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28 jun · 30 set


RETROCOLONIZAÇÃO

revista

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João Moreira | Editorial #3 João Moreira | Grande entrevista #4 João Albuquerque Carreiras | Retrocolonizadores #12 André Gonzaga | Tanto mar! Ter de se sair... #18 João Moreira | Casa Pau Brasil #22 João Albuquerque Carreiras | Sou uma reencarnação... #27 Valentina Carvalho | Saudades #28 Luiz Garcia | O regresso #30 João Albuquerque Carreiras | Tem Carnaval em Lisboa? #32 João Almada | Coluna descolada #36 Sílvia Duarte | Viva o Samba! #38 Marta Gonzaga | Marinho Ponci #42 Sara Figueiredo Costa | Tom de Festa #44 Ana Pessoa | Exposição Fafe do Brasileiro... #46 Vanessa Pires de Almeida | Continuar, inovando #48 Marcelo Duarte de Souza | Alocásia Amazônica #50 Bruno Esteves | Roberta Medina #58 Fernando Carqueja | NOS Primavera Sound #64 João Moreira | Álvaro Covões, um criador de valor #76 Miss Bungle | “Why can’t it be mine”? #86 João Moreira e Nuno Maia | Vodafone Paredes de Coura #88 João Moreira | Quando o Jazz regressa a casa #96 André Serpa Soares | A Barca dos Amantes #100 Graça Canto Moniz | Bem-haja, António Prata #101 Marta Gonzaga | Alface fora d’água #102 Ana Luísa Soares e Ana Raquel Cunha | Árvores de Lisboa #105 Joana Sousa Monteiro | “Futuros de Lisboa” #106 José Diogo dos Santos | Brotéria, um projeto... #111 Gonçalo de Carvalho Amaro | Padre António Vieira... #114 Pedro Teotónio Pereira | A Procissão de Santo António... #116 Lídia Fernandes | Dois capitéis romanos de Lisboa #120 MNAA | Todos Somos Mecenas #129 Pedro Mascarenhas Cassiano Neves | Retratos do património #130 Lisbonar | O nosso guia de Lisboa #133 Ana Pérez-Quiroga | Auto-retrato da artista...#142 Francisco Mallmann | Incapturáveis #147 Rodrigo Cabrita e Paulo Duarte S.J. | Our Lady Among Us #148 Sophie Hannah | O mistério dos três quartos #159 João Albuquerque Carreiras | Postais perdidos #165 Veronica Mello | Entrevista Maria Ana Pimenta #166 André Gonzaga e Duarte Bénard da Costa | À conversa com... #168 José Pedro Pinto | Les Vampires (1916) #174 André Pinguel | A música dos vinhos #179 Pedro Santo Tirso | Sazonalidade #180 Pedro Nápoles | Raio gourmetizador #182 Mariana Claro | Mil e uma maneiras de fazer bacalhau #184 Joana da Franca | Chapéus há muitos #186 Ana Gomes, Andreia Lourenço e Gabriela Mota Marques | Museu Arte Nova... #188 Nuno Maia | Costa Nova – Dar futuro ao passado #193 Ana Ferreira | A nova vida da lancha... #196 Bruno Esteves | O renascimento de uma cidade #200 Pedro Santos Guerreiro | Acordar cheio de bolhas #208


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Fotografia por Hugo Macedo


Editorial “O sal das minhas lágrimas de amor Criou o mar que existe entre nós dois Para nos unir e separar Pudesse eu te dizer A dor que dói dentro de mim Que mói meu coração nesta paixão Que não tem fim Ausência tão cruel Saudade tão fatal Saudades do Brasil em Portugal” Vinicius de Moraes Há coisas que não se explicam. Sentem-se. Assim é a minha relação com o Brasil, e em particular com o Rio. Muito antes de visitá-lo pela primeira vez, já éramos íntimos. O oceano que nos separava parecia reduzido ao tamanho de um pequeno curso de água, que eu pulava com facilidade para chegar à outra, ambicionada, margem. Quase diariamente, deambulava pela Avenida Rio Branco ou pela Presidente Vargas, perdia-me nas pequenas ruelas do Centro e no Arco do Teles parava para ouvir as rodas de samba, antes de me sentar na penumbra do Bar Luiz a tomar o melhor chope do centro da cidade. Mais tarde, havaiana no pé, short e camiseta, e sorriso aberto ao sol de verão, feito carioca, percorreria o calçadão, do Leme ao Leblon, adentrando por vezes (mais do que as desejáveis) nas refrescantes ruas de Copacabana e de Ipanema para chopear e bater papo sobre futebol, quase único tricolor, num mundo de vascaínos e flamenguistas. Com o fim de tarde, recolhia-me à Travessa para um café regado a livros e revistas, antes de um passeio pela Visconde de Pirajá e uma oração rezada em silêncio na pequena Igreja de Nossa Senhora da Paz, partindo, depois, noite adentro pelos botecos de Botafogo e pela animação incontida da Lapa. Muitos anos decorreriam até que aterrasse pela primeira vez no Galeão, ou melhor, no Aeroporto Internacional António Carlos Jobim e pudesse confirmar, ao vivo e a cores, cada um dos motivos dessa incontrolável paixão. Dessa primeira vez, quando a porta do avião se abriu e senti no rosto uma baforada de ar quente, percebi que aquela era mesmo a “minha praia”. E nem o trajecto pela Linha Vermelha, ladeada de favelas, numa espécie de choque de realidade, nem o cheiro putrefacto da Baía de Guanabara, presente de Deus envenenado pelo Homem, mudaram o meu encanto pelo Rio.

Propriedade: Studiobox, Publicidade e Gestão de Meios, Unipessoal Lda Direcção: Bruno Esteves Susana Andrade Edição: João Moreira João Albuquerque Carreiras Fotografia: Bruno Esteves, Fernando Carqueja, Hugo Macedo, Marcelo Duarte de Souza, Rodrigo Cabrita Arte: Studiobox Ilustração: Tiago Lopes Identidade Corporativa: Jorge Barrote Comercial: geral@revistabica.com +351 962 706 373 / 968 405 494 Impressão: Tondelgráfica, SA Periodicidade: Trimestral Tiragem: 5 000 unid. Depósito legal: 416462/16 Interdita a reprodução de quaisquer textos ou ilustrações por quaisquer meios. A Revista Bica é escrita em português, sem utilização do acordo ortográfico. Os conteúdos dos textos e as opiniões neles expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Capa: Marcelo Duarte de Souza

APOIOS:

Foram precisos outros tantos anos para que o Brasil me entrasse porta adentro e enchesse de colorido a minha pátria. Já não o Brasil submisso e iletrado de garçons e diaristas, antes um Brasil moderno, cosmopolita e arrojado de artistas e empresários, assumidamente orgulhoso de si próprio e empenhado em influenciar culturalmente o lado de cá do Atlântico. Nunca como hoje, foi cumprido o sonho de Oswald de Andrade, de exportar a cultura brasileira como se exportara o pau-brasil. Talvez, para isso, tenha sido necessário que o Brasil nos descobrisse sem complexos e se deixasse apaixonar por este país de negreiros, o primeiro a abolir a escravatura, por este país ultramarino, o primeiro a emancipar pacificamente a sua maior colónia, por este país de combatentes, o primeiro a extinguir a pena de morte.

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Nesta edição, comemoramos esses novos colonizadores do lado de lá do Atlântico, esses retrocolonizadores, como decidimos chamar-lhes, que decidiram fazer de Portugal o seu porto de abrigo, trazendo na bagagem a riqueza da sua diversidade cultural que ajudamos a construir, enriquecendo com cheiros, cores e sons diferentes um país que urge “desengravatar-se”.


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Grande Entrevista


Paula Ribeiro

por João Moreira

Up Magazine

Paula Ribeiro é brasileira, nascida em São Paulo, mas a alma é portuguesíssima. Chegou ao nosso país há 31 anos com o marido e dois filhos pequenos, mantendo o apartamento que deixara na capital paulista, não fosse a aventura não correr bem. Seis meses depois, as dúvidas transformaram-se em certezas e Lisboa numa cidade para a vida. Para trás deixou uma carreira ligada ao cinema para se dedicar à edição. Faz revistas há 28 anos, a mesma idade com que chegou ao nosso país. Exame, Activa, Cosmopolitan, Ícon, o jornal Correio do Brasil e UP, que dirige desde 2007 com o mesmo entusiasmo do primeiro dia.

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Recebe-nos na sede da revista da TAP, em pleno Chiado, com ar atarefado e um sorriso no rosto. No seu gabinete, sobressaem, ocupando uma parede inteira, as capas da UP e duas frases, uma de Sophia de Mello Breyner e outra de Caetano Veloso, que dão o mote para uma entrevista que se prolongará por mais de duas horas. Porque com a Paula é assim, a conversa “rola solta” sem filtros, com uma sinceridade arrebatadora e muitas gargalhadas pelo meio.


Como é que a Paula olha para esta nova leva de emigração brasileira para o nosso país? Estou em Portugal, vai fazer, daqui a dois meses, 31 anos. Então, já vi muitas levas de emigração. Eu própria sou de uma dessas levas, da leva dos publicitários. A primeira foi a dos dentistas, nos anos 80, e no final dos anos 80 foi a leva dos publicitários. O meu marido é publicitário e viemos em 1987. Na verdade, uns e outros abalaram um pouco o status quo na área deles. No caso dos dentistas provocaram até bastante polémica, porque Portugal não reconhecia a igualdade dos diplomas. Tem uma história bem curiosa e irónica em torno disso: Portugal não reconhecia a igualdade de diplomas, mas a dentista do João de Deus Pinheiro, que era o Ministro dos Negócios Estrangeiros, era brasileira (risos). Depois, os publicitários também abalaram muitas coisas. Já vi muitas levas e já vi a leva ao contrário, dos que foram daqui para lá, que agora não existe mais, porque a situação no Brasil está uma tragédia e ninguém quer ir para lá. Pelo contrário, todo mundo quer sair. Nesses anos eu já vi de tudo, e sempre fui muito crítica em relação à forma como o Brasil via Portugal, o que me provocou muitas irritações ao longo desses anos (risos). No ano 2000, comemoravam-se os 500 anos dos Descobrimentos, e eu dirigia uma revista que de certa maneira é a mãe da UP, a Ícon...

...que era distribuída com O Independente? Essa mesmo. Tenho todos os números. A Ícon é mãe da UP e foi a única revista, das oito que eu fiz, que fiz para mim. O modelo de leitor era eu mesma, e era uma revista propositadamente contra a maré. Acha que as revistas que fazemos para nós próprios são as que resultam melhor? Não. Aliás, tem uma tese que diz que quando a gente quer fazer uma coisa para a gente, a gente deve escrever um diário, porque aí a gente guarda e põe na gaveta. Revista, a gente faz para o leitor.

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A Ícon era a sua cara? A Ícon não era só a minha cara, na verdade a Ícon era a cara de 3680 almas, o número de leitores que tivemos na última edição e a quem agradeci no meu último editorial. Eu vinha de revistas femininas, da Activa, da Cosmopolitan, e naquela época, em 99, eu queria fazer uma revista que falasse de coisas diferentes, daquilo de que ninguém estivesse falando. Dava até um exemplo bem concreto: tinha acabado de sair o

filme Eyes Wide Shut do Kubrik, e o Tom Cruise e a Nicole Kidman apareciam em todas as revistas nacionais e internacionais, aí eu dizia que só iriam sair na Ícon quando ninguém mais estivesse falando deles (risos). Veio isto a propósito dos 500 anos do Descobrimento do Brasil que eu queria cobrir para a Ícon, mas fugindo ao que todo o mundo estava falando. Parei para pensar um pouco e decidi que tinha de ir para o Brasil falar com um monte de gente, arquitectos, fotógrafos, publicitários, jornalistas, com a certeza de que a imagem de Portugal, no ano de 2000, já teria mudado, porque os brasileiros já veriam Portugal com a cara que Portugal tinha no início do século XXI.

Não mais a do Joaquim e do Manuel, donos da padaria da esquina. Exacto. Tinha a certeza que as pessoas já sabiam que isso tinha mudado, mas a verdade é que fiquei em estado de choque porque percebi que a imagem de Portugal continuava a mesma, mesmo entre as pessoas mais antenadas. Isso me deu uma irritação imensa, e eu comecei a perder um pouco a paciência e me afastei. Nos últimos 11 anos, o Brasil voltou à minha vida em grande estilo, e voltou porque o Brasil é um mercado muito importante para a TAP. Por isso, acompanho o que se passa do lado de lá, onde, graças a Deus, tenho muitos e bons amigos. Então, o que a gente está assistindo nesses últimos dois anos, do meu ponto de vista, é quase uma piada, porque, na verdade, os brasileiros descobriram Portugal no mesmo momento que todo o mundo descobriu. Nós estamos em pleno Chiado, e você sai da porta da revista e vai até à Brasileira e não ouve ninguém falando português, e quando ouve, é brasileiro. São franceses, italianos, americanos que estão comprando o Alentejo, holandeses que já compraram Vila Nova de Mil Fontes e agora brasileiros que invadem o país em busca da coisa mais preciosa que Portugal tem – segurança. É isso que as pessoas querem, segurança, e falo isso com a certeza da experiência que ganhei durante esses 11 anos que trabalho com Turismo, uma área que para mim nem existia, não estava na minha cabeça. Eu era uma jornalista normal.

E realizadora, actriz, produtora... (Risos) Mas nunca tinha feito uma revista corporativa voltada para o Turismo. Eu não sabia nada de Turismo e tive de aprender depressa. Deu-se a feliz coincidência de começar a trabalhar nessa área num momento em que tudo estava acontecendo. Ao longo desses 11 anos assisti a muita gente trabalhando muito e muito bem, como o Adolfo Mesquita Nunes, com quem costumo brincar dizendo que o adoro, apesar de ser do CDS, e que imprimiu uma virada muito importante na forma de divulgar Portugal. Em vez de gastar fortunas em publicidade, em anúncios de uma página nas revistas da es-


Não acha que essa vinda de brasileiros, sobretudo da área da cultura, é positiva para Portugal? Equilibra um pouco uma balança que pendia sempre para o lado brasileiro? Acho que em algumas áreas culturais, Portugal e Brasil sempre se deram bem, na mão dupla. Em outras, por exemplo, como a música, sempre foi mais de lá para cá.

Agora tem a Carminho e o Zambujo que fazem um enorme sucesso no Brasil. Antes teve os Madredeus...

... e Amália. Amália, claro. Mas, comparando com o que vem de lá, há uma grande diferença, embora a produção musical também não seja comparável. Outra área que sempre funcionou bem foi a das artes plásticas. Os artistas plásticos de cá e de lá sempre se deram bem.

O design. O design agora está arrebentando, porque é uma coisa mais recente, e é algo em que o Brasil é muito bom.

A arquitectura. A arquitectura tem uma mão dupla, porque tem Siza lá, tem Paulo Mendes da Rocha cá. Outra coisa que funciona é o mundo académico, tanto

em Letras como em Direito. O Direito Constitucional do Brasil é muito influenciado pelo português. Eu me lembro de há uns 10 anos chegar ao Brasil, e dois sobrinhos meus, que estudavam Direito, virem contar muito excitados: “Tia, ontem eu assisti a uma palestra do Canotilho”, e eu fiquei admirada: “Vocês sabem quem é o Canotilho?”, e eles: “Tia, o Canotilho é o Deus do Direito Constitucional!” (risos). Então, nesse universo do Direito e das Letras, sem dúvida que a coisa vai bem. No capítulo da Engenharia, o Brasil precisa muito de engenheiros, e Portugal tem bons engenheiros. Então, dá para exportar.

E na literatura? Você nem imagina o sucesso que o Valter Hugo Mãe faz no Brasil, vende mais do que o Chico Buarque de Hollanda. Aliás, toda essa nova geração, o Peixoto, o Gonçalo arrebentam no Brasil, que é um país iletrado. Na Literatura, acho que está acontecendo, sim. Em Portugal, os novos escritores brasileiros também se estão a afirmar, muito pelo trabalho da Tinta da China e da Quetzal, que editaram autores como a Tatiana Salem Levy, que está a viver em Lisboa, o Luiz Ruffato, o Arthur Dapieve, o Michel Laub... No ano em que eu estava fazendo a UP, em 2007, trabalhei seis meses com o Gonçalo Bulhosa, que tinha a editora Palavra, com um selo chamado Letras Tropicais, que editava Zuenir Ventura, Luis Fernando Verissimo, Arnaldo Jabor. O Gonçalo me convidou para ajudar ele com esse selo, e nós trouxemos esses escritores para Portugal. Aliás, eu comecei a fazer a revista da TAP porque fui à TAP propor uma parceria para esse projecto. Por isso, sempre houve essa vontade de publicar autores brasileiros. Na Literatura, as coisas estão mexendo. Nesses encontros literários, em Paraty e em Óbidos, tem sempre autores portugueses indo ao Brasil e autores brasileiros vindo a Portugal. A Bárbara Bulhosa faz muito esse interface. Hoje em dia, ela é a rainha disso tudo (risos). Por outro lado, cada vez mais você vê autores brasileiros escrevendo na imprensa portuguesa e autores portugueses escrevendo na imprensa brasileira. A Revista Piauí, que é a melhor coisa que tem no Brasil, dá muito espaço para autores portugueses e, algo que seria impensável há pouco tempo atrás, o Ricardo Araújo Pereira tem uma coluna na Folha de São Paulo.

O João Pereira Coutinho já tem uma crónica semanal na Folha há muito tempo. Mas o Pereira Coutinho é amigo do Otavinho Frias Filho, desde sempre. Eu fiz um jantar em minha casa para os dois, porque a gente tinha editado na Palavra o livro do Otavinho e edi-

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pecialidade, começou a trazer jornalistas a visitar o país. E essa é uma tese que a gente sabe que não tem erro, porque Portugal é aquele produto que basta experimentar! Se você der a experimentar, não precisa fazer mais nada para promover, porque vai adorar. Do vinho à comida, do sol às pessoas, à hospitalidade, Portugal é imbatível. Por isso, com o trabalho de muita gente, e muito da TAP também, esse país, hoje, está desse jeito, com todo mundo querendo comer um pedacinho dele (risos). Ontem mesmo, um produtor de coisa importante no Rio e consultor do CESC do Brasil inteiro, que nunca tinha vindo a Portugal, veio tomar um café comigo. Aí eu perguntei – Renato, você nunca tinha vindo a Portugal? - Não Paula, nunca. Mas agora vim e o que é que é isso? - Você não está pensando em vir morar para cá, né? Porque eu não aguento mais brasileiro que está pensando em vir morar em Portugal. Mas a verdade é que ele já está louco, querendo mudar. E isso acontece com quase todos os que visitam o país, e não é mais só em relação a Lisboa ou Porto, Guimarães está bombando. Hoje mesmo recebi um telefonema da Anna Hamilton, que é a mulher que acabou de fazer o Memorial do World Trade Center e está começando um projecto gigante em Guimarães. Évora, Coimbra, Aveiro, Viseu, o país inteiro está acontecendo.


távamos o João. Como o Otavinho estava em Portugal, vieram jantar comigo e passei o maior vexame da minha vida. Eu tinha escrito a contracapa do livro e lembrei-me de ir pegar para ele autografar para mim. Fui à estante, peguei o livro e entreguei na mão dele. Ele abre e já tinha feito a dedicatória, um ano antes, e eu não lembrava. Fiquei tão sem graça, que ele falou assim: “Paula, posso fazer outra”. (Gargalhada). Então, o João e o Otavinho eram amigos. Com o Ricardo é diferente, porque tem um impacto tão grande no Brasil que o maior jornal do país o convida para escrever, e isso revela a importância que é reconhecida.

Não acha que esta nova leva migratória trouxe uma revolução de costumes, de uma certa forma de estar que está a mudar a cidade e o país?

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Acho que no dia que os brasileiros entenderem, e não entenderam ainda, o sentido de humor dos portugueses, aí a coisa vai mudar. Aliás, os brasileiros nem sabem que os portugueses têm sentido de humor e que o sentido de humor português é muito british. E isso faz toda a diferença. Eu tive, durante 27 anos, uma moça que trabalhava na minha casa que era portuguesíssima. Entrou na minha casa com 18 anos, para cuidar dos meus filhos pequenininhos, e ficou até há dois anos atrás. Agora tenho uma mineira, de quarenta e poucos anos, com um marido e duas filhas, uma gente da melhor qualidade, super do bem, que eu adoro. Mas, ontem, eu estava tomando café e ela estava ali conversando, e de repente diz: “Ah porque os portugueses, eles têm uma maneira de falar...” e pouco depois “Aqui em Portugal...” e eu disse para ela: “Vou-te dar um conselho que eu aprendi. Aliás, graças a Deus eu não precisei aprender porque eu cheguei com isso muito claro há trinta e um anos. Quando a gente muda de país, é que nem você ser hóspede na casa da sua mãe. Mesmo na casa da mãe, depois que a gente sai, tem coisa que a gente não pode fazer. Então, nenhum português foi lá pedir para você vir morar aqui, não foi?” - “Não, ninguém.”- “Na verdade, Portugal até tem um problema de emprego e, teoricamente, você está tirando emprego a um português. Por isso, pára de falar assim dos portugueses, porque são nove milhões e meio dentro de Portugal e mais cinco milhões fora, e tem portugueses de todo o jeito, como tem brasileiros de todo o jeito.” - “A senhora tem razão.” É preciso vir com humildade, espírito de adaptação e de cabeça aberta para entender e aceitar as diferenças. Eu nunca me senti estrangeira em Portugal. Nunca me senti descriminada por ser brasileira, e, quando falo isso, as pessoas duvidam de mim. Nossa, nunca? Nunca! Pelo contrário, sempre me senti super acolhida. Por exemplo, eu começo uma reunião na TAP, e sou a única brasileira, e tem dez pes-

soas na sala, e, quinze minutos depois, todo o mundo está falando brasileiro.

Isso é verdade e é impressionante. Como é impressionante eu não deixar de falar brasileiro vivendo há trinta e um anos em Portugal.

Eu não conheço nenhum brasileiro a viver em Portugal que tenha perdido o sotaque e não conheço nenhum português que vá ao Brasil que não ganhe sotaque. Ganha na hora! Essa é outra coisa que os brasileiros têm de aprender, é que o sotaque é deles. Eles acham que o sotaque é “sotaque de português”. Querido, o sotaque é seu! Parece-me muito desencantada com o seu Brasil... Ainda tenho de ultrapassar um pouco essa tristezasinha dos brasileiros, só agora estarem tão deslumbrados com Portugal e não terem descoberto isso antes. Em 94, o ano em que Fernando Henrique foi eleito pela primeira vez, eu estava na Cosmopolitan, e a Veja me convidou para escrever na última página, numa crónica chamada Ponto de Vista, que toda a semana tinha um cronista diferente convidado. Quase morri de orgulho (risos). O convite era exactamente por causa das relações entre portugueses e brasileiros, e eu escrevi um texto, que não sei onde está porque naquela época não tinha computador, que se chamava “Uma relação tão delicada”, e em que dizia que os brasileiros me pareciam aqueles adolescentes mal-educados e tontos que preferiam ter sido colonizados pelos ingleses e que os portugueses eram aqueles avós babacas que batiam palmas ao filho mal-educado quando falava qualquer besteira. Uma hora, essa relação ia ter de melhorar, ia ter de chegar a um ajuste de maturidade, e, de certa forma, acho que, quase vinte e cinco anos depois, essa relação está ficando mais madura. Os brasileiros deixaram de falar da “terrinha”, expressão que eu abomino, e “país irmão”. “O país irmão” é uma expressão que eu odeio, porque não é verdadeira. “País irmão”, o cacete! São dois países que têm muito em comum, mas com um monte de coisas para resolver. Então, acho que estamos entrando numa fase de maturidade na relação entre dois países com uma ligação delicada. Acho natural que os portugueses se orgulhem de terem descoberto aquele país gigantesco, e sei que têm um carinho enorme pelo Brasil, e que, quando lá chegam, amam, porque, aqui entre nós, o Brasil é fácil de gostar (risos). Por outro lado, também percebo que os brasileiros ainda estejam descobrindo a maravilha que é Portugal, vindo visitar, vindo morar para cá, em busca de paz e, na minha opinião, por uma questão de desapontamento com o Brasil. Essa emigração recente também tem uma coisa meio ideológica.


Desde 2013. Desde Julho de 2013, com a primeira manifestação contra a subida do preço das tarifas dos ónibus. Aí começou tudo, e acho que depois, nos últimos cinco anos, o Brasil foi ladeira abaixo.

A grande transformação social promovida pelo PT, durante os governos Lula, foi só um fogacho, que não teve continuidade, ou essa ascensão social, de milhões de brasileiros, criou novos graus de exigência que deixaram de poder ser satisfeitos com os biliões desviados para a corrupção e os reflexos da crise internacional? Em 1982, fiz um documentário chamado “Brasil do Oiapoque ao Chuí”, e fui ao interior do Nordeste, e nunca vi tanta pobreza. Aliás, nessa época, vi muita pobreza. O Nordeste era realmente muito pobre. Por isso, acho que era necessário fazer alguma coisa para mudar essa tragédia. Mas não tenho uma vivência no Brasil, nesse Brasil, para saber se, de facto, essa transformação aconteceu. Mas eu sei de coisas. Por exemplo, nós fizemos uma edição sobre o Ceará, logo no começo da revista, e um dos projectos mais maravilhosos que descobrimos foi o das rendeiras que criaram uma comunidade dedicada aos bordados tradicionais. E aquilo estava super organizado, e vendiam muito, tanto que até começaram a exportar. Era um projecto maravilhoso. Cinco anos mais tarde, fizemos outra edição do Ceará, e foi outra jornalista fazer a reportagem, e falei que queria muito recuperar aquele projecto das rendeiras e perceber em que fase estaria. Já não existia. Não. Tinha acabado porque elas tiveram de optar entre manter o projecto ou receber a Bolsa Família, e preferiram ficar com a Bolsa Família. Isso para mim é muito paradigmático. Teve muitas coisas boas, mas também muitas erradas. Eu fui muito PSDB. Amo o Fernando Henrique, aliás, amava, porque hoje em dia já não amo mais. Era muito próxima do José Gregori, que foi Ministro da Justiça dele e, depois, Embaixador em Portugal, e é meu amigo da vida, e Marilena Gregori e Dona Dulce Cardoso. A Bolsa Família, que eu sempre achei um projecto deslumbrante, é um projecto da Dona Rute Cardoso. Portanto, quando olho essa transformação que o Lula promoveu, sei que o PT fez o que fez porque tinha uma base deixada pelo Fernando Henrique, que lhe permitiu fazer essas transformações. Se não tivessem existido oito anos de Fernando Henrique, credibilizando o país externamente e garantindo o equilíbrio financeiro, não tinha sido possível um primeiro mandato do

PT do jeito que foi. Eu não votei no Lula. Aliás, votei no Lula quando tinha vinte anos em São Paulo. Depois, nunca mais votei no Lula. E, quando houve a eleição Lula/Serra, o Zé Gregori, que era o Embaixador do Brasil em Portugal, me ligou, pedindo para eu ir à SIC Notícias no lugar dele, porque, como era Embaixador, não podia falar de política, eu disse “Pô, eu não gosto de falar de política, sou jornalista”, mas, como eu tinha tanta fé no José Serra, fui. Era eu e o Duda Guennes, que era um personagem maravilhoso, o percursor de todos nós, porque o Duda veio para Portugal no 25 de abril, e era uma pessoa de quem eu gostava muito. Mas o Duda era PT até a medula, e lá fizemos o debate. Passados quinze dias, ou uma semana, teve a eleição, e fomos comentar de novo na SIC Notícias. E estavam passando as imagens de Brasília, a felicidade total com a vitória do Lula, e a moça lá da SIC vira-se para mim e diz assim: “Tem alguma coisa errada. Você está emocionada com essas imagens, mas o seu candidato não era o Lula.” Aí, eu disse para ela: “Primeiro, não é mais Lula, é Presidente Lula. Acabou essa intimidade, ok? Segundo, o que eu estou vendo é o meu Brasil feliz com o meu Presidente. É obvio que tenho de ter o mínimo de esperança de que isso vai dar certo. Posso até achar que ele não era o cara mais bem preparado para ser o Presidente da República, mas é um cara que tem uma história, e a partir do momento em que foi o mais votado, é o meu Presidente.” Resumindo, acho que, com base no trabalho do PSDB, o primeiro mandato do Lula foi um mandato bem feito. Mudou o Brasil e ajudou muita gente a sair da miséria. O que, no meu entender, destruiu tudo isso foi a corrupção, que dói especialmente vinda do PT. Porque uma coisa é você ver o Collor, o Sarney e aquela corja toda roubar, outra é você ver o PT roubar. Porque o PT podia errar, mas o PT não podia roubar. O Zé Dirceu foi o ídolo de uma geração. Eu sou mais nova, mas o meu marido, que tem mais oito anos que eu, idolatrava o Zé Dirceu, que tinha sido o cara do Maio de 68. Por isso, quando você vê o que essas pessoas fizeram, o que essas pessoas roubaram, traindo os ideais, é muito ruim, é muito triste. Agora, eu detesto a Dilma, aliás, nem é detestar, acho a Dilma uma tonta, uma babaca, uma pessoa que está preocupada em ser “a Presidenta”, que é a coisa mais ridícula que alguém pode dizer. Sabe, o buraco é mais em baixo, porque tem muito mais coisa que pensar. Mas ela não tinha de ser destituída. Ela tinha acabado de ser eleita. Um dos dias mais tristes da minha vida de brasileira foi assistir àquela Assembleia de Destituição, juro por Deus. Eram quatro e meia da manhã aqui, e eu chorava e pensava: “Meu Deus, quem é essa corja? Quem são esses animais? Quem são esses boçais?”. Então, acho um absurdo terem tirado a Dilma, e mesmo o Lula, acho ridículo. Quando qualquer gerentezinho da Petrobras tem cem milhões de dólares na Suíça, o Presidente da República é

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Resulta dum extremar de posições que o Brasil está a viver desde há cinco, seis anos a essa parte?


corrompido com um apartamento no Guarujá, é ridículo! E isso me entristece, porque acho que, independente de qualquer coisa, o Lula tem uma biografia que o honra. Muito pouca gente foi capa da Time como um dos homens mais influentes do mundo. Então, jogar uma biografia no lixo é muito ruim, e a prova de que é ruim é o retrato do Brasil. Hoje, as pessoas vão votar em quem, daqui a três meses? No Bolsonaro?

Isso seria a visão do horror! Aí, me desculpe, porque, eu que nunca votei no Lula, se o Lula for candidato, eu voto nele.

Mas o que assusta é esse extremar de posições de que falava. Essa impossibilidade do contraditório, de parte a parte, e que se estende a quase todos os temas.

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Está todo o mundo maluco. Eu tenho uma imensa tristeza, porque eu amo o Brasil! Não quero voltar a morar lá, mas amo o meu país. Quando vim para Portugal, o meu marido teve uma proposta de trabalho, e como a gente já estava querendo sair do Brasil, embora na época fosse muito complicado porque eu tinha um filho de quatro meses e outro de dois anos, fizemos um acordo, deixar correr durante um ano e depois decidir se ficávamos. Deixei o apartamento de São Paulo fechado e seis meses depois já tinha a certeza de que queria ficar aqui para sempre. Tenho, até hoje, guardada uma entrevista que dei para O Independente sobre os brasileiros em Portugal, em 1987, e onde já dizia que queria morrer em Portugal e as minhas cinzas espalhadas pelo Tejo. Continuo dizendo a mesma coisa. Portugal é o meu chão, é aqui que eu amo viver. Agora, é óbvio que eu gosto do Brasil, que eu amo o Brasil e tenho imenso orgulho de ser brasileira. Acho que ser brasileira, ter sido formada com aquelas quinhentas raças é muito importante para mim e tem muito a ver comigo. Eu me identifico muito com isso, mas ao mesmo tempo fico desesperada, porque vejo o meu país ser destruído. A gente lá em casa tem muito interesse por história e política, e tem até uma biblioteca muito boa de História do Brasil. E você lê sobre o Brasil dos anos 60, com essa coisa do Maio de 68, sobre os anos 50, sobre o período da Ditadura Militar que, em termos culturais, até por causa da ditadura, estimulou o aparecimento de um teatro forte, um cinema forte. Mas aí tem aquele lado brasileiro, aquele lado Macunaíma, aquela coisa do twist. Quando você via Rei da Vela, do Oswald de Andrade, dirigida por aquela maluquice do pessoal do Teatro Oficina, e todo esse turbilhão cultural que tinha a ver com o teatro, com o cinema, com a literatura, com as artes plásticas, com a música, era uma efervescência cultural contra a ditadura e cheia de artimanhas. Não é à toa que o Chico ficava inventando o Julinho da Adelaide, era para fugir à censura.

Depois, tinha aquele twist de contemporaneidade, (de que-retirar) do qual, eu acho, o Caetano é um símbolo.

O símbolo duma permanente capacidade de se renovar que o Brasil tem. Quando me perguntam o motivo pelo qual vim embora e fiquei, digo sempre que foi porque não nasci (o-retirar) Caetano Veloso, porque se tivesse nascido Caetano, que tem uma capacidade de ler e interpretar o Brasil que muita pouca gente tem, com uma clareza que só ele consegue, talvez tivesse ficado. Só que o Brasil é antropofágico, o Brasil te devora, o Brasil te põe num liquidificador e você se acaba. Se eu tivesse ficado, não dá para imaginar o que teria acontecido. Profissionalmente, eu não teria virado o que virei. Eu acho que Portugal me deu régua e compasso e me deu o distanciamento de que precisava, aquela coisa de poder olhar com a distância certa, e, sobretudo, me deu algo que o Brasil não consegue dar por força da forma de ser brasileira, que é um tempo de raciocínio. Portugal me deu, na hora certa, porque eu tinha vinte e oito anos, uma idade boa de amadurecimento, o tempo de que precisava para aprender mais, para ler mais, para estudar mais, para raciocinar.

Você acha que estas eleições vão trazer a transformação de que o Brasil necessita? Não, mas acho que vai ter de acontecer alguma coisa muito forte no Brasil. Essas eleições são capazes de despoletar um novo passo, que eu não sei qual vai ser. Vai ter de ser uma força de balançar consciências, algo que vem de baixo, que tem de vir de baixo, e tem de vir de uma geração mais nova, tem de vir de uma geração que fuja daqueles status quo de Brasília.

Como se dirige, durante 11 anos, com um espírito sempre tão inovador e tão revolucionário, a mais lida revista portuguesa? Porque o assunto é muito bom (risos)! Portugal é um poço sem fundo. Quando eu apresentei o projecto para a TAP, o vice-presidente perguntou para mim: “Você acha que consegue mostrar o melhor de Portugal por quanto tempo?” Olhei para ele, e respondi: “Uns 40 anos”. A verdade é que já passaram 11. Acho que Portugal é um tema fascinante e tenho muito essa obsessão de mostrar Portugal para o Mundo.

O olhar de uma brasileira contribuiu para essa valorização? Muito, porque o brasileiro não tem vergonha. – Paula aponta para um quadro, colocado no seu escritório, com um excerto do poema “O que é, o que é?”, de Gonzaguinha, onde se lê “Viver/ E não ter a vergonha/ De ser feliz (...)”. - Você entendeu? Isso é tão a minha cara...


... a Paula é uma “eterna aprendiz”? A cada minuto. Eu não tenho o menor problema em dizer que não sei, não tenho problema de exibir aquilo que eu acho que vale a pena exibir. Então, esse lado brasileiro me ajudou muito, e, como realmente amo Portugal de um jeito meio doentinho, se tornou fácil. Acho Portugal um país incrível, e já tive brigas com amigos portugueses que estão sempre dizendo que Portugal está na cauda da Europa. Que cauda da Europa? É o melhor lugar do planeta. O António Alçada Batista, que conheci logo que cheguei aqui e com quem aprendi muito sobre a vida e sobre Portugal, uma das pessoas mais importantes na minha vida, costumava dizer uma frase, que usei como prólogo de um livro que a gente publicou quando a UP fez 5 anos, que se chamava Portugal Vale a Pena, e que dizia assim: “Portugal é um bonsai. A árvore é pequenininha, mas as raízes são enormes.” Portugal é isso. Como é que é possível, numa coisa deste tamanho, mudar tudo a cada 50 km? Mudar a comida, mudar o sotaque, mudar a paisagem, mudarem as pessoas? É um poço sem fundo. Então, essa energia, que me faz estar, há 11 anos, dirigindo a UP, vem de Portugal e da vontade de mostrar que Portugal é melhor do que o resto do mundo.

Isso só foi possível porque a UP é uma revista corporativa? Não, só é possível porque tenho a sorte da TAP me dar uma liberdade que eu nunca tive, em nenhuma revista que dirigi. Consigo fazer a UP, do jeito que faço, pela liberdade, sobretudo pela liberdade que tenho. Por isso, é um privilégio raríssimo você poder fazer voar. Aliás, o slogan dessa revista é “Ouse Sonhar Mais Alto”. Acha, como o Vinicius de Moraes, que os portugueses precisam de se desengravatar?

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Eu acho que o que Portugal precisa, e que de certa forma a nova geração, graças a Deus já tem, é de um pouco mais de autoestima.


Retrocolonizadores por João Albuquerque Carreiras

Conversámos no Adamastor – com vista para o Tejo, esperando aquele pôr-do-sol tão único, num dos locais de Lisboa onde é mais evidente a nova onda de emigração brasileira na cidade – com Vítor, Carolina e Marcela, três cariocas que trocaram o calçadão e o choppe pelo Bairro Alto e a mini. Quisemos saber o porquê de saírem do Brasil, da escolha de Portugal, entender o que acham da experiência aqui. Uma conversa tranquila, em volta de cervejas, onde o carioquês foi a língua oficial e onde também falámos das diferenças dentro da nossa língua comum. Carolina tem 28 anos, é designer e mudou-se para Lisboa há dois anos, altura em que deu um prazo de 4 meses para encontrar emprego na sua área de trabalho. Conseguiu, entretanto mudou de trabalho dentro da mesma área, e hoje está estabilizada numa multinacional. Marcela tem 27 anos, veio pela primeira vez para Portugal para estudar turismo em Évora, depois estagiou num operador turístico, no qual ficou a trabalhar até hoje.

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Vítor tem 31 anos, é designer, chegou há cerca de ano e meio e veio com um prazo de um ano para conseguir um emprego relacionado com a sua área, acabando por conseguir esse emprego passados 7 meses e nele permanecendo até hoje. Todos são cariocas e um bom exemplo da nova vaga de emigração do Brasil para Portugal, feita de gente jovem, de classe média, formada, viajada e moderna, que vem em busca da segurança, tranquilidade e qualidade de vida que o Brasil de hoje não lhe pode dar.


Carolina: Eu morei há uns anos atrás no Porto, gostei muito e queria morar fora de novo, o que, aliado à confusão que ficou o Brasil e à insegurança que eu sentia lá, foi o que me fez mudar. Marcela: Eu sempre pensei sair do Brasil, mas nunca tomei iniciativa, até que vim visitar uma amiga ao Porto, em 2011, gostei muito e falei “quero morar em Portugal”. Aí corri atrás das coisas e em 2012 vim para estudar em Évora. Vítor: Também sempre tive vontade de sair do Brasil, porque sim, sem motivo específico, mas não tinha tido condições financeiras para sair. Quando consegui estabilizar a parte financeira, coincidiu com o Brasil não estar num bom momento, além da insegurança no Rio, e foi tudo o que eu precisava para sair. Assim que consegui o dinheiro para vir, logo de seguida eu fui assaltado e aí falei “bom, é um sinal que é o momento de sair”.

Porquê Portugal? Vocês falaram que estavam a pensar em sair do Brasil, mas porquê Portugal? Carolina: Bom, eu vim a primeira vez para o Porto em intercâmbio da Universidade. A escolha foi muito por conta da língua, pois apesar de também saber falar inglês, nos países de língua inglesa era muito mais difícil passar nas provas para entrar. De uma forma geral foi assim que eu escolhi Portugal na primeira vez, não é uma grande forma de escolher, mas quando vim gostei muito e não me arrependo nem um pouco de ter tomado essa decisão. Agora, de uma maneira geral, também escolhi por causa dos laços com a família que tenho morando aqui, para além da língua, claro. Marcela: Para mim também foi mais ou menos isso. Teve a questão da língua, depois eu conheci e gostei muito do país e quis vir morar aqui. Eu sou muito imediatista, quando decido alguma coisa quero logo fazer e como Portugal era muito mais simples, eu não precisei fazer prova nenhuma para entrar na Universidade, vim com transferência. Carolina: Eu acho que muitos dos brasileiros acham que Portugal é uma boa porta de entrada para a Europa para depois se mudar, entretanto a maioria deles que eu conheço acabou ficando aqui. Vítor: Sim, foi o que aconteceu comigo. Na minha ideia, Portugal era só o primeiro passo para entrar na Europa e para procurar emprego em qualquer outro lugar, por conta do passaporte (tenho cidadania portuguesa). Mas eu gostei muito de ficar aqui, acho que vejo muito do Rio de Janeiro em Lisboa, para mim foi uma receção muito tranquila, tinha um amigo que se tinha mudado faz pouco e logo conheci outros brasileiros que ajudaram a

ficar e a criar laços. Não tenho nenhum familiar aqui, o facto da minha família ser portuguesa ajudou, mas a ideia de vir para cá era basicamente financeira, porque é dos países mais baratos da Europa.

Quais são grandes qualidades e defeitos que vocês vêem em Lisboa? Podem falar mal à vontade. Marcela: Eu posso falar mal?

Pode e deve, a ideia é essa. Marcela: Nem sei bem exatamente o que eu não gosto em Lisboa. Eu simplesmente não gosto (risos). Sabe quando você não se identifica com a cidade? Ou com alguma coisa? É isso. Eu não me identifico com Lisboa.

Ou seja, a sua ideia vai ser sair daqui? Sim a minha ideia é sair de Lisboa.

Mas para outro lugar em Portugal ou para a Europa? Marcela: A minha ideia agora é me mudar para o Porto. Eu tento aproveitar o máximo o que Lisboa tem para me dar, gosto muito da oferta cultural, adoro comer em restaurantes e aqui tem muita opção, mas eu simplesmente não me identifico. É uma cidade com a qual particularmente eu não tenho empatia, não é que eu odeie ou que nunca mais me vejo morando aqui, mas por agora não é o meu lugar, definitivamente. Carolina: Eu gosto de Lisboa, mas não é a minha cidade favorita. Eu também sou mais fã do Porto, sinceramente. Aqui no começo foi muito difícil e a primeira vez que eu morei no Porto as pessoas eram bem mais calorosas, me receberam muito bem e estavam sempre bem-dispostas, aqui tive mais dificuldade de fazer amigos e de me enturmar. Uma vez eu escutei de uma pessoa que mora em Lisboa dizer “realmente nós somos muito mal-acostumados, porque nós nascemos em Lisboa, estudamos em Lisboa, fazemos faculdade em Lisboa, então nossos amigos são daqui e a gente não faz questão de ter novos amigos se os nossos amigos já tão bons”. Assim é difícil de entrar num grupo.

Acaba por ser mais fácil em grupos de pessoas que não sejam de Lisboa? Carolina: Exatamente. Então houve esse primeiro choque, o meu primeiro ano foi muito difícil, porque eu venho de uma cidade em que você faz amigos na rua, podem não ser amigos para a vida, mas você acaba encontrando as pessoas e consegue sair mais. E vim para uma cidade que era super fechada e não era o que eu esperava, porque era muito diferente do Porto. Entretanto fui ficando e me apegando à cidade, mas todas as vezes que eu vou no Porto eu pergunto “o que raios eu estou fazendo em Lisboa?”, mas eu volto

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Porque é que vocês saíram do Brasil?


sempre para cá, não tem muita hipótese. Vítor: Eu me sinto super à vontade aqui, super em casa mesmo. Acho que fui muito bem recebido desde que cheguei o ano passado, até o clima que estava um pouco melhor e um pouco parecido com o Rio de Janeiro ajudou a minha receção (risos). Mas eu acho que o clima da cidade é bom, os espaços verdes, a segurança, acho que a única coisa que eu sinto falta comparando as cidades – Rio e Lisboa – é a vida noturna. Eu sinto falta da noite do Rio de Janeiro, aqui eu não sinto nem um pouco que a noite seja boa. É coisa que é completamente fora do que eu gosto mesmo.

Mas nem a parte de ficar da rua? Vítor: Não, porque eu acabo não conseguindo aproveitar, para mim falta qualquer coisa. É o único momento que eu não me sinto em casa. Durante o dia e o fim-de-semana eu consigo vir para o parque, ver amigos, a gente vai fazer o que for, mas à noite… Carolina: A noite também me custa. Marcela: Principalmente no inverno. Aqui tem muito a coisa de você beber na rua e eu até gosto disso, entretanto chega o inverno e não consigo. Imagina eu estar no Bairro Alto com frio, nem é pela chuva, mas está frio e eu estou desconfortável. Tudo bem, estou ali conversando, mas estou tipo “quero ir para dentro de um lugar”, mas a gente não vai.

Qual é a grande diferença que vocês notam da noite daqui para a noite do Rio? Vítor: Eu acho que as pessoas lá são muito mais receptivas, existem muitas opções de festa na rua. Não estou falando ficar parado no Bairro Alto tomando cerveja, digo festa na rua mesmo, com música, pessoas. Carolina: Como são as festas populares, não é o mesmo estilo, mas são festas na rua. Marcela: Aqui a gente até tem coisas, mas é mais de dia, aos fim-de-semanas e principalmente no verão, claro. Por exemplo, aqui a gente não tem um bar para sentar dentro e beber cerveja até às 5 horas da manhã. Se você não tiver a fim de ir para uma boîte você sabe que pode ficar bebendo sentado na mesa. Vítor: Sim, mas existe uma diferença do bar do Rio para o bar de cá.

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Falta o boteco? Vítor: Exato, o bar daqui às vezes tem música tão alta que não consegues conversar. No bar do Rio às vezes pode ter música, até um cara tocando violão ou tamborim, tocando o que for ao seu lado, mas você consegue conversar. É uma pegada diferente.

Carolina: É o boteco, com as portas todas abertas e as mesas do lado de fora e se chove todo mundo entra.

O boteco é maravilhoso, eu sei. Até a mim me faz falta e eu só morei seis meses no Rio. E como tem sido a vossa integração em Portugal? Carolina: Quando vim a primeira vez, estava estudando num lugar novo com pessoas que vieram também pelos mesmo motivos e estavam sedentas por conhecer pessoas, mesmo portugueses que estavam envolvidos em associações. Quando voltei foi diferente porque não estava mais estudando na universidade, que é o lugar mais fácil para conhecer pessoas. Marcela: Os meus grupos de amigos são brasileiros, aqui em Lisboa não tenho amigos portugueses. Os meus amigos portugueses mais próximos são os que estudaram comigo em Évora, aqui de Lisboa talvez uma ou outra pessoa que trabalhe comigo, e quando eu falo isso, é literalmente no máximo duas pessoas, não é mesmo mais do que isso. Carolina: Eu, depois de 3 anos, já me vejo fazendo parte de uns grupos que me adotaram e colocaram dentro, mas não colocam qualquer pessoa. Uma das grandes questões da actualidade no Brasil, em particular do Rio, é a segurança. Carolina: Sim, aqui eu posso andar a noite sozinha sem ficar olhando para trás. É a liberdade que eu não tinha e que não sabia que não tinha. Você acaba morando dentro daquela rotina e não percebe o quão preso você é, está sempre preocupado, sempre nervoso. Vítor: Hoje em dia valorizo muito essa diferença. Eu só falo com a minha mãe na rua, então eu ligo no caminho para o ginásio ou no fim-de-semana descendo para baixa, e então ligo chamada de vídeo no meio da rua e ela fala “Vítor desliga isso vai ser assaltado”, eu falo “mãe, não estou no Rio de Janeiro”. (Risos) Vocês sentiram discriminação por serem brasileiros? Gostava de uma resposta sincera. Carolina: Na verdade, não e sim. Logo que eu cheguei não senti discriminação nenhuma, mas senti discriminação no meu primeiro trabalho. Ouvi coisas do tipo “que ela é brasileira então ela não sabe isso”, eu antes nunca tive que mostrar de onde eu vinha ou falar que eu sabia ou fazia muito, até que no meu primeiro trabalho fui muito diminuída. Até porque eu comecei a trabalhar ganhando 200 euros, e isso é desumano, e foi numa empresa 100% portuguesa. Hoje em dia eu trabalho numa multinacional que é diferente,


Marcela: A única vez que eu me senti no mínimo ofendida, ainda morava em Évora, estava à espera para ser atendida no hospital e veio uma senhora e falou assim, “a menina é brasileira, etc., aposto que já arrumou um namorado”. Assim, até falou isso na boa, eu falei “sim, por acaso já, é português”. Aí ela, “sim, vocês gostam muito de vir aqui para roubar os portugueses de nós”. E eu, tentando levar na boa, respondi “se calhar é porque vocês não sabem fazer bem” (risos). Foi a única vez que eu me senti minimamente discriminada. De resto nunca, nem com relação ao trabalho, nem com faculdade, nunca tive problema. Eu já ouvi amigos meus falarem que tiveram problema a nível do próprio português da escrita, de professores que deram nota mais baixa porque escreveram em português do Brasil. Eu nunca tive isso aqui, nem um caso. Carolina: Eu por acaso tive uma situação há pouquíssimo tempo, em que eu entrei num táxi com amigos e no meio da conversa ele começou a falar que os brasileiros só roubam e que agora estamos a vir todos para cá comprar apartamentos de 500 mil euros para ganhar o golden visa. Eu comecei a ficar incomodada e comecei a me encolher. Mas fiquei muito surpresa porque as pessoas que estavam comigo, que eram portugueses, começaram a bater boca com ele, a falar que aquilo era um absurdo, que ele devia prestar atenção porque ele sabia que tinha uma pessoa que era do Brasil, não devia falar isso e abriram a porta e saíram do táxi. Falaram que eu não devia aceitar isso nunca. Então, ao mesmo tempo que eu acho que sofri preconceito, eu também tive pessoas que deram o outro lado, gente que também está lutando para melhorar as coisas por aqui, isso foi muito legal. Vítor: Nunca sofri nada assim. Mas já aconteceu uma vez eu ligar para o dono de um apartamento e a pessoa – que obviamente percebeu que eu era brasileiro – falar que não alugava para brasileiros. Não foi nada especificamente contra mim, mas contra o facto de ser brasileiro, não me ofendeu diretamente. Fora isso nunca sofri nenhum preconceito aqui, pelo contrário, eu sempre fui muito bem recebido, incluindo no trabalho. Esta pergunta vem a propósito desta nova vaga de emigração, que se segue à dos

anos 90, que eu acho deixou um estereótipo do brasileiro bem diferente das pessoas que estão agora vindo para cá. Muita gente com o perfil parecido com o vosso. Marcela: Completamente. Eu tenho esse exemplo dos meus primos, ele é um dentista formado, funcionário público, tanto ele quanto a esposa, tinham emprego garantido para o resto da vida, não precisavam mais de se preocupar. Mas por causa da violência no Rio de Janeiro eles optaram por vir morar aqui, fazer um mestrado, para poder atender aqui, para poder exercer aqui a profissão. Está terminando agora esse mestrado e logo vai começar a exercer. Tanto ele quanto a esposa eram mais que qualificados, já estavam no mercado de trabalho há anos, têm 40 anos e é isso. E como esse meu primo, só na turma dele, tem cerca de 150 brasileiros, não só do Rio, mas brasileiros vindo para essa mesma situação. E vocês pensariam em voltar para o Rio ou para o Brasil agora? Ou próximo? Marcela: Eu voltei em 2016, fiquei lá um ano, e não voltaria mais. Talvez um dia daqui a muitos anos, mas agora não. Infelizmente. Carolina: Eu também não. Iria para visitar, pois sinto falta dos meus amigos, mais do que da minha família, porque com a minha família eu falo todos os dias e eles vêm me visitar. Os meus amigos não vêm e então sinto falta e eu tenho vontade de visitar, mas só visita mesmo. Vítor: Eu também não. Sinto falta dos meus amigos, mas não penso ir agora, eu acho que estou num momento de aproveitar aqui ainda. Carolina: Eu sofri muito no primeiro ano, foi difícil e a minha irmã ainda não morava aqui, agora ela mora e facilita um pouco as coisas, além que os meus pais passaram a vir mais, mas o primeiro ano custou muito. O meu primeiro Natal tinha custado muito, então eu quis ir no Natal do ano seguinte e me fez muito bem. Não é fácil porque é caro e depois que você não tem tantos dias de férias assim e ninguém vai passar uma semana no Brasil, a não ser que tenha uma grande oportunidade. Marcela: Eu já fui, mas foi porque eu arrumei uma promoção, tipo eu queria muito passar o meu aniversário lá e foi um ano que eu estava mais para baixo. Eu arrumei uma passagem barata e fui mesmo uma semana exatamente. Carolina: Você começa a pensar tipo, eu não vou perder tudo, eu quero ver a minha avó e quero ver tudo, mas eu também quero conhecer outros lugares, e é isso, você não vai para o Brasil para passar pouco tempo, de uma forma geral você vai para lá ficar 2 ou 3 semanas. Qual a vossa opinião sobre os portugueses? Quais as maiores diferenças com os brasileiros? Carolina: A gente acha que fala a mesma língua (risos).

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mas no começo ainda ouvi coisas, tipo, “ela não deve saber porque ela vem do Brasil” e tal, as pessoas generalizam muito as coisas e acham que o Brasil é um país do terceiro mundo. Uma vez viraram para mim falando assim “dá o texto para ela que ela tem um nível médio de inglês” e aí uma pessoa que ouviu isso falou “olha que ela é formada em inglês, eu acho que você devia pensar um pouco antes de falar essas coisas”. Então eles partem do pressuposto que nós não temos tanto ensino ou tanta educação ou tanta cultura. Tirando isso eu nunca senti mais discriminação em lado nenhum.


Marcela: Essa parte é uma parte difícil, eu acho, para nós todos. Eu tenho uns primos que vieram em Agosto do ano passado e a minha prima tem uma filha na escola, que tem uns 5-6 anos. Então, quase toda a semana ela manda mensagem “Marcela, eles mandaram esse bilhete aqui, o que é que quer dizer isso que ela precisa de levar para a escola?”. “Sério, ela precisa de levar alguma coisinha para a escola e não sei quê, algum tipo de lanche, alguma coisa”, e ela não sabe o que é.

Carolina: Mas para a gente é igual.

Carolina: Eu a trocar menagens passei a ter comichões, tipo o que será que esta pessoa quis dizer, “vocês podem-me ajudar, por favor”. Precisaria consultoria para entender mensagens.

Chegamos, chegámos.

Vítor: Acho que a questão não são bem as palavras, são os termos, e a interpretação também, às vezes eu falo uma coisa e para o brasileiro a pessoa fala “OK”, significa isso, para o português a mesma frase significa outra coisa completamente diferente. Carolina: Eu tenho certeza que com muitas das pessoas com quem eu saí e que não deu certo, eu falei coisas que eles interpretaram de maneiras muito diferentes, muito. Já recebi uma mensagem que falei “OK, levei um corte, essa pessoa não quer mais sair comigo”, dois dias depois estava me chamando para sair. Então aquela mensagem não era um corte. Mulher: Eu logo que cheguei aqui, namorei 4 anos com um português e é engraçado que parece que eu não tinha essa dificuldade, ele é do Alentejo, não é de Lisboa, e eu não tive essa dificuldade tão grande, mas depois que eu terminei com ele, parece que as coisas ficaram mais complicadas. Carolina: É difícil manter uma conversa, porque se perdem coisas e geralmente é mais fácil com pessoas que já moraram no Brasil, ou que tem parentes brasileiros, ou que tem um sobrinho ou uma tia que mora lá. Vítor: Sim, ou que já visitou ou que tem amigos brasileiros, porque a pessoa consegue-se pôr um pouco no nosso lugar, a gente acho que ainda não se consegue pôr – eu não consigo – na cabeça do português. Mesmo trabalhando com portugueses o dia todo, a gente não tem uma relação íntima de amizade com eles, então não me consigo colocar na cabeça da pessoa. Eu acho que a interpretação das línguas é muito diferente, não sei se para o carioca ou para o brasileiro em geral, mas enfim. Marcela: Eu acho que para o brasileiro no geral. Carolina: Olha, eu tenho um problema seríssimo com os “chegamos”. Por exemplo, a interpretação disso é horrível, porque eu escrevo newsletter e eu escrevi “chegamos” sem acento e eles falam para mim não é “chegamos”, é “chegámos”, que é isso que eu escuto, exatamente a mesma palavra duas vezes, pois é, só que para eles tem diferença na sonoridade.

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Chegamos ou chegámos.

Vítor: É igual. Chegámos é passado. Vítor: E qual que é a outra? Chegamos. Marcela: Chegamos, chegámos.

Carolina: Para mim a partir do momento em que você chegou, já é passado. Só que, então chegamos é sempre passado. Só que é o passado próximo e o passado distante, foi isso que me ensinaram ou o porquê e o porque. Vítor: Sim, “porque” eu nunca vou entender na vida. Carolina: Porque para a gente é porquê. Marcela: Para a gente é tudo porquê quando falamos, é tudo porquê. Carolina: E a gente tem muitos mais porquês, escritos, do que vocês. Diferentes? Vítor: Sim. Carolina: São uns 6. Ah, o por que, não, por que, por que, porque, porquê. Carolina: Oh, está vendo. Porque tem separado, junto, com acento e sem acento, separado com acento, junto com acentos, enfim… Pergunta tem acento sempre, reposta não tem acento. Marcela: Não, nós temos resposta com acento e nem todos os porquês de pergunta têm acento, esse é que é o problema. Carolina: O porquê no Brasil só tem acento quando vai no final da frase. Eu estou vendo que devia haver um artigo só sobre o porquê. Carolina: Você pode fazer um artigo sobre a diferença linguística, que é enorme. Mas é isso, o porquê com acento é no final da frase. Vocês não têm isso. Os acentos são todos diferentes e aí nisso hoje em dia já estou super acostumada e vou vivendo muito bem, aí me deparo com o chegamos ou o chegámos. E ainda tive de me acostumar a falar 6 e não meia.


Meia, aqui ninguém sabe o que é. Eu tive esse problema no Brasil e por azar o meu número no Brasil tinha três 6.

Vítor: Assim como vocês falam a hora, tipo uma e um quarto, a gente não fala isso no Brasil, a gente fala uma e quinze.

Marcela: O meu aqui tem dois 6.

Marcela: Mas faz sentido. É um quarto de hora.

Marcela: E a pessoa trava. Claro que trava. Mas me desculpa, o meia não faz sentido nenhum. Marcela: Meia dúzia.

Já tinham passado alguns quartos de hora, o sol já se punha, a fome apertava, e não havia conclusões na discussão sobre os dois portugueses diferentes. Nada melhor que continuar a conversa de forma ainda mais informal, acompanhada de feijoada e ao som de samba, no Acarajé da Carol, no Bairro Alto, um pouquinho de Brasil nesta Lisboa cada vez mais brasileira.

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Carolina: E aí a pessoa trava no meia.


Tanto mar! Ter de se sair para se poder voltar por André Gonzaga

Conversámos com Bárbara Coutinho, diretora do MUDE - Museu do Design e da Moda, a pretexto da exposição Tanto Mar Fluxos Transatlânticos do Design - que o Museu realizou recentemente fora de portas, entre Março e Julho de 2018, no Palácio dos Condes da Calheta, Jardim-Museu Agrícola Tropical, em Lisboa. Esta exposição, fruto de uma curadoria conjunta de Bárbara Coutinho com Adélia Borges (Brasil) juntou design contemporâneo de Portugal e do Brasil num diálogo transatlântico. Quisemos saber tanto desta exposição como do atual momento do MUDE, um museu que - descobrimos - se quer em constante mudança!

Comecemos pela instituição. Com o MUDE fechado para obras... Bárbara Coutinho - O MUDE não está fechado para obras! O que está fechado é o “equipamento”, o edifício sede do MUDE, para obras de requalificação integral. Trata-se de um edifício que ocupa um quarteirão inteiro e julgo mesmo que poucos terão a perceção da dimensão que este espaço tem. Mesmo visto do exterior, engana-nos de uma certa forma, visto que não se percebe que aquele espaço tem 8 pisos e 15.000 m2. Irá tornar-se [agora] num enorme equipamento, com uma considerável área dedicada exclusivamente ao Design, nas suas mais diferentes expressões. Como é sabido, abrimos ao público em 2009 assumidamente como um museu “In Progress”. Assumindo o espaço como rotina e matéria, como lugar de trabalho. E fazendo este processo de ocupação das pré-existências.

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Mas tudo tem um limite, na medida em que há condições de segurança, sobretudo dos bens [em exposição], entre outras questões verdadeiramente problemáticas, tais como a falta de acessibilidades para pessoas com a mobilidade condicionada, que antes não poderiam passar do primeiro piso.

A generalização do conceito de Design, na sua aceção mais contemporânea, é-nos muito recente. Um fenómeno de nicho, entre o início e finais

MUDE

dos anos 90, e que surge na sequência de uma revolução cultural que se operou em Lisboa por essa época. Gente ligada à cultura, desde a música até à arquitetura, que se começam a interessar por outras áreas, e a procurar a multidisciplinariedade ou os cruzamentos interdisciplinares. E, num curto espaço de tempo, deixou de ser algo de marginal e ganhou a atual dimensão e aceitação que tem na sociedade. Como explicar esta tão súbita revolução? Foi uma alteração rápida, sim, e terá sido acompanhada pela abertura a um certo cosmopolitismo ligado, se quiser, à educação e a uma noção mais concreta por parte das pessoas, das várias gerações que entretanto foram surgindo, da importância da arquitetura, do design, do gosto, do desenho, do traço, da urbe... de inúmeros fatores. A realidade é que hoje, em 2018, quando falamos de Design, estamos longe daquilo que era a realidade dos anos ‘80 ou ‘90 ou até mesmo o início do século XX. Mas houve, também, outros importantes fatores que contribuíram para uma divulgação do design em Portugal. É inegável que a ação da experimentadesign (bienal de Lisboa) foi bastante importante para uma determinada forma de divulgar o Design e trazer nomes internacionais, para fazer um cruzamento entre esses nomes, grandes nomes, grandes referências do design mundial e o que era a geração de designers portugueses que, entretanto, foi ganhando conhecimento e estabeleceu contactos, etc.. Sem dúvida, a experimentadesign pôs o Design na moda, através de uma estratégia de comunicação e marketing muito forte. Apesar de tudo, há ainda muito por fazer e é preciso tempo e um outro tipo de trabalho para que consigamos chegar a níveis que outros países já chegaram, não é que os precisemos de ter como referência. Mas nunca tinha existido um museu do Design em Portugal.

O MUDE, entretanto, estreou-se fora de portas com três exposições. A ideia de trabalhar e mostrar esta ligação


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que sempre existiu, entre o design brasileiro e o design português, aconteceu na sequência do Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura? Esta programação do MUDE nasceu exatamente para responder a um desafio que surgiu por intermédio da Vereação da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa enquanto “Capital Ibero-Americana da Cultura”. O programador António Pinto Ribeiro entendeu que era essencial que houvesse uma relação natural e em rede com os vários equipamentos como complemento a esse programa. E eu vi nisso uma oportunidade para aprofundarmos algo que já tínhamos começado a fazer e que era nossa intenção vir a desenvolver. Em 2014/2015, houver uma exposição comissariada por mim, que se chamava - aliás, chama! Pois encontra-se em itinerância e atualmente está a ser apresentada em Rhode Island, na RISD (Rhode Island School of Design) a ser apresentada - “Como Se Pronuncia Design Em Português” que é e ficou assumidamente como uma pergunta. E brincando um pouco com isso e sobre aquilo que o Robin Fior [Designer, 1935-2012] dizia, que o que era preciso era tirar as “aspas” ao Design, que resolvi que seria pertinente tornar a visitar a questão - Como é que (afinal) se pronuncia Design em Português? - focando-me no “design de produto”. E o título da exposição manteve-se como uma pergunta porque a intenção não era a de afirmar que exista um “design nacional” ou “design português”, ponto. Parece-me que deixou de fazer sentido esse tipo de afirmações. Mas foi, no fundo, olhar para aquilo que tinha sido a nossa cultura material do século XX e perceber se haviam pontos fortes, se havia ideias, que na minha perspetiva poderiam constituir características não distintivas, comuns às de outros países, mas que seriam, no nosso caso, características específicas na nossa evolução. Mas ainda em 2015 procurei o Frederico Duarte, porque sabia que ele estava a fazer a tese do doutoramento sobre o Brasil e comuniquei-lhe que gostaria muito que fosse ele o curador de uma segunda exposição. Porque esta exposição, que nasceu com o “como se pronuncia design em português”, sempre foi idealizada como um primeiro capítulo. Na forma como a imaginara, em 2014, haveria um segundo capítulo a tratar a relação Portugal-Brasil e ainda um terceiro, a abordar Portugal, Brasil e África, para - no fim de tudo - se tentar responder à questão de se existe um “design em português” ou um “design português”.

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E assim que soube que em 2017 ia ser Lisboa Capital da Cultura Ibero-Americana... senti que era chegado o momento. E aí falei com o António Pinto Ribeiro, com quem também já tinha falado a propósito de África e onde o desafiei a fazermos algo acerca disso. Isto muito antes de a “Capital”

surgir. Mas foi então que assumi querer desenvolver três exposições. Exposições essas que partissem do geral para o particular e tornassem a regressar uma vez mais ao geral. O António Pinto Ribeiro aceitou, a Vereadora também, e então fizeram-se estas três exposições: a primeira que se chamou “Novo Mundo”; a segunda que se chamou “Brasil Hoje” (que tinha também como subtítulo, o “como se pronuncia design em português”); e a terceira que se chama “Tanto Mar”. E foram todas realizadas no Palácio da Calheta, em resultado de uma parceria com a Universidade de Lisboa e com o Museu de História Natural. Aliás, assim que o encontrei, apercebi-me de que era a casa certa para estas três “discussões” - qual era a nossa relação com as ex-colónias, com os territórios colonizados, e como é que isso se expressava através do design e da cultura material -, além de que este palácio têm um acervo fantástico e pareceu-me que era mesmo a “casa certa” e que esta própria casa seria também um conteúdo a trabalhar. Num breve resumo de cada uma destas exposições, e, começando com o “Novo Mundo”, propôs-se (através da “Ibero-Americana de Desenho”) um olhar para os 23 países do espaço ibero-americano, com um enfoque entre 2008 e 2016. E o “Novo Mundo” foi essa incursão pelo mapa geopolítico do atlântico sul, foi o olhar para esta relação, tendo em conta os dois lados do atlântico, perceber um pouco o que é que é a produção aqui ou acolá. O Brasil tinha uma tradição de ir às raízes muito maior que a nossa. Esta incursão pela América do Sul ou América latina e América central, permitiu-me ficar a conhecer melhor uma realidade que não era assim tão próxima, mas que me fez perceber como é que nós estamos a falar num contexto que ainda é muito pouco conhecido no mercado ou no sistema global do design que ainda é muito marcado pela cultura anglo-saxónica. Mas que é um território interessantíssimo de práticas colaborativas, participativas de trabalhos de coletivo, de trabalhos com as populações, com as comunidades, de uma atenção muito grande às questões da sustentabilidade no seu todo, não é só a sustentabilidade ambiental, mas à sustentabilidade económica. De seguida, fez-se o “Brasil Hoje”. Quando convidei o Frederico Duarte já sabia que o Frederico não me ia cair naquilo que era o “Brasil com Z” e, sim, que iria mais fundo procurar encontrar como é que o Design tinha respondido às grandes questões do século XXI. Já a última que se estreou resultou de um convite que fiz a Adélia Borges, que é uma curadora com mais de 60 anos. Jornalista, que se tornou curadora e diretora do Museu da Casa Brasileira. Quando lhe lancei o convite perguntei-lhe se quereria fazê-lo a quatro mãos. E ela aceitou fazê-lo em parceria


Quando nos sentámos e eu lhe disse que queria mesmo abordar a realidade do Brasil, e nas pontes de diálogo que se poderiam estabelecer entre os nossos dois países - e aqui tenho de dizer que quem me despoletou esta ideia foi o exemplo do Agostinho da Silva (que não terá nada a ver com Design ou tem terá tudo a ver com Design, talvez - e disse-lhe que o que eu gostava mesmo era que olhássemos e percebêssemos as afinidades, os fluxos, refluxos, como é que há influência (ou não) concreta em termos de trabalho, onde é que se podem encontrar exemplos disso... e começámos a elencar nomes até que chegámos ao já mais conhecido Joaquim Tenreiro, porque ela sabia que ele era um português que tinha ido para o Brasil e se tinha tornado num pioneiro. De repente, éramos confrontados pelo enorme desconhecimento que tínhamos e, portanto, quando digo que é surpreendente é que, ao mesmo tempo que parece que somos irmãos e que somos muito próximos, a série de estereótipos que estão definidos e que ainda persistem na minha própria visão sobre Brasil ou a visão duma brasileira sobre Portugal. E estamos a falar de duas pessoas com uma cultura média, bom, boa! Eram enormes estes desconhecimentos de parte a parte. Fruto da nossa história mantivemos relações que muito influenciaram as nossas artes. Posto isso, temos uma língua em comum e essa “proximidade” fez muito por nós todos. Para muito português, o Brasil foi um porto seguro durante um certo período de tempo, depois tornou-se o contrário. E agora o interesse já será outro, mas essas afinidades e esse triângulo entre Portugal, o Brasil e África é um triângulo que resulta da nossa cultura, um fruto comum. E esta exposição demonstra o quanto ainda há a fazer para se perceber que há uma riqueza muito particular quando olhamos para este universo, para estas referências (que não são melhores nem piores do que outras) que nasceram de toda estas contingências geográficas e políticas e que faz sentido conhecê-las melhor. Até porque temos pequenas características, em muita coisa da nossa cultura material, que o Brasil depois pega e amplia com uma espécie de lupa que lhes conferem uma outra abrangência. Certas coisas, por exemplo, e foi também por aí que nós entrámos no “Tanto Mar”, se formos para o azulejo, para as madeiras, se formos por exemplo para a joalharia, para o têxtil, iremos ver inúmeras semelhanças que resultam não só dos nossos dois povos ou culturas, mas, sim, do facto de serem globais. E tornamos a voltar à mesma questão e qual será a essência daquilo que é o Design. Foi por isso que muitas dessas peças que nós incluímos na “Tanto Mar” não entram na de-

finição canônica do design moderno ou do design industrial ou, enfim, do design como nós vulgarmente o concebemos. Estão nas margens, nas franjas do design dos ofícios ou do artesanato, que é uma área muito, muito forte no Brasil e que hoje em dia está em franca recuperação, nomeadamente com o interesse cada vez maior pela cultura Índia. É que agora essa questão dos “Krafts“ [do artesanal] está de facto a surgir. E quando digo surgir não me refiro ao Brasil, mas ao global. Quase que como uma outra resposta, a este modelo de desenvolvimento [preconizado pela nossa sociedade]. Deste interesse generalizado, resulta numa aproximação do designer em que este passa a interagir com o artesão em pé de igualdade e então resulta dali uma mútua aprendizagem e não algo do género: “eu agora vou ensinar-te como é que tu ganhas, como é que tu te modernizas e isto ou aquilo eu acho já se passou”, eu acho que essa fase já passámos também já percebemos que o modelo de produção capitalista é o que é e terá que ser repensado e está a sê-lo [pois] não há sistema melhor. E o que o artesão nos traz é um sentido de trabalho mais profundo, mais contínuo. E da interação entre ambos resulta algo de mais sólido, mais estruturado - de parte a parte - e as coisas são discutidas e problematizadas e não se limitam ao “ai que giro isto é, e agora com cortiça!”. Por exemplo, agora tem se feito muita coisa com cortiça. Mas, invariavelmente, as coisas mais interessantes que se podem encontrar em cortiça continuam a ser os originais.

Sempre existiu no Brasil uma relação com a diversidade das matérias e o hábito de se usar o que estiver mais à mão. Sim, mas isso também se explica pela carência de meios. E, repare, eu acho que nós estamos a sair duma crise profunda. E passar pelas crises é sempre horrível. Tal como nos aconteceu recentemente e que nos forçou a fazer os nossos reajustes. Mas eu, que tenho uma formação em História, estou ciente de que as crises são potencializadoras de transformação. Por outro lado, e até por nos termos tornado nessa “porta aberta ao mundo” que hoje somos é sempre transformadora. Tudo isso tem implicações e pode mesmo considerarse que estamos a ser “retro-colonizados” por gente que chega cada vez mais e com outras ideias. E isso obriga-nos a abrimos também um bocadinho as mentalidades que aqui habitavam. E esta miscigenação que hoje “sofremos” também nos traz coisas novas e transformadoras. Já não há volta atrás.

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e começámos então, de imediato, a criar o “Tanto Mar” nos mesmos moldes em que eu já me tinha debruçado sobre Portugal. Partirmos do geral, num olhar para o Brasil que se começou a cruzar com a perspetiva que eu já tinha de Portugal. E este encontro resultou surpreendente a vários níveis. Mesmo em termos pessoais.


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Casa Pau-Brasil Um intenso aroma carioca no coração de Lisboa


“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança. (...)” Excerto do “Manifesto Pau Brasil” de Oswald de Andrade in “Correio da Manhã” 18-3-24 Quando publica, juntamente com a sua mulher Tarsilia do Amaral, o Manifesto da Poesia Pau Brasil, Oswald de Andrade já percorra a Europa, já organizara com Mário de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Plínio Salgado, Menotti Del Picchia, entre outros, a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo e já antecipara as aspirações do futuro Movimento Antropofágico na Conferência “L’effort intellectuel du Brésil contemporain” que proferiu na Sorbonne em 23. Influenciado pela estética cubista da “Anti-tradição Futurista” de Guillaume Apollinaire, Oswald de Andrade abre com o Movimento e com o Livro Pau Brasil uma nova era nas artes brasileiras, marcada pela incorporação da “cor local” à dinâmica cultural do país. “Incorporados ao nosso meio, a nossa vida, é dever deles tirar dos recursos imensos do país, dos tesouros de cor, de luz, de bastidores que os circundam, a arte nossa que se afirma, ao lado do nosso intenso trabalho material de construção de cidades e desbravamento de terras, uma manifestação superior de nacionalidade”, escrevera já em 1915 para “O Pirralho”. Oswald acreditava que era possível exportar as artes brasileiras, em particular a poesia, como antes se exportara o pau-brasil, para tanto era necessário redescobrir o Brasil e regressar às origens ao primitivismo inicial, abolir as posturas solenes, as formas gastas, a escrita rebuscada e valorizar a invenção e a surpresa. Foi ao espírito deste movimento cultural e artístico que Rui Araújo, que trabalha a representação de marcas brasileiras há mais de 6 anos, foi buscar inspiração para fundar a Casa Pau Brasil, um espaço que reúne muito do que de bom o Brasil tem para exportar. “Portugal estava fora do radar do Brasil em termos de negócios. Era um local simpático, com uma matriz comum, mas não era estratégico para os brasileiros. Hoje, Portugal passou a ser olhado como um destino importante em muitos casos prioritário. Quando comecei a representar, a distribuir algumas marcas brasileiras importantes para a Europa, percebi que é

Hugo Macedo

muito difícil trabalhar um Brasil de grande qualidade quando a maioria dos europeus só conhece uma caricatura do Brasil, por isso senti a necessidade de encontrar um espaço que apresentasse esse Brasil diferente.” O espaço de que fala, é um antigo palacete no número 42 da Rua da Escola Politécnica, ao Princípe Real, de pé direito alto e tectos trabalhados e uma vista sobre o Tejo que ganha contornos encantatórios ao final da tarde. Mas a presença portuguesa fica-se pela arquitectura do edifício, tudo o resto é Brasil. Dos cheiros, mescla de cacau e do suave frutado do aroma “Carioca” da Granado, a empresa de sabonetes com 150 anos de história e que fornecia a Casa Imperial, à música, passando pela decoração, tudo nos remete para o outro lado do Atlântico. Começou com 17 marcas, hoje tem quase 30, da chocolataria ao design, passando pelas grifes paulistas e cariocas de maior sucesso, pela fotografia, pela música e pela literatura. Mas, a ambição do português do Norte, descendente de brasileiros que viveu durante 2 anos na capital paulista e um ano no Rio de Janeiro, é bem maior, é a de que a sua Casa Pau-Brasil venha a ser um clube de negócios para brasileiros a viver no nosso país. “Um ponto de confluência, uma curadoria de empresários e não apenas de produtos, o instrumento de referência para marcas e empresários, até porque hoje existe um movimento muito interessante de brasileiros a vir viver para Portugal e que começam a investir em diversas áreas de actividade.” Falamos num jardim tropical que se estende ao longo da escadaria principal, ao som de Céu, no dia em que a Casa apresenta uma nova marca, a da conceituada estilista carioca Lenny Niemeyer. Os convidados começam a chegar recebidos por cocktails de frutos tropicais, enquanto deambulam pelas diversas divisões do velho palacete. Paramos numa sala onde Luís Braga, um dos maiores fotógrafos brasileiros expõe alguns dos seus últimos trabalhos. Essa é outra dimensão Rui quer entregar ao seu projecto, a de conciliar a óbvia vertente comercial com uma dinâmica cultural capaz de atrair os muitos brasileiros que vivem em Lisboa e os portugueses apaixonados pela especificidade cultural do Brasil. Rui Araújo tem a exacta noção de estar a “surfar em cima de novas tendências de luxo, que passam por viver experiências muito mais do que vender produtos exclusivos de elevada qualidade, por exemplo, estar a 8000 km de distância e sentir

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por João Moreira


a envolvência de uma fazenda de cacau.” – Explica enquanto nos encaminha para um recanto onde se expoem as diversas variedades dos Chocolates Q produzidos artesanalmente com o cacau de uma fazenda baiana. – “Portanto, sendo nós uma concept store, cabendo nessa etiqueta, o nosso conceito é um conceito de terroir, de apresentar um país, um território, da forma mais diversa e genuína possível.” Rui sempre se sentiu atraído pela estética brasileira e quando foi viver para o Brasil descobriu um país com enorme potencial comercial que não era trabalhado de forma profissional no exterior. Essa foi a sua aposta. No ano que tem de vida a Casa Pau-Brasil afirmou-se como a referência comercial e cultural que Rui ambicionava. “Em termos gerais está a superar aquilo que era a nossa expectativa, mas estamos, sobretudo, muito encantados com o poder de atracção que a casa está a ter junto de muitos brasileiros e a capacidade de atrair gente muito interessante. Claro que aí não temos mérito nenhum, pois resulta da realidade que hoje se vive em Lisboa e que nos traz todos os dias gente muito interessante que nos abre portas em várias frentes. Daí termos acrescentado o outro negócio que não estava pensado no início, da relação empresarial com brasileiros interessados em investir no nosso país.”

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Enquanto falamos, a casa decorada por Joana Astolfi vai enchendo de convidados. Dois músicos brasileiros interpretam sambas de Cartola com um pôr-de-sol no Tejo de cortar a respiração como pano de fundo. Avançamos para o espaço ocupado pela Quarto e Sala e dedicado integralmente a designers brasileiros. O “mestre do design” Sérgio Rodrigues ocupa grande parte dos dois salões, onde também é possível encontrar peças do arquitecto Paulo Mendes da Rocha, dos irmãos Campana de Maurício Klabin e de Jader Almeida. Pedro d’Orey, um dos fundadores da empresa que desde 95 se dedica a projectos de arquitectura de interiores e em 2006 se aventurou no negócio da representação de marcas europeias de design, explica-nos o motivo pelo qual decidiram apostar no design do lado de lá do Atlântico. “Nós fazemos arquitectura de interiores e, portanto, deparamo-nos com arquitectos que têm necessidades completamente diferentes e o nosso papel é satisfazer as suas necessidades, trazer novidades, ser um radar de tendências. Por vezes somos confrontados com projectos mais exigentes, em que o grau de diferenciação exigida pelo arquitecto é muito maior e num desses trabalhos propusemos fazer o projecto com peças de Jarder Almeida e resultou de tal forma que acabou por ser surpreendente porque em Portugal não existia uma tradição de reconhecimento do design brasileiro. Esse foi o momento em que decidimos apostar na importação de mobiliário do Brasil. Por outro lado, desde 2012 que temos uma empresa aberta em São Paulo com a qual fazemos um trabalho inverso de mostrar

o que existe de interessante no mobiliário europeu aos brasileiros.” “Entretanto, a Casa Pau-Brasil abriu e o Rui desafiou-nos a fazer a curadoria das marcas brasileiras de design e a estabelecer uma estratégia de divulgação. Para a Quarto e Sala fez todo o sentindo unir forças e investir num espaço que garante, por si, um fluxo de clientes que vem com a expectativa de descobrir produtos do Brasil e que nos permite uma presença numa zona nobre da cidade. Ainda estamos no início e esperamos que esta seja ponta de um icebergue porque realmente há muito trabalho a ser feito, mas estamos muito entusiasmados porque começámos de forma extraordinária com o grande Sérgio Rodrigues e com o Jader Almeida a que se seguiram os Irmãos Campana e a que fomos acrescentando novos talentos e peças isoladas mas muito representativas do design brasileiro.” Pedro d’Orey fala de forma entusiasmada enquanto nos guia por algumas das mais icónicas peças de mobiliário brasileiro: a célebre Poltrona Mole de Sérgio Rodrigues, a Cadeira Paulistano de Paulo Mendes da Rocha, a Luminária Eclipse de Maurício Klabin, a Cadeira FDC1 de Flávio de Carvalho. A sala enche-se e as solicitações impedem a continuação da conversa. Lenny Niemeyer que, entretanto chegou passa a ser o centro das atenções. Na janela aberta ao Tejo, o sol baixou e uma levíssima tonalidade alaranjada tinge o horizonte. “As Bachianas” de Heitor Villa Lobos inundam o palacete numa espécie de regresso à estética modernista que inspirou Rui Gomes de Araújo a fazer da Casa Pau-Brasil o espaço mais carioca de Lisboa.


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Sou uma reencarnação da Carmen Miranda

A música é parte essencial da personalidade deste país, não conheço país tão musical e que tenha dado tantos estilos ao mundo, que em pleno século XX criou a Bossa Nova e que a cada dia reinventa o Samba, o Sertanejo, o Forró, que tirou o Funk da favela para os grandes palcos. Continuo a ouvir os clássicos que me abriram a porta do Brasil, mas acompanho, com dificuldade dada a quantidade, as novas tendências e encontro novas paixões em Marcelo Camelo, Marisa Monte, Silva, ao mesmo tempo que descubro gente como Liniker ou Johnny Hooker. Quando finalmente visitei o Rio eu, que me achava imune a amores à primeira vista, caí de quatro mal entrei na Vieira Souto e olhei os Dois Irmãos. Não consigo traduzir por palavras, mas há algo de emocionante naquela cidade que logo tomou conta de uma parte de mim, se tornou “pedaço de mim, metade adorada de mim”, como diria Chico. Esta paixão levou a que voltasse ao Rio, me sentindo a cada vez mais carioca à medida que o Cristo me abraçava cada vez mais apertado. Anos mais tarde, criei a oportunidade de viver no Rio por uns meses, querendo aproveitar para sentir a sensação de ser carioca, de habitar a cidade para além de uma ou duas semanas de deambulações entre centro e praia, para além da paixão fugaz. Aí me senti, com toda a presunção, carioca, absorvendo ainda mais dessa forma de ser tão própria, ao ponto de hoje quando falo com um brasileiro o meu chip mudar fazendo disparar directo um carioquês com sotaque lusitano. Já na minha Lisboa, tenho vindo a conhecer vários brasileiros que surfaram na nova vaga de emigração, em busca da segurança e tranquilidade que hoje não encontram no

por João Albuquerque Carreiras

Brasil. De forma recorrente falamos das diferenças culturais entre os dois países, das distintas formas de estar e reagir e dou por mim quase a comentar os portugueses como se fosse brasileiro, a reagir como eles, a irritar-me com algumas coisas nossas e com certeza a ser irritante com algumas coisas deles. Nem eu me tinha apercebido do quão colonizado fora pelo Brasil até ter conhecido este grupo e a estar amiúde com eles. Até em coisas que não cabe detalhar aqui, como a atitude perante o sexo e a forma como se encaram as relações, dou por mim a reagir como brasileiro, com um à vontade e descontração que não é, de facto, comum neste país e me chega a fazer sentir deslocado. Foi numa dessas conversas, acompanhada por alguma cerveja, que me saiu a expressão que dá título a este texto. Realmente, comecei a pensar que não tenho origens familiares no Brasil, nenhum dos meus ascendentes sequer por lá esteve, no entanto, sei que hoje há uma parte em mim que é Brasil. Como dizem meus amigos brasileiros quando se referem aos portugueses e eu contraponho algo: você não conta, não é bem português, você é meio carioca. Mesmo não sabendo se é de facto verdade ou aquele charmezinho brasileiro, a verdade é que nessa noite vi a luz e entendi que, não havendo motivos genéticos, a única explicação possível seria eu ser uma reencarnação da Carmen Miranda. Faltam-me os estupendos chapéus de frutas, pois serei uma versão mais discreta da Carmen, mas como parte brasileiro que supostamente sou, talvez no próximo carnaval saia à rua com meloas, uvas e laranjas na cabeça. Afinal, mesmo que não seja uma reencarnação da Carmen Miranda, é sempre bom homenagear essa portuguesa de Marco de Canavezes que se tornou um ícone do Brasil e do mundo.

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A cultura brasileira faz parte de mim há muito tempo. A música foi a minha porta, diria portão, de entrada, através das caixas de vinis das Seleções do Readers Digest que o meu pai comprava e onde comecei a escutar Gal, Bethânia, Chico ou Gil. Depois veio o primeiro concerto de Caetano e a promessa, entretanto quebrada, de assistir a todos os seus concertos em Lisboa. Seguiu-se uma paixão quase obsessiva por Vinicius, começada com o álbum ao vivo em Mar del Plata com Maria Creuza. O Brasil era então uma miragem com um oceano a nos separar.


Saudades DO BRASIL EM PORTUGAL por Valentina Carvalho

Não precisa viver muito tempo em Portugal para entender que nós zucas demos uma pequena alterada nas coisas que aprendemos com os tugas. O rebuçado virou bala, a boleia daqui é a carona de lá e corrupção que também tem aqui, virou uma grande festa de lavagem de dinheiro em terras tupiniquins. Não tenho nenhuma dificuldade em compreender essas sutilezas e colocar algumas em prática. Minha única questão é a relação conturbada com o “Eu te amo”. Digo conturbada porque é impossível entrar na minha cabeça. A primeira vez que me deparei com essa relação complexa dos portugueses e “eu te amo” foi assistindo um filme. Essas comédias românticas que são tão ruins que você assiste com um olho na televisão e o outro no celular. A personagem disse “I Love you” e na legenda apareceu “Eu gosto muito de ti”. Na hora dei uma risada de canto de boca e pensei com meus botões “depois brasileiro que não sabe falar inglês”. A vida seguiu com a minha pessoa achando que era um pequeno deslize do tradutor. Até que um belo dia me deparo mais uma vez com essa emblemática luta dos portugueses com o amor. Nessas andanças pelo Porto, fiz um amigo que havia acabado de terminar um namoro de 7 anos. Papo vai, papo vem e ele me confessa “Nunca disse a frase eu te amo para ela, sempre disse: gosto muito de ti. É a mesma coisa.”.

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Minha cara perplexa fez com que trocássemos de assunto rapidamente, afinal estava com uma mistura de expressões de depressão profunda com uma leve revolta digna de dizer “que porra é essa, meu irmão”. Para nós brasileiros, o “eu te amo” é uma das etapas da relação. Você começa falando que gosta ou adora a pessoa e quando o sentimento faz com que você perca o ar, o “eu te amo” sai com facilidade da boca.

ilustração Tiago Lopes

Lógico que algumas vezes rola aquela situação que você diz um “te amo” e recebe aquele silêncio constrangedor e um sorriso sem graça. É aquele velho ditado “Houston, We got a problem”. Ainda assim nada justifica não dizer eu te amo. Por isso, tive que levar essa questão a um outro amigo português. Sim... sou brasileira e não desisto nunca!!! E para minha revolta ele concordava. Foram longas horas de debate e que até hoje não conseguimos chegar a lugar algum. O argumento final dele sempre é “Amo-te não é bonitinho. O problema está no pronome.” Meus caros leitores, o amor não tem regras. A gente ama uma pessoa do outro lado do oceano, ama quando o timming não parece certo, ama até sem querer amar. Que se dane os gramáticos, quem liga para eles?! Vocês esqueceram que foram eles que criam esse acordo ortográfico que até hoje ninguém entende???? Por isso, amados portugueses vamos jogar esse pronome para o escanteio. Quando o olho brilha e as borboletas voam compulsivamente no estômago, ninguém vai pensar nessas regras. Não existe Bossa Nova, Amália Rodrigues ou o novo CD do Arctic Monkeys que consiga superar a beleza de um “Te amo”. Não importa se é desafinado, tímido ou escandaloso. A terra para, o coração acelera, o riso fica frouxo. São alguns segundos em que tudo faz sentido. E se o amor perdoa tudo, fiquem tranquilos, esse errinho gramatical vai passar batido. Então não se preocupem. Apenas experimentem. Vamos só nos amar. Ei, não esquece... Te amo Portugal!


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O regresso por Luiz Garcia

O Portugal dos brasileiros Quando meu pai Manuel, então com púberes 13 anos, deixou as montanhas verdes e bucólicas de Cova de Lua - uma aldeia quase perdida à borda extrema de Trás-os-Montes -, ele se somaria a uma legião de autoexilados. Gente que se evadia de um Portugal em transe. Não que a vida naquele rincão português tivesse sido algum dia melhor. A existência ali sempre fora de escassez e resignação diante da pobreza endêmica. Mas cresciam, ao final dos anos 1950, os casos de emigrantes prósperos, que haviam se aventurado em outros países da Europa, nas Américas e nas colônias africanas. Para acentuar essa impressão, esses novos bem-situados faziam questão de ostentar seu sucesso no estrangeiro quando voltavam à aldeia natal nos meses de férias. Diferente de outros tempos, esses emigrantes davam testemunho de uma outra vida possível, longe da terra de desesperançados em que Portugal havia se tornado sob o regime salazarista. Agora, não eram os donos do mundo que, a bordo de suas naus e caravelas, conquistavam territórios e riquezas nos quatro cantos do mundo. Não eram mais os portugueses de Camões. Os patrícios do Pós-guerra que tentavam sua sorte distantes da terra materna eram os despossuídos, os depauperados por conta do delírio de grandeza que obsediava o Estado Novo, que, por crer na necessidade de manter o império indissoluto, sacrificava o destino nacional.

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Meu pai seguramente nada sabia dessas questões de poder. Sentia, no entanto, que a vida na aldeia era cruel e inclemente para os sonhos de um jovem. Alguns se convenciam de que nada mais poderiam esperar da vida, irremediavelmente inóspita e rude. E ficavam. Outros rebelavam-se ante o fatídico e buscavam além da fronteira um chumaço de esperança. Cinquenta anos depois, são brasileiros que duvidam - uma vez mais - da capacidade de seu próprio país de gerar oportunidades de

uma vida digna e enxergam no exterior uma possibilidade redentora. No mapa dos insatisfeitos, Portugal volta a ser um destino preferido. É verdade que não é o primeiro surto migratório. Brasileiros já foram 119.363 em terras lusitanas em 2010, o recorde histórico. A ainda recente crise portuguesa, na contramão do ciclo virtuoso da economia brasileira, havia feito muitos retornarem ao Brasil, que despontava finalmente como uma terra de promessas mais tangíveis. Era o gigante que se erguia e se mostrava mais generoso com seus filhos. Os últimos três anos, entretanto, foram marcados pelo furacão político que alijou do poder a primeira presidente brasileira e também pela derrocada econômica que expandiu a massa de desempregados - 13,7 milhões (IBGE) -, resfriou a atividade industrial e devolveu milhões ao império da indigência. São 24,8 milhões de brasileiros vivendo com renda inferior a um quarto do salário mínimo por mês, o equivalente a cerca de 60 dólares. A crise brasileira em curso insuflou uma nova onda de êxodo. Hoje, em Portugal, são 85 mil brasileiros em situação regular - a maior comunidade estrangeira no País, representando 20,3% dos 421.711 imigrantes. O número é seguramente maior. Nessa conta, não aparecem, por exemplo, os italianos que vivem em Portugal, dos quais 17% são nacionais do Brasil, onde a comunidade de descendentes italianos com dupla cidadania é bastante expressiva, especialmente nos estados do Sul.

Um novo perfil Se o principal motivo para deixar o país sempre foi a busca pela prosperidade, já é possível perceber, entretanto, um novo perfil de imigrantes brasileiros. Ao lado de uma maioria que vai tentar a sorte para juntar economias, há uma classe de brasileiros que faz as malas atraída por algo que - no Brasil de hoje - nem o dinheiro pode comprar: a qualidade de vida. A escalada da violência, que já é um problema sensível em pequenas cidades também, tem gerado uma crescente sensação de insegurança. Esse mal-estar acaba por fecundar o desejo de partida. O idioma comum, o menor custo de vida e a política


Aos olhos brasileiros e do mundo, Portugal vem se tornando um oásis. Celebridades daqui vivem entre os dois países. Thiago Lacerda, Luana Piovani e Pedro Cardozo são três expoentes desse novo perfil de brasileiros, rendidos às excelentes condições de vida que Portugal oferece aos seus residentes. É claro que os portugueses poderão apontar um sem-número de problemas domésticos. Mas, ao comparar realidades, os brasileiros que cruzaram o Atlântico não têm dúvidas dos ganhos. Eu mesmo já fiz essa travessia. Mas era outro tempo. 1983. Meu pai havia decidido voltar à aldeia natal depois de 20 anos. Adolescente, testemunhei a eficiente rede de proteção social, a qualidade das escolas públicas e o baixo custo de vida. Porém, a vida campesina daquela época era um recuo no tempo. O Portugal do meu cotidiano era obsoleto. A celebrada malha viária de hoje não existia. Nem sei se o túnel do Marão era sequer cogitado. Lembro que a viagem entre Lisboa e Bragança - que hoje se faz em cinco

horas - custou-nos o dia inteiro, serpenteando de ônibus por uma infinidade de montes. Na aldeia, as promessas de futuro para os jovens eram estreitas: entre a carreira militar e a migração para a Espanha, França ou Alemanha. Diante da nebulosa de incertezas, acabamos optando por voltar ao Brasil. Não esperamos cumprir-se Portugal. Hoje, meio brasileiro meio português, a ideia de retornar corteja minhas intenções. O Brasil está afundado numa atmosfera de pessimismo que desafia os homens de fé, seja pelo contexto adverso e pela falência ética, seja pelas perspectivas sombrias e perigosas que a frustração coletiva é capaz de engendrar. Durante os anos de ditadura militar (1964-85), o regime emparedava os críticos com o mote cínico “Ame-o ou deixe-o”, sugerindo que os incomodados mudassem de país em vez de questionarem a legitimidade do governo. A frase que era provocação é agora um dilema. Num país aturdido por tantas mazelas - que tanto ofuscam suas maravilhas -, é amá-lo ou deixá-lo. É permanecer e mudar, crente na redenção nacional, ou ir embora, como esses brasileiros emigrantes, atrás de outro país que já esteja pronto para ser amado.

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de receptividade portuguesa aos que podem investir abrem portas para o brasileiro que, apesar da natural ligação com a terra-mãe, deseja, acima de tudo, poder usufruir os recursos que amealhou sem ter de viver sob o domínio do medo.


Tem Carnaval em Lisboa? por João Albuquerque Carreiras

Carnaval é no Rio. Quantas vezes esta frase foi escutada, mesmo por quem nunca viveu essa experiência. Fale-se com um carioca que viva fora do país e muitos serão os que dizem que é mais penoso passar o Carnaval longe do Rio do que Natal ou passagem de ano. O carnaval é parte da alma carioca, a celebração máxima de uma alegria tão própria que só conhecendo, e vivendo.

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No Rio, o carnaval é feito de duas realidades bem diferentes, ainda que complementares. Uma coisa é o carnaval da Sapucaí, que todos os anos podemos ver na televisão, em que escolas de samba desfilam brilho e alegria numa escala grandiosa. O carnaval de luzes e holofotes, dos camarotes privados e dos bilhetes a preços astronómicos, inacessíveis ao comum brasileiro, reservado a turistas, a ricos e a quem, por paixão, poupa o ano inteiro para viver este momento. Este é o carnaval com que a maioria das pessoas identifica o Rio. Depois há outro carnaval, o dos blocos, da rua, de uma escala humana, onde não há bilhetes nem reserva de admissões, onde cada um apenas tem de se juntar. Este carnaval vem crescendo a cada ano que passa, representando hoje talvez mais a alma do carnaval carioca do que a própria Sapucaí. Para quem não sabe, um bloco de carnaval é uma espécie de arraial de Santo António versão carioca. O bloco é uma festa de rua, organizada por um grupo, com música (geralmente tocada ao vivo), que pode ir do samba ou maracatu até ao reggae ou ao rock, onde cada bloco se destaca pelo estilo de música ou pelo tema. Há blocos estáticos, que ficam numa praça ou outro espaço público, e blocos que se movimentam pelas ruas, terminando num espaço mais amplo. Na verdade, há blocos para todos os gostos, a todas as horas e num tempo que ultrapassa o próprio carnaval, entre ensaios, pré e pós carnaval. Escolher blocos na semana de carnaval exi-

ge uma planificação cuidadosa, dada a quantidade, e pode fazer começar o dia às 5h00 e terminar, enfim, pode o dia até não terminar e juntar com o seguinte. O bloco é o carnaval democrático, de rua, de todos e para todos os que se queiram divertir e fazer do carnaval algo único. Nunca gostei muito de carnaval, talvez marcado pelas deprimentes imagens de carnaval do norte do país com bailarinas sambando em bikini com 7 graus e a pele engelhada pelo frio. Nada daquilo me fazia sentido e fora esporádicas iniciativas de amigos ou festas sempre vivi o carnaval com grande distância. Isto até viver um carnaval no Rio de Janeiro, onde entendi o que podia ser o carnaval, uma festa de libertação e de alegria, de excessos, de uma espécie de realidade paralela que se vive intensamente durante uns dias. Uma catarse de tudo o que durante o ano nos reprime, nos preocupa. Libertação, talvez seja esta a palavra com que hoje identifico o carnaval. Lisboa está em mudança com a nova vaga de emigração brasileira e, como tantas outras coisas, este carnaval mostrou bem como essa influência já se faz sentir. Foram três os blocos de rua a sair e a trazer para a nossa calçada um cheirinho a Rio de Janeiro: a Colombina Clandestina, o Bué Tolo e o Baque do Tejo. O Colombina Clandestina invadiu as ruas de Alfama num sábado de tarde com um sol glorioso que ajudava a esquecer o frio. Muito me lembrei dos santos populares enquanto avançava no bloco pelas ruelas de Alfama. Nas janelas os alfamenses que ainda resistem à invasão do turismo vinham às janelas sorrindo e acenando, com aquele brilho nos olhos de quem vive num bairro onde a festa de rua é imagem de marca e parte da vida. Turistas paravam surpreendidos e disparavam fotografias, superados na surpresa pelos


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portugueses que circulavam e se deparavam com um espectáculo que não conheciam. A bateria marcava o ritmo, mercados e cafés eram invadidos em busca de cerveja e casas de banho, e o cortejo de fantasias coloridas avançava sambando, até terminar no Largo de São Miguel, palco de tantos arraiais ao som de Quim Barreiros, aqui substituído por uma multidão a cantar “você pagou com traição, a quem sempre lhe deu a mão”, famoso pela voz de Beth Carvalho, e a aproveitar as pausas entre músicas para gritar sonoros “Fora Temer!”. Já recuperado de sábado, preparei nova fantasia, pois o Domingo era marcado por dois blocos seguidos: o Bué Tolo, na Ribeira das Naus, e o Baque do Tejo, saindo do Príncipe Real. A chuva matinal não esmoreceu o bloco e o Bué Tolo, de formação recente, terminou o curto cortejo junto ao quiosque e prolongou a festa para além do que era previsto. Com saudações especiais ao sol de cada vez que este aparecia, o bloco tomou de assalto um dos pontos mais turísticos da cidade, espalhando música e glitter (purpurinas) junto ao rio. Com o prolongamento do Bué Tolo, encontrei o Baque do Tejo já no meio do Bairro Alto, onde o maracatu ecoava nas ruas estreitas e o bloco tinha de abrir à passagem dos carros. Era uma batida imponente, seguido por um enorme cortejo que invadiu o Adamastor no final do bloco. Que melhor lugar para terminar um bloco, que neste terraço sobre o Tejo tão frequentado pela comunidade brasileira e onde a ausência de fronteiras, que caracteriza todos estes blocos, é imagem de marca.

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Foi apenas um pequeno cheiro a carnaval carioca, mas imagino que para os brasileiros que organizaram e seguiram estes blocos este pouquinho de Rio os ajudou a superar a distância e as saudades. Para os lisboetas terá sido uma injeção de alegria, mais uma que a cidade teve com esta nova emigração brasileira e que aos poucos vai puxando pelo lado mais solar e divertido, quantas vezes escondido, dos portugueses.


COLUNA DESCOLADA Que treta é essa?

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por João Almada

No maior dos acasos, em conversa com um amigo carioca a morar em Lisboa, soube que uma festa que ele costumava ir lá no Rio, aparentemente muito divertida, se ia realizar em Lisboa. Logo combinámos ir. Ele insistiu para ir cedo, que ia ter fila, que ia estar cheio. Eu desconfiei, pensando que uma festa carioca a aterrar de paraquedas em Lisboa, e a comunicar muito em cima da hora, não iria por certo encher à primeira. Ainda assim acedi e chegámos pouco passava da uma hora. Nada de fila e eu já a pensar: que pena, vai ser um fracasso. Mal entrámos todas a minhas dúvidas se desvaneceram, o espaço estava lotado e não tinha fila porque parecia que toda a gente já tinha entrado. Lá dentro um ambiente super animado, com a pista toda a dançar ao som de ritmos predominantemente sul-americanos, num ambiente que me parecia quase a 90% brasileiro e que me transportou por instantes para a América do Sul. Um incauto que ali entrasse pensaria

estar no Rio, ou pelo menos no Brasil. Não parecia definitivamente Portugal, em particular pela forma como as pessoas dançavam, pela desinibição e descontração do ambiente. A noite acabou por ser divertidíssima e fiquei muito curioso em saber mais sobre esta festa, motivo que me levou a falar com Guilherme Acrízio, um dos sócios e criadores da festa Treta. A Treta nasceu no Rio há 4 anos, num pequeno bar chamado Galeria Café – situado em plena zona sul, no bairro de Ipanema –, pelas mãos do Guilherme e do Thiago Araújo (sócio, produtor e DJ), virada para um público LGBT selecionado, privilegiando o atendimento e a qualidade de som, com uma escolha musical centrada no Pop que estava bombando na altura. Rapidamente a festa se tornou pequena para o espaço e teve de crescer, apesar de manter a periodicidade semanal no espaço de origem.


Sobre o que diferencia a Treta, diz Guilherme “Muitos lugares fazem festas parecidas para tentar seguir essa pegada, que é uma pegada muito nossa. Não há um padrão exacto, a gente faz acontecer no dia. Somos perfeccionistas com tudo, trabalhamos e fazemos que a festa seja perfeita em todos os sentidos. Nós temos um escritório no Rio que comporta toda a demanda. Um escritório bem direcionado na parte artística e visual, para manter a identidade visual forte, a característica da festa, sem perder isso em nenhum lugar. Quanto à qualidade da festa, a gente mantem a festa igual, faz todas as formas de estar presente, ou eu ou o Tiago, porque somos a cara da festa e levamos a própria equipa que acabou se tornando, também ela, a cara da festa. A festa também se diferenciou desde o início pela forma como usou as redes sociais, “temos um Facebook e Instagram muito forte. Somos a festa LGBT mais seguida do Brasil, das mais seguidas do mundo. Quem entra no Instagram da Treta pode ver o material completo desde o início da festa, vídeos em directo, quem está tocando, se tem fila, quem são os convidados. Isso atrai quem está em casa, saber o que está acontecendo na Treta. Algo que gosto muito de fazer, a divulgação em tempo real. Começámos a fazer há 4 anos ainda com Blackberry, tirando fotos e postando. Não se via isso em lugar nenhum. Queria mostrar para as pessoas em casa como estava a festa naquele momento. Aqui no Brasil isto é muito forte, vejo menos noutros países, mas as pessoas acabam aderindo a essa moda de internet e rede social.” A música é um dos factores que distinguem a Treta, em tempos em que a música electrónica invade a maioria dos espaços, aqui há uma escolha de DJ que se foram juntando ao projecto, tornando-se parte dele, e onde predominam estilos brasileiros como o funk carioca, o sertanejo ou o axé, secundados pelo reggaeton e pelo pop comercial.

No seguimento deste crescimento, como diz Guilherme “não foi difícil atingir Portugal, até pela língua, o público consome o que a gente consome. A sensação é a mesma de fazer no Rio, toda a gente canta as músicas, até portugueses. Toda a gente sabe quem é a Ludmila. Foi muito mais fácil chegar e fazer o que a gente faz aqui. A festa em Portugal é basicamente para brasileiros, mas também atinge o público local.“ Sobre a dificuldade de chegar a uma cidade diferente e montar um projecto com este sucesso logo a partir da primeira edição, “A gente conseguiu por conta desse trabalho. O processo do brasileiro conhecer a marca, montar uma equipa local na cidade em que a equipa de promoters locais mostrasse o que é a festa, o que ela representa. Eu tenho meu tempo dedicado quase a 100% à festa. Eu chego um dia antes, saio à noite, tento conhecer as pessoas, pesquiso público, encontro as pessoas. Vejo o que está rolando nas outras festas. Crio amizades, relacionamentos. Isso gera um retorno muito forte para o meu trabalho de RP, de promoter, valoriza muito quando recebo as pessoas na porta e as abraço, ou as sigo nas redes sociais.” A Treta tem geralmente uma periodicidade entre 1 a 3 meses em cada lugar habitual, o suficiente para deixar saudades e não ser esquecida. “Depois que se faz uma vez, a tendência é ir crescendo até chegar à Tretona, que é uma Treta em formato maior, uma outra marca, que a gente trabalha quando a festa tomou uma proporção muito grande na cidade. Em lugares maiores, no futuro cada cidade terá sua Tretona, como tem São Paulo ou Belo Horizonte”. Depois do sucesso das duas primeiras Treta Lisboa, que tiveram lotação esgotada, poderemos então esperar uma próxima Treta brevemente na cidade e, provavelmente, não levará muito tempo à Tretona chegará aqui. O público de Lisboa agradece.

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Até chegar a Lisboa, “A Treta começou por ter uma visibilidade muito grande no Rio. Chamou a atenção de produtores de outras cidades e nisso foram fazendo parecerias independentes em cada cidade (Belo Horizonte, Brasília, Manaus), até chegar a 30 cidades em todo o Brasil, 10 mais fortes e outras que alternam. Criámos uma grande experiência de chegar na cidade do zero e fazer a marca acontecer.” Seguiu-se a internacionalização para Nova Iorque ou Santiago do Chile, estando já no horizonte que a festa chegue a Madrid, Dublin ou Milão, cidades com muitos brasileiros, que é o público alvo, base para chegar ao público em geral.


Viva o Samba! por Sílvia Duarte

Hugo Macedo

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Somos levados para a roda. À roda da mesa, estão quinze músicos sentados, a tocar quinze instrumentos. Cícero Mateus senta-se à cabeceira, Betinho sorri para o irmão do outro lado da mesa. E os dois tocam e sorriem a cantar. Todos sorriem na roda.


Nem sempre se sentam os quinze. Mas ali, à beira do Tejo, a roda reúne a família. Como já era na infância, em casa dos irmãos Mateus. Imbuídos nessa lembrança e na vontade de mostrar o samba a Portugal, criaram o “Projecto Viva o Samba”, há três anos, no Bairro Alto, primeiro na Associação Arte Pura, passando pelo Tacão Grande e mais tarde no espaço Arte Casa, na Bica. Hoje, o samba toca no bar Titanic Sur Mer, no Cais do Sodré, todos os domingos.

jovens, menos jovens, brasileiros, portugueses, estrangeiros curiosos. Há manga curta, mini-saia, há blusão de cabedal, há até fato e camisa. Portugal quer sambar e acolheu este samba com a alegria necessária. “É preciso desmistificar o samba”, diz-nos Cícero, e a avaliar pela casa cada vez mais cheia de domingo para domingo, os portugueses parecem começar a entender o conceito. Porque o samba não é só o Carnaval, o “samba é um estado de espírito!”

Na roda, que é um convívio, há sempre lugar para mais um: para mais um pandeiro, mais um cavaquinho, mais uma guitarra. Basta levar o talento e o coração. E por isso o grupo tem crescido, ano após ano. Assim chegou Madalena, com a cor do sol no cabelo, a claridade na pele e o calor na alma dela. Abraça-nos com um abraço e com o sorriso. Ao lado de Cícero, na roda, a menina portuguesa com sotaque do Brasil, tem o samba à flor da pele. E esta família, que é casa, deu-lhe a bela roda à vida. Ali, ela é feliz. À roda dos músicos o público vai pulando e rodando os pés no samba. As pessoas vão chegando. Despem os casacos, pedem uma cerveja ou uma caipirinha no balcão do bar e ficam a dançar e a cantar um sambinha atrás do outro. É difícil definir um padrão: há

Há ideias e ambição, o projecto quer crescer. A cada nova roda, há um novo convidado, uma nova voz, um novo instrumento. E Cícero conta-nos que sonha chamar para cantar vozes da nossa praça, como Raquel Tavares ou Carminho. Pelo caminho, um álbum de originais. Vai acontecer, acredita.

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A bola de espelhos roda no tecto e faz rodar as luzes vermelhas nas paredes e nas caras da gente. Ali dentro, é sempre Verão, é “o dia da Alegria, e a tristeza nem pode pensar em chegar!!!”, determinam os mentores do projecto.


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Marinho Ponci Retrato de um Brasileiro do Porto para o Mundo por Marta Gonzaga

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Mario Ponci Neto, conhecido como Marinho Ponci, 50 anos, brasileiro a viver no Porto. A família Ponci mudou-se para lá em 2016 em busca de um luxo que neste momento não se encontra no Brasil: “a segurança e a tranquilidade de poder sair para trabalhar sabendo que a família está bem”. Este movimento para o norte de Portugal afigura-se como uma tendência. Dizem os brasileiros, que o Porto, Braga ou Guimarães, correspondem a uma ideia romântica que tinham de Portugal. A contribuir também para isso a qualidade de vida e os preços das casas incomparavelmente mais baixos que os de Lisboa. No Brasil o Marinho Ponci é uma figura conhecida, principalmente pelo seu trabalho como Diretor de Expansão da icónica marca Chilli Beans, pelas palestras que dá na área de franchising, mas, também como músico. Cofundador e guitarrista da Reverendo Franklin, «fizemos o Rock in Rio, fizemos o Bourbon Festival, Parati, junto com milhões de bandas em New Orleans, só lugares bacanas. Somos doze no palco, com metais e tudo mais, agora com essa minha vinda pra cá a minha banda na verdade ficou um pou-

co no Brasil». Uma banda que se apresenta como Soul, mas que nos presenteia com swing, arranjos de metais, teclados e vozes poderosas, todas femininas. Planeia refazê-la cá, mas com uma outra abordagem «com um conceito muito mais legal, com uma menina que canta na rua com um violão, ela é disruptiva e tem uma voz incrível. Já tenho um guitarrista chegando do Brasil, já tenho um baixista, então vamos começar a lapidar isso tudo p’ra poder lançar no ano que vem.» A isso junta-se a imagem muito única e pessoal deste homem que chegou a Portugal há somente dois anos mas que também aqui já marcou presença. É parado na rua por pessoas que o reconhecem pelos vídeos onde conta da sua experiência em Portugal – «hei, você não é aquele brasileiro que tem um canal no youtube? Cara, vi todos os seus vídeos antes de me mudar!» - neles partilha a experiência da mudança, de como se (re)começa num outro continente, entre outros conselhos e assuntos de quem já passou e ainda está ou irá passar por isso. Nas palestras e em todas as outras participações públicas, o Marinho fala como que com os amigos, e isso


Desde que chegou trabalha como mentor na internacionalização de marcas e tornouse recentemente empresário de uma marca de franchising, como sócio e diretor, com o convite de uns amigos de longa data, proprietários da Magic Bavarian Nuts no Brasil. Este projeto ambicioso que começou recentemente no Porto tens planos de expansão para toda a Europa. Descreve-se como um músico que “virou” executivo «sou filho de pai Italiano nascido no Brasil e sempre sonhei ser músico», e vive uma dualidade que os anos lhe ensinaram ser complementar. «É engraçado. Sempre deixo a vida ir-me mostrando as coisas e fico prestando atenção nela» termina. E, no entanto, é executivo há trinta anos. «Sabe, sou um cara que tem que estar apaixonado. E, acreditando num projeto, me atiro, eu me jogo. Então há muitos anos que estou neste papel e há muitos anos que faço isso com uma paixão tremenda, tremenda!” Em Portugal procura encontrar o equilíbrio que não conseguia ter no Brasil «é preciso tempo para tudo. Você tem que ter tempo para fazer tudo o que você ama na sua vida. Se você ama a música, se você ama o futebol, não importa o que você ama, naquele tempo você tem que estar a 100%. E tem de saber desligar! Você não pode estar tocando preocupado em controlar se o seu filho está bem, ou se chegou a casa... Você tem que saber desligar e se conectar. Você tem que ter o tempo para essas coisas na sua vida, porque se descompensa uma delas, acabas culpando o que mais te rouba tempo e aí passas a vida a reclamar”. Essa descompensação fez com que não estivesse «realmente presente» no crescimento da filha mais velha. É que essa vida mais materialista de trocar o tempo em família pelo alto salário a deixou em segundo plano. «A primeira coisa que coloquei na minha cabeça foi: eu não quero trazer o Brasil para Portugal, eu quero viver Portugal.” O que se ganha em Portugal é bastante inferior ao que um executivo como ele ganharia em São Paulo, mas o que ganha por viver em terras lusas é «infinitamente maior do que estou perdendo. O que eu estou perdendo são

coisas, talvez materiais, porque saí de um país onde se ganha muito bem. [Onde] tinha uma posição muito boa, morava numa casa de 700, 600 m2 e tudo mais. Mas não vi a minha filha mais velha crescer». Já aqui, com casas (muito) mais pequenas e maior presença junto da família descobriu o que é realmente ser «um homem no meio de 3 mulheres e uma cachorra. É calcinha para todo o lado, entendeu? É TPM mais não sei o quê, o que para nós homens pode ser irritante e por isso reclamo muito, mas no final até que é engraçado», ri-se. Gosta de todo tipo de musica «desde que seja boa», diz, e odeia Samba, ou odeia as variações do Samba, «o que eu não gosto é daquele samba que vocês começam a falar isso é samba Rock, samba não sei o quê. Não tem como casar Samba com Rock, é como eu casar com uma zebra, entendeu?». Na sua opinião a ânsia de tentar reproduzir a vida de brasileiro, tal como procurar restaurantes brasileiros, não faz sentido até porque para encontrar comida e vida brasileira no verdadeiro sentido da palavra teria de o fazer na Amazónia profunda, «no Brasil você não vai muito a restaurantes brasileiros. Você vai a árabes, vai a chineses, vai a japoneses, vai a italianos, quer dizer, o Brasil é tão grande, é tão... é tão tudo!». Apaixonado confesso por Portugal, país de que já fala como seu, diz que a mudança foi a coisa mais certa que fez na vida, “gosto das pessoas, gosto do modo como me relaciono, gosto das oportunidades, acho que Portugal é um país riquíssimo”. Ainda assim, aponta que o país e as pessoas se deviam “vender” melhor para o mundo “nós temos um país maravilhoso, onde eu moro tem o rio, tenho praia perto, estou a uma hora-e-pouco de Espanha, tenho tudo o que possa querer aqui tão próximo.» «E sim, a cidade é minha! A cidade é minha e é engraçado, quando estou voltando (depois de um fim de semana, ou de um final de semana com reuniões fora de Porto) tenho a sensação de estar voltando p’ra minha casa.» Para esse Porto de contrastes «riquíssimos» entre o novo e o antigo. O cuidado e o carinho com que se restaura um edifício, o custo dessas obras de revitalização são uma recente descoberta que Marinho valoriza muito «eles estão segurando história, isso é maravilhoso! Sabe, você “pega” [vê] as casas que já estão revitalizadas, andando pela Rua das Flores, cheio de flores, [com] os azulejos... tudo bem limpinho, bem brilhando, é como entrar numa casa de boneca. É demais, adoro isso!»

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inclui palavrões e opiniões que a maior parte de nós calaria. Fala tudo o que lhe apetece, de modo que as caixas de comentários estão também inundadas de comentários de pessoas mais “sensíveis”. No entanto, a grande maioria elogia o seu despretensiosismo, «Até agora os comentários e informações sobre Portugal, vindas de um Brasileiro, mais verdadeiros e reais que eu assisti», pode ler-se num dos inúmeros comentários.


TOM DE FESTA 2018 Crónica de um festival que é um segredo guardado à vista por Sara Figueiredo Costa

Há vinte e oito anos que o Tom de Festa – festival de músicas do mundo – acontece. Pelos palcos da ACERT já passaram nomes como Compay Segundo, Vieux Farka Touré, Richard Bona ou Chico César, muitos deles antes de serem conhecidos em Portugal. O programa é sempre ecléctico, tem concertos para muita gente e outros mais intimistas, e acrescenta à música várias outras formas de expressão artística, não esquecendo a vertente da sociabilização, afinal, um pilar importante na existência da associação que organiza este festival. Podia ser presença habitual nos destaques da imprensa cultural, mas é sabido que as redacções gostam pouco de olhar para o que não está à porta e ainda menos de descobrir o que as redacções vizinhas ainda não descobriram. Isto é uma crónica, podem dizer-se estas coisas sem abalos de imparcialidade, que aqui nem tem como ser regra (não fosse quem escreve associada da estrutura que organiza o Tom de Festa – e fica feita a declaração de intenções e assumido o registo cronístico, pessoal, comprometido).

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Este ano, a programação do festival teve de ser reduzida para três dias, em vez dos habituais quatro, depois de a ACERT ter sofrido um rombo no seu orçamento na sequência do corte do apoio da Direcção Geral das Artes. Apesar disso, a qualidade da programação manteve-se e quem quis ouvir música brasileira de diferentes latitudes, ritmos e matrizes teve aqui o espaço ideal. No programa do Tom de Festa não deixou, ainda assim, de se dar notícia desse rombo: “A ACERT nega-se a pedir desculpa ao público pelas consequências do duro golpe que sofreu no corte de apoio resultante da redução drástica do apoio da DgArtes/ Ministério da Cultura. Resistência, motivação redobrada e encantamento são antídotos comprovativos duma ACERT que quer continuar a seduzir a comunidade e os espectadores, pelo serviço público que presta numa região do interior que se afirma sem paternalismo no panorama artístico nacional.” Com menos um dia, a festa fez-se com a dedicação de sempre, desta vez com toda a programação virada para o Brasil, assinalando meio século de Tropicalismo – um dos mais importantes movimentos culturais do século XX em cuja génese estiveram nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé ou Gal Costa.

Na primeira noite do festival, a Cor da Língua ACERT prestou homenagem à Tropicália num concerto que fez desfilar temas popularizados por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Tom Zé, Rogério Duprat ou Os Mutantes, entre outros. Entre as vozes convidadas para se juntarem ao grupo, Luca Argel, um repetente do festival que deu corpo a várias canções, entre elas “Alegria, Alegria”, de Caetano Veloso, confirmando que o balanço da bossa, o quebrado do samba e os riffs do rock sempre se deram bem nessa mistura que foi – e é – o tropicalismo. Mais tarde, no concerto que fechou a noite no Pátio, o cantor e compositor haveria de voltar a subir ao palco a convite de Os Sincopados, para se juntar à roda de samba. Na parede que começa onde o palco do Auditório ao Ar Livre acaba, um emaranhado de imagens coloridas começava a ganhar forma. Drika Prates, artista visual brasileira a residir em Portugal desde o ano passado, ocupava-se das tintas e dos pincéis para criar um mural dedicado ao tropicalismo. Será um vestígio mais duradouro deste Tom de Festa a ficar em Tondela, pelo menos enquanto o sol e a chuva o deixarem resistir, como é de lei nos murais. Enquanto A Cor da Língua visitava a herança tropicalista, Drika Prates pintava, ajudada por três ou quatro crianças que não faziam parte do programa. Quando lhe perguntámos de onde surgiram os ajudantes, contou: «A Alice ficou muito entusiasmada com o mural e eu perguntei se ela queria experimentar pintar um pouco. Quando ela começou, apareceram outros meninos que quiseram juntar-se, e daí participaram também. Eu já trabalhei com crianças em arte e educação, estou habituada a fazer isto com outras pessoas. E, bem ou mal, os meninos acabaram ajudando.» No dia seguinte, outros ajudantes, estes já adultos, deram também uma mão, enchendo contornos previamente definidos e permitindo que no domingo houvesse uma composição completa na parede do jardim da ACERT. Entre cogumelos, ananases e flores, as linhas com que Drika Prates encheu a parede branca são agora testemunhas de como a Tropicália continua bem viva.


Músicas do brasil / 50 anos de tropicalismo no Tom de Festa

Estrutura financiada por

Associação Cultural e Recreativa de Tondela Rua Dr. Ricardo Mota, 14; 3460-613 Tondela www.acert.pt/tomdefesta

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O 28º Tom de Festa, festival de músicas do mundo organizado pela ACERT, celebrou este ano meio século do movimento Tropicália. Com o Brasil no centro da programação, foram três dias de concertos, mas também de exposições, encontros, comidas e conversas. Maíra Baldaia, Wado, Guilherme Ventura, Cys e O Gringo Sou Eu foram alguns dos cantores e bandas que passaram por Tondela, onde também se escutou um concerto criado por A Cor da Língua ACERT, com cantores convidados, assinalando a herança do Tropicalismo.


Exposição Fafe do Brasileiro de torna viagem: Heranças e Memórias por Ana Pessoa*

Em Fafe, no início de junho, de 6 a 8 do mês, foi apresentada a exposição “Fafe do Brasileiro de torna viagem: heranças e memórias” por ocasião da realização do V Colóquio Internacional – A Casa Senhorial: anatomia dos interiores. A mostra é dedicada ao tema da e/imigração entre Portugal e Brasil, fenômeno que marcou as identidades dos dois países, seja como colonizadores, emigrantes, “brasileiros” de torna-viagem, e perdura como alternativa privilegiada de migração entre suas populações. No fluxo da imigração, merece atenção a figura do “brasileiro” de torna-viagem, o imigrante português que retornou a Portugal durante o século XIX e começo do século XX, e que construiu, em seu percurso, um intercâmbio de capitais, mercadorias e ideias. Essa exposição apresenta a contribuição dos “brasileiros” de torna-viagem ao concelho e suas marcas na cidade de Fafe, com destaque para a trajetória de um “brasileiro” de torna-viagem, o comendador Albino de Oliveira Guimarães (1833-1904). Esse emigrante, quando proprietário, promoveu profunda reforma em chácara em Botafogo, no Rio de Janeiro, que pertenceria, anos depois, ao iminente advogado e político Rui Barbosa. Após a morte de Rui, a propriedade se tornaria o Museu Casa de Rui Barbosa, da FCRB, hoje imóvel de interesse público nacional.

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O tema é exposto em seis painéis, sendo um dedicado à apresentação da mostra, e os demais a aspectos da trajetória e contribuições dos torna-viagem, comentados em cinco pranchas ‒ “O campo e a cidade”, “A renovação de Fafe”, “Casas dos Brasileiros (I)”, “Casas dos Brasileiros (II)”, “Um Brasileiro Torna-Viagem”.

Em “O campo e a cidade” são abordadas a feição rural da antiga Montelongo e a expansão da vila de Fafe, sede do concelho, centro da principal feira da região; em “A renovação de Fafe”, o tema é a urbanização e expansão da cidade, a partir das contribuições dos “torna-viagem”, com investimentos rurais, iniciativas filantrópicas e a construção de elegante casario, erguido por sucessivas gerações de retornados. Nos painéis sobre as casas dos “brasileiros” são comentadas as casas situadas nas duas localizações de maior prestígio da cidade no século XIX. Aquelas situadas à direita do então largo de Fafe, via de grande movimento, com sobrados azulejados, e as da rua Monsenhor Vieira de Castro, via mais reservada, de selecionada vizinhança, com fachadas clássicas. Todas trazem a claraboia como elemento tanto funcional de iluminação como decorativo, bem como escada em madeira nobre, com corrimão torneado, e requintados estuques. Algumas casas mantem o mobiliário e objetos originais, que permitem que se conheça os modos de vida domésticos do passado. Já no século XX, surgem construções mais ecléticas, em estilo chalé, como o palacete de João Alves de Freitas, hoje sede do arquivo da municipalidade. Em painel destacado, a trajetória de Albino de Oliveira Guimarães, entre Fafe, Rio de Janeiro, e retorno, e sua vinculação com a Casa de Rui Barbosa. Ele adquiriu a casa em 1879, para instalar sua extensa família, com sete filhos, quando promoveu uma profunda reforma, lançando mão dos artefatos de ferro para instalar varandas e novas circulações, e onde implantou um jardim ao gosto romântico. Contudo, por força de contratempos nos negócios, ele a colocaria em leilão, em 1886, e retornaria a Fafe, onde se constituiu um grande proprietário rural.


inicialmente apresentada na Fundação, no Rio de Janeiro, de 23 de outubro de 2017 a 13 de janeiro de 2018. A mostra teve curadoria de dra. Ana Pessoa (FCRB), organização de Roberto Abreu (FCRB), programação visual e montagem de Apoena Horta e Juliana Sidsamer, fotografias de Manuel Meira, e colaboração da dra. Ismênia de Lima Martins (UFF); em Fafe, ela foi organizada pelo sr. Artur Coimbra, diretor do Museu das Migrações e das Comunidades, da Câmara Municipal de Fafe.

A exposição é uma realização da Fundação Casa de Rui Barbosa, instituição brasileira vinculada ao Ministério da Cultura,

*Pesquisadora Fundação Casa de Rui Barbosa

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Vitrines expõem documentos e objetos do legado da família de Oliveira Guimarães, mantidos pela bisneta Maria Luiza Campos de Carvalho, e pelo Arquivo Municipal de Fafe. O acervo é formado por cartas, cartões e fotografias, documentos que testemunham a comunicação entre parentes e amigos na busca de superar as distâncias e as saudades. São documentos e objetos pessoais que trazem as marcas da emigração e da vida privada da virada do século XIX e XX, nos dois lados do Atlântico.


CONTINUAR, INOVANDO por Vanessa Pires de Almeida

A tradição e a modernidade sempre coexistiram na procura de soluções para os vários problemas em análise, num diálogo, mais ou menos comunicante, entre os valores ancestrais do lugar, com os seus costumes, comportamentos, memórias e crenças, e as novas maneiras de pensar e construir o mundo, adequadas ao seu tempo e às suas necessidades. Num passado ainda não muito distante, dois arquitetos modernos separados pelo Atlântico – Lúcio Costa e Fernando Távora – apresentaram dois ensaios, Documentação Necessária (1937) e O Problema da Casa Portuguesa (1945), onde revelavam a necessidade de uma renovação conceptual, que aliasse a arquitetura moderna, a “única Arquitetura que poderemos fazer sinceramente”, às lições da História, “na medida em que pode resolver problemas do presente e na

medida em que se torna um auxiliar e não uma obsessão” (Távora, 1947). Influenciados pelos tópicos, referentes ao património urbano, introduzidos por solicitação dos delegados italianos ao IV Congresso Internacional da Arquitetura Moderna (CIAM, 1933), pela intervenção de Gustavo Giovannoni na Conferência Internacional de Atenas sobre o Restauro de Monumentos (1931), pela procura de uma identidade nacionalista comum a um Estado Novo, ou, simplesmente, por uma educação de carácter histórico, estes arquitetos, urbanistas e pedagogos não só admitiram e procuraram uma alternativa ao Movimento Moderno que dialogasse com o território como defenderam a importância do edificado corrente, apenas revelada em documentos internacionais a partir da década de ’60.

Um dos princípios fundamentais que amadureceu em Itália, e sobre o qual desejo chamar a atenção do Congresso, foi o de atribuir valor de monumento e de estender as disposições de estudo e de conservação não apenas às obras mais significativas e de maior prestígio, mas também àquelas de importância secundária que, ou pelo seu conjunto de monumento coletivo, ou pela relação com os edifícios mais grandiosos, ou pelo testemunho que nos oferecem da ordinária vida arquitetónica dos diversos períodos, assumem um prevalente interesse ambiental, seja no que diz respeito à arte ou às recordações históricas, seja na função urbanística. Gustavo Giovannoni in Conferência Internacional de Atenas sobre o Restauro de Monumentos (1931)

Lúcio Costa, em Documentação Necessária, artigo publicado na Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, reconhece a continuidade da linha evolutiva, onde a tradição construtiva e a repetição tipológica, depuradas no tempo, se podem constituir como “material de novas pesquisas, e também para que nós outros, arquitectos modernos, possamos aproveitar a lição da sua experiência de mais de trezentos anos, de outro modo que não esse de lhe estarmos a reproduzir o aspecto já morto” (Costa, 1937: 33).

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Contrariamente à adoção artificial de elementos “já sem vida da época colonial” pelo chamado movimento tradicionalista, Lúcio Costa alerta para a necessidade de um estudo aprofundado sobre “os vários sistemas e processos de construção, as diferentes soluções de planta e como variaram de uma região a outra, procurandose em cada caso determinar os motivos – de programa, de ordem técnica e outros – por que se fez desta ou daquela maneira (…)” (Costa, 1937: 34), tradições guardadas e adaptadas com simplicidade e bom senso pelo mestre de obras portuga de 1910. Este estudo não se deve deter nas casas grandes de fazenda, mas estender-se às “casas menores, de três, quatro, até cinco sacadas, porta de banda e aspecto menos formalizado, mais pequeno-burguês, como essas que ainda se encontram nas velhas cidades mineira (…)”,

procurando o sentido intemporal da arquitetura vernacular. Fiel à “bôa tradição portuguesa de não mentir” (Costa, 1937: 37), Fernando Távora, em O Problema da Casa Portuguesa, reflete sobre a recorrência a uma falsa interpretação da arquitetura antiga para resolver questões atuais, sobre “o emprego sem nexo e sem lógica de algumas das formas dessa mesma Arquitectura”, levado a cabo por apologistas da Casa à Antiga Portuguesa. Perante os riscos desta atuação, Távora defende que “As casas de hoje terão que nascer de nós, isto é, terão que representar as nossas necessidades, resultar das nossas condições e de toda a série de circunstâncias dentro das quais vivemos, no tempo e no espaço”. Para isto, propõe um estudo sistémico, alicerçado em três vertentes: do meio português, atentando na relação, presente e histórica, entre o Homem e a Terra; da Arquitetura portuguesa existente, em função do homem de hoje, definindo as condições da sua criação e desenvolvimento, “os modos como os materiais se empregaram e satisfizeram as necessidades do momento”; e da Arquitetura e das possibilidades da construção moderna no mundo, como resposta às novas condições, “para aumentar ao passado algo de presente e algumas possibilidades de futuro, para aqueles para quem


viver é criar alguma coisa de novo, não pelo desejo estúpido de ser diferente, mas pela imperiosa determinação da vida que não admite qualquer paragem ou qualquer estagnação sob pena de que a posteridade nos não perdoe”. Távora sempre procurou usar os fundamentos do Movimento Moderno, não como mais um estilo a experimentar, como na prática pedagógica seguida por Carlos Ramos, mas na expressão de adequação à sua época e aos valores formais e espaciais da paisagem. A Casa de Ofir (1957-1958) constitui-se, assim, como a síntese do debate da década de ‘50, construindo sobre os pilares da modernidade uma “lógica dominante, uma profunda razão em todas as suas partes, uma íntima e constante força que unifica e prende entre si todas as formas” (Távora, 1947), de firme identidade com o lugar.

Park Hotel São Clemente, de Lúcio Costa (Wisnik,2001).

Na urbanística, não esquecendo os diferentes contextos e preexistências, o Plano Piloto de Brasília (1957), de Lúcio Costa, e o Estudo de Renovação Urbana do Barredo (1869), de Fernando Távora, expõem perspetivas muito distantes da relação do Homem com o Habitat. Obedecendo aos princípios de um novo urbanismo, apresentado na “Carta de Atenas” (1933) - como a dependência da propriedade privada ao interesse coletivo, a padronização das construções, a restrição do tamanho e da densidade da cidade, a concentração da edificação associada a extensas áreas de vegetação, o zonamento funcional e a separação da circulação de veículos e peões, eliminando a rua-corredor – o Plano Piloto de Brasília assumiu o homem como uma máquina biológica, atendendo às suas quatro necessidades básicas: habitar, trabalhar, recrear-se e circular.

Embora baseando a expressão arquitetónica na tradição e no apuramento da repetição, Lúcio Costa preconizou, entre os anos ’40 e ’60, a singularidade e a originalidade plásticas, de forma a legitimar a brasilidade de uma expressão nacional gerada por autores como Oscar Niemeyer. Contudo, a sua obra construída distancia-se da expressão de rutura com o contexto da arquitetura moderna brasileira, evidente no Park Hotel São Clemente (1944-1945), onde, condicionado pela paisagem e materiais locais, manifesta o equilíbrio entre soluções modernas e tradicionais. Bibliografia Câmara Municipal do Porto (CMP). (1969). Estudo de Renovação Urbana do Barredo (ERUB). CMP: Direcção de Serviços de Habitação – Repartição de Construção de Casas, Porto. Costa, L. (1937). Documentação necessária. Revista Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional n.º1, Rio de Janeiro. Freitas, T. (2015). Summer houses in Portugal: the legacy of the Existenzminimum and the work of Le Corbusier. Le Corbusier, 50 years later – International Congress, Valência. Giovannoni, G. (1931). Conferenza Internazionale di Atene. Centro Studi, Fondo Gustavo Giovannoni, Busta 19/Fasc 56, Roma. Pp. 2-3. Moniz, G. C., Correia, L. M., Gonçalves, A. (2014). O estudo de renovação urbana do Barredo: a formação social do arquitecto para um território mais democrático. Revista Estudos do Século XX, n. 14, Coimbra. Pp. 315-337. Távora, F. (1947). O Problema da Casa Portuguesa. Cadernos de Arquitectura n.º1, Lisboa. Pp. 31-39. Wisnik, G. (2001). Lúcio Costa. Cosac & Naify, São Paulo.

Ao contrário, no Estudo de Renovação Urbana do Barredo, Fernando Távora seguiu o método de aproximação ao real, lançado por Octávio Lixa Filgueiras, na disciplina de Arquitetura Analítica da Escola Superior de Belas Artes do Porto, dotando a análise da cidade existente “de um cariz sociológico e antropológico para compreender a articulação entre a arquitectura e o homem, a partir da relação entre o público e o privado” (Moniz et al., 2014: 320). Atento à identidade do lugar, aos valores urbanísticos, arquitetónicos e sociais, o “plano enquadra-se no princípio anteriormente estabelecido de que o Barredo deve continuar-inovando-se, por um processo que na sua origem terá de ser rápido, dinâmico e total. Renovar o Barredo será assim ajudá-lo a despertar da sua letargia e apontar-lhe caminhos novos e florescentes, caminhos de vida e não caminhos de morte como os que actualmente prossegue, integrando-o humana, social e paisagisticamente na vida do Porto; não mais um gueto nem um monte de ruínas, mas um centro vivo e um belo elemento da paisagem urbana” (CMP-ERUB, 1969: 59).

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Casa de Ofir, de Fernando Távora (Freitas, 2015).

Sob esta visão demiúrgica sobre o modo de habitar, Lúcio Costa descurou, porém, os comportamentos culturais que definem a apropriação do espaço.


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Alocásia amazônica Esta série de fotografias foi inspirada no Manifesto do Naturalismo Integral (Pierre Restany) e na vida e obra de Franz Krajcberg. Na instalação, o fotógrafo buscou relacionar algumas variações de realidade, nomeadamente os sonhos e memórias, com o tema central. Nas fotografias mais abstratas, a idéia de que compomos nossas lembranças e registros fazse presente ao questionar o facto de que, na verdade, o nosso “futuro arquivo do passado” é completamente editável e não tem relação directa com o que acontece, de facto, nos momentos registados. As outras duas fotografias relacionam-se mais intimamente com a instalação e representam uma leitura momentânea da realidade do autor: um “tropicalismo deslocado” baseado na idéia de que o brasileiro pode ter na natureza uma possível forma de originalidade expressiva, sendo desnecessário copiar formas e padrões estéticos de outras culturas - padrões estes, que não representam a sensibilidade deste povo e nação.

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por Marcelo Duarte de Souza


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Roberta Medina por Bruno Esteves

Rock in Rio

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Catorze anos depois, o Rock in Rio já faz parte da vida da cidade de Lisboa, sendo percursor da “invasão” da cidade por brasileiros. Falámos com Roberta Medina para saber um pouco mais sobre este festival.


Bica: O RiR estreou-se em Lisboa em 2004, quais são as grandes diferenças entre o primeiro e o actual RiR? Há 14 anos que marcamos presença em Portugal e o grande desafio a que nos propomos é, a cada edição, fazer mais e melhor. “Inovar” é a palavra de ordem para a nossa equipa. Desde 2004 muita coisa mudou e, esta edição, a nossa proposta foi precisamente oferecer tudo novo. Costumava dizer que quem achava que conhecia a Cidade do Rock tinha que voltar este ano, porque tudo ia ser diferente e a verdade é que ao longo dos quatro dias do evento o público constatou isso mesmo e o desafio foi cumprido. Oferecemos mais horas de entretenimento, abrindo o recinto mais cedo – das 12h00 às 02h00 – e apostámos nas novas indústrias do entretenimento em crescimento e naquilo que o nosso público procura, oferecendo um quarteirão que celebrou a cultura pop e os seus principais ícones, numa área de 4.000 m2 onde conviviam conteúdos de música, dança, cinema, arte e gaming. Apostámos também na área do digital com o Super Bock Digital Stage; no gaming com a primeira arena de gaming a integrar um festival - Worten Game Ring; nas maiores festas da atualidade que trouxemos para o novo Music Valley, o palco non stop da Cidade do Rock; no Dino Parque da Lourinhã com atividades para toda a família; e ainda na gastronomia com o Time Out Market Rock in Rio. Para além disso, também inovámos nas estruturas e cenografias de alguns palcos, como é o caso do próprio Palco Mundo, e oferecemos ainda uma EDP Rock Street exclusivamente dedicada ao continente africano, não deixando de parte o “mini festival” de dança que a Cidade do Rock acolhe com dança presente em todo o recinto e liderada pelo palco Yorn Street Dance. Estas são apenas algumas das apostas ganhas que destacamos esta edição, sendo que há muito mais a vir por aí.

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A produção do Rock in Rio-Lisboa é feita maioritariamente por brasileiros, ou recorrem mais a staff português? A nossa estrutura é composta por uma equipa fixa, que conta com cerca de 40 pessoas - entre Portugal e o Brasil. Inicialmente, esta era composta maioritariamente por brasileiros. No entanto, depois da primeira edição em Portugal, a equipa foi crescendo com vários elementos portugueses e, hoje em dia, cerca de metade da equipa é portuguesa e são vários os portugueses em cargos de coordenação.

Em época de Rock in Rio, ao longo dos meses, e à medida que o evento se aproxima, a equipa vai crescendo, chegando aos 8 mil credenciados em dias de evento, que é o número de pessoas que contribuem para a Cidade do Rock funcionar. Qual o concerto que mais a surpreendeu no Rock in Rio-Lisboa? E qual o músico que teve mais gosto em trazer aqui? É muito difícil para mim ver concertos em dias de evento. No entanto, gosto sempre de espreitar o concerto dos Xutos & Pontapés pois é sempre um momento especial para mim. Este ano, com o momento de celebração ao Zé Pedro, foi ainda mais especial e bonito. Quanto ao músico que gostei de trazer… Confesso que fiquei muito contente por, finalmente, termos trazido Bruno Mars para o Parque da Bela Vista, uma vez que sou grande fã. É um show muito especial e foi absolutamente arrepiante ver a Cidade do Rock lotada, nessa noite, a cantar em uníssono. Portugal foi inundado por festivais, como definiria em poucas palavras o RiR para se distinguir de todos os outros? Cada evento tem a sua identidade e uma proposta distinta, tendo em conta o seu público-alvo. O Rock in Rio é cada vez mais um verdadeiro parque temático da música, sendo a nossa proposta trazer o melhor do entretenimento para dentro da Cidade do Rock, nunca esquecendo que a música, como linguagem universal, é o elo de ligação de todo o evento. Mas a verdade é que o mercado do entretenimento tem evoluído ano após ano, e como um evento para toda a família apostamos naquilo que verdadeiramente diverte o nosso público. Esta oferta tão abrangente que o público encontra dentro da Cidade do Rock, aliada à qualidade do evento que entregamos (desde as infraestruturas, ao cartaz, ao elevado número de atividades e experiências que oferecemos) é o que faz do Rock in Rio tão único e especial. Além disso, e enquanto plataforma de comunicação, é um evento que permite aproximar determinados universos e linguagens (como o digital e o gaming) de públicos que, numa primeira instância, se poderia pensar não serem o target e que aqui podem ter um contacto mais direto com esses mundos. A componente de sustentabilidade sempre esteve no RiR, bem expressa no slogan “Por um mundo melhor”, pode citar algumas das medidas tomadas pelo Rock in Rio neste sentido?


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O Rock in Rio tem o propósito de unir as pessoas e proporcionar experiências diferenciadoras, sempre com o foco em contribuir para um mundo melhor. Por isso mesmo acreditamos que, mais do que um evento de música, o Rock in Rio é um evento responsável e sustentável, com poder de mobilização e consciencialização. Foi em 2001, quando lançámos o projeto “Por um Mundo Melhor”, que assumimos o compromisso de consciencializar as pessoas para o facto de pequenas atitudes no dia-adia serem o caminho para fazer do mundo um lugar melhor para todos. Em 2013 este compromisso fez do Rock in Rio o único festival certificado nacionalmente com a norma ISO 20121 - Eventos Sustentáveis.

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Esta edição, elevámos o grau de exigência e trouxemos novas práticas sustentáveis para dentro do evento, além de darmos continuidade a outras. Continuámos a implementar um plano de gestão de resíduos rigoroso, em parceira com a Sociedade Ponto Verde, a Valorsul e a Câmara Municipal de Lisboa; continuámos também o cálculo da pegada carbónica; desenhámos um vasto plano de mobilidade sustentável, com número recorde de operadores e abrangência nacional; montámos um plano de acessibilidade em parceria com a Santa Casa da Misericórdia; e adotámos, pela primeira vez, copos reutilizáveis com o lançamento de uma coleção exclusiva Rock in Rio-Lisboa, colecionável. Além destas medidas, lançámos o projeto ESTÁ TUDO CONECTADO, uma iniciativa de mobilização cívica e promoção da cidadania ambiental desenvolvido em parceria com a Liga para a Protecção da Natureza (LPN). Este projeto abriga uma plataforma agregadora de conteúdos (www.estatudoconectado. pt) através da qual é possível obter informação sobre diversos projetos e iniciativas nacionais dedicados à conservação e restauração florestal (desde campanhas de sensibilização, a ações de prevenção contra os incêndios ou de preservação das florestas) além de um leilão de artigos doados e guitarras autografadas por artistas que atuaram na 8.ª edição do Rock in Rio-Lisboa. Neste mesmo leilão também se encontram três guitarras clássicas construídas pela APC – Instrumentos Musicais através da madeira de árvores queimadas nos incêndios de Braga de 2017. O valor angariado será aplicado ao projeto da LPN para a conservação e restauração florestal, com o apoio do FSC Portugal. E sendo a música o elo de tudo no Rock in Rio, Agir, Carolina Deslandes e Diogo Piçarra juntaram-se em estúdio pela primeira vez e compuseram o tema “RESPIRAR”, dedicado ao projeto ESTÁ TUDO CONECTADO e que fala sobre a relevância e o papel da flores-

ta. Esta canção está disponível em todas as plataformas digitais e as vendas da mesma revertem igualmente para o projeto da LPN. O perfil do público mudou desde a primeira edição? Acha que há uma mudança no público do RiR decorrente da nova vaga de emigração do Brasil para Portugal? O foco do Rock in Rio desde a sua criação, em 1985, sempre foi unir as pessoas através de uma linguagem universal - que é a música - e isso nunca vai mudar. O nosso público é mainstream, maioritariamente português, sendo que a comunidade brasileira residente no país também acompanha a edição lisboeta desde sempre. E é muito gratificante promover este encontro de culturas. Este ano tivemos, sim, maior afluência de público estrangeiro, sobretudo Europa, uma vez que a nossa venda internacional duplicou face à última edição, representando os fãs internacionais cerca de 17 mil pessoas que vieram principalmente de Espanha, UK, Itália, Alemanha, Irlanda, entre outros países. Este é um número muito positivo para nós uma vez que, dado o boom da cidade de Lisboa, este ano reforçámos a comunicação no exterior, e esse investimento refletiu-se neste aumento. Conhece bem Portugal, qual a sua ideia do país hoje em dia? Comparando com o Portugal que conheci quando cheguei aqui há 15 anos, hoje é um país muito mais internacional, mais moderno, mais otimista. A maior diferença que percebo, e que me parece a mais importante, é ver uma enorme mudança de mentalidade, abandonando o “vai se andando...” pelo “está tudo bem!”, que reflete a liberdade de estar bem independente de como e de como os outros estão e a confiança no futuro.


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Ensaio Fotogrรกfico Por Fernando Carqueja


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Álvaro Covões Um criador de valor

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por João Moreira

Aos 14 anos já era financeiramente independente com o dinheiro que ganhava a explorar o bar do Coliseu dos Recreios, propriedade da família. Quando chegou a altura de entrar na faculdade, optou por gestão, contrariando a vontade familiar duma opção por medicina. Talvez por isso só tenha comunicado que frequentava a Universidade no segundo ano do curso. Foi por essa altura, que organizou o primeiro espectáculo “à séria”, como gosta de dizer, no Coliseu, é claro, e logo com Amália. Catapultou-a para um reconhecimento nacional que faltava e envergonhava o país e de que ainda hoje fala com orgulho – “Ela merecia.” O bichinho da organização de espectáculos ao vivo ficou-lhe para sempre, mas ainda antes de fundar a Música no Coração com Luís Montez, aprendeu a gerir o dinheiro dos outros nas salas de mercados, numa época em que a Bolsa ainda era o El Dorado de uma minoria. Depois seguiu definitivamente a tradição familiar do mundo do espectáculo, para nunca mais a abandonar. Álvaro Covões, fundador da Everything is New, que criou depois de abandonar a parceria com Luís Montez, é o rosto do mais internacional dos festivais portugueses, o Alive, que deve o nome à música homónima dos Pearl Jam, os cabeça de cartaz da edição deste ano. Recebe-nos no Restelo, na sede da empresa, numa sala decorada com fotografias dos concertos que tem organizado: de Leonard Cohen a Metallica, de Ben Harper a Pearl Jam, de Beyoncé a Noel Gallagher. O mote da conversa é a 12ª edição do NOS Alive, esgotado há meses, à semelhança do que acontece desde 2016. Mas com Álvaro Covões o Alive é mesmo só o mote, porque a conversa estender-se-á pela ausência de política cultural de todos os governos desde o 25 de Abril, a má gestão dos equipamentos culturais do Estado e o orgulho de ser português.

Hugo Macedo

Qual é o segredo que permitiu transformar o NOS Alive no mais icónicos dos festivais urbanos, que esgota mal os bilhetes são colocados à venda? O segredo é sempre muito trabalho. Quando lançámos o projecto, em 2007, dissemos ao que vínhamos. Queríamos fazer um grande festival de referência internacional e pôr Portugal no mapa. Conseguimos. Mas não se pense que é carregar no botão e esperar que as coisas aconteçam. Tem de se trabalhar muito e, no fim da linha, ter aquela estrelinha, aquela pontinha de sorte para fazer a diferença. Se ouvires o que dissemos do festival quando o lançámos é exactamente o que está a acontecer.

E atingiram um sucesso internacional num espaço relativamente curto de tempo, em 12 anos. Isso aconteceu, porque ao contrário dos grandes festivais do resto do mundo que sempre foram muito ligados ao turismo de natureza, como Glastenbury, por exemplo, o NOS Alive sempre se afirmou como um festival assumidamente urbano. Antecipámos um pouco o movimento turístico que hoje se verifica e em que o turismo em cidades passou a ser muito mais relevante do que era. Exceptuando as cidades tradicionais como Paris, Londres, Nova Iorque e Roma, não existia o hábito das pessoas viajarem para ir para Lisboa, para o Porto, para Madrid. Como nós nos antecipámos a essa transformação no perfil turístico, conseguimos criar um conteúdo relevante e passámos a vender o destino Lisboa como região de turismo. Por outro lado, ao contrário dos outros festivais, e volto ao exemplo de Glastenbury que é um festival que começa às 11h e acaba à meia noite e é só festival e mais nada, nós começámos a vender uma experiência. Nós somos mais do que um festival, somos um destino turístico, neste caso Lisboa, em que de manhã podes ir surfar ou ir à praia, à hora de almoço podes experimentar a


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nossa gastronomia e à tarde conhecer o nosso património, as nossas cidades: Sintra, Cascais, Lisboa, Oeiras. A música só é uma preocupação a partir das 17h e os mais afoitos ainda podem ir para a noite de Lisboa. Portanto, nós criámos um produto que era precisamente o contrário dos festivais que aconteciam no resto do mundo na época.

Essa antecipação do movimento turístico foi pensada no projecto inicial? Foi. E foi algo que descobri por uma fatalidade. Há alguns anos houve um acidente num festival, não interessa qual, em que morreu um conjunto de pessoas e 50% dessas pessoas eram estrangeiras e isso chamou-me muito a atenção. Percebi que os festivais são um pólo catalisador, um conteúdo importante para chamar pessoas de outros países. Fruto da minha experiência, porque já organizo festivais desde 95, desde que se iniciou esta nova era dos festivais, sabia que por mais que nos esforçássemos nunca conseguiríamos vender os bilhetes todos. Esgotar um festival era algo impensável, até se comentava que num festival cabia sempre mais um, o que não é verdade, porque um festival, como uma sala de espectáculos, tem uma lotação. Percebemos que o que faltava para vender os bilhetes todos era chamar público de fora, e então investimos muito noutros mercados. E foi isso que nos fez começar a esgotar. Começámos a esgotar primeiro um dia com muita antecipação, o que não era costume, depois dois dias e nos últimos três anos, o festival todo. A 5 semanas do festival já não havia bilhetes para dia nenhum. Em três dias já tinhas um dia esgotado!

Essa incrível adesão do público devese ao cartaz? Exactamente. Nós temos uma assinatura muito arrojada, que nos dá ânimo para trabalhar, que é “o melhor cartaz de sempre”. E, portanto, se dizemos isto, temos mesmo de nos esforçar para o conseguir. E não é fácil porque não depende só da vontade e do trabalho, também depende da logística dos próprios artistas. Por exemplo, os Pearl Jam trazem 13 camiões TIR que têm de cá chegar por estrada, por isso estamos sempre dependentes da logística, por isso ser tão importante marcar o festival dentro do roteiro dos grandes festivais da Europa.

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Portugal passou a entrar no roteiro dos grandes artistas internacionais, o que até há bem pouco tempo não acontecia. Isto é um país longínquo e todos os grandes

espectáculos trazem equipamento por estrada. Uma pessoa que se dedique a olhar para a rede rodoviária da Europa vai perceber que a partir de Barcelona todas as cidades distam 100-150Km umas das outras e nós estamos a 600Km de Madrid e 1200Km de Barcelona. Portanto, não é a mesma coisa. E os artistas quando estão na estrada estão com 200-300 pessoas e 20-30 camiões. Portanto, têm de rentabilizar.

Os Peral Jam regressam ao Nos Alive depois do sucesso do concerto de 2007, na primeira edição do festival, e isso tem sido recorrente com diversas bandas. Fica a ideia de que os artistas acabam por adorar vir a Portugal e que quando repetem, o fazem com certo gosto. Isto é verdade ou é mais uma espécie de orgulhosinho nacional? Essa é uma pergunta muito pertinente que tem a ver com um sector muito importante que é o sector cultural. A nós, que trabalhamos nesta área dos concertos de música ao vivo em Portugal, foi-nos exigido um esforço gigante para conseguirmos entrar no mercado, porque no centro da Europa, em países como a Alemanha, França e Espanha, que são países ricos e com muita população, os artistas iam porque se vendiam discos, porque eram mercados importantes. Portugal é um país pequeno e não tinha relevância e, portanto, para conseguirmos que os artistas viessem, tínhamos de ser credíveis. Credíveis nos pagamentos, credíveis na garantia de que os espectáculos teriam público e de que os profissionais que neles trabalhariam seriam de 1ª linha, credíveis na organização da própria estada, garantindo que o tempo aqui passado seria óptimo. Nós tivemos de ser sempre melhores do que os outros, mas conseguimos, e temos uma indústria de primeira água. O conjunto de pessoas que trabalham nisto há muitos anos são profissionais reconhecidos internacionalmente. Tivemos a necessidade de ser melhores do que os outros porque senão não éramos levados a sério. Portanto, este trabalho que tem 20-30 anos, levado a cabo por todas as pessoas ligadas à área, fez com que atingíssemos um patamar de excelência, e hoje permite que os profissionais portugueses sejam muito requisitados e muito queridos lá fora. Por outro lado, é importante realçar o papel dos promotores e empresários que sempre acreditaram nisto...

Qual foi o 1º concerto que organizaste? Já não me lembro. Se calhar quando andava no liceu, mas concerto à séria, já estava na faculdade, e foi quando levámos a Amália ao Coliseu em 85.


Exactamente. Toda a gente dizia que a Amália estava acabada e de repente lembro-me que fizemos uma conferência de imprensa e os jornalistas descobriram que Amália era a nossa artista mais internacional. Ficou para a história, porque ninguém acreditava naquilo, mas nós acreditámos. Na altura tinha uma pequena empresa e acreditámos, fomos para a frente, e foi um sucesso incrível. Trabalharam pessoas bem interessantes connosco, o Armando Carvalheda, que está na Antena 1, e a Teresa Guilherme que nos fez a assessoria de comunicação. Lembro-me que ela teve a ideia brilhante de fazermos a conferência de imprensa em casa da Amália, e, de repente, todos escreviam que a Amália era a nossa grande artista internacional. Durante a conferência, as perguntas eram do tipo: - D. Amália, quando vai à Holanda, canta para os portugueses que lá vivem, não é? - Eu, quando vou à Holanda, canto para os Holandeses. - Estou a ver que a D. Amália foi quatro vezes à Holanda. Não há assim tantos emigrantes por lá. - Oh menino, já lhe disse que canto para Holandeses. - A D. Amália vai duas vezes por ano ao Japão, mas não há portugueses no Japão. - Oh menino, eu estou farta de lhe dizer que eu canto para os locais. Foi nessa conferência de imprensa que se deu o click, e, de repente, a Amália voltou à ribalta. Hoje estou absolutamente convencido, porque fiz parte disso com outras pessoas, a Teresa Guilherme, o Armando Carvalheda e o meu pai, de que o fado hoje é o que é por causa daquele concerto.

Foi esse o momento de renascimento do fado? Não tenho dúvida nenhuma. Agora, é evidente que a gente vive num país em que as políticas culturais falharam.

Eu penso que não existem sequer. Existem (diz com um esgar de desagrado no rosto). As políticas existem, mas são erradas. Nós temos teatros públicos, temos programadores, mas foram incapazes de criar públicos. Por isso, falharam completamente. As únicas áreas culturais que vingaram, e que hoje têm pessoas com reconhecimento internacional, foram as que não fizeram parte das políticas públicas: o fado e a arte urbana. São as únicas, não temos outras. Não temos um pianista de topo mundial, um violinista, um violoncelista, uma cantora lírica...

Temos a Maria João Pires e o Burmester. Estou a falar das novas gerações. Hoje tens uma geração de pessoas jovens, a Marisa, a Carminho, a Ana Moura, a Raquel Tavares, o Zambujo, a Gisela João, tens o Bordalo, tens o Vhils, a Joana Vasconcelos. As áreas em que o Estado não interveio, são as que se afirmaram internacionalmente.

Achas que o cinema, o teatro, as artes performativas não têm público? Não podemos ser injustos. Não digo que não tenham público, mas a verdade é que não há hábitos culturais, e a criação desses hábitos é um papel do Estado. Cabe ao Estado dar uma boa educação artística nas escolas, ponto. Os meus filhos nem a escala musical fixaram, e eu às vezes interrogo-me porque é que existem aulas de educação musical se as pessoas nem fixam a escala musical e o único instrumento com que se cruzam é a flauta de bisel.

E os ferrinhos... Não faz sentido nenhum. Nas áreas mais livres da influência do Estado, por exemplo, nos festivais, conseguimos criar grandes festivais que competem com os grandes festivais internacionais.

Como é que isso foi conseguido? Como é que de 2 ou 3 festivais de pequena dimensão, passaste para uma proliferação de festivais, muitos deles reconhecidos internacionalmente e cheios de público? Isso é a coisa mais fácil do mundo. Se vivesses num país em que não havia fastfood, nem pizza, e se decidisses investir numa rede de restaurantes deste tipo de comida, ficavas milionário, porque a fastfood é um fenómeno global. Quando estudei gestão de empresas, foi isso que aprendi, a necessidade de estudar os mercados e não apenas o nosso próprio mercado.

O mercado dos festivais existia, mas nós estávamos fora? Sim. Quando olhava para o calendário cultural de Madrid, Barcelona, Amesterdão, Roterdão, Berlim, Londres, Paris, todos os dias havia concertos, e olhava para Portugal e havia um concerto internacional de dois em dois meses, e depois chegávamos ao verão e era tudo.

Não teremos passado do oito para o oitenta? [79]

Concerto de que resultou um triplo álbum.


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Mas, no caso dos festivais e dos grandes concertos ao vivo, nota-se um crescimento. Conseguiram ultrapassar essa questão endémica. Estás enganado. Alguns de nós conseguimos ter dimensão, mas quando olhamos para o mercado percebemos que estamos a léguas de ser um país normal. Para exemplificar: dados do Instituto Nacional de Estatística de 2016 - venderam-se quatro milhões e novecentos mil bilhetes para espectáculos ao vivo, o que inclui tauromaquia, circo, bailado, ópera, teatro, concertos, festivais. Quatro milhões e novecentos bilhetes, o que significa que cada habitante compra 0,48 bilhete por ano de um espectáculo ao vivo, o que quer dizer que cada português gasta oito euros e meio por ano num espectáculo ao vivo. Oito euros e meio! Nem para dois maços de tabaco dá. Ou, se quiseres, é uma semana de cafés para quem beba dois,

três cafés por dia. Reduzindo ao absurdo, os portugueses gastam 52 vezes mais em cafés do que em espectáculos ao vivo. Claro que podemos ver isto pelo lado negativo e pensar que é (e é efectivamente) absolutamente inenarrável, mas também podemos ver pelo lado positivo e antecipar a oportunidade de crescimento de mercado. Eu, desde o início, sempre vi pelo prisma da oportunidade de negócio, mas consciente de que é preciso investir, acreditar, não desistir e ter alguma sorte. Foi o que aconteceu quando decidimos levar a Amália ao Coliseu. Depois, lá veio o Estado apoderar-se, passados dois anos, quando ela comemorou os 50 anos de carreira e foram para o Coliseu bater palmas. Mas foi muito bom para ela, porque ela merecia esse reconhecimento. Em Portugal, nem o reconhecimento dos nossos artistas acontece. O Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo e nós estamos sempre a duvidar, a dizer que o Messi é melhor. Isso na Argentina é impensável. Aliás, o futebol é um case study daquilo que se deve fazer na vida, que é apostar na formação. Nós temos os melhores jogadores do mundo porque, mais uma vez, a sociedade civil se organizou há uns 20-25 anos e começaram a nascer escolas e academias de futebol pelo país inteiro. A partir daí, cada escola foi definindo os incentivos que considerava justos: os melhores jogavam na equipa da escola e não pagavam; os clubes menores começaram a ir buscar esses jogadores e a colocá-los nas suas academias; os clubes grandes, da mesma forma, começaram a contratar os melhores desses clubes intermédios. E, com isso, conseguimos ter os melhores jogadores do mundo. Hoje temos jogadores e treinadores nos campeonatos mais competitivos. Se no ensino artístico fizéssemos isso, ia acontecer exactamente o mesmo, mas, infelizmente, não fazemos. Os Conservatórios clássicos são os mesmos desde o 25 de abril. Está tudo dito. A verdade é que, além das políticas culturais falhadas, o Estado apoderou-se dos equipamentos e, sem querer, grande parte deles estão muito vedados à livre iniciativa. Olhando para o país, vemos que quase todos os equipamentos do Estado têm programação própria, logo com muito pouco espaço para a livre iniciativa e para a criação de públicos. Eu tenho uma discussão muito antiga acerca da Casa da Música, e sei que eles ficam muito zangados comigo, mas a verdade é que a Casa da Música é a sala de ensaios mais cara do mundo! Somos um país muito rico! Apesar da Casa da Música ter uma sala de ensaios para orquestra, a orquestra ensaia na sala principal, na Sala Suggia. Quer isto dizer que a Sala Suggia só está disponível para espectáculos, se o espectáculo puder ser montado a partir

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De todo. Hoje estamos numa situação normal, mas acho que ainda temos uma capacidade de crescimento brutal. Desde logo, porque os portugueses ainda têm um baixo poder de compra que esperamos todos que possa aumentar; depois, porque acredito que os políticos na sua totalidade vão ser honestos consigo próprios e vão disponibilizar os acessos aos espectáculos culturais com IVA reduzido. A média de IVA cobrado na Europa nos espectáculos ao vivo é 5-6% e nós estamos a 13%. As pessoas têm de ter a noção de que por cada euro que pagam por bilhete estão a dar 15 cêntimos ao Estado. É uma portagem! Os portugueses para irem ver um espectáculo têm de pagar portagens, e não faz sentido, principalmente num país com baixo poder de compra e com os hábitos culturais mais baixos da Europa. A Comissão Europeia fez um estudo em 2013 sobre os hábitos culturais nos 27 países, e o resultado é uma vergonha nacional!!! Somos o último dos 27 na leitura, somos o último dos 27 na assistência a concertos, somos o último dos 27 na assistência a espectáculos de teatro, somos o último dos 27 na assistência a espectáculos de ópera e bailado. Segundo o estudo, nos últimos 12 meses só 19% de portugueses assistiram a um espectáculo, 13% foram ao teatro, 8% assistiram a um espectáculo de ópera ou ballet e só 40% leu pelo menos um livro. Conclusão, não havendo hábitos culturais não se lêem revistas, nem se lêem jornais nem livros, mas infelizmente a nossa comunicação social ainda não percebeu isso. Neste momento, tenho por hábito ver os telejornais mais tarde, porque assim vou ver o que quero, e começo sempre pelo fim para ver as poucas notícias de cultura que passam, e ultimamente com o Mundial e a crise no Sporting, não passam nada. Volto a insistir: não há hábitos culturais.


das três e meia da tarde, o que na maioria dos casos é impossível. Portanto, nós, um país com défice de espectadores, com défice de espectáculos ao vivo, ainda se dá ao luxo, em equipamentos que foram construídos com dinheiros públicos e que são sustentados com dinheiros públicos, de fechar a sala para ensaios ao invés de a abrir para espectáculos para fruição dos portugueses. Coisa estranhíssima! São estas as políticas culturais públicas. E repara que eu gosto da Casa da Música, de lá trabalhar, e acho que eles têm feito um trabalho fantástico, mas depois têm isto que não se percebe. Uma vez explicaram-me que é por causa do som, da acústica. O que é que isso interessa? Eu nasci num teatro e sempre ouvi a minha família dizer que os teatros são para trabalhar todos os dias, são para ter público todos os dias, seja dia de Natal, seja dia de Páscoa, seja dia de Ano Novo.

Noto no teu discurso um total desencanto com as políticas públicas contrabalançado com um enorme optimismo em relação ao futuro do sector cultural do nosso país. Porque acredito que se podem criar hábitos culturais. Quando me dei ao trabalho de olhar um bocadinho melhor para os números da cultura em Portugal, cheguei à conclusão que cada português vai ao museu de dois em dois anos. Portanto, nós temos aqui um problema muito sério, temos hábitos culturais muito pobres e isso vai ter reflexos no futuro, vai implicar sermos um país menos competitivo. Ora os nossos políticos têm em mãos uma grande responsabilidade, por isso é que acredito piamente que as políticas culturais nos próximos dois anos vão ter de mudar.

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Em que sentido? Do ponto de vista da gestão cultural. Acho que o Estado não tem vocação comercial, e o modelo que me parece mais adequado é o das chamadas parcerias públicoprivadas, mas não como aquelas das autoestradas que só prejudicaram o país, falo das parcerias em que o privado é que corre o risco. Parcerias em que o Estado tem de tratar da parte científica, da curadoria e da preservação, e deixar o marketing e a parte comercial com os privados. E temos bons exemplos disso. Quando fizemos a exposição da Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda, ao contrário do que toda a gente vaticinava, “só” tivemos 235 000 visitantes num Palácio que tem habitualmente 40 000 por ano! Em cinco meses e meio, levámos 232 mil pessoas à Ajuda. Isso significa que com uma boa ligação entre o privado e o público as coisas podem funcionar. Se estivermos atentos, vemos que o Estado não

sabe promover, não há marketing, até porque no que toca à Cultura nunca há dinheiro para nada. Aliás, a questão do dinheiro é toda uma outra discussão, porque quem paga a DGPC é a Cultura e quem usufrui é o Turismo, porque 70% de quem usufrui dos nossos museus e do nosso património são turistas e, como as vendas estão a aumentar, quem encaixa as receitas são as Finanças para pagar as PPP´S. Quando voltamos ao princípio da linha, percebemos que a cultura gera dinheiro, mas isso não resulta em mais cultura. Logo, política cultural errada. O dinheiro gerado pela cultura tem de ser aplicado na cultura. Por isso é que eu sou um grande defensor da criação de um Ministério da Cultura e Turismo, obviamente com duas secretarias de estado, porque não se pode separar uma coisa da outra. Para que não aconteçam perversões como as que se passam no CCB, que é financiado pelo Ministério da Cultura, e a maior ocupação do grande auditório, ao invés de ser com eventos culturais, é com eventos corporativos! Não pode ser a Cultura a pagar o Turismo de Negócios, por mais importante que seja para o nosso país. É melhor pegar nesse dinheiro e investir em formação artística e na criação de hábitos culturais, e pôr o Turismo a pagar o funcionamento do CCB, porque é importante para o Turismo de Negócios. Não faz qualquer sentido ler o Relatório do CCB e ver que se realizaram 67 espectáculos em 2017 no grande auditório, quando um ano tem 365 dias. Não está errado, só não pode ser a Cultura a pagar. Por isso, pedir 1 % do OE para a Cultura é uma falácia, porque depende da forma como esse 1% é gasto. Com o dinheiro gerado pelas actividades culturais, pode-se fazer muito mais. A começar pela formação e pelo apoio à criação, sendo que, e continuo a insistir nisto, no fim da linha, para assistires à obra criada, pagas 13 % de IVA. Portanto, devolves o dinheiro. De que é que adianta apoiar a criação, se penalizas a fruição. Não faz sentido nenhum.

Regressemos ao NOS Alive. Quais são as tuas expectativas para esta edição? Acho o cartaz deste ano fantástico. Vou percorrendo os nomes e gostaria de ver tudo. Não falo só de Arctic Monkeys ou Pearl Jam, ou Queens of the Stone Age, ou The National, falo de Rag’n’Bone Man, Khalid, Future Islands, e por aí fora. Mas essa foi a estratégia que nos tornou diferentes dos outros festivais. Assumimos, desde o início, que não teríamos palcos secundários. Para nós todos os palcos são palcos principais. Quando olhas para o cartaz do Palco Sagres, nunca mais acaba de bons artistas: At The Drive-In, Yo La Tengo, Future Islands, e tantos outros. A expressão palco secundário é uma coisa


Uma das críticas comuns aos festivais é a de apostarem pouco nos artistas nacionais. Fui bombardeado muitas vezes com essa crítica e respondo sempre da mesma forma: a programação de um evento é feita com artistas que vêm fazer uma apresentação mais exclusiva. Os Pearl Jam não tocam em Portugal desde 2010 nem vão voltar nos próximos tempos. Portanto, é um concerto exclusivo. Com os artistas portugueses não consegues fazer apresentações exclusivas, porque eles têm de tocar em diversos lados. Conseguimos isso com os Humanos. As pessoas têm de perceber que ninguém vai dar 65 euros por um bilhete para ver uma banda que pode ver de borla no dia seguinte ou por 15 euros, daqui a um mês, noutro local qualquer, com uma estrutura de custos diferente. Mesmo assim, a nossa programação é 50 % portuguesa e as pessoas nem dão por isso.

E a ideia de levar comédia e fado para um festival? Surgiu da necessidade de termos de ser arrojados e diferentes dos outros festivais. Se percorreres os festivais internacionais, todos têm Arctic Monkeys ou The National ou qualquer dos outros grandes artistas. Então, era importante inovar, e lembrámo-nos de trazer a comédia, o humor para o Alive. No início ninguém acreditou que funcionasse, nem os próprios artistas. E, afinal, os espectáculos estão sempre cheios. O que é que conseguimos com isso? Conseguimos criar um movimento que hoje influencia o que se faz no resto do país. Vais aos grandes eventos nacionais e internacionais e reparas que já misturam música com humor no mesmo palco. Com o fado, decidimos trazer a nossa música mais emblemática para um festival, e aproveitámos o facto da Rua EDP replicar edifícios que existem em Lisboa para instalar nela uma réplica do Clube do Fado, como costumo dizer na brincadeira, a primeira casa de fados itinerante do país, e por onde já passaram artistas como os Dead Combo,

Tiago Bettencourt, Raquel Tavares, António Zambujo, Jorge Palma, muitos com carreiras fora do mundo do fado, embora conectados com o fado de alguma forma.

Além do cartaz, quais são as grandes novidades deste ano? Nós habituámo-nos a surpreender o público. Por isso, todos os anos temos pequenos apontamentos. Quando fizemos 10 anos, decidimos acabar com o pouco pó que existia no recinto e colocámos uma relva artificial no terreno. As pessoas chegaram e ficaram espantadas. Eu até passei a dizer que somos o único festival da Europa onde se pode andar de pé descalço (risos). Temos fotos de crianças a andar descalças no recinto. Estamos sempre a tentar surpreender, e este ano, com o apoio de um patrocinador, vamos surpreender de novo. Mas prefiro não adiantar por agora.

Tem sido importante a estabilidade que existe na relação com os principais patrocinadores? Muito, porque eles são fundamentais para nós conseguirmos praticar os preços baixos que praticamos em relação aos restantes festivais europeus. Os patrocinadores é que nos ajudam, não só a praticar os preços que praticamos como a investir cada vez mais no festival. Um festival que vende os bilhetes todos, para investir mais, sem reflectir esse investimento no preço dos bilhetes, tem de arranjar patrocínios. De 2017 para 2018 aumentámos muito ligeiramente os bilhetes, porque sentimos necessidade de investir mais no cartaz e em infraestruturas. Como, por limitações de espaço, não podemos vender mais bilhetes, só temos uma forma de realizar estes investimentos, ir buscar mais receita. Este ano temos um patrocinador novo que, além de nos ajudar a investir mais dinheiro, também nos ajudou a ter maior visibilidade internacional: a Tezenis. Somos o primeiro festival em Portugal a ter uma colecção de roupas produzida por uma marca global. É a colecção Tezenis Nos Alive que está à venda no mundo inteiro. Temos corners nas lojas de todo o mundo, além de montras em todo o país e nas principais lojas de Madrid, Barcelona e Londres. Com esta parceria, estamos a promover não só o nosso festival como o nosso país. Como, nos últimos dois anos, somos a única marca portuguesa a fazer publicidade no metro de Londres. Queremos ir sempre mais longe, e, de facto, são mais os pedidos para comprar bilhetes de fora do país do que de cá. Cada vez temos mais gente a vir de propósito a Portugal para ver o festival. Este ano, por exemplo, vamos ter como convidado o diretor da Rolling Stone, portanto, estamos a vender o país. Acima de tudo, estamos a promover Portugal.

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que nos irrita, porque um palco secundário sugere um espaço de actuação para artistas menores. Não temos artistas menores. Quando muito, temos artistas que ainda não são conhecidos. Lembro o tempo em que tínhamos o Palco Blitz nos festivais, que era onde os artistas emergentes portugueses tinham uma oportunidade de tocar para um grande público. No NOS Alive também trabalhamos com artistas emergentes, o Coreto que tem uma programação de artistas da nova cena musical. Mas, para nós, são todos importantes.


Achas que essa percepção existe? Não. Acho que temos mais reconhecimento lá fora do que cá dentro, apesar de termos muita notoriedade cá dentro. É a história do Ronaldo e do Messi (risos).

Santos da casa não fazem milagres.

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É um problema cultural. De uma forma generalizada, o que é português e tem sucesso trata-se com desdém. A não ser que venha de fora. É mais importante uma Web Summit, do que um Nos Alive. Muitas vezes, desafio as pessoas que pensam desta maneira a tentarem comprar uma viagem de avião na Internet no fim de semana do Nos Alive e a tentarem comprar a mesma viagem no fim de semana de outros grandes eventos, ou a tentarem perceber o que se passa no alojamento em Lisboa durante o nosso fim de semana. É o que é. O que é que interessa? Mas há reconhecimento. Também não quero parecer injusto. Há um grande reconhecimento, desde logo, das pessoas que vão ao Nos Alive, mas a verdade é que lá fora esse reconhecimento é muito maior. Isso para mim é fantástico, porque promove o país, e isso é o mais importante. Nós vivemos num país fantástico. As pessoas não têm noção da capacidade dos portugueses. Por exemplo, já reparaste nos microfones das televisões que têm aquela esponja? Um corta-vento? As pessoas não sabem, mas aquilo é uma invenção portuguesa. Foi um engenheiro de som da RTP, que era um engenhocas (criou muita coisa, principalmente na área da mobilidade condicionada - cadeiras de rodas e aqueles elevadores para subir escadas) e que, no início dos anos 70, inventou os corta-vento para os microfones, porque lhe fez confusão alguém estar a fazer uma entrevista ou reportagem na rua ou num jogo de futebol e o vento entrar para ali dentro. Claro que não registou a patente e, hoje, toda a gente usa no mundo inteiro. Uma coisa tão simples que é global. Os portugueses são um povo genial que, infelizmente, nunca foi bem governado. Nós podíamos estar a viver muito melhor, se não estivéssemos a pagar juros, e estamos a pagar juros porque alguém gastou o que não devia, e não foi para investimento, foi um “fartar, vilanagem”. É uma pena.


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“Why can’t it be mine”? O dia em que os Pearl Jam tocaram só para mim. Passeio Marítimo de Algés, 13 e 14 de Julho de 2018.

e eu e, ok, mais uns milhares de almas que por ali andavam.

Quando os Pearl Jam subiram ao Palco NOS perante uma multidão espremida para os receber, confesso que me emocionei. E não, não pensem que foi aquele arrepio que nos percorre o corpo antes duma descarga de adrenalina. Emocionei-me mesmo. Uma emoção incontrolável com direito a uma ou duas daquelas irreprimíveis lágrimas que nos embaraçam. Uma emoção que nos chega com a concretização dum sonho, por um motivo ou outro, sempre adiado. Claro que assim é fácil, não é Eddie? Pegar numa alma fragilizada como a minha e levá-la para onde se quiser. Foi literalmente isso que aconteceu na noite em que os Pearl Jam tocaram só para mim. Sim, eu sei que estava por lá mais gente. Muita gente. Uma multidão. Mas não durante o concerto. Não a partir do momento em que se ouviram os primeiros acordes de “Low Light”, com Eddie Vedder em palco perguntando, mais tarde, num português encantadoramente estrangeirado – Está tudo béééémmmm? – A partir desse momento estive sozinha com eles. Eu, perdida em divagações mentais no Passeio Marítimo, eles perdidos em divagações musicais em cima do palco. Este foi o meu concerto, as minhas músicas, o meu alinhamento. E ai de quem disser o contrário.

Não sei quantos temas tocaram nem quanto tempo por ali estivemos juntos a partilhar o gosto comum pela genialidade musical, só sei que soube a pouco, apesar dos encores (cinco, ouvi depois) com direito a uma versão de “Imagine” de John Lennon e de “Comfortably Numb” dos Pink Floyd e a um “grand finale” com Jack White em palco para acompanhar o clássico de Neil Young “Rockin’in the free World”. Já estava farta de ler e ouvir que os Pearl Jam já são da casa, mas ouvir é uma coisa, sentir é outra. Melhor teria sido impossível!

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Da “Even Flow”, música que abriu o concerto que me perseguiu durante todos estes anos, às “Daughter” e “Jeremy”, passando pela arrebatadora “Rearviewmirror” e por “Black”, e com “Black” não me venham dizer que este concerto não foi só para mim, os Pearl Jam mostraram como envelhecem os génios – não envelhecendo, ponto. A voz e a energia são as mesmas que marcaram a minha infância e adolescência, a diferença, para melhor, foi tê-los ali à mão de semear, numa união tão perfeita que durante as horas de concerto (quantas foram mesmo?) fomos um só. Eles

Acabo como devia ter começado, com uma confissão: sempre tive, com o NOS Alive, uma espécie de relação amor/ódio. Durante anos andámos de candeias às avessas. Ele seguindo o seu caminho de afirmação e crescimento, esgotando a cada edição e trazendo a Portugal cada vez mais e melhores bandas, e eu, mais atreita a espaços menos concorridos e consensuais, percorrendo outros festivais seus concorrentes. Não me arrependo. Sem este distanciamento talvez as expectativas fossem maiores e eu não me sentisse de alma lavada. Mas, também por isso, seria injusto não falar dos grandes concertos de Queens of the Stone Age, Jack White, Franz Ferdinand, Yo la Tengo, Chvrches, Two Door Cinema Club, e, sobretudo, do extraordinário concerto que me fez fazer as pazes definitivas com os The National. Mas de que vale tudo isso, se no dia 14 de Julho os Pearl Jam vieram a Algés tocar só para mim? Miss Bungle Hugo Macedo


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Vodafone Paredes de Coura

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Uma histรณria de amor


por João Moreira

Nuno Maia

Hugo Lima

“Do pinhão, que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha-mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros, os insectos, os roedores de toda a ordem a povoá-la. No seu solo abrigado e gordo nasceram as ervas, cuja semente bóia nos céus ou espera à tez dos pousios a vez de germinar. De permeio desabrocharam cardos, que são a flor da amargura, e a abrótea, a diabelha, o esfondílio, flores humildes, por isso mesmo troféus de vitória. Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana. Faltava o senhor, meio fidalgo, meio patriarca, à moda do tempo. Ora, certa manhã de Outono...”

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Aquilino Ribeiro, “A casa grande de Romarigães” (1957). Lisboa, Bertrand


Estavámos em 1993, num país rasgado a alcatrão pelos fundos comunitários que entravam aos magotes nos cofres do segundo governo maioritário de Cavaco Silva, mas em Paredes de Coura, interior do Alto Minho, ainda se perdia muito tempo a percorrer as estradas serpenteantes do Concelho que levavam à capital de Distrito – Viana do Castelo. Era um mundo à parte, como quase todo o interior do país. E era neste mundo à parte que viviam João Carvalho, José Barreiro, Filipe Lopes e Vítor Pereira, os quatro “miúdos” que sonharam um festival perdido nos confins do país, envolto num manto verde e com as frias águas do Coura como pano de fundo. Unia-os o gosto pela música e pela partilha das sonoridades que descobriam em LP’s que chegavam trazidos por amigos, em programas de rádio ou nas míticas crónicas musicais de Miguel Esteves Cardoso. Por essa altura, o grunge tomava conta da cena musical, os Pearl Jam lançavam Vs, o seu segundo álbum, e os Nirvana estouravam em vendas com In Utero, com mais de 15 milhões de discos vendidos. Mas o que é que Seattle tinha a ver com Paredes de Coura, além, eventualmente, na estética despojada do movimento grunge? Nada...e tudo. A verdade é que desde essa primeira noite, em 93, Paredes de Coura passou a ser o recanto “mítico e místico” do indie, a Seattle portuguesa, onde nasceu uma nova forma de “curtir” concertos, feita de partilha e de entrega, de gratidão, de generosidade e de amor. Um local aonde se regressa anualmente para ser feliz. Afinal de contas, como diz Miguel Esteves Cardoso, “só um mundo de amor pode durar a vida inteira”.

Como é que nasceu o Vodafone Paredes de Coura, essa bela história de amor? João Carvalho - Nasceu em 1991 e da forma mais simples. Nada foi muito planeado, pois a ideia não era fazer um grande festival, e acho que esta é a principal razão pela qual o festival vive e sobrevive com este carinho

todo. É efectivamente uma história de amor de um grupo de amigos que gostam muito uns dos outros e que gostam de estar juntos. Numa terra pequena no interior minhoto onde não havia muito para fazer, certa noite fomos ver um espectáculo de fado de Coimbra, que era a única coisa que havia para fazer. Era isso ou ir para os cafés. Esse evento servia como inauguração do espaço onde hoje se encontra o Palco Jazz. Esse local estava cheio de mato e tinha acabado de ser limpo pela Câmara, e para mostrar o recinto à população decidiram organizar o espectáculo de fados. Gostámos muito do espaço e sugeri que aquele local era ideal para se fazer um evento para a juventude. Todos acharam que era uma boa ideia e eu, impulsivo como sou, fui imediatamente perguntar ao Presidente da Câmara se havia alguma hipótese de fazermos ali alguma coisa para os jovens. Ele disse “Claro que sim! Quando é que vocês querem fazer isso?”. “Na próxima semana!” - respondi. Não foi na semana seguinte, mas foi passados dez dias. Portanto, o primeiro festival, bem, até é um abuso dar-lhe esta designação, pois não passou de uma noite de música, foi planeado e implementado em dez dias e custou a módica quantia de 180 contos, o que hoje não daria para pagar as águas da segurança (risos).

Como decidiram dar continuidade a essa noite de música? O primeiro público era um pouco sui generis. Apareceram as pessoas mais idosas de cadeirinha de praia, as pessoas da cultura popular e, também, as da cultura alternativa. Houve uma mescla muito engraçada de público. Foi uma surpresa para os habitantes de Paredes de Coura que, na altura, tinham uma mente bastante fechada, e alguns ficaram um bocado chocados com as performances de alguns artistas. Lembro-me, por exemplo, do concerto dos Tédio Boys que foi bastante provocador nas poses e na abordagem que fazia a quem assistia. Quando vieram os Kick out the Jams, um vizinho foi a casa dos meus pais dizer que lhe tinham ligado de Lisboa a informar que estavam a caminho umas camionetas de skinheads e que devíamos ter cuidado. Ou seja, inicialmente chocou um bocadinho e deu origem a alguns boatos e receios, mas rapidamente as pessoas perceberam que acabava tudo por ser bastante ordeiro. O facto é que, hoje, ninguém em Paredes de Coura passa sem o festival. Todos se identificam com ele e todos anseiam que cheguem aqueles dias do evento. O facto de serem pessoas da terra a organizar ajudou nesse processo de desmistificação? Claro que sim! Todos nos conheciam e sa-

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Ora certa manhã de Verão, depois de uma noite de fado organizada pela Câmara Municipal para inaugurar um espaço conquistado à floresta, um grupo de miúdos decidiu revolucionar a vida da sua terra, e em dez dias montou o festival que haveria de mudar para sempre a forma de ouvir, ver e sentir a música em Portugal. Pode parecer romanceado, mas foi mesmo assim.


biam que éramos boas pessoas, mas é natural que inicialmente houvesse uma desconfiança. Paredes de Coura sempre sofreu bastante de isolamento.

… mas esse isolamento também contribuiu para o festival ser o que é. Exactamente! E também para sabermos receber. Estávamos tão pouco habituados a receber que, quando as pessoas começaram a chegar, foram todos muito simpáticos. As pessoas de Paredes de Coura recebem de uma forma ainda mais amável do que a tradicional forma minhota. Somos efectivamente genuínos! Das coisas que mais me orgulho é passar essa simpatia da população local para as pessoas que vêm ao festival.

Nas primeiras edições qual foi a reacção da população local? Foi muito boa. Costumo contar o exemplo de um senhor que me disse “Oh Carvalho, isto está muito bem! Traz movimento à Vila, mas tenho lá uns tipos a acampar perto do meu café que espero não me tragam problemas.” Eram dois rapazes, um de cabelo pintado e outro com piercings nas orelhas e no nariz. Três dias depois veio ter novamente comigo: “Tenho que te pedir desculpa! A minha mulher caiu nas escadas, e não é que o sacana do piercing era médico?!?”. É um festival que se faz há 25 anos e nunca houve um incidente, nunca houve uma situação de pancada, nunca houve um assalto. Nada!

Por mais boa vontade que se tenha é normal que surjam conflitos e alguns exageros. Como conseguiram que isso nunca acontecesse? Fazemos aquilo a que chamo Marketing do Coração. Por vezes passo noites a falar com vinte ou trinta pessoas, e a mensagem que sempre passámos é que se trata de um festival de valores. Acredito que simpatia gera simpatia.

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As escolhas musicais também contribuem para isso? Sim, claro! Mas passa muito pela disciplina do público. Daí passar muito do meu tempo a falar com pessoas, dentro e fora do recinto. Há três anos vi um rapaz que, no meio da sua euforia e apesar de não ser uma pessoa agressiva, pegou num outdoor e preparavase para o deitar ao chão. Agarrei-o e disselhe “O que estás a fazer? O público de Paredes de Coura não faz isto!” Ele desfez-se em desculpas e não parava de dizer “Tens toda a razão. Coura não é isto!”. A forma de estar

e comunicar com o público é muito importante. O festival tem níveis de aceitação que oscilam entre os 80 e os 90%, o que é muito elevado para um evento desta natureza. Ainda assim, todos os anos queremos melhorar. Acho que o público reconhece o esforço e sente que não é tratado como clientela, mas sim como elementos de uma grande família. Sentem-se acarinhados.

Voltando aos primórdios do festival. Tiveram logo a noção que a primeira edição se iria repetir? Como a primeira edição correu bem, e foi divertida, começámos a pensar o que iríamos fazer no ano seguinte.

Mas ainda com o espírito de quem organiza uma festa de liceu. Sim. Apenas nos juntámos um mês antes. Pegámos no Blitz, que na altura era o jornal de referência de grupos e bandas de garagem, e, depois de fazer uma primeira selecção, entrávamos em contacto com as bandas e tentávamos contratá-las. Não era fácil porque tínhamos pouco dinheiro. Estamos a falar de uma altura em que não havia telemóveis e em que o período telefónico era muito caro. Telefonávamos de um café e havia sempre alguém que dizia “Está a cair! Já gastaste cinco períodos!”. Depois, quando o festival começou a crescer, demo-nos ao luxo de comprar um cartão de chamadas e íamos para uma cabine. Foi uma fase bonita, e é muito interessante perceber como o festival foi crescendo ao longo dos tempos. Na terceira edição, na qual já tínhamos um programa de dois dias e evoluído bastante em termos de produção, a Xana começou a tocar às 6 da manhã. Houve um atraso de 5 horas. Nos dias de hoje isso seria impensável. Mas estes episódios deram-nos experiência e fizeram com que o festival tivesse crescido de forma saudável e genuína. Nunca teve objectivos mercantilistas, mas sim de promoção da amizade e de Paredes de Coura. O festival ajudou a colocar Paredes de Coura no mapa, e isso servia como motivação e enchia-nos de orgulho. Olhando para trás, tenho saudades da fase em que fazíamos cola, de farinha e água, e pedíamos uma carrinha emprestada para ir colar cartazes. Basicamente, fomos crescendo num efeito de bola de neve. O Vodafone Paredes de Coura é um caso único de um evento sem interrupções que foi evoluindo sustentadamente ao longo dos tempos, não é? Sim, mas é preciso perceber que, ao longo destes anos, tivemos altos e baixos.

Podes dar-nos exemplos?


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O primeiro momento maravilhoso foi Rollins Band, porque era um nome muito sonante que até aí só conhecias da MTV e, de repente, está a tocar no teu quintal. Lembro-me de ver o concerto e chorar. Já chorei muitas vezes de emoção no festival. Ainda no ano passado aconteceu. Não nos podemos esquecer que é feito com todo o carinho do mundo, mas é no meio da montanha, e consegue ter projecção nacional e internacional. Não é fácil ter bandas como os Arcade Fire que, para estarem presentes, têm de abdicar de outros grandes festivais europeus.

costas, e tínhamos acabado de perder o patrocinador. E o que é que tu fazes? Arriscas tudo e montas uma edição com Arcade Fire, Foo Fighters, Nick Cave, The National. Ainda hoje é dos cartazes mais caros de sempre. Sentimos que, depois de 2004, com o festival quase ferido de morte porque a chuva fez com que fosse um desastre, o evento tinha sido beliscado na sua essência, pois quem por lá tinha passado não iria recomendar o festival. Essa super-produção de 2005 deu-nos um novo élan. Foi um novo impulso, embora não tenhamos ganho dinheiro, mas deu para cobrir os custos. (risos).

Como conseguiram que o Vodafone Paredes de Coura se tenha afirmado como uma grande referência no panorama da música?

Espero que tenha dado para ajudar nos prejuízos de 2004.

Não gosto de utilizar esta palavra, mas, basicamente, nunca nos prostituímos. Sempre tivemos os artistas que gostávamos e que era possível, obviamente. É evidente, não conseguimos contratar todos os que queríamos. Diria que o grande trunfo é termos seguido uma linha musical e nunca nos termos desviado dela. Houve momentos em que sofremos pressões e sugestões, mas nunca cedemos mais do que aquilo que achávamos razoável e do que fazia sentido encaixar no cartaz. Muitas vezes, recusando bandas que são fenómenos de bilheteira. Sempre fomos fiéis à linha que delineámos. Mesmo nos momentos em que, devido às más condições climatéricas, acabámos com enorme prejuízo e em que, naturalmente, pairava a hipótese do festival acabar.

Como conseguiram dar a volta a essas adversidades financeiras? Conseguimos, porque sempre tivemos o apoio da Câmara, que sempre viu o festival como uma mais-valia para a região e porque, nos momentos em que não pudemos contar com o apoio da autarquia, tivemos de ser nós a arriscar tudo. Em 2004, que foi um ano terrível, para conseguirmos pagar o que devíamos, penhorámos tudo o que tínhamos. Tudo o que era nosso e também pusemos em xeque o que era dos nossos pais.

E os vossos pais alinharam nisso? Acreditavam em nós. Por vezes um bocado cépticos, mas acabavam por nos apoiar incondicionalmente. É preciso apoiar os filhos (risos).

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Foi em 2004 que o festival esteve mais próximo de acabar? Sim, mas em 2005 fizemos uma edição apoteótica. O que podia ter acabado por ser um enorme disparate, pois estávamos na iminência de acabar, com um enorme prejuízo às

Não, nada disso! Deu, sim, para ganhar uma nova dimensão e uma nova alma. Isto é uma história feita de loucura e risco.

Falavas, há pouco, da questão dos patrocinadores. Eles têm sido fundamentais no crescimento do festival, e é algo que vocês têm mantido e que vos tem dado alguma estabilidade. Isso não abala a visão não mercantilista que vocês sempre defenderam? Sempre que tivemos um patrocinador que deixava de estar alinhado com a nossa visão e objectivos, as relações acabaram naturalmente por se deteriorar, e, deixando de haver alinhamento, tínhamos de ir à procura de uma empresa que acreditasse e se adaptasse ao nosso projecto. Se vires o exemplo actual do patrocínio da Vodafone, percebes que a activação da marca está perfeitamente alinhada com os valores, identidade e posicionamento do festival. Outro exemplo é a Super Bock, que faz bares de madeira especificamente para se enquadrarem em Paredes de Coura.

O facto de fazerem um festival para melómanos, e não para pessoas que procuram brindes, deve-se ao facto de vocês serem grandes apreciadores de música? Deve-se ao facto de sermos melómanos e termos bom gosto (risos), e sentido crítico. Em termos musicais, qual foi a actuação que mais te impactou positivamente? Arcade Fire em 2005. Foi absolutamente apoteótico. Posso vê-los novamente um milhão de vezes que acho que nunca será igual. O efeito surpresa foi enorme. Era uma banda que, na altura, ninguém conhecia e que conseguiu conquistar o público todo num concerto à tarde. Aquilo foi um furacão! Queens of the Stone Age, em 2003, também foi inacreditável. O palco tem 30 metros de frente e o suor do baterista, que estava no meio do palco, chegava a uma das extremidades.


Esperamos corresponder às melhores expectativas das pessoas. Temos imensas pessoas que acreditam em nós e que compraram bilhete há imensos meses, quando ainda não sabiam as bandas que iríamos ter. Queremos surpreender. Isto não é fácil porque, como costumo dizer, Paredes de Coura é o festival mais difícil de fazer no mundo. E acho que temos muito mérito, pois, além de o fazermos numa terra pequena, o que complica as coisas do ponto de vista das infra-estruturas e de levar as marcas, temos a desvantagem de não se realizar, nesse período, nenhum festival próximo, geograficamente. São realizados sete, mas na outra ponta da Europa. Isto dificulta a contratação de bandas, pois não têm hipótese de, na mesma altura, agendarem concertos perto. Isto limita muito em termos de escolhas, e acaba por ser um enorme desafio conseguir bons cartazes. É possível que os Arcade Fire tenham aceitado vir, em detrimento de outros festivais, pelas memórias do concerto, em 2005? Espero que sim. Acredito que os Arcade Fire estejam numa fase de voltar aos sítios onde foram felizes. Atingiram o estrelato, e são uma das maiores bandas do mundo, mas nota-se que não querem perder a identidade.

E que novidades desta edição podes antecipar? O objectivo é sempre crescer e melhorar. As pessoas vão ficar admiradas quando lá chegarem. Estamos a criar novas zonas de descanso e a melhorar todas as infra-estruturas de apoio. Estamos a investir muito em áreas de comodidade. Vamos, por exemplo, ter mais duas zonas de restauração dentro do recinto. Estamos, também, a apostar mais em projectos na Vila. Queremos cuidar o melhor possível do nosso público. Para que isto aconteça, é importante manter a ligação com os nossos patrocinadores, nomeadamente com a Vodafone, que percebeu a essência do festival e que nós também ajudamos a que encontrem o seu espaço. Andámos anos a, de alguma forma, mendigar o apoio de quem acreditasse no nosso projecto, e, não querendo ser arrogante, confesso que agora me dá algum gozo sermos recorrentemente abordados por marcas que há dez anos não acreditavam que éramos capazes de fazer o que tínhamos projectado.

Vai ser com certeza uma edição épica. Espero que as pessoas vejam concertos memoráveis e que criem novas e duradouras ligações. Quero que se divirtam e que levem boas recordações de Paredes de Coura, que é uma fonte de simpatia e fraternidade.

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Este ano Paredes de Coura volta a apresentar um cartaz de fazer inveja a qualquer festival. O que esperam desta edição?


Quando o Jazz regressa a casa por João Moreira

Karla Campos nasceu em Belém, a capital do Estado brasileiro do Pará, o mais a norte do Brasil, mas sente-se paulista, e fala com orgulho de um Sul que, segundo ela, “está a moralizar o Brasil”. Refere-se, é óbvio, à Operação Lava Jato, chefiada a partir de Curitiba pelo Juiz Sérgio Moro e que levou à prisão do ex-Presidente Lula da Silva, “um homem que tinha tudo para fazer do Brasil o melhor país do mundo e acabou a lambuzar-se de tal maneira que ficou igual aos que criticava”. A directora da Live Experiences, que organiza o Lisboa Dance Festival e o EDP CoolJazz, não tem papas na língua, seja para falar do rumo do seu Brasil, seja para explicar como vingou com tanto sucesso num mundo dominado pelos homens. Mas a conversa versará a principal novidade da 15ª Edição do EDP CoolJazz o regresso do festival a Cascais, que levará à Cidadela dois pesos pesados da cena musical mundial: David Byrne e Van Morrison.

Nasceu e viveu no Brasil, mas não tem sotaque... Não. Estou em Portugal desde os seis meses, andando cá e lá, mas foi aqui que cresci e fui criada. Por isso, o sotaque é português (risos).

Como é que uma mulher se afirma, com o sucesso óbvio que a Karla tem tido, num meio tão dominado pelos homens como o da organização de festivais, especialmente de Jazz e Electrónica? Este é um Mundo em que sempre sobressaíram os homens, mas onde existiram sempre mulheres que se afirmaram e realizaram projectos com sucesso. No meu caso, não nego que foi difícil, num meio que continua a ser dominado pelos homens, conseguir afirmarme.

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Continua a ser? Claro que sim. Não é por, agora, estarmos num momento bom, woman power, que as

Hugo Macedo

coisas mudam da noite para o dia. Há, sem dúvida, uma transformação bastante grande que torna mais fácil às mulheres afirmarem-se, mas ainda há um longo caminho a percorrer. E repare que eu não sou nada de separações, de homens para um lado e mulheres para outro, de maneira nenhuma, doume extremamente bem com homens. Aliás, tenho mais amigos homens do que mulheres. Mas acho que estamos numa fase de maior reconhecimento do papel feminino. No meu caso, como venho de uma família de mulheres, de women power, talvez me tenha sido mais fácil arriscar.

O tempo em que viveu em São Paulo também contribuiu para isso? Não tenho dúvida. Eu saí de casa com dezanove anos. Os meus pais também se casaram muito cedo, portanto, talvez haja aqui alguns genes (risos) que ajudaram à festa. O meu pai, vindo de uma família de militares e tendo sido aluno dos Pupilos do Exército, foi sempre uma pessoa que nunca subestimou ou desvalorizou as actividades ou a forma de estar das mulheres. Aliás, ele casou-se três vezes, portanto (risos)... Além disso, tem três filhas mulheres e dois homens. Por isso, acho que cresci num ambiente em que o papel da mulher era reconhecido. Quando decidi trabalhar neste meio, sendo mulher, sabia que seria difícil, mas ao fim de quinze anos, neste caso do EDP CoolJazz, acho que já percebem que efectivamente o festival faz sentido, tem espaço, é um formato único e que acrescenta valor àquilo que eu criei. Na eletrónica, também há muitos homens, mas também há muitas mulheres...

Cada vez mais, aliás. Cada vez mais.

E no jazz também. E no jazz também. O EDP CoolJazz não é um festival exclusivamente de jazz. Tem uma mistura de sonoridades e acompanha a evolução e a forma de estar na música. Os festivais nunca são específicos de um estilo musical, de um nicho, porque cada vez mais


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os músicos acabam por circular em vários estilos da música e os cartazes dos festivais reflectem isso mesmo. No caso do EDP CoolJazz, é um festival mais vocacionado para o jazz, o soul, o R&B, o funk, a música brasileira, porque a bossa nova e a música brasileira cruzam muito bem com o jazz e com o soul, não esquecendo a pop, que começou lá atrás e que inspira muitos artistas que estão hoje a tocar. E o exemplo disso é este ano a vinda do David Byrne, um artista que é difícil de rotular – ele está na pop, mas também está na new wave, mas também tem uma musicalidade muito tropical, tem muito de world music. Além disso, é um artista dedicado à arte em geral, não só à música, porque também é um performer, escritor, actor. É, de facto, um artista muito completo e este concerto é muito isso.

Sei que já assistiu ao concerto. Já vi, já vi. É um grande espectáculo. O David Byrne é um músico que eu adoro e que é um ícone, e desde que organizo o EDP CoolJazz que faz parte da minha lista, da minha set list, mas não tem havido oportunidade, ou porque não tem agenda, ou porque não tem conteúdo suficiente para fazer uma tournée, e, por isso, agora que ele, com este disco novo, está num momento tão especial da carreira, tê-lo por cá é um privilégio.

Vai ser um momento alto? Vai ser um momento alto. Eu diria que um momento alto em Portugal, com toda a modéstia. Um momento muito importante deste músico em Portugal e do EDP CoolJazz que celebra a décima quinta edição.

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Regressando a casa, a Cascais, onde começou. Exacto. Para mim é muito importante o cartaz do festival, é a base, mas o espaço onde decorre é igualmente importante. Nos festivais que organizo, o Lisboa Dance Festival e o EDP CoolJazz, o espaço é outro artista, porque o cenário em consonância com os artistas é o que faz o todo, é o que faz o espectáculo. Por isso, o espaço também é um artista. O EDP CoolJazz é um festival mais intimista, com mais proximidade das pessoas, e com a duração de um concerto, de uma hora e meia ou duas horas. Estamos ali concentrados a ver aquele concerto, a ver aquele artista naquele espaço, e não estamos a ser sugestionados para ir ver outra coisa qualquer. Este festival é focado para um artista de cada vez, não há simultaneidade. No início, havia só um concerto por noite. Depressa percebemos que era a mesma coisa que ir ao Coliseu ou ao CCB, o que era uma pena, porque acontecia no Verão, ao ar livre, em espaços belíssimos, na maioria Património Nacional. Então, decidimos fazer as pessoas permanecessem um bocadinho mais, acrescentando artistas, normalmente portugueses, que actuavam antes dos artistas principais, aquilo a que chamávamos primeira parte.

Mas, neste momento, a música portuguesa cresceu tanto, e estamos com uma qualidade e com uma popularidade tão grande, que custa muito dizer que o artista A faz a primeira parte do David Byrne. Não. Estamos a falar de dois concertos independentes que acontecem na mesma noite. Aliás, agora são três, porque, como abrimos as portas às 19h, temos, na zona de alimentação, um palco que se chama Cascais Jazz Sessions, onde diversos músicos nacionais tocam a partir das 20h. São trios de jazz portugueses que vão interpretar os seus originais ou standards de jazz. Por isso, entre as oito e as nove, nove e um quarto, as pessoas vão chegando, comendo, convivendo, com a oportunidade de ver, ao vivo, músicos portugueses a tocarem standards. Isso é muito importante para dar palco a esses talentos, muitos deles artistas que tocam em bandas de outros músicos portugueses, como da Luísa Sobral, da Ana Moura, mas que têm imenso valor, todos eles formados ou pelo Hot Club ou pela Escola Superior de Música. Só depois as pessoas se dirigem à sala principal, que é o espaço dos concertos do festival, o palco do EDP CoolJazz, onde no caso do dia 11 de Julho, vão assistir a um concerto da Sara Tavares, que estreia no festival e que foi uma escolha pessoal de David Byrne. Só por aí se percebe que o conceito de concerto principal e secundário deixa de fazer sentido, porque juntar Sara Tavares e David Byrne, na mesma noite, resulta numa explosão musical. Não tenho dúvida. Outro nome que, há muito tempo, queria trazer ao EDP CoolJazz é Van Morrison. O Van Morrison é um músico de excelência, incontornável no meio do jazz e do blues e que tem uma discografia gigante. Só no ano passado lançou dois discos e este ano já lançou mais um. Ele não faz muitos concertos fora de Inglaterra e, por isso, conseguir que viesse a Portugal, este ano, foi uma bênção. (Risos). É um ano com um grande cartaz. Além destes dois nomes incontornáveis, temos a Norah Jones, que já é quase residente do EDP CoolJazz, porque já veio noutras edições, e que regressa num momento em que acaba de lançar um novo disco produzido pelo Ronnie Scott, e depois aqueles outros concertos que eu gosto sempre de trazer para mostrar artistas que já estão a ser falados a nível mundial, como é o caso de Jessie Ware e de Jordan Rakei. A Jessie Ware é soul, com um bocadinho de disco, de funk e de dance, e o próprio Jordan Rakei também actua muito nesse registo. E temos o Salvador Sobral e muitos, muitos mais.

Voltemos a este regresso a Cascais. Este retorno a Cascais é um combustível que vai dar ainda mais power ao festival, desde logo, pelas Cascais Jazz Sessions, o tal warm up antes dos dois concertos no palco principal, mas, depois, porque alargámos a programação com o Cascais Lazy Sundays, que começa dia 1 de Julho e que estende o festival além das tradicionais sete noites,


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para as quais tem de se comprar um bilhete. Foi uma forma que encontrámos de permitir às pessoas que não vão aos concertos do EDP CoolJazz, no palco principal, poderem usufruir gratuitamente do espírito do festival. Portanto, durante os cinco Domingos de Julho, ao final da tarde, vamos ter uma série de gente conhecida, jornalistas, programadores, divulgadores e músicos a passar o som de que gostam: o Kalaf, o Vítor Belanciano, o João Tenreiro, a Mónica Mendes, o Davide Pinheiro. Portanto, o caminho é fazer, do mês de Julho, o mês do EDP CoolJazz. Neste momento, nós estamos com doze dias, mas o objectivo é chegar aos trintas e um (risos), e acho que vai ser possível, porque essa é a intenção da Câmara de Cascais ao receber o festival de volta. Vamos continuar a crescer, sem nunca perder este formato de intimidade, de proximidade, de exclusividade, de nunca haver concertos em simultâneo, que é o que torna o festival único.


A Barca dos Amantes Há dias, acordei em Ipanema. Abri as cortinas do quarto e lá estava o mar que nos separa à minha frente. Estamos quase sempre deste lado do Atlântico mas ali, em Ipanema, do lado de lá, temos maior certeza que também estamos em casa. Porque o Brasil sempre foi um pouco de nós. Ainda criança, via em família algumas novelas brasileiras que nos mostravam um certo Brasil, ousado e à frente da nossa realidade cinzenta e abafada. “Gabriela” ou “O Bem Amado”, marcaram a minha geração. Mas não só, nem sobretudo. Também muito jovem, li “O Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcellos, quase tudo do Jorge Amado, Erico Veríssimo, os “quadradinhos” com o Zé Carioca ou “A Turma da Mônica” e, sobretudo, ouvi tanta música brasileira, através dos meus tios e primos mais velhos. Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano, Maria Bethânia e tantos, tantos outros. Mais tarde, vieram outras leituras. Machado de Assis, João Ubaldo Ribeiro, a fabulosa escrita de Vinícius de Moraes ou de Carlos Drummond de Andrade, a descoberta mais recente de Rubem Fonseca… Isto não é um exercício de “name dropping”. Ilustra apenas a forma como o Brasil sempre esteve nas nossas vidas e como, na verdade, conhecemos bem o Brasil, provavelmente melhor que qualquer outro povo do mundo.

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Desde há cerca de 20 anos que, por razões profissionais – mas também já aconteceu ser em lazer – viajo frequentemente para o Brasil, para diferentes Estados e cidades e também, menos, pelo interior. E se, há 20 anos, percebi que a inversa não era verdadeira, que, ao contrário do que acontece com os portugueses em relação ao Brasil, a maioria dos brasileiros ignorava completamente a realidade portuguesa e manifestava um total desconhecimento sobre Portugal, esboçando apenas, timidamente, um esgar sobre “o Cabral” e invocando o “bacalhau” e uma suposta expressão idiomática da “terrinha”, um “ora, ora, pois, pois…” que nunca ouvi por cá, hoje a realidade já é bem diferente.

por André Serpa Soares

As coisas mudaram, e mudaram muito. Hoje, a perceção de Portugal no Brasil é muito diferente, para a maioria dos brasileiros das classes médias e altas Portugal é visto (e conhecido) como um país da Europa moderno e desenvolvido, socialmente estável, onde os brasileiros encontram as origens e os fundamentos do que poderiam ser, mas ainda não alcançaram. O potencial do Brasil é enorme, mas perdese numa gritante iniquidade social, que redunda em pobreza extrema e crime elevado, convivendo lado a lado com luxo, fausto, e qualidade de vida. Esta qualidade de vida, também, pela pródiga natureza, e pelo “jeito brasileiro” de ser, é quase irreplicável. O Brasil, diz o chavão, é um país de contrastes. E o chavão é verdadeiro. Há, no Brasil, do melhor do mundo. Mas também há do pior do mundo. O Brasil é enorme alegria, uma alegria que contrasta com as dores do Brasil e as disfarça. O Brasil é como o nosso irmão mais novo. Genial, louco, estouvado, alegre, festivo, com tudo para dar certo. Mas que ainda experimenta e procura o seu caminho e o seu lugar e ainda não “assentou”. Qualquer atitude de paternalismo de Portugal em relação ao Brasil será, ainda sim, deslocada. O Brasil é, de longe, a maior força da língua portuguesa, tem a maior pujança populacional, económica e cultural entre os países de língua portuguesa. E isso faz do Brasil, também, a nossa Pátria. Como Portugal é, tem de ser, a Pátria brasileira. Um oceano nos separa. Nele, portugueses e brasileiros devem navegar incessantemente, como Sérgio Godinho e Milton Nascimento cantaram, a barca dos amantes.

Ah, quanto eu queria navegar Pra sempre a Barca dos Amantes Onde o que eu sei deixei de ser Onde ao que eu vou não ia dantes


Bem-haja, António Prata por Graça Canto Moniz

Mas, afinal, o que distingue o cronista do comum dos mortais e o que explica tão penoso processo de criatividade? Será, talvez, a sua capacidade de escrever sobre qualquer tema - desde as “rotinas do dia”, passando pela mosca que passa a planar até à imagem dos amigos na praia ou dos amantes no café explorando o que nele há de menos óbvio, de uma forma caricata e graciosa. O Brasil, um dos temas deste número da Bica, foi descrito como o “país da crónica”. Basta pensar em nomes como Rubem Braga, Millôr Fernandes e, mais recentemente, António Prata. Acompanho há muito tempo as crónicas de Prata e regresso às mesmas sempre que posso. Por exemplo, é reconfortante saber que não sou apenas eu que, aproximandome da faixa etária dos 30, me considero “jovem demais para envelhecer” (28 de abril de 2018). Tal como Prata, também me considero

nova demais para ficar velha. Mas as crónicas que visito mais vezes são “Recordação” (5 de junho de 2013) e “Estiagem (16 de fevereiro de 2014). Na primeira, António Prata conta a história de um taxista que, durante uma curta viagem, relata a um passageiro as circunstâncias da sua vida amorosa: naquela data, não fosse a vida ter acontecido, faria 25 anos de casado. O maior lamento do taxista não é a separação em si mesma, algo que nunca é disputado pelo próprio, mas o facto de não ter uma fotografia da ex-mulher, “fazendo as coisas dela”, as “pequenas” coisas essas que, digo eu, verdadeiramente compõem uma pessoa, uma relação, e deveriam compor a memória que delas construímos. Volto com frequência a esta “Recordação” porque ela é, para mim, o relato mais delicioso daquele verso que Sérgio Godinho cantou, “a vida é feita de pequenos nada”, remixado pelo Gabriel o Pensador que acrescentou ao verso de Godinho, no seu Opus Magnum “Tas a ver”, “que a gente saboreia mas não dá valor”: “a vida é feita de pequenos nada/que a gente saboreia mas não dá valor”. Pois é. “Estiagem”, por seu turno, é o meu conforto quando, como Prata, sinto o “peito apertado” ao constatar que o meu país e o mundo em geral são lugares estranhos onde a esperança, como no amor de Paulo Mendes, morre a toda a hora, em toda a parte, e o cinismo grassa ou é a fonte da minha, da nossa, paz interior. Nesta crónica de 2014 António Prata termina confessando que, nestas alturas de dúvida, nestas emergências, recorre a Rubem Braga. No meu caso, em momentos de emergência, recorro a si, caro António, a estas e a outras das suas crónicas. Bem-haja.

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Escrever crónicas ou colunas de opinião regulares não é pera doce. João Pereira Coutinho, um dos grandes cronistas portugueses, descreveu o processo no seu livro “Vamos ao que interessa”: “Colunismo é doença. Para alguns, obsessiva doença. Não sou excepção. Os primeiros sintomas começam nas rotinas do dia: lemos, ouvimos, pensamos. Vivemos. E então surge um tema, um abusivo tema, que nos persegue como uma sombra de film noir. Tentamos tudo: fugir dela; enganá-la com distrações mundanas; adormecer depressa, acordar devagar. Mas a sombra continua. Ao nosso lado, para nosso desagrado. É hora de desistir: pegar na caneta e no papel – e escrever de uma vez por todas os contornos embaraçosos de semelhante assombração.”


Alface fora d’água Rolo de Carne e Maltesers por Marta Gonzaga

A primeira vez que viajei sozinha fui para Londres com uma amiga. Marquei quarto numa residência de estudantes, em Chelsea, que tinha protocolo com o ARCO, onde eu estudava na altura. A Inês ficou em casa de uma amiga portuguesa que vivia em Londres. A minha mãe pagou a viagem, a estadia e deu-me dinheiro para deslocações e refeições, mas nós queríamos gastar em mercados e lojas. De maneira que, de Lisboa, levámos rolos de carne. O resto comprámos nos supermercados.

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Fazer o rolo de carne e ligar para a residência de estudantes foi o meu planeamento. A Inês programou a ida a alguns museus e a compra de fosforeiras em prata para a coleção da sua mãe, de modo que corremos alguns mercados de antiguidades até cumprir a tarefa. Na minha falta de planeamento dei por falta do secador pelo que, em pleno Inverno, tinha de sair de cabelo molhado até ao Burger King mais próximo para usar o secador de mãos da casa de banho.


Foram muitos anos de ausência total de planeamento. Marcava as viagens, às vezes marcava o hotel e nada ou pouco mais. As pessoas andavam a olhar para o guia e eu a olhar para cima. Literalmente, porque cheguei a interromper amigos: “Olha que coisa linda ali à frente!! Não será o que procuras no mapa?”. É verdade que me falam de sítios nos locais por onde passei dos quais não faço a mínima ideia existirem ou sequer que seriam de visita ‘obrigatória’. Também me aconteceu ter de correr quase todos os hotéis de Barcelona — desde os de cinco estrelas aos não numeráveis — até, em desespero, conseguir arranjar um sítio onde dormir. Esse improviso estendia-se desde as marcações e direções aos gastos. Se fosse noutra moeda era mesmo até à última. Numa viagem a Nova York, em 2000, tivemos uma pequena amostra de como gastar tudo pode não ser a melhor opção. Quase não conseguimos embarcar porque não tínhamos dólares para uma taxa que se pagava na altura. Safámosnos graças à generosidade de um português que estava na fila e que se ofereceu para pagar por nós. Esse mesmo português que nos desapareceu no aeroporto em Lisboa quando fomos levantar dinheiro para lhe devolver o que nos tinha adiantado. Essa pequena experiência não serviu de emenda. Em 2006, percebi que, sobretudo quando se viaja com crianças, temos de manter “reservas”. Perdemos o cartão de cidadão da minha filha Maria e quase não conseguíamos embarcar em Roma, no voo de regresso a Lisboa. Se isso acontecesse estaríamos mesmo em apuros. Salvou-nos a escandaleira da nossa contestação. Os Italianos, também eles bastante salientes, não gostam do barulho dos outros e não estiveram para aturar o nosso drama, e, “como ela é igual a si e só pode mesmo ser sua filha” deixaram-nos seguir viagem. Duvido que hoje em dia funcionasse.

filha encheu a minha vida de listas na porta do frigorífico e se faço uma dieta ela inundanos de listas de receitas Paleo. E a nossa dieta passa a ser a a mais saborosa e diversificada do mundo. Para o Interrail as listas subiram um patamar e passaram a incluir folhas Excel. Custos, hotéis marcados com meses de antecedência, percursos, taxas municipais, cauções, marcações de comboios, supermercados e restaurantes glúten free, entre tantos outros detalhes que jamais me passariam pela cabeça. A capacidade que elas têm de planear é de tal qualidade que me deixa esmagada de admiração. Vinte dias depois da viagem pela Europa, a Maria sai de casa e vai estudar para San Sebastian. Serão quatro anos na Basque Culinary Center, um sonho tornado realidade para ela e para todos nós. Ainda assim sufoco com a ideia agora que a data se aproxima. Em tempos, quando era minúscula, a Maria deixava-me recados pela casa, assinalados por maltesers. Interrompia o meu trabalho com mensagens deliciosas para relembrar que tinha fome, que eu precisava de ir ao supermercado ou, mais tarde, para me explicar porque é que já era altura de a deixar sair à noite, ou de ir com as amigas a festivais de música. A Maria tem, agora, a idade que eu tinha quando saí do país sozinha, pela primeira vez. E eu preciso que ela me deixe uma lista e um planeamento detalhado de como vamos fazer para vivermos longe uma da outra porque, pela primeira vez na vida, o improviso me está a deixar sem chão.

Nisto a minha filha cresceu e saiu hoje para um Interrail com as amigas. Foram meses de reuniões e planeamentos. Uma das amigas — a Sara Vicário — é youtuber, portanto, também publicaram vídeos de algumas dessas reuniões. A Maria adora listas, sempre adorou. Eu recebo listas de compras, listas do que não me posso esquecer na mala, listas de roupa, lista de coisas a fazer. A minha

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Assim, de contratempo em contratempo, fui aprendendo algumas coisas e tornei-me mais previdente.


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Árvores de Lisboa por Ana Luísa Soares Ana Raquel Cunha

Árvore classificada pela IUCN (International Union for Conservation of Nature and Natural Resources) como uma espécie em perigo, enfrentando um risco de extinção na natureza. É nativa da Mata Atlântica (do Rio de Janeiro até ao sudeste de Minas Gerais, Brasil) e existia em abundância na época do Brasil colonial. Árvore de grande porte, esta espécie de madeira muito dura, de grande beleza e frutos saborosos, era muito apreciada pelo Imperador D. Pedro I (1768-1834) e pelo seu filho, Pedro II (1825-1891), que a instituiu como “oferta imperial”, enviando espécimes para vários jardins botânicos do mundo, entre os quais o de Sydney, na Austrália, onde continua a ser conhecida por Royal Tree. No final de 1889, com o advento da República no Brasil, e dada a identificação tão chegada ao anterior regime, “caiu em desgraça”. A sua

utilização na construção naval passou a ser intensiva, a sua presença em parques, jardins e ruas começou a desaparecer. Da família da Sapotaceae, atinge uma altura de 12 a 25 metros. Considerada uma árvore de grande beleza, é dotada de folhas enormes (50-60 cm), de nervuras marcadas e borda serrilhada; a folhagem jovem é prateado-dourada. As flores são pequenas e o seu fruto oval de cor amarela (5 x 2 cm). O sabor é agradável, doce e suculento. Um dos exemplares, existente em Lisboa, da árvore-do-Imperador (Chrysophyllum imperiale) encontra-se no Jardim Botânico do Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa e terá sido oferecido pelo imperador Pedro II ao seu grande amigo Conde de Ficalho, figura relevante da cultura portuguesa do século XIX e um dos principais impulsionadores da criação deste Jardim. Pode também conhecer esta espécie no Jardim Botânico Tropical e no Jardim do Palácio Burnay.

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Chrysophyllum imperiale (Linden ex K.Koch & Fintelm.) Benth. & Hook.f. (árvore-do-Imperador)

Paulo Forte


“Futuros de Lisboa” uma exposição do Museu de Lisboa

por Joana Sousa Monteiro*

Esquerda: Mercado Praça da Figueira, 1865-1949, Arquivo Municipal de Lisboa Direita: atual centro comercial Vasco da Gama

Tudo mudou na metafísica da consciência individual e social com o simulacro e a universalização da rede de todas as redes, a web, mas nada mudou nos stocks e nos fluxos que nos fazem entender a verdade como procura e as comunidades de conhecimento como essencialmente dialógicas. Jorge do Ó e Henrique Leitão, 2018, catálogo da exposição Futuros de Lisboa

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Inaugurou no passado dia 12 de julho no núcleo do Torreão Poente do Museu de Lisboa, situado na Praça do Comércio, a exposição temporária “Futuros de Lisboa”. Patente até 18 de novembro, esta exposição pluridisciplinar ocupa o piso 1 e também o piso térreo daquele edifício.


Desde há cerca de quinze anos que os museus de cidade têm vindo a mudar em número, abrangência temática e posicionamento na sociedade. Sobretudo na Europa, na América do Norte e do Sul, e ainda na Ásia, tem-se assistido ao aumento de museus de cidade, tanto de criação ex novo, como de renovação de muitos museus que estavam vocacionados para contar a história mais remota das suas cidades ou vilas. As expectativas referentes à atuação dos museus de cidade passaram a incluir a atenção ao passado recente e até ao tempo presente das sociedades urbanas, necessidade que tem acompanhado o próprio fenómeno do crescimento das cidades, que passaram a concentrar mais de metade da população mundial. Surgem novas problemáticas e novas oportunidades de inovação, por vezes de sinal contraditório e equilíbrio instável, como o aumento da poluição e as preocupações da sustentabilidade, ou a evolução para um maior cosmopolitismo e o risco de perda das identidades locais. A renovação e atualização programáticas têm-se verificado em museus de cidade como o Museu de Amsterdão (antigo Museu Histórico de Amsterdão), o Museu de Londres, o Museu da Cidade de Nova Iorque, o Museu de Vancouver, o Museu de Frankfurt, o Museu de Moscovo, o Museu de História de Barcelona, o Museu da História de Seul, entre muitos outros. O papel de guardiões de memória através da investigação e da conservação de diversas tipologias de patrimónios e da sua interpretação, vocação máxima dos museus, deve poder ser complementado, no caso dos museus de cidade, com a abertura à reflexão sobre questões prementes na urbanidade contemporânea, seja através de debates e conferências, seja por meio de exposições. Na senda das referidas tendências internacionais, o antigo Museu da Cidade foi transformado no Museu de Lisboa, em 2015, com cinco núcleos museológicos na cidade e com um significativo potencial de criação de conhecimento e de inovação. O tempo presente tem feito parte de projetos recentes do Museu de Lisboa apresentados nos últimos três anos, os quais têm incluído exposições temporárias que integraram obras de arte contemporânea e/ ou referências antropológicas à atualidade: “Varinas de Lisboa, Memórias da Cidade”, “A Luz de Lisboa”, “Fragmentos de Cor – Azulejos do Museu de Lisboa”, “Lisboa, Cidade Triste e

Alegre: Arquitetura de um Livro”, “Procissão de Santo António”. Desta feita, executámos um projeto de reflexão sobre o presente de Lisboa através de visões transdisciplinares sobre possibilidades de futuros distantes.

Futuros de Lisboa conceitos e autores Tendo iniciado este projeto há cerca de dois anos, o Museu de Lisboa lançou, propositadamente, o desafio do comissariado científico deste projeto a três especialistas de perfis diversos: ao geógrafo e economista João Seixas, ao arquiteto Manuel Graça Dias e à engenheira do ambiente Sofia Guedes Vaz. Cedo fomos cruzando perspetivas com o objetivo de construir uma exposição e um catálogo que não correspondessem à apresentação de uma perspetiva futurista para Lisboa, mas sim a interpelações plurais sobre valores, atitudes e tendências referentes a possíveis evoluções da cidade. Não pretendíamos exercícios de adivinhação, nem tão pouco chegar a propostas para a evolução de Lisboa nos próximos anos. Antes se procurou promover e divulgar perguntas e reflexões multifocais em torno da conjugação de três elementos - Lisboa, Cidade e Futuro - sem optar por cenários propositadamente distópicos ou utópicos, nem por propostas sonhadoras ou catastrofistas. Algumas das questões que os comissários e a equipa do Museu de Lisboa se foram colocando, permanecem de algum modo na própria exposição como perguntas: como se tem pensado o futuro? Como se tem pensado a cidade? Quais poderão ser os elementos mais importantes na construção de futuros para Lisboa? Através de imagens, documentos, peças artísticas e científicas, fotografias e vídeos, a exposição pretende levar o público numa viagem ora ao passado, ora ao presente, ora a projeções para futuros sem data, para se pensar melhor a nossa cidade e o que será mais importante no seu futuro. Uma exposição tecnológica, centrada nas maravilhas dos conteúdos informáticos e robóticos teria sido, por ventura, mais expectável, mas, estamos em crer, menos inovadora e menos útil para a criação de pensamento sobre Lisboa. Para além da escolha de três comissários, a opção pela diversidade de conhecimentos e perspetivas conduziu, também, ao convite a 21 especialistas de áreas diversas para escreverem treze ensaios que irão integrar o

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Passado, presente e futuro nos museus de cidade


catálogo, a lançar em setembro. Manuel Sobrinho Simões, Viriato Soromenho Marques, João Ferrão e Rui Tavares, António Câmara e Cristina Gouveia, Rita Marta, Sandra Marques Pereira, Afonso Cruz, Jorge Ramos do Ó e Mário Alves são alguns dos autores de textos nas áreas das neurociências, da ética, do trabalho, da cidadania, da ficção, da psicologia, da educação, da mobilidade, da habitação, entre outras. As parcerias que se estabeleceram para a criação dos conteúdos para a exposição originaram outros olhares complementares, nomeadamente vindos da fotógrafa Luísa Ferreira, dos autores da obra multimédia António Jorge Gonçalves, Nuno Artur Silva e Filipe Raposo, de cientistas do Instituto Superior Técnico, de alunos de jornalismo da Universidade Lusófona e de alunos de escolas de 1º ciclo de vários bairros de Lisboa. Ao longo do processo de construção da exposição, optámos, ainda, por convocar outro tipo de colaborações, que resultaram das respostas ao repto lançado aos cidadãos através do sítio da exposição na internet (www.futurosdelisboa.museudelisboa.pt). Pedíamos o envio de frases, contos breves ou imagens referentes ao futuro de Lisboa. Ao cabo de um mês e meio recebemos 160 participações, das quais se selecionaram cerca de 50 para a exposição, estando mais disponíveis online para consulta. Das propostas enviadas, destaca-se a sua diversidade e expressividade, em particular através da escrita.

Principais conteúdos

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Nesta exposição sobre futuros, por anacronismo propositado, cada sala do Torreão Poente tem um nome, como se de um museu oitocentista se tratasse. Da Sala do Futuro ao Longo do Tempo, onde somos confrontados com documentos, imagens e vídeos referentes a desejos e a preocupações sobre o futuro de Lisboa, desde o século XVI ao ano 2000, passamos para a Sala do Futuro pelas Pessoas, com a presença de uma grande variedade de crianças de escolas da cidade e as suas ideias sobre o futuro das suas vidas profissionais. Segue-se um jogo com as noções de passado e presente no ambiente de museu antigo, na Sala do Futuro do Passado, em que objetos de criação e uso muito recente são solenemente apresentados em vitrines antigas dos anos 20 do século passado, como relíquias de um passado próximo. O tema das Dificuldades em Prever o Futuro resulta em duas salas do edifício com a apresentação comparativa de imagens, ora antigas, de cerca de 1918, ora recentes so-

bre temas diversos da vida em Lisboa como o acesso ao ensino, os cuidados de saúde, os espaços comerciais e de lazer, a participação cívica de homens e mulheres, os meios de transporte, o armazenamento de informação, etc., deixando para a imaginação do público os cenários para daqui a cerca de mais 100 anos. A Sala do Futuro que Já Cá Está apresenta um conjunto de experiências científicas inovadoras desenvolvidas por departamentos do Instituto Superior Técnico nas áreas da energia, da mecânica e dos sistemas e robótica. Novos materiais para uma construção futura mais durável e reutilizável, um carro movido a hidrogénio por um processo de eletrólise, um protótipo de um robot humanoide destinado a ajudar idosos que vivem sozinhos na cidade, uma bancada hidráulica que demonstra como se poderá no futuro vir a utilizar as águas residuais da rede urbana para a produção de eletricidade, são alguns dos exemplos. Na Sala dos Hipotéticos Futuros apresentamos o resultado da intervenção de jovens autores de videojogos em fotografias panorâmicas atuais de Lisboa de Luísa Ferreira, comparando a realidade recente com possíveis cenários futuristas, mais ou menos distópicos. A importância da economia circular dá o mote para a Sala do Futuro Inevitável explicando os seus conceitos fundamentais, desde a reciclagem à reutilização e à partilha de produtos, com exemplos de muitas iniciativas empresariais e associativas que já existem em Lisboa nesta área, práticas que deverão aumentar no futuro. No piso térreo do Torreão Poente, apresentase a última parte da exposição, a Sala dos Pilares de Lisboa, tirando partido das 16 colunas desta bela sala, onde se expõem valores importantes da identidade de Lisboa e uma reinterpretação da Casa dos 24, criada pelo Mestre de Avis, com uma proposta de 24 Direitos para a cidade. Todo o restante espaço da sala é tomado pela projeção da obra multimédia, que funciona como uma síntese da exposição em registo ficcional e artístico. De entre a pluralidade de perspetivas, com os graus diversos de imaginação que a exposição convoca, destacam-se as interpelações para assuntos essenciais para o futuro de qualquer cidade, e de Lisboa em particular. Para uma cidade futura mais sustentável, mais resiliente, ainda mais humana. *Diretora do Museu de Lisboa


Rossio Fotografia de Luísa Ferreira intervencionada por Inês Lino e José Piteira (Odd School)

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Rua D. Luís I Fotografia de Luísa Ferreira intervencionada por Inês Lino e José Piteira (Odd School)


Imagem (still) da obra multimédia de António Jorge Gonçalves, Nuno Artur Silva e Filipe Raposo.

Bibliografia:

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Jean Postula, Le Musée de Ville – Histoire et Actualités, Col. Musées – Mondes, La Documentation Française, Paris, 2015 Ian Jones, Eric Sanweiss et al, Our Greatest Artefact: the City. Essays on cities and museums about them, edited by CAMOC, ICOM’s International Committee for the Collections and Activities of Museums of Cities, Istanbul, 2012 Ensaios de Viriato Soromenho Marques, Jorge do Ó e Henrique Leitão, António Câmara e Cristina Gouveia, e João Pedro Gouveia e Sofia Santos no catálogo Futuros de Lisboa, a publicar em setembro de 2018 pelo Museu de Lisboa.


Brotéria, um projeto há muito esperado por José Diogo dos Santos

Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Era um projeto há muito desejado e que agora está prestes a concretizar-se, assim que as obras de requalificação do Palácio Marquês de Tomar, em Lisboa, ficarem concluídas. É já a partir do próximo ano que a Brotéria vai ter um espaço nobre para acomodar todo o seu arquivo. Propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, aquele imóvel situa-se no Bairro Alto, bem no coração do complexo de São Roque, tendo albergado até 2012 a antiga Hemeroteca Municipal, encontrando-se então num estado de profunda degradação. Este projeto da Santa Casa vai contemplar uma área de 2.300 m² do Palácio Marquês de Tomar, que manterá, na generalidade, as suas características construtivas e os seus traços mais identitários.

Além de manter o seu propósito, enquanto publicação de Humanidades e Cultura, com estas novas instalações, a Brotéria, publicada pelos jesuítas desde 1902, será integrada num projeto mais vasto e ambicioso, no qual a revista será apenas um dos elementos. Assim, o edifício irá acolher a revista, a biblioteca, o arquivo, uma livraria, uma galeria de arte, um espaço polivalente para conferências e outras sessões públicas e uma área nobre que sirva diferentes públicos, tirando o máximo partido da localização e devolvendo o edifício à cidade. Está também prevista a criação de uma zona residencial para a instalação da comunidade jesuíta. A reabilitação do Palácio Marquês de Tomar, assim como do Palácio de São Roque, insere-se num plano mais vasto que a San-

ta Casa tem para aquela zona da cidade, onde, além da criação do polo cultural acima referido, pretende-se recuperar e reabilitar alguns imóveis que possam ser colocados no mercado de arrendamento jovem, criando-se condições de atratividade para fixar famílias jovens naquela área de Lisboa. Além disso, o novo centro cultural jesuíta será uma porta aberta à comunidade, sendo que o seu propósito passará por tornar-se num espaço onde a fé cristã se encontra com as culturas urbanas contemporâneas. No fundo, será um espaço que procurar interpretar e compreender as necessidades e preocupações atuais das pessoas. Este projeto espera obter uma relação de maior proximidade com a “rua” e com o pulsar do coração dos homens e das mulheres dos tempos de hoje. [111]

O centro Brotéria deverá abrir portas em setembro de 2019, o que representará um importante contributo para a cidade de Lisboa, no âmbito do polo cultural desenvolvido pela Santa Casa e que contempla os já existentes Museu de São Roque e Igreja de São Roque e, brevemente, “A Casa Ásia – Coleção Francisco Capelo”, no Palácio de São Roque, edifício também propriedade da Misericórdia de Lisboa e contíguo ao Palácio de Marquês de Tomar.


Um sonho antigo O primeiro passo deste projeto foi dado em 2010, com a celebração de um protocolo entre a Província Portuguesa da Companhia de Jesus, a Brotéria – Associação Cultural e Cientifica e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. No âmbito desse acordo, ficou prevista a instalação da revista, da biblioteca da Brotéria e da Comunidade Jesuíta no complexo de São Roque, no Largo Trindade Coelho, onde se situam os serviços centrais da Santa Casa. Um ano depois, era assinado com a Província Portuguesa da Companhia de Jesus um programa funcional que previa uma zona de arquivo, um espaço polivalente e uma área nobre e multifuncional para diferentes públicos. Em 2012, através do protocolo celebrado entre a Misericórdia de Lisboa e a Câmara, o Palácio Marquês de Tomar, antiga Hemeroteca municipal, passou a integrar o património da Santa Casa. Já em 2013, a Misericórdia de Lisboa aprovou, finalmente, a transferência da revista Brotéria e da sua biblioteca para o Palácio Marquês de Tomar. Recorde-se que, em 1540, a Companhia de Jesus chega a Portugal, a convite do rei D. João III, e inicia a partir de Lisboa a sua atividade missionária, tendo escolhido o espaço da antiga ermida de S. Roque para a construção da sua primeira Igreja e Casa Professa. Além do regresso à sua primeira casa, a Companhia de Jesus e a Santa Casa estão a criar condições para uma maior e melhor acessibilidade à revista Brotéria e à sua biblioteca, complementando e potenciando a oferta cultural, ao rentabilizar os recursos existentes e reforçando a ligação histórica entre as duas instituições.

Caixa1 Palácio Marquês de Tomar

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O Palácio Marquês de Tomar foi construído na segunda metade do século XIX sobre estruturas pré-existentes (tem vestígios de construção setecentista), como residência de António Bernardo da Costa Cabral, primeiro Marquês de Tomar. Em 1970, foi adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa que ali instalou a Hemeroteca. O edifício é constituído por quatro pisos, apresenta como características principais no exterior os trabalhos de cantarias várias em lioz branco, janelas amplas e varandas em ferro forjado com caráter significativo.


Caixa2 Um espólio único

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A revista Brotéria foi fundada em 1902, por três jesuítas, Joaquim Silva Tavares, Carlos Zimmerman e Cândido Mendes, no Colégio de S. Fiel, para abordar temas de Ciências Naturais. Pouco depois, em 1907, subdivide-se em três séries: Botânica, Zoologia e Divulgação Científica. O nome da revista está ligado ao pendor inicial dado às Ciências Físicas, pois pretendeu-se homenagear o naturalista português Félix de Avelar Brotero (1744-1829). A biblioteca da Brotéria, aberta ao público, conta com cerca 150.000 monografias e mais de 200 publicações periódicas. É particularmente valiosa no campo da Teologia, Filosofia, Literatura e História, com destaque para a história da Companhia de Jesus.


Padre António Vieira: um encontro com o “outro” por Gonçalo de Carvalho Amaro

Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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Ronaldo Vainfas, um dos principais historiadores brasileiros do Padre António Vieira, tem destacado que o passado familiar do jesuíta terá influenciado a forma de ser do mesmo: somos da mesma opinião. Como é sabido, pela via paterna, Vieira tinha ascendência africana – dado comprovado pelo processo de Inquisição e também pelo facto de os seus familiares no Brasil terem perdido o hábito de cavaleiros da Ordem de Cristo, uma vez que um dos requisitos era ter “pureza” de sangue. Pela via materna, muito se tem dito, embora sem aparente comprovação, suspeitando-se que seria neto de uma cristã-nova. Sobre este assunto, Vainfas recorda uma afirmação de Vieira que pode indiciar essa ascendência judaica, uma vez que este chegou a declarar que aprendeu a ler com a mãe que era, como indicam as fontes, padeira dos franciscanos de Lisboa. De facto, as probabilidades de, em inícios do século XVII, uma padeira em Portugal saber ler eram praticamente nulas, pelo contrário, os judeus tinham índices de literacia bastante elevados entre a sua população.


Estes dois fatores familiares podem contribuir para explicar a obra do Padre António Vieira e, sobretudo, um dos aspetos que mais o caracterizam: a sua proximidade e preocupação pelo outro. Vieira foi sempre um homem que aprendeu com todos, até com os seus “inimigos” holandeses, cujo modelo comercial, que viu no Brasil, tentou replicar em Portugal. Não se deixou levar pelas características do seu tempo, que olhava para os outros, os judeus, os negros, os indígenas americanos, como diferentes; na obra de Vieira vemos que para ele todos são seres humanos. Esse humanismo e a sua capacidade de não julgar os outros por aquilo que são ou aparentam ser fez com que Vieira pudesse viver de igual modo e sem problemas nos sertões do Brasil, privando com os índios, e nas cortes europeias, privando com a família real portuguesa ou com a rainha Cristina da Suécia no Vaticano. Acima de tudo, o Padre António Vieira é um homem com um profundo sentido de missão, um jesuíta marcadamente influenciado pela segunda escolástica pós-tridentina e que, como muitos do seu tempo, via na evangelização do Novo Mundo uma oportunidade fantástica de reviver a gesta dos primeiros cristãos. Ao longo dos seus 89 anos de vida, realizou sete viagens transatlânticas. Foi sempre alguém que esteve entre cá (Portugal) e lá (Brasil), não só fisicamente, mas também espiritualmente. Convenhamos que, para o século XVII, não sendo marinheiro ou comerciante; sete viagens era um número elevadíssimo, tendo em conta as “duras penas” que implicava a travessia atlântica.

era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos”. Num tempo em que muito se tem questionado a relação com o outro – como aquele que vem de outro lugar, aquele que é diferente, o migrante –, o Padre António Vieira é um exemplo de humanidade. Fernando Pessoa considerou-o o imperador da língua portuguesa, pelo seu uso da palavra, mas Vieira não se cingiu apenas ao uso da sua língua materna, teve a humildade de aprender a língua do outro, dos povos originários do Brasil, que carinhosamente o chegaram a tratar de paiaçu (pai grande). O Padre António Vieira que, muitas vezes, nos entusiasmou no passado com a sua palava em São Roque, onde hoje está a Santa Casa e onde se localizou a antiga casa professa dos jesuítas, é assim um exemplo inspirador de humanidade e misericórdia para esta instituição cujo foco é também precisamente o outro: o desamparado, o doente, o que sofre, o que está desenraizado e o que está só.

No Maranhão, no célebre sermão de Santo António aos Peixes (1654), tem uma das frases mais marcantes e demostrativa da sua preocupação pela injustiça que se vivia na colónia, defendendo a ideia de que o mais forte deve apoiar o mais fraco (em alusão aos indígenas) e não destruí-lo: “Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário,

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Mas nem tudo foram rosas ao longo da vida de Vieira. A sua postura de reconhecimento do outro e a sua militância jesuítica levaram a que fosse muito criticado e perseguido pela nobreza, pelos colonos brasileiros e até pela própria Igreja portuguesa, passando inclusivamente por dois anos de reclusão nos cárceres da Inquisição em Coimbra. O Padre António Vieira, homem culto – aluno destacado de entre os jesuítas – e experimentado – conhecedor de diferentes culturas e modelos de sociedade – quis mudar as mentalidades e quis fazê-lo enquadrado na sua fé e naquilo que considerava serem os ensinamentos mais puros de Cristo: o amor ao próximo, a humildade e a justiça social.


A Procissão de Santo António em Lisboa por Pedro Teotónio Pereira*

Exposição A Procissão de Santo António em Lisboa © Museu de Lisboa/José Avelar

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Diz a tradição que a 30 de maio de 1232, no dia em que Santo António foi declarado santo, menos de um ano depois da sua morte, os sinos de todas as igrejas de Lisboa tocaram espontaneamente e uma admirável alegria se espalhou pela população que saiu atónita à rua. É assim que Lisboa vai perpetuar a sua profunda relação com Santo António e não deixará esquecer nunca que foi aqui que o Santo nasceu. A devoção a Santo António foi adquirindo ao longo dos séculos cada vez mais importância na sua cidade natal. A casa onde Santo António nasceu passará para propriedade municipal, que ergue uma capela e aí instala

o Senado da cidade. A capela torna-se igreja e Santo António popular. Os documentos oficiais mais antigos que existem no arquivo municipal de Lisboa relacionados com a igreja de Santo António, datados de 1428, referem-se ao santo como Santo Antoninho, evidenciando uma intimidade e familiaridade que se estende a todas as classes sociais, a começar pela família real. D. João II e D. Manuel I irão patrocinar obras de beneficiação da igreja que por isso se passará a designar por Real-Casa. Era aí que se celebrava a Trezena a Santo António. Na véspera da sua festa, a família real costumava visitar a igreja, onde era recebida por todo o governo da cidade e homenageada com um “ramalhete”


A partir de 1599 e até 1834, por voto perpétuo do Senado da Câmara a Nossa Senhora da Penha, em ação de graças por ter protegido a cidade de uma terrível peste, realizava-se a 5 de agosto, dia de Nossa Senhora das Neves, a Procissão do Ferrolho, assim designada porque os participantes do cortejo iam batendo nos ferrolhos das casas para chamar a atenção dos moradores. Por causa do calor a procissão decorria depois da meia-noite, com a imagem de Santo António que saía da sua igreja, acompanhada pelos penitentes que iam descalços e segurando tochas acesas, até à ermida da Senhora da Penha. Já a partir de finais do século XVII, o Convento de Santo António dos Capuchos, atual Hospital dos Capuchos, torna-se também um importante centro de devoção a Santo António que contava com a presença da família real e de todo o Senado da cidade nas suas cerimónias. Curiosamente, sobre a procissão de Santo António, que se realizava a 13 de junho, há pouca informação. Talvez ofuscada pela imponente procissão do Corpus Christi, festa móvel que se realiza 60 dias depois da Páscoa e que a coloca muito próxima da procissão de Santo António, esta última só indiretamente é referida nas posturas municipais que vão surgindo ao longo dos séculos. No entanto, a procissão de Santo António, muito concorrida e popular, embora sem a participação da família real e da alta nobreza, é mencionada em vários relatos de estrangeiros que no final do séc. XVIII visitam Portugal e que se impressionam pela enorme multidão que a acompanha, assim como pelos comportamentos pouco piedosos de muitos dos envolvidos, aproximando a procissão de um divertimento mundano. A procissão saía do grandioso convento de São Francisco da Cidade (atual Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado e Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa). Era composta por treze andores, entre os quais o de São Francisco, o de Santo António, o da Nossa Senhora da Piedade, e terminava com dois andores de santos negros (São Benedito e Santo António negro, também conhecido por Santo António de Noto), acompanhados por padres negros

e levado por muitos negros que encerravam efusivamente o cortejo. São ainda notícia as inúmeras procissões com a imagem de Santo António que ao longo dos séculos saía da sua igreja em ação de graças ou por súplica e oração. Em 1484 a rainha D. Leonor dirige-se ao Senado da Câmara para que mandasse fazer muitas procissões e orações por causa de uma doença grave de el-rei D. João II. Em setembro de 1625 realiza-se uma procissão em ação de graças pela canonização da Rainha Santa Isabel, saindo a imagem de Santo António da sua igreja para São Francisco da Cidade. Em 1653 foi essa imagem enviada pelo Senado em cortejo solene para Alcântara para melhoras do príncipe D. Teodósio. Em 1742 a imagem de Santo António sai em cortejo processional para a Patriarcal pela saúde de el-rei D. João V que se achava enfermo. Já no século XIX, realiza-se uma procissão com a imagem de Santo António em 19 de setembro de 1808 em ação de graças pela libertação de Lisboa e do país. Para proteger a cidade da peste introduzida pelas tropas belgas de Soulignac, e por decreto de 5 de Dezembro de 1833, a Câmara ordena que se realize todos os anos no dia 16 de Julho uma procissão penitencial com a relíquia de Santo António a acompanhar a imagem de S. Sebastião, tradicional protetor contra este flagelo. A extinção das ordens religiosas em 1834 levará ao encerramento da igreja e ao fim da procissão, embora permaneça a festa popular nos mercados e nas ruas da cidade. A grandiosa comemoração do VII Centenário do nascimento de Santo António em 1895, foi o argumento para se realizar novamente uma procissão onde participou a imagem de Santo António militar do regimento de Infantaria 19 de Cascais, procissão que foi assaltada por grupos anarquistas no Rossio. No entanto, as comemorações dos centenários (do nascimento de Santo António em 1895 e da sua morte em 1931) conduzirão à reabertura da igreja de Lisboa ao culto, à proclamação em 1934 de Santo António padroeiro secundário de Portugal e à atribuição do título de doutor da Igreja a Santo António em 1946. O século XX irá trazer um novo fôlego às festas populares, com os cortejos e as batalhas de flores, os bailaricos, os arraiais e as iluminações à veneziana, onde Santo António surge sobretudo como folião e casamenteiro. Leitão de Barros e António Ferro reinventam as tradições. Em 1932 organiza-se o desfile das marchas populares, a partir de 1950 realizam-se os casamentos de Santo António e em 1953 é instituído o dia 13 de junho como feriado municipal em Lisboa.

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de flores e com a oferta do bodo, constituído geralmente por fogaças, doces, caracoladas e condeças. Esta visita repetia-se também a 15 de fevereiro, dia em que se celebrava a trasladação de Santo António. As cerimónias oficiais terminavam com a tourada em honra a Santo António, que a Câmara oferecia ao povo de Lisboa e para a qual eram armados palanques de madeira no Rossio ou no Terreiro do Paço.


Quanto à procissão de 13 de junho, toma timidamente o seu lugar a partir de 1952, embora num percurso reduzido à volta da sua igreja (Largo de Santo António da Sé, Largo da Sé, Rua das Pedras Negras, Rua da Madalena, Largo da Madalena e Rua de Santo António da Sé). Depois de passar um período de instabilidade após a revolução de 1974, a procissão assume, a partir de 1981, o percurso atual, percorrendo o tradicional bairro de Alfama. A imagem de Santo António, anteriormente levada em ombros pelos bombeiros e agora transportada de carro, sai da sua igreja acompanhada pelas autoridades municipais, pela família franciscana e demais congregações religiosas, pela tradicional banda e por inúmeros devotos que acompanham todo o cortejo. Na Sé junta-se ao préstito a relíquia de Santo António (doada à Sé pela Basílica de Pádua em 1968), transportada sob o pálio pelo Cardeal Patriarca de Lisboa ou pelo seu representante. Frente à igreja de São João da Praça, cuja tradição refere que o templo original foi mandado construir pelo pai de Santo António em ação de graças por ter sido salvo da forca, junta-se ao cortejo o andor de São João, o mesmo acontecendo junto da igreja de São Miguel, no coração de Alfama. A procissão segue devotamente pelos becos estreitos e sobe a Santo Estevão, onde o seu andor integra o cortejo. São Vicente, padroeiro da diocese de Lisboa, aguarda a procissão nas Escolas Gerais e, depois do largo das Portas do Sol, Santiago é o último andor a juntar-se à multidão que segue Santo António. A procissão termina com um Te Deum no adro da Sé, regressando depois cada santo à sua igreja. É este cortejo atual que é apresentado na exposição organizada pelo Museu de Lisboa - Santo António na galeria de exposições no largo de S. Julião junto aos Paços do Concelho. Mais de 300 peças da autoria dos irmãos Baraça, uma das famílias com maior tradição do figurado de Barcelos, são apresentadas integradas no sinuoso cenário de Alfama, dando cor e forma ao bairrismo autêntico que torna Lisboa tão única e especial.

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*Coordenador do Museu de Lisboa – Santo António

Membros da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Fraternidade de Santo António à Sé © Museu de Lisboa/José Avelar

Pormenor do pálio transportado pela Policia Municipal com a relíquia de Santo António © Museu de Lisboa/José Avelar


Exposição Temporária A Procissão de Santo António em Lisboa Largo de S. Julião junto aos Paços do Concelho 11 de junho – 30 de setembro De 2ª a domingo, das 10h00 às 18h00

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Entrada gratuita

Pormenor do cortejo com o andor de Santo António © Museu de Lisboa/José Avelar


Dois capitéis romanos de Lisboa Os caminhos sinuosos do nosso património Quando em março de 2018 se anunciou publicamente que o Palácio do Correio Velho, Leilões e Antiguidades, S.A. iria leiloar o espólio do célebre historiador José Hermano Saraiva, foi com furor que centenas de pessoas se deslocaram à exposição. Salas e salas encontravam-se repletas de peças. Pintura, estatuária, elementos arquitetónicos, mobiliário, azulejos, variadas peças decorativas, um baldaquino de Rafael Bordalo Pinheiro, enfim, uma infindável coleção que refletia o gosto eclético do tão bem conhecido narrador das histórias da nossa história. Um total de 444 lotes colocados à venda, que reunia o espólio da casa de Palmela. Uma casa grande, feita à medida de José Hermano Saraiva e que impressionava pelo ecletismo do seu recheio, onde o olhar mal se detinha em cada peça por serem tantas a desafiar a atenção. José Hermano Saraiva foi um “belíssimo contador de histórias” e histórias era o que a sua Casa Grande de Palmela encerrava.

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Fui a sua casa num dia do Verão de 1995! Encontrava-me nessa altura a realizar o levantamento de capitéis de época romana, com vista à realização da Dissertação Final de Mestrado em História da Arte subordinada ao tema “Capitéis Romanos da Lusitânia Ocidental”. Ao folhear uma revista de jornal, penso que do Diário de Notícias, reparei numa entrevista ao Professor José Hermano Saraiva, mais precisamente numa imagem onde o próprio surgia sentado numa poltrona na sua sala da casa de Palmela e onde se viam, ao fundo, duas peças que nada mais poderiam ser que dois capitéis romanos. Suportando um tampo de vidro funcionavam como base de mesa, ornamentando belissimamente o espaço. Não me teria ocorrido que tais peças pudessem figurar com aquela nova função na sala de estar de alguém. Por tão habituada a vê-los em museus ou em sítios arqueológicos – afinal, o seu verdadeiro lugar – não me ocorreria passar a consultar revistas de decoração para encontrar informações que habitualmente recolheria em inventários de

por Lídia Fernandes*

arqueologia, textos da especialidade ou histórias gerais do passado português. Sinuosos são os caminhos da investigação histórica e a partir de então, passei a olhar com mais atenção algumas revistas “cor-de-rosa” ou de decoração pois nunca se sabe quem gostaria de ter um fuste de coluna à cabeceira, capitéis a servir de mesa, uma Nossa Senhora do Ó como bengaleiro ou uma ânfora romana a servir de bispote para flores… O contacto com o Professor José Hermano Saraiva foi muito fácil. Nem me lembro já como consegui obter o seu telefone de casa, mas quando liguei foi o próprio que me atendeu e que prontamente me convidou a visitar a sua casa e a poder analisar, de perto, as peças que me haviam captado a atenção. Tive assim o privilégio de falar com o historiador, aquele que foi ministro da Educação entre 1968 e 1970 e embaixador de Portugal no Brasil entre 1972 e 1974. Antes disso, havia desempenhado as funções de Diretor do Instituto de Assistência aos Menores e de Reitor do Liceu Nacional D. João de Castro, em Lisboa, tendo igualmente sido professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina e Deputado à Assembleia Nacional durante o Estado Novo. Recuando ainda mais no tempo foi Diretor da Campanha Nacional de Educação de Adultos em 1959 tendo ingressado na Mocidade Portuguesa em 1955 sendo depois nomeado secretário-geral e relator da Comissão Executiva do II Congresso Nacional da Mocidade Portuguesa. Foi ainda Vereador para a Cultura na Câmara Municipal de Lisboa durante o mandato do Eng.º António França Borges. Curiosa esta personagem - António França Borges - que, em 1953 e 1954 foi Comandante do Batalhão de Caçadores em expedição à Índia. Assumiu as funções de Presidente da Câmara de Lisboa entre 1959 e 1970 e foi durante o seu mandato que se realizaram as primeiras escavações arqueológicas que


Capitel coríntio da Rua das Padarias. Peça completa (Nº inv. ML.ESC.0762). (fotografia de Ricardo Santos – Museu de Lisboa – Teatro Romano).

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Designação das várias partes do capitel coríntio (fotografia de Ricardo Santos – Museu de Lisboa – Teatro Romano).


permitiram colocar à vista o teatro romano de Lisboa. Outro que não ele, muito provavelmente, não teria percebido a relevância do aparecimento de tais antiguidades, e poucos seriam os que, então, alcançariam as razões de um investimento em prole da criação de uma reserva arqueológica que tem permitido, ao longo de mais cinco décadas, a descoberta do passado da cidade de Lisboa que marca a sua história e que igualmente a define, cultural e historicamente, na atualidade. E recuamos no tempo precisamente porque foi neste contexto de início das escavações arqueológicas do teatro romano que, muito possivelmente, terão surgido os capitéis na Rua das Padarias. A única informação fornecida por José Hermano Saraiva a propósito destes dois exemplares arquitetónicos foi o de terem aparecido naquela rua por ocasião de obras que ali se faziam. O tempo é, em termos vagos, a década de 1960 e o contexto histórico totalmente desconhecido. Pelas suas palavras, terá passado um dia pelo local e viu os ditos exemplares no meio de valas que se abriam na rua. Ou seja, não sabemos se surgiram estruturas arqueológicas associadas, outros objetos que, mesmo sem qualquer valor, poderiam ter permitido uma avaliação do contexto deposicional das peças. É esse o trabalho dos arqueólogos que valorizam tanto a envolvente e contexto do achado como quanto o que surge.

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Na ausência de tais informações resta-nos as peças por si próprias, afinal o que menos interessa ao arqueólogo: quando através de simples objetos tem de reconstituir o momento histórico a eles associado, valendo assim o conceito do “objeto pelo objeto”! Ainda assim, e comprovando que as pedras falam, são muitas as informações que podemos obter. Estes dois exemplares integramse na ordem arquitetónica coríntia e têm a particularidade de apresentarem estados distintos de acabamento: um apenas esboçado, no que respeita à sua decoração (ML. ESC.0763) e outro bastante mais finalizado (ML.ESC.0762). Dado o relevante valor artístico e histórico dos capitéis, a Câmara Municipal de Lisboa optou pela sua aquisição para que este importante património possa ficar acessível ao público em exposição no Museu de Lisboa. Os esforços desenvolvidos para que tais peças não fossem a leilão não deram fruto. Sendo cinco os herdeiros diretos do recheio da casa de Palmela não houve consenso para que as peças fossem adquiridas, mesmo que por um preço simbólico, por uma instituição pública. Não existia qualquer comprovativo de compra pois a aquisição nunca

teve lugar. As peças em questão surgiram no subsolo e, por essa razão, pertenceriam ao Estado, tal como definido por Diário da República nº 209, de 8 de setembro de 2001 (Artº 78, alínea 1). Naturalmente que na década de 1960 tal legislação não estaria em vigor, mas, do mesmo modo, na atualidade, apenas podem ser alienadas obras de arte quando a sua aquisição é comprovada, o que seria impossível fazer pelo facto de as peças nunca terem sido compradas, mas antes subtraídas ao património nacional. Infelizmente este não é caso único e a história recente encontra-se repleta de exemplos semelhantes. Veja-se, por exemplo o caso de uma pintura portuguesa leiloada no dia 5 de julho na Sotheby’s, em Londres, da autoria de Diogo de Contreiras - um dos artistas basilares do «Maneirismo experimental» português, na opinião do historiador Vítor Serrão – intitulada «Visitação da Virgem a Santa Isabel», que pertencia à igreja de São João das Lampas (Sintra) e que “desapareceu” nos anos 60 do século passado para uma coleção alemã! Também neste caso não existia qualquer documento de posse ou de aquisição da peça e decerto que agora ornamenta uma qualquer parede de um qualquer endinheirado, de um qualquer país que não o nosso. Por fim, não posso deixar de sublinhar a posição da Câmara Municipal de Lisboa, em especial da Vereadora da Cultura e do Diretor Municipal de Cultura da edilidade pelo interesse e empenho demonstrados ao longo deste processo. Estas pedras não são tábuas pintadas, não revelam de imediato a sua importância. Não são peças que suscitem o interesse de um qualquer museu nacional (não sei bem porquê!), mas são testemunhos silenciosos que não revelam a sua história a não ser a quem as saiba e queira ler. Um enorme obrigada a quem participou neste resgate que nunca deveria ter tido lugar pois o nosso património é de todos e não deveria necessitar de ser resgatado à queima roupa para satisfazer a procura de dinheiro vivo de alguns e a vaidade de ostentar em sala privada o testemunho do passado de uma identidade nacional.

Análise descritiva Os exemplares, talhados em calcário esbranquiçado, são atribuíveis ao século II d.C. e têm ambos uma altura de 0,43m. Esta dimensão, a par das restantes que não diferem muito (diâmetro da base, altura das duas coroas de folhas que ornamentam o corpo da peça, dimensões do ábaco…) apontam para que tenham sido feitos para um mesmo edifício.


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Capitel coríntio da Rua das Padarias. Peça inacabada (Nº inv. ML.ESC.0763). (fotografia de Ricardo Santos – Museu de Lisboa – Teatro Romano).


Descrição: ML.ESC.0762 Capitel coríntio canónico. Duas coroas de folhas compostas por lóbulos que se dispõem paralelamente, apresentam um perfil arredondado na sua terminação. Analisando as folhas da imma folia (primeira coroa de folhas que arranca da base da peça) estão presentes cinco lóbulos, organizados em conjuntos. Pequenos pontos de trépano marcam lateralmente o local das separações lobulares. Os lóbulos, organizados em conjuntos de três folhinhas — mais evidentes na parte inferior da folha — mostram o pormenor da sobreposição lobular, característica que se presencia sobretudo a partir da época de Augusto. Na summa folia (segunda coroa de folhas) encontramos folhas semelhantes que apenas se desgarram superiormente do kalathos (corpo do capitel). A terminação arredondada ou em forma de gota de alguns parece, por vezes, não ter sido concluída devido a um acabamento imperfeito. Entre as folhas da imma follia e elevando-se por cima das folhas da coroa superior, dispõem-se os caulículos decorados por dois sulcos longitudinais e por uma orla superior de perfil convexo ornamentada por pequenos sépalos. E nítida a verticalidade destes elementos, apenas ligeiramente inclinados na parte superior e afastando-se, assim, do eixo da peça. Dos caulículos arrancam duas meias folhas de perfil, que suportam, respetivamente, as faixas correspondentes aos canais das volutas e das hélices.

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A proporção entre os dois registos inferiores — imma e summa folia — e o superior — hélices, volutas e ábaco — não segue os padrões canónicos do séc. I d.C., concedendo uma notória importância ao primeiro em detrimento do segundo, o que se traduz numa explanação mais contida dos motivos decorativos do registo superior obrigando, deste modo, a uma maior horizontalidade das volutas e hélices, elementos que contrastam com a verticalidade dos elementos inferiores — folhas e caulículos. Esta alteração da proporção do capitel torna-se mais notória a partir dos finais do séc. I d.C., sendo mais acentuada na seguinte centúria. Volutas e hélices encontram-se representadas por faixa larga e lisa, de enrolamento espiraliforme na sua parte terminal sendo o botão central sobrelevado. Frontalmente, as duas fitas que representam o canal das volutas que se observam por baixo do ábaco unem-se a meio através de um pequeno listel, ao invés da simples junção que encontramos em peças de época augustana ou dos inícios da época Julio-Claúdia. Dos caulícu-

los surgem duas meias folhas. Entre estas surge uma pequena folha trilobada, pormenor decorativo que apenas ocorre a partir dos inícios do séc. II d.C., tal como podemos constatar em capitéis de Itálica (Eecija, Sevilha) ou de Mérida. O ábaco é decorado por uma moldura alta e ligeiramente convexa que se sobrepõe a uma banda mais reentrante e de perfil ligeiramente oblíquo. Os lados são côncavos e a parte central é decorada por uma roseta de cinco pétalas e com botão central relevado. Na parte superior do ábaco observa-se um pequeno scamillus, mais reentrante em relação ao diâmetro do ábaco, elemento que confirma o cuidado técnico e o perfeito conhecimento das técnicas então em uso na realização deste tipo de peças. Esta pequena altura na parte central do ábaco do capitel impede que a força da arquitrave se exerça sobre os ângulos da peça, zona bastante mais frágil que, por meio deste artifício, ficaria salvaguardada. As volutas por baixo do ábaco unem-se através de um pequeno listel, ou faixa, pormenor ornamental caraterístico a partir de meados ou finais do séc. I d.C. O registo inferior da peça (as duas coroas de folhas que se sobrepõem) apresenta uma acentuada verticalidade dos motivos, no entanto, este aspeto contrasta com o aspeto pesado da parte superior do exemplar onde as volutas angulares e as hélices detêm uma inclinação acentuada como que segurando o peso do ábaco. A orientação quase horizontal que estes elementos adotam – em oposição à verticalidade acentuada que apresentam no séc. I d.C. e mesmo durante a seguinte centúria – faz aproximar das correntes decorativas que se visualizam em peças tardias do séc. III d.C., como acontece em exemplares de Perugia. O acentuado efeito de claro/escuro, a sucessão de volumes provocada por uma marcada projeção de alguns dos elementos, assim como o recurso ao uso do trépano, leva a integrar esta peça numa linha evolutiva de tradição flaviana ainda que já degenerada, onde alguns motivos surgem simplificados e fazendo um maior recurso a efeitos de luzes e sombras e a um tratamento bidimensional dos elementos. Pelas características evidenciadas datamos este exemplar da primeira metade do séc. II d.C.

Técnica: Utilização de picão na parte superior da peça e de pico de ponta grosseira na parte não decorada do kalathos (zona superior). Vestígios do emprego de escopro ou cinzel de ponta


Descrição: ML.ESC.0763 Este capitel apresenta a característica de não se encontrar terminado. A decoração mais pormenorizada não está concluída, ainda que os traços decorativos gerais — a sofrerem tratamento posterior — estejam presentes. Curiosamente, apenas quando esta peça foi colocada em exposição no Museu de Lisboa – Teatro Romano foi possível perceber a razão pela qual a peça não foi terminada. Com efeito, presencia-se um erro de desenho/traçado da peça ou então um erro de corte em relação ao fuste uma vez que a peça é, claramente, mais alta de um lado que do outro. Os elementos mais pormenorizados ainda chegaram a ser delineados a trépano mas deve ter ficado evidente, logo no início do trabalho, que seria impossível concluir a peça. Este dado permite-nos afirmar da presença de aprendizes ou de artífices não qualificados que trabalhariam em ateliers de razoável qualidade. A peça que acima descrevemos, completa, atesta a qualidade da oficina, com a produção de trabalhos destinados a um público que exigiria peças semelhantes às que teria observado, por exemplo, na capital da província da Lusitânia: Augusta Emerita (atual Mérida, em Espanha). Não obstante o estado inacabado da peça, podemos afirmar que nos encontramos perante um capitel canónico, uma vez que estão presentes, ainda que meramente esboçados, todos os elementos que o caracterizam. Algumas das folhas da imma folia apresentam bem demarcados quatro lóbulos. Os pequenos pontos de trépano que ladeiam lateralmente a folha podem fornecer-nos alguma informação em relação à técnica de talhe deste exemplar. Com efeito, a colocação de pequenos furos à volta da folha divide a sua superfície preparando-a para a ornamentação mais cuidada. A nervura central é materializada por dois sulcos profundos realizados a trépano. Os vários pontos não se encontram ainda unidos, ainda que fosse essa a intenção do canteiro. As folhas da segunda coroa apresentam-se muito similares às da imma folia. O afastamento da parte superior da folha em relação ao kalathos é também

mais acentuada, o que certamente conferiria um maior efeito de sombras e luzes, tornando de igual modo mais evidente o consequente jogo de volumes. Por entre as folhas desta coroa saem grossos caulículos, dos quais se encontram somente representadas as respetivas orlas, decoradas por moldura ligeiramente convexa delimitada por sulcos. A parte inferior dos caulículos não se encontra verdadeiramente representada uma vez que não existe separação entre estes e a superfície do cesto. Dos caulículos saem caules que suportam meias folhas apenas esboçadas. As hélices elevam-se quase verticalmente ainda que a sua terminação superior altere bruscamente de sentido e o local onde, provavelmente, se localizaria o enrolamento espiraliforme, mal apareça esboçado. Ainda que se observe um pequeno alargamento das hastes das hélices junto ao ábaco, parece não haver espaço suficiente para a inclusão das volutas, estas, a serem explanadas, certamente seriam muito contidas. Nos ângulos da peça observamos volutas de acentuada projeção, separando-se do kalathos com o objetivo de acompanhar o ábaco que se lhes sobrepõe. O ábaco é estreito, de lados côncavos, oferecendo um perfil vertical e infletindo para o interior com talhe biselado. As suas faces encontram-se decoradas com motivos distintos. A tradicional flor foi aqui substituída por elementos pouco usuais no léxico do capitel coríntio canónico. Um dos motivos é uma palmeta muito estilizada a qual, se analisada individualmente, poderíamos integrar em cronologias tardias. Por cima do ábaco detetamos um pequeno scamillus, retraído em relação à dimensão do ábaco, semelhante ao da peça que anteriormente descrevemos. O aspeto mais interessante, como acima referimos, diz respeito ao erro de talhe inicial da peça. Este facto leva a colocar a hipótese de o atelier que produziu ambos os exemplares não se localizar muito longe do local onde os mesmos foram encontrados.

Técnica: Utilização de pico ou picão em praticamente toda a superfície da peça. Vestígios do emprego de escopro de ponta nos pormenores decorativos e de trépano corrido em alguns contornos foliáceos. Escopro de bisel nos pormenores angulares das volutas e igualmente presente nos elementos que decoram o ábaco. Nas volutas são visíveis alguns

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nos pormenores decorativos e de escopro de bisel nas folhas, volutas e hélices. Trépano corrido mal realizado, ou deficientemente terminado, nas nervuras foliáceas, assim como em outros locais. Utilização de broca de ponta em casos pontuais. São ainda visíveis vestígios do início da utilização de abrasivos de afeiçoamento, sobretudo nas volutas, onde não será de excluir a hipótese de utilização de cinzel gradilhado.


traços de raspador e, em algumas partes do kalathos pode-se observar a utilização de um abrasivo de afeiçoamento/polimento (?).

Contexto: Sem que saibamos mais pormenores sobre o local de aparecimento destas peças, a proximidade com as Termas dos Cássios ou com o Largo de Stº António, onde se poderia ter situado uma das portas monumentais da cidade de época romana, são locais prováveis onde estas peças podem ter sido utilizadas. A Rua das Padarias é uma artéria de grande relevância para a cidade. Nesse local, ainda embebida nas fachadas dos edifícios do lado direito de quem sobe a rua, implanta-se a antiga Cerca Velha a qual teria uma torre já no Largo de Stº António (lado sul). Também na esquina entre a Rua das Padarias e a atual Rua dos Bacalhoeiros localizavam-se, no séc. XII as antigas “padarias”, designação que deu origem ao topónimo e, mais tarde, ao longo dos sécs. XIV/XV, as “Carniçarias” da cidade. No mesmo local, mas recuando no tempo, terá aí laborado uma fábrica de transformação de pescado de época romana que, provavelmente, terá estado em funcionamento entre meados do séc. I d.C. e o séc. V d.C. Há igualmente a referir vestígios de época romana detetados no Largo de Stº António. Apesar de difícil interpretação, pela exiguidade da área intervencionada e escassez de dados fornecidos, as estruturas aí reconhecidas são importantes pela sua dimensão e qualidade técnica, colocando em evidência a possível existência de um edifício público no local. Um pouco mais para noroeste encontramos, na Travessa do Almada, quatro inscrições romanas, provavelmente também atribuíveis ao séc. II d.C.

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Não podemos deixar de mencionar que atualmente (e até 23 de setembro) as réplicas destas epígrafes encontram-se em exposição no Museu de Lisboa – Teatro Romano numa exposição temporária designada (RE) inscrições da Travessa do Almada. As pedras que aí se expõem reproduzem três das quatro inscrições romanas que se encontram embutidas na parede do edifício junto à Igreja da Madalena, concretamente na fachada do prédio sito na Travessa do Almada (com entrada pelo nº 1 da Rua das Pedras Negras e Largo da Madalena nºs 3-6). Estas peças foram recolhidas em 1749, quando o antigo proprietário do terreno, o então Visconde de Vila Nova de Souto, construía o edifício, tendo sido colocadas na fachada por sua expressa ordem, cumprindo uma prática de salvaguarda de antiguidades, então habitual no centro da Europa. Edifício e epígrafes tiveram a sorte de sobreviver ao Terramoto de 1755.

Chama-se a atenção para o facto de uma das inscrições – a única não exposta devido à sua grande dimensão, mas reproduzida em tamanho real - ser um cipo honorífico dedicado a um questor (funcionário romano com importantes funções administrativas) da província romana da Baetica (Bética, atual Andaluzia espanhola). O monumento foi-lhe ofertado pela própria cidade de Felicitas Iulia Olisipo / Lisboa. A parte superior do monumento deveria ostentar uma estátua do questor. As peças expostas são réplicas permanecendo as originais na fachada do edifício. O progressivo desgaste provocado pelo tempo e poluição levou a que o Museu de Lisboa tomasse a iniciativa de as reproduzir. Saliente-se, aliás, que as inscrições se encontram classificadas como Monumento Nacional desde 1910 (Dec. 16/06/1910; DG 136 de 23 junho 1910; ZEP: DG 213 de 11 setembro de 1961). Desde 2004 que chamamos a atenção para este problema. Quando, finalmente, as inscrições não tiverem leitura – o que, aliás, já acontece – podemos sempre contentarmonos com as réplicas que um dia foram feitas. Ironia do destino que sejam as réplicas a ser atualmente exibidas num museu e não as peças originais que, ano após ano, continuam impávidas perante os olhos impávidos de todos, a desaparecer lentamente sob o nosso olhar! *Coordenadora do Museu de Lisboa – Teatro Romano / EGEAC (CML)

Bibliografia: FERNANDES, Lídia (1997) – Capitéis Romanos da Lusitania Ocidental. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. 4 vols. Dissertação de Mestrado em História de Arte. FERNANDES, Lídia (2002) - Sobre dois capitéis de Lisboa. Conimbriga. Coimbra: XLI, p. 237-256. FERNANDES, Lídia (2011) – A decoração arquitectónica de época romana do municipium olisiponense. Revista Portuguesa de Arqueologia. 14, p. 263-311 FERNANDES, L.; MARQUES, António; FILIPE, Victor; CALADO, Marco (2006) - Intervenção arqueológica na Rua dos Bacalhoeiros (Lisboa, 2005/2006). Revista Almadan, nº 14, 2006, p. 60-65 FERNANDES, Lídia; MARQUES, António; FILIPE, Victor; CALADO, Marco (2011) - A transformação de produtos piscícolas durante a Época Romana em Olisipo: o núcleo da Rua dos Bacalhoeiros (Lisboa). Revista Portuguesa de Arqueologia, 2011, vol. 14, p. 239-261 SILVA, Vieira da (1944) - Epigrafia de Olisipo. Ed. CML, VALE, Ana; FERNANDES, L. (1994) - Intervenção Arqueológica no Largo de Stº António da Sé. Almadan. Centro de Arqueologia de Almada, IIª série. 3, p. 109


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TODOS SOMOS MECENAS AJUDE O MNAA A RESTAURAR O «PRESÉPIO DOS MARQUESES DE BELAS»

Adquirido em 1937 por José de Figueiredo, primeiro diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, este presépio pertencia na altura a Sebastião de Carvalho Daun e Lorena, descendente do Marquês de Pombal. É conhecido ainda hoje por «Presépio dos Marqueses de Belas», provavelmente por ter sido obra dirigida pelo escultor Joaquim José de Barros, dito Barros Laborão, de quem o Marquês era mecenas. Na verdade, a documentação conhecida mostra que o presépio foi encomendado a Barros Laborão, no final do século XVIII, por José Joaquim de Castro, um colecionador de Lisboa, não tendo nunca pertencido aos marqueses de Belas. Obra de transição, com características ainda do século XVIII mas com alguns apontamentos modernos, é o maior de todos os presépios da coleção do MNAA. É também o único que não foi ainda intervencionado. Pela sua monumentalidade (358 x 422 x 162 cm), a conservação e restauro deste presépio – limpeza e consolidação das suas mais de 300 peças de barro cozido policromado, do cenário que as envolve e da «maquineta», ou armário, que o guarda – é um processo minucioso e complexo.

Com o seu contributo, pequeno ou grande, ajude-nos a reunir os €40.000 necessários para restaurar este presépio.

MODALIDADES DE PAGAMENTO – EM DINHEIRO: Museu Nacional de Arte Antiga (caixa do GAMNAA) – TRANSFERÊNCIA BANCÁRIA: Grupo dos Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga IBAN: PT50.0036.0458.99106001472.91 BIC/SWIFT: MPIOPTPL

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Declaração para efeitos fiscais, por favor, contactar: clarasousa@mnaa.dgpc.pt (mencionar nome, morada, NIF e enviar comprovativo da comparticipação)


RETRATOS DO PATRIMÓNIO Lisboa 4 - Monos 0 por Pedro Mascarenhas Cassiano Neves

No rescaldo dos 4 – 2 da final do Mundial, sabe bem recordar a recente goleada ocorrida ao longo de mais de um mês, quando quatro importantíssimas decisões, três das quais judiciais, arrasaram quatro crimes Lesa-Património que iriam colocar em risco um mesmo número de espaços, de relevância capital, de Lisboa, dando assim um novo alento a todos aqueles que se batem pela defesa da cidade e abrindo uma janela de esperança de que “alguma coisa está a mudar”!

Agora que o processo voltou à estaca zero e uma construção alternativa é economicamente inviável, a não ser que se repitam as ilegalidades e prossiga a telenovela, está nas mãos da CML a possibilidade de, através de uma permuta (como aconteceu com as Torres do Tejo e o quarteirão da Versailles com Abecasis), tomar posse do terreno devoluto e transformá-lo naquilo que toda a gente exige: um jardim!

Corria ainda o mês de Maio quando, após uma constestação pública sem precedentes, por deliberação do Ministério Público, o “Mono do Rato”, um edifício que antes de o ser já era tão famoso como a Torre de Belém ou os Jerónimos, mas pelas piores razões, foi definitivamente atirado para o caixote do lixo!

Este jardim daria continuidade ao soberbo jardim suspenso do Palácio Palmela, agora a descoberto, e teria um prolongamento nas árvores de grande porte da Rua Alexandre Herculano. O edificado monumental acima seria valorizado e passaria a ser uma peça fundamental na reconversão do agora caótico Largo do Rato.

Aprovado em 2005 e licenciado em 2010, o processo do “Mono”, abrangeu os mandatos de quatro Presidentes, Santana Lopes; Carmona Rodrigues; António Costa e Fernando Medina e implica directamente os três responsáveis urbanísticos que desde o inicio do século digladiaram ferozmente entre si para ver quem mais “dava cabo de Lisboa”: Eduarda Napoleão; Gabriela Seara e Manuel Salgado.

Nos inícios de Junho surgiu a segunda boa notícia quando se soube que a CML chumbara o projecto, também ilegal e muito contestado, que visava a destruição de um invulgar edifício de meados de oitocentos na Rua do Pau da Bandeira e a sua substituição por um prédio de quatro andares com garagem do arquitecto Gonçalo Byrne, que no seguimento da escandalosa demolição da emblemática casa da família Pereira Coutinho na Rua da Lapa, da também setecentista Casa Nobre que logo a seguir faz esquina com a Rua das Trinas e de uma outra casa datada de 1757 (!), entre muitos outros casos, seria mais um atentado ao martirizado Bairro da Lapa.

Para além da total falta de senso, e de gosto, em todo este processo, uma autêntica telenovela, houve de tudo, desde grosseiras violações do PDM e flagrante exclusão da área abrangida pelo Plano de Pormenor da Avenida da Liberdade, que acaba imediatamente antes, até à adulteração de números e falsificação de imagens. A recente destruição do simpático prédio “Dona Maria”, que era o primeiro da Rua do Salitre e iniciava uma frente de quarteirão, de onze edifícios, notável e intocada, foi o corolário destes malabarismos.

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tecentista de Carlos Mardel, o Palácio Palmela, a Fábrica Pombalina das Sedas, a Sinagoga e o Prédio Prémio Valmor de Ventura Terra e a Garagem Auto-Palace, também dos inícios do século XX, foi argumento suficiente para, logo desde o início, a Direcção Geral do Património e a Câmara de Lisboa fazerem aquilo que tinham obrigação de fazer.

Projectado pelos arquitectos Valsassina e Ayres Mateus para o topo nascente do Largo do Rato, um espaço emblemático onde se destaca o grande Convento seiscentista e o magnífico Palácio Praia e Monforte (que já devia estar classificado) que se encontra arquitectonicamente preservado, pois o único edifício recente, o prédio de gaveto de quatro andares, anos 50, dos Correios, com enorme sobriedade voluntariamente se “apaga” da envolvente, o “Mono do Rato”, pelo contrário, teria um impacto brutal sobre uma vasta zona citadina e nem o facto de esmagar seis (!!!) Monumentos Classificados, pois ficaria paredes meias com o Chafariz se-

Fazendo o gaveto da Rua do Pau da Bandeira com a Rua do Prior, o esplêndido Palácio dos Condes de Nova Goa, exemplarmente conservado pelos seus proprietários (e que também devia estar classificado nacionalmente), integra um logradouro composto por um jardim e a referida construção “romântica” de dois pisos, hoje a céu aberto, que inicialmente terá sido uma capela e foi depois a cocheira. Sendo um dos poucos conjuntos Palácio-jardim-cocheira sobreviventes no centro histórico, a decisão da CML, que repete duas outras no mesmo sentido, de obrigar à integral reconstrução, com a mesma volumetria e características, é pois de saudar, estando o Município de Parabéns. Também em Junho os jornais anunciaram com grande alarido aquela que foi a terceira victória, para mim a mais relevante pelo seu impacto histórico, a de que o Tribunal Central Administrativo do Sul, substituindo-se a uma negligen-


Coroada pela Alcáçova e de braço dado com a Costa do Castelo, a deslumbrante encosta de Alfama que se debruça sobre o Tejo, é o berço de Lisboa. Com uma ocupação com mais de dois mil anos, Alfama conheceu a presença Romana, foi re-desenhada pelos mouros, que lhe deram o nome e a partir da reconquista viveu intensamente a história de Portugal. Resistiu quase incólume ao Terramoto de 1755 e não foi atingida pelo enorme Incêndio que se seguiu e destruiu grande parte da cidade, chegando aos nossos dias praticamente intocada. Nos anos 40 um plano urbanístico criminoso pretendeu retalhá-la “a regra e esquadro” e por isso um grupo de cidadãos, que incluía os mais notáveis olisipógrafos, fundou os Amigos de Lisboa, para que tal não acontecesse. E mais uma vez Alfama foi salva! *ver numero 0 da Revista Embora contendo belíssimas Igrejas, magníficos Palácios e formosos Chafarizes, o que torna Alfama única é o seu todo, um conjunto urbanístico, e também de pessoas, já agora, extraordinariamente homogéneo e conservado, no qual um sem número de becos e de ruelas, que chegam ser tão estreitas que os telhados tocam entre si, constituem um emaranhado sem fim que é também pontoado por pequenos Largos de onde se avista o rio. Por tudo isto, a construção do “Mono de Alfama”, um projecto da arquitecta Graça Bachman, paredes meias com a esplendida Igreja de São Miguel, um Monumento Nacional (!), e que desvirtuaria por completo o Largo fronteiro com o mesmo nome, constituiria possivelmente o maior crime patrimonial em Lisboa desde a selvática destruição da Mouraria em 1946! Inconformada com o facto consumado, a mentora do Museu Judaico, Esther Mucznik, dispara desesperadamente para todo o lado e se num dia inventa à pressa um grupo de amigos do Museu onde, pasme-se, o seu nome e o da referida arquitecta que são fundadoras, estão incluídos, no outro publica um artigo onde com uma lata descomunal afirma que o Museu tem “o apoio entusiástico de milhares de pessoas” quando o que se passa é exatamente o contrário: a população de Alfama não quer o Museu “ali e assim”, um abaixo-assinado para o mesmo efeito reuniu em pouco mais de uma semana para lá de 700 assinaturas e só uma meia dúzia de “iluminados” o defendem, porque com certeza acham que Alfama é sua. Mas não é, como não é só dos Lisboetas ou só dos Portugueses. Alfama é Património da Humanidade! Resta agora à CML, que teve um papel deplorável neste processo, além de pagar as custas a que foi condenada, fazer duas coisas: reconstruir os edifícios que foram parcialmente destruídos (o que é fácil pois estão fotografados) e destiná-los àquilo que sempre foram, habitação local, e arranjar, mas agora com a participação da população, um espaço alternativo digno ali

perto para a instalação do Museu Judaico. Porque nunca ninguém pôs em causa a sua enorme mais-valia para Lisboa! A goleada final (4 - 0) concretizou-se já nos inícios de Julho, quando numa decisão muito semelhante à anterior, o mesmo Tribunal liquidou também irreversivelmente mais um mamarracho, que desta vez fora projectado pelo arquitecto Souto de Moura (ou por alguém que se faz passar por ele, pois está nos antípodas daquilo que ainda recentemente defendeu, em excelente entrevista à RTP 2), para a belíssima e integralmente conservada Praça das Flores. Sem qualquer pretensão de aparato, a Praça das Flores, de dimensão razoável, é emoldurada por um casario homogéneo dos seculos XVIII e XIX e tem ao centro um aprazível jardim romântico, assumindo-se como assim um dos mais bonitos postais da Lisboa oitocentista, estando por isso incluída, como conjunto, na Carta do Património da Câmara. Só que de forma mais uma vez vergonhosa, essa mesma CML, violando a sua própria lei e ignorando os pareceres dos seus técnicos, duas práticas que se têm tornado assustadoramente frequentes, decidiu autorizar o referido Mono, que a não ser travado seria uma machadada fatal em tão valioso espaço. Pelo meio fica a demolição de mais uma harmoniosa casa “Dona Maria” (é inacreditável a facilidade com que em Lisboa se deitam a baixo e adulteram edifícios com 200 anos!), uma selvageria que nos traz à cabeça a mediática destruição ocorrida há alguns anos da Casa de Almeida Garrett em Santa Isabel, pois esta da Praça das Flores foi residência de Norte Júnior, um dos maiores aquitectos portugueses com obra relevante em Lisboa. Para além do pagamento das custas judiciais (o que já se começa a tornar um hábito), exige-se agora à CML que obrigue a que a fachada seja minuciosamente reconstruída (o que também é fácil), reparando-se assim uma escandalosa ilegalidade e devolvendo à Praça a sua harmonia e beleza! Estas quatro victórias de Lisboa sobre a ganância de uns e a criminosa cumplicidade de outros, são quatro gotas no oceano da destruição e descaracterização que assola uma Lisboa onde a CML promove o fachadismo fazendo-o passar por reabilitação e onde nenhum recanto, por mais valioso que seja, está a salvo. Mas, como dissemos no início, reforça a nossa convicção de que “alguma coisa está a mudar”! P.S. Os gravíssimos casos do Rato; de Alfama e da Praça das Flores com um desenlace judicial praticamente em simultâneo, mancham vergonhosamente a imagem da CML e em qualquer cidade civilizada levariam, senão à queda do executivo, pelo menos a um pedido de demissão ou à exoneração do responsável máximo do urbanismo. Mas em Portugal a dignidade é um bem cada vez mais escasso e a culpa, quase sempre, morre solteira!

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te DGPC e a uma CML, carregada de culpas, arrasara de alto a baixo, também em definitivo, o Museu Judaico, um mamarracho indescritível que estava projectado para o Largo de São Miguel, em pleno coração de Alfama!


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Clรกssico

Tradicional

Cosmopolita

Alternativo

Hipster

Multicultural

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Para entrar

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O Nosso Guia de Lisboa


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ZR - Zona Ribeirinha AP- Alcântara | Pampulha COA - Campo de Ourique | Amoreiras SLM - Santos | Lapa | Madragoa PR - Príncipe Real BCS- Bica | Cais do Sodré BA - Bairro Alto AV - Avenida BC - Baixa Chiado CA - Castelo | Alfama GM- Graça | Mouraria AR - Almirante Reis BXM - Beato | Xabregas | Marvila FC - Fora do centro [135]

BCS


CLÁSSICO GAMBRINUS | AV RESTAURANTE

O clássico dos clássicos. A melhor barra e o melhor serviço de Lisboa, que nos faz sentir príncipes ainda que apenas comamos um prego e uns magníficos croquetes com mostarda da casa. Se lhe apetecer algo fora da carta, peça, quem sabe poderá ser surpreendido. Todos os dias das 12h00 à 1h30 Rua das Portas de Santo Antão, 23 1150-264 Lisboa N 38° 42’ 55.05’’ W 9° 8’ 23.27’’ +351 213 421 466 www.gambrinuslisboa.com

COELHO DA ROCHA | COA RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Rua Coelho da Rocha, 104 1350-079 Lisboa N 38° 42’ 59’’ W 9° 10’ 0’’ +351 213 900 855 www.facebook.com/restaurantecoelhodarocha

PASTELARIA BÉNARD | BC PASTELARIA

Segunda a Sábado das 8h00 às 23h00 Rua Garrett, 104 1200-205 Lisboa N 38° 42’ 38.59’’ W 9° 8’ 30.68’’ +351 213 473 133 www.facebook.com/PastelariaBenard

BAR SNOB | PR BAR

No Snob quase nada mudou. O bife continua bom e o cozido, às sextas, irrepreensível e o Sr. Albino cortês e atencioso como sempre. O quase é reservado ao famoso gelo à Snob, que era picado de grandes blocos e que deixou de existir para dar lugar ao gelo de máquina, mas nem esta pequena contrariedade retira vontade de nos perdermos noite fora em conversas bem regadas.

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Todos os dias das 16h00 às 03h00 Rua do Século, 178 1200-438 Lisboa N 38° 42’ 54.67’’ W 9° 8’ 51.41’’ +351 213 463 723 www.snobarestaurante.com

CASA PEREIRA | BC CASA DE CAFÉS

Segunda a Sábado das 9h30 às 18h30 Rua Garrett, 38 1200-028 Lisboa N 38° 42’ 39.25’’ W 9° 8’ 25.68’’ +351 213 426 694 www.facebook.com/casapereira

BAR PROCÓPIO | COA BAR

O mais antigo dos clássicos bares lisboetas voltou a estar na moda e ainda bem. Com o melhor barman da cidade, o Sr. Luís, sempre atento aos pormenores e um ambiente familiar, o bar de Alice Pinto Coelho por onde ainda é habitual passarem artistas das mais diversas áreas é o mais icónico da capital. Segunda a Sexta das 18h00 às 03h00 Sábado a partir das 21h00 Alto de S. Francisco, 21 A 1250-096 Lisboa N 38° 43’ 18.70’’ W 9° 9’ 18.60’’ +351 213 852 851 www.barprocopio.com

LUVARIA ULISSES | BC LOJA

Segunda a Sábado das 10h00 às 19h00 Rua do Cramo, 87-A 1200-093 Lisboa N 38° 42’ 44.50’’ W 9° 8’ 23.02’’ +351 213 420 295 info@luvariaulisses.com www.luvariaulisses.com

VELLAS DO LORETO | BCS LOJA

Segunda a Domingo das 9h00 às 19h00 Rua do Loreto, 53 1200-036 Lisboa N 38° 42’ 38.14” W 9° 8’ 41.77’’ +351 213 425 387 www.cazavellasloreto.com.pt

BRITISH BAR | BCS BAR

Segunda a Sábado das 12h00 às 04h00 Rua Bernardino Costa, 52 1200-053 Lisboa N 38° 42’ 24.91’’ W 9° 8’ 35.37’’ +351 213 422 367


PÁTEO 13 | CA RESTAURANTE

Sardinhas e muito mais, num restaurante que ocupa um delicioso larguinho de Alfama, onde locais e turistas convivem alegremente. Perfeito para as noites quentes de verão. Terça a Domingo das 11h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Calçadinha de Santo Estêvão, 13 1100-502 Lisboa N 38° 42’ 42.15’’ W 9° 7’ 39.90’’ +351 218 882 325 www.facebook.com/PATEO13

TABERNA DA RUA DAS FLORES | BCS RESTAURANTE

Um dos nossos restaurantes preferidos de Lisboa. Excelente comida, ambiente descontraído e um único e enorme problema…não aceitam reserva e está quase sempre cheio. Tente chegar cedo e deixar o nome antes da lista fechar. Vale mesmo a pena. Segunda a Sexta das 12h00 às 00h00 Sábado das 18h00 às 00h00 Rua das Flores, 103 1200-194 Lisboa N 38° 42’ 36.19’’ W 9° 8’ 36.99’’

CONSERVEIRA DE LISBOA | CA LOJA

Há uma pequena loja no Mercado da Ribeira, mas não é comparável à experíencia da loja original onde nos podemos perder no aconselhamento entre sardinha e cavalas, em limão ou tomate picante, todas dentro de embalagens tão deliciosamente vintage como é delicioso o seu conteúdo. Uma instituição. Segunda a Sábado das 9h00 às 19h00 Rua dos Bacalhoeiros, 34 1100-071 Lisboa N 38° 42’ 33.32’’ W 9° 8’ 4.99’’ +351 218 864 009 www.conserveiradelisboa.pt

GINJINHA SEM RIVAL | BC BAR

Todos os dias das 7h00 às 00h00 Rua das Portas de Santo Antão, 7 1150-268 Lisboa N 38° 42’ 54.31’’ W 9° 8’ 22.60’’ +351 213 468 231 www.facebook.com/GinjaSemRivaleEduardino

MANTEIGARIA SILVA | BC CHARCUTARIA

Segunda a Sábado das 9h00 às 19h30 Rua Dom Antão de Almada, 1 D 1100-197 Lisboa N 38° 42’ 50.93’’ W 9° 8’ 19.38’’ +351 213 424 905 www.manteigariasilva.pt

ALUNOS DE APOLO | COA DANÇAS DE SALÃO

Rua Silva Carvalho, 225 1250-250 Lisboa N 38° 43’ 13.63’’ W 9° 9’ 40.57’’ +351 213 885 366 www.alunosdeapolo.com

MESA DE FRADES | CA CASA DE FADOS

Segunda a Sábado das 20h00 às 2h30 Rua dos Remédios, 139 A 1100-445 Lisboa N 38° 42’ 46.90’’ W 9° 7’ 34.03’’ +351 917 029 436 www.facebook.com/mesadefradeslisboa

DAS FLORES | BCS RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 15h30 Rua das Flores, 76 1200-015 Lisboa N 34° 42’ 33.16” W 9° 8’ 36.64” +351 213 428 828

A VIDA PORTUGUESA | AR LOJA

Qualquer uma das lojas é um antro de bom gosto e perdição, mas a do Intendente é só uma das mais belas lojas de Lisboa. Tudo é português e ficaria sempre tão bem em nossa casa. Sabonetes Ach. Brito e Claus, faiança Bordallo, Cadernos Emílio Braga e tantos outros produtos ignorados durante anos até que esta maravilhosa loja os ressuscitou. Mais que uma loja isto é verdadeiro serviço público. Loja Chiado: Todos os dias das 10h30 às 19h30 Largo do Intendente Pina Manique, 23 1100-285 Lisboa N 38° 43’ 15’’ W 9° 8’ 5’’ +351 211 974 512 lojaintendente@avidaportuguesa.com

ROSA DA BICA | BCS RESTAURANTE

Segunda a Quinta das 10h00 às 00h00 Sexta a Sábado das 10h00 às 2h00 Domingo das 11h00 às 17h00 Rua dos Mastros, 23 1200-263 Lisboa N 38° 42’ 33.26” W 9° 9’ 8.30” +351 961 833 868 www.facebook.com/Rosa-Da-Bica

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TRADICIONAL


COSMOPOLITA LUX – FRÁGIL | ZR PAP’AÇORDA | BCS RESTAURANTE

Se as paredes da sua anterior localização no Bairro Alto falassem, ficaríamos a saber a história da Lisboa sofisticada dos últimos 30 anos. Agora no Mercado da Ribeira, continua a servir deliciosa comida portuguesa, sendo imperdíveis os fritos, que evitamos noutros lugares, em particular os peixes, sejam jaquinzinhos, ou sável acompanhado de açorda de ovas. Ainda é um lugar para ver e ser visto. Terça a Quarta das 12h00 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h00 às 2h00 Domingo das 12h00 às 00h00 Avenida 24 de Julho, 49 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 24.28’’ W 9° 8’ 45.79’’ +351 213 464 811 www.papacorda.com

GALERIAS DE SÃO BENTO | BCS LOJA

Rua de São Bento, 25-35 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 38.87’’ W 9° 9’ 9.59’’ +351 912 984 929 www.galeriasdesaobento.com

MINI BAR | BC RESTAURANTE

Segunda a Domingo das 19h00 às 02h00 Rua António Maria Cardoso, 58 1200-027 Lisboa N 38° 42’ 33.93’’ W 9° 8’ 32.69’’ + 351 211 305 393 www.minipabar.pt

COMPANHIA PORTUGUEZA DO CHÁ | BCS

Avenida Infante D. Henrique, Armazém A Cais da Pedra de Santa Apolónia 1950-376 Lisboa N 38° 44’ 48.62’’ W 9° 6’ 17.36’’ +351 218 820 890 www.luxfragil.com

BY THE WINE | BCS

RESTAURANTE/WINE BAR Com uma belíssima decoração, podemos aqui encontrar o portfolio da José Maria da Fonseca, o que abre belíssimas possibilidades, em especial se optarmos pelos moscatéis. A acompanhar temos tapas, como o delicioso queijo de Azeitão. Também pode jantar na mesa, mas na Bica preferimos a barra, com atendimento sempre simpático, ao final da tarde. Segunda das 18h00 às 00h00 Terça a Domingo das 12h00 às 00h00 Rua das Flores, 41-43 1200-014 Lisboa N 38° 42’ 32.56’’ W 9° 8’ 37.22’’ +351 213 420 319 www.jmf.pt

CINCO LOUNGE | PR BAR

Lisboa não tinha tradição de cocktails ou bares dos mesmos. Não tinha, até abrir o Cinco que lentamente conquistou a cidade e se tornou a referência cocketeleira. A dificuldade será escolher o que lhe apetece por entre a enorme lista. O melhor é pedir uma sugestão e deixar-se ir. Segunda a Domingo das 21h00 às 02h00 Rua Ruben A Leitão, 17 A 1200-392 Lisboa N 38° 42’ 51’’ W 9° 8’ 58.99’’ +352 914 668 242 www.cincolounge.com

INFAME | AR

BAR

RESTAURANTE/BAR

De repente Lisboa civilizou-se e passou a ter um lugar para comprar chá, daqueles que apetece mesmo. Onde ficamos a cheirar lotes evitando pedir um saquinho de cada um. Uma viagem pelos aromas que pode ser rematada com uma geleia de chá para lanches mais gulosos.

Restaurante: Segunda a Quinta das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 22h30 Sexta a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Domingo das 11h00 às 00h00

Segunda a Sábado das 10h30 às 19h30 Rua do Poço dos Negros, 123 1200-649 Lisboa N 38° 42’ 35.28” W 9° 9’ 6.36” +351 213 951 614

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DISCOTECA

Bar: Domingo a Quinta das 10h30 às 00h00 Sexta a Sábado das 10h30 às 2h00 Largo do Intendente Pina Manique, 4 1100-285 Lisboa N 38° 43’ 13.76’’ W 9° 8’ 7.04’’ +351 218 804 008 www.infame.pt


HIPSTER QUIOSQUE DO OLIVEIRA | PR

GERADOR

QUIOSQUE PRÍNCIPE REAL

ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Ponto de encontro de fim de tarde ou princípio de noite para a fauna do Príncipe Real e Bairro Alto. Espere um ambiente cool misturado com turistas.

Seja nos Trampolim (iniciativas em redor de uma praça ou bairro), Ignição (iniciativas mensais surpresa em espaços inusitados), ou na sua revista, esta associação cultural não para de animar Lisboa com uma abordagem dessacralizada, moderna e criativa da cultura portuguesa.

Aberto 24h00 Praça Príncipe Real 1250-301 Lisboa N 38° 42’ 59.99’’ W 9° 8’ 53.87’’ +351 213 428 334

www.gerador.eu

FÁBRICA MUSA | BXM BAR

LX FACTORY | AP SÍTIO

O templo hipster e cool da cidade. Para comer, beber, comprar ou simplesmente passear. Rua Rodrigues de Faria, 103 1300-501 Lisboa N 38° 42’ 12.69’’ W 9° 10’ 43.84’’ +351 213 143 399 www.lxfactory.com

Segunda a Quinta das 16h00 às 23h00 Sexta e Sábado das 16h00 às 00h00 Domingo das 16h00 às 23h00 Rua do Açúcar, 83 1950-006 Lisboa N 38° 44’ 19.90” W 9° 6’ 11.00” +351 213 877 777

ANJOS 70 | FC

CAFÉ/GALERIA DE ARTE

GELATARIA DAVVERO | BCS GELATARIA

Os melhores gelados de Lisboa. Terça a Quinta e Domingo das 13h00 às 20h00 Sexta a Sábado das 13h00 às 00h00 Avenida Dom Carlos I, 39 1200-646 Lisboa N 38° 42’ 26.72’’ W 9° 9’ 10.42’’ +351 929 165 208 info@gelatodavvero.com www.gelatodavvero.com

TABERNÁCULO | BCS BAR

Todos os dias das 14h00 às 2h00 Rua de São Paulo, 218 Cais de sodré, Lisboa N 38° 42’ 30.76’’ W 9° 8’ 47.54” +351 213 470 216 +351 916 735 926 info@tabernaculo.pt www.tabernaculo.pt

Segunda das 17h00 às 23h00 Quarta a Sexta das 17h00 às 23h00 Sábado e Domingo das 15h00 às 23h00 Regueirão Dos Anjos, 70 1150-011 Lisboa N 38° 43’ 31.38” W 9° 8’ 9.02” www.anjos70.org

LOUNGE | BCS BAR

Sempre óptima música em bom ambiente e com o horário de fecho bem conveniente (4h00). O melhor prolongamento da noite do Bairro Alto ou Cais do Sodré, antes de decidir se a noite é para ir até ao fim. Segunda a Domingo das 22h00 às 04h00 Rua da Moeda, 1 - Porta O/P 1200-275 Lisboa N 38° 42’ 28.85’’ W 9° 8’ 49.78’’ +351 213 973 730 www.loungelisboa.com.pt/blog

MUSIC BOX | BCS ESPECTÁCULOS

BAR

Terça a Domingo das 11h00 à 01h00 Rua Ribeira Nova, 36 1200-371 Lisboa N 38° 42’ 27.39’’ W 9° 8’ 43.76’’ +351 213 461 279 www.cafetati.blogspot.pt

Segunda a Sábado das 23h00 às 06h00 Rua Nova do Carvalho, 24 1200-292 Lisboa N 38° 42’ 25.83’’ W 9° 8’ 36.68’’ +351 213 473 188 www.musicboxlisboa.com

VODAFONE FM www.vodafone.fm

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CAFÉ TATI | BCS


ALTERNATIVO

DAMAS | GM

BAR/SALA DE CONCERTOS A nova sala de concertos que é um bar, ou vice-versa. A melhor programação alternativa da cidade.

CREW HASSAN | AV ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Segunda a Domingo das 12h00 às 24h00 Rua Portas de Santo Antão, 159 1150-269 Lisboa N 38° 43’ 2.46’’ W 6° 8’ 29.73’’ +351 218 120 373 +351 962 233 416 www.facebook.com/ccrewhassan

Terça a Quinta das 13h00 às 2h00 Sexta e Sábado das 13h00 às 4h00 Domingo das 17h00 às 24h00 Rua da Voz do Operário, 60 1100-621 Lisboa N 38° 42’ 59.31’’ W 9° 7’ 45.99’’ +351 964 964 416

CASA INDEPENDENTE | AR BAR

FÁBRICA BRAÇO DE PRATA | BXM

ASSOCIAÇÃO CULTURAL Terça das 20h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 18h00 às 2h00 Sexta das 18h00 às 4h00 Sábado das 14h00 às 4h00 Rua da Fábrica de Material de Guerra, 1 1950-128 Lisboa N 38° 44’ 37’’ W 9° 6’ 4.99’’ +351 965 518 068 | +351 925 864 579 www.bracodeprata.com

Terça a Quinta das 14h00 às 23h45 Sexta das 14h00 às 2h00 Sábado das 12h00 às 2h00 Largo do Intendente Pina Manique, 45 1100-395 Lisboa N 38° 43’ 15.09’’ W 9° 8’ 4.77’’ +351 218 872 842 ww.casaindependente.com

BAIRRUS BODEGA | BA BAR

Rua da Barroca, 3 1200-106 Lisboa N 38° 42’ 39.77”, W 9° 8’ 40.42” +351 213 469 060

MIRADOURO DO ADAMASTOR | BCS ESPLANADA

O mítico Adamastor, onde o por do sol é mais bonito, o quiosque serve bebidas e tostas a preços para portugueses e onde o cheiro de substâncias ilícitas envolve um ambiente descontraído onde se cruzam músicos de rua, turistas e lisboetas. Segunda a Domingo das 10h00 às 4h00 Miradouro de Rua de Santa Catarina, 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 34.10’’ W 9° 8’ 51.56’’ +351 213 430 582

CHAPITÔ | CA Costa do Castelo, 1/7 1149-079 Lisboa N 38° 42’ 41.69’’ W 9° 8’ 1.77’’ + 351 218 855 550 www.chapito.org

COZINHA POPULAR DA MOURARIA | GM

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RESTAURANTE

Terça, Quarta e Sábado das 20h30 às 00h00 Quinta a Sexta das 12h00 às 15h00 e das 20h30 às 00h00 Rua das Olarias, 5 1100-012 Lisboa N 38° 43’ 3.51” W 9° 8’ 0.38” +351 926 520 568 facebook.com/CozinhaPopularDaMouraria

49 | BA BAR

Também conhecido como o bar da Zé dos Bois, instituição da cultura alternativa lisboeta. Bons DJ’s e um ambiente bem descontraído onde se cruzam faunas diferentes em amena convivência. Quarta e Quinta das 22h00 às 2h00 Sexta e Sábado das 22h00 às 3h00 Rua da Barroca, 49 1200-043 Lisboa N 38° 42’ 41.93’’ W 9° 8’ 40.48’’ +351 213 430 205

FINALMENTE | PR BAR

O bar gay mais antigo da cidade, por onde passou meia Lisboa nos tempos em que a noite a n que mantém um show de travestis em periodicidade diária. Para uma noite realmente diferente. Vá numa segunda-feira quando a noite parece morta e divirta-se com as audições do “lugar às novas”. Segunda a Domingo 23h59 às 6h00 Rua de Palmeiras, 38 1200-313 Lisboa N 38° 42’ 53.12” W 9° 8’ 59.60’’ +351 213 479 923 info@finalmenteclub.com www.finalmenteclub.com


MULTICULTURAL EL ULTIMO TANGO | BA

CAFEH TEHRAN | PR

Um dos melhores bifes de Lisboa, de carne argentina, grelhado, acompanhados de batata assada com manteiga de ervas e salada de agrião. Tudo em ambiente calmo, para fumadores e com o melhor tango do mundo como banda sonora.

Das 12h00 às 00h00 Encerra às Terças-Feiras Praça das Flores, 40 1200-257 Lisboa N 38° 42’ 54.76” W 9° 9’ 6.95” +351 210 736 530 www.facebook.com/CafehTehran

RESTAURANTE

Segunda a Quinta das 19h30 às 23h00 Sexta e Sábado das 19h30 às 23h30 Rua do Diário de Notícias, 62 1200 Lisboa N 38° 42’ 43.96’’ W 9° 8’ 38.45’’ +351 213 420 341

ÁGUA DE BEBER | BCS BAR

RESTAURANTE

BELLA CIAO | BC RESTAURANTE

Não espere pizzas nem massa com ananás. Aqui a comida é italiana de Itália, verdadeira cuccina della mamma. Não perca a massa com bróculos e o melhor tiramisu de Lisboa.

Quarta, Quinta e Domingo das 18h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 3h00 Travessa de São Paulo, 8 1200-431 Lisboa N 38° 42’ 26.42” W 9° 8’ 34.28” +351 214 039 956

Segunda a Quinta das 11h00 às 16h00 e das 19h00 às 00h00 Sexta e Sábado das 11h00 às 16h00 e das 19h00 à 01h00 Rua do Crucifixo, 21 1100-548 Lisboa N 38° 42’ 34’’ W 9° 8’ 19’’ +351 210 935 708 www.cantinabellaciao.wixsite.com/bellaciao

CASA PAU-BRASIL | PR

CAXEMIRA | BC

Aberto das 12h00 às 20h00 Sábado e Domingo até às 18h00 Rua da Escola Politécnica, 42 1250-096 Lisboa N 38° 43’ 2.65”, W 9° 8’ 59.75” +351 213 420 954

O melhor indiano de Lisboa, por isso sempre cheio. Não se assuste com a entrada, suba ao primeiro andar, não perca as chamuças e vá provando os pratos. Sim, porque vai voltar várias vezes.

PISTOLA Y CORAZÓN | BCS

1100 Lisboa N 38° 42’ 48’’ W 9° 8’ 12’’ +351 218 865 486 | +351 218 874 791

RESTAURANTE

Vá cedo, ou prepare-se para esperar. Aqui não há reservas, mas margaritas gulosas que não se consegue parar de beber. E tacos, muitos e variados, num ambiente animado e ruidoso. Almoço: Terça a Sexta das 12h00 às 15h00 Jantar: Segunda a Domingo das 18h00 às 00h00 Almoço: Domingo das 12h00 às 15h00 Rua da Boavista, 16 1200-427 Lisboa N 38° 42’ 31.14’’ W 9° 8’ 51.77’’ +351 213 420 482 www.pistolaycorazon.com

RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 18h30 às 22h00 Rua Condes de Monsanto, 4

PIZZARIA LUCCA | FC PIZZARIA

Todos os dias das 12h00 às 15h30 e das 19h00 à 01h00 Travessa Henrique Cardoso, 19-B 1700-342 Lisboa N 38° 44’ 45.25’’ W 9° 8’ 28.89’’ +351 217 972 687 www.lucca.pt

IN BOCCA AL LUPO | PR PIZZARIA

Quarta a Domingo 19h00 às 23h00 Rua Manuel Bernardes, 5 1200-009 Lisboa N 38° 42’ 53.92’’ W 9° 9’ 8.38” +351 213 900 582 reservas@inboccallupo.pt www.inboccaallupo.pt

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LOJA


Ana Pérez-Quiroga Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade

Vista Hotel do Mar da praia Hotel do Mar visto da praia, com uma construção que se adapta organicamente ao terreno.

Vista Hotel do Mar bloco inferior Bloco inferior do Hotel do Mar, com 3 pisos de quartos e uma ligação à praia.

Vista Hotel do Mar bloco superior

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Bloco superior do Hotel do Mar, com 4 pisos de quartos e restaurante no topo deste bloco.


Hotel do Mar, Sesimbra Numa vila piscatĂłria tĂŁo perto de Lisboa

Vista da piscina Vista a partir de um dos quartos sobre a piscina e jardim.

Bar vista exterior Bar, vista exterior, baluarte em pedra, madeira e vidro, integrado no jardim.

Vista bar interior

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Bar na zona de entrada e barra do bar.


Vista bar interior Bar na zona do piano. Na parede escultura de João Cutileiro (1937), que tem algumas peças espalhadas pelo hotel.

Hall corredor Zona de estar em um dos corredores, com mobiliário Jalco, concebidos numa parceria entre Conceição e Silva e João Alcobia. Nas paredes gravuras de Pedro Leitão (1922-2009) produzidas pela Gravura – Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses. Existem inúmeras gravuras em todo o hotel, tanto nas zonas públicas como nos quartos.

Candeeiro varanda quarto

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Candeeiro na varanda de um dos quartos. Tendo sido executado na Fábrica Escola Irmãos Stephens.


Querubim Lapa + Manuel Rodrigues Placas cerâmicas de Querubim Lapa (1925-2016) executadas na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego. Existem diversas obras deste artista por todo o hotel. No vidro, logótipo do Hotel do Mar, de Manuel Rodrigues (1924-1965), designer responsável pela imagem gráfica.

Tapeçaria de João Tavares Tapeçarias de João Tavares (1908-1984) produzidas pelas Tapeçarias de Portalegre, com os icónicos motivos dos galos.

Golfinhos

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Golfinhos perto da costa. Ir vê-los é sempre uma experiência inesquecível.


Hotel do Mar, Sesimbra Numa vila piscatória tão perto de Lisboa

Francisco Conceição e Silva (1922-1982), arquiteto do projeto e conceção de mobiliário em parceria com João Alcobia, projeto de engenharia José Lampreia. Propriedade de João Alcobia e de Manuel e José Gonçalves. Concebido para ocupar organicamente a encosta em socalcos, o projeto do Hotel do Mar data de 1956 e a sua construção fez-se em 3 fases:

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1ª fase - começa em 1960 com inauguração em 1963, com zona bar/restaurante e 4 pisos com 70 quartos; 2ª fase – 1964 com construção do restaurante e salão de chá no topo do corpo dos quartos, de 2 piscinas circulares e discoteca por baixo da piscina grande; em 1966, construção de um bloco de quartos e de um outro restaurante ligando o hotel à Avenida do Atlântico, junto à praia; 3ª fase - anos 90, Al Baker, compra o hotel e amplia-o para o lado poente. Projeto da responsabilidade de Maurício Vasconcelos, antigo sócio de Conceição e Silva.


INCAPTURÁVEIS

por Francisco Mallmann

a história nos deve outra história o mistério dos olhos era antes o atlântico em caminho de retorno a canção por vocês não compreendida entoava único aviso

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seguimos incapturáveis


OUR LADY, AMONG US F OTO G R A F I A POR

RODRIGO CABRITA TEXTO P OR

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PAULO DUARTE S.J.


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Fátima, altar do mundo. No altar realizam-se sacrifícios. Palavra dura quando ouvida, carregando dor, peso, pena ou penas. No entanto, a profundidade do sacrifício significa tornar algo sagrado. Mais do que uma distinção com o profano, simplesmente é acentuar a força do transcendente em cada realidade que evoca o eterno. Pode ser uma imagem. Simples, kitsch, colorida, clássica, moderna ou antiquada, as imagens religiosas transportam para a fé ou preconceitos. Fico-me pela fé. De norte a sul de Portugal cruzamo-nos com imagens de Nossa Senhora de Fátima. O ar cândido e etéreo recorda o encontro com os Pastorinhos. Do nada, aos poucos, cresce a vastidão de gente que se aproxima, em muitos tons de inquietação e interrogação em busca de milagres, dessa terra sem tempo. “É mais fácil falar à Mãezinha do Céu!” “Ela é nossa e guia-nos!” “Tão boazinha!” As palavras simples mostram o afecto da fé. Mas, será apenas de gente humilde? A vastidão da diversidade social caracteriza os caminhos que levam milhares até onde velas se acenderão e serão elevadas em noites de 13 de Maio a Outubro. Durante o dia, vêem-se as flores florescidas, rodeadas de desejo de esperança.


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A devoção mariana é muito antiga. Para afirmar que o Filho das suas entranhas é o próprio Deus, os padres do Concílio de Éfeso, em 431, decretaram o dogma conhecido por Théotokos. Maria é a Mãe de Deus. Esta carga teológica é pesada para os humildes que nada percebem desse intelectualismo. Interessa a proximidade, que leva ao espalhar de muitas “Marias” ou “Nossas Senhoras”. Em Portugal, Fátima é a grande referência, mas… não se pode esquecer a Senhora da Conceição, padroeira do nosso país, a Senhora do Sameiro, a Senhora da Nazaré, a Senhora da Penha, a Senhora do Perpétuo Socorro, a Senhora do Loreto, a Senhora da Assunção, a Senhora do Carmo. Se sairmos do país, muitas mais vamos ainda encontrar. No entanto, Maria é só uma. A necessidade de encontrar muitas perspectivas identifica-se com os estados de sentir da vida ou de histórias de encontros e milagres. Para muitos, lenda, historietas sem sentido, oportunidades de negócio. Para milhares, os santuários marianos são como pontos de encontro de Paz individual e comunitária, de recolhimento, deixando que a sombra do sem sentido seja iluminada pela fé dos que não se cansam de buscar e questionar, pondo-se a caminho.


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Horas ou quilómetros de estrada e de silêncio. Acena-se à passagem de um colega, quem sabe amigo, de lá ou de cá, cúmplice desses silêncios prolongados acompanhados por Nossa Senhora de Fátima. Como bom português, há que tê-la por perto, enquanto fita o caminho dando bom augúrio à viagem. Guio e sou guiado quando me faço à estrada, transportando memórias e saudade. Atravessar o mundo é também atravessar-me, dando-me conta do altar que sou. Será que celebro em mim a grandeza da vida? Sigo em silêncio, umas vezes forçado, outras desejado de modo a aceder ao mistério da fé. A fé é ela mesma dinâmica, de caminho peregrinado em busca do que levo dentro e posso dar. O volante torna-se bastão orientador até à entrega final. A fé é ela mesma serviço. Esse serviço dinâmico aproxima mundos, “para ver a verdade para perder o medo” como afirma Sophia no seu poema “Para atravessar contigo os desertos mundo”. No final da viagem descarregarei cada encomenda, até ficar vazio e livre, e contarei as peripécias. Ou o silêncio de uma oração.


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- Podes ir pondo a mesa. O almoço está quase pronto. - Já vou. - Vais agora! Sempre a mesma coisa! Chama a tua avó! - Vó, vamos comer. - Oh, filho, já viste que vendem Nossas Senhoras pela televisão? Há que tempos não vou a Fátima. A última vez foi numa excursão organizada pela Junta. Cheguei lá e chorei. Chorei tanto, tanto. Lembrei-me do teu avô, havia pouco tempo que tinha morrido. Rezei o terço. Dizem que rezar o terço faz bem, aliviando a saudade. Às vezes tenho dúvidas se alivia mesmo. Já não sirvo para nada. - Lá está a avó com isso. - É verdade filho, de que adiantam os velhos? Tenho a sorte de estar aqui em casa. Quantos não estarão sós, a desejar morrer por sentirem na pele o abandono e tendo a televisão como única companhia? E, como se vê, vendem Nossas Senhoras. Ai a fé. A fé que nos valha. - O almoço está pronto! - A Vó sempre terá aqui mesa. Sempre.


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“O Verbo fez-se carne e montou a sua tenda entre nós.” É assim que S. João marca a encarnação. Na densidade da sarx, a humanidade deixa de ter separação com a divindade. As marcas de corpo falam de quem se é, em história e em presente que se abre também ao alto. A carne do mundo é espaço de Deus. Cada ser humano em corpo não é um objecto a descartar, senão a totalidade de quem se é. Deixa de haver acepção de pessoas em Deus, já que toda a carne humana é chamada à participação divina. A figura de Maria torna-se relevante para essa participação. Do seu sim, as entranhas fazem germinar vida apesar das tantas perguntas silenciosas que a acompanham na vida. No entanto, diznos S. Lucas que Ela guardava tudo no seu coração. Liga-se o alto de cada pessoa ao alto dos céus: o olhar de Maria que recorda a profunda passagem de Isaías: “Acaso pode uma mulher esquecer-se do seu bebé, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria. Eis que Eu gravei a tua imagem na palma das minhas mãos.”


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Em cada canto um canto, irrelevante sem que se dê conta. Mas ali está. Onde andarão cantos desses na história de cada pessoa? Muitos revestem-se em tons de roxo, invocando dores. Ou simplesmente a humidade em casa humilde. Deus é dos simples.


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No final de tarde sentou-se na esplanada. Pediu tremoços e uma mini bem fresca. De início, queria estar sozinho e deixar passar o tempo e o calor que não o deixava pensar. Aparece sempre mais alguém. Galhofa, palavrão, anedota, três gargalhadas e alguém saiu-se com esta: - Já repararam que o santo tem uma espada? Fitámos os azulejos. Tantas vezes ali parou e nunca tinha notado a espada. E as vestes. E os pastorinhos. E o brilho da santa. Damos tudo por adquirido e não reparamos. - Para que será a espada? - Vai ao google. Lá diz tudo. “são paulo espada” - O homem foi decapitado pela fé. - Como aqueles pelo Estado Islâmico? - Ainda se morre por se ter fé? Recordou quando viu as imagens de cristãos a serem decapitados. “Ainda se morre pela fé Não será tudo uma estupidez? Rapidamente diz-se que sim, mas aquela gente aguentou firme. A fé não pode ser uma estupidez. É demasiado arrogante afirmá-lo assim tão cruamente.” - Oh, homem, acorda! Sorriu. Já se falava do resultado do último jogo. Galhofa, palavrão, anedota e três gargalhadas. Ainda se vive pela fé na amizade.


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Ser-se turista é “picar o ponto” sem se deixar transformar pela terra. Fica-se pela simpatia do lugar ou “wow” perdido em centenas de fotografias. Compra-se o íman de recordação e memória dessa passagem, até ficar outro na porta do frigorífico. Mais do que turistas, precisamos de viajantes. Gente que busca o centro, a profundidade dos costumes, permitindo-se transformar por eles e, assim, abrir horizontes.


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Maria, sem problemas, coloca-se em segundo plano. Desde aí, observa e deixase ser Mãe e não a “santinha milagreira”, como recordou o Papa Francisco na peregrinação a Fátima há um ano. Maria é atenta. Na festa das bodas de Canaã reparou que já não tinham vinho, ficando assim impedidos de continuar a alegria de quem enlaça o amor. A festa da vida tem de continuar e Maria assegura-a com a brilhante frase: “fazei tudo o que Ele vos disser”.


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I POIROT É ACUSADO

Hercule Poirot sorriu para si próprio enquanto o seu motorista parou o carro com uma simetria satisfatória. Como amante da arrumação e da ordem, Poirot apreciou um alinhamento tão perfeito com as portas de entrada de Whitehaven Mansions, onde vivia. Poder-se-ia traçar uma linha reta a partir do centro do veículo até ao ponto exato onde as portas se juntavam. O almoço do qual regressava fora très bon divertissement: comida e companhia excelentes. Saiu do carro, brindou o moto- rista com um agradecimento caloroso, e estava prestes a entrar em casa quando teve uma sensação estranha de (foi assim que o explicou a si próprio) alguém atrás de si precisar da sua atenção. Esperou, ao virar-se, não ver nada invulgar. Estava um dia ameno, para fevereiro, mas talvez uma brisa ligeira tivesse dado um pequeno tremor ao ar em seu redor. Poirot viu rapidamente que não fora o tempo que causara a perturbação, apesar de a mulher bem vestida que se aproximava rapidamente parecer uma força da natureza, pese embora tivesse um casaco e chapéu azul-claros à moda. «É um turbilhão muito forte», murmurou Poirot para si. Não gostou do chapéu. Já vira mulheres pela cidade com cha- péus parecidos: minimalistas, sem ornamentos, apertados à cabeça como toucas de banho feitas de tecido. Um chapéu deveria ter uma aba, ou alguma forma de embelezamento, pensou Poirot. Pelo menos, devia fazer algo mais do que cobrir a cabeça. Sem dúvida que em breve se habituaria a estes chapéus modernos, e depois de o ter feito, a moda mudaria, como sempre acontecia. Os lábios da mulher vestida de azul tremeram e crisparam-se, apesar de ela não soltar qualquer som. Era como se estivesse a ensaiar o que diria quando por fim chegasse junto de Poirot. Não havia dúvida de que era ele o seu alvo. Parecia decidida a fazerlhe algo desagradável assim que estivesse suficientemente próxima. Ele deu um passo atrás enquanto ela marchava em direção a si, num passo que lhe lembrou uma debandada, formada por nada nem ninguém para além dela. O seu cabelo era castanho-escuro e lustroso. Quando parou de forma abrupta mesmo à sua frente, Poirot viu que não era tão jovem como parecera ao longe. Não, esta mulher tinha mais de cinquenta anos de idade. Talvez tivesse sessenta. Uma senhora de meia-idade, perita em ocultar as rugas no rosto. Os seus olhos eram de um azul impressionante, nem escuro nem claro. – O senhor é Hercule Poirot, não é? – disse ela num sussurro ruidoso. Poirot reparou que ela quis transmitir fúria mas sem ser ouvida, apesar de não haver ninguém por perto.

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– Oui, madame. Sou o próprio.
– Como se atreve? Como se atreve enviar-me uma carta tal?
– Madame, perdoe-me, mas não creio que nos conheçamos.
– Não se faça de inocente comigo! Sou Sylvia Rule. Como sabe perfeitamente.
– Sei agora, porque mo disse. Há um instante, não sabia. Referiu-se a uma carta...
– Vai forçar-me a repetir a sua calúnia sobre mim num lugar público? Muito bem, então, assim farei. Recebi uma carta hoje de manhã, uma carta muito ofensiva e nojenta, assinada por si. – Ela espetou no ar um dedo que teria atingido Poirot no peito se ele não tivesse saltado para o lado, de modo a evitá-lo.


– Non, madame. – Ele tentou protestar, mas a sua tentativa de negação foi prontamente rejeitada. – Nesta desgraça de carta, acusou-me de homicídio. Homicí dio! A mim! Sylvia Rule! Alegava poder provar a minha culpa, e aconselhou-me a ir imediatamente à polícia e confessar o meu crime. Como se atreve? Não pode provar nada contra mim, pela simples razão que sou inocente. Não matei ninguém. Sou a pessoa menos violenta que já conheci. E nunca ouvi falar de um tal de Barnabas Pandy! – Um tal de Barnabas... – É monstruoso que me acuse a mim, logo a mim! Simples- mente monstruoso. Não admito. Sou bem capaz de ir falar com o meu advogado acerca disto, só que não quero que ele saiba que fui tão caluniada. Talvez vá à polícia. A difamação que sofri! O insulto! Uma mulher com a minha posição! Sylvia Rule continuou desta forma durante algum tempo. O seu sussurrar agitado tinha muitos silvos efervescentes. Lembrou a Poi- rot as cataratas ruidosas e turbulentas que vira nas suas viagens: impressionantes de observar, mas principalmente assustadoras pela sua implacabilidade. O fluxo nunca parava. Assim que conseguiu ser ouvido, disse: – Madame, por favor aceite a minha garantia de que não escrevi tal carta. Se recebeu uma, não foi enviada por mim. Eu também nunca ouvi falar de Barnabas Pandy. É esse o nome do homem que é acusada de assassinar, seja quem for que escreveu a carta? – Foi o senhor que a escreveu, e não me provoque mais ao fingir que não o fez. Foi o Eustace que o convenceu a fazê-lo, não foi? Sabem ambos que não matei ninguém, que sou tão inocente quanto é humanamente possível! O senhor e Eustace conceberam um plano juntos, para me enlouquecer! É exatamente o tipo de coisa que ele faria, e sem dúvida que mais tarde vai dizer que foi só uma piada. – Eu não conheço nenhum Eustace, madame. – Poirot conti- nuou a fazer o maior esforço possível, apesar de ser óbvio que nada que ele dissesse faria a menor diferença para Sylvia Rule. – Ele acha-se tão inteligente, o homem mais inteligente de Inglaterra! Com aquele sorriso nojento e afetado que nunca lhe sai do rosto medonho. Quanto lhe pagou? Sei que deve ter sido ideia dele. E o senhor fez o seu trabalho sujo. O senhor, o famoso Her- cule Poirot, que tem a confiança da nossa polícia leal e trabalha- dora. O senhor é uma fraude! Como pôde? Caluniar uma mulher com o meu bom caráter! Eustace faria qualquer coisa para me der- rotar. Qualquer coisa! Seja o que for que ele lhe disse sobre mim, é mentira! Se ela tivesse estado disposta a ouvir, Poirot poder-lhe-ia ter dito que não seria provável que colaborasse com um homem que se considerasse o homem mais inteligente de Inglaterra enquanto ele, Hercule Poirot, residisse em Londres. – Por favor mostre-me essa carta que recebeu, madame. – Acha que a guardei? Fiquei doente só por segurá-la na minha mão! Rasguei-a em mil pedaços e atirei-a para a lareira. Gostaria de atirar Eustace para uma lareira! Que pena que tais atos sejam con- tra a lei. A única coisa que posso dizer é que quem quer que tenha feito essa lei específica nunca deve ter conhecido Eustace. Se alguma vez voltar a vilipendiar-me desta forma, irei diretamente à Scotland Yard, não para confessar alguma coisa, pois sou completamente inocente, mas para o acusar a si, Monsieur Poirot! Antes de Poirot conseguir elaborar uma resposta adequada, Sylvia Rule virara-se e afastara-se.

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Não a chamou. Ficou parado durante uns segundos, abanando a cabeça lentamente. Ao subir os degraus para entrar no seu prédio, murmurou para si: «Se ela é a pessoa menos violenta, então não quero conhecer a pessoa mais violenta».


Dentro do apartamento espaçoso e elegante, o seu criado pes- soal esperava por si. O sorriso algo rígido de George transformou-se numa expressão consternada quando viu o rosto de Poirot. – Está bem, senhor? – Non. Estou confuso, Georges. Diga-me, como uma pessoa que sabe muito sobre as classes altas da sociedade inglesa... conhece uma tal de Sylvia Rule? – Apenas a sua reputação, senhor. É a viúva do falecido Cla- rence Rule. Muito bem relacionada. Creio que pertence à adminis- tração de várias organizações de caridade. – E Barnabas Pandy?
George abanou a cabeça.
– O nome não me é familiar. A sociedade londrina é a minha área de conhecimento especial, senhor. Se Mr. Pandy viver noutro lugar... – Não sei onde ele vive. Não sei se está vivo, ou se talvez tenha sido assassinado. Vraiment, não poderia saber menos sobre Barna- bas Pandy do que sei neste momento, isso seria impossível! Mas não tente dizer isto a Sylvia Rule, que imagina que sei tudo sobre ele, Georges! Ela acredita que eu escrevi uma carta a acusá-la desse homicídio, uma carta que eu já neguei ter escrito. Não escrevi essa carta. Não enviei qualquer tipo de comunicação a Mrs. Sylvia Rule. Poirot tirou o chapéu e o casaco com menos cuidado do que era habitual e entregou-os a George.
– Não é uma coisa agradável, ser acusado de algo que não se fez. Devia-se ser capaz de ignorar as falsidades, mas de alguma forma elas apoderamse da mente e causam uma forma de culpa, como um fantasma na cabeça, ou na consciência! Alguém tem a certeza de que se fez essa coisa terrível, e começa-se a sentir que se o fez, mesmo não tendo feito. Começo a entender, Georges, por- que as pessoas confessam crimes dos quais são inocentes. George pareceu cético, como parecia frequentemente. Poirot observara que a discrição inglesa tinha uma aparência exterior que sugeria dúvida. Muitos dos homens e mulheres ingleses mais edu- cados que conhecera ao longo dos anos tinham o aspeto de terem recebido ordens para não acreditar em nada que lhes fosse dito. – Gostaria de beber algo, senhor? Um sirop de menthe, se me permite fazer a sugestão? – Oui. É uma ideia excelente. – Também devo mencionar, senhor, que tem uma visita à sua espera. Quer que traga já a bebida, e que lhe diga para esperar mais um pouco? – Uma visita?
– Sim, senhor.
– Como se chama? É Eustace?
– Não, senhor. É um Mr. John McCrodden.
– Ah! É um alívio. Nenhum Eustace. Posso acalentar a esperança de que o pesadelo de Madame Rule e do seu Eustace tenha acabado e que não mais volte a Hercule Poirot! Monsieur McCrod- den declarou a natureza da sua visita? – Não, senhor. Apesar de dever avisá-lo que ele pareceu... des- contente. Poirot permitiu que um pequeno suspiro lhe escapasse dos lábios. Depois do seu almoço mais do que satisfatório, a tarde estava a tomar uma direção dececionante. Ainda assim, era pouco provável que John McCrodden fosse tão desagradável como Sylvia Rule. – Adiarei o prazer do sirop de menthe e receberei Monsieur John McCrodden primeiro – disse Poirot a George. – O seu nome parece-me familiar. – Estará a pensar no advogado Rowland McCrodden, senhor?

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– Mais oui, bien sûr. Rowland Rope1, esse bom amigo do car- rasco... apesar de estar a ser demasiado educado, Georges, para o tratar pela alcunha que lhe assenta tão bem. Rowland Rope não dá um segundo de descanso à forca.


– Ele tem sido fundamental a apresentar vários criminosos perante a justiça, senhor – concordou George, com a sua diploma- cia habitual. – Talvez John McCrodden seja seu parente – disse Poirot. – Deixe-me instalar e depois pode trazê-lo. (N. do T.) No final de contas, George foi impedido de trazer John McCrodden pela determinação deste em entrar a passadas largas na sala sem ajuda ou apresentação. Ele ultrapassou o criado e posicio- nou-se no centro do tapete onde parou como se paralisado, à semelhança de alguém enviado para desempenhar o papel de estátua. – Por favor, monsieur, pode sentar-se – indicou Poirot com um sorriso. – Não, obrigado – disse McCrodden. O seu tom era de des- prendimento desdenhoso. Tinha cerca de quarenta anos, segundo os cálculos de Poirot. Tinha o tipo de rosto bonito que raramente se encontrava, para além de obras de arte. As suas feições poderiam ter sido esculpidas por um artista. Poirot achou difícil conciliar o rosto com a roupa, que eram velhas e tinham manchas de sujidade. Seria habitual para ele dormir em bancos de jardim? Podia recorrer aos confortos domésticos normais? Poirot perguntou-se se McCrodden pro- curara cancelar as vantagens que a natureza lhe concedera, os olhos verdes grandes e o cabelo dourado, ao transformar o seu aspeto no mais repelente possível. McCrodden olhou para Poirot, furioso.
– Recebi a sua carta – disse ele. – Chegou hoje de manhã.
– Receio ter de o contradizer, monsieur. Não lhe enviei carta alguma.
Seguiu-se um silêncio longo e desconfortável. Poirot não quis tirar conclusões precipitadas, mas receou saber a direção que a con- versa iria tomar. Mas não podia ser! Como era possível? Só havia encontrado esta sensação em sonhos: a noção ominosa de estar preso numa situação difícil que não faz sentido, e que nunca o fará, independentemente do que se fizer. – O que dizia essa carta que recebeu? – perguntou. – Devia saber, já que a escreveu – disse John McCrodden. – Acusou-me de assassinar um homem chamado Barnabas Pandy.

1

Corda, no inglês, em referência ao instrumento utilizado na forca para executar homicidas.

Pré-publicação do romance “O Mistério dos Três Quartos” de Sophie Hannah - Editorial ASA

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Parceria LEYA


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POSTAIS PERDIDOS Por João Albuquerque Carreiras

Hydra, Grécia 28-VIII-04 Caríssimos, Sei que vos deixarei com inveja por não terem podido vir nesta viagem, mas correndo esse risco não podia deixar de vos enviar este postal. O mar Egeu embalou-nos nos últimos dias com o sopro suave do vento que fez mover a casquinha de noz com vela que se tornou a nossa casa. O sol inclemente e a água morna, as mudanças de bordo, a terra à vista. Como bons marujos portugueses o mar é a nossa casa e o vento nosso amigo.

dois meses, numa pequena casa com alpendre virado à baía escrevendo contos etéreos, felizes e luminosos. Linhas inundadas por esta tranquila languidez a que é impossível escapar. Ou então ficar no nosso hotel, antiga fábrica de esponjas exemplarmente recuperada com uma piscina rodeada por bougainvilleas onde o tempo parece parar, recusando-se a avançar. Depois da agitação que sempre é navegar, foi bom esquecer o mundo neste reduto de simplicidade e bom gosto, nesta ilha aparentemente escondida onde tudo está no sítio certo, incluindo nós, que por uns dias encontramos o nosso espaço ideal. Beijos e abraços, João

O final só poderia ser então um, o do repouso do guerreiro. Para isso escolhemos esta ilha, onde não há carros e os transportes são feito por burros ou grandes carrinhos de mão. Parece um cenário perfeito para um filme bem mediterrâneo, com casas impecavelmente brancas com trepadeiras de flores rosa, um mar de um azul absurdo, os passarinhos que se ouvem nas oliveiras e um ar cheio de maresia.

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Nada parece fora do sítio, nem quando a pacífica baía é abordada por ferrys a descarregarem magotes de gente. A vila ganha um novo bulício, mas quando o último ferry parte fica uma tranquilidade noturna regada a vinho branco que nos faz pensar que somos os donos deste éden. E ficamos até ter de decidir em qual dos três ou quatro restaurantes vamos jantar e arrastar a paz que Hydra transmite. Ficaria por aqui um ou


Entrevista

Maria Ana Pimenta

por Veronica Mello

Galeria Fortes D’Aloia & Gabriel Directora Internacional

A Galeria Fortes D’Aloia & Gabriel não precisa de apresentações no plano da cena artística internacional, nem a mudança de nome em 2016 de Fortes Vilaça, herança do seu icónico fundador, para a actual Fortes D’Aloia & Gabriel, fez com que não se associe este nome aos vários espaços de mostra e dinamização de arte com grande impacto no Brasil e não só. Muitos coleccionadores brasileiros, têm orgulho na produção artística dos seus pares e as suas colecções de arte são desde os anos 30 do século passado, formadas por uma sólida base de produção artística nacional. O coleccionador brasileiro é sofisticado nas suas escolhas e tem um lugar importante no posicionamento global. A Galeria Fortes D’Aloia & Gabriel sabe disso. Maria Ana Pimenta, a sua directora internacional, está de volta a Lisboa e traz a galeria Fortes D’Aloia & Gabriel com ela. Pimenta concluiu história de arte em St. Andrews, na Escócia, e como primeiro trabalho fez pesquisa na Tate Modern, quer o destino que vá para o Brasil e trabalhe na galeria Fortes Vilaça, durante 6 anos, tempo que lhe permitiu compreender bem o papel que a galeria poderia vir a ter, fixando um novo espaço com carácter de escritório em Lisboa. Lisboa está em mudança, muito acontece na capital portuguesa e muito também falta acontecer, a cena artística institucional tem ainda um largo percurso a trilhar, mas o caminho está aí e o panorama transforma-se. Falámos de tudo um pouco, falámos do campo artístico fora dos cânones, como tantos non-profit e espaços de mostra e também de investigação, que estão a fazer de Lisboa uma plataforma atlântica de arte. Unindo caminhos entre África e América do Sul, a cidade de Lisboa transforma-se.

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A vontade que me levou a entrevistar Maria Ana, partiu da intenção de reflectir sobre esta chegada de uma galeria com o peso e a história da Fortes D’Aloia & Gabriel a Lisboa, de perceber como funciona esta nova morada de tantos brasileiros e estrangeiros na capital portuguesa, e de compreender, pelos olhos de quem regressa, a nova Lisboa de hoje.


Vejo grandes mudanças na cidade, existe um interesse enorme no país e claro que isso se reflecte na cena artística também. Temos assistido a um fluxo de artistas, curadores e coleccionadores que se mudaram ou passam muito tempo aqui, e essa troca é muito enriquecedora. Considero exemplar a actuação de algumas instituições de modelos alternativos, que oferecem uma programação de grande qualidade. Por outro lado, vejo que grandes instituições como o Museu do Chiado ou o Museu Berardo têm ainda muito potencial por explorar.

Qual a história da Galeria Fortes D’Aloia & Gabriel? Como se dá o início da galeria? A Fortes D’Aloia & Gabriel nasce sobre o que era a Galeria Fortes Vilaça, fundada há 17 anos por Márcia Fortes e Alessandra D’Aloia – na época Alessandra Vilaça. A nova identidade veio, portanto com o nome da Alessandra, assim como com a entrada de Alexandre Gabriel, director de longa data que se torna sócio. Ao longo dos anos os objectivos sempre foram os mesmos: oferecer uma programação dinâmica tanto de artistas brasileiros como internacionais, jovens e consagrados, buscando sempre contribuir para o cenário cultural brasileiro. A galeria tem desde o seu início uma grande actuação internacional e é essa troca que nos interessa, tanto mostrar exposições ambiciosas de artistas internacionais no Brasil como trabalhar o reconhecimento de artistas brasileiros fora.

A Fortes D’Aloia & Gabriel tem a Galeria e o Galpão em São Paulo, a Carpintaria no Rio de Janeiro e o Escritório em Lisboa. Como funciona cada espaço e qual a relação entre os quatro? A galeria começa a sua história na Rua Fradique Coutinho, espaço expositivo desde de 1992, onde era a Camargo Vilaça. Há 10 anos inaugurou-se o Galpão, que, graças à sua escala, permite desenvolver exposições desafiadoras e ambiciosas, especialmente pensadas para as características desse espaço. Há dois anos abrimos a Carpintaria, onde procuramos ventilar novas ideias e criar diálogos mais amplos entre várias expressões artísticas. Por fim, o escritório surgiu de forma absolutamente orgânica com a minha mudança para Lisboa. Mas acontece que sempre procurámos uma forte presença na Europa para os nossos artistas, seja com participações em exposições institucionais ou em galerias parceiras, seja integrando coleções particulares. Portanto, abrimos este escritório como um gesto de proximidade maior. A relação entre os quatro espaços é o mais integrada possível. Uma postura que sempre admirei muito na forma como a galeria

foi construída é que, apesar da sua escala, estamos sempre muito próximos dos nossos artistas, equipa e valores.

“Tudo está a olhar para aqui [Lisboa]”. Qual foi a reacção dos coleccionadores brasileiros, portugueses e do resto da Europa à abertura deste novo espaço da Galeria em Lisboa? Muito positiva. Inaugurámos o espaço com uma pequena exposição colectiva e senti que a recepção foi excelente, tanto de coleccionadores como dos nossos colegas e parceiros. Em pouco mais de um mês já recebemos não só coleccionadores de vários lugares como grupos de museus e fundações que visitam a cidade. É um momento propício para estar aqui, além dos brasileiros que procuram residência cá e já têm uma relação com a galeria, sentimos que é o lugar certo para estar mais próximo do público internacional.

Dos 41 artistas que a galeria representa, 10 são europeus. Pensas que a relação com eles irá mudar com a proximidade da galeria, através deste escritório? Poderemos ver os artistas representados pela FDAG na capital portuguesa? Claro, procuro estar mais próxima dos que estão cá e sempre com o objectivo de criar pontes. Acreditamos que desta forma podemos trabalhar melhor pelos nossos artistas e o alcance das suas obras. Gostaria muito de ver os nossos artistas a expor mais em Lisboa, e não só!

Quais os planos para o futuro e que projectos a Fortes D’Aloia & Gabriel gostaria de desenvolver no escritório da Praça Luís de Camões? Ainda estamos a chegar e a desenvolver qual o modelo que queremos construir aqui. Sabemos que não temos a intenção de abrir uma galeria, mas que o nosso desejo é fazer acções pontuais e manter uma base operacional aqui. Por agora temos este charmoso escritório com uma biblioteca farta e um pequeno viewing room, onde mostramos trabalhos dos nossos artistas.

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Depois de 12 anos fora de Portugal, qual é a tua visão de Lisboa e da sua cena artística?


À conversa com Thomas Walgrave Diretor de Programação do Alkantara Festival (2008/2018)

por André Gonzaga

por Duarte Bénard da Costa

Bruno Simão

É a celebração maior da Dança e das Artes Performativas no panorama nacional, que ocorre em Lisboa a cada dois anos. Concluída a edição de 2018 (maio-junho) surge-nos a oportunidade para um balanço e, aproveitado a ocasião, um debruçar sobre a rica história deste festival, dos seus protagonistas e de tudo o mais que viesse à baila, numa conversa com Thomas Walgrave. Local escolhido, o Chiado, por entre toda a sorte de miscigenações mais o trânsito e os seus elétricos em perpétuo movimento. Mas antes, um pequeno enquadramento. A Associação Alkantara - responsável pelo festival de seu nome - resulta de um movimento que explodiu em 1993 com o “Danças na Cidade”. Entre 1993 e 2004, sucessivas edições deste festival, e de outros projetos colaborativos, desempenharam um papel fundamental para a afirmação de um “Movimento” e desenvolvimento de uma rede que permitiu a internacionalização dos valores emergentes daquela que se tornou conhecida como a “Nova Dança” portuguesa.

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A tragédia que foi a prematura partida da sua fundadora, Mónica Lapa (1965-2001) só terá sido mitigada pelo facto o movimento lhe ter sobrevivido e daí ter nascido a Associação Alkantara, com Mark Deputter na liderança de um novo projeto que garantiu a continuidade do espírito original. Mas a falta de financiamento obrigou a uma reestruturação, e a entidade optou por realizar em 2004 um evento de menor dimensão intitulado Al Kantara (que significa “ponte”, no original em árabe) alargando-se então ao teatro e à música. Dessa mudança de filosofia e âmbito do festival, cada vez mais voltado para a multidisciplinaridade e para o intercâmbio cultural, a entidade passou a designar-se Alkantara e a promover bianualmente um festival com o mesmo nome que foi ganhando uma notoriedade e importância cada vez maior. Com este sucesso, tornou a dar-se uma passagem de testemunho e Thomas Walgrave assumiu a programação geral, cuidando com desvelo de um modelo que foi maturando nas suas mãos. Até à maioridade.


«Quando estávamos à beira do abismo, tomámos a decisão certa e demos um passo em frente»

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João Pinto, estrela do FCP, acerca do devir e dos deveres do artista performativo.


(Começámos de chofre, com um) Como foi a adaptação à realidade portuguesa. Que tipo de “choques culturais” sentiste? O Portugal de 97 é muito diferente do Portugal de agora. Mas existem algumas características muito bonitas e interessantes que se mantêm, se bem que nem sempre sejam as mais práticas. Por exemplo, enquanto que por toda a Europa existe uma ideia de “rendimento” [produtividade], quando cá cheguei precisei de ir comprar parafusos. E demorei quarenta e tal minutos! Não porque fiquei à espera de ser atendido mas porque esse foi o tempo necessário para processar a venda. Mesmo que se tratasse de um só saquinho de parafusos que acabaram por custar um euro e meio, ou menos. E fazia-me confusão… (e hesita, como se ainda fizesse) O senhor entendia que existia um protocolo a respeitar. E a ideia - uma certa ideia de resistência - de que fazer as coisas na ordem certa era mais importante do que se ser agradável ou mesmo do que o lucro e a produtividade, achei-a muito interessante. Economicamente reinava aqui uma certa anarquia, e eu estranhava-o, pois, a realidade belga era bastante mais pragmática. Portanto, existiam algumas diferenças, mas, e ao mesmo tempo, no campo artístico… nem por isso. A relação que se estabeleceu entre nós, os “Stan” (conceituado grupo teatral belga do qual Thomas ainda faz oficialmente parte) e o Tiago Rodrigues, em ‘97, foi imediata e muito orgânica. Daí que não posso dizer que tenha sentido um “choque cultural” quando aqui cheguei. Por outro lado, olha para uns “Praga”, para “um” Tiago Rodrigues ou para a Mónica Calle, só para dar três excelentes exemplos de Teatro Contemporâneo genuinamente português mas que não poderiam ser mais diferentes entre si. Então, prefiro não falar muito sobre as características da Arte, do Teatro ou da Dança portuguesa, pois eu poderia estar a passar uma ideia monolítica, coisa que na realidade não o é!

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Na tua perspetiva, e desde então, o que se terá ganho e o que poderemos ter deixado para trás? Houve coisas que se ganharam, sim, no geral. E também algumas que se poderão ter perdido. Mas isso nem sempre é consequência de escolhas conscientes. No nosso caso (Associação Alkantara) algumas dessas alterações tiveram mais que ver com fenómenos estruturais, dos quais não podemos assumir grande responsabilidade. Quando o Alkantara… o “Danças na Cidade” surgiu,

nasceu de uma “comunidade” da Dança [plena de vitalismo e] bastante coerente. Considero mesmo que se tratou de um daqueles raros momentos, na história cultural, em que surge um “movimento”. E essa é uma das questões que mais me fascina! A de “quando” é que um conjunto de artistas que trabalham no mesmo contexto geográfico, numa linguagem parecida, quando é que isso se torna um movimento? O que é que faz o clique, que, de repente… É que já ninguém vai falar de um movimento do Teatro português atual. Pois não é um movimento! Há muitos artistas interessantes trabalhando, mas sem essa coesão, sem essa mesma dinâmica na qual os artistas se desafiam entre si e da qual se alimentam. Mas, voltando ao “Danças na Cidade”, que nasceu desse “movimento” que surgiu no contexto da “Nova Dança” portuguesa... À qual eu já tinha tido oportunidade de assistir, ainda na Bélgica, através de espetáculos da Vera Mantero e do Francisco Camacho. O “Danças na Cidade” resulta de uma iniciativa que partiu dos próprios artistas e - não querendo saltar muito na história - houve uma profissionalização (obviamente) pois houve um “mundo”, um contexto que muda radicalmente e onde - hoje - as Artes são muito mais internacionais do que aquilo que eram em ‘93. Uma abertura lógica muito natural, assim para teatro, da dança para o teatro entre outras combinações. Dentro de isso tudo perdeu-se a ideia da “família”, da coesão, do espírito de grupo. Penso que foi muito importante a dança ter-se aberto para o Teatro mas, ao mesmo tempo perdeu-se um pouco do que a dança tinha e ainda tem, acho - a de um discurso muito forte sobre o seu próprio trabalho, uma capacidade de desenvolver um pensamento sobre o que têm em mente, e isso é algo que se vê menos no Teatro.

Sim, mais do que se encontrarem para mostrar trabalho, recordo-me dessa geração se encontrar para discutirem os seus trabalhos. Mas falas numa via para a profissionalização que implicou a ruptura com “redes” de características mais familiares (“isso é inevitável”, comenta Walgrave) mas que consequências poderão ter resultado daí para o pensamento autoral na Dança? Entre parentes, e só porque falei nisso há pouco, tive várias conversas com várias pessoas sobre a situação do “Movimento” e [sobre] o que é que faz com que um grupo de artistas se torne num “Movimento” e uma das respostas que sempre assim surgiram foi a da presença de pessoas com qualidades para poderem refletir sobre o trabalho.


Acho que a presença de um André Lepecki (teórico da Dança, figura internacional, n. Brasil 1965) em ‘93, no “Danças na cidade” foi essencial para essa ideia de um movimento, para alimentar todo o diálogo implícito a este “Movimento”. E, na altura, ele foi uma pessoa pivô, pois escreveu e refletiu muito sobre o que estava a acontecer.

Dança e vice-versa. Sem contar com o “Grande Público” frequentador genérico das propostas mais consensuais que a cultura possa oferecer. Que comentários te merecem esta receptividade geral ao modelo proposto pelo Festival Alkantara?

Ainda em ‘93, é certo que não existia à época nada de semelhante dedicado às artes performativas no geral. Porém, este Movimento, que surge na Dança, rapidamente procurou estabelecer pontes com outras disciplinas das Artes Performativas. Estas iniciativas foram em crescendo e muito fizeram por divulgar a “Nova Dança” mas também outro tipo de propostas de carácter meramente performativo. Como avalias o papel do Alkantara Festival para a evolução do público português face a uma programação tão eclética quanto subversiva?

Eu não estava cá nos primórdios. Mas sempre achei que a principal função de um Festival tem a haver com “públicos” - eu acho mais interessante usar o plural - e com fazer por alargar-se para além dos públicos mais previsíveis. E o formato, mais festivo, facilita e abre essas possibilidades. É que é importante assumir a diversidade! Depois será um trabalho de comunicação, de tentar abrir os códigos, algo que será sempre um processo de aprendizagem. As testemunhas vão aprendendo.

E nesse momento, no momento em que - por imperativo dos próprios artistas - foi necessário fazer a transição do “Danças na Cidade” para um formato mais abrangente como o Alkantara Festival, o Mark Deputter foi a pessoa certa no momento certo? Não só foi a pessoa certa nesse momento como em outros. O Mark era uma pessoa que já tinha uma grande experiência, mesmo em questões estruturais e de gestão. Foi o Mark que iniciou uma associação sem fins lucrativos, alguém que deu uma base legal a uma identidade coletiva. O mérito do Mark é enorme, não poderia ter havido uma pessoa mais indicada. Voltando aos públicos. Generalizando, existia uma certa cultura de que “iam à Dança as pessoas da “esfera” da dança, ao Teatro os do teatro… tal e qual como nas artes plásticas. Eram mundinhos compartimentados. Ora este “movimento” fez questão de demolir barreiras. E então começou a assistirse a uma contaminação de “públicos” e as áreas deixar de estar tão impermeabilizadas. Com o Teatro a ver mais

Já sobre o sectarismo dos públicos nos anos 90 não me consigo pronunciar. É justo, mas então, e sobre a evolução dos públicos a partir do Alkantara Festival de 2008? Pode-se falar de uma progressiva fidelização dos públicos? Mas falamos de públicos em termos quantitativos ou qualitativos? É que se tende sempre a pensar em quantidade. Quando a qualidade dos públicos também é muito importante. Acho que, hoje em dia, os públicos lisboetas são muito interessados, familiarizados com os códigos e as linguagens. Penso que resulta de uma interação com a “oferta”, pois qualquer espectador fala com os protagonistas. Há que entender que para o artista o show é o público! E o público “fala” com eles de uma forma inteligente e isso é-lhes muito gratificante. E que dizer sobre esta última edição do Alkantara Festival, que é, também, por sinal, a tua última à frente da programação. O teu “Editorial” apresenta ideias muito fortes. E há duas que se destacam. A ideia da importância do “abismo” e da “vertigem”... Através das quais estabeleces o paralelismo com os primeiros anos do “Danças na Cidade” e alertas para a importância de manter essa mesma precariedade, os mesmos riscos, como se fosse esse o combustível necessário para manter viva a chama da revolução que aí se iniciou há já 25 anos.

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Há que compreender que essa programação resultava da vontade dos próprios artistas envolvidos, da Vera Mantero, do João Fiadeiro, etc.… todos se envolveram, ninguém ficou na “sua” Dança. E foram, de formas diferentes, olhar assim como que por cima da muralha, de forma a tentar perceber o que se estava a passar no Teatro e afins. Acho que esta abertura para as outras áreas performativas foi uma questão vulcânica, porque surgiu mesmo do interesse dos próprios artistas em querer conhecer, aprofundar e fazer mais.

Aliás, considero mesmo que existe um mal-entendido muito sério sobre a Arte Contemporânea. Dizem que é difícil de entender, quando deveria ser precisamente o contrário! Se o discurso contemporâneo é aquele que fala sobre o “aqui” e o “agora” acho que deveria ser mais fácil. Seria preciso menos… [informação, para o descodificar].


Para esta edição, como imagem de fundo, peguei nos textos (e nos autores) destes últimos 25 anos, e mergulhei intensivamente em todo esse material. Achei muito interessante que o André Lepecki tivesse escrito em ‘93 sobre a “vertigem” e que, 25 anos depois, a Christiane Jatahy (“Artista na Cidade 2018”) fale, numa entrevista (jornal Público, 2018/01/18) sobre a importância das Artes se manterem próximas do «abismo [(“tanto para quem faz como para quem vê”), porque só no abismo podem “acontecer” coisas.]» Nos dois casos, como imagem… como é que as Artes em primeiro lugar, interagem com o público? No caso da Christiane a ligação [ao público] é óbvia, e no caso do André é implícita.

tudo quanto o futuro, que se aproxima muito rápido, nos está a oferecer.

Mas a imagem que dás é muito bonita, porque referes-te explicitamente à “boca do palco” como o precipício que o artista se deve procurar, uma e outra vez, ou todas as que forem necessárias.

Acho que essa é uma questão que vai para além das Artes. Isso depende que uma vontade política, com questões técnicas, pois existe um orçamento de Estado e esse orçamento tem sido sucessivamente votado de uma maneira um pouco retrógrada. Eu venho de uma cultura em que também existem candidaturas de financiamento às Artes por apoio estatal. Escrevi muitas candidaturas, quando ainda estava na Bélgica. Mas na nossa cultura, quando há uma decisão sobre 2018 e o quadriênio que começa em 2018, terás uma resposta o mais tardar em meados de 2017. O que permite um planeamento, mas, sobretudo e também, se pretendes cortar numa estrutura, e essa estrutura tem de despedir pessoas há prazos legais para que possa despedir alguém. Então, para se poderem respeitar esses prazos precisas dessa antecedência. Mas isto somos nós. E nunca percebi porque é que isso não era possível em Portugal.

É pela importância de manter a ideia do “risco”. E que seja um verdadeiro risco! Porque se se repetir um “risco” por 25 anos este deixa de o ser. Mas manter a ideia de “risco” como des-central, no diálogo com os artistas e entre estes e o público, pareceme essencial. E para mim serviu como uma espécie de guia para a programação, pois pareceu-me muito importante.

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Porém, a escolha das palavras (“precipício”, “abismo”) também dá um tom grave. (risos da parte de Walgrave) que contribui para uma certa ambiguidade. E, apesar, de o texto ser claríssimo. transparece dali uma certa dor. E a minha pergunta é, como é que se viram as costas a uma coisa destas, a um projecto que é, em parte, também filho teu. É que agora está a ocorrer uma transição, uma transferência de testemunho. E, dez anos depois, com que ânimo é que se vira as costas a uma vida destas? Ah… é muito complexo falar disso. É uma mistura de muita coisa. De saudades [antecipadas], de, assim… a comparação é um bocado falsa, até porque eu não quero passar por paternalista (e nem tenho filhos) mas, é a sensação como que daquele dia em que os teus filhos saem de casa. E… então, a mistura entre o deixar ir e o largar - quem é que fala que o deixar ir é a maior prova de amor que se pode dar?? - causa tanto um certo orgulho como uma certa tristeza. Mas, e ao mesmo tempo, uma enorme vontade em me dedicar aquilo que eu já estava, há um ano e meio, a desenvolver com a “Chris” (Christiane Jatahy) e, no meio disto tudo, tive muito pouco tempo para me perder nas melancolias. A vida estava lá, logo, no dia 1, e agora estamos já a trabalhar como loucos, para poder responder a

Também há um cansaço. Um cansaço da luta que foi necessária. É, portanto, uma mistura com muitos sentimentos e elementos. Falamos sobre a urgência do risco, e na precariedade. E tu referiste uma série de gente, pessoas como o Jorge Silva Melo, a Mónica Calle, o João Fiadeiro... que tornam a estar, neste momento, a enfrentar dificuldades e condições de trabalho inadmissíveis. O que se estará a passar, que impressão isso te faz?

Para um país que tem tanto património, acho que há uma subvalorização da Cultura. Acho-o absolutamente. Há também uma subvalorização da cultura de agora, que se faz agora, e isso percebes através das verbas disponíveis, que são sempre muito abaixo do que o que seria expectável. Nas reuniões europeias, em que te encontras com os colegas, somos sempre o patinho feio, aquele que tem menos de metade da parte que o segundo mais pobre de entre todos. É a nossa sina. Mesmo assim conseguem-se fazer coisas e isso é mesmo português. Mas revela também uma falta de pensamento sobre o papel desta Arte Contemporânea na sociedade. “Como é que possível investir nisto?” Para além disso, existe também uma enorme dificuldade em dialogar com o sector independente. [Assiste-se a] uma espécie de combate, entre um sector oficial e um sector independente e há assim como que um pêndulo que vai oscilando ora para um lado, ora para outro, muito à francesa, com um olhar muito totalizante e hierárquico. E isso implica que não haja uma valorização dos atores emergentes [pois ainda não ocupam lugar]. Olhemos para as “revoluções” nos úl-


Só para aproveitar o exemplo do Alkantara Festival, eu nunca percebi como é que uma Câmara não aproveitou para - agora com todos estes pequenos festivais que surgem - sentar todas essas pessoas à volta de uma mesa e dizer: “Olhem, vamos fazer assim… um Festival da cidade, a sério e à séria!” Temos todo o potencial para isso. Mas sempre senti da parte da Câmara, apesar de todos os apoios que nos têm dado, um medo de entrar num diálogo mais profundo connosco ou outros interlocutores. Há uma nova geração de programadores que irão assumir a responsabilidade na condução da próxima edição do Alkantara Festival (2020). Que poderemos esperar? Daquilo que possas antecipar? A pergunta deveria ser colocada à Carla Nobre Sousa e ao David Cabecinha. Mas haverá obrigatoriamente o repensar de uma fórmula. Em termos específicos existe um núcleo que assegura continuação do espírito [a própria associação que organiza o festival] e que irá acompanhar mais esta transição. Tem de existir a preocupação de acompanhar as “alterações dos movimentos dos tempos”, da mesma forma que eu também o fiz, e tal como o Mark o fez antes. Imagino que a ideia do “risco” e da “vertigem” continue, tal como escrevi no tal editorial. Imagino que daqui a 25 anos torne a surgir alguém a falar dessas mesmas ideias. Ao mesmo tempo, quero deixar-lhes a maior das liberdades, de modo a que eles possam encher [o programa] da forma que eles acharem que é necessário. Acho que… de propósito saltei uma geração! Devo dizê-lo, quando eu pensei sobre quem vem a seguir, quem devo convidar [para prosseguir o meu trabalho], resolvi-me mesmo pela ideia de saltar uma geração. Coisa que não era a mais óbvia. Seria de supor uma pessoa com 40 anos, que fez a sua carreira e... Mas, enfim, procurei mesmo alguém nos inícios dos trinta anos. E a escolha recaiu sobre pessoas que eu conheço bem. A Carla muito bem, porque acompanhou o Festival Alkantara durante muitos anos e o David um pouco porque acompanhei o trabalho que ele fez com o Tony Vezich (Temps D’Image, 2017) que foi um trabalho incrível. Foi mesmo… wow, o que é que aconteceu?!? É alguém que não tem medo de muita coisa e isso é uma boa qualidade. E acho que pode ser uma dupla super interessante. Acho que é bom que seja uma dupla. Sei o que foi chegar em 2008 e assumir [a programação geral do] Alkantara, uma posição tão estranha e estratégica, dentro de uma paisagem muito particular. Daí que ache que

é bom serem dois, e poderem dividir [essa gestão]. Vais continuar a viver, ou, de algum modo, ligado a Portugal? Ah, essa é a “the million dollar question”. Neste momento temos - Thomas e a sua companheira de longa data, a já citada Christiane Jatahy - duas casas. Uma cá, no Estoril, e outra no Rio de Janeiro. E (tratando aqui da nossa roupa suja) devo dizer que passamos a maior parte do ano em Paris, ou em Hamburgo, ou seja, no sítio onde estejamos a fazer uma criação. Nunca fiz as contas, mas quando olho para 2017... foram duas criações em Hamburgo, mais uma em Paris, e ainda houve a apresentação do “A Regra do Jogo”, também em Paris, acho que passamos 75% do tempo fora de casa, e depois uns 15% por aqui e uns 10% no Rio. E o que levas daqui e o que é que nos deixas? Sem modéstias! Ah… estou muito orgulhoso. Em primeiro lugar estou orgulhoso porque sobrevivemos! As pessoas nem sonham o quão perto o Alkantara, e provavelmente muitas outras estruturas, também, o quão perto estivemos de um fim trágico. Estamos a falar de 2011, ‘12, ‘13. E acho que a forma como lutámos, eu e várias pessoas da associação, sem querer esquecer outros colegas, foram todos muito importantes para que isso não acontecesse. E o ter feito parte desse esforço coletivo deixa-me muito orgulhoso. A dada altura foram os próprios teatros e outros equipamentos da cidade de Lisboa que decidiram salvar o Alkantara. Então, criou-se… é na “guerra” que se fazem os melhores amigos, uma ligação muito forte. Relações que são pessoais, que não irão desaparecer com a minha mudança de vida. E foi um encontro com uma cidade que eu acho incrível. Fazer um festival para uma cidade é um encontro muito íntimo. ... não imagino, por exemplo, fazer um festival para uma cidade com a qual não tenha esta afinidade. E, fazer dez anos de um festival para uma cidade, com todos esses encontros [que se promoveram] com as escolas, as mercearias, as Instituições, mas também, se é necessária uma planta, e então vais para um Jardim Botânico, depois de dez anos há uma conexão que é muito forte. E alguma coisa mais que tu leves, alguma coisa que tenhas adquirido por aqui, que não tivesses antes de cá chegar? Sim! Eu hoje em dia sei fazer um festival. Há dez anos atrás, quando cheguei, não sabia tudo o quanto sei hoje. Agora é diferente (ou mais ou menos) é que eu nunca tinha programado nada!

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timos 20, 30 anos, o “motor” são sempre os autores independentes. Sempre! E não se consegue recompensar esse esforço. É por isso que falo numa subvalorização.


Les Vampires (1916), de Louis Feuillade: o arquétipo do thriller

por José Pedro Pinto

“Um filme não é um sermão nem uma conferência, mas um meio para entreter os olhos e o espírito.”

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Louis Feuillade


Feuillade, nascido em 1873 no Sul de França, havia partido para Paris em 1898 em busca de uma carreira jornalística. Em 1905 é contratado por Léon Gaumont como escritor de guiões e assistente de Alice Guy, possivelmente a primeira mulher realizadora da história do cinema (ABEL, 2013). O seu trabalho terá certamente impressionado os seus superiores pois, em apenas dois anos, Feuillade substitui Alice Guy como chefe de produção do estúdio. Feuillade trabalhará com uma disciplina espantosa desde 1907 até abandonar a Gaumont em 1924, parando de filmar apenas para cumprir serviço militar durante a guerra, do qual é dispensado em 1915, deixando cerca de 800 filmes realizados em todos os géneros contemporâneos. Morrerá apenas um ano depois, com 52 anos. Da sua enorme obra, destacam-se os seus serials de crime (os equivalentes da época às séries de hoje, mas naturalmente exibidos na sala de cinema), nomeadamente Fantômas (1913-1914), Les Vampires (1915-1916), Judex (1916), Tih Minh (1918) e Barrabas (1919). Estes não foram, no entanto, sucessos com os críticos da altura. Um crítico da revista Hebdo-Film, em Abril de 1916, escreve “Que um homem de talento, um artista, como o realizador de grandes filmes que têm sido o sucesso e glória da Gaumont, comece de novo a lidar com este pouco saudável género (o filme de crime), obsoleto e condenado por todas as pessoas de gosto, continua a ser para mim um verdadeiro problema.” (CALLAHAN, 2012). Les Vampires é constituído por dez episódios de duração variável, originalmente exibidos em intervalos irregulares entre 13 de Novembro de 1915 e 30 de Junho de 1916, num total de quase sete horas. Os vários episódios seguem o jornalista Philippe Guérande (Édouard Mathé) nas suas tentativas de parar um gangue do submundo de Paris, os Vampiros, que aterrorizam a cidade com os seus crimes. Para isso, conta com a ajuda do desajeitado mas sortudo Oscar Mazamette (Marcel Lévesque) e com a constante oposição de Irma Vep (Musidora), ajudante do Grande Vampiro, o chefe da organização criminosa.

A produção de Les Vampires terá sido apressada quando Gaumont soube da planeada exibição em França do filme americano Les Mystères de New York e da importação dos serials americanos The Perils of Pauline e The Exploits of Elaine, protagonizados pela célebre heroína Pearl White. O crítico Roy Armes afirma que Feuillade terá sido “forçado a trabalhar rapidamente e sem uma máquina de estúdio bem oleada por trás de si (...). Feuillade não tinha tempo para polir os seus argumentos ou sequer estabelecer um guião convencional” (ARMES, s.d.); e o crítico de cinema Sean Axmaker escreveu que o serial era “frequentemente improvisado nas condições voláteis de França da 1ª Guerra Mundial” e que “Feuillade não estava necessariamente a inventar à medida que avançava, mas claramente reagia às condições e reescrevia à última hora se necessário” (AXMAKER, s.d.). No entanto, esta pressão parece ter sido fundamental para o estilo absurdo (“alucinatório”, nas palavras de Jonatham Rosenbaum)) de Les Vampires: “É fácil de ver porque é que os surrealistas abraçaram o louco conto serializado de Feuillade. Les Vampires é uma estranha e maravilhosa obra prima de elegante beleza e surpresas cinemáticas. Apimentados com revelações repentinas e humor inesperado, os enredos pulp desta episódica aventura são menos um mistério do que um thriller caótico onde nada é o que parece e vale tudo”, declara Axmaker. Rosenbaum defende a influência do serial não só em Buñuel e outros Surrealistas (o próprio André Breton, autor dos Manifestos Surrealistas, ter-se-lhe-á referido como “a realidade deste século. Para lá de moda. Para lá de gosto.” (ARMES, s.d.), como também em Fritz Lang, defendendo que “indiscutivelmente, não foi até Fritz Lang na Alemanha dos anos 20 ter começado a fundir as descobertas formais de Feuillade e Griffith que o thriller paranoico como nós hoje o conhecemos começou a tomar forma” (Rosenbaum, 1999). O realizador Alain Resnais parece resumir bem a importância dos serials do realizador: “Tem sido dito que no cinema há as tradições de Méliès e de Lumière. Eu penso que há também a escola de Feuillade, que faz maravilhoso uso do fantástico de Mélies e do realismo dos Lumière.” (ARMES, s.d.).

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Em Novembro de 1915, em plena 1ª Guerra, as pessoas de Paris encontraram cartazes afixados nas ruas desertas, nos quais se viam três figuras femininas com máscaras negras e três pontos de interrogação à volta do pescoço: “Quem? O quê? Quando? Onde?”. Tratava-se da nova jogada publicitária da Gaumont, o estúdio francês que fazia frente à gigante companhia dos irmãos Pathé, que anunciava assim o novo serial do seu maior realizador, Louis Feuillade.


Em vários momentos, ver Les Vampires é testemunhar uma manifestação de toda a tradição do filme de suspense no seu estado mais puro. Um dos meus exemplos favoritos acontece no episódio IV: “O Espectro”. A vilã Irma Vep trabalha disfarçada num banco, e é encarregue de levantar uma grande quantidade de dinheiro na manhã seguinte se um Mr. Metadier se atrasar para o fazer ele próprio. O gang dos Vampiros, para o qual Irma trabalha, tratam imediatamente de eliminar o Mr. Metadier. Na manhã seguinte, Metadier não aparece no banco à hora marcada, evidentemente. Irma levanta o dinheiro e prepara-se para sair. Entretanto, Metadier aparece e leva o dinheiro ele próprio. Tal como a personagem de Kim Novak n’A Muher Que Viveu Duas Vezes, os mortos de Les Vampires nem sempre ficam mortos; esta é só a primeira manifestação desta sua característica e, sem dúvida, a mais potente. O protagonista, o investigador/aventureiro Phillipe, recebe uma dica acerca do que se passa no banco e decide investigar, acabando por descobrir a morada de Irma. Com o auxílio do seu parceiro Mazamette, infiltra-se na casa e aguarda que Irma saia para a vasculhar. Mas Feuillade não perde uma oportunidade para brincar com a sua audiência: assim que sai de casa, Irma depara-se com o Grande Vampiro, com quem volta de imediato para casa. Com tais coincidências, Feuillade afasta-se claramente de uma intenção realista, aderindo antes à tradição do puro entretenimento.

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Feuillade afasta-se ainda mais do realismo com outro toque subtil que se segue: vemos os Vampiros entrarem em casa e a aproximarem-se do quarto onde está Phillipe. Corta para Phillipe a procurar um esconderijo e a meter-se debaixo de uma cama. Os Vampiros entram no quarto.

Entre o corte para Phillipe e a entrada dos Vampiros no quarto passam-se 9 segundos, durante os quais vemos Phillipe exposto e sem lugar onde se esconder. Evidentemente, os Vampiros não demoraram todo este tempo a dar dois passos e a abrir uma porta - Feuillade dilatou o tempo para aumentar o suspense. Do episódio seguinte – “A Fuga do Homem Morto” – também há vários momentos interessantes a apontar. O primeiro ocorre a meio do episódio, e demonstra claramente a consciência que Feuillade tinha de como manipular a audiência. Trata-se, simplesmente, da maneira como Phillipe é enquadrado sentado à sua secretária.

É criado suspense usando apenas um enquadramento. Depois de horas de episódios em que uma câmara estática é colocada no centro dos cenários, e depois de cinco episódios em que é explorado o gosto dos vilões por janelas, o enquadramento incomum sugere imediatamente que vai acontecer alguma coisa, e cria a antecipação. É isto o tal “cinema puro” que Hitchcock falava a Truffaut. Outro momento que merece destaque ocorre quando o Grande Vampiro, disfarçado de nobre francês, organiza uma festa para a alta sociedade na sua mansão. A certo ponto, informa os seus convidados de que “à meia-noite, haverá uma surpresa”. Quando Hitchcock definiu o suspense como a bomba debaixo da mesa que explodirá a uma hora determinada, era a esta fórmula que se referia – a audiência sabe de algo que as personagens não sabem, e a isso acrescenta-se uma hora-limite. Outra cena que representa bem as prioridades de Feuillade acontece no oitavo episódio, “O Mestre do Trovão”. O filho de Mazamette faz-se passar por um coletor de trapos (ocupação entretanto desaparecida) e bate à porta de Satanas, o chefe-maior dos Vampiros, pedindo trapos velhos ao empregado. O empregado ausenta-se para ir buscá-los e, entretanto, Mazamette entra na casa e esconde-se num baú. Entretanto, Satanas observa tudo por detrás de uma máscara pendurada na parede.


Outra cena relevante ocorre após a suposta morte de Irma numa explosão, deixando os Vampiros de luto, e passa-se num café controlado pelo gang.

As imagens dizem tudo. Uma figura misteriosa aparece no café, sobe ao palco e começa a cantar. As pessoas sentadas estranham a sua presença. Ela tira o capuz e revela ser Irma Vep. Os Vampiros celebram em euforia. Não pode haver dúvidas dos improvisos de Feuillade: Irma só aparece no terceiro episódio, e na altura é uma personagem secundária. Entretanto, o realizador ter-se-á apercebido do sucesso da personagem com a audiência, e esta vai ganhando importância. Chegado o oitavo episódio, a vilã secundária merece uma cena de ressurreição em glória, igual à que um herói protagonista teria. Feuillade não estava a seguir um plano pré-definido: ia-se ajustando à sua audiência. O formato do serial é nesse aspeto muito vantajoso, e o realizador soube aproveitar-se dele. Rob Johnson, no seu blog thedevilsmanor. blogspot.com, tem a palavra final: “É difícil assinalar a influência de Les Vampires. Como muitos filmes mudos, o seu sucesso aquando do lançamento não alongou a sua vida até à era do som (...). Desde Fantômas em diante, as imagens de Feuillade tornaram-se parte da linguagem do cinema. É provavelmente mais apropriado, portanto, imaginar o serial a funcionar da mesma maneira que os próprios Vampiros; invisível e no entanto omnipresente, escondido por detrás de uma miríade de disfarces de celulóide, fazendo sentir a sua presença antes de se retirar furtivamente de volta para as sombras”. ABEL, Richard. (2013), Encyclopedia of Early Cinema. Routledge. Página 235 
 CALLAHAN, Vicki. “The Innovators 1910-1920: Detailing The Impossible”, http://old. bfi.org.uk/sightandsound/feature/154, Abril de 1999 
 ARMES, Roy. “Poet of Reality: Louis Feuillade”, http://mubi. com/lists/poet-of-reality- louis-feuillade, s.d. 
 AXMAKER, Sean. “Louis Feuillade’s LES VAMPIRES - Restored by the Cinematheque Francaise”. http://www.tcm.com/this-month/ movie- news.html?id=503709&name=Les –Vampires, s.d. 
 The Devil’s Manor. “Les Vampires 6 – Hypnotic Eyes – 1916”, http://thedevilsmanor.blogspot.co.uk/, s.d. 


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É claro que a simplicidade e clareza da encenação de Feuillade desta cena é interessante, mas não é por isso que a destaco. De seguida, Satanas abre a porta e diz ao rapaz que sabe que está um ladrão dentro da arca, começando então a trancá-la. Eustache dispara sobre ele, mas falha e atinge a arca, onde o seu pai está escondido. Satanas ataca o rapaz e é surpreendido pela polícia. Ora, porque é que Mazamette arriscou a sua vida e a do seu filho se sabia que Phillipe tinha chamado a polícia para prender Satanas? A resposta é simples: para criar uma boa cena. São claras as prioridades de Feuillade: o suspense vem antes do realismo e até da lógica.


A Música dos Vinhos Ao provar um vinho usamos 4 dos 5 sentidos. Avaliamos cores, aromas, texturas e sabores. E se os vinhos tivessem música?

VINHO VERDE COVELA EDIÇÃO NACIONAL AVESSO 2017

MÚSICA

Caetano Veloso - Sampa

Ouça aqui!

VINHO ROSÉ SOALHEIRO MINERAL ROSÉ

MÚSICA

António Variações - Estou Além

Ouça aqui!

VINHO TINTO VILA RACHEL RESERVA TINTO

MÚSICA

Lorenzo Jovanotti Cherubini - Mi fido di te

Ouça aqui! por

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André Pinguel


A Quinta da Covela é hoje propriedade do Brasileiro Marcelo Lima e do seu sócio e amigo Anthony Smith. Situa-se na zona austral da região dos vinhos verdes, quer isto dizer que está ainda próxima da região dos vinhos do Douro e será das primeiras a sofrer a influência marítima do Douro litoral, por isso de forma menos intensa. Actualmente a quinta produz apenas vinhos brancos, entre os quais este soberbo exemplo do que pode ser a casta Avesso bem trabalhada! Sem madeira, deixa expressar todo o potencial da casta, com os seus aromas florais delicados, uma excelente textura na boca que se desenvolve numa explosão de flores e de frutas sempre acompanhadas pela acidez cristalina. Foi a partir do nome da casta que o próprio produtor escolheu uma música para ela, num tom descontraído e bem disposto é-nos sugerido o verso da música “Sampa” de Caetano Veloso, em que ouvimos “Porque és o avesso, do avesso, do avesso, do avesso”. O Covela Edição Nacional Avesso é uma sensacional proposta de Verão, para já não falar num óptimo exercício de prova para conhecer bem a casta, por fora e por dentro... que é como quem diz do lado direito e do avesso.

Covela Edição Nacional Avesso

O Soalheiro Mineral rosé nasce de uma vontade assertiva e confiante. Um produtor que conta com diversas referências de vinhos brancos (e também um tinto!) no seu portfólio, todos eles histórias de sucesso. Faltava um rosé, era um facto. Era uma falha consciente e compreensível já que estamos a falar de um produtor da região dos vinhos verdes. Nós, comuns consumidores, não estamos habituados e beber nada que não seja branco quando se trata desta região, e assim, sem querer, sentenciamos de morte tantos projectos e vontades que nascem nas adegas. Está então explicada a confiança ou coragem necessária para mostrar ao mundo este rosé, feito a partir das castas Alvarinho e Pinot Noir, com o objectivo de emprestar a mineralidade típica da região num estilo rosé. Grande vinho, pouco consensual... mas que facilmente encontrou em mim um admirador! Ao vinho junto-lhe a música de todos conhecida “Estou Além” de António Variações. Música que está tão enraizada na cultura Portuguesa e que usamos como melhor forma de expressar a inconformidade. É assim que vejo este vinho, um óptimo rosé oriundo de uma região que não permite nada mais que brancos, uma casta vinda de fora a expressar-se de uma nova forma, o resultado de uma vontade criativa que enaltece o trabalho de enologia.

Soalheiro Mineral rosé

A música vem de Itália que conhecemos, mas o cantor é Jovanotti que estranhamos, e o titulo é “Mi Fido di Te” que nunca ouvimos falar. Com o vinho passa-se exactamente a mesma coisa; vem do Douro que nos é familiar, mas o produtor é Quinta Vila Rachel que não identificamos, e o tinto Reserva nem sabíamos que existia. Sendo assim, serve este artigo também como sugestão, um belíssimo vinho e uma música que me acompanha há anos. Ambos valem muito a pena! Com este tema Jovanotti fala de confiança. Confiança que depositamos em Deus, no outro, ou na própria vida, quando sabemos que não controlamos todas as variáveis, aceitamos as incógnitas com naturalidade, e ainda assim estamos convictos de que no fim tudo vai correr pelo melhor. É sob este lema que a equipa da Quinta Vila Rachel trabalha, privilegiando a diversidade no terreno tanto na existência de várias castas em cada uma das vinhas, como na escolha de sementes naturais em contraste com a utilização de clones de videiras mais fortes ou de melhor qualidade. Dá-se assim espaço à natureza para trabalhar confiando no equilíbrio natural, confiando que no fim o resultado será mais genuíno. Quanto a mim, missão cumprida! Um magnífico vinho do Douro a confirmar que nada temos a temer quando deixamos a natureza funcionar.

Vila Rachel Reserva tinto

Região: Minho Casta: 100% Avesso Enologia: Rui Cunha PVP – 7.50€

Região: Melgaço, Monção, Vinhos Verdes Castas: Alvarinho, Pinot Noir Produtor: Soalheiro Álcool: 12% Preço: 11.50€

Produtor: Quinta Vila Rachel Casta: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz Região: Cima-Corgo, Douro Tipo de Solo: Xisto Estágio: Barricas de Carvalho Francês Vinhas de Produção Biológica

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Preço: 12.00€


Sazonalidade por Pedro Santo Tirso

O alcoólico galopante não concordará com esta crónica. Mas, enfim, nem todas podem ser para ele. E vem à memória, claro, Nicholas Cage, em Leaving Las Vegas, a encher um carrinho de compras com todo o tipo de bebidas. Mas já o bebedor de bem ou mesmo o alcoólico funcional pode colocar-se esta questão, aliás, motivada por um instinto degustativo e pela contemplação das suas experiências passadas: há bebidas para certas alturas do ano?

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Algumas bebidas parecem ter resposta óbvia, umas por escaparem a toda a sazonalidade, outras porque estão acantonadas a uma época específica. Veja-se a cerveja de tipo lager. Não obstante beber-se gelada nem por isso deixa de se beber no tempo frio, embora fosse interessante perceber como varia o consumo entre o Verão e o Inverno. De forma muito menos acentuada também há quem beba vinho branco o ano inteiro, mas no que diz respeito a vinhos o mais interessante passa-se com os tintos: mesmo no tempo quente há quem insista em bebê-los e sem o colocar à temperatura ideal de consumo, ou seja, uns agradáveis catorze ou dezasseis graus. Por outro lado, a cerveja preta quase desaparece no tempo quente pois ninguém parece querer saber dela. É o peso, dizem. Parece que no que toca a bebidas alcoólicas, o consumidor é pouco exigente e vai atrás das suas preferências o ano inteiro, mesmo que as condições climatéricas e o ambiente envolvente não o recomendem. Por isso há quem beba cerveja gelada com frio de rachar e a quem beba vinho tinto a vinte cinco graus ou mais. Um caso preocupante chega-nos com o whisky. Eis uma bebida que deve beber-se com frio. Pessoa que esteja a sentir-se bem, confortável, sem a mais remota sensação de frieza, não deve em consciência pegar num whisky. Exceto, pensam muitos cidadãos, se eu lhes juntar uma ou duas pedras de gelo. O refresco de whisky está por estudar mas é seguro dizer-se que um bom whisky com uma pedra de gelo torna-se refresco. Ou seja, um sacrilégio. Os liberais discordarão. Mas estarão enganados. Já quanto aos

whiskies novos é aceitável duas ou até três pedras de gelo, justamente porque com um whisky novo é (quase) aceitável a noção de refresco e o tempo quente sempre foi propenso a loucuras. A sazonalidade não ataca de mesma forma o consumidor de espaços exteriores e de espaços interiores. Com a melhoria das condições de vida, embora em momentos históricos diferentes, o bebedor civilizado passou a usufruir de temperaturas temperadas durante todo o ano no conforto do seu lar, nas casas de familiares e amigos e no local de trabalho. Assim, todas as bebidas propensas a temperaturas amenas passaram a ser bebidas de consumo continuado ao longo do ano. Estão nesta situação a já referida cerveja de tipo lager e o vinho tinto. É possível viver-se hoje confortavelmente a vinte e três graus todo o ano, o que, apesar de tudo, torna mais apetecível uma cerveja do que um copo de vinho tinto, mas para este último nada como um daqueles pequenos refrigeradores que agora se encontram em conta em todas as grandes superfícies comerciais. Claro que nem todos têm esta possibilidade de uniformização climatérica e além disso sobram ainda os espaços exteriores. Para estas duas situações a reflexão sobre a sazonalidade, seus efeitos e remédios, continua muito atual. Por isso vou deixar-vos com algumas sugestões para lidar com a sazonalidade no que diz respeito a bebidas incontornáveis no nosso quotidiano: a cerveja, o vinho e o whisky (uma vez que creio que ninguém no seu perfeito juízo, quererá beber um gin tónico para além da época maio-setembro, ou seja, a mais de vinte cinco graus de temperatura ambiente). No que diz respeito à cerveja fora de época não há outra hipótese senão migrar das lager para as ale. É verdade que boa parte das ale se bebem frescas ou mesmo geladas, mas muitas admitem uma temperatura um pouco mais alta, digamos dez ou mesmo doze graus, o que já é perfeitamente aceitável em tempo frio. Estão neste lote a excelente Sagres preta, a Guinness e praticamente todas as stout das cervejeiras artesanais portugue-


sas. É, pois, uma forma de continuar a beber cerveja durante todo o ano. Claro está que, para quem a cerveja é apenas lager, não há solução possível. No que diz respeito ao vinho, há soluções quer para o tinto, quer para o branco. Um tinto em tempo quente resolve-se facilmente com uma refrigeração cuidada uns minutos antes do consumo ou simplesmente com a colocação da garrafa num frappé imediatamente depois de a abrirmos (embora seja necessário ir controlando a temperatura para o vinho não ficar frio demais). Já um branco em tempo frio dá mais trabalho, uma vez que será necessário encontrar os que se possam beber quase à temperatura ambiente ou seja, aí em torno dos doze graus. Ora isto é muito difícil, mas é possível. Por exemplo, os Vidigueira, Antão Vaz ou Perrum, são vinhos que embora excelentes ao frio são bastante agradáveis a uma temperatura um pouco mais elevada.

Não esquecer que no caso de malte trufado juntar água das pedras convoca uma experiência sensorial inolvidável.

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O mesmo se diga dos Colares. Mas a verdade é que para os brancos não há grande salvação: a sazonalidade aqui faz das suas e só se salvam os cidadãos que não tenham problemas em beber um branco fresco em tempo gelado. Finalmente, o whisky e a magna questão de beber um bom malte na canícula de agosto. Excluídos os impensáveis seres que bebem malte acompanhado apenas por trinta graus de temperatura ambiente o que equivale a fazê-lo passar pelas provações do Inferno de Hieronymus Bosch, há apenas uma forma de beber um bom malte a temperaturas superiores a vinte graus: juntar-lhe água. Esta simples alquimia, a preferida de Kingsley Amis, nossa autoridade habitual, torna um bom malte num malte ainda melhor, pois abre as suas moléculas às tentações do Verão, convertendo-se num tratado de química para nosso deleite. Uma vez que a água, sendo mineral e criteriosamente escolhida, pode estar gelada, três ou quatro gotas em dois dedos de malte trarão a bebida ao patamar de prazer desejado.


RAIO GOURMETIZADOR

ADORO BOLOS por Pedro Nápoles

Portugal é um país de pão bom, variado, consistente, por isso sentimos a sua falta quando viajamos, especialmente para a Espanha das baguettes sensaboronas ou para o Brasil do pão francês que ao fim de uma hora se torna uma excelente arma de arremesso. Isto apesar da ofensiva contra o sal, que retira uma parte do sabor, das farinhas de má qualidade, a fazerem pão que dá azia, e outros motivos que muito baixaram a qualidade geral do nosso pão, sendo ainda assim possível encontrar excelente pão por este país fora. É neste país então que, aparentemente atingidos por uma febre consequente da música de Conan Osíris “Adoro bolos”, nos vimos invadidos por bolos em substituição do nosso belo pão. Não de bolos no geral, que a loucura não chegou a tanto, mas de bolos com origem na nossa ilha da Madeira, os agora omnipresentes bolos do caco.

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Não há restaurante que abra, ou que dê um toque na ementa, que não inclua algo com bolos do caco. Eles entraram por aí qual tsunami e parecem não querer sair. Conseguir comer um prego – ou preguinho, como gosto de lhe chamar –, antes servido numa boa carcaça tostada, eventualmente barrada por manteiga, ou em bola de mistura, sem o inefável caco é hoje tarefa digna de um explorador dos pólos que se arrisque a percorrer a restauração Lisboeta em busca desta raridade. As tostas mistas em bom pão de mistura, de Mafra, saloio, ou até a versão que muito me apraz em carcaça, também elas sucumbiram ao caco. Sanduiches várias, acompanhamento para manteigas e outras entradas, enfim, lugares outrora habitados pelo pão, são agora terreno dos cacos. Tremo de pensar noutros terrenos a serem invadidos como o pão das sopinhas no molho à Bulhão Pato

das ameijoas ser feito com caco, sem aquela capacidade de esponja que o pão verdadeiro tem. Talvez até bacalhau com bolo do caco, destronando a deliciosa broa, açorda de bolo do caco, a imaginação pode não ter limites o que me deixa bastante inquieto. Felizmente ainda não a vislumbrei, mas não duvido que a próxima inovação gastronómica venha a ser a sardinha no bolo do caco, talvez acompanhada de uma espuma de pimento, fabricada por aquela marca de condimentos que inundou os santos populares Lisboa com as suas bandeirolas, mal deixando espaço para os mais tradicionais enfeites da época. Talvez sejam sinais dos tempos, mas era bom que não estragassem as sardinhas e os santos populares. Com tudo isto, pobre do nosso pão. Andam os pães de Mafra desesperados, as broas de milho tristes e desamparadas, mas, acima de tudo, as carcaças deprimidas. Deveriam ser já criados centros de terapia para a carcaça, porque o trauma parece que irá agravar-se e os cacos ameaçam não parar de colonizar os terrenos outrora ocupados pelo nosso bom e honesto pão. Por isso, dedico ao nosso pão, em particular às carcaças deprimidas, os seguintes versos de Conan Osíris:

“Eu adoro bolos Mas eu amo-te mais a ti Eu adoro bolos Mas adoro mais a ti.”


A Primavera Eu gosto muito da Primavera. Com a Primavera vêm as andorinhas e as saladas de batata. As andorinhas são lindas, mas as saladas de batata não lhes ficam atrás e são um maravilhoso fenómeno da natureza porque ligam com toda a bicharada, seja carne ou peixe, seja a bicharada frita, cozida, grelhada ou assada, seja até enlatada. Quase crua ou trabalhada em demasia, dê boa digestão ou provoque azia. A bicharada toda adora com fervor a salada de batata, em qualquer das suas vertentes: levemente avinagrada com molhinho amarelo de gemas cozidas ou besuntada alarvemente de maionese fresca acabadinha de fazer. Há quem a carregue de tudo e mais alguma coisa (cenoura, ervilhas, couves de Bruxelas, eu sei lá que mais); outros como eu preferem-na espartana, apenas com feijão verde laminado e uns ovos grosseiramente picados por cima.

Ou imagine-se então uma garoupa já crescidinha, cozida, fria, também ela regada a maionese, ou uns robalinhos preparados com a mesma receita? E rissóis quentinhos, sequinhos, tesinhos, acabados de fritar, julgam que não ligam com uma saladinha de batata? Oh se ligam!... Até um razoável rolo de carne liga com uma boa saladinha de batata numa tarde de sol quente sobre a piscina.

Parece que há um debate teológico, nunca confirmado, segundo o qual a salada de batata teria sido criada no sétimo dia da criação, o tal que deveria ter servido ao descanso.

Em boa verdade, temos de reconhecer que a salada de batata nem precisa de acompanhar coisa alguma pois pode ela própria envolver em si mesma lagosta, gambas, camarões, caranguejo ou até tigres e apresentar-se orgulhosamente só na travessa à mesa dos felizardos que se irão deliciar com o repasto escondido. Serve igualmente para jantares de pé e como se serve fria não há o problema de os convidados se atrasarem pois nunca há o perigo do jantar arrefecer. A salada de batata começa a aparecer na Primavera. Eu gosto muito da Primavera. Mas também é certo que no Verão a saladinha de batata vem com tudo isto e mais um tomate vermelhinho coração de boi. Nunca mais chega o Verão! A gente nunca está contente…

VLX

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Esqueçam a sopa: a saladinha de batata é que é meia refeição. Mal esteja feita, e quando bem feita, só falta decidir o que a acompanhará e tudo sairá às mil maravilhas. Para lá das azeitonas e uns pós de salsa para dar cor temos o clássico rosbife em sangue, frio ou quente, ou uns lombinhos de fofinho reco assados, grelhados ou fritos. Panadinhos do mesmo ou de sardinha ligam maravilhosamente com a saladinha de batata. Sardinha de lata ou atum em azeite também. Bifes altos de atum fresco ou do lombo de boi casam perfeitamente com a dita. E quem recusa uns filetinhos de pescada com uma saladinha de batata? Umas pescadinhas de rabo na boca? Uns bolinhos de bacalhau?

A salada de batata é de tal forma um fenómeno natural de interligação que até joga com outras saladas, como a de alface, a de tomate, com um feijãozinho verde estufado ou mesmo igualmente cozido fininho e temperado com um fio de azeite levemente avinagrado. A salada de batata vai com todas, dá para os dois lados, e, pensando bem, ela é que deveria estar no lugar do Guterres, tal é a sua capacidade de relacionamento.


Mil e uma maneiras de fazer bacalhau Escondidinho de Bacalhau Para 4 Pessoas

Ingredientes: 1.5 kg de migas de bacalhau 1 kg de batata para cozer 100 g de manteiga 300 g de cebola 300 ml de azeite 200 ml de vinagre de balsâmico 10 g de alho 50 g açúcar 2 gemas 20 g de mostarda 10 g de salsa Q.b sal Q.b noz moscada 1 uni folha de Louro Q.b pimenta preta 1 litro de leite

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Confecção: Para o Bacalhau: 1.Demolhar as migas de bacalhau. 2.Cozer o bacalhau em leite. 3.Retirar o bacalhau cozido, reservando o leite de cozedura. 4.Lavar, descascar e cortar grosseiramente as batatas. 5.Cozer batatas no mesmo leite do bacalhau. 6.Com uma vara, bater o bacalhau até este ficar em fios.


7.Passar batata cozida num passe vite. 8.Ligar a batata com manteiga e o leite de cozedura do bacalhau. 9.Temperar com sal e pimenta e noz moscada. 10.Cortar a cebola e alho em meias luas. 11.Saltear em azeite com uma folha de louro, até ficar acastanhada. Para a maionese: 1.Separar as gemas das claras. 2.Adicionar a mostarda, o sumo de limão, sal e pimenta, e 20 ml de leite da cozedura do bacalhau. 3.Emulsionar com a varinha mágica, e adicionar os 200 ml de azeite em fio até obter uma mistura emulsionada e homogénea. Redução de vinagre balsâmico: 1.Numa panela adicionar o vinagre e o açúcar e mexer. 2.Deixar reduzir em lume brando até obter uma consistência de caramelo. Empratamento: 1.Num tabuleiro montar por camadas, puré, cebolada, bacalhau, maionese. 2.Levar ao forno a gratinar 20 min a 200º ºgraus. 3.Empratar com a redução de balsâmico e salsa picada. 4.Colocar o cebolinho picado por cima do bacalhau. 5.Finalizar o prato com um fio de azeite e está pronto a servir.

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Receita da autoria : Chef Mariana Claro


Chapéus há muitos

EM QUALQUER LUGAR OU POR QUALQUER QUE SEJA A RAZÃO, O CHAPÉU NÃO DEVE SER UM ACESSÓRIO PARA OCASIÕES ESPECIAIS E SIM PARTE DA INDUMENTÁRIA DO DIA-A-DIA, JAMAIS SERÁ UMA BANALIDADE…

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por Joana da Franca Cambodja 2018


CINEMA | MÚSICA PERFORMANCE | GASTRONOMIA

VERÃO NO PÁTIO

PROGRAMAÇÃO 2O18

JULHO A SETEMBRO

MAIS INFORMAÇÕES www.cm-lisboa.pt/polo-cultural-gaivotas-boavista /poloculturalgaivotas 218 172 600 pologaivotasboavista@cm-lisboa.pt Rua das Gaivotas, 8

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ENTRADA LIVRE


Museu Arte Nova na Cidade de Aveiro Capital da Arte Nova

Fundação João Jacinto Magalhães

Residência Francisco Silva Rocha

Detalhe de janela no Museu Arte Nova

Aveiro conquistou merecidamente o título de Capital da Arte Nova, reflexo do consolidado conjunto de edifícios e monumentos desta corrente artística que conserva e que, por sua vez, se reflete no brio da comunidade local e numa procura crescente pelos visitantes e turistas que chegam à cidade e se dirigem ao Museu Arte Nova. Públicos diversificados que vão do curioso pelo património local que se deixa fascinar pela singularidade decorativa das fachadas, ao profundo conhecedor de Arte Nova que vem conhecer a coleção do museu e descobrir os pontos de contato e os particularismos que o movimento aqui assume.

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Os particularismos estendem-se ao próprio projeto museológico. Sendo a expressão da Arte Nova em Aveiro ao nível do património edificado, a coleção do museu são as fachadas e os dois monumentos dispersos pela cidade. São estes que de forma privilegiada definem uma burguesia local dos alvores do século XX que, no seu espírito empreendedor, se deixou seduzir pela novidade e ousou ser moderna.


por Ana Gomes, Andreia Lourenço e Gabriela Mota Marques CM Aveiro

Fachada posterior do Museu Arte Nova

Detalhe da fachada, com aplicação de azulejo, no Hotel As Américas

Fachada da Antiga Cooperativa Agrícola

Visitar o Museu Arte Nova é, assim, percorrer Aveiro e ir em busca dos edifícios identificados por placas inspiradas em Charles Rennie Mackintosh. É, ainda, experienciar o ambiente de uma casa de chá, sentado nas cadeiras Thonet, num modelo que oriundo do período Arte Nova que ainda hoje se produz e tomar uma bebida numa das mesas desenhadas por Francisco Providência tendo por referência a natureza, a mesma que sobressai nos azulejos com lírios e que foi a grande fonte de inspiração do movimento Arte Nova.

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O Museu Arte Nova é nesta junção entre um património vivenciado e uma coleção em espaço urbano um conceito museológico inovador, que é também inerente ao Museu da Cidade, do qual faz parte juntamente com o Ecomuseu Marinha da Troncalhada e que mereceu o reconhecimento e credenciação da Rede Portuguesa de Museus, em 2015. A mesma conjugação justifica a inclusão de Aveiro na Réseau Art Nouveau Network, que para além do grande dinamismo na valorização do património Arte Nova de várias dezenas de cidades que a integram é hoje uma reconhecida Rota Cultural Europeia que dá a conhecer um movimento que mudou paradigmas.


Arte Nova: romper com o passado O movimento Arte Nova surge por volta de 1880 e foi impulsionado por uma conjuntura política, social e económica aparentemente estável e favorável. A industrialização, bem como diversas conquistas ao nível do progresso científico e técnico, encontram-se na raiz desta corrente artística, conduzindo a riqueza e, principalmente, ao desenvolvimento de novos estratos sociais. Foram os burgueses enriquecidos e a recém-nascida classe média os verdadeiros impulsionadores desta corrente, no sentido em que não se reviam e identificavam com o design dos objetos do dia-a-dia, bem como com os ideais arquitetónicos que se encontravam em voga e que se baseavam na reinterpretação de estilos do passado (clássico, gótico, renascentista, barroco…). Estes novos grupos sociais, modernos e cosmopolitas, precisam de um novo estilo, que espelhe os seus ideais. Neste contexto, a Arte Nova surge como uma resposta, com uma nova fonte inspiração centrada na Natureza, e, ao não se basear no passado, rompe com a falta de originalidade dos estilos caraterizados pelo revivalismo. A Arte Nova espalha-se rapidamente e assume diferentes expressões individuais, abarcando várias escolas regionais ou nacionais, bem como recebe diferentes designações, conforme o local onde se implanta e desenvolve [Modernismo na Catalunha, Jungenstil na Àustria, Stilo Liberty, em Itália]. Sempre presente e unificando esta corrente artística surge uma nova linguagem estética que se expressa através da linha extensa, curva, sinuosa, em chicotada e através dos motivos florais, vegetalistas e femininos, estilizados, bem como sensuais. A tardia industrialização de Portugal condicionou a implantação do movimento Arte Nova, levando a que esta corrente artística se estabeleça mais tarde do que no resto da Europa, desenvolvendo-se entre 1900 e 1920. Em simultâneo, o contexto social português levou à introdução de alguns aspetos típicos da cultura tradicional portuguesa, ganhando destaque a presença do azulejo.

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As principais manifestações Arte Nova passam pelas residências familiares de pequena e média dimensão, pelos prédios de arrendamento e pelos pequenos espaços comerciais – padarias, sapatarias, joalharias, lojas de modas, etc. Assim, os proprietários destes imóveis foram os principais impulsionadores do estilo Arte Nova nacional e que, em geral, se encontravam entre os pequenos e médios comerciantes e industriais, destacando-se o seu refrescante sentido do moderno e cosmopolita.

O principal foco da Arte Nova nacional encontra-se em Aveiro e o aparecimento de imóveis com estas caraterísticas encontrase associado a um cenário de crescimento e prosperidade na cidade. A adoção do gosto Arte Nova pode ser seguida nas notícias publicadas no jornal local “Campeão das Províncias” – “[Aveiro] vai tomando uma feição mais civilizadora, pois, ultimamente, têm sido construídas casas de bela aparência, como são as do Sr. Francisco Augusto da Silva Rocha, distinto diretor da Escola Industrial…” (Campeão das Províncias, 8.11.1905) e “… a nova edificação que o capitalista, Sr. Mário Belmonte Pessoa, anda realizando no Rossio é o que de mais moderno e caraterístico se tem feito…” (Campeão das Províncias, 11.01.1908). Em Aveiro, o gosto Arte Nova recorre sistematicamente às cantarias e serralharias decorativas, mas, acima de tudo, ao azulejo, que na região virá a assumir caraterísticas originais, pois a local Fábrica da Fonte Nova produziu vários painéis azulejares dentro deste gosto, assim como, em menor escala, a Fábrica dos Santos Mártires. A utilização do azulejo nas fachadas podia ser pontual, em frisos, por exemplo, ou podia assumir protagonismo, como se verifica na Antiga Cooperativa Agrícola e no Edifício Francisco Rebelo dos Santos. O azulejo surge, ainda, como um elemento decorativo de caráter Arte Nova em construções convencionais. O melhor exemplo da utilização de azulejo ao gosto Arte Nova numa construção sem mais elementos decorativos e de conceção tradicional é a Casa dos Lírios. O grupo de responsáveis pela introdução e difusão desta corrente na cidade era bastante restrito, destacando-se o nome de Francisco Augusto da Silva Rocha. A ele se atribuí a autoria de uma grande parte dos imóveis Arte Nova de Aveiro. Simultaneamente, os nomes de Ernesto Korrodi (referência nacional e amigo pessoal de Francisco Silva Rocha), Jaime Inácio dos Santos e José de Pinho também surgem associados a esta corrente artística.

Um roteiro pela coleção do Museu Arte Nova O Museu Arte Nova de Aveiro, instalado na habitação concebida para Mário Belmonte Pessoa, funciona como centro interpretativo da rede de edifícios ao gosto Arte Nova existentes na cidade. Além de oferecer os instrumentos para descobrir os pressupostos desta corrente artística, funciona como o ponto de partida para um roteiro que conduz à descoberta das expressões Arte Nova a nível local. Na construção deste edifício, datado de


Do Museu Arte Nova, o roteiro convida a visitar o edifício da Pensão Ferro (1909-1910), cujo traço está atribuído a Francisco Silva Rocha, que a concebeu para habitação e oficina de Manuel Ferreira. A fachada é marcada pelo grande arco abatido, como elementos florais em serralharia artística. Em cada extremo situam-se dois medalhões alusivos ao proprietário, inscrevendo ferramentas de serralharia e elementos florais, destacandose as palavras Honor e Labor, os ideais da pequena burguesia deste período. Já de frente para o Canal Central destaca-se um dos mais belos exemplares de Arte Nova a nível nacional e internacional. O edifício da Antiga Cooperativa Agrícola evidencia-se pelo revestimento a azulejaria da Fábrica da Fonte Nova, datada de 1913 e de pintura manual por Licínio Pinto, distinto pintor de azulejos aveirense. Os motivos dos azulejos, especificamente criados para este edifício, partem quase sempre das bases arquitetónicas e acompanham os remates curvos tanto dos pisos como da cimalha. A cimalha é rematada com a famosa chicotada do movimento Arte Nova, denotando um claro entendimento dos pressupostos desta inovadora corrente artística. Seguindo o roteiro pela antiga freguesia da Vera Cruz, destaca-se a residência do próprio Francisco Silva Rocha, datada de 1904, e uma das primeiras manifestações Arte

Nova da cidade. Os pormenores da fachada incluem apontamentos azulejares com motivos florais e pavões de cor azul, rosa e branco em consonância com a serralharia da varanda. Salienta-se ainda a decoração dos arcos abatidos com palmas, um rosto feminino de longos cabelos no piso térreo e as letras S.R. gravadas em sobreposição, no segundo piso. Nas proximidades, encontra-se o edifício atualmente designado de Hotel As Américas (1908-1910), projetado por José de Pinho para residência da sua filha. O recurso a formas estilizadas de cariz geométrico para representar elementos florais é bastante original. O tratamento dado à escadaria e ao telheiro, bem como a aplicação de um arco japonês na mansarda contribuem para a harmonia decorativa. Este edifício apresenta detalhes em azulejo, muito provavelmente de proveniência estrangeira, que surgem emoldurados pelo trabalho da cantaria. Do lado da antiga freguesia da Glória, destaca-se a atual Fundação João Jacinto Magalhães, datada de 1908-1910 e projetada por Francisco Silva Rocha para residência do conhecido jurista aveirense Dr. Peixinho. Este imóvel denota um cuidadoso jogo e tratamento dos materiais, o revestimento a azulejo com friso contrastante, as cantarias em granito, o recorte da porta e o revestimento das águas furtadas a xisto. As serralharias são excelentes exemplares Arte Nova, patenteando a forma de um inseto. A visita às fachadas pode ser concluída no edifício do Tribunal de Menores, desenhado por Jaime Inácio dos Santos, em 1918, para residência de João Machado. Neste edifício destaca-se o friso de azulejo, a cantaria em granito e a serralharia artística. Além das fachadas de residências, a Arte Nova também surge, em Aveiro, na arte funerária. No Cemitério Central é possível ver alguns jazigos com decoração ao gosto Arte Nova, de que é exemplo o da família Barbosa de Magalhães, mas, de grande impacto é, sem dúvida, o Último Alento. Esta escultura funerária, com cerca de 2 metros e em bronze, é da autoria de Artur Prat e data de 1914. Aqui, a Arte Nova surge aliada ao Simbolismo, representando uma alegoria da morte. A obra compreende duas figuras: uma simbolizando a vida, a outra simbolizando a morte. A vida é representada por uma jovem mulher, formosa, em pé, e que segura na mão esquerda uma tocha acesa voltada para baixo, extinguindo-se. A seus pés estão flores e, sobre elas, uma foice. A Morte é representada por um esqueleto coberto por um manto com capuz. A morte está por detrás da jovem e, quase que a abraça, ergue o braço direi-

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1907-1909, foram empregues os materiais tradicionais da época e muito explorados por esta corrente artística, o calcário, o mármore e os azulejos que se conjugam com o ferro forjado das varandas. A fachada é profusamente decorada, recorrendo a flores, animais e formas curvilíneas estilizadas. A verticalidade do edifício é acentuada pela mansarda com uma janela em arco japonês. No interior destaca-se a escadaria, em ferro forjado, que liga o primeiro ao segundo piso, bem como os azulejos que revestem até meia parede (lambril) as salas do rés-do-chão, onde se recebiam as visitas. Estes azulejos são provenientes da Fábrica de Sacavém e a nota de encomenda encontra-se guardada no arquivo do Museu de Cerâmica de Sacavém. A residência de Mário Pessoa, comerciante internacional de cacau de S. Tomé e Príncipe, ilustra a modernidade da burguesia mercantil do início do século XX, tanto na adoção do gosto Arte Nova como ao nível da nova organização funcional do espaço doméstico, com espaços próprios destinados à higiene, convívio e descanso. As divisões já não são sequenciais e, no primeiro piso, os quartos tinha acesso através de um corredor de distribuição. A luz natural e o arejamento foram uma preocupação na organização do espaço interior.


to para o céu. Em imagens mais antigas, constata-se que no braço direito a morte tinha uma ampulheta, claramente a indicar o tempo que chega ao fim, que foge. Este passeio por Aveiro permite descobrir alguns dos elementos Arte Nova presentes da cidade e verifica-se que a corrente aveirense deste movimento artístico se reveste de aspetos originais, desde a utilização de azulejo produzido localmente, à adoção do gosto pelo Japão, com recurso frequente às janelas japonesas, e influência do Simbolismo, na seleção de alguns aspetos decorativos. Não obstante os elementos decorativos se concentrarem nas fachadas, as residências unifamiliares espelham a nova organização do espaço doméstico, com espaços funcionais destinados à higiene, por exemplo, e utilização de estratégias para a entrada de luz natural e arejamento.

Hotel As Américas

Da modernidade nas vivências e do gosto do período Arte Nova ao conceito inovador em que a coleção do seu Museu está na rua, em pleno espaço publico, Aveiro afirma-se como a capital da Arte Nova.

Bibliografia: Aveiro – Cidade Arte Nova [1999] – Aveiro, Câmara Municipal de Aveiro

Detalhe do Museu Arte Nova

Aveiro – Cidade Arte Nova [2005] – Aveiro, Câmara Municipal de Aveiro Dicionário Arte Nova [2011] – Aveiro, Câmara Municipal de Aveiro DIAS, Mário Sarabando [2006] – O mistério da Casa Major Pessoa, Aveiro, Câmara Municipal de Aveiro FAHR-BECKER, Gabriele [2000] – A Arte Nova, s/l, Konemann FERNANDES, Maria João [1999] – Arquitectura Arte Nova em Portugal. Um Século de Património em Perigo, Aveiro, Actas do Encontro de Aveiro – Cidade Arte Nova [6, 7 e 8 de Maio], Boletim Municipal de Cultura, n.º 33, Câmara Municipal de Aveiro, pp. 67-74 GOMES, Ana e LOURENÇO, Andreia [2007] – Museu Arte Nova: estratégia integrada de desenvolvimento museológico. Arte Nova – porta para o futuro. Livro de comunicações, Aveiro, Câmara Municipal de Aveiro, pp. 91-97 NEVES, Amaro [1997] – A “Arte Nova” em Aveiro e seu Distrito, Aveiro, Câmara Municipal de Aveiro NEVES, Amaro [1999]– Da Arte Nova em Aveiro. O porquê da diversidade de estilo, Aveiro, Actas do Encontro de Aveiro – Cidade Arte Nova [6, 7 e 8 de Maio], Boletim Municipal de Cultura, n.º 33, Câmara Municipal de Aveiro, pp. 19-40

[192]

VELOSO, A.J. Barros; ALMASQUÉ, Isabel [2000] – O Azulejo Português e a Arte Nova, Lisboa, Edições Inapa

Último Alento no Cemitério Central


Aveiro

Costa Nova [193]

Dar futuro ao passado


por Nuno Maia

Costa Nova Bruno Esteves

Nascida da ousadia de dois engenheiros cerâmicos que decidiram apostar na utilização do grés fino para o fabrico de artigos de mesa e acessórios para servir, a Grestel, tem vindo a afirmar-se no mercado nacional e, sobretudo internacional, como uma das empresas de produtos cerâmicos de referência. Conciliando uma avançada tecnologia de fabrico com a experiência artesanal, numa combinação permanente entre tradição e modernidade, os produtos Grestel e, em particular, a sua marca de referência, a Costa Nova, são vendidos nos cinco continentes e estão presentes nas mais conceituados lojas e hotéis do mundo inteiro. Para melhor compreendermos este caso de sucesso conversámos com Liliana Cachim e Carlos Ruão, nas instalações da Grestel.

A Costa Nova é a principal marca da Grestel. Como surgiu a empresa? Costa Nova (CN) – A empresa surge em 1998 do interesse de dois engenheiros cerâmicos da Universidade de Aveiro em fazer um produto diferente em grés. Na altura havia muitas fábricas de cerâmica de porcelana e faiança e o grés era algo que estava muito localizado no norte do País e era um grés pesado e grosso. Desde o início a Grestel apostou em fazer um produto diferente, de alta qualidade e com uma forte componente de design. Isto foi uma revolução na forma de ver e trabalhar o grés.

É normal que, quando se é inovador e bem sucedido, outras empresas decidam seguir o exemplo. Sentiram que de alguma forma vos passaram a copiar? Sim. Mas vemos isso de forma positiva. É sinal que estamos no bom caminho.

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E o que fez com que tivessem decidido criar a marca Costa Nova? Nas diferentes feiras internacionais em que participámos percebemos que havia espaço para afirmar uma marca. Sabíamos também que isto seria obrigatório para permitir uma internacionalização a longo prazo. Além disso, esta aposta permitianos passar a responder a uma necessidade do mercado de pedidos de pequenas quantidades.

O mercado tem sofrido alterações? Sim. Posso dar como exemplo um fenómeno muito interessante dos hotéis e restaurantes em que há uns anos queriam o que as pessoas tinham em casa. Isto inverteu-se completamente e agora são as pessoas que querem em casa o que viram nos hotéis e restaurantes. Isto projecta-nos mais para o mercado da hotelaria para o qual há aspectos fundamentais que nós temos, tais como uma excelente resistência do material ou a possibilidade de ir ao forno.

As exportações têm uma expressão muito grande? O negócio em Portugal era perfeitamente marginal, mas agora, com a hotelaria, passou a ser mais interessante. Começámos muito prematuramente a trabalhar com o chefe José Avillez o que permitiu dar notoriedade à marca e aos nossos produtos diferenciadores. Neste mercado da restauração também houve uma alteração de abordagem. Contrariamente ao que se passava no passado, os chefes passaram a ter uma voz muito activa na escolha dos produtos de porcelana, pois têm noção que estes são importantes para realçar as suas criações.

Quais são os vossos principais mercados? Os mais importantes são o Japão, Coreia do Sul e só depois a Europa e neste momento estamos


a apostar em novos mercados como Singapura, Hong-Kong ou Vietnam, pois são muito interessantes pelo seu enorme potencial. Mas estamos a investir muito nos Estados Unidos, onde inclusivamente comprámos recentemente uma empresa, e acreditamos que no futuro este será o nosso maior mercado. Já estamos inclusivamente a trabalhar uma marca que essa empresa já detinha – Casafina.

No caso da Costa Nova percebe-se que há um objectivo claro e permanente de inovar…

Não há o perigo de haver sobreposição de posicionamento entre a Costa Nova e a Casafina?

A oferta de colecções é muito diversificada?

Vão apresentar alguma novidade brevemente? No futuro próximo a maior novidade não será de inovação do produto, mas na distribuição. Até hoje a marca foi crescendo assente apenas em distribuição independente, mas sentimos que estava na altura de termos também uma loja própria. Esta flagship store vai abrir em Setembro na Rua Castilho em Lisboa. A loja será um espaço normal de venda ao público onde toda a colecção Costa Nova estará disponível e vai ter um corner Casafina, mas servirá também como showroom para a hotelaria onde haverá uma cozinha que permitirá uma agenda de eventos com os chefes a quem estamos associados.

Também exploram as vendas online? O online é uma das nossas apostas estratégicas. Funciona muito bem e apresenta um crescimento muito forte. É curioso que, ainda assim, continuamos a receber imensos e-mails de pessoas de todo o mundo que vêm visitar Lisboa e nos perguntam onde podem visitar a nossa loja.

Actualmente qual é o peso da hotelaria no volume de negócios? Em termos de private label não tem muita expressão e, em termos gerais e apesar do crescimento, ainda não é superior a 10%.

O facto de em Portugal haver uma tradição na área das porcelanas ajudou a abrir portas? Não. De certa forma no início até foi uma barreira, porque as pessoas associavam os produtos às coisas antigas das avós que já ninguém queria e que eram deixadas fechadas dentro dos caixotes. Internacionalmente deu-nos alguma credibilidade, pois a cerâmica em Portugal, pela sua longa tradição, era bem vista. Mas muito foi feito e Portugal, neste momento e para o posicionamento nos segmentos médio e médio-alto, é visto claramente como sinónimo de aposta na qualidade e na inovação.

Tem de ser. Não só porque os diferentes mercados exigem produtos e abordagens diferentes, mas também porque a fase de afirmação da marca nos diferentes países obriga a haja uma evolução na introdução das colecções. Começámos por colecções mais provençais, mais casual e country, depois passámos também a produzir uma vertente mais jovem e urbana. Actualmente já temos colecções específicas que se podem considerar de moda em que algumas delas são desenvolvidas em parceria com pessoas de outras áreas, como o florista internacionalmente conhecido Christian Tortu, o que faz com que também tenhamos entrado no segmento decorativo.

E como é que tudo isto funciona do ponto de vista da produção? Os nossos produtos são feitos em grés. Neste momento apenas estamos dependentes do fornecimento de pasta de exterior e de vidros. Em tudo o resto somos verticais, fazemos tudo internamente. A grande diferença que temos é que, ao contrário da faiança, a nossa pasta é super compacta, o que dá uma enorme resistência ao produto. Temos um processo de monocozedura o que permite uma simbiose muito grande entre a pasta e o vidro e faz com que deixe de ser duas superfícies para ser uma única o que também ajuda na robustez do produto. O processo em teoria é simples, mas, na prática, acaba por ser bastante complexo, porque a tendência é fazer cada vez mais séries e cada uma delas com menores quantidades. Como cada série tem as suas especificidades em processos como, por exemplo, a prensagem ou vidragem, as coisas são muito mais complicadas do que à primeira vista podem parecer.

Além dos processos, é fundamental ter uma boa equipa. Beneficiamos imenso do facto do nosso administrador e fundador ser formado em Engenharia Cerâmica e de se ter rodeado de especialistas com enorme experiência no sector, não só nas vertentes ligadas ao processo de produção, mas também à mais comercial de desenvolvimento de marcas e sua expansão internacional ou de design. Mas a empresa funciona como um bloco e conta com uma equipa de quase 650 colaboradores que permanentemente ajudam ao seu crescimento e a que consigamos produzir cerca de 35 mil peças por dia.

[195]

A Costa Nova é uma marca de tradição contemporânea ou casual chic e tem uma certa discrição de cor e é fácil identificar uma ligação entre os diferentes produtos. A Casafina, por outro lado, é uma marca de inspiração italiana com uma vertente muito mais kitchen e fun house e é mais divertida em termos de cores. Ou seja, A Costa Nova tem uma componente muito mais de mesa e a Casafina é muito mais apoiada na cozinha.

Tentamos ir sempre one step ahead. Ao ponto de, às vezes e como dizem os brasileiros, “darmos com os burros na água”. Lançámos por exemplo peças com ouro dois anos antes da altura certa e agora estamos a lançá-las novamente.


Fotografia de Victรณria Beata Fonseca

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Fotografia de Victรณria Beata Fonseca


A nova vida da Lancha Praia da Costa Nova Texto Ana Ferreira

Nos anos quarenta do século XX devido à grande necessidade de transporte da Base Aérea Militar, do Estaleiro de São Jacinto, das gentes de São Jacinto e bens essenciais como: peixes, legumes, correio e assim por diante, foram mandadas construir cinco lanchas de carreira. Curiosamente, a “Praia da Costa Nova” foi uma das primeiras a ser erguida a pedido da ETRA1 e no início de setembro de 1945 foi realizada a sua inauguração.
O quotidiano da Ria permite assim o cruzamento desta, com outras Lanchas construídas para a mesma finalidade. Em São Jacinto, Aveiro, Gafanhas, Ílhavo, Ovar, Murtosa e Torreira, transportando diariamente centenas de pessoas e bens, “unindo” as margens e as pessoas da região de Aveiro. Mantendo desta forma um papel importante na estrutura económica da sociedade. O nome notável dos estaleiros de São Jacinto, a grande importância da Base Aérea e os usuários da Ria (pescadores, comerciantes, moliceiros) causam uma comoção enorme no tráfego local, pela Península São Jacinto e na Ria, mantendo a necessidade e importância destas Lanchas. Mas, com a construção da ponte de Varela e a perda da preponderância da Base Aérea de São Jacinto, a ETRA entra em dificuldades financeiras e os estaleiros de São Jacinto compram a Lancha em leilão público. Reduzindo assim, as conexões e servindo os trabalhadores dos estaleiros e a população da aldeia. Posteriormente, a enorme competição europeia entre estaleiros de construção naval, as várias ressecções económicas a que foram sujeitos e o endividamento dos estaleiros de São Jacinto,

Gustavo Madeira Barros

contribuíram para a sua falência. Os barcos tornaram-se propriedade do município de Aveiro, nesta altura reduzida a três Lanchas: “Praia da Costa Nova” A-8217-TL construído em 1945 e continua até 2006 de serviço público.
“Praia da Torreira” é vendida a uma empresa de turismo e destruída há alguns anos. “Costa da Luz” A-8218-TL, construído em 1948, hoje encontra-se numa associação da região, num grande estado de degradação e abandono. Em 2012, a “Praia da Costa Nova” foi abandonada e entrou em processo de abate. Após alguns estudos, foi perceptível que o barco cumpre os requisitos para ser considerado patrimônio cultural e industrial da cidade. E com uma atitude social e cívica de respeito pelo passado e a memória daqueles que vieram antes de nós, este projeto começou, com o objetivo de salvar a “Praia da Costa Nova”. Após a aquisição da Lancha que durou cerca de meio ano, começou o desafio de alcançar o investimento e o conhecimento necessário para a recuperação. Neste momento foi essencial usar a sabedoria dos antigos trabalhadores do sector da construção naval tradicional. Ao lado de todos os desafios a Lancha foi totalmente recuperada em 22 meses (numa duração de 3 anos), à luz do período.

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ETRA – Empresa de Transporte da Ria de Aveiro

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Relato Gustavo Madeira Barros


Uma breve descrição da recuperação Através do reboque e com o auxílio de um pequeno barco realizou-se o resgate da embarcação, até ao pontão de atracação2, na Marina Clube da Gafanha, na Gafanha da Encarnação, Aveiro. Inicialmente foi feita uma análise exaustiva à embarcação, de forma a estudar a sua integridade no seu todo. Considerou-se importante retirar a caixa de velocidades, a fim de verificar o seu estado de funcionamento, pelo que esta foi a primeira “peça” a ser retirada da embarcação. A partir deste momento iniciou-se uma sequência de procedimentos faseados:
 1 Colocou-se a embarcação em seco, usando o Travel Lift3.
 2 Para não correr o risco de tombar para um dos lados, esta foi devidamente “calçada”4. 3 Desmontaram-se as janelas e as que estavam minimamente intactas foram enviadas para a carpintaria, a fim de serem replicadas. 4 Foi feita uma limpeza profunda, retirando do seu interior, bancos, motor, depósito, componente elétrica, lixos, pós, lama, óleos acumulados nas cavernas5, entre outros.
 5 Com a embarcação despida foi possível aceder ao esqueleto da mesma, para poder aferir o estado das madeiras. 6 Após retiradas várias camadas de tinta sobrepostas do costado6, casco e abaixo da linha de água7. Com uma forte limpeza manual chegou-se à cor natural da madeira. 7 Foi necessário aguardar alguns meses para a madeira sofrer uma secagem ao natural8, permitindo assim distinguir a madeira sadia, da madeira que teria que ser recuperada ou substituída. 8 A proa9 foi refeita na sua totalidade, bem como a troca de algumas tábuas. Para assegurar uma perfeita absorção da tinta sobre a madeira, foi iniciada a sua pintura exterior.

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2 Atracação ou Acostagem: encostar a embarcação a um cais, por norma com proteções (defensas).

3 Elevador para retirar embarcações da água.
4 Sinónimo: amparada.
5 As cavernas fazem parte do casco da embarcação. O casco é a estrutura de flutuação de uma embarcação.
6 Parte do forro exterior do casco da embarcação acima da linha de flutuação.
7 Linha que separa a parte imersa do casco de um navio (obras vivas) da sua parte emersa (obras mortas). 8 “secagem natural” in “A secagem e as relações da água com a madeira – Encontro sobre a Madeira e as suas Aplicações Nobres – Bem utilizar a Madeira”
9 A parte da frente de uma embarcação (em oposição a popa)

9 O chapeamento10 foi uma das fases mais demoradas. A madeira foi preparada com piche inglês11, colocou-se uma camada de serapilheira para fazer de junta da madeira, com as chapas de cobre. 10 Assim que o casco de um bordo12 estava pronto para aplicar as chapas, estas com 2 metros de comprimento foram marcadas, recortadas e furadas. Depois foram apontadas ao seu lugar para testar a sua conformidade. 11 Cada chapa foi pregada ao casco com cerca de 150 tachas de cobre. Todo este processo de chapeamento demorou cerca de 5 meses.
A falta de informação existente, matéria prima e a extrema dificuldade de arranjar o material mais adequado, foi uma das maiores complexidades. 12 Refez-se todo o interior da embarcação. Foram colocados veios, leme, bombas de água, um novo tipo de extração de gases do motor e refeita a parte elétrica. 13 Optou-se por um motor novo, mais potente face ao original, a fim de superar as atuais correntes da Ria de Aveiro. 14 Colocaram-se os paneiros13 que fazem o “chão”, as forras do costado14, os frisos e os interiores foram pintados. 15 Término de todo os trabalhos de recuperação da embarcação. Início da tramitação necessária à obtenção da licença Marítimo – Turística15. Foi feita a vistoria16 da embarcação a seco, que permitiu colocar esta na água, mesmo sem a permissão para poder navegar.
Para a realização da vistoria final e obtenção do certificado de navegabilidade, efetuaram-se as últimas afinações e alterações relacionadas com toda a mecânica e funcionalidade da embarcação.


O total do investimento foi graças a um parceiro privado, apesar de todas as candidaturas infrutíferas a competições e dos fundos disponíveis, para este tipo de recuperação.
Além disso, com a recuperação e manutenção à luz do período, mantendo o traço original da Lancha, a “Praia da Costa Nova” foi candidata e nomeada para o Prémio Luigi Micheletti, pela European Museum Academy em 2016. Este prémio parabeniza o Museu mais inovador do mundo indústria, ciência e tecnologia.

10 Técnica utilizada (Fonte Interna)
11 Piche é uma espécie de alcatrão muito escuro e muito viscoso, outra técnica utilizada. (Fonte Interna) 12 Cada um dos lados do costado de um navio (bom+bordo e esti+bordo).
13 Soalho móvel da embarcação (Fonte Interna).
14 Parte do forro exterior do casco da embarcação acima da linha de flutuação.
15 http:// www.amn.pt/Paginas/Homepage.aspx
16 Inspeção ou exame acompanhado por peritos (Fonte Interna).

Agora totalmente recuperada, a “Praia da Costa Nova” prova ser um museu que navega na Ria de Aveiro, venerando e honrando tradições e memórias, sendo também a testemunha mais próxima da comunidade.
Para nós, a arte é também a preservação histórica da nossa herança. Alvejando um público mais amplo, oferecemos tours e atividades direcionadas para todos através de experiências. Pretendemos exponenciar o melhor que a região de Aveiro tem para oferecer, focando sempre a nossa Ria de Aveiro e a “Praia da Costa Nova”. O principal objetivo é a partilha cultural através de histórias e contos. Também desenvolvemos a educação ambiental: palestras a bordo, observação de aves, fotografia, arte da marinharia, aprender a fazer, percursos interpretativos e oficinas relacionadas à natureza e assim por diante.
Hoje pode encontrar-nos no coração da cidade de Aveiro. http://www.praiadacostanova.pt Outras informações:
Características: “Praia da Costa Nova”
Barco de Madeira Coberto; Comprimento: 16,78m - Boca: 3,48m - Profundidade: 1,22m Construído em madeira de pinho e cavernas em riga, casco de cobre;
Capacidade 89 passageiros + 3 tripulantes (Mestre TL; Marinheiro TL; Maquinista Prático).
No vigésimo dia do mês de setembro de 1945, na Capitania do Porto de Aveiro,

pelo capitão João Duarte de Almeida Borralho, justificou à ETRA a sua construção, por 85.000 mil contos. Ano em que foi construída e colocada a serviço da população.
Em 5 de Fevereiro de 1974, o capitão do porto de Aveiro, António Machado Melo, por documento de quitação, autorizou a compra em leilão público por 220.000 contos, transferindo a propriedade para os estaleiros de São Jacinto. Na época, os estaleiros tinham cerca de 800 trabalhadores, sendo considerados os maiores e melhores estaleiros a nível europeu.
Em 1994, com o declínio dos Estaleiros de São Jacinto, o Município de Aveiro é obrigado a adquirir as embarcações para garantir o transporte dos habitantes da freguesia de São Jacinto. A “Praia da Costa Nova” foi comprada dos Estaleiros por 3.500 mil contos.
Em 25 de outubro de 2004, com a criação da Moveaveiro - Empresa Municipal de Mobilidade E.E.M. (Empresa de Transporte), foi resolvido na Assembleia Municipal que esta Lancha passa a propriedade para esta empresa. Continuando a executar sua função original até 2006.

Bibliografia: - Santos, J.A. (2005). A madeira e as águas da madeira - Encontro sobre a madeira e suas aplicações Nobres Bem utilizar a Madeira (pág. 6)
- Coutinho, H. P. (2004) Navegação Náutica de Recreio
- Foram consultados vários fundos documentários, nomeadamente no arquivo histórico- documental do Porto de Aveiro e no Arquivo Histórico de Aveiro. Nota: Informação obtida através do acesso ao arquivo do município. Embora muita documentação simplesmente desapareceu ou foi destruída. Logo, muitos dados expostos foram reunidos através de relatos privados de funcionários dos antigos Estaleiros de São Jacinto, entre outros. Procedimentos legais:
AUTORIDADE MARÍTIMA NACIONAL. (2017). Área de Legislação.
Disponível em: http:// www.amn.pt/Paginas/Homepage.aspx
Outras:
- Ferreira, C. (2011, setembro 14). Notas para a história de S. Jacinto. Correio do Vouga. Disponível em: http://sites.ecclesia.pt/cv/notas-para-a-historia-de-s-jacinto/
- João Pires Simões - Egas Salgueiro e uma Empresa de Pesca de Aveiro - As minhas memórias. (2017). Área de Estaleiros de São Jacinto.
Disponível em: http://www.prof2000.pt/ users/AVCULTUR/JPSimoes/Egas23.htm
- Machado, M. (2012, 15 de abril). Espaço Memória, Em São Jacinto. Operacional
Disponível em: http://www.operacional.pt/espaco-memoria-em-sao-jacinto/
Martins, C.A.F. B. (2012). Barra da Lagoa de Aveiro no Século XIX: Impactos da Ação Antrópica na Dinâmica Lagunar. (Dissertação publicada). Faculdade de Letras - Universidade do Porto, Portugal
Disponível em: https://sigarra.up.pt/flup/pt/pub_ geral.pub_view?pi_pub_base_id=28071 Glossário:
Marina de Cascais. (2017). Área Glossário.
Disponível em: http://www.mymarinacascais.com/info_nauticas/glossario/

[199]

O culminar sentido de todo este projeto foi com a estreia na participação na 1° edição da grande regata de barcos tradicionais “Ria Weekend”.


O renascimento de uma cidade Entrevista com José Ribau Esteves por Bruno Esteves

A manhã está sublime. O Sol ilumina a cidade e anima os turistas que passeiam junto ao Canal Central surpreendidos com a agitação que inunda as ruas, uma réstia da terceira edição do Festival dos Canais. Visto do Jardim do Cais da Fonte Nova, o edifício da antiga Fábrica de Cerâmica Jeronymo Pereira Campos, um dos mais extraordinários exemplares da arquitectura industrial do país e actual Centro de Congressos de Aveiro, ganha ainda mais imponência. É lá que nos encontramos com o Engenheiro José Ribau Esteves, Presidente da Câmara de Aveiro para uma conversa que decorrerá durante um passeio pela cidade. O Presidente da Câmara da “Veneza Portuguesa” é um homem alto e magro, de olhar penetrante e conversa contagiante. Assumiu a chefia da autarquia em 2013 depois de 4 mandatos à frente da vizinha cidade de Ílhavo, num período particularmente difícil em termos financeiros.

Quando assumiu a presidência da autarquia de Aveiro, há quase 5 anos, encontrou-a com seríssimos problemas financeiros. Através do Plano de Ajustamento Municipal, tem sido possível liquidar dívidas aos principais credores e reequilibrar as finanças camarárias. Em que fase se encontra este processo?

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José Ribau Esteves - Quando cheguei, em Outubro de 2013, Aveiro tinha graves problemas financeiros e de disfuncionalidade de organização e de funcionamento, o que nos obrigou a contratualizar com o Fundo de Apoio Municipal (FAM) um Programa de Ajustamento Municipal (PAM), que estamos a cumprir com todo o rigor pelo segundo ano. No ano de 2017 recebemos nota positiva em todas as quatro avaliações realizadas pelo FAM. Ao longo do último ano pagámos dívidas com mais de 20 anos a cidadãos e empresas, os fornecedores e investidores voltaram a confiar na Câmara Municipal de Aveiro

CM Aveiro

(CMA), e o próprio investimento privado está em forte crescimento com uma presença intensa em todas as áreas do tecido económico, do turismo à indústria.

De que forma este quadro financeiro desfavorável limitou as políticas culturais da autarquia durante o seu primeiro mandato? Teve impacto limitador numa primeira fase, mas avaliando à luz da situação que encontrámos, os resultados são muito bons. Obviamente que existem sempre pontos onde podemos melhorar, mas perante a situação que encontrámos quando chegámos à Câmara Municipal de Aveiro, com uma situação financeira e uma organização caóticas, sem meios para atingir os fins definidos, a classificação do trabalho efectuado é muito boa. Foi muito difícil, mas são notáveis os resultados alcançados, também ao nível cultural. O caminho que iniciámos este ano com a candidatura de Aveiro a Capital Europeia da Cultura em 2027, começou a ser estruturado no ano de 2016, com o reforço da equipa na sua liderança de gestão do Teatro Aveirense, que se assumiu como o pólo central dessa nova dinâmica cultural do Município, com uma programação renovada e em crescimento ao longo destes últimos dois anos. O Senhor Presidente assumiu a cultura como uma das prioridades para os próximos anos. Quais são as grandes apostas do Plano Estratégico para a Cultura levando em consideração a já anunciada candidatura de Aveiro a Capital Europeia da Cultura em 2017? A CMA assumiu a aposta política em realizar um Plano Estratégico para a Cultura e uma Candidatura a Aveiro Capital Europeia da Cultura 2027, cumprindo também por estas vias a importância estrutural do pilar da Cultura na estratégia de desenvolvimento definida para o Município de Aveiro no anterior e no actual mandato autárquico.


Esta é a primeira vez que a CMA tem um Plano Estratégico para a Cultura com esta amplitude e ambição, dando força ao trabalho desenvolvido ao longo do último mandato (2013/2017). Este plano é o mapa que irá

guiar as políticas municipais para a Arte e a Cultura nos próximos 10 anos. Capacitar a Rede de Agentes Culturais, aumentar a qualidade e a quantidade da oferta cultural, misturar com sentido estratégico os valores tradicionais de cultura com as abordagens modernas, internacionalizar Aveiro pela diferenciação da sua cultura, dar mais vida a Aveiro Doce e Contemporânea. Aveiro ambiciona mais e melhor, queremos ser uma referência nacional e internacional, posicionando a cultura no centro da vida social, educativa, económica e urbana. É essa a missão deste plano e o contributo da candidatura a Capital Europeia da Cultura.

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Entendemos necessária e importante a realização do Plano Estratégico para a Cultura com o envolvimento das Associações privadas sem fins lucrativos e dos Agentes Institucionais Públicos e Privados que têm actividade na área da Cultura, assim como no processo da candidatura de Aveiro a Capital Europeia da Cultura 2027, dado que, embora sob a liderança da Câmara Municipal de Aveiro, estes são processos que exigem uma grande abrangência e participação de todos os interessados.


José Ribau Esteves gesticula ligeiramente enquanto fala, impelindo-nos a sair do edifício. No Canal Central espera-nos um Moliceiro. Quinze metros de barco, da proa à ré, laboriosamente talhado em madeira de pinho como manda a tradição, enchendo de cor as águas do canal. A cor das proas pintadas em tons garridos para dar ânimo aos homens da Ria. Noutros tempos, os moliceiros contavam-se aos milhares entre Mira e Ovar, apanhando as algas que serviam de adubo à lavoura, transportando mercadorias e gado. De costados baixos para facilitar a colheita e o carregamento do moliço, fundo plano e pequeno calado, para poderem navegar na Ria e nos seus braços de baixa profundidade sem encalharem nos bancos de areia, os moliceiros eram uma ferramenta agrícola “num ecossistema muito particular – a laguna – que era ao mesmo tempo rio e mar, terra e água.” Esgotada a sua função económica, quase desapareceram na década de setenta do século passado, para renascerem pouco depois, como barcos-museu, destinados a passeios turísticos - as gôndolas da Veneza portuguesa. Hoje são um símbolo cultural de Aveiro, lado a lado com os ovos moles e a Arte Nova. É num destes símbolos que nos aventuramos pelo Canal Central, Aveiro adentro à descoberta, deixando para trás o Jardim do Cais da Fonte Nova onde recentemente decorreram grande parte das actividades da 3ª Edição do Festival dos Canais.

O Festival dos Canais, organizado sob a liderança do Teatro Aveirense, e que agora terminou, trouxe à cidade uma forte dinâmica cultural durante os cinco dias em que decorreu, com cerca de 350 artistas nacionais e internacionais e mais de 200 espectáculos. Qual o balanço que faz desta edição e de que forma este festival pode desempenhar o papel de locomotiva das atividades culturais da cidade e da região ao longo do ano, nomeadamente apoiando a divulgação de artistas locais e estimulando a criação artística? A 3ª edição do Festival dos Canais foi um momento de crescimento e afirmação em termos de público, programação e promoção do património e da identidade de Aveiro.

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O evento, animou as praças, jardins e outros espaços públicos da Cidade dos Canais, mostrou que a aposta iniciada em 2016 está no bom caminho, no quadro da fixação do Festival dos Canais como um evento de referência do Município e da Região de Aveiro. Com a próxima edição – já anunciada – a acontecer de 10 a 14 de Julho de 2019, considero que estão criadas as condições para

que o Festival dos Canais se transforme num evento de referência a nível nacional e europeu, também no âmbito da candidatura de Aveiro a Capital da Cultura 2027. Para além da programação muito diversa e intensa, que marcou positivamente a geografia da cidade, o evento constituiu também um acontecimento relevante de marketing territorial, no qual o público teve uma parte activa fundamental. Queremos agradecer a participação dos milhares de Munícipes que marcaram presença na festa que celebrou a nossa cidade e aos outros tantos Cidadãos que trocaram os seus territórios pelo nosso, numa comunhão de apreço pela criatividade e pelo engenho das artes em espaço público. Respondendo de forma mais objectiva à sua questão: o Festival dos Canais é um elemento de grande importância, tem esse “papel de locomotiva” que refere. A nossa Cidade já não será vivida da mesma forma. Há um marco antes e depois do Festival dos Canais 2018. O sangue novo que trouxemos para as nossas ruas e praças, as companhias consagradas que nos confiaram estreias e primeiras internacionalizações e a entrega da comunidade à celebração dos Canais foram, sem dúvida, decisivas na prossecução deste objetivo. A edição de 2019 do Festival dos Canais irá contribuir para reforçar esse caminho que temos vindo a construir, para o afirmar como um dos maiores e melhores festivais da Europa nesse género. A chegada ao Rossio foi o mote para conversarmos sobre o processo de reabilitação proposto pela autarquia e que tem levantado bastante polémica.

Está previsto para breve o início do processo de Reabilitação do Rossio, a Praça mais emblemática da Cidade, debaixo de fortes críticas por parte da oposição camarária e de grupos de cidadãos. Pode explicar-nos em que consiste esta requalificação? A requalificação do Rossio faz parte de algo muito mais abrangente e estruturante para o futuro urbano e não só, da Cidade de Aveiro. Trata-se do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano da Cidade de Aveiro (PEDUCA), aposta prioritária da CMA no presente mandato autárquico e que teve o seu início no anterior mandato, ao nível do investimento de qualificação e valorização da Cidade e do Município de Aveiro, aproveitando a oportunidade de financiamento dos Fundos Comunitários do Portugal 2020, numa perspectiva integrada.


Dar muito mais espaço à utilização pedonal alargando passeios e criando novas zonas de estar e de circular com qualidade, condicionar a circulação automóvel, organizar o estacionamento numa área de menor valor e sem impacto na paisagem urbana, resolver os problemas de segurança que existem conferindo um bom ambiente de segurança passiva, são objectivos assumidos nesta aposta de qualificação. O que estamos a projectar e a conceber é exactamente essa recuperação com a necessária reabilitação do Rossio, sendo que a definição da ideia base de construir um parque de estacionamento subterrâneo, está a ser estudada com a devida objectividade técnica, ao nível dos estudos de tráfego e de procura de estacionamento, do estudo geotécnico e obviamente do estudo de sustentabilidade financeira. Actualmente o Rossio tem um total de 140 lugares de estacionamento (com definição de ocupação por ligeiros), e com a obra terá capacidade para 300 lugares, incluindo estacionamento reservado para moradores. No bairro da Beira-Mar só vai ser permitida a circulação dos veículos dos moradores e comerciantes, num processo devidamente articulado com o do Rossio. No estudo prévio do projecto vamos aumentar a área verde prevista na ideia base, mas dando-lhe qualidade que actualmente não tem, dado que na sua maior parte a actual área verde não é própria para o contacto com pessoas e principalmente crianças, pois coloca em causa a sua segurança devido à existência de muros e desníveis com os passeios que lhe dão acesso. O estudo prévio do projecto que está em desenvolvimento e terá várias versões até à sua finalização, sendo absolutamente seguro que vai definir, em relação à situação existente, mais área de passeios junto à fachada urbana e junto aos Canais, menos área para a circulação e o estacionamento automóvel, uma boa área para a realização de eventos (tipo Praça, por exemplo para futuras “Praças do Mundial” e para as Festas de São Gonçalinho e outros eventos), terá uma bateria sanitária, entre outras capacidades.

Vai ser um muito melhor Rossio, o que vai surgir deste projecto em curso, seguramente do agrado da maioria dos Aveirenses e dos nossos Visitantes. É no Rossio, em frente ao Museu Arte Nova que descemos para um périplo a pé pelo centro da cidade. A Casa Major Pessoa, que alberga o museu é um dos mais extraordinários exemplares desta corrente artística com o trabalho arquitectónico atribuído a Francisco Silva Rocha em colaboração com Ernesto Korrodi. À semelhança da generalidade dos outros exemplos espalhados um pouco por todo o centro da cidade, a Arte Nova aveirense é, sobretudo, fachadista, de grande influência brasileira e marcada pela utilização de azulejos com motivos naturalistas e de ferro, materiais abundantes na região. No interior, nota-se um esforço de recolha de elementos de época que ajudam a criar a ambiência de uma habitação Arte Nova, sobretudo, na Casa de Chá com uma esplanada convidativa. É por aí que saímos directamente para o Mercado do Peixe, outro exemplar da arquitectura Arte Nova da cidade, onde se destaca a utilização do ferro. Convém referir que o centro de Aveiro está renovado. Um pouco por todo o lado é possível encontrar exemplos de espaços comerciais com propostas diferentes. O Zeca Aveiro, em homenagem a Zeca Afonso, filho da terra, cafetaria e loja onde é possível encontrar diversos produtos regionais como o célebre Licor do Alguidar, as ovas de bacalhau e uma diversidade de petiscos regionais é um dos exemplos desta renovação comercial, assim como a Aveiro Emotions que vende bacalhau seco ao sol e cosméticos à base de flor de sal. Atravessando o canal é obrigatória a paragem na mais antiga casa de ovos moles da cidade – a Confeitaria Peixinho – onde não resistimos à tentação de experimentar umas barricas.

Uma das faces mais visíveis do Património Cultural da cidade é o seu edificado histórico, em particular o arquitectónicamente representativo da Arte Nova, sujeito, apesar da sua relevância municipal e nacional, a diversas intervenções desregradas ao longo de décadas. Num momento em que é notória uma aposta na requalificação urbana, gostaríamos de saber se existe um plano de reabilitação, com normas definidas para a garantia de preservação dos edifícios emblemáticos da cidade. Dentro deste processo de requalificação, terá início em breve a Reabilitação do Museu Arte Nova e a abertura

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A opção política assumida é a de dar à Cidade de Aveiro uma Praça Urbana de elevada qualidade, que conjugue um espaço livre e grande para a realização de eventos, um espaço de encontro das Pessoas, devidamente conjugado com bons espaços verdes e arborizados, numa organização que valorize devidamente a frente-Ria, do Canal Central e do Canal das Pirâmides, e a frente urbana daquela zona na qual existem vários exemplares Arte Nova de grande valor patrimonial.


de novo concurso para a reabilitação do Edifício Fernando Távora (ex-líbris arquitectónico de Aveiro), onde se instalará a biblioteca da cidade. Esta aposta na dinamização de equipamentos culturais estender-se-á por outros edifícios propriedade da autarquia? O investimento em equipamentos culturais irá acontecendo de forma faseada, realizando investimentos regulares, distribuídos por todo o Município, devidamente planificados e com sustentabilidade financeira, cuidando da boa conservação das infra-estruturas existentes, aproveitando com intensidade os Fundos Comunitários de apoio ao investimento, gerindo bem a execução dos compromissos que assumimos com os Cidadãos. O PEDUCA é uma aposta basilar neste processo reabilitação urbana a vários níveis, onde incluímos também a vertente cultural. Depois de termos sido considerados um dos três melhores projectos da Região Centro e de termos assinado contrato de financiamento em Maio de 2016, garantindo 10 milhões de euros de financiamento, já aumentados para 11 milhões de euros por prémio de execução (do chamado “acelerador” do programa) em Dezembro de 2016, estamos em plena execução do PEDUCA, desenvolvendo estudos, projectos e obras no quadro desse acordo e das opções políticas que assumimos, numa operação que vai concretizar um investimento total de cerca de 25 milhões de euros. A requalificação do edifício Fernando Távora faz parte deste plano de acção. Vamos reabilitar um dos edifícios mais marcantes da cidade, mantendo as suas características originais e reformulando os seus espaços interiores para receber os serviços de biblioteca e espaços de co-work e de apoio aos investidores e aos empreendedores. Outro dos edifícios muito importantes a nível cultural onde vamos também investir na sua requalificação, é o edifício da antiga Estação da CP, que está abandonado e em estado de degradação. Queremos manter as suas características originais, preservando os painéis azulejares que o decoram e dotando-o de condições de conforto para a recepção de visitantes e promoção de produtos característicos da região.

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Existem outras operações neste âmbito, nomeadamente ao nível da reabilitação dos Museus de Aveiro (Santa Joana, Cidade, Arte Nova e Marinha da Troncalhada), além de apostas novas como o Museu da Terra em Requeixo. Regressamos ao Moliceiro, desta feita para

percorrer o Canal das Pirâmides até ao Ecomuseu Marinha da Troncalhada, por entre marnotos trabalhando o sal e uma fauna e flora, impressionantes. Ali umas garças reflectidas na água do canal, além um bando de flamingos dominando o horizonte, acompanhando o moliceiro um ou outro alfaiate e por todo o lado pirâmides de sal. Aproveitamos a envolvência paradisíaca para conversar sobre a aposta de José Ribau Esteves nas questões ambientais e, sobretudo, na preservação da biodiversidade da Ria.

Outro dos desígnios anunciados como prioritários para este mandato pelo Senhor Engenheiro foi o ambiente, particularmente relevante numa cidade visceralmente ligada à Ria. Além do CMIA, que tivemos oportunidade de visitar há dias, e que tem desenvolvido um excelente trabalho de investigação e preservação da biodiversidade da região e de educação ambiental das novas gerações, e do Ecomuseu Marinha da Troncalhada, quais os principais projectos ambientais previstos para os próximos anos? A Cultura e o Ambiente são os dois pilares principais onde assenta a nossa política de marketing territorial e de desenvolvimento turístico, valorizando os factores identitários e diferenciadores de Aveiro. Queremos valorizar a frente-Ria, melhorando a sua percepção, intensificando a relação entre a terra e a água da Ria de Aveiro, apostando no modo de mobilidade eléctrico para as embarcações que circulam nos Canais urbanos. Temos realizado vários investimentos de qualificação dos canais urbanos com obras de reabilitação, inaugurámos recentemente a nova Ponte de São João, que faz a travessia do Canal de São Roque e que permite a partir de agora que os barcos moliceiros tenham uma largura de navegação bem superior à que existia com a antiga ponte, garantindo-se a segurança dos seus utilizadores. A Via Ecológica Ciclável (VEC) que estamos a desenvolver ao nível da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro (CIRA), terá um traçado final de mais de 300 km de extensão é ainda outro dos projectos. A qualificação do Baixo Vouga Lagunar em fase de projecto, é outra frente de investimento de grande importância também ao nível ambiental.

A Ria, além de ex-líbris da Cidade, é pólo aglutinador de uma região mais vasta que se estende por 11 municípios, que constituem a Comunidade Inter-


Sem dúvida. A Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro tem feito um caminho pioneiro a vários níveis. O País tem na Região de Aveiro um exemplo muito bom e realizador, de que é a somar que somos mais fortes, aumentado assim a nossa atractividade e desenvolvimento. O trabalho de equipa dos onze Municípios da CIRA tem sido muito bom. A VEC que ainda agora referi, ou o Parque de Ciência e Inovação (PCI) que inaugurámos em Março deste ano num investimento de elevada importância socio-económica para a Região de Aveiro, são alguns dos mais recentes exemplos. Queremos explorar bem o valor intrínseco e as singularidades dos recursos turísticos (naturais ou culturais), para o que estamos a cuidar de melhorar as condições básicas necessárias para que os visitantes possam experienciar os territórios de uma forma o mais autónoma possível. Vamos conferir uma melhor acessibilidade do Homem à Natureza, para que esta possa ser compreendida e desfrutada por um maior número de pessoas e de uma forma mais intuitiva. Para cumprir este propósito é importante dotar os territórios de sinalética e estruturas de comunicação e construir estruturas de apoio à visitação. É neste sentido que a VEC é tão importante para o Município e para a Região de Aveiro, e que estamos a ultimar a Grande Rota da Ria de Aveiro no âmbito da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro.

O facto de ter sido Presidente da Câmara de Ílhavo permite-lhe um olhar mais abrangente e menos “bairrista”, valorizando a intermunicipalidade? Sou um Municipalista que aposta muito na intermunicipalidade. É um instrumento de capacitação dos Municípios e dos territórios que temos vindo a usar de forma crescente e muito realizadora, gerindo em função da dimensão dos projectos. A cooperação entre pares, quer ao nível municipal, como regional, nacional ou internacional, tornou-se inevitável para o sucesso comum. Sou vice-presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses, entidade que tem um trabalho de grande importância para os Município e para o País.

Sou membro do Comité das Regiões da União Europeia, cujo papel de contributo na gestão da União Europeia é relevante, na partilha das perspectivas dos poderes locais e regionais da Europa para as políticas europeias, numa lógica de cooperação e subsidiariedade no desenvolvimento das políticas públicas. É muito importante a partilha e o trabalho em equipa, para a concretização de objectivos de cada Município e de cada Região, do País e da Europa, em conjunto com a forte proximidade dos Autarcas com os Cidadãos. De que forma esta nova vaga turística que em boa hora descobriu Portugal e cuja repercussão se nota na cidade de Aveiro, tem potencial de crescimento, através de uma oferta mais alargada envolvendo a Comunidade Intermunicipal? No último mês de Março a TAP, na sua revista mensal UP, teve como destaque a Região de Aveiro, numa acção em parceria que realizámos com o Turismo do Centro de Portugal (TCP). A estratégia será cada vez mais assente em acções de cooperação como esta. O trabalho de cooperação que temos vindo a realizar tem sido decisivo para esse crescimento que registamos e queremos alimentar: CMA, CIRA, TCP, Universidade de Aveiro, Empresas Privadas. Já falámos no PCI e na VEC, mas muitos mais projectos irão acontecer no âmbito da Região de Aveiro. Queremos atrair muitos mais turistas para Aveiro, cuidando de habilitar a Cidade e a Região para os continuar a receber com qualidade crescente. Falar da Aveiro é falar da Ria de Aveiro, elemento central na oferta turística da Região, que tem uma rica diversidade e é um factor diferenciador de carácter único. Já hoje necessitamos de mais hotéis, precisamos de mais restaurantes, porque temos já muitos dias do ano em que não há camas disponíveis e em que há gente à espera, à porta dos restaurantes. A verdade é que o crescimento turístico dos últimos dois anos – este está a ser o terceiro ano de forte crescimento – tem sido muito grande e estes dois factores não o têm acompanhado, existindo, no entanto, um claro crescimento do investimento privado nessas áreas.

Tem sido evidente a forte ligação entre a Região e o Turismo do Centro, nomeadamente durante as últimas Bolsas de Turismo de Lisboa e outras

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municipal da Região de Aveiro a que o Senhor Engenheiro preside. A diversidade cultural, etnográfica, gastronómica e paisagística da Região é, na sua opinião, um factor de atractividade e desenvolvimento?


feiras internacionais. De que forma será possível, no seu entender, transformar o Centro, esse “país dentro do país”, numa região efectivamente turística?

Para terminar, gostaríamos que nos falasse das relações e eventuais projectos em parceria com a Universidade de Aveiro, um dos pólos de desenvolvimento do Centro?

Há várias matérias que têm de continuar a ser trabalhadas para consolidar e fazer crescer a Região de Aveiro e o Turismo do Centro de Portugal, que aliás tem a sua sede em Aveiro.

Temos uma boa relação com a Universidade de Aveiro (UA), ao nível do Município e da Região de Aveiro, que se expressa de forma evidente numa frase do ex-Reitor Prof. Manuel Assunção: “a UA é o décimo segundo Município da Região de Aveiro”.

É preciso consolidar o processo de crescimento turístico da região Centro de Portugal, prosseguindo a estratégia de promoção da marca Centro de Portugal a nível nacional e internacional, que tem corrido muito bem. Temos também de reforçar a aposta no turismo religioso, não só o católico, com Fátima, mas também o Judaico, muito expressivo em territórios de baixa densidade e de fronteira; apostar noutros nichos de mercado que aproveitem as potencialidades do Centro de Portugal, como são o turismo activo e desportivo, o turismo cultural e patrimonial, ou o turismo de natureza e o que está agregado aos negócios. Sempre colocando a sustentabilidade como um desígnio do turismo no Centro de Portugal.

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Vamos apostar decisivamente na qualificação dos agentes, serviços e produtos da área do turismo, de forma a reforçar a qualidade e diversidade da oferta e, através disso, diminuirmos o efeito da sazonalidade e aumentar a permanência média na Região.

Essa relação é de enorme importância estratégica e muito profícua, com trabalho de equipa ao nível do planeamento estratégico, e em especial ao nível da concepção e da execução de projectos, em áreas tão diversas como as novas tecnologias da informação, comunicação e electrónica, o ambiente, a saúde, a educação, a gestão do PCI, entre outras. A dinâmica das nossas empresas, com uma nota especial para as industriais, vai ter no futuro uma marca forte e sempre moderna, que honra o bom passado e continuará a liderar o processo de geração de riqueza e de emprego cada vez mais qualificado, em ligação à Universidade de Aveiro e agora ao novo instrumento de desenvolvimento que é o PCI. Aveiro é um exemplo a nível nacional e europeu em termos de cooperação entre a Universidade, os Poderes Públicos Locais e as Empresas Privadas. O passeio termina no Rossio, porta aberta a uma cidade que se renova a olhos vistos, animada pelo turismo e, sobretudo, pelo reencontro dos seus habitantes com a sua Ria.


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Acordar cheio de bolhas

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por Pedro Santos Guerreiro

Regra dos livros: um ativo vale a soma dos seus rendimentos futuros aos preços de hoje. Regra das nuvens: um ativo vale o que o último louco estiver disposto a pagar por ele. Regra dos sem regras: pode ser que eu não seja o último louco. Há milhares de textos de economia sobre bolhas especulativas e este não é mais um. É sim um texto sobre quando o céu nos cai em cima da cabeça: mais coisa menos coisa, ele cai sempre que a distância entre ele e ela sugere como virtude o que é defeito. Um defeito por excesso. O excesso de “valorização”. O lucro não é plano, mas também não é redondo. Qual lucro? O do mercado imobiliário, que nas grandes cidades portuguesas cavalga por falésias acima. Aquela regra dos livros está sempre certa e sempre a errar. Ela aplica-se tanto a ativos mobiliários (ações de empresas cotadas, por exemplo) como a ativos imobiliários (prédios, casas, terrenos). Numa ação cotada, calcula-se o valor atual dos dividendos futuros e já está. Num prédio, faz-se o mesmo às rendas e também já está. A variável, claro, está nesses cálculos, uma vez que uma empresa pode ser melhor gerida ou aplicar uma inovação que aumente os lucros futuros e, portanto, os dividendos. O mesmo num imóvel, que também pode ser alvo de investimentos aumentando as rendas ou beneficiar de condições “inovadoras” de procura que também façam subir as rendas. A primeira explicação para a subida dos preços sobretudo nos centros de Lisboa e Porto é esta: a procura turística aumentou, o que levou empresas a comprar prédios para construírem hotéis e particulares (ou mesmo pequenas empresas) a aderirem ao alojamento local, assim aumentando a rendibilidade dos imóveis e logo os seus preços. Também grandes fundos de investimento estrangeiros encontraram em Portugal margens de rendibilidade maiores do que noutros países já em estado de maturidade e canalizaram os seus investimentos para cá. Mas depois há outros fatores, incluindo o da pura especulação. Repare-se, na tal regra dos livros não entra nos cálculos que um ativo vale hoje o seu valor potencial de venda. Assim é porque num mercado racional (e os

mercados são sempre alterados por epidemias de comportamentos não racionais de agentes económicos), o valor de uma venda também é calculado pelos seus rendimentos futuros: se o comprador acredita que pode gerir melhor ou obter sinergias desse ativo, paga mais porque crê ser capaz de aumentar essa rendibilidade. Nas bolhas especulativas não é assim. Muitos compradores entram no mercado e compram apenas porque acreditam que em breve conseguirão vender mais caro, mercê não da sua qualidade de gestores mas da evolução incontrolável do mercado. Estas bolhas, que são cíclicas nos mercados financeiros, promovendo grandes deslocações de capital, vão gerando grandes fortunas e grandes imodéstias: os vendedores tomam-se por grandes visionários quando na prática estão apenas a surfar uma onda gigante. Toda a gente está temporariamente a ganhar. Fazem-no, para mais, com crédito fácil da banca, que entra no festim nu porque é a dar crédito que os bancos lucram. E fazem-no com o Estado saciado por impostos que tributa nas compras, mas mais-valias e nas propriedades. Até que um dia a onda, ou a bolha, rebenta, com estrondo ou ao longo de anos, e os últimos compradores ficam com ativos sobrevalorizados que já ninguém quer pagar, devendo ao banco somas que muitos já não conseguem saldar. O resto... bom, o resto aconteceu em Portugal por alturas da Troika, com os portugueses a perceberem que estavam quase sem poupança, com milhares de empreendimentos parados em obras, malparado a crescer, os bancos a precisar de capital e os Estados a distribuir dinheiro de contribuintes por causa dos riscos sistémicos. Ninguém sabe calcular a última finura da película da bolha antes de ela rebentar. O mercado imobiliário de Lisboa e Porto pode ainda subir mais antes de o céu nos cair em cima da cabeça e enquanto isso iremos ouvir especialistas de mercado, que normalmente são intermediários que ganham à comissão, dizer que “os preços são sustentáveis”. Até lá, há um efeito direto que é o afastamento do centro das cidades das classes pobres e médias, o que além dos dramas particulares desenraíza as próprias cidades. Quando a economia não serve a sociedade mas agrava as suas desigualdades, a sociedade racha o seu vínculo da identidade. E aí já não há livros nem nuvens, há extratos bancários, escrituras nas gavetas e talvez bolhas nas mãos.


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