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DABLIU DABLIU DABLIU PONTO AGENDA ÉLE XIS PONTO PÊTÊ AGENDALX.PT, O SITE DA AGENDA CULTURAL DE LISBOA


revista TRADIÇÕES

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João Moreira | Editorial #3 Graça Fonseca | Grande entrevista #4 Afonso Reis Cabral | Encontro de senhores #13 Luísa Ferreira | Há quanto tempo trabalha aqui? #19 Frederico Andrade | A tradição ainda é o que era #32 Paulo Duarte, sj | Reflexões #34 Paulo Rosa | Lotaria nacional #36 Maria João Lopo de Carvalho | A tradição da Severa... #40 Nicolau Pais | Michel Giacometti #43 Nuno Maia | AC Alfaiates #44 Irina Rosa | Majora #48 João Moreira | Tradições #50 João Albuquerque Carreiras | A minha praia #52 Constança Martins da Cunha | Voltar a casa #57 André Serpa Soares | tra-di-ção #59 Cláudia Pinto | Rosto de um Portugal esquecido #60 António Ferrari | Os direitos humanos... #74 Pedro Eduardo Ramos | Marvão: de onde se vê o mundo #78 Bruno Esteves | Summer Cemp #82 Francisco Duarte Coelho | Segredos de Lisboa #87 Ana Luísa Soares e Ana Raquel Cunha | Árvores de Lisboa #88 Jaime Silva | Sociedade Nacional de Belas Artes #90 José Diogo dos Santos | Compromissos que se transformam... #92 Carolina Grilo | Saturnalia #94 Galopim de Carvalho | Pedra, palavra de uso vulgar #100 Henriqueta Oliveira | Memórias Habitadas #102 Raimundo Mendes da Silva | Há sempre um instante “zero”... #108 Vanessa Pires de Almeida | O momento presente do passado #110 Lisbonar | O nosso guia de Lisboa #113 Pedro Mexia | Entrevista #122 Ana Pérez-Quiroga | Auto-retrato da artista...#134 Francisco Mallmann | Contragolpe #139 Itamar Vieira Júnior | Entrevista #140 Luís Louro | Watchers #147 João Albuquerque Carreiras | Postais perdidos #152 Itamar Vieira Júnior | Terra de mulheres #155 Arquivo Municipal de Lisboa | Helena Corrêa de Barros #158 João Moreira | Noise Indie Fest #166 Bruno Esteves | Sérgio Amaral #170 João Júlio Rumsay Teixeira | Black friday, black market #174 José Pedro Pinto | Metropolis (1927) de Fritz Lang #176 Mariana Claro | É uma casa portuguesa com certeza #182 Pedro Santo Tirso | Beber mais aguardente #184 Pedro Nápoles | Raio gourmetizador #186 Valentina Carvalho | Saudades do Brasil em Portugal #188 Joana da Franca | Chapéus há muitos #190 Tradições de Viseu #192 Ana Souto de Matos | Terras da Chanfana #204


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Fotografia por Hugo Macedo


Editorial Do que primeiro me lembro é da serra ligeiramente pintalgada de branco. Creio que, por essa altura, não sabia que era uma serra, ou talvez já tivesse ouvido o nome. Serra. A serra era talvez a única coisa que tinha uma existência autónoma. A serra era a serra. Tudo o resto tinha pertença. A vinha do lado era a vinha do Sr. Luisinho. A nesga de pinhal atrás era a nesga de pinhal da Cristina. Por cima, a casita cercada de currais era a casita do António. E o próprio António era o António da Noémia. Os pinhais em frente, colados à vinha mais bonita que já tinha visto, eram do Sr. Professor. Que, por acaso, era o Sr. Professor do Cruzeiro. Que, por acaso, era meu pai. Eu era o menino Joãozinho. Ou melhor, o filho do Sr. Professor do Cruzeiro. Hoje, talvez me pareça estranho, mas, na altura, simplificava tudo. Era uma espécie de GPS local, sem espaço para erros e sem necessidade de actualizações. - De quem é a junta de bois que vai levar as uvas este ano? - Ora, é a mesma de sempre. É a do Joaquim Corgas. - Mas ele não morreu? - Claro que morreu, menino. Em Junho, que Deus o tenha. Não se lembra? Era bom homem, o Corgas. - Então a junta já não é dele. - Num sabe que agora quem anda com ela é o Carlos da Laura? Ele é que comprou a junta do Joaquim Corgas à mulher. - Então é a junta do Carlos da Laura. - Olha agora! O menino tem cada uma. Ouviste, ó Toino? A junta do Carlos da Laura, ah, ah! É a junta do Corgas, e mais nada. Era assim. As casas mudavam de dono. As terras mudavam de dono. As juntas de bois mudavam de dono. Mas, como que para garantir as origens, continuavam agarradas aos seus proprietários originais. Era como se a venda dos bens não incluísse a sua propriedade intelectual. Eu gostava das coisas assim. Gostava de brincar com o Paulo da costureira e com os filhos do cesteiro, o Fernando e o Toino, que, por acaso, ou não, eram vizinhos e primos do Paulo, e eram craques da bola. O Fernando era do Sporting, e gostava de contar as histórias das vitórias dos Cinco Violinos, que ouvia do pai. Acho que foi por causa dele que fiquei do Sporting, para a vida, embora goste de pensar que foi por causa do meu primo Tó. O Toino era benfiquista ferrenho, e nem podia ser outra coisa. Ainda hoje acho que o Toino era o Benfica. Ninguém como ele representava tão bem a imagem que eu tinha do “Glorioso”. Com um coração do tamanho do mundo, o Toino transfigurava-se quando se falava mal do Benfica, e não poucas vezes assentava uns pares de tabefes no irmão ou em qualquer sportinguista que estivesse por perto. Ouvir um relato de bola ao lado dele era uma aventura única. Uma emoção. Eu ria-me a ouvi-lo. Ele ria-se a ouvir-me repeti-lo. - “Ó menino, não diga essas coisas à frente do paizinho. Olhe que ele dá-lhe uma coça, que nunca mais se endireita.” E eu mortinho por repeti-las. Eram “asneiras”, diziam, mas, isso, eu ainda não sabia. Não sabia muitas coisas.

Lembro-me dos galos: nas férias ouvia-os antes de adormecer quando a noite desistia. Lembro-me dos galos: eram o avesso da cidade. Pedro Mexia, in Poemas Escolhidos

Propriedade: Studiobox, Publicidade e Gestão de Meios, Unipessoal Lda Direcção: Bruno Esteves Susana Andrade Edição: João Moreira João Albuquerque Carreiras Fotografia: Bruno Esteves, Hugo Macedo Arte: Studiobox Ilustração: Paulo Medeiros, Pedro Albuquerque, Tiago Lopes Identidade Corporativa: Jorge Barrote Comercial: geral@revistabica.com +351 962 706 373 / 968 405 494 Impressão: Tondelgráfica, SA Periodicidade: Trimestral Tiragem: 5 000 unid. Depósito legal: 416462/16 Interdita a reprodução de quaisquer textos ou ilustrações por quaisquer meios. A Revista Bica é escrita em português, sem utilização do acordo ortográfico. Os conteúdos dos textos e as opiniões neles expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Capa: Matilde Azevedo Neves APOIOS:

Espero que goste.

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Passaram 83 anos, e nunca repeti uma “asneira” à frente do “paizinho”, embora, por uma ou outra ocasião, o tenha ouvido repeti-las. Ria-me interiormente, e lembrava-me do Toino e da promessa das coças, que acabei por nunca levar. Quando comecei esta aventura da Bica, em conversa com o meu pai, ele sugeriu-me que escrevesse sobre esta vivência aldeã de que me afastara, por, em seu entender, conter uma genuinidade única e ser um repositório de tradições orais e vivenciais, que rapidamente desapareceria. Devia tê-lo feito antes, mas aqui fica agora um pedaço dessa memória infantil, numa edição inteiramente dedicada às tradições.


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Grande Entrevista


Graça Fonseca por João Albuquerque Carreiras

Bruno Esteves

Licenciada em Direito, pela Universidade de Lisboa, e doutorada em Sociologia, pelo ISCTE, a nova Ministra da Cultura, Graça Fonseca, assume a pasta, na sequência da maior remodelação governamental, levada a cabo por António Costa. A ligação ao actual Primeiro-Ministro vem de longa data, desde que assumiu funções de sua adjunta no Ministério da Justiça, ainda António Guterres se movia nas lides da política nacional. Acompanhou António Costa, no Ministério da Administração Interna, como chefe de gabinete, e, entre 2009 e 2015, na Câmara Municipal de Lisboa, como vereadora dos pelouros da Economia, Inovação, Reforma Administrativa e Educação. Com a posse do actual Governo, apoiado pela “geringonça”, Graça Fonseca assumiu as responsabilidades de Secretária de Estado Adjunta e da Modernização Administrativa, cabendo-lhe a gestão de duas das coroas de glória do Executivo: o Simplex e os Orçamentos Participativos. Em Outubro, aceitou o desafio de substituir o poeta-diplomata, Luís Filipe Castro Mendes, numa das mais contestadas áreas da governação socialista, a cultura. Para quem esperava a pacificação do sector, Graça Fonseca surpreendeu, com duas declarações polémicas de uma assentada: a sua posição pessoal sobre a tauromaquia e um comentário sobre os jornais portugueses, em Guadalajara, no México. Talvez por isso, no seu gabinete do Palácio Nacional da Ajuda, tenha começado a conversa com a Bica com um cuidado pouco usual na escolha das palavras, que o tom informal da conversa foi atenuando. Durante mais de hora e meia, conversámos sobre o seu pensamento para as diversas áreas culturais e sobre a diferença que pode imprimir, no curto espaço de tempo que medeia até às eleições legislativas.

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por João Moreira


A menos de um ano do final do mandato, e com um Orçamento que não foi definido por si, quais são as prioridades definidas para o sector? O Orçamento não foi totalmente definido por mim, é verdade. Mas não esqueçamos que faço parte do Governo, desde 2015, e, por isso, tenho alguma participação, pelo menos indirecta, nessa definição. Isto é importante dizer-se, porque parece que algumas pessoas pensam que caí de pára-quedas neste cargo. Ao longo deste mandato, tem havido uma tendência de investimento crescente em determinadas áreas, e a Cultura, ao longo destes quatro anos, foi o sector que mais cresceu, cerca de 38%, entre 2016 e 2019, sendo que existiu um reforço, entre 2018 e 2019, que é importante realçar, que foi distribuído por todas as áreas, mas com particular incidência no apoio às artes, através da Direcção-Geral das Artes, e ao património, através da Direcção-Geral do Património Cultural e das Direcções Regionais de Cultura. Portanto, a menos de um ano, o mandato é relativamente claro. Por um lado, prosseguir as prioridades políticas do Governo, no apoio aos diferentes sectores que estavam a precisar de alguma estabilidade - cinema, artes e museus – e, por outro, de alguma maneira, preparar o futuro, definindo estratégias, de mais longo prazo, nas diferentes áreas. Porque é chegada a altura de pensarmos o que pretendemos que os museus sejam daqui a dez anos, o que queremos que seja o sector do cinema daqui a dez anos, o que queremos que sejam o desenvolvimento e o apoio à programação e à criação, e devemos fazê-lo de uma forma mais sustentada e mais aberta, trazendo outros actores para fazer esta reflexão connosco. Só para terminar, há outra área muito relevante que é a da comunicação social, media, e tudo o que tem a ver com o audiovisual.

Qual é o panorama geral do estado do Património em Portugal? O Património é uma área de que se fala menos, quando se fala de política cultural, mas é extraordinariamente importante. Como já referi, essa foi uma das áreas onde houve um reforço orçamental, e em que acabámos de fechar, no âmbito da reprogramação do PT2020, uma verba substancial para a sua recuperação. Para dar um exemplo, estamos a trabalhar na recuperação do Convento da Saudação, e de uma série de outras obras, com início previsto para 2019. A nossa prioridade tem sido identificar, com as Direcções Regionais, quais são os investimentos mais prioritários.

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Os que estão em risco... ...não só os que estão em risco, como é o caso do Convento da Saudação, que está em risco há muitos anos, mas muitos outros que preci-

sam de ser intervencionados. Somos um país com quase mil anos, e muito rico em património edificado. Por isso, é natural que exista uma grande necessidade de investimento nessa área, para garantir a preservação desse património. Por isso, para 2019, o nosso objectivo é identificar os investimentos prioritários, para reabilitar, conservar e dinamizar. Porque, sem dinamização, todos os edifícios e espaços reabilitados estarão, dentro de pouco tempo, a necessitar de nova intervenção. Depois, há que definir uma estratégia de médio e longo prazo. A questão do património é muito importante, desde logo porque é o que nos permite continuar a conhecermo-nos a nós próprios, a conhecer a identidade e a forma como nos ligamos a um território e à nossa História, e depois porque tem um impacto económico extraordinário.

Quando falou na importância da dinamização do património cultural, pós-reabilitação, não considera que os modelos de gestão pública, muito padronizados e centralizados, são um entrave a essa dinamização? Eu acho que a questão não tem sido tanto o modelo de gestão, mas a urgência da reabilitação que, depois, não é acompanhada pelo passo seguinte, a programação. Sinceramente, acho que é mais por aqui, porque o modelo de gestão utilizado no sector é o modelo de gestão pública e, em muitos casos, público-privada...

O caso do Monte da Lua, um modelo de gestão específico, envolvendo diversas instituições, que esteve para ser replicado no projecto do eixo Belém-Ajuda, do Professor António Lamas, não seria um modelo a ser utilizado em outros locais? O caso do Monte da Lua e o caso de Belém são casos diferentes entre si, e diferentes do que estamos a falar.

Demos um salto de escala, de um monumento para um conjunto de monumentos que podem ser integrados no mesmo modelo. Isso mesmo. O Monte da Lua gere vários equipamentos e vários espaços verdes, até porque começa com um impulso do Ministério da Agricultura, numa dimensão que tem muito a ver com a gestão, num modelo diferente da gestão pública, de dinamização de grandes zonas verdes. Depois, o Monte da Lua tem uma dimensão cultural, porque gere Monumentos Nacionais, como o Palácio de Queluz. A minha opinião sobre este modelo, com base nos resultados conhecidos, é a de que terá muitas mais-valias, porque junta entidades públicas, quer na sua dimensão de Estado, envolvendo, inclusivamente, diversas áreas, dentro do Governo, quer na sua dimensão autárquica, mas mantendo os espaços na esfera pública, sem qualquer intuito


A dificuldade de articulação entre entidades, como é o caso da Tapada das Necessidades, gerida por cinco entidades diferentes, é um dos óbices ao bom funcionamento dos equipamentos culturais? Essa é uma característica transversal em Portugal, e, em boa verdade, não é uma característica exclusiva das instituições públicas. Esse é um mito que eu gosto de desconstruir, porque é um problema cultural. Aliás, é um problema cultural que é comum a diversos países, da França ao Egipto, onde não existe a capacidade de desenvolver programas transversais ao Governo. Mas claro que isto é algo que dificulta muito a forma de fazer política pública, em qualquer sector, e a cultura não é excepção, naturalmente. Basta olhar para o sector, para perceber que há áreas relativamente bem definidas e, nalguns casos, relativamente estanques que dificultam um olhar mais transversal e uma política mais integrada. Isso faz parte daquele exercício, que há pouco referia, de termos de definir como vamos olhar para o futuro, e que, penso, terá de passar por uma visão mais multidisciplinar e integrada.

Talvez esteja a ser muito optimista (risos). (Risos) Tenho mesmo de ser optimista. Eu tenho a particularidade de vir de fora do sector, que é uma expressão que eu acho extraordinária, seja lá o que isso for. Mas tenho outra, que é a de ter trabalhado em quatro ministérios diferentes, o que me permite dizer que todos são especialmente particulares, porque temos sempre a perspectiva de olhar para nós próprios como sendo diferentes, e não somos. Por isso, quando dizemos que a área da cultura é muito particular, eu diria que até é menos do que outros sectores, porque, se olharmos os projectos apoiados pela DG Artes, percebemos que existem inúmeros cruzamentos que fluem bastante. E isso é válido até no cruzamento com outras áreas, desde logo com a Educação, através do Plano Nacional das Artes, do Plano Nacional de Leitura, da Rede Nacional de Bibliotecas, e com a Ciência.

Pensa que seria importante alcançar consensos para a cultura, até pela necessidade de definição de políticas de longo prazo, como acabou de referir? Acima de tudo, é preciso pensar para além do curto prazo. Por exemplo, sendo o Orçamento um instrumento importante, se tivermos um bom orçamento sem estratégia, de nada servi-

rá. Por isso, quando falam do 1% para a Cultura, que eu até considero pouco, na verdade, do que é que estamos a falar? Queremos mais investimento público, com que objectivos? No dia em que todos tivermos a capacidade de dizer que queremos que, daqui a dez anos, o número de espectadores de cinema cresça de forma a atingirmos o meio da tabela europeia, ou que queremos que o número de novos programadores culturais represente mais X, e esteja mais distribuído no território, será natural que a percentagem orçamental não seja importante, até porque a lógica subjacente é completamente diferente. No fundo é “queremos atingir estes objectivos e para isso precisamos deste montante”. Quanto aos consensos, nunca serão 100% possíveis, em nenhuma área, embora haja algo que, penso, não seja impossível de alcançar, a definição de bases e objectivos comuns que consigam unir os diferentes agentes.

Estava mais a falar de consensos políticos. Penso que há consensos políticos, não necessariamente partidários, que são relevantes, porque dão estabilidade às políticas públicas. Mas a verdade é que em Portugal, aliás, não só em Portugal, não existe essa tradição. Até porque existem diferenças substanciais entre um conjunto de valores mais de direita e mais de esquerda. Faz parte. As políticas públicas têm sempre, na sua base, um conjunto de valores que as norteiam, e que implicam diferenças, o que é bom. Um dos problemas que está na base do surgimento dos populismos, e nacionalismos, e localismos, e outros ismos que têm proliferado por aí, é o da indiferenciação entre políticos e políticas.

É importante ter um Presidente da República como o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que tem manifestado cuidado, dedicação e interesse pela Cultura? Sim, o facto de termos o Presidente da República e também o Primeiro-Ministro, ambos, muito atentos e empenhados nas questões do sector é, evidentemente, muito importante. Dão visibilidade e importância, e nós, como todas as organizações, também precisamos de sentir esse apoio.

Qual é a posição do Ministério em relação à autonomia dos museus, que tem sido sistematicamente exigida pelo Museu Nacional de Arte Antiga? Quanto à questão da autonomia dos museus, é importante referir que não se trata da autonomia do MNAA, pois a DGPC gere 23 museus e monumentos nacionais. Portanto, o grande trabalho que existiu e que iremos concluir agora, no início de Janeiro, é precisamente olhar

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de privatização, utilizando um modelo que permite uma gestão mais flexível, mais ágil e mais integrada. Portanto, parece-me que este modelo, que junta uma dimensão de espaço público, de espaço verde, de equipamento cultural, de Monumento Nacional e lhes entrega uma escala diferente, é muito interessante.


para a forma como os museus e monumentos nacionais são geridos e trabalhar numa dupla dimensão. Por um lado, terem maior autonomia de gestão financeira, nas componentes de despesa e receita, para que haja a possibilidade de poderem ter maior autonomia na afectação, até um determinado valor, do orçamento, e, por outro lado, tendo estratégias de captação de financiamentos através de mecenato ou crowdfunding, e, aqui sim, o caso do MNAA é particularmente relevante, poder haver uma parte que fique especificamente consignada para esse museu. É importante referir que há um determinado nível de autonomia que será possível, sendo que não é possível a autonomia total, porque há aqui uma questão muito particular, e é importante que se diga que a Lei de Bases da Contabilidade Pública tem uma limitação a novos centros de autonomia, que tem a ver com o equilíbrio entre receita e despesa. Ou seja, para que haja autonomia administrativa e financeira, é necessário que haja receita própria, superior ao nível de despesa. Portanto, o que vamos fazer é dar este primeiro passo, que já vem do passado, de autonomia, na dimensão que referi e no âmbito do actual enquadramento jurídico da Lei de Bases da Contabilidade Pública, sendo esta uma plataforma para, tal como nas outras áreas de que falámos, pensar, a dez anos, qual deve ser o modelo organizacional dos museus. Temos de pensar de que maneira é que os museus, e monumentos nacionais, se calhar, devem deixar de ser uma unidade orgânica de uma direcção-geral, ou seja, de um serviço de acção directa do Estado, para passarem a ter um outro nível de organização e de autonomia. Mas isto tem de ser pensado. Este primeiro passo para a autonomia, que vamos dar agora, permitirá um período para perceber qual é o impacto, quais são os resultados, de que maneira é que as próprias direcções dos museus e monumentos nacionais utilizam essa autonomia para determinado tipo de projectos. É, no entanto, importante que se diga que é mesmo um primeiro passo, relativamente limitado.

Em relação aos museus, temos apenas mais duas ou três perguntas. A primeira é como é que está o processo de ampliação do MNAA? Mantemos em aberto as diferentes possibilidades que têm sido estudadas ao longo dos últimos anos, em articulação com a Câmara Municipal de Lisboa.

Como é que está a colecção do Museu de Arte Popular? Também vai ter novidades, brevemente. É um museu que me diz bastante.

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O museu é muito bonito. Não só é muito bonito como o espólio é extraordinário. Já visitei as reservas, visitáveis e não

visitáveis, do Museu de Etnologia, onde está, aliás, o espólio do Museu de Arte Popular, e temos um projecto para aquele binómio etnologia/arte popular. O problema do Museu de Arte Popular é que temos de o retirar daquilo que, no imaginário de algumas pessoas, ainda está associado ao António Ferro e à Exposição do Mundo Português. Mas a verdade é que, lá dentro, está aquilo que é a nossa própria identidade, e que, hoje em dia, não só é muito importante do ponto de vista cultural como tem um extraordinário valor económico. Só para dar um exemplo, o Museu de Arte Popular tem uma das maiores colecções de cestaria, e, hoje em dia, o que está a acontecer, e bem, é que de alguma maneira se está a valorizar mais a necessidade de preservar este tipo de artes e ofícios culturais. Cada vez mais, temos, felizmente, em algumas áreas, mais jovens a quererem entrar em determinado tipo de ateliers e de oficinas, e temos de perceber que, ali, está um potencial que conta a nossa história, e que pode projectar um futuro muito importante, do ponto de vista cultural e económico. É exactamente isso que estamos a construir. Mas não posso, ainda, dizer qual é o projecto.

A última pergunta sobre museus é sobre o famoso Museu dos Descobrimentos, que tanta polémica tem dado… Isso é com a Câmara. Tem de perguntar ao Presidente da Câmara.

Sim, mas há uma componente que pode ter a ver com o Ministério da Cultura. Uma coisa é como se vai chamar e onde vai estar, e isso tem a ver com a Câmara, é verdade, mas a questão é: qual vai ser a colecção? Isso também tem de perguntar à Câmara.

Sim, mas é a DGPC que tem as peças que provavelmente farão parte desse museu. Isso está a ser falado? Há a possibilidade de as peças virem de outros museus? Todo o projecto do museu é, de facto, do âmbito da Câmara. Quer a famosa questão do nome, quer a questão do projecto museológico. Naturalmente, articularemos, e teremos todo o interesse em que seja um projecto onde estejamos presentes, até mesmo, como diz, no ponto de vista de colecções. Mas o projecto é do domínio da Câmara. A iniciativa e a condução são da Câmara Municipal de Lisboa.

Fora dos dois grandes centros urbanos, excluindo Almada, Braga, Faro e Viseu, nenhum Teatro Municipal tem uma programação cultural anual. Ou seja, existem, são equipamentos que estão disponíveis e onde acontecem coisas, mas pouco ligadas às artes performativas e, em particular, ao teatro. Embora, cada


Está a colocar várias questões diferentes, pelo que me vou focar nas duas que me parecem mais relevantes. Quanto à questão dos equipamentos sem conteúdos, e conteúdos sem equipamentos, esta é um pouco a realidade que temos, e posso, uma vez mais, dar o exemplo da minha “batalha” com a questão das reservas. É que o conceito de reserva visitável é algo que é um aparente contra-senso. Para ser visitável não devia estar em reserva. Temos capacidade, instalada em grandes centros urbanos, em reservas que podem ir para equipamentos que têm menos conteúdo. Temos também a questão da itinerância das colecções, e uma política de descentralização que, felizmente, existe muito mais ao nível dos teatros e dos próprios museus nacionais. Hoje em dia, existe um entroncamento, totalmente diferente do que existia há dez anos, entre o que é nacional e local, e isso acho que é de louvar, porque não tem só a ver com o Ministério da Cultura. Hoje em dia, apesar de tudo, o País é visto de uma forma um pouco mais integrada do que era há uns anos, e, isto, acho que é relevante. A partir daqui, evidentemente, há muito trabalho para fazer. Ao nível local, regional e nacional, há museus, teatros, companhias. Em todos estes níveis há equipamentos e conteúdos. Temos de ter a inteligência de os integrar. Se há um museu, numa determinada parte do País, mais distante de um centro urbano, que tem uma determinada vocação, mas não tem, por exemplo, espólio para fazer uma exposição sobre, imagine, um autor do local, se existe essa capacidade num equipamento nacional, temos de trabalhar para que ele consiga ir lá. Isto implica conhecer o território, identificar, saber quais são os locais e quais são as necessidades. Depois, há outra dimensão, que colocou, que tem a ver com a comunicação. É verdade que, hoje em dia, existe muito mais oferta cultural a nível nacional, e não já tão centrada nos dois grandes pólos urbanos. A região Centro ou o Algarve, por exemplo, têm projectos muito importantes. Um deles, em conjunto com o Ministério da Economia, é o 365 Algarve, onde se cruzam estas diferentes dinâmicas. A oferta cultural existe, e é muito diversificada, mas não é conhecida. Daqui, entramos numa segunda dimensão que é de que forma é que, integrando o território e a oferta, conseguimos comunicá-la a todas as pessoas. Esse é outro projecto que estamos a trabalhar com várias entidades, como bancos, municípios, fundações, para construir

aquilo que poderia ser designada de Cultura PT Online. Temos de conseguir construir algo que permita, por exemplo, se alguém estiver em Bragança e for fazer uma viagem pelo País, e quiser saber onde deve ir para uma peça de teatro, cinema, uma exposição, uma ferramenta para o conseguir fazer. Se uma pessoa estiver em Londres, e quiser vir a Portugal, visitar três concelhos, deve conseguir saber a oferta cultural e poder comprar bilhetes, antes de vir. É o que faço quando vou a qualquer cidade. Aliás, hoje em dia, na verdade, em muitos museus, a nível mundial, já nem sequer se pode comprar bilhetes lá. Tem de se comprar, antes de ir. Para que fique claro, e para que as pessoas não fiquem assustadas, não estou a dizer que vamos fazer isso, mas temos de conseguir fazer esta comunicação integrada, porque, como é óbvio, se só comunicamos aquilo que está em Lisboa e Porto, as pessoas acham que só existe Lisboa e Porto, e isso é profundamente injusto.

Mas mesmo o que está em Lisboa e no Porto, muitas vezes, não é comunicado da melhor maneira, de uma forma integrada. Dou-lhe um exemplo: quando olho para a lista das entidades apoiadas pela DGArtes para o teatro, não conheço várias, sendo que algumas dessas recebem dos maiores apoios, e estão em Lisboa. Há alguma coisa que não está a funcionar. Estou, com certeza, a falhar por desconhecimento, mas a comunicação deles também estará a falhar. Há uma oferta enorme, e ainda bem, porque os próprios municípios começaram a ter mais oferta cultural.

Até porque cada vez mais, o turismo que nos procura é cultural, ou procura esse lado mais cultural. Sim, também. Mas eu gosto de acrescentar outra dinâmica a essa, para não ficarmos sempre só no turismo. A importância da identidade e daquilo que nos enraíza é, também, determinante. Isto pode não se perceber em Lisboa, mas, localmente, é muito forte. As pessoas valorizam muito, e ainda bem, cada vez mais, aquilo que é local, a sua identidade, a sua história. Isso é brutal, fora dos grandes centros urbanos.

Mudando de assunto, a Cinemateca teve duas personagens que foram marcantes - o Luís de Pina e o João Bénard da Costa. Duas personalidades fortes que, através dos seus contactos internacionais, sobretudo no caso do João Bénard da Costa, permitiram que a Cinemateca entrasse numa rede europeia, onde se afirmou, sendo hoje reconhecidíssima. Quais são os caminhos de futuro, e de que forma, entrando mais uma vez na questão do interior, a Cinemateca poderia ser um importante elo de divulgação

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vez mais, o interior se esteja a afirmar com uma dinâmica cultural própria, que depende muito da autarquia e dos agentes privados, continuamos a sentir que há muito pouca actividade cultural fora dos grandes centros urbanos, e, quando existe, é muito pouco ou muito mal comunicada. Como é que olha para este problema?


da cultura cinematográfica nacional, nomeadamente no apoio, de forma mais efectiva, dos Cine Clubes locais? A Cinemateca tem feito esse papel de descentralização daquilo que é o Cinema Português. A Cinemateca é mais um caso, à semelhança do que acontece com os museus, em que temos de pensar no seu modelo organizacional, e não só da Cinemateca como, fundamentalmente, do ANIM, o seu laboratório, porque sem esse laboratório estruturado, e a funcionar de uma forma estável, é difícil fazer esse trabalho de digitalização do espólio, numa lógica de preservação e conservação e, também, de poder tê-lo em formatos possíveis de descentralizar e levar para outros equipamentos. Portanto, temos de resolver, a curto prazo, as questões relacionadas com os recursos humanos e financeiros para o ANIM, e para a própria Cinemateca, para conseguir continuar a fazer o trabalho de digitalização e de prestação de serviços.

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A ideia é trabalhar o modelo organizacional do laboratório e da Cinemateca, para que o laboratório seja, de facto, não só um prestador de serviços para a Cinemateca, mas até para fora, porque há uma imensa procura, a nível internacional. Há, aliás, um estudo sobre o Laboratório, como entidade empresarial, que foi feito pela própria Cinemateca, o que revela bem como encaram a questão. Depois, há um trabalho de descentralização que a Cinemateca tem feito, dentro daquilo que consegue. Serralves, por exemplo, vai ter o ciclo Manoel de Oliveira, que já teve início em Bragança, e que é realizado com espólio da Cinemateca. É isto que permite que, em Bragança, haja um ciclo Manoel de Oliveira. Por outro lado, também há aqui uma parte relevante que é a Cinemateca Júnior, que está relacionada com uma questão importante, de que não falámos, nem vamos ter tempo para falar, e que é a questão dos novos públicos. Mas o trabalho que a Cinemateca faz com as crianças é extraordinário, e, de facto, como tenho dito, é um trabalho que devia ser mais visível e valorizado. Isso é um papel fundamental que a Cinemateca tem, de preparar novos públicos. Aconteça o que acontecer, os formatos já mudaram, a forma como consumimos conteúdos já mudou, a forma como temos a experiência, no grande ecrã, já mudou. Tudo isto mudou rapidamente, e temos de conseguir acompanhar esta mudança, mas acho que a Cinemateca, na verdade, já faz muito esse trabalho.

Em Portugal, o apoio que é dado ao cinema é, essencialmente, para a produção, mas parte dos filmes que são apoiados não estreiam em sala comercial. Alguns apenas podem ser vistos em determinados festivais. Quem não for a esse festival, não consegue ver o filme. Do ponto de vista do contribuinte, não seria mais

interessante um apoio à distribuição e não só à produção? Ao contrário daquilo que se diz, não pratico mesmo uma cultura do gosto, nem uma política do gosto. A cultura é financiada como a saúde ou a educação. As pessoas falam muito do subsídio na Cultura, mas um hospital público é subsidiado. Da mesma maneira, como faz essa pergunta, eu também poderia, no âmbito de qualquer política pública, colocar a questão de saber se a forma como se estão a colocar determinados recursos públicos é a mais racional, a mais adequada ou a mais eficaz. Do ponto de vista da Cultura, se o projecto é avaliado por um júri independente como tendo mérito cultural, deve ser apoiado. Esta é a lógica. E é a lógica de qualquer financiamento, em qualquer área. Já vi muitos filmes em festivais que certamente não veria numa sala, como disse, comercial, ou até mesmo independente, mas foi extraordinariamente importante ver aquele filme naquele festival, e aquele filme cativou a atenção de milhares de pessoas.

O Estado não poderia ter uma intervenção? Não poderia facilitar o acesso a filmes, ser distribuidor ou ter salas onde esses filmes pudessem passar? Há aqui duas questões diferentes. Uma coisa é o papel do Estado em matéria de cinema, no seu conjunto. Tenho, aliás, imensa dificuldade em entender, quando se fala sobre realização, produção, distribuição, exibição, como se fossem peças completamente autónomas. Não são. O ecossistema é o mesmo. Não vale a pena haver produção e realização, se não existir exibição e distribuição. E vice-versa. E tem de se começar a pensar assim. No que diz respeito à questão da distribuição, há várias dinâmicas possíveis. Em alguns países, nomeadamente em França, há alguns projectos de reactivação de cinemas locais, com o que se chama, enfim, de distribuição independente, que também se pode tentar em Portugal. Uma das coisas que estamos a fazer é perceber e identificar equipamentos onde isto seria aplicável. Por exemplo, na cidade de Lisboa, já descobri três potenciais salas de cinema, que ninguém sabe que têm potencial de sala de cinema. A ideia é, porventura, haver um circuito não comercial, numa perspectiva de sessões com preço tabelado. Aliás, se repararem, como é que o filme Roma chega às salas de cinema, em Portugal? É um exemplo muito emblemático, porque a opção do distribuidor foi a de ir para salas do chamado cinema independente. Hoje em dia, a forma como o Estado apoia e intervém está a mudar muito rapidamente. E tem um papel na distribuição, naturalmente. Mas pode ter outro tipo de papel, do ponto de vista da articulação. Agora, é muito importante perceber que não podemos construir uma estratégia, a médio e longo prazo, diabolizando uns ou divinizando outros. Para que fique claro, são todos importantes.


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Ainda fazem sentido grandes contratações de pessoas para a televisão pública, como aconteceu recentemente na RTP? Ao contrário do que se costuma dizer, nem o Ministério nem o Governo têm intervenção direta na Comunicação Social. Eu não dou ordens, nem faço qualquer espécie de ingerência, nem na RTP, nem na Lusa. Não tenho intervenção directa em matéria de contratações, nem em decisões editoriais ou de direcções. Há, naturalmente, uma intervenção do Estado, quer das Finanças, quer da Cultura, porque é uma empresa pública. O meu papel é manter uma ligação aos Conselhos de Administração e uma articulação com os trabalhadores, de ambas as empresas, como temos tentado fazer. Desde o início, tenho articulado com as plataformas dos precários, com o sindicato dos jornalistas, com a comissão de trabalhadores, e, aí, acho que há um papel a desempenhar, porque, a partir do momento em que o Estado lança este processo de regularização de precários, em ambas as empresas, tenho, de alguma maneira, de poder colaborar com os trabalhadores e articular com os Conselhos de Administração, mas mais nada. Não me pronuncio sobre contratação concreta de pessoas. De todo. É diferente, a título de exemplo, da Direção Geral das Artes, a quem dou orientações baseadas no programa do Governo. E não há dúvidas sobre isso.

“ Tenho mesmo de ser

optimista. Eu tenho a particularidade de vir de fora do sector, que é uma expressão que eu acho extraordinária, seja lá o que isso for.

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Encontro de senhores [13]

por Afonso Reis Cabral*


Como palavra, «tradição» é um dique. Imprime-se entre duas massas secas para impedir a corrente, parando a água, fazendo dela espelho. E nessa calmaria há tanto de sinistro como de belo. Embora na sua origem esteja algo de muito ancestral que é transmitido pelo fio das gerações, em nada se parece com um caudal. É muito mais olhar para a água parada, adquiri-la, e libertar apenas o acessório para que a jusante o leito ainda exista, embora prestes a secar. A fauna mantém-se a montante, onde a flora foi beber. Isto de «tradição» ser dique, ou seja, ser a retenção do tempo, pôs-me a pensar em duas personagens: o Senhor Tradição e o Senhor Contemporâneo. Desconfio que se conhecem, talvez até sejam a mesma pessoa. Acredito que um se deite na cama onde o outro acorda, qual Dr. Jeckyll e Mr. Hyde. Certo é que estes senhores lidam com o tempo de formas tão diferentes, mas tão conscientes, que só podem radicar na mesma preocupação. Viver o tempo activamente, sentir-lhe o pulso. Imagino um homenzinho muito velho que vive num quarto pequeno no interior do dique. Deixou os chinelos ao lado da cama antes de se deitar, e agora que começa o novo dia, enfia-os nos pés frios – o primeiro dos gestos iguais –, puxa do roupão pendurado no criado-mudo e segue para a sala dos botões. Chama-lhe assim por hábito (já percebeu que o hábito é uma tradição íntima), mas sabe que há nomes técnicos mais indicados. Claro, chama-se Senhor Tradição. Nessa sala de cimento impermeabilizado alguém instalou uma janela de vidro resistente à água. Em dias de muito sol, o homenzinho consegue ver o que vai no interior da bacia, algas, lúcios, peixes-gato, carpas, e gosta do que vê, embora se tenha oposto à instalação do miradouro porque quebrava com o estabelecido. Antes de manipular os painéis, bebe uma chávena de café aguado, nunca pediu bica e não é agora que inova. Os botões brilham, falam da pressão, da temperatura, da corrente eléctrica, assinalam o ponto de ruptura. É o mesmo que traduzir em botões a respiração do dique. O Senhor Tradição, bom funcionário, lá pressiona os botões necessários, e em chegando o fim do dia mantém o suposto caudal num estado artificial de inanição. Quando volta à cama, deixa os chinelos no mesmo sítio, o roupão já posto no criado-mudo, e adormece com a certeza de que mudou apenas o suficiente para tudo ficar na mesma.

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Mas se eu imaginar um pouco mais encontro a luta. O quarto também é de cimento, sim, mas húmido, impregnado, como se a água contida pelo dique mantivesse uma revolta que de nada a liberta mas lhe dá pelo menos a satisfação de incomodar. E incomoda, porque o Senhor Tradição é acordado de noite pela tosse. De manhã segue cansado para a sala dos botões e acha que, assim como assim, seria melhor arcar com uma pedra, como Sísifo, porque subir a montanha já ele o faz todos os dias.


Se olhar mesmo atentamente para a sala dos botões, encontro o homem (homenzinho, não) em plena luta de conservação. É que a água pressiona sem desculpa. Quer seguir o leito traçado. Ele é que a impede, ele é que preserva o que julga haver de melhor, ele é que insiste em que o valor mais alto é o da fauna que vive na margem, da flora que se alimenta da terra irrigada. E isto tira-lhe as forças, mirrou muito além da idade, mas está feliz porque o fim justifica a luta. O fim é dormir sonhando com o oásis artificial que criou. Dormir sem pensar que mais dia menos dia o dique desaba e a vida que ele sustém se perde. É de rir, mas é de rir porque todos temos este personagem algures em nós. Não digo só nas nossas civilizações, quais diques descomunais, mas no nosso íntimo. Pequenas compulsões algo prazerosas, ou até pungentes, para que isto de levar a vida não nos leve num caudal insuportável. É o que Javier Marías diz a páginas tantas em Os Enamoramentos: «O mal está em que se perderam já todos os códigos, em que não sabemos quando algo convém nem em que devemos confiar, quando é cedo e quando é tarde e o nosso tempo já passou. Temos de nos guiar por nós próprios e assim é fácil fazer asneira.» Aqui refere-se aos tempos de luto estabelecidos pelo hábito (luto, meio-luto, luto aliviado), forma muito única de compartimentar a torrente da vida e da morte. Ainda assim, fala na dificuldade de nos guiarmos por nós próprios. O Senhor Tradição tenta compreender a vida com o que herdou. Por isso tem de lidar com o dique, carregar nos botões como lhe ensinaram. Acredita que desse modo mantém a arte de viver, e o que é mais, acredita que preserva a vida que depende da albufeira. E neste sentido nunca está por inteiro no seu próprio tempo, porque depende desesperadamente do código e do cerimonial – nunca se lembra de sair do dique para passear pela margem. Em desespero, adquiriu o tempo dos outros, que tenta em vão tornar seu. Mas há dias em que o alinhamento de uma boa refeição, aliviando a ansiedade de cumprir os códigos, lhe permite sonhar que é outro (não refiro que às tantas, nestas ocasiões, o Senhor Tradição tomou alguma droga mais ou menos leve). Esse outro é que é interessante. Eis que aparece o Senhor Contemporâneo. Não se entrincheirou, nunca se lembraria de construir um dique. Para ele, que vive o ar dos tempos, o rio serve para fluir.

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A leitura de Agamben (em «O Que É o Contemporâneo?», na edição da Relógio d’Água, que passo a citar daqui para a frente) ajuda-me à construção desse reverso da medalha: um outro senhor, personagem necessariamente estranha, que habita entre «demasiado cedo» e «demasiado tarde»: «Aquele que pertence deveras ao seu tempo, que é deveras contemporâneo, é alguém que não coincide perfeitamente com ele nem se adapta às sua exigências e é por isso, nesse sentido, inactual; mas, precisamente por isso, precisamente através do seu distanciamento e do seu anacronismo, é capaz de perceber e captar o seu tempo melhor do que os outros.»


O Senhor Contemporâneo é pois um inadaptado, alguém que quebrou com o seu tempo, mas que deseja unir-se a ele: «O poeta, enquanto contemporâneo, é esta fractura, é aquilo que impede o tempo de se compor e, ao mesmo tempo, o sangue que deve suturar a ruptura.» A busca de união, por estranho que pareça, afasta-o dos demais. Neste sentido, falamos de uma demanda, como se fosse possível ao Senhor Contemporâneo ultrapassar todos os obstáculos que o tempo lhe apresenta (nunca mais tocar nos botões que preservam o dique) e voltar renascido, envergando os prémios, provas de que é ele o detentor da verdade. O Senhor Contemporâneo é inadaptado porque entre ele e os outros há uma inconformidade difícil de superar. Acontece que, embora seja esse o seu desejo, a aproximação torna-se a causa do afastamento. O único caminho possível, para ele, passa por «neutralizar as luzes que provêm da época para descobrir a sua treva». Só assim poderá ser inteiro. No que toca ao relacionamento com os outros, afigura-se difícil para eles compreenderem que treva e luz são afinal lados da mesma realidade: «O escuro (...) não é, todavia, separável das referidas luzes.» Neste ponto de vista, ao balançar a luz com a treva, o Senhor Contemporâneo não está a completar, mas sim a obscurecer a luz, e isso, aos olhos dos outros, torna-se inaceitável. Como se tudo o que era perfeito e luminoso ficasse estragado. Como se a tradição fosse profanada. O abismo entre ele e os outros talvez seja no fundo o desfasamento entre «o tempo de vida de cada um» e «o tempo histórico colectivo». O Senhor Contemporâneo nunca pode ser completamente entendido, ou aceite, pelos seus coetâneos, que se situam apenas no lado do tempo histórico, ao passo que ele se divide entre vários tempos. Por outro lado, leva a cabo um one-man show: «pertence deveras ao seu tempo», mas destaca-se, como se estivesse só num palco. O público aplaude ou dá pateada, identifica-se ou distancia-se, mas fica sempre ao nível da massa, do ordinário, do que não precisa de actuar. O Senhor Contemporâneo permanece no estrado, ou seja, no tempo histórico e colectivo (falta-lhe a nostalgia, não se sente em casa «na Atenas de Péricles»), mas sempre distanciado dos outros. Ao habitar a fractura, «impede o tempo de se compor», aproxima-se e distancia-se daquela data que encontra quando abre um jornal. De certa forma, ele é um mago do relógio: tem nas suas mãos o poder de gerar novas eras. Se os outros são inertes porque vivem na linearidade, ele é acção e inspiração, quebra. No fundo, leva a cabo – com alegria – uma tarefa impossível, a busca de uma sombra. Quem o faz é seguro de si e não depende da opinião alheia (pelo menos nos dias de maior auto-estima).

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O Senhor Contemporâneo guarda em si, num único movimento, o que é verdadeiramente essencial na sua época e o que é único, fora de qualquer época – e isso só pode ser causa de felicidade.


Seja como for, não costuma parecer bem-disposto, embora o esforço por se fazer coincidir com textos do passado implique uma certa persuasão e empatia. Ou seja, implica uma lógica de diálogo, não só com os demais, mas «entre os tempos e as gerações». O Senhor Contemporâneo não aceita todo o texto do passado como válido: primeiro há que entrar em confronto com ele. Neste sentido, «citar» é isso mesmo, escolher do passado o que provoca mais empatia, recortá-lo e enquadrá-lo num corpo de texto mais vasto, o nosso próprio corpo de texto. Esta separação da origem implica o fim do primeiro sentido, daí Agamben dizer que o Senhor Contemporâneo revitaliza «aquilo que, todavia, declarara morto». Ao testemunhar «o encontro secreto (...) entre o arcaico e o moderno», o Senhor Contemporâneo sabe que a modernidade nasce de uma mistura entre os dois. O déjà vu que sente invoca aquilo que há de antigo, ou de repetido, num gesto supostamente novo ou original. Mas o Senhor Contemporâneo não percebe que dorme todos os dias com o Senhor Tradição. Um e outro detestam-se, embora sejam a mesma pessoa. Enquanto um se agarra às normas, quer conservar o dique apenas pelo alívio que o hábito proporciona, o outro tem aquela propensão muito irritante de estar acima delas, não compreendendo que sem dique passaria sede. Quando estes senhores se aliam, estejam conscientes disso ou não, a palavra «tradição» continua a ser dique mas a corrente flui com nova intensidade. A água ganha tonalidades, os animais e as plantas podem viver a montante, onde talvez mais tarde se construam novos obstáculos, mas onde para já não eles existem. Os dois juntos percebem que a alavanca que liberta o dique se chama originalidade, uma palavra que não traz nada de radicalmente novo. É apenas a interpretação radicalmente nova do que existia. E sim, os dois juntos compreendem a dualidade do tempo. Os dois juntos, quando a coisa corre bem, são aquilo a que chamamos um escritor: sem impedimentos, deixam que a água desagúe em livro; com arte (raríssimo), deixam que a água desagúe numa obra-prima.

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* Afonso Reis Cabral nasceu em 1990. Aos quinze anos publicou o livro de poesia Condensação. É licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos, fez mestrado na mesma área e tem uma pós-graduação em Escrita de Ficção. Foi duas vezes à Alemanha de camião TIR em busca de uma história, a primeira das quais aos treze anos. Trabalhou numa vacaria, num escritório de turismo, num alfarrabista e em editoras. Em 2014, ganhou o Prémio LeYa com o romance O Meu Irmão, que se encontra em tradução em Espanha e em Itália e já foi publicado no Brasil. Tem contribuído com dezenas de textos para as mais variadas publicações. Em 2017, foi-lhe atribuído o Prémio Europa David Mourão-Ferreira na categoria de Promessa. Trabalha actualmente como editor freelancer. Nos tempos livres, dedica-se à ornitologia, faz Scuba Diving e pratica boxe. Em 2018 publica o seu segundo romance, Pão de Açúcar.


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Há quanto tempo trabalha aqui? por Luísa Ferreira

As lojas e as pessoas que as habitam. Série iniciada no verão de 1994, resultando da necessidade de fotografar a mudança. Vidas. As pessoas que trabalharam uma vida inteira numa loja, num espaço, e que povoaram Lisboa dando-lhe uma vida própria, singular, há décadas. Hoje temos a constante perda de património e esvaziamento destes lugares, o desaparecimento das pessoas e dos espaços com história.

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www.luisaferreira.com


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A tradição ainda é o que era por Frederico Andrade Santa Casa da Misericórdia de Lisboa Conhecer a história da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, uma instituição com mais de cinco séculos de existência, é conhecer as histórias e tradições de Lisboa. Uma dessas tradições é a Procissão do Senhor dos Passos, que remonta a 1587 e é a mais emblemática e importante do período da Quaresma. Realizada desde então anualmente, é uma das maiores manifestações públicas de fé que se realiza na cidade de Lisboa e liga duas das mais bonitas colinas da cidade. De um lado, a Igreja de São Roque, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, do outro, a Igreja da Graça, com a sua imponente vista para o coração de Lisboa. É assim há mais de quatro séculos, numa tradição onde milhares de fiéis todos anos percorrem este percurso de três quilómetros. Organizada pela Real Irmandade Senhor dos Passos da Graça, com um empenhado apoio da Irmandade da Misericórdia e de São Roque de Lisboa, a primeira procissão de Passos e precursora das procissões de Passos espalhadas por Portugal e pelo mundo. Apenas conheceu um interregno não na sua manifestação de fé, mas no seu percurso. Em 1910, devido à implantação da República, a procissão que atravessava o coração da cidade, pela Rua da Misericórdia, Rua Garrett, Rua do Carmo, Rossio, Rua Largo 1º de Dezembro, Largo de S. Domingos, Praça Martim Moniz, Calçada dos Cavaleiros, Largo do Tenrinho e Calçada de Santo André até chegar à Igreja da Graça, conheceu apenas uma colina, a da Graça.

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No ano de 2013 retomou o seu percurso original cumprindo a tradição secular de invocar a paixão e morte de Jesus Cristo e retratar a distância da Via Sacra de Jerusalém, com as imagens do Senhor dos Passos e de Nossa Senhora. À saída da igreja de São Roque, no largo Trindade Coelho, tudo obedece a um ritual. O Senhor dos Passos estreia todos os anos uma túnica. Há o Pendão, a Bandeira Processional, crianças vestidas a rigor e as irmãs da Irmandade sem atribuições, vestidas de preto, as lanternas dos andores da Nossa Senhora e do Senhor dos Passos, a Aia e o mordomo da Nossa Senhora, as diversas Irmandades e Ordens convidadas, irmãos sem atribuições, o andor do Senhor dos Passos, com a guarda da Polícia do Exército e Pálio com o Cardeal Patriarca. Uma banda à frente

e outra no final configuram os limites desta tradição que tem vindo a atrair, de ano para ano, cada vez mais seguidores. No primeiro passo, que retrata Jesus na cruz, cabe ao Reitor da Igreja de São Roque, que tem sido o Padre Vaz Pinto, dar as primeiras palavras que antecedem o caminho entre as duas colinas e que demorará cerca de três horas. Os crentes e não crentes mergulham na rua da Misericórdia, acompanhados por turistas incrédulos e apaixonados pela procissão, com a banda a comandar os passos. A primeira paragem, que coincide com o segundo passo, é na igreja da Nossa Senhora da Encarnação com o Senhor dos Passos virado para a entrada principal. Daí, desce-se pela Rua Garrett em direção ao Rossio, com a igreja de São Domingos, no Largo 1º de Dezembro, à vista para receber o terceiro passo. Depois da baixa pombalina e Chiado, a procissão sobe à colina da Graça, ladeada por um dos maiores ex-líbris de Lisboa, o Castelo de São Jorge. Na Ermida de Nossa Senhora da Saúde, à beira da Mouraria cumpre-se o quarto passo. Na Porta do Largo Tenrinho, em plena Calçada dos Cavaleiros, o quinto passo, seguido da subida pela Calçada de Santo André até ao sexto passo, junto à casa onde nasceu S. João de Brito. A última e derradeira subida cumpre-se já perto do miradouro da Graça, onde os badalos dos sinos anunciam a chegada das duas imagens, o Senhor dos Passos e a Nossa Senhora para o último passo, na Igreja da Graça. No final, a tradição cumpre-se, com mais telemóveis, com mais turistas, com mais credos e etnias, mas com os mesmos “passos”, há mais de quatro séculos. Afinal, a tradição ainda é o que era.


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Reflexões por Paulo Duarte, SJ

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” Vinicius de Moraes

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“O impossível é possível”. Esta frase foi dita por um coreano e partilhada no vídeo criado em parceria com o youtube “Life in a Day”. Revi este vídeo (de hora e meia) e pensei que seria óptimo para o tempo de Natal. Num condensado de milhares de pequenos vídeos, filmados num só dia, consegue-se transmitir a imensidão do que somos na diferença e na semelhança. Recomendo muito que se veja. Isto a propósito de tradições de Natal. Sim, o A Vida num Dia fala muito de Natal.


Uma das potencialidades dos textos bíblicos é o convite a encontrarmo-nos com eles desde a nossa própria vida: escondermo-nos e deixarmo-nos buscar como Adão, sentir a fé ser desafiada como Abrãao, gritar dolorosamente como Job, blasfemar como Moisés, darmo-nos conta da construção de ídolos como o fez o povo hebreu, passar por uma conversão como S. Paulo. Se nos centrarmos nas figuras do presépio: encontrarmo-nos com incógnitas como Maria, junto com a consolidação do sim à nossa vocação em servir; perceber as vezes em que se fica “sem chão” perante os desafios pessoais, sobretudo aqueles que nos levam a ir ainda ao mais ao fundo de cada um de nós e confiar, simplesmente confiar, tal como José; e aos poucos permitirmo-nos entrar no “sentir” do Menino. Este “sentir” de quem não conhece nada, nem ninguém, quando nasce, quando descobre outra realidade da Vida, tendo de ser ensinado e ir crescendo aos poucos em todas as suas dimensões como humano. Fascina-me a grandeza (ou pequenez) de Deus nesse nascer em cada ano celebrado e vivido. Não porque Ele necessite, mas para que cada ser humano possa fazê-lo também, na simplicidade dos acontecimentos da sua vida. Pode ser fácil ou muito duro, difícil até. Nós crentes, por vezes, acabamos por dizer coisas “bonitinhas”, como se a vida fosse tor-

neada de “luzinhas e fitinhas natalícias” ou, então, como penitência de mundo, carregarmos a força da crise e dos que estão a sofrer muito. No entanto, com saudável equilíbrio, há que estar atentos para evitar cair em extremos e perceber o que é o ajustado, respeitando e ajudando a promover o encontro desde um caminho pessoal de relação com Deus, que pode não ter nada que ver com a nossa própria visão e vivência dessa mesma relação. Estes anos de padre têm-me ajudado a perceber que o tempo de Natal pode não ser tão uminoso quanto se aparenta. Há quem sofra bastante ao longo destes dias. A família separou-se, pela morte ou pela vida, a crise chegou à porta, a alegria não se encontra no coração deprimido pelas marcas da escravidão da violência. E a noite de consoada por tantos ansiada torna-se um peso, um misterioso fardo de Sexta-Feira Santa. Disfarça-se dizendo “é uma noite como outra qualquer”, deixando correr a lágrima que o nega. Contudo, para quem se deixa estar atento à sentida pequenez divina, percebe que aí também reside o porquê do Natal. Deus, dispensando qualquer filhó, torta, ou fausto perú, aconchega-se nessas grutas arrefecidas pelas desavenças dos tempos. E espera, Ele mesmo, dando esperança. Cada Natal é um chamamento à Vida, ao encontro com o todo que somos, por isso há que habitá-la intensamente, com os desejos e sonhos que caracterizam o nosso ser. O profeta Isaías tem uma passagem rica em esperança, lida em tempo de Advento: “Estou a fazer algo novo, já está a germinar: não estão a notar?” (Is 43, 19). Não estará na altura de notar essa vida a germinar? Independentemente dos acontecimentos actuais da história de cada pessoa e do mundo, nunca é tarde para novos passos de profundidade, de reconhecimento da grandeza que existe no caminhar diário, despertando encontros de Vida. Em jeito de oração, peço-Te, Menino Deus, que não te canses de nascer em cada dia em todos os corações dos que se inquietam, dos que amam e dos que pelo menos têm o desejo de desejar amar e assim deixar-se transformar pelo impossível que se torna possível em Ti.

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O Natal não é um condensado de vídeos, mas de histórias e vidas, misteriosamente presentes no nascimento que mudou o curso da Humanidade, tornando o “impossível possível”. Deus torna-se pequeno e frágil, cresce, observa com olhos de criança e escuta com a atenção de quem deseja saber para amar. Vive a humanidade em pleno, dando, de algum modo, resposta à Sua primeira pergunta que soa no livro do Génesis, após a criação: “Onde estás?” (Gn 3,9). No contexto em que é formulada, Deus procura Adão, que se escondeu depois de comer o fruto proibido. No entanto, indo mais além do sermos procurados por Deus, apercebo-me de que a pergunta é formulada no presente, em escuta do “aqui e agora”. Esse estar pode ramificar em “Que fazes?”, “Que queres?”, “Que sonhas?”. Não se trata de um presente que anula o passado e o sentido das coisas. Tem os alicerces na História, contudo é vivido em cada ano de forma diferente. Mesmo que ao jeito de ritual familiar se cumpram as tradições, estas não serão iguais. Se pararmos e dedicarmos um tempo a fazer uma retrospectiva do ano que passou, surgirão em recordação os acontecimentos que nos levaram à diferença do olhar actualizado sobre a realidade, alterando com grande probabilidade as respostas quanto ao estar, fazer, querer e sonhar que encaminham a uma maior autenticidade.


Lotaria Nacional 235 anos de tradição por Paulo Rosa Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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Corria o ano de 1783 quando, a 18 de novembro, por decreto régio D. Maria I autorizou a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa a explorar uma Lotaria anual sob a tutela e a fiscalização da Fazenda Real. Os lucros da Lotaria destinavam-se a ser repartidos pelo Hospital Real, pela Casa dos Expostos e pela Academia Real das Ciências. Quase um ano depois, a 1 de setembro de 1784, acontecia a primeira extração da Lotaria, cujo sorteio durou 34 dias. Foram emitidos 22500 bilhetes a 6400 réis cada e sorteado um prémio de 12.000$000 réis. Nascia uma tradição que perdura até aos nossos dias.


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Em muitas situações a história da Lotaria acompanha e testemunha a evolução de Portugal e, consequentemente, da Misericórdia de Lisboa nestes mais de dois séculos. A Lotaria foi suspensa em 1798, ficando então a instituição privada de uma importante fonte de receitas e a sua função de assistência comprometida. Foi restabelecida em 1804 mas novamente interrompida até 1811, época das invasões francesas. Em 1893 a Lotaria passou a ser definitivamente explorada, em regime de monopólio, pela Santa Casa. Em 24 de novembro de 1955 a Lotaria assumiu formal e plenamente o nome de Lotaria Nacional, designação que mantém até hoje e que engloba a Lotaria Clássica e a Lotaria Popular. Aumentando os seus recursos através de doações, legados e dos lucros crescentes da Lotaria, cuja credibilidade se foi solidificando, a Santa Casa alargou os seus serviços de assistência, tornando-se numa das pioneiras na proteção à maternidade e à primeira infância ao longo do século XX. Foi no século passado que a Lotaria se assumiu durante décadas como o jogo social preferido dos portugueses. O Largo Trindade Coelho, junto à sede da Santa Casa, enchia frequentemente com pessoas que aí se deslocavam para saber em primeira mão os números sorteados. Este Largo, conhecido como Largo da Misericórdia ou Largo do Cauteleiro, deve esta última designação à estátua de um cauteleiro que, entre dois quiosques tipicamente lisboetas, recebe os milhares de turistas que passam diariamente por este espaço e posa serenamente para fotografias que já terão dado a volta ao Mundo.

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É de singulares personagens que esta tradição se constrói. Para além dos cauteleiros, incontornáveis figuras da capital, que trans-

portam consigo um dos mais conhecidos pregões da cidade, todas as semanas, para a extração da Lotaria Clássica, à segunda-feira, e da Lotaria Popular, à quinta-feira, um grupo de pessoas veste-se a rigor para “cantar” os números da sorte. Falamos dos pregoeiros, trabalhadores da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que acumulam as funções do dia-a-dia com esta ocupação única. Nada é feito por acaso na altura do sorteio. Os pregoeiros devem ter a altura certa, para conseguirem alcançar as bolas que saem das imponentes esferas da centenária Sala de Extrações da Misericórdia de Lisboa, devem saber colocar a voz e não descurar pequenos truques como ensaiar posições, beber água para hidratar e evitar alimentos que afetem a voz. Antes de cada extração os pregoeiros ensaiam o que se seguirá, mas a experiência é tanta que estes ensaios pouco mais são do que uma formalização do protocolo. O que se segue é um espetáculo digno de se assistir e que muito contribui para perpetuar a tradição da Lotaria. Dá início o sorteio, anda a roda, e alinhados de forma perfeita os pregoeiros anunciam, à vez, as bolas referentes às unidades, dezenas, centenas, milhares e dezenas de milhares e o prémio a que se referem. Durante alguns minutos, assiste-se a uma interação com a assistência de uma espécie de sedução cúmplice, em que de uma forma arrojada mas profissional, com um tom encantador mas inequívoco, os pregoeiros anunciam a “sorte grande” e, por vezes, em momentos especiais, os pregoeiros têm o privilégio de sortear o número de alguém que na assistência assiste ao vivo à extração dos números que estão na cautela que segura na mão. É também destes momentos de magia que se faz uma tradição com 235 anos.


Cauteleiros

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Sala de extrações da lotaria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa


A tradição da Severa e a construção do imaginário por Maria João Lopo de Carvalho*

Mouraria, primeira metade do século XIX, local de todos os encontros e de todo os acordes. O fado - um som antigo, sujo de catarro e de vibração - feito de notas agudas presas ao ondular dos mares; e de notas graves arrancadas à alma das cantadeiras, batia-se nas tabernas com galhardia e fervor, libertando os corpos de todos os males até ao romper da madrugada. Foi por este início, este canto eivado de tradição e de passado, que me apaixonei. O fado, poderoso condutor de emoções que grande parte dos portugueses tem inscrito no ADN, de onde veio afinal? Como começou? Quem o protagonizou? E mais tarde como se tornou Património Imaterial da Humanidade? Em que tom? Com que voz?

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Não há um caminho certo para voltar atrás, na verdade há muitas vielas e becos e escadinhas que confluem nestes bairros portuários - Mouraria, Alfama, Madragoa, Bairro Alto - bairros feitos de gente que veio do Brasil, de marinheiros, de soldados, de descendentes de escravos, gente que veio da província em busca de um ofício, gente que foi desembarcando nesta Lisboa efervescente, na Lisboa dos cantos e das guitarradas.


Terá o fado tido origem no lundum, dança sensual dos brasis? Depois miscigenado com o fandango, as modinhas, acompanhado pela banza, pelo cavaquinho, pela cítara? A verdade é que espantando e aliviando os males da jornada árdua de trabalho, a taberna era ponto de lazer para faias, fadistas, rufiões, chulos e marialvas. Ferviam bailados e desacatos, navalhas e pipas de vinho, sexo, ciúmes, ódios e desvairadas paixões. E este «bater de fado» - assim se chamava a dança sensual e erótica feita de requebros sincopados -, atraía como um íman as mais nobres figuras do reino. A dança do povo-miúdo tinha um perfume único para a aristocracia, assim como as corridas e esperas de toiros – os mais concorridos espetáculos do século XIX – tinham, do mesmo modo, um perfume único para a população dos bairros portuários: povo e nobres ou o nobre povo, contaminavam-se, contagiavam-se e fundiam-se na mais ardente pandega marialva. Uns gostavam de chafurdar no apetitoso lodo das tabernas, outros gostavam de servir as figuras que viam brilhar de luzes e de valentia em praça. Severa, uma das cantadeiras e prostitutas da Mouraria, e o conde de Vimioso, um dos toureiros mais afamados da época, serviram-se, um ao outro, ou talvez tenham ficado presos nessa teia venenosa da paixão. Nesta história, tão verídica quanto possível, volto atrás, ao início de tudo, e deixo ao leitor o poder de decidir qual era para a Severa o espaço da liberdade e o espaço da prisão. O conde apresenta-a nos salões, Severa dança, canta, deslumbra, entontece, mas não se deixa nunca amaldiçoar por aquele mundo doirado e foge para a sua velha rua do Capelão. Porque é que a tradição nos leva à Severa e não à Marta Mamalhuda, à Jesuína Ranhosa, à Luísa Saloia? Todas elas tinham os seus fidalgos por conta. Todas elas batiam e cantavam o fado da igual forma. Júlio Dantas (1876-1962) elevou a Severa à categoria de heroína romântica numa peça de teatro que

esgotou plateias, num romance comovente que vendeu dezenas de edições e que deu origem ao primeiro filme sonoro português, de Leitão de Barros. Tudo isto fez da Severa a mãe do fado. Porquê? Porque a cantadeira morre aos 26 anos, vítima de apoplexia, porque deixou atrás dela a canção da saudade, do pranto, da separação e da tristeza. Fê-lo à semelhança de Marguerite Gautier, a heroína de Alexandre Dumas na Dama das Camélias, à semelhança da Gata Borralheira e das demais heroínas românticas cujo fado tocou o coração do grande público. Para todos nós, portugueses, Severa – de quem ninguém lembra a voz - tornou-se na Amália antes da Amália, a moça pobre, desprotegida da sorte, filha de prostituta e prostituta desde tenra idade, que encantou uma das figuras mais notáveis da tauromaquia e que assim elevou o fado das ruas da Mouraria aos salões dos titulares. A Lisboa da Severa era a Lisboa conturbada sob o poder de Costa Cabral nas vésperas da revolta da Maria da Fonte, a Lisboa da imundice, dos vãos escuros, da desordem e da miséria, a Lisboa do luxo do Farrobo, de São Carlos, do Chiado, do café Marrare. O Fado da Severa é, pois, a voz de uma tradição, é a história da rapariguinha que morreu sem nunca ter vivido e que um dia terá dito, imortalizando a alma lusa: «o fado sou eu». Pelo menos foi assim que eu a conheci quando sossegadamente dentro de um silêncio cantava: «Tinha qualquer coisa de triste a ondular-lhe no timbre, no tom menor com que cantava aquelo fado maior, o fado que lhe saía da amargura e de um buraco no peito, de um vazio, a que às vezes chamava saudade; saudade não sabia bem de quê. Era triste a sua canção, uma canção com toda a tristeza lá dentro. Talvez rezasse um terço. Talvez desfiasse a esperança no deslizar das contas, até à cruz. Naquela noite, Jesus não nasceu na Mouraria.»

Tem mais de setenta títulos editados, entre romances, livros de crónicas, manuais escolares – com a chancela do Instituto Camões – e livros infanto-juvenis, a maior parte deles no Plano Nacional de Leitura. O seu primeiro bestseller, Virada do Avesso, foi publicado pela Oficina do Livro em 2000. É presença regular na comunicação social e percorre todos os anos as escolas do Norte ao Sul do país, incentivando o gosto pela leitura nos mais novos. O Fado da Severa (2018) é o seu quarto romance histórico, depois de Marquesa de Alorna (2011), Padeira de Aljubarrota (2013) e Até que o Amor me Mate - As Mulheres de Camões (2016), que em conjunto venderam perto de cem mil exemplares.

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* Maria João Lopo de Carvalho licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Foi professora de Português e de Inglês, criou a primeira escola de Inglês em regime extracurricular para os mais novos e trabalhou como copywriter em publicidade. Passou ainda pelas áreas de Educação e Cultura na Câmara Municipal de Lisboa.


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Michel Giacometti A Tradição, mas sem aspas. por Nicolau Pais

No Circo Romano morriam em nome da “tradição” de agradar aos Deuses; na Praia do Meco morreram para agradar ao que o Dux da Praxe entendeu ser “a tradição” (2013). Concorrente com esta linha de abuso propagandista do que nos é supostamente comum, está a mais moderna “tradição” que é a da “inovação”: o Sr. Ministro das Finanças diz à boca cheia que não tem dinheiro para baixar a 2ª taxa de I.R.C. mais alta da Europa - que seria fundamental para premiar o investimento e aqueles que, de facto, nos tiraram da crise - mas vê passarem debaixo do seu nariz, sem pestanejar, 110 milhões de euros a 10 anos para uma tal de Websummit - tecnologia e foguetes, para fazer de conta que se é melhor que aqueles que só gostam da “tradição”. Entre uns e outros, é a simbiose perfeita para que se perpetue a confusão instalada entre o que de facto somos, e para onde queremos ir. Aferição e diagnóstico, nem vê-los, a não ser por juízes em causa própria, abençoados pelo estado acrítico geral a que chegámos. Crescemos no Portugal democrático com a ideia de que seria possível, um dia, compatibilizar o património imaterial, com um futuro cosmopolita. Para um país periférico, e que é um dos mais antigos do Mundo, tal deveria ser um desígnio construtivo absoluto e dinâmico. Michel Giacometti (Córsega,1929 - Portugal,1990) chega a Portugal nos anos sessenta do século passado. O seu trabalho de recolha etnomusical não tem precedentes nem sucessores; no pináculo de uma panóplia cientificamente recolhida e metodicamente organizada, está a série documental da RTP “O Povo que Canta”. Realizada por Alfredo Tropa e organizada pelo próprio Giacometti (link para o site da RTP em baixo), junta o

visual ao áudio, e esclarece de forma definitiva as raízes e os métodos específicos da nossa identidade. Que a totalidade deste acervo não conste em nenhum arquivo online organizado por nenhum Ministério da Cultura, é um sinal convencional da enorme falta de real conhecimento acerca da unicidade do nosso património; não ficava mal nos programas escolares, também. Anda tudo muito bem disfarçadinho por ecrãs “retina” e Festivais de Verão, onde um dia, por este andar, nada mais haverá a celebrar senão as desilusões de uma geração paga como escrava, em nome da “inovação”. A Tradição deveria ser o freio pedagógico a este galope frívolo, a este caminho de desvalorização da identidade; mas não - é evocada sempre de forma equívoca e ambígua, para disfarçar a ausência de melhor diagnóstico (ou solução). Não critiquemos, portanto, aquilo a que se convencionou chamar “o Pimba” - o consumo de tais produtos é um pouco como a sardinha em lata: à falta de melhor, matam-se as saudades, que é o que fica depois de reprimidas as ambições.

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O uso da “tradição” para legitimar o pensamento primário não é novo.


AC Alfaiates por Nuno Maia

Bruno Esteves

O local não poderia ser mais apropriado para um trabalho de artesãos. Um primeiro andar, no topo de uma escadaria de madeira, na Rua Direita, na rua das tendas, como se designava, na Idade Média, a principal artéria do núcleo urbano antigo de Viseu. Espaço acolhedor, com detalhes a remeterem para a ancestralidade de uma arte, que Avelino Ferreira, não sem surpresa, acabou por entregar, de herança, ao filho Carlos, quando, há 14 anos, mais do que as iniciais dos seus nomes, decidiram juntar as seis décadas de know-how de Avelino à ousadia irreverente de Carlos e fundar a AC Alfaiates. “Inicialmente, nem eu nem a mãe acreditámos muito que pudesse resultar, pois tinha andado a estudar para outras áreas. Mas ele lá insistiu. Na altura, disse-lhe que não dava meio ano para ele desistir. O facto é que o tempo ia passando e ele dizia que cada vez gostava mais do trabalho de alfaiate.” – Confessa-nos Mestre Avelino, em fato escuro completo, irrepreensivelmente engomado, com um brilho no olhar que denuncia o orgulho na persistência do filho.

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Em cima da mesa, giz de alfaiate, tesouras e almofadas com alfinetes, e ao nosso redor, forrando a sala onde nos encontramos, pilhas de tecidos, puras lãs, caxemiras, algodões e linhos das mais conceituadas fábricas inglesas e italianas – Holland & Sherry, Scabal, Huddersfield, Moon, Drago, Cerruti. Enquanto o pai assume as despesas da conversa, Carlos, também ele de fato completo, mas de corte mais ousado, calça justa e colete em tons vivos, vai verificando algumas peças e seleccionando tecidos, cedendo, respeitosamente, o protagonismo ao progenitor.


Como começou este seu gosto pela alfaiataria?

bastante propaganda, embora seja um alfaiate diferente. Foge ao conceito clássico.

Avelino Ferreira – Comecei nisto, entre os 12 e 13 anos, quando, no meu tempo, todos começavam.

Que desafios enfrenta, hoje, a alfaiataria?

Mas já havia uma tradição familiar? AF - Não, não havia tradição, nenhuma. Nasci numa aldeia muito isolada, na freguesia de Arões, e, apesar de ter sido bom aluno na escola primária, não pude seguir os estudos, porque, naquela altura, não dava para ir estudar fora. O meu falecido Pai tinha muita terra para trabalhar, mas eu não aguentava o trabalho no campo.

Não gostava? AF – Não era “não gostar”. Não aguentava, mesmo. Desde criança, fui sempre um bocado doente, e tive de ir para uma profissão mais leve. Tinha duas hipóteses: alfaiate ou sapateiro. E lá fui aprender com um senhor, que estava a um quilómetro e meio da minha aldeia, e dei aí os meus primeiros passos. Depois, fui sempre evoluindo, porque nunca parei, nem mesmo quando andava na tropa. Os que paravam nunca mais voltavam a pegar no ofício. O mais provável era irem para o estrangeiro, e foi o que aconteceu a muitos que deixaram a profissão. Mais tarde, surgiu aqui o herdeiro, que, já com 28 anos de idade, decidiu agarrar a profissão do Pai. Fiquei satisfeito, pois está garantida a continuidade.

AF - A grande diferença é que, há 15 anos, só se fazia um fato para um gordo ou barrigudo. Hoje, não. Hoje, fazem-se fatos para jovens elegantes. Hoje, os clientes são muito mais conhecedores e exigentes nos tecidos que escolhem, têm acesso a muito mais informação, nomeadamente através das redes sociais. A grande dificuldade é a mão-de-obra. Há pessoas que se apresentam como alfaiates, quando a única coisa que fazem é tirar medidas, e, depois, os fatos são feitos em fábricas. Neste momento, não há quase ninguém a aprender esta arte, em primeiro lugar, porque já não há muitas pessoas que possam ensinar e, depois, porque, neste momento, os jovens querem começar logo a ganhar um ordenado. Isto é legítimo, até porque os tempos são outros e hoje estuda-se até muito mais tarde, pelo que se começa a trabalhar também mais tarde. Eu estive três anos com o meu mestre, a aprender, só depois comecei a ganhar dinheiro. Defendo que o Estado deve atribuir um subsídio para que as pessoas possam aprender esta arte. Uma hipótese seria um subsídio de 75% no primeiro ano, 50% no segundo, 25% no terceiro e, a partir do quarto ano, o alfaiate responsável ficaria obrigado a integrar essa pessoa. Olhe, vamos andando, e vamos ver como podemos sobreviver.

Quando o Senhor Avelino começou, a tradição de alfaiataria era muito grande. Havia alfaiates um pouco por toda parte.

Carlos, como te surgiu o gosto pela alfaiataria?

AF - Quase em todas as aldeias havia alfaiates, que faziam calças, fatos e tudo o que fosse. O pronto-a-vestir só surge na década de 60.

De veres o teu Pai a trabalhar?

Nessa altura, sentiu uma grande diferença? AF – Sim, senti. Aliás, na altura, também eu virei para o pronto-a-vestir, quase a menosprezar a alfaiataria, embora tenha continuado sempre a fazer por medida. Mas só quando vim para Viseu é que me dediquei, novamente, apenas ao trabalho de alfaiate.

Carlos Ferreira – Bom, no fundo sempre tive.

Carlos Ferreira – Sim, embora nunca tenha mostrado muito interesse. Mas sempre gostei de moda, e de me vestir bem. Acabei por ir estudar Gestão Hoteleira, para o Porto, mas sempre com este bichinho da alfaiataria. Até que um dia, senti que estava na hora, que era o momento de tentar.

AF – Na altura, o fazer por medida estava pior do que agora. Neste momento, está a ganhar outra vez fôlego. A alfaiataria, o fazer por medida, está na moda. Começaram a aparecer jovens como o Paulo Battista, que tem feito

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Tomou essa decisão porque sentiu que havia a vontade de voltar a recorrer aos alfaiates?


Como foi essa experiência inicial? CF – Foi muito boa. Foi uma decisão minha. Foi algo que queria, que não me foi imposto, pelo que é natural que tenha acabado por gostar, embora seja precisa muita paciência. AF – Tenho sessenta e tal anos de profissão, e ainda estou a aprender. CF – Aprendemos coisas novas todos os dias. Como não fazemos fatos standard, porque é tudo sempre feito por medida, os cortes acabam por ser todos diferentes. Um casaco de alfaiataria é completamente diferente dos de confecção. As entretelas não são coladas, os peitos são feitos especificamente para a pessoa. Por isso se diz que “aquele” casaco é apenas para “aquela” pessoa. Por exemplo, as entretelas são de crina de cavalo, logo não esticam. Num fato de confecção, têm de ser coladas, para se tentar adaptar ao corpo da pessoa. No nosso caso, é tudo feito de raiz, para ficar perfeitamente ajustado ao corpo do cliente. Como costumo dizer, os nossos fatos têm uma estrutura que permite que se aguentem em pé (risos). Além disso, é fácil fazer com que um casaco dê nas vistas, basta utilizar um tecido ou uma cor fora do normal, o difícil é fazer, de um fato azul, uma obra de arte. E é esta nossa capacidade que acaba por ser o nosso maior cartão de visita. É evidente que nos enche de orgulho, quando os nossos clientes referem que os nossos fatos são elogiados, onde quer que vão.

Como é que ganhaste a confiança dos clientes que eram fiéis ao teu Pai? CF – A experiência de Gestão Hoteleira deu-me uma boa bagagem para lidar com os clientes, que, na sua maioria, são de classes média-alta e alta. Quem vai a um artesão, acaba por ser um cliente exigente. Essa percepção fez com que tivesse uma maior atenção aos pormenores. A arte do Mestre é a mesma, mas agora temos mais cuidado com os acabamentos. Agora já se vê muito, mas, há muitos anos, quando comecei a colocar forros de cor, por exemplo, era praticamente uma novidade. Temos de ter a capacidade de fazer um fato exactamente ao gosto do cliente, em todos os pormenores.

Não é à toa que nas outras actividades se utiliza, cada vez mais, o “feito por medida”, para definir algo que é feito especificamente para uma pessoa.

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CF – Ainda há pouco tempo passei numa zona comercial e reparei que havia um grande edifício que se chamava Alfaiataria dos Móveis.

Trabalham mais para fora ou para clientes da região? AF – Em Viseu, temos clientes bons e fiéis, mas também temos muitos de fora. Trabalhamos muito para clientes de Lisboa e Porto, por exemplo.

Como é que alguém que está no interior consegue chegar a clientes de outras geografias? CF – Sempre contámos com a divulgação dos nossos próprios clientes, o chamado boca-a-boca, que é sempre a melhor publicidade. Mais recentemente, temos conseguido chegar a clientes, que eram mais difíceis de atingir, através das redes sociais. Facilita muito, para dar a conhecer o que fazemos e, também, quebrar a barreira do primeiro contacto, que, por exemplo, nos clientes estrangeiros, é enorme. AF – Além de ser um grande alfaiate, na vertente de Vendas e Marketing, o meu filho é um “Ás”. Veio dar uma grande ajuda. Permitiu chegar a uma clientela que, antes, era difícil de atingir.

E agora, qual é o caminho? CF – O caminho é deixar as coisas evoluírem naturalmente. Há algumas ideias, mas julgo que ainda não é o momento de divulgá-las. Posso, no entanto, adiantar que, neste momento, já fazemos camisas por medida e, mais recentemente, passámos a incluir sapatos na nossa oferta.

Poderá passar por abrir um espaço em Lisboa ou no Porto? CF – Já tivemos e, na altura, a experiência acabou por não correr exactamente como queríamos. Mas é evidente que, se surgir uma nova oportunidade e, eventualmente, uma parceria que faça sentido, iremos equacionar essa hipótese. Até porque temos, efectivamente, muitos clientes nessas cidades. Para já, há sempre a hipótese de, por marcação, sermos nós a visitar os clientes que têm a limitação de não poderem deslocar-se a Viseu. Aos que continuam a vir ao nosso espaço, proporcionamos, aquilo a que costumo chamar, “turismo de alfaiataria”.


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Majora

Oito décadas a juntar pessoas

por Irina Rosa

Majora

Muitas décadas antes do aparecimento, da internet e até da televisão, num tempo em que o mundo nos entrava porta dentro pelas ondas hertezianas da rádio, os serões em família, sobretudo nas longas noites de Inverno, eram passados entre conversas e jogos tradicionais, de que hoje nos resta só a memória.

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Foi por essa altura, no exacto ano em que a Europa mergulhava no flagelo da II Guerra Mundial que, inspirado numa viagem que fizera à Alemanha, onde tinha descoberto divertidos jogos de tabuleiro, Mário José Oliveira começou a desenhar jogos na cave de casa dos seus pais, na Avenida Boavista, na cidade do Porto. Estava criada a Majora, a marca portuguesa de brinquedos, que marcou o imaginário de gerações. A Majora, cujo nome é inspirado no do seu criador – MArio JOrge OliveiRA -, consolidou o estatuto de marca de referência no divertimento para as crianças com jogos como Pontapé ao Goal, Jogo da Gló-

ria, Loto ou O Sabichão que, criado em 1962, foi uma figura de destaque no seu catálogo. D’ O Sabichão fazia parte um boneco de madeira, pintado muitas vezes pela família de Mário, após o jantar. Com destreza, o mesmo colocava dois pincéis numa mão, pois assim conseguia pintar duas cores ao mesmo tempo; da tinta preta nasciam os olhos, a boca e o nariz. A criação dos jogos era sempre feita com muito secretismo no departamento de Invenções da Majora. O desporto foi a inspiração para jogadas de dados que ficaram na memória: Volta a Portugal em Bicicleta, Rally Automóvel ou Corridas de Cavalos, títulos que marcaram uma época. Além dos jogos de tabuleiro, brincadeiras didácticas e desafios de destreza, a Majora teve ainda brinquedos, livros infantis e puzzles. Jogos simples e que as famílias podiam jogar em conjunto. Valorizando a criatividade e qualidade dos brinquedos, a Majora trabalhou directamente com vários criativos e ilustradores, como


Gabriel Ferrão, que desenhou centenas de tabuleiros, e a ilustradora Laura Costa que contribuiu para a ilustração da emblemática Colecção Princesinha entre outros títulos. As temáticas dos mais de 300 jogos didácticos categorizavam-se entre desporto, geografia, História de Portugal e a cultura portuguesa. Apesar das mudanças sociais do início dos anos 70, do aparecimento da televisão e, mais tarde, da internet, que quase remeteram os jogos de tabuleiro para um rodapé na história do entretenimento familiar, a Majora manteve-se em actividade, nunca deixando de apostar na inovação e na função didáctita dos seus jogos. Em 2015 deixou de ser um negócio familiar e foi relançada com uma nova gestão através do investidor José Luís Pinto Basto e sob a direcção geral de Catarina Jervell. Renovada na sua mensagem, logótipo e portfólio, a Majora conta agora com 40 referências familiares modernizadas como o Jogo do Stop!, Mayoga ou a primeira referência para adultos, o ORAL. Neste tempo, em que jogar é cada vez mais uma experiência virtual, individual e não presencial, os jogos de tabuleiro continuaram a ser um agregador de pessoas, porque além das ligações virtuais, promovem ligações humanas. É através do brincar que as crianças se desenvolvem enquanto seres humanos e aprendem a gerir as suas emoções. As áreas do nosso cérebro responsáveis por esta gestão estão interligadas com as competências funcionais de tomada de decisões, resolução de problemas e capacidade de seguir regras.

tarefa mais difícil que aprender matemática. Aprende-se a esperar, a partilhar, a ganhar e a perder. As crianças aceitam as derrotas se se sentirem seguras, caso contrário, refugiam-se em brincadeiras ou actividades onde não se sentem julgados ou não há como perderem. Brincar deve ser uma fonte de felicidade. Brinquedos VS Tecnologia é uma dicotomia que os nativos digitais não compreendem. Para eles tudo são brinquedos. Os sinais de alerta para o abuso de tecnologia devem ser considerados quando somos confrontados com as dificuldades das crianças em exercitar a função de escrita porque não têm força para agarrar no lápis, ou atrasos na linguagem provocados pela falta de aprendizagem num contexto dual, de troca de informação e a falta do toque, de atirar, de pegar, de deixar cair. As crianças não têm acesso, sozinhas, à tecnologia. O uso regrado terá os mesmos benefícios que outras interacções que nos são prazerosas ou desafiam. Uma agenda preenchida em actividades extracurriculares que esvazia o espaço de brincadeira é tão preocupante como a adição da tecnologia. As crianças gostam de brincar e de passar tempo com os seus pais. Se os pais e educadores desafiarem e se envolverem, os jogos tradicionais revelam todo o seu potencial de entretenimento. E o envolvimento dos pais e educadores é fundamental para o desenvolvimento das crianças: a recompensa do esforço, de recomeçar sem se ter terminado a tarefa e tirar prazer do acto de brincar com a criança, valorizando o acto de brincar. Tem sido esse o papel da mítica Majora ao longo de gerações.

Brincar não é uma opção, é um processo fundamental no desenvolvimento das crianças para se auto-descobrirem e aprenderem a relacionar-se com os seus pares.

Os benefícios da brincadeira passam pelo desenvolvimento de fantasias e de sonhos, de aprender a superar desafios físicos e psicológicos e da aprendizagem do que é o consenso: brincar é um acto voluntário. Para muitas crianças a gestão emocional é uma

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Setenta e nove anos depois de desafiar as crianças a brincar, a Majora mantém a sua missão de promover as relações humanas através da brincadeira, combatendo a tendência de “brincar isolado”, num misto de aprendizagem, diversão, partilha e criação de momentos felizes e memórias únicas entre familiares e amigos.


Tradições Este meu tempo, de preparação do Advento, tem sido marcado por uma viagem gastronómica aos sabores únicos que pautaram a minha infância e adolescência e à redescoberta dos produtos genuínos, que, no tempo certo, aparecem para nos alegrar a existência. Ao contrário da maioria das outras cozinhas internacionais, riquíssimas em condimentos, molhos e especiarias, a cozinha portuguesa é do mais simples que existe, e é essa simplicidade que faz dela uma das melhores do mundo. Por aqui, a gastronomia vive da frescura, que é como quem diz, da qualidade dos alimentos, confeccionados da maneira menos elaborada possível. Veja-se, por exemplo, o célebre ditado que limita, a três, as maneiras de comer bacalhau: cozido, assado ou estragado. Deixando de lado o exagero óbvio, a verdade é que, dos legumes aos peixes, passando por mariscos e carnes, a melhor forma de realçar os sabores únicos que possuem é cozê-los ou assá-los (grelhá-los), de preferência, temperados apenas com um pouco de sal, para depois, na mesa, os regarmos com o melhor e mais saudável dos molhos, o azeite. E isso sabemos fazer como ninguém. Ora eu, acabadinho de chegar de uma rápida incursão à Cidade Maravilhosa, mal pisei solo lusitano, atirei-me a uma garoupa fresquíssima, que, depois de levemente cozida, em água do mar onde viveu a vida toda, e acompanhada de uns grelos de nabo, ainda cobertos de pequenas gotas do orvalho da manhã, me transportou aos tempos da meninice, obrigando-me, a fim de saciar a minha ânsia de sabores do passado, a uma inusitada caminhada pelos pinhais das encostas do Dão, em busca de míscaros, escassos, este ano, por vicissitudes climatéricas, que os tornaram ainda mais desejados.

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Este é outro dos segredos da nossa culinária. O facto dos produtos, que queremos, gulosos como somos, comer quando nos apetece, não se compadecerem com a nossa gulosice, e aparecerem, apenas, no tempo certo, indiferentes aos nossos pantagruélicos desejos. E, quando, como que por magia, os descobrimos, fora de tempo, nas prateleiras de qualquer mercado ou mercearia, desconfiemos, porque não satisfarão as nossas exigentes papilas gustativas, habituadas, apenas, a degustá-los no seu melhor. Mas voltemos aos míscaros, que, depois de lentamente guisados (e guisar é outra arte bem

por João Moreira

portuguesa), em lume brando, e tendo por companhia um arroz sujo de forno, me devolveram o orgulho de ser beirão, filho desta terra abençoada, onde brotam, por entre musgo, raízes e pedras, os melhores cogumelos do mundo, apenas não reconhecidos (ainda bem, acrescento invejoso) por manifesto desconhecimento. Caso contrário, iriam parar, à semelhança dos melhores peixes da nossa costa, à mesa dos mais conceituados restaurantes mundiais. O cozido que se lhes seguiu, mais para matar saudades da morcela e da chouriça da Beira, é, talvez, o mais acabado exemplo de como algo de simples pode resultar de forma tão saborosa e completa. Como sabemos, o cozido à portuguesa não tem segredos, a não ser o da escolha dos melhores ingredientes, carnes, enchidos e, sobretudo, couves, nabos e cenouras bem frescos, e o da utilização da água da cozedura lenta dos produtos, para a confecção do arroz para regar as carnes mais secas, e para ir aquecendo os legumes durante o repasto. A verdade é que não há o que se lhe compare! Tinha saudades destas iguarias rudes, mas genuínas, e da forma despreocupada como as vamos preparando. Em boa verdade, empenhamos mais dedicação à cata dos produtos, nos mercados ou nas hortas caseiras, do que na cozinha, na sua elaboração. Na nossa culinária, os ingredientes são os reis, e isso faz toda a diferença. Claro que, nos últimos anos, os novos chefs, que pululam um pouco por todas as regiões do país, reinventaram pratos tradicionais, entregando-lhes ousadas roupagens, nem sempre mantendo, no essencial, a simplicidade da sua confecção. A cozinha de autor, como hoje se gosta de chamar às criações, mais ou menos inovadoras, de alguns desses novos cozinheiros, resultou, apenas, quando estes optaram por basear as suas experiências nos produtos tradicionais da nossa gastronomia, fugindo à tentação de copiar tendências que nada tinham a ver com as raízes culinárias portuguesas. O norte do país é um belíssimo exemplo disso mesmo. A sensatez de alguns dos chefs que mais têm sobressaído na culinária nacional permite-nos desfrutar de experiências gastronómicas extraordinárias, regadas com os novos vinhos do Dão e do Douro, aos quais uma nova geração de enólogos soube devolver o carácter que lhes granjeou fama, num passado não muito distante. Esta combinação tem feito a diferença, e, confesso, enche-me de orgulho.


[51] Š Paulo Medeiros


A minha praia por João Albuquerque Carreiras

Todos os anos, sempre, desde bébé de colo, o correr do tempo não se mede apenas pela noite de passagem de ano, mas também pelo Agosto da minha praia. Noutros tempos, quase três meses, hoje em dia, um fim de semana no mínimo. As férias não são elásticas e outros destinos me chamam, mas sem pôr em causa esta passagem de ano, este picar de ponto, a romagem pelos sítios que sobrevivem ao passar do tempo, o passeio pela esplanada, as ruas tão cheias de arte nova, o pôr de sol sobre a praia e tantos outros lugares que se tornaram meus.

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Lugares de uma vida, das diversas vidas que aqui se foram cruzando, como lugares que, entretanto, desapareceram como o Luna, onde joguei os primeiros jogos de pac-man, o Europa e os snookers para as tardes de chuva, a Caravela, essa instituição onde comecei a ir para as torradas com a minha avó, onde comi amiúde a irrepetível omelete de camarão com os meus pais e onde bebi cerveja capaz de encher vários barris com os meus amigos, um lugar que era uma instituição, e tal como a revista Tintim, dos 7 aos 77 ou talvez mais, com o senhor Madaleno que nos fez tão felizes em dias e noites aparentemente infinitos. A Casa Havanesa, livraria dos tempos em que havia livrarias com livreiros que sabiam que vendiam livros e não refrigerantes, com a senhora dona Helena de trás do balcão, na sua secretária - de onde apenas saía quando detectava genuíno interesse -, as capas para não estragar os livros na praia e os belíssimos marcadores com fotografias antigas da Figueira. O Pessidónio, discoteca pioneira no país, e que sobreviveu anos com altos e baixos, marcando gerações desde a sua abertura até à minha, e outras, de onde era hábito sair de dia a tempo de rematar a noite com bolo quente na Sofico.


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Lugares de ontem e de hoje, como a praia, cada vez mais uma miragem desde a esplanada com a terra a ganhar terreno ao mar ano após ano. Essa praia de vento forte, com fugas ao meio da tarde, enrolado em toalha para proteger as pernas de esfoliação excessiva, do mar com ondas, ondas mesmo, grandes, só para os habitués que nela cresceram e logo aprenderam a furá-las, a fazer impensáveis carreiras, a arriscar mergulhos no limite da rebentação. Uma praia que hoje não me preenche pela instabilidade do clima, mas com o irresistível charme dos seus chapéus listados e cadeiras de lona e conversas com os que por ali ficaram.

uma vida, de nos vermos crescer, de, a cada ano, nos vermos diferentes, mas com uma ligação muito particular, sem barreiras geracionais, pois as idades sempre se cruzaram sem grandes limites e as cervejas são bebidas entre tios e sobrinhos, mães e filhas, irmãos. Algumas vezes tentei explicar a quem me perguntava o porquê da Figueira, falhando, tenho a certeza, nessa explicação. Há realmente coisas que não se explicam, esta é a minha praia e sei que de muitos outros também, uma tradição nossa que teimamos em manter por tudo o que de bom ela já nos trouxe. Até ao próximo Agosto.

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Lugares e hábitos que nada seriam sem as pessoas, verdadeiro motivo porque volto, e voltarei ano após ano. Os que já não vão, como os meus pais, imagem de saudade a cada ano, e os outros, os que teimamos em ir por mais ou menos dias, porque somos parte da vida uns dos outros, mesmo quando vivemos na mesma cidade e não nos encontramos. Há nestas amizades de verão coisas peculiares, especiais, uma relação de


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Voltar a Casa por Constança Martins da Cunha

Naquele tempo, que tanto podia ser o nosso como qualquer outro, por entre montes e vales, os rebanhos eram de pessoas e as tradições eram dogmas. Talvez porque quando em crianças tinham perguntado qual a sua origem, lhes tivesse sido dito em tom brusco, pose altiva, olhos revirados e sorriso amarelo que era assim porque sempre tinha sido assim. Ou talvez porque simplesmente tinham um desejo imenso de integração e um temor avassalador da solidão. Eram educados para seguir e não para questionar, para papaguear ao invés de pensar. Naquele tempo, que tanto podia ser o nosso como qualquer outro, os rebanhos eram escravos do passado e alimentavam-se do preconceito, de estereótipos e de um emaranhado de contradições. Não havia espaço para a inovação e todos estavam reféns do julgamento alheio. Quem ousasse pôr em causa o modus vivendi, era apedrejado, queimado vivo ou, se tivesse sorte, escorraçado. Não havia tolerância! As tradições eram imposições irracionais, inquestionáveis, confortáveis… Mas naquele tempo, que tanto podia ser o nosso como qualquer outro, houve alguém que decidiu alhear-se daquilo que lhe fora ensinado e que percorreu montes e vales até conseguir libertar-se dos traumas e desconstruir a infância. Depois de muito caminhar, e já com cabelos brancos, esse alguém apercebeu-se que as tradições também podem ser memória, um local onde o passado e o presente se encontram, onde se honram os ritos antigos e onde, finalmente, nos reconhecemos e nos reconhecem.

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Pouco depois, esse alguém regressou a casa pois entendeu que, independentemente de tudo, a desaculturação deveria ser evitada a todo o custo. Sem tradições as raízes perdem-se, a cultura empobrece, as sociedades desagregam-se e as conquistas, quaisquer que elas sejam, tornam-se mais simples.


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tra·di·ção por André Serpa Soares

tra·di·ção substantivo feminino

“tradição”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha] 1, 2, 3 Gosto de provas autênticas das coisas. Também gosto de acreditar na intuição, mas cada vez mais aprendo a viver com os factos, coisa da idade e da maturidade. Aceder a notícias, estar informado, saber o que nos rodeia, é fundamental. Apesar de nos servirem cada vez de maneira menos adequada as notícias. São muito poucos os dogmas de que comungo. Não sou grande adepto da tradição, portanto. 4 Gosto de símbolos, memórias, recordações, e de alguns usos e hábitos. Desse ponto de vista, gosto da tradição. 5, 6 Sobre a acepção transacional da palavra “tradição”, nada a dizer. É o que é, é o que mais fazemos: entregar, transmitir e também receber, adquirir. A etimologia da palavra tradição é mais interessante. Deriva do latim traditio, tradere, no sentido mais rigoroso de passar adiante.

Passar aos outros, aos que supostamente perdurarão depois de nós, o que temos de mais nosso, em termos de usos, costumes, valores e visão do mundo. É isso que os que são pais, ou mães, tentam fazer: passar adiante, para os seus filhos, através da educação que lhes procuram facultar, o que têm de mais seu. Mas todos os que se encontram nesta feliz e suprema condição de ser pai, ou mãe, sabem: os pais só querem passar adiante, para os seus filhos, o que têm de bom, o que em si e naquilo em que acreditam, entendem como virtuoso. Os defeitos, que todos temos, ficam só connosco, e esperamos que a geração que nos sucede os expurgue para sempre da “casta”. Não é? Não vai acontecer. Assim como perduram tradições estúpidas, e outras serão criadas e recriadas, também os defeitos passam adiante. Talvez não os mesmos, provavelmente em diferentes escalas, mas os defeitos humanos, os nossos defeitos, serão sempre, também, uma tradição. A maior tradição que podemos passar adiante é a da liberdade. Sermos livres, vivermos livres, respeitando as tradições dos outros, mas sem permitir que elas nos sejam impostas. Como todos sabemos e a publicidade se encarregou de nos inculcar no subconsciente, há tradições que vêm de longe. Mas a tradição também já não é o que era. Se nada nos restar, passemos adiante, então, a Liberdade. Ao menos a liberdade. Há tradições que não se poderão, nunca, perder.

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1. Via pela qual os factos ou os dogmas são transmitidos de geração em geração sem mais prova autêntica da sua veracidade que essa transmissão. 2. O facto ou o dogma assim transmitido. 3. Transmissão de uma notícia, boato, rumor. 4. Símbolo, memória, recordação, uso, hábito. 5. Entrega, acto pelo qual se entrega alguma coisa a alguém. 6. Transmissão, transferência de bens ou de direitos.


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Texto por

Fotografia por

Clรกudia Pinto

Rodrigo Cabrita


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Rosto de um Portugal esquecido


É na Terra da Paz, em Evoramonte, que ganha a vida e que luta por um futuro melhor para a sua família. O trabalho escolhido por João Rafael é cada vez menos uma opção para os mais novos. Não desiste e por ali persiste a valorizar o interior que considera ter caído no esquecimento.

São 52 anos de vida, 33 dos quais a trabalhar no campo. João Rafael conhece bem os dias em que só se ouve o vento, os pássaros, os carros e as motas ao longe a passar, de quando em quando. Aqui respira-se silêncio e almeja-se tranquilidade. Estamos em época plena da apanha da azeitona, em tempos mais inconstantes com estações que se misturam e confundem as previsões de quem tem no campo a sua forma de sustento.

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Fala da terra que o viu nascer com paixão. “Aqui temos qualidade de vida”, afirma convictamente. É em Evoramonte, uma vila a 16 quilómetros da sede de concelho [Estremoz], que se sente bem. Foi ali que nasceu, que conheceu a mulher com quem se viria a casar, e que criou os dois filhos, Nádia, de 30 anos, e João, de 23. Ganha a vida na Terra da Paz, como ficou conhecida por altura da assinatura da Convenção, entre Miguelistas e (absolutistas) Liberais, após vários anos da guerra civil, a 26 de Maio de 1834, restabelecendo a harmonia em Portugal. E é lá que pretende passar os dias até morrer.

Com os olhos azuis, bem vivos, a condizer com a cor do pólo que veste, o rosto fala por si quando conta como é a vida no interior. Os 62 quilos não fazem jus à luta diária. “Aqui no Alentejo, temos nomes artísticos”, diz. Os colegas chamam-no “fraquinho” mas o apelido não o demove da exigência do trabalho, de correr riscos, de trabalhar com chuva, geada, sol e ondas de calor. De querer o melhor para si e para os seus. João, alguns vizinhos, amigos e colegas de profissão, são uma espécie de freelancers do campo. O termo é mais comum na cidade do que no meio rural, mas a forma como organizam o trabalho é em tudo semelhante.


Trabalha para entidades patronais distintas mas também para particulares. “Nem toda a gente funciona assim no campo. Há quem vá aproveitando aquilo que aparece.” Mas é desta forma que João Rafael se sente mais seguro e consegue ganhar o suficiente para viver e para pagar os estudos do filho mais novo que, entretanto, acabou este ano, um curso de hotelaria e turismo, em Portalegre. Apesar de já estar a trabalhar, o filho dá-lhe mais preocupações do que a irmã. É que Nádia casou, também se formou [apesar de trabalhar noutra área] e “já tem a vida mais encaminhada”.

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Dividem o ano em cinco actividades principais: até Dezembro, ocupam os dias na apanha da azeitona, momento em que iniciam a plantação de sobreiros e a poda das árvores, trabalho que dura até Março. A partir de Abril e até Maio, seguem para a tosquia de ovelhas. No final de Maio, começa a actividade na cortiça e assim segue a vida no campo até Agosto, altura em que começam as vindimas e em que se impõe uma temporada na adega. “Depois disso, recomeçamos o ciclo e reinicia a época da azeitona”, explica João. “Fazemos um planeamento atempado mas a nossa calendarização pode ser alterada com as novas condições atmosféricas porque as estações do ano mudaram um pouco”, diz.


De corpo e alma Não se queixa da vida que escolheu mas tem noção que nem todos conseguiriam abraçála. “Tem de se gostar mesmo disto”, diz, sem rodeios. E é essa paixão que diferencia “os que abalam dos que ficam”. Quem gosta, vai-se mantendo. “Os outros vão à procura de qualquer ofício mais fácil.” É aqui que se sente feliz. Mas também na caça e na pesca, os seus hobbies favoritos, quando consegue uma folga. O facto de trabalhar em diferentes áreas permite-lhe sair da rotina, mesmo quando os dias começam pelas 6 da manhã, seja Verão ou Inverno, estejam 4 ou 40 graus. E no final, a parte física é que paga. “O mais complicado é o que nos sai do corpo. Por outro lado, não sei se não teria tido mais dificuldades em dar um curso superior à minha Nádia e de suportar os estudos do meu João, se tivesse um emprego mais seguro e dito normal.” Nem sempre foi assim. Durante sete anos, trabalhou numa fábrica de cortiça, na Azaruja, a 9 quilómetros de Evoramonte. “Com a crise económica, metade das fábricas fechou, e eu voltei-me novamente para este ramo. Sabe, é onde consigo ter mais trabalho e ainda vai sendo o que me dá mais segurança.” Na apanha da azeitona, o que se pede é sobretudo força de braços. João e os colegas ainda recorrem ao método tradicional de ripar ou varejar as oliveiras, dependendo se o fazem com recurso às mãos ou a um pau. “O nosso método é mesmo tradicional. Hoje em dia, já existem máquinas que permitem colher azeitonas em olivais mais modernos”, explica. João prefere manter as origens porque considera que a modernidade implica “menos rendimento porque desperdiça muita azeitona”. Após uma manhã de apanha, o que se recolheu é colocado em sacos com capacidade para 35 quilos que são posteriormente entregues num lagar. É aqui que as azeitonas vão ser limpas antes de serem utilizadas na produção do azeite. Após serem pesadas, João e os colegas recebem o pagamento por parte dos clientes, maioritariamente proprietários de olivais. O preço que cobram é variável, mas este ano, pode ir dos 15 aos 30 cêntimos, por quilo, dependendo do sítio onde é feita a apanha, das condições em que a mesma acontece e do trabalho que acarreta. Ao contrário do ano passado em que a azeitona estava “muito mirrada” devido à seca, as perspectivas actuais são boas. “Este ano, a azeitona é muito boa e sadia”. “A curto prazo, estamos bem remediados”, diz.

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“O mais difícil é mesmo o que nos sai do corpo.”


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O meio século de vida dá-lhe sabedoria mas também inquietação. Preocupa-lhe o futuro e o facto de não saber até quando o corpo irá aguentar. “O trabalho mais difícil é a tosquia, e não é tanto pelo esforço, mas sim pela posição em que temos de estar durante muito tempo seguido [de costas sempre dobradas]. Não sabemos o que a vida nos reserva mas provavelmente será a primeira actividade que vou abandonar porque é a que me custa mais. Por outro lado, é a mais rentável”, partilha. Por dia, são tosquiadas aproximadamente 200 ovelhas. “Ficamos na mesma casa, durante dois a três dias, e depois fazemos o mesmo serviço mas para outra empresa”, conta. A apanha da azeitona é mais dura quando há frio e geada mas a actividade mais arriscada é a poda dos sobreiros. Não tem medo de subir bem alto às árvores de motosserra na mão mas é um trabalho a evitar em dias de chuva. “Não se pode ter receio mas é preciso algum cuidado. Em árvores decadentes, quando chego lá à frente, olho para trás e penso no que poderá acontecer se os ramos partirem.” E é ver o “fraquinho” a escalar as árvores de motosserra na mão, com a leveza do corpo mas a determinação da mente. Por altura da cortiça, o desafio maior é o de andar de árvore em árvore com a destreza de quem tem muito para dar ao campo, debaixo de um calor abrasador. A ida para a adega veio colmatar a falta de trabalho entre Agosto e Novembro, “época em que o Alentejo está mais desprovido de serviços”. Era tempo demasiado de férias para quem não está habituado a tê-las e trabalha de forma independente não podendo dar-se a esse tipo de luxos. As vindimas são literalmente de cortar a respiração, sobretudo quando João tem de trabalhar nas cubas onde “os níveis de oxigénio são reduzidos. Nem todas as pessoas se adaptam pois tem de se controlar essa dificuldade”, explica. É um trabalho feito sobretudo por homens, também segundo o método tradicional, na fase da remontagem onde João e os colegas pisam as uvas nos lagares. “Usamos umas botas de borracha e calcamos as uvas. E é esse o maior esforço que temos de fazer.” Cada actividade tem um custo associado, sobretudo ao nível físico mas também mental. Força, destreza, antecipação do risco, suportar o trabalho ao ar livre em épocas de calor excessivo ou de frio em demasia, são algumas das aptidões necessárias para assegurar a exigência do trabalho no campo. “Assusta-me o que há-de vir. Até aqui tenho tido uma vida boa mas à medida que a idade vai avançando, vou perdendo capacidades”, partilha, não escondendo a preocupação.

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“Os mais novos já não querem esta vida”


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De geração em geração “A vida dos meus pais e dos meus avós foi sempre esta.” João herdou-lhes a vocação, a perseverança mas também a paixão pelo que a terra dá. Arquelino Oliveira tem 84 anos, e os mesmos olhos azuis, geneticamente transmitidos ao filho. Não raras vezes vai ter com ele e perde horas a seguir-lhe os passos, tal como ele fazia quando era criança e ia com os pais para o campo. “O meu pai mandou-me à escola, a minha mãe, que Deus tenha, queria que tivesse outra profissão. Mas a vida… vamos agarrando aqui, ali, e acabamos por ir ficando.” Confessa ter passado uma infância feliz. Os dias multiplicaram-se em meses, e em anos, em tempos que mudaram mas que não beliscaram o orgulho de viver no interior. “O meu filho portou-se mal nos estudos. Abandonou-os muito cedo. Gostava que ele tivesse lutado mais”, reclama o octogenário. O pai tinha outros projectos para João. Ainda assim, não esconde a vaidade. “É uma vida muito dura mas ele é mais rijo do que eu era”, conta. “Lá, onde estou [tem uma habitação no Monte do Rufacho, em Evoramonte] também há árvores destas. O meu filho tem de arranjar tempo para ir colher azeitona também”, deixa o recado. João assim o fará, quando for possível. Por agora, há uma agenda a cumprir, de olival em olival, para garantir que a apanha corre bem este ano. A preocupação em relação à passagem de testemunho é notória. E depois desta geração, quem se seguirá? “Desta gente mais nova, quantas pessoas é que se vêem a fazer estes trabalhos? Os mais novos já não querem esta vida”, afirma Arquelino. “Não temos grandes perspectivas de continuidade”, acrescenta João Rafael. Há apenas uma certeza: a herança familiar provavelmente irá terminar aqui. “O meu filho ainda esteve a trabalhar no campo um ano, mas pediu-me uma nova oportunidade para voltar a estudar. Não se deu com isto”, partilha “o fininho”. Os que continuam são poucos e totalizam meia dúzia. “Já nos conhecemos, trabalhamos sempre para as mesmas pessoas e empresas, o que, na maioria das vezes, nos garante pagamentos a tempo e horas. Também há quem demore vários meses a pagar, mas felizmente não é a regra, é a excepção.”

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“As pessoas do interior sentem-se esquecidas e não existem apenas quando há catástrofes.”


O interior que passou de moda Não se consideram isolados mas sentem-se esquecidos. Longe vão os tempos em que era moda comprar uma casa no interior. “Há muitas casas compradas por engenheiros, por doutores, por quem podia… algumas famílias criavam aqui os filhos e mantinham os seus trabalhos na cidade. Entretanto, as coisas mudaram e as habitações só são ocupadas parcialmente, sobretudo durante as férias”, conta João. São esses os momentos em que se atenuam as saudades e se resgatam memórias. “Os rapazes da minha idade ainda cá vêm e eu prefiro o contacto pessoal”, justifica, adiantando que usa internet mas não tem conta no Facebook. Nem nos momentos mais difíceis, ponderou sair do país ou escolher outra vida. “Quem de cá sai, espera ir governar-se noutro lado mas sonha regressar por altura da reforma.” Entre os que abalam e os que ficam, as contas ficam mais fáceis de fazer no que ao trabalho diz respeito. “Quando dizem que o Alentejo está a ficar desertificado, é verdade. As pessoas aglomeram-se nos grandes centros, em Évora, por exemplo. Nós aqui somos poucos. Mas somos ainda menos no campo”, lamenta. Por esse motivo, continuam a aparecer oportunidades para “esta rapaziada” que se organizou e consegue ter alguma estabilidade. “Puxamos uns pelos outros. Somos um grupo com um grande espírito de união. No dia-a-dia, se há um serviço ao qual não podemos chegar, sabemos que os nossos colegas asseguram, e o que é bom para um é bom para todos”, partilha, orgulhoso. Critica quem só se lembra destas gentes por altura da seca ou dos incêndios. “As pessoas do interior sentem-se esquecidas e não existem apenas quando há catástrofes. Continuam a ser pessoas que fazem pela vida ao longo do ano. Sinto que se esquecem de nós quando tudo corre bem.”

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João sente-se feliz na sua terra. Defende-a com determinação. Tem poucos sonhos mas já sente que é hora de ter um neto a correr pelo campo, que lhe herde o espírito de luta e de resiliência. Tão típico das gentes do interior, nem sempre lembradas, muitas vezes esquecidas.


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Os direitos humanos e a importância do ativismo A 10 de dezembro o mundo celebrou os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, DUDH. Ratificada por 198 países, a Declaração está inscrita no Guiness World Records como o documento mais traduzido em todo o mundo, com versões em mais de 500 idiomas. No entanto, a amplitude linguística em nada espelha o cumprimento dos direitos inscritos, sendo a Declaração, com elevada probabilidade, um dos compromissos internacionais que mais frequentemente é violado e desrespeitado. Os trinta artigos que compõe o documento sintetizam o que a comunidade internacional entendeu serem os direitos fundamentais de todos os indivíduos. A sua importância é ainda mais significativa porque, ao longo das últimas sete décadas, resultaram deste documento 18 tratados internacionais e protocolos sobre direitos humanos, como a Convenção Internacional sobre os Direitos das Crianças e a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

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Os direitos ali consagrados aplicam-se a todas as pessoas, sem exceção, independentemente da raça, crença, localização ou outra distinção de qualquer tipo. Por isso, estes direitos são universais, eternos e indivisíveis, não sendo possível separar os direitos civis, políticos, económicos, sociais e culturais. Numa mensagem dedicada a este dia tão simbólico, o Secretário-Geral da ONU refere-se à Declaração Universal dos Direitos como o “farol mundial” que tem iluminado a dignidade, a igualdade e o bem-estar. António Guterres homenageia todos os defensores dos direitos humanos, que arriscam a vida “para

proteger as pessoas do ódio, do racismo, da intolerância e da repressão” e lembrou o muito que há ainda a fazer para que todos possam gozar em pleno dos seus direitos. A Organização das Nações Unidas reconhece os muitos avanços e conquistas alcançadas desde a adoção da Declaração na promoção e respeito dos direitos humanos. No entanto, a realidade apresenta desafios constantes e obriga a que a temática continue a ser uma das suas grandes bandeiras, ocupando um lugar cimeiro na agenda da Organização. De acordo com o Gabinete do Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, 880 milhões de pessoas continuam a viver em bairros de lata, uma em cada dez crianças é vítima de trabalho infantil, cerca de 80 milhões de pessoas foram forçadas a sair de casa na sequência de conflitos, guerras e perseguições, perto de 60 milhões de crianças não frequentam a escola, dezenas de jornalistas são assassinados todos os anos. Uma em cada três pessoas são presas sem serem julgadas ou sentenciadas por um tribunal competente. Olhando para a violação dos direitos humanos das mulheres, constatamos, por exemplo, que 700 milhões de raparigas casaram antes dos 18 anos, sendo que 250 milhões foram forçadas a fazê-lo ainda antes de completarem 15 anos de idade. Ao longo deste ano a ONU, através do gabinete do Alto Comissário para os Direitos Humanos, promoveu a campanha #standup4humanrights para lembrar que apesar de ser uma senhora na terceira idade, a Declaração


por António Ferrari

Neste ano em que completa o septuagésimo aniversário, a Declaração Universal dos Direitos Humanos continua a ser tão importante e necessária como em 1948, porque tal como é sublinhado constantemente pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, “as palavras da Declaração Universal ainda não têm correspondência com a realidade no terreno.” Os refugiados, os migrantes e os requerentes de asilo são alguns dos grupos mais vulneráveis, frequentemente privados dos seus direitos e injustamente difamados como sendo uma ameaça. Neste sentido, a ONU promoveu a criação do Pacto Global para a Migração, o primeiro tratado internacional que pretende definir regras para uma migração internacional ordenada, regulada e segura. Os Estados-membros reuniram-se em Marraquexe, Marrocos, para ratificar este acordo que, apesar de ainda não ter sido adotado por todos os países, constitui um primeiro passo para que a comunidade internacional acorde as regras de uma realidade que será cada vez mais evidente: o aumento do número de pessoas que se deslocam no planeta.

Seja para escapar a conflitos, à violência ou aos efeitos das alterações climáticas, as ondas de migração continuarão a ser uma realidade crescente com a qual todos teremos de lidar e um desafio para o cumprimento dos direitos humanos daqueles que buscam paz, estabilidade e prosperidade. A defesa dos direitos humanos é fundamental, tal como a capacidade de antecipar cenários futuros que irão impor novos desafios para que cada vez mais pessoas possam ver os seus direitos respeitados. É um trabalho das organizações internacionais, dos governos, da sociedade civil, da academia, entre outros, mas que só será bem-sucedido se todos, enquanto indivíduos, formos ativistas acérrimos destes valores, que tanto ansiamos para nós próprios mas que facilmente esquecemos de advogar para os demais.

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Universal dos Direitos Humanos tem sido constantemente desrespeitada. A perseguição da minoria étnica rohingya no Mianmar, as muitas barreiras impostas a centenas de milhares de migrantes em várias regiões do globo, a chocante guerra no Iémen que empurrou milhões de pessoas para a fome e o desespero, o interminável conflito na Síria, a diminuição do papel das mulheres em vários países, o recrutamento de crianças soldados, são apenas alguns exemplos dos cenários onde a violação dos direitos fundamentais é constante.


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Marvão: de onde se vê o mundo por Pedro Eduardo Ramos*

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“De Marvão vê-se a terra toda”. Quando Saramago o escreveu, limitou-se à verdade das sensações. Quem sobe às muralhas do castelo, e delas contempla um universo de curvas e contracurvas, o peso imenso do Alentejo e, para além dele, a vizinha Espanha, não tem muito mais a temer do que deixar-se seduzir pela amplitude absoluta dos campos. Com o avançar do tempo nesta vila portalegrense, haveríamos de vir a descobrir novas nuances na paisagem, como as histórias do “Ti” Manuel, rosto do contrabando transfronteiriço e de outros modos de vida. O castelo é, por assim dizer, um paradoxo emocional: ao mesmo tempo que nos atrai para dentro, que nos aconchega o peito com pequenas ruas empedradas ardendo ao sol do fim de agosto, também nos convida a levantar os olhos, a respirar as correntes de ar vindas do Outro lado, do lado de lá, do lado do futuro que está por vir. Passado e futuro condensados num paraíso luminoso e repleto de silêncios: eis Marvão, a terra que nos acolheu. A quase 900 metros de altitude, este lugar foi o escolhido para palco de um encontro de jovens portugueses apaixonados pelo projeto europeu. É desse evento que aqui vos falo na qualidade de participante. O SummerCEmp destaca-se mais por aquilo que não é, do que por aquilo que é: não é uma escola de verão dedicada a doutrinar; não é uma escola de verão dedicada ao unanimismo e à repetição de ideias feitas que nada dizem ao cidadão comum; não é um local de formação dos políticos do futuro. O que o SummerCEmp é – e escrevo-o ainda sob o efeito transformador de nele ter podido participar –, é uma experiência intensa, poderosa, diversificada e enriquecedora de formação cívica dos jovens que serão, no futuro, os obreiros da sociedade portuguesa e europeia. Com percursos de vida diversos, locais de origem variados e múltiplas ambições de futuro, fomos recebidos por oradores provenientes de distintos quadrantes políticos, todos eles dispostos à partilha e ao convívio.

Bruno Esteves

Os mais de 160 visitantes ficaram alojados em instalações locais, fiéis à essência do espaço. As refeições celebraram-se no “Varanda do Alentejo”, restaurante cujo nome assenta como uma luva a este local de histórias. Nele se haveriam de sentar, em comunhão, os jovens participantes e os ilustres convidados: ministros, deputados, eurodeputados, membros da Comissão europeia, diplomatas estrangeiros. Os quatro dias de duração do evento parecem não ter obedecido às mais elementares leis da física: dias longos que se diluíram nas muitas horas de um dia, do alvor matutino às horas impossíveis da madrugada marvense, entre copos de cerveja e canções arrancadas dos pulmões com a força de quem se vê contaminado por uma felicidade em que não se cabe. O tema do populismo foi debatido com preocupação. Não fugiu à memória a ameaça radicalizada em alguns pontos nevrálgicos da construção europeia nem o propagar das fake news, que são armas para a divisão dos povos. A via populista, que parte de falsos problemas e, por isso mesmo, é incapaz de propor soluções, aposta na criação de uma falaciosa divergência entre a “elite corrupta” e o “povo enganado”. De volta à paisagem imensa do castelo, vemos os montes como ondas e a nossa mente foge para os cenários terríveis do Mediterrâneo. A crise dos refugiados também tem lugar neste Marvão de diálogos, assim se pondo em confronto a dimensão mediática do problema com a dimensão real do mesmo, que sendo grave, muito mais grave parece às mãos dos populistas. A comunicação social é chamada à palavra: o que fazer com tudo isto? Como alimentar a democracia numa era em que tantos a ameaçam e outros tantos ficam impávidos diante da sua deterioração? Como resistir à tentação de arrancar o outro da sua caverna platónica apenas para o confinar na nossa própria caverna ideológica, à sombra do nosso próprio medo? Aonde está, de facto, a luz da verdade?


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Considero que o convívio entre a tradição e as novas construções políticas é imperativo. A cultura que partilhamos como nação, forjada em séculos de experiências comuns, de sofrimento comum, é um bem nacional que fica dentro de nós mesmo que nos queiramos livrar dele. É preciso é que saibamos avançar para a Europa e que nela encontremos as memórias que os nossos netos e bisnetos viverão. Neste ponto, o pragmatismo é essencial: só poderemos ter uma sociedade capaz de viver os benefícios da União se lhe proporcionarmos, na justa medida, um grau de prosperidade e de conforto que permita ver “mais além”. Assim, atacar as desigualdades e lutar por uma política de convergência que exista como objetivo em si mesmo, e não como analgésico para as dores de parto da Europa, parece-me obrigatório.

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Entre os participantes desta iniciativa encontrei uma riqueza comovente. Dali parti com a confiança redobrada na nossa sociedade civil, com a certeza de que cada um de nós não quer mais do que fazer o bem comum, cada um com suas propostas e métodos. Contudo, não consigo evitar regressar ao pragmatismo que, bem ou mal, me persegue. Do castelo de Marvão vê-se o mundo, mas um grito lançado da muralha não chega sequer a Portalegre, quanto mais a Bruxelas ou a Washington. O grito lançado da muralha não passa sequer da mancha de mato ardida que jaz no sopé do monte. A voz desta Senhora Europa que nos seduziu noite adentro não basta para conquistar o coração dos que, física e socialmente, estão longe. Somos uma elite. E assumi-lo não é arrogância, mas realismo. Temos a obrigação moral de ir

por esses caminhos, curvas e contracurvas, montanhas em cima de montanhas, comunicar a nossa ideia a todos e a todas, sem medos, sem receios, de coração aberto. As dúvidas e opiniões divergentes que encontrarmos serão legítimas. Vamos aprender a aceitar a diferença. As nossas armas serão os nossos argumentos. A nossa vontade será a nossa energia. É esse o trabalho que temos pela frente. Como se pode agora compreender, talvez a frase de Saramago não tenha sido a melhor opção neste contexto de um europeísmo convicto. Proponho que se respeite a memória do Nobel português com uma analogia à sua medida: este Marvão de onde se vê o mundo foi local de recolha de “vontades”, à moda de Blimunda, e com elas construiremos a “passarola” que conhecerá o mundo. “O homem, primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará.” Não posso terminar sem agradecer do fundo do coração à organização, na pessoa da Sofia, da Raquel, do Paulo, da Carla, do Vasco, da Sofia e do Rodrigo. Assim, com o primeiro nome, porque se algo contruímos em conjunto então algo ficará para sempre como ligação entre nós. Aos meus amigos, que comigo partilharam esta página maravilhosa, nenhuma palavra cumpre melhor a mensagem do que esta: obrigado.

*Estudante de medicina e participante no SummerCEmp 2018


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Summer Cemp Um formato original, de Portugal para a Europa

por Bruno Esteves

Bruno Pires / Comissão Europeia

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Juntar 50 estudantes universitários, o Primeiro Vice-Presidente da Comissão Europeia, cinco membros do Governo, entre eles dois ministros, vários eurodeputados, o Chefe da Casa Civil da Presidência da República e jornalistas dos mais relevantes meios de comunicação nacionais na mui leal e nobre Vila de Marvão, terra raiana, encrostada nas serranias de S. Mamede, das mais afectadas pela adesão do nosso país à Comunidade, para, durante três intensos dias, discutir a Europa é, no mínimo, uma ideia original. Mas foi exactamente isso que a Representação Permanente da Comissão Europeia em Portugal, chefiada por Sofia Colares Alves, decidiu fazer, após o sucesso da primeira edição do Summer Cemp, realizado em 2017, em Monsanto. Durante três dias, um canto recôndito do interior do Alentejo, habitualmente ocupado exclusivamente por velhos alentejanos, mãos grossas, pele tisnada, cabeça erguida, com a suave altivez que só o orgulho numa vida honrada de trabalho consegue dar, encheu-se de gente e inundou de vida uma das regiões mais esvaziadas do país. A Europa invadiu Marvão e apoderou-se das ruas, das praças, dos jardins e, até, do alto da torre de menagem, de onde, dizia Saramago, “o viajante murmura respeitosamente: Que grande é o mundo.”, para se discutir a si própria, sem formalismos, sem preconceitos, sem papas na língua. E a verdade é que resultou. E resultou, muito pelo empenho e dedicação de Raquel Patrício Gomes e da jovem equipa de comunicação da Representação Premanente da Comissão Europeia em Portugal, que conseguiram transformar o Summer Cemp numa experiência única de interacção entre todos os intervenientes.


Como surgiu a ideia de organizar o Summer Cemp? O Summer Cemp nasceu de uma conversa à volta da mesa, entre a nossa equipa de comunicação da Representação Permanente da Comunidade Europeia, em que nos desafiámos a encontrar soluções que nos aproximassem dos estudantes, sobretudo, daqueles que consideramos serem os multiplicadores da Europa em Portugal, que são os estudantes de Jornalismo e de Ciências Políticas. Tendo a percepção de que os estudantes de jornalismo não estão inteiramente ao corrente daquilo que a Comissão Europeia faz todos os dias e não sendo possível percorrer as escolas de jornalismo do país, achámos que era engraçado trazê-los até nós. Definida a ideia, pensamos num novo formato de debate e discussão, que nos afastasse do tradicional encontro em Lisboa e nos permitisse uma maior proximidade e interacção e surgiu a ideia de levar estes jovens a discutir a Europa no interior de Portugal.

Explica-nos o motivo por essa opção pelo interior do país? A opção pelo interior partiu da necessidade que sentimos de estarmos onde normalmente estamos menos e de encontrar cenários inspiradores que nos permitissem formatos um bocadinho alternativos, como falar da Europa no Miradouro do Castelo de Marvão. Por outro lado, muitos desses jovens não passam pelo interior, não conhecem o interior e embora alguns sejam do interior, não conhecem todos os interiores, portanto, para nós fazia sentido incentivar uma interacção dos participantes com as comunidades locais. Assim, no primeiro ano, fomos para Monsanto e no segundo para Marvão.

Numa época em que a informação nunca esteve tão acessível a todos, porque é que sentiram a necessidade dessa aproximação aos estudantes? A que é que se deve esse desinteresse dos jovens em relação à União Europeia? Esse desinteresse não é só característico da comunicação sobre a União Europeia, tem a ver com as instituições na generalidade. Os cidadãos tendem a estar cada vez mais afastados da vida política dos seus países, portanto, não diria que é um exclusivo da União Europeia, mas no caso específico da UE,

cumpre-nos a nós, diminuir esse desinteresse. O Primeiro Vice-Presidente, Francis Timmermans, quando esteve connosco em Marvão, contou uma história muito engraçada e reveladora: a mãe dele, holandesa, emigrou para Paris e, a certa altura, irritou-se com um grupo de miúdos franceses e mandou-lhes um raspanete, naturalmente, em holandês. Os meninos franceses não perceberam o raspanete e continuaram a fazer exactamente a mesma coisa e a senhora achando que não tinha sido compreendida decidiu gritar, ou melhor, dar um raspanete mais sonoro. Claro que os meninos franceses continuaram sem perceber o raspanete por muito alto que a senhora gritasse, por isso, produzir mais informação e gritar mais alto não implica, necessariamente, mais informação aos cidadãos. Achamos importante que a forma como comunicamos seja diferente para que as pessoas se sintam ouvidas, se sintam próximas. Para isso é fundamental que tenham a percepção do trabalho que fazemos, que conheçam as nossas caras e a Sofia Colares Alves que é a nossa representante da Comissão Europeia em Portugal faz muito esse trabalho de dar a cara, de se aproximar.

O que mais te surpreendeu nestas duas edições de Summer Cemp? Em primeiro lugar é preciso entender que optámos por um formato às cegas, nunca testado, de interioridade, com grande interacção com a comunidade local e colocando protagonistas da vida política em contacto directo com 50 jovens e não sabíamos bem como iria correr. Normalmente, estas pessoas cruzam-se pontualmente em conferências, na universidade, mas não estão habituadas a esta proximidade e a esta informalidade. Por isso, aquilo que na verdade me surpreendeu, para ser muito honesta, foi a relação em dois sentidos que se estabeleceu entre participantes, oradores e moderadores e a quantidade de ideias diferentes sobre a Europa que daí resultaram. O facto de estarmos todos a falar sobre a Europa de uma forma menos formal do que aquela a que as pessoas estão habituadas, não significa que não saibamos exatamente qual é a posição de cada um. O que quero dizer com isto, é que, ao levarmos a Marvão o Primeiro Vice-Presidente da Comissão Europeia, cinco membros do governo, eurodeputados de todos os quadrantes políticos, o Comissário Carlos Moedas, que desde a primeira hora está connosco, tínhamos a exacta noção do que cada um representa, o importante para nós era passar a mensagem de que, por trás daqueles cargos, por trás do senhor ministro, por trás do senhor comissário, por trás do senhor vice-presidente da Comissão Europeia está uma pessoa que tem ideias próprias e com quem eu posso falar e de quem me posso aproximar e

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A Bica conversou com Raquel Patrício Gomes, em Bruxelas, no dia em que, acompanhada por alguns dos participantes no Summer Cemp 2018, foi apresentar à DG de Comunicação o projecto, que será replicado em outros países europeus, nomeadamente, na Polónia.


com quem posso ter uma conversa durante um jantar, durante um almoço, sentado no muro do castelo ou enquanto vamos todos juntos para uma conferência que decorre no meio do jardim em bancos de madeira. Este era o nosso objectivo e, quando vimos o Ministro Tiago Brandão Rodrigues a conversar noite fora com os estudantes no bar do Castelo, ou quando percebemos a interacção do Primeiro Vice-Presidente da Comissão com os estudantes durante o jantar, ou quando assistimos à Marisa Matias a cantar com um grupo de jovens, só para dar alguns exemplos, ficamos com a sensação de ter atingido esse objectivo.

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Explica-nos como é feita a selecção dos participantes e a preparação necessária para que o Summer Cemp resulte desta forma. Os participantes candidatam-se e são seleccionados com base nas suas motivações, no seu currículo e na sua experiência, mas, sobretudo, com base naquilo que escreveram ou disseram sobre uma ideia para a Europa. Não queremos saber se essa ideia é espectacular, se é boa, se é cara, se é barata, queremos é que, de facto, demonstrem que têm uma ideia para a Europa. Depois, como temos a exacta noção de que não se conhecem entre eles, porque vêm de universidades diferentes de todo o país, criamos um grupo online, cerca 1 ou 2 meses antes do evento e, onde eles começam a interagir. E é muito curioso, porque, logo ali, gera-se uma certa empatia, com troca de informações, discussões sobre temas mais genéricos de dimensão política, sobre a carreira profissional e isso é muito importante, porque quando estes 50 jovens chegam a uma aldeia ou vila, neste caso Marvão, já estão familiarizados uns com os outros. Nesta edição, por exemplo, alguns deles criaram músicas em conjunto, encontraram-se antes do evento e quando chegaram já eram um grupo homogéneo. Isso facilita muito o nosso trabalho, porque a estes 50 participantes somam-se mais ou menos 50, 60 oradores e colaboradores (nós não fazemos muita distinção entre oradores e moderadores, porque são todos facilitadores de conversa) que temos de colocar a interagir com estes participantes. Muitos deles ficam a residir durante o Summer Cemp, o que também facilita essa interacção, porque permite momentos extraordinários de conversa, de enriquecimento para todos, em particular para os estudantes que não têm, normalmente, a possibilidade de interagir com um director de jornal, com um ministro, com um dirigente político desta forma. Poder conversar com eles, fazer um caminho com eles até algum lado, trocar impressões, saber como é que foi o ERASMUS do Ministro da Educação, saber quais são as preocupações

sobre a Europa que o Primeiro Vice-Presidente tem e, depois, poder-lhe colocar questões directamente é algo único. Por outro lado, para os oradores e moderadores, este formato também acaba por ser interessante e não é só por causa do networking, mas porque estão cansados dos formatos muito tradicionais e acabam por se interessar em ouvir estes estudantes com quem não convivem habitualmente e que são jovens interessados por estes temas. Finalmente os jornalistas que podem ou não estar a escrever matérias sobre o evento, porque muitos deles estão com a função de moderação ou de oradores, também acabam por ter interesse em participar num evento com um formato tão informal. Portanto, temos um triângulo que funciona.

A verdade é que o modelo teve tanto sucesso que suscitou o interesse dos parceiros europeus. É natural que o facto de termos conseguido reunir, num local inóspito e longe dos grandes centros, o Primeiro Vice-Presidente da Comissão, Ministros do actual Governo, líderes de opinião, comentadores dos principais canais televisivos, eurodeputados, desperte alguma curiosidade por parte dos nossos colegas europeus e que, por isso, tenham demonstrado interesse, não só na possibilidade de replicar o modelo em outros países da UE, mas na possibilidade de trazer participantes de outros Estados Membros e juntá-los aos nossos para fazer um Summer Cemp em Portugal mais alargado ou, eventualmente, pensar numa escala Europeia e replicar o modelo num local mais central geograficamente. Mas, o que é realmente importante, aquilo em que eu acredito, é que a Europa só se afirma verdadeiramente na vida das pessoas, através da partilha: dos ERASMUS, das trocas, desta facilidade de circular livremente e de fazer circular ideias, porque quando as ideias circulam, de facto, geram coisas extraordinárias. Nós ficamos muito contentes, obviamente, por uma ideia que nasceu em Portugal poder ser exportada ou adoptada por outros Estados Membros, mas o que realmente importa é a possibilidade de incentivarmos as pessoas a conversar livremente sobre os caminhos de futuro para uma Europa que se pretende cada vez mais forte e solidária.


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Estas são as almofadas bem estar, recheadas de cereais e alfazema biológica, com afeto manual, carinho e pós de perlimpimpim!

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Prontos de Venda: Museus Nacionais de Lisboa | Loja Quer - Chiado | Loja Vatni


Segredos de Lisboa

por Francisco Duarte Coelho

O Alfaiate das madeiras – Da Cruz Carpinteiros Neste número venho revelar um segredo bem guardado na Rua de São Marçal Nº16D. Quem por lá passa desconhece o que acontece por detrás destas paredes gastas pelo tempo, desprovidas de qualquer tipo de sinalética que chame a atenção para o que de muito especial ali encontra. Estas paredes escondem, Da Cruz Carpinteiros, a carpintaria de Rogério Cruz. Arquitecto de formação, entregou-se à sua verdadeira paixão, a nobre arte da carpintaria, que aprendeu com o avô e com o pai. Começou por fazer os trabalhos que a maioria dos carpinteiros rejeitava, e a arranjar soluções técnicas para os mais audaciosos projectos, assim tornou-se o carpinteiro dos artistas, que lhe encomendam molduras, crates, caixas ou bases.

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Rogério Cruz é o verdadeiro alfaiate da madeira, um connoisseur das técnicas ancestrais, aliadas a mais alta tecnologia.


Ă rvores de Lisboa por Ana LuĂ­sa Soares Ana Raquel Cunha

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Alameda de oliveiras na Tapada da Ajuda


Olea europaea L. subsp. europaea (oliveira e zambujeiro) Família: Oleaceae A espécie Olea europaea L. subsp. europaea é constituída por duas variedades a oliveira (O. europaea subsp. europaea var. europaea) e o zambujeiro (O. europaea subsp. europaea var. sylvestris). O zambujeiro partilha com a oliveira o facto de serem árvores de folha persistente, com origem mediterrânica, apresentarem flores de pequenas dimensões de cor branca, reunidas em panículas que florescem no verão. Ambos têm interesse alimentar pelo seu fruto, a azeitona, embora esta seja de menor dimensão no que diz respeito ao zambujeiro. A generosidade destas plantas, capazes de se adaptarem a todo o tipo de solo, desde que bem drenado, e a climas quentes e secos, revela uma presença marcante e com tradição no nosso país. Do que se conhece, na vegetação original dos campos que rodeavam a cidade de Lisboa predominava o zambujal. Na Tapada da Ajuda existe uma Reserva Botânica que o testemunha. A presença marcante da oliveira e do zambujeiro nos jardins de Lisboa justifica-se pelo seu valor ornamental, a cor da sua folhagem verde acinzentada e o seu porte de copa ampla, arredondada e forma característica. Das 27 610 árvores referenciadas no levantamento arbóreo de 64 jardins e parques da cidade, realizado em 2014, no âmbito do Projeto LX GARDENS – Jardins e Parques Históricos de Lisboa: estudo e inventário do património paisagístico (coordenado pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia), foram identificados 2255 exemplares de oliveiras e zambujeiros (Vasconcelos et al., 2017). O olival, com presença marcante na paisagem portuguesa, tem tido nos últimos anos um interesse renovado, pela sua cultura em regime intensivo ou extensivo, em função da apanha do seu fruto e da produção de azeite. Reconhecido nas vantagens da dieta alimentar relativamente a outras gorduras, o azeite encontra-se incluído na dieta mediterrânica que é reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Bibliografia

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Vasconcelos, T.; Cunha, A. R.; Forte, P.; Soares, A. L. (2017). Levantamento Arbóreo dos Jardins e Parques Históricos de Lisboa. Lisboa: ISA Press [e-book, in press]


Sociedade Nacional de Belas Artes por Jaime Silva*

Ia escorregando nas flores dos jacarandás que, a poucos metros de distância da sua larga porta de entrada, juncavam o passeio da Barata Salgueiro.

Admiro a sua versatilidade, a sua boa disposição e ironia. A subtileza com que enquadra os diferentes trabalhos que, como que por milagre, encontram o seu sítio sem qualquer conflito com os demais.

Pensei : então é aqui! Passado? Presente? Subi um degrau e penetrei no vetusto átrio. Impressionou-me a sua sobriedade. Pela presença de uma cópia da Vénus de Milo (em gesso, naturalmente) e que conferia a esse espaço interior uma qualidade especial e se tornara (soube depois) a presença tutelar da Instituição. Não adivinhava então a ligação que viria a manter com esta Casa. Anos depois, percorro sozinho os seus espaços e sinto nostalgia de ouvir as vozes do senhor Arménio - uma criança grande - do senhor Manuel, do senhor João, do senhor Jaime, do senhor António, da Maria Fernanda, de todos – e de tantos outros que integraram as Direcções presididas pelo Pintor Fernando de Azevedo (a uma das quais tive a honra de pertencer).

A recordação do passado mesmo recente, influi na leitura dos momentos que agora vivenciamos? Inclino-me a julgar que sim! Mas entretanto está em curso uma revolução digital. O mundo ao qual atribuímos a qualidade da mudança, tem de ser entendido de outro modo. Instabilidade e alternância de paradigmas, portanto! É com certeza necessário ponderar as circunstâncias que exigem a definição de uma ética do presente e prever (na medida do possível) o próximo futuro! Com a parca autoridade que me é concedida pela vivência em pleno da Instituição Sociedade Nacional de Belas-Artes, ouso afirmar que o futuro da Casa passa necessariamente pelas suas actividades no presente.

A SNBA Foi desenvolvido um enorme esforço para criar no País uma Instituição que representasse condignamente os “artistas plásticos”, que desse visibilidade às suas mais que estimáveis qualidades e que veio a albergar e dar a conhecer artistas como Silva Porto, José Malhoa, Simões de Almeida, Columbano, António Ramalho, Rafael Bordalo Pinheiro, Carlos Relvas, D. Carlos, entre tantos outros. Saio de casa, estugo o passo pois chove abundantemente, subo a Avenida da Liberdade, mal reparo nas montras - está frio, junto ao Tivoli uma mulher vende castanha assada, compro algumas e como duas ou três. Guardo o resto embrulhado em papel de jornal.

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Vou a caminho, espera-me uma montagem de uma exposição integrada por 50 artistas convidados, e que será orientada pelo Pintor Fernando de Azevedo.

Redefinição de encargos financeiros, sustentabilidade, independência perante qualquer poder, abertura ao Outro (com letra grande e tudo) para se não supor que se trata meramente dos seus associados, mas de uma visão global. A actividade recente da Casa, demonstra à sociedade a sua atenção ao que pode ser importante no contexto artístico português e mesmo internacional, e estou certo que o futuro próximo assim o continuará a demonstrar.

Caxias, 29 de Novembro de 2018

(Vice-Presidente da Direção) *pintor


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Compromissos que se transformam em tradições

Residência Faria Mantero

por José Diogo dos Santos

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Santa Casa da Misericórdia de Lisboa


O contacto e o conhecimento da atividade, da missão e da obra da Misericórdia de Lisboa levam muitas pessoas a escolhê-la como herdeira. E há mais de 500 anos que o fazem. As pessoas tomam esta decisão porque querem ter a certeza de que os seus bens serão mantidos e que continuarão a ser úteis a alguém. As pessoas decidem deixar, ainda em vida ou após o seu falecimento, parte ou totalidade, dos seus bens, pois sabem que a Santa Casa é uma instituição credível, com carácter perpétuo. Muitas destas pessoas são sós, sem família. Outras procuram a instituição fundada pela Rainha Dona Leonor e manifestam vontade em deixar os seus bens, como forma de agradecimento por todo o apoio que receberam da SCML em momentos difíceis das suas vidas. A generosidade dos beneméritos materializa-se num dos lemas da instituição: receber para dar em troca. O que faz, então, a Santa Casa com todo o vasto património que detém? Coloca-o ao serviço de causas que estão na sua génese, ou seja, destina-o a equipamentos hospitalares, lares, centros de dia ou residências de acolhimento para jovens e de vítimas de violência doméstica, por exemplo. E há também uma parte que é destinada ao arrendamento, cuja receita reverte para as causas sociais da SCML. A preocupação dos doadores em ver os seus bens ao serviço dos outros faz com que alguns indiquem a utilização que pretendem que se lhes dê. Mantero Belard, por exemplo, deixou uma casa no Restelo e estipulou que apenas pode ser usada como lar de idosos para artistas. Carolina Picalusa de Andrade legou o seu palacete (localizado em pleno Bairro Alto e onde está instalado o Centro Social de São Boaventura) para que fosse usado como centro de recolhimento para raparigas. Deixou ainda um outro pedido: o quarto da sua filha (que morreu de tuberculose aos 22 anos), conhecido como “quarto da menina”, teria de ser preservado tal como se encontrava.

Cada processo é único. Por detrás de cada Benemerência existe uma pessoa, uma história, uma vontade. Os processos são cumpridos com rigor, cumprindo e respeitando sempre a vontade dos Beneméritos da Misericórdia de Lisboa.

Jazigos e Mausoléu Em 1903, a administração da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa decidiu mandar construir um Mausoléu com o propósito de homenagear a memória dos nossos Benfeitores. O arquiteto Adães Bermudes foi encarregue de traçar o projeto. Os trabalhos de construção terminaram em 1909. O monumento fica situado na zona de entrada do cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Impressiona qualquer um pela elegância das suas formas e pela qualidade do trabalho da pedra. Adães Bermudes planeou um mausoléu amplo, com planta cruciforme em cruz grega. Tem sido tradição, no dia 2 de Novembro, dia de Fiéis Defuntos, colocar uma coroa de flores pelos Beneméritos da SCML no Mausoléu. Trata-se de um gesto simbólico, mas revelador da importância que os Beneméritos assumem na história da Santa Casa. Compreender os beneméritos no seio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa exige percorrer a história da instituição, desde a sua fundação, até aos dias de hoje. Debaixo do manto da generosidade e altruísmo dos benfeitores da Misericórdia de Lisboa, há a certeza no escrupuloso cumprimento da sua vontade, contribuindo em grande medida para a prossecução da missão de boas causas da instituição.

Jazigo dos Beneméritos

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Receber heranças e doações é uma rotina com séculos na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). O serviço de Benemerências é um dos mais antigos desta secular Instituição, pois existe desde a sua remota fundação, em 1498. Está inserido no Departamento de Gestão Imobiliária e Património da Santa Casa, e podemos dizer que, da totalidade do património imobiliário da SCML, 94% chegou à sua posse por via das Benemerências, ou seja, por via das heranças, legados e doações.


Saturnalia:

a celebração do Natal e da

herança romana no Museu de Lisboa

Teatro Romano por Carolina Grilo*

Relata Lúcio Júnio Moderato, Columela, na sua obra De Re rustica, (III.14), que, no início de dezembro deve o agricultor terminar o seu plantio de Outono. Esta passagem, retirada do seu tratado de agronomia e escrita em meados do século I d.C., expressa o final de um ciclo agrícola de prosperidade e abundância, a aproximação do solstício de inverno e, simultaneamente, o início de um novo momento marcado pelas festividades da Saturnalia. Neste final de ano, associado ao início do inverno e ao ciclo das festividades natalícias procuramos dar a conhecer no Museu de Lisboa –Teatro Romano, um dos mais conhecidos e celebrados festivais de época romana e saber como este encontra ecos no mundo contemporâneo. É curioso que, sendo a Saturnalia um dos mais célebres festivais do mundo romano saibamos tão pouco acerca do mesmo. O conhecimento atual de que dispomos sobre esta festividade resulta essencialmente do texto de Macróbio, intitulado Saturnalia, escrito quase três séculos após o início das celebrações, além de outras referências nos textos antigos que se referem maioritariamente aos diferentes ritos, tradições e usos que decorriam neste período festivo, e que, congregados numa análise global, permitem aferir a sua importância e dimensão ideológica. Não dispomos atualmente de nenhum documento que tenha sobrevivido e que descreva completamente as diferentes dimensões da Saturnalia.

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Mas o que era afinal a Saturnalia?

Celebrada em honra de Saturno, uma das divindades primordiais do panteão romano, deus do tempo e do calendário, a Saturnalia, terá sido originalmente um festival agrícola, relacionado com o fim do ciclo das colheitas, um período de abundância e plenitude, no qual se ofereciam presentes ou sacrifícios aos deuses. Originalmente um único dia do calendário romano - 17 de dezembro - a dimensão religiosa e social que esta festa assumiu desde os finais da República e ao longo de todo o período do Império ditou a sua extensão até 23 de dezembro, agregando e incorporando outros festivais cujas características e tradições foram integradas nas suas festividades, como a Opalia, celebrada a 23 de dezembro, festa de Ops, consorte de Saturno e deusa da abundância e dos frutos da terra. Em época de Augusto, as festividades foram limitadas a três dias, uma vez que se desenvolviam em diversos planos, criando obstáculos à ordem e convenções religiosas, jurídicas e administrativas. Como dia sagrado, as atividades comerciais, as escolas e as coortes estavam fechadas. Macróbio indica mesmo que os tribunais, encerrados durante as celebrações, não podiam fechar mais do que o estritamente necessário (Saturnalia, I.10.4). Certo é que as festividades continuaram a desenvolverse ao longo de diversos dias, incluindo também a Sigillaria, evento assim designado pelo costume de ofertar pequenas figuras ou estatuetas de barro e terracota (sigillaria), que eram então vendidas (I.10.24).


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Fig. 1 - Baixo relevo de Marco Aurélio prestando sacrifício no templo de Júpiter. Museu Capitolino, Roma.


O Templo de Saturno, localizado no Monte Capitolino, em Roma, um dos mais antigos templos da zona do forum, era ornamentado e aí eram executados diferentes rituais religiosos para simbolizar a libertação do deus (Fig. 1). Entre as festividades incluía-se a eleição de um saturnalicius princeps e após o sacrifício no templo era realizado um banquete público (lectisternium) que, de acordo com Tito Lívio, ter-se-á iniciado por volta dos finais do século II a.C.: “Por um dia e uma noite o grito dos Saturnalia ressoou pela cidade e o povo foi ordenado a fazer daquele dia uma festa e a observar como tal para sempre” (História de Roma, XXII.1.19). No final do primeiro século d.C., o poeta Publius Papinius Salvius, fascinado pela festa de Saturno de Domiciano, escrevia: “Quem pode cantar do espetáculo, a alegria desenfreada, o banquete, os sumptuosos regatos de vinho? Ah! Agora eu desmaio, e bêbado com tua bebida, me arraso finalmente para dormir. Por quantos anos esta festa irá durar! Nunca a idade destruirá um dia tão santo!” (Silvae, I.6.98ff). Esta dimensão religiosa e social tinha também repercussões no seio da vida familiar, onde a Saturnalia detinha igualmente honras de grande festival, através da celebração da família e da realização de visitas aos entes queridos. Segundo o poeta Catulo, a Saturnalia era “o mais opulento dos dias” (Carmina, 14.15). É também no seu poema que encontramos o costume melhor documentado dos dias das Saturnais: o de trocar presentes – as já mencionadas figurinhas de cera ou sigillaria e as cerei, pequenas velas de cera, identificadas com a luz e a verdade.

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Durante a Saturnalia o jogo, um elemento tido como de libertinagem e desvio social, era permitido em público. Era igualmente consentida uma maior liberdade relativamente a alguns costumes e indumentarias. A toga era trocada por um modelo mais colorido e informal (synthesis), os homens usavam um barrete cónico (pilleus) e aos escravos permitia-se uma maior informalidade para com os seus senhores. Além dos textos, também a arqueologia nos remete para uma perspetiva sobre alguns costumes e rituais da Saturnalia, através de representações de jogos como as pinturas murais da villa de Mercúrio em Pompeia (Fig. 2), ou do sarcófago do Museu Britânico, onde subsistem representações de crianças jogando com nozes. No fortim de Vindolanda, Inglaterra, conhecemos inclusivamente um texto dos finais do século I ou inícios do

século II d.C. gravado numa placa de madeira (Fig.3), reportando um pedido de um escravo, Severus, para outro, Candidus, referindo-se a um pagamento pelos preparativos para o festival da Saturnalia (Bowman et al., 1994). Este será, muito provavelmente, um dos aspetos mais significativos da Saturnalia, uma época de festa e onde as restrições sociais eram invertidas, permitindo-se aos escravos uma liberdade das convenções sociais sem precedentes em qualquer outro ritual familiar ou religioso. Este cariz, de certa forma transgressor, funcionava simultaneamente como um alívio de tensões sociais na vida familiar e como uma forma de consolidação de normas, condutas sociais e de crenças nos lares mais jovens (Dolansky, 2011), perpetuadas ou passadas de geração em geração. Mas, sendo um período de festa, seria também um período de excessos, razão pela qual alguns imperadores tentaram regular os dias desta celebração, que, como nos relata Macróbio, continuou ao longo de uma semana, incorporando datas e festividades inicialmente distintas. Séneca queixava-se que “toda a multidão se deixou levar pelos prazeres” nos dias da Saturnalia (Epístolas, XVIII.3). Plínio, o Jovem escreve que se retirava para o seu espaço enquanto o resto da casa celebrava (Epístolas, II.17.24). Como época de festividades e sociabilidade, e aproveitando a atenção dedicada às festividades que então se desenrolavam, foi também durante a Saturnalia, que tiveram lugar alguns dos episódios históricos mais marcantes da antiga Roma. Segundo Cícero (A Terceira Oração Contra Catilina, X), a famosa Conspiração de Catilina na qual se pretendia matar o Senado, estava planeada para ter lugar durante a Saturnalia, quando a população estivesse envolvida nas celebrações. O assassinato de Públio Sétimo Geta por Caracala (seu irmão) em 211, ocorreu também durante as festas Saturnais (Dio, LXXVIII.2.1).


Fig. 2 – Pintura mural representado uma cena de jogo dos dados. Pompeia. Osteria della via de Mercurio, Pompeia, séc. I d.C.

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Fig. 3 – Tab. Vindol. II 301.


Sol Invictus É igualmente Macróbio que nos indica que este era um festival de luz que antecedia o solstício de inverno – no qual se recorria de forma abundante à presença de velas de cera ou cerei, que simbolizavam o conhecimento e a verdade, elementos de esperança para muitos nos dias sombrios do inverno. O solstício de inverno era celebrado no dia 25 de dezembro como os Dies Natalis ou Sol Invictus, data associada ao nascimento do deus Mitra, deus do céu e da luz que será, a partir do século III, com o imperador Aureliano, transformado num culto oficial - o culto do Sol Invicto - de extrema importância até à conversão do Império ao cristianismo, e que permanecerá enraizado nas representações imperiais como um símbolo do poder mesmo após a introdução da nova religião (Fig. 4). Esta associação entre as festas Saturnais e o Sol Invictus terá, de certo modo, contribuído para a crença generalizada numa herança direta entre as antigas festividades do Império Romano e o Natal, a data marcante da nova religião cristã, que a partir do seculo III se imporá como religião oficial.

Fig. 4 – Disco em prata dedicado ao deus Sol, aqui representado coroado por raios e dois cavalos que surgem por detrás dos seus ombros. Séc. III d.C. British Museum.

Saturnalia e Natal – Herança ou tradição?

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No mundo atual tem-se considerado que a Saturnalia está na génese do Natal cristão, que reconverteu práticas e normas pagãs nos ritos associados ao mundo cristão. São, contudo, festividades com origens diferentes e dimensões sociais e religiosas distintas. Na verdade, o Natal e a Saturnalia podem ser vizinhos históricos e possuir algumas conexões indiretas, mas não são, de facto, a mesma festividade. Desde logo, porque a data de celebração da Saturnalia, originalmente uma festa de

final de outono, gradualmente se estendeu e alargou a outras celebrações, ao longo do Império, incorporando outros festivais como a Opalia, a Sigillaria e as festividades do Sol Invictus. Em segundo lugar, porque a data em que tradicionalmente celebramos o Natal, 25 de dezembro, apenas viria a ser associada ao nascimento de Jesus várias centenas de anos depois, no reinado de Constantino, já em pleno século IV d.C. Até então, não existia consenso sobre a data de nascimento de Jesus, um elemento de menor importância para os primeiros cristãos que consideravam a Páscoa a principal data do calendário religioso. A nova religião cristã, numa tentativa de conciliar a estabilidade religiosa, irá tomar como suas algumas práticas ancestrais, desvanecendo-as e incorporando-as como parte do seu rito, permitindo que estas continuem sob um novo regime religioso. Será neste sentido que devemos interpretar a continuação de algumas práticas da traditio romana como as reuniões familiares, a oferta de presentes, a tradição da celebração das velas ou a manutenção do jogo, proibido em outros dias, mas permitido durante o Natal, contribuindo desta forma para a crença generalizada de que estas festividades são herdeiras uma da outra, numa perpetuação de práticas e usos comuns. Centrando-nos no próprio conceito desta traditio romana, um ato de passagem ou entrega, sobressai um elemento comum ao significado etimológico do próprio conceito de tradição, sistematizado em diferentes fontes e por diferentes autores como uma “a passagem de um conjunto de dados culturais de um antecedente a um consequente” (Romano, 1997, p. 166), podendo estes ser grupos familiares, gerações, classes ou mesmo sociedades que perfilham valores culturais e identitários semelhantes. Apesar de partilharem algumas práticas e ritos em comum, o Natal e a Saturnalia reportam assim a conceitos muito distintos e por isso a Saturnalia perdurou ainda por algum tempo e encontrou alguma resistência por parte das autoridades da igreja romana, que reclamavam o facto de algumas pessoas ainda celebrarem costumes antigos associados ao culto do deus Saturno. Como herdeiro de uma tradição antiga, o Museu de Lisboa – Teatro Romano tem como missão proporcionar e reintroduzir alguns dos temas da cultura romana, através da sua divulgação e fruição pública. Desde a reabertura do museu em setembro


de 2015, que se promovem iniciativas relacionadas com a temática da cultura latina. Todos os meses, na última quinta-feira do mês, ocorre a Hora de Baco, um momento musical e de convívio, com degustação de vinhos, em que o museu abre as portas aos visitantes de forma livre e descontraída, procurando recuperar uma das funções dos espaços em redor dos antigos teatros romanos, como locais de comunhão e convívio. Em julho, na área arqueológica do Museu de Lisboa – Teatro Romano decorre o Festival de Teatro Clássico, em que são levadas à cena produções teatrais que visam devolver ao teatro romano a sua função principal – de espaço cénico e palco privilegiado da divulgação da cultura clássica. Finalmente, em dezembro, celebramos no Museu de Lisboa - Teatro Romano as festividades deste mês através da Árvore da Saturnalia, uma instalação artística de Gabriela Albergaria concebida especificamente para este espaço e materializada através de uma árvore intemporal, que constitui uma celebração à fertilidade da natureza. A partir desta árvore, várias atividades se desenrolam, retomando o costume a tradição romana de ornamentar as árvores com as figuras de barro – as sigillaria. Este ano, o museu propõe a colocação da árvore no sítio arqueológico e o desenvolvimento de atividades enquadradas na temática da Saturnalia, em parceria com o Serviço Educativo do Museu de Lisboa e com o Circo Matemático/Associação Ludus.

Bibliografia: AGNOLON, A. (2013) - A Festa de Saturno. Xênia e o Apoforeta de Martial. São Paulo: Universidade de São Paulo.

*Arqueóloga. Técnica Superior de Museologia e Património. Museu de Lisboa – Teatro Romano (EGEAC – CML)

BOWMAN, A.; THOMAS, J.; DAVID, J. (1994) - The Vindolanda Writing Tablets (Tabulae Vindolandenses II), II, London: BMP. DOLANSKY, F. (2011) - “Celebrating the Saturnalia: Religious Ritual and Roman Domestic Life”, in RAWSON, B., A Companion to Families in the Greek and Roman Worlds, Blackwell Companions to the Ancient World, Hoboken, New Jersey: WileyBlackwell. ROMANO, R. (1997) - Vida/Morte-TradiçõesGerações. In Enciclopédia Einaudi, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Vol. 36, p.166-197.

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Museu de Lisboa – Teatro Romano Rua de São Mamede, 3ª 1100 – 532 Lisboa teatroromano@museudelisboa.pt www.museudelisboa.pt


Pedra, palavra de uso vulgar Pedras e rochas são a mesma coisa? – Pergunta quem não sabe e tem gosto em saber. Praticamente, a resposta é sim. Apanhamos uma pedra do chão, mas, quando estudamos, falamos quase sempre de rochas. Num modo simples de falar, podemos dizer que as pedras são bocados de rocha. Não são feitas pelas pessoas ou, dizendo de outra maneira, são objectos naturais. Não se amolgam nem se dobram e, por isso, dizemos que são rígidas; geralmente não se esboroam nem se esfarelam, podendo assim dizer-se que são coesas; e fazem mossa, onde quer que batam, porque são duras. E são feitas de minerais, entendendo, por mineral, todo o elemento ou composto químico, geralmente cristalino, gerado por um processo geológico. Pedra chegou-nos, do grego, petrós, através do latim, petra, que traduz a ideia de uma entidade natural, rígida, coesa e dura, a que também chamamos rocha. Rocha veio do francês roche que, entre nós, acabou por substituir o nosso termo roca, bem mais antigo, talvez anterior à presença aqui dos romanos e que, entretanto, caiu no esquecimento. Mas ainda usamos este termo, por exemplo na expressão Cabo da Roca, ou na composição da palavra “enrocamento”, com que se designa o acto de proteger com blocos de rocha certos pontos da linha de costa face à acção erosiva das vagas. Na forma portuguesa ou na da sua raiz latina, a palavra pedra tem grande utilização no nosso vocabulário.

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Petra é a antiga cidade da Jordânia, repleta de monumentais ruínas escavadas na rocha, e petróleo é o óleo saído do chão, de dentro das pedras, assim como o carvão-de-pedra é o que se extrai das entranhas da Terra, como se de pedra se tratasse. Petrologia é a ciência que estuda as rochas e petrólogos os seus cultores. Petrificados ficamos quando uma notícia nos gela o sangue e nos imobiliza. Petrificados estão os fósseis, ou seja, os restos dos seres vivos do passado que chegaram até nós transformados em pedra. Pedrada, pedregulho, pedra de moinho, pedra de afiar ou de amolar, pedra-de-armas, pedra preciosa, pedra lascada e pedra

por Galopim de Carvalho

polida, Idade da Pedra, pedra-mármore, pedra-pomes, pedra-ume, pedra-sabão, chuva-de-pedra, pedrinha de sal, pedra argueireira, pedra no sapato, coração de pedra são expressões que caracterizam o conceito empírico que todos temos de pedra como rocha. De pedra eram a ardósia e o lápis em que esboçámos as primeiras letras, sendo curioso assinalar que lápis, do latim lapis, também quer dizer pedra. Empedernido diz-se daquele que é insensível como a pedra e pedernal ou pederneira é o sílex, que os nossos avós usavam nos bacamartes, ou que os tetravós destes lascavam, fazendo machados, facas e pontas de seta. Pedra angular quer dizer fundamento, base ou suporte. Pedro, nome de gente, vem de pedra. «Tu és Pedro e sobre ti levantarei a minha Igreja» disse Jesus ao discípulo. São Petersburgo é o nome da antiga Petrogrado, na Rússia, em homenagem a Pedro, o Grande, e Petrópolis é a cidade brasileira assim chamada em memória do seu primeiro imperador, D. Pedro II de Portugal. Pedra filosofal ou da sabedoria, que em árabe se diz, al kimia, foi o lema de um saber notável durante a Idade Média, nem sempre devidamente valorizado, onde radicam ciências como a Química e a Mineralogia. Pedrógão, Alter Pedroso, Pedrouços e Pedrulha são topónimos relacionados com pedras. Aumentativo de pedra, pedrão deu padrão, o marco que os nossos navegadores deixaram na rota dos descobrimentos. Pêro é o nome arcaico de Pedro e Peres são os seus descendentes. Pêro Vaz de Caminha e Pêro da Covilhã são nomes conhecidos da nossa história e Pêro Botelho é o Diabo que não pára de rugir na caldeira que tem o seu nome, no sítio das Furnas, na ilha açoriana de S. Miguel. Peroliva, Peramanca e Perafita são nomes de sítios do Alentejo que evocam grandes marcos de pedra, através do prefixo pera, que traduz a mesma ideia. Tais pedras ou eram verdes (oliva) ou estavam mancas, isto é, tombadas, ou ainda se mantinham fitas, maneira antiga de dizer erguidas, na postura fálica em que as colocavam os nossos antepassados do período megalítico e que os pré-historiadores franceses divulgaram sob o nome de menhires, mantendo a expressão original bretã, men hir, que significa pedra comprida.


EDUCAR. APRENDER. DESAFIAR. ACTIVIDADES CRIATIVAS PARA ALUNOS E PROFESSORES. DISPONÍVEL NOS EQUIPAMENTOS CULTURAIS MUNICIPAIS. www.egeac.pt www.agendalx.pt

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MAIS INFORMAÇÃO


Memórias Habitadas Lousã, 29 de Setembro de 2018 Organização: Câmara Municipal da Lousã em colaboração com o Instituto Pedro Nunes e a Universidade de Coimbra, através do Mestrado em Reabilitação de Edifícios, no âmbito das Jornadas Europeias do Património 2018 “Partilhar Memórias”. Henriqueta Oliveira | Vereadora da Câmara Municipal da Lousã

O Ponto de Partida

O regresso «Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira vez na sua cama. Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças, cidades, estações do ano. E come agora por fim um pão primeiro sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.»

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Manuel António Pina


Assim partimos neste “regresso”, numa tarde de setembro, sob o mote das Jornadas Europeias do Património, “Partilhar Memórias”, numa caminhada no sentido da (re)descoberta do núcleo urbano antigo da Lousã, à qual chamámos “Memórias Habitadas”.

O desafio a que nos lançámos para iniciar este projeto, prontamente acolhido pela equipa do Mestrado de Reabilitação de Edifícios da Universidade de Coimbra, e Projeto Património, do Instituto Pedro Nunes, já nossos parceiros em trabalhos anteriores, desenhou-se, desde logo, como um movimento do olhar. Olhar de fora para dentro, com o objetivo de caracterizar um conjunto de edifícios singulares no núcleo antigo da Lousã, captar a atenção dos participantes para o reconhecimento do seu valor e, ainda, convocar, acolher e integrar as várias sensibilidades para o domínio da reabilitação de edifícios e a sua importância. Como são as casas, de que são feitas, como se abrem – ou fecham - para a luz da rua. Como se protegem, como se preservam, o que nos contam do tempo que as viu erguerem-se, do tempo que as faz presente.

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Olhar de dentro para fora, partilhando as memórias que nos habitam dos espaços que habitamos. Quem se acolheu nestas casas, para que serviram, como serviram quem as habitou, como se adaptaram ao tempo e aos tempos, que sonhos albergaram, que vidas deram vida à Vila, à sua identidade, à sua História.


O Ponto de Encontro

Foi nesta multiplicidade de olhares que nos encontrámos. Éramos setenta, entre residentes e visitantes, alunos, técnicos, docentes. Trinta os edifícios selecionados, do cimo ao fundo da Vila da Lousã. Quinze os grupos que organizámos. Uma sacola a tiracolo, mapa, fichas de levantamento das características exteriores dos edifícios, máquinas fotográficas, lápis, papel e alguns desafios à nossa memória visual: que detalhes reconhecemos do espaço que habitamos, será esta mansarda na Lousã? E aquele beiral, a que casa pertence? Este friso de azulejos, onde fica?... Mais do que um levantamento das características dos edifícios a analisar, pretendeu-se que esta atividade cultural constituísse um primeiro passo para o conhecimento e reconhecimento das características e valores do património urbano corrente, o que tem um papel fundamental na sua salvaguarda e valorização.

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O empenho na preservação dos valores identitários do núcleo edificado mais antigo, enquanto parte integrante do núcleo urbano, terá que começar pela sua identificação, reconhecimento e apropriação por parte das populações, conferindo-lhe valor, significado, vida.

Para este processo de descoberta há que educar e despertar tanto o olhar como a sensibilidade, quer da comunidade técnica, quer da comunidade em geral, cuja colaboração é fundamental para uma correta intervenção nestes espaços. Valorizar para preservar. Valorizar para intervir. Valorizar para recriar. Valorizar para aproximar. Compreender para valorizar. A importância das memórias na compreensão do local, da dinâmica urbana, dos edifícios e das sensibilidades de quem os habita é central neste processo de compreender e valorizar o que nos rodeia. Por isso, a voz da memória foi também ponto de encontro. Não só do “cadastro” que foi feito dos trinta edifícios (re)visitados (aquele foi leitaria; a outra tipografia…), mas de memórias outras, que vieram ao nosso encontro, saídas das casas e das ruas, numa partilha de testemunhos de diferentes gerações e vivências da Vila da Lousã. Memórias Habitadas. Ponto de partida para novos pontos de encontro, para novos regressos, para novos pontos de partida.


As memórias que nos habitam dos espaços que habitamos

“Não é tarefa fácil, como me é solicitado, evocar com sobriedade e sem natural emoção, o mágico e pitoresco Largo da Travessa, mais tarde Largo da República, de há muitas décadas, onde nasci e me criei. Na altura o local da vila com mais vida social, movimento e população. Faço destaque para um enorme e elegante prédio de dois andares, de meu tio Abel Batista, com extensa loja de várias portas, com boa traça e com boa construção. Outra loja fronteira, espaçosa e bem sortida Bernardino Lopes Padilha, que se tornaria importante empresário de sucesso na área da energia elétrica. Chegou a ter um vagão de caminho de ferro, com o seu nome, a circular no País. Logo mais acima, outra bem apresentada, de Virgílio Ribeiro dos Santos. Mais ao lado, a antiga Rua de São João, por onde desciam os populares vindos da serra e particularmente nos dias de mercado na Praça, outrora aos domingos. Para ela dava a loja movimentada e bem sortida de Adelino Pinto Erse, conhecido por Barriguinha. Nela pontificavam o meu afilhado e empregado Fernando, que se dedicava com saber às bicicletas, que negociava e conduzia com rara perícia. Mais abaixo, uma boa casa, dotada de espessas grades de ferro nas janelas de casa do caseiro do Palácio, na altura, figura com algum destaque, João Vidal, que deixou descendência.”

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Testemunho de António Jorge Padilha Simões Lopes


“A memória que habita em mim sobre o espaço que habitei Pediram-me dois parágrafos sobre este tema. Um já está, o outro logo virá. Dos muitos que habitei apraz-me escrever sobre aquele em que passei um terço da minha vida, mais coisa menos coisa. Um dos prédios mais bonitos do que era então o centro da vila da Lousã em 1975. Situa-se a porta de entrada em frente à saudosa Havanesa de que era cliente assíduo. Não posso dizer que faz esquina entre a Rua do Comércio e a que nos leva às antigas alcatifas da Lousã porque a fachada é redonda. Quando o olho, talvez por defeito de profissão, faz-me lembrar uma pintura onde o melhor é a moldura que a envolve. Habitava eu as águas furtadas, o sótão, tal como na canção quase tinha de pedir licença para entrar nas suas divisões onde o espaço onde poderia estar de pé era ocupado pela mobília. Tirando o extenso e alto corredor tinha duas opções: Deitado ou sentado. Ficou-me tão enraizado que ainda hoje só assim me sinto bem. Dizem que as casas antigas possuem alma… esta tinha vida! Em especial quando ventava. Tudo abanava, até a cama onde por vezes se aproveitava o embalo… recordo as três pequenas claraboias que iluminavam sala, cozinha e WC. Esta última, a melhor e maior divisão da casa. Lá sentia-me rei. O vaso sanitário assim como o bidé estavam colocados num espaço superior em relação ao piso aí uns 30 cm. Parecia um trono. Era aí que eu ditava as minhas sentenças duas ou três vezes ao dia, sem hora marcada para as audiências. Ainda hoje poria com igual rigor, alguidares, baldes e panelas, nos sítios certos para apanhar as goteiras da chuva sob as claraboias que atava com arame em dias de vento. Mas tinha vaidade na casa. Tanto que a pintava duas vezes por ano. Uma depois do verão por via das manchas das melgas que me entretinha a esborrachar e outra depois do inverno para tapar as do bolor devido à humidade. Há coisas que marcam as nossas vidas e até o corpo, tal como aquela maldita escada onde escorreguei duas vezes e dei cabo das costas. Se tenho lembranças boas? Tenho. Mas isso dava um texto com muitos parágrafos e um romance em vários volumes…”

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Testemunho de José Eliseu


“Esta é a casa onde cresci. “Cuidado com o cão”. A Casa da Quinta da Saudade, é o que dizem as cartas que vinham endereçadas aos antigos habitantes. A casa com a Buganvilia, no Verão. A casa da cerejeira, cerejas essas são quase todas para os pássaros, que nós só chegamos aos ramos mais baixos. É a casa onde corri e percorri os labirintos de arbustos, onde saltei para chegar às cerejas, onde nadei e cresci. Lá em cima, o escritório da minha mãe. A luz acesa ao fim do dia significa que ainda está a trabalhar. A sala com vista para a rua é a sala de jantar, mas só para jantar com visitas. A entrada principal, a porta azul, não é de entrar. Essa é a da cozinha. Mas isso todos sabem. E a janela da salinha, a janela do quarto dos pais, a janela da sala de estudo. Quando olho para esta casa, é tudo isto que vejo.”

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Testemunho de Daniel Lucas Brink Carvalho


Há sempre um instante “zero” … por Raimundo Mendes da Silva

Há sempre um momento de paragem quando algo de bom sucede nas nossas vidas, quando descobrimos algo verdadeiramente novo ou quando redescobrimos algo que há muito conhecíamos, mas que não nos arrebatava. Este momento é, de cada vez, o “instante zero”, é a origem do eixo do tempo. A partir daí tudo se passou antes ou se passou depois. Assim acontece com a (re)descoberta do património construído das nossas cidades que exige procura, diálogo e abertura para identificar e acolher cada um dos instantes “zero”, em que se tornam mais claras as tensões entre os seus vícios e perigos e as suas virtudes e desafios. Para alguns o património é passado, é nostalgia, é retrocesso, é limitação, é poder, é riqueza, é ostentação, é opressão, é de outros, é dos outros, é-nos alheio e indiferente às nossas vidas.

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Para outros, o património é identidade, é nosso, faz parte das nossas raízes, é um poderoso instrumento de diálogo,

de aproximação, de criação de laços e de construção da paz, é oportunidade, é inspirador do futuro e da inovação. Importa afastar uma visão maniqueísta do património construído, em que tudo são virtudes ou defeitos, em que os bons e os maus se organizam militantemente em torno das primeiras e dos segundos, sem se ouvirem, usando (pre)conceitos gastos, longe da escala e da complexidade do problema, ou melhor, do desafio. A procura ativa de um instante “zero”, que ajude a clarificar opções, implica empenho, esforço, estudo, investigação, pedagogia e a vivência ou experiência própria e singular que permita a apropriação crítica desse património. Tenho tido, ao longo dos últimos anos, vários encontros singulares com o património, cuja força e dimensão, ainda que previamente sonhada, só mais tarde se tem revelado. Para os partilhar, de forma breve, escolho três títulos que comungam a ideia de escala, de esforço e de experiência singular.


Em abril de 2010 abriu-se o estaleiro pedagógico da intervenção de manutenção e restauro da Torre da Universidade de Coimbra. Durante seis meses, subimos e descemos os 180 degraus dos andaimes da Torre, várias vezes por dia, para experiências únicas e irrepetíveis na vida de qualquer geração que nos visitava. Não houve duas visitas iguais porque não há dois dias iguais numa intervenção deste tipo: hoje analisase o estado da pedra, amanhã retira-se a colonização biológica, depois reabrem-se as juntas e depois, ainda e sempre, outros trabalhos, outros cuidados, no meticuloso labor da extensa lista de técnicos e investigadores envolvidos (conservadores restauradores, historiadores, arqueólogos, engenheiros, arquitetos e muitos outros). Não sabemos quão longe chegaram os “instantes” destes 180 degraus e destes seis meses, mas cremos que ajudaram a abrir muitos caminhos de diálogo, de compreensão e de futuro.

920 milhas, 500 anos e um instante. Angra do Heroísmo fica a cerca de 920 milhas do continente e, cada vez que perscrutamos a sua história, encontramos peças extraordinárias do seu desígnio para definir rotas de diálogo, e também de confronto, desde há 500 anos, neste ponto central do Atlântico. É na Fortaleza de São João Baptista, no Monte Brasil, que encontramos inspiração para mais um “instante zero” de todos os que acompanharam as jornadas pedagógicocientíficas, realizadas em março de 2017, onde cerca de 60 voluntários com formações diversas construíram um corpo de conhecimento sobre a Fortaleza, aceitando o desafio de viver durante quatro dias na unidade militar aí instalada. A Fortaleza, que teve início em pequenas fortificações, desenvolvidas a partir de meados do século XVI, no reinado de D. Sebastião, a que se seguiu forte intervenção na época de Filipe II até 1640, evoluiu ao longo dos séculos até ao conflito de 1939-45, representando as diferentes épocas e filosofias da defesa militar e mantendo ainda a função castrense. Perceber a história como um fio contínuo e complexo, em que as sensibilidades oscilam, aproximando-se e afastando-se da forma como hoje encaramos o mundo construído e a vida, é, nesta fortaleza, o maior desafio. Atente-se, por exemplo, na distância entre a inteligência e a sustentabilidade da construção da muralha a partir da pedra extraída

para o fosso de proteção e a imprudência da retirada dos rebocos de proteção da pedra em meados do século XX, por motivos estéticos e ideológicos, quase como provocação à força do vento de todos os dias e dos céus de tempestade.

500 edifícios, um dia e um instante E neste baú de instantes “zero”, depois de descoberta a chave, os tesouros não faltam. Termino com Viseu, onde o projeto Viseu Património criou, não um, mas muitos destes momentos para todos os que viveram a experiência dos laboratórios de investigação sobre reabilitação, instalados no miolo do centro histórico, ou o fascínio da descoberta dos seus tabiques singulares e da indestrutibilidade do edifício do antigo Orfeão ou, ainda, os mistérios da casa das colunas. O instante mais singular é, todavia, claramente identificado no “Freeze – Viseu, um dia para conhecer e preservar” (numa alusão a um instantâneo fotográfico à escala da cidade) que, mais do que um evento técnico de identificação de soluções construtivas e avaliação sumária do estado de conservação dos edifícios, foi uma ação de educação para o olhar e um exercício coletivo de apropriação da cidade. Este evento foi, sobretudo, um instante “zero” para os mais de 150 voluntários que caracterizaram, num só dia, 500 edifícios, e (re) descobriram, neste centro histórico, o que sempre lá esteve, mas invisível porque igual aos demais detalhes para olhos ainda não treinados. Depois, já não consegue deixar de se ver: é como um padrão que se descobre, como um mapa que se descodifica, como uma música que se aprende e que passam a ser uma presença natural na nossa vida. Coimbra, Angra do Heroísmo e Viseu são os protagonistas desta crónica, mas pretendem representar e valorizar todas as experiências de voluntariado empenhado e crítico em torno do património construído e que importaria conhecer melhor. Para que o património construído não nos seja alheio é preciso aproximá-lo das pessoas e aproximar-lhe as pessoas. É um processo de diálogo e de conhecimento recíproco, com empatias e tensões, que exige trabalho e entusiasmo. Quando descobrimos a chave deste baú de instantes “zero”, o olhar fica mais desperto, o ouvido fica mais atento e a relação entre a cidade e os que a habitam fica mais intensa. Engenheiro Civil, Professor Associado da Universidade de Coimbra

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180 degraus, 6 meses e um instante


O Momento Presente do Passado por Vanessa Pires de Almeida

O passado é muitas vezes confundido com a tradição e a tradição com o passado. A tradição começa no passado, mas o passado permanece lá. Este pode ancorar a linha temporal que chega ao presente, mas nunca fará parte do presente sem a tradição. A tradição é o fio condutor da história, o legado, às gerações seguintes, de um passado que continua a viver, e que, de acordo com T. S. Eliot, “não pode ser herdada, e se alguém a deseja, deve conquistá-la através de um grande esforço” (1919: 38).

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A harmonia entre o antigo e o novo não advém da tentativa de incutir analogias estéticas ou conhecimentos da Arqueologia (a ciência da arte morta) à obra contemporânea, mas do entendimento das suas relações, de contraste e comparação. A tradição contém, por isto, um sentido histórico e um sentido crítico. O sentido histórico reside na descoberta da imortalidade que permeia a nossa contemporaneidade, “do atemporal quanto do temporal e do atemporal e do temporal reunidos” que “leva um homem a escrever não somente com a própria geração a que pertence em seus ossos, mas com um sentimento de que toda a literatura europeia desde Homero e, nela incluída, toda a literatura de seu próprio país têm uma existência simultânea e constituem uma ordem simultânea” (Eliot, 1919: 39), enquanto o sentido crítico se traduz na análise das criações do passado, na “lição que das realizações de todos os tempos se pode tirar e que leva a verificar a existência de uma constante que ressalta de toda a obra (de Arquitectura) do passado” (Pardal Monteiro, 1948: 34).

Segundo Pardal Monteiro, aquando da tese A tradição na Arquitectura, apresentada em 1948, no 1º Congresso Nacional de Arquitetura, a constante, na Arquitetura, concerne à permanente “luta das aspirações e dos ideais do arquitecto com os programas, com os materiais, com os meios de realização”, reiterando “que todos os seus problemas (…) foram resolvidos de modo a darem satisfação aos programas, a utilizarem os materiais sujeitos a formas compatíveis com a sua natureza e as possibilidades do seu aproveitamento conhecidas em cada época, a viverem em função de estruturas concordantes com esses materiais – nunca falseadas – e a corresponderem, pela sua expressão plástica, a ideias superiores que para cada civilização e dentro dos limites da capacidade humana de criação exprimem tão completamente, quanto possível, os ideais dos homens que as conceberam”. (1948: 33-34) O fio condutor da história, do espírito criador dos arquitetos de todas as épocas, permaneceu, sem interrupções, até ao século XIX, quando a formação dos arquitetos se desloca para as recém-criadas escolas, abandonando as obras ou as oficinas dos mestres, e onde a Arqueologia assume um papel preponderante. Com a Arqueologia e a História de Arte, com a história dos historiadores, a Arquitetura deixa de ser uma obra “sincera e de criação pura, para passar a ser erudita, científica, disciplinada segundo regras académicas de estética, formalista e fácil” (Pardal Monteiro, 1948: 38).


Desta feita, o retorno ao passado conduz os arquitetos “para a imitação, para a adaptação das formas aparentes, numa admiração e num culto quase estéticos, inconciliáveis muitas vezes com os programas, com os novos recursos técnicos que a indústria e a ciência aplicada começavam a pôr à disposição dos construtores” (Pardal Monteiro, 1948: 37). Contudo, o objeto de estudo da história dos historiadores não deixa de ser o ponto de partida para os arquitetos, um instrumento de trabalho indispensável ao entendimento crítico de todos os tempos, à construção da ideia de arquitetura, à reflexão sobre a razão da contemporaneidade e à tomada de consciência da dimensão da doutrina.

Transferir, para a contemporaneidade, particularidades como a métrica dos vidros de antigas caixilharias de madeira, a telha canudo, ou mesmo uma parede de alvenaria de pedra, sem a compreensão de como estes elementos se articulam com os sistemas construtivos ou com as exigências de desempenho, isto é, sem a compreensão do espírito criador que lhes deu existência, alimenta a infindável recorrência a meros fragmentos, a formas artísticas e a efeitos estéticos, outrora partes integrantes de um passado, num presente onde o “material da arte jamais é inteiramente o mesmo” (Eliot, 1919: 41).

“Vista do Templo Octogonal de Minerva Médica”, de Carmelo Baglivo* (uncube, 2014)

Bibliografia Eliot, T.S. (1919). Tradição e talento individual. In: Ensaios. Art Editora, São Paulo. (1989). Pp. 37-48. Pardal Monteiro, P. (1948). A Tradição na Arquitectura. In: Sindicato Nacional dos Arquitectos. 1º Congresso Nacional de Arquitectura. Lisboa. Pp. 33-41. uncube@(2014). Wilson, R. Collage capriccios. The drawings of Carmelo Baglivo. In: Uncube Magazine Blog. Blog Lens. (27 Agosto 2014).

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* Carmelo Baglivo é um arquiteto italiano, conhecido pelas suas colagens, aglutinadoras de ideias utópicas, filmes italianos do pós-guerra e referências contemporâneas, que reinventam a realidade através de novas imagens, numa ausente semântica, evidenciando a atual, e exaustiva, dependência na forma.


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Clรกssico

Cosmopolita

Alternativo

Hipster

Multicultural

LIS BO NAR O Nosso Guia de Lisboa

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Tradicional


Mapade

Lisboa COA

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ZR - Zona Ribeirinha AP- Alcântara | Pampulha COA - Campo de Ourique | Amoreiras SLM - Santos | Lapa | Madragoa PR - Príncipe Real BCS- Bica | Cais do Sodré BA - Bairro Alto AV - Avenida BC - Baixa Chiado CA - Castelo | Alfama GM- Graça | Mouraria AR - Almirante Reis BXM - Beato | Xabregas | Marvila FC - Fora do centro [115]

BCS


CLÁSSICO GAMBRINUS | AV RESTAURANTE

O clássico dos clássicos. A melhor barra e o melhor serviço de Lisboa, que nos faz sentir príncipes ainda que apenas comamos um prego e uns magníficos croquetes com mostarda da casa. Se lhe apetecer algo fora da carta, peça, quem sabe poderá ser surpreendido. Todos os dias das 12h00 à 1h30 Rua das Portas de Santo Antão, 23 1150-264 Lisboa N 38° 42’ 55.05’’ W 9° 8’ 23.27’’ +351 213 421 466 www.gambrinuslisboa.com

COELHO DA ROCHA | COA RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Rua Coelho da Rocha, 104 1350-079 Lisboa N 38° 42’ 59’’ W 9° 10’ 0’’ +351 213 900 855 www.facebook.com/restaurantecoelhodarocha

PASTELARIA BÉNARD | BC PASTELARIA

Segunda a Sábado das 8h00 às 23h00 Rua Garrett, 104 1200-205 Lisboa N 38° 42’ 38.59’’ W 9° 8’ 30.68’’ +351 213 473 133 www.facebook.com/PastelariaBenard

BAR SNOB | PR BAR

No Snob quase nada mudou. O bife continua bom e o cozido, às sextas, irrepreensível e o Sr. Albino cortês e atencioso como sempre. O quase é reservado ao famoso gelo à Snob, que era picado de grandes blocos e que deixou de existir para dar lugar ao gelo de máquina, mas nem esta pequena contrariedade retira vontade de nos perdermos noite fora em conversas bem regadas.

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Todos os dias das 16h00 às 03h00 Rua do Século, 178 1200-438 Lisboa N 38° 42’ 54.67’’ W 9° 8’ 51.41’’ +351 213 463 723 www.snobarestaurante.com

CASA PEREIRA | BC CASA DE CAFÉS

Segunda a Sábado das 9h30 às 18h30 Rua Garrett, 38 1200-028 Lisboa N 38° 42’ 39.25’’ W 9° 8’ 25.68’’ +351 213 426 694 www.facebook.com/casapereira

BAR PROCÓPIO | COA BAR

O mais antigo dos clássicos bares lisboetas voltou a estar na moda e ainda bem. Com o melhor barman da cidade, o Sr. Luís, sempre atento aos pormenores e um ambiente familiar, o bar de Alice Pinto Coelho por onde ainda é habitual passarem artistas das mais diversas áreas é o mais icónico da capital. Segunda a Sexta das 18h00 às 03h00 Sábado a partir das 21h00 Alto de S. Francisco, 21 A 1250-096 Lisboa N 38° 43’ 18.70’’ W 9° 9’ 18.60’’ +351 213 852 851 www.barprocopio.com

LUVARIA ULISSES | BC LOJA

Segunda a Sábado das 10h00 às 19h00 Rua do Cramo, 87-A 1200-093 Lisboa N 38° 42’ 44.50’’ W 9° 8’ 23.02’’ +351 213 420 295 info@luvariaulisses.com www.luvariaulisses.com

VELLAS DO LORETO | BCS LOJA

Segunda a Domingo das 9h00 às 19h00 Rua do Loreto, 53 1200-036 Lisboa N 38° 42’ 38.14” W 9° 8’ 41.77’’ +351 213 425 387 www.cazavellasloreto.com.pt

BRITISH BAR | BCS BAR

Segunda a Sábado das 12h00 às 04h00 Rua Bernardino Costa, 52 1200-053 Lisboa N 38° 42’ 24.91’’ W 9° 8’ 35.37’’ +351 213 422 367


PÁTEO 13 | CA RESTAURANTE

Sardinhas e muito mais, num restaurante que ocupa um delicioso larguinho de Alfama, onde locais e turistas convivem alegremente. Perfeito para as noites quentes de verão. Terça a Domingo das 11h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Calçadinha de Santo Estêvão, 13 1100-502 Lisboa N 38° 42’ 42.15’’ W 9° 7’ 39.90’’ +351 218 882 325 www.facebook.com/PATEO13

TABERNA DA RUA DAS FLORES | BCS RESTAURANTE

Um dos nossos restaurantes preferidos de Lisboa. Excelente comida, ambiente descontraído e um único e enorme problema…não aceitam reserva e está quase sempre cheio. Tente chegar cedo e deixar o nome antes da lista fechar. Vale mesmo a pena. Segunda a Sexta das 12h00 às 00h00 Sábado das 18h00 às 00h00 Rua das Flores, 103 1200-194 Lisboa N 38° 42’ 36.19’’ W 9° 8’ 36.99’’

CONSERVEIRA DE LISBOA | CA LOJA

Há uma pequena loja no Mercado da Ribeira, mas não é comparável à experíencia da loja original onde nos podemos perder no aconselhamento entre sardinha e cavalas, em limão ou tomate picante, todas dentro de embalagens tão deliciosamente vintage como é delicioso o seu conteúdo. Uma instituição. Segunda a Sábado das 9h00 às 19h00 Rua dos Bacalhoeiros, 34 1100-071 Lisboa N 38° 42’ 33.32’’ W 9° 8’ 4.99’’ +351 218 864 009 www.conserveiradelisboa.pt

GINJINHA SEM RIVAL | BC BAR

Todos os dias das 7h00 às 00h00 Rua das Portas de Santo Antão, 7 1150-268 Lisboa N 38° 42’ 54.31’’ W 9° 8’ 22.60’’ +351 213 468 231 www.facebook.com/GinjaSemRivaleEduardino

MANTEIGARIA SILVA | BC CHARCUTARIA

Segunda a Sábado das 9h00 às 19h30 Rua Dom Antão de Almada, 1 D 1100-197 Lisboa N 38° 42’ 50.93’’ W 9° 8’ 19.38’’ +351 213 424 905 www.manteigariasilva.pt

ALUNOS DE APOLO | COA DANÇAS DE SALÃO

Rua Silva Carvalho, 225 1250-250 Lisboa N 38° 43’ 13.63’’ W 9° 9’ 40.57’’ +351 213 885 366 www.alunosdeapolo.com

MESA DE FRADES | CA CASA DE FADOS

Segunda a Sábado das 20h00 às 2h30 Rua dos Remédios, 139 A 1100-445 Lisboa N 38° 42’ 46.90’’ W 9° 7’ 34.03’’ +351 917 029 436 www.facebook.com/mesadefradeslisboa

DAS FLORES | BCS RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 15h30 Rua das Flores, 76 1200-015 Lisboa N 34° 42’ 33.16” W 9° 8’ 36.64” +351 213 428 828

A VIDA PORTUGUESA | AR LOJA

Qualquer uma das lojas é um antro de bom gosto e perdição, mas a do Intendente é só uma das mais belas lojas de Lisboa. Tudo é português e ficaria sempre tão bem em nossa casa. Sabonetes Ach. Brito e Claus, faiança Bordallo, Cadernos Emílio Braga e tantos outros produtos ignorados durante anos até que esta maravilhosa loja os ressuscitou. Mais que uma loja isto é verdadeiro serviço público. Loja Chiado: Todos os dias das 10h30 às 19h30 Largo do Intendente Pina Manique, 23 1100-285 Lisboa N 38° 43’ 15’’ W 9° 8’ 5’’ +351 211 974 512 lojaintendente@avidaportuguesa.com

ROSA DA BICA | BCS RESTAURANTE

Segunda a Quinta das 10h00 às 00h00 Sexta a Sábado das 10h00 às 2h00 Domingo das 11h00 às 17h00 Rua dos Mastros, 23 1200-263 Lisboa N 38° 42’ 33.26” W 9° 9’ 8.30” +351 961 833 868 www.facebook.com/Rosa-Da-Bica

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TRADICIONAL


COSMOPOLITA LUX – FRÁGIL | ZR PAP’AÇORDA | BCS RESTAURANTE

Se as paredes da sua anterior localização no Bairro Alto falassem, ficaríamos a saber a história da Lisboa sofisticada dos últimos 30 anos. Agora no Mercado da Ribeira, continua a servir deliciosa comida portuguesa, sendo imperdíveis os fritos, que evitamos noutros lugares, em particular os peixes, sejam jaquinzinhos, ou sável acompanhado de açorda de ovas. Ainda é um lugar para ver e ser visto. Terça a Quarta das 12h00 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h00 às 2h00 Domingo das 12h00 às 00h00 Avenida 24 de Julho, 49 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 24.28’’ W 9° 8’ 45.79’’ +351 213 464 811 www.papacorda.com

GALERIAS DE SÃO BENTO | BCS LOJA

Rua de São Bento, 25-35 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 38.87’’ W 9° 9’ 9.59’’ +351 912 984 929 www.galeriasdesaobento.com

MINI BAR | BC RESTAURANTE

Segunda a Domingo das 19h00 às 02h00 Rua António Maria Cardoso, 58 1200-027 Lisboa N 38° 42’ 33.93’’ W 9° 8’ 32.69’’ + 351 211 305 393 www.minipabar.pt

COMPANHIA PORTUGUEZA DO CHÁ | BCS

Avenida Infante D. Henrique, Armazém A Cais da Pedra de Santa Apolónia 1950-376 Lisboa N 38° 44’ 48.62’’ W 9° 6’ 17.36’’ +351 218 820 890 www.luxfragil.com

BY THE WINE | BCS

RESTAURANTE/WINE BAR Com uma belíssima decoração, podemos aqui encontrar o portfolio da José Maria da Fonseca, o que abre belíssimas possibilidades, em especial se optarmos pelos moscatéis. A acompanhar temos tapas, como o delicioso queijo de Azeitão. Também pode jantar na mesa, mas na Bica preferimos a barra, com atendimento sempre simpático, ao final da tarde. Segunda das 18h00 às 00h00 Terça a Domingo das 12h00 às 00h00 Rua das Flores, 41-43 1200-014 Lisboa N 38° 42’ 32.56’’ W 9° 8’ 37.22’’ +351 213 420 319 www.jmf.pt

CINCO LOUNGE | PR BAR

Lisboa não tinha tradição de cocktails ou bares dos mesmos. Não tinha, até abrir o Cinco que lentamente conquistou a cidade e se tornou a referência cocketeleira. A dificuldade será escolher o que lhe apetece por entre a enorme lista. O melhor é pedir uma sugestão e deixar-se ir. Segunda a Domingo das 21h00 às 02h00 Rua Ruben A Leitão, 17 A 1200-392 Lisboa N 38° 42’ 51’’ W 9° 8’ 58.99’’ +352 914 668 242 www.cincolounge.com

INFAME | AR

BAR

RESTAURANTE/BAR

De repente Lisboa civilizou-se e passou a ter um lugar para comprar chá, daqueles que apetece mesmo. Onde ficamos a cheirar lotes evitando pedir um saquinho de cada um. Uma viagem pelos aromas que pode ser rematada com uma geleia de chá para lanches mais gulosos.

Restaurante: Segunda a Quinta das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 22h30 Sexta a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Domingo das 11h00 às 00h00

Segunda a Sábado das 10h30 às 19h30 Rua do Poço dos Negros, 123 1200-649 Lisboa N 38° 42’ 35.28” W 9° 9’ 6.36” +351 213 951 614

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DISCOTECA

Bar: Domingo a Quinta das 10h30 às 00h00 Sexta a Sábado das 10h30 às 2h00 Largo do Intendente Pina Manique, 4 1100-285 Lisboa N 38° 43’ 13.76’’ W 9° 8’ 7.04’’ +351 218 804 008 www.infame.pt


HIPSTER QUIOSQUE DO OLIVEIRA | PR

GERADOR

QUIOSQUE PRÍNCIPE REAL

ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Ponto de encontro de fim de tarde ou princípio de noite para a fauna do Príncipe Real e Bairro Alto. Espere um ambiente cool misturado com turistas.

Seja nos Trampolim (iniciativas em redor de uma praça ou bairro), Ignição (iniciativas mensais surpresa em espaços inusitados), ou na sua revista, esta associação cultural não para de animar Lisboa com uma abordagem dessacralizada, moderna e criativa da cultura portuguesa.

Aberto 24h00 Praça Príncipe Real 1250-301 Lisboa N 38° 42’ 59.99’’ W 9° 8’ 53.87’’ +351 213 428 334

www.gerador.eu

FÁBRICA MUSA | BXM BAR

LX FACTORY | AP SÍTIO

O templo hipster e cool da cidade. Para comer, beber, comprar ou simplesmente passear. Rua Rodrigues de Faria, 103 1300-501 Lisboa N 38° 42’ 12.69’’ W 9° 10’ 43.84’’ +351 213 143 399 www.lxfactory.com

Segunda a Quinta das 16h00 às 23h00 Sexta e Sábado das 16h00 às 00h00 Domingo das 16h00 às 23h00 Rua do Açúcar, 83 1950-006 Lisboa N 38° 44’ 19.90” W 9° 6’ 11.00” +351 213 877 777

ANJOS 70 | FC

CAFÉ/GALERIA DE ARTE

GELATARIA DAVVERO | BCS GELATARIA

Os melhores gelados de Lisboa. Terça a Quinta e Domingo das 13h00 às 20h00 Sexta a Sábado das 13h00 às 00h00 Avenida Dom Carlos I, 39 1200-646 Lisboa N 38° 42’ 26.72’’ W 9° 9’ 10.42’’ +351 929 165 208 info@gelatodavvero.com www.gelatodavvero.com

TABERNÁCULO | BCS BAR

Todos os dias das 14h00 às 2h00 Rua de São Paulo, 218 Cais de sodré, Lisboa N 38° 42’ 30.76’’ W 9° 8’ 47.54” +351 213 470 216 +351 916 735 926 info@tabernaculo.pt www.tabernaculo.pt

Segunda das 17h00 às 23h00 Quarta a Sexta das 17h00 às 23h00 Sábado e Domingo das 15h00 às 23h00 Regueirão Dos Anjos, 70 1150-011 Lisboa N 38° 43’ 31.38” W 9° 8’ 9.02” www.anjos70.org

LOUNGE | BCS BAR

Sempre óptima música em bom ambiente e com o horário de fecho bem conveniente (4h00). O melhor prolongamento da noite do Bairro Alto ou Cais do Sodré, antes de decidir se a noite é para ir até ao fim. Segunda a Domingo das 22h00 às 04h00 Rua da Moeda, 1 - Porta O/P 1200-275 Lisboa N 38° 42’ 28.85’’ W 9° 8’ 49.78’’ +351 213 973 730 www.loungelisboa.com.pt/blog

MUSIC BOX | BCS ESPECTÁCULOS

BAR

Terça a Domingo das 11h00 à 01h00 Rua Ribeira Nova, 36 1200-371 Lisboa N 38° 42’ 27.39’’ W 9° 8’ 43.76’’ +351 213 461 279 www.cafetati.blogspot.pt

Segunda a Sábado das 23h00 às 06h00 Rua Nova do Carvalho, 24 1200-292 Lisboa N 38° 42’ 25.83’’ W 9° 8’ 36.68’’ +351 213 473 188 www.musicboxlisboa.com

VODAFONE FM www.vodafone.fm

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CAFÉ TATI | BCS


ALTERNATIVO

DAMAS | GM

BAR/SALA DE CONCERTOS A nova sala de concertos que é um bar, ou vice-versa. A melhor programação alternativa da cidade.

CREW HASSAN | AV ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Segunda a Domingo das 12h00 às 24h00 Rua Portas de Santo Antão, 159 1150-269 Lisboa N 38° 43’ 2.46’’ W 6° 8’ 29.73’’ +351 218 120 373 +351 962 233 416 www.facebook.com/ccrewhassan

Terça a Quinta das 13h00 às 2h00 Sexta e Sábado das 13h00 às 4h00 Domingo das 17h00 às 24h00 Rua da Voz do Operário, 60 1100-621 Lisboa N 38° 42’ 59.31’’ W 9° 7’ 45.99’’ +351 964 964 416

CASA INDEPENDENTE | AR BAR

FÁBRICA BRAÇO DE PRATA | BXM

ASSOCIAÇÃO CULTURAL Terça das 20h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 18h00 às 2h00 Sexta das 18h00 às 4h00 Sábado das 14h00 às 4h00 Rua da Fábrica de Material de Guerra, 1 1950-128 Lisboa N 38° 44’ 37’’ W 9° 6’ 4.99’’ +351 965 518 068 | +351 925 864 579 www.bracodeprata.com

Terça a Quinta das 14h00 às 23h45 Sexta das 14h00 às 2h00 Sábado das 12h00 às 2h00 Largo do Intendente Pina Manique, 45 1100-395 Lisboa N 38° 43’ 15.09’’ W 9° 8’ 4.77’’ +351 218 872 842 ww.casaindependente.com

BAIRRUS BODEGA | BA BAR

Rua da Barroca, 3 1200-106 Lisboa N 38° 42’ 39.77”, W 9° 8’ 40.42” +351 213 469 060

MIRADOURO DO ADAMASTOR | BCS ESPLANADA

O mítico Adamastor, onde o por do sol é mais bonito, o quiosque serve bebidas e tostas a preços para portugueses e onde o cheiro de substâncias ilícitas envolve um ambiente descontraído onde se cruzam músicos de rua, turistas e lisboetas. Segunda a Domingo das 10h00 às 4h00 Miradouro de Rua de Santa Catarina, 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 34.10’’ W 9° 8’ 51.56’’ +351 213 430 582

CHAPITÔ | CA Costa do Castelo, 1/7 1149-079 Lisboa N 38° 42’ 41.69’’ W 9° 8’ 1.77’’ + 351 218 855 550 www.chapito.org

COZINHA POPULAR DA MOURARIA | GM

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RESTAURANTE

Terça, Quarta e Sábado das 20h30 às 00h00 Quinta a Sexta das 12h00 às 15h00 e das 20h30 às 00h00 Rua das Olarias, 5 1100-012 Lisboa N 38° 43’ 3.51” W 9° 8’ 0.38” +351 926 520 568 facebook.com/CozinhaPopularDaMouraria

49 | BA BAR

Também conhecido como o bar da Zé dos Bois, instituição da cultura alternativa lisboeta. Bons DJ’s e um ambiente bem descontraído onde se cruzam faunas diferentes em amena convivência. Quarta e Quinta das 22h00 às 2h00 Sexta e Sábado das 22h00 às 3h00 Rua da Barroca, 49 1200-043 Lisboa N 38° 42’ 41.93’’ W 9° 8’ 40.48’’ +351 213 430 205

FINALMENTE | PR BAR

O bar gay mais antigo da cidade, por onde passou meia Lisboa nos tempos em que a noite a n que mantém um show de travestis em periodicidade diária. Para uma noite realmente diferente. Vá numa segunda-feira quando a noite parece morta e divirta-se com as audições do “lugar às novas”. Segunda a Domingo 23h59 às 6h00 Rua de Palmeiras, 38 1200-313 Lisboa N 38° 42’ 53.12” W 9° 8’ 59.60’’ +351 213 479 923 info@finalmenteclub.com www.finalmenteclub.com


MULTICULTURAL EL ULTIMO TANGO | BA

CAFEH TEHRAN | PR

Um dos melhores bifes de Lisboa, de carne argentina, grelhado, acompanhados de batata assada com manteiga de ervas e salada de agrião. Tudo em ambiente calmo, para fumadores e com o melhor tango do mundo como banda sonora.

Das 12h00 às 00h00 Encerra às Terças-Feiras Praça das Flores, 40 1200-257 Lisboa N 38° 42’ 54.76” W 9° 9’ 6.95” +351 210 736 530 www.facebook.com/CafehTehran

RESTAURANTE

Segunda a Quinta das 19h30 às 23h00 Sexta e Sábado das 19h30 às 23h30 Rua do Diário de Notícias, 62 1200 Lisboa N 38° 42’ 43.96’’ W 9° 8’ 38.45’’ +351 213 420 341

ÁGUA DE BEBER | BCS BAR

RESTAURANTE

BELLA CIAO | BC RESTAURANTE

Não espere pizzas nem massa com ananás. Aqui a comida é italiana de Itália, verdadeira cuccina della mamma. Não perca a massa com bróculos e o melhor tiramisu de Lisboa.

Quarta, Quinta e Domingo das 18h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 3h00 Travessa de São Paulo, 8 1200-431 Lisboa N 38° 42’ 26.42” W 9° 8’ 34.28” +351 214 039 956

Segunda a Quinta das 11h00 às 16h00 e das 19h00 às 00h00 Sexta e Sábado das 11h00 às 16h00 e das 19h00 à 01h00 Rua do Crucifixo, 21 1100-548 Lisboa N 38° 42’ 34’’ W 9° 8’ 19’’ +351 210 935 708 www.cantinabellaciao.wixsite.com/bellaciao

CASA PAU-BRASIL | PR

CAXEMIRA | BC

Aberto das 12h00 às 20h00 Sábado e Domingo até às 18h00 Rua da Escola Politécnica, 42 1250-096 Lisboa N 38° 43’ 2.65”, W 9° 8’ 59.75” +351 213 420 954

O melhor indiano de Lisboa, por isso sempre cheio. Não se assuste com a entrada, suba ao primeiro andar, não perca as chamuças e vá provando os pratos. Sim, porque vai voltar várias vezes.

PISTOLA Y CORAZÓN | BCS

1100 Lisboa N 38° 42’ 48’’ W 9° 8’ 12’’ +351 218 865 486 | +351 218 874 791

RESTAURANTE

Vá cedo, ou prepare-se para esperar. Aqui não há reservas, mas margaritas gulosas que não se consegue parar de beber. E tacos, muitos e variados, num ambiente animado e ruidoso. Almoço: Terça a Sexta das 12h00 às 15h00 Jantar: Segunda a Domingo das 18h00 às 00h00 Almoço: Domingo das 12h00 às 15h00 Rua da Boavista, 16 1200-427 Lisboa N 38° 42’ 31.14’’ W 9° 8’ 51.77’’ +351 213 420 482 www.pistolaycorazon.com

RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 18h30 às 22h00 Rua Condes de Monsanto, 4

PIZZARIA LUCCA | FC PIZZARIA

Todos os dias das 12h00 às 15h30 e das 19h00 à 01h00 Travessa Henrique Cardoso, 19-B 1700-342 Lisboa N 38° 44’ 45.25’’ W 9° 8’ 28.89’’ +351 217 972 687 www.lucca.pt

IN BOCCA AL LUPO | PR PIZZARIA

Quarta a Domingo 19h00 às 23h00 Rua Manuel Bernardes, 5 1200-009 Lisboa N 38° 42’ 53.92’’ W 9° 9’ 8.38” +351 213 900 582 reservas@inboccallupo.pt www.inboccaallupo.pt

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LOJA


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Pedro Mexia


por João Moreira ilustração Pedro Albuquerque

Poeta, escritor, cronista, dramaturgo, ensaísta, tradutor, letrista, blogger, crítico literário, comentador, consultor para a cultura da Casa Civil do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, Oficial da Ordem Militar de Sant’iago de Espada, por mérito literário, Pedro Mexia, 46 anos, define-se como autor, no sentido lato que os ingleses conferem ao termo, embora, verdadeiramente, se sinta poeta. Escreveu a letra da canção “Lixo”, de Balla, “uma brincadeira” comparada com a empreitada de escrever o libreto da Ópera “Canção do Bandido”, de Nuno Côrte-Real, recentemente estreada no Teatro da Trindade. Mas é pelo programa de rádio e televisão, “Governo Sombra”, onde toma assento ao lado dos colegas de editora, Ricardo Araújo Pereira e Carlos Vaz Marques, além de João Miguel Tavares, que é mais conhecido.

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Conversámos com Pedro Mexia no Chiado, na Benard, “na sala de dentro, porque não tem rede, para não sermos incomodados pelos telemóveis”. E resultou, durante mais de hora e meia, falámos de política, literatura, cinema e do novo cargo que ocupa, de co-director da Granta em Língua Portuguesa.


É fácil ser consultor cultural do frenético Presidente Marcelo Rebelo de Sousa? Pedro Mexia: É muito fácil, porque é muito natural. Marcelo Rebelo de Sousa é um Presidente da República cujos interesses culturais, ou melhor, é uma pessoa, agora PR, cujos interesses culturais são antigos e conhecidos, e genuínos, portanto não é como se tivesse de ser uma espécie de acrescento cultural a alguém que não preza essa área ou essa dimensão. Evidentemente, o PR, e o cidadão Marcelo Rebelo de Sousa, antes disso, tem gostos e preferências. Mas tem sido muito fácil, porque é, genuinamente, uma pessoa, não só com gosto e interesse pelas questões culturais, como com grande facilidade de lidar com artistas e com autores, aliás, como acontece com o resto das pessoas, bombeiros, lojistas, etc.. Isso é uma experiência interessante, porque, em geral, as pessoas não circulam com o mesmo à vontade pelos diferentes meios sociais e profissionais. Resumindo, é fácil. É fácil ser assessor cultural do nosso Presidente da República. O ritmo talvez não seja tão fácil (risos), mas a função é fácil. Apesar de algumas polémicas em que se viu envolvido, ou em que acabou por se envolver, como foi o caso do encerramento da Cornucópia?

Foi a única na cultura. Polémica, foi a única, que me lembre. Houve coisinhas pequeninas...

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Não considera que o aparecimento do PR, no Teatro da Cornucópia, foi um pouco intempestivo, subindo ao palco e afirmando que a Companhia não iria acabar? Tem a ver com a própria personalidade e com a dimensão, digamos assim, dinâmica e voluntarista de Marcelo Rebelo de Sousa, que, naquele momento, considerou que era importante dizer “Não, não vamos deixar que isto acabe”. Provavelmente, esse destino era inelutável. Mas é verdade que esse foi um momento que gerou alguma incompreensão, algum feedback do meio, e fora do meio. Mas, honestamente, nestes dois anos e tal, não me lembro de outro caso polémico, na área cultural. Houve outros, noutras áreas. Mesmo assim, não muitos. Mas, na cultura, foi só o episódio do Teatro da Cornucópia. É verdade que nas funções públicas, em geral, e na função presidencial, em particular, há intervenções que não são intervenções

públicas. Há matérias na cultura, como nas outras áreas, em que a intervenção do PR se faz pela palavra, pelo telefonema e por outro tipo de atividades, que não saem, necessariamente, no telejornal do dia. E ainda bem (risos).

A Cultura tem sido um “calcanhar de Aquiles” deste governo, desde a primeira hora, com a demissão quase imediata de João Soares, passando pelas críticas nos apoios à criação, à falta de dinheiro para quase tudo, incluindo vigilantes no mais importante museu nacional, ao encerramento de companhias artísticas, ao polémico arrendamento de monumentos nacionais para eventos privados. O seu colega poeta, Luís Filipe Castro Mendes, abandona o cargo sem deixar marca. De facto, não marcou. Na verdade, ninguém marcou o cargo verdadeiramente. Eu sou insuspeito de ter simpatia pela figura, mas, desde o Ministro Carrilho, ninguém marcou o cargo, ou porque esteve pouco tempo, ou porque não tinha força política, ou porque não tinha a personalidade adequada, ou porque (e isso aconteceu com quase todos) não tinha orçamento. Portanto, o Ministro da Cultura, com o orçamento que a cultura tem tido, já há muito anos, pode ser, ou não, mais proactivo (como se diz agora), pode ter, ou não, mais peso político, mais acesso ao Primeiro-Ministro, pode ser mais simpático, pode ser isto ou aquilo, mas não faz muita diferença, não é? A cultura não é só isso, mas é também uma instituição que financia, do património à criação. E, portanto, quando a manta não tapa a cabeça ou os pés, forçosamente, os ministros são uma decepção, mesmo quando são pessoas muito capazes, e muito… até amigos meus, como foi o caso do Francisco José Viegas.

O Francisco José Viegas foi Secretário de Estado. (Risos) Trocava o Ministério, com este orçamento, por uma Secretaria de Estado, com outro orçamento, sem dúvida nenhuma. Por isso, dizer que determinado ministro da Cultura não foi marcante, é dizer pouco, porque, praticamente, nenhum foi. O Manuel Maria Carrilho tinha uma ideia para a cultura, tinha força junto do Primeiro-Ministro e esteve lá durante muito tempo, e tinha dinheiro. Teve todas as condições para deixar marca, como, de facto, indiscutivelmente, deixou. E digo isto, totalmente, à vontade, não sendo admirador da pessoa, mais do que do ministro.


Acho que o Mariano foi o ministro que exerceu mais anos o cargo de ministro, em democracia. Pelo menos, tenho ideia de ter lido isso algures. Portanto, isso ajudou, além de ser uma pessoa com um peso na área, e com trabalho feito, que lhe permitiu deixar essa marca. Mas são a excepção. Como são a excepção no Mistério da Educação, ou noutros ministérios, em que o normal é as pessoas passarem por lá, sofrerem muita contestação, e não deixarem rasto.

Sendo uma preocupação tão grande do Professor Marcelo, a vontade de encontrar consensos em áreas, que, pela sua importância, obrigariam a uma continuidade de políticas, não acha que também deveria ser um desígnio para a Cultura? A cultura não é uma área de consensos. Não é uma área de consensos, por natureza. Os artistas não são imunes a conflitos, a tribos, a guerra civis (risos), e há áreas, dentro da actividade cultural, onde isso é absolutamente patente. No cinema, por exemplo, não se consegue sentar pessoas à mesma mesa. A área da cultura é muito conflituosa, e é particularmente conflituosa, porque muita da criação artística contemporânea depende da intervenção do Estado para existir. Nem é para ser melhor, é para existir. Portanto, com a escassez de recursos, que é mais do que conhecida, a tendência para o conflito é permanente. Por outro lado, não é sequer consensual, na sociedade portuguesa, o que deve ser o Ministério da Cultura. Existe uma espécie de visão, tendencial, mas, felizmente, não totalmente estanque, entre uma visão patrimonialista, que tem sido habitual à direita, e uma visão que também abrange o apoio à criação artística, mais ligada às políticas de esquerda. O que, na verdade, embora genérico, sociologicamente, não corresponde inteiramente à verdade, na sua essência, porque, por exemplo, as políticas de super-presença do Estado na Cultura, se pensarmos no caso francês de De Gaulle/ Malraux, grandes manifestações sempre existiram à direita, em vários países, nomeadamente em Inglaterra, onde o apoio às artes é, mais ou menos, consensual nos vários partidos.

Historicamente, até há uma grande tradição de apoio e incentivo às artes por parte de certa direita, com forte pendor ideológico, sobretudo durante

os regimes autoritários, do século passado. Ezra Pound dizia que nenhum outro regime apoiara tanto os artistas como o fascismo italiano. E mesmo em Portugal, embora não seja politicamente correcto reconhecê-lo, António Ferro foi um promotor da criação artística. Sem dúvida. O Estado Novo, do ponto de vista, digamos assim, propagandístico, dinamizou uma série de correntes artísticas. Mas, tentando trazer isso para a democracia, do ponto de vista do mecenato, por exemplo, as empresas portuguesas ainda são muito renitentes em apoiar as artes, como não o são as empresas de outros países. Embora tenhamos uma lei do mecenato que é, genericamente, considerada boa, pelo menos no seu articulado, o mecenato ainda não é natural a um empresário, ou a um milionário português. Por exemplo, no caso dos Estados Unidos, onde toda a intervenção do Estado, nessa área, é problemática, existe uma quantidade de fundações, de mecenas e de doações, que, de certa forma, vai suprir essa ineficiência do Estado. Isso gera uma discussão acessória sobre se não deveria caber ao Estado essa função. Mas a questão prática, e imediata, é: não seria benéfico se a sociedade civil, em Portugal, se organizasse de uma forma em que o dinheiro dos privados pudesse viabilizar as artes? Tenho tido muitas discussões, ao longo dos tempos, com pessoas, sobretudo à direita, que acham que a minha posição é de esquerda, digamos assim…

(Risos). Muita gente, de direita, acha que o Pedro está à esquerda, em muitos temas... Em muitos temas, não creio. Nesse, claramente.

Em matéria de costumes, também? Em relação aos costumes, sou um liberal. Live and let live (risos), que me parece um excelente princípio de vida… Mas, regressando aos consensos na cultura, não existe consenso, existe conflito. Existe o conflito da escassez, existe o conflito dos entendimentos diferentes sobre o papel do Estado, sobre o financiamento público/política de gosto/amiguismo, etc.. Todas essas questões são, mais ou menos, conhecidas. Portanto, não seria normal que a política cultural fosse pacífica, embora, quanto menos dinheiro exista, menos pacífica seja, porque isso é a natureza das coisas.

Depreendo que, em sua opinião, não faz sentido procurar um consenso político, que permitisse alguma continuidade nas políticas culturais. Nem em

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No meio cultural, é muito comum falar-se menos do Carrilho e mais de um ministro que, não sendo da cultura, foi considerado um visionário para a área, o Mariano Gago.


áreas como a conservação do património, a museologia, onde os agentes reclamam mais autonomia? Isso, com certeza. Até porque, nessas áreas, há, teoricamente, um consenso social. Há um consenso de que se deve preservar o património, nem que seja um consenso piedoso, sem consequências, mas há consenso. Ninguém diz que o Estado devia acabar com os museus ou deixar cair os mosteiros. Ninguém diz isso, não é? Enquanto há muita gente que diz que o teatro devia acabar, ou o bailado, (risos), ou os realizadores que fazem filmes para os amigos. Esse discurso existe. Mas ninguém tem um discurso contra o património. Esse discurso não existe. O discurso pode não querer dizer grande coisa na prática, porque é mais fácil do ponto de vista teórico, mas, em relação à preservação do património, existe consenso. Neste momento, o movimento, a que temos assistido, é no sentido de reclamar mais autonomia, que permita fazer aquelas coisas básicas, como comprar uma caixa de pregos, sem ter de fazer um processo... A burocracia. A burocracia que continua a existir, apesar do Simplex, e que faz com que tudo seja tão moroso, que acaba por prejudicar a gestão corrente, já nem falo da gestão estratégica ou da gestão de longo prazo, mas da gestão do dia-a-dia.

O que é tanto mais preocupante quanto, em muitos casos, falamos de equipamentos, cuja programação, para ter relevância, tem de ser pensada a dois, três anos. Mas depois, ao mesmo tempo, também percebemos que não há consensos, mesmo nisso, não há consensos. Por exemplo, há consenso que devemos preservar o património. Dito desta forma, poucas pessoas civilizadas dirão o contrário. Mas, por exemplo, houve um caso interessante, relacionado com a gestão do património, em que se verificou que havia divisões, até dentro da mesma área ideológica, que foi a polémica, recente, do arrendamento de espaços públicos, de relevância patrimonial, para eventos. Isso não é pacífico. Há algumas pessoas que dizem que é bom fazer isso, porque é uma forma de financiamento, e outras dizem que não, porque isso é dessacralizar, desrespeitar esses espaços. Isso também é uma polémica, e é uma polémica que faz sentido, e sobre a qual tenho sentimentos, ligeiramente, divididos.

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Mesmo em relação ao Panteão? (risos) (Risos). Não, em relação ao Panteão, não. O Panteão, com todo o respeito, ganhou uma

importância na nossa consciência colectiva, nos últimos anos, que nunca teve. Essa importância teve a ver, essencialmente, com a morte de duas figuras, que sendo duas figuras nacionais, a Amália e o Eusébio, talvez não correspondessem ao protótipo do Chefe de Estado ou do intelectual inquestionável, que habitualmente era proposto para o Panteão. Embora por lá estejam muitos escritores que, por exemplo, foram muito famosos no seu tempo, mas que não são hoje, provavelmente, canónicos. Mas, independentemente da importância real que o Panteão tem, apesar de tudo, não é o Panteão francês, não tem o lastro histórico, o peso histórico que tem o Panteão francês. Para terminar, se formos ver cada um destes aspectos, o que é consensual vai-se esboroando, porque, de facto, ponto por ponto, não é consensual, e, nesse sentido, a ideia de que a cultura está acima dos conflitos, dos combates ideológicos, é errada. Não está… não está, de todo.

É verdade que está a colaborar com o programa eleitoral do CDS, para a área da cultura? Sim.

Porque decidiu aceitar esse desafio? A minha contribuição é uma contribuição muito pontual, até porque eu não sou do CDS, já fui militante, mas já não sou, e há uma dimensão muito grande do que é um programa eleitoral, que passa por propostas muito concretas que têm uma componente orçamental, legislativa, etc., que cabe às pessoas que, nos partidos e na Assembleia da República, tratam esses assuntos. Eu aceitei este convite, que me foi feito por Assunção Cristas, que conheço há 25 anos, e de quem sou amigo, por, além do facto de ser amigo dela, conhecer várias pessoas desse grupo, nomeadamente o Adolfo Mesquita Nunes e o Francisco Mendes da Silva, que são pessoas de quem gosto, e por quem tenho consideração pessoal e intelectual. Mas sou uma espécie de nota de rodapé ao grupo (risos). Não quero influenciar nada, o meu papel é muito pequenino, até porque não tenho interesse em fazer vida partidária.

Essa colaboração fez-me lembrar as Grandes Opções do Plano, de Cavaco Silva, escritas por Miguel Esteves Cardoso? Isso foi mais insólito, e mais divertido. Não, aqui tem a ver com o facto, que eu acho que a Assunção percebeu, de que, ao contrário daquilo que, geralmente, é sentido pelo eleitorado do CDS, pelo que vou percebendo, a cultura não tem de ser uma área em que eles


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© Ana Brígida


não se sintam à vontade, ou seja, contribuir para acabar com esse estereótipo, porque não há nenhuma razão para ser assim. Contaram, há tempos, uma história que eu achei muito divertida. Um deputado de um dos partidos da direita, na Comissão de Cultura, dirige-se aos deputados da esquerda, da maioria governamental, e diz: “Os senhores, que são da Cultura...”, ao que eles responderam: “Senhor deputado, isto é a Comissão de Cultura. Por isso, aqui, somos todos da Cultura”. (Risos). Portanto, acho que ainda há uma espécie de auto menorização da direita, em questões culturais, pelo facto de ser uma área que, tradicionalmente, pende para a esquerda. Por outro lado, participei naquela iniciativa, que ainda decorre, chamada “Ouvir Portugal”, que o CDS tem feito, e nas sessões, na área da cultura, praticamente, todas as pessoas com quem falámos, e que achámos que fazia sentido convidar, se disponibilizaram a estar presentes, mesmo dizendo que não eram do CDS, ou assumindo que não votavam no CDS. Isso foi óptimo, até porque o objectivo era perceber o que independentes, e mesmo pessoas de outras áreas políticas, gostavam que os partidos, no caso, este partido em particular, dissessem e fizessem pelos artistas, pela vida cultural. A recepção foi incrivelmente boa. Não fui eu que fiz a maioria dos contactos, mas soube que não houve rejeição, ninguém desligou o telefone na cara (risos), e, embora ache isso normal, de certa forma, apercebo-me que acabou por ser uma espécie de conquista.

O Independente e os bloggers, de direita, que se lhe seguiram, nomeadamente o Pedro, o João Pereira Coutinho e o Pedro Lomba, contribuíram para isso? Para limpar essa imagem de uma direita avessa à cultura? Sem falsa modéstia, acho que não se podem comparar os filhos com os pais (risos), e, neste caso, o pai foi O Independente. O que fez, realmente, diferença foi O Independente, de que era leitor ferrenho. Comprava o jornal com entusiasmo, ia à banca comprar o jornal com um entusiasmo que nunca mais tive. O Independente, além do talento óbvio daquelas pessoas todas que lá escreveram, marcou por duas ou três coisas: uma foi uma Carta de Princípios, ideologicamente clara, que não é comum...

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...diria que nunca tinha sido e nunca mais foi feito nada assim. Essa definição ideológica, plasmada em Carta de Princípios, foi absolutamente revolucionária. Sim, sim, isso por um lado. Por outro, a possibilidade da palavra “direita” querer dizer coisas novas, até aí, conotadas com a es-

querda. Costumo contar uma história, que seria risível, não demonstrasse o preconceito que existia, em relação às pessoas de direita. Quando começou o blog, em que eu escrevia com o João Pereira Coutinho e o Pedro Lomba, falávamos muito de música pop, como, aliás, o MEC fez, durante muito tempo.

Com crónicas compiladas no icónico Escrítica Pop, onde até inventava bandas (risos). Mas isso faz parte do talento dele (risos). Nós também falávamos muito de música pop, e lembro-me de um jornalista me dizer: “Para mim, vocês deviam gostar era do António Calvário” (risos). Eu gostava que isto tivesse sido uma piada, mas não foi. Ou seja, a ideia, de que alguém à direita pudesse ter gostos, mais ou menos, livres de naftalina, era impensável. Foi um choque para muitas pessoas. E eu senti muito isso com O Independente, não só o “live and let live”, que apregoavam e defendiam, mas o facto de serem pessoas que não estavam em conflito com o seu tempo, que não tinham aquele discurso “do tempo horrível em que nos coube viver”. Nunca tive paciência para esse discurso, não por achar que este tempo seja extraordinário, mas porque acho que todas as gerações têm o seu tempo.

Não vê, como Roger Scruton, “as vantagens do pessimismo”? Sou muito pessimista, mas não, sobre esse ponto de vista. O Scruton, por exemplo, é daqueles que acha que a música pop é toda aberrante, o Woody Allen, no Hannah e as Suas Irmãs, em que a rapariga o leva a um concerto de rock, e ele diz: “Vamos embora, antes que eles façam reféns”. (Risos). Eu tenho todo o respeito pelo Scruton, mas ele tem uma visão um bocadinho fossilizada. Certamente, as questões ideológicas não passam por gostar ou não gostar de música pop, e seria bastante absurdo que assim fosse. Portanto, desde que O Independente apareceu, afirmando-se como de direita, foi uma lufada de ar fresco, porque aquela não era a direita que eu conhecia, não era a direitaque eu ouvia falar. Os blogues, de certa forma, são uma emanação disto. Mas, na verdade, O Independente é que fez a diferença. Os blogues não teriam existido, ou melhor, teriam existido, mas não teriam existido, da mesma maneira, sem O Independente.

Onde quase tudo podia acontecer, até ter a Agustina Bessa-Luís a escrever as duas páginas de abertura. (risos). Esse foi um grande momento.


De ensaios, comunicações, etc.. Há bocado, estávamos a falar de notas de rodapé. A minha vontade era existir como nota de rodapé, dizendo: “Compilou um livro de Agustina Bessa-Luís.” (Risos). Na altura, propus ao editor...

Ainda a Guimarães Editores? Sim, o Francisco Cunha Lea. Na altura, propus-lhe a compilação de uma série de textos, de não-ficção, da Agustina. Ele falou com ela e com o marido, Alberto Luís, e a resposta, que veio, foi: “Muito bem, ela concorda. Faça você.” Assim foi.

Foi uma ideia tão original que, recentemente, a neta de Agustina, Lourença Baldaque, reuniu, em 3 volumes, todos os textos dispersos da avó, numa edição extraordinária da Fundação Calouste Gulbenkian. É incrível, porque nós, quando achamos que sabemos, mais ou menos, a dimensão da obra, editada em livro, de Agustina BessaLuís, somos surpreendidos por mais aqueles três volumes, merecidíssimos. Para mim, é a melhor escritora portuguesa, do tempo histórico que me coube viver. Agustina está num patamar diferente. É outro campeonato, simplesmente é outro campeonato. Há outros escritores portugueses, de que gosto muito, mas a Agustina, para mim, existe num plano de génio e de provocação, e de intuição, que não comparo com nenhum outro.

Poeta, escritor, cronista, dramaturgo, tradutor, argumentista, letrista. Como é que o Pedro Mexia prefere definir-se? Quem pergunta muito isso é o fisco (gargalhadas). O fisco pergunta-me isso, com frequência. Os ingleses utilizam com frequência uma palavra, que é author, que, embora exista em português, não tem a mesma abrangência. Portanto, à falta de melhor, tendo a usar a palavra escritor, mas com uma certa... acho que são palavras que não devem ser usadas pelos próprios. Pior ainda, seria poeta. São palavras que não devem fazer parte de auto definições, mas eu, de facto, não sou jornalista, embora escreva nos jornais, também não sou outra coisa, embora não, embora não, embora não... Portanto, quando me dizem que tenho de pôr alguma coisa no oráculo da entrevista, eu respondo: “Ponha escritor”.

Não se sente mais poeta? Foi por aí que começou...

Não diria dessa maneira. Diria que, do que escrevo, aquilo que para mim é mais importante é a poesia. Se tivesse de abdicar de todas as coisas, menos de uma, não abdicaria da poesia. A poesia, para mim, é o mais importante, daquilo que faço. Mas, certamente, isso não é, sequer, reconhecido como tal, isto é, não são, por definição, nem os livros que têm mais público, nem a área em que, comparativamente, sou mais reconhecido. Mas aquilo em que me sinto mais eu, em que sou mais eu, e sei que isto não faz grande sentido dizer, é a poesia.

Embora muito elogiado como poeta, e com belíssimos livros publicados, é mais reconhecido como cronista? Sim, as crónicas, em Portugal, têm bastante público. Eu tenho um grande feedback das crónicas, quer semanalmente, quer quando saem em livro. A poesia tem um feedback esporádico, embora os livros vendam, aliás, vendem o que vendem os livros de poesia, que não vendem mal, mas sem comparação com a prosa.

O Pedro, além de poeta, é o responsável pela excelente colecção de poesia, da Tinta da China.  Faz sentido existir uma colecção de poesia, ou isso só é possível porque estamos a falar de uma editora independente, que faz um esforço para ser uma referência em determinados nichos? É bastante curioso, porque eu nunca propus a criação de uma colecção de poesia e a Tinta da China nunca pensou em ter uma colecção de poesia. Exactamente, pelo facto de ser um pouco arriscado para uma pequena editora, e eu nunca iria propor uma coisa arriscada e a própria editora não ia arriscar... Bom, houve um momento, e isto partiu da Bárbara Bulhosa, em que, após um diagnóstico de que a poesia estava numa espécie de pirâmide invertida, havia um mundo de pequenas e pequeníssimas editoras, em geral, com produção muito boa, e onde a maioria das pessoas publicou os primeiros livros, depois, havia duas ou três editoras que, hoje em dia, já fazem parte dos grandes grupos editoriais, e que tinham as colecções mais prestigiadas. Mas, depois, as editoras do meio, digamos assim, foram desaparecendo, várias colecções que, ou acabaram, ou sai um livro, quando sai. A ideia, da Bárbara Bulhosa, foi que houvesse uma colecção de poesia, que, não sendo de uma grande editora, não fosse invisível, ou seja, que editasse livros que estivessem nas livrarias, e isso foi uma coisa muito importante.

Curiosamente, afirmou-se, e representa, segundo sei, um peso significativo nas vendas da própria editora.

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Agustina, de quem compilou um livro de ensaios, “Contemplação Carinhosa da Angústia”.


Sim. Isso tem a ver com várias coisas. Uma delas é o facto de que as pessoas, quando se fala da colecção, vão à livraria e sabem do que estamos a falar.

Da coerência gráfica? Sim. Depois, a própria imagem de marca da editora. Além do catálogo, a Tinta da China tem uma imagem gráfica muito boa, e a Vera Tavares, boa parte das capas são dela, e as da colecção de poesia têm sido sempre, cria uma imagem que dá identidade e gera o efeito de colecção. Nós já tínhamos visto isso, na editora, com a colecção de viagens...

…dirigida pelo Carlos Vaz Marques, como na colecção de humor. Sim, a colecção do Ricardo Araújo Pereira. Mas, no caso da colecção de viagens, eu lembro-me de estar na Feira do Livro e as pessoas aparecerem, quase, com aquela lógica de quem coleccionava cromos, “Falta-me o 7, o 2 ...”. Essa lógica, de colecção, funcionou.

Por outro lado, na colecção de poesia, Pedro apresenta uma escolha, de autores, muito interessante e diversificada. É muito diversificada. O que eu queria era que fosse uma colecção não adstrita a uma determinada ideia, que seria a minha, do que é a poesia. E, de facto, há autores, ali, com entendimentos e com práticas muito diferentes do que é a poesia, e a poesia contemporânea, em particular, e isso, para mim, é muito importante. Eu queria evitar aquela ideia de facção, de caderno de encargos – “Esta colecção só edita poetas assim”. Há excelentes colecções e excelentes poetas que entram nessa lógica, faz parte da história da poesia, mas eu não queria, explicitamente, fazer isso. A colecção tem publicado autores, quer portugueses, quer estrangeiros, muito diferentes uns dos outros, e eu faço questão que isso se mantenha. Não é o critério número um. O critério número um não é serem diferentes, mas é um dos critérios. Depois, evidentemente, há linhas de continuidade, porque todos os gostos pessoais têm uma linha de continuidade.

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Por falar em gostos pessoais, o seu ideal de poesia ainda continua a ser Hölderlin? Hum… não. Isso foi uma espécie, eu comecei..., quer dizer, isso é, mais ou menos, como começar pelas drogas duras (risos). É uma visão, é uma abordagem de poesia maximalista, em certo sentido, insustentável, tão insustentável que, coitado, enlouqueceu. Não quer dizer que tenha enlouquecido por

causa da poesia, mas, certamente, a poesia não foi um grande obstáculo na loucura (risos). Portanto, isso tem a ver com um determinado momento histórico da literatura, e com uma determinada crença na poesia e na palavra poética, que não é, exactamente, o período histórico em que nós vivemos, que é um período mais de suspeita, ironia, distância, etc. Se eu tivesse de mandar uma cápsula, para os extraterrestres saberem o que é uma prática que nós temos, que é a poesia, se calhar punha lá Hölderlin, mas fui-me aproximando de autores, sobretudo anglo-saxónicos, que têm um entendimento muito mais modesto, deflacionário da poesia, nomeadamente Philip Larkin, que é o caso mais conhecido, mas há muitos outros, que não pedem tanto à poesia como pedia o Hölderlin, e se calhar também não enlouquecem tanto (risos).

Se tivesse de escolher um poeta português... Hum…não consigo escolher um.

Dois ou três, ou quatro… Tenho de escolher três, em três momentos diferentes. E os que eu escolheria, em três momentos diferentes, ou dois, para tentar ser mais exclusivista, seria o Cesário Verde, porque eu tendo a preferir uma poesia mais do sentido do que do som e mais visual do que abstrata, e a relação do Cesário com a Cidade é uma espécie de poesia cinematográfica.

Esteve muito esquecido. Sim, talvez. Por acaso eu não tenho muita essa noção, mas há pessoas que me dizem isso. Mas, sim, claramente o Cesário Verde. No século XX, tendo que escolher só um, embora existam tantos, de facto, o século XX é um caso incrível de óptima produção poética, escolheria o segundo Álvaro de Campos, não o Álvaro de Campos dos primeiros anos, não o Álvaro de Campos de se pôr em cima das mesas, de escrever em maiúsculas, mas o Álvaro de Campos do Lisbon Revisited, do Poema em Linha Recta, de poemas desse género, porque do ponto de vista de afinidade, de personalidade, se é que se pode ter afinidade com um heterónimo (risos), entendo muito bem o sentimento do mundo que está naqueles poemas, e não sou sequer tão sensível aos outros heterónimos do Pessoa, nem sequer ao ortónimo.

Como foi substituir o João Bénard da Costa na Cinemateca, embora por um curto período de tempo? Começando pela resposta mais directa à pergunta, em nenhum momento me passou


Apesar disso, internamente, foi bastante elogiado, até por ter permitido uma transição pacífica, ou, pelo menos, menos tensa do que seria expectável, após o desaparecimento de uma figura tão icónica como o João Bénard da Costa. Acho que foi importante, e estou a pensar nisto no momento em que estou a formular, mas acho que acabou por ser relativamente importante, e não estou a invocar méritos meus, até porque não tive nenhuma intervenção no tempo que demorou, mas essa transição acabou por ser muito pacífica, acabou por não ser problemática, nem na substituição quase imediata, porque demorou alguns meses, nem depois disso, na continuidade com o José Manuel Costa, que tinha sido Subdirector, e que era uma pessoa da casa. O que me apercebi, quando estive na Cinemateca, além do que já sabíamos, visto de fora, sobre a personalidade forte e invulgar do João Bénard da Costa, foi o prestígio que a Cinemateca tinha. Até, ou sobretudo, internacionalmente. Acha que isso se deveu à personalidade do próprio João Bénard da Costa, e aos contactos internacionais que ele tinha? Ou o peso da Cinemateca, por si só, já era suficiente para ser reconhecida? Deveu-se, em muito, à personalidade dele, até porque, além de ser crítico, historiador, escritor, etc., também era um homem sedutor, também era um homem que recebia muito bem as pessoas, que fazia amizades e criava essas cumplicidades. Mas, depois, também há o outro lado, que é o lado oculto, não tão oculto como isso, mas menos conhecido, que é o trabalho que a Cinemateca fazia, e que continua a fazer, de arquivo. A Cinemateca, a certa altura, faz uma aposta bastante interessante. Quando a generalidade dos cinemas, e o mundo do cinema, deixa de trabalhar com película, a Cinemateca aposta no restauro da película, compra uma máquina que restaura película, no eBay, o que, por si só, já é uma

história deliciosa, e, de repente, vemos filmes clássicos, que passam, em versão restaurada, nos festivais de cinema europeus, com uma cópia extraordinária da Cinemateca. Isso foi, por um lado, uma boa fonte de rendimento, mas também foi uma espécie de trabalho em função da memória, uma certa memória dos filmes. Hoje em dia, isso já não se põe, porque grande parte dos filmes já são feitos em digital, a esmagadora maioria, mas houve uma fase histórica em que os filmes eram feitos daquela maneira. Esse lado de preservação de um lugar, de um património, em que o trabalho do ANIM, que é o trabalho, como eu dizia, invisível, porque é pouco conhecido do público em geral, é importantíssimo.

O Pedro assumiu recentemente o cargo de Director da Granta em Língua Portuguesa, com Gustavo Pacheco, que assumirá o mesmo cargo no Brasil. Exactamente, embora não estivesse nos planos.

Não se consegue dizer “não” à Bárbara? (risos) Sim, lá está… já está respondido (risos). É, evidentemente, um projeto importante, e que tinha de continuar. Além do mais, estava assegurado que haveria uma pessoa do lado de lá do Atlântico, que desempenhasse a mesma função, ou seja, que um dos editores fosse brasileiro, até porque eu conheço relativamente bem, relativamente mal, conforme queiramos, a literatura brasileira contemporânea, mas não conheço os novos autores, os primeiros livros, conheço os nomes estabelecidos, e a Granta, se quer ser capaz de atrair os autores agora revelados, tinha de ter alguém atento e conhecedor do meio, até porque os livros não chegam cá.

Isso sempre foi um drama. Houve um esforço heróico da Cotovia. Que tem uma excelente colecção de autores brasileiros. Foi um projecto pessoal do André Jorge, que tinha algum dinheiro e investiu na criação de um catálogo irrepreensível, e que, no caso dos brasileiros vivos, ou vivos na altura, foi o primeiro a editar em Portugal, mas com resultados, nalguns casos, estranhamente insatisfatórios de público. Há um desinteresse pelos autores brasileiros em Portugal? Penso que sim. Comparando com o contrário, isso é óbvio. Tenho ido algumas vezes ao Brasil, nos últimos tempos, e é incrível a

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pela cabeça, em nenhum sentido da palavra, substituir o João Bénard da Costa. Simplesmente aconteceu que, infelizmente, eu estava na Cinemateca, há um ano e pouco, salvo erro, como Director-adjunto, quando o João Bénard da Costa morreu. E eu fui nomeado Director interino, até ser escolhido outro director. De facto, esse processo prolongou-se por um período bastante maior do que esperava, mas em nenhum momento essa questão se pôs, ou seja, eu não seria o Director da Cinemateca, nem exerci, nesse momento em que estive como Interino, como se fosse o novo Director. Limitei-me a manter a Cinemateca, em funcionamento.


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atenção e a generosidade com que acolhem os autores portugueses. Aparentemente, já não existe qualquer espécie de complexo pós-colonial, que, até há poucas décadas, ainda existia. E há um interesse grande pela cultura portuguesa, especialmente pela literatura. Quanto ao desconhecimento, ou desinteresse, dos portugueses em relação à literatura brasileira, atribuo isso, empiricamente, porque não tenho nenhuma teoria sobre o assunto, ao monopólio da dupla, música - telenovela, que foi de tal forma marcante no nosso imaginário, que é como se não houvesse espaço para mais nada. Por exemplo, os filmes brasileiros estreiam por cá e desaparecem ao fim de 15 dias, e a literatura também não deixa grande marca. Há uns anos, estreou um filme brasileiro extraordinário, chamado “O Som ao Redor”, que foi um grande sucesso no Brasil, e que cá passou relativamente despercebido. De facto, investimos de tal forma na música brasileira, enquanto espectadores e consumidores, e, de outra forma, na telenovela, que é um produto cultural lato sensu, que não sobra mais espaço. No caso da literatura, acho que Portugal conviveu melhor com a literatura brasileira, e estou a pensar mais na ficção do que na poesia, quando a ficção brasileira nos devolvia uma imagem de um Brasil rural, muito através de autores como o Jorge Amado e o Graciliano Ramos, aliás, um grande escritor, mas sempre com um Brasil que tivesse fazendas e cangaceiros. Rubem Fonseca, o grande escritor do Brasil moderno, violento, só aparece em Portugal, recentemente, através da Companhia das Letras e, depois, da Sextante. Aliás, a nossa visão do Brasil, desde o momento zero, desde a Carta de Pero Vaz de Caminha, é a da descoberta do paraíso. Por isso, se a imagem que nos devolvem é uma imagem que contraria essa visão, rejeitamo-la. Só isso explica que escritores, como Bernardo Carvalho, vendam uma escassa centena de exemplares. É escandaloso.

A Granta pode ajudar a criar um maior interesse pela literatura brasileira? A Granta é uma forte marca internacional, com grande historial. Aliás, uma das melhores partes desta incumbência, que estou agora a exercer, é poder mergulhar nos arquivos da Granta, para escolher textos a fim de serem traduzidos, com uma password mágica que me permite ler as Grantas, todas que quiser (risos). Mas esse grande prestígio da marca é importante para a Granta em Língua Portuguesa, assim como o facto de estar presente em Portugal e no Brasil, e é óbvio que isso pode ajudar. Em termos mais práticos, o que a Granta pode fazer, e já está a fazer, é, como vai acontecer no próximo número, publicar autores brasileiros que nunca foram publicados em Portugal. Esse é o passo número um, que permite despertar o interesse, de quem lê, por determinados autores. Sabemos que é apenas um contributo, mas esperamos que ajude ao estímulo de uma leitura comum. É a mesma língua, temos de nos ler uns aos outros.


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Ana Pérez-Quiroga Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade

Vista do IST Vista sobre a Alameda Afonso Henriques desde o Instituto Superior Técnico.

Vista da fonte luminosa Vista sobre a Alameda D. Afonso Henriques desde o jardim superior da Fonte Luminosa.

IST

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Instituto Superior Técnico nas as suas novas instalações Modernistas construídas entre 1929 e 1942 com projeto arquitectónico de Pardal Monteiro.


Alameda D. Afonso Henriques Um passeio pela arquitetura de estilo Modernista, Déco e “Português Suave”

Fonte Luminosa Fonte Monumental – Luminosa foi concebida, em 1938 pelos arquitetos Carlos e Guilherme Rebelo de Andrade e mandada construir por Duarte Pacheco para comemorar o abastecimento de água do vale do Tejo a Lisboa e o duplo Centenário da Fundação e Restauração de Portugal (1940). Decorada com esculturas de Diogo de Macedo (Tejo e Tágides) e Maximiano Alves (as 13 Cariátides) e com os baixos-relevos dos painéis laterias de Jorge Barradas (primitivamente policromados). Foi construída em pedra de cabriz, Sintra. Inaugurada em 28 de maio de 1948.

Fonte Luminosa noite A Fonte Luminosa tem dois períodos de funcionamento diários: das 11:00 às 13:00 e das 18:00 às 20:00 que a partir de um sistema computorizado regula os jogos de água e luz.

Cinema Império

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Cinema Império, 1948-1952. Projetos arquitectónico e alterações de Cassiano Branco, António Varela, Raul Chorão e Frederico George. Deixou de ser cinema no princípio de 1990.


Café Imperio Café Império, no seu interior obras plásticas de: Luís Dourdil, pintura mural; de Martins Correia, conjunto escultórico e de Jorge Barradas, o revestimento cerâmico.

Arq. Pardal Monteiro Edifício de gaveto com a rua Quirino da Fonseca, com projeto do Arq. Pardal Monteiro, construído em 1944.

Prédio

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Prédio de gaveto com a Rua João de Menezes. Com um eixo de simetria marcado, pedra aparelhada, varandas em ferro forjado e pedra.


Prédio Prédio de gaveto com a Rua Abade Faria em estilo Português Suave.

Baixo-relevo e varanda Edifício de gaveto com a Rua Carlos Mardel. Sobre o portal, escultura em baixo-relevo com motivos historicistas. Varanda em ferro forjado.

Diferentes tipologias

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Edifícios construídos em diferentes estilos arquitectónicos.


Alameda D. Afonso Henriques Um passeio pela arquitetura de estilo Modernista, Déco e “Português Suave” A Alameda D. Afonso Henriques com o seu imenso relvado de 120 metros de largura liga duas colinas e é cruzada por oito ruas sendo a maior a Avenida Almirante Reis. Situa-se no seu extremo poente o Instituto Superior Técnico e no extremo nascente a Fonte Luminosa. O projeto para a Alameda D. Afonso Henriques é da autoria do Arq. Faria da Costa de 1939, inserido no Plano Geral de Urbanização e Expansão de Lisboa de Gröer (1938-1948) que aplica novos conceitos urbanos e é complementado por um Regulamento Geral das Construções Urbanas tendo seguido uma ideia para a cidade definida por Duarte Pacheco.

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Os edifícios construídos seguem diversos exemplos-guias concebidos pelos arquitetos da Câmara Municipal de Lisboa desde o estilo modernista, pelo Déco, até ao Português Suave. A cor dos edifícios é geralmente o rosa, mas encontramos também amarelo, branco, creme, e verde. A pedra lioz, é usada nos embasamentos, cornijas, molduras de vãos, baixos-relevos e pilastras.


CONTRAGOLPE

por Francisco Mallmann

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meu corpo também guarda o gesto contrário


Itamar Vieira Júnior Prémio LEYA 2018

por João Moreira

© Balada Literária

“Foi assim que cheguei a um lugar, um lugar muito quieto, muito sereno, um lugar sem cercas, sem casas, um lugar com árvores secas, mas um lugar, com bichos andando soltos, com a serra ao seu redor, com um monte no seu centro, fui erguendo de mim mesma uma vontade, como se fosse uma montanha, ia erguendo de mim mesma, ia serenando coisas boas, meus pés estavam dormentes, minha pele tinha muitas feridas, meu cabelo carregava o barro do mundo por onde passei, mas erguia em mim uma vontade muito bonita...”

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Itamar Vieira Júnior - Excerto de “A Oração do Carrasco”, Edição Mondrongo, 2017


Itamar Vieira Júnior, 39 anos, tem um rosto de menino e uma timidez que denuncia o ligeiro desconforto diante do, ainda, surpreendente anúncio da conquista do Prémio Leya, deste ano, com “Torto Arado”, um romance de formação que conta a história de duas irmãs no interior do sertão baiano. Encontramo-nos em Copacabana, no dia seguinte à vitória de Jair Bolsonaro, na segunda volta das eleições presidenciais brasileiras, e, enquanto caminhamos pelo calçadão, Itamar não esconde o desagrado pela actual situação política do Brasil. – “Vamos iniciar um período muito difícil, no qual será necessária uma enorme mobilização de todos os democratas, em torno da defesa da Constituição e dos direitos conquistados nas últimas décadas.” O vencedor do Prémio Leya fala como se cantasse, com uma voz doce e cadenciada, sem grandes inflexões, mas com uma determinação contagiante. É como se estivéssemos a ouvir João Gilberto cantando “Chega de Saudade”, ou não fosse também ele baiano. Itamar está no Rio de Janeiro para receber o Prémio Humberto de Campos, da União Brasileira de Escritores, pelo seu livro de contos “A Oração do Carrasco”. Finalista do mais cobiçado prémio literário brasileiro, o Jabuti, aceitou conversar, a propósito do seu inédito romance “Torto Arado”, dos dramas das comunidades quilombolas e da actual situação política do Brasil.

Foi uma surpresa, que “Torto Arado” fosse o vencedor do Prémio Leya?

Essa tranquilidade é importante para a sua escrita?

Foi uma grande surpresa, porque se trata de um prémio internacional. O prémio mais importante da língua portuguesa para um livro inédito, com ampla cobertura em todos os países onde se fala português. Eu concorri e ganhei. E isso deixou-me mesmo surpreso, porque a gente concorre como quem decide apostar na loteria. Digo isso, não por não acreditar no meu trabalho, mas pela qualidade dos trabalhos que o prémio recebe. Como é um prémio com alto valor monetário, recebe escritores de renome, que concorrem anonimamente. Então, esse é, também, um motivo de orgulho para mim, e de surpresa.

Muito importante. Para você ter uma ideia, tinha um projecto para iniciar em Agosto, um novo trabalho, que já investigo há muito tempo, e que tive de adiar por causa desse período bem conturbado, que exigiu de nós, cidadãos brasileiros, uma grande mobilização. Era um ambiente impraticável para qualquer actividade intelectual. Por isso, só agora, vou retomar esse projecto.

Esse é o meu grande projecto. Penso que o prémio dá uma visibilidade única ao escritor. Monetariamente é importante, porque permite uma liberdade que você nunca teria, mas é um prémio que, sobretudo, dá projecção e abre portas à publicação, nos países de expressão portuguesa, e a traduções. Falo isso pelo que conheço do histórico do Prémio Leya. (risos).

Foi muito importante. No ano passado, eu defendi uma tese de doutoramento, que é uma etnografia sobre uma comunidade quilombola, do interior do sertão da Bahia. Enquanto escrevia essa tese, e você vai escrevendo numa linguagem académica, científica, que tem uma série de travas e limitações, fui imaginando-a como se pudesse ser literatura, que é a minha grande paixão. Embora a lin-

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Acha que este prémio vai mudar a sua vida, no sentido de permitir uma dedicação exclusiva à escrita?

Vamos falar um pouco sobre “Torto Arado”. O facto de ser doutorado em Antropologia foi importante para a criação da ambiência do romance e para a intensidade que coloca nas personagens, em particular nas duas irmãs que, de certa forma, representam todo o sofrimento da mulher nordestina do meio rural?


guagem, académica e científica, seja importante em determinados contextos, a literatura tem uma forma de comunicar que é universal. Dificilmente um matemático vai ler um texto antropológico com a empatia com que lerá um texto literário. É difícil conciliar...

Embora o Brasil tenha alguma tradição nessa conciliação. Darcy Ribeiro, por exemplo. É verdade. Mas a literatura te dá uma liberdade diferente. (Sorriso rasgado). Sabe, eu já acalento esse projecto há muito tempo, há mais de vinte anos, mas não tinha maturidade para escrevê-lo.

Isso é tanto mais curioso quanto uma das notas realçadas pelo júri, na atribuição do prémio, a surpresa de um romance com esta densidade ser escrito por alguém tão novo. (Risos). Essa maturidade foi chegando com a minha pesquisa. O núcleo duro da história foi imaginado há vinte anos, inspirado nos grandes romances regionalistas de autores brasileiros, como Guimarães Rosa, Jorge Amado, Rachel de Queiroz...

…Raduan Nassar.

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“Lavoura Arcaica” é, para mim, o grande romance do século XX, do Brasil. Inclusive, em “Torto Arado”, a epígrafe do livro é um trecho de “Lavoura Arcaica”. Então, eu tinha essa vontade de escrever o romance, mas não tinha maturidade. E foi a minha experiência de trabalho no campo brasileiro, durante os últimos doze anos, que me deu o arsenal que eu precisava para efectivar esse projecto. A etnografia, dentro da antropologia, é um campo que se aproxima muito da literatura. Porque a forma como você escreve, como você narra a vida daquelas pessoas, vai dar-te a possibilidade de alcançar um nível de apresentação que demanda muito do autor, algum conhecimento de literatura, de como apresentar um texto, de como contar uma história. Então, durante essa pesquisa, o livro surgiu naturalmente, e, embora sendo um trabalho de ficção, aquelas experiências de vida, que fui presenciando e acompanhando, foram acrescentando à minha história. A forma como eles vivem, o valor que a terra tem para eles, o valor que o trabalho tem para eles, os dramas que as comunidades rurais no Brasil ainda enfrentam, com a espoliação dos seus territórios em pleno século XXI... Após o impeachment de Dilma houve uma escalada na violência, no campo brasileiro, e eu vi lideranças, que conhecia, morrerem assassinadas. Um dos que mais me chocou foi o assassinato de

Binho do Quilombo, em Simões Filho, na região metropolitana de Salvador, por conta de conflitos de terras, uma semana depois de uma reunião que teve comigo. O Brasil tem uma dívida histórica para com a população negra. Quando foi editada a Lei Áurea, não foram dadas as condições necessárias para que os negros libertados garantissem a sua subsistência. Então, sem terra e sem trabalho, muitos deles permaneceram escravos ou viraram errantes. “Torto Arado” fala sobre isso. Sobre uma população que vai permanecer na fazenda e que, em pleno século XXI, ainda permanece cativa, em regime de servidão, e que realmente tem uma necessidade de transgredir, de tomar as coisas que lhe são de direito. A Constituição de 1988 é uma constituição muito avançada para o tempo que hoje vivemos. E nela está previsto que toda a terra destinada às comunidades indígenas, às comunidades quilombolas, lhes é de direito, e cabe ao Estado, apenas, fazer a regularização fundiária. Isso nunca foi feito. Avançámos muito pouco em relação aos direitos dessas populações, que continuam a sofrer e a viver em condições de extrema desigualdade. “Torto Arado” é um romance de formação, porque vai da infância à maturidade, e é protagonizado por duas irmãs que moram numa fazenda, em regime de servidão, e, com a sua vivência, vão aprendendo a transgredir.

A estrutura do romance estava pensada desde o início, ou foi evoluindo à medida que foi escrevendo? O núcleo principal, a história das duas irmãs e a relação que elas têm com o pai, sempre existiu, mas a estrutura só amadureceu há pouco tempo, à medida que fui escrevendo. Quando comecei, não tinha, ainda, a estrutura que esse romance iria tomar. Só sabia o que queria narrar.

Fale-nos um pouco sobre essas duas irmãs, sobretudo sobre esse olhar feminino e sobre o que representou e representa “ser mulher” no interior do sertão baiano. Eu sou homem e vivo numa sociedade patriarcal, mas fui criado numa família em que as mulheres têm o protagonismo.

Eu diria que em toda a Bahia. Verdade. Em toda a Bahia. A gente tem uma experiência maravilhosa de Ruth Landes, uma etnóloga americana que chegou a Salvador, na década de 40, e ficou deslumbrada com o poder que as mulheres tinham na Bahia. Ela fez um trabalho sobre os candomblés baianos, e no livro dela, que se chama


E resultou. Resultou. (Risos). O livro foi escrito na primeira pessoa. A primeira parte, narrada por uma irmã, a segunda parte, narrada pela outra irmã, e a terceira parte é narrada por um espírito que atravessou os séculos de escravidão e servidão no Brasil. E deve ter sido esse facto, de quase todo o livro ter sido escrito na primeira pessoa, que causou a dúvida no júri.

Mas o facto do olhar ser bastante feminino, ser o olhar da mulher baiana, pesou ainda mais. Isso foi algo que eu fiz com muita tranquilidade, porque a antropologia nos dá essa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Então, a gente tenta entender o mundo, não pelos nossos olhos, mas pelos olhos do outro, pelos olhos do quilombola, pelos olhos do indígena. O trabalho da etnografia é esse, né? E eu pensei: que maravilhoso, se a literatura puder dar esses olhos às pessoas para entenderem o mundo, a partir das personagens. (Quase emocionado). Foi isso que tentei, e acho que o Prémio Leya veio corroborar que acabei conseguindo.

Essa dúvida acerca do género do autor, que acabou por constituir uma surpresa para alguns membros do júri,

ganha ainda mais relevância pelo facto de todos os grandes autores ruralistas brasileiros nunca terem conseguido abstrair-se da sua condição. Mesmo Raduan Nassar retrata uma classe média rural. Quando escrevi o livro, só pensava num trabalho que tivesse a capacidade de comunicar a experiência humana dessas pessoas. E se você for olhar, na literatura brasileira, esses personagens, como você bem referiu, permanecem invisíveis. Tem muitos trabalhos sólidos, mas poucos tratam da comunidade quilombola e dos indígenas, a partir da perspectiva deles. Há um grande romance, “Um Defeito de Cor”, publicado, há mais de 10 anos, pela Ana Maria Gonçalves, que trata da vida da mãe de Luís Gama, Luísa Mahin, que veio de África para o Brasil, que foi dos primeiros romances em que eu vi uma mulher escravizada, que depois é alforriada, protagonizar um romance brasileiro. Existe a “Escrava Isaura”, do século XIX, mas é uma mulher branca, com ascendência negra, mas que é tratada como branca. Nunca foi para o tronco, nunca precisou de fazer os trabalhos pesados. Então, “Torto Arado” acaba dando protagonismo a esses personagens, que sempre foram secundários na literatura brasileira.

“Torto Arado” é o seu primeiro romance? Eu publiquei um romance, há 10 anos, com edição de autor e uma tiragem bem pequenininha, mas é um romance de que me afastei tanto, que não falo mais nele, porque já não me reconheço naquela forma de escrita.

No entanto, tem dois livros de contos publicados, com enorme reconhecimento por parte da crítica: “Dias”, de 2012, vencedor do XI Prémio Arte e Cultura da Bahia, e, mais recentemente, “A Oração do Carrasco”, finalista do Prémio Jabuti, na categoria “contos”, e vencedor do Prémio Humberto de Campos, da União Brasileira de Escritores, que, aliás, vai receber, hoje à tarde, na Academia Brasileira de Letras, aqui no Rio de Janeiro. É verdade. Com “Dias”, eu, também, concorri anonimamente, e acabei vencendo esse importante prémio literário, na Bahia, que permitiu a publicação do livro, mas acabou tendo uma repercussão tímida, porque logo, em seguida, entrei no doutoramento e afastei-me da escrita. Achava que “vida de escritor” era uma coisa muito de sonho. Era preciso ter o “pé no chão”, ter um trabalho, ter um emprego, mas a verdade é que a literatura nunca

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“A Cidade das Mulheres”, fala da relação de poder que as mulheres estabeleceram dentro do candomblé, dentro da família, dentro da sociedade. Eu cresci numa família de mulheres fortes, que, mesmo assim, eram vítimas da sociedade patriarcal. Muitas delas sofriam violência dos maridos, muitas delas sofriam violência no trabalho, e não tinha como ser diferente. E aquilo tudo, desde a minha infância, sempre me machucou, sempre me provocou emoção, me instigou a falar sobre isso. Então, esse núcleo da trama do romance pode dizer-se que vem da minha infância. Claro que foi ganhando profundidade e complexidade, porque assim como eu me apercebi do sofrimento das mulheres da minha família, ao longo desses doze anos de trabalho no campo, fui encontrando mulheres que vivem em situações muito mais adversas, em situações de extrema pobreza. E o poder que elas têm de liderança, de capacidade de mobilização, de capacidade de transformação, é uma coisa admirável. Essa pesquisa forneceu-me elementos incríveis para escrever um romance forte sobre esse tema. É curioso, porque eu li nas notícias que o júri tinha uma dúvida, sobre se quem tinha escrito o romance era um homem ou uma mulher. E quando eu escolhi o pseudónimo, que era a inicial de um nome, com o sobrenome Terra, A. Terra, eu tinha isso em mente. Na verdade, eu queria que essa dúvida existisse.


me abandonou. Durante o doutoramento, como estava cansado da tese e precisava parar um pouco, respirar, pensar em outras coisas, escrevi “A Oração do Carrasco”, que submeti ao edital de publicação do Governo do Estado e consegui financiamento para publicar. Acabou sendo uma grata surpresa, porque o livro teve uma acolhida muito boa, tanto do público como da crítica. Ainda ontem, durante a votação, havia uma campanha que era “Vote com Livro”, não leve arma, leve livro. E algumas pessoas postaram fotos, nas redes sociais, com o meu livro na mão, gente que não conheço, de Goiás, e isso, emocionou-me profundamente.

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Durante esses 12 anos de pesquisa etnográfica para a sua tese, mudou alguma coisa nesse interior do sertão baiano, ou tudo se mantém inalterado para as comunidades quilombolas? Houve uma transformação, principalmente nos últimos anos, e o livro aborda isso, que foi, sobretudo, a da conscientização dessas pessoas, dos seus direitos. A constituição dessa rede de comunidades quilombolas e indígenas, que luta pelo direito, desses povos, aos seus territórios, está cada vez mais forte, e isso modifica essas comunidades e faz com que as pessoas transgridam e saiam da letargia serviçal, em que viviam. O interior do Nordeste era muito conhecido, há trinta anos, pelas grandes calamidades, a seca e a fome, que são dramas cada vez menos presentes, hoje em dia, porque existiu um grande investimento, dos governos estaduais e da Federação, principalmente durante os governos do PT, que permitiu a distribuição de água canalizada e energia elétrica, às populações do interior. Hoje, é difícil chegar a uma casa nordestina que não tenha uma cisterna para guardar a água da chuva. E isso, não só ajudou a diminuir as dificuldades dessas comunidades como ajudou a fixar as pessoas no interior. Por outro lado, todos os planos de fomento instituídos, desde o Bolsa Família aos apoios à produção, à agricultura familiar, permitiram que muitas famílias se negassem a continuar a servir nas grandes fazendas, em troca de quase nada. O que não mudou foi a estrutura fundiária, embora as pessoas tenham mais consciência sobre esse problema. E isso é algo que terá de ser alterado, embora saibamos que essa será uma mudança muito lenta. Mas terá de acontecer, inevitavelmente, de forma a permitir que essas comunidades tenham direito aos seus territórios. Muitas delas vivem em áreas de fazenda, sobrepostas ao território em que viveram ancestralmente. Quando não existia legislação, como a Constituição de 88, que passou a proteger essas pessoas, tiveram os seus territórios ocupados, e muitos conflitos advêm daí. Então, essa mudança na estru-

tura fundiária é essencial. Mas eu tenho uma esperança muito grande nesse sentido, porque vejo as pessoas mobilizadas para isso.

O facto de ser baiano foi determinante para a forma como escreve? A Bahia deu-nos grandes poetas, Gregório de Matos e tantos outros, e grandes músicos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto. Então, existe uma musicalidade própria na Bahia. Mas o facto de viver numa cidade, Salvador, em que a maioria da população é negra, alertou-me para os problemas com que essa população se depara, do racismo à nossa relação com a escravidão, que nunca foi resolvida. Então, viver em Salvador, pensar nos meus antepassados negros e no que eles sofreram, trabalhar directamente com comunidades quilombolas e perceber o que ainda perdura de mentalidade esclavagista e de racismo, quase me obrigou a enveredar por este caminho. E quando penso na minha carreira, quando penso no futuro, sei que esse será um tema a que irei voltar. Mas, nesse momento, era obrigatório, para mim, escrever sobre esta temática.

Hoje, confirmada a vitória de Jair Bolsonaro, tem receio que as conquistas conseguidas, nas últimas décadas, por algumas minorias, nomeadamente negros e indígenas, possam ser colocadas em causa, ou considera que as instituições democráticas brasileiras, o Supremo Tribunal e o Legislativo, serão garantia da defesa desses direitos? Eu acho que a ascensão de Bolsonaro, sem qualquer alteração legislativa, já autoriza inúmeros tipos de violência, porque o discurso dele, ao longo de 30 anos, foi sempre um discurso de ódio contra as minorias. Então, eu penso que esse tipo de discurso, por si só, já autoriza. Quando você fala nas instituições, eu penso na democracia americana, que tem séculos de história e está bem firmada, e lá assumiu um candidato que flerta com a extrema-direita. Mas tem tido dificuldades em avançar em determinadas pautas, porque as instituições são sólidas e existe um equilíbrio na democracia americana. A democracia brasileira é um neném, de trinta anos. Por isso, tenho dúvidas que as nossas instituições tenham força para barrar as pautas de violência, de racismo, de ódio, de supressão de direitos. Só o tempo nos vai dizer se esta minha desconfiança tem sentido. Mas a verdade é que eu não tenho essa confiança nas instituições democráticas do meu país. Durante a campanha, eu e muitos amigos, colegas de faculdade e outros escritores, estávamos assustados com o clima de medo que estava sendo criado, até pelas manifestações públicas do candidato. Mas a verdade


© Valdizio Soares

O Nordeste é o reduto dessa mobilização? O Nordeste é o reduto dessa luta. É o nosso quilombo. Se aquilombar significa recolher-se, em determinada área, para se firmar enquanto grupo e resistir às investidas dos adversários. Então, nós vamo-nos aquilombar no Nordeste, e onde houver espaço no Brasil, para enfrentar, de forma democrática, o que vem por aí. Exigiremos, dentro do Estado de Direito Democrático e no respeito pela Constituição, o nosso direito de fazer oposi-

ção e de criticar o Governo. Não abriremos mão da nossa liberdade.

Para terminar, já tem o próximo romance na cabeça? Já tenho o próximo romance na cabeça, e, agora que passou esse período eleitoral, acho que vou conseguir dedicar-me a ele.

Dá para levantar, um pouco, o véu? É uma história sobre dois homens, que se conhecem e têm um passado nebuloso por trás deles, e que fala sobre a Igreja, e... não vou falar mais. (Risos).

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é que ele foi eleito, e em nenhum momento nos passou pela cabeça contestar o resultado dessa eleição. Foi o que o povo decidiu. Mas a democracia vai exigir muito de nós, muita mobilização, muita consciência, até da comunidade internacional, que terá de estar de olhos bem abertos para o que vai acontecer, aqui. Por outro lado, apesar da vitória, Bolsonaro não foi aclamado. O segundo colocado teve uma votação muito expressiva. Então, ele terá de governar com cautela, e para todos os brasileiros. Por isso, eu, que ontem tinha muito medo, sinto-me muito corajoso para enfrentar o que vem por aí.


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CADA CIDADE TEM OS SEUS CHEIROS, AS SUAS PECULIARIDADES, OS SEUS HABITANTES COM OS MAIS DIVERSOS HÁBITOS.

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ISSO DEU ORIGEM A UM NOVO TIPO DE TURISMO, UMA NOVA TENDÊNCIA, O “PEOPLE WATCHING”.

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...E EM MENOS DE NADA AS VISUALIZAÇÕES COMEÇARAM A DESCER... ERA PRECISO FAZER ALGO DIFERENTE, DE ESTENDER OS LIMITES... DE IR MAIS ALÉM.

OLHA O SENTINEL POSTOU OUTRO CLIP...

...MOSTRAR ALGO NOVO, MAIS ÍNTIMO, ÚNICO, EMOCIONAL, ESTAVA NA ALTURA DE MUDAR AS REGRAS... NO FINAL É TUDO SOBRE AS VISUALIZAÇÕES, ESTAR NO TOPO.

O QUE SERÁ DEST... UM GAJO ENFORCADO?!!

HOJE EM DIA AS PESSOAS SÓ OLHAM PARA OS ECRÃS, JÁ NÃO CONSEGUEM VER NADA.

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ESTE GAJO ESTÁ A FICAR MESMO BOSS... MAS COMO É QUE ELE DESCOBRE ESTAS CENAS???


MAS COMO DEVEM CALCULAR NEM TUDO ME CORREU SEMPRE BEM...

ORA, ORA... QUE TEMOS AQUI?

ENTÃO GOSTAR DE VER E FILMAR, DA? MAS NÃO GOSTAR PAGAR?

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HUM... NIKOLAI, DIMITRI, ACHO QUE ELE ESTÁ A VER SE ESTRAGAR NEGÓCIO... HUM... AQUI NIKOLAI VAI EXPLICAR... DA?

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DEPOIS DISTO LEVEI ALGUM TEMPO PARA VOLTAR À AÇÃO, FOI ATÉ CONSEGUIR SUBSTITUIR O EQUIPAMENTO DESTRUIDO, E SOBRETUDO ATÉ ME CONSEGUIR LEVANTAR DA CAMA DO HOSPITAL...

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...MAS NUNCA DESISTI, E AGORA JÁ NINGUÉM ME VOLTA A APANHAR... SIM PORQUE NÃO SEI SE JÁ VOS TINHA DITO, MAS ESTA É A MINHA CIDADE, E EU SOU O REI DAS VISUALIZAÇOES!!!


Postais Perdidos

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por JoĂŁo Albuquerque Carreiras


El Chaltén, Patagónia, Argentina 28-XI-08 Meu caro Como bem sabes, nunca me imaginei a fazer trilhos ou caminhadas, mas o destino gosta de brincar connosco e dei por mim no meio de um parque natural a fazer sozinho uma trilha por montes, vales e lagoas. A proximidade de El Chaltén, e do mítico monte Fitzroy, criou uma espécie de íman e eis-me atirado para uma trilha - fácil, é claro - no paraíso dos maluquinhos das caminhadas, todos apetrechados com o último grito da roupa de montanha e uma variedade impressionante de gadgets. Valeu a pena. Não apenas porque a alma não é pequena, valeu mesmo a pena caminhar por entre os bosques de lenga, cruzar riachos gelados e descansar à beira de uma lagoa cristalina. Sempre com o Fitzroy em vista e os glaciares a caírem montanha abaixo. Como que compreendo agora melhor esta coisa das caminhadas. Moderadamente, claro, pois isso de penar até ao sofrimento, em nome sabe-se lá de quê, não me parece nada interessante, mas seguir tranquilo de cabeça vazia com a natureza por companhia deixa uma notável sensação de paz. Nada como uma viagem para descobrirmos prazeres antes ocultos. Termino o dia em El Chaltén, que bem poderia ser o cenário de um western moderno com as pistolas substituídas por bastões de caminhada com que os duelistas se bateriam, em vez de jeans, botas e coletes, as calças térmicas, corta-ventos e sapatos de caminhada. Uma terra que imagino desabitada, com ruas desertas cobertas por uma densa nuvem de pó levantado por um vento muito próprio, não estivesse situada mesmo em frente a este maravilhoso parque natural sempre pontuado pelo Fitzroy, esse enorme dente virado ao céu. A Patagónia é muito isto.

Grande Abraço,

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João


A NOITE não é ETERNA Ana Cristina Si Silva ilvaa

Rom Romance vencedor do Prémio Pr Literário

Fernando Namora Ferna 2017 Uma grand grande história passada na Roménia de Ceausescu Ceausescu, combinando magistralmente realidade e fi ficção. No âmbito de um projeto em que so soldados são treinados desde crianças, um ambicioso funcionário do partido dec decide entregar o próprio filho de três anos a aos cuidados do Estado, perante peran o desespero da mãe que não vai desistir d até recuperar a criança, mesmo que a sua missão implique a mesm morte de quem lhe é mais próximo mort e do d próprio ditador de um regime no auge da maldade.

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Descubra-o nas livrarias ou em m www.leyaonline.com


Terra das Mulheres [155]

por Itamar Vieira JĂşnior


Ao ler as justificativas para a outorga do Prêmio LeYa 2018, fui confrontado com a centralidade do papel das personagens femininas na obra escolhida. Foi destacado pelo júri “a ênfase nas figuras femininas, na liberdade e na violência sofrida sobre o corpo num contexto dominado pela sociedade patriarcal”. Ler sobre seus escritos, a partir do veredicto de um júri qualificado, é quase sempre revelador: consegue-se contemplar pontos que por vezes passam despercebidos em nossos trabalhos. Nem sempre a construção narrativa de uma história por seu autor, no seu íntimo processo de criação, contempla, enfaticamente, o que se revela aos olhos do leitor. O mesmo protagonismo feminino desponta em muitos dos contos que publiquei: Alma, Foi, a narradora que procura pelo filho desaparecido da coletânea Dias, Rosa, Doramar ou a fictícia voz sacramental e feminina que acompanha e assombra o artista plástico Arthur Bispo do Rosário, são alguns exemplos. Refletir sobre o protagonismo das mulheres em meu trabalho me parece fácil. Quando observo a minha formação familiar, a resposta está dada: as grandes personagens que me cercaram e imprimiram suas marcas em minha vida são mulheres; os homens quase sempre eram sombras pálidas da força e vitalidade das que os acompanhavam. Olhando para minha estante, reflito sobre o mesmo protagonismo feminino, sobre o qual fui instado a refletir, que desponta na obra de Jorge Amado. Gabriela, Teresa Batista, Tieta do Agreste e Dona Flor são algumas das personagens que levaram a imagem e a alma da Bahia para o mundo. Uma Bahia que transpira força e feminilidade, num notável contraponto à sua sociedade profundamente patriarcal. Dados recentes dizem que o Brasil concentra 40% de todo o feminicídio que ocorre na América Latina. Pelos poucos lugares do mundo onde pude estar, fora de meu País, as personagens amadianas são, sem dúvida, a representação mais disseminada e presente de nossa identidade social, mesmo passado tanto tempo de suas publicações. O protagonismo da mulher na sociedade baiana foi e continua a ser objeto de estudo em inúmeras áreas do conhecimento, em especial nas ciências sociais, e com mais ênfase na antropologia. Pensar no protagonismo das mulheres na Bahia e não pensar na pesquisa de Ruth Landes (1908 – 1991) seria uma grande injustiça. Landes, uma antropóloga norte-americana que desembarcou em Salvador na década de 1930, escreveu e publicou a obra A cidade das mulheres hoje um clássico da etnografia de gênero e raça. O livro, apresentado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1947, foi traduzido e publicado no Brasil apenas 20 anos depois. Na obra, Landes, que chegou à Bahia com o intuito de realizar uma pesquisa sobre a vida da população negra, estabelecendo diferenças e convergências com a sociedade norte-americana, desenvolveu uma tese sobre o poder do matriarcado, principalmente nas religiões de matrizes africanas. Ela foi pioneira ao abordar os estudos de gêneros – vale destacar que foi orientada por Ruth Benedict – como categoria central na sua pesquisa etnográfica. Como era de se esperar, os estudos de Landes foram deixados de lado pela “excessiva” preocupação com as questões de gênero e pelo estilo narrativo “literário”, como pontuou o antropólogo Roger Bastide. Sua obra começou a ser reconhecida e valorizada com mais vigor apenas na década passada, com estudos, no Brasil e nos Estados Unidos, sobre suas pesquisas.

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Mas sobre o que se debruça a obra A cidade das mulheres? Landes, que a princípio pesquisaria a vida da população negra, foi levada a pesquisar o matriarcado nas casas de candomblés de Salvador. Naqueles espaços, inúmeros até os dias de hoje na cidade, as


mulheres eram matriarcas e sacerdotisas, donas de um poder quase inadmissível numa sociedade patriarcal. Esse poder advinha desta condição de mulher negra que, desde a África, assumiu o papel de trabalhadora e provedora da família. Elas também assumiram a criação de seus filhos longe de sua terra, numa época em que a sociedade escravocrata desagregava os laços de parentesco de suas comunidades para evitar que, unidos, derrotassem o sistema. Em seu estudo, Landes incluiu também, de forma tímida, os homossexuais masculinos que, quando líderes, gozavam de poder e status semelhantes aos das mulheres. Para nós, nascidos e criados com as histórias da cidade, o poder que as mulheres negras detêm nos espaços que formam o grande mosaico que é Salvador não surpreende. Basta lembrar as inúmeras yalorixás (sacerdotisas dos candomblés) que deixaram sua marca na vida e história do lugar: Mãe Aninha, Mãe Senhora, Mãe Menininha do Gantois, Mãe Olga de Alaketu e Mãe Stella de Oxóssi – a única dessas grandes mulheres ainda viva. Todas, se não me engano, sem exceção, figuram como personagens – com seus nomes e personalidades – na obra de Jorge Amado. O poder nos muitos dos grandes “templos” do candomblé, como o Terreiro da Casa Branca, o Terreiro do Bogum, o Ilé Axé Opo Afonjá e o Terreiro do Gantois – todos ativos – passou por uma linhagem de mulheres que se sucederam ao longo dos séculos. Elas detinham o poder da vida e da morte na sua comunidade, conduziam a vida de filhos e filhas-de-santo nos dogmas de suas crenças. Curavam enfermidades do corpo e do espírito, manipulavam o “axé” – a energia vital da vida -, protegiam e guiavam o povo-de-santo nas questões políticas, nas questões ligadas à vida pessoal e à cidadania. Tiveram um papel crucial na sobrevivência da cultura diaspórica, porque, durante muito tempo, as religiões de matrizes africanas foram criminalizadas pelo Estado brasileiro; Jorge Amado, quando deputado federal em 1945, foi o autor da lei, ainda em vigor, que assegura o direito à liberdade de culto religioso. Mesmo com toda a violência estatal do passado, e hoje, com o crescimento da intolerância religiosa, muitas vezes incentivada pelos discursos de ódio de líderes de igrejas neopentecostais, as mulheres que lideravam e lideram esses espaços de resistência na cidade conseguiram atravessar o tempo, com a autoridade e a importância que já as distinguiam no passado. O poder dessas mulheres nunca esteve restrito apenas ao espaço dos terreiros de candomblés, mas por toda a cidade. Elas usaram-no para exercer a diplomacia, com o prestígio que adquiriram, e conduziram lutas fundamentais para a diminuição do racismo e da intolerância religiosa, de gênero e orientação sexual. Dotadas de sensibilidade e coragem, fizeram e continuam a fazer a diferença, transpondo barreiras que circunscreviam suas identidades e culturas aos guetos que lhes eram destinados. Hoje, esse poder, que se multiplica, extrapola as fronteiras do candomblé e se estende às mulheres que lideram associações de bairros, comunidades quilombolas, projetos culturais, políticos e de cidadania. Elas protagonizaram o evento político mais marcante deste ano, quando foram às ruas se opor ao retrocesso que representa o discurso de ódio e preconceito propagado pelo presidente eleito.

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A fascinação que a subversão da ordem vigente causou em Landes continua em nosso tempo. Não foi com espanto que percebi a força desta terra das mulheres protagonizando o meu universo criativo.


Helena Corrêa de Barros Fotografia, a minha viagem preferida

PT/AMLSB/HCB/001/000108

por Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico

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Leisure [Lazer. Década de 1950]


Apesar do foco da sua objetiva ser a família e as viagens, Helena Corrêa de Barros, casada com Eduardo Costa Lobo Corrêa de Barros (1912-2000), e com quatro filhos, dedicou-se também ao foto-clubismo participando, entre 1953 e 1959, em salões de fotografia. Foi sócia do Foto Clube 6x6 e apresentou as suas fotografias a preto e branco em diversas exposições e concursos, e as suas imagens foram editadas em muitas revistas de fotografia da época. Poucas mulheres expunham os seus trabalhos publicamente e participavam em encontros e excursões fotográficas promovidas pelos foto-clubes. Helena Corrêa de Barros dedicou-se e apresentou fotografias de qualidade nas exposições e projeções de imagens em que participou, sendo referenciada nos respetivos catálogos e boletins. Em 1955, escreveu um artigo para a revista Fotografia: Revista ao Serviço da Arte Fotográfica para a rubrica “ A minha fotografia preferida”: «Desde pequena que a fotografia foi para mim o passatempo mais agradável. Nunca fiz nenhuma viagem sem levar a máquina comigo e, muitas vezes, o prazer maior era o de poder tirar fotografias: se, por qualquer motivo, me não era possível fazêlo, o passeio não tinha para mim o mesmo encanto. No entanto, só fazia fotografia documental ou descritiva das viagens, de flores e plantas, mais tarde dos meus filhos, sem me preocupar grandemente com a perfeição; só há pouco mais de um ano comecei a interessar-me pela “Fotografia de Salão” ou “Artística”. Talvez devido à grande dificuldade que lhe encontrei, esta modalidade passou a interessar-me mais do que a fotografia a cor, à qual me dedicava quase exclusivamente nos últimos anos. Agora prefiro as fotografias que representam um “Momento Único” devido a movimento, efeito de luz ou posição… pois essas são as imagens que SÓ A FOTOGRAFIA PODE REALIZAR. Conseguir um momento desses,

aliando a beleza à boa técnica, constitui o ideal em fotografia. Esses momentos são relativamente raros e aparecem por sorte, mesmo quando andamos à procura deles e será por isso que esta fotografia é a minha preferida. Andava justamente à procura de assunto quando reparei neste bando de pássaros e sempre com a máquina fotográfica ia focando à medida que me aproximava para disparar no melhor momento: neste caso o melhor momento surgiu quando o meu cão entrou inesperadamente em cena e pôs o bando de pássaros em “Debandada”. Esta fotografia foi tirada bastante perto com uma objectiva de 5 cms Summarit, diafragmada a F8, a 1/200, e foi admitida nos seguintes Salões: Montemor-o-Novo, Amsterdam, C.U.F., Barreiro, Bordeus, F. C. 6x6, Lisboa, Saragozza (reprodução no catálogo), Igualada (Barcelona) 2º Prémio, e rejeitada, unicamente, no Grupo Câmara, Coimbra, 1954.» Fotografia: Revista ao Serviço da Arte Fotográfica. Lisboa. A. II N.º8 (Fev.-Mar.1955), p. 14. A exposição traz a público o fundo de família produzido pela fotógrafa Helena Corrêa de Barros doado ao Arquivo Municipal de Lisboa pelos filhos, em 2003. Este conjunto é constituído por álbuns, negativos a preto e branco, provas a preto e branco de vários formatos e diapositivos a cores e já se encontra disponível ao público para consulta online através da base de dados do Arquivo Municipal de Lisboa:

A qualidade das imagens e o seu olhar atento despertou na equipa do Arquivo o interesse pela autora e a revelação pública do seu trabalho foi unânime tanto para a família como para a instituição. A exposição apresenta dois núcleos. O conjunto de imagens digitais a cores, de 1947 a 1972, a partir de diapositivos Kodachrome numa sequência cromática referenciada por espaços distintos, das suas diversas viagens e por uma história pessoal. A presença do contorno negro do diapositivo nas fotografias a cores assinala as épocas diferenciadas do caixilho de cartão para assim criarem uma cadência de imagens, tal como numa projeção de slides. Os títulos apresentados são originais e estão inscritos

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Helena Margarida Buzaglo Abecassis Corrêa de Barros (1910-2000) foi uma fotógrafa amadora, que iniciou a prática fotográfica com o seu pai, Fortunato Abecassis (18751940), ainda jovem, por volta de 1925. A partir daí nunca mais deixou de fotografar. Começou a fotografar a preto e branco e organizou alguns álbuns, tendo também optado pelo registo fotográfico diapositivo a cores, maioritariamente com a película Kodachrome, de 1947 a 1998. A autora fotografava temas como a família, as viagens e a paisagem. Muitas destas imagens apresentam enquadramentos inovadores, com pontos de vista modernos e frequentemente inusitados e surpreendentes.


nos caixilhos e agora transcritos para que a presença da autora seja sempre uma referência na exposição. No conjunto de imagens a cores a presença do meio aquático é constante. A água é um elemento que representa as várias viagens náuticas e também momentos de lazer. As fotografias apresentam um olhar contemporâneo. O outro núcleo está representado por uma seleção de provas originais a preto e branco (gelatina e prata, cloro brometo), havendo algumas que participaram em concursos e exposições de fotografia, entre 1953 e 1959. Neste conjunto de imagens, encontram-se representados vários temas da fotografia de salão tais como a pesca, o trabalho agrícola e momentos pitorescos das aldeias portuguesas, num olhar pautado pela sua época. Há também fotografias deliberadamente compostas e ensaiadas numa atitude criativa e inovadora. O catálogo da exposição já está disponível ao público com as imagens da exposição e os textos dos investigadores do Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico: Luís Pavão, Otília Esteves e Paula Figueiredo Cunca e Filipa Lowndes Vicente (ICS/UL – Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa). Os textos apresentam a biografia da autora, o seu trabalho a cores, a sua participação nos salões de fotografia e o seu contributo enquanto mulher fotógrafa, tal como referenciam alguns excertos citados: «É retratada como uma mulher à frente do seu tempo, com um espírito aberto, sempre pronta a organizar ou impulsionar projetos quer fossem de beneficência, cultura ou arte. Um dos aspetos marcantes do seu caráter é sem dúvida a tolerância, o espírito cívico e o humanismo [...]» Otília Esteves, Helena Corrêa de Barros, p.12 «Numa abordagem sempre coerente e ponderada, as muitas imagens evidenciam contrastes cromáticos e relações de equilíbrio das formas, numa acuidade técnica, própria de quem quer fotografar bem[...] A autora reconheceu na fotografia a cores o futuro da técnica, com o seu uso durante décadas, elegendo, na maioria dos seus registos, uma película que ficaria na história da técnica fotográfica – a Kodachrome [...]»

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Paula Figueiredo Cunca, Luz e Cor num olhar feminino inovador, p.19

«Foi um grande estímulo para Helena que enviou logo nesse ano a mesma prova para vários salões. A mesma fotografia foi publicada no boletim da terceira Exposição Fotográfica do Foto Clube 6x6, em janeiro de 1955 e foi referida por Manuel Alves de San-Payo a propósito da III exposição fotográfica do foto clube 6x6. [...]» Luís Pavão, Helena Corrêa de Barros e o Foto clubismo, p. 111. «As mulheres podiam pintar, escrever e mesmo fotografar e, por vezes, até eram encorajadas nesse sentido, quando pertencentes a um meio social onde havia tempo e dinheiro para o lazer. Mas deviam fazê-lo no interior desse espaço doméstico e familiar, onde não havia transações comerciais, exposição e reconhecimento público ou o escrutínio da crítica especializada. A profissionalização e o prestígio tendiam a ser sinónimo de masculino; o amadorismo, sem pretensões à afirmação do nome no campo artístico ou literário, e a domesticidade lúdica confundia-se com o feminino.» Filipa Lowndes Vicente, A fotografia como autobiografia: Helena Corrêa de Barros, mulher-fotógrafa, p. 120. Na Sala de Leitura do Arquivo apresenta-se também uma Mostra Bibliográfica de periódicos da década de 1950, na qual se encontram alguns títulos com referência à fotógrafa Helena Corrêa de Barros. O programa educativo da exposição inclui uma atividade para alunos do pré-escolar e do 1º ciclo com o título “MALA DE CARTÃO… para as minhas viagens preferidas”, todos os dias, às 14h30; uma visita guiada com os investigadores para o público adulto, dia 16 de janeiro, às 15h, e duas projeções de imagens: 9 de janeiro, às 14h, uma projeção com slides originais Kodachrome e 6 de fevereiro, às 14h, uma projeção de imagens a preto e branco a partir dos negativos originais. Com a exposição do trabalho fotográfico de Helena Corrêa de Barros, ainda pouco conhecida, temos a oportunidade de apresentar um valioso conjunto de imagens de qualidade e interesse, bem como um contributo feminino para a história da fotografia em Portugal. A exposição estará patente ao público no Arquivo Municipal de Lisboa/Fotográfico na Rua da Palma, 246, até dia 23 de fevereiro de 2019, de segunda-feira a sábado, entre as 10h00 e as 19h00. Telefone: 213 807 150/4 E-mail: arquivomunicipal@cm-lisboa.pt


PT/AMLSB/HCB/001/000001 PT/AMLSB/HCB/001/000112

Simplicidade [Década de 1950]

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Envolée. Debandada, 1950


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PT/AMLSB/HCB/008/001346

Lavra da terra

Sologne, grupo na caรงada. [1972]

PT/AMLSB/HCB/001/000099


Passeio… [Suíça. 1968]

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PT/AMLSB/HCB/007/000968

Suissa. Julho 1948

PT/AMLSB/HCB/008/001532


PT/AMLSB/HCB/007/000804

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PT/AMLSB/HCB/008/001325

La piscine. Rue S. Bernardo. [1950]

Madeira. 26-XII-71


PT/AMLSB/HCB/007/001009

Cruzeiro às Canárias. Madeira. [1962]

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PT/AMLSB/HCB/007/000957

Chegada do Presidente. [Presidente Américo Tomaz. 1963]


Noise Indie Fest O sonho de uma geração por João Moreira

Noise Indie Fest

“É preciso ousar jogar tudo para ser belo, sair do casulo para procurar o entendimento e também o terror das melodias perfeitas, e, finalmente, voltar as costas aos ruidosos síndromas do Rock para enfrentar uma nova nobreza da música.”

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Miguel Esteves Cardoso, in Escrítica Pop


Em Viseu, o The Day After fazia furor como a maior discoteca do país, e, assim que a idade o permitiu, António, Luís, Nuno, Renato e Jorge passaram a escapulir-se aos fins-de-semana, para dançar ao som das bandas que antes ouviam em casa, à socapa: New Order, The Stone Roses, The Jesus and Mary Chain, Happy Mondays, Pixies, Sonic Youth - o paraíso da música alternativa, no célebre xadrez da pista de entrada. Em pouco tempo, dominavam a onda, e Nuno Baptista, o mais curioso musicalmente, passou da pista à cabine, e virou o DJ dos adolescentes do indie rock. Era a recompensa pelo dinheiro amealhado para comprar discos e BD’s, as suas duas paixões. Em Paredes de Coura, o Festival, iniciado por um grupo de miúdos, quase da mesma idade, começava a ganhar dimensão e a trazer ao país muitos dos ídolos musicais que até então só se ouviam em vinil. E Agosto passou a ter só um sentido - Norte - . Luís Carvalho não esquece o concerto diluviano de Morrissey, que termina com a saída inusitada do ex-The Smiths, a meio de Panic, nem António Luís Simões, os mergulhos nas águas gélidas do Rio Coura. O sonho de, um dia, organizarem algo assim no interior do país nunca mais desapareceu. Ao relembrar esses tempos, Luís, que, por essa altura, agenciava as bandas alternativas

Sapere Aude e Huckleberry Finn, não hesita: “Sabíamos que havia espaço para desenvolvermos um projecto de música alternativa no Interior. Viseu, muito por causa do The Day After, primeiro, na pista de entrada, e, depois, no Bar Americano, criou um vastíssimo público indie rock, que atingia diversas gerações, e que, entretanto, deixou de ter um espaço para ouvir a música de que gostava.” António corrobora: “Começámos a ver as bandas de que gostávamos a vir ao nosso país, mas nunca ao Interior, e isso era algo que nos incomodava”. Já regressados dos estudos universitários, e com a vida organizada, Luís e António seguiram as pisadas de Nuno, e, mais por carolice do que com qualquer intuito profissional, começaram a passar música em conjunto. Os Dj sets agradaram tanto que foram mobilizando um público, cada vez maior e mais fiel. Quando decidiram convidar Nuno, o DJ da malta indie, dos tempos de juventude, a combinação resultou perfeita. Parecia que tinham nascido para passar música juntos. “A primeira vez que os ouvi pensei, quem seria aquele gajo que passava melhor música que o Luís e o António”, brinca Renato Gomes, realçando, em seguida, o entrosamento incrível que se sente ao ouvi-los. O sonho de juventude parecia começar a ganhar contornos de realidade. Os encontros musicais dos três repetiram-se, sempre com um sucesso crescente. Daí à ideia de desenvolver um projecto mais ambicioso, foi um salto. Nascia o Noise Indie Fest. “Passar música nunca foi o nosso objectivo. Passamos, porque gostamos, e porque nos sentimos unidos a partilhar o mesmo som. Mas sempre ambicionámos mais.” – António não tem grandes dúvidas acerca do caminho a trilhar. – “Com o Noise Indie Fest, queremos oferecer a Viseu, e ao Interior, a possibilidade de ouvir boa música, num espaço digno, com um som irrepreensível, um bom line-up e uma produção profissional”. Renato perito em marketing, e o homem a quem está entregue a comunicação do Noise, sabe que não estão a inventar nada. – “O conceito que definimos não é inovador para o país, mas é inovador para o Interior Centro, e para a cidade.”

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O gosto pela música nasceu-lhes dos sons ouvidos à socapa, por entre portas fechadas, atrás das quais irmãos mais velhos juntavam amigos para partilhar religiosamente as novidades chegadas de Londres. Eram novos de mais para fazer parte do grupo, mas sentiam-se integrantes de uma visão estética de mundo, que extravasava a música, mas era marcada por ela. Adormeciam ao som das elegias de Vini Reilly, da melancolia tranquila de Bernard Sumner, e da tristeza e da raiva angustiantes de Ian Curtis. De manhã, na escola, junto dos colegas, sentiam-se parte dos eleitos, desdenhando dos hits do momento, que entorpeciam os corações das raparigas da sua idade. Para eles, a música era uma religião, que não abria espaço a não crentes. Por essa altura, The Queen is Dead ainda andava nas bocas do mundo e Morrissey era o ídolo de uma geração.


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Mas, afinal, o que pretende ser o Noise Indie Fest? É Nuno, o “especialista musical” do grupo, que responde – “O Noise, mais do que um grupo de amigos que passa música alternativa, pretende ser o motor de divulgação de um certo estilo musical, que se tem reinventado, ao longo das últimas décadas. Queremos ter um programa de rádio online, onde regularmente passaremos em revista o que de melhor se vai fazendo musicalmente, por esse mundo fora; queremos organizar concertos regulares de música indie rock, como disse o António, num espaço digno para o efeito; queremos organizar mini sessions de DJs; queremos ajudar bandas novas que se queiram lançar; e, finalmente, queremos, se assim for possível, organizar um festival de indie rock, na cidade.”

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Para já, o Noise Indie Fest juntou perto de mil pessoas, em dois eventos organizados no final de 2018, e tem a ambição, para o ano que agora começa, de programar um concerto com bandas, no início da Primavera. Até lá, é preciso continuar o trabalho de comunicação direccionada, que Renato tem desenvolvido, acreditar nos contactos com produtoras, levados a cabo por Jorge Coelho, e dar voz à Rádio Noise, que Nuno ambiciona transformar numa pequena KEXP, a famosa rádio de música alternativa, de Seattle. Parece fácil, e é, assim haja vontade e determinação, e isso é coisa que não lhes falta.


Sérgio Amaral O regresso à arte do negro primitivo por Bruno Esteves

Ao longo da estrada de terra batida, que nos leva ao atelier de Sérgio Amaral, escondido no meio de um pinhal, estão espalhados diversos matarrachos, as peças em barro negro, de formas peculiares, que se tornaram o pilar do seu trabalho. A poucos quilómetros de Mangualde, em Santa Luzia, onde nasceu em meados do século passado, Sérgio Amaral recebe-nos à porta, com roupa de trabalho e tenaz na mão. “Chegaram mesmo na hora. Vou tirar do forno eléctrico 4 esculturas.” – dispara em tom de cumprimento, enquanto avança apressadamente para o interior. Desengane-se quem espera encontrar um espaço arrumado, com as obras expostas. O atelier de Sérgio Amaral é o seu local de trabalho, e uma espécie de antiquário desorganizado, onde se misturam móveis de diferentes épocas, obras do autor, ferramentas de trabalho, peças inacabadas, fornos eléctricos, fornos a gás, brinquedos tradicionais, área de pintura e um pequeno anfiteatro virado para a zona onde procede à cozedura primitiva do barro, a soenga.

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“Vou fazer uma sessão de negro no forno eléctrico. Não sei se sabem, mas há várias formas de fazer o negro. O negro primitivo que é na soenga. Depois, há uma série de processos que se podem realizar com outros meios, que não sejam os mais primitivos”.

Sérgio não pára. Enquanto conversa connosco, e vai dando opiniões a outros dois artistas, que utilizam o espaço para criar as suas obras.


Este meu gosto começou há mais de 40 anos. Vem do princípio dos anos 80. Na altura, a minha mulher não tinha carta de condução, e era professora numa escola, que ficava do lado de lá do Caramulo. Eu ia, todas as segundas feiras, levá-la à escola, e ia buscá-la à sexta-feira. Nestas viagens, passava em Molelos, e via trabalhar aqueles oleiros tradicionais, pessoas muitos idosas, já com algumas dificuldades em continuar com a actividade. Nessa altura, acabei por me entusiasmar pelo trabalho em barro, pois já estava ligado às artes, nomeadamente à pintura. Verifiquei que, ali, existia uma enorme lacuna na continuidade da actividade, e esse entusiasmo levou-me a começar a trabalhar na roda e, posteriormente, a fazer as minhas cozeduras, pelo processo tradicional da soenga, em que se cava um buraco na terra, onde se colocam as peças. É um processo lindo e bastante primitivo. Depois, foi toda uma evolução, que passou pelo Raku e pelas queimas alternativas da cerâmica.

O que é que te inspira para a concepção das tuas peças? Depende. Sou muito influenciado pelo meio, pelas minhas vivências interiores, dúvidas, preocupações e anseios. A minha fonte inspiradora tem muito a ver com as minhas inquietudes interiores e com tudo aquilo que me rodeia e me preocupa. Por isso, ao longo dos anos, tenho feito algumas exposições que levam as pessoas à reflexão. Exposições que são muito interactivas com a sociedade.

Com trabalhos de pintura, olaria e cerâmica, já estiveste presente em mais de 50 exposições, individuais e colectivas. Como foi esse caminho, que te granjeou esse reconhecimento nacional e internacional? Bom, isso é um processo natural. Tu trabalhas, e estás a trabalhar, para ti. Não estás a trabalhar para ninguém. Depois, começas a ser solicitado para expor em feiras, em galerias. Surgem particulares que começam a querer e a desejar ter o teu trabalho. Depois, naturalmente, aparecem os meios de comunicação a quererem saber um pouco mais, o porquê das coisas...

Já passaste por várias fases de criação artística. Fala-nos um pouco dessa evolução. Essa evolução tem sido tão natural que eu

próprio não me tenho dado conta. Mas sim, é uma evolução. E nota-se na parte estética das formas, mas também na parte técnica dos materiais, que talvez se deva à minha permanente procura de novas soluções, sempre relacionadas com a base primitiva do negro, das reduções, das carbonações. Sempre nesse sentido. Não existe aqui incoerência da minha parte. Ao longo destes anos, o meu trabalho tem sido sempre fundamentado no primitivo, levado até ao limite. Eu penso, sem querer ser pretensioso, que domino todas as técnicas de redução e carbonação.

Explica um pouco essa técnica primitiva que usas para criar as tuas peças. Vou recolher o meu próprio barro, num barreiro que tenho em Oliveira do Hospital. Trago o barro para o atelier onde estamos, deixo-o secar, amasso-o, retiro-lhe as impurezas, etc., até ao momento em que o possa trabalhar. Depois, dou-lhe uma primeira cozedura. Mas antes disso, ainda tenho de esponjar as peças, lixar as peças soprar as peças. É depois que dou a primeira cozedura, a chacotagem a 940 ºC. Eventualmente, logo após essa cozedura, pode-se dar um primeiro acabamento. Mas depende sempre do barro. Quando não uso o processo primitivo, uso este forno a gás [ de onde retira uma escultura acabada de cozer ], onde faço a primeira cozedura. Depois, retiro as peças e envolvo-as em serradura, e a absorção do fumo dá-lhes o aspecto negro que todos conhecemos. É o carbono. As peças ficam prenhes de carbono. Nos processos mais elaborados, dou-lhe a primeira cozedura e, depois, construo umas formas químicas para vidrar os trabalhos. Mas nestes casos, do Raku, os trabalhos têm uma forte composição de óxidos, e, na carbonação os óxidos ficam bastante salientes. O processo é interrompido através de um choque térmico, mergulhando as peças em água. O barro tem de ser próprio para esse choque térmico. É um barro que tem muita areia, muito chamote. É um barro pobre, na medida em que não tem muita plasticidade, mas tem a capacidade de aguentar diferenças de temperatura muito elevadas. É exactamente a técnica que está a utilizar. As peças saem do forno, em brasa, e Sérgio enterra-as em serradura, que, por momentos, incendeia. Depois de bem cobertas, ficam por alguns minutos, para que a absorção do fumo lhes dê o negro pretendido. Depois, retira-as e mergulha-as em água. O processo tem algo de místico e encantatório, que a penumbra, em que está mergulhado o atelier acentua.

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Como começou o teu gosto pelo trabalho com barro?


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Todas elas marcam. Quando te desfazes de qualquer peça, parece que estás a entregar um pouco da tua alma. Isso é sempre difícil. Um trabalho que me marcou muito, e nem tem muito a ver com os matarrachos, tem mais a ver com estruturas metálicas, com cabeças, foi aquele que fiz no Brasil, ao longo de 3 meses, de muitas sinergias com artistas brasileiros.

Em Paraty? Como foi essa experiência? Sim, em Paraty, no Brasil. Essa experiência surgiu através de um convite para participar num congresso, feira, exposição anual de cerâmica, que já se realiza há uma série de anos. Eu participei em 2013. Fui convidado para esse certame, e eu próprio lancei o repto, a todos os artistas de Paraty, a todos os ceramistas, de construirmos uma escultura para a cidade. Todos contribuíram para a execução do projecto, e foi espectacular.

Essa experiência de partilha, de trabalho em colectivo, de troca de ideias, estimula-te? Sim, sim, sempre! Ainda hoje continuo a ser o mesmo, ou seja, o meu atelier que me custou baba e ranho a construir, está disponível para todos os artistas que não tenham espaço e equipamentos para desenvolver projectos. Está disponível o espaço, bem como o meu conhecimento e experiência. Gratuitamente!

Idalécio, que intervém na conversa, é um exemplo dessa partilha. Eu sou um curioso nestas andanças. Sou mais criativo do que artesão. Aproveitei a cedência do Sérgio Amaral, aqui do atelier, para fazer umas peças. Já criava coisas novas, nos quadros, na pintura, nas peças em madeira, mas, depois, aventurei-me a criar peças em barro, porque têm outra plasticidade. Achei muito interessante, e adotei uma técnica diferente do Sérgio, que, aliás, ele já usou. Agora utiliza outras. Eu, com um pedaço de barro, faço uma transformação total. Como estas peças, que parecem um pouco complexas e fogem do tradicional. [ Com orgulho mostra uma série de peças que diz animadamente não lembrarem ao diabo ] . Vim apoiar o Sérgio, após o incêndio que por aqui lavrou, e senti isso como um desafio para fazer coisas novas e diferentes. Um desafio para espevitar, novamente. Todas as peças são feitas por mim, esboçadas por mim. Crio as minhas próprias peças. E o interessante é que sai tudo diferente do esboço. (Risos). Isso é que é interessante!

[Sérgio afastou-se, deliberadamente, para que Idalécio pudesse falar da sua arte, e, como que reforçando as palavras do amigo, mostra as peças, acabadas de terminar, ainda envoltas numa nuvem de fumo. Mostra uma, em particular, da autoria de Idalécio.] Apesar dessa repercussão nacional, continuas a não querer sair daqui... ...sem me preocupar absolutamente nada. Eu vivo e trabalho para me realizar e me sentir bem comigo próprio. É um meio de comunicação. O meu irmão, o Carlos Amaral, é escritor e exprime-se através da escrita. O meu meio de expressão é o que faço. É assim que tento levar às pessoas a minha forma de pensar e aquilo que sou. Primo pela verdade em tudo e em todos os momentos. Se me sinto mal, em determinado sítio, não disfarço, e as pessoas devem entender isso. Espero que me respeitem.

Sentes que o facto de viveres no interior do país prejudicou a tua carreira? Há um custo de ser artista no interior? Há um custo enorme, claro! Sei que, com o meu conhecimento desta arte, se estivesse mais perto das grandes cidades, teria outra projecção. Mas, por outro lado, retirava-me aquilo que eu não dispenso, a minha tranquilidade interior, a minha paz, o meu silêncio, que são absolutamente necessários para as minhas criações. Eu tenho de viver num ambiente zen, de paz.

És um eremita? No fundo, é isso. Muitas vezes, quando tenho momentos mais difíceis, em que me apetece desistir, a palavra que me vem à cabeça é, precisamente, eremita. É uma palavra que nos remete a um recolhimento interior, a uma reflexão, a um trabalhar da alma... Há momentos desses! Porque, quando trabalhas sozinho, tens momentos em que, por mais força que tenhas, acabas sempre por ir abaixo, e, nesses momentos, o que apetece é desistir e refugiar-me no meu cantinho.

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Tens alguma peça que te tenha marcado particularmente?


Black Friday, Black Market por João Júlio Rumsey Teixeira

Até ao século XIX os “bens de luxo” antigos ou carregavam um simbolismo, história ou sentimento especial ou eram geralmente descartáveis na forma e recicláveis nos materiais uma vez que, por maioria de razão, continham materiais nobres e por isso duradouros, escassos e caros. Não falo daquilo que era considerado Arte com letra grande mas sim do restante, que depois de apelidado de artes menores foi rebaptizado de artes decorativas e assim permanece por convicção de alguns e irritação de outros. Não é sobre esta interessante questão académica que escrevo, até porque o termo, na minha opinião, permanece correcto e justo, não deixando de notar que seria, a meu ver, bastante iluminado e educativo que muito mais obras de artes decorativas integrassem não só a história da Arte como o seu ensino académico em Portugal. O final do século XIX e o século XX marcaram a afirmação da importância das artes decorativas no mercado de antiguidades e de arte. O crescendo foi mais ou menos contínuo e até aos primeiros anos do novo milénio o interesse parecia não diminuir. Os interiores das classes acima da média encheram-se de móveis, tapeçarias, ourivesaria, bronzes, têxteis, vidros, porcelana e claro, pintura e - em Portugal menos que o desejável - escultura. O mercado antiquário floresceu em todos os seus segmentos até que um dia, quase inexplicavelmente (ou não) estagnou. Entre 2005 e 2010 os clientes foram desaparecendo, uns morrendo, outros retirando-se mas o fluxo de peças no mercado permaneceu. O mercado antiquário diminuiu drasticamente e quase todas as peças afunilaram em direcção ao mercado leiloeiro.

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O mercado do glamour foi regressando às origens, as leiloeiras deixaram de o ser e voltaram, sem dar por isso, a ser liquidadoras de mercadoria. “Não se vende, baixa-se o preço até se vender”. Assim funciona o mercado desde os anos da crise. Houve desvalorizações de 90%, tipologias de peças que pura e simples-

mente deixaram de ter compradores, como se de um dia para o outro não houvesse ninguém a gostar de cafeteiras D. Maria em prata ou de cómodas D. José de três gavetões em pau-santo. A porcelana chinesa de exportação quase se tornou um bibelot odiado e os pintores portugueses anteriores à primeira guerra mundial, salvo uma ou duas excepções, iniciaram a travessia do deserto, apelidados de provincianos, locais e, no mais leve dos defeitos, desprovidos de qualquer mérito. Este movimento é, nalguns campos, internacional e a mudança do gosto é uma realidade que afecta os preços de vários tipos de peças em todas as leiloeiras, notavelmente no mobiliário e na ourivesaria no que é, empiricamente, mais gritante para mim. Em relação à pintura os portugueses vêm sofrendo de um mal tradicional: “provincianite”. A cotação de mais de 95% dos artistas mundiais é local, apenas uma fracção faz parte do mercado internacional tendo compradores de várias nacionalidades interessados em pagar um preço alto em várias partes do planeta. A estafada desculpa de que, por exemplo, ninguém sabe quem é José Malhoa para lá de Badajoz tem verdade teórica mas a realidade é que quando o mercado interno foi suficientemente forte para catapultar os preços de venda para valores interessantes ele começou a circular no mercado internacional. Quase sempre vendido por portugueses para compradores portugueses mas negociado em Londres, assim foi nos anos 90 e 2000 e assim continuaria a ser se os valores continuassem a ser interessantes, como são por exemplo os da Vieira da Silva ou da Paula Rego. Não é só dimensão internacional que se perde com esta baixa de preços inconsequente. O mercado leiloeiro português tem-se asfixiado e mais parece um lento suicídio que só não deve ter esse nome porque é, aparentemente, inconsciente. Se se continuar a desvalorizar as peças em venda vai deixar de haver valor em circulação que justifique empresas com tantos funcionários, com peritos especializados (e caros), catálogos cuidados


O facto de um objecto ter sobrevivido 300 anos às vicissitudes da história, poder ser um testemunho de vivências sociais, culturais e políticas que são parte da nossa identidade actual é, só por si, um factor valorizador e uma experiência de grande prazer, mas esta simples mensagem não está a saber ser transmitida e é um desastre para o comércio de antiguidades. A magia das peças antigas é exactamente essa: serem o testemunho palpável da história; a materialização de tradições e disrupções estéticas e culturais, por vezes até mesmo sociais. Isto para não falar da beleza dos materiais e das formas, do exercício técnico e de perícia que muitos deles representam e que, em vários casos, não seria hoje possível recriar porque o know-how e a “mão” habituada a executá-los se perdeu totalmente. Os compradores não têm de ser todos entendidos em antiguidades, acho até saudável que não tenham de o ser, porque isso revela que têm confiança nos agentes do mercado. O actual desinteresse dos clientes nas artes decorativas e antiguidades apresentadas para venda em leilão passa, para além desta falta de comunicação, também muito por uma crise de confiança nos agentes do mercado. Isto é tanto mais verdade que os (poucos) grandes antiquários portugueses continuam a vender a preços bem diferentes dos leiloeiros e não perderam os seus negócios. O valor confiança é tudo num negócio deste tipo e as leiloeiras, ao desvalorizarem sem piedade ao longo de mais de 10 anos as mesmas peças, acabaram por perder parte desse activo fundamental.

Como se explica a um cliente que uma cafeteira D. José em prata valia 18.000 euros em 2005 e hoje iria a leilão por 4.500 euros? Como se explica que uma cómoda D. José que em 2001 valia 20.000 euros hoje não se venderia por 3.000 euros? São questões destas que, na voragem de manter facturações e da sobrevivência, ninguém quis pensar mas que agora é mais que tempo de ponderar. Tem havido tentativas de recuperar valor para o mercado leiloeiro em duas ou três casas em Lisboa e no Porto, algumas até têm sido bem-sucedidas mas como o mercado português é formado por várias pequenas empresas acontece várias vezes que, quando

uma tipologia de peças começa finalmente a revalorizar um pouco, há uma leiloeira que decide colocar peças dessa tipologia a um terço do valor por que ela se está a vender nesse momento nas outras casas leiloeiras. O mercado está demasiado frágil em termos económicos e de confiança para que bases de licitação muito abaixo da média sejam corrigidas pelo próprio mercado. As artes decorativas deixaram de ser oferecidas como peças de luxo, de prazer estético e de estilo; são hoje “mercadoria”. Acontece que o mercado de arte, como o da moda ou da decoração, não gosta de “mercadoria”. Se nem os agentes profissionais do mercado tratam as peças como algo especial porque haveriam os compradores de o fazer? Disse-me uma vez um grande antiquário da nossa praça, “uma vez tinha uma cómoda maravilhosa numa feira e não a conseguia vender, fui baixando o preço e continuava por vender, então no último dia da feira, em desespero, pus-lhe um preço absurdamente alto para aquela época e vendi-a logo!”. Para quem é entendido na matéria até pode parecer um excelente momento para comprar porque tem acesso a peças que de outra maneira seria muito mais difícil ou até impossível. Acontece que se o mercado perder toda a confiança e interesse por parte dos compradores particulares, decoradores e mesmo clientes esporádicos aí sim, ninguém vai interessar-se em pagar seja o que for pela antiguidade ou história de uma peça, seja um móvel, uma prata ou outra coisa qualquer. Isso já acontece em muitas peças de ourivesaria onde muitas obras com 100, 200, 300 anos, algumas com assombrosos trabalhos técnicos, são vendidas apenas pelo valor dos seus materiais a peso e nada mais. Se o conhecimento, por mais erudito que seja, se restringir a uma elite mínima os testemunhos materiais desse conhecimento só têm o valor económico que esse grupo lhe pode dar e se este for mínimo então não terá a mínima expressão económica. É este caminho de constante diminuição de valor que queremos seguir enquanto mercado?

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e descrições pormenorizadas porque, na verdade, a diferença de valor entre o verdadeiro e o falso não justifica grandes peritagens. É hoje recorrente e inconcebível que peças de época sejam vendidas pelo mesmo - ou menos!! - que cópias recentes desses mesmos modelos. Pode ser ignorância de quem compra mas também o é de quem vende.


Metropolis (1927), de Fritz Lang: o cinema como linguagem Universal por José Pedro Pinto

Fritz Lang a dirigir os figurantes de Metropolis

“O internacionalismo da linguagem fílmica irá tornar-se o mais poderoso instrumento para o entendimento mútuo entre povos, que de outra maneira têm tanta dificuldade em entenderem-se com tantas línguas. Conferir ao filme o duplo dom de ideias e alma é a tarefa que temos pela frente. Iremos concretizá-la!”

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Fritz Lang, 1926


Nessa crítica, Wells censura o irrealismo dos aviões e carros que percorrem a cidade serem modelos contemporâneos, cita o Censo Britânico de 1901 e outros estudos sociológicos para atacar a estratificação vertical de Metropolis, e fala de um futuro utópico em que é impossível conceber o trabalho rotineiro dos homens que habitam as camadas inferiores da cidade do filme (ORGAN, 2011). O interesse de Wells pela ciência e pelo estudo social é muito evidente na sua crítica – Metropolis tinha para ele interesse apenas como um meio de comunicar às massas as antecipações científicas que os estudos contemporâneos previam, talvez como os seus próprios livros de ficção científica. É uma abordagem perfeitamente válida, mas completamente infrutífera no caso de Metropolis. Para citar apenas dois exemplos contemporâneos de críticos que ainda hoje têm peso, Buñuel e Arnheim souberam olhar para Metropolis de uma maneira mais ajustada ao filme. Buñuel escreveu em 1927 na Gazeta Literária de Madrid que “quem considera o cinema um discreto contador de histórias, sofrerá uma profunda desilusão com Metropolis. O que nos conta é romantismo trivial, pretensioso, pedante, banal. Mas se pusermos antes da história a base plástico-fotogénica do filme, então Metropolis erguer-se-á perante quaisquer padrões, parecer-nos-á o mais maravilhoso livro de imagens imaginável” (citado por ORGAN, 2011). A descrição

de Arnheim, também de 1927, é igualmente clara: “se o espectador sabe aproveitar o que de bom há numa coisa, derivará prazer das imagens” (citado por BORDWELL, 2011).

Simetria visual e metafórica O relógio dos trabalhadores de Metropolis tem dez horas. Vivendo debaixo da terra, não recebem luz solar, e regem-se apenas pela hora da mudança de turno a operar as máquinas. A narrativa começa com uma dessas mudanças de turno.

Logo no primeiro plano, é estabelecida uma analogia visual entre a condição dos trabalhadores de Metropolis e a condição de prisioneiros atrás das grades. Quando os portões se abrem, os trabalhadores deslocam-se em sentidos opostos, todos com os mesmos passos lentos e mecânicos, e a cabeça baixa coberta pelos mesmos bonés cinzentos – a personagem aqui é a multidão, não há indivíduos. Os trabalhadores entram num elevador, que uma vez mais os cerca com grades, e somos informados que o seu destino é a Cidade dos Trabalhadores, nas profundezas da terra, por um intertítulo que imita a trajetória descendente do elevador. Como escreveu Buñuel em 1927, “até os títulos, a subir e descer, a dissolverem-se em luz ou a desintegrarem-se em sombras, se unem no movimento geral e se tornam eles próprios em imagens” (citado por ORGAN, 2011). Uma vez fora dos elevadores, os trabalhadores dirigem-se para as suas casas em grupos retangulares, perpendiculares aos paralelepípedos que habitam, iluminados por focos em forma de losango. Nas janelas retangulares não se vê ninguém: se algumas têm luzes acesas, é mais para criar contraste com as janelas negras; pouco tem a ver com realismo. No meio da praça, uma escultura abstrata. A Cidade dos Trabalhadores é uma ode à geometria.

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Logo à altura da estreia americana, em março de 1927, a estratégia publicitária do “filme que mostra a cidade do futuro” chamou a atenção do público e dos críticos. Mas apesar do entusiasmo geral com as inovações técnicas de Metropolis (sendo o Processo Schufftan, que permitia criar a ilusão de cenários monumentais com miniaturas, através do uso de espelhos, a mais famosa), não houve falta de ataques à falta de realismo científico e social da sua representação da “sociedade de 2027”. A representação dos trabalhadores como escravos numa sociedade maquinizada, por exemplo, ia contra as utopias Fordistas da libertação do trabalhador pela máquina; mas foi a ideia central do filme – “o mediador entre a cabeça (as elites) e as mãos (os operários) tem de ser o coração” – que foi particularmente ridicularizada. Em entrevista com Peter Bogdanovich, o próprio Lang chamou mais tarde a ideia de “um conto de fadas”, e atribuiu-a a Thea von Harbou, autora do livro e do guião do filme, e na altura mulher de Lang. A crítica contemporânea do escritor H.G. Wells, famoso autor d’A Guerra dos Mundos, ficou particularmente famosa – o escritor acusou o filme de falta de originalidade, falsidade científica e até plágio de vários livros, incluindo o seu The Sleeper Awakes, de 1910 (ORGAN, 2011).


Estando bem definida a simetria entre os dois grupos de personagens do filme, começa uma narrativa. Maria, uma bela jovem operária, invade os Jardins Eternos onde os Filhos se divertem, levando consigo um grupo de crianças filhas de trabalhadores, para apelar à bondade das elites, e a um tratamento mais igual entre classes. É imediatamente expulsa, mas causa grande impressão em Freder, filho do grande patrão da cidade de Metropolis – de tão bela que é Maria, Freder ganha uma consciência política. Também na estrutura da narrativa se evidencia o elevado formalismo de Metropolis, e como seria de esperar, a esta cena segue-se a apresentação da cidade das elites, no Clube dos Filhos, erguendo-se bem alto, em simetria visual e metafórica à Cidade dos Trabalhadores – uma representação extremamente esquematizada de opostos que valeu críticas duras a Lang por ser simplista.

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Naturalmente, não há grades para os Filhos, nem grutas estéreis ou roupas cinzentas. Em oposição ao passo lento e mecânico dos trabalhadores, os Filhos são mostrados pela primeira vez num estádio ao ar livre, a correr de cabeça erguida. Eles não são uma massa indistinta, e alguns até têm direito a planos próximos. Aos arcos e paredes que fechavam os trabalhadores, opõe-se uma máscara cinzenta à volta do quadro, que cria uma ambiência etérea, e aos planos estáticos opõe-se uma câmara que corre com os atletas.

Freder parte imediatamente em busca da rapariga, e dá por si na casa das Máquinas, onde operários subterrâneos operam alavancas gigantes em movimentos mecânicos espasmódicos sincronizados, como se as máquinas os forçassem a tornarem-se também eles em máquinas.

Quando a máquina começa a sobreaquecer por culpa de um trabalhador exausto, os trabalhadores aumentam a velocidade dos seus movimentos, mas não são capazes de acompanhar as exigências da máquina. Freder observa em horror a máquina a transformar-se num metafórico monstro comedor de homens. Freder vê homens carecas atados a serem oferecidos a um colossal monstro bíblico, perante o olhar de dois sacerdotes mascarados. A estrutura inferior do monstro adquire contornos semelhantes à de uma esfinge egípcia, e é fácil associar os homens carecas aos escravos que as erigiam (que também eram, de certa forma, carne para esfinges).


Esta sequência alucinatória acaba com uma transição curiosa: o plano começa a tremer, como se a própria película estivesse a ondular, corta para Freder, e volta para a máquina, com a sua aparência original. Como todos sabemos intuitivamente, trata-se de uma codificação puramente cinemática para “era apenas a imaginação da personagem”. Os homens capazes tratam dos feridos e dos mortos. Freder é apenas uma pequena criatura impotente perante as sombras anónimas que passam por ele. E de facto os homens que morreram são apenas sombras. Em alguns segundos, outros trabalhadores assumem as posições deles e a máquina prossegue indiferente – os homens que trabalham nas profundezas de Metropolis transformaram-se em máquinas, em movimento e em emoção, por fora e por dentro. Mas para Freder, o sacrifício que este Moloch moderno exige é demasiado elevado, e corre para relatar o sucedido a Joh Fredersen, seu pai e mestre de Metropolis. A sua viagem motiva as primeiras imagens que vemos da cidade em si, que cimentam ainda mais o indiscutível lugar que Metropolis tem entre os grandes locais arquitectónicos da história do cinema. No meio dos quadrados e retângulos que compõe todos os edifícios, e as linhas diagonais das estradas e carris que os atravessam no meio do ar, ergue-se o mais imponente dos edifícios de Metropolis: a Nova Torre de Babel, onde Joh Fredersen tem o seu escritório.

Incapaz de convencer o seu pai que o tratamento dos operários de Metropolis é desumano, Freder prossegue a busca por Maria, e torna-se ele próprio num operário undercover na Cidade dos Trabalhadores. Aí, correm murmúrios de um encontro secreto que terá lugar nas catacumbas debaixo da cidade, e Freder decide juntar-se aos operários que partem para a reunião após o fim do turno. Quando os trabalhadores chegam ao ponto de encontro, Lang abstém-se de nos mostrar o espaço, começando por nos mostrar apenas os homens, curvados, a entrar nele e a tirarem o chapéu. Não sendo só uma técnica para criar suspense, isto é justificado pelo olhar baixo de Freder, que também não vê o que está à sua frente, e será pelos olhos dele que veremos pela primeira vez o que aí se encontra.

A inspiração cristã das catacumbas é clara. Maria, vista frontalmente pelos olhos de Freder, preside à cerimónia, banhada em luz (não se trata no entanto de uma iluminação “subjetiva”, vista apenas pela ótica apaixonada de Freder, como comprovam outros planos da cena), e fala aos homens do alto de um altar tosco, rodeado de cruzes de madeira. Enquanto fala, o corpo de Maria imita a forma das cruzes à sua volta, e Freder imita-a a ela. A missa clandestina de Metropolis começa com ela a contar aos trabalhadores a história da Torre de Babel bíblica (bastante alterada para encaixar na ideologia do filme). A iconografia cristã invade Metropolis de repente, inesperadamente.

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Gradualmente, o monstro volta a transformar-se em máquina, e agora são os trabalhadores de Metropolis que sobem as suas escadas para serem sacrificados. A metáfora é evidente: os trabalhadores da civilização industrial são os escravos do novo milénio, são homens a ser sacrificados em nome do bem dos que têm o poder. Só que estes parecem ser ainda menos livres que os escravos egípcios: os escravos contorciam-se e lutavam contra os captores que os atiravam ao fogo, enquanto os operários marcham para a sua morte em grupos síncronos, uma vez mais organizados em paralelepípedos humanos, por vontade própria. Lang estaria certamente consciente das implicações desta sequência, mas é difícil dizer o quanto acreditava nelas – ao ver o filme, parece que lhe interessava principalmente o seu potencial para criar imagens.


“Construiremos uma torre cujo zénite chegará às estrelas! E no zénite da torre escreveremos: Grande é o Mundo e o seu Criador! E grande é o Homem!” – são as palavras que um homem (tal como Maria, com os braços esticados, formando uma cruz humana) prega à sua audiência. Maria continua: “Mas as mãos que construíram Babel não conheciam o sonho da cabeça que a concebera”. O paralelo entre esta história da Torre de Babel (interpretada pela ideologia da argumentista Thea von Harbou) e a Torre de Metropolis é evidente (o facto da torre do filme se chamar Nova Torre de Babel torna-o até talvez demasiado óbvio), e a conclusão a retirar ainda mais: “o mediador entre a cabeça e as mãos tem de ser o coração” – afinal, aparece escrita no ecrã com letras maiúsculas.

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É um testemunho ao talento de Lang que este jogo de simetrias ideológicas de von Harbou não arraste o filme para o sentimentalismo barato (sinto-me confortável em atribuir estes elementos a von Harbou porque Lang, como já foi dito, lhos atribuiu, (BOGDANOVICH, 1997), e porque, ao ver Metropolis, não sinto no filme grande paixão pela sua própria mensagem. Parece-me que as ideias do argumento interessam a Lang principalmente pelo seu potencial visual, e ele soube fazer a sua transcrição para imagens de forma tão inspirada, que estas são por si suficiente para garantir a Metropolis um lugar na história do cinema. É o caso do plano da chegada dos trabalhadores que erguerão Babel: seis mil homens para erguer tal torre, seis mil homens para criar a imagem de Lang – e quando não foi possível arranjar os seis mil homens carecas que Lang queria, foram contratados mil homens desempregados e “umas poucas dúzias de barbeiros”, para serem filmados os mesmos mil seis vezes e sobrepostos num só plano, em vez de se abdicar da imagem (segundo Karl Freund, operador de câmara no filme, citado em MASSEY, 2012).

O poder de Metropolis deriva o seu estranho encantamento dos seus elementos míticos e da sua amálgama sem sentido de tempos e culturas: esculturas Gregas, catacumbas Romanas, catedrais Góticas, arquitetura funcionalista, Fordismo, Comunismo, civilizações que vivem junto ao céu na Nova Torre de Babel erguida pelos homens das profundezas, um belíssimo robot humanoide disfarçado de prostituta da Babilónia montado num dragão de sete cabeças num salão libertino à roaring twenties, que dança acompanhado por sete figuras mascaradas de sete pecados mortais enquanto uma mascarada de Morte toca flauta (talvez essa sequência fique outro texto). Há algo de intemporal no filme, e talvez seja porque “a cidade do futuro” que a publicidade pregava é uma ilusão – Metropolis não existe no futuro nem no passado, é um resumo desorganizado da história das civilizações Ocidentais filtrada por mitos, simetrias e pela criatividade de Lang. Na última cena do Prelúdio do filme, o vilão Rotwang persegue Maria pelas catacumbas. Maria percorre a escuridão iluminando o caminho com uma tocha, enquanto é seguida pelo feixe circular de uma lanterna elétrica. Apesar de ter visto o filme três vezes, só ao ler a crítica de H.G. Wells é que me apercebi da falta de realismo do uso de uma tocha em pleno século XXI, naturalmente porque no filme faz perfeito sentido que Maria, a pura, não lide com as criações tecnológicas do homem, que o filme representara até agora como escravizadoras do homem. E só ao rever novamente a cena é que me apercebi que o vilão mal aparece nela: ele é apenas adivinhado pela presença de um círculo de luz que persegue Maria, e cuja fonte permanece fora de campo. É uma maneira absurdamente estilizada de encenar uma perseguição, mas esta estilização é uma parte tão integral do filme, que a minha perceção é filtrada por ela, e não vê facilmente para lá dela; nas palavras de Jim Emerson, “qualquer bom filme – raios, até alguns maus, de vez em quando – ensina a audiência a vê-lo” (EMERSON, 2006). No caso de Metropolis, seria uma encenação realista que pareceria irrealista.


• BOGDANOVICH, Peter (1997) Who the Devil Made It: Conversations With Legendary Directors. New York: The Ballantine Publishing Group; • BORDWELL, David (2010), “Metropolis Unbound”, http:// www.davidbordwell.net/blog/2010/04/05/metropolis-unbound/; • EMERSON, Jim (2006), “Movies 101: Opening Shots Project”, www.rogerebert.com/scanners/movies-101-openingshots-project; • MASSEY, Laura (2012), “Metropolis: A Rare Film Programme for Fritz Lang’s Masterpiece”, www.peterharrington.co.uk/ blog/2012/07/ metropolis/; • ORGAN, Michael (2011), “Section 7: Contemporary Reviews – 1927”, http://www.uow.edu.au/~morgan/Metroh.htm;

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• Citação de Fritz Lang em: ROSENBAUM, Jonathan (2002), “Unified Theory (METROPOLIS)”, http://www.jonathanrosenbaum.net/2002/08/ unified- theory/


É uma casa Portuguesa com certeza Polvo à Lagareiro com Batata Doce Para 4 Pessoas

Ingredientes:

por Chef Mariana Claro

1 polvo 2/3 kg

1 kg de batata doce

100 g de azeite

30 g de alho

2 folhas de louro

400 g de espinafres em folha

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Confecção: •

Cozer o Polvo congelado, com água até metade da panela durante 1.30 h

Numa panela, juntar o azeite, o alho e o louro, levando ao lume até ferver.

Filtrar e reservar o azeite.

Lavar as batatas doces e levar ao forno a 180 ºC por 30 minutos.

Numa frigideira com o azeite de alho, alourar os tentáculos de polvo previamente arranjados.

Saltear em azeite de alho os espinafres, temperando com sal e pimenta.

Empratar como na fotografia.


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Restaurante Escalfado Rua do Merca-Tudo nยบ4


Beber mais aguardante

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por Pedro Santo Tirso

O meu sonho era fazer uma crónica que fosse um haiku resumido. O título desta crónica seria a própria crónica. Mas infelizmente o pudor impede-me. Isso e ter muito que dizer sobre aguardente. Aliás, a aguardente é pródiga em prodigalidade. Comece-se logo pelo conceito. Na aguardente cabe quase tudo. Se se pode destilar então é aguardente. De leste para oeste, começando no nascer do sol: o sochu é uma aguardente, a vodka é uma aguardente, o ouzo é uma aguardente, a grappa é uma aguardente, o conhaque é uma aguardente, o gin é uma aguardente, a cachaça é uma aguardente, o rum é uma aguardente, a tequila é uma aguardente. Enfim, percebem a ideia. A aguardente é pródiga em manifestações, quase sempre saborosas e bem culturais, pois nada há de mais cultural do que o mesmo modo como diferentes culturas destilam bebidas. É importante, contudo, saber se estamos a destilar vinho ou outra coisas qualquer. Então teremos aguardentes vínicas e seu derivado, a bagaceira, ou outras aguardentes quaisquer, mais conhecidas com os nomes que vêm recordados acima. Hoje não quero alongar-me sobre todas as aguardentes, mas sobre aguardentes vínicas com uma honrosa (mesmo) exceção. Comecemos pelas aguardentes vínicas.


Pode Portugal, um país de grandes aguardentes, emular para a elite dos destilados o sucesso que tem o bagaço? (sai um café com cheirinho!). Os produtores acham que sim e

o mercado mexe. Para além do rejuvenescimento das clássicas aguardentes de alvarinho e de moscatel (a Âncora está de volta), produtores de vinho com menos tradição na aguardente estão a apostar em novos produtos (veja-se a Magistra, DOC Lourinhã, feita pelo Esporão). Mas mesmo as mais conhecidas referências do mercado estão a dar sinais de mudança sem mexer no que é bom na tradição da aguardente. Fim de Século, Aliança e CR&F são disso exemplo. E a estas junta-se, sobre os ombros da região demarcada da Lourinhã, a recente Louriana, uma excelente aguardente XO. Então o que faz falta à produção? Não falta nada. A tradição da aguardente em Portugal está bem e recomenda-se, o que faz falta é consumo, sobretudo aquele que está desviado para outras bebidas destiladas, como whisky ou mesmo conhaque. O mais curioso é que esses mesmo bebedores são provavelmente apreciadores de bons vinhos portugueses, com as suas castas típicas, muitas das quais fazem as magníficas aguardentes que por cá temos. Apesar da baixa no registo de consumo de aguardentes vínicas a nível global, gosto de acreditar que estamos no dealbar de uma idade de ouro da aguardente vínica portuguesa. Não apenas porque assistimos a um renascimento das tradições portuguesas revisitadas pela modernidade, libertadas do período ditatorial e revolucionário, integradas na União Europeia e no cosmopolitismo da integração cibernética, mas porque a aguardente vínica é uma forma de alargarmos o consumo de vinho por outros meios. Se o vinho é a infantaria e a cavalaria, a aguardente vínica é claramente a artilharia pesada, se me é permitida a alegoria militar. E não há nada de errado nisso, em lembrarmos ao bebedor que nos dias frios, depois de um jantar em família, entre amigos, que vale a pena aquecer entre as mãos um copo e degustar uma velha aguardente, entre um vício de estimação, dois dedos de conversa e uns três ou mais goles de existência flamejante. Ou não fosse a água ardente também conhecida como aqua vitae, a eau de vie francesa ou uisce beatha gaélica.

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Poucos saberão que existem apenas três regiões demarcadas de aguardente em todo o mundo. O processo é o que está demarcado. É antigo, é bom, dá garantias. As duas primeiras são fáceis de adivinhar - cognac e armagnac - mas aposto que muitos não saberão qual é a terceira. E quão perto estão dela. Trata-se da Lourinhã. A aguardente vínica, como o próprio nome indica, obtém-se da destilação de vinho. Oficialmente, se for envelhecida por mais de um ano em madeira de carvalho, designa-se por brandy. A aguardente vínica está em declínio quanto ao seu consumo. A explicação prende-se com a pouca aposta no marketing face à concorrência de outros gigantes destilados como o whisky. E não se trata de simples publicidade, trata-se de marketing. Talvez até melhor, de publicitar a cultura da aguardente, assim tornando-a procura no mercado. Dir-me-ão: mas ninguém quer beber aguardente vínica quando pode beber um bom whisky. Nada de mais falso. Se tornarmos a aguardente sempre presente, então o bebedor virá. Claro que o produto tem de ser bom. Mas tem de ser bom à sua medida. Veja-se o caso do bagaço, ainda hoje um clássico entre bebedores encartados por esse Portugal fora. É bom? Quer dizer, há bons bagaços, mas a aguardente mais modesta, desde que bem feita será melhor do que um bagaço (isto dentro do que a discussão de gostos permite). Aliás se estamos a falar de aguardentes que tecnicamente não são vínicas então a melhor aguardente portuguesa tem de ser o medronho. E também aí há medronhos para todos os gostos. Medronhos há bem melhores do que muitas aguardentes vínicas (mesmo velhas). Claro que todas as aguardentes não vínicas medronho incluído - exigem um palato distinto, que tem de incluir a apetência por sabores estranhos ao vinho e mais amigos de outras frutas e ervas. De vez em quando faz bem e depois de certas refeições pode mesmo ser uma obrigação (por exemplo, um medronho depois de repasto extenso na “Tasca do Petrol”). Mas voltemos à riqueza do vinho e ao único tipo de aguardente que pode ombrear com o whisky nessa luta titânica pelo aperitivo de fim de tarde ou digestivo de fim de noite. Terá a aguardente hipóteses? Em Portugal? À primeira questão, França dá-nos optimismo na resposta, com as suas duas regiões demarcadas, consumo bastante expressivo e um amor pela cultura do cognac e do armagnac, celebrada artisticamente na literatura e no teatro. Aí o brandy ainda supera o whisky, o que resulta de um produto cultural, a que não será alheio algum chauvinismo gaulês.


RAIO GOURMETIZADOR

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Unsplash - Oriento

CHÁ AGORA!


por Pedro Nápoles

O que parece ser uma tarefa simples, em Portugal é de uma dificuldade capaz de levar a um estado de nervos tal, que quase me faz beber uma infusão de camomila em doses cavalares para acalmar a alma. Comecemos pelo chá, o próprio, aqui transversalmente apresentado em saquetas, fazendo com que as folhas sejam uma miragem, apenas vagamente presumida por entre o invólucro branco, numa dose que não se percebe, pois é excessiva para uma chávena e escassa para um bule. E nem vou falar em qualidade, pois as marcas que dominam o mercado são, no mínimo, de qualidade duvidosa. Ao contrário do que muita gente pensa, associando o chá ao chique e caro, é mais barato beber um bom chá do que um refrigerante. Bastante mais barato mesmo. Um bom chá custará, exagerando para cima, 10 euros por 100 gramas - claro que há chás até 60 euros por 100 gramas ou mais, mas falemos de um bom chá comum. Ora, tomando um bule de quatro chávenas a cerca de 10 gramas por bule, temos que os 10 euros são suficientes para 10 bules, então cada bule de 1 litro e 4 chávenas, custa 1 euro, bem menos do que 1 litro de Coca Cola ou outro refrigerante. Tão simples quanto isso. Depois há o problema de se achar que fazer chá é mergulhar a saqueta e permanecer, como quando damos um mergulho em mar quente e ficamos lá por horas. Consegue-se o prodigioso resultado de tornar o sabor do chá em cortiça, produto que muito estimo, mas que, talvez por capricho, não gosto de beber. Admito, por questões de resistência, o uso das horrendas chávenas de chá de tamanho gigante e uma espessura e peso que as tornam uma perigosa arma de arremesso em caso de briga no café, no entanto, as coisas ficam logo bastante mais desagradáveis.

De linhas belas, que podiam ser saídas de um atelier italiano, concretizando importante parte do design chamada forma, acrescento uma elevadíssima pontuação no outro critério chamado função. Portanto, os bules deveriam servir para introduzir água quente sobre o chá, permitirem a infusão e depois tornar possível servir o chá em chávenas para serem bebidas. Parece simples. Quanto à infusão, parece ser possível ser feita nesses bules, mas a partir daí tudo se torna tão difícil que parece digno de uma prova dos saudosos Jogos sem Fronteiras. Comecemos com a exposição de queimaduras de primeiro grau por tentar pegar no bule. O grau de risco é tão grande que deve fazer parte das excepções em letras pequenas em apólices de seguros de acidentes pessoais. Num café, esta é altura que tentamos perceber se temos lenço, ou começamos a agrupar guardanapos de papel para mais uma tentativa de agarrar o dito sem queimaduras. Superada esta fase, e conseguida uma forma de agarrar o bule, servimos então o chá na chávena, mas eis que de repente o chá sai por todo o lado menos pelo bico do bule, inundando a mesa com uma piscina de chá que, se não travada a tempo, nos faz arriscar novas queimaduras, desta vez pelo líquido sobre as pernas. Percebemos então que a tampa do bule tem de ser levantada em simultâneo com o movimento de servir, no entanto a tampa também é de inox o que obriga a nova pesquisa por lenços ou novo agrupar de guardanapos de papel para proteger a outra mão. Olhamos para este novo desafio já com a teimosia de quem resolveu que quer beber um chá e vai mesmo beber, nem que sob o risco de queimaduras. Com a mão protegida para agarrar na pega e outra para segurar na tampa, lá se torna possível, derramando ainda assim mais um pouco sobre a mesa, servir chá no lugar onde ele era suposto terminar antes de ser bebido, na chávena. O designer destes fascinantes bules conseguiu o prodígio de tornar o acto de servir o chá num desporto que só não tem impacto nacional pela falta de popularidade do chá em relação ao café. É pena, pois seria interessante a realização de campeonatos de servir chá com estes bules, com pontuação dada em função da quantidade de chá adequadamente servida na chávena sem queimaduras.

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Se é verdade que a gourmetização destrói parte da nossa experiência de genuinidade, causando profundas irritações, que vão por esta coluna sendo descritas, é preciso reconhecer que há coisas que nada perderiam em sofrer uma evolução, por serem casos de extrema necessidade. É que uma coisa é genuinidade, outra é masoquismo. Poderia falar dos belíssimos balcões de inox que polulam por cafés e restaurantes país fora, mas prefiro centrar-me numa experiência que em Portugal tem todas as condições de ser traumática, a de beber um chá. Simplesmente beber um chá decente.

Termino com a parte que acho mais interessante, os bules utilizados em Portugal para servir o chá. De design belo e atraente, no inox sempre brilhante, os bules portugueses deviam ser premiados internacionalmente com prémios de design, falha que acho imperdoável, talvez por falta de marketing exterior dos mesmos, pois por cá funciona tão bem ao ponto de não terem concorrência.


Saudades DO BRASIL EM PORTUGAL por Valentina Carvalho

ilustração Tiago Lopes

A arte do encontro no desencontro 1 hora. 60 minutos. 3600 segundos. Nem precisa ser bom de matemática para perceber que nesses meus 28 anos de vida muitas horas já se passaram. Mas nada como aquela. Aquela especificamente cronometrada. Nem um minuto a mais, nem um a menos. Com direito a despertador para não cairmos na tentação de não sermos responsáveis. Encontro no aeroporto. Mãos entrelaçadas e um único objetivo: encontrar um cantinho para chamar de nosso. Achamos. Suor na cama, muitas promessas ao pé do ouvido. Tanta gente passa a vida se planejando para encontrar alguém assim. Mas a gente não. A gente nem queria... Nos encontramos sem querer, sem pedir, sem pressão, sem noção do depois. E chegamos a esse ponto. O olho brilha e as palavras se perdem. O despertador toca. Temos que seguir. Aquele último beijo, aquele último olhar. Suspiros de certeza que nos vemos em breve. SIM, CERTEZA! O mundo é incrível demais para não fazer nossos caminhos não se cruzarem novamente. Essa vibe de filme alternativo sempre achei irritante. Mas é o que temos. Sempre brinco que os homens que passam na minha vida têm o privilégio de me conhecer. Mas com você é diferente. Quando tudo encaixa e nada mais tem importância, você é meu privilégio, nem que seja por uma hora.

E o que você, caro leitor?

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O que fez nessa última hora?


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Chapéus há muitos

O BAÚ DE ONDE VAMOS BUSCAR O QUE TEIMAMOS EM NÃO ESQUECER... VELHOS CHAPÉUS QUE NOS REMETEM PARA UM PASSADO AINDA PRÓXIMO DE MEMÓRIAS E HISTÓRIAS FAMILIARES.

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por Joana da Franca


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Tradições de Viseu por Câmara Municipal de Viseu

Em Viseu, no coração da Beira Alta, as portas abrem-se sempre com a hospitalidade que define a cidade e que convida todos a visitar e a viver o destino de excelência que é, com fortes tradições e uma história com mais de 2500 anos, que atravessa tempos, civilizações e gerações. Viseu é, hoje, um destino cultural com uma agenda de eventos para todos os públicos, 365 dias por ano, que exalta os atributos de Viseu como cidade vinhateira, uma grande marca da região do Dão, como cidade-jardim, com os belos parques e recantos ajardinados espalhados pela cidade, e como cidade de Viriato, com um rico e diversificado património cultural. Recentemente, o Município de Viseu foi o centro das atenções na apresentação pública do estudo da associação “Escolha do Consumidor”, no qual o Município foi considerado o melhor do país em 7 das 30 categorias objeto de análise: melhor cidade para ser feliz; melhor cidade para ter qualidade de vida; melhor cidade para ser mais saudável; melhor cidade para sentir mais segurança; melhor cidade para comprar casa; melhor cidade em limpeza do espaço público; e melhor cidade para idosos.

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Quanto às tradições que caracterizam uma cidade com 2500 anos, estas são centenárias e identificam Viseu e os viseenses. É o caso “Flores de Papel de Fragosela”, que os namorados ofereciam às donzelas; da Broa de Vildemoinhos, que ainda hoje é produzida; do Mel de Várzea, das Rendas de Bilros e dos Bordados de Tibaldinho. E das que apresentamos, de seguida, indissociáveis de Viseu e da região.


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© Feira de São Mateus - Viseu Marca - John Gallo


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© Feira de São Mateus - Viseu Marca - John Gallo


FEIRA DE SÃO MATEUS A Feira de São Mateus é a guardiã das feiras populares do país. Com 626 anos, realiza-se em Viseu, todos os verões, durante mais de um mês. É uma verdadeira montra viva das tradições, produtos e cultura da região para além de também ser palco de concertos, espetáculos, desfiles e atividades para toda a família, com programação diária. Em 2018, contou 1.15 milhões de entradas e o novo Bairro da Restauração foi a novidade mais marcante, com uma arquitetura inovadora, para além dos grandes concertos mais concorridos do certame: Richie Campbell, D.A.M.A, Calema e Xutos & Pontapés. Em 2019, realiza-se de 8 de agosto a 15 de setembro e comemora 627 anos! A origem da Feira Franca de Viseu, como também é conhecida, reporta-se à presença de D. João I e da corte em Viseu, durante 6 meses, entre 1391 e 1392. Essa presença está relacionada com o apoio de Viseu à sua causa durante o conflito com Castela. Nesse período, nasceu na cidade o futuro rei D. Duarte e realizaram-se as Cortes de 1391. No ano seguinte, D. João I “querendo fazer graça e mercê” a Viseu, concedeu à cidade uma Feira Franca anual. Algumas tradições da Feira de São Mateus: Os pórticos de iluminação artística nas 4 entradas da Feira, que são uma imagem de marca ansiosamente esperada a cada ano; As enguias de escabeche da Murtosa, que são uma das iguarias incontornáveis da Feira de São Mateus, tipicamente degustadas com batatas cozidas com pele e, de preferência, acompanhadas por um bom vinho Dão; As farturas, um pitéu introduzido há pouco mais de 100 anos, seguindo as tendências das feiras de Lisboa;

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Saiba tudo em www.feirasaomateus.pt!


FESTAS POPULARES MARCHAS DOS SANTOS POPULARES CAVALHADAS DE TEIVAS CAVALHADAS DE VILDEMOINHOS As Marchas dos Santos Populares saem à rua no mês onde os santos e as tradições são celebrados: junho. O habitual cortejo das marchas infantis, juvenis e seniores enche de cor, animação, música e coreografias harmoniosas o centro da cidade, atraindo milhares de pessoas. Anualmente, decorre um concurso para eleger um tema inspirado em Viseu e nas tradições populares portuguesas, que é interpretado por todos os grupos marchantes em dia de desfile. Já as Cavalhadas de Teivas, seculares segundo reza a tradição local, também em junho saem da sua povoação em direção às ruas de Viseu, num deslumbrante desfile de carros alegóricos, acompanhados de bombos e fanfarras, ao qual não falta a já tradicional “Dança da Morgadinha”, com os pares nos seus trajes coloridos. Toda esta panóplia de cores, sons e danças remete-nos para um tempo marcado pelos ritmos da natureza e pela celebração dos santos populares, entre o trabalho e a festa.

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As Cavalhadas de Vildemoinhos desfilam todos os anos em mês de santos populares, no dia de São João, a 24 de junho. A população de Vildemoinhos deixa para trás a sua aldeia e ruma em direção à cidade, num desfile de animação e carros alegóricos que atrai milhares de viseenses e visitantes. Desde os mais tradicionais, aos mais artísticos ou satíricos, a cor, as tradições, as quadras, os manjericos e a famosa broa são ingredientes que acompanham este cortejo centenário, cuja origem remonta ao ano de 1652. Acima de tudo, mais do que festividade da cidade, as Cavalhadas de Vildemoinhos são parte da história desta povoação viseense, de moinhos e moleiros, e do seu triunfo perante as adversidades e as épocas amargas do labor. A tradição é pois uma festividade simbólica, um ritual anual de agradecimento a São João, o santo milagreiro que acudiu às preces de moleiros e aldeões em épocas de desespero. Em quase quatro centenários de existência, esta passou sobretudo a uma festa coletiva, de todos os viseenses, ansiosamente aguardada ao longo do ano.


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© Festas Populares de Viseu - Município de Viseu - José Alfredo


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© Folclore_Município de Viseu - Rui da Cruz


O FOLCLORE NA REGIÃO Após o final da 1ª Grande Guerra e, sobretudo, a partir dos anos 30, iniciava-se em Portugal um processo de construção e de institucionalização de práticas performativas, construídas a partir da cultura popular e, de forma geral, rural. Nessas exibições públicas de música, dança e trajes procurava-se representar as tradições de uma determinada localidade ou região. Na região de Viseu e Dão Lafões, esse processo de “folclorização” teve início nos anos 20, com a criação dos primeiros grupos folclóricos na região. Atualmente, a região regista uma dinâmica notável de instituições culturais que se esforçam para preservar e revitalizar as manifestações culturais locais e regionais. Os ranchos folclóricos da região, bem como os grupos de cantares e de Zés-Pereiras, têm assumido a missão de pesquisar, inventariar e divulgar as danças, cantares e trajes das terras de Dão Lafões.

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Esse tecido associativo (que inclui cerca de 60 grupos etnográficos e artísticos locais) tem procurado dar vida à cultura tradicional e popular do território ao divulgar, em diferentes palcos, as danças de roda das Beiras, as modas de Lafões, os trajes de antanho como a capucha, o ciclo do linho ou do pão, os pregões de tantas profissões extintas ou o ambiente das desfolhadas ou da romaria, numa montra de toda a diversidade e ancestralidade das tradições regionais.


RANCHO À MODA DE VISEU Diz a tradição que o “Rancho à Moda de Viseu” nasceu no século XIX, durante a Guerra Civil entre liberais e absolutistas (1828-1834), embora existam diferentes versões que tanto atribuem a origem a um regimento de cavalaria como a um regimento de infantaria aquartelado em Viseu. As razões que presidiram à sua criação variam também entre o abastecimento à população civil em tempo de racionamento e a motivação a uma unidade militar que partiria para a frente de batalha. Segundo esta última versão, o comandante de um regimento aquartelado em Viseu, que deveria partir para a defesa da linha do Buçaco, ordenou ao quarteleiro que fornecesse à cozinha tudo o que estivesse disponível na despensa para uma refeição moralizadora e substancial. Assim foi: na panela, juntou-se carne de galinha, porco e vitela, grão-de-bico, massa, batata, hortaliças, surgindo um prato que entrou na tradição militar e civil em Viseu.

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Seja qual for a versão mais correta das suas origens, sabemos hoje que o “Rancho à Moda de Viseu” afirmou-se como uma das tradições gastronómicas do concelho, de tal modo que nos anos 50 e 60 estava perfeitamente enraizado nos gostos locais.


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© Rancho À Moda de Viseu - Município de Viseu


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© Linho de Várzea de Calde_Município de Viseu - Andrea Couceiro


CULTURA DO LINHO DE VÁRZEA DE CALDE O ciclo do linho de Várzea de Calde constitui um património cultural, popular e imaterial, de dimensão nacional e internacional. Em grande parte das aldeias beirãs, a cultura do linho é uma recordação de infância ou deriva de relatos de anciãos que viveram na primeira metade do século XX. A produção de linho era uma atividade doméstica, que servia para responder às necessidades da casa, na lógica da autossuficiência, sendo os excedentes vendidos nas feiras. Em Várzea de Calde, ainda hoje se cultiva o linho através de todas as fases originais: lavrar a terra, semear o linho, regar e mondar o linho, arrancar, ripar, aguar, maçar, tascar, sedar, fiar, ensarilhar as meadas, cozê-las, desemborralhá-las, lavá-las e batê-las, secá-las, embarrelá-las, corá-las, dobrar os novelos, urdir a teia, montá-la, encher a canela e tecer o linho.

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A aldeia-milagre de Várzea de Calde é território da cultura do linho artesanal milenar da Beira Alta. Desafiamo-la/o a visitar este local ímpar, não perdendo de vista a Barragem de Várzea de Calde e os típicos espigueiros, eiras, lagaretas e moinhos da aldeia, desfrutando, também, de um “percurso de natureza” pela Ribeira de Várzea e de uma visita à Casa de Lavoura e Oficina do Linho.


TERRAS DA CHANFANA® Lousã | Miranda do Corvo | Penela | Vila Nova de Poiares DE PRATO FAMILIAR DE DIAS DE FESTA - ANÓNIMO NA SUA SIMPLICIDADE DE CONFECÇÃO –, A IMAGEM DE MARCA DE UMA REGIÃO… O LONGO PERCURSO IDENTITÁRIO DA CHANFANA, ENQUANTO REFERÊNCIA DE UM TERRITÓRIO!

por Ana Souto de Matos

O TERRITÓRIO

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Delimitado a Norte pelos Rios Mondego e Alva os quais definem uma fronteira natural e integram uma rede hidrográfica expressiva, o território de abrangência da Dueceira -Associação de Desenvolvimento Local, gestora da marca Terras da Chanfana - caracteriza-se como Zona de Montanha, constituindo o Maciço Montanhoso da Serra da Lousã o que mais contribui para a orografia da região. As paisagens de xisto revelam contornos imponentes marcados, característicos da topografia serrana. Mais a Norte, as Serras do Carvalho e do Bidueiro constituem outras referências orográficas que envolvem a zona central coincidente com os terrenos assentes na denominada Bacia da Lousã. Trata-se de uma região com um elevado valor ambiental em que o biótipo classificado da Serra da Lousã (Rede Natura 2000), define e cria espaços de lazer e fruição da natureza, com preponderância para a riqueza da fauna (veados, corços, javalis, esquilos) e de núcleos de flora autóctone onde abundam

os soutos e carvalhais, a par com outras espécies como os sobreiros, azevinhos, medronheiros, azereiros. É preponderante a apetência florestal e a lógica de povoamento é assente numa estrutura tradicional com uma economia rural dispersa e vilas de grande expressão populacional. Reflexo de realidade socio-económica ditada pela transformação dos modos de vida, pela proximidade a Coimbra e pela qualidade da sua paisagem, o território tem também uma forte expressão empresarial nos sectores da indústria e comércio, evidenciando-se também os empreendimentos na área do Turismo, sector em franca expansão. É neste espaço territorial que se reconhece uma cultura muito própria onde as aldeias serranas de xisto, os castelos, as ermidas e santuários, achados arqueológicos, bem como, outros edificados de valor arquitectónico constituem um património expressivo, a que as lendas e mistérios locais conferem magia e encantamento. Os usos e costumes, o artesanato, as peculiaridades das comuni-


A(S) HISTÓRIA(S) A História da Chanfana perde-se em tempos mais imorredouros enquanto tradição alimentar das populações das Beiras, com predominância para o Pinhal Interior Norte e Beira Litoral, sendo a sua origem ainda alvo de uma saudável disputa local e, assumindo as várias versões da História, contornos igualmente plausíveis e quiçá complementares. Não existem estudos científicos que permitam asseverar ou concluir a sua real origem. Dentro da História da Chanfana há muitas Histórias, todas comportando o seu próprio grau de verdade e de imaginário, contudo todas admissíveis. Os concelhos de Vila Nova de Poiares e de Miranda do Corvo reclamam para si a proveniência deste prato típico, mas o mesmo tem também forte implantação nos sabores e cultura dos concelhos vizinhos da Lousã e Penela e também em Góis. Por exemplo, no concelho de Miranda do Corvo assume-se a lenda de que a chanfana terá surgido no Mosteiro de Semide. Outra versão da História, remete-nos à época das invasões francesas também nos primórdios do século XIX. Outros estudiosos, mais do que definirem a origem precisa desta iguaria, definem de forma mais ampla que o prato é parte integrante da cultura e da herança gastronómica da Serra da Lousã, porquanto resultado da actividade pastoril, profusa noutras épocas, perante a natureza pobre dos solos e a geomorfologia sinuosa com características xistosas. Na nossa perspectiva, quer fosse dos grandes rebanhos do Mosteiro, da escassez de bens aquando das invasões napoleónicas, da própria orografia acentuada destas serranias ou da dureza da vida das populações de antanho, todas constituem premissas que ditam a formulam a narrativa associada à Chanfana. Não obstante, queremos acreditar que o que mais importa não é o ter nascido nesta ou naquela paragem, o que efectivamente importa é assumir-se como o DNA, o elemento identitário das comunidades que ao longo dos séculos conferiram o seu saber e dedicação na sua confecção e permitiram que este se assumisse como um activo único e inimitável nos nossos tempos.

AS CONFRARIAS Resultado do trabalho iniciado há cerca de década e meia, a Chanfana ganha raiz na região e protagonismo enquanto prato típico de

valor inegável. Em todo o processo há, pois, que valorizar o trabalho fundamental destas Associações sem fins lucrativos que assumiram como missão dignificar a Chanfana conferindo-lhe espaço gastronómico no receituário local e o reconhecimento nacional. No concelho de Vila Nova de Poiares foi constituída em 2001, a Confraria da Chanfana, com o fim específico o levantamento, defesa e divulgação do Património Gastronómico da Região das Beiras e em especial, desta iguaria, possuindo o registo da marca Vila Nova de Poiares, Capital Universal da Chanfana. E, em 2003, no concelho de Miranda do Corvo, objectivando promover e salvaguardar os pratos confeccionados à base de carne de cabra, é criada a Real Confraria da Cabra Velha, afirmando desde 2005 a marca registada Capital da Chanfana. Para além deste processo de afirmação local, ambas as entidades reforçaram, no seu proveitoso e salutar despique e picardia de tantos anos, a importância deste prato enquanto símbolo de identidade destes concelhos e, desde essa época, concorreram para a dinamização de eventos promocionais envaidecendo a Chanfana e conferindo-lhe importância crucial na e para a economias locais. Confeccionadas de forma similar porquanto os seus ingredientes são idênticos: a carne de cabra, o vinho tinto, o alho, os temperos; a distinção é conferida pelos segredos próprios de cada Mãe de Família ou do cozinheiro que a prepara. Também a olaria, mais um aspecto de referência da tradição local, assumirá importância no processo, sendo que os caçoilos de barro vermelho do Carapinhal ou preto de Olho Marinho, contribuirão igualmente para a criação destas imagens de marca. Por fim, o aspecto crucial da lenta cozedura em forno de lenha, característica que irá transformar em iguaria de paladar intenso e inesquecível a simplicidade da carne de cabra. Um facto é indiscutível, a Chanfana é um ex-libris gastronómico e constitui prato obrigatório destas paragens, principalmente em ocasiões especiais e em todas as festividades religiosas. Actualmente, vários são os eventos de natureza turística que anualmente são realizados para sua promoção, num conjunto de iniciativas culturais e recreativas de defesa da gastronomia enquanto elemento de cultura e património local.

A DUECEIRA E A ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO PARA O TERRITÓRIO Os limites culturais são, porém, ténues e já muito antes, quando em 1994 a Dueceira foi fundada - com o perfil de ADL - Associação de Desenvolvimento Local, num contexto de Entidade Gestora do Programa de Iniciativa Comunitária LEADER para actuar na área geográfica dos concelhos de Lousã, Miranda do Corvo, Penela e Vila Nova de Poiares -, perspectiva esta região como um todo, viável enquanto conjunto de base territorial e com

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dades acrescentam-se como atractivos inimitáveis e assumem em conjunto, verdadeiro capital simbólico. Este, é ainda enriquecido pela gastronomia típica e, para além da Chanfana, juntar-se-ão no receituário local outros manjares, alguns provenientes também da cabra.


suporte em premissas tais como a Tradição | a Identidade Local | A Cultura | O Património e identifica na sua Estratégia esta natureza gastronómica das comunidades, quase telúrica porquanto parte da sua narrativa. Uma identidade gastronómica observada, desde sempre, como um fio condutor na construção de matrizes de actuação. Na sua Estratégia de Desenvolvimento Local – suportada num quadro associativo coeso de 53 parceiros (entre entidades colectivas públicas e privadas dos mais diversos sectores) -, define dinâmicas, acções e iniciativas sociais e económicas, que perspectivam a fixação das populações, suportadas em princípios e valores de identidade estimulando mudanças positivas e o aumento do Afecto territorial. Os ‘nossos Recursos’, as ‘nossas Actividades’, os ‘nossos Produtos’ assumem relevo nesta abordagem, a qual apresenta como enfoques prioritários os sectores emergentes do Turismo Verde, de Natureza, de Montanha, Desportivo e Radical; o potencial de transformação, valorização e comercialização dos produtos endógenos; a importância na consolidação de princípios e valores em torno do conceito Região Solidária e Inclusiva, o qual em permanente construção, fomenta novos modelos ecológicos de neo-ruralidade e estilos saudáveis de vida. É neste contexto, que a vocação da Dueceira se estabiliza, assumindo-se também como espaço de convergência de interesses, incentivando à criação de soluções comuns, supra-municipais, por forma a satisfazer os anseios e expectativas das comunidades e criando sinergias que se constituem como estímulo para o incremento das economias locais, visando esse fim último de desenvolvimento harmonioso do território e de bem-estar das comunidades.

7 MARAVILHAS À MESA… MUITO PARA ALÉM DE UM CONCURSO, O VALOR DO CAPITAL SIMBÓLICO

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Não obstante as suas características de animação e competências de mediadora de processos locais, apenas em finais de 2017, a Dueceira consegue reunir as condições convenientes para a convergência de todos os interlocutores na demanda de valorização da Chanfana. Este processo, associado ao concurso 7 Maravilhas à Mesa®, promovido pela televisão pública, apesar dos formatos pré-definidos pelo seu regulamento, veio possibilitar a formulação da candidatura Terras da Chanfana enquanto representativa do Território no seu todo patrimonial, criando espaço de diálogo e envolvimento das entidades (Câmaras Municipais, Confrarias, Associações de Produtores, Empresas), das Comunidades e também a valorização de outros produtos com significado local inquestionável.

Nesta primeira abordagem ao Concurso acompanharam a Chanfana – esta assumida como referência identitária principal – outros patrimónios, também eles ex-libris locais: os produtos DOP- Denominação de Origem Protegida Mel da Serra da Lousã e Queijo Rabaçal; o Licor Beirão; o Vinho da Quinta do Conde de Foz de Arouce. Para além desta composição de sabores, a candidatura foi enriquecida com uma componente de Roteiros, representados pelo património edificado do Mosteiro de Santa Maria de Semide e as experiências únicas proporcionadas pelos “Trilhos da Natureza da Serra da Lousã”. Na verdade, o mediatismo e visibilidade conferidos pela televisão permitiram reforçar os elos políticos, administrativos, culturais e informais em torno de uma identidade, finalmente assumida como comum, criando uniformi-

A RECEITA Acreditamos que cada família, cada restaurante tenha o seu pequeno-grande segredo na confecção deste prato típico. Apresentamos, no entanto, a receita facultada pela Confraria da Chanfana. Ingredientes 2,5 Kg de carne de cabra velha 1 cabeça de alho inteira 1 folha de louro 1 colher de sobremesa de colorau 1 colher de banha de porco ou azeite (actualmente) Sal (q.b.) e piri-piri Vinho tinto Modo de Preparação Coloca-se num caçoilo de barro preto a carne de cabra velha, devidamente partida em pedaços com aproximadamente 5 cm, dependendo da peça do animal. Adicionam-se os restantes ingredientes. No final rega-se com vinho tinto, que deve ser de boa qualidade. Os caçoilos que no passado eram tapados com testo de barro ou folha de couve são agora habitualmente tapados com folha de papel de alumínio. Coloca-se no forno de lenha bem quente, com a preciosa ajuda da pá do forno, durante de duas a três horas até apurar muito bem.


TERRAS DA CHANFANA A Parceria Dueceira- Associação de Desenvolvimento do Ceira e Dueça Município de Lousã Município de Miranda do Corvo Município de Penela Município de Vila Nova de Poiares CEARTE – Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património AproRabaçal – Associação de Produtores do Rabaçal Carranca Redondo & Filhos, Lda. (Licor Beirão) Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia de Semide Lousãmel – Cooperativa dos Apicultores do Concelho da Lousã e Limítrofes, CRL. Quinta do Conde de Foz de Arouce (Vinhos de João Portugal Ramos) Confraria da Chanfana de Vila Nova de Poiares Confraria do Queijo do Rabaçal Real Confraria da Cabra Velha de Miranda do Corvo

dade de sentimentos perante representações tais como “juntos somos mais fortes” ou “Terras da Chanfana, uma marca que nos une!”. O aumento dos níveis de auto-estima territorial foi plenamente alcançado e visível no orgulho incontido das comunidades aquando de cada fase concursal ultrapassada com sucesso. As Terras da Chanfana assumiam-se desta forma simbólica – mas com grande significado perante o histórico do processo – como Marca de Prestígio do território, mas e também das próprias comunidades, numa evidente manifestação de apreço no ‘ser das terras da Chanfana’, no ‘ser d’aqui!’.

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E, o ‘ser d’aqui’ adquire uma acepção maior que o próprio ex-libris que lhe confere o nome. Representa toda uma região, vasta em outras riquezas naturais, edificadas, culturais e naturalmente gastronómicas (como não referenciar o cabrito assado, as migas serranas, os negalhos, as sopas de casamento, o vinho de Lamas, a jeropiga de Moinhos ou doçaria como a tigelada serrana, as nabadas e outros doces conventuais, os serranitos, os poiaritos, os talasnicos, entre tantos mais registos?).


TERRAS DA CHANFANA DESCRIÇÃO DE UMA MESA VENCEDORA [Cartão de Visita para um Roteiro de Fim-de-Semana]

O ‘ser d’aqui’ identifica os valores associados aos usos e costumes, à hospitalidade das gentes, à qualidade de vida nas vilas e aldeias e ao modo de vida que, apesar de próprio do mundo rural, é compatível com a modernidade. Alcançado o propósito de união conferido pelo concurso, é este agora o novo universo de actuação das Terras da Chanfana: o de criação do seu próprio estatuto de Marca de um produto e de Marca de uma região (*) e em que os processos de divulgação, promoção e qualificação do território e agentes se assumem como objectivos centrais de uma acção concertada, demonstrando que estes 4 concelhos - mantendo as características que lhes são próprias – sabem também assumir escala, criando perspectiva e promovendo, em conjunto, as condições ideias para uma maior competitividade territorial, a qual concorra para o reconhecimento externo, atraindo com o seu valor e qualidade visitantes, turistas, investidores e até novos residentes. Se é incontestável que a Gastronomia está na moda e, por tal, esta é a ocasião ideal para fazer da Chanfana uma referência por todos conhecida e apreciada, o fundamental é acreditarmos que pela intensidade e alma dos cheiros e sabores, mais do que o palato, se alcança o Cerne, o Ser e o Estar das Gentes destas Terras e que, deste modo, se preserva a tradição e identidade dos povos e se contribui para a construção da nossa própria História!

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As Terras da Chanfana aguardam por vós!

“A cumplicidade com os sabores ancestrais e inigualáveis da Chanfana, originária destas paragens, confeccionada com carne de cabra e vinho tinto e que se assume gastronomicamente como denominador comum dos concelhos de Lousã, Miranda do Corvo, Penela e Vila Nova de Poiares e a proximidade com sensações e vivências de uma envolvente verdejante em que o desporto de natureza é experiência imperdível fazem da Mesa das Terras da Chanfana, uma proposta única e inimitável, nossa expressão de identidade! A dignidade de um vinho tinto excepcional das Vinhas Velhas de Santa Maria da Quinta de Foz de Arouce, torna o manjar próprio para palatos exigentes, sendo completado em jeito de pospasto com Queijo do Rabaçal de sabor forte do leite de cabra e ovelha intensificado pela cura e, com Mel da Serra da Lousã, néctar endógeno de tom âmbar e sabor intenso que advém da flora serrana em que predomina a urze. O Licor Beirão e o Beirão de Honra, são os digestivos que permitem terminar a refeição com arte e mestria centenária e, já recuperado o corpo e a mente, permitir a visita ao Mosteiro de Santa Maria de Semide, classificado de interesse público e que remonta aos primórdios da nacionalidade”

Dueceira -Associação de Desenvolvimento do Ceira e Dueça Lousã | Miranda do Corvo | Penela | Vila Nova de Poiares (*) Terras da Chanfana ® é Marca Registada desde Outubro de 2018 Observação: O texto não se rege pelo NAO


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