforço físico no trabalho é menor. O desemprego obrigará a uma maior duração dos tempos livres e a turnos nos trabalhos fabris. As pessoas poderão exercer diferentes actividades, algumas por certo mais criativas. Há, portanto, que planear uma nova paisagem, evitando as fronteiras convencionais entre o espaço rural e urbano. A cidade deverá estender-se pelo espaço rural sem destruir o que nele é essencial. O relacionamento do Homem com a Natureza exige a complementaridade entre o meio urbano e a ruralidade, a fim de que todos possam viver esse relacionamento. O traço comum no desenho da cidade e do campo, conceito definido pelo Prof. Caldeira Cabral, é o «Continuum Naturale», que deve percorrer o espaço rural e o espaço urbano. O «Continuum Naturale» traduz-se, no planeamento oficial, pela REN (Reserva Ecológica Nacional), tão mal compreendida por alguns responsáveis do planeamento e por muitas autarquias, e que é a figura de planeamento capaz de o concretizar no território.

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Recentemente foi proposta, como continuidade daquela figura no espaço urbano, a Estrutura Ecológica Urbana. Trata-se de conseguir que na cidade os corredores verdes se comportem para o tecido construído como as matas e sebes para os campos cultivados. Nos últimos 100 anos, o desenvolvimento da ciência e da técnica, apesar de se ter mantido a forma e o sistema funcional de muitas paisagens, tem provocado o gradual desaparecimento da Natureza silvestre do quadro normal de vida de homem, especialmente do homem urbano.

Este facto justifica a campanha de Conservação da Natureza que desempenhou e desempenha um papel importantíssimo na defesa de valores biológicos e de paisagens notáveis. No entanto, a expansão urbana e o crescimento demográfico tendem a limitar a Natureza a áreas cada vez mais restritas, e a tornar o mundo mais artificial e feio e pobre em recursos naturais. A justiça obriga-nos a pensar que a Natureza, através das paisagens, deve continuar a integrar as actividades e a dar resposta à criatividade e inquietação do Homem. No âmbito do Ordenamento do Território, o planeamento da paisagem global e o emprego dos materiais vivos na sua estrutura permanente na actualidade alargaram o papel da Arquitectura Paisagista e da Engenharia Biofísica. 6 - O papel do Arquitecto Paisagista e da Engenharia Biofísica O Prof. Caldeira Cabral definiu a Arquitectura Paisagista como a arte de ordenar o espaço exterior ao Homem, ampliando o conceito clássico e convencional. O arquitecto paisagista já é reconhecido como projectista de espaços verdes urbanos, quer privados, quer públicos — herdeiro, por conseguinte, no plano erudito, da velha arte de jardineiro. O facto de ser reconhecido não atesta que seja aceite por todas as entidades que intervêm no território, uma vez que levanta problemas e propõe soluções que não são rentáveis em termos económicos convencionais, e não lhe é lícito aceitar objectivos especulativos. O arquitecto paisagista, devido à sua formação artística, científica e técnica, é agora indicado como o profissional melhor preparado para realizar a síntese que o ordenamento global da paisagem exige, defendendo um planeamento integrado que possa substituir as imposições dos pontos de vista meramente sectoriais. A visão exclusivamente sectorial de muitos técnicos tem conduzido a uma prática de planeamento onde, por não existir uma integração de todos os valores, dominam e prevalecem os investimentos económicos financeiramente rentáveis ou politicamente mais oportunos. Uns sectores crescem à custa de outros sectores, da fertilidade dos solos, do equilíbrio ecológico, da cultura e da beleza das paisagens, sem atender à realidade social, à herança cultural e ao futuro.


O ensino da Arquitectura Paisagista, tão caro à Universidade de Évora, tem que corresponder ao que se exige dos arquitectos paisagistas no actual âmbito da profissão: espaços verdes públicos e privados, planeamento da paisagem global, integração de edifícios e infra-estruturas, reintegração do património. Não posso também deixar de frisar a importância da Engenharia Biofísica, ramo de engenharia que, preocupando-se com a técnica do emprego de materiais vivos e naturais na construção da paisagem e com a caracterização e diagnose biofísica do meio, poderá contribuir para a concretização no território das transformações que as nossas paisagens exigem. Aponto especialmente as auto-estradas e o revestimento vegetal dos respectivos taludes bem como a reconstrução das margens elásticas das linhas de água. Quando olhamos, de Norte a Sul de Portugal, para a degradação das paisagens, muitas vezes devida ao não cumprimento da lei e outras à incapacidade de muitas equipas de planeamento do território, ou ainda à resistência rotineira de muitas autarquias e serviços do Estado, não podemos deixar de acreditar que, em grande parte, para lá dos defeitos e inconsequências do actual modelo de desenvolvimento económico, está também a ausência de uma visão de síntese do espaço, que impede uma atitude criativa. O Arquitecto Paisagista está especialmente vocacionado para ter essa visão e criar obra bela. Tenhamos esperança, porque ainda iremos a tempo! *Jubilação do Professor Gonçalo Ribeiro Telles.

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“Textos Escolhidos”, Editora Argumentum


Azulejo Publicitário Português

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Por Rafael Vieira


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Antes não os víamos, agora estão em toda a parte


O subtítulo deste texto prefacia mais do que um desinteresse, ele testemunha a distracção de décadas. Os anúncios com fundo em azulejo pontilham as estradas portuguesas, curva após recta, contracurvas, alguns em edifícios que se expõem ao olhar dos transeuntes, outros em encostas de imediata visibilidade. Outros painéis resistem nas cidades, frente de lojas extintas que perduram assim na memória colectiva, palimpsesto material. Se antes não os víamos, agora estão em toda a parte. Neste aparte, atentamente, os Azulejo Publicitário Português juntaram-se para recolher e assim salvaguardar este património porvir, com a urgência do olhar e a expectativa doutros recursos. Quem são/é o Azulejo Publicitário Português? São activistas - são artivistas serão ceramistas – serão… quem? A Cátia Santos e a Isabel Boavida são ambas arquitectas. O David Francisco é programador web. Somos os três formados pela Universidade de Coimbra, o que, de certa forma, nos juntou. O David e a Cátia são ambos de Vila Nova de Poiares (perto de Coimbra), a Isabel é de Portalegre. Como é que surgiu este foco no objecto publicitário feito de azulejo - é de escola ou de pura cidadania esta vossa atenção e predilecção por um objecto tantas vezes esquecido - o azulejo - e duplamente descurado - por ser, além de azulejo, um azulejo publicitário?

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Pode dizer-se que o foco no azulejo publicitário é de pura cidadania. Talvez não seja desligado da influência das nossas formações académicas e profissionais, mas também não lhes está directamente associado. A escolha foi sobretudo por uma questão de gosto e da existência de uma vontade comum nossa (percebemos agora que também de vários cidadãos como nós) em preservar estas peças para o futuro. O carinho que este projecto tem recebido de tantas pessoas acaba por dar mais validade a essa vontade, pois confirma que as peças estão presentes na memória como património comum. Há aqui um momento em que estes painéis em azulejo deixaram de ser apenas utilitários - a tal função de pragmática publicidade de estrada - e aparecem como património que importa preservar. Não apenas o azulejo que recobre as fachadas e que tanto a protege das intempéries como a embeleza, mas também estes painéis. Vêem esta mudança como um processo recente em curso?

Temo-nos vindo a aperceber com este projecto que a vontade que temos de preservar os azulejos publicitários também é partilhada por várias outras pessoas, que manifestam esse interesse de forma dispersa nas suas redes. Nesse sentido parece-nos que essa mudança está a acontecer neste momento na consciência colectiva para o azulejo publicitário. Quanto à patrimonialização oficial, não cremos que exista e, sendo um processo mais político e burocrático, talvez nunca aconteça, caso não apareçam entidades interessadas. Estes painéis também são de outro tempo - mais lento e pachorrento - em que alguns, poucos, se lançavam à estrada de automóvel em viagens de médio e longo curso. Qual o papel da recuperação destes painéis na manutenção desse romantismo campestre e da viagem com tempo e ponderação - chamam-lhe de slow living, estas coisas levadas num ritmo desacelerado. Estes painéis, como elementos característicos muito presentes nas estradas portuguesas, que no tempo anterior às autoestradas e vias rápidas eram as únicas opções para circulação automóvel, quer em lazer quer em trabalho, talvez possam vir a representar elementos de atracção de visitantes, obviamente com propósito turístico, convidativos à utilização das estradas nacionais do interior. A um dado momento estariam apenas a criar um acervo, a compilar e a mapear um repositório de painéis publicitários. Depois passaram para a intervenção. Sei que intervieram em dois painéis em Coimbra (Alto de São João e Alta da cidade) - num colocaram mesmo uma etiqueta a explicar a peça de fachada. Como é que se processou esta passagem da arquivística para o arregaçar de mangas? O propósito da criação do próprio acervo foi sempre não só o de documentar, mas sobretudo o de dar a conhecer os painéis, tendo intrínseco o objectivo da sua valorização e preservação pelo público em geral. Por isso, passar para a intervenção foi natural. Talvez tenhamos sentido que a melhor forma de chamar a atenção para a necessidade de preservação fosse dando o exemplo. As duas intervenções de Coimbra em concreto surgiram das muitas sugestões que por vezes partilhamos, mas que em norma não passam das ideias. Estas tiveram seguimento por serem facilmente concretizáveis. O painel da Mabor General no Alto de São João, Coimbra, ofereceu-nos a primeira oportunidade de intervir. Aquando do primei-


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ro registo fotográfico, o painel estava coberto com tinta. A Cátia, que normalmente lança as ideias, sugeriu que era engraçado «salvar» o painel. Depois de conversarmos com a proprietária e recebermos a sua autorização, fomos lá num dia e limpámo-lo. A intervenção no painel da Bolacha Nacional perto da Sé Velha, na Alta da cidade de Coimbra, surgiu logo de seguida, porque estávamos entusiasmados após a primeira. Neste caso entendemos que o resultado foi muito interessante, por se ter criado uma interacção entre o painel in loco e o site.

agradecer a todos os que já contribuíram e o continuam a fazer, e convidar quem ainda não o fez a juntar-se a esta espécie de «comunidade» protectora do azulejo publicitário português.

Estamos a comentar a patrimonialização de um objecto que nunca fora visto como tal, já o comentámos lá atrás. Todavia e sem sombra de dúvidas, é um património colectivo. Como é que as pessoas - de transeuntes a autarcas a senhorios e etc. - têm recebido as vossas intervenções e súbito interesse por aquele painel ou aquela fachada?

Através da criação da plataforma de catalogação, acreditamos ter conseguido criar um espaço de divulgação e consequente valorização dos painéis publicitários em azulejo. Acreditamos também que ao darmos esse primeiro passo da simples divulgação, abrimos caminho para a consciencialização da negligência a que estes objectos estão votados. Apesar do projecto ter começado como um passatempo que nos permite aliar os gostos pessoais pelas viagens, fotografia, património, o Azulejo Publicitário Português tem consumido algum investimento de tempo e dinheiro. Haver algum tipo de ajudas de custo para a catalogação seria o ideal. Temos vindo a perceber que existe algum interesse institucional/académico em torno desta catalogação, mas não temos ainda consciência de quais as instituições realmente dispostas a financiar o projeto. Ainda assim, fazemo-lo porque gostamos, e continuaremos a fazê-lo.

Com surpresa, mas também com interesse e agrado. Especialmente as pessoas que presenciaram o aparecimento dos painéis nas fachadas ou que com eles conviveram quando ainda cumpriam a sua função publicitária, como é o caso dos painéis Nitrato do Chile, ficam contentes por partilhar as suas vivências de então com alguém de fora que se mostra interessado. Há situações que nos trazem particular alegria, como foi o caso do registo do painel azulejar que publicita o Café Caracolilho, em Esperança, Arronches. O pequeno painel encontra-se no edifício devoluto onde funcionava esta empresa familiar e tivemos a oportunidade de conversar com um dos descendentes. A história que nos contou não poderia deixar de ser incrível, não fosse esta sobre a exportação para Espanha em tempos de fronteiras fechadas. Como esta já houve outras situações, em que o azulejo é o ponto de partida para outras histórias que nos cativam, muitas vezes dignas de registo, e que infelizmente apenas existem na memória de quem as viveu.

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Gostava que se anunciassem e pedissem aos cidadãos anónimos para que contribuam com o APP no identificar, no catalogar, no fotografar e no proteger destes painéis. O Azulejo Publicitário Português é uma plataforma online de catalogação dos painéis publicitários em azulejo no território português. O objetivo é conseguir identificar o maior número de peças deste tipo. Este objectivo tem vindo a ser atingido muito graças às contribuições espontâneas de cidadãos que se identificaram com o projecto e nos têm vindo a contactar. Assim, aproveitamos para

Que planos e ideias pretendem lançar ainda nesta plataforma, há algo que gostassem de comentar e de partilhar algo no sentido de concorrer com esta inventariação a Fundos ou converter este trabalho numa classificação patrimonial?

Voltando à questão da classificação patrimonial, seria uma vitória, ainda que não calculada inicialmente, a atribuição oficial de interesse patrimonial aos painéis publicitários em azulejo, que entendemos, empiricamente, como marca identitária das fachadas portuguesas.

www.azulejopublicitario.pt


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Costa do Valado, Aveiro - Fábrica Aleluia, Aveiro Firestone – Aveiro Massas Vouga - Paradela, Sever do Vouga Martins Rebello - Lemede, Cantanhede - Fábrica Aleluia Vacaria da Quinta da Alegria - Oliveira do Douro, Vila Nova de Gaia Licor Beirão - Escalhão, Figueira de Castelo Rodrigo - Oficina Cerâmica, Pombal Café Caracolilho - Esperança, Arronches - Lufapo Coimbra Carvalhelhos - Figueira da Foz - Fábrica Aleluia Pérola do Bolhão - Porto - Fábrica de Cerâmica do Carvalhinho, Porto Fábricas Triunfo - Pedrulha, Coimbra Casa dos Parafusos - Lisboa - Fábrica Cerâmica Lusitânia Baetas, Irmãos - Miranda do Corvo - Fábrica Aleluia A Primorosa - Sines - Fábricas Cerâmica Lusitânia Goodyear - Santiago do Cacém Museu do Caramulo - Adiça, Tondela

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Intervenção Quebra Costas


Do Bairro Alto para o Mundo: a Casa do Impacto Santa Casa da Misericórdia

Há uma nova vida no velho Bairro Alto! Desde os anos 80 que é a zona mais conhecida da noite lisboeta, com inúmeros bares, restaurantes e casas de fado, frequentada por uma juventude sedenta de diversão e entretenimento e, mais recentemente, pela massa de turistas que desembarcou em Lisboa. No entanto, a par desta metamorfose noturna, continua a ser, durante o dia, um bairro tradicional tecido por relações familiares e de vizinhança e um ponto de encontro de diferentes culturas e gerações. Para albergar uma outra «vida» de Bairro, que se pretende construtiva, transformadora e sustentável, nasceu uma nova «Casa» para todos aqueles que pretendem trabalhar para melhorar a vida das pessoas e das comunidades. Chama-se «Casa do Impacto» e recebe fazedores de vários pontos do País e do Mundo que querem mudar a sociedade através de

iniciativas e projetos de empreendedorismo e inovação com impacto social. Estabeleceu-se em Outubro de 2018 no Convento de S. Pedro de Alcântara, um dos complexos arquitetónicos mais valiosos do ponto de vista histórico e classificado Conjunto de Interesse Público que integram o vasto património artístico-cultural da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). De planta em U, o Convento desenvolve-se em 3 corpos retangulares que ocupam todo o quarteirão delimitado entre a Rua de S. Pedro de Alcântara, Travessa de S. Pedro de Alcântara, Rua da Rosa e a Rua Luísa Todi. A riqueza artística da igreja e da Capela dos Lencastres, os azulejos, as escadarias, os corredores labirínticos e a aura histórica deste Convento do século XVII, convivem, com a criatividade, entusiasmo e dinamismo que caracterizam um moderno hub de empreendedorismo e inovação.

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por Gustavo Freitas


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Com 521 anos de existência, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa continua a afirmar-se como uma instituição de referência ao serviço da população da cidade de Lisboa e dos seus cidadãos mais vulneráveis, procurando continuamente inovar e adaptar-se às dinâmicas e mudanças sociais. A razão de ser da Casa do Impacto, criada através do Departamento de Empreendedorismo e Economia Social, é expandir o campo de atuação da SCML quer ao nível dos públicos a que dá resposta, quer ao nível dos modelos de intervenção e parcerias que estabelece com os vários agentes sociais e com a comunidade. A Casa do Impacto é uma (Santa) Casa em transformação, em ação e inovação, aberta à comunidade, para responder aos desafios contemporâneos como os que se encontram expressos nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas para 2030. “ A Casa do Impacto é um espaço de convergência entre empreendedores, instituições do terceiro setor, universidades, empresas, programas de aceleração, investidores e autarquias, onde se pretendia criar as condições necessárias para a colaboração e desenvolvimento de projetos com impacto social e ambiental” – explica Inês Sequeira, Diretora do Departamento de Empreendedorismo e Economia Social da SCML.

as suas ações e otimizando os resultados das propostas. Com uma política de portas abertas à Comunidade, a Casa do Impacto pretende promover o ecossistema de impacto em Portugal e para isso desenvolve uma série de eventos abertos ao público, como são exemplo as Thursdays with Impact, onde todas as quintas-feiras são debatidos em diferentes formatos os ODSs do mês da Casa do Impacto. Os encontros para a comunidade local e de impacto são promovidos pela Casa do Impacto e pelos Parceiros âncora: Academia de Código, SPEAK, IES – Social Business School e MAZE. São várias as iniciativas desenvolvidas pela Casa do Impacto que promovem a aproximação com a comunidade local e a transformação de culturas de sustentabilidade, como é exemplo o piloto do jogo colaborativo Agentes 2030, promovido pelas startups Spot Games e a Give & Take Lab, que vai desafiar os participantes, residentes da Casa do Impacto, a agir para a concretização dos ODSs e para a divulgação da Agenda 2030 das Nações Unidas em 5 sessões de trabalho, com o envolvimento da comunidade local onde se insere a Casa do Impacto.

*Casa do Impacto/Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

A Casa do Impacto acolhe atualmente 30 empresas e startups e conta com mais de 180 residentes e 200 visitantes mensais. Trabalha para ajudar os empreendedores e as empresas, através de quatro eixos de intervenção: Capacitação, onde dinamiza e promove programas de Aceleração para os vários estágios das organizações e workshops com o apoio dos seus parceiros; Incubação, com startups residentes, parceiros âncora e um espaço de co-work; Investimento, com um fundo filantrópico a ser lançado no segundo semestre de 2019 e Challenges ligados aos ODSs para startups de impacto; Avaliação de Impacto, transversal a todas

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Uma one stop shop para empreendedores de impacto que têm o objetivo de querer adicionar valor – social ou ambiental – ao meio que se inserem. “Esta nova geração de empreendedores acredita na eficácia e no potencial de escala dos modelos de negócio, mas também acredita que o empreendedorismo é uma ferramenta fundamental na resolução de problemas da sociedade que vivemos. Criam empresas que adotam de raiz uma missão social ou ambiental mas assumem uma for jurídica de uma empresa ou startup convencional.” – completa.


Temporada Música em São Roque – 31 anos por Filipe Carvalheiro*

Trinta e um anos parecem apenas um abrir e fechar de olhos no mundo da música clássica onde tudo é medido em séculos e porém, talvez não seja assim tão pouco tempo! Em trinta e um anos uma geração inteira de músicos nasce, é formada e começa a sua carreira; a oferta musical de uma cidade altera-se, os hábitos e expetativas do público também. Novas obras musicais são compostas ao mesmo tempo que tantas outras são descobertas em arquivos esquecidos e recuperadas para poderem ser executadas e escutadas no nosso tempo. A Temporada Música em São Roque começa, pela trigésima primeira vez consecutiva, no próximo dia 11 de Outubro e estende-se até dia 10 de Novembro. O programa inclui músicos veteranos e jovens talentos assim como obras antigas e estreias absolutas. Este é o segredo de uma temporada de concertos que se mantém viva, atual e rejuvenescida; movendo-se numa área musical frequentemente considerada aborrecida e elitista, a Temporada Música em São Roque tem conseguido atrair o interesse de público de todas as gerações oferecendo um programa abrangente que cativa os experimentados e os que querem vivenciar, em muitos casos pela primeira vez, uma experiência musical que desconhecem.

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Há trinta e um anos, quando a Temporada começou, a oferta de concertos de música clássica em Lisboa era mais restrita e seg-

Santa Casa da Misericórdia

mentada, e o público mais hermético – quem ouvia pop não ouvia clássica, etc. Hoje, um clique numa página da Internet permite escutar quase todos os tipos de música e o público, sobretudo a geração mais jovem, tem uma postura muito mais aberta na sua apreciação de diversos tipos de música. Mas a experiência de ouvir uma gravação de música com uns headphones é muito distante da de escutar um concerto tocado ao vivo num local especial. A Temporada Música em São Roque constituiu-se uma referência na divulgação da música clássica em locais emblemáticos do património edificado e a cargo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Estes locais – igrejas, conventos, museus – de rara beleza arquitetónica e carregados de história, oferecem uma oportunidade incomparável; uma experiência de apreciação musical palpável e humana. Esta é a experiência que pode ser vivida doze vezes no decurso da próxima edição da Temporada Música em São Roque. Com especial incidência na divulgação da música de compositores portugueses do passado e do presente, a edição deste ano oferece um programa variado que cobre cinco séculos de história da música. Toda a informação pode ser encontrada em http://mais.scml. pt/tmsr *Director Artístico da Temporada Música em São Roque


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By the Bar #ruadesãopaulo [89]

POR RODRIGO CABRAL


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Árvores de Lisboa por Ana Luísa Soares Ana Raquel Cunha

Em Itália chamam-lhe Portugaletto laranjeira-doce Citrus sinensis (L.) Osbeck ] Do género Citrus existem várias espécies como: Citrus aurantium L. (laranjeira-azeda), Citrus sinensis (L.) Osbeck (laranjeira-doce), Citrus deliciosa Ten. (tangerineira) e Citrus limon (L.) Burm. (limoeiro). Todas são cultivadas na região mediterrânica quer pelo seu valor ornamental quer pelos seus frutos comestíveis e pelos seus óleos essenciais extraídos de flores e frutos, muito utilizados na indústria de perfumaria.

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A laranjeira-doce tem origem no sul da China e a laranjeira-azeda no sul do Vietname. Apesar desta última já ser conhecida na Europa desde a Idade Média, só no início do século XVII é que há registos históricos do cultivo da laranjeira-doce pelos portugueses. Esta espécie passa a ser conhecida em diversas partes do mundo e, geralmente, com o seu nome vulgar associado a Portugal, como “Pourtegalié” (Nice), “Portugaletto” (Piemonte) e “Portugales” (Grécia). Como esta espécie é muito sensível à geada e difícil de cultivar no Norte da Europa, foram adotadas estratégias, nesta região, para a sua produção e utilização como planta ornamental nos jardins com a criação de estufas “Orangeries”. No verão as laranjeiras são deslocadas para o exterior e no inverno são recolhidas para a estufa.

A laranjeira-doce caracteriza-se por ser uma pequena árvore de folhas persistentes geralmente sem espinhos. Apresenta flores brancas e aromáticas. O fruto, a laranja, é rico em açúcares e ácido cítrico e ascórbico. O que diferencia a laranjeira-azeda é a presença de espinhos nos seus ramos e o facto do seu fruto ser de sabor amargo. Nos jardins, parques e algumas ruas de Lisboa podemos encontrar espécies deste género de destacar a laranjeira-doce e a laranjeira-azeda, que para além do seu valor estético emitem uma agradável fragância na época de floração. (Vasconcelos et al., 2017)

Referências: Vasconcelos, T.; Cunha, A. R.; Forte, P.; Soares, A. L. (2017). Levantamento Arbóreo dos Jardins e Parques Históricos de Lisboa. Lisboa: ISA Press [e-book, in press]. Azambuja, S. T., 2009. A Linguagem Simbólica da Natureza. Lisboa: Nova Vega Figura 1 - https://unsplash.com/photos/fS0stFN6AXI Figura 2 - https://unsplash.com/photos/7CM6bD-HHr8


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Um dia na vida dos novos mouros por Pedro Martins*

O Sol nasce em silêncio na Mouraria. O movimento humano do dia anterior desapareceu das ruas do bairro. Apenas o barulho dos pedreiros dá alguma vida à Calçada Agostinho de Carvalho. Até a Baitul Muqarram, a Casa Sagrada, o principal local de culto islâmico no bairro lisboeta, se encontra fechada. É o primeiro dia do Ramadão, o nono mês do calendário islâmico. Bangladeshis e guineenses mantêm-se em casa, ajoelhados nos seus tapetes de oração, enquanto preparam os seus corpos para o jejum ordenado pela sua fé. O dia será longo até a noite cair e o esforço chegar ao fim. O sino da Capela da Senhora da Saúde, no Martim Moniz, consegue ouvir-se destas ruas, como se os cristãos estivessem a anunciar a chegada do Mês Sagrado.

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A procura por presença humana obriga a uma subida até ao início da Rua dos Lagares, no final da Rua das Olarias. A cor da pele e a língua falada pelos transeuntes mostram-se diferentes: este é o interior da Mouraria, onde os alfacinhas ainda imperam. Estes moradores habitam no bairro lisboeta há várias gerações. O olhar desconfiado para os forasteiros (turistas incluídos) não é escondido. As portas abertas da Pastelaria Aviz surgem como um refúgio. Talvez a tradicional “bica” sirva de consolo. O proprietário encontra-se atrás do balcão, a servir os seus clientes. A familiaridade com a qual mostra a sua presença habitual. Alguns encontram-se ao balcão, apressados para partirem dali em direção aos seus trabalhos. A palavra mais repetida entre estes transeuntes é “vizinho”. Para os locais, esta é a sua casa. Todos se conhecem. As faces em volta têm algo mais em comum: a sua idade. Se o famoso romance de Cormac McCarthy se passasse nesta rua, chamar-se-ia “Este Bairro Não É Para Novos”. O percurso de retorno à Calçada Agostinho de Carvalho parece ser uma opção mais atrativa. Desta vez é melhor seguir pela Calçada da Rosa e pela Rua do Terreirinho, até à Rua

Carla Rosado

do Benformoso. As lojas e os supermercados detidos pela comunidade bangladeshi começam a abrir. Entre o esforço que o mês sagrado lhes impõe, Abdul Awal e Ibdul Hassan esboçam um sorriso para os transeuntes e um “bom dia” com um sotaque arranhado, sem largarem a entrada das suas lojas. Por entre a escuridão do caminho apertado consegue ver-se o antigo bastião indo-moçambicano da capital: a Praça do Martim Moniz, a nova Goa agora tomada pelos chineses. A azáfama de peões passa despercebida perante o edifício amarelo no leste da praça. Nem todas as obras arquitetónicas necessitam de primar pela beleza: para algumas a sua utilidade basta e o Centro Comercial da Mouraria (CCM) não foge a essa regra. É difícil passar pelo mar de carrinhos dirigidos à sua entrada. Mas difícil não significa impossível. Por entre andares apressados para dentro e fora do CCM, o caminho vai-se delineando pelo interior desse escuro labirinto, onde o cheiro a feltro se mistura com o aroma a caril, cardamomo e noz-moscada. Como num castelo em espiral, surgem lojas onde tudo se vende e todos os serviços são prestados. Guineenses, indianos, bangladeshis e chineses fazem os negócios percorrendo a mini-Rota de Seda que estas paredes resguardam. No andar inferior ao rés-do-chão surge o café de Keshu M. Karavrandra, onde este se encontra a servir samosas aos seus vizinhos de estabelecimento. Os alfacinhas torceriam o nariz a esta onda migrante. Mas é curioso o quanto o português, apagado da Mouraria pelo turismo, sobrevive aqui: por entre conversas privadas em mandarim, bengali, hindi e crioulo, é o idioma de Camões que estes novos mouros usam como língua franca.


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As horas passam por entre os copos de ginja. O final da tarde começa a aproximar-se e a caminhada até ao Largo Severa acaba por ser interrompida. No regresso ao Martim Moniz o movimento da Praça parece ter aumentado. É a hora de pausa para muitos dos trabalhadores do CCM. Sejam colegas ou apenas vizinhos de loja, estes vão-se reunindo e convivendo no exterior. Uma roda composta por algumas pessoas destaca-se entre os restantes. Embora todos tenham a mesma aparência, a indumentária assinala as suas diferenças. Uns usam o dastar, o turbante imposto pela sua religião sikh. Hindus envergam o tradicional panjabi enquanto os crentes na fé de Maomé usam o jubbah, a túnica islâmica. A acreditar na imprensa internacional, estas três comunidades estariam em conflito constante no Subcontinente Indiano de onde vieram. Os sorrisos e os gestos de brincadeira que expõem nesta praça lisboeta mostra algo diferente. Esta imagem positiva serve de motivação para continuar a caminhada pelo Martim Moniz a fora. O cair da tarde leva ao acender das lamparinas no Beco da Bobadela, à esquerda. O movimento começa a aumentar em volta do minimercado de Susana Zhu, na esquina, onde esta tenta chamar quem passa por ali. É o sinal da abertura do restaurante chinês clandestino, desejoso de atrair os

seus clientes. O caminho poderia ser desviado para esse lado, mas a procissão à direita obriga ao regresso à Rua do Benformoso. Homens de face negra e acastanhada dirigem-se a passos largos em direção ao ponto onde esta odisseia começara. As portas do Baytul Muqarram encontram-se abertas. Os crentes acorrem lá e repetem entre si a saudação “salam aleikum – aleikum salam”, que a paz esteja contigo. A sala de oração enche-se de fiéis ansiosos pela chegada de Abu Sayed, o imã. Por entre saudações sorridentes a todos os presentes, Sayed dirige-se ao espaço diante do altar. O relógio assinala as 20:36. É hora da reza de final de jejum. O início da ginástica “ajoelha e levanta” que acompanha as cerimónias de todas as religiões não está ausente deste templo. O imã proclama o nome de Deus ao qual os presentes respondem “-u akbar”, Deus é grande, enquanto o perfume das especiarias invade a sala. O biryani, prato do subcontinente indiano onde o arroz se mistura com o caril de borrego, borbulha nas panelas enquanto os novos mouros acabam de mostrar a sua devoção. O salat chega ao fim depois das 21 horas. É o momento destes seguidores do Profeta se reunirem para tomar a única refeição até ao nascer do Sol. Todos se sentam no chão e distribuem os pratos de biryani entre si. “Esta é uma das poucas alturas nas quais nos podemos reunir”, afirma um dos crentes guineenses residentes no bairro. Hasan Miah, bangladeshi tal como o seu imã e funcionário do local de oração senta-se junto do africano. “A fé não escolhe povos. Esta é a casa de Deus. Todos são bem-vindos” afirma com emoção. Sayed mantém-se em silêncio e limita-se a sorrir em concordância. O convívio mantém-se enquanto a noite cai e a Mouraria adormece e se prepara para a azáfama do próximo dia.

*Estudante de Jornalismo e Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

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Todos os castelos têm uma saída. A porta leste do CMM aponta para a Rua do Capelão. Do teor religioso já só lhe resta o nome, mas tal como a Rua do Benformoso, este caminho escuro leva à luz, ao Largo Severa. A tarde começa a chegar e o período pós-almoço pede algo mais. O cabeleireiro do jovem Nicki surge pela frente. Contudo, quem vem do Martim Moniz não anseia por um corte, mesmo quando é um jovem indiano quem o faz. A fragância a ginja e a imperiais torna-se impossível de resistir e magnetiza os transeuntes para a porta à esquerda, onde o António da Severa os recebe sem hesitações. Neste local de passagem todos são bem-vindos, mesmo os novos moradores da Mouraria. Embora a fé de muitos deles lhes proíba o consumo de álcool, o sentimento de vizinhança alastra-se a eles e impele-os a saudar quem se encontra à porta da tasca. Por entre aqueles que se atrevem a entrar nos Amigos da Severa surge Nuno Franco, colaborador da Associação Renovar a Mouraria (ARM). A sua família vive há três gerações no bairro. Conhece-o como ninguém. Entre saudações aos velhos e novos mouros, continua a ser notório o olhar desconfiado sobre os imigrantes por parte das gerações mais velhas. Estes mouros mais recentes trouxeram uma nova identidade ao bairro, mas o colaborador da ARM relembra que “muita gente não entende isso”.


A celebração da herança alimentar romana no Museu de Lisboa Teatro Romano por Carolina Grilo* A gastronomia romana é atualmente perscrutada com curiosidade e interesse, em boa parte associada ao prazer e à gula. Uma das imagens que imediatamente associamos à cozinha romana é a sumptuosidade e a abundância dos grandes repastos e banquetes imperiais, de grande pompa e circunstância, plenas de alimentos exóticos e excêntricos. Na realidade, apesar de também incorporar alimentos hoje considerados excêntricos e ausentes da nossa dieta alimentar, a gastronomia romana caracteriza-se mais pela frugalidade e austeridade e menos pelo exagero e abundância. Há, na cozinha romana, muito mais do que luxo e ostentação - há frugalidade e sabor, variedade e cor e, sobretudo, um aproveitamento regrado e profundamente eficaz dos recursos providenciados pelo meio. Na Roma Antiga, a base da dieta alimentar consistia nos cereais, nos produtos hortícolas, nos vegetais e nos frutos. A cevada, o trigo ou a espelta eram apenas algumas das gramíneas utilizadas na confeção do pão, alimento primordial na dieta romana, e na preparação da puls, um tipo de papa aquecida, simples ou enriquecida com vegetais. Os produtos hortícolas como as favas, as lentilhas, o alho, a cebola, a cenoura, o nabo, eram abundantemente utilizados crus ou em guisados e caldos, assim como as ervas aromáticas de variadas espécies. As frutas (Fig. 1), figos, romãs, laranjas, peras, maçãs, ameixas, uvas ou marmelos eram também consumidas e conjugadas em doces guarnecidos com mel ou frutos secos (tâmaras).

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Fig.1 - Fresco da casa Julia Felix em Pompeia, séc. I d.C. @ domínio público

Os produtos derivados tinham igualmente um papel fundamental na alimentação antiga: o leite e o queijo de ovelha, os ovos e o mel, a par com o vinho e o azeite, referências basilares da cultura mediterrânica. Já as carnes de criação e de caça eram, por norma, reservadas a uma fatia reduzida da população, mais abastada, consumindo-se diferentes espécies, entre as quais borrego, porco, javali, coelho, lebre, ganso, pato, pombo ou mesmo flamingo. Estes eram muitas vezes alimentados com especiarias e ervas para perfumar as carnes. Ao contrário da atualidade, os bovinos eram preteridos na alimentação e utilizados como animais de carga e tração ou para rituais religiosos. O peixe, os moluscos, os bivalves e os mariscos eram também muito apreciados, particularmente nas zonas costeiras e ribeirinhas, mas também consumidos a longa distância em produtos transformadas como os molhos e conservas de peixe, entre os quais o famoso garum, amplamente produzido nas orlas costeiras da Hispania – Lusitania e Baetica. Para a conservação dos alimentos o sal desempenhava um papel fundamental, estando presente na culinária romana em grande destaque, assim como em muitos outros aspetos da vida quotidiana. Aos soldados, por exemplo, era dada uma ração de sal como pagamento. Para disfarçar esta utilização em abundância, o recurso aos condimentos seria igualmente vital, com particular ênfase nas ervas aromáticas (funcho, anis, basílico, hortelã, poejo, cominhos, orégãos), sendo por isso, uma cozinha muito apurada, com profundas alterações ao sabor natural de determinados alimentos, e muito diferente das tendências atuais. Um outro aspeto da gastronomia romana, tão em voga atualmente, prende-se com a sustentabilidade. De facto, a maior parte dos recursos alimentares era produzida localmente ou em áreas próximas, com exceção dos cereais, deficitários mesmo no centro do império. Em função do crescimento e expansão do Império, vão sendo introduzidos e incorporados novos produtos, que, pelo seu sabor ou mesmo raridade, rapidamente se tornaram iguarias altamente apreciadas, de tal forma que quedaram imortalizadas nos textos antigos como sinónimos de prazer e, porque não de gula: os pêssegos da Arménia, os figos doces ou o azeite da Hispania, as tâmaras


das províncias do Norte de África… Um rol infindável de sabores exóticos, certamente distintos ao paladar tradicional de então. Nesta diversidade, outro elemento comum seria o aproveitamento quase integral das matérias-primas alimentares e a reciclagem dos seus derivados em tantas outras atividades, desde a confeção dos alimentos (gordura animal), aos cosméticos (óleos, unguentos), iluminação (cera de abelha, azeite), curtumes (peles), ou na produção de artefactos e objetos do quotidiano (objetos em osso - dados, cabos de facas, pequeno mobiliário ou brinquedos) demonstrando uma gestão consciente e otimizada dos recursos, refletida não apenas na alimentação como em tantos outros setores.

Finalmente, as fontes clássicas, acervos fundamentais para o estudo do legado gastronómico. Um vasto leque de textos, desde tratados técnicos como as obras De rustica de Marco Terêncio Varrão, a De agricultura de Catão, ou Columela, de cariz mais austero e frugal, onde são dadas indicações sobre a produção e gestão agrícolas e sobre os alimentos então consumidos, a escritos sobre a cultura da mesa com as descrições do luxo e opulência dos sumptuosos banquetes da alta sociedade romana, reportados por Petrónio, Juvenal, Marcial ou Columela, todos são importantes indicadores da cultura alimentar e da forma como se vivia e expressava a gastronomia antiga (Fig. 3).

O conhecimento sobre o legado gastronómico romano chegou até nós de diferentes formas, através da arte, da arqueologia ou dos textos e tratados antigos. A iconografia alimentar está expressa em mosaicos, nos frescos ou e em pinturas que retratam quer alguns dos alimentos consumidos, como a cultura da mesa e a forma como esta era vivida e celebrada. São vários os exemplos, desde as villae do interior da Lusitania (Fig. 2), passando por cidades como Pompeia, até às províncias mais setentrionais do império. Fig. 3 – Fragmento de mosaico com a representação de um symposium (banquete). Oriundo de Beirute, Líbano. Séc. III-V d.C. Aí se observam os restos de alimentos consumidos no decorrer do symposium no chão daquele espaço, observando-se em segundo plano o prato principal – as aves – a ser consumido. © Phoenix Ancient Art

Por outro lado, a arqueologia possibilita toda uma outra série de informação: as cerâmicas, os utensílios utilizados na preparação e serviço dos alimentos, as análises dos seus resíduos e dos restos alimentares (faunas) ou os estudos antropológicos das populações antigas que permitem conhecer com maior rigor a dieta alimentar de então. É deste modo que sabemos que a maioria das populações possuía uma dieta alimentar pouco calórica e diversificada, ou que houve espécies introduzidas em determinados locais do império.

Foi precisamente este espírito que serviu de inspiração à Lupercalia – Uma Ceia Romana, atividade do Museu de Lisboa – Teatro Romano que se desenvolve no mês de fevereiro. Como herdeiro de uma tradição antiga, o Museu de Lisboa – Teatro Romano tem como missão proporcionar e reintroduzir temas da cultura romana, através da sua divulgação e fruição pública. Celebrando esta festividade do calendário romano, o visitante é convi-

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Fig. 2 - Fragmento de mosaico com espadarte (ou peixe-agulha) de mosaico da villa do Montinho das Laranjeiras, Alcoutim. Calcário policromo e mármore. Finais do século I d.C. Museu Nacional de Arqueologia. © DDF/DGPC

Mas o texto mais famoso da gastronomia romana será porventura a compilação de receitas De Re coquinaria, de Marco Gávio Apício, um receituário sobre a cultura alimentar romana, as suas matérias-primas e modos de confeção e preparação, publicado em diversas línguas, que ano após ano vai sendo alvo de reedições e novas traduções, prova do crescente interesse e curiosidade sobre a alimentação e a experiência da mesa antigas. Também da sua leitura se depreende a gastronomia como sinónimo de comensalidade, reunião, convívio e sociabilidade – uma visão profundamente atual, que se manteve ao longo dos vários séculos que separam a sociedade atual e a romana.


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Fig. 4 - Lupercalia - Uma ceia Romana: cartaz, e menus das edições de 2018 e 2019 © Museu de Lisboa.

dado a participar, entre outras atividades, numa degustação gastronómica romana, recriada e readaptada ao paladar atual. Iniciada em 2018 e cujo sucesso atesta a sua continuidade, a Lupercalia – Uma Ceia Romana procura reintroduzir no presente os sabores da cultura antiga, numa viagem histórica plena de surpresas (Fig. 4).

o festival “Estes Romanos estão Loucos”, uma organização do museu que leva celebra a cultura latina na rua, nos dias 13, 14 e 15 oferecendo uma programação cultural intensa e diversificada, onde a gastronomia antiga também terá papel de destaque.

Além desta singular experiência, desde a reabertura do museu em setembro de 2015, que se promovem outras iniciativas relacionadas com a temática da cultura latina. Todos os meses, na última quinta-feira do mês, ocorre a “Hora de Baco”, um momento musical e de convívio, com degustação de vinhos, em que o museu abre as portas aos visitantes de forma livre e descontraída, procurando recuperar uma das funções dos espaços em redor dos antigos teatros romanos, como locais de comunhão e convívio. Em julho, nas ruínas do Teatro Romano de Lisboa decorre o Festival de Teatro Clássico, em que são levadas à cena produções teatrais num palco privilegiado da divulgação da cultura clássica e já em setembro, Lisboa é mais romana com

FAAS, P. (2005) - Around the Roman Table: Food and Feasting in Ancient Rome, University of Chicago Press.

Bibliografia:

FELDMAN, C. (2005) - “Roman Taste”, Food, Culture & Society. An International Journal of Multidisciplinary Research, 8 (1), pp. 7-30. ORNELLAS e CASTRO, I. (1997) - O livro de cozinha de Apício. Um breviário do gosto imperial romano, introdução, tradução e comentários, Lisboa, Colares Editora. TOUSSAINT-SAMAT, A. (2009) - A History of Food, John Wiley & Sons.

*Arqueóloga. Museu de Lisboa – Teatro Romano


A persistência de um ícone: três torreões à beira Tejo*

“O Lugar do Torreão – Imagem de Lisboa” era uma exposição temporária há muito desejada, que versa sobre o próprio edifício do Torreão Poente da Praça do Comércio. Estudar os edifícios dos museus é tão fundamental quanto relevantes são os imóveis onde eles se encontram instalados. Este núcleo do Museu de Lisboa localiza-se num dos mais icónicos edifícios lisboetas, sistematicamente usado como imagem de marca da cidade, juntamente com o Torreão Nascente da mesma praça, o Terreiro do Paço no seu todo (como teimosamente continuamos nós, os lisboetas, a chamar à Praça do Comércio), a Torre de Belém ou o Mosteiro dos Jerónimos. Sendo desnecessário sublinhar a importância do Terreiro do Paço e do Torreão para a malha urbana da cidade, é relevante lembrar que foi a Câmara Municipal de Lisboa, através do seu Pelouro da Cultura, que entendeu abrir este edifício à fruição pública, por meio da realização de exposições temporárias. Este gesto, só foi tornado possível a partir de 2013, após a desocupação do edifício pelos serviços do Ministério da Defesa que ali tinham parte das suas instalações.

José Avelar/ Museu de Lisboa

Comissariada pelo historiador da arte Doutor Nuno Senos, especialista no Paço da Ribeira e sua época, coadjuvado pela Doutora Joana Estorninho de Almeida, a presente exposição não é apenas a materialização da investigação sobre o edificado do Torreão Poente atual, mas sim a comunicação por via museográfica do estudo sobre três edifícios, três torreões: o manuelino, o filipino e o pombalino. Estes edifícios, de imensa relevância no panorama arquitetónico e urbanístico de Lisboa, sucederam-se no tempo e sensivelmente no mesmo lugar. A história tem início no tempo de D. Manuel, já no século XVI, quando o monarca decidiu abandonar o Castelo de São Jorge para passar a viver numa estrutura palaciana, o que viria a ser o primeiro palácio real que os reis construíram em Lisboa, depois de longa fase a ocupar edifícios acastelados, de cariz militar, para sua morada oficial. O famoso Paço da Ribeira recebeu um acrescento no seu limite a sul, já bem dentro das águas do rio Tejo: o torreão do Paço, com traça de Diogo de Arruda, que funcionava como uma “máquina de guerra que avança sobre o mar”, no dizer de Damião de Góis. Neste icónico edifício funcionava, no piso

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por Joana Sousa Monteiro


térreo, a Casa da Índia, grande armazém de bens oriundos das mais variadas paragens que constituíam o então império português. O salão cerimonial terá recebido uma decoração de cariz civilista, com motivos vegetalistas no emadeiramento do teto e azulejos a revestir as paredes, tal como a exposição pretende recriar. Este primeiro torreão foi decaindo e acabou por ruir. Filipe I de Portugal, ao invés de o ter tentado reconstruir, optou por mandar erguer um novo torreão, autónomo e imponente, ao gosto italianizante da época. Tornou-se este segundo torreão, num dos edificados mais destacados e sobejamente representados da malha urbana da frente de Lisboa sobre o rio. Após 1640, curiosamente, a opção de D. João IV foi manter o mesmo Torreão filipino, tendo o monarca da dinastia de Bragança ido habitar o Paço da Ribeira, como outrora, o qual apenas sucumbiu com o grande terramoto de 1755. O que sobreviveu à catástrofe natural foi destruído para dar lugar à construção do plano pombalino, tal como sucedeu em boa parte da Baixa. A nova Praça do Comércio devolveu a materialidade ao Torreão, o terceiro torreão, embora desta vez simetricamente duplicado no torreão nascente. O Torreão Poente onde se encontra a exposição foi, na verdade, a última parte da moderna Praça do Comércio a ser construída, se não contarmos com o remate do Arco da Rua Augusta, já bem entrado o século XIX, mais propriamente em cerca de 1843. A memória do torreão filipino, herdeiro do torreão manuelino, e a sua força simbólica tinham tal relevo que D. José I assistiu à inauguração da estátua equestre e apareceu a uma das varandas de um torreão de construção efémera, erguido, como cenário, apenas para o evento. A exposição integra, inclusivamente, um cadeirão onde o rei se terá sentado para assistir ao evento da estátua que, de algum modo, inaugurou todo o complexo da Praça do Comércio, mesmo que ainda que não terminado.

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Em alinhamento com o propósito do Marquês de Pombal, toda a ala poente da Praça do Comércio passou a estar ocupada com serviços das Secretarias de Estado e com estabelecimentos comerciais, administrativos e judiciais, sobretudo na sequência da Revolução Liberal e da promulgação da Constituição de 1822. Ao Torreão coube albergar a então Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, tendo-se mantido sede de serviços da administração militar do Estado até 2012.

No entretanto, serviu o Torreão de cenário para discursos de Oliveira Salazar da varanda, dirigindo-se à populaça concentrada na Praça do Comércio, com honras de transmissão radiofónica e televisiva. Até o próprio dia 25 de Abril incluiu um acontecimento passado no Torreão Poente: Salgueiro Maia, à frente da coluna de Santarém da Escola Prática de Cavalaria, ocupou o Terreiro do Paço com o intuito de derrubar o governo. Reunidos no Torreão Poente, alguns ministros e altos funcionários do então Ministério do Exército conseguiram fugir, atravessando o Torreão para os espaços do Ministério da Marinha, em direção à Rua do Arsenal. Contando com cerca de 70 peças, a exposição inclui inúmeros objetos do acervo do Museu de Lisboa, mas também peças de grande relevância provenientes de instituições parceiras, a quem estamos muito gratos, tais como a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, o Museu Nacional de Soares dos Reis, o Museu Carlos Machado, a Fundação Portuguesa das Comunicações, o Paço Ducal de Vila Viçosa, o Museu Militar, a Secretaria Geral do Ministério das Finanças, entre outros. A parte final da exposição é dedicada às exposições temporárias que o Museu de Lisboa tem promovido desde 2014 no piso 1 do edifício, devolvendo o Torreão Poente ao público e ali tratando de várias temáticas do passado e da contemporaneidade da cidade, com as exposições Maresias, Lisboa e o Tejo (1850-2014), A Luz de Lisboa, Uma História de Duas Cidades, Debaixo dos Nossos Pés – Pavimentos Históricos de Lisboa, e Futuros de Lisboa, paralelamente a outras exposições organizadas por outras entidades do Município de Lisboa e de instituições privadas no piso térreo do edifício. A exposição integra, ainda, desenhos e uma maquete relativos ao projeto de arquitetura para o processo de restauro e de readaptação do Torreão Poente a museu, futuro polo integrante do Museu de Lisboa após a realização das obras e a respetiva reabertura ao público. Enquanto parte do Museu de Lisboa, este extraordinário edifício será então tornado mais acessível a todos. Nele se continuarão a contar histórias de Lisboa, do seu passado, do seu presente e dos seus futuros. O privilégio é nosso. O encanto é para todos. *“O Lugar do Torreão – Imagem de Lisboa”


Lisboa e os seus arquitectos contados pelo Prémio Valmor por Filipe Jorge

Falar do Prémio Valmor de Arquitectura é sempre um excelente pretexto para olhar para a cidade de Lisboa e dar a conhecer os edifícios que ficaram na sua história como pontos de referência do seu crescimento ao longo de mais de um século. Instituído pelo Município, em 1897-1902, o Prémio Valmor distingue anualmente os edifícios de Lisboa e resulta da decisão do 2.º visconde de Valmor expressa no seu testamento. Fausto de Queiroz Guedes (1837-1898), 2.º Visconde de Valmor era um homem abastado, culto e viajado que conhecia as mais importantes cidades do seu tempo, como Paris e Viena de Áustria, onde tinha vivido e desempenhado cargos públicos e onde formara um gosto refinado pela arte e pela arquitectura que constituía o enquadramento dos elevados níveis de vida social e política que viveu nas últimas seis décadas do século XIX.

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O Visconde de Valmor decide então legar à Câmara Municipal de Lisboa uma quantia de 50 contos, que constituiria um fundo cujos rendimentos anuais permitiam atribuir, todos os anos, um prémio a conferir, em partes iguais, ao Proprietário e ao Arquitecto do mais belo edifício construído em Lisboa, fosse ele “casa nova ou restauração de edifício velho”. Esta sua decisão fomentou o investimento de proprietários na estética das edificações que assim passaram a contratar arquitectos de reconhecido mérito em alternativa aos mestres de obras. O testamento refere a intenção de proporcionar à cidade de Lisboa “um estilo digno de uma cidade civilizada”.


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Ed. Escritórios PV 1980

Igreja do Sagrado Coração de Jesus PV 1975


A figura do Visconde de Valmor foi reconhecida logo após a sua morte em várias obras de expressão artística e arte pública como são o retrato por José Malhoa nos Paços do Concelho, o busto de Teixeira Lopes no largo da Academia das Belas-Artes e o jazigo com projecto de Álvaro Machado na entrada do cemitério do Alto de São João. Todas elas ficaram referências na memória colectiva dos lisboetas. Em HISTÓRIA CRÍTICA DO PRÉMIO VALMOR, publicada no início de 2019, ilustrada com 150 imagens e redigida numa escrita acessível, fundamentada em prolongada investigação, o autor, José Manuel Pedreirinho, arquitecto e docente, doutorado pela Universidade de Sevilha, apresenta o resultado de mais de 30 anos de estudo do Prémio. O livro está estruturado em oito capítulos que ilustram os mais importantes aspectos que caracterizam o Prémio Valmor e que articulam as temáticas em que a sua história se insere, ao longo dos seus 117 anos de existência.

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No capítulo 1, Arquitecturas Premiadas, destaca-se a evolução dos gostos e das tendências, a referência às polémicas e reclamações da não atribuição do Prémio em alguns anos, ou a contestação que autores apontaram à omissão de certas obras à consideração dos júris e à distinção de outras, referindo-se, por exemplo, que, em 1932, de “600 projectos submetidos à Câmara Municipal de Lisboa, apenas 10 foram assinados por arquitectos”. No capítulo 2, Regulamentos e Manipulações, referem-se as alterações regulamentares que se sucederam por determinação da Câmara Municipal de Lisboa, criando-se o Prémio Municipal e o alargamento às tipologias de obras a premiar, ou os meandros da constituição dos júris e representatividade das instituições envolvidas nas decisões. Desde A evolução da cidade, onde se dá conhecimento da trajectória de desenvolvimento da cidade e dos instrumentos da sua gestão, a Da Cidade à Arquitectura, onde se sublinham momentos cruciais da expansão da cidade, os 3.º e 4.º capítulos observam como a disseminação da localização dos Prémios mais recentes evidencia o crescimento de novas áreas da cidade e de como os vários edifícios premiados confirmam o protagonismo dos bairros novos enquanto lugares de inegável qualidade do espaço urbano. No capítulo 5, O Prémio Valmor enquanto intervenção crítica, refere-se que o visconde de Valmor era “um dos 40 maiores proprietários da capital” relacionando factos políticos e culturais, quer sejam da expressão de vários estratos sociais, quer dos comentários dos membros dos júris, apontando também a importância do aumento do valor do Prémio, bem como a criação, por Duarte Pacheco, do novo Prémio Municipal de Arquitectura. No capítulo 6, Os Arquitectos e os Proprietários, o autor aborda o percurso das relações entre os dois grupos a quem o Prémio é dirigido, bem como a decorrente valorização e reconhecimento profissional que o Prémio promove. Refere também o momento, em finais dos anos 30, início dos anos 40, onde ocorre pela primeira vez a premiação de edifícios não habitacionais, como a igreja de Nossa Senhora de Fátima ou o edifício do Diário de Notícias. A importância política e económica do prémio é o capítulo onde o leitor fica a conhecer quanto o prestígio do Prémio contrasta com a sua decrescente compensação financeira (3.000 escudos em 1943 e 7.800 escudos em 1982). Também o quanto a importância dos ciclos políticos e a constituição dos júris influenciou os critérios de premiação.


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Finalmente, no capítulo O Prémio Valmor enquanto expressão do gosto, o autor evidencia o quanto a atribuição do Prémio é um reflexo dos gostos dominantes de cada época, identificando períodos distintos e as suas características próprias. Ao longo das páginas deste livro vai-se tornando cada vez mais claro e visível o percurso da Arquitectura e dos arquitectos deste último século, em contraste com a interpretação dos diversos pareceres dos júris que fizeram, com as suas escolhas, uma história que o autor avalia de uma forma crítica. No final do livro é apresentada a Lista Cronológica e completa de todos os prémios bem como de todas as menções honrosas atribuídas até 2016, ano a que se reporta a última distinção de edifícios premiados. O leitor poderá compreender o interesse que o Prémio Valmor sempre despertou, quer através das notícias públicas, quer pelo próprio prestígio com que se tem afirmado e consolidado numa série de edifícios que estão claramente entre os mais belos e significativos da nossa cidade. Uma Bibliografia com referência a 82 obras dedicadas à cidade, à sua evolução e desenvolvimento e à sua história urbana permitem aos leitores caminhar no estudo e investigação do processo de distinção da Arquitectura pelo prémio mais antigo do mundo.

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*Arquitecto, director editorial da ARGUMENTUM


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Ed Banco Lloyds PV 1988


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… a obsessão por um domínio absoluto por Vanessa Pires de Almeida

A ciência do arquitecto é ornada de muitas disciplinas e de vários saberes, estando a sua dinâmica presente em todas as obras oriundas das restantes artes. Vitruvius in De Architectura Libri Decem

Embora de grande utilidade à optimização de certos processos de produção, a limitação do conhecimento a um determinado ramo de actividade, ciência ou arte, como peça intercambiável numa linha de montagem, impede a consciência de uma realidade composta por inúmeras e relevantes variáveis. Há áreas onde só uma perspectiva holística deve imperar, construindo um corpo de conhecimentos e práticas, que viabilize a compreensão integral dos fenómenos, fundamentando análises, avaliações e decisões. Segundo Michel Toussaint, a arquitectura enfrentou a complexidade desse mundo e, logo desde Vitrúvio, concebeu modelos de complexidade que permitiram absorver a variabilidade dos conhecimentos e as suas sucessivas especializações. Conhecimentos estes necessários à construção desse vasto mundo, mas também à sua utilização e reconhecimento em processos relacionais que têm fecundado esses mesmos conhecimentos. (2012: 103) Toda a arte resulta da relação, indissociável, entre a prática, preparação contínua e exercitada da experiência (Vitrúvio apud Maciel: 1,1,1), e a teoria, aquilo que pode demonstrar e explicar as coisas trabalhadas proporcionalmente ao engenho e à racionalidade (Vitrúvio apud Maciel: 1,1,1).

É no permanente diálogo entre as vertentes experimental e conceptual, entre o significado e o significante, que o conhecimento científico opera. Embora a teoria possa ser adquirida por todos aqueles que procuram o saber, a prática é própria daqueles que, nas suas especialidades, ensaiaram e experienciaram. O conhecimento médio das partes não substitui as apuradas competências de um específico ramo disciplinar, mas confere-lhe uma nova perspectiva, uma nova lente que identifica, relaciona e hierarquiza os diferentes elementos, analisados multidisciplinarmente, que compõem os fenómenos. Assim, como disse Carlo Ginzburg, a um estatuto científico forte, com resultados de escasso relevo, é necessário contrapor um estatuto científico débil, que aspire a resultados relevantes. Na arquitectura, assim como em outras artes ou actividades humanas, o segredo está, muitas vezes, em saber-se um pouco sobre muito, ancorando-nos, sempre, naqueles que muito sabem sobre pouco.

Bibliografia Maciel, M. J. (2006). Vitrúvio, Tratado de Arquitectura. IST Press, Lisboa. Toussaint, M. (2012). Da Arquitectura à Teoria: Teoria da Arquitectura na Primeira Metade do Século XX. Caleidoscópio, Casal de Cambra.

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Especialização tornou-se na palavra de ordem de uma sociedade voltada, cada vez mais, para a optimização de processos.


Livraria da Travessa

A alma carioca no coração de Lisboa por João Moreira

“Olhe lá as andorinhas”, exclama Rui Campos, o mineiro de ascendência portuguesa, mais carioca do Brasil, mal nos sentámos numa esplanada do Miradouro de Santa Catarina, com o Tejo em frente e a luz de Lisboa a espraiar-se pela cidade.

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Rui está em Portugal para a inauguração da icónica Livraria da Travessa no Príncipe Real, a primeira fora do Brasil, 33 anos passados sobre a abertura da primeira loja no Rio de Janeiro, e conversou com a Bica sobre esta nova fase do projecto que começou a desenhar na cave de uma loja em Ipanema, sede da lendária Livraria Muro, sobre livros e livreiros e sobre a sua paixão por Portugal. Pelo meio, ainda houve tempo para falar do amor comum pelo Rio, do actual estado do Brasil, e para nos emocionarmos a ouvir “O Mundo é um Moinho”, do genial Cartola, a propósito de um romance de Arthur Dapieve.


Eu acho que o Brasil passou por uma fase de excelentes livrarias. No Brasil, você tinha livrarias de referência mundial. O que aconteceu, nos últimos tempos, foi uma coisa muito específica, de uma estratégia errada dessas grandes empresas brasileiras: a Saraiva e a Cultura. Um caso de herança mal gerida, uma coisa meio edipiana (risos). Nas duas empresas os filhos assumiram a herança paterna. Por exemplo, a Cultura, uma livraria de referência mundial, de repente, se transformou numa loja de departamento, querendo competir com as grandes lojas online. Isso resultou num crescimento muito acelerado, mas com muito pouca sustentabilidade, acabando surpreendidos pela terrível crise em que o modelo económico brasileiro desembocou com o governo Dilma, que foi trágico, com 3 anos consecutivos de PIB negativo. Foram casos muito particulares, porque, no Brasil, existem muitas empresas e livrarias como a Travessa que estão bastante saudáveis. Apesar da crise, as vendas de livros, no Brasil, mantêm-se em crescimento. No final do ano passado, houve uma queda de vendas, mas, por exemplo, o Natal foi uma época excelente para o livro. O mercado não está terrível, está como sempre foi, com altos e baixos, mas seguindo em frente. Falando da Travessa, eu comecei a trabalhar com livros, há 44 anos, na época da ditadura militar no Brasil, com o mercado editorial absolutamente comprimido e muito sofrido. Nessa altura, tinha uma pequena livraria, e a forma que usava para sobreviver, para ser diferente e atraente para os clientes, era utilizando o mercado editorial português. Desde essa época, que importávamos livros portugueses, que eram totalmente diferenciais, relacionados com as vanguardas artísticas e políticas e que eram completamente proibidos no Brasil. Aproveitei o crescimento de várias editoras que ainda hoje existem, como as Edições 70, a Presença, a Assírio e Alvim, porque sempre tive admiração pelo mercado editorial português, até porque sempre vim muito a Lisboa, de férias, etc.… Eu sou mineiro, de Belo Horizonte, Minas Gerais, que é um enclave português, no Brasil (risos). O mineiro tem o humor e a alma portuguesa. É fadista, saudoso, amoroso... é bastante português. Eu, aqui, posso passar por português por causa dessa minha cara bem portuguesa e desse queixo furado, que não nega as minhas origens (gargalhada). Por isso, essa ligação vem de longe, e

como acompanho o mercado português, e sempre o achei maravilhoso, desde sempre, que importo livros portugueses para o Brasil. Nas vindas mais recentes, começámos a assistir ao crescimento de Lisboa, como cidade cosmopolita e de turismo. Portugal está incrível, com uma infra-estrutura maravilhosa, cidades fantásticas, com várias características que os brasileiros apreciam muitíssimo. Eu tenho vindo muito a Lisboa, sempre pensando em incrementar a importação de livros portugueses para o Brasil. Portanto, a gente já tinha latente essa ideia de levar Portugal para o Brasil, e, de repente, surgiu a oportunidade de trazer o Brasil para Portugal, de trazer o Rio de Janeiro para Lisboa, através do convite que recebemos da Casa Pau-Brasil, essa multimarca brasileira que funciona no bairro do Príncipe Real, que tinha essa loja maravilhosa no térreo, rés-do-chão, como dizem aqui, que vislumbrei transformar numa livraria com as características das que temos no Rio de Janeiro, com um ambiente agradável, uma curadoria óptima e um espaço para lazer. Esse convite da Casa Pau-Brasil que parecia ser um pouco irreal, foi ganhando corpo, foi-se consolidando, e estamos aqui, com a loja aberta (sorriso rasgado). Mal consigo acreditar, porque a loja está fantástica, a receptividade é maravilhosa e o público e a imprensa têm sido muito simpáticos.

A Travessa já era uma referência para os portugueses que visitavam o Rio... É verdade. Diversos portugueses que lá entram, dizem: “Já conheço a Travessa no Rio, no Brasil, e estou muito feliz de ver que estão aqui”.

Na Travessa existe um cuidado muito particular com os pormenores: o espaço, a concepção das montras, a escolha do papel de embrulho, e, sobretudo, a figura do livreiro, pessoa que sugere obras, que descobre os livros que procuramos, que conhece as chancelas e as editoras. Tudo isso imprime um carácter muito especial às vossas livrarias. A estratégia da Travessa é montada num tripé: uma arquitetura espectacular, da arquitecta Bel Lobo, que é comum a todas as nossas lojas, e que trouxemos para cá; um atendimento por parte de livreiros de qualidade e categoria, para conversar e interpretar o desejo do cliente, visto que eles são um facilitador do encontro do leitor com o livro; e uma curadoria que ajude a interpretar o interesse do público da cidade e da região. A Travessa é uma livraria de livreiros que se juntaram: eu, com a minha experiência da Livraria Muro, o Roberto (Guedes), que era livreiro da Livraria Argumento, e a Ani-

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A Livraria da Travessa não só resistiu à crise do sector, que dizimou algumas das livrarias de referência do Brasil, como a Cultura e a Saraiva, como inaugura duas novas lojas este ano, em São Paulo e em Lisboa. A que se deve este sucesso?


ta, que também era livreira. Então, a Travessa resulta dessa união de livreiros. Por isso, só consigo imaginar que vá trabalhar na livraria alguém que seja, historicamente ou potencialmente, livreiro. A pessoa pode vir do mundo das artes plásticas, das artes cénicas, da advocacia, mas tem de ter vocação de livreiro. É muito interessante ser parado na rua por um cliente e ele falar: “Você é o Rui da Travessa?”, - “Ah, sim.”, “Olhe, adoro a sua livraria. Só compro livros com o António. Se o António não estiver, eu vou-me embora”. Isso acontece directo. Quanto a essa coisa dos pormenores, tem uma história engraçada que parece não ter nada a ver, mas tem tudo a ver (risos). Uma vez, estava fazendo sacolas de tecido para a Travessa e, aí, o meu filho mais velho que é músico, uma figura maravilhosa, um sujeito bacana demais, entrou no meu escritório, e aí eu falei: “Pedrinho, queria fazer uma sacola, botando uma mensagem legal.” E ele lançou: “Bota, vá à praia”. E assim foi. Já tem o quê, 15 anos, sei lá. Virou tradição na Travessa, essa sacola dizendo “Vá à praia”. Nada desse negócio de “Leia” ou “Vá ao teatro”. “Vá à praia”, e se quiser ler, leia. Para mim, a melhor coisa do mundo é ler na praia. Eu moro pertinho da praia, no Leblon, e Sábado, Domingo, dias em que não tem tanto trabalho, e está um dia legal, eu vou cedinho à praia, caminhar, alugo uma cadeira, dessas de praia, e vou ler. De repente, você está concentrado na leitura, e entra o som de um cara vendendo sorvete, ou Matte Leão... é bacana de mais.

Acha que a abertura da Livraria da Travessa, em Lisboa, fará com que os portugueses comecem a ler mais autores brasileiros? Na nossa primeira semana, já percebemos que o interesse do público pelos autores brasileiros é muito grande. Os nossos tops de venda têm sido de autores brasileiros e, sobretudo, de poesia. É incrível como Lisboa é a capital da poesia. O Eucanaã Ferraz veio fazer o evento de inauguração da livraria, e acabei por lhe dizer: “Ó Eucanaã, você aqui é tratado como um príncipe” (risos). Esse movimento, que Portugal tem em torno da poesia, é lindo. Aqui, em Lisboa, você vai da Praça Camões para a Rua Fernando Pessoa, e eu acho incrível como a cidade orbita em torno da poesia e dos poetas. É muito bonito isso.

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Não tiveram problemas com a importação de livros brasileiros, por causa dos direitos? Para nós, tudo está sendo um aprendizado. A questão da logística já está resolvida e fiquei bastante satisfeito. Conseguimos trazer, na primeira remessa, cerca de três mil

livros brasileiros. No início, isto vai acontecer semanalmente, vamos estar com muitas novidades, reposições, e estamos a tentar trazer algumas editoras. O público já demonstrou que quer autores e livros brasileiros. Então, a gente vai carregar a mão nisso aí. Mas, claro, nem tudo corre como pretendemos. Existe uma questão curiosa em relação aos direitos legais, que acaba por ser bastante paradoxal, num mundo globalizado como aquele em que vivemos. No comércio online conseguimos comprar qualquer coisa de qualquer lugar sem problema nenhum, mas se tiver uma loja física já não é assim. No nosso caso, estamos limitados na venda de livros publicados no Brasil, pois o editor precisa deter os direitos internacionais. Se nós temos um livro que foi publicado no Brasil e esse mesmo livro foi publicado em Portugal, nós conseguimos entender o sentido nisso, porque o editor português não quer ter a concorrência do livro publicado no Brasil. Mas se pensarmos para além dessa questão, a Travessa, da mesma maneira que está a trazer livros brasileiros para cá, também está a levar livros portugueses para o Brasil. Se essa restrição não existisse, eu poderia vender livros portugueses, que já têm a sua edição à venda no Brasil, mas que o público preferiria comprar a edição portuguesa. Isso acontece muito. Há gente que prefere uma determinada tradução e uma determinada grafia. O amante do livro é muito sistemático. Pode haver uma pessoa que prefere uma edição à outra, apenas pelo cheiro do livro ou pelo tipo do papel. O livro acaba por ser um objecto muito sensorial. É o caso da minha mulher, a Ana. O primeiro livro da Elena Ferrante que ela comprou foi quando a gente passou por Lisboa, há um ano. E ela adorou Ferrante, como todas as mulheres (risos). Quando saiu o segundo volume, liguei-lhe logo a avisar que estava acabando de receber o livro, e ela me disse: “Não traga, porque estamos indo a Lisboa, e quero comprar lá, porque eu quero aquela colecção da Relógio D’Água”. É curioso, porque ouvi uma pessoa, no outro dia, a dizer exactamente o contrário: “Eu só quero a publicação brasileira da Elena Ferrante”. Ela gostou da colecção que a Globo publica. E achei isso incrível, porque foram situações inversas, mas com o mesmo livro. É muito interessante. Se você for ao Brasil e quiser ler Italo Calvino, vai comprar “O Barão nas Árvores” e se vier a Lisboa, compra “O Barão Trepador”. O Sándor Márai tem um livro, que foi traduzido, no Brasil, com o nome, “As Brasas”, que acabou por ser um livro que fez muito sucesso. Já aqui, em Portugal, ele se chama “As velas ardem até ao fim”, e é o mesmo livro (gargalhada). Eu fotografo capas de livros portu-


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gueses com títulos curiosos. “O Apanhador no Campo de Centeio”, do Salinger, aqui tem um nome completamente diferente...

correrão numa sala de conferências, com uns 30 lugares, que existe no edifício, e que é perfeita para esse tipo de eventos.

“Uma Agulha no Palheiro”.

Quais são as expectativas aposta internacional?

Pois é (risos). Em inglês é the Rye”. Tem mais a ver lha no palheiro do que nhador no campo de

“The Catcher in com uma agucom um apacenteio (risos).

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O projecto da livraria passa por uma dinamização cultural do espaço? No Rio de Janeiro, temos mais de mil eventos anuais, sendo que 10% são produzidos e programados pela livraria. Os restantes são propostas que recebemos: noites de autógrafos, palestras, seminários, tertúlias. Aqui, em Lisboa, vamos ter uma programação própria, que concentrará, no espaço da livraria, os lançamentos de livros e as sessões de autógrafos, enquanto as tertúlias, as conferências e os debates, de-

desta

A expectativa é tentar corresponder a toda essa acolhida maravilhosa que a gente está tendo. Tentar trazer um pouco dessa interacção que a Travessa consegue ter, no Brasil, com o público, e que faz com que a gente ouça “A Travessa, adoro a livraria!”. Essa coisa de ser a livraria do bairro, a livraria da cidade. Essa coisa de fazer com que as pessoas sintam que aquele é um lugar gostoso de ir, gostoso de frequentar, gostoso de encontrar pessoas que gostam de livros, gostoso de trocar ideias. E se a gente conseguir vender alguns livros é bom também (risos). É a consequência.


Segredos de Lisboa

por Francisco Duarte Coelho

Visitas ao céu de Lisboa Este verão revelo mais um segredo e convido-vos a participarem nas noites do observatório. Esta é uma actividade que muitos desconhecem, permite a todos os apaixonados por astronomia cultivarem um pouco mais o seu gosto e terem uma experiência única de visitar o céu de lisboa. É uma actividade organizada pelo Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço em parceria com o Planetário Calouste Gulbenkian e para além das observações nocturnas com telescópio, inclui uma palestra dada por um investigador do instituto. Durante o ano esta actividade enquadra-se em eventos como a Noite Europeia dos Investigadores ou a Semana da Ciência e Tecnologia. Entrada gratuita Realiza-se no último sábado de cada mês

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Local: Planetário Calouste Gulbenkian


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Clรกssico

Cosmopolita

Alternativo

Hipster

Multicultural

LIS BO NAR O Nosso Guia de Lisboa

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Tradicional


Mapade

Lisboa COA

PR

SLM

AP

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ZR


AR

BXM

AV GM

CA

BCS

BC

ZR - Zona Ribeirinha AP - Alcântara | Pampulha COA - Campo de Ourique | Amoreiras SLM - Santos | Lapa | Madragoa PR - Príncipe Real BCS - Bica | Cais do Sodré BA - Bairro Alto AV - Avenida BC - Baixa Chiado CA - Castelo | Alfama GM - Graça | Mouraria AR - Almirante Reis BXM - Beato | Xabregas | Marvila FC - Fora do centro [131]

BA


CLÁSSICO GAMBRINUS | AV RESTAURANTE

O clássico dos clássicos. A melhor barra e o melhor serviço de Lisboa, que nos faz sentir príncipes ainda que apenas comamos um prego e uns magníficos croquetes com mostarda da casa. Se lhe apetecer algo fora da carta, peça, quem sabe poderá ser surpreendido. Todos os dias das 12h00 à 01h30 Rua das Portas de Santo Antão, 23 1150-264 Lisboa +351 213 421 466 www.gambrinuslisboa.com

PINÓQUIO | AV RESTAURANTE

As ameijoas esguicham água a quem passa demasiado junto ao aquário. O melhor é mesmo comê-las seguidas de um prego e imperial estupidamente gelada. Muito movimentado dada a sua localização turística e perto de teatros. Todos os dias das 12h00 às 00h00 Praça dos Restauradores, 79 1250-188 Lisboa +351 213 465 106 www.restaurantepinoquio.pt

XL | AP

RESTAURANTE Segunda e Terça das 20h00 à 00h00 Quarta e Quinta das 20h00 à 01h00 Sexta e Sábado das 20h00 às 02h00 Calçada da Estrela, 57 1200-661 Lisboa +351 213 956 118

COELHO DA ROCHA | COA RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Rua Coelho da Rocha, 104 1350-079 Lisboa +351 213 900 855 www.facebook.com/restaurantecoelhodarocha

O POLEIRO | FC RESTAURANTE

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Segunda a Sábado das 12h15 às 15h00 e das 19h15 às 23h00 Rua de Entrecampos, 30 A 1700 158 Lisboa +351 217 976 265 www.opoleiro.com

BAR SNOB | PR BAR

No Snob quase nada mudou. O bife continua bom e o cozido, às sextas, irrepreensível e o Sr. Albino cortês e atencioso como sempre. O quase é reservado ao famoso gelo à Snob, que era picado de grandes blocos e que deixou de existir para dar lugar ao gelo de máquina, mas nem esta pequena contrariedade retira vontade de nos perdermos noite fora em conversas bem regadas. Todos os dias das 16h00 às 03h00 Rua do Século, 178 1200-438 Lisboa +351 213 463 723 www.snobarestaurante.com

BAR PROCÓPIO | COA BAR

O mais antigo dos clássicos bares lisboetas voltou a estar na moda e ainda bem. Com o melhor barman da cidade, o Sr. Luís, sempre atento aos pormenores e um ambiente familiar, o bar de Alice Pinto Coelho por onde ainda é habitual passarem artistas das mais diversas áreas é o mais icónico da capital. Segunda a Sexta das 18h00 às 03h00 Sábado a partir das 21h00 Alto de São Francisco, 21 A 1250-096 Lisboa +351 213 852 851 www.barprocopio.com

PASTELARIA BÉNARD | BC PASTELARIA

Segunda a Sábado das 8h00 às 23h00 Rua Garrett, 104 1200-205 Lisboa +351 213 473 133 www.facebook.com/PastelariaBenard

CASA DE CHÁ DE STA. ISABEL VICENTINAS | SLM SALA DE CHÁ

Terça a Sexta das 11h30 às 19h00 Sábado e Domingo das 15h30 às 19h00 Rua de São Bento, 700 1250-096 Lisboa +351 917 422 749 www.casadecha.org

VELLAS DO LORETO | BCS LOJA

Segunda a Sexta das 09h00 às 19h00 Sábado das 09h00 às 13h00 Rua do Loreto, 53 1200-086 Lisboa +351 213 425 387 www.cazavellasloreto.com.pt


TRADICIONAL RESTAURANTE

Sardinhas e muito mais, num restaurante que ocupa um delicioso larguinho de Alfama, onde locais e turistas convivem alegremente. Perfeito para as noites quentes de verão. Terça a Domingo das 11h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Calçadinha de Santo Estêvão, 13 1100-502 Lisboa +351 218 882 325 www.facebook.com/PATEO13

DAS FLORES | BCS RESTAURANTE

Um dos segredos mais bem guardados da cidade. Só serve almoços e a espera é, normalmente, prolongada, mas nada que um dos melhores croquetes de Lisboa e uma imperial bebida ao balcão ou mesmo na calçada não resolvam, porque depois tudo vale a pena. Às sextas o bacalhau com grão é irrepreensível. De Segunda a Sábado das 12h00 às 15h30 Rua das Flores, 76/78 1200-213 Lisboa +351 213 428 828

FIDALGO | BXM RESTAURANTE A sugestão deveria ser divagar pelos pratos clássicos da gastronomia portuguesa, mas, para além desses, provem, caso haja, o polvo com feijão, com um pouco de picante, uma receita da casa capaz de deitar abaixo uma garrafa de bom vinho tinto. Segunda a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Rua da Barroca, 27 1200-047 Lisboa +351 213 422 900 www.restaurantefidalgo.com

SINAL VERMELHO | BA RESTAURANTE

O melhor da cozinha portuguesa em pleno Bairro Alto. Sempre cheio com ambiente descontraído. Segunda das 19h00 às 00h00 Terça a Sexta das 12h30 às 00h30 Sábado das 19h00 às 00h30 Rua das Gáveas, 89 1200-206 Lisboa +351 213 461 252/+351 213 431 281 www.facebook.com/RestauranteSinalVermelho

A VIDA PORTUGUESA | AR LOJA

Qualquer uma das lojas é um antro de bom gosto e perdição, mas a do Intendente é só uma das mais belas lojas de Lisboa. Tudo é português e ficaria sempre tão bem em nossa casa. Sabonetes Ach Brito e Claus, faiança Bordallo, Cadernos Emílio Braga e tantos outros produtos ignorados durante anos até que esta maravilhosa loja os ressuscitou. Mais que uma loja isto é verdadeiro serviço público. Loja Chiado: Todos os dias das 10h30 às 19h30 Largo do Intendente Pina Manique, 23 1100-285 Lisboa +351 211 974 512 lojaintendente@avidaportuguesa.com

MESA DE FRADES | CA CASA DE FADOS

O melhor do fado genuíno, numa belíssima antiga capela de Alfama. Segunda a Sábado das 20h00 às 02h30 Rua dos Remédios, 139 A 1100-445 Lisboa +351 917 029 436 www.facebook.com/mesadefradeslisboa

CONSERVEIRA DE LISBOA | CA LOJA

Há uma pequena loja no Mercado da Ribeira, mas não é comparável à experiência da loja original onde nos podemos perder no aconselhamento entre sardinha e cavalas, em limão ou tomate picante, todas dentro de embalagens tão deliciosamente vintage como é delicioso o seu conteúdo. Uma instituição. Segunda a Sábado das 09h00 às 19h00 Rua dos Bacalhoeiros, 34 1100-071 Lisboa +351 218 864 009 www.conserveiradelisboa.pt

CANTINHO DAS GÁVEAS | BA RESTAURANTE

Cozinha portuguesa honesta, num Bairro Alto cada vez mais cheio de restaurantes feitos a pensar nos turistas. A esplanada convida a prolongar o jantar enquanto o bairro começa a encher. Rua das Gáveas, 82 1200-073 Lisboa +351 213 426 460

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PÁTEO 13 | CA


COSMOPOLITA PAP’AÇORDA | BCS RESTAURANTE

Se as paredes da sua anterior localização no Bairro Alto falassem, ficaríamos a saber a história da Lisboa sofisticada dos últimos 30 anos. Agora no Mercado da Ribeira, continua a servir deliciosa comida portuguesa, sendo imperdíveis os fritos, que evitamos noutros lugares, em particular os peixes, sejam jaquinzinhos, ou sável acompanhado de açorda de ovas. Ainda é um lugar para ver e ser visto. Segunda- encerrado Domingo a Quarta das 12h00 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h00 às 02h00 Mercado da Ribeira, 49 - 1º Andar 1200-479 Lisboa +351 213 464 811 www.papacorda.com

COMIDA INDEPENDENTE | BCS MERCEARIA/RESTAURANTE

Terça e Quarta das 12h00 às 20h00 Quanta a Domingo das 12h00 às 22h00 Rua Cais do Tojo, 28 1200-649 Lisboa +351 213 951 762 www.comidaindependente.pt

CINCO LOUNGE | PR BAR

Lisboa não tinha tradição de cocktails ou bares dos mesmos. Não tinha, até abrir o Cinco que lentamente conquistou a cidade e se tornou a referência cocketeleira. A dificuldade será escolher o que lhe apetece por entre a enorme lista. O melhor é pedir uma sugestão e deixar-se ir. Segunda a Domingo das 21h00 às 02h00 Rua Ruben A Leitão, 17 A 1200-392 Lisboa +352 914 668 242 www.cincolounge.com

EMBAIXADA | PR LOJA

Um ambiente neo-árabe transformado numa espécie de centro comercial com lojas, muitas de criadores portugueses, ocupando as salas do antigo palácio. Com direito a restaurantes nos jardins, exposições no primeiro piso e um bar de gin. Aqui, vir de compras é em bom. Segunda a Sábado das 11h00 às 02h00 Domingo das 14h00 às 02h00 Praça do Príncipe Real, 26 1250-184 Lisboa +351 965 309 154 www.embaixadalx.pt

BY THE WINE | BCS

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RESTAURANTE/WINE BAR Segunda das 18h00 às 00h00 Terça a Domingo das 12h00 às 00h00 Rua das Flores, 41/43 1200-014 Lisboa +351 213 420 319 www.jmf.pt

LUX-FRÁGIL | ZR BAR

“A” discoteca de Lisboa, que seria fantástica em qualquer parte do mundo, mas que aqui ainda acrescenta um nascer do sol como não há. Quinta a Sábado das 23h00 às 06h00 Avenida Infante Dom Henrique, Armazém A, Cais da Pedra a Stª Apolónia 1950-376 Lisboa +351 218 820 890 www.luxfragil.com

RIO MARAVILHA | ZR RESTAURANTE/BAR

Decoração mais que cool e uma vista impressionante sobre o Tejo, via Alcântara. Ao jantar será difícil encontrar mesa, mas ao almoço é um paraíso para se deliciar com a excelente cozinha, o conceito bem descolado e a vista. À noite vira bar com boa onda. Terça a Quinta das 12h030 às 02h00 Sexta e Sábado das 12h30 às 03h00 Domingo das 12h00 às 00h00 Rua Rodrigues Faria, 103 1300-501 Lisboa +351 966 028 229 www.riomaravilha.pt

MINI BAR | BC RESTAURANTE

Há quem lhe chame o Belcanto dos remediados. A verdade é que herdou alguns pratos do restaurante Michelin, mas acima de tudo tem das ementas mais divertidas da cidade, inspirada numa peça de teatro em vários actos, e comida magnífica e surpreendente. Não perca o “Ferrero rocher, parece que é, mas não é!”. Segunda a Domingo das 19h00 às 02h00 Rua António Maria Cardoso, 58 1200-027 Lisboa + 351 211 305 393 www.minipabar.pt

ROOFTOP BAR HOTEL MUNDIAL | AR BAR

Vista e mais vista. Até lá chegar tem de cruzar o já vetusto Hotel Mundial e subir até não mais poder. Aí, de fronte ao Castelo de São Jorge, peça um cocktail, olhe em volta, esqueça o Martim Moniz e pense em como Lisboa é bonita e na pena que foi durante tantos anos não existirem rooftops na cidade. Verão: das 18h00 às 00h30 Inverno: das 17h30 às 23h30 Encerra às Segundas-feiras Praça Martim Moniz, 2 1100-341 Lisboa +351 218 842 000 www.hotel-mundial.pt


HIPSTER QUIOSQUE DO OLIVEIRA | PR

ANJOS 70 | FC

QUIOSQUE PRÍNCIPE REAL

CAFÉ/GALERIA DE ARTE

Ponto de encontro de fim de tarde ou princípio de noite para a fauna do Príncipe Real e Bairro Alto. Espere um ambiente muito cool misturado com turistas.

Nunca se sabe o que poderá estar a acontecer neste espaço. Aulas de flamenco, yoga, capoeira ou ginástica, noites de fado, workshops de colagem, bailes de forró, ou festas de música electrónica. Um espaço único em Lisboa.

Todos os dias das 07h00 às 21h00 Praça do Príncipe Real 1250-301 Lisboa +351 213 428 334

LOUNGE | BCS

Segunda das 17h00 às 23h00 Quarta a Sexta das 17h00 às 23h00 Sábado e Domingo das 15h00 às 23h00 Regueirão Dos Anjos, 70 1150-011 Lisboa www.anjos70.org

BAR

Sempre óptima música em bom ambiente e com um horário de fecho bem conveniente (4h00). O melhor prolongamento da noite do Bairro Alto ou Cais do Sodré, antes de decidir se a noite é para ir até ao fim.

SKY WALKER | BA

Segunda a Domingo das 22h00 às 04h00 Rua da Moeda, 1 - Porta O/P 1200-275 Lisboa +351 213 973 730 www.loungelisboa.com.pt/blog

Segunda a Sábado das 10h00 às 21h00 Domingo das 14h00 às 20h00 Rua do Norte, 12 1200-286 Lisboa +351 213 461 048 www.facebook.com/Skywalkerlx

TABACARIA | BCS BAR

Um pequeno bar numa antiga tabacaria, com excelentes bebidas preparadas a preceito. Os clientes espalham-se em volta da esquina e o cenário parece ter sido montado para uma filmagem. Onda cool e boa música. Segunda a Quinta e Domingo das 18h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 03h00 Rua de São Paulo, 75/77 1200-426 Lisboa +351 211 521 550 www.a-tabacaria.negocio.site

TABERNÁCULO | BCS BAR

Todos os dias das 14h00 às 02h00 Rua de São Paulo, 218 1200-109 Lisboa +351 213 470 216 www.facebook.com/tabernaculobyhernani

HELLO KRISTOF | BCS CAFETARIA RESTAURANTE Terça a Sexta das 09h00 às 06h00 Rua do Poço dos Negros, 103 1200-337 Lisboa +351 917 282 505 www.hellokristof.com

LOJA

Mochilas, ténis e roupa para se poder sentir verdadeiramente hipster.

O BOM O MAU E O VILÃO | BCS BAR

Uma casa de copos e cultura. Uma casa, porque de um apartamento se trata, transmitindo por isso mesmo um ambiente caseiro, de copos porque tem bares bem servidos, de cultura porque para além do piano muitas vezes utilizado, é variada a programação que vai do cinema à música. Segunda a Quinta das 19h00 às 02h00 Sexta a Domingo da 19h00 às 03h00 Rua do Alecrim, 21 1200-014 Lisboa +351 964 531 423 www.facebook.com/obomomaueovilao

FÁBRICA MUSA | BXM BAR

Terça das 16h00 às 00h00 Quarta das 17h00 às 00h00 Quintas das 20h00 às 00h00 Sexta das 18h00 às 02h00 Sábado das 13h00 às 02h00 Domingo das 13h00 às 22h00 Rua do Açúcar, 83 1950-006 Lisboa +351 213 877 777

SBSR.FM RÁDIO

RÁDIO

www.radarlisboa.fm

A rádio da Super Bock chegou inundada pelos melhores sons indie. Ainda nascem rádios no século XXI. E ainda bem. www.sbsr.fm

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RADAR.FM | ZR


ALTERNATIVO DAMAS | GM

BAR/SALA DE CONCERTOS Uma sala de concertos que é um bar e um (bom) restaurante. O lugar para onde se deslocaram os desiludidos com a transformação comercial e turística do Bairro Alto. A melhor programação alternativa da cidade. Terça das 12h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 18h00 às 02h00 Sexta das 18h00 às 04h00 Sábado das 12h00 às 04h00 Domingo das 18h00 às 00h00 Rua da Voz do Operário, 60 1100-621 Lisboa +351 964 964 416 www.facebook.com/DAMASLISBOA/

MIRADOURO DO ADAMASTOR | BCS ESPLANADA

O mítico Adamastor, onde o por do sol é mais bonito, o quiosque serve bebidas e tostas a preços para portugueses e o cheiro de substâncias ilícitas envolve um ambiente descontraído onde se cruzam músicos de rua, turistas e lisboetas. Era assim até a Câmara Municipal o encerrar a ameaçar enjaulá-lo. Segunda a Domingo das 10h00 às 04h00 Miradouro de Rua de Santa Catarina 1200-109 Lisboa +351 213 430 582

49 | BA BAR

CINEMA IDEAL | BCS CINEMA

Quando os cinemas de rua fecharam, abriu o Ideal, com programação alternativa e cuidada. Rua do Loreto, 15 1200-086 Lisboa +351 210 998 295 www.cinemaideal.pt

Quarta e Quinta das 22h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 22h00 às 03h00 Rua da Barroca, 49 1200-043 Lisboa +351 213 430 205

FINALMENTE | PR

INCÓGNITO | BC

BAR

O bar gay mais antigo da cidade, por onde passou meia Lisboa nos tempos em que a noite a n que mantém um show de travestis em periodicidade diária. Para uma noite realmente diferente. Vá numa segunda-feira quando a noite parece morta e divirta-se com as audições do “lugar às novas”. Segunda a Domingo das 00h00 às 06h00 Rua de Palmeiras, 38 1200-313 Lisboa +351 213 479 923 info@finalmenteclub.com www.finalmenteclub.com

CASA INDEPENDENTE | AR BAR

Não é um bar, não é uma sala de espectáculos, não é uma associação cultural. É um pouco disto tudo e um dos grandes responsáveis pela revitalização do Largo do Intendente. Um terraço perfeito para uma noite de verão e uma boa programação musical. Terça a Quinta das 17h00 às 00h00 Sexta e Sábado das 17h00 às 02h00 Largo do Intendente, 45 1100-285 Lisboa +351 218 872 842 www.casaindependente.com

VODAFONE FM www.vodafone.fm

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Também conhecido como o bar debaixo da Zé dos Bois, instituição da cultura alternativa lisboeta. Bons DJ’s e um ambiente bem descontraído onde se cruzam faunas bem diferentes em amena convivência.

BAR

Simplesmente a melhor música de Lisboa, para quem gosta de indie pop-rock. Mesmo com espaço à cunha, podemos dançar como se não houvesse amanhã ao som de Smiths, The Strokes ou Arcade Fire. Quarta a Sábado das 23h00 às 04h00 Rua Poiais de São Bento, 37 1200-346 Lisboa +351 213 908 755 www.facebook.com/incognitomusicbar

BAIRRUS BODEGA | BA BAR

Terça a Quinta das 22h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 22h00 às 03h00 Rua da Barroca, 3 1200-047 Lisboa +351 213 469 060

COZINHA POPULAR DA MOURARIA | GM RESTAUNRANTE Segunda e Terça: aberto 24 horas Quarta a Sábado das 10h00 às 23h30 Rua das Olarias, 5 1100-012 Lisboa +351 926 520 568 www.facebook.com/CozinhaPopularDaMouraria


MULTICULTURAL RESTAURANTE

Não espere pizzas nem massas com ananás. Aqui a comida é italiana de Itália, verdadeira cuccina della mamma. Não perca a massa com bróculos e o melhor tiramisu de Lisboa. Segunda a Quinta das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 00h00 Sexta e Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 à 01h00 Rua de São Julião, 74/76 1100-526 Lisboa +351 210 935 708 www.cantinabellaciao.wixsite.com/bellaciao

PISTOLA Y CORAZÓN | BCS RESTAURANTE

Vá cedo, ou prepare-se para esperar. Aqui não há reservas, mas margaritas gulosas que não se consegue parar de beber. E tacos, muitos e variados, num ambiente animado e ruidoso. Almoço: Terça a Sexta das 12h00 às 15h00 Jantar: Segunda a Domingo das 18h00 às 00h00 Almoço: Domingo das 12h00 às 15h00 Rua da Boavista, 16 1200-427 Lisboa +351 213 420 482 www.pistolaycorazon.com

CAXEMIRA | BC RESTAURANTE

O melhor indiano de Lisboa, por isso sempre cheio. Não se assuste com a entrada, suba ao primeiro andar, não perca as chamuças e vá provando os pratos. Sim, porque vai voltar várias vezes. Segunda a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 18h30 às 22h00 Rua Condes de Monsanto, 4 1100 Lisboa +351 218 865 486/+351 218 874 791

CAFEH TEHRAN | PR RESTAURANTE

Todos os dias das 12h00 às 00h00 Terça - Encerrado Praça das Flores, 40 1200-192 Lisboa +351 210 736 530 www.facebook.com/CafehTehran

TANTURA | BC RESTAURANTE

Terça a Domingo das 18h30 às 20h00 Rua do Trombeta, 1D Bairro Alto 1200-471 Lisboa +351 218 096 035 www.tantura.pt

CASA PAU-BRASIL | PR LOJA

Uma casa apalaçada transformada numa das mais bonitas lojas de Lisboa. Percorrendo as divisões da casa vamos encontrando algumas das melhores marcas brasileiras, desde as “perfumadas” Granado e Phebo às roupas chic-descontraídas da Osklen, passando por chocolates e bikinis. Uma grande parte da casa é preenchida pela Quarto e Sala que oferece o melhor do design de mobiliário do Brasil. Segunda a Sábado das 11h00 às 20h00 Domingo das 11h00 às 18h00 Rua da Escola Politécnica, 42 1250-096 Lisboa +351 213 420 954 www.facebook.com/casapaubrasil.official

LIVRARIA TRAVESSA | PR LIVRARIA

Todos os dias das 10h00 às 22h00 Rua da Escola Politécnica, 46 1250-096 Lisboa +351 213 460 553 www.facebook.com/LivrariaDaTravessaLisboa

EL ÚLTIMO TANGO | BA RESTAURANTE

Um dos melhores bifes de Lisboa, de carne argentina, grelhado, acompanhados de batata assada com manteiga de ervas e salada de agrião. Tudo em ambiente calmo, para fumadores e com o melhor tango do mundo como banda sonora. Segunda a Quinta das 19h30 às 23h00 Sexta e Sábado das 19h30 às 23h30 Rua do Diário de Notícias, 62 1200-145 Lisboa +351 213 420 341

TEMPLO HINDU | FC RESTAURANTE

Segunda a Domingo das 12h30 às 14h30 e das 19h00 às 21h30 Alameda Mahatma Gandhi, 14 A Complexo Comunidade Hindu 1600-502 Lisboa +351 217 524 982

DONA BEIJA | FC RESTAURANTE

Terça a Quinta das 12h00 às 15h00 e das 18h00 às 00h00 Sexta das 12h00 às 15h00 e das 18h00 à 01h00 Sábado das 12h00 à 01h00 Domingo das 12h30 às 16h30 e das 18h00 às 23h00 Avenida Duque de Loulé, 22 B 1050-085 Lisboa +351 213 570 135 www.donabeija.pt

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BELLA CIAO | BC


Ana Pérez-Quiroga Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade

Passadiço de praia Passadiço de praia, ao fundo os toldes com saias e barracas de lona às riscas, típicas das praias do norte.

Torre do Relógio Torre do Relógio, situada na marginal, em frente da esplanada Silva Guimarães, foi inaugurada em 1947. Dos seus altifalantes era transmitido música ligeira a qual foi acompanhando os banhistas durante décadas.

Palácio Sotto Maior

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Palácio Sotto Maior foi mandado construir por Joaquim Sotto Maior em 1900, para residência de família. Projeto do Arq. Gaston Landeck, em estilo Beaux-Arts, onde se conjugam elementos neoclássicos, góticos e renascentistas. No seu interior destaque para a pintura mural de António Ramalho e de Dórdio Gomes, que copiou muitas das obras primas da pintura europeia do Museu do Louvre. Na propriedade situa-se ainda uma cavalariça e dormitório de empregados em estilo neoclássico e uma torre-mirante de estilo neomanuelino, todo este conjunto está rodeado por um jardim romântico. O Palácio pertence a sociedade que detêm o Casino, desde 1967 e está aberto ao público desde 1980.


Figueira da Foz

Sala de arqueologia Museu Santos Rocha Sala de arqueologia do Museu Municipal Santos Rocha. Foi fundado em 1894 por António Santos Rocha para acolher os diversos achados arqueológicos recolhidos nas diversa campanhas realizados por si e seus colaboradores. O museu integra outros núcleos: armaria, arte religiosa, numismática, mobiliário Indo-Português, entre outros.

Dóris Dóris, barcos de um só homem que pertencem ao bacalhoeiro Sotto Maior, a visitar no Núcleo Museológico do Mar. Este museu promove a valorização e divulgação etnográfica das práticas piscatórias, nomeadamente a da pesca do bacalhau na Terra Nova.

Salinas

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Núcleo Museológico do Sal, situado em Lavos na Salina Municipal do Corredor da Cobra, tem com missão a promoção da atividade artesanal salineira.


Conjunto castelo Eng. Silva Conjunto edificado do Castelo Eng. Silva, edifício do antigo Turismo e a Casa das Concha, construído em épocas distintas, que marcam o gosto da segunda metade do séc. XIX e principio do Séc. XX.

Tennis Club O Tennis Club inaugurado em 1917 com o desígnio de organizar jogos de ténis, jogos de mesa e também as festas de uma sociedade seleta na época balnear. Nos anos 70, englobava uma seção de vela, organizava um torneio de bridge e um concurso hípico nacional. Hoje mantém uma seção de ténis com 4 campos e de padel com 3 campos.

O Casino

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O Casino inaugurado em 1884 é o mais antigo da Península Ibérica. Havia no final do séc XIX seis casinos na Figueira, o que demostra o fulgor de uma população cosmopolita vinda de diversa partes da Europa. No local onde hoje existe o atual Casino houve uma sala de espetáculos que era a maior de Portugal até à construção do Coliseu dos Recreios em Lisboa.


Mercado Municipal O Mercado Municipal Eng. Silva foi inaugurado em 24 de junho de 1892, no dia de São João, Padroeiro da cidade. É um exemplo da “arquitetura de ferro” visíveis no núcleo central e nas palas das três entradas e claraboias que permitem uma luz zenital. Nas bancas, o destaque vai para o peixe fresco e para os legumes produzidos pelos próprios vendedores. As bancas de flores propiciam um agradável aroma ao espaço.

Serra da Boa Viagem Serra da Boa Viagem, classificada como Monumento Natural Nacional, a sua vegetação é constituída maioritariamente por Pinheiro-Bravo, Cipreste-português, Tojo e Urze ente outros. Tem 261,88 metros de altitude. Deve-se a Manuel Alberto Rei, que entre 1911 e 1924, supervisionou a sua florestação.

Farol do Cabo Mondego

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Farol do Cabo Mondego, construído em 1858, tem 15m de altura, o alcance da luz e de 25 minhas náuticas. Todos os faróis nacionais são visitáveis às quartas-feiras.


Figueira da Foz

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“A mais linda praia de banhos de Portugal” na opinião de Ramalho Ortigão que eu subscrevo. Depois de anos entristecida com o imenso areal que se formou devido à construção do porto, hoje disfruto com a vastidão dos passadiços para chegar ao mar, das dunas e da sua vegetação que vai crescendo. Mas a Figueira é muito mais do que praia, é a cidade cosmopolita que sempre foi desde o séc. XIX e é um reduto para fugir ao calor e as multidões de verão.


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eu&tu por Francisco Mallmann

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você me disse virando a esquina que os inimigos estão em todo lugar porque eles estão antes dentro sua voz anunciou “é no interior a primeira guerra” foi assim entendi que o campo de batalha sou eu perseguindo a velha imagem de anciã armada onde é que conseguiremos descansar a cabeça descalçar a dor dos pés desfazer as amarrações do peito deslembrar o vermelho sangue eu também estou furiosa mas porque hoje te beijei a boca a luta entrou em pausa só para depois se tornar ainda maior eu também estou furiosa mas porque hoje seu corpo adentrou a trincheira sinto que o outro nome para batalha pode sim ser amor


Licença de porte de alma* por Pedro Santos Guerreiro

Antes de subir as escadas de corda para o trapézio, ele cortou a rede à facada e incendiou a tenda. Já lá em cima, não tem medo da queda, não tem sequer queda para o medo, e enquanto passeia a língua pelo sangue que puxou à boca, ele escreve poemas.

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“Livro Venenoso”, diz a capa de cabedal forrado a cor de sangue mal morto, e Agustina Bessa-Luís erraria se lendo estes poemas repetisse o aforismo de que “os títulos funcionam como o divã de psiquiatra, se prestarem atenção nisso”. Prestem atenção nisto, porque este livro é um pontapé no divã e uma emancipação psiquiátrica. Mas é o Id que escreve? É o superego? Ou o autor criou um alter ego, um outro eu - um personagem ou máscara? Dispenso-me logo ao segundo parágrafo dessa dúvida que Pessoa autopsicografou - e passo a tratar a pessoa deste Livro Venenoso como sendo ele. Só o seu autor tratarei pelo nome — Olá Eduardo Arimateia, pediste-me que apresentasse o teu livro mas não me preveniste que nos ias dar com o poema nas ventas. Não estamos habituados à aspereza, nem a este humor, nem à expulsão da melancolia explícita do quarto da poesia. Este livro não tem truques fáceis. Se querem algodão doce, vão à Feira de São Mateus, aqui não se fia conversa nem se fia na virgem. Deixem-me situar-vos sem spoilers: não há mimo nestes poemas, leiam-nos por vossa conta e risco – e não os leiam aos saltos, leiam-nos de seguida, para que sintam o arrepio longo das unhas a raspar na ardósia. É uma forma de acordar para a vida que morre a cada dia-igual-aos-outros quando se consente em ser dos que “falam horas sem se verem”. Hegel avisou, os que se isolam, os que deixam de ser vistos, deslaçam a sua existência e enlaçam uma raiva que não perdoa ninguém. Mas na futilidade dos dias há, se prestarmos atenção nisso, um desafio persistente à mono-

tonia das vírgulas, o desafio do acontecimento vulgarizável à vista desamada mas que, como num conto de Tcheckhov, rastilha uma barra de dinamite ou desbloqueia-nos a anestesia epidural. Querem ver? Querem… ler? Então irão ler como o tempo verbal das ações tónicas é o pretérito. E irão ler sobre um passado que é mais fantasmagórico do que nostálgico, com “sons que saem das gavetas”, memórias do “sol da juventude”, memórias das “noites que cheiravam a tílias”, memórias de uma vida na terra que se amava, memórias de Rosebuds que podem ser “rodados de uma bicicleta na neve que já não existe”, memórias de antes da perda, perda que supera mesmo os arrependimentos inúteis, pois “os arrependimentos são atos falhados”. Lê-se então: “Nada nos impede de tentar esquecer”. Mas só de tentar, pois mesmo sem regressão nem digressão, quase tudo nos impede de esquecer. Fazer-nos crer na memória seletiva é um truque da nossa imaginação com cheiro a zimbro. É aí, na memória que não se perdeu sobre aquilo que se perdeu, que nasce a alteridade, a atitude de ataque como autodefesa, a zanga lenta dos isolados, mesmo se os isolados não são solitários. Neste livro estamos além disso, entramos num lugar que estranhamos, de uma violência irreprimível que não causa nódoas negras, causa nódoas brancas, contusões invisíveis nos que deixaram alguém (ou a si próprios) pendurados no tempo. No livro da caça assassina à baleia, Melville escreveu: “Os teus pensamentos criaram em ti uma criatura, e aquele a quem a intensidade do pensamento transformou num Prometeu vê o seu coração tornar-se alimento perpétuo de um abutre. Esse abutre é a própria criatura por ele criada”. D.H. Lawrence haveria de irritar-se com “Moby Dick”, criticando Melville pelos seus personagens desumanizados, como se estes


dissessem “que a vida pode seja uma tragédia, ou uma farsa, ou um desastre, ou outra coisa qualquer, quero lá saber! Deixa a vida ser o que lhe aprouver. (…) Neste preciso momento é uma chávena de chá. Esta manhã era absinto e fel. Passa-me o açúcar.” Neste livro venenoso, ele preferiu sal no arroz, mas enganou-se na receita para uma vida mais abstrata. Na vida real há “dias estúpidos”, há uma “nação em estado de chumbo”, há “canhestros personagens” e trabalhadores das obras que talvez sejam traficantes de armas à noite, há plástico, plástico, plástico, há uma algazarra de palavras, “palavras que engolem palavras”, “palavras escuras” e “restos de palavras”, “palavras de conforto que julgamos pensadas por nós”, “palavras que devoram a consciência e criam buracos no futuro”, e no entrelugar das palavras que Cesariny encontrou na Elsinore onde Hamlet lia “palavras, palavras, palavras”, há “sílabas impossíveis”, neste livro que não decorre nem de dia nem de noite, corre à chuva, escorre na lama, ao sal, nas sombras, em sangue. Ele é um homem velozmente parado, vigilante ao absurdo de si próprio, que se observa de fora como um Próspero que deitasse os livros ao mar depois de lê-los e desafiasse a vida ansiolítica com a rebelião de uma tempestade íntima.

dele, essa vertigem. Porque estes poemas são a sua baioneta real da espingarda imaginária. E assim se consome a violência numa evanescência de doçura: com licença de porte de alma. Foi isto um homem? Sim, é. É ele. Está um tempo de nêsperas e ele vai esmagá-las com as mãos, a sorrir sem que percebam porquê. A não ser que prestem atenção nisso - e leiam o que eu li mas não como eu li. Afinal, todos somos memórias e agimos com e contra elas, quando escrevemos e quando lemos. É tirar o soro e provar deste belíssimo veneno do Eduardo Arimateia, ler este “Livro Venenoso”, este livro intravenoso de poemas dados à sua própria queima. Não há autobiografias verdadeiras, há livros de memórias – e a memória é um diabo que nos carrega.

*Texto de apresentação de “Livro Venenoso”.

Essa rebelião acolhe a beleza, as artes, os filmes antigos e as lágrimas perolizadas de Man Ray, o rock & roll de Lou Reed e de Tom Waits. Mas há neste livro também um desejo de ligar a ignição do automóvel e partir prego a fundo na Thunderoad de Springsteen, mas sem o rubor ingénuo que Emily Dickinson sentia nas faces ao ouvir a palavra “escapar”, porque ele já não quer escapar, quer matar, somewhere há uma road to nowhere e ele quer ser o “killer on the road” de Morrison. Neste tempo de “tigres e vilões de aço”, de perfídias e hipocrisias, crime maior é o do desamor, do fim de “romances de uma vez na vida”, do sexo no vão de escada, das “musas cada vez mais caras”. Ele responde com humor, com uma declaração de amor a um cadáver. Aos sobrevivos, diz ele: “Espero nunca mais te ver”. E diz ele: “Se me pudesses ver agora que desististe de mim (…) e nunca mais voltar ao teu olhar”.

Há a suspeita de que ele está na iminência de pegar numa espingarda e irromper aos tiros por uma multidão adentro. Mas é nossa, não

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Pressentem a violência? Como um Holden Caulfield, do “Catcher in the Rye” de JD Sallinger, mas com décadas em cima daqueles 17 anos, ele vê “ogivas nucleares apontadas ao cérebro”, lâminas de vidro, fogo devorador, puxadores espetados no coração; ele fecha os punhos e empunha caçadeiras de canos cerrados, porque ele é o homem que já não espera nada mas ainda deseja tudo.


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Titanic on the rocks

Por vezes os papéis são causas próximas de relatórios falhados, de manhãs onde o sol percorre os despertadores inutilizados. Numa desculpa artilhada, o capitão do barco afundado exprime o dizer furioso num pedaço de papel amarrotado e grita: “Primeiro as crianças, depois as mulheres, é hora e faz-se tarde no meu coração...’ Depois, todos os arrependimentos são actos falhados. A alma esconde-se no tecto e toda a memória na figura convencional do baú fechado, metralhado pela luz. Acodem, entretanto, os acordes finais. Eram as mulheres e as crianças que entoavam, na ordem inversa da sua importância, o acto derradeiro. O capitão já tinha um quebra-gelos.

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Texto de Livro Venenoso


Leituras por Denise C. Rolo*

«A Memória das Pedras» de Carol Shields Quando recomendamos um livro, a tendência passa, quase sempre, por indicar a mais recente novidade, ora porque todos falam nela, ora porque é um conceito de moda igualmente aplicado à literatura. Eu não digo nem sim, nem não. Digo apenas que a recomendação de um livro deverá basear-se na sua força, história e transversalidade. Se acabou de chegar às livrarias, pois que assim seja. Se já foi escrito há mais de vinte anos, pois que assim seja também. É isto que acontece na literatura, a grandiosidade capaz de tornar livros novos em velhos ou o contrário. Uma grandiosidade que caminha lado a lado com a perceção de cada um enquanto leitor, enquanto pessoa e personagem da sua própria vida. A ideia de que há um pouco de nós em cada livro não só me agrada, como me faz carimbar a certeza da literatura como analgésico para uma infinidade de dores. Precisamente pela grandiosidade e subjectividade que a literatura encerra, hoje decidi escrever sobre «A Memória das Pedras», de Carol Shields, uma escritora americana que nos deixou uma história intemporal, capaz de se integrar na vida de qualquer pessoa. Se isso não é proeza, quando falamos num livro, não sei o que poderá ser. Em «A Memória das Pedras» conhecemos a história de Daisy Goodwill. Todo o livro é uma caminhada comum, que tanto nos diz. Nascimento. Infância. Casamento. Amor. Maternidade. Trabalho. Desgosto. Tranquilidade. Doença. Declínio. Morte. Esta é a jornada de vida de uma mulher que, em todo o tempo, se procurou a si mesma nos lugares mais improváveis. O livro começa com um excerto de «The Grandmother Cycle de Judith Downing, Converse Quarterly, Autumn», que nos diz: Nada do que ela fazia ou dizia era exactamente o que queria mesmo assim a sua vida era como um monumento esculpido no decline da luz disponível girando ao som da música possível

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Lido todo o livro, o leitor deve retornar a esta página, para este excerto. É aqui que reside na totalidade a essência de Daisy. Uma mulher que nasceu perdida, como obra do acaso, de uma mãe também ela imprevista nas matérias da maternidade e do amor ao seu pequeno homem. O seu nascimento seria a prova de que os inícios constroem os fins.


Um dia cai ao chão, dores que desconhece e um judeu que a ouve e abre a porta. Uma menina nasce e a mãe desiste de lhe viver, quem sabe, numa troca justa de quem nunca se agarrou tanto assim à vida. Morreu mãe sem saber que na barriga lhe nascia alguém. Nasce Daisy Goodwill, que na ausência da mãe, acaba resgatada pela vizinha e amiga Clarentine. Viverá com esta nova mãe até ao momento em que Deus decide trocar- lhe as voltas. Quererá o destino que se afaste daquele lugar, retomando a sua vida ao lado de um pai, desde sempre desconhecido, que vivera a vida ladeada em duas direções apenas: casa-trabalho. Também ele, perdido nas afrontas de uma morte inesperada, desespera e acolhe uma novidade revestida de menina mulher. Foi quando a vida voltou a empurrá-la na direção do seu pai, agora com melhores condições de trabalho, que Daisy começa a crescer em novas possibilidades: uma vida despojada de sacrifícios, a oportunidade de estudar e o peso determinante das amizades que então conseguira criar. Mas o vazio é palavra de ordem quando lemos Daisy. Ao sabor do vento é a condição que melhor lhe cabe. Desde o início, a sua vida foi marcada pelo peso do seu passado, como pedras, e esperanças como flores, as quais aprendeu a cuidar com Clarentine. No intervalo entre passado e presente, fica- lhe sempre o travo amargo de um futuro sem vislumbre. Será no convívio com as suas amigas, entre tardes de conversas soltas, que começará a despertar para a curiosidade dos amores. Poderia um amor mudar essa sensação de perda constante? O amor surge, mas quis a vida, uma vez mais, passar-lhe a rasteira da certeza de que a hora certa ainda não chegara. Um casamento de dois dias que a envelheceu um pouco mais, uma queda repentina para a levar ao mesmo lugar de sempre, o lugar da incerteza. O tempo passou e com ele a resignação dos cansados da alma. A viver com o seu pai e a sua nova esposa, Maria, mais nova, mas sem idade definida, Daisy continuou a vislumbrar

o abismo em que sempre vivera. Será nesse abismo de incerteza que decide viajar sem destino. Um verbo de quem se procura em lugares virgens de história, aventurar-se como nunca havia feito. Como quem vive, de facto. Como quem mergulha. Como quem vive, enfim. Um braço que roça, acidentalmente, no seu. A certeza de um coração que lhe pulsa, que lhe transparece pelas veias. A prova de que uma viagem sem destino não existe, encontrou-a no momento exato, a hora certa de um amor parecia, finalmente, ter chegado. Sem nunca ter saído do lugar. Chamam-lhe paradoxo muitas vezes, mas são simplesmente os fios tecidos por Deus. “Naquele tempo, eu pensava que os homens eram sobretudo apreciados pelas histórias que irrompiam nas suas vidas, enquanto com as mulheres o mais provável era que fossem asfixiadas pelas que irrompiam nas delas. Porquê? Por que é que tinha de ser assim?” Chegou o amor, então. Entre as ironias de uma vida com enorme sentido de humor, chegou o momento desta mulher criar a sua própria história. Casou. Foi mãe. Descobriu o amor na serenidade dos gestos de um homem mais velho. Descobriu a maternidade na diferença de cada um dos seus três filhos. Tornou-se mulher. Aprendeu a cozinhar, a cuidar da casa, a cuidar de si, a ser mulher-a-dias e mulher dos dias do marido. E o tempo, juntamente com um vento consistente, levou-lhe mais anos. Levou-lhe o companheiro, dianteiro na idade e na vontade de viver. Ficou só. Enlutou e reavivou aquele vazio que sempre a definiu. São muitas as teorias de consolo quando a morte nos esfrega dois ou três estalos na cara. Nunca ninguém nos diz, de ânimo leve, que a morte vem revestida de vidas novas, mas vem. Fecham-se portas, abrem-se janelas. Vidas novas e uma diferente ânsia de viver. Se o amor parecia findo pela irreversibilidade dos corpos que adormecem para sempre, o desejo de realização e de plenitude reveste-se, agora, da necessidade de um trabalho. Descobre em si o talento da escrita que verá traduzido em inúmeros artigos cuidados sobre plantas e flores. Daisy foi feliz durante aqueles anos metódicos que lhe chegaram a granjear reconhecimento público, a máscara de um vazio suplantado pelo seu próprio trabalho. Todas as vidas parecem ser feitas desse ir e voltar. As boas e más horas que sempre nos ultrapassam os anseios. Daisy não seria diferente e se a realização profissional lhe vendeu alguns anos de felicidade e plenitude, rapidamente viria o relógio acertado na má hora de uma doença. A efemeridade do trabalho, tão bruscamente arrancado de si, fê-la entrar em depressão para, mais tarde,

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O casamento dos seus pais surgiu de um acaso. Uma mulher entregue desde pequena a uma casa de acolhimento e que, um dia, e com uma porta estragada, conhece o pedreiro que iria resolver o problema. Resolveu-lhe também a solidão, propondo-lhe casamento e uma casa para viver. Aceitou-o como quem aceita uma flor ou uma pedra. Era uma mulher que vivia para a comida, para a cozinha, ansiando despertar no marido o paladar certo, com a comida certa, com um pudim novo. Era a sua forma subtil, inconsciente, de lhe mostrar amor.


ressurgir como quem nasce das cinzas. Dizem que as más horas são tão necessárias como o pão de cada dia. Cair para levantar. Não levantar de qualquer maneira. Levantar na hora certa, no momento exato, no minuto do despertador, nem mais um, nem menos um. O minuto certo de quem soube esperar para se reerguer. Esse ir e voltar. A vida desta mulher continua e ela, certa de quem é, deixa-se ir com o vento, e tal como nasceu, assim morrerá: entregue e despojada ao que a vida lhe foi apontando. Horas felizes, horas amargas, horas nada, horas tudo. Daisy não se limitou a viver por viver como muitos poderiam pensar. Limitou-se a viver numa procura quente de si mesma, acreditando sempre no sentido de humor que só os afortunados de alma são capazes de enxergar. Dizem que vêem com os olhos de Deus. - Ela deixou que a vida lhe acontecesse. - Bem, e porque não? - Era como se... - Como se? - Como se ela estivesse sempre a perseguir um breve pensamento perdido com uma agulha e uma linha. - Receosa de olhar para dentro dela mesma. Para o caso de não haver lá nada. Carol Shields agita-nos e empurra-nos para a perseguição desse breve pensamento perdido. Será o destino final a resposta para o sentido da vida? Vivemos nós anos a fio para, num enfim já cansado, apenas chegar? Chegar onde? Caro leitor, se ainda me acompanha a esta hora, poderia queixar-se de que esta é apenas a história de vida de uma mulher banal, cinzenta e sem alaridos. Lembra-se de lhe falar que é a força, a história e a sua transversalidade que justificam a recomendação de um livro? «A memória das pedras» é o dedo na ferida para todos aqueles que buscam o sentido de si, e da vida, para lá de si mesmos. O estalo fatídico de que, afinal, a vida é feita desses pequenos nadas e que saber confrontá-los, num vento certeiro que empurra, é por si só viver. O verbo é terapêutico e cheio por si mesmo. Viver. Viver somente. E só assim a vida acontece. Só assim, nessa aparente banalidade.

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Sobre a autora: Carol Ann Warner Shields nasceu a 2 de Junho de 1935 em Oak Park, Illinois. Ficou conhecida, particularmente, pelo seu aclamado «A Memória das Pedras», vencedor Prémio Pulitzer de 1995. Faleceu no dia 16 de Julho de 2003 no Canadá. Saiba mais em www.carol-shields.com *Blogue Literário «Ler(-te)»

Título: A Memória das Pedras Autor: Carol Shields Editor: Editorial Presença Páginas: 318


Perguntas Proibidas por Sofia Viana

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Poderia completar os distúrbios Do tempo Com as pilhas de perdão sem sal Sentadas à frente das licenças possíveis Mas, mal sabes onde termina um troféu mal sabes das pétalas que morrem nos livros poderia explicar todos cansaços de Deus no exemplo pálido como o beijo de um vulcão como se houvesse um milímetro de amor para morrer entre as perguntas proibidas E o sacramento das línguas quentes Nas horas e nas respostas esquecidas poderia escurecer os dias Poderias...


Postais Perdidos

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por JoĂŁo Albuquerque Carreiras


Marrakech, Marrocos 14-X-11 Caro amigo Pouco mais de uma hora de voo é o que demora a mudar de mundo. Às vezes esquecemos que na proximidade pode estar um grande contraste e passei anos a esquecer Marrocos nas minhas listas de viagens a fazer. Foi um erro. Ou talvez não, se acreditarmos no destino e em que este foi o tempo certo. Ao chegar a Marrakech senti de imediato uma estranha afinidade com os cheiros, as cores, o bulício. O português é atlântico, mas também tem raízes, e grandes, no Mediterrâneo. Talvez a minha costela alentejana puxe a isso. O certo é que me encontro na diferença exótica, que me sinto bem a deambular perdido no labirinto quase infinito da Medina, entre as paredes vermelhas que caracterizam a cidade, por detrás dos quais adivinhamos riads de outros tempos resguardados dos olhos curiosos. Os primeiros momentos são confusos, tentando perceber como nos livrarmos dos insistentes vendedores, mas é incrível que à segunda ou terceira passagem já nos reconhecem como se fizéssemos parte do cenário. Um plateau criado para um filme de Agatha Christie, onde Poirot avançaria afastando os vendedores com a bengala numa mão, enquanto na outra agitava o leque para afastar o calor, ainda mais inclemente debaixo dos seus complexos fatos. Se a Medina se transforma em algo familiar, já a praça Djemaa el-Fna é definitivamente exótica, estranha e fascinante. Um espaço enorme em que ao pôr-do-sol parecem acorrer todas as culturas e sub-culturas marroquinas, cruzando-se encantadores de serpentes e grupos de teatro berbere. Onde se podem beber fantásticos sumos de laranja rosa ou comer as mais estranhas iguarias. A praça não é familiar, mas é fascinante e recorda que estamos num país estranho e com uma cultura que muito dificilmente compreenderemos. Aqui tão perto podemos experimentar esta cidade intrigante e imaginar por instantes que voámos para o outro lado do mundo. Devias experimentar. Abraço,

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João


Um Camões para a pátria que é a nossa língua por Itamar Vieira Junior

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Em outubro de 2015, fui assistir à adaptação do diretor João Falcão para o texto de Ópera do Malandro, de Chico Buarque, no Teatro Castro Alves, em Salvador. O elenco era quase todo masculino, com exceção da atriz e cantora Larissa Luz, e se revezou na interpretação dos personagens homens e mulheres, conferindo à montagem ar de novidade. Não poderia ser diferente: quase quarenta anos depois de sua primeira encenação, a peça foi novamente sucesso de público e crítica por onde passou, de norte a sul do país. Para criar sua “ópera”, ainda na década de 1970, Chico Buarque adaptou os textos clássicos de John Gay – Ópera do mendigo (1724) - e Bertolt Brecht – A ópera dos três vinténs (1928) – à alma brasileira, dando voz aos personagens marginalizados de nossa sociedade e primando por um forte recorte social. O musical foi encenado pela primeira vez em 1978, em plena ditadura (1964 – 1985), com trechos censurados pelo regime. A inspiração da peça, as obras de Gay e Brecht, mostra a sofisticação da formação cultural do autor e sua imensa capacidade de converter textos clássicos em uma linguagem capaz de comunicar com êxito ao grande público.


Claro que na época ainda não compreendia a forte crítica social das letras, mas me emocionava imensamente com as canções, ao ponto de repeti-las por longo tempo, como nós crianças costumamos fazer quando aprendemos uma música nova. Anos mais tarde, talvez já na adolescência, assisti à reapresentação do especial televisivo Morte e vida Severina, baseado no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, veiculado originalmente em 1981. Mais uma vez, era a arte de Chico transformando um texto duro em canções que jamais deixaram minhas recordações. Enquanto escrevia minha conferência para as Correntes D’Escritas deste ano – que celebrava o centenário de Sophia de Melo Breyner Andersen –, uma estrofe do longo poema de João Cabral, que foi um grande amigo da poeta, acabou adentrando o meu texto com a função de lembrar as nossas irremediáveis injustiças e desigualdades. Mesmo tendo lido a obra com grande devoção, a poesia de João Cabral me chegou através da lembrança da atriz Tânia Alves interpretando a versão musicada por Chico. Nos meus quase quarenta anos, sinto que Chico Buarque, o nosso mais completo artista, passou por todas as fases de minha vida. Nasci no fim da ditadura e durante os anos de redemocratização o vi gozar do status de unanimidade da Cultura brasileira. Não cresci numa casa de leitores e livros. Vim a me tornar leitor e escritor por essas razões inexplicáveis do destino. Porém, vivi numa casa onde a arte sempre foi celebrada. Meu pai era um grande apreciador da nossa música popular – de músicas estrangeiras também – e talvez tenha sido ele, porque já não me recordo, que tenha me apresentado as canções de Chico de forma mais profunda. Minha mãe sempre foi – e ainda é - uma telespectadora assídua das telenovelas. Não foram poucas as novelas que levaram o cancioneiro do artista ao domínio do público. Lembro-me que aos doze anos eu cantarolava com uma ponta de melancolia – não muito comum às crianças desta idade – a letra de Atrás da porta, na interpretação mais-que-perfeita de Elis Regina. E sei que a escutei

numa das muitas novelas que vi ao lado de minha mãe. Já o escritor Chico chegou a mim no início desta década com seu Leite derramado, que arrebatou público e crítica com o velho Francisco, e O irmão alemão, numa trama de vida e ficção que só poderia ser do artista andarilho. Só depois foi que li os seus primeiros romances, Estorvo e Benjamin. Quando descobri o romancista, o fiz de livro em punho e sem nenhum assombro: era como se as narrativas do seu cancioneiro e da sua dramaturgia tivessem se transmutado com a mesma fluidez para a arte do romance, afinal, a complexidade e a criatividade das suas personagens e tramas já estavam em canções como Geni e o Zepelim, Olha Maria e Beatriz. Chico, o artista onipresente, está entranhado nas minhas muitas memórias afetivas: das muitas canções – de Bye, Bye Brasil a Paratodos - aos grandes textos dramatúrgicos de Roda Viva a Gota D’água (Joana é a nossa versão da Medeia, de Eurípedes), de Calabar ao Grande Circo Místico; chegando ao romancista mais conhecido do que o compositor no Leste Europeu; da dura realidade de meu país aos amores não correspondidos e desfeitos; do samba tão brasileiro à sofisticação dos decassílabos de Cálice; da Grécia antiga (Mulheres de Atenas) à Revolução dos Cravos em Portugal (Tanto Mar). Por toda minha vida haverá a presença de Chico. O escritor Sérgio Rodrigues, em texto publicado na Folha de São Paulo logo após a atribuição do Prêmio Camões, escreveu que, fosse a língua portuguesa menos misteriosa, o Nobel cairia bem no colo de nosso artista. Poucos dias depois, já em Portugal, pude ver como o Camões de 2019 estava a ser celebrado: portugueses, angolanos, moçambicanos, brasileiros e cabo-verdianos, todos louvavam de forma unânime a distinção de Chico. Era como se o Prêmio Camões deste ano não tivesse uma pátria, como em todos os anos anteriores, mas festejasse apenas a nossa diversa língua portuguesa, com toda a dimensão humana que ganhou em cada fração de terra onde é falada ao redor do mundo. É como se Portugal não fosse um pequeno país do continente europeu, mas um idioma múltiplo que nos une pelo afeto e trajetória de dor e glória, como cantou o próprio Chico em Fado Tropical: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal.”

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Ainda na plateia do teatro, enquanto aguardava o início do segundo ato, tentei alcançar o momento em que Chico havia adentrado a minha vida. A lembrança mais remota que tenho foi a de estar em frente à tela de uma TV preto-e-branco assistindo ao filme Os Saltimbancos Trapalhões, interpretado pelo grupo humorístico Os Trapalhões. O roteiro era uma adaptação da peça dos dramaturgos Sérgio Bardotti e Luis Enriquez Bacalov, que por sua vez foi baseada no clássico conto Os músicos de Bremen, dos irmãos Grimm. O texto e as canções foram traduzidos e adaptados por Chico.


A propósito de João Gilberto... uma onda que se ergueu no mar por João Moreira

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Breves considerações à margem da Bossa Nova


Percorri cada um destes pedaços de Rio, e tantos outros, num tempo em que a internet era coisa de ficção e a única forma de viajar, em sonhos, era a literatura. Por isso, foi pelas mãos de Vinicius e Drummond, de GarciaRoza e Rubem Fonseca, de Ruy Castro e Nelson Rodrigues, de Machado de Assis e Lima Barreto, que deambulei, sentado em casa de meus pais, em Viseu, pelas ruas desta cidade ímpar. Mas a verdade é que essa paixão começara muito antes, num final de uma manhã chuvosa de Agosto de 1981, aos dez anos de idade, na Figueira da Foz, para onde, por tradição familiar, íamos a veraneio, mal as aulas terminavam e o calor de verão se fazia anunciar. Nessa manhã longínqua, impossibilitado de ir para a praia, fiquei em casa a ler, tendo como única companhia os sons distantes de uma velha Philco, a preto e branco, que nos acompanhava religiosamente nesta mudança anual. De repente, um som dissonante, estranho, mas melodioso e ritmado, começou a ganhar corpo na velha

televisão, e uma voz quase inaudível confiscou toda a minha atenção. Parei a leitura e concentrei-me na TV, onde um homem de fato escuro, sentado num banco de madeira, violão na mão, entoava “pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca...” Durante quase uma hora, ouvi atentamente João Gilberto, num show gravado ao vivo para a TV Globo. Meu Deus, o que era aquilo? Que música. Que batida. Que voz suave. Que genialidade. Que perfeccionismo. Sei que saí de casa e fui procurar todos os LP’s do João, disponíveis no mercado. Comprei dois, os que existiam, Getz/Gilberto e João Gilberto, e foi um verão inteiramente dedicado à Bossa Nova e à descoberta da cidade que lhe dera origem. Um verão que mudou a minha vida. Muitos anos decorreriam até que aterrasse pela primeira vez no Galeão, ou melhor, no Aeroporto Internacional António Carlos Jobim, e pudesse confirmar, ao vivo e a cores, cada um dos motivos dessa incontrolável paixão. Dessa primeira vez, quando a porta do avião se abriu e senti no rosto uma baforada de ar quente, percebi que estava em casa. E nem o trajecto pela Linha Vermelha, ladeada de favelas numa espécie de choque de realidade, nem o cheiro putrefacto da Baía de Guanabara, presente de Deus envenenado pelo Homem, mudaram o meu encanto pelo Rio. Nessa viagem inicial, quase exclusivamente dedicada à história e às estórias da Bossa Nova, descobri, por acaso, o mais charmoso e encantador recanto de Ipanema, a Toca do Vinicius, e por lá me perdi, horas a fio, em conversas com o seu fundador e proprietário, Carlos Alberto Afonso, sobre a música e a poesia, a política e a sociedade, e sobre as muitas e divertidas estórias dos génios que entregaram ao mundo a mais extraordinária das músicas modernas. Alguns anos percorridos sobre essa primeira visita, regressei à Toca do Vinicius para conversar com Carlos Alberto Afonso sobre o ídolo em comum, João Gilberto. Aqui fica, em jeito de homenagem, o registo possível de uma inolvidável tarde de conversa, centrada na genialidade da música do baiano, que Vinicius declarou ser “o maior património cultural do Brasil”. [159]

Há coisas que não se explicam. Sentemse. Assim é a minha relação com o Rio. Muito antes de o visitar pela primeira vez, já éramos íntimos. O oceano que nos separava parecia reduzido ao tamanho de um pequeno curso de água que eu pulava com facilidade para chegar à outra, ambicionada, margem. Quase diariamente, deambulava pela Avenida Rio Branco, ou pela Presidente Vargas, perdia-me nas pequenas ruelas do Centro e parava no Arco do Teles para ouvir as rodas de samba, antes de me sentar na penumbra do Bar Luiz e tomar o melhor chope do centro da cidade. Mais tarde, havaiana no pé, short e camiseta, sorriso aberto ao sol de verão, feito carioca, percorreria o calçadão, do Leme ao Leblon, adentrando, por vezes (mais do que as desejáveis), nas refrescantes ruas de Copacabana e de Ipanema para chopear e bater papo sobre futebol, quase único tricolor, num mundo de vascaínos e flamenguistas. Com o fim de tarde, recolheria à Travessa, para um café regado a livros e revistas, antes de um passeio pela Visconde de Pirajá e uma oração rezada em silêncio na pequena Igreja de Nossa Senhora da Paz, partindo, depois, noite dentro, pelos botecos de Botafogo e pela animação incontida da Lapa.


Como é que começou a Toca do Vinicius, este projecto que é, antes de mais, de divulgação musical, poética, literária e cultural, mas também político e social, com um sentido, obviamente, de interventor e de mudança? Nós não visamos às mudanças, acreditamos nas transformações. Eu, por princípio, acredito na transformação, eu luto pela transformação, e acredito que as alterações têm de resultar de transformações e não de mudanças. Tenho quase setenta anos, e tive uma criação faustosa, uma adolescência faustosa e uma primeira idade adulta também faustosa, sem problemas financeiros, mas muito presa. Muito fechada em casa. Já na época havia mitos em relação à segurança, a história de um carro preto que raptava crianças (sorriso provocante no rosto). Os meus amigos eram os amigos dos meus pais. Acabei por ter uma infância solitária, não ausente de amor, mas solitária. Uma espécie de solidão camoniana, desse “andar solitário entre a gente”. Eu vivia entre toda a gente, solitariamente. Talvez por isso, sempre gostei de pensar. Sempre senti necessidade de pensar. E isso me acompanhou ao longo da vida. Mesmo na minha actividade profissional, como professor, a minha disciplina não foi exactamente literatura. Eu gosto muito de literatura, mas podia ter sido professor de História, de Filosofia, de Ciências Sociais. Trabalhei com um grande e querido antropólogo, Darcy Ribeiro, durante um bom tempo. Aliás, a minha perspectiva é sempre antropológica. Mas a minha disciplina era Teoria Literária, quer dizer, o que me fascinava não era tanto a emoção que o texto, fosse ele qual fosse, podia produzir em mim, o que me fascinava era tentar descobrir o funcionamento daquele discurso.

Quando aconteceu a descoberta desse gosto pela literatura e pelo funcionamento do discurso literário?

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Não foi com a minha primeira leitura. A minha primeira leitura, fascinante, inesquecível (tive muita sorte com isso), foi “Mar Morto”, do Jorge Amado. Eu li “Mar Morto” com catorze anos, e “Mar Morto” é um exercício lírico, é uma prosa de carga poética, de essência poética, e despertou muito a minha emoção. Mas a necessidade da reflexão veio depois, de Machado de Assis, e nunca mais me deixou. Hoje, continuo dependente dele. Por outro lado, há um personagem, contemporâneo nosso, por quem eu tenho, em primeiro lugar, um grande, um enorme respeito. Para você entender, eu respeito

esse personagem como a muito pouca gente. Depois entra a admiração. Quer dizer, além do respeito, eu sinto uma enorme admiração por ele. Então, eu tenho ocupado bastante tempo, tenho destinado grande parte do meu tempo disponível, que é sempre muito exíguo, a pensá-lo. Estou falando de João Gilberto. João Gilberto (repete, como que querendo reforçar a importância desse nome). E onde entra o Machado de Assis nessa história? Jamais tive dificuldades em definir as minhas convicções. A minha convicção foi sempre uma convicção fácil em relação ao João Gilberto. A compreensão é que não é tão fácil, exige reflexões, inclusive um pequeno acervo de factos. Em suma, Simão Bacamarte é um personagem de Machado de Assis, do conto “O Alienista”, e é um paralelo que eu tenho trabalhado com João Gilberto. Ambos trancam a sociedade no mundo e ficam libertos, ficam inteiramente livres. Então, estas são coisas que vêm a partir da nossa visão de mundo, sempre reflectindo. Não apenas em relação à emoção, gostando ou não gostando, se emocionado ou não, mas, fundamentalmente, em relação ao material humano, à sociedade (Carlos esboçando um sorriso, marcado pelo suave arrastar da palavra sociedade, com uma acentuação particularmente aberta e prolongada da penúltima sílaba). A sociedade é a palavrachave de tudo! A minha professora é a História, sem dúvida nenhuma. Por isso, para mim, há um binómio fundamental: produção e sociedade.

O Professor é assim. Viaja nas conversas, mantendo o norte. Parece perder-se em longas explanações, para, de repente, quando menos esperamos, retomar a nossa pergunta. E aí percebemos como, para a resposta final, foi importante esse passeio pela história, pela literatura, pela sociedade. Ainda não sabemos como surgiu a Toca do Vinicius, mas, com certeza, lá chegaremos. Tudo isto apenas intuído (continua). Mas, a partir de certo momento, não apenas intuído, com o trânsito da linguagem para a língua, sendo devidamente realizado, efectivamente reflectido.

Isso aconteceu em que altura da sua vida? Volto atrás, à minha infância. A minha busca sempre foi solitária. Aprendi, sobretudo, com essa solidão. A solidão me levou à reflexão, a brincar de carrinho e a ver e a jogar futebol, sempre. O divertimento da minha vida sempre foi o futebol: ver e jogar. Assim, nessa solidão, me fui formando, e,


Neste momento, a Toca do Vinicius é invadida por um grupo de turistas, e Carlos, para quem o atendimento personalizado é factor decisivo na sua empreitada cultural, abandona a entrevista para, com um sorriso afectuoso nos lábios, receber cada um dos curiosos visitantes do seu pequeno espaço da Rua Vinicius de Moraes, em Ipanema. Quem entra na Toca sabe ao que vem. Mais do que discos ou livros, busca as pequenas estórias que estão por detrás de cada um deles, e sabe, à partida, que Carlos é um repositório dos episódios picarescos que fizeram a História da Bossa e da Cidade Maravilhosa. Aproveitamos para fumar um cigarro na Calçada da Fama de Ipanema, outra das ideias do Professor, que, há tempos atrás, a definiu da seguinte forma: “Diria que é um monumento de autoconstrução, na medida em que não é um escultor que produz essas peças, mas a própria pessoa, que está sendo lembrada, grava suas mãos, escreve seu nome e a data. Então, a Calçada da Fama não apenas quer ser, ela é um monumento representativo da cultura brasileira, em diversas das suas formas de produção: o esporte, a literatura, a música, a arquitetura, e, assim, sucessivamente. De facto, assim é. Aqui estão imortalizados nomes como os de Elis Regina, Oscar Niemeyer, Chico Buarque, Elizeth Cardoso, Vinicius de Moraes, Ruy Castro, Daniel Jobim, Zico, Pixinguinha, Henri Salvador, Paulo Gracindo, Garrincha, entre tantos e tantos outros, numa espécie de monumento à memória colectiva de um país que se imortalizou pelas suas diversas formas de manifestação cultural. Aos poucos, a Toca

vai esvaziando, e regressamos à conversa com o nosso anfitrião.

Voltemos à Bossa e à batida, e à voz do João Gilberto. Item um: a emergência da Bossa Nova e a minha emergência existencial coincidem. A Bossa Nova é formulada durante os anos 50, e eu também fui formulado durante os anos 50. Então, existe uma coincidência cronológica. Item dois: tudo começou com o meu interesse pelo mundo. Veja a disciplina de que fui professor: Teoria Literária. Porquê Teoria Literária? Porque ela não só enseja como estimula relações interdisciplinares. Então, você estar mexendo com Teoria Literária significa que você está mexendo com escultura, com pintura, com música, ou seja, com aquilo que você achar que deve fazer para fortalecer o seu trabalho.

A Bossa foi inovadora ao trazer a poesia para a música? Não, não, não, não. Absolutamente não. Isso é um grande equívoco. A Bossa não precisa de poesia, não precisa de letra. A letra é importante para a canção, não para a linguagem. Música é uma coisa, canção é outra. Pintura é uma coisa, tela é outra. Então, da mesma forma que a tela materializa a pintura, a canção materializa a música. A minha sociedade é uma sociedade inteligente, talentosa, mas garotona, adolescente e imatura culturalmente. Não falo de cultura académica, falo de hábitos. Por exemplo, o hábito da relação com a execução musical. A minha sociedade está habituada à relação participativa. Então, ela precisa ser sujeito daquela relação musical. Ela pode estar ouvindo João Gilberto no Theatro Municipal, e vai querer cantar junto com o João Gilberto, não percebendo que ele não vai ficar contente, não por nada, mas porque o trabalho dele é a música, sendo a canção a forma como essa música vai chegar às pessoas. Ele investiu um enorme tempo, muita expectativa na concepção das harmonias, na criação das estruturas harmónicas, na bolação dos arranjos, na pesquisa daqueles acordes, e, no momento em que ele serve esse lauto banquete, é como se estivesse servindo o vinho mais caro do mundo e você derramasse um pouco de água dentro, porque você gosta de suco de uva. A Bossa Nova é uma música contemplativa. É a forma de executar alguma coisa, seja ela qual for, e ninguém tem o direito de desconhecer isso, porque João Gilberto ensinou isso para todo o mundo. Quando João Gilberto gravou canções que nasceram antes da Bossa Nova, quando gravou

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com 19 anos, já escrevia a correspondência do Presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Danton Jobim. E porquê? Porque tinha uma boa caneta. Tinha uma boa expressão, tanto oral quanto escrita. E foi engraçado, porque, durante muito tempo, ele lia, cortava aqui, acrescentava ali, e isso me frustrava um pouco. Mas lembro o que senti quando escrevi a correspondência para o Richard Nixon, Presidente dos Estados Unidos, cumprimentando-o pela chegada do homem à Lua. Então, o Danton Jobim leu e disse assim: “Pode dactilografar como está.” Puxa vida! Você não pode imaginar o que senti. Olhe aqui, ainda hoje me arrepio (Carlos esticando o braço para mostrar os pelos eriçados pela emoção). Esse foi o meu primeiro lugar de trabalho. Eu fazia faculdade de direito, de manhã, para o Itamaraty, faculdade de letras, à noite, por minha causa, e, à tarde, trabalhava na ABI, que foi a minha primeira grande casa. Acho que o primeiro grande amor da minha vida.


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Ary Barroso, Noel Rosa, e tantos outros, quando gravou canções estrangeiras, transformando-as em samba, ele simplesmente nos sinalizou pela práxis, ele não nos sinalizou com discurso. Ele nunca ousou sair daqueles limites, amplos por sinal, da arte. Ele se expressa artisticamente. Ele entende que a sociedade é a grande beneficiária da produção artística. Ele não pode levar para a sociedade nada que não seja o seu melhor. E qual é esse melhor que pode levar? Não é analisar as coisas, porque ele não se propõe ser o analista daquele processo musical. Ele é artista. Por isso, ele se propõe à arte. Na hora em que ele quer comunicar coisas, é através do exercício da arte que ele comunica, no caso, da Bossa Nova, que nasceu como forma alternativa de interpretar o ritmo samba, como opção à forma tradicional de interpretação, que era o choro. João Gilberto começa a formular a sua interpretação musical desde o final dos anos 40, início dos anos 50, absolutamente fanático pelo samba e enorme conhecedor da música popular brasileira. Começa a formular e não a inventar. A partir de elementos da música popular brasileira, ele começa a propor uma nova linguagem, uma linguagem que sirva de alternativa à linguagem choro para a execução do samba. Ponto. Então, a Bossa Nova foi a nave espacial levada pelo movimento, que foi o foguete propulsor, até ao espaço. Chega lá, joga a nave em órbita e ele, foguete, explode e cai no mar. Há histórias musicais que se limitam ao movimento, porque a nave não entra em órbita. Então, o foguete explode, com nave e com tudo. Esse registo vai ficar na história com respeitabilidade, com seriedade. Nós temos propostas musicais com as quais aconteceu isso, que não têm permanência, que não se desdobram, não têm presença genética em formulações futuras. Ficam na história, simplesmente. Não é o caso da Bossa Nova. No caso da Bossa Nova, o foguete levou a nave, colocou-a em órbita, e a nave está orbitando, e vai orbitar sempre, já presente, geneticamente, em outras propostas musicais posteriores. Quando você pega o tratamento que o João Gilberto dá às cordas, tanto do violão quanto do piano, o trabalho dele com o silêncio, você vai observar isso em outros violões posteriores sem qualquer compromisso com a Bossa Nova. Como aquela presença genética dos pais nos filhos, sem que faça deles cópias. Você vê a execução instrumental da Bossa Nova, e não só instrumental, mas instrumental vocal, porque Leny Andrade não tem voz, tem um instrumento na garganta. Então, você ouve em Leny aqueles elementos genéticos típicos do Jazz (o Jazz é a grande música, a minha geração, a geração da Bossa, ouvia

Jazz desde que nasceu, e isso foi muito bom), o improviso, o gosto pelo improviso, as dissonâncias, e você percebe que esses elementos do Jazz têm uma relação acessória com a estrutura da Bossa Nova, quer dizer, a sua ausência não compromete a Bossa, não é estrutural. Tem? Bacana pra chuchu, tremenda vibração, adorei. Não tem? Sem problemas, mas o comportamento da Bossa Nova está lá presente.

O que quis dizer ao falar dos silêncios na música do João Gilberto? Em São Paulo, ele foi convidado para inaugurar o Credicard Hall. Isso é facto, embora muito didáctico, que tenho pena que não tenha sido devidamente aproveitado pela mídia. Então, tinha eco no Credicard Hall, e ele observou isso. E veio o técnico de som, e corre daqui, tenta dali, o público já impaciente, e o João insistindo: “Tem eco. Tem eco.”, até ao momento em que, após muitas tentativas, o técnico de som vem com a ideia de convencê-lo de que não tem mais eco e chega ao pé do João e diz: “Agora acabou. Não tem mais eco.” Aí o João pergunta: “Você fez todos os esforços que podia ter feito?” (Carlos baixando o tom de voz, como que imitando João Gilberto.) “Sim, sim, claro.”, responde o técnico. “Além desses esforços não há mais o que fazer?”, retruca João. “Não, não.” Aí o João pega no violão e vai embora. Quando ele vai saindo, um jornalista do Globo, ultra-hábil, um diplomata, que soube respeitar e admirar o João, que é um artista, que é património brasileiro, um dos maiores patrimónios da gente, das nossas artes, pergunta: “E aí João, não deu, né?” Ao que João responde: “Não. Eu trabalho com a pausa.” Esse “eu trabalho com a pausa” deveria ser matéria de duas, três páginas nos jornais, para a nossa sociedade aprender, naquilo ali, o que é a Bossa Nova, o que é João Gilberto. Tudo naquele: “eu trabalho com a pausa”. Claro, a pausa é um elemento fundamental. Para você ter uma ideia, antes dessa linguagem se materializar documentalmente por inteiro, numa gravação, ele acompanhou Elizeth Cardoso numa parceria de duas músicas do Tom e do Vinicius, “Chega de Saudade” e “Outra Vez”, e o pessoal comentava: “Esse cara é maluco.” Porquê? Porque em vez de fazer aquela pegada do samba, aquela batida contínua, dang dinga dang, ele trabalhou o silêncio, ele apresentou a pausa. Quer dizer, nesse momento, e a Bossa Nova não começa aí, há um vagido, um primeiro vagido, um componente estético daquilo que ele estava formulando. Coloca a cabeça de fora da vagina da mamãe, olhando para fora e vendo a barra que ia segurar. Porque o nascimento mesmo é 10


Para perceber melhor, eu tenho vários amigos paulistas e paulistanos. Um deles, muito meu amigo mesmo, com quem estou sempre brincando, não gosta do João Gilberto, e ele é intimamente ligado ao futebol, profissionalmente ligado ao futebol, e um dia chegou aqui furioso com o João e eu retruquei: “Marcão, há possibilidade de uma partida de futebol com uma bolinha quadrada?” – “Como assim?” – “Quadrada!” – “É claro que não, né.” – “Você consegue imaginar o público exigindo que a partida se realizasse com uma bola quadradinha? O público reclamando: Má vontade! Porque é que não joga com a quadrada? Quebra o galho. Então, cara, o João tocar com reverber equivale, mais ou menos, ao futebol com bola quadrada. Algum futebolista toparia jogar com bola quadrada? Parece uma piada. Pois olha, para o João, que trabalha com a pausa, o reverber, o eco, é uma bola quadrada. Marco, a gente tem de entender isso.” O João Gilberto tem dimensão internacional, e porquê? O que é que é internacional? É a linguagem. A internacionalidade nasce por causa da universalidade da linguagem. Se a linguagem não fosse universal, a Bossa Nova não seria internacional. O japonês não entende aquilo que está sendo cantado, mas entende aquela harmonia, é educado suficientemente para a percepção da música. Eu só quero chamar a atenção para esse facto: a Bossa Nova não é um movimento, é uma linguagem, para cuja implementação existiu um movimento, ou seja, uma interação múltipla de artistas, de jovens, mostrando uns aos outros, e, de repente, uma documentação gravada, até que ela entrasse em órbita. Entrou em órbita, e permanece graças à força da estrutura. Ela não é alvenaria que você quebra com o martelo, ela é alicerces, vigas, pilastras. É isso daí. É uma estrutura. E quem pensou essa estrutura foi o João Gilberto.

De que forma Vinicius de Moraes entrou na Bossa e na sua vida? Afinal, esta é a Toca do Vinicius. Antes demais, Vinicius entrou na minha vida, porque, com 12 anos de idade, eu já sabia que seria um profissional da diplomacia, porque os meus pais tinham decidido que eu seria diplomata. Eu não sabia o que fazia um diplomata, não tinha a menor ideia do que

era isso de ser diplomata, mas já sabia que ia ser diplomata. Era assim que funcionava na minha casa, e em muitas casas, durante os anos 50. Aí, com 12 anos de idade, eu que sabia que seria diplomata, vi num jornal (Eu quero dizer a você que eu tenho esse jornal. Meus pais eram memorialistas obsessivos e eu herdei esse fascínio pelo documento) um diplomata de carreira, sentado num night club, de terno e gravata, óculos de lentes escuras (aliás esse par de óculos me pertence, como mechas do cabelo dele. Eu sou barra pesada (risos). Muitas exmulheres dele, que o amaram e me amaram, de maneira diferente, claro, reconheceram o meu trabalho e me legaram algumas coisas que guardo cuidadosamente) e fiquei incrédulo. Aquilo me fascinou. Fascinou o garoto de 12 anos e toda uma geração. Foi o fascínio exercido pela informalidade, pela atitude. É preciso entender Vinicius de Moraes do ponto de vista da atitude e do ponto de vista da obra. Do ponto de vista da obra, Vinicius foi um grande poeta. Ponto. Do ponto de vista da atitude, ele foi único.

Um transformador. Exatamente. Um transformador, não um mudador. Um transformador. E isso daí fascinou toda a minha geração. O personagem Vinicius de Moraes e o seu comportamento. O Vinicius sempre foi uma pessoa muito honesta. Nunca estive com ele como estou aqui com você, mas tenho essa impressão dele, de uma pessoa muito correcta e muito honesta. Aliás, aquilo que eu falei sobre a Bossa, de não ter necessidade de letra, apenas o ouvi de outra pessoa – Vinicius de Moraes. Ele um dia afirmou que “a Bossa era o canto puro e solitário de João Gilberto, indefinidamente trancado no seu apartamento, arrancando das cordas do seu violão as harmonias e os acordes dissonantes.” O Vinicius era muito inteligente. Olha a facilidade dele, uma facilidade única de fazer o trânsito entre a linguagem e a língua. Quer dizer, ele pensava de modo preciso e correcto, e encontrava a palavra precisa e correcta que correspondia a esse pensamento preciso e correcto. É essa química. A minha admiração por ele sempre foi muito grande. Aí, quis o destino que eu fosse o quê? Professor de Literatura. Então, usei e abusei de textos de Vinicius de Moraes. Criei muita proximidade. Vira parente. Tenho saudades da minha mãe, do meu pai, do Vinicius... (risos) Daí, eu escrevi trabalhos, porque sempre pretendi que o Vinicius de Moraes chegasse aos segmentos mais populares da sociedade, porque estava trabalhando sobre alguém muito relevante no meu segmento, nada mais. Então, em 1993, ele faria oitenta anos, e, por coincidência, a Toca é de 1993, o Ronaldo Bôscoli, e

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de Julho de 1958, com a gravação do 78 rpm Chega de Saudade. Olha só, quando a Bossa Nova vem à luz documentalmente, já havia um prenúncio, já havia um tô chegando na área, através de quê? Da pausa! Foi a primeira coisa que surgiu daquilo que estava nascendo. Exactamente a pausa. Tal a importância! É um componente do quadro estético da Bossa Nova.


isso ocupa uma página inteira da biografia dele, “A Bossa do lobo”, me convidou para fundarmos juntos a Casa da Bossa Nova.

Ronaldo Bôscoli que foi um dos líderes da Bossa Nova. Eu diria que ele e Aloysio de Oliveira foram os dois grandes líderes. O Aloysio, fundador da editora Elenco, mais empresarial, mais organizado, mais produtor, e o Ronaldo mais ativo, mais passeata, mais sociedade, mais eu. (risos) Com um detalhe, o Ronaldo era um cara muito culto, um letrista extraordinário.

O letrista do Rio.

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Sem dúvida alguma. Só a canção dele “Rio” (e Carlos trauteia: “rio que mora no mar, sorrio pro meu Rio...”), essa canção tem, dentre as canções laudatórias da cidade, o acervo de imagens, o mais rico de todas. “Rio que não dorme porque não se cansa.” Puta que pariu! “É sal, é sol, é sul...”. Você sabe o que é isso? Você sabe onde é que ele foi pegar isso? A Oswald de Andrade, o futurista. Estou falando do movimento modernista no Brasil, no princípio do século, dentro do qual o Oswald desenvolveu a antropofagia. A antropofagia consistia em quê? Em comer os valores existentes, que, no caso, eram os valores europeus. Então a proposta dele era devorar, simplesmente acabar com a primazia da tradição europeia no comportamento literário. O momento era o momento da América, e não mais da Europa. Era o novo, no continente novo. Então, em determinado momento, Oswald de Andrade, arrebatado, diz assim: “América do sol, América do sal, América do Sul.” O Bôscoli, muitos anos depois, vai consubstanciar isso na cidade do Rio de Janeiro: “Rio (...) é sol, é sal, é sul.” Inspiração? Inspiração, o cacete. Ele simplesmente tem uma bagagem de cultura académica gigantesca, e ele foi buscar aquele fresco na cabeça dele para atribuir ao Rio a consubstanciação daquela fórmula. Mas regressemos então a 1993 e ao convite de Ronaldo Bôscoli para fundarmos a Casa da Bossa Nova. Ele disse para mim: “Você é professor.”, e aí ele usou aquela modéstia vaidosa, “Eu manjo um pouquinho de show.”, modéstia vaidosa porque ninguém manjava tanto quanto ele, e ele sabia disso, “Vai ser muito bom, porque você entra com essa parte de palestras e eu com a organização de alguns shows. O que é que você acha?” Eu, extasiado, respondi: “Estou encantado, porque, de certa forma, isso é o desdobramento das coisas em que eu acredito. Significa interagir com a sociedade. Eu estou maravilhado, e, por isso, diria já “Eu topo!”, mas quero conversar em casa,

e depois te digo”. Mas, aí, saí de lá e fui conversar directo com o Prefeito da cidade, o César Maia, grande protector da Bossa Nova, e expliquei a ideia. Ele disse: “Carlos Alberto, a ideia é ótima, e eu vou colocar você falando com o Director do Património da Cidade para ver se tem um imóvel disponível. Se não tiver nenhum disponível, então, faremos o seguinte: eu vou negociar com o Estado ou com a União uma permuta, porque a ideia é maravilhosa. Isso é Rio de Janeiro”. Fui falar com o Director do Património, analisámos uma lista de imóveis municipais, e não havia nada de nada. Aí, continuámos procurando, e surgiu uma coisa que estava no Arpoador, mas não deu em nada. Entretanto, conversei com a minha mulher e os meus filhos, e expliquei que queria fazer uma pequena livraria com discos, voltada para a música e, naturalmente, focalizando a Bossa Nova, e que tinha de dar uma resposta ao Ronaldo Bôscoli. Mas teria um detalhe, eu não tinha como ficar a tempo inteiro porque ainda dava aulas. O conceito seria meu, a direcção seria minha, mas precisava da ajuda deles, e eles aceitaram revezar-se. Então, fui falar com o Ronaldo e expliquei-lhe: “Vamos fazer, mas não uma casa. Se crescer vira casa, mas se não crescer não faremos papel feio. Vai ser a Toca da Bossa Nova”. Ele riu e disse: “Faz o que você quiser”. Aluguei uma lojinha neste quarteirão, na Visconde de Pirajá nº318, e decidimos inaugurar em Setembro, porque seria próximo do final do ano, e eu precisava vender para manter o espaço. Ficou uma gracinha. Pequenininha, 12 metros quadrados, do tamanho de um banheiro de casa de rico. Acontece que, no dia 14 de Abril, eu ia fazer uma palestra, lá em Bom Sucesso, e vejo no Caderno B, do saudoso Jornal do Brasil, uma página inteira com a seguinte manchete: “Quem salvará o ano do poeta?”. Falta de patrocínios para comemorar os oitenta anos de Vinicius de Moraes, e uma proposta - o lançamento de um movimento chamado SOS Vinicius. Aquilo me deprimiu barbaramente. Eu não li a matéria toda, dobrei o Caderno B, corri para o orelhão e liguei para casa de Sérgio Cabral Pai. Quando o Sérgio Cabral prefaciou o meu livro, ele me contou que, quando era vereador, requereu, na Câmara Municipal, o título de Cidadão Benemérito Post-Mortem para o Vinicius de Moraes, e isso me emocionou por várias razões, mas, sobretudo, pelo mérito, porque isso era a cara do Vinicius, a maior comenda que ele podia receber: ser cidadão benemérito dessa cidade que nós amamos, muito, muito, muito, como a uma pessoa. Só que teve um problema, o Tribunal de Contas requisitou o Sérgio Cabral, ele interrompeu o mandato, e o requerimento foi arquivado. Isso nunca me saiu da cabeça. Naquele momento, eu li, corri para o orelhão e falei com ele. Ele já


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tinha lido e perguntou como podia ajudar. Eu perguntei-lhe se ele me autorizava a pedir ao Saturnino Braga, que era vereador, para desarquivar aquele requerimento. O Sérgio Cabral vibrou e mandou avançar. Fui para a Câmara Municipal, falei com o Saturnino, que disse: “Estou dentro”. No dia 19 de Outubro de 1993, dia do aniversário do poeta, à noite, a Câmara Municipal, da cidade dele, estava lotada (Carlos emocionado) com artistas, dois ônibus de alunos meus, da escola pública, e muito mais gente para homenagear Vinicius. Então, o Saturnino me preparou uma surpresa maravilhosa, porque me condecorou com a Medalha Pedro Ernesto, a mais alta condecoração do Município do Rio de Janeiro, e me pediu para que eu proferisse a palestra da noite, e eu conduzi toda a cerimónia. Chico Alencar, Baden Powell... Enfim, foi maravilhoso. Vinicius de Moraes, cidadão benemérito da sua cidade, a cidade que ele amava. Uma emoção muito forte. A outra forma de contribuição foi a decisão, tomada familiarmente, de mudar o nome de Toca da Bossa Nova para Toca do Vinicius. Não foi uma decisão facilmente aceite. A minha mulher, descendente de uma família de comerciantes e com uma visão comercial aguçada, perguntou-me: “Meu bem, você tem certeza disso?” “Tenho.”, respondi. “Porquê?”, questionei. “Porque quando você falou no nome Toca da Bossa Nova eu achei perfeito, porque reunia todos os autores da Bossa, Carlos Lyra, Tom, João Gilberto, Pery Ribeiro, Menescal, Leny Andrade, e tantos outros. Já pensou quantos nomes tem por trás desse nome, quantos milhares de fãs de cada um deles? Agora Vinicius? Nem Drummond”. Ela tinha razão. Nesse mesmo ano, tinha saído um livro (Carlos vai pegar o exemplar em questão, memorialista como é, e mostranos o célebre “3 Antônios e 1 Jobim” de Zuenir Ventura) que reproduz uma conversa entre quatro Antônios, barra-pesada, Antonio Candido, Antonio Callado, Antônio Houaiss e Antonio Carlos Jobim, os maiores intelectuais brasileiros. O livro é uma reprodução, não é uma paráfrase, ele gravou e reproduziu os diálogos. Isto em 1993, só para que você tenha uma ideia do significado do nosso poeta amado, naquele momento, quando eu fiz a Toca. (Carlos procura no livro o trecho que quer reproduzir, e começa, com voz pesarosa): “Antonio Candido: No momento Vinicius não está bem junto à crítica, digamos que ele não está na moda.

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Antonio Callado: Claro que não está. Antonio Candido: Não está na moda, mas eu acho uma grave injustiça.”

Então, naquele momento, de facto, Vinicius não era conhecido, a não ser por um círculo muito restrito de pessoas. A Companhia das Letras estava, ainda, adoptando a obra do Vinicius. Ele não tinha uma distribuição organizada, não chegava ao grande público. Ele chegava a nós, ao nosso segmento. Entendeu? A Companhia das Letras estava pegando na obra dele para fazer essa loucura maravilhosa que tem feito ao longo desses anos. Uma semana depois da Toca do Vinicius nascer, em 27 de setembro de 1993, (mais uma vez, Carlos busca, nas prateleiras da sua extraordinária biblioteca particular, o exemplar que quer mostrar) no dia 7 de outubro, eu ganhei esse presente, capa dura, já Companhia das Letras, com a seguinte dedicatória: “Amigo Carlos, sem você, tenho a certeza de que não seríamos ninguém, como dizia o poeta. Toda a gratidão pelo seu empenho e dedicação ao poetinha. Com carinho de seus filhos e principalmente de sua filha Luciana de Moraes.” Então, aqui, foi uma grande pedreira. Com o passar do tempo e os lançamentos que a Companhia das Letras foi fazendo da obra do poeta, Vinicius passou a ser mais fácil de carregar. Mas no início, no momento daquele artigo do Caderno B do Jornal do Brasil, não foi fácil. Mesmo assim, em 2008, tive necessidade de colocar na entrada uma faixa grande dizendo: “Bossa Nova”, porque Vinicius é poesia, e eu cansava de sair daqui de dentro, onde ouço os comentários de quem está na porta, para explicar que aqui não era só Vinicius, também tinha os outros, João Gilberto, Tom, Lyra, Menescal, todos. E foi em 2008, porque coincidiram, os 15 anos da Toca e o cinquentenário da Bossa Nova. Nesse ano, aluguei um colégio e organizei um Congresso, de 30 horas de atividades, naturalmente com um primeiríssimo team, Ruy Castro, Ricardo Cravo Albin, Tárik de Souza, e mensagens e depoimentos dos maiores da Bossa. A história é essa. Foi assim que nasceu a Toca. Mas nada disto existiria sem a genialidade de João Gilberto. Ele está acima de todos. É o nosso maior património.

No passado dia 8 de Julho, Carlos Alberto Afonso juntou-se a amigos, artistas e fãs de João Gilberto, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, para homenagear o seu ídolo pela última vez, cantando “vai minha tristeza...”


Coura sem Paredes Uma vila aberta ao Mundo por João Moreira

Bruno Esteves

São onze horas de uma manhã solarenga de Verão, quando chegamos aos Paços do Concelho da Vila de Paredes de Coura. Por todo o lado, reminiscências de dias de festival. Ruas, cafés, restaurantes, praças e, claro, o rio, serpenteando por entre o arvoredo, guardião permanente do anfiteatro verde onde, há 26 ininterruptos anos, uma imensa minoria se aglomera para ouvir, ver e sentir, a sua música. Vítor Paulo Pereira, actual Presidente da Câmara da pequena vila do Alto Minho, foi um dos jovens fundadores do Vodafone Paredes de Coura, e é por ele que aguardamos, numa sala de espera, virada à Igreja Paroquial de Santa Maria, que aos poucos se vai enchendo de munícipes. Quando assoma à porta do seu gabinete, sorriso rasgado, todos os presentes se levantam e o cumprimentam “Bom dia Vítor Paulo.” “Ui, tanta gente à minha espera”, dispara num sotaque acentuadamente minhoto. “Já vos ofereceram um cafezinho?”, questiona, enquanto distribui beijinhos e apertos de mão. “Deixem-me só ir lavar as mãos. Tive uma avaria no carro e estive a fazer de mecânico.” Os munícipes riem-se e Vítor Paulo aproveita para nos fazer sinal para o acompanharmos.

O mote estava dado para uma conversa quase em sentido único - o das histórias que fizeram do Vodafone Paredes de Coura o mais mítico dos festivais nacionais. E se alguém as sabe contar, é o nosso anfitrião.

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“Então querem falar do festival?”, diz, mal nos sentámos, com uma afabilidade arrebatadora. “Vou só lavar as mãos e buscar umas águas, e já começamos.”


Como é que o Presidente da Câmara de Paredes de Coura definiria o impacto que o festival, que ajudou a fundar, tem no município que lidera? O Vodafone Paredes de Coura veio contrariar aquele discurso reivindicativo da geografia. Não estou a dizer que esse discurso, muitas vezes, não seja justo e pertinente, mas o festival veio mostrar que aquilo que pode acontecer de bom numa terra, não tem necessariamente a ver com a geografia ou com a proximidade ao centro, neste caso, Porto e Lisboa. Está mais relacionado com as pessoas. Veio contrariar esse discurso determinista da geografia, que associa a interioridade ao subdesenvolvimento, e veio mostrar que um evento cultural é tão importante como qualquer outra empresa. Para mim, o festival de Paredes de Coura é uma empresa, é uma indústria, só que não tem paredes nem telhado. É uma indústria que gera dinamismo económico, que gera retorno económico, e que traz riqueza para a terra. É uma indústria como a Akwel, a Doureca ou a Fly London, mas, enquanto essas indústrias criam postos de trabalho, o festival, que também cria dinamismo económico, traz um chapéu de modernidade, de espírito positivo e de optimismo que, depois, contagia os outros sectores de actividade. Gera um espírito contagiante de optimismo, de futuro, de crença na possibilidade de fazer coisas extraordinárias nas terras mais afastadas de Lisboa, ou nas terras mais inesperadas, que acaba por se alargar aos outros sectores de actividade. Quando os festivaleiros chegavam a Paredes de Coura, achavam que a vila era o festival. E, depois, durante o ano, o vento sentia-se no meio das ruas (risos), vivia-se a melancolia das folhas de outono a cair nas pedras. Porventura, teríamos um prato gastronómico típico, que atraía um ou outro turista, ao fimde-semana, que aproveitaria para visitar o local do festival sem pessoas, revivendo, com nostalgia, os bons momentos do Verão. Paredes de Coura não é isso. Também é indústria, também é actividade cultural. Há, aqui, uma cadeia de modernidade, que tentámos transmitir no site Coura sem Paredes, que mostra que, de facto, sendo o festival o coração que bombeia sangue para todo lado, depois, há outra realidade.

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Agora, como é que as coisas surgiram? Ao contrário do que as pessoas pensam e do que acontece habitualmente com a generalidade dos projectos industriais ou projectos económico-financeiros, que nascem de uma forma muito pensada, estruturada, eu diria de uma forma muito rígida...

...com um plano de negócios.

Aqui, não houve plano (risos). Pelo contrário. Por isso é que o festival obteve tanto sucesso. Porque é que não havia plano de negócios? Porque nós, nas primeiras edições, e, quando digo primeiras edições, digo para aí até à 13ª, 14ª, misturávamos a emoção com o negócio. Acontecia, muitas vezes, termos o festival completamente equilibrado, e, para aí a um mês do início, aparecia uma banda de que gostávamos muito, e que, naquela altura, custava 200 mil euros, e contratávamos. E isso, muitas vezes, implicava um fracasso financeiro. Enquanto para o público em geral, para a imprensa e para os meios de comunicação, era o melhor festival de sempre, para organização, do ponto de vista financeiro, era um flop.

Dê-nos um exemplo. Em 2005, que foi um ano maravilhoso para o festival, quando o cartaz já estava mais que fechado, completamente equilibrado, com os headliners definidos, contratámos bandas, bandas e bandas em cima de bandas, porque queríamos que fosse extraordinário, pois o ano anterior tinha sido traumatizante por causa da chuva. O festival não deu prejuízo, mas correramse riscos completamente desnecessários. Basta ver os cabeças de cartaz, Arcade Fire, Nick Cave, Pixies, Queens of the Stone Age, The National, para perceber que era um cartaz de luxo. No entanto, apesar do retorno económico ter sido positivo, foi completamente irrelevante. Quase que não dava para pagar as contas do telefone (risos). A posteriori, se fizermos uma análise, num festival em que se investem, imaginem, três milhões, obter um retorno de sete mil euros é uma loucura. Não faz sentido. No entanto, foi esta mistura de emoção com negócio que levou à afirmação do festival. Porque acho que se não houvesse essa loucura, essa coragem, essa emotividade, naturalmente o festival não teria crescido até à dimensão que tem hoje. Outra coisa determinante para a afirmação do festival foram as pessoas que o iniciaram. Não eram pessoas com um perfil habitual, conservador, de fato e gravata, pelo contrário, era malta com muito sentido de humor e, muitas vezes, ingénua, e isso ajudou ao reconhecimento da genuinidade do festival. Para perceberem melhor, tivemos sérias dificuldades em deixarmos de ser nós a transportar as bandas, deixarmos de ser nós a alojar as pessoas nos hotéis, porque queríamos fazer tudo, até ajudar na produção. Até ao sexto festival ainda éramos nós que ajudávamos a montar o palco. Só a partir de certa altura, em que surgiu a necessidade de mais rigor, de mais organização, é que algumas pessoas de


Como é que quatro “miúdos”, o Vítor, o João Carvalho, o José Barreiro e o Filipe Lopes, conseguiram convencer o Presidente da Câmara da altura a fazer um festival de rock? E como foi a aceitação por parte das pessoas da vila? Antes de falar na aceitação, deixem-me fazer dois sublinhados ao que já disse, para que as pessoas percebam. Em primeiro lugar, o festival cresce, numa primeira fase, misturando emoção com negócio, o que parece não ser mau, até porque já há coaches que ensinam isso mesmo (risos). Em segundo lugar, foi feito com muita ingenuidade. Nem vos conto as histórias de ingenuidade e infantilidade, que são maravilhosas.

Essas é que queremos ouvir (risos). Por exemplo, fomos alojar os Tindersticks numa casa de turismo de habitação, que era um Paço Senhorial, e faltava um quarto para uma pessoa que os acompanhava. Enquanto eles estavam a comer, eu e o Filipe tentámos passar com um colchão, por detrás da mesa, sem sermos apanhados, mas o tour manager olhou para trás, viunos, e diz ao Stuart Ashton Staples: “Vai ali a tua cama” (risos). Coisas que, hoje, não faríamos. Outro exemplo: no início, éramos nós que íamos levar e buscar as bandas ao recinto, mas, às vezes, o cansaço era tanto que nos esquecíamos de ir buscá-las, e, algumas delas, ficaram lá até de manhã, à espera da carrinha. Há histórias do arco-davelha (risos).

Então, o festival cresce com emoção, com conhecimento, obviamente, mas também com muita ingenuidade, às vezes, com algumas infantilidades, com aquilo que é característico da natureza humana e a que eu gosto de chamar o toucinho, porque as pessoas boas também têm de ter um bocadinho de toucinho, que é aquele lado do erro, da imperfeição, o lado da gordura que dá mais sabor ao resto da peça da carne (risos). Mas, regressando à pergunta sobre a aceitação das pessoas, convém recordar que Paredes de Coura já tinha tido dois festivais de rock na década de 70, em 76 e 78, no campo do Sporting Clube Courense, com as melhores bandas nacionais da altura: os Very Nice, os Arte & Ofício, os Tarântula, e muitos outros. Eu lembro-me de estar na festa da Senhora da Pena, com o meu pai, e sentir-se, lá em baixo, a rockalhada a roncar, como diziam os velhos. Até aconteceu um episódio engraçado: um velho castiço, que era emigrante na Alemanha, para gozar, veio ter connosco com um bocadinho de musgo na mão, e diz ao meu pai: “Eugénio, tenho aqui liamba. Queres ir comigo lá abaixo ao festival rock?” (risos). Por isso, essas duas primeiras edições foram muito importantes, porque abriram portas. O antigo Presidente da Câmara, que se chamava António Pereira Júnior, tinha participado nesses dois festivais, e, quando fomos ter com ele a dizer que queríamos fazer um festival na praia fluvial, penso que, se ele não tivesse tido aquela experiência dos dois antigos festivais, tinhanos mandado dar uma volta. Mas apoiou. O palco foi montado pelos carpinteiros da Câmara, e deu-nos, na altura, cento e oitenta contos. Com essa ajuda, o primeiro festival fez-se. Aquilo parecia um arraial da Senhora da Pena, porque havia muita malta nova, mas também muitos velhinhos que levavam aquelas cadeiras de praia para se sentarem (risos). A verdade é que teve muita gente. Aí pensámos: se teve tanta gente, porque não fazer a segunda edição? E até ao quarto ano foi simples. Era só trazer as melhores bandas independentes portuguesas, que estava garantido. Quando se colocou o problema da internacionalização, houve muita malta que disse que isso era enveredar pelos festivais capitalistas, que o nosso festival não era capitalista, que isso ia obrigar a trazer marcas, sponsors, que iriam querer mandar no festival, e para aí metade da malta foi embora. O nosso idealismo era tão bacoco que eu vou contar uma história que, para mim, é paradigmática da nossa infantilidade e, agora acrescento, da nossa burrice (risos).

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Paredes de Coura e outros amigos nossos do Porto e de Braga começaram a participar na estrutura. Mas, ainda hoje, a estrutura é constituída por pessoas que trabalham desde as primeiras edições. Dou-vos o exemplo mais flagrante do José Orlando, que está a trabalhar connosco desde tempos imemoriais, e que, agora, gere uma parte importante do festival. Mas quando falo no José Orlando, podia falar de outros que acabaram por fazer parte da estrutura a tempo inteiro. Também, nesse sentido, o festival foi muito importante, porque deu conhecimentos às pessoas, que se reflectem nas actividades que desenvolvem no dia-adia. Por exemplo, na Câmara, estamos muito mais à vontade para organizar eventos, porque temos muitos courenses que colaboram no festival, e estão habituados a lidar com artistas, com marcações de hotéis, com a produção. Por isso, o festival, além de eu dizer que é uma empresa, é também uma escola de aprendizagem. E isso é muito importante, porque acaba, de forma simples e silenciosa, por trazer uma nova dinâmica ao território.


O José, o Filipe e o João foram a Lisboa negociar com uma cervejeira, e, pela primeira vez, tivemos um patrocínio decente. Não sei se foi para aí 15 mil euros, porque no início davam para oitenta barris de cerveja, e está caladinho (risos).

E ainda tinham de comprar os copos (risos). Pois tínhamos (risos). E o que foi engraçado foi que eles foram lá negociar, e eu não fui, por um motivo qualquer. Então, quando chegaram, vinham todos contentes. Eu estava ansioso por ver a proposta de cartaz, para ver se era bonito – e por acaso foi dos cartazes mais bonitos de todos, um girassol que é uma coluna de som – mas eu só me fixei no logótipo da marca de cerveja, e disse-lhes: “Não pode ser. O logótipo da marca de cerveja está enorme. Temos de diminuir, senão as pessoas vão pensar que o festival é comercial. Já viram este símbolo? É o símbolo do capitalismo.” E eles: “Hello!!!! Eles estão a pagar isto, pela primeira vez.” E eu continuava: “Se for preciso devolvemos o patrocínio. Senão vou-me embora.” Estivemos para aí quatro horas a discutir, porque eu queria reduzir o logótipo da marca que estava a pagar o festival ao tamanho de uma caganita de mosca (risos). Não pode ser. Quatro horas a falar da penetração do espírito capitalista no festival? Quatro horas a ponderar se me ia embora por causa do maior patrocínio de sempre? Uma loucura.

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Como foi a aceitação da população? Eu diria que, no início, foi um processo de aculturação. Havia pessoas, até de mais idade, com mente aberta, que eram capazes de dizer: “Têm cabelo grande, e têm brinquinho, mas um deles disse-me que era médico”. Outros diziam: “Eles vestem de forma estranha, mas têm cursos bons”. Mas também havia outros que diziam: “Cuidado que vem de Lisboa um autocarro de skinheads para bater nas pessoas, e vão partir isto tudo” (risos). Havia de tudo, e histórias maravilhosas. Eu, na altura, organizava o festival de jazz, e um senhor, ali da zona de Formariz, aparecia todos os dias no recinto, ou com uma enxada às costas, ou com uma picareta, ou com outra alfaia agrícola. Houve uma vez que me apareceu lá com uma foice, e eu pensei: “Este gajo bebe uns copos e ainda corta aqui a cabeça a alguém.” E fui perguntar a um amigo meu, que o conhecia, porque é que aparecia sempre ali com uma alfaia agrícola, e ele explicou-me: “É que a mulher não o deixa vir ao festival. Então, ele diz que vai trabalhar para o campo, agarra numa alfaia agrícola e vem ouvir o jazz na relva” (risos). Estás a imaginar o Carlos Bica a tocar, com um gajo com uma foice, à frente?

Havia coisas muito insólitas. Mas isto faz tudo parte desse processo de aculturação, desse processo de socialização e, até, de um processo de conhecimento mútuo. Para essa aproximação entre a população e os festivaleiros, também contribuiu muito o enorme respeito que existia de parte a parte e da parte da organização para com todos. Por exemplo, se sobravam barris de cerveja, mandávamos abrir no final do festival os bares até esgotarem. Havia autênticas festas no fim do festival (risos). Por outro lado, o facto do festival acontecer muito próximo da vila facilitou esse processo de socialização. Um amigo meu, que me deixou eterna saudade, que era lá da minha aldeia, gostava de ir ver os grupos. Só que ficava um bocado receoso para se chegar à frente, e, por isso, ia comigo. Estava sempre a fazerme perguntas, porque, para uma pessoa que vivia na aldeia, aquilo era uma coisa do outro mundo. Estava sempre a dizer: “Isto é muito grande! Tem mais gente que a festa da Nossa Senhora do Livramento”, que era uma festa popular que acontecia perto do festival. E estava sempre a fazer-me perguntas, muito curioso, sobre quanto custava o palco, quanto custavam as bandas. Ele não dizia as bandas, dizia os conjuntos. E, como estava sempre a insistir, eu respondi que dependia, uns custavam 100 mil euros, outros 200 mil euros, e alguns até ultrapassam os 500 mil euros. Então, ele olha para mim e diz assim: “Opá, eles ganham tanto dinheiro, ao menos podiam tocar de fatinho” (risos). Era tão meu amigo... já morreu. Mas tenho outras histórias. Por exemplo: ele andava sempre comigo, porque se sentia mais protegido, mas, às vezes, eu também queria alguma liberdade, e deixava-o no palco secundário, onde já tocavam bandas estrangeiras. Depois de duas horas, ia ter com ele, e encontrava-o a falar com ingleses, quando ele não falava uma palavra de inglês (risos). Em amena cavaqueira com o inglês (risos). A primeira vez que fui levá-lo a casa, quando se estava a despedir, disse: “Gostei muito, para o ano quero ir outra vez”. Muito bonito. O festival tem destas coisas engraçadas e cria proximidade com as pessoas. Esta ideia, que partiu da organização, de colocar o bilhete com 50% de desconto para os residentes de Paredes de Coura foi uma óptima ideia, e cada funcionário da Câmara tem direito a um bilhete. Isso demonstra uma preocupação com a comunidade.

Isso também só foi possível porque os fundadores do festival eram courenses. Sim, essa ligação foi importantíssima. Mas esta preocupação com a comunidade também permite exigir algum grau de


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As escolhas das bandas eram feitas pelos quatro? Sim. E vamos ser verdadeiros. Houve uma altura, eu diria até 2002, em que, apesar de edições que considero de grande critério, de grande rigor, houve outras menos conseguidas. Havia um mecanismo de compensação. Se apostávamos num cartaz muito bom, independente, e perdíamos dinheiro, na edição seguinte tínhamos de ser mais comerciais, para compensar o que gerou algumas escolhas censuráveis.

Um exemplo. Sei lá, Papa Roach. Os putos gostavam de metal, mas nós não gostávamos. Aquilo, para nós, era como comer uma posta que era aparentemente muito saborosa, mas depois metias o garfo e era dura. A partir de, sobretudo 2003, o festival começou a ter um editorial. As escolhas eram feitas por nós, embora dependessem da disponibilidade das bandas e das tournées. Mas assumimos que, a partir daí, ia ser um festival de música indie. Inicialmente perdemos alguns espectadores, sobretudo os miúdos que gostavam do metal, mas ganhámos respeitabilidade. Nasceu o Couraíso. Coura passou a ser um lugar para se ouvir música, o lugar para apresentar bandas novas, o lugar onde, às vezes, se ouvia música mais difícil. O que é que isto permitiu? Que passássemos a estar menos expostos às variações de cartaz, porque as pessoas já olhavam para o Festival de Coura como um evento cultural, como algo que passou a fazer parte do seu Verão, das suas férias.

O festival que haveria de mudar para sempre a forma de ouvir, ver e sentir, a música em Portugal. Isso mesmo. Eu acredito que há muitas pessoas que acham que, aqui, há um espírito único, genuíno, verdadeiro, onde é possível viver emoções, partilhar momentos. E todos nós temos a necessidade de regressar à

terra onde fomos felizes (sorriso rasgado). Isto pode parecer marketing, mas é mesmo verdade. Passou a ser um ponto de encontro. Tenho amigos, muitos deles jornalistas e músicos, que se encontram todos os anos aqui. Passou a fazer parte das nossas vidas. E tem outra coisa – raiz. Não há nenhum Courense, quer esteja a estudar design em Nova Iorque, quer esteja a trabalhar em França, quer viva no Canadá, quer trabalhe na mais recôndita terriola dos confins do mundo, que não venha a Paredes de Coura durante o festival. Podem ir para o Algarve, podem até ir para o Dubai, mas, durante uma semana, toda a gente de Paredes de Coura, que gosta de música e que tenha cá família, vem a Coura. O festival é o cordão umbilical de todos os courenses que estão na diáspora, que estão espalhados pelo mundo. E isso cria identidade, sentido de pertença. Tenho amigos, que estão em cargos de grandes empresas, na comunicação social, que nasceram em Trás-os-Montes e perderam as raízes. Os courenses, por causa do festival, nunca as perderam. Claro que, com o crescimento, com a profissionalização, o carácter muito espontâneo do festival tem vindo a desaparecer. Hoje já não é possível ver os Divine Comedy a tirarem finos para a malta (risos). Tornou-se mais profissional, e ainda bem, mas, com isso, perdeu alguma graça (risos). Ainda há muita coisa divertida e espontânea. Da última vez que cá tocaram os Franz Ferdinand, o Alex Kapranos passeavase, de calções e robe com uma cerveja na mão, durante o after-hours. Ainda é possível ver bandas, durante a tarde, no rio, naqueles barcos de plástico, de um lado para o outro. Às vezes, ponho-me a imaginar as bandas, a saírem da auto-estrada e a fazerem aquele caminho sinuoso até à vila, depois, a descerem até ao backstage, que já é num local improvável, e a entrarem em palco, naquele anfiteatro incrível, a três metros do público, com uma multidão alucinante por aquela encosta acima. É impossível não ficarem abismadas e não terem uma relação corporal, uma relação afectiva com o público. É uma coisa de outro mundo. Sabem que já se pensou em mudar o local do festival? Mas isso seria matá-lo. O lugar é aquele. Mudar implicava perder a identidade. E o festival de Coura não é para ser grande, é para ser bom. Por isso, apesar dessas mudanças, o ambiente continua a ser contagiante, as pessoas misturam-se e têm um enorme respeito, umas pelas outras. Eu costumo dizer que as pessoas quase se amam. Aliás, algumas amam-se mesmo (risos).

A sua experiência na organização do Festival ajudou-o no desempenho do cargo de Presidente da Câmara?

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profissionalização, porque isto, no início, era um filme. Os bares, cafés e restaurantes deixavam acabar o stock. Chegava-se a sábado à tarde, e já não havia cerveja. Era uma confusão. Agora já se abastecem. Isto contado, ninguém acredita, porque a malta pensa que nós éramos todos formados em gestão de empresas, mas éramos formados em gestão de emoções ou em gestão de bondade. Quando nos convidam para tentar explicar como é que o Festival Paredes de Coura cresce, a maior parte das pessoas está à espera de explicações profundas, rebuscadas, com actos de administração. Nada disso, aquilo é humanidade pura.


Ajudou muito. Apesar de, nesta entrevista, dar a ideia de que era tudo muito improvisado e amador, a verdade é que era muito exigente. Foi necessário aprender a lidar com bandas estrangeiras, com dificuldades financeiras, com os capitalistas (risos), e isso deu-me uma capacidade de gestão, de relacionamento interpessoal muito grande, que foi essencial ao meu desempenho enquanto Presidente. A decisão política é sempre feita com base em informação técnica. Obviamente, eu chegava aqui e perguntava, muitas vezes, sobre determinadas áreas. No início, deviam pensar que eu era burro, porque estava sempre a perguntar. Mas há uma coisa que aprendi no festival: para uma boa decisão, temos de compreender o assunto. Esse à vontade de perguntar, que pode, aparentemente, significar fragilidade, traz bons resultados e traz uma cultura da pergunta, que eu acho essencial para a tomada de boas decisões políticas. Há hierarquias, há exigência, mas há um relacionamento informal com as pessoas e isso também ajuda muito. O festival deu-me um conjunto de armas essenciais ao meu desempenho na Câmara. Acho que todos os presidentes de Câmara deveriam passar um ano na organização de um festival, porque, lá, há de tudo.

O festival também trouxe uma dinamização turística à vila e à região. Exactamente. Há presidentes de Câmara que ainda não perceberam algo de essencial, que se devem fazer coisas para fora, coisas internacionais e ter paciência para que se afirmem, porque, muitas vezes, nas Câmaras, não há paciência para que um evento cresça, medre, engorde. É importante traçarmos um caminho, arriscarmos, termos coragem de ousar e fazer coisas difíceis. Eu gosto muito de uma frase do Walt Disney, que é, mais ou menos, assim: “Eu gosto do impossível, porque lá a concorrência é menor”. É uma grande verdade. Depois, é preciso compreender aquilo que é único em cada lugar e potenciar isso para o mundo. O Torga dizia, e é verdade, “o universal é o local sem paredes”. Mesmo na aldeia mais escondida do interior do país, é preferível fazer coisas boas, abertas para o mundo, do que fazer coisas para consumo interno. Não tenho paciência para isso.

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Paredes de Coura é um bom exemplo. Quem imaginaria que, em 1993, com acessos difíceis, sem auto-estradas, era possível criar um evento que se tornaria global? É verdade. No início, as bandas perdiam-se e telefonavam-nos do meio do caminho. Até há uma história engraçada, a propósito disso, que se passou com os Cosmic City Blues. Eles estavam a caminho de cá, e, ao invés de

virem pela estrada normal de Ponte de Lima, vieram por Braga, pelo interior de Vila Verde. E há ali uma terra com um nome curioso. Então, liga o Jorge Coelho, que era o guitarrista, e eu pergunto: “Onde estás, Jorge?”, e ele responde: “Estamos a passar Corvos Anais”. Foi gargalhada geral.

Qual foi a grande marca que o festival deixou na vila? A ligação à terra, às raízes. O orgulho de ser courense. Não é possível construir projectos de desenvolvimento sem que as pessoas gostem verdadeiramente da sua terra. Há terras, há localidades, sejam cidades ou vilas, que têm problemas de desenvolvimento, não porque nessa terra não exista inteligência, não exista seiva criativa, mas porque não há identidade, não há amor, não há orgulho e não há projectos de desenvolvimento que se construam, ou que sejam possíveis, sem essa afectividade, sem esse orgulho.

Esse orgulho de ser courense reflecte-se na fixação de população, sobretudo dos mais jovens? Os autarcas devem preparar projectos culturais


Quais são os grandes desígnios do Município, além desse, de mudar o paradigma da indústria existente? É importante diversificar o tecido empresarial, com o objectivo de captar emprego para mão-

de-obra qualificada, criar emprego com maior formação. Convém recordar que, há trinta anos, o Alto Minho não tinha indústria, e, agora, é uma das regiões mais industrializadas do país. E isso acontece debaixo de um chapéu de modernidade. Porque não podemos ser só industrializados, temos de conciliar indústria com natureza, e com cultura. 60% do território de Paredes de Coura faz parte da Rede Natura. Graças ao festival, começam a surgir projectos turísticos, nomeadamente um grande hotel que vai surgir em Paredes de Coura, no antigo hospital psiquiátrico, ligado à alimentação cuidada, ao yoga, ao mindfulness. E se não houvesse esta dinâmica do festival, se não houvesse indústria, se não houvesse oferta cultural, nada disto era possível. Eu olho para a indústria como olho para o festival, olho para a cultura como olho para a escola. A oferta cultural que temos em Paredes de Coura é tão importante como a escola. A escola é currículo, a cultura é arte, é emoção. E nós queremos que os miúdos sejam competentes do ponto de vista curricular, mas queremos que sejam igualmente competentes no domínio das emoções, das relações interpessoais, do conhecimento da arte, porque, quando forem a uma entrevista, terão um melhor desempenho.

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e educacionais para formar os mais pequenos e os jovens, para que estes possam ter a opção, mais tarde, depois de obterem uma formação, de ficar ou de sair. Eu não sou adepto de fixar as pessoas à terra. Defendo a criação das condições de desenvolvimento que permitam a escolha. O desenvolvimento de Paredes de Coura assenta, sobretudo, na indústria automóvel e na indústria do calçado. Estamos a tentar mudar o paradigma de investimento, e acho que vamos conseguir, atraindo empresas mais modernas, pequenas empresas de cariz tecnológico. Mas, para conseguir fixar licenciados na área das novas tecnologias, é necessária uma oferta cultural diversificada. Isso é perfeitamente possível, debaixo do chapéu do festival, debaixo de uma programação cultural anual, com cinema, com teatro, com música. Com essa oferta, é perfeitamente possível convencer um jovem a sair da Universidade do Minho, ou da Universidade de Aveiro, para vir viver para Coura dois anos.


Feeling Alive por Gustavo Homem

Hugo Macedo

Foi debaixo de um sol abrasador - que patrocinava uma temperatura digna de um qualquer forno a lenha, que cheguei ao, já apinhado de festivaleiros, passeio marítimo de Algés, um fim de tarde quente mas convidativo, que fazia adivinhar um começo de hostilidades em grande. Credencial check, pulseira check, toca a entrar no recinto, estava dado o mote para a edição de 2019 do NOS Alive.

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Depois de um hotdog para retemperar energias e uma imperial para refrescar a goela dei logo de caras com a Miss Sharon Van Etten, que por aquela altura já atuava pelo Palco Sagres, numa já bem composta tenda. Com a voz no ponto e uma prestação sólida revelou-se um óptimo pontapé de saída para o festival.


Um compasso de espera e eis que surgem em palco uns certos rapazolas californianos com notória vontade de animar ainda mais as hostes, nada mais nada menos que os Weezer, banda já com tarimba e com uma fan base considerável. Uma “My Name is Jonas” para começar em grande, pelo meio toca a debitar umas três covers para manter a malta de pestana aberta - a saber: a “Happy Together” dos The Turtles, a “Take on Me” dos a-ha e uma bela rendição do clássico “Africa” dos Toto -, e um hattrick final com as bem conhecidas “Hash Pipe”, “Say It Ain’t So” e, não podia faltar, a “Buddy Holly”. Óptima prestação, fun fun fun do princípio ao fim. Seguiam-se os portuenses Ornatos Violeta, banda de culto que, estando num certo hiato há já alguns anos, continua a dar poucos mas bons concertos por esse Portugal fora, mormente agora por ocasião dos 20 anos do icónico álbum “O Monstro Precisa de Amigos”. Dão o pontapé de saída com a “Circo de Feras” dos Xutos e Pontapés em forma de tributo, para logo depois deleitar a malta com melodias como “Tanque”, “Ouvi Dizer” - ainda esperei pela aparição do saudoso Espadinha no monólogo final, em vão -, “Deixa Morrer”, “Chaga”, “Dia Mau” e “Capitão Romance”, entre outras, num concerto nostálgico mas acima de tudo rico, muito rico, tanto a nível vocal como instrumental, ao que o público presente respondeu com um sorriso de orelha a orelha. Valeu Manel Cruz e companhia. O palco NOS era agora dos escoceses Mogwai, um excelente aperitivo para o prato principal, um banquete digno de reis, A cura, ou melhor, os míticos The Cure, os cabeças de cartaz deste primeiro dia de Alive. “Fascination Street”, “Just Like Heaven”, um belo momento íntimo entre banda e público com “Pictures of You”, “Just One Kiss”, entre outros clássicos, passearam pelos ouvidos atentos da malta presente, sendo estes depois brindados com um encore de encher o olho, nada mais nada menos que sete músicas extra para encher a barriga e a alma, começando em “Lullaby”, passando por “Friday I’m In Love” e “Why Can’t I Be You?”, culminando na inevitável “Boys Don’t Cry”. Pessoalmente não chorei, mas se alguém presente de facto chorou foi de felicidade, arrebatados por esta prestação sublime. Continuam aí para as curvas, nomeadamente o Robert Smith que mantém aquela voz e aqueles trejeitos que tão bem conhecemos e aprendemos a gostar. Os britânicos Hot Chip fizeram questão de acabar este primeiro dia de festival com chave de ouro, levando o Palco Sagres ao rubro e dando por encerradas as cerimónias por aquele dia.

Segundo dia de NOS Alive. Com uma temperatura mais simpática desta feita, um alívio para muitos. Um dia que exigiu uma jigajoga curiosa entre o Palco Nos e o Palco Sagres, dado que Primal Scream e Johnny Marr actuavam quase em simultâneo, duas excelentes ofertas com fan bases similares, daí as necessárias viagens entre palcos. Os Primal Scream começaram primeiro, desde logo saltou à vista o fato rosa berrante do vocalista Bobby Gillespie, um fashion statement acolhido com aplausos e elogios, diga-se. No embalo de um persistente vento que se tinha instalado por aquelas paragens abriram desde logo com o clássico “Movin’ On Up”, lá pelo meio atacaram com uma “Kowalski”, uma “Swastika Eyes” e uma “Country Girl”, acabando com uma das suas músicas ‘de marca’, “Rocks”. Um final apropriado para um final de tarde de qualidade no que toca a música, os britânicos deram excelente réplica e o Bobby Gillespie promoveu quase na perfeição a sinergia entre banda e público presente. Agora toca a acelerar o passo para ainda apanhar o Mr. Johnny Marr, ex The Smiths e mais recentemente ‘arqui-inimigo’ do seu ex companheiro de banda, Mr. Morrissey... outras histórias, adiante. Devida vénia ao reportório dos The Smiths com “Bigmouth Strikes Again”, “How Soon is Now?” e “There is a Light that Never Goes Out” - hino que fechou o concerto-, entre outras, com direito a uma dedicatória especial por parte do Mr. Marr, um obrigado a todos, menos para aqueles que se encontravam fora daquela tenda... uma subtil indirecta ao Mr. Morrissey? Não se sabe, mas que lá pareceu é verdade. De volta ao palco principal e era a vez dos norte-americanos Greta Van Fleet subirem ao palco. Os putos do Michigan são relativamente rookies nestas andanças, mas mostraram que não estão aqui para brincadeiras e que querem ter o seu espaço no universo do rock mundial. E assim foi, chegaram, ‘rockaram’ devidamente a malta e saíram com a aprovação geral de quem os viu e ouviu, mormente pela excelente prestação vocal do frontman Josh Kiszka, dos seus manos Jake e Sam na guitarra e no baixo respectivamente e do Danny na bateria, dono de uma destreza admirável no kit. Durante uma hora e meia sensivelmente foi uma viagem no tempo até Woodstock 69, um sentimento de ‘flower power’ e ‘peace & love’ apoderou-se de todos os presentes, dando origem a uma atmosfera intoxicante. É legítima a comparação de Greta Van Fleet com Led Zeppelin, de facto são ‘uncanny’ as semelhanças, tanto instrumental como vocalmente, mas apesar disso estes rapazes têm uma identidade própria e irão certamente consolidar a sua sonoridade e escrever a sua própria história. Uma óptima (meia) surpresa. Batiam as 23h00 quando os Vampire Weekend pisam o palco principal, à boleia de

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Virei agulhas para o Palco NOS, onde à mesma hora sensivelmente já atuavam os lisboetas Linda Martini, que competentemente abriram as honras no palco principal.


uma já considerável e dedicada fan base debitam a sua faceta indie de uma forma competente e sólida, contribuindo assim para um concerto digno de registo. Meia-noite. Palco Sagres. Hora de voltar a entrar na máquina do tempo e apreciar a diva, a icónica, the one and only, Miss Grace Jones. Tratou-se de um verdadeiro ‘guilty pleasure’ para muitos que, como eu, cresceram nos anos 80 e 90, habituados a vê-la recorrentemente pela tv com as suas representações e suas prestações arrojadas. Esta foi mais um delas. E que prestação. Mesmo aqueles e aquelas que não estavam familiarizados com o reportório dela ficaram sem dúvida siderados e deixaram-se levar pelo espectáculo. Tal como comentei na altura: “71 anos no lombo e ainda continua a arrasar como se fossem os loucos eighties”... nada mais certo. As constantes mudanças de indumentária - cada peça mais espanpanante e provocatória que a outra -, a recorrente ginástica pelo palco onde até deu para uma provocante dança do varão e uma admirável destreza com um hula hoop, que dançou à volta da sua cintura durante largos minutos sem cessar... foi desta forma que se despediu do palco aliás. Voltou para receber os merecidos aplausos e vocalizar um sentido “I Love You”. We love you too, mighty Grace Jones. Ainda a tentar digerir o showzaço da Grace dirigi-me até ao palco principal onde os Gossip faziam valer o seu set. A vocalista Beth Ditto, dona de uma voz muito própria e poderosa, arrebatou os resistentes e não deixou os seus créditos por mãos alheias. O trio australiano Cut Copy encerrou as hostilidades pelo Palco Sagres, fechando da melhor maneira este segundo dia de festividades.

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Terceiro e último dia de NOS Alive. O sol e o calor voltaram. Os últimos cartuchos, as últimas danças. Os tugas The Gift foram os primeiros a assumir o palco principal, no entanto a vocalista resolveu inovar e invadiu o público durante largos minutos, proporcionando aos presentes um concerto mais intimista e mais pessoal, no que se revelou um belo gesto e que foi apreciado pela generalidade. 20h30. O sol despedia-se no horizonte e anunciava o que viria a ser uma melhores prestações deste festival, a dos britânicos Idles, uns rapazes deveras irrequietos e sempre notoriamente dispostos a uma boa pândega. Conhecia pouco da banda, confesso, sabia quem eram e sabia também que a crítica os tinha muito bem referenciados, mas passei a conhecer...e de que maneira. Com um punk agressivo e positivo arrebataram a repleta tenda do Palco Sagres do início ao fim, com uma réplica contagiante e enérgica, obrigando e bem a malta a abanar a carola e a mexer o esqueleto de uma forma anormalmente frenética, era simplesmente impossível ficar indiferente e estático perante este

concertão. Repito: Sem dúvida uma das melhores prestações do festival, hands down. Atrevo-me a dizer que os loucos Idles tiveram o dom de certa forma eclipsar o que por essa hora já se passava pelo palco principal: O concerto dos norte-americanos Bon Iver e seu folk característico. Depois de uma dose de adrenalina como aquela minutos antes no Palco Sagres muitos aproveitaram para descansar e recarregar baterias, aproveitando as sonoridades suaves dos Bon Iver para retemperar energias e enfrentar o que restava do festival. 23h30. Três bonecas insufláveis gigantes, quais matrioskas king size, ocupam o palco. Sobem ao palco o Billy, o Jimmy, o James e restante entourage, os Smashing Pumpkins tomam conta do passeio marítimo de Algés, com uma multidão ansiosa de os ver e ouvir. E que dizer daquele setlist... um deleite para os fãs dedicados da banda, uma verdadeira montanha-russa de nostalgia, um concerto épico. Entrada a pés juntos com a “Siva” e a “Zero” que deixaram desde logo a malta em êxtase, passando pela vibrante “Bullet With Butterfly Wings” e pela desconcertante “Disarm”, atingindo o auge com a nostálgica “1979”, a mágica “Tonight, Tonight” e a pujante “Cherub Rock”, culminando na mítica “Today”, descompressão total, mission accomplished boys, foi inesquecível. Depois da barrigada que foi o setlist dos Smashing Pumpkins hora de fazer uma nova visita ao Palco Sagres e dizer um olá ao Mr. Thom Yorke, figura maior dos aclamados Radiohead, que não defraudou as expectativas e que foi o perfeito complemento ao concerto do Billy Corgan e restantes paisanos. O festival caminhava a passos largos para o seu final, não sem antes acolher no palco principal os britânicos The Chemical Brothers, gurus da cena electrónica, já com um considerável reportório nas suas hostes. Tanto o senhor Tom Rowlands como o senhor Ed Simons fizeram questão de assinar a despedida com um set coeso e consistente, munidos de um impressionante espectáculo de luzes e lasers, imagens visualmente impactantes e batidas frenéticas e imponentes, capaz de fazer mexer até o festivaleiro mais cansado. Clássicos como a “Hey Boy Hey Girl”, “Elektrobank”, “Dig Your Own Hole”, “Galvanize” fizeram obrigatoriamente parte do menu, para gáudio da malta que se deixou de livre vontade contagiar pelo set. Acabaram com a inevitável “Block Rockin’ Beats”, num final perfeito. Ainda tempo para topar o finalzinho do concerto dos Ena Pá 2000 e, para os mais resistentes, The Blaze no Palco Sagres. E pronto, estava encerrado o certame versão 2019, despedida conveniente e sentida, o obrigado da praxe e expectativa para 2020. Foi bonita a festa pá! Arriverderci NOS Alive 2019, thanks for the memories.


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E depois da saciedade? por João Júlio Rumsey Teixeira

A esmagadora maioria das colecções tem ciclos de vida relativamente curtos, regra-geral acompanhando parte da vida do seu coleccionador; desfazendo-se ou ainda durante a vida deste ou, mais comummente, após a sua morte. Apesar disto a força que a gera é imensa e a fome que o coleccionador tem por aumentar e enriquecer o seu acervo é, em todos os casos que conheço, absolutamente insaciável. Esta insaciedade - consciente mas quase indomável - pode até, como no caso da gastronómica, ser prejudicial à vida quotidiana e saúde de quem a sente. Dito por quem não a sente: de quem a sofre. Economicamente - à excepção de quem por sorte, génio ou suor tem fundos ilimitados pode representar uma entrega substancial de recursos que forçosamente deixam de estar disponíveis para o dia-a-dia, chegando, em casos mais extremos, a ser desviados de necessidades básicas como a alimentação ou a roupa. O tempo e muitas vezes o espaço - recorrentemente insuficientes - para estudar, guardar, cuidar, manter, procurar, admirar, descobrir; no fundo viver, saborear e pensar as obras e a colecção podem acabar por interferir com a vida social, conjugal e familiar. Não por acaso é célebre a misantropia de vários grandes coleccionadores. Tudo isto é indiferente ao lado do prazer e da realização que ir criando, aumentando, usufruindo e aprofundando o conhecimento sobre uma colecção de arte oferece ao coleccionador. Só a ele aquele grupo de objectos poderá oferecer o leque completo de emoções, prazer e realização, pois é fruto do seu esforço e lógica única e irrepetível. Ao convidado, visitante ou passante interessado estes objectos proporcionarão com certeza

prazer, curiosidade ou interesse; podendo até despertar tudo isto e muito mais noutro coleccionador que se cruze com ela; mas só o seu criador a poderá usufruir em toda a dimensão de grupo e decifrar o código que guia toda e qualquer colecção: o seu critério. A história de uma antiguidade não carrega só o contexto da sua concepção original, sendo apenas um testemunho material da sociedade do passado para que foi criada, é também o da história da sua custódia ao longo dos tempos. O lugar da obra de arte está entre a mortalidade humana e a imortalidade divina. Ela vai integrar diferentes colecções em sucessivas idades, conferindo consistência a diferentes grupos e consoante diferentes critérios mas sem perder a sua própria identidade. Procura transcender uma humanidade que lhe é intrínseca mas apesar de poder transcender gerações e civilizações, não deixa de ser obra humana e dependente da custódia e cuidado do Homem. Para alguns coleccionadores o fim da colecção não causa ansiedade mas para outros a inevitabilidade do fim é perturbadora. Por vezes são os próprios coleccionadores que decidem dispersar as suas colecções. Por se sentirem saciados? Algumas vezes penso que sim mas acabando recorrentemente por, em seguida, dar início a uma nova ou, no caso de estarem no fim da vida, para garantirem uma transacção e futuro dignos às peças que amaram e cuidaram. Depois da saciedade, ou seja, depois de “completa” uma colecção, seja por decisão do coleccionador ou pela sua morte, o regresso das peças ao circuito comercial significa o início de um novo ciclo e estes suceder-se-ão até que eventualmente a obra acabe por se perder, por desprezo ou ignorância, degradação ou destruição, acidental ou intencional.

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Uma colecção de arte nunca está acabada enquanto a vontade que a gera permanecer viva, ela é um universo em si e por isso não tem limites. Igualmente a lógica que a guia não é fechada, faz parte da vida e por isso evolui, podendo ser contraditória em momentos diferentes.


EAT ART de Dusseldorf ao Porto A Gastronomia, a Arte e outras estórias Entrevista ao Galerista Fernando Santos

por Veronica Mello

Fotografia por: João Morgado

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Daniel Spoerri, artista suíço de origem romena, transformou as suas naturezas mortas realistas em quadros, retratando a vida como ela acontecia. O acto de comer e a relação com a gastronomia tiveram uma importância fundamental na forma como este pensamento se materializou no trabalho artístico que marcou a sua carreira. Daniel Spoerri criou o Eat Art como forma de designar esta nova linguagem artística que questionava a definição e as fronteiras do universo da arte através da confrontação, utilizando para isso comida como matéria-prima na criação artística. No final dos anos sessenta abre o seu restaurante em Dusseldorf e a galeria no andar de cima, espaço que mostrou exposições e obras relacionadas com o movimento de artistas como Joseph Bueys (1921-1986), Roy Lichtenstein (1923-1977), entre outros. Assim, o restaurante Spoerri tornou-se num restaurante-galeria, umartist’s restaurant. As famosastableaux pièges, ou snare- pictures, obras de arte criadas a partir dos restos de comida deixados no seu restaurante após os jantares que Spoerri, eram fixadas numa superfície para depois expor na vertical como se de um quadro se tratasse. Criava assim uma obra tridimensional, com os restos que ficavam em cima da mesa: pratos, restos de comida ou mesmo cinzeiros. Era uma homenagem ao tempo, ao efémero, era um pedaço de tempo que ficava cristalizado pela mão de Daniel Spoerri, num acto performativo plasmado para a eternidade, e tudo numa relação entre o homem e a comida.


O que lhe interessa neste cruzamento das disciplinas Arte e Gastronomia? O OFICINA surgiu como a concretização de um sonho; ou melhor, de dois: por um lado desejava a criação de um espaço onde pudesse partilhar com artistas e gastrónomos os prazeres da mesa, por outro, desejava que o OFICINA fosse o local onde Arte e Gastronomia interagissem formalmente. Por isso, e como é notório, esta ideia do cruzamento das duas disciplinas está enraizada no meu pensamento. O que me interessa é o facto de ambas partilharem um aspecto: a criatividade. Arte e Gastronomia movem-se por isto, por esta necessidade de inovar, de criar, de fazer com que os outros experienciem algo feito para esse efeito pelos seus criadores. A criatividade está presente em muitas áreas da acção humana, mas em poucas o seu efeito pode ser tão visível quanto nas Artes Plásticas e na Gastronomia. Nelas os sentidos não podem ser descurados; nelas os sentidos são parte integrante da experiência. Por outro lado, penso que o trabalho de um galerista passa também pela dinamização deste universo. Há que apresentar e dar a conhecer a Arte por outros prismas; colocá-la em contacto com outras áreas; fazer público e artistas repensar os papéis estáveis e confortáveis que cada um tem neste palco.

Filipe Marques, Vitor Mejuto, Luís Gordillo, João Jacinto, Pedro Cabrita Reis, Manuel Casimiro, Sandra Baía, Nikias Skapinakis, Gerardo Burmester, Pedro Calapez, Joana Rego, João Louro, Jorge Perianes, José de Guimarães, Avelino Sá, Miguel Palma, Beatriz Albuquerque, Ana Vidigal, Rui Sanches, Pedro Quintas, Santiago Ydanez, Pedro Proença, Pedro Valdez Cardoso, Pedro Casqueiro, Manuel Baptista, Maria José Oliveira, Mariana Gomes, Albuquerque Mendes são os artistas convidados que, esperamos, possam estar presentes com as suas obras na exposição. A estes artistas foi-lhes solicitada uma obra que relacionasse Arte com Gastronomia. Os artistas são livres para produzirem obra com as características, técnicas e visão que desejarem. Talvez alguns nem partilhem desta paixão pessoal entre Arte e Gastronomia, talvez alguns artistas possam ver esta relação de forma diferente. Penso que isso só será enriquecedor para a exposição e para a experiência de cada um face à mesma. Alguns apresentarão naturezas-mortas numa interpretação pessoal, alguns terão visões menos comuns, mas todos eles terão de usar a sua criatividade para dar resposta a esta solicitação: criar uma obra de Arte onde Arte e Gastronomia estejam presentes.

As obras desta exposição foram produzidas para este mostra? Na sua maior parte sim; as obras presentes nesta exposição foram produzidas para a mesma. Temos de notar que durante toda a História da Arte a comida, os alimentos, as mesas postas foram materiais de trabalho e temas sobre os quais os artistas trabalharam. Não será por isso de estranhar que artistas “históricos” como Nikias Skapinakis ou Jorge Pinheiro, por exemplo, possuam obra acerca dessa temática. No entanto e como referido atrás, na sua maioria os artistas foram convidados a produzir obra nova e para alguns deles esta é de facto a primeira vez que trabalham este tema.

Em Setembro a galeria inaugura uma exposição relacionada com a gastronomia. De que forma as obras se relacionam com a comida e quais os artistas que poderemos ver nesta mostra?

Qual o lugar dos criadores de gastronomia nesta exposição? Há colaborações entre chef e artista?

A galeria convidou cerca de 30 artistas para fazerem parte da referida exposição que terá como título “Fuck Art, Let’s Eat”, o mesmo título da icónica obra de arte da autoria do artista Filipe Marques que se encontra no espaço OFICINA. Jorge Pinheiro, Joana Vasconcelos, José Loureiro, Julião Sarmento,

Não no que à exposição estrita diz respeito; ou seja, os Chefs não têm intervenção na escolha dos artistas nem na referida curadoria. Mas podem servir – com o seu trabalho - de fonte de inspiração para os artistas. No entanto, esta exposição contempla um outro momento no qual um Chef será convidado a apresentar na Galeria,

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Fernando Santos partilha desta relação intensa com a gastronomia e em 2016, após dez anos de maturação desta relação, decidiu abrir um espaço gastronómico OFICINA, no ano em que celebrava 25 anos da galeria que leva o seu nome, na rua Miguel Bombarda, ou “Rua das Galerias”, como é conhecida no Porto. A OFICINA é um espaço cultural e um espaço de gastronomia que propõe uma intersecção entre estas duas disciplinas. Já em Setembro a sua galeria inaugurará uma exposição que revela a relação que alguns artistas têm com a comida ou o acto de comer, mas este cruzamento não se fica por aí e para Fernando Santos há ainda muito a explorar: “A arte tem de ser interventiva, polémica e interagir com o lugar”.


Fotografia por: Museu Berardo

e no âmbito da exposição, pratos inspirados nas obras expostas, naquilo que será não somente uma refeição, mas também uma acção performativa, uma experiência sensorial.

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Para Spoerri o acto do encontro dos seus tableaux piège são a natureza morta que se tornava eterna. Para si é isto que interessa na gastronomia ou a curiosidade pelo desconhecido, pelo apelo aos sentidos? Ou a conversa que a mesa proporciona? Penso que a visão de Spoerri é a visão de um artista. Embora a aprecie, não é essa visão que me move. Também não se trata da curiosidade pelo desconhecido, não obstante pensar que por vezes a Gastronomia – assim como a Arte, de resto – nos coloca frente a experiências que desafiam o nosso conhecimento apriorístico. Por vezes pensamos que determinada forma terá determinado sabor e mudando a forma ou a cor o nosso cérebro já não consegue atribuir ao alimento aquele

sabor. A Gastronomia presta-se a isso e a Arte também. A conversa que a mesa proporciona é um facto mais seminal neste interesse na ligação entre Arte e Gastronomia, embora não seja determinante neste projecto. Este projecto aliás, faz parte de algo que um pouco diferente, mas ao mesmo tempo antecipa-o. Trata-se da Melting Gastronomy Summit que trará ao Porto, em Novembro, nomes ligados à alimentação e cozinha sustentável, à Alta Gastronomia, ao Turismo, etc. A Galeria apenas antecipou uma tendência.

www.meltinggastronomysummit.com/pt


Fotografia por: Fernando Santos

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Fotografia por: JoĂŁo Morgado


João Salaviza – os primeiros filmes “Ninguém sabe como um casal antes se beijava” por José Pedro Pinto

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Salaviza estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema, onde se licenciaram grande parte dos mais importantes novos realizadores portugueses dos anos 90 e inícios dos anos 2000 – Pedro Costa, Teresa Villaverde, João Canijo, Manuel Mozos, etc. – que estudaram sob a orientação de estrelas do Cinema Novo Português dos anos 60 como Alberto Seixas Santos, António Reis e Paulo Rocha. Salaviza veio depois – quando realizou Rafa (2012), ainda tinha uma cadeira por fazer na ESTC – num período em que os ídolos já tinham abandonado a escola, pelo que o sentimento de um “legado histórico” não deverá ter sido sentido tão intensamente. Não que isso queira dizer que não haja ligações a fazer entre o seu cinema e esse Cinema revolucionário – é o próprio Salaviza que traça o paralelo entre a adolescência perdida do protagonista dos Verdes Anos (1963) e a de Rafa (2012) e David (protagonista de Montanha (2015)) (em entrevista com Vasco Câmara), forçados pelas circunstâncias a crescerem mais rápido do que queriam, sem terem sequer tempo de ultrapassar o aspeto físico de crianças. O realizador deixa por referir, no entanto, essa ligação mais importante que é a das deambulações das perso-

nagens, sem destino nem propósito diegético ou extra-diegético (isto é, narrativo ou estrutural, a não ser na construção de uma estrutura mais livre que a receitada pelo cinema clássico), que leva bem mais longe que o seu antecedente, clássico pela importância. Pense-se no caso de Rafa (2012). A premissa é que o rapaz parte para Lisboa para “ir buscar” a sua mãe à esquadra, mas quando lá chega, um polícia pede-lhe que regresse daí a umas horas. De um ponto de vista narrativo, a história entra “em pausa” a partir daí, na medida em que as cenas que se seguem não contribuem para o avanço da narrativa, mas somente do avanço do tempo. São cenas literalmente de Rafa a fazer tempo, e de Salaviza a passar tempo com ele: senta-se numa praça a ver os skaters, brinca com um cão à beira-rio, etc.. Mas o mais interessante é que a narrativa (no sentido clássico) é na realidade apenas um pretexto para esta exploração da vida interna de Rafa, ou melhor ainda, do “ator” Rodrigo Perdigão; que paradoxalmente precisa da “construção” do argumento do filme para aparecer vividamente e com aparência de genuinidade em frente da câmara.


É o caso também no Cerro Negro (2011), em que a narrativa é a de uma mulher emigrante que visita o marido na prisão, mas em que o que interessa são os “entretantos” – a mulher a preparar comida para o marido, a passar o cartão nas portas do metro, a luz a dançar quando o seu autocarro passa num túnel, o seu ar ao mesmo tempo alheado e revoltado quando uma polícia a revista antes de poder ver o marido, e o homem a passar pela mesma humilhação depois da visita, para provar que não recebeu nada da sua mulher – a visita em si é apenas um pretexto, que nem sequer merece tratamento diferenciado das outras cenas, narrativamente “menos importantes”.

Esta vertente deambulatória está, no entanto, menos presente no Arena (2009), filme “mais bem comportado”, mais facilmente compreensível sob padrões académicos, sem que deixe de ter um forte carácter autoral, evidente logo pela ambiguidade deliberada do seu final. E sem que por isso deixe de haver semelhanças evidentes com o trabalho de Salaviza que se lhe seguiu: é pertinente questionar, logo à partida, até que ponto é que os jovens que roubam o dinheiro à personagem de Carloto Cotta não serão os mesmos jovens que protagonizarão Rafa e Montanha. As semelhanças são fáceis de encontrar nas suas idades, estatuto social e até lugar de habitação (altos complexos habitacionais lisboetas), e tanto umas como outras mostram uma atitude relativamente banal em relação ao roubo. A diferença está mesmo no trabalho que Salaviza faz com eles, deixando-os ser personagens no Arena, mas não lhes permitindo nos próximos filmes que deixem de ser pessoas. Outro ponto comum com os outros filmes é a ausência de figuras de autoridade na vida dos miúdos do Arena – os únicos “adultos”

que se veem (no sentido tradicional, não legal) são figuras indistintas, passivas perante o ataque que Carloto Cotta perpetua sobre um dos jovens que o assaltaram, antes de lhe destruir a bicicleta.

No Rafa isso é particularmente evidente, na medida em que Salaviza relega a mãe de Rafa, o namorado dela e o pai do seu sobrinho ao discurso do rapaz, e os polícias que o interrogam a vozes off, tal como a professora ou o médico de David no Montanha (se bem que nesse filme apareça no ecrã a mãe do protagonista, para que no fim seja o filho a cuidar dela, e o seu pai, tentando forçar a sua entrada na vida do rapaz, e fracassando. Desta feita, é o avô quem é relegado apenas ao plano do discurso). São personagens que rejeitam a autoridade não tanto por um ato de rebeldia, mas por incapacidade crónica de confiar; ou como Salaviza diz: “há uma ideia política na forma como estes miúdos viram as costas a um país tal como ele é mostrado nas televisões, pelas instituições, pela escola. É uma coisa quase punk, niilista.” (Salaviza, citado em CÂMARA, 2015), ou noutra entrevista: “Apeteceu-me que o filme virasse as costas ao País como o País vira as costas a estes miúdos” (citado em MENDES, 2015). E se dá a impressão de que esta representação subjetivizada do país está em contradição com um suposto realismo das personagens, é só por deficiência da minha escrita. Porque se Miguel Gomes tinha usado de um estilo semidocumental para retratar a intimidade de adolescentes que se interpretam, de certa forma, a si mesmos, no seu Aquele Querido Mês de Agosto (2008), o estilo visual e sonoro de Salaviza é desde o início mais cuidado, atento ao trabalho da luz, de aspeto natural no Arena e no Cerro Negro, e de tratamento teatral, majestoso, nas cenas de interiores do Rafa e do Montanha. E estas costas voltadas vão até mais longe do que o que se nota à primeira vista. Por costume, assume-se que o trabalho de Salaviza se passa no presente, mas após reflexão, nota-se que o realizador barra a entrada à realidade contemporânea da dependência tecnológica, principalmente na sua verten-

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Nas palavras de Salaviza: “Está-me a parecer mais claro porque é que os filme servem: a história da intimidade. Ninguém sabe como um casal antes se beijava. Isso desapareceu. A história oficial não deixou espaço para que a intimidade sobrevivesse (…) como é que eram os gestos mais simples” (citado em CÂMARA, 2015).


te de intermediária (ou substituta) da interação social, apresentando o mundo de David como um híbrido entre o contemporâneo e a realidade do final do século passado: quando David quer falar com Rafa, toca-lhe à campainha, e quando quer falar com Paulinha, pergunta a outras raparigas se sabem dela. Não vejo como criticar o cineasta por esta escolha (“escolha”, no contexto de um cinema semi-improvisado é uma palavra complicada – talvez seja mais seguro dizer que “não vejo como criticar o cineasta por ter seguido esta direção”), até porque ainda não vi (nem creio que exista ainda) nenhum bom cinema sobre miúdos a mandar mensagens no telemóvel ou através do computador. Provavelmente só a geração que vive essa realidade agora será capaz de o fazer, daqui a uns anos; tal como coube a Salaviza mostrar a “realidade sensorial”, se bem que não a realidade objetiva, da sua.

Webografia • CÂMARA, Vasco (2015). “Escalar a adolescência”, Público, www.publico.pt/ culturaipsilon/noticia/escalar-a-adolescencia-1683387; • CÂMARA, Vasco (2015). “João Salaviza: ‘Se calhar filmei pela última vez esse desejo de cruzar adolescência e Lisboa’”, Público, https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/ salaviza-1706235; • MENDES, José Vieira (2015). “João Salaviza: ‘Apeteceu-me que ‘Montanha’ virasse as costas ao País como o País vira as costas a estes miúdos’”, Visão, http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura 2015-11-18-Joao-Salaviza-Apeteceu-meque-Montanha-virasse-as-costas-ao-Pais-como-o-Pais-vira-as-costas-a-estesmiudos; • MIRANDA, Tiago (2009). “João Salaviza: ‘Ainda não ‘aterrei’…’”, Expresso,

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http://expresso.sapo.pt/dossies/dossiest_cultura/postal_cannes_2009/joao-salavizaainda-nao-aterrei=f517449.


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Chapéus há muitos

MÉTODOS DE CONTRACEPÇÃO INOVADORES...

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por Joana da Franca


RAIO GOURMETIZADOR

LES CHEFS! por Pedro Nápoles

Este afrancesamento foi, nos anos noventa, acompanhado por uma obsessão com a cozinha francesa. Infelizmente, na maioria dos casos, a influência ficava apenas pela apresentação, pois havia uma generalizada falta de qualidade e quantidade, que nos levava a sair de um restaurante com vontade de correr para um sítio onde nos dessem, realmente, de comer. Inspirados por musas anoréticas, os pratos da pretensa nouvelle couisine eram uma tela minimalista de elementos complexos, em que o chef mostrava as suas capacidades técnicas para espumas, reduções e outros processos gastronómicos. O sabor, bem, o sabor podia até ser bom, mas difícil de encontrar, perdido nestas telas onde os artistas dispunham elementos com um rigor estético assinalável. Tempos de comida conceptual e pretensiosa.

Hoje, muitos dos chefs deixaram a obsessão anorética e já é possível sair de alguns restaurantes da moda sem perigo de desmaiar de fome. Finalmente perceberam que há um meio termo entre as travessas de inox com batatas fritas em jogo de Mikado das tascas e os pratos imaculadamente brancos com pingos de redução dispostos em estilo expressionista abstracto sobre pratos dignos de serem apenas um simpático amouse bouche. Os chefs voltaram a ser um pouco cozinheiros, mas não deixaram o epíteto francês francamente irritante, como se cozinhar fosse uma coisa indigna. Com esta ascensão de classe, os chefs subiram ao estrelato antes ocupado por jogadores de futebol, apresentadores de televisão, socialites ou, agora, influencers. Na escala de importância medem forças com qualquer estrela, com presença assídua na televisão. São venerados por pessoas que nunca provaram um prato por eles confecionado, ou mesmo criado, e que provavelmente nunca provarão. Não deixa de ser curioso, porque se idolatram jogadores que se viu jogar, actores que se viram actuar, músicos que ouvimos tocar, e chefs dos quais nunca provámos a comida. Interessantes idiossincrasias dos dias de hoje.

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Quando comecei a frequentar restaurantes ainda existiam cozinheiros (e cozinheiras, como está bom de ver), coisa que hoje parece arcaica e me faz parecer um Matusalém bem caquético. Os cozinheiros foram varridos do mapa, tornando-se uma espécie em vias de extinção. Hoje só temos chefs e, enquanto não se podem arvorar disso, sous-chefs ou qualquer coisa-chefs. Nesses tempos, eram chamados de chefs uma mão cheia de cozinheiros de renome, como que numa comenda por serviços prestados à gastronomia. Ser cozinheiro tornou-se, entretanto, uma tarefa boçal, desprezada, coisa de antanho, indigna de um chef, que cria e chefia e, numa eventualidade, até pode cozinhar qualquer coisinha.


Gastrossexual Tataki de atum com salada woldorf e espuma de menta e wasabi Para 4 Pessoas

Ingredientes:

por Chef Mariana Claro

400 gramas de atum fresco em lombos

2 unidades de maçã verde granny smith

60 gramas de aipo rama

10 gramas de hortelã

10 gramas de pevides de abóbora torradas

sumo de 2 limões

5 gramas de flocos de bonito (katsobushi)

5 gramas de gengibre picado

50 mililitros de nata fresca 30%

20 gramas iogurte grego

5 gramas de wasabi em pó

2 unidades de laranja

20 mililitros de azeite

10 gramas de sementes de sésamo

q.b de sal

q.b de pimenta preta

Confecção: Para a salada •

Picar a maçã, flocos de bonito, aipo e gengibre aos cubos.

Temperar com azeite, sal, pimenta, hortelã picada e sumo de 1 limão.

Levar ao frio e reservar.

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Para o atum •

Arranjar o atum e cortar em paralelepípedos com 100 gramas.

Aquecer uma frigideira e colocar azeite.

Brasear atum, com o objectivo de ficar corado por fora e mal passado no meio.

Envolver o atum em sementes de abóbora e sementes de sésamo e cortar as fatias finas.


Para a Espuma •

Levantar as natas até ponto de chantilly.

Adicionar wasabi em pó, iogurte, sumo de limão e hortelã picada, e envolver.

Empratamento •

Cortar gomos de laranja.

Empratar a salada, colocar o atum cortado por cima e a espuma e os gomos de laranja ao lado.

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Restaurante Escalfado Rua do Merca-Tudo nº4


Do vale de Elqui a Santiago - a Piscola por Pedro Santo Tirso

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para o Rui São onze horas da noite em Lisboa e estou a dar voltas aos quarteirões do bairro de Bellavista em Santiago do Chile. É uma boa opção porque colabora com o corpo cansado e bem bebido, que começa a dar voltas sobre si mesmo. Explico. Vindo diretamente de uma viagem de 18 horas, depois de um almoço tardio (mas tardio onde?) na sanguchería Ciudad Vieja - o sánguche é uma típica sandes chilena - e de ter provado praticamente todas as cervejas que se fazem entre Santiago e a Patagónia - onde, devo sublinhar, as ruivas imperam - caminhar pelo magnífico bairro de Bellavista seria a única forma de me preparar para os quartos de final da Copa América, com esse electrizante Chile-Colômbia.


O leitor de bom gosto terá torcido o nariz a todo este arrazoado. É por demais evidente, que se de cocktails falamos, mesmo que com pisco e no Chile, não se pode admitir refrescos de cola no nosso meio. Tem razão. Mas que diabos, era dia de festa, Santiago recebia-me de braços abertos e a verdade é que excepcionalmente e longe de se tornar uma bebida de eleição para o meu agreste palato a piscola, esquecida a cola, tem uma certa ligeireza de aspecto que acompanha bem o bebedor que pretende festejar. A piscola deve ser por isso admitida entre as bebidas de bem. Embora com uma cola de excepção. Uma cola de Madagáscar, da Fever Tree por exemplo. Há que agradecer ao vale de Elqui, mas também, à diversidade e ao pluralismo que esta América do Sul nos pode inspirar, o facto de não termos de ficar presos à piscola para pisco poder saborear. As garrafas que trouxe para casa e que assegurarão uns tragos únicos de Pisco, sem colas nem desculpas, estão comigo para o provar. Mas sim, para além do refresco, para outras andanças, peçam um pisco sour. Nenhum chileno vos levará a mal. E se fizerem em casa, com pisco chileno, sigam a receita peruana, pois o mundo fez-se para ser misturado: duas medidas de pisco, uma de sumo lima, três quartos de xarope de açúcar e meia clara de ovo, tudo bem agitado no shaker. No fim, duas gotas de angostura. A piscola é boa e divertida, mas o pisco sour é aconchegante. E todos precisamos de um aconchego.

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E de me preparar para o Pisco. Esta aguardente de uva podia não ter nada para se distinguir de qualquer outra aguardente de uva, mas nós sabemos que isso não é verdade, não é? O leitor empertiga-se. Nunca bebeu um pisco sour e muito menos uma piscola, tem lá obrigação de saber o que é Pisco e de já o ter bebido! Rivalidades à parte entre Peru e Chile, o Pisco é uma bebida tipicamente chilena, mesmo se em Portugal tem chegado sobretudo pela mão de diversos restaurantes peruanos. E se é certo que hoje a vila de Pisco fica no Peru não é menos verdade que na origem da bebida está a cultura chilena. Mas a razão que mais deve levar as cidadãs e cidadãos a querer provar esta bebida é o à-vontade com que se encontram os portugueses face à sua uva rainha: a moscatel. Pisco é na verdade aguardente de moscatel feita para atingir a perfeição (e quando não atinge sozinha, mistura-se uma clara de ovo, açúcar e limão e avançamos para um pisco sour perfeito). Mas vamos por partes. Para se beber sozinho, como todas as aguardentes, o Pisco tem de ser bom. E aqui não há como escapar ao Vale do Elqui, de onde vêm todos os piscos que valem a pena provar. Claro que, estando de passagem em Santiago, a hipótese para uma degustação tranquila e aprofundada não se apresentou possível, havia apenas que aprovisionar, para horas e momentos mais contemplativos. O estudo, esse, começou a ser feito muito antes e resolvi apostar num Mistral Nobel ou num Valle de Elqui 45º como discussão a levar ao dono da loja que havia descoberto no GAM - o Centro Cultural Gabriela Mistral, poeta excelente do Chile (estas excelências andam sempre ligadas). Mas se o saboreio de um bom pisco solitário não se mostrava nas melhores condições já juntar piscolas às meias-finais que se avizinhavam parecia uma combinação de sucesso. Isso mesmo resolvi fazer num dos bares do Patio Bellavista onde me juntei a dezenas de chilenos torcendo pela sua seleção, a Roja da América do Sul. O resultado, tal como o piscola foi um triunfo para o Chile: a seleção avançou nessa noite para as meias finais da Copa América de 2019 e a piscola continuou a dar bom nome ao país. Note-se que esta combinação seria especialmente apropriada para um Chile-Peru, jogo possível, uma vez que no dia seguinte o Peru defrontava o Uruguai para determinar quem defrontaria o Chile. A adequação do complemento vem da rivalidade entre o pisco sour peruano, enquanto bebida inventada em Lima e até hoje reclamada pelos peruanos como um cocktail nacional e a piscola chilena que até ganhou dia nacional de resposta ao Peru (é a 8 de fevereiro, se não quiserem googlar). De resto, a piscola é muito fácil de fazer. Só precisamos de uma medida de pisco, duas medidas de refresco de cola e deitar tudo num copo cheio de gelo.


Viagens à volta do Vinho

Os Verdes por José Paulo Teixeira*

Demarcada desde 1908, a Região Demarcada dos Vinhos Verdes estende-se pelo noroeste de Portugal, Entre-Douro-e-Minho. Tem como limites, a Norte o rio Minho, a Sul o rio Douro e as serras da Freita, Arada e Montemuro, a Este as serras da Peneda, Gerês, Cabreira e Marão e a Oeste o Oceano Atlântico. Em termos de área, é a maior Região Demarcada Portuguesa, e uma das maiores da Europa. A situação geográfica que por sua vez influencia em muito as características de solo e clima a que está exposta, torna a região excelente para a produção de vinhos brancos, espumantes e também aguardentes. Desta região única e das suas castas autóctones surgem vinhos brancos únicos e peculiares, leves, frescos e aromáticos, extremamente versáteis a nível gastronómico e perfeitos para a maior parte das ocasiões sociais.

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Com um relevo que vai desde o nível do mar da costa até as altas montanhas do interior, assim como a orientação dos vales dos rios que a cruzam serem Este/Oeste, o que permite que os ventos atlânticos se entranhem profundamente na região que expõe os vinhedos a uma forte influência marítima, os solos férteis e graníticos, o clima e a elevada pluviosidade, e a própria condução da vinha de uma forma mais alta, expressam-se através das suas castas endógenas, na elegância, na frescura e delicadeza dos vinhos desta região conhecidos e apreciados em todo o Mundo. Assim como grandes aguardentes bagaceiras e de excelentes aguardentes vínicas , valorizadas pela sua acidez e pela sua complexidade aromática. Numa região tão vasta e com uma topografia tão diferente surgem algumas diferenças a nível de solo e clima que se reflectem nos vinhos, pelo que esta região está dividida em nove sub-regiões com características muito próprias que as diferenciam. É importante termos a noção das diferenças e das semelhanças de cada uma delas e compreendermos como se reflectem nos vinhos, pelo que passo a fazer uma descrição resumida do que acho mais importante em cada sub-região.

Sub-região de Monção e Melgaço Esta Sub-região de solos graníticos tem um microclima muito particular de invernos frios com precipitação média e verões quentes e secos. Os vinhedos estendem-se pela margem sul do rio Minho em encosta, com uma influência atlântica moderada, a casta rainha e única permitida nos brancos é o famoso Alvarinho que aqui se expressa na sua plenitude, originando vinhos de cor intensa, palha, com laivos esverdeados, aroma intenso, complexo, com notas que vão desde o marmelo, pêssego, limão, maracujá e líchia, a flor de laranjeira, a avelã e noz, e a mel, sabor complexo na boca, macio, redondo, harmonioso, encorpado e persistente. Nos tintos as castas cultivadas são Pedral e Alvarelhão, famosas pelo vinho palhete tradicional nesta região, mas com pouca expressividade fora dela. Sub-região do Lima Esta Sub-região, como o próprio nome indica, situa-se nos vales do rio Lima (Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez), com altitude variável, subindo da costa para o interior, clima ameno, mas pluviosidade elevada, com solos maioritariamente graníticos como em toda a região. Aqui, a casta Loureiro é a mais utilizada e onde atinge o seu maior esplendor, devido às condições específicas da região, produzindo vinhos elegantes, amarelos desmaiados com laivos esverdeados, jovens e aromáticos com notas florais (rosa, flor de laranjeira), frutadas (cítricos e maçã verde) e herbáceas delicadas, na boca, elegante, jovem e vibrante. A par do Loureiro produz-se também Arinto e Trajadura, nos brancos e Vinhão e Borraçal nos tintos, que tradicionalmente são produzidos mais para o interior desta sub-região, gerando vinhos tintos cor ruby carregado, aromáticos, frescos e volumosos no paladar. Sub-região do Ave Esta sub-região estende-se pela bacia hidrográfica do rio Ave (Vila Nova e Famalicão, Fafe , Guimarães, Santo Tirso Trofa, Póvoa de Lanhoso, Vieira do Minho, Póvoa de Varzim, Vila do Conde e Vizela), numa zona de


relevo bastante irregular e baixa altitude, exposta a ventos marítimos. Com temperaturas amenas e pluviosidade média é uma zona de vinhos brancos principalmente das castas Arinto e Loureiro, alguma Trajadura também, traduzindo-se em vinhos frescos, jovens e aromáticos com notas florais e cítricas. Sub-região do Cávado Nos vales do rio Cávado é onde esta Sub-região se situa (Esposende, Barcelos, Braga, Vila Verde, Amares e Terras de Bouro), com uma baixa altitude e clima ameno, muito exposta ao Atlântico. Características onde os brancos se destacam, principalmente as castas Arinto, Loureiro e Trajadura de onde resultam vinhos de acidez moderada, frutados, com notas cítricas e a frutos de árvore - maçã e pêra madura. Já os tintos, em geral de castas Vinhão e Borraçal, são vinhos intensos de cor granada escura, às vezes atingindo laivos azulados, frescos, volumosos e com notas de frutos vermelhos frescos. Sub-região de Basto Basto, é a sub-região mais interior dos verdes (Cabeceiras de Basto, Celorico de Basto e Ribeira de Pena), com altitudes elevadas, pouca influência marítima, invernos rigorosos com frio e chuva e verões quentes e secos, apropriados às castas Azal (branca) e Espadeiro e Rabo de Anho (tintas). Os brancos, com relevância para os Azais, são frutados aromáticos com notas de limão, maçã verde, frescos e elegantes. Já os tintos, frescos, volumosos e complexos, carregados de cor. Sub-região de Baião Esta Sub-região situa-se no interior da região, fazendo estrema com a Região Demarcada do Douro (Baião, Resende e Cinfães), com uma altitude intermédia e um clima menos ameno, com verões quentes e secos e invernos mais frios e menos chuvosos. Características óptimas para as castas Avesso e Azal (brancas) e Amaral (tinta). São famosos e apreciados os vinhos brancos desta sub-região com enfâse para os Avessos, intensos de aroma, frutados e frescos. Sub-região de Amarante Localizada no interior da região (concelhos de Amarante e Marco de Canavezes), está em parte protegida da influência marítima, a uma altitude média maior e com verões mais quentes. Estas condições favorecem o cultivo das castas Azal e Avesso (brancas), Amaral e Espadeiro (tintas). Os vinhos brancos apresentam-se frutados e com um teor alcoólico mais elevados que no resto da região, já os tintos são famosos pela sua cor carregada e complexidade, devido a maior maturação, principalmente, da casta Vinhão.

reira, Paredes, Lousada, Felgueiras, Penafiel e algumas freguesias de Vizela), de clima ameno e precipitação, com baixa exposição Atlântica. As castas principais são o Arinto, Loureiro e Trajadura, às quais se juntam o Azal e Avesso, mais exigentes na maturação. Relativamente aos Vinhos Verdes tintos, vinificam-se as castas Borraçal e Vinhão, comuns a toda a região, e ainda o Amaral e o Espadeiro (muito utilizado em vinhos rosés). Sub-região de Paiva Esta sub-região situa-se no interior da região dos verdes, na margem esquerda do rio Douro (Castelo de Paiva e algumas freguesias de Cinfães), com clima ameno, altitude significativa, precipitações médias e com pouca influência marítima. Estas características tornam a zona muito apta para a produção de vinhos verdes tintos principalmente das castas Vinhão e Amaral, muito famosos e apreciados pelos conhecedores. Nas castas brancas, as mais cultivadas são as tradicionais dos vinhos verdes, Arinto, Loureiro e Trajadura, acompanhadas pela casta Avesso, especialmente adaptada a esta zona. Aqui, fazem-se brancos de grande valor apesar de zona ser especialmente apta para produção de verdes tintos. Para conhecer melhor a região dos verdes e os seu vinhos é fundamental conhecer as características das suas castas, pelo que acho importante fazer uma descrição sensorial dos vinhos provenientes das castas mais importantes e expressivas dos vinhos verdes. O Verde branco é um dos vinhos mais versáteis e completos do Mundo. Harmoniza com uma variedade muito grande de ocasiões e iguarias. Além de perfeito para os mariscos, peixes, carnes brancas e folhados, no caso dos brancos, passou a ter lugar quase obrigatório no acompanhamento da gastronomia de fusão e emergente, nomeadamente, das novas tendências culinárias de influência oriental como o sushi e a comida tradicional chinesa, coreana e nepalesa. Os tintos, perfeitos para a gastronomia regional como as papas de sarrabulho, o arroz de sarrabulho, a lampreia, as cabidelas, acompanham, também, na perfeição uma boa sardinha assada, e até uma posta de vitela! A frescura, a complexidade e definição aromática e também, a meu ver, o seu teor de alcoólico mais baixo, faz dos vinhos verdes, vinhos perfeitos para acompanharem todas as ocasiões sociais, fáceis de beber e fáceis de apreciar por todos, desde o menos esclarecido bebedor, até ao mais alto conhecedor. ….depois de tanta explicação, …acho que vou comer uns pecebes acompanhados de um Loureiro fresco! Apreciem os vossos vinhos!

Sub-região do Sousa Saudações vínicas *Sommelier

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Esta sub-região encontra-se entre o litoral e o interior, numa zona central (Paços de Fer-


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Castas Brancas Alvarinho O vinho caracteriza-se por uma cor intensa, palha, com reflexos citrinos, aroma intenso, distinto e complexo, que vai desde o marmelo, pêssego, banana, limão, maracujá e líchia, a flor de laranjeira e violeta, a avelã e noz, e a mel, sendo o sabor complexo, macio, redondo, harmonioso, encorpado e persistente. Arinto Os vinhos são de cor citrina a palha, apresentam aroma rico, do frutado dos citrinos e frutos de árvore (maçã madura e pêra) ao floral (lantanas). O sabor é fresco, harmonioso e persistente. Avesso Produz vinhos de cor intensa, palha aberta, com reflexos esverdeados, aroma misto entre o frutado (laranja e pêssego), o amendoado (frutos secos) e o floral, sendo o carácter frutado dominante, delicado, subtil e complexo. O sabor é frutado, com ligeiro acídulo, fresco, harmonioso, encorpado e persistente. Azal Produz vinhos de cor ligeira, citrina aberta, descorada, aroma frutado (limão e maçã verde) não excessivamente intensos e complexos, finos, agradáveis, frescos e citrinos, sendo o sabor frutado, ligeiramente acídulo, com frescura e jovem. Loureiro Produz vinhos de cor citrina, aroma fino, elegante, que vai do frutado de citrinos (limão) ao floral (frésia, rosa) e melado (bouquet), sendo o sabor frutado, com ligeiro acídulo, fresco, harmonioso, encorpado e persistente. Trajadura Produz vinhos de cor intensa, palha dourada, de aroma intenso, a frutos de árvore maduros (maçã, pêra e pêssego), macerados, sendo o sabor macio, quente, redondo e com tendência, em determinadas condições, a baixa acidez.

Tintas Espadeiro Produz vinhos de cor rubi, de aroma e sabor à casta e frescos. Tradicionalmente vinificada em “bica aberta” em diferentes locais da Região, para produção de vinho rosado. Vinhão

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Produz vinhos de cor intensa, vermelho granada, de aroma vinoso, onde se evidenciam os frutos silvestres (amora e framboesa), sendo o sabor igualmente vinoso, encorpado e ligeiramente adstringente.


Kompassus

A arte de fazer vinho de excelência por Nuno Maia

Kompassus

Herdeiro de uma tradição familiar que se iniciou no princício do século passado, na região de Cantanhede, João Póvoa, foi, durante muitos anos, o rosto da Quinta de Baixo, quinta de vinhas velhas, incrustadas nos solos argilosos da Cordinhã, de onde saiu o mítico tinto de 1991, feito em lagar aberto, à base de Baga, Moreto e Bastardo e outras castas das velhas vinhas bairradinas. Começou ainda miúdo, a trabalhar nas vinhas do avô, em Cantanhede, para “não andar na moina”, mas cedo se refugiou na adega, com o pai, aprendendo a arte de fazer vinho. Enquanto esperava para entrar na faculdade, para cursar Medicina, foi controlar a balança da Adega Cooperativa de Cantanhede, onde acabou por se apaixonar pelos rosés. Às escondidas do pai, começou a “roubar” a “lágrima” que escorria das dornas até encher uma barrica de 150 litros, que deixou fermentar. Nascia o primeiro vinho de João Póvoa, o médico oftalmologista, gastrónomo e exímio cozinheiro, que hoje é a alma de um dos mais majestosos vinhos da Bairrada – o Kompassus.

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Conversou com a Bica no restaurante Cabana do Pastor, em Murtede, durante um jantar regado a Kompassus e condimentado com as muitas histórias de uma vida ligada à “arte de fazer bom vinho”.


É muito simples. Foi em 1963, e nessa altura os miúdos como eu, para não andarem na moina, na rua, iam para a vinha. Eu detestava vindimar, porque, naquele tempo, não havia luvas e eu, ainda hoje, não consigo trabalhar com as mãos húmidas e sujas. Fiz um ano de vindima, mas, no ano seguinte, quando tinha oito anos, o meu Pai disse-me: “Hoje ficas na adega comigo”. Não só fiquei, como gostei.

mou-me a fazer novamente, o que aconteceu em 2017. Mais ou menos o mesmo processo, mas com outra classe. É um Tête de Cuvée que fermentou em inox. Quando o voltar a fazer, vou pô-lo um bocado na madeira. Ontem já o provámos e está com uma frescura espectacular, mas, ainda assim, vamos esperar mais um ano.

Bela história para um primeiro vinho. Sim, é engraçada. Quando o vinho for lançado vai estar reproduzida nas caixas.

Segundo sei, a sua mãe tomava conta da vinha e o seu pai da adega.

Pouco tempo depois ganhou um prémio para um vinho branco.

Era, sim. Eu fiquei na adega com ele e nunca mais de lá saí. Aquilo era uma maravilha porque, logo à partida, tinha a vantagem de estar resguardado do sol e do calor. Com 13 anos até comecei a ser o cozinheiro, para servir o pessoal que jantava lá em casa. Aprendi com a minha Mãe e foi assim que comecei a cozinhar. Mais tarde, como não entrei na faculdade no primeiro ano, durante a vindima, fui trabalhar para a balança na Adega Cooperativa de Cantanhede, para ganhar umas coroas. Estive lá em 74 e 75, mas em 76 foi decidido que só os familiares dos sócios da Cooperativa é que lá podiam trabalhar e, como nós não éramos sócios, tive de voltar para a adega do meu Pai. Como muitas vezes, ficávamos à espera que viessem uvas, decidi fazer um rosé. Disse ao meu Pai, mas ele não ficou entusiasmado -“O quê? Queres fazer água-pé?”. Calei-me, mas decidi avançar sem que ele percebesse. As uvas vinham para um lagar alto e, ao passar para os outros, largavam líquido que eu apanhava com uma caneca e metia num pipo de 150 litros. Em dois ou três dias enchi aquilo. É claro que quando arrancou a fermentação o meu Pai percebeu e foi uma bronca, a minha sorte foi que, pouco tempo depois, começaram as aulas em Coimbra e tive que me ir embora. Apesar do meu Pai estar sempre a dizer mal, em Março ou Abril engarrafei o rosé. Mais tarde, com uns amigos provei o vinho na Praia de Mira e achámos que até estava bom, mas no verão seguinte, não estava bom, estava brutal. O engraçado é que o meu Pai continuava a dizer mal, mas comecei a perceber que desapareciam garrafas. Perguntei à minha Mãe se ela sabia o que se estava a passar e ela revelou que era o meu Pai que as bebia. Não as punha no frigorífico. Tinha um cesto que metia num poço do quintal para as ter fresquinhas. Depois fiz mais uma vez ou duas.

Houve várias pessoas, como, por exemplo, o Senhor Santos, que foi director do Buçaco durante quarenta e tal anos e o Rui Alves que trabalhou nas Caves Império, com quem aprendi muito e que sempre me incentivaram a continuar a produzir vinho. Em 1989 fui desafiado para levar uns vinhos para uma prova no Restaurante Boa Viagem, na Mealhada. Levei um branco que tinha feito em barrica de carvalho e um tinto. Os vinhos agradaram a todos e sugeriram que entrassem num concurso. No ano seguinte, arranjei uma sociedade com uns amigos e fizemos 2000 litros de branco que foi a concurso. Ganhei logo um primeiro prémio, na categoria de brancos de produtores individuais. Foi uma maluqueira.

Sempre da mesma forma? A roubar o mosto? Não! Depois já não lhe passava cartão (risos). Pedia directamente as uvas à minha Mãe. Curiosamente, há uns três anos, contei esta história ao Anselmo Mendes e ele entusias-

Com que castas? Maria Gomes, Bical, Cercial e Arinto. Fiquei doidinho de todo (risos). Foi a desgraça total. É verdade o ditado que diz: “Queres uma pequena fortuna? Mete uma grande fortuna nos vinhos”.

Esse vinho era muito diferente dos que existiam na época? Tenho uma máxima, até na medicina, “não inventamos nada”. É muito raro. Temos é que fazer aquilo que se faz bem no mundo. Podemos alterar um pouco, mas não vamos inventar.

Foi isso que tentou fazer com o Kompassus? Foi isso mesmo. Sempre com a filosofia de não perder as raízes e melhorar o que já existia.

A introdução de algumas castas encaixa nesse objectivo de melhoria? Isso são paixões que, de vez em quando, me levam a fazer umas maluqueiras, mas, ainda assim, as coisas têm de fazer sentido. Por exemplo, para um grande espumante o Pinot é básico, é essencial. O Pinot já está na Bairrada há 130 anos, só que, entretanto, as pessoas abandonaram-no. Nos brancos continuo fiel ao Bical, ao Arinto, ao Cercial que já esteve completamente perdido e agora ando a recuperar.

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Como é que começou a sua ligação ao vinho?


Há também o Verdelho, que é uma casta que sempre considerei interessante.

Porquê o Verdelho? Muito disto resulta, também, das viagens que faço. Há muitos anos, numa viagem de avião entre duas cidades nos Estados Unidos, deram-me uma lista com bebidas e vi a casta Verdelho, num vinho produzido na Austrália, casta oriunda da Madeira e, entre parêntesis, Portugal. Comecei então a explorar. Fui aos Açores, ao Pico, depois fui à Madeira e percebi que era uma casta engraçada, pois tinha uma mineralidade, uma salinidade que as outras não têm. Tinha um bocado de Merlot e enxertei lá o Verdelho para não ter de arrancar a vinha. E tinha Merlot porque andei em França à procura de uma casta que pudesse, para os vinhos de entrada, associar à Baga, sem que a desvirtuasse, e que permitisse constância mesmo nos anos de fortes chuvas. Houve quem tentasse fazer o mesmo com castas como o Cabernet, mas foi um erro. Parte do Merlot que tinha era para compor os vinhos da Quinta de Baixo, mas, como, entretanto, vendi esse projecto, deixei de precisar e daí ter enxertado o Verdelho.

Agora estou curioso com esse Verdelho. Está muito bom.

E o Alvarinho? O Alvarinho foi o Anselmo Mendes que trouxe. Já fazia em Monção, mas queria também fazer num terreno calcário. Decidimos plantar num bocadinho de terreno que eu até defendia que era apropriado para Baga. Entretanto, já plantámos mais, porque as coisas têm corrido bem.

Tem corrido muito bem. O problema é que produzimos 500 e poucas garrafas, que são vendidas ao mesmo preço dos outros monocastas. Podíamos optar por um preço mais elevado, mas decidimos não o fazer.

Conte-me a história do 91 da Quinta de Baixo.

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O 91 foi o primeiro vinho tinto que fiz na adega, em Ourentã. Tinha, na altura, a ajuda do Senhor Alberto. Entretanto o meu Pai tinha um tonel que tinha comprado em 1950, mas que, por não ser utilizado, não estava em grandes condições, pelo que passei as férias de Natal de 1991 a recuperá-lo. Pus lá o vinho a estagiar e depois foi engarrafado. Venderam-se bastantes garrafas, mas acabaram por sobrar 400 garrafas. Quando construí a Quinta de Baixo essas garrafas ficaram por lá à chuva e ao sol. O pessoal da vinha de vez em quando bebia lá umas garrafas, mas não gostavam muito daquilo.

Por ter madeira? Não. Era pelo facto do vinho já ter uma certa idade. Aliás, não tem madeira. Ou melhor, tem alguma, mas não se nota. É um vinho de uma elegância brutal. Por volta de 2012, há uma pessoa que vai aos Estados Unidos e leva umas garrafas e telefona-me a dizer que o vinho era do caraças. Nessa altura já só havia umas 250 garrafas. Começámos a provar, fomos bebendo também e metemos aquilo no mercado. O problema é que tem uma rolha há 25 anos. Aos que vão para o mercado tiro a rolha. Geralmente faço aquilo uma vez por ano. Provo com uma proveta e, se estiver bom, ponho uma rolha nova. No outro dia, de 40 garrafas, só aproveitei 25. E, pronto, é a história. Lá esteve à chuva e ao sol. O que aguentou, aguentou. O que não aguentou, paciência.

Era só Baga? A base é Baga. As outras castas são marginais. Já não existe essa vinha. Não era minha. Depois, o 92 foi bom, o 93 foi um péssimo ano e o 94 tenho lá. Está espectacular. Provámos agora quando foi o Congresso da Baga.

A Bairrada sempre foi uma região forte, mas a certa altura perdeu o fulgor. Porque é que isto aconteceu? É muito simples. Estamos a falar dos anos 90 quando aparecem os vinhos do Novo Mundo, os vinhos fáceis, que começaram a proliferar por todo o lado, nomeadamente no Alentejo. Nessa altura, os poucos jornalistas da especialidade não tinham grande cultura de vinho, pois estavam a dar os primeiros passos. Como eram jovens, começaram a entusiasmar-se com coisas mais fáceis, mais “gulosas”.

Lembro-me do Alfredo Saramago desancar nesses vinhos. É evidente. O Alfredo Saramago era uma pessoa viajada. O facto é que andámos a levar pancada da forte. Entretanto, como as coisas acabam por cansar e os jornalistas também têm outro tipo de conhecimento, as coisas já não são bem assim. O problema é que começaram a viajar e a aprender tarde e, entretanto, o público andou a ser intoxicado durante muito tempo. Criaram-se hábitos.

Essa mudança de paradigma de que fala, tem afectado os vinhos do Alentejo. Portalegre agora está espectacular.

Mas foi uma região que esteve, muitos anos, esquecida. Em Abril fui a uma prova de alentejanos e o vinho mais interessante que provei até cinco euros foi o da Adega Cooperativa de Portalegre.


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Um branco deste ano que custa €3,90, está baratíssimo. Bem feito, com uma acidez boa, uma frescura brutal.

No Alentejo têm capacidade de produzir em volume, o que permite optimizar os custos de produção. Aqui, na Bairrada, e no Dão, os produtores têm meio hectare aqui, quatro hectares acolá, cinco hectares não sei onde, o que encarece significativamente os custos de produção. Por isso é que eu digo que a Bairrada não pode ser uma região de volume. Além disso, temos uma grande dificuldade em encontrar mão-de-obra. Neste momento, estou com grandes problemas, porque há dois senhores que foram embora e vai ser muito difícil substituí-los. Não há quem queira trabalhar no vinho e, os que estão disponíveis, querem fazer à maneira deles. As pessoas não têm cultura vínica, não saem daqui, não viajam, não têm conhecimento científico. Aprenderam com o bisavô que já fazia mal e às vezes copiam ainda pior.

Mas os terroirs têm características próprias o que, durante muito tempo, foi considerado indiferente. Hoje já se começa a notar em Portugal essa diferença que não se cinge apenas às regiões demarcadas. Cada vez mais isso é uma forma de afirmação? Sim, tem de haver um pouco de massa crítica. Não se podem fazer grandes maluqueiras. Tem de haver uma determinada linha, um denominador comum, e, em cima disso, cada um ter o seu estilo.

Nos últimos anos mudou muito a percepção do vinho em Portugal. Tem-se feito um bom trabalho nesse sentido?

É difícil dar formação às pessoas?

Houve melhorias. O problema é que, em alturas de crise, as pessoas refugiam-se no que é mais barato e, aí, aparece o granel a funcionar em força. Nas gamas de entrada é quase zero português. Isso é que é vergonhoso. O Douro, este ano, quase não teve branco, acha que ele não vai aparecer nas garrafas? Isto só é possível porque, em Portugal, em mil pessoas, só há uma que tem cultura vínica. A cultura vínica não é má, é péssima. Só assim se percebe que haja quem ande a arrancar vinhas centenárias em Portalegre para plantar Touriga Franca e Touriga Nacional. Tudo com o objectivo do lucro fácil e imediato.

Curiosamente, é fácil, se não tiverem feito viticultura antes.

No Dão está-se a fazer um bom trabalho com o Encruzado.

Se não tiverem vícios, não é?

Sim, mas, em alguns casos, tem sido uma vergonha, porque vem do Alentejo ou de Espanha e passa a ser Encruzado.

Estamos a falar das enxertias, das podas… Já nem vou por aí. Não é preciso ser tão específico. Basta dizer que há uma lacuna de conhecimento do princípio ao fim. Por exemplo, a pior coisa que pode acontecer a uma uva é apanhar sol directo. A uva deve ser arejada, mas nunca apanhar sol directo e, se não tivermos cuidado, esta malta leva tudo à frente. Tiram tudo e só deixam a uva.

Sim, mas não é só isso. Por regra, são pessoas que não têm necessidade de trabalhar. São pessoas de mais idade, muitas delas reformadas e, se exigimos muito, eles não aparecem mais. É preciso ir formando aos poucos e ir constantemente ajustando o barómetro. A pessoa mais nova que tenho é a enóloga, que tem 31 anos.

Na Bairrada, o caminho são os terroirs?

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redutor entrarmos neste nível de especificidade. Mas há uma coisa muito engraçada… antigamente o vinho da Bairrada mais “duro” era atacado por ser adstringente e ácido. Agora, não. Agora adstringência é elegância e acidez é frescura (risos).

Aqui na Bairrada, há dois terroirs totalmente diferentes. Há a região do planalto de Cantanhede - Ourentã, Cordinhã, Cantanhede - que tem vinhos muito mais quentes, com taninos mais moldados, menos ácidos. Depois há a região de Oliveira do Bairro com terrenos mais húmidos e maior acidez. Mas a região é tão pequena que acaba por ser

Mas há bons Encruzados no Dão. Há, mas não são todos.

Qual é o prato ideal para combinar com um 100% Baga? Depende da Baga. Se tiver 5 ou 6 anos, é uma coisa. Se tiver 10 ou 20, é outra. Mas de uma forma genérica poderá ser, por exemplo, uma carne vermelha assada no forno. Não é bem um rosbife. Tem de ser uma carne já mais elaborada, que vá mais para além do vermelho.


A Feira de São Mateus, em Viseu Reinventa-se e Revitaliza Tradições

IGUARIAS

por Câmara Municipal de Viseu

Feira de São Mateus - John Gallo - VISEU MARCA

A Feira de São Mateus, em Viseu, é a guardiã das feiras populares do país. Este ano, realiza-se de 8 de agosto a 15 de setembro, num total de 39 dias e noites recheadas de pretextos para feirar com amigos e família. Nesta 627ª edição, a Feira de São Mateus reinventa-se e regressa mais atrativa do que nunca, com um cartaz imperdível, internacional e intergeracional, que conta com grandes nomes como Mariza, Xutos & Pontapés, Richie Campbell, Natiruts e Gipsy Kings, entre outros.

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Em 2019, a Feira volta a inovar nas arquiteturas do certame, regressa mais “verde” do que nunca e recupera tradições. As iguarias são uma delas.


AS ANTIGAS Entre as tradições mais antigas da Feira, encontram-se as enguias de escabeche e as farturas. Enguias As primeiras enguias da Murtosa chegaram à Feira de São Mateus trazidas pelas «fritadeiras» da Murtosa, mulheres que fritavam as enguias e as vendiam nas feiras e festas do interior beirão. O hábito de consumir enguias de escabeche na Feira de São Mateus está bem documentado nas primeiras décadas do século XX. Em 1927, a imprensa local referia o peixe de escabeche como um dos mais populares pitéus consumidos na Feira e identificava, nesse ano, 10 barracas de venda de peixe no certame. Pouco depois, em 1931, era assinalada, no recinto renovado da Feira, uma “Rua da Murtosa”, na qual estavam instaladas “as barracas da venda do peixe de conserva, característico da Feira Franca”. Na década de 40 do século XX, a procura das enguias de escabeche aumentava e nascia a primeira fábrica de conservas de enguias na Murtosa, denominada COMUR, em 1942. Além da satisfação do consumo interno, a nova empresa iniciou de imediato a exportação das suas conservas. Naturalmente, as novas condições de produção permitiram a ampliação do consumo na Feira de São Mateus. Das primeiras barricas em madeira, a empresa evoluiu para recipientes metálicos que conservam, todavia, as formas dos recipientes mais antigos. Nos anos 60 do século XX, as enguias de escabeche da Murtosa eram uma iguaria incontornável na Feira, sendo consumidas com batatas cozidas com pele, frequentemente trazidas pelas próprias famílias de viseenses que vinham à Feira. Hoje, para muitas famílias, a visita à Feira de São Mateus ainda implica uma bela refeição de enguias na zona dedicada a esse pitéu. Farturas Para muitos visitantes habituais da Feira, a farturas são uma tradição incontornável da própria Feira de São Mateus. Há mesmo quem afirme que as farturas têm aqui um outro gosto.

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Este é um sabor introduzido há pouco mais de 100 anos, seguindo as tendências das feiras de Lisboa, como descrevem autores da época. Em 1913, Luciano de Sousa, considerado um

“grande impulsionador da Arte Culinária na Feira Franca” associou uma cervejaria ao seu “Salão Olimpia”, uma elegante barraca para sessões de cinema, com capacidade para 750 pessoas, instalada no espaço da Feira. Nesse ano, pela primeira vez os visitantes da Feira puderam saborear as farturas, petisco que granjeou de imediato enorme sucesso, até aos nossos dias.

AS QUE VOLTARAM Nos anos 60 do século XX, o Rancho à Moda de Viseu e o caldo verde eram já atrações gastronómicas na Feira, saboreadas no Restaurante Zé Povo ou no Salão dos Bombeiros. Rancho à Moda de Viseu Diz a tradição que o “Rancho à Moda de Viseu” nasceu no século XIX, durante a Guerra Civil entre liberais e absolutistas (1828-1834), embora existam diferentes versões que tanto atribuem a origem a um regimento de cavalaria como a um regimento de infantaria aquartelado em Viseu. As razões que presidiram à sua criação variam também entre o abastecimento à população civil em tempo de racionamento e a motivação a uma unidade militar que partiria para a frente de batalha. Seja qual for a versão mais correta das suas origens, hoje sabemos que o ”Rancho à Moda de Viseu” se afirmou como uma das tradições gastronómicas do concelho de tal modo que nos anos 50 e 60 do século XX estava perfeitamente enraizado nos gostos locais. Nessa época, o Rancho do Regimento de Infantaria 14 era o mais afamado e, à quinta-feira, pelo final da manhã, formavam-se filas de viseenses à porta do novo quartel do Regimento para adquirirem o Rancho e comerem em casa. Naturalmente, o sucesso da “operação” ditou, a prazo, o seu fim, pelos problemas que acabou por causar no ritmo do Quartel. Entretanto, já o Rancho estava nas ementas de alguns restaurantes de Viseu e na Feira de São Mateus, onde o Rancho do famoso “Zé Povo” fazia as delícias de todos. Chocolates da Regina Ainda na década de 60 do século XX, a pequenada deliciava-se com o algodão doce, os chupa-chupas e os furinhos dos chocolates da Regina, tradição que foi recuperada em 2017.


Enguias - José Alfredo Fotógrafo - VISEU MARCA

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Farturas - José Alfredo Fotógrafo - VISEU MARCA


Rancho à Moda de Viseu Andrea Couceiro - Município de Viseu

Anúncio na Revista Oficial da FSM, 1972

AS NOVAS Hoje em dia, os sabores da tradição de feirar continuam a atrair visitantes de todas as idades. A eles junta-se novas propostas que prometem ser as tradições do futuro.

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Em 2019, destaca-se a primeira sobremesa oficial da Feira: o “São Mateus”. Criada pelo Chef Diogo Rocha em parceria com a Nutriva, produzida para a edição de 2019, a sobremesa “São Mateus” é composta por diferentes texturas de puré de maçã bravo de Esmolfe, da mesma maçã caramelizada, creme de tília, mousse e crocante de avelã de Viseu. Todas estas texturas são dispostas por distintas camadas cuja conjugação harmoniza os ingredientes na perfeição.

Sobremesa São Mateus - José Alfredo Fotógrafo - VISEU MARCA


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