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REVISTA DISTRIBUIÇÃO GRATUITA


revista

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EUROPA João Moreira | Editorial #3 João Moreira | Grande entrevista #4 João Moreira | Carlos Moedas #20 Rebecca Abecassis | Identidade europeia #32 Sofia Colares Alves | Quando quiser falar com a Europa...ligue para mim! #36 Louise Arbor | Gerir as migrações #38 José Farinha e Marianne Syed | Projeto Odisseia #40 Paulo Rosa | Voluntariado dedicação sem fronteiras #50 Paulo de Almeida Sande | A força da união # 52 João Moreira | Petra Kammerevert #56 Cultura Europeia | A opinião dos nossos eurodeputados #60 Alexandre Guerra | União Europeia de uma inspiração nasceu... #64 Gonçalo Lobo Xavier | A arte de ser português...e europeu #66 Nicolau Pais | Portugal: obviamente, europeu #68 Guilherme d’Oliveira Martins | Europa, como história viva #69 Hugo Carvalho | Para dar voz ao povo #70 Pedro Escada | Mais uma oportunidade #71 Fernando Madaíl | Caleidoscópio de europas #72 Projecto Parallel #74 Nuno Júdice | Brexit #96 Vanessa Pires de Almeida | Em defesa do método #98 Raimundo Mendes da Silva | O todo e a parte #100 Ana Motta Veiga | Scala hominum #102 Paulo Almeida Fernandes | Jorge Colaço e fabrica de cenários #106 Lídia Fernandes | Foi 220 anos #110 Joana Sousa Monteiro | Lisboa, cidade triste e alegre... #116 Marta Gonzaga | Alface fora d’água #120 Francisco Duarte Coelho | Segredos de Lisboa #126 Ana Luísa Soares e Ana Raquel Cunha | Árvores de Lisboa #127 Ana Pérez-Quiroga | Auto-retrato da artista... #128 Lisbonar | O nosso guia de Lisboa #133 Fernando Aramburu | Com o Txato em Polloe #144 Francisco Mallmann | Nota para o velho mundo #148 Miguel Real | O último europeu #150 André Serpa Soares | Na Europa #152 João Albuquerque Carreira | Postais perdidos #154 João Moreira e Nuno Maia | Somos todos “Primaveras” #156 José Pedro Pinto | Zelig e o Mockumentary #164 Miguel Valverde, Nuno Sena e Carlos Ramos | 15 anos de cinema livre #170 Cinemateca portuguesa | Jacques Rozier #172 Cinemateca portuguesa | Lucrécia Martel #174 Verónica Mello | Jimena Blázquez Abascal #177 Duarte Bénard da Costa | Uma ária de dança #180 Patrícia Lopes | Gonçalo Sítima #181 João Moreira | The Portuguese #182 André Pinguel | A música dos vinhos #188 Pedro Santo Tirso | Ponderando limões, ponderando tequilas #190 VLX | Já que ainda estamos no tempo dele #192 Mariana Claro | Mil e uma maneiras de fazer bacalhau #194 Pedro Nápoles | Raio gourmetizador #196 Joana da Franca | Chapéus há muitos #197 Valentina Carvalho | Saudades do Brasil em Portugal #198 Nuno Maia | Pombo #201 Sofia Patrício | Juntos por uma sociedade sustentável #206


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Fotografia por Hugo Macedo


Editorial Possivelmente, todos nós, nas terras da Europa, nos parecemos. Temos uma sensibilidade comum perante a vida e as suas mudanças. O que mais nos agrada é inventariar as coisas do progresso para não nos iludirmos com ele. Mas, acima de tudo, amamos tudo aquilo que afinal não está na agenda da celebridade. Amamos os quatro favores da pobreza, que são: o humor, o vínculo ao quotidiano, o respeito pela morte e por tudo que a pode atrasar ou activar. E amamos os caminhos da terra que percorremos sem descanso, mesmo quando somos obrigados a um ofício sedentário. Agustina Bessa-Luís, in Dicionário Imperfeito, Guimarães Editores, 2008 A primeira vez que ouvi falar da Europa devia ter uns quatro anos e foi no dia em que recebi o meu primeiro globo. O globo era uma bola grande e muito azul, cuja função, por qualquer razão que me fugia ao entendimento, não era a habitualmente dada a todas as bolas, mas antes ficar parada num equilíbrio instável, meio inclinada, em cima da secretária do meu pai. Nesse dia, aprendi que o globo representava o mundo, e no mundo ficava a Europa, e na Europa, Portugal. Eu não conhecia o mundo, nem a Europa, nem Portugal. Em abono da verdade, nem Viseu, aonde o meu pai ia todos os dias e pelos vistos também ficava nesse tal de mundo. Nessa época, o meu mundo resumia-se à casa onde vivia e às vinhas em volta que se espraiavam encosta abaixo, até perder de vista. Uns tempos depois, fui a Viseu e mais tarde à Europa, ou melhor, a Espanha, que é como quem diz a Salamanca, num passeio de família tão atribulado pelo mau tempo que dele só recordo os gritos de pânico da minha avó intercalados por preces pungentes a São Cristóvão para que nos guiasse sãos e salvos pelo caminho de regresso. A Europa de verdade, para lá dos Pirenéus, conhecia já adolescente nos livros, em muitas viagens imaginárias, e só muito depois, já na idade adulta, ao vivo e a cores, num tempo em que ainda nos tínhamos de abastecer, antecipadamente, de pesetas e francos, de liras e de marcos e tratar do passaporte no Governo Civil com pelo menos um mês de antecedência, não fosse o “diabo tecê-las”.

Propriedade: Studiobox, Publicidade e Gestão de Meios, Unipessoal Lda Direcção: Bruno Esteves Edição: João Moreira, João Albuquerque Carreiras Fotografia: Bruno Esteves, Hugo Macedo Arte: Studiobox Ilustração: , Pedro Albuquerque, Tiago Lopes Identidade Corporativa: Jorge Barrote Comercial: geral@revistabica.com +351 962 706 373 / 968 405 494 Impressão: Tondelgráfica SA Periodicidade: Trimestral Tiragem: 5 000 unid. Depósito legal: 416462/16 Interdita a reprodução de quaisquer textos ou ilustrações por quaisquer meios. A Revista Bica é escrita em português, sem utilização do acordo ortográfico. Os conteúdos dos textos e as opiniões neles expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Capa: Afonso Almeida

Confesso que gostei da Europa e gosto de dizê-lo assim, abrangendo num todo indefinido uma quantidade enorme de países, a maioria dos quais não conheço. E gosto de dizê-lo assim, porque o que me encantou na Europa foi exactamente a riqueza da sua diversidade. APOIOS:

É dessa Europa que falamos nesta edição da Bica. Uma Europa multicultural e multirracial, aberta ao mundo há mais de seis séculos atrás pela mão dos portugueses e que hoje se habituou a acolher esse mundo que desbravou, como nos explica a Representante Especial das Nações Unidas para a Migração Internacional, Louise Arbor; uma Europa integradora e solidária, que acredita que os refugiados não são uma multidão, “um mar de gente”, uma categoria a ser tratada como um todo, mas antes seres humanos, indivíduos, nossos irmãos e irmãs, com rostos e histórias para contar, como insistem em explicar José Farinha e Marianne Syed através do Projecto Odisseia; uma Europa decidida em preservar com orgulho o seu património cultural, de que nos fala Guilherme d’Oliveira Martins; uma Europa cientificamente inovadora e tecologicamente pioneira, de que se orgulha o nosso Comissário Europeu Carlos Moedas; uma Europa plataforma de partilha de experiências de agentes culturais, como promovido pelo ousado Projecto Parallel, idealizado e concretizado pela Procurarte com apoio do Programa Europa Criativa da União Europeia; uma Europa olhada a norte pela mão da Rebecca Abecassis. Pelo meio, conversamos com Pedro Santos Guerreiro, director do Expresso sobre a Europa, Portugal e muito mais; levantamos o véu sobre a próxima edição do NOS Primavera Sound, sobre o Indie Lisboa e sobre a nova exposição temporária patente no Palácio Pimenta – “Lisboa, Cidade Triste e Alegre: Arquitetura de um Livro” – que revisita a obra homóloga de Victor Palla e de Manuel Costa Martins recentemente reeditada pela Editora A Bela e o Monstro em parceria com o Jornal Público.

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Esperamos que gostem.


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Grande Entrevista


Pedro Santos Guerreiro por João Moreira

Tiago Miranda/Expresso

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Chegou a Director do Jornal de Negócios aos 33 anos, depois de uma licenciatura em Gestão no Instituto Superior de Gestão, de que lhe ficou uma visão keynesiana da economia, e de um MBA na Universidade Nova, que não deixou quaisquer resquícios de influência da Escola de Chicago. Dezasseis anos depois de o ter ajudado a fundar, abandonou o Negócios para ingressar no Expresso, de que é director desde 2016. Pelo meio, foi escrevendo em diversos jornais, sempre de luvas de boxe calçadas contra as injustiças. “Quando escrevo, comprometo-me sempre”, afirma Pedro Santos Guerreiro com um sorriso quase provocador, durante uma longa conversa regada a Vinho do Dão, em Viseu, a sua terra natal, onde com 13 anos se iniciou na aventura do jornalismo, na Rádio Escala, num tempo em que, no interior do país, as rádios piratas eram as únicas janelas abertas ao mundo.


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Bica: És o primeiro diretor do Expresso que vem do jornalismo económico e não do jornalismo político. Porque é que achas que isso aconteceu? Pelo peso que a economia ganhou nas nossas vidas a partir da crise financeira de 2008? Pedro Santos Guerreiro: A minha formação não é na área do jornalismo, mas de história e economia. Mas é verdade que sou o primeiro director do Expresso a vir do jornalismo económico. Suponho que isso se deva a dois factores: em primeiro lugar, ao facto da informação económica ter ganho grande protagonismo nos últimos anos. Tradicionalmente, a informação económica em Portugal era muito segmentada para administradores de empresas, para investidores bolsistas e, portanto, tinha um público muito específico, muito fechado. Quando o Jornal de Negócios apareceu em 1997 abriu muito o espectro da informação económica, porque na altura o Diário Económico era muito elitista e não o digo no mau sentido, mas no bom sentido, o Semanário Económico era para PME’s, a Fortuna e a Exame eram revistas muito direccionadas para gestão, a Valor tinha-se reposicionado para a, então chamada, nova economia e o Jornal de Negócios foi o primeiro jornal a falar para toda a gente e a popularizar a Economia, escrevendo de uma maneira pouco hermética e tentando explicar às pessoas que a economia fazia parte das nossas vidas e da vida na sociedade. Depois, em 2008, com a crise financeira que na verdade começa nos EUA em 2007 com o subprime, atinge o pico em 2008 com a falência do Lehman Brothers, atravessa o Atlântico e torna-se global, provocando a queda de vários bancos, e revelando, inclusivamente, enormes problemas em bancos portugueses que estavam ocultos, como o BPN e o BPP, e que acabam por ser nacionalizados pelos estados europeus, os problemas económicos ganham uma dimensão nunca imaginada. Num ápice, estamos todos perante o impensável que é ver bancos a falir, o que representava o fim de um dogma: os bancos não faliam, ponto. E com todas as consequências que isso implicou, nomeadamente a crise das dívidas soberanas, com a Grécia intervencionada em 2010, depois a Irlanda, depois Portugal, com intervenções em Espanha que foram disfarçadas por forma a não constituírem um resgate oficial, e com o impacto que tudo isso teve na economia. De repente toda a gente estava a falar de economia. Os jornais de economia dispararam em vendas, os telejornais abriam com economia e todos discutiam macroeconomia. Da mesma forma que quando aconteceu o processo Casa Pia eramos todos especialistas em Código Penal, naquela altura entravas num táxi e o taxista estava a falar de macroeconomia.

Os livros de economia tornam-se best sellers... ...e alguns economistas pop stars (risos). A verdade é que a informação económica popularizou-se e o jornalismo económico, que historicamente era muito segmentado, ganha uma nova dimensão. Os jornais económicos passam a estar cheios de política, porque naquela altura quer a política nacional, quer a europeia passa a estar muito condicionada por fatores económicos. Os jornalistas de economia, mais do que jornalistas de nichos de informação, passam a ser jornalistas sobre o que estava a acontecer no país e na Europa. Suponho que isto, como contexto, fez com que muitos jornalistas de economia, de repente, tivessem mais protagonismo nos jornais generalistas do que antes. O director da TVI, Sérgio Figueiredo, vem do jornalismo económico, o director do Público, sendo jornalista de política fez grande parte da sua carreira em jornais de economia, o José Gomes Ferreira vende 100 000 livros... Mas é importante que se perceba que não foi a economia que capturou a política, mas a política que passou a ser indissociável da economia. Portanto, e voltando à tua pergunta, a minha contratação para director do Expresso pode ser enquadrada por estes factos e depois, claro, tem a ver, o trabalho que fui realizando, com o meu próprio percurso que, digamos, acabou por ser mais de política porque no fundo, tudo isto é política.

Entras para o Expresso para desenvolver a plataforma digital do jornal, que resulta no Expresso Diário, que se revela um sucesso. Sim, quando sou convidado para o Expresso, eu tinha sido um dos fundadores do Jornal de Negócios...

Permite-me um parênteses. O Jornal de Negócios sempre se afirmou como um jornal de economia, mas com uma grande componente de política, com muitos jornalistas que vinham da área do jornalismo político. Há uma explicação para isso. Quando lemos jornais de economia americanos ou ingleses percebemos que são muito financeiros. Porquê? Porque têm muitos leitores, porque em Inglaterra e nos EUA há muitos investidores em bolsa. Em Espanha, os jornais de economia também são relativamente de nicho, porque também há muitos investidores em bolsa. Portugal tem poucos investidores, tirando


Depois, o percurso que tínhamos projectado para o Negócios em 1997 tinha sido pensado para digital. Começou primeiro na internet e só depois é que foi para papel. E isso, que na altura foi bastante visionário, fez com que o Negócios sempre fosse um processo de projecto digital. Portanto o Negócios, ao contrário de todos os outros jornais que existiam, não era um jornal que tinha um site, era um site que tinha um jornal, e isto criou não só uma escola no jornal como uma forma de pensamento muito direccionada para a internet, para o digital.

É diferente pensar para o digital e pensar para o papel? Sim e não. O jornalismo é o mesmo - ou é bom jornalismo ou é mau jornalismo - ele não muda por ser digital ou por ser em papel. Tem códigos diferentes que têm a ver com títulos e com entradas de texto, já explico porquê, e por outro lado com a dimensão. O digital permite a utilização de outras linguagens, a criação de narrativas em que cruzas imagens, som, texto de uma forma harmoniosa, e isso no papel é mais limitado. Mas, tirando os códigos de títulos e de entradas e porquê? Porque quem compra um jornal já decidiu que o vai ler e, portanto, um jornal em papel obedece a um código canónico que se aprende nas faculdades em que o título deve ser puramente informativo e a entrada, o leed, condensar toda a notícia. Nos sites, nós estamos a disputar atenção, porque a maior parte das pessoas que lê as notícias vai passando por elas, mas tem acesso a tanta informação que os jornais precisam de captar a atenção do leitor. Isso leva a títulos que sejam mais sedutores, o que muitas vezes leva a erros que são os erros do clickbait, melhor, nem são erros, são códigos errados, que basicamente consistem na criação de uma informação que depois é desfeita na própria notícia. As entradas que nos jornais em papel são a pirâmide invertida, onde tu condensas toda a informação na entrada, nos sites não, nós queremos que os leitores continuem a ler a notícia e, portanto, a entrada não esgota, e isso é propositado, a informação, para que o leitor se sinta compelido a continuar a ler. Mas, tirando isto, jornalismo é sempre jornalismo e o que nós fazemos é imaterial - é informação. A maneira como depois chegamos aos leitores, em papel, em site, seja o que for, é apenas

uma forma de distribuição desse produto. O que nós fazemos é imaterial, é informação, é jornalismo e isso não muda.

Retomando a tua entrada no Expresso... O convite para eu ingressar no Grupo Impresa coincide com um passo muito corajoso que o Expresso decide dar, no sentido de assumir que, mais do que um semanário, é uma marca de informação que deve estar presente diariamente na vida dos leitores e, portanto, chega até aos seus leitores através de um site em tempo real, através de um diário e de um semanário. O semanário permanece como o produto nobre de toda esta oferta, mas com o diário, não só satisfaz as necessidades de informação, de acompanhamento regular da actualidade, como consegue fazer quase uma subversão do que parece ser o caminho dos outros jornais. O Expresso Diário é um vespertino, quando já não há vespertinos em Portugal, que sai às 6 da tarde, que não concorre com sites abertos, concorre com os jornais do dia seguinte, e o que nós dizemos aos leitores é “leia hoje a análise do dia, não espere pelo dia de amanhã”. É um diário feito de uma maneira diferente, muito editado, não tem secções, tem muito poucos temas que são aqueles que elegemos todos os dias como importantes, e, dessa forma, criamos uma ligação permanente do Expresso com os leitores ou, se quisermos, queremos que o Expresso faça parte da vida quotidiana dos leitores e não apenas ao Sábado. Isto foi uma mudança radical no Expresso, conseguida preservando, ou melhor, reafirmando a sua identidade.

Entretanto, com a saída de Ricardo Costa para Director de Informação da SIC, assumes a direcção do Expresso. Sim, as coisas foram bastante pensadas desde o início. A Impresa hoje tem dois grandes orgãos de comunicação social - a SIC e o Expresso. A relação entre o Expresso e a informação da SIC foi-se cruzando cada vez mais e hoje trabalhamos muito em conjunto. O facto de ter trabalhado dois anos com o Ricardo, como meu director, criou uma relação profissional entre nós, que, depois, com a passagem do Ricardo a Director da SIC Notícias e Director de Informação da SIC, fez com que daí resultasse um projecto conjunto que, mantendo obviamente quer as identidades quer as redacções do Expresso e da SIC, pela proximidade de posicionamento editorial, pelo facto de sermos duas marcas de informação de referência, dirigidas a leitores ou a espectadores muito exigentes com a informação, nos permitiu fazer reportagens em conjunto e planear alguns projectos em conjunto.

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o período das privatizações, da EDP, da PT, da Brisa, e por aí fora, sempre houve poucos investidores em bolsa e isso fez com que os jornais de economia tivessem que abrir o seu escopo para ter mais leitores. Isso criou-lhes uma característica que não é vulgar e que é o facto de terem uma abrangência e um impacto de leitura muito mais nacional e muito menos segmentado.


Essa proximidade que se sentiu bastante com a chegada do Ricardo Costa a Director do Expresso, tem-se acentuado ultimamente, até na prevalência de jornalistas do semanário a participarem em painéis de debate na SIC. É uma tentativa de aproveitamento de recursos? É aproveitamento de recursos, mas é mais que isso. A capacidade que nós temos, trabalhando em conjunto, de oferecer melhor informação aos leitores é, no limite, aquilo que nos interessa. Por exemplo, nós agora vamos estar no Mundial de Futebol e vamos beneficiar do trabalho conjunto das equipas do Expresso e da SIC Notícias que estarão no terreno. Por isso, não é só aproveitamento de recursos, é fazer uma informação mais completa através dos meios diferentes que ambos temos, tentando servir melhor os nossos leitores e telespectadores. Aliás, a própria SIC vai mudar de instalações para junto da redacção do Expresso e, portanto, esse entrosamento tenderá a aprofundar-se, afirmando a identidade de cada marca e beneficiando as duas.

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Nas tuas colunas de opinião nota-se muito uma escrita intensa, quase de revolta, quando abordas determinados temas. Isso foi notório quando escreveste sobre os incêndios de Pedrógrão e depois de Outubro, como o foi nos casos de corrupção que envolveram o Grupo Espírito Santo e José Sócrates, ou na polémica sobre as adopções da IURD, ou... Os exemplos que estás a dar têm a ver com injustiça. Eu sou daqueles que acham que o jornalismo tem uma função. Uma função social que é não apenas de informar melhor e cumprir o código deontológico, não apenas de fazer uma selecção editorial, ou seja, uma escolha dos temas que decidimos seguir de acordo com essa função social, mas também de não ser anódino. Há uma diferença entre ser neutro e ser imparcial, e nós temos que ser obviamente imparciais, o que significa que nas nossas escolhas editoriais, que são sempre subjectivas, ou não seriam escolhas, tratamos imparcialmente os acontecimentos e os factos, mas não somos neutros. Um jornal que queira ser neutro é um jornal que não existe, é um jornal cobarde que não toma posição sobre nada, nem sobre as escolhas que ele próprio faz. E se isso deve ser verdade no espaço noticioso, onde é que a não neutralidade se manifesta? Desde logo no estatuto editorial. Todos os jornais têm um estatuto editorial e o estatuto editorial é aquilo que define o seu posicionamento perante a sociedade e o mundo. É um documento

normalmente muito pouco lido pelos leitores, embora esteja disponível para todos.

Talvez o mais lido e comentado tenha sido o do Independente, quando apareceu. O estatuto editorial do Independente é um bom exemplo, porque aí o Independente dizia ao que vinha e naquilo em que acreditava e depois tomou escolhas editoriais em função disso. Depois há outro espaço onde, obviamente, não só não se pode ser neutro como se pode ser parcial, que é o espaço de opinião e que deve estar devidamente identificado como tal. Porque é que as pessoas querem ler opinião? Provavelmente para formar a sua própria opinião e uma opinião anódina é uma opinião irrelevante. Havia aquela frase da Ivone Silva “com este vestido preto eu não me comprometo”. Eu nunca escrevo de vestido preto. Eu comprometo-me sempre. E comprometo-me não por capricho e não só em defesa daquilo em que acredito mas porque tenho esse mandato implícito dos leitores. Um jornal, e, no caso, um Director de jornal, só tem poder em função do número de leitores que tem, portanto, são os leitores que delegam o poder nos jornais e se delegam esse poder, então, nós temos a obrigação, não é sequer a possibilidade, é a obrigação de usar esse poder. E usar esse poder em função de quê? Em obediência a uma função social que, em última análise, é a de contribuir ou mesmo lutar por uma sociedade mais justa, uma sociedade informada, esclarecida e uma sociedade que, perante a argumentação e contra-argumentação permanente sobre todos os factos, se consiga orientar e tomar ela própria uma posição e nunca se diluir no lugar do meio para onde a neutralidade aponta toda a gente. Se fizermos sempre a bissectriz dos argumentos vamos sempre parar ao meio e o meio é o sítio onde nada acontece, é o sítio da inércia.

Sendo notória essa tua luta contra a injustiça, eu diria que ganha outra dimensão, outra intensidade, sempre que está em causa a desistência do Estado ou o não cumprimento do seu dever de defender os cidadãos. Incomodam-te os sucessivos falhanços do Estado? O Estado não pode falhar e não pode falhar inclusive na captura, condenação ou absolvição daqueles que são suspeitos de corrupção e daqueles que são suspeitos de, mesmo através de actos lícitos, introduzirem desigualdade na sociedade. Isto porque, no limite, é sempre ao Estado que cabe essa função através dos vários poderes que detém, não só do poder legislativo, mas também do judicial. É o Estado que tem essa obrigação. E a


Quanto à maior ou menor intensidade da minha escrita, há textos em que se entra de luvas brancas e outros em que se entra de luvas de boxe e isso não corresponde apenas ao estado d’alma, corresponde também a uma função e a uma utilidade da escrita. Eu não estou a escrever para mim, estou a escrever para os leitores, e se sou mais agressivo, e sou muitas vezes mais agressivo, é porque essa agressividade tenta cumprir uma função que é, sobretudo, a função da convocatória, de tentar acordar, de tentar despertar, de tentar elucidar os leitores para aquilo que está em causa. Eu nunca quero esmagar uma pessoa, porque isso seria ir contra o código que defini para mim próprio, e às vezes é muito fácil através da escrita sovar uma pessoa e o meu objectivo nunca é esse, até porque esse objectivo por si só é mesquinho. Por exemplo, o Trump, é facílimo e dificílimo de atacar. É facílimo porque todo ele parece ser uma anedota. É um homem implausível na função que ocupa e é facílimo de atacar porque é ignorante, é autoritário, excêntrico e inconsistente, mas depois é difícil de atacar porque tem uma barreira inexpugnável à crítica, porque, apesar de tudo o que é dito sobre ele, os índices de apoio eleitoral são muito altos. Aliás, o New York Times fez essa reflexão depois da eleição, que partilhou com os seus leitores, confessando que tinham sido ineficientes na denúncia dos problemas daquele homem e que não tinham feito um bom trabalho na divulgação dos riscos que a eleição de Trump implicaria. Repare-se que quando estamos a falar de Trump não estamos a falar de ideologia, nem de um homem que tem má imprensa porque é bruto e inculto, mas porque é efetivamente um homem perigoso com um botão vermelho nas mãos. Às vezes atacar o homem pode não só ser muito mesquinho como completamente improdutivo.

No jornalismo português não há essa tradição de ataque e perseguição ad hominem exceptuando o caso do Correio da Manhã em relação a Sócrates. Mas a verdade é que o Correio da Manhã esteve muito tempo isolado a dizer coisas que depois se vieram a confirmar.

Exactamente. Agora, é verdade que há assuntos que despertam em mim mais revolta e um deles é a corrupção. E aquilo que o sistema financeiro fez durante anos à economia portuguesa sem que se percebesse. Quando é feita a intervenção em Portugal em

2011, foram os banqueiros que pressionaram, na ponta final, o Governo. Os banqueiros foram ao Banco de Portugal numa sextafeira e articularam que cada um deles ia dar uma entrevista por dia a dizer que Portugal tinha que pedir ajuda externa. À segunda entrevista, Portugal pediu. A intervenção iria acontecer na mesma, estou absolutamente convencido disso. Aliás, Portugal esteve pertíssimo de pedir ajuda externa no fim de 2010 e isso não se soube na altura. Depois, no início de 2011, há a eleição presidencial de Cavaco e durante um mês não se falou de intervenção externa, como se estivesse tudo bem no país. Depois há o PEC4, no princípio de Março, que tinha sido combinado sem que quase ninguém soubesse. O PEC4 era a última tentativa de evitar uma intervenção externa. Bem negociado lá fora e mal negociado cá dentro, porque apanhou toda a gente de surpresa. Nem o Presidente da República estava a par, embora tenha havido uma fuga de informação, sabe-se hoje, que lhe permitiu tomar conhecimento das negociações do Governo. A partir daí, deixa de haver condições políticas para adotar o PEC4. Ora, a partir do momento em que se percebe, no dia 11 de Março de 2011, que o PEC4 não tem aprovação política e que vai chumbar, e chumba a 25 de Março no Parlamento, implicando a queda do Governo, passa a ser inevitável que haja intervenção externa.

Os momentos economicamente mais dramáticos do país acontecem sempre a 11 de Março. (risos)... Mas foram os banqueiros que foram dar o empurrão final para que isso acontecesse. E quando é feito o pedido de intervenção externa, os banqueiros todos afirmam que isto era um problema do Estado, não era um problema dos bancos e que os bancos estavam bem e que iriam pagar uma factura por causa da intervenção externa. Tudo o que aconteceu depois mostra-nos que foi uma encenação - os bancos estavam todos mal e basta ver a quantidade de milhares de milhões que tiveram de ser injectados nos bancos para que não quebrassem com o caso clamoroso do BES à cabeça, que é um caso à margem de todos os outros porque não é um caso apenas de má gestão, é um caso de fraude, um caso de burla. A investigação jornalística ao BES começa em 2012 e os jornais tiveram um papel absolutamente essencial na denúncia do caso. Só que a investigação da corrupção em Portugal é muito recente, o Ministério Público não tinha nem competências nem conhecimento específico para investigar casos deste tipo. A grande investigação à corrupção em Portugal começa com a Operação Furacão. Até lá, não havia praticamente casos de corrupção

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nós cabe-nos, pelo menos, estabelecer essa convocatória.


em Portugal investigados. Não que a corrupção não existisse, mas a verdade é que nós não tínhamos corrupção ao nível da de outros países. Quando a Operação Furacão começa, e é a primeira grande investigação sobre corrupção que implica bancos e grandes empresas, acaba por dar origem a muitos outros casos, porque do material desse processo começam a surgir novos processos, como o Monte Branco, o Face Oculta, o próprio BES, porque o Ministério Público começa a ter uma equipa dedicada a este tipo de crimes financeiros. Mas, mesmo hoje, passada quase uma década, é muito pouca gente: há um procurador que é o Rosário Teixeira; há um juiz, que tem envolvimento em muitos casos, que é o juiz Carlos Alexandre; e há um homem das finanças de Braga, que é muito pouco falado, que também está em muitos destes processos, que é o Paulo Silva. E estas três pessoas foram essenciais para o desenvolvimento da investigação de casos de corrupção. Eles e os jornais que têm tido um papel muito importante através do seu próprio trabalho de investigação.

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Portanto, se quiseres, eu tenho uns disjuntores que disparam em alguns assuntos. Casos de corrupção são claramente um deles, como os casos dos abusos cometidos pela política sobre a sociedade. Para dar um exemplo, na Troika, cuja intervenção eu achei, e acho, que era inevitável, sendo uma humilhação para Portugal, e disse-o no dia na TVI, e sendo devastadora como iria ser, e foi, era uma oportunidade para fazer reformas e para introduzir alguns elementos de modernidade na política nacional. Durante um ano, o Governo de Passos Coelho teve muitíssimo boa imprensa. Havia um ambiente social, e até político, muito favorável à introdução dessas reformas, em grande parte pelo grande sentimento de culpa que se sentia no país, uma espécie de expiação colectiva que acabou no dia da TSU. No dia em que é conhecida a proposta, lembro-me perfeitamente desse dia, até porque a notícia foi avançada pelo Jornal de Negócios, o Governo propõe uma medida que economicamente faz todo o sentido, mas não faz sentido nenhum do ponto de vista social. Jamais seria aceite, porque era uma transferência de sobrecarga fiscal de empresas para os trabalhadores e se economicamente eu consigo perceber a racionalidade, que é de estímulo à criação de emprego, que era o problema da altura, baixando os custos de contratação para as empresas, socialmente era absolutamente injusta. Tão injusta que era óbvio que não ia ser aceite. Nesse dia sentei-me e escrevi um editorial chamado “As espadas” e recebi muitas críticas porque diziam que era um editorial que incitava a violência por eu dizer que era dia de escrever de soqueira, o que era, obviamente,

uma metáfora, mas era uma metáfora para essa agressividade. Dois ou três dias depois, estavam centenas de milhares de pessoas na rua e a medida caiu e com ela acabou a boa imprensa e a tolerância de muitos. Porque aquela austeridade era uma austeridade injusta, desequilibrada e que obedecia a princípios e objectivos orçamentais, mas que não era acompanhada de um sentido de propósito de transformação social ou de transformação política ou, para usar o jargão batido, de reformas. No fundo, todas as reformas que a Troika trouxe foram temporárias. Não mudou praticamente nada. Aumentaram-se muito os impostos, baixaram-se muito os custos do Estado pela via da redução salarial e das pensões. Portanto, orçamentalmente foram tomadas muitas medidas e houve uma tentativa de reforma do mercado de trabalho que foi travada pelo Tribunal Constitucional, mas na prática não resultou quase nada de transformador da sociedade. Isso não fez da Troika um fracasso, mas foi uma intervenção muito desajustada e errada em muitas coisas, uma delas na banca. A chamada saída limpa acontece um mês antes da queda do BES. Portanto, foi obviamente uma intervenção falhada em quase tudo o que pretendia, excepto no seu grande objetivo que era restaurar a confiança dos mercados financeiros em Portugal. Nisso teve sucesso.

Mas um sucesso temporário... Um sucesso muito subsidiado. Hoje vivemos em total mutualização do risco só que não temos essa percepção porque os sistemas políticos querem que as opiniões públicas não percebam. Não é a opinião pública portuguesa, é a opinião pública alemã e dos países nórdicos. Portugal está a pagar taxas de juros que, nunca na vida, se justifica. A isto chama-se mutualização de risco. Estamos a pagar taxas de juros baixíssimas, beneficiando do baixo risco que os outros países europeus têm, e isto é feito às escondidas das opiniões públicas, porque se os alemães tivessem a noção de que estão a pagar um bocadinho mais de juro, para que Portugal pague bastante menos, revoltavam-se. Portanto, é uma Europa que se vai construindo escondendo coisas às opiniões públicas, o que faz dela um projecto que se vai, em muitos países, divorciando da sociedade. Mas voltando ao princípio, é verdade que, quer por uma questão de função, quer pelo exercício de poder que é delegado ao jornal por ter os leitores que tem, quer pela forma como eu escrevo, quer pelo desígnio romântico, se quiseres, de mudar o mundo, para usar uma expressão que toda a gente percebe, sim, muitas vezes começo a escrever de luvas de boxe.


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Os fogos do ano passado, sobre os quais escreveste de luvas de boxe e no centro do ringue, foram a TSU deste governo? Não foram, e se não foram foi porque não havia praticamente oposição em Portugal. A oposição está num estado tão fraco que não consegue pronunciar, nem enunciar uma proposta alternativa. E foi provavelmente por isso que não o foram. Não tanto no incêndio de Pedrógão que, revelando todas as falhas do Estado que revelou, foi um fenómeno, até do ponto de vista natural raro e devastador. Não que isso sirva de desculpa para o falhanço do Estado, porque não serve. Até porque o falhanço do Estado é avassalador. Estamos a falar de uma Protecção Civil liderada por amigos dos partidos que são absolutamente incompetentes, como se provou; estamos a falar de entidades que não se conseguem relacionar entre si, entidades de prevenção e de socorro que não conseguem sequer articular-se; estamos a falar de incompetência ao ponto de não se saber utilizar o sistema de comunicações e entupir os canais de comunicação durante o incêndio; estamos a falar duma falha tão geral que, não sendo ela culpa deste Governo em específico, é da sua responsabilidade. Portanto, o que se exigia, a seguir a um tão grande falhanço do Estado, era uma acção que não existiu, porque a forma como se chega aos incêndios de Outubro, quase como se Pedrógão fosse um desastre que só acontece uma vez na vida, é inaceitável. Eu acho que o governo percebeu que podia cair a seguir a Pedrógão e, portanto, fez uma gestão política de diluição de responsabilidades e completamente focada em segurar-se. O Primeiro-ministro segurou a Ministra da Administração Interna porque ela era um tampão político. Enquanto a crítica recaía sobre ela, não desabava sobre ele. E não nos esqueçamos de que havia eleições autárquicas dali a poucos meses, por isso, o Governo fez uma gestão política deste processo.

Coisa em que António Costa é de facto um especialista. Coisa em que o Primeiro-ministro é muitíssimo competente. E depois, muito provavelmente, o Governo pensou aquilo que pensam as pessoas quando têm acidentes, que estatisticamente isto só acontece uma vez. Só que não foi assim e repetiu-se num fim de semana...

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Em que não faltaram alertas... ...e dois dias depois de ter sido aprovada uma proposta de Orçamento de Estado que não tinha reforço de meios para estas áreas.

O que só prova que o Governo, depois de Pedrógão, não ia fazer nenhuma mudança substancial, e só o fez depois da segunda tragédia e depois de uma intervenção directa do Presidente da República. Portanto, é verdade que os incêndios podiam ter sido a TSU deste governo, mas não o foram, e não o foram em grande parte porque não existia alternativa credível a António Costa. Pedro Passos Coelho estava exangue. Aliás, foi um péssimo líder de oposição e só no início deste ano é que houve alteração na liderança do PSD.

Que quase não se nota. Que por enquanto ainda não teve um arranque. Por isso, António Costa consegue manter-se com níveis de popularidade altíssimos. A palavra que normalmente usam para definir António Costa não é propriamente um elogio, é uma palavra bastante traiçoeira, que é a palavra “hábil”. E sim, ele é de uma habilidade política que está provada, desde logo pela forma como, perdendo eleições, consegue salvar-se a si e ao PS através de uma solução política inédita em Portugal.

Talvez a principal herança da Troika, porque as grandes transformações de que o país precisa continuam por realizar. Consideras que será possível mantermos este ambiente de quase euforia económica sem levar a cabo essas reformas? O governo de Passos governava para o cenário de “e se tudo correr mal”, o governo de Costa governa para o cenário de “e se tudo correr bem”. Só isso teve o mérito grande do desanuviamento do ambiente político, para o qual o Presidente da República contribuiu muitíssimo. O país estava sufocado não só pela austeridade, mas pelo pessimismo, pela sombra negra de que jamais se iria levantar.

Pela desesperança... Pela desesperança. E a esperança tem valor. Tem valor político e valor económico, embora induza a alguns comportamentos que são muito perigosos. Por exemplo, nós voltamos a ter uma taxa de poupança baixíssima, estamos a endividarmo-nos outra vez muitíssimo. Isso não acontece por acaso. Os agentes económicos respondem a incentivos. Quando o incentivo é de baixíssimas taxas de juros, o que se está a dizer às pessoas é para se endividarem e é isso que a política monetária europeia está a fazer. Portanto, os portugueses estão a responder aos estímulos que lhes são dados economicamente. Portugal está muito vulnerável e os perigos externos são muitos: a situação do Médio Oriente; a difícil relação com a Rússia; a guerra comercial lançada a partir dos


O nosso sucesso económico tem sido muito alavancado pelo turismo, e ainda bem, mas falta-lhe, sobretudo, o investimento produtivo. Os nossos níveis de investimento são miseráveis e é o investimento que cria condições económicas e de emprego permanentes ao longo do tempo. Além disso, temos um crescimento económico muito assimétrico dentro do próprio país, quer regionalmente quer etariamente. Por exemplo, hoje existe muito mais emprego, mas com salários muito mais baixos do que antes, como foi previsto por economistas como Vítor Bento e Silva Lopes que pronunciaram esta grande diferença salarial entre aqueles que já estavam no mercado e aqueles que iriam entrar no mercado, e isso cria um crescimento muito desigual no país. Portugal, estando evidentemente melhor, tem grandes condições de fragilidade e de vulnerabilidade a qualquer choque externo, e são muitíssimos os choques que podem ocorrer. Também é verdade que a União Europeia, como se percebeu há dois anos, quer que Portugal seja um caso de sucesso, não quer ter mais problemas financeiros. A União Europeia mudou completamente a sua estratégia. Esteve dominada pela crise financeira até à crise dos refugiados. Quando finalmente percebeu a crise dos refugiados, que já tinha cerca de 1 ano, só que estava contida em Lampeduza e no sul da Grécia, mudou completamente de agenda. Aliás, foi Angela Merkl que teve a coragem de empurrar a Europa para a resolução dessa crise, completamente isolada, quer interna quer internacionalmente. De repente, torna-se numa grande europeísta, muito admirada por aqueles que antes a criticavam pela ortodoxia financeira. Mas, nessa altura, a Europa muda completamente a agenda e não quer ter mais problemas financeiros, e isso beneficia Portugal. As ajudas que o Estado dá à Caixa Geral de Depósitos são aceites pela Comissão Europeia como não sendo ajudas de Estado, quando é muito evidente que o são. Isto foi uma vitória política portuguesa, mas resulta da grande vontade da União Europeia em fechar os olhos porque a agenda tinha mudado e isso beneficiou Portugal. Como beneficiou a Grécia, onde a situação é muitíssimo mais grave que a portuguesa e onde se verifica um disciplinamento de Syriza, que de partido anti-troika passa a partido de poder, aprovando medidas que em Portugal ninguém ousaria tomar, como a restrição à greve.

Em Portugal, o Bloco de Esquerda também se institucionalizou. O Bloco tomou uma opção que foi deixar de ser um partido de protesto e passar a ser um partido de poder, e isso é uma mudança muito grande porque significa, em vez de querer mudar as coisas a partir de fora, mudar as coisas a partir de dentro, que é uma opção que o PCP não parece querer prosseguir, mas o Bloco sim. Isso constrange muito mais a voz de protesto do Bloco, sendo que o Bloco depois reivindica para si muitas vitórias em políticas que vão sendo implementadas como resultado da sua influência. Agora, de facto, Portugal é dos poucos países da União Europeia onde o quadro político se manteve estável. Não temos novos partidos, não temos, pelo menos por enquanto, a emergência de extremismos políticos, o nosso quadro parlamentar manteve-se, e isto não aconteceu praticamente em mais nenhum país na União Europeia. O nosso descontentamento não se revela na emergência de novos partidos nem na emergência de radicalismos, mas na abstenção. E no dia em que a abstenção for superior a 50%, e esse dia já esteve mais longe, aí vai colocar-se em causa a representatividade do voto, e isso é perigoso.

Não achas que o Marcelo pode ter invertido essa tendência? Eu acho que o Marcelo tem ajudado muito a conciliar os portugueses com a política. Acho que o faz deliberadamente, acho que o tem conseguido e espero que continue a consegui-lo, e que daí resulte essa aproximação à política e uma maior participação da sociedade. Porque se nós tivermos falta de representatividade democrática, ou seja, falta de adesão eleitoral, então temos uma democracia doente que deixa de dar respostas a si própria, e isso é um risco grande.

A eleição de Marcelo foi uma lufada de ar fresco na política nacional? Foi uma grande surpresa para quase toda a gente que sempre o viu como um grande entertainer que é, e um grande manobrador que é. Quando ele aparece com o discurso dos afectos, isso foi visto como uma manobra à Marcelo, como uma manobra de prosápia política que no fundo não ia ter aplicação. A verdade é que teve. Marcelo sucede a um presidente, Cavaco, que dizia textualmente que tinha poucos poderes e que era muito ausente da participação cívica. Falava muito pouco. Quando falava era por sinalização, de forma muito hermética. Era um presidente muito afastado do povo e o Marcelo subverte totalmente isso. É um presidente muito próxi-

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Estados Unidos; a situação de Itália, que tem uma dívida astronómica e uma instabilidade política enorme; a efemeridade da política monetária que estamos a viver, com taxas de juro negativas, e que não pode durar muitos mais anos. Embora todos estes sejam factores com níveis de risco diferentes, podem pôr em causa aquilo que tem contribuído para o sucesso económico em Portugal.


mo do povo e faz da força popular a base do seu poder. Porque, efectivamente, segundo a Constituição, o Presidente não tem muitos poderes, mas é precisamente por ser tão ouvido que ele consegue ter influência, e é essa influência que lhe dá o poder de ir interferindo ou intervindo no quadro político e ocasionalmente na própria delimitação da política portuguesa. E isso faz dele um Presidente permanentemente interventivo, correndo o risco da banalização, mas de uma eficácia até agora a toda a prova.

O caso de Marcelo e da sua política de afectos e de Macron, pela surpresa da sua vitória e pelo seu empenho europeu, são vistos por muitos europeístas como indiciadores de uma certa esperança para a continuidade do projecto europeu, afastando radicalismos e teses de desagregação. Concordas com esta visão? A União Europeia teve um choque que, apesar de tudo, foi muito rápido e que se metastizou no desaparecimento representativo eleitoral dos partidos social-democratas, que eram a base ideológica do movimento de construção europeia. Isso tem muitas causas que já foram estudadas. Muitos partidos socialistas colapsaram eleitoralmente com uma rapidez muito surpreendente, o caso do PASOK, do PSF, do PSOE, em grande parte porque foram incapazes de criar uma alternativa à esquerda, ao liberalismo económico prevalecente na direita. Mas a verdade é que a dissolução dessa força eleitoral foi muito súbita e veio acompanhada por fenómenos de desagregação inesperados na União Europeia, nomeadamente o Brexit. E, portanto, a União Europeia que é um projecto prodigioso, se pensarmos nos seus objectivos primeiros, e últimos, que são o da paz e o da prosperidade...

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Que tem cumprido... ...que tem cumprido, oscilando entre uma volúpia de integração e um desespero de centralização de comando. Aliás, o federalismo deixou de se falar, mas não deixou de se pensar. Como dizia Ana Gomes “o federalismo é the f word “ que já ninguém diz, mas no fundo todos pensam. Ora, quando se dá o choque do Brexit, a que a União Europeia começa por reagir com um sentimento quase de imerecimento, a única coisa boa que daí resulta foi o estremecimento dos líderes europeus para o dramatismo do que estava a acontecer. E teve muitas consequências do ponto de vista da arquitectura da política europeia, que é sempre uma arquitectura de movimento lento. É aí que aparece Macron, por esvaziamento dos outros. Macron teve uma ascensão fulgurante nas eleições, mas

ninguém o conhecia, ao contrário de Marcelo que toda a gente conhecia. O que é que isso mostra? Mostra uma grande avidez de soluções políticas. E, portanto, a despolitização das sociedades europeias não é senão uma desilusão que procede ou que, no fundo, representa uma grande avidez e disponibilidade para soluções políticas. O crescimento fulgurante de Macron mostra isso, mas mostra, também, a grande necessidade que os líderes europeus têm de referências. Quando aparece Macron, há uma espécie de esperança para os outros políticos, porque nele vêem a capacidade de agregar e a percepção de que se ele tem essa capacidade é porque a sociedade também mostra disponibilidade para ser agregada. Há um caso muito menor, que, sendo completamente diferente, tem algumas semelhanças, que é o de Inês Arrimadas, que ninguém sabe quem é e que, de repente, chega com um discurso muito marcado, muito afirmativo e muito consistente politicamente e agrega num ápice muitas pessoas. Isto quer dizer que o sistema político tem que de encontrar, dentro de si próprio, a sua salvação pela capacidade de criação de respostas e de alternativas aos radicalismos, e eu acredito que as sociedades estão disponíveis para isso.

Qual é o principal diferenciador de Portugal na Europa? Além da cultura... Mas isso é uma óptima resposta. É a nossa cultura. É a nossa identidade. É o nosso património cultural no sentido mais vasto. Portanto, a nossa diferenciação é sermos quem somos. Porque é que hoje atraímos tanta gente? Pela segurança, pelo sol, pela praia, pela gastronomia, pelo preço acessível das viagens? Mas sempre tivemos isso. Então o que é que mudou? Mudou a nossa exposição ao mundo. Portugal passou a estar na moda e não creio que, mesmo quando a moda passar, se volte ao patamar anterior. A nossa diferenciação é sermos quem somos. Por isso, em vez de querermos ser como os outros, em vez de comprarmos livros de consultores que têm soluções pastiche para toda a gente e dizem para te diferenciares, mas depois vão, paradoxalmente, aconselhar-te a ser igual a todos os outros, devemos apostar no que nos diferencia realmente, e o melhor que Portugal tem é a sua identidade cultural.

E estamos a conseguir preservar essa identidade cultural, essa genuinidade, apesar da gentrificação resultante do turismo? Acho que há esse risco. Estamos a confrontar-nos com um crescimento muito rápido que, nomeadamente em Lisboa e no Porto, desequilibra o imobiliário, desequilibra


O melhor de Portugal são os portugueses? O melhor de Portugal são os portugueses e a sua identidade cultural, não tenho a menor dúvida disso.

Regressando ao Expresso, a revelação dos Panama Papers e do Football Leaks resulta da participação do jornal em consórcios internacionais de jornalistas de investigação que desempenham um papel essencial na denúncia de esquemas internacionais de fuga aos impostos, desvio de fundos públicos, financiamento de terrorismo e tráfico de armas. Qual tem sido o papel do Expresso nestas investigações? O Expresso é o único jornal português que está envolvido em consórcios internacionais de jornalismo. Temos equipas de investigação a trabalhar com equipas de investigação de outros jornais e, ocasionalmente, trabalhamos ainda com consórcios sul-africanos com quem trocamos informação. Porque é que estes consórcios são importantes? Primeiro, porque estamos a falar de um tipo de criminalidade financeira e de actos que não só propiciam a desigualdade como a legitimam, porque a escondem. A investigação, quer a judicial quer a jornalística, destes casos tem que ser transnacional, porque investiga transacções de dinheiro sem fronteiras, legitimadas por offshores. A única maneira de investigar é investigar em vários países. E é por isso que os consórcios nascem, e nascem, antes de mais, por jornais que, tendo acesso a informação, têm noção que sozinhos não conseguem investigá-la e têm a visão e a grandeza de espírito de a partilhar

com outros jornais. Estamos a falar de jornais como o Der Spiegel, na Alemanha, que teve acesso a uma fuga de informação gigante do Footboll Leaks, ou do Süddeutsche Zeitung que é um jornal alemão que teve acesso aos Panama Papers e que decidiram partilhar essa informação com outros jornais, iniciando um trabalho de investigação demoradíssimo e intrincado. Estamos a falar de dezenas de jornalistas que conseguem trabalhar durante meses sem que se saiba que estão a trabalhar, até ao momento que se decide revelar. Isto é um trabalho de investigação que exige muito tempo e muitos meios, exige equipas a trabalhar exclusivamente nisto, exige relações de confiança, exige códigos de troca de informação encriptada, exige, sobretudo, grande confiança entre jornalistas que antes nem se conheciam e que trabalham em conjunto por um objetivo comum que é o da denúncia, da revelação da informação que possa levar não só à identificação de casos criminais, mas, sobretudo, a mudança de leis, de legislação que consiga restringir estas práticas. O caso dos Panama Papers é muito interessante do ponto de vista jornalístico, porque são meses e meses de trabalho que leva à revelação de uma série de casos pela Europa toda, pelo mundo todo, que mostram práticas que vão desde a ocultação do património e rendimentos até uma ineficiência fiscal legal, até casos ilegais de fuga aos impostos e suspeitas de financiamento de terrorismo, tráfico de armas, etc. Como todas estas investigações tendem a colocar muitos poderes em causa, é habitual, para desacreditar a investigação, começar por desacreditar quem está a investigar. É sempre assim. No caso português, houve um cruzamento dos Panama Papers com a investigação ao Grupo Espírito Santo. E porquê? Porque o grande caso que os Panama Papers revelam é o GES e percebe-se através da investigação que o GES é uma gigante construção de offshores, o que não era conhecido até aí. Nós não só conseguimos mostrar isso com a identificação de dezenas de offshores que fazem o esquema por onde o GES passava o dinheiro como conseguimos fornecer informação que depois foi utilizada na investigação judicial, como seja a utilização de contratos forjados que descobrimos e publicámos, sendo que conseguimos ainda provar a movimentação do dinheiro de Hélder Bataglia para Carlos Santos Silva. Portanto, através da investigação que levámos a cabo, fica provada a movimentação de dinheiro entre Ricardo Salgado, Hélder Bataglia e Carlos Santos Silva. Depois, entre Carlos Santos Silva e Sócrates é que não há provas, no sentido em que não há documentos físicos que atestem essa movimentação. José Sócrates justifica

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os transportes, desequilibra a relação das pessoas com a cidade e afecta o dia-a-dia de muita gente. O que é importante, e aí a resposta é muito política, e não só do poder central, mas dos poderes locais, é conseguir acomodar esses impactos sem perder a identidade e sem afastar as pessoas, porque senão vamos perder a identidade cultural e vamos perder o poder de atracção, sobretudo a capacidade de atracção para nós próprios, para aqueles que vivem em Portugal. Esse risco existe, o risco de perda de identidade, mas acho que ainda não estamos lá. E devemos olhar para os maus exemplos para evitar que se repitam, e sabemos o que aconteceu no Algarve, por isso que sirva de exemplo. É preciso políticas de imobiliário, é preciso políticas de transporte, é preciso manter os cidadãos dentro das cidades e nunca perder a identidade. Se nós conseguirmos fazer isso, então, conseguiremos fazer crescer o país preservando a sua identidade. A solução de Portugal é ser Portugal.


o dinheiro como sendo um empréstimo de amigo. O dinheiro circulava em malas, portanto, não há registos de transacções, e isso é o que falta revelar para estabelecer a ponte total entre Ricardo Salgado e José Sócrates. Pelo meio, fomos cruzando estas investigações com a investigação que o Expresso fazia há muito tempo ao GES, o que permitiu a revelação de muitas informações, como, por exemplo, a questão angolana e a existência de 5,7 mil milhões de dólares não justificados no BES Angola. Estas informações foram reveladas em 2014, estamos em 2018 e continuamos a publicar informações sobre Álvaro Sobrinho e sobre a forma como o dinheiro circulava. São investigações que demoram muito tempo. Além disso, conseguimos mostrar que há dinheiro que sai do Grupo Espírito Santo, através do chamado saco azul, para pagamentos a diversas pessoas. Os pagamentos são feitos ou por transferências com nomes identificados - essas já foram reveladas como, por exemplo, a Manuel Pinho, Zeinal Bava, etc. – ou sem identificação de destinatários. Muitos desses pagamentos são de valores relativamente reduzidos, às vezes de 2000 euros por mês, durante vários anos, só que não têm nome, e o grosso das saídas é feita para outras sociedades offshores que talvez nunca se saiba de quem são.

Entretanto o Expresso decidiu publicar a notícia da existência de uma lista de pessoas, entre elas jornalistas, que supostamente receberiam dinheiro do GES, sem avançar nomes e levantando uma suspeita generalizada que levou a uma enorme contestação por parte do dos vossos colegas de profissão. Nós conseguimos saber que há uma lista de pagamentos que está no Ministério Público (que não temos, mas sabemos que está no Ministério Público) e, que se saiba, até hoje nunca foi investigada. E sabemos que nessa lista constam nomes de políticos, de autarcas, de empresários, de advogados e de jornalistas. O número de jornalistas será reduzido, mas constam dessa lista de avenças. Nós não publicámos os nomes porque não temos a lista, mas sabemos da sua existência, e isso gerou um movimento de contestação ao Expresso por causa dos jornalistas que, obviamente, outro objectivo não têm senão o de descredibilizar a investigação.

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A tua chegada à direcção do Expresso não implicou as habituais alterações de grafismo, de colunistas, de cadernos. Foi tranquila, uma espécie de evolução na continuidade. O Expresso é um grande jornal e é uma mar-

ca de informação. Não precisa de revoluções, pelo contrário. É uma relação que requer estabilidade com os seus leitores e, portanto, as mudanças que são feitas são sempre para afirmar a identidade e nunca para pô-la em causa. O que deve ser preservado no Expresso é aquilo que o distingue e é o que faz com que as pessoas o queiram comprar e o queiram ler. Portanto, não há nenhuma razão para fazer transformações radicais, o que há é razões para fazer melhorias sempre a favor de um jornalismo mais competente, mais interessante, mais rigoroso, e quando se fazem grandes alterações digitais, que são as mais pronunciadas, elas são sempre meios para afirmar e preservar a identidade do jornal. Houve muitas mudanças no Expresso que não são visíveis. São mudanças de funcionamento interno. Transformar a redacção dum semanário numa redacção de acompanhamento diário implica uma transformação gigante. Mas, o nosso objectivo é sempre o de melhorar a capacidade de investigação, a capacidade de reportagem, a afirmação de um jornal que sempre se construiu com base em três pilares: política, economia e cultura, e, portanto, devemos saber cuidar desses 3 pilares e interligá-los. A política, a economia e a cultura não são realidades paralelas e estanques na vida das pessoas, e também não o são na vida de um jornal, e o nosso trabalho permanente é dar chaves de entendimento aos leitores para esta realidade que evolui a uma velocidade estonteante, de lhes dar ferramentas para que eles possam formar a sua opinião. Isso é um trabalho diário, permanente, e é isso que faz um jornal. O valor de um jornal está sempre no trabalho do quotidiano, nas nossas escolhas editoriais, na aposta que fazemos nelas, nas equipas que colocamos a trabalhar nelas e na capacidade de informar e surpreender o leitor. Nós temos tanta informação, e é tão fácil ter acesso a ela, e está tão desorganizada e dispersa, que aquilo que um jornal pode e deve dar é um guia de organização no meio do caos, e é isso que o Expresso trabalha para fazer todas as semanas.

Achas que os jornais em papel vão continuar ou temes que desapareçam? O papel vai continuar como fenómeno de nicho, mas quem vai tomar essa decisão não são os donos dos jornais, são os leitores. Como te dizia, para mim o mais importante não é se o jornal é em papel ou online, o que é importante é a informação, e isso é imaterial. É o valor da qualidade do jornalismo, e é isso que prevalece e vai prevalecer. Se isso acontece em papel ou em monitores de telemóveis, isso é a escolha dos leitores e uma escolha que nós vamos sempre saber respeitar. Neste momento o Expresso é o jornal mais vendido em Portugal, tem dezenas de


milhares de pessoas que o compram todos os Sábados em bancas, dezenas de milhares de pessoas que assinam porque preferem ler digitalmente, e nós escrevemos para todos. Aquilo que nos preocupa é sempre a qualidade de informação e a qualidade do jornalismo, e essa não depende de haver ou não papel.

O que é que se faz depois de ser Director do Expresso?

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(Risos). Não sei. Não estou minimamente a pensar nisso. Tudo o que eu penso é em jornalismo e é no Expresso. Eu, por circunstâncias que têm a ver com ter fundado um jornal muito cedo, fui director muito cedo – sou director desde os 33. Mas se quiseres, não pensando nisso, enquanto tiver leitores, vou escrever, quando deixar de ter leitores, vou ler.


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ilustração Pedro Albuquerque


A Europa jaz, posta nos cotovelos: De Oriente a Ocidente jaz, fitando, E toldam-lhe românticos cabelos Olhos gregos, lembrando. O cotovelo esquerdo é recuado; O direito é em ângulo disposto. Aquele diz Itália onde é pousado; Este diz Inglaterra onde, afastado, A mão sustenta, em que se apoia o rosto. Fita, com olhar esfíngico e fatal, O Ocidente, futuro do passado. O rosto com que fita é Portugal.

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FERNANDO PESSOA Mensagem


Carlos Moedas

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O comissรกrio dos afectos


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por João Moreira

CUE

“Mesmo os mais altruístas entre nós não podem agir sozinhos.” Tony Judt in, “Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos”

“Eu sou um provinciano que foi para Lisboa e depois para a Europa. Talvez por isso me sinta tão bem num jantar em Bruxelas com o Presidente Juncker, como na Ovibeja a comer linguiça com os meus amigos.” Assim se define Carlos Moedas, Comissário Europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, o senhor 80 mil milhões, durante o 6º Roteiro para a Ciência, que decorreu no distrito de Viseu nos passados dias 4 e 5 de Abril. Carlos Manuel Felix Moedas nasceu em Beja, a 10 de Agosto de 1970, filho de um jornalista e de uma educadora de infância, num tempo, como dizia Mia Couto, “em que as pessoas ainda tinham corpo. E a casa tinha raiz na terra onde sujávamos as mãos e limpávamos a alma.”

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Da infância e adolescência, ficaram-lhe amigos para a vida, apesar de aos 18 anos ter partido rumo a Lisboa para estudar Engenharia Civil no Instituto Superior Técnico deixando o seu Alentejo para trás. O último ano de curso, cumpriu-o em Paris, na École Nationale des Ponts et Chaussées, ao abrigo do programa ERASMUS, iniciando assim uma relação com a Europa que anos mais tarde o levaria a um dos mais ambicionados cargos europeus, o de Comissário para a Investigação, Ciência e Inovação. Em Paris, ficou por cinco anos, a trabalhar para a Compagnie Lyonnaise des Eaux, construindo ETAR’s, tempo suficiente para se apaixonar por Céline Abecassis, uma judia sefardita com quem casou em 2000, após um regresso forçado a Portugal para cumprir o serviço militar obrigatório. Hesitante entre a INSEAD de Fontainebleu e Harvard para tirar um MBA, optou por partir para Boston, talvez por Céline ter ido trabalhar para Nova Iorque e durante dois anos partilhou a aventura de

estudar na mais elitista das universidades americanas com o seu amigo Hugo Gonçalves Pereira. A experiência marcou-o para sempre. A convivência com pessoas de todo o mundo num espaço de partilha intelectual fizeram desse período “dos mais felizes” da sua vida. O regresso à Europa foi via Londres, para trabalhar num dos mais importantes bancos mundiais, o Goldman Sachs, onde conheceu António Borges, que viria a ser fundamental na sua ligação à política. Apesar do seu pai, José Moedas, ter sido um dos mais conhecidos e respeitados comunistas alentejanos, co-fundador do “Diário do Alentejo”, Carlos sempre se sentiu mais próximo do centro-direita. É por isso com naturalidade que aceita o convite de António Borges para colaborar com o Gabinete de Estudos do PSD. Os tempos eram de euforia económica e a estabilidade bancária inquestionável. Após uma passagem pelo Deutsche Bank para montar a Eurohypo Investment Bank, regressa a Portugal para dirigir a Aguirre & Newman. Três anos depois cria a sua própria empresa, a Crimson, com o amigo e companheiro de Harvard, Hugo Gonçalves Pereira, Filipe Botton e Alexandre Relvas, Pais do Amaral e João Brion Sanches. Por esta altura já a crise do subprime que rebentara nos EUA se espalhava pela Europa e abalava definitivamente as principais instituições financeiras mundiais. Em Portugal, Sócrates que governara sem oposição, começava a ser acossado pela pressão da crise internacional e de uma dívida que não parava de crescer. A 26 de Maio de 2010, Carlos Moedas escrevia no blogue de direita, 31 da Armada: “A dívida é como o álcool, em quantidades moderadas faz bem à saúde e até nos anima o espírito. Em grandes quantidades mata! (...) No caso português ao problema da dívida pública, que se vai acumulando ano após ano através dos nossos consequentes défices, junta-se o problema da dívida externa (111.5% do PIB em 2009) que se vai acumulando ano após ano através do nosso desequilíbrio entre exportações e importações. No caso da dívida externa resta-nos o caminho da competitividade, que se resume a uma relação mais equilibrada entre o nosso custo de trabalho e a nossa produtividade. No caso da dívida pública e segundo as conclusões do Bank for International Settlements, se Portugal quisesse voltar aos níveis de dívida pública de 2007 (63.6% do PIB directa vs. 89% do PIB indirecta) teria que apresentar um superávit primário das contas públicas (antes de juros) de 6% ao ano durante 5 anos ou de 3% ao ano durante 10 anos. Alguém acredita que estes cenários são possíveis no curto ou mesmo no médio


A este texto premonitório, seguiu-se o convite de Pedro Passos Coelho para que o filho do comunista José Moedas regressasse a Beja como cabeça de lista do PSD às legislativas de 2011. Carlos aceitou. “Percorrer 5000 km no Distrito de Beja, falar com as pessoas, com antigos amigos do meu pai, foi algo que me marcou. E marcou-me imenso ter conseguido duplicar o número de votos do PSD nessas eleições” confidencia à Bica. Foi eleito deputado num distrito em que o seu partido não elegia um representante desde 1995 e acabou escolhido pelo líder do partido para o cargo de Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro, o primeiro com assento no Conselho de Ministros. O convite para o XIX Governo Constitucional empurrou Moedas para uma das mais difíceis negociações externas de que há memória, acompanhando Eduardo Catroga, nas conversações com a Troika. “Foi um período muito complexo. Eu usei dois princípios que considero fundamentais quando me pedem conselhos sobre negociação. O primeiro é nunca criar surpresas, portanto, usar de absoluta transparência, porque o pior para quebrar a confiança entre as partes é uma surpresa, seja ela boa ou má, porque a outra parte fica sempre a achar que estamos a esconder algo. A segunda é a noção de que é importante ser agressivo nos bastidores, mas nunca em público. Isto foi muito mal entendido no país. Quem conhecia o teor das reuniões sabia que era tudo à pancada, mas era uma pancada em privado e eu achava sempre muito engraçado ler a opinião de muitos comentadores que nos acusavam de sermos muito brandos e submissos, sem saberem como decorriam as reuniões. A verdade é que não podíamos aparecer em público a gritar contra os nossos credores, porque isso descredibilizava as negociações. De certa forma foi muito importante manter algum sigilo sobre o que estava a ser negociado, pois foi isso que permitiu que se chegasse a bom porto.” A 1 de Agosto de 2014, Pedro Passos Coelho nomeava-o representante de Portugal na

Comissão Europeia e três meses mais tarde assumia as funções de Comissário Europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, com a responsabilidade de gerir o mais ambicioso programa de sempre de apoio à inovação, o Horizonte 2020, que como nos explica “é o maior programa do mundo para a ciência, com 80 mil milhões de euros de investimento a serem aplicados em 7 anos, valor que esperamos seja aumentado no novo quadro de 2020 a 2027. É um programa que financia desde a ciência fundamental, (aqui em Portugal temos mais de 50 bolsas do Centro Europeu de Investigação), às empresas e às indústrias e aos desafios que se colocam às sociedades actuais, sejam a energia, as mudanças climáticas, a saúde, a alimentação, a água. O que nós fazemos é ajudar tanto pequenas e médias empresas como cientistas a desenvolver esses projectos de inovação.” Foi exactamente no âmbito do programa Horizonte 2020 que o Comissário Carlos Moedas visitou o distrito de Viseu, onde durante um dia e meio reuniu com Presidentes de Câmara, empresários, investidores, visitou Universidades e Institutos Politécnicos, jantou e almoçou com “as forças vivas” do distrito e ainda teve tempo para entregar o Prémio Personalidade do Ano ao Bispo de Viseu D. Ilídio Leandro, numa gala organizada pelo Jornal do Centro. O dia fora longo com passagem pelo Porto antes da chegada a Tondela para uma visita à primeira empresa de Reciclagem de Resíduos de Equipamentos Eléctrico e Electrónicos da Península Ibérica, a Interecycling, onde reafirmou a economia circular como uma das prioridades da Comissão, e o objetivo de, até 2030, reciclar 65% daquilo que são os lixos municipais dentro dos países da União Europeia. Já em Viseu, visitou a maior instituição pública de ensino superior, o Instituto Politécnico, antes do jantar com empresários da região. Faltam poucos minutos para a uma da manhã do final do primeiro dia do 6º Roteiro da Ciência quando Carlos Moedas chega ao hotel com o seu staff regressado da Celebração da Primavera, uma gala organizada pelo principal semanário da região. “Então? E agora reúno com quem?” pergunta com um sorriso rasgado, apesar do cansaço. A gargalhada é geral. O dia seguinte iniciará bem cedo, com uma apresentação dos mais inovadores projectos de empreendedores viseenses durante o pequeno-almoço, a que se seguirão uma visita aos Paços do Concelho para assistir à assinatura do memorando de criação do novo Centro de Competências da Critical Software na cidade, à Universidade Católica, ao Cen-

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prazo? Eu tenho muitas dúvidas e por isso só nos resta (a nós e a outros) o possível caminho da reestruturação da dívida. Ou seja, ir falar com os nossos credores e dizer-lhes que dos 100 que nos emprestaram já só vão receber 70 ou 80. Este é um caminho árduo e complicado, a tal parede que tanto se fala, mas que nos permitiria começar de novo. A austeridade é necessária e urgente, mas se mantivermos os níveis actuais de dívida, dificilmente conseguiremos crescer a níveis aceitáveis … e se não crescermos morremos.”


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tro de Inovação Tecnológica de Viseu da Softinsa e da IBM, terminando num almoço com empresários.

sorrir. Parece o Marcelo – Ao lado, voz imponente, o marido de uma delas remata – É o comissário dos afectos. –

Às 8h da manhã já Carlos Moeda conversa animadamente com alguns dos empreendedores presentes. As poucas horas de sono parecem não o afectar, nem mesmo quando é desafiado a testar a V!ke - Virtual Interactive Bike, que consiste numa experiência virtual que promove o exercício físico e o turismo, utilizando apenas um ecrã e uma bicicleta equipada com sensores e software, ao permitir ao utilizador ter uma experiência imersiva sobre vários locais enquanto pedala no mesmo sítio. É com genuíno entusiasmo que Carlos Moedas vai percorrendo os expositores instalados na sala enquanto tenta perceber detalhes dos projectos.

Já no carro, a caminho de Ílhavo aproveitamos para uma conversa com Carlos Moedas, o alentejano a quem o pai escreveu um dia no seu Diário do Alentejo:

No discurso de encerramento do almoço com empresários da região, o antigo Secretário de Estado referirá a boa impressão causada pelos diversos projectos que teve oportunidade de apreciar. “Impressionou-me o orgulho que todos os empresários com que falei têm da sua terra e das suas raízes e o dinamismo empresarial e a ousadia inovadora que encontrei na região.” A sala explode em aplausos. O senhor Comissário Europeu ou o senhor Engenheiro ou o senhor Doutor ou o caro excolega de governo ou o amigo alentejano ou o CM7, Craque da Inovação, ou simplesmente o Sô Carlos, abandona as instalações da Associação Empresarial da Região de Viseu sob uma chuva de cumprimentos, sempre com sorriso no rosto e uma afabilidade contagiante. Pela sala, vão-se ouvindo comentários elogiosos à simpatia e afectividade. Nem parece político – balbucia uma senhora à colega de mesa. – Pois é. Está sempre a

Na sua última intervenção durante este 6º Roteiro da Ciência, citando Walter Isaacson, disse que era ter a ousadia de colocar poesia na ciência e na inovação. Tem faltado ousadia poética a Portugal? (Risos) Acho que, estruturalmente, nos tem faltado ousadia poética na educação, mas até acho que o povo português tem mais poesia que outros povos que conheço. Talvez não a tenhamos sabido utilizar. Mas acho que somos um povo com imensa poesia o que nos dá um potencial enorme, porque essa poesia bem direccionada, bem estruturada, porque a inovação precisa luta de ideias, precisa de caos, mas depois esse precisa de organização e disciplina...

...precisa de um engenheiro? (Risos) Talvez precise de um engenheiro. Se reparar, todos os grandes inovadores têm um bocadinho de engenharia e de poesia e isso nós nunca tivemos muito.

Tivemos o Gedeão. Exactamente! Mas infelizmente não tivemos muitos mais exemplos.

Durante o seu discurso nos Paços do Concelho, referiu a necessidade de convivermos com o nosso passado sem complexos e sabendo retirar dele as lições que nos permitam construir um futuro melhor... Uma coisa é olhar para o passado com saudosismo e pensar que o passado foi melhor e eu não concordo com isso. Acho que o futuro é sempre melhor. Outra coisa é olhar para o

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A Moodoptic apresenta um equipamento interactivo que permite a compra de produtos ópticos, nomeadamente lentes de contacto, óculos graduados e óculos de sol e a experimentação dos mesmos através de um processo de try-on onde por meio de algoritmos de reconhecimento facial identifica vários pontos na face do utilizador permitindo fazer o mapeamento da cara e de seguida sobrepor os óculos na imagem da face do utilizador, ao mesmo tempo em que faz o registo das distâncias pupilares e naso pupilares, valores estes que serão essenciais para o corte e montagem das lentes e armação. O Comissário Europeu, testa o equipamento com a promessa da entrega posterior do produto final. As caneleiras personalizadas SAK, que já protegem desportistas do mundo inteiro, prepararam uma surpresa “ao craque da inovação” e oferecem a Carlos Moedas umas caneleiras personalizadas com a sigla CM7.

Depois de amanhã, Carlos, deveria nascer um mundo novo, em que não houvesse meninos ricos e meninos pobres, porque os pais de todos os meninos tinham decidido unir-se numa só palavra, abraçar-se num só gesto. Depois de amanhã, que é domingo, deveria ser o ano primeiro da criação de um mundo diferente, aquele com que os poetas (ainda) sonham mesmo os que nunca foram meninos. Mas se não puder ser depois de amanhã, Carlos, que seja no outro dia, quando tu fores homem, quando forem homens todos os meninos de agora. Luta por isso, pá!”


passado como um activo, como instrumento de construção do futuro. Em Portugal, talvez por a conquista da democracia ser muito recente, a geração anterior à minha tinha muita dificuldade em olhar para o passado, porque lhes era muito doloroso, representava algo que queriam esquecer. A minha geração já olha para o passado com naturalidade, retirando dele o bom e o mau. Um exemplo disso é a reabilitação urbana. A minha geração, que foi para Engenharia nos anos 90, foi educada para construir edifícios novos, o que era velho era para desaparecer, esta nova geração de engenheiros já foi treinada para requalificar o antigo. É exactamente como quando um país é pobre e vai enriquecendo. Numa primeira fase tem fobia ao passado, só o novo e diferente é que é bom. Isso é muito bem retratado num dos filmes que mais me marcou nos últimos anos, talvez por ter vivido muitos anos em França – “A Gaiola Dourada” – e que fala de uma emigração que vinha dum país pobre, fechado, do qual tinha certa vergonha e que depois voltou a ganhar um amor a Portugal sem complexos. Hoje, acho que já não temos complexos em relação ao passado e isso é extremamente libertador.

Como é que Portugal defende a sua identidade cultural no contexto da integração europeia? Eu acho que o tema da identidade europeia é fundamental para a construção europeia. A identidade europeia é dupla, ou seja, eu sou português e sou europeu e sou tão português como europeu. Talvez o que nos tenha faltado nestes últimos 20 anos foi não ter vergonha disso.

Existe uma identidade cultural europeia? Disso, não tenho dúvida. Eu vivi nos EUA, com cerca de quinhentas pessoas e sentiame sempre muito mais próximo dos europeus. Tinha um amigo finlandês, um amigo francês, amigos italianos e espanhóis, e todos sentíamos, em pequenas coisas, que éramos diferentes dos americanos. Por exemplo, lembro-me de uma coisa que nos diferenciava: o forte pendor individualista dos americanos em contraponto com um espírito mais colectivo dos europeus.

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No entanto, esse individualismo também se nota no Reino Unido. Talvez por isso o Reino Unido tenha estado sempre com um pé dentro e outro fora da Europa. Durante mais de 20 anos houve uma campanha em Inglaterra terrível contra a Europa, apesar do reino Unido, em boa verdade, sempre ter tido uma participação limitada no processo europeu – não aderiu à moeda

única, nem ao tratado de Schengen -. Por isso, talvez seja melhor falar numa identidade continental europeia (risos).

Apesar das idiossincrasias culturais que caracterizam a Europa. Para a inovação e para a ciência, essa diversidade é boa. Falar diferentes línguas é bom. Haver pessoas que pensam de maneira diferente é bom. E isso está provado cientificamente. Aquela ideia de que era bom sermos todos iguais não funciona, porque as sociedades onde todos são iguais, onde todos têm a mesma religião, onde todos têm a mesma orientação sexual, doesn’t work. Por isso a diversidade ser tão importante para a inovação e para a ciência.

Mas não serão essas diferenças culturais nacionais e regionais e a tentativa de as proteger perante a hegemonia centralista de Bruxelas que acentua o aparecimento de movimentos extremistas na Europa? Esses movimentos crescem porque uma parte da sociedade foi marginalizada nas últimas décadas. Estou a falar de gente sem emprego devido à globalização, que hoje tem salários muito inferiores ao da geração anterior e que se sente à margem do sistema e por isso o quer castigar. E levanta uma questão muito importante e angustiante: como é que nós que fomos tão bons a produzir riqueza, fomos tão maus a distribuí-la?

Porque é que isso aconteceu? Porque só olhámos para a globalização como algo de muito positivo, que efectivamente foi. Mas, a abertura comercial, os tratados comerciais, entretanto realizados, se por um lado ajudaram a retirar da pobreza muitos europeus e a enriquecer ainda mais, outros já muito ricos, acabaram por ter implicações negativas para grande parte da classe média. Convém entendermos que até há muito pouco tempo não havia informação estatística que permitisse avaliar esses impactos, isso aparece com o célebre gráfico do elefante do economista de Harvard, Branko Milanivic, que começa a estudar os efeitos duma globalização que foi justa para uns e muito injusta para outros.

Considera, então, que estes movimentos radicais extremistas são exclusivamente movimentos de protesto? Que são movimentos de protesto não tenho dúvida e com uma lógica justificada, porque as pessoas estão mal, e quando assim é, é natural que queiram transformar as coisas, modificar ou até acabar com o sistema. Em


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No seguimento da eleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos e de declarações sobre potenciais cortes de financiamento público aos programas de investigação, a comunidade internacional lançou um apelo a manifestações que ocorreram em centenas cidades pelo mundo, incluindo várias capitais europeias, entre as quais Lisboa.


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Juncker e Marcelo @Lusa


Há pouco citou a eleição de Macron como um dos motivos de esperança para esta Europa dividida. O fenómeno Macron é importante em diversos aspectos. Desde logo sob o ponto de vista geracional e, sobretudo, num país como a França onde existe uma grande dificuldade de renovação política. E ele é desde Napoleão (risos) o primeiro presidente francês com menos de 40 anos. Depois, o facto de ser um homem que, ao contrário daquilo que todos os livros de ciência política e todos os consultores políticos afirmavam como inquestionável e que era: “se queres ganhar, não fales da Europa”, faz da Europa a bandeira da sua eleição e isso mostrou que a Europa pode ser um tema aglutinador e dar votos. Até aí a Europa era um tema tabu. Os políticos ou não falavam da Europa ou diziam mal. Ele vem dizer: “não, eu vou dizer bem da Europa e vou ganhar votos com isso”.

Desenvolveu a ideia de uma espécie de Europa dos afectos. (Risos). Exactamente. Sendo gerações diferentes, eu acho que Macron tem um pouco de Marcelo Rebelo de Sousa, naquilo a que eu não chamaria afectos, mas, e usando uma expressão inglesa, “they care”. Eles são políticos que transmitem às pessoas a sensação de que estão ali para elas e que têm uma preocupação genuína com os seus problemas. Uma das coisas de que mais gosto no Presidente Marcelo é a sua genuinidade e acho que Macron também tem um pouco disso. Eu sou um fã incondicional do nosso Presidente!

Dentro de um ano voltaremos a ter eleições para o Parlamento Europeu, que tradicionalmente são muito pouco participadas. Como é que se combate

a abstenção, quando a imagem dos cidadãos europeus em relação à Europa continua a ser a de uma instituição burocrática, fechada sobre si mesma e sem legitimidade democrática directa? Toda a organização da UE foi pensada e desenhada desde o início para dar brilho aos políticos nacionais e não dar brilho à União Europeia. Se reparar, a União Europeia comunica com fases redondas, complexas, muito tecnocráticas que a generalidade da população não percebe. Eu acho que isso, cinicamente, foi vontade de muitos países. Quando o Presidente Juncker, logo no início do seu mandato disse “nos vamos ter uma Comissão política”, houve países como a Alemanha em que isso foi visto como quase subversivo. Para muitos países, o papel da Comissão era exclusivamente o de avaliar o bom cumprimento dos tratados por parte dos Estados membros. Esse foi um erro de base que vai levar muito tempo a alterar e o Presidente Juncker tem sido o grande timoneiro (risos) dessa alteração, que é a de caminharmos para uma Comissão Europeia mais política, até porque é constituída por políticos. É muito importante que isso mude, porque caso contrário as pessoas continuarão sem perceber o que fazemos e porque fazemos, até porque tudo é pouco claro e muito mal comunicado. Algo que também concorre para uma visão negativa ou mal informada da Europa é aquilo a que chamo a Europa dos intermediários, que muitas vezes são os próprios países, mas que normalmente são os autarcas, as universidades e tantas outras instituições que normalmente utilizam em benefício próprio, muitos projectos financiados no todo ou em parte pela União Europeia. Temos de acabar com a Europa dos intermediários. É o que estamos a fazer no caso do Horizonte 2020, em que o dinheiro vai directamente da Europa para o cientista ou para a empresa que está a desenvolver o projecto. Esse tipo de programas acaba por ter muito mais efeito. Há o mundo dos governos e o mundo das empresas e o mundo das empresas está a crescer.

Mesmo em Portugal? Mesmo em Portugal. É preciso é que os governos não estraguem muito. (risos).

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Itália, um partido como o Movimento Cinco Estrelas do Beppe Grillo só pode ser isso, porque é um partido sem estratégia, sem ambições para o país, sem um projecto de governação. No entanto há boas notícias, como a institucionalização do Syriza na Grécia e a vitória do Macron em França. Embora tenhamos outras muito negativas em países como a Polónia e a Hungria que estão a trilhar um perigoso caminho de radicalização. Mas a Europa não pode constantemente estar a castigar países com governos democraticamente eleitos, apenas porque a sua orientação política não agrada. Sendo igualmente certo que, temos de pugnar pela defesa de determinados valores fundadores da União Europeia e ter a determinação suficiente para se determinados países não cumprirem esses valores, serem convidados a sair do clube.


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O Comissรกrio Europeu Carlos Moedas fala com os jovens no Summer CEmp, em Monsanto, Agosto 2017.


Identidade Europeia UM OLHAR NÓRDICO por Rebecca Abecassis

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Três diplomatas nórdicos sediados em Portugal explicam a sua visão da “identidade europeia”. Se para o sueco Sten Engdahl, os valores da cultura sueca são fundamentais para aceitar a Europa, para a finlandesa Tarjya Laitanen, a percepção da União europeia distingue-se entre os mais idosos e os mais jovens; e os ricos e os pobres. O dinamarquês Michael Suhr vê muitos benefícios na União Europeia mas afirma que o seu país recusa a ideia de “uma Europa federal”. Destaca as semelhanças entre a Dinamarca e Portugal.


Sten Engdahl é o chefe de missão adjunto na Embaixada da Suécia em Lisboa. Com uma experiência diplomática anterior em África (Moçambique, Nigéria) e em Estocolmo, está em Portugal desde setembro de 2014.

Para os suecos, o que quer dizer “identidade europeia”? Os valores mais respeitados pelos suecos são a justiça, o respeito dos direitos humanos, a liberdade, a igualdade entre homens e mulheres e a valorização da natureza. São estes os valores que refletem a forma como nós, suecos, nos vemos enquanto parte de uma esfera europeia maior. Nos países nórdicos, o facto de termos línguas parecidas, tradições, um sistema legal e político, assim como culturas semelhantes fazem também com que exista uma forte cultura ou identidade nórdica reforçada após séculos de colaborações entre estes países. Portanto, a nossa percepção da identidade europeia depende de todos estes fatores e da forma como estes se encontram ligados aos valores fundamentais da cultura sueca. No entanto acho que é difícil para nós explicar claramente o que é a identidade europeia. Tudo depende do aspecto ao qual se refere. E portanto, é também difícil explicar claramente a percepção dos suecos em relação à identidade europeia. No entanto não existe qualquer dúvida que nos sentimos como fazendo parte da Europa e queremos defender os seus valores fundamentais como a paz e o respeito dos direitos humanos. A maior parte dos turistas suecos escolhem os países europeus como destino principal em lazer e trabalho. Muitos suecos vivem e trabalham em países vizinhos. Um número crescente de suecos, especialmente os reformados, emigram para o sul da Europa. Os turistas suecos adoram países com clima mais quente e incluem a gastronomia de outros países na sua própria gastronomia. Acho que todos estes elementos mostram o quanto gostamos da europa e o que os países europeus e a identidade europeia podem oferecer. Como é que os suecos se relacionam com a União Europeia?

dizem sentir-se cidadãos da união europeia e os jovens são os mais positivos. Também, três em cada quatro pessoas dizem perceber como é que a união europeia funciona principalmente no que toca à liberdade de circulação de pessoas e ao acesso ao comércio livre. Estes são os aspectos que os suecos mais valorizam. Hoje, quais são as principais preocupações dos suecos em relação ao futuro da União Europeia? As duas características da União Europeia mais apreciadas pelos suecos são a preservação da paz e a conquista da liberdade de circulação. Hoje, quando olhamos para a agenda política, as questões migratórias e ambientais são sem dúvida as duas áreas principais em que suecos sentem que é necessário que trabalhemos juntos, ao nível europeu, para encontrar soluções sustentáveis. Que tipo de diferenças culturais existem entre o norte e o sul da Europa? De acordo com os estudos e a análise cultural do “psicólogo social” holandês Hofstedes, a cultura sueca distingue-se das outras em vários aspectos. O primeiro é que a Suécia é um dos países do mundo que apresenta menos diferenças entre pais e filhos, entre estudantes e professores ou entre managers e trabalhadores. A igualdade entre todos os cidadãos é um dos aspectos mais importantes da nossa cultura e a tomada de decisões é frequentemente descentralizada. Também, Hofstede distingue a cultura sueca como sendo mais individualista. As crianças suecas saem de casa dos pais bastante novas, são incentivadas a ganhar o seu próprio salário cedo... A definição da família nuclear tende a ser mais pequena e restrita e valorizam-se as iniciativas próprias. De acordo com Hofstede, a identidade baseia-se mais nas características individuais do que na família ou nos meios sociais.

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Em geral, a forma como os suecos se relacionam com a União Europeia é igual à dos outros cidadãos europeus. Três em cada quatro suecos


Tarya Laitanen é Embaixadora da Finlândia. Foi a primeira embaixadora finlandesa interina no Afeganistão logo após o 11 de Setembro de 2001. Passou por três continentes antes de chegar a Lisboa. Esteve em Nova Iorque, Lima, Tóquio, Paris, Bruxelas e Islamabad. Depois do Luxemburgo e da Bulgária onde serviu como embaixadora, chegou a Portugal em outubro de 2016.

Para os finlandeses, faz sentido a definição de “identidade europeia”? Um estudo recente indica que 81% dos jovens finlandeses pensa que fazer parte da União europeia é positivo. Consideram que fazer parte da União Europeia já é algo que lhes pertence… Ainda que se identifiquem primeiro como finlandeses, logo a seguir, cerca de 89% afirmam ser “cidadãos da Europa”. Penso que a “identidade europeia” faz parte do quotidiano dos finlandeses.

Na Finlândia, os comportamentos em relação à União Europeia variam segundo o género, a idade a educação e o nível económico. Os mais idosos e os menos educados tendem a valorizar menos a União Europeia. Em geral e mais recentemente, as atitudes têm vindo a aproximar-se da maioria da população da UE, ou seja, há maior apoio ao projecto europeu. A tendência tem sido cada vez mais positiva.

classificam a cooperação entre os Estados membros como o factor mais relevante. Seguem-se as possibilidades acrescidas de encontrar trabalho noutro país da UE. Estou convencida que é sobretudo a geração Erasmus que aprecia mais as enormes oportunidades de estudar e de encontrar emprego no estrangeiro. Em geral, os benefícios económicos decorrentes de pertencermos à UE não aparentam ser verdadeiramente importantes. Para os finlandeses, a União Europeia é menos uma fonte de atribuição de fundos e mais uma comunidade de valores. Dito isto, as divergências mais comuns entre a população finlandesa são as seguintes: o apoio à União Europeia é maior nas cidades do que na província e surge sobretudo entre os mais jovens, os mais ricos e os mais instruídos. Os outros sectores da população são mais críticos. Muitos opõem-se ao alargamento e a uma maior integração da União Europeia.

E em relação aos valores europeus? O que considero muito interessante é que os finlandeses parecem apreciar muito os valores da democracia e da liberdade: 72% dos finlandeses (na UE a média é de 50%) considera que estes valores são os mais importantes elementos da identidade europeia. Também temos, em geral, uma atitude positiva em relação aos outros cidadãos da União Europeia: 90% dos finlandeses (a média europeia é de 71%) consideram que os factores que nos unem são mais importantes do que os que nos separam. O respeito pelos direitos humanos, a liberdade de expressão, assim como o combate à exclusão social e à marginalização são valores que recebem, em geral, mais apoio na Finlândia do que na média dos países da União europeia.

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Os finlandeses consideram que a União europeia tem um impacto positivo ou negativo nas suas vidas? Quando são questionados sobre os benefícios da União Europeia os finlandeses

Resumindo, considero que, em geral, somos cidadãos europeus muito leais e com vontade de interagir mais com os outros cidadãos europeus. Penso que a Europa e os nossos valores não devem ser tidos como adquiridos. Temos que defendê-los quando são ameaçados tanto ao nível dos nossos países como ao nível europeu.


Com uma carreira diplomática essencialmente em países da União Europeia, Michael Suhr é Embaixador da Dinamarca em Portugal há 4 anos.

Qual é a percepção dinamarquesa da “identidade europeia”? Na Dinamarca, não há uma opinião uniforme em relação à “Identidade europeia”. Penso que a tendência dos dinamarqueses é de olhar para a “identidade europeia” como um grupo de identidades distintas dentro do mesmo espaço geográfico que é a própria União Europeia. O que nos une são essencialmente os direitos à liberdade e à democracia. No entanto, não quer dizer que os dinamarqueses não se revêem enquanto cidadãos europeus. Aliás, a Dinamarca e Portugal estão equiparados neste tema: 79% dos dinamarqueses e 81% dos portugueses consideram que são cidadãos europeus. Qual é a relação dos dinamarqueses com a União Europeia? Os dinamarqueses são muito pragmáticos em relação à União Europeia. Quando as decisões da UE são úteis, como por exemplo, taxas de roaming mais baixas ou o apoio à livre circulação de estudantes, a UE faz todo o sentido para os Dinamarqueses.

rações climáticas como duas vezes mais relevante para os dinamarqueses em relação à média dos cidadãos europeus. Existem diferenças culturais entre o norte e o sul da Europa? As diferenças culturais entre o norte e o sul não são assim tão óbvias. O exemplo de Portugal e da Dinamarca são interessantes. Existem muitas semelhanças entre os nossos dois países. Temos uma postura virada para o exterior com culturas essencialmente pragmáticas. Isto tem sobretudo a ver com o facto de serem dois Estados relativamente pequenos com uma longa história marítima. Os nossos povos foram sempre forçados a sair por razões comerciais, para sobreviverem… Não somos suficientemente grandes para nos considerarmos o centro do mundo. Não consideramos que os outros devam aprender a nossa língua. Tentamos adaptarnos o melhor possível, tentando influenciar o mais que podemos, mas com a percepção clara dos nossos limites.

Mas quanto a ideias mais atrevidas como avançar para uma “Europa federal”, já não nos identificamos. A grande maioria dos dinamarqueses (74%) concorda com a existência de uma política energética comum, porventura porque percebem o impacto nos preços da energia e nas alterações climáticas. Em geral, os dinamarqueses (70%) acreditam que pertencer à União Europeia tem sido benéfico para a Dinamarca…

As preocupações principais do povo dinamarquês relativamente à União Europeia são os impactos da imigração, do terrorismo e das alterações climáticas. Os dois primeiros temas que referi também se incluem nas preocupações dos portugueses e dos restantes países da UE. A percepção dinamarquesa não é muito diferente do resto da Europa… Mas destacaria no entanto o tema das alte-

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E quanto ao futuro da União Europeia, o que preocupa mais os dinamarqueses?


Quando quiser falar com a Europa… ligue para mim! por Sofia Colares Alves*

Há uns dias, ao ver a nova série “1986”, criada por Nuno Markl para a RTP, reparei que o genérico desta série de época (que retrata o Portugal do ano da adesão à então Comunidade Económica Europeia), diz “Estamos aqui neste fim do mundo / Dizem que é na Europa Unida”. Então, aproveitei a oportunidade para olhar para trás por momentos. Em 1986, eu vivia em Carnaxide, um subúrbio de Lisboa e uma zona semelhante à retratada na série. Nessa altura, a visão que tinha da Europa era semelhante: a de que esta representava todo um mundo novo, dado como um clube unido de países. Em 1986, estava longe de imaginar que, 32 anos depois, me teria especializado em direito comunitário e que estaria à frente da Comissão Europeia em Portugal. A verdade é que a posição que hoje ocupo é um privilégio: em primeiro lugar, porque tenho um enorme gosto em servir a causa pública europeia; depois, porque tenho o grande prazer de o poder fazer no país onde nasci.

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Apesar de não conviver, num ambiente de trabalho, com a mestria do Nuno Markl, o lugar que hoje ocupo no último andar do edifício Jean Monnet, com uma vista privilegiada sobre Lisboa, permite me relembrar o percurso feito por Portugal desde os dias da adesão, em 1986, e até hoje. Dedico parte do meu tempo a pensar de que forma a Comissão Europeia ajuda ou pode ajudar Portugal, pelo que faço estas “viagens no tempo” com alguma regularidade. Não as faço por apreciar um mero exercício de nostalgia. Faço-o, isso sim, para perceber como as relações do país com as instituições europeias e os restantes membros da União Europeia (UE) melhoraram nos últimos 31 anos e para refletir sobre como podem continuar a melhorar no futuro. Mas a Comissão Europeia, com o gabinete que tem em Portugal, limita-se a pensar? Claro que não! À semelhança dos países da UE, que têm representações oficiais junto das instituições europeias (no caso de Portu-

imagem do genérico da Série “1986” / Produção Hop! Filmes para a RTP

gal, o nome oficial é Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia, mais conhecida pela sigla REPER), a Comissão tem também pelo menos uma representação (ou, simplificando, uma espécie de embaixada) em cada um dos Estados-membros. O objetivo é seguir, com a maior proximidade possível, a atividade política, social e económica em cada um dos países. Ao mesmo tempo, na “Rep”, cabe-me dar a cara por uma instituição que tem um grande impacto sobre as políticas europeias e que procura, todos os dias, melhorar a vida dos 508 milhões de cidadãos europeus. Seguir a realidade em Portugal significa estar próxima das instituições e das pessoas. Em 2017, recebemos comissários europeus 25 vezes em Portugal, para além do Presidente Juncker, que visitou o país duas vezes. Os números indicam mais de uma vintena de audições na Assembleia da República. Tais viagens implicam reuniões sistemáticas com parceiros sociais, com membros do Governo ou com Embaixadores. Só no ano passado, foram mais de 50 reuniões de trabalho nos programas dos comissários em visita, não só em Lisboa, mas um pouco por todo o país. Eu própria acompanhei, muitas vezes, estas visitas. Em trabalho, acabei também por me dirigir a Bruxelas 25 vezes só em 2017. Na equipa da Representação, somos pouco mais de 20 pessoas. Dividimo-nos em setores: uns tratam da análise política e económica, outros trabalham comunicação com o cidadão e outros ainda focam-se em imprensa e falam diariamente com os jornalistas. Esta equipa é curta para as ambições que tenho de ver a Europa cada vez mais próxi-


Muitas vezes ouço dizer que os cidadãos não querem saber da Europa, mas as evidências mostram o contrário. Uma sondagem do Eurobarómetro (número 88, que data do Outono de 2017) mostra que o desprendimento dos cidadãos relativamente à Europa é um mito. Embora persistisse algum pessimismo relativamente à situação da economia, estes dados confirmavam a evolução positiva, nos três anos anteriores, na opinião pública nacional. No Outono de 2017, 53 % dos portugueses diziam ter uma imagem positiva da UE, enquanto apenas 12 % a dava como negativa. Parece-me claro, aqui, que os portugueses se destacam pelo seu apoio ao projeto europeu. Finalmente, esta imagem aproxima-se da situação anterior ao programa de ajustamento, entre 2011 e 2014. A esmagadora maioria dos portugueses (81 %) sentia-se cidadão da UE, o que não anula, como bem sabemos, mas complementa a cidadania nacional. Ainda no Outono, o desemprego continuava a ser a principal preocupação para os portugueses, seguido da saúde e dos apoios sociais. A situação económica surgia como terceira preocupação. Apesar de se mostrarem menos otimistas do que os restantes cidadãos europeus, a avaliação feita pelos portugueses da situação económica no país era a melhor da última década. Além disso, a satisfação com a democracia nacional era a mais elevada desde 1991, consideravelmente acima da média europeia. Claro que é mais fácil falar da Europa em tempos de bonança. É também mais simples falar de Europa num país que conhece bem as suas vantagens. É por isso que mesmo daqui, do último andar do edifício Jean Monnet, tenho alguma dificuldade em ver um Portugal longe da Europa. Como poderia o país não reconhecer uma injeção de fundos europeus que, entre 2014 e 2020, representa 25

mil milhões de euros? Como poderia Portugal não admitir que é o país com mais investimento do Plano Juncker? Plano esse que, até dezembro de 2017, investiu um total de 2 mil milhões de euros em diferentes projetos, por todo o país? Como poderiam os portugueses menosprezar a ação da Proteção Civil europeia nos incêndios do verão de 2017? Ou os mais de 50 milhões de ajuda financeira para recuperar as áreas ardidas? Ou os mais de 250 milhões de euros investidos na ferrovia nacional, anunciados no mês passado? E não, não falamos só de dinheiro. Falamos de verdadeira solidariedade. Falamos de uma visão mais política e mais centrada nas necessidades do país. Os últimos três anos foram muito acelerados. Portugal saiu, com muito mérito próprio, de um Programa de Ajustamento Económico e Financeiro; saiu também do Procedimento por Défices Excessivos; passou, aos poucos, a constar nas notícias como um exemplo de relançamento da sua economia. Os louros são devidamente entregues aos Portugueses e aos seus políticos que, todos sabemos, tantos esforços fizeram. Ainda assim, gosto também de pensar que nós, na Comissão Europeia, somos parte deste caminho para o sucesso de Portugal. Queremos continuar, nos próximos tempos, a apoiar o crescimento da economia portuguesa e os bons resultados do trabalho dos políticos nacionais junto das instituições europeias. Volto a pegar na fita do tempo. Se, em 1986, diziam que havia uma “Europa Unida”, hoje podemos acreditar que a UE é, seguramente, mais sólida do que a Europa de então. E a participação de Portugal nesta Europa não só contribui para a união como, certamente, ajudará a expandi-la a novos horizontes. Não precisamos de recuar muito mais para chegarmos até aos anos 70 e à pergunta que fazia Henry Kissinger: “Quando quiser falar com a Europa, a quem devo ligar?”. Na Representação em Portugal, trabalhamos todos os dias para que os portugueses saibam dar uma resposta a esta questão. Pois permitamme arriscar e responder eu mesma: ligue para mim!

*Sofia Colares Alves, portuguesa, 47 anos, desde os 28 a trabalhar para as Instituições Europeias. Especialista em Direito da concorrência. À frente da Comissão Europeia em Portugal desde julho de 2016.

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ma de Portugal. Por ano, organizamos cerca de uma centena de eventos – quer públicos, quer restritos – para trazer até aos cidadãos portugueses as iniciativas europeias e para promover um melhor entendimento sobre o trabalho Comissão Europeia. São também centenas as respostas que os nossos serviços enviam a Bruxelas, todos os dias, sobre a situação política, económica e sobre a imprensa portuguesa. É este privilégio de estar a meio caminho entre Bruxelas e Lisboa que dá sentido ao trabalho que fazemos aqui em Portugal. Só podemos investir e apostar em Portugal se percebermos aquilo em que podemos ajudar. É fácil? Nem sempre. Somos eficientes? Tentamos ser. Chegamos a todo o lado? Ainda não.


GERIR AS MIGRAÇÕES

a importância das lideranças

por Louise Arbor *

© ONU/ Evan Schneider

“Os estados membros das Nações Unidas estão atualmente a negociar aquele que será o primeiro acordo internacional para a migração. O Pacto Global para a Migração Segura, Ordenada e Regulada é uma das prioridades do Secretário-Geral da ONU para este ano e deverá ser ratificado em dezembro numa cimeira internacional a realizar em Marraquexe. Numa altura em que se vive um período negocial intenso e exigente entre os países, Louise Arbor, Representante Especial das Nações Unidas para a Migração Internacional, apela a todos os governos que aproveitem esta oportunidade de colaboração e demonstrem uma liderança política forte na explicação dos benefícios que a migração ordenada pode trazer para todos.”

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António Ferrari


Em dezembro passado, Dimitris Avramopoulos, o Comissário Europeu para a Migração, Assuntos Internos e Cidadania, num artigo publicado no jornal online Político, fez a observação corajosa, ainda que óbvia e muito necessária, de que: “… é hora de encarar a verdade. Nós não podemos e nunca conseguiremos parar a migração”. Simplificando, a única opção - não apenas para a Europa, mas para todo o Mundo - é que os países desenvolvam uma série de políticas que maximizem os benefícios da migração e minimizem, ou até mesmo eliminem, os seus desafios. Porém, é muito mais fácil falar do que fazer. Além do imperativo humanitário, moral e legal em enfrentar a situação dos refugiados, a migração internacional pode ser feita de forma mais ampla, produzindo melhores resultados para todos os envolvidos: o país de origem, o país de destino, os próprios migrantes, as pessoas que ficam para trás, as comunidades em que se instalam. Para tal, a migração deve responder, em parte, à oferta e à procura internacional de mão-de-obra, em todos os níveis de qualificações, refletindo tanto as necessidades económicas como as realidades demográficas. Isto implica, inevitavelmente, uma estreita cooperação intergovernamental na implementação de políticas de migração domésticas, políticas essas que, acima de tudo, devem privilegiar a segurança, a legalidade, a ordem, a justiça e a transparência na gestão da mobilidade humana. Com efeito, a migração apresenta enormes desafios quando existe um recurso generalizado à entrada ilegal, a um grande número de migrantes indocumentados e a canais de cooperação ineficazes entre todos os países envolvidos. Uma realidade que não beneficia ninguém.

Neste contexto, o desenho de políticas de migração voltadas para o futuro em países democráticos requer um discurso inteligível tanto para os decisores políticos como para o segmento mais amplo da opinião pública que se preocupa com estas questões. De facto, são frequentemente os argumentos mais convincentes - como os de natureza económica - que têm a menor tração pública quando competem com preocupações profundas sobre a configuração social e cultural do futuro. Embora seja necessário contrariar essas visões, quando não são devidamente fundamentadas, ou constituírem nada mais do que uma negação da realidade, também é essencial abordar as vulnerabilidades subjacentes, muitas vezes mal expressas e os medos que não são menos reais. A comunidade internacional está a esforçarse para adotar um Pacto Global para uma Migração Segura, Ordenada e Regulada. A necessidade deste compromisso é particularmente urgente, uma vez que é improvável que a procura de acesso aos países mais ricos seja totalmente acomodada agora ou no futuro próximo. O Pacto é, por isso, uma oportunidade para os estados cooperarem na abordagem da inevitabilidade da migração, enquanto gerem as expectativas por meio de um processo justo que melhor responda aos interesses de todos. Trata-se de uma grande missão. Os burocratas conseguem apresentar os argumentos racionais. Os demagogos tornam-nos publicamente apetecíveis. Somente os grandes líderes políticos conseguem fazer as duas coisas simultaneamente. * Representante Especial das Nações Unidas para a Migração Internacional.

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São muitos os obstáculos que impedem o desenvolvimento de políticas sólidas de migração: a complexa interação entre a soberania dos Estados e a sua inevitável interdependência; a escassez de dados confiáveis que não só ajudem a desenvolver políticas como também conseguir medir a realidade atual em muitas questões fundamentais, como a migração irregular e a dificuldade em controlar os “macroprodutores” da migração como a pobreza ou as alterações climáticas. Uma vez que tudo isto diz respeito a pessoas, o maior desafio de todos pode passar por conseguir responder às aspirações humanas, que muitas vezes são discordantes. A interação não é, em última instância, entre países, mas entre pessoas: as pessoas que procuram uma vida melhor e as pessoas preocupadas que serão prejudicadas se tal acontecer.


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The Odyssey Project Projecto Odisseia


por Marianne Syed

Grafiti “Eu amo a Humanidade” pintado por refugiados no campo Jungle de Calais. Campo Jungle, Calais, França, Outubro 2016

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por José Farinha


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Tempo para tocar piano no centro de actividades do Support Group Network. Campo Restad Gärd, Vanersborg, Suécia, Abril 2017 | Piano time, in the Support Group Network activity centre. Restad Gärd Camp, Vanersborg, Sweden, April 2017


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Escola para crianças dentro do campo, organizado por um refugiado e voluntários. Campo de refugiados em Eliniko, Atenas, Grécia, Outubro 2017 | School for children inside the camp, organised by a refugee and volunteers. Elliniko Camp, Athens, Greece, October 2016


SOMOS TODOS MIGRANTES Nós somos todos migrantes. Migração é a essência da humanidade. Hoje, existem milhões de migrantes por todo o planeta. Por diversas razões: económicas, culturais, sociais, segurança… Nós (os fundadores deste projeto) também somos migrantes. Os mais vulneráveis na população migrante são os refugiados, significando pessoas que “procuram escapar de condições ou circunstâncias pessoais intoleráveis” (1). Nos últimos anos, milhões de pessoas atravessaram o Mediterrâneo fugindo do conflito e violência nos seus países natal. Alguns dançam (de alegria) quando chegam às praias Gregas ou Italianas, pensando que chegaram ao final das suas travessias. Mas a dura realidade é que as suas odisseias apenas estão a começar. Os sobreviventes vão precisar de toda a sua energia e força para evitar a depressão e para sobreviver perante as outras alternativas apresentadas pelas políticas correntes europeias aplicadas a esta crise: “Morte ou loucura” (2). Neste projeto – The Odyssey Project (TOP) - nós acreditamos que contar estas histórias é um forte antídoto para combater a xenofobia (literalmente o medo dos desconhecidos): como se pode ficar com medo das pessoas após ler as suas histórias e perceber as similaridades que existem entre todos nós. Sendo práticos: a Europa no seu todo está a ser afetada por uma crise financeira, económica e social. Em vez de nos perguntarmos o que podemos fazer pelos refugiados, vamos começar a pensar nas possíveis contribuições que eles podem trazer para as nossas

sociedades. As pessoas que conseguiram chegar à Europa são normalmente as mais fortes e inteligentes do êxodo. Eles podemnos ajudar a criar um tecido social mais rico evitando assim a consequente fragmentação e isolamento. Eles podem ajudar a melhorar e enriquecer as nossas comunidades e países com as suas capacidades e culturas. Muitos já começaram iniciativas com sucesso em vários locais, capacitando-se assim, em vez de se focarem nos aspetos negativos da história. Vamos partilhar estas histórias incríveis e exemplares contribuições. Nós acreditamos que os refugiados não são uma multidão, “um mar de gente”, uma categoria para ser tratada como um todo. Eles são humanos e indivíduos. Eles são os nossos irmãos e irmãs... Eles têm caras. Eles têm histórias. Em cada vez mais países no mundo, eles estão a fortalecer-se. Esta é a odisseia deles, mas também é a nossa. Website: theodysseyproject.eu/ Facebook: https://www.facebook.com/theodysseyproject/ Instagram: https://www.instagram.com/theodysseyproject/ Twitter: https://twitter.com/TheOdyssey_Proj

1.The refugee in international law, Guy S. Goodwin-Gill and Jane McAdam, Third Edition 2.En Europe, opposer l’hospitalité au cynisme, Mediapart Blog of Mickaël Neuman, 21 June 2016

“Se houver bom ambiente e oportunidades para os refugiados, eles conseguem fazer coisas extraordinárias. Podem ser professores, enfermeiros, doutores… Tudo que precisam é ter uma casa. Há espaço para todos nós!.” Aloysius de Uganda.
Londres, Reino Unido, Abril 2017

“If you give refugees a good environment and opportunities, they can do amazing things! They can be teachers, nurses, doctors... All they need is a home. There is enough space for everybody!”

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Aloysius from Uganda.
London, United Kingdom, April 2017.


WE ARE ALL MIGRANTS We are all migrants. Migration is consubstantial with humanity. Today, there are millions of migrants all over our planet. For many reasons: economic, cultural, social, safety... We (the initiators of this project) are ourselves migrants. The most vulnerable amongst the migrant population are the refugees, meaning people “in flight, who seek to escape conditions or personal circumstances found to be intolerable”(1). These past years, millions have crossed the Mediterranean fleeing conflict and violence in their home countries. Some dance upon arrival on Greek or Italian beaches, erroneously thinking they have arrived at the end of their journey. The harsh reality is that their journeys have just started. The survivors will need all their strength to avoid depression and to survive in the face of the other alternatives presented by Europe’s current policies applied to the current crisis: “death or madness”(2). At The Odyssey Project, we believe that storytelling is a powerful antidote to xenophobia(literally, the fear of strangers): how can one be scared of people upon knowing their stories and realizing how similar we all are?

are often the strongest and smartest of the exodus. They can help create a richer social fabric in our societies thus avoiding further fragmentation and isolation. They enhance us by bringing new skills and cultures to our countries and communities. Many have started successful initiatives in a variety of locations, thereby empowering themselves. Instead of focusing on the negative side of the story, let’s share the news of these amazing and exemplary contributions! We strongly believe that refugees are not a crowd, a “sea”, a category to be treated “en masse”. They are humans and individuals. They are our brothers and sisters. They have faces. They have stories. In more and more places in the world, they are empowering themselves. That is their odyssey. It is also our one. 3. The refugee in international law, Guy S. Goodwin-Gill and Jane McAdam, Third Edition 4. En Europe, opposer l’hospitalité au cynisme, Mediapart Blog of Mickaël Neuman, 21 June 2016

And let’s be practical: Europe in its entirety is affected by a financial, economic and social crisis. Instead of wondering what we could do for refugees, let’s start thinking of what contributions they are in a position to bring to our societies. The people who reached Europe

“Isto não é vida aqui. Nós só comemos e dormimos. Eu preocupo-me com o futuro dos meus filhos. Eu sonho em voltar a trabalhar, encontrar um apartamento, em mandar os meus filhos para a escola. Coisas que a maioria das pessoas tomam como garantido. Eu sinto saudades de tudo do meu país. Absolutamente de tudo. Até do pó! Se soubesse que iria encontrar isto, nunca teria saído.” Syed do Afeganistão. Campo de refugiados em Elliniko, Atenas, Grécia, Setembro 2016

Syed from Afghanistan. Elliniko Camp, Athens, Greece, September 2016

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“It’s not a life here. We only eat and sleep. I worry about my children’s future. I dream of working again. Of finding a flat. Of sending my children to school. Things that most people take for granted. I miss everything about my country. Absolutely everything. Even the dust! Had I known what awaited us, I never would have left.”


“O meu sonho é completar os meus estudos e trabalhar como enfermeira assistente. É difícil por há muitos trabalhos de casa. Eu sinto muitas saudades do meu país, especialmente da minha família. Mas eu considero-me uma pessoa com sorte porque o meu marido se juntou a mim passados 2 anos. Agora temos três filhos aqui na Suécia.” Lemlem da Eritreia, Escola Cuben, Gotemburgo, Suécia, Fevereiro 2017

“My dream is to complete my studies and to work as an assistant nurse. It is difficult because there is a lot of homework. I miss my country very much, especially my family. But I consider myself lucky because my husband joined me after two years. Now we have three children together in Sweden!” Lemlem from Eritrea.
Cuben School, Göteborg, Sweden, February 2017

“Na Síria, nós tínhamos três restaurantes, cinco bares de sumo de fruta, alguns cafés, e uma mercearia… Quando perdi todos os meus negócios, fiquei muito triste. Mas, honestamente, agora eu percebo que talvez tenha acontecido para o melhor. Tem sido um desafio reconstruir tudo de novo aqui no Reino Unido.” Imad da Síria. Londres, Reino Unido, Outubro 2017

“Back in Syria, we had three restaurants, five juice bars, a few coffee shops, and a grocery shop/mini-market… When I lost my business, I was really sad. But, honestly, right now I think that maybe this happened for the best. It has been challenging to re-build everything here in the UK” Imad da Síria. Londres, Reino Unido, Outubro 2017

O clube de boxe na Jungle de Calais foi criado por um voluntário Inglês que abriu um ginásio onde os refugiados podiam aprender e praticar boxe. Esta prática ajudou a manterem-se em forma, focando as suas mentes desenvolvendo laços sociais entre as diferentes culturas. Campo Jungle, Calais, França, Outubro 2016 Campo Jungle, Calais, França, Outubro 2016

The Jungle Boxing Club was started by a young British volunteer who opened a gym where refuges could learn and practice boxing. This practice helped keep them fit, focused their minds and developed the social bonds among different populations.

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The Jungle Camp, Calais, France, October 2016


“Nós não queremos caridade. Nós apenas precisamos de uma oportunidade para provar que somos educados, talentosos e produtivos. Refugiados não precisam da vossa pena. Porque é que deves sentir pena de mim? Eu sou mais forte do que tu. Eu continuo de pé. Eu ajudo pessoas. Eu deveria ser o que sente pena de ti! Vamos começar a falar entre nós. Iremos perceber que temos os mesmos sonhos e os mesmos medos. Vamos construir pontes em vez de muros.” Baraa da Síria. Londres, Reino Unido, Abril 2017

“We do not want charity. We only need a chance to prove to you that we are educated, talented, productive. Refugees don’t need your pity. Why would you feel pity towards me? I am stronger than you. I am standing on my feet. I am helping people. I am the one who should feel pity for you! Let’s start to talk to each other. We will realize we have the same dreams, the same fears. We will build bridges instead of walls.” Baraa from Syria. London, United Kingdom, 2017

“O meu maior sonho? Vais rir: o meu maior sonho é ter a minha cozinha própria e a minha casa de banho. Este é o primeiro passo do meu sonho. É horrível como os nossos sonhos podem se tornar tão pequenos. Tens de começar outra vez do zero. Eu espero que tenha um lado feliz. Eu estou a tentar dar significado ao meu tempo de espera, trabalhando. Eu ainda estou sobre stress e continuo a lutar contra a depressão, que algumas vezes continua a ser mais forte que eu.” Imam da Palestina. Campo Restad Gärd, Vanersborg, Suécia, Abril 2017

“My biggest dream? You will laugh: my dream is to have my own kitchen and bathroom. This is the first step of my dream. It is horrible how our dreams become so small. You have to start again from zero. I hope it will have a shiny side. Even if I am using my time, making that waiting time meaningful by working, I am still under stress. I am struggling against depression. I fall into it sometimes.”

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Inam from Palestine.
Restad Gärd Camp, Vanersborg, Sweden, April 2017


Voluntariado, dedicação sem fronteiras por Paulo Rosa

Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Ser voluntário é um ato de amor genuíno que deixa uma marca positiva na vida de alguém. A dedicação e a generosidade dos voluntários é, em muitos casos, fundamental na ajuda direta aos mais fragilizados. Um gesto, uma palavra, um abraço. Por vezes, apenas pequenos e simbólicos atos que, por serem genuínos e abnegados, fazem a diferença na vida de alguém que deles precisa, mas também na vida de quem os tem. Também na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), desde a sua origem, os voluntários têm acompanhado a história e a evolução da instituição, assumindo um papel estruturante no cumprimento da sua missão, contribuindo para a concretização de novos projetos e desafios. A missão da Santa Casa é a melhoria da qualidade de vida das pessoas, sobretudo, daquelas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade. Esta missão congrega profissionais e voluntários, sendo que estes complementam a ação dos colaboradores.

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O voluntariado existe na Santa Casa com uma estrutura formalmente organizada desde 1998, iniciando a sua atividade com 89 voluntários. Atualmente, no ano em que este serviço cumpre 20 de existência, são mais de 400 aqueles que, anualmente, auxiliam a instituição na prossecução da sua missão nas mais variadas áreas, desde a Ação Social à Cultura, doando um pouco do seu tempo, conhecimento e amor em favor de uma

sociedade mais igualitária. A entrega destes voluntários chega a cerca de oito mil utentes da SCML. Assumindo a SCML na cidade de Lisboa competências do Estado, no âmbito da Ação Social, tem, por isso, uma rede diversificada de serviços e equipamentos onde é possível desenvolver a atividade voluntária, de acordo com os interesses, expetativas e disponibilidades de cada um. Também os seus serviços de Saúde, Cultura, entre outros, integram voluntários. Na Santa Casa estas pessoas são uma companhia para um idoso que beneficia dos serviços de apoio domiciliário, um amigo para uma criança em acolhimento residencial, ou um apoio para alguém que recupera de uma lesão. São isto e muito mais. No fundo, são autênticos anjos da guarda para aqueles que por uma ou outra razão mais precisam do apoio da Misericórdia. São também pessoas com as mais variadas profissões ou formação profissional, que aplicam os seus conhecimentos e paixões naquela que é uma atividade que só pode ser feita com essa mesma paixão que os move. Desde aulas de Tai-Chi para idosos, passando por explicações para crianças e jovens ou aulas de piano e canto para criança, ou até de alguém que chega de outro país e ensina a fazer pratos tradicionais da sua terra, são inúmeros os exemplos mais ou menos óbvios de atividades que são feitas pelos voluntários da Santa Casa.


Intercâmbio de experiências São cada vez mais as pessoas que encaram o voluntariado como uma forma de estar na vida. Homens e mulheres, estudantes, reformados ou em idade ativa, dedicam o seu tempo a ajudar quem mais precisa, bastando um sorriso para que tudo valha a pena. Como em tantas outras áreas da nossa sociedade, também no caso do voluntariado não há fronteiras. A Misericórdia de Lisboa integra desde 2017 um projeto de voluntariado europeu. O convite partiu da Confederação das Misericórdias Italianas, que desafiou a Santa Casa a participar no Serviço Voluntário Europeu, no âmbito do programa Erasmus +.

Como foi referido, esta iniciativa insere-se no Serviço Voluntário Europeu, financiado pela Comissão Europeia através do programa Erasmus +. O objetivo desta experiência é que sejam desenvolvidas competências pessoais e sociais, de modo a facilitar a transição para a vida adulta, a empregabilidade e potenciar a construção de uma cidadania europeia. Se o voluntariado é uma forma de deixar uma marca na vida de outra pessoa, com este projeto abrem-se novas possibilidades de fazer exatamente isso, mas noutros contextos e culturas, com uma missão comum, a de ajudar quem mais precisa.

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Com a participação neste projeto, a Santa Casa de Lisboa tem desde então um intercâmbio de jovens voluntários de Itália e de Portugal, entre os 18 e os 30 anos, com a primeira de todas as Misericórdias, a de Florença.


A FORÇA DA UNIÃO por Paulo de Almeida Sande

Para a construção europeia, estes são tempos difíceis.

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Recordo, nos anos 80, uma época em que pouca gente discutia ou reconhecia, em Portugal, a então Comunidade Europeia, para além de uma vaga ideia sobre fundos, como se de uma cornucópia de abundância se tratasse. E foi-o, de facto: entre 1986 e 2000 o país recuperou de forma dramática do seu secular atraso de desenvolvimento, pelo menos no que diz respeito à riqueza produzida e à sua distribuição. Um indicador impreciso, mas para este efeito precioso, é o do PIB/per capita, que cresceu de cerca de 50% da média europeia para quase 75% nesse período. Pode dizer-se, pois, que Portugal se europeizou, deixou de fixar apenas, como Fernando Pessoa cantou, o Ocidente, Futuro do Passado (da Mensagem) para passar a receber da Europa, do seu pátio das traseiras, o influxo de desenvolvimento e progresso que soprou sobre o pequeno país à beira mar plantado durante pelo menos três lustros.

Foi o tempo de transformar uma estratégia que, historicamente, se baseava na trilogia Ibéria (preservação da autonomia), Colónias (cuja perda foi sentida, durante uma década, como uma dolorosa amputação territorial) e Mar Atlântico (Açores?), num novo e multivalente desígnio, o de uma Nação historicamente antiga apostada na sua revalorização como um elo de ligação entre o Oriente e o Ocidente, o Continente e o Oceano, a Europa e o Novo Mundo. Foram anos exaltantes em que, ao sucesso da adesão no plano económico, com o desenvolvimento, verdadeira erupção, de infraestruturas de toda a natureza, se somou uma renovada mundivisão nacional, espécie de sub-espécie do novo Mundo unipolar, em que o Portugal bom aluno da integração faria de ponte para novos mercados, facilitaria e resolveria velhas querelas, seria o eixo em torno do qual se afirmaria, globalmente, a potência europeia dos doze, e depois dos quinze, da qual muitos mais queriam fazer parte. Esse sonho feneceu. Fosse pela nossa incapacidade; pela depredação dos recursos que


Hoje em dia é comum criticar a União Europeia. Ele é porque se trata de um directório poderoso de um só país (a Alemanha, claro), ou porque a Alemanha está em crise (política) e portanto não parece disponível para ceder na reforma essencial de políticas como a união bancária; porque a soberania nacional está em causa, ou porque a Europa não cumpre as promessas feitas aos povos europeus de prosperidade sempre crescente e segurança perpétua; por ser a raiz de todos os males, mesmo dos nacionais. É muito conhecida, e por isso bastante repetida, a ideia de que os políticos nacionais (e não só, também os jornalistas nacionais, os bloggers nacionais, os comentadores nacionais), imputam à União Europeia todos os resultados nefastos para o país, para Portugal, e reivindicam para si, para a sua governação, a sua influência, a sua opinião, os resultados positivos. Os exemplos são tantos que não me bastariam os caracteres que me foram generosamente concedidos pela revista B.I. C.A., mas talvez baste pensar que o investimento público no nosso país se tem feito quase exclusivamente à custa dos fundos europeus e, mesmo assim, não parece ser suficiente (nos últimos anos estagnou). Negam-se à União Europeia os recursos indispensáveis para alcançar os resultados que se lhe exigem – e condena-se a União Europeia, no pelourinho de uma opinião pública cada vez mais radicalizada, por não alcançar esses resultados.

Porque é assim? Pela razão simples de que a alternativa a uma integração económica, social e política, num Mundo crescentemente integrado – globalizado -, não é decerto a renacionalização das políticas partilhadas, o nacionalismo e o nativismo, em grande parte filhos da xenofobia, do medo do Outro e dos discursos ilusoriamente securitários. A alternativa a um projecto como o europeu não pode ser o regresso às fronteiras nacionais, fechadas à circulação de pessoas, de bens, de capitais; não pode ser o recurso serôdio a velhas receitas, a soluções que, mesmo no tempo em que foram usadas, não deram bom resultado; não pode ser o discurso demagógico que explora medos, diz às pessoas o que elas querem ouvir mesmo que seja impossível, mesmo que seja mentira. Na verdade, não há alternativa ao projecto europeu, o que não quer dizer que ele não deva ser – não tenha mesmo de ser – corrigido, melhorado, tornado mais democrático, mais verdadeiramente solidário e justo. Muita coisa haverá a fazer para devolver aos europeus a confiança na sua união, criada para garantir a paz, a segurança, a prosperidade económica e o bem-estar. Mas o pior que pode acontecer é virmos a deitar fora o bebé, isto é, a União Europeia, com a água do banho, ou seja, com as políticas escusadas ou lesivas dos interesses dos Estados, que não acrescentam valor ao jogo de soma positiva que a integração europeia pretende ser. Num Mundo global, o regresso ao passado e o nacionalismo exclusivista e excludente não passam de um anacronismo. Gostaria de dizer que são um oximoro, isto é, que são impossíveis, mas poucas são as coisas que os seres humanos, se a isso se predispuserem, não são capazes de fazer.

Nunca como hoje foi o projecto europeu tão posto em causa, sobretudo internamente.

A Europa da união foi criada há 67 anos e é uma das mais extraordinárias proezas de engenharia política que o ser humano foi capaz de conceber e realizar. Permitiu superar egoísmos nacionais, ultrapassar ressentimentos, ódios até, seculares, e acabar com a guerra civil permanente em que o continente vivia desde há milénios. Trouxe à Europa prosperidade e segurança.

Vista de fora, na verdade, a situação é distinta. Um pouco por toda a parte a construção europeia é considerada um exemplo a seguir e são inúmeros os projectos que a emulam, da União Africana ao Mercosul, tendo a ideia do comércio livre como alicerce e outras políticas – incluindo a defesa – como pontas de lança a crescer para o céu.

Mas essa Europa baseia-se em princípios fundamentais, valores antigos, gerados no cadinho da civilização clássica, dos gregos e romanos, de Jesus e dos judeus, das tradições de pensamento que emergiram dos conventos cristãos da alta e da baixa Idade Média, do Renascimento e dos filósofos liberais, das Revoluções e da Modernidade.

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deviam ser de todos e a que alguns se dedicaram com total desprezo pelos seus compatriotas, e a cuja revelação assistimos hoje, estupefactos e impávidos; fosse por causa de um alargamento que, à semelhança de um antigo filme (“a bridge too far”), foi longe e depressa de mais; fosse pela crise europeia de iliberalismo provocado por crises migratórias e de refugiados impossíveis de absorver por uma débil identidade europeia; fosse finalmente pela crise económica iniciada em 2008, a verdade é que o extraordinário sonho de uma união de povos, nações e Estados cada vez mais integrados, entrou num impasse e arrisca um retrocesso.


Esses valores não podem ser alienados e, por isso, a ameaça que cresce no próprio seio da União é real e é mortal. Democracias iliberais são, essas sim, uma contradição nos termos; e contudo elas medram, crescem dentro do próprio grupo dos 28, tornando-se o principal perigo para a coesão do projecto europeu. De distinta natureza mas não ignorável, o “brexit” ilustra as consequências de uma decisão tomada por referendo sobre matéria da mais alta complexidade (um disparate, na minha opinião); é sempre o bom senso a primeira vítima dos processos demagógicos e populistas, em que promessas irrealistas ou simplesmente falsas convencem eleitores desesperados por razões que nada têm a ver com aquilo que se discute em concreto, mas a quem seduzem acusações simples, narrativas efabulatórias, miragens de outras margens, paraísos que não existem.

[54]

O que fazer, então? Naturalmente, perseverar. Corrigir dentro da União Europeia o que deve ser corrigido. A Cimeira Europeia de Junho pode ser uma excelente oportunidade para iniciar as reformas de que a Europa carece, assim o queiram os homens e mulheres políticos relevantes, que terão de ser todos os chefes de Estado e de governo da União, mas em que avultam, pelo peso específico dos respectivos países, Macron e Merkel. O velho eixo franco-alemão poderá voltar a funcionar, nem que seja pelo tempo de um piscar de olhos, e voltar a pôr a locomotiva no rumo certo? Entenda-se, em todo o caso, o caso europeu: com escassíssimos recursos, menos de 1% dos Pib dos seus Estados-membros, exigese à União Europeia quase tudo; que mantenha, regule e supervisione um mercado de 500 milhões de pessoas; que assegure a coesão entre as suas regiões e Estados; que continue a apoiar a agricultura europeia, tentando o impossível equilíbrio entre luta contra o proteccionismo e defesa dos interesses dos Estados-membros; que seja um porto de abrigo para os milhões que a procuram, emigrantes ou refugiados, mas que evite que eles se tornem num factor de instabilidade e exclusão; que mantenha uma moeda única, de seu nome euro ¤, mas que essa moeda não contribua para aumentar o fosso entre ricos e pobres, credores e devedores, países do Sul e países do Norte; que intervenha com forças próprias na cena internacional, quer em crises civis quer militares; que seja uma voz activa de bom senso e moderação nos conflitos de natureza geo-estratégica próximos e distantes; que continue a assegurar a paz e a segurança no continente; e tantas outras tarefas, tantos objectivos…

A tarefa é hercúlea. Os recursos postos à disposição das instituições europeias são escassos e vão ainda reduzir-se com a saída do Reino Unido. Aos europeus restam duas opções, dois caminhos separados e de consequências muito distintas: Ou acreditam que o nacionalismo e o proteccionismo são a solução para o seu futuro, num Mundo global, interdependente e digital, ou optam pela integração regional, sem abdicar da sua individualidade e identidade, o que implica resiliência para resistir às ameaças, recursos para prosseguir o desígnio europeu, força de carácter para preservar na defesa dos princípios e os valores europeus. Julgo que vale a pena acreditar. Afinal, como escreveu Adolfo Casais Monteiro num quase esquecido poema:

“Europa, tu virás só quando entre as nações o ódio não tiver a última palavra, ao ódio não guiar a mão avara, à mão não der alento o cavo som de enterro — e do rebanho morto, enfim, à luz do dia, o homem que sonhaste, Europa, seja vida!”


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PETRA KAMMEREVERT Presidente da Comissão de Cultura e Educação do Parlamento Europeu por João Moreira

© FKPH

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No passado dia 4 de Abril chegava a Portugal uma delegação de nove deputados da Comissão de Cultura e Educação do Parlamento Europeu, entre eles, Liliana Rodrigues, a única deputada portuguesa que integra a Comissão, para um périplo por diversas instituições públicas e privadas ligadas ao sector, dois dias antes de artistas e agentes culturais saírem à rua, numa manifestação de protesto contra os parcos recursos orçamentais do Ministério que os tutela e exigindo um reforço orçamental imediato para a cultura de 25 milhões de euros e a dotação de pelo menos 1% do Orçamento de Estado para o próximo ano. A implicação imediata desta contestação foi o cancelamento do encontro previsto para a manhã de dia 6 entre a delegação europeia e o Ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, empenhado em suster o descontentamento generalizado dos agentes do sector.


Alheios à contestação, os deputados europeus visitaram a Fundação Calouste Gulbenkian, as instalações da Nova School of Business and Economics, o MAAT da Fundação EDP e um projecto de integração social da Fundação Aga Khan. Pelo meio, reuniram com autarcas de Lisboa, Sintra e Cascais e com os presidentes das Comissões Parlamentares de Educação, Ciência, Cultura, Comunicação e Desporto.

uma maior importância, para que nos Estados-Membros também lhes seja atribuída uma maior importância e, desse modo, que o património possa contribuir mais significativamente para o desenvolvimento económico. Isto, por um lado. Por outro, é preciso ter em conta que não se trata apenas de economia, mas também de pessoas. Eu penso, antes de mais, que só seremos capazes de preparar um bom futuro se conhecermos o nosso passado e também o passado da Europa.

No ano que a Europa decidiu dedicar ao Património Cultural, foi o exactamente a riqueza e diversidade do nosso património que mais impressionou Petra KAMMEREVERT, Presidente da Comissão, com quem conversamos no Centro Jean Monet sobre os desafios que se levantam à cultura europeia.

Nós temos muitas semelhanças, temos raízes históricas comuns, vivemos juntos crises e guerras na Europa que soubemos ultrapassar. E penso que é necessário sabermos extrair lições para o futuro dessas crises e catástrofes. É por isso que é importante não nos focarmos apenas no património cultural edificado, mas também darmos a conhecer a história e reconhecer os erros que foram cometidos e quando e onde, para não os repetirmos.

Petra KAMMEREVERT: Tem toda a razão. O património cultural pode contribuir para promover o desenvolvimento e o crescimento económicos. Toda a área da cultura e das indústrias criativas representa uma parte importante da economia de um país. Mas eu penso que há muitos Estados-Membros que já reconheceram que a cultura e a economia criativa representam realmente um factor económico que pode trazer rendimentos às pessoas e contribuir para um desenvolvimento económico positivo. Uma das razões pelas quais decidimos estabelecer o Ano Europeu do Património Cultural esteve ligada à esperança que temos de através dele promovermos a protecção do património cultural, mas também a utilização da cultura e da arte, atribuindo-lhes

Nessa medida, esperamos que com este Ano Europeu do Património Cultural em que estamos muito empenhados, seja possível dar um impulso, por um lado, no sentido de acordarmos a identidade europeia e reforçarmos as ligações na União Europeia e, por outro, sublinhar a importância da arte e da cultura como factores económicos, para que todos os Estados-Membros invistam mais em arte e cultura. Isso é incontestável, mas nós também conhecemos as limitações e os problemas que existem. Conhecemos a situação no nosso próprio orçamento comunitário e sabemos que há necessidade de definir prioridades. Infelizmente acontece, por vezes, que a cultura não está no topo da agenda. Mas devemos continuar a esforçar-nos para combater essa situação, continuar a trabalhar para alterá-la. Para criar uma maior consciência dessa realidade. Para não sermos confrontados com situações como aquela para a qual alertou um antigo Presidente da República Federal Alemã, Johannes Rau, quando disse que a arte e a cultura não são o creme em cima do bolo, mas o fermento na massa. E esta parece-me ser uma imagem particularmente sugestiva. Referiu algumas vezes a necessidade de acordar a identidade europeia. Existe, de facto, uma identidade cultural europeia? E, se existe, como é que se deve conciliar – e é importante que se concilie – com uma diversidade cultural, regional e nacional que, de certa forma, acaba por ser o grande motor cultural da Europa? Antes de mais, penso que ter uma identidade europeia e ter uma identidade regional ou nacional não representa uma contradição. Pos-

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Durante estes três dias de visita ao nosso país fez diversas referências à relevância do património cultural, tanto arquitectónico como imaterial, e à transformação que sentiu na cidade de Lisboa desde a sua última visita em 2005 e que passa em muito, pelo crescimento exponencial do turismo cultural que, se por um lado, arrasta consigo os riscos da gentrificação, para que bem alertou, por outro, tem sido o grande motor da recuperação económica do País. Ora, se o motor da nossa recuperação económica advém de um factor cultural, por que é que no nosso Orçamento de Estado, isto não é reflectido? Não seria natural, e isto é válido para muitos outros países europeus, uma aposta maior na cultura e na defesa do património, se estes se revelam factores fundamentais para o desenvolvimento económico? E já agora, de que forma é que o Parlamento pode pressionar uma maior dotação orçamental para a cultura?


so sentir-me uma habitante de Dusseldorf, a minha cidade-natal, posso sentir-me alemã, mas posso sentir-me também europeia. Eu acredito que não há nisso qualquer contradição. Não se trata de alcançar uma identidade para descartar outras identidades, mas, como disse, a Europa viver da sua diversidade. E a diversidade de identidades culturais faz parte dessa Europa, constitui uma riqueza que a Europa tem e que se exprime naturalmente também nos modos de vida das pessoas. Não tenho a certeza de que já exista algo como uma identidade europeia. E penso também que é algo que não se pode ordenar a partir de cima. As coisas não funcionam assim. Não podemos decidir no Parlamento Europeu que, a partir de amanhã, todos têm uma identidade europeia que consta do seu documento de identidade. Não é assim. Por isso, penso que a identidade europeia tem de crescer a partir de baixo. Na Comissão da Cultura e Educação do Parlamento Europeu reputamos os programas de intercâmbio de jovens particularmente importantes porque acreditamos que, através dos intercâmbios, se desenvolve um conhecimento recíproco, se juntam pessoas com origens culturais distintas e que, desse modo, pode surgir uma identidade comum. E é por isso que, para nós, é tão importante que esses programas continuem a ser promovidos e alargados. E é por isso também que o nosso programa CULTURA nos é tão caro porque, precisamente, procuramos através dele, não promover projectos culturais nacionais, mas projectos culturais europeus. O que significa que procuramos promover o intercâmbio cultural na Europa. E eu acho que só assim é que pode ser. Considera que essa nova geração de jovens europeus que pela primeira vez pôde passear pela Europa sem passaporte, que já conheceu uma Europa sem fronteiras e que talvez por isso, se sinta tão europeia como portuguesa ou tão europeia como alemã, será a grande incentivadora do aprofundamento dessa identidade cultural europeia?

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Sim, claro. As viagens sem passaporte na Europa, o facto de já não existirem fronteiras, de se poder chegar praticamente a todo o lado sem problemas, é algo que pode contribuir para criar essa identidade europeia. Essa identidade não pode ser imposta e, por isso, a mobilidade e a possibilidade de viajar sem fronteiras são tão importantes. O problema é que, precisamente porque os jovens, actualmente e felizmente, não têm experiências de guerras, nem conhecem fronteiras nem cancelas e, praticamente, usam todos uma moeda única, sentem todas essas conquistas como naturais, evidentes, como um dado ad-

quirido. E, quando algo se torna natural e é dado por adquirido, começamos a procurar os aspectos negativos e a concentrarmo-nos, sobretudo, neles (em alemão: das Haar in der Suppe zu suchen, literalmente procurar o cabelo na sopa). E disso resulta não nos limitarmos a tirar o cabelo da sopa, mas pormos tudo em questão, dizermos que está tudo mal e que é melhor regressarmos ao âmbito nacional, onde podemos resolver tudo melhor, porque resolvemos sozinhos. E isto deriva do facto de tudo aquilo que fazemos e que hoje temos, se ter tornado tão natural e evidente. Mas eu falo com muitos jovens e penso que os jovens reconhecem o valor da União Europeia especialmente quando já circularam um pouco pela Europa. E há muitos que se preocupam com o futuro dessa União Europeia, não por a considerarem uma instituição fantástica, mas porque sabem que tem a ver com as suas vidas. E que, espera-se, não desejem viver de novo em ambientes mais isolados e acreditem que os problemas podem ser mais bem resolvidos em conjunto do que em isolamento.


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Vista ao Largo do Intendente para apresentação do projeto STEPS e da Cooperativa cultural LARGO Residências


Cultura Europeia A opinião dos nossos Eurodeputados

1. Quais os elementos que, no seu entender, definem uma identidade cultural europeia?

2. Qual tem sido, e deve ser no futuro, o papel do Parlamento Europeu na defesa dessa identidade comum, bem como das idiossincrasias culturais europeias?

1.

Liliana Rodrigues

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Partido Socialista

É uma tarefa complexa essa de tentar definir uma identidade cultural europeia. Talvez se afigure mesmo como impossível. Ela inclui a herança helénica, o Cristianismo, o contacto com outras culturas muito diferentes proporcionado pelos descobrimentos, a crença iluminista no homem e na razão, os ideais da Revolução Francesa e a construção da democracia. Ela é tudo isso e muito mais, por vezes contraditória, evoluindo com o tempo e sempre diversa. De ambição universal, mas também frágil. Símbolo de paz e solidariedade, mas também de conflito, guerra e intolerância. A identidade europeia é um assunto inacabado. Em construção, aqui e agora, também com o erguer do projecto europeu e de uma comunidade cultural de valores partilhados. Distinguimo-la sem a necessidade de a definir. Tal como Santo Agostinho dizia do tempo, se ninguém me pergunta, eu sei o que é, mas se me perguntam, e quero explicar, então eu já não sei o que é. Também isto ocorre com a identidade europeia. Distinguimo-la sem a necessidade (ou a possibilidade) de a definir.

2. Vem-me à memória A Turma de Laurent Cantet, filme que retrata muito bem os conflitos e as relações interculturais. No filme, as culturas e as atitudes diferentes colidem frequentemente dentro da sala de aula, o que acaba por ser um microcosmos da França contemporânea e da própria Europa. Tal como sucede com o professor no filme, este é o desafio que temos na União Europeia, saber como da diversidade construir uma unidade, sem que esta anule a primeira. Vivemos hoje aquilo que Lipovetsky denomina de “cultura-mundo”, uma cultura globalizada que estrutura de modo radicalmente novo a relação entre as pessoas e destas com o mundo. Não será de admirar que experimentemos uma certa perplexidade. Tudo ocorreu demasiado rápido, sem tempo para ajustes. Esse é o papel que cabe às instituições europeias, garantir que a globalização da cultura não signifique a anulação das idiossincrasias nacionais e regionais, mas que se constitua como veículo privilegiado para a sua reabilitação e divulgação, dedicando-lhes mais tempo e recursos.


1.

Paulo Rangel Partido Social Democrata

É o maior dos lugares comuns, mas a identidade europeia deriva mesmo do cruzamento da civilização greco-romana com a cultura judaica-cristã. Cruzamento que foi enriquecido com enxertos vários: celtas, germânicos, árabes ou provindos da Ásia profunda. Esta miscelânea produzirá valores admiráveis como a primazia da dignidade pessoal, a separação da política e da religião, o apego à liberdade, a crença na igualdade de todos os seres humanos. De onde sairá uma cultura de direitos, de respeito e tolerância, de promoção da equidade. Tudo intercalado por guerras, opressões e desastres ignominiosos de que, como Sísifo ou Fénix, houve sempre que recomeçar ou renascer. Essa matriz comum, também gizada nesses tempos obscuros, assenta na diversidade, de que o pluralismo linguístico e a liberdade artística são os melhores reflexos. O reconhecimento do outro como igual e como próximo é o maior legado.

2. O Parlamento Europeu, até porque nos seus alvores carecia de competências efectivas, erigiu como prioridade a defesa dos direitos humanos. É conhecido o carácter pioneiro do Prémio Sakharov (que tantas vezes antecipa outros) e ainda hoje as resoluções sobre o estado dos direitos humanos em todo o mundo ocupam uma parte relevante do trabalho parlamentar. As missões de observação a processos eleitorais, de mediação e verificação em zonas de conflito, o acolhimento dos perseguidos de todo o globo são constantes. Num outro registo, o Parlamento promove a diversidade linguística (24 línguas oficiais), com interpretação de todas as sessões e tradução de todos os documentos. Apadrinha e estimula imensas actividades de divulgação cultural, não apenas de elite (Lux Prize) mas ainda de idiossincrasia popular. Poderá fazer mais, mas isso talvez dependa da atribuição à União de poderes na área da cultura e educação

1.

2. A cultura é matricial e identitária da Uniāo Europeia. As instituições dedicam-lhe atenção própria. O Parlamento Europeu nāo é excepçāo. O ano 2018 foi consagrado ao património cultural. O Parlamento Europeu legisla sobre a cultura, através dos processos de co-decisāo. Tem uma palavra a dizer no apoio às artes e as indústrias criativas, projectos de investigação e cooperação. Muitas das políticas europeias têm uma dimensão cultural, casos da educação, investigação científica, política social e desenvolvimento regional, expresso desde logo no financiamento de escolas de música, salas de concerto e estúdios de gravação. A União Europeia financiou, por exemplo, o restauro de alguns teatros históricos, como o Teatro del Liceu em Barcelona, La Fenice em Veneza ou o Theatro Circo em Braga. O Programa Europa Criativa é destinado às indústrias cinematográficas, artes e indústrias criativas. O Parlamento Europeu atribui o Prémio Lux, prémio europeu do cinema. A UE apoia prémios em sectores como o património cultural, a literatura e a música, dando visibilidade à qualidade e ao sucesso das realizações artísticas europeias. Todos os anos, duas cidades são designadas Capitais Europeias da Cultura. Na anterior legislatura, o Parlamento Europeu definiu, juntamente com o Conselho, a Marca do Património Europeu. A cultura está no topo das prioridades do Parlamento Europeu.

[61]

Nuno Melo Partido Popular

A melhor resposta que vi tentada, foi dada por António Barreto, a propósito da apresentação do livro “A Identidade Cultural Europeia”, da autoria de Vasco Graça Moura: “É difícil ou talvez mesmo impossível definir e estabelecer a Identidade cultural europeia, mas onde ela está, logo se reconhece; quem a vê, dela se apercebe. Noutras palavras, ninguém a define, mas todos a distinguem.” Diria que, culturalmente, a União Europeia é um mosaico, produto dos séculos de história que definiram encontros, mas também especificidades. É assim no património, na arquitectura, na literatura, no cinema, em muito mais. A casuística ajudará a encontrar denominadores comuns, do mesmo modo que perceberá noutros casos a sua ausência e até, em muitos momentos e países, influências evidentes de longínquas partes do mundo. A identidade cultural europeia é isto tudo. Todo o mosaico. Nele, a sua imensa riqueza. Tão forte e marcante, que como a seu tempo sentenciou Jean Monet, um dos pais do projecto europeu, «se tivéssemos de começar tudo de novo, começaria pela cultura».


1. Creio que a melhor definição da identidade cultural europeia será o próprio lema da União Europeia - “unidos na diversidade”. Entre os valores da União Europeia consta, aliás, o respeito pela grande diversidade cultural e pelo multilinguismo. A meu ver, não existe uma identidade cultural europeia única, mas várias identidades que devem coexistir e respeitar-se mutuamente, e acredito que essa soma, essa diversidade, a multiplicidade é um valor acrescido para todos e todas.

2.

Marisa Matias Bloco de Esquerda

O Parlamento Europeu pode desempenhar um papel importante na definição das políticas culturais europeias, na promoção da diversidade cultural. O prémio Lux para o cinema, as capitais europeias da cultura, são exemplos mais visíveis de políticas europeias que visam isso mesmo. Contudo, convém sublinhar, que a União Europeia não se pode sobrepor ao papel essencial dos vários Estados Membros na preservação e construção da sua própria cultura, nem tal pouco na definição das políticas culturais de cada um. É ao nível nacional que deve ser dado o maior cuidado e atenção à questão da identidade cultural, nomeadamente através do investimento e financiamento dessas próprias políticas, da preservação do património. Os países não podem desinvestir na sua cultura, sob pena de depois pouco restar para incluir na tal diversidade.

1.

Marinho Pinto Partido Democrático Republicano

A Europa, tal como hoje a conhecemos, começou a formar-se, em 480 A.C., na batalha de Salamina, com a vitória de Temístocles (gregos) sobre Xerxes (persas). A identidade cultural europeia assenta em variadíssimos contributos que, desde então e ao longo dos séculos, foram moldando a sua fisionomia atual. Entre esses contributos assumem relevância especial (i) a filosofia grega (que surge como resposta da razão contra o mito e a superstição), (ii) o direito romano (enquanto instrumento de regulação das relações de produção e de troca, de disciplina social e de conformação dos interesses conflituantes, que moldou o carácter empreendedor dos europeus), (iii) o renascimento e o seu humanismo (que, pela primeira vez, coloca o Homem no centro das preocupações culturais e políticas, substituindo o paradigma teocêntrico pelo paradigma antropocêntrico), (iv) a ilustração iluminista (que põe o conhecimento científico, filosófico e cultural na base do desenvolvimento económico e do progresso social) e, por fim, (v) o racionalismo científico (que confere à investigação e método científicos um lugar prioritário na aquisição e formação do conhecimento e atribui à crítica um papel fundamental no aprofundamento e aperfeiçoamento do pensamento filosófico). Por outro lado, a identidade cultural da Europa resulta também dos contributos religiosos, nomeadamente do cristianismo, do judaísmo e do islamismo que, ao longo dos tempos, foram influenciando a formação da personalidade europeia. Cada uma dessas religiões, com destaque especial para o cristianismo, deu (e continua a dar) contributos decisivos para a formação da identidade cultural europeia. Assim, a Europa não é apenas filha de Atenas e do Helenismo. Ela é também filha de Jerusalém e das três religiões para as quais esta cidade é sagrada.

[62]

2. O Parlamento Europeu tem contribuído para a defesa e afirmação da identidade europeia através de duas vias distintas e complementares: (i) pelo conteúdo normativo da legislação que produz e (ii) pela exemplaridade política dos debates parlamentares que efetua. Trata-se de um debate politicamente muito enriquecedor na medida em que não se faz apenas do plano político e ideológico, mas também numa perspetiva regional e nacional. Em ambos os casos, o que se afirma é a Europa da democracia, da paz, das liberdades, do pluralismo, da tolerância, do humanismo e da laicidade. A Europa, com 7% da população mundial, produz 20% da riqueza de todo o mundo e gasta cerca de 50% de todas as despesas sociais do planeta, proporcionando níveis de bem-estar inigualáveis em quaisquer outras épocas ou regiões do planeta. Em suma: é a Europa do progresso, do desenvolvimento e do bem-estar social, mas também do inconformismo, da vontade de saber mais, de ultrapassar novos horizontes e explorar novos mundos e de se relacionar com o outro, com o novo e o diferente. No futuro, o Parlamento Europeu deverá melhorar esses contributos através de reformas que aperfeiçoem o processo legislativo, aprofundem a democracia interna e reforcem os seus poderes de representação política conferindo-lhe, nomeadamente, iniciativa legislativa.


1.

José Inácio Faria Partido da Terra

O Tratado de Lisboa marcou não só, o relançamento do projeto europeu a nível económico e social, como também o reinvestimento na identidade cultural europeia. Apesar de a União Europeia ser casa de 24 línguas oficiais e de uma panóplia de hábitos e costumes, é possível identificar uma esfera comum de causas e valores que avançam o projeto e promovem a união entre os povos. Essa esfera contribui para o reforço de uma identidade cultural supranacional capaz de consciencializar o cidadão não só para a sua realidade nacional, como também para a amplitude da ação europeia. Para além dos valores europeus se assumirem como um dos principais veiculadores desta cultura comum europeia, há pequenos símbolos de uma cultura supranacional que emergiram nos anos 80, como o Hino Europeu e a bandeira da União Europeia. A nossa cultura comum encontra-se em pleno desenvolvimento e encontra já frutos na própria noção de cidadania europeia e na importância dada à política de coesão no orçamento da União.

2. O Parlamento Europeu, casa da democracia europeia, tem um papel fundamental na defesa da identidade comum e valorização, até, das idiossincrasias culturais europeias. De facto, assumindo-se como o fórum europeu da expressão dos povos, o Parlamento incorpora os diversos interesses das suas regiões, defendidos pelos vários Eurodeputados, e, simultaneamente, o Parlamento luta pelo avanço de uma causa comum – o projeto europeu. A promoção dos ideais da União Europeia, que nos distinguem do resto do mundo, destaca-se na ação do Parlamento através, por exemplo, de missões de observação eleitoral onde valores como a democracia e a proteção dos Direitos Humanos são garantidos fora de portas. Através do Parlamento, assumimos as diferenças culturais e históricas dos Estados-Membros, e vemos para além das mesmas com a afirmação de uma identidade comum europeia. A projeção destes mesmos valores é reconhecida internacionalmente como um dos grandes ativos da União.

1.

Partido Comunista Português

2. O Parlamento Europeu (PE) tem sido a correia de transmissão da construção conceptual dessa identidade inexistente, correspondendo-lhe uma pretensa legitimação democrática dessa construção. Tem sido ali que se tem afunilado a cultura numa visão mercantilista, em que se promove a uniformização da oferta cultural e o condicionamento dos apoios à lógica da rentabilidade e do lucro. Os deputados do PCP no PE têm, ao invés, pautado a sua intervenção pela defesa do respeito pela diversidade e identidade cultural dos povos e a garantia de acesso de todos à cultura suportadas no desenvolvimento de políticas públicas de apoio à criação, produção e fruição culturais; na defesa e divulgação do património cultural nacional, regional e local, erudito, popular ou tradicional, como forma de salvaguarda e promoção da identidade e da independência nacionais, através de iniciativas, visitas e encontros. Temos igualmente, ao contrário de outros, assumido uma defesa intransigente do multilinguismo no PE e da defesa, valorização e promoção da língua portuguesa.

[63]

João Pimenta Lopes

A pergunta exige que se responda antes à questão se existe uma identidade cultural europeia. Em nosso entender não existe. Existem antes, múltiplas identidades culturais de cada país e que integram, elas mesmas, múltiplas diversidades regionais e locais. A UE insiste, contudo, na construção do ideal de uma dita identidade ou herança cultural europeia. Um conceito que encerra em si mesmo uma distorção que opõe a dimensão geográfica da UE e da Europa, procurando confundir a primeira com a segunda. Trata-se de imprimir à cultura, uma visão ficcional, uniformizadora e harmonizada, que centraliza na “Europa” - leia-se na UE - um pretenso papel de “vanguarda” que mais não é, em verdade, que um meio para aplicar, também aqui, uma lógica de mercado único, de subordinação económica, de concentração da capacidade criativa e produtiva. Uma construção criativa que se molde - até para beneficiar de financiamento - a essa suposta identidade cultural europeia que não existe.


União Europeia De uma inspiração nasceu, de inspiração precisa por Alexandre Guerra Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Tal como uma cortina, muitos dirão que as sombras se abateram sobre a Europa. A cada eleição, soam os alarmes, com medo do que possa estar para vir. Os extremismos e nacionalismos pairam em vários países, ameaçando o sistema de valores no qual assenta o edifício europeu. Ainda há uns tempos, a crise das dívidas soberanas praticamente condenava a União Europeia aos escombros e, mais recentemente, um novo abalo se fez sentir com o Brexit. Pelo meio, constatou-se a falência de Bruxelas em lidar com a crise dos refugiados e os problemas de integração das comunidades islâmica nalgumas metrópoles europeias. De facto, vendo as coisas desta maneira, dir-se-ia que o futuro da União Europeia, enquanto projecto político único na história dos Estados, é sombrio. Até porque, os cidadãos e dirigentes europeus tendem a focar-se nos problemas inerentes à construção do edifício comunitário, no que está mal, descurando, muitas das vezes, as virtudes que diariamente se reflectem na melhoria de vida dos povos e que resultam desta magnífica invenção política e humana do pós-II GM.

[64]

Este desfasamento entre a percepção negativa que às vezes as pessoas têm da burocracia de Bruxelas e o retorno efectivo que a União Europeia tem dado aos países (com erros é certo, mas onde o balanço é claramente positivo), é explicado, em parte, pelo ainda desconhecimento profundo daquilo que o projecto europeu tem dado aos seus Estados-membros. Na verdade, nos últimos tempos, tem sido evidente a intensificação do discurso demagógico e populista contra a União Europeia, tendo já consequências fracturantes com a saída do Reino Unido a breve prazo. Num primeiro momento, de maior histerismo talvez, começou a falar-se no início do fim da União e na possível saída de mais países, como se a organização de que actualmente fazem parte fosse a fonte de todos os seus

problemas e não lhes tivesse proporcionado prosperidade e desenvolvimento. Para já, o ímpeto secessionista de um ou outro Estadomembro parece ter acalmado, talvez por se começar a perceber que a “aventura” do Reino Unido, afinal, pode vir a ter consequências muito gravosas para o país. Normalmente, como noutras situações da vida, só se dá valor às coisas quando ficamos sem elas ou quando não as temos e as queremos ter. Muitos parecem esquecer ou desconhecer que o espaço geográfico da União Europeia é um dos mais desenvolvidos e pacíficos do mundo, onde, apesar de todas as imperfeições, impera a democracia e a justiça social. E se entre os (ainda) 28 haja quem olhe para a União Europeia como um projecto iníquo e perverso, outros países, que estão do lado de fora, vêem na Europa um farol de esperança e progresso. E, por isso, numa altura em que alguns falam em sair, há outros que aprofundam a sua aproximação à UE, na esperança de um dia virem a ser membros de pleno direito. De certa maneira, é compreensível algum descontentamento ou cepticismo face à União Europeia, já que um dos passatempos preferidos dos actuais governantes do Velho Continente é criticar o projecto europeu e reduzi-lo a um monte de burocracia, que está em decadência e que pouco ou nada faz pelos seus povos. Com mais ou menos intensidade, esta é a tónica dominante da retórica de muitos líderes e políticos dos Vinte e Oito. Seja por convicção, seja para agradar ao seu eleitorado interno, seja até por razões válidas (porque há muitos erros que devem ser corrigidos), são recorrentes as críticas e os ataques feitos ao projecto de construção europeia. No meio de tudo o que se vai ouvindo, é contínuo o lamento sobre a falta de liderança política na Europa. Ao nível dos Estados-membros, não existem figuras carismáticas que possam assumir esse desígnio comum e inspirador de levar isto por diante e, no âmbito das instituições comunitárias,


Não se estranha, por isso, que uma certa ideia romântica de Europa unida e solidária se tenha perdido lá atrás, com a saída de cena de homens como Delors, Kohl, Mitterrand, Soares ou González, apenas para dar alguns exemplos. No entanto, se é verdade que Jacques Delors é e será sempre uma figura de referência na construção europeia, tal evidência não deve distorcer a análise comparativa entre os seus dois mandatos na Comissão e os que se lhes seguiram. Porque, de certa maneira, no final dos anos 80 e no início dos anos 90 viveu-se uma euforia europeia, com alguns dos principais líderes europeus da altura, com destaque para Helmut Kohl e Francois Miterrand, a “acelerarem” o projecto europeu para um nível de integração absolutamente inédito. Maastricht é precisa-

mente o resultado, mas também o símbolo, dessa vontade política. Na prática, e até pela realidade ainda bem presente dos traumas de uma Europa dividida, todos eles estavam a lutar pelo mesmo. E isto veio facilitar (e de que maneira) o trabalho de quem estava nas instâncias comunitárias e, ao mesmo tempo, criar uma onda de entusiasmo junto dos cidadãos europeus. Hoje, a euforia deu lugar a algum descontentamento no seio dos Estados-membro. Os europeus não parecem ver na Europa um projecto aliciante, mas sim uma entidade burocrática, dominada por tecnocratas que se limita a emitir directivas. A juntar-se a esta ideia, muitos dos intervenientes políticos nos vários países tecem duras críticas e enveredam por discussões bizantinas sobre questões que, com alguma arte política e inspiração, podiam ser ultrapassadas, tendo sempre presente que este mesmo projecto europeu já passou por períodos bem mais complicados da sua história. A diferença é que nessas alturas lá estavam os líderes carismáticos, a meterem de lado as suas diferenças e egoísmos e a pensarem no bem comum, e, desta forma, a inspirarem os seus povos.

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percebe-se que as figuras que têm sido escolhidas para assumir tais cargos nos últimos anos não têm gerado o efeito de mobilização e de alavancagem que se precisava. De certa maneira, hoje em dia, fica-se com a sensação de que a construção do edifício europeu entrou em piloto automático a partir do início dos anos 90, acrescentando-se andares sobre andares, em cima de “pilares” frágeis, mas sem qualquer farol que apontasse um porto seguro.


A arte de ser português… e europeu

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por Gonçalo Lobo Xavier*


Não sou um saudosista, embora reconheça qualidades em imagens do passado que apreciem a nossa história e os nossos feitos, agora tão esquecidos e maltratados pelas gerações actuais à procura de uma identidade. Portugal é um país extraordinário e com uma história fora do vulgar. E, apesar de tantas atrocidades arquitectónicas, tem zonas únicas e de uma beleza rara. Um país com uma marca própria. Mas, acredito, é também um país perfeitamente integrado numa lógica europeia, numa visão de longo prazo em que a cultura, os cidadãos e a sua identidade nacional, se completam na procura do bem comum. Nas muitas palestras que dou sobre a Europa e sobre a construção de um modelo que permita aos povos a sua união na diversidade, falo invariavelmente nos custos da “não-Europa”. Isso mesmo: onde estaríamos todos se não houvesse este conceito excepcional com mais de 60 anos e que, com maiores ou menores “dores de crescimento”, nos trouxe aqui? Um projecto que se baseou na procura da paz entre as nações e no desenvolvimento harmonioso dos povos. Não tenho dúvidas que os custos da não existência Europa seriam enormes. E, teremos infelizmente a prova disso mesmo, muito brevemente, com a saída da Reino Unido. Os nossos amigos britânicos, particularmente os ingleses, estão já a sentir que a saída da Europa é um erro de consequências imprevisíveis, mas, já muito… visíveis… Não nego que o que aconteceu no Reino Unido poderia acontecer noutro Estado Membro. Falo da desinformação que intoxica os cidadãos, assente em meias verdades e com uma visão distorcida da realidade. Falo também de uma inabilidade para comunicar o que é que a “Europa” enquanto ideia de crescimento, tem feito pelos cidadãos. É verdade que os líderes europeus, nos últimos anos, desvalorizaram o caminho que os adversários ideológicos de uma Europa unida fizeram. É um facto que muitos Estados Membros se deixaram enredar pela narrativa de culpar “Bruxelas” por tudo o que de mau acontecia no “terreno”. É também fácil de sustentar que, se os cidadãos não souberem que são os projectos europeus que apoiam e financiam as descobertas científicas que procuram a cura para o cancro, ou que foi a Comissão Europeia que “obrigou” as operadoras de telecomunicações a terminarem com o “roaming” ou ainda, que são os fundos europeus de apoio

à inovação que estão na base de criação de novos empregos e de novas empresas – dificilmente o cidadão comum valoriza a Europa enquanto projecto de crescimento e bem estar. Mas é este mercado interno que permite estes avanços na sociedade. O caso de Portugal é paradigmático nestas matérias de apoio e crescimento: o país muito deve à sua integração europeia. E não falo de apenas de estradas ou infraestruturas que mudaram definitivamente a face de Portugal e permitem que este crescimento económico e bem-estar das populações esteja a fazer o seu caminho. Falo da mudança de mentalidades, da forma como encaramos a nossa responsabilidade enquanto cidadãos, na construção contínua de uma Europa para todos. Poderá dizer-se que estou influenciado por uma vida de trabalho mais recentemente, dedicada ao projecto Europeu. Será verdade, mas como não posso estar agradecido (eu e muitos outros!) uma vez que toda a minha história enquanto estudante e como profissional começa com o projecto ERASMUS? O projecto europeu que vale por todos as campanhas de promoção da Europa! Um programa que promove uma ideia de Europa para todos, em que se valorizam todas as culturas dos Estados Membros e se proporciona a milhares de estudantes a oportunidade de alargar horizontes, é uma realização formidável. E de tal maneira tem impacto que, não só se tem aumentado a participação e dotação orçamental, como se tem alargado o horizonte de aplicação – não só a estudantes, mas também permitindo a mobilização de trabalhadores. O projecto Europeu não está, no entanto, isento de erros e de perigos. E o que vamos vendo em alguns Estados Membros leva-nos a dizer que a construção europeia é um projecto diário e contínuo. Os extremismos e o descontentamento são uma realidade que não podemos ignorar. Mas mais uma vez sinto que Portugal poderá desempenhar um papel crucial na história. Enquanto país com uma cultura e identidade próprias, mas sempre disponível para participar num conceito para o qual pode contribuir mais e retribuir tudo o que tem beneficiado, com orgulho e com a legitimidade de mais de 700 anos de história. Saibamos, pois, valorizar Portugal e a Europa e o papel que cada um de nós pode desempenhar na construção europeia. Estou certo que estaremos mais uma vez à altura do nosso passado com olhos no futuro. Que assim seja! *Vice-Presidente do Comité Económico e Social Europeu

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É já um clássico: quanto mais estamos fora do país, mais gostamos dele e mais o valorizamos.


PORTUGAL: OBVIAMENTE, EUROPEU. por Nicolau Pais

Se bem que nos falte quase sempre precisão para distinguir a dualidade do termo “Europa” - que usamos, de forma imprecisa, ora como definição de um “território multi-cultural” latu sensu, ora como definição de “zona euro” uma olhadela sincera ao país que temos não pode deixar de partir da admissão de que, muito do que hoje chamamos a “civilização portuguesa”, depende, de forma simbiótica, da nossa adesão à Zona Euro. Estou a falar da rede rodoviária, do Sistema Nacional de Saúde, do Sistema Público de Educação, das ambições saudáveis que estes representam para 99.9% dos portugueses e da forma encontrada para os financiar - e legitimar como pilares do Portugal do século XXI.

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Sem querer fazer de conta que não há barreiras que separam o Norte do Sul do Con-

tinente - muitas das quais resultantes da Reforma de Lutero e da re-formatação cultural subsequente - a verdade é que sou dos que prefere a dinâmica político-social das diferenças, à tábua-rasa das igualdades normativas. Ou seja, enquanto cidadão europeu, prefiro o choque produtivo como procura de equilíbrio entre Estados, à rejeição liminar - ora pseudo-revolucionária, ora pseudo-conservadora, mas quase sempre inconsequente - dos euro-cépticos. Não gosto, no entanto, de cair na esparrela de achar que o debate sobre a Europa tem o seu Alfa e o seu Omega na comparação infeliz com a relativa falta de qualidade de vida de outros continentes. Não; a Europa teve no pós-guerra um desígnio crucial com o qual tem, apesar de tudo, cumprido: a manutenção da Paz. O esforço tem sido esse; esse é o objetivo transversal e tem sido cumprido: o continente europeu atravessa um dos seus períodos mais longos de Paz na História, conseguindo, inclusivamente, suster alguns ímpetos nacionalistas perigosos nos últimos anos. Pelo meio, estão ideias seminais como o projecto Erasmus ou a livre circulação de pessoas e bens, que hoje começam a frutificar em termos da construção de um continente mais cosmopolita, livre e, portanto, economicamente saudável. Sem complexos de inferioridade - já que Portugal pertence às “duas europas” por direito próprio, ou seja, à tal “zona euro” e ao tal “territorio multi-cultural” - seria bom, enquanto portugueses, relevarmos o que representou e representa a nossa condição de europeus. “Estar na Europa” não é um salvoconduto para soluções milagrosas; “estar na Europa” é habitar um território de exigência, responsabilidade e possibilidades infinitas. Para nós, lusitanos, em particular, talvez seja mesmo o único antídoto para o isolacionismo a que a geografia - e as soluções paternalistas nela capciosamente fundadas, como o Estado Novo - nos quiseram votar. Falharam, e ainda bem; continuemos.


EUROPA, COMO HISTÓRIA VIVA… por Por Guilherme d’Oliveira Martins

E temos de recordar que segundo o Eurobarómetro Portugal destaca-se pela positiva quando consideramos a identidade nacional, enquanto fator de resistência à uniformização global ou quando referimos que a proximidade de bens patrimoniais melhora a qualidade de vida, mas apresentamos resultados negativos nas referências relacionadas com o envolvimento ativo dos cidadãos no património – participação em ativida-

des, voluntariado, visitas a museus e lugares com valor patrimonial. Somos os melhores no discurso e os piores na participação em iniciativas concretas. Temos, assim, de encarar o Ano Europeu com uma forte aposta na Educação, nas escolas, na ligação destas à comunidade – bem como na investigação, na conservação e restauro (em que o nosso Ensino Superior se tem destacado pela positiva). Daí a importância do Prémio Escolar animado pela Rede das Bibliotecas Escolares e apoiado pela Fundação Gulbenkian. Simultaneamente, trata-se de prosseguir a promoção ativa da defesa e do conhecimento do património material e imaterial, com salvaguarda da qualidade das cidades, da proteção da paisagem e da ligação à criação contemporânea… Eis por que razão a sociedade civil, a comunidade científica, as escolas, as instituições culturais e os governos têm de ser mobilizados, para assegurar planeamento estratégico, definindo prioridades transversais para o desenvolvimento. Exige-se participação ativa dos cidadãos, sustentabilidade social e ambiental, medidas contra a especulação urbana e imobiliária e envolvimento dos melhores especialistas em nome da inovação e de uma ciência cidadã. Estas considerações levam a que venha insistindo na necessidade de darmos a este Ano Europeu um sentido que ultrapasse o pendor comemorativo e as iniciativas passageiras – daí a ligação entre as áreas da educação, da ciência e da cultura. Só com um envolvimento efetivo das escolas, através dos estudantes, das famílias e da sociedade e com melhor formação de educadores e professores poderemos ir além da superficialidade. Daí a necessária ligação entre as iniciativas de estudiosos, investigadores, profissionais com a sensibilização dos cidadãos. De nada valerá a multiplicação de iniciativas avulsas, fugazes e sem consequência. Os acontecimentos em toda a Europa ligados ao Ano Europeu constituem assim motivo para nos mobilizarmos na defesa e salvaguarda do Património Cultural, construindo uma consciência europeia capaz de fortalecer os ideais democráticos através da inovação e da criatividade – e do respeito por um conceito aberto e exigente de humanidades, integradoras das artes e das ciências, dos saberes e das experiências. A “consideração de todos quantos viveram no passado e nos antecederam”, o respeito pelo conhecimento, o cuidado dos monumentos, dos arquivos, das paisagens, das tradições, da história – tudo isso tem a ver com a consciência europeia de uma verdadeira cultura de paz e de diálogo.

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O dia da Europa de 2018 invoca especialmente a referência à memória. Não por acaso, o único ano temático deste mandato dos órgãos da União Europeia refere-se ao Património Cultural. De facto, é tempo de considerar as raízes históricas europeias e de as projetar numa identidade aberta, capaz de dar e receber e de compreender a diversidade e o outro, não como uma ameaça, mas como uma oportunidade de enriquecimento. A paz e a segurança, o desenvolvimento humano sustentável e a preservação das diferenças culturais têm de estar cada vez mais presentes numa democracia europeia assente na universalidade da dignidade humana. Marguerite Yourcenar falou do seu enorme entusiasmo com o grande sonho da história, ou seja, com a consideração de todos quantos viveram no passado e nos antecederam. Ao falarmos de património cultural, é nessa fascinante referência que temos de pensar. Não se trata de cuidar de um tempo fechado ou de um acervo do passado, mas de entender um mundo que nos põe perante a responsabilidade de não o esquecermos. Daí que este Ano Europeu do Património Cultural não possa ser uma celebração a olhar para trás, devendo ser um serviço (múnus) para o futuro – sob pena de não sermos dignos do que recebemos. Adriano (das Memórias imaginárias da romancista) é um símbolo – que se surpreendia por ter uma vida informe: “ocupei sucessivamente todas as posições extremas, mas não me mantive nelas; a vida fez-me sempre deslizar”… E que é a História? Como protegemos o património cultural se não cuidarmos do ensino da História, se não curarmos dos monumentos, dos documentos, das tradições, das artes ou das paisagens? Tratamos de património material e imaterial, em diálogo com a criação contemporânea. E as Convenções do Conselho da Europa, como a de Faro (sobre o valor do património na sociedade contemporânea, de outubro de 2005), obrigam a considerar este Ano como oportunidade para lançar bases que permitam sermos mais exigentes no conhecimento e na aprendizagem, bem como na missão essencial de não deixarmos ao abandono o que herdámos.


“Para dar voz ao povo” por Hugo Carvalho

“Para dar voz ao povo” - foi o slogan de campanha de Marine Le Pen. Muitos slogans sāo assim: feitos para soar bem aos ouvidos, para simplificar mensagens, para ocultar as reais agendas. De facto, com Le Pen, dar voz ao Povo é fechar fronteiras, limitar a nacionalidade, fechar mesquitas, instituir a pena de morte, abandonar a moeda única, sair da União Europeia, comprar mais armas, destruir as pontes e construir os muros... Disse isto Le Pen aos franceses, Wilders nos Países Baixos, e um coro de líderes políticos (ou anti-políticos) que por essa Europa fora defendem, convictos, o antigamente da ordem, do respeito e da soberania nacional de há 70 anos atrás. Dos anos em que as mulheres não podiam votar; dos anos dos totalitarismos na Europa e da guerra fria no mundo; dos anos em que os países estavam sozinhos e em que se grupos de pessoas visitavam outro país faziam-no em batalhão, em emigração a salto ou no exílio.

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O meu tempo é diferente: sou cidadão do mundo, e ganhei mundo porque fui desafiado a pensar, porque fui desafiado a contestar e porque fui desafiado a experimentar. Ganhei mundo porque cresci numa cultura diferente, mais aberta às pessoas e aos povos e menos fechada em si própria, que tem produzido gerações como a minha: mais tolerantes, mais interconectadas, mais europeístas e mais globais. Só temos medo do que não conhecemos e o acesso que hoje temos ao que os outros fazem no mundo, e sobre o mundo e a nossa história tem sido uma das grandes marcas do progresso social que temos observado. É por isso que o meu tempo é diferente e a minha Europa também. Para os meus pais e avós a Europa é um projeto de paz: foi com a sua criação que viram países como a França, a Polónia ou a Alemanha deixarem de se encontrar no campo de batalha para se sentarem à mesa a construir um futuro melhor em conjunto. Eu sou esse futuro melhor, e é por isso que a Europa para mim é muito mais do que um projeto de paz, de desenvolvimento social, político e económico. A Europa para mim é aqui: é o meu espaço, o território onde vivo,

que partilho com mais 500 milhões de pessoas, sem fronteiras, sem precisar de trocar dinheiro, sem precisar de passar alfândegas, de ativar o roaming do telemóvel, sem precisar de pedir autorização para visitar, viver ou trabalhar… A reflexão sobre a União Europeia promovida pelo Presidente Juncker sistematiza 5 possíveis cenários para o futuro da Europa: continuar tudo como está, todos os Estados fazerem menos em conjunto (menos Europa), alguns Estados fazerem mais (Europa a diferentes velocidades), todos os Estados fazerem mais em conjunto (mais Europa), ou redesenhar radicalmente a União. A União terá de decidir para onde quer rumar, e essa discussão já não pertence só aos diplomatas, aos políticos e aos burocratas. Na minha Europa, as relações internacionais não se fazem só entre Estados, capitais e governantes: fazem-se entre municípios, entre freguesias, entre regiões, entre organizações e movimentos cívicos; constroem-se e desenvolvem-se sobretudo, entre pessoas. E são as pessoas que precisam de querer mais Europa, sob o risco de irem atrás de propagandas e populismos dos interesses de alguns que vivem ainda tempos e lugares obsoletos e ultrapassados - nacionalistas, totalitários, radicais, todos eurocéticos... Propagandas e populismos que não resistem ao escrutínio europeu, internacional, e por isso se acantonam em discursos de fação nos cantinhos dos seus países, cavalgando as ondas da insatisfação. Há algumas coisas na vida sobre as quais não podemos apenas ouvir falar, sobre as quais não podemos apenas ver vídeos, sobre as quais não podemos apenas ler livros… Há coisas na vida que temos mesmo de experimentar, e a Europa é uma dessas coisas. A única forma de termos mais Europa é sentirmo-nos parte deste espaço, é de ter acesso à sua cultura e de poder contactar com a cultura de cada um.


Mais uma oportunidade Um segundo orçamento de estado Não caem do céu, mas ajudam de forma decisiva a que haja investimento público e privado

Conhecendo um relativo sucesso durante o designado “tempo das vacas gordas”, nos primórdios dos anos 70, Portugal, mais tarde afetado pelas sucessivas crises petrolíferas e pelo sinuoso caminho empreendido com o acolhimento de mais de 700 mil concidadãos que tinham optado por África, começou a ver cair a sua economia. Os anos conturbados e loucos do PREC, desmantelaram a economia, com a ocupação selvagem de terras e de unidades industriais, tendo muitos dos empresários rumado para países onde havia ordem. Parte das reservas de ouro terão sido delapidadas, toda a gente mandava e ninguém se entendia. Mário Soares consegue, então, depois de uma bancarrota, a adesão à CEE – Comunidade Económica Europeia, passo decisivo para a recuperação do desenvolvimento nacional. Já no período de pré-adesão se sentiam os benefícios da potencial entrada no “clube” da Europa desenvolvida, com algumas obras Públicas a serem financiadas. Com a ordem interna restabelecida, com a democracia em consolidação, o nosso País começou a traçar as linhas-mestras do seu desenvolvimento, dando a inevitável prioridade às infraestruturas. Atravessar o território nacional de carro era uma aventura que demorava mais de um dia. Milhares e, mais tarde, milhões de euros por dia passam a entrar em Portugal, com resultados questionáveis mas verificáveis, abrangendo as grandes obras do Governo, e conseguindo os Municípios notáveis benefícios para as suas comunidades. Atualmente, cada Município tem infraestruturas e equipamentos de qualidade, resolveu os problemas básicos de abastecimento público, água, esgotos, vias de comunicação, eletrificação, habitação social, transportes, entre tantos outros.

Os Governos dotaram as populações de hospitais, centros de saúde, escolas, equipamentos sociais, envolvendo os cidadãos na organização de IPSS, onde são acolhidos novos e velhos. As condições e a qualidade de vida melhoraram substantivamente. A origem e a razão desta melhoria, radicam, essencialmente, na canalização de dinheiro a partir da União Europeia, ainda que algumas opções sejam consideradas discutíveis. Respondidos os problemas mais candentes do atraso do nosso País, é, hoje, tempo de conservar e manter o construído e de lançar as bases de uma nova forma de encarar o desenvolvimento. Os actuais fundos comunitários têm uma componente cada vez maior para as empresas, abrindo-lhes a oportunidade de uma maior adequação ao mundo globalizado. Muitas são as empresas que aproveitaram para se modernizar, para apostar na inovação, para apostar nas exportações, para formar os seus colaboradores, para estabelecer parcerias com Instituições de ensino superior, para apostar no mercado digital; essa aposta começa a dar os seus frutos e não admira, pois, que surjam conceitos como os de “smartcities”, de “laboratórios vivos de descarbonização”, de “economia circular”, entre outros. Sem a democracia europeia, não teríamos os motores dos automóveis mais limpos, não encararíamos a condução híbrida ou exclusivamente elétrica... (entre outros) Na “Europa das Nações” há, também, lugar para a ampliação da nossa identidade, carreando muito dos incentivos comunitários para a valorização do património edificado e cultural. Não tenho a menor dúvida que Portugal seria um país mais assimétrico, mais injusto, mais atrasado se não recebesse o input comunitário. Agora, cabe a cada Governo, a cada empresa, a cada instituição e a cada Português agarrar a oportunidade que é o PT2020, e será, com certeza o PT2030.

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Pode parecer excessivo, mas o País não seria o mesmo e estaria num estádio de desenvolvimento a anos luz da realidade actual.

por Pedro Escada


Caleidoscópio de Europas por Fernando Madaíl

Si je désire une eau d’Europe, c’est la flache Noire et froide où vers le crépuscule embaumé Un enfant accroupi plein de tristesses, lâche Un bateau frêle comme un papillon de mai. (Arthur Rimbaud) (…) Tiro a Europa do mapa e meto-a no bolso. E quando alguém me pedir lume para o cigarro, vou puxar por ela e acendo-a. Se o mundo arder, a culpa é de quem me pediu lume; se a Europa se apagar, deito-a fora e troco de isqueiro. (Nuno Júdice)

A Europa? A Europa é uma invenção grega, várias vezes repetida, onde cabem todos os contrários: o humanismo e o fanatismo, os montanhistas e os marinheiros, a utopia e o pragmatismo, as freiras e os generais, os piratas e os peregrinos. Também a heráldica flor-de-lis e a edelweiss alpina, o sueco fecho-éclair e a húngara esferográfica, as gaitas escocesas e a balalaica russa, o ténis e o ciclismo, os gondoleiros e os moliceiros, as valsas de salão e os bailaricos de feira. Ainda Carlos Magno e Winston Churchill, as legiões de Júlio César e os galeões de Filipe II, os templários e os maçons, a Vénus de Willendorf e a Vénus de Milo, o Louvre e o Hermitage, os Volkswagen e os Rolls-Royce, os coletes dos forcados e os dólmanes dos hussardos, a pop britânica e os cânticos búlgaros, os passaportes para apátridas e os países sem fronteiras.

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Nos milénios que se seguiram a Heródoto ter inventado a História, inscreveram-se nas páginas dos livros – copiados por monges que desenhavam iluminuras ou difundidos com o prelo de Gutenberg – a Democracia de Atenas e o Fascismo de Mussolini, o Al-Andalus e o Concílio de Trento, os Descobrimentos Portugueses e a Revolução Francesa, o Renascimento Florentino e o Anglicanismo de Henrique VIII, o cisma de Lutero e a Inquisição Ibérica, a Revolução Industrial e o Comunismo na Rússia, o horror do Holocausto e a Amnistia Internacional.


Território da peste, da fome e da guerra – de Átila e de Hitler. As lendárias batalhas helénicas; as vastas conquistas de Roma; as vitórias dos chamados bárbaros; os mouros a chegarem até Poitiers; os longos cercos medievais com catapultas e azeite ardente; as Cruzadas até à Terra Santa; a Guerra dos Cem Anos; a expulsão peninsular dos muçulmanos; a Guerra dos Trinta Anos; os otomanos às portas de Viena; as revoltas populares; as campanhas de Napoleão; os pogroms para exterminar judeus; a Grande Guerra; a Segunda Guerra Mundial; os campos de concentração; os ameaçadores mísseis da Guerra Fria – entre tantas outras violências a substituírem a razão. Mas também há por aqui a clássica neutralidade Suíça; o poder simbólico do minúsculo Vaticano; a criação da Cruz Vermelha; o Prémio Nobel da Paz. Ainda a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço – e a União Europeia, esteja numa fase “in” ou numa crise de “exit”. E, neste solo tão adubado com sangue, ergueram-se as catedrais góticas e os edifícios da Bauhaus, escreveram-se Odisseia e Anna Karenina, ouviu-se o “Eureka!” de Arquimedes e “viu-se” a maçã que caiu na cabeça de Newton, escutaram-se nove sinfonias de Beethoven e o dodecafonismo de Schoenberg, o filósofo Immanuel Kant concebeu a Crítica da Razão Pura e o matemático Kurt Gödel elaborou a Teoria da Incompletude, surgiram o Evolucionismo de Darwin e a Psicanálise de Freud, formulou-se a Teoria da Relatividade e construiu-se o Concorde. O continente sem fronteira leste natural deu à Humanidade o Direito e a barbárie, o Teatro e o futebol, as vacinas e o esclavagismo, o arcabuz e o comboio, o saxofone e a forca. E a ambição de ter líderes que queriam ser os Senhores do Mundo – o conhecido ou o descoberto, em territórios ou em influência: de Alexandre da Macedónia a Isabel I de Inglaterra, dos sucessivos Papas aos fazedores de novas ideologias.

Imaginária casa comum da Carmen e do Arlequim, das bruxas e dos druidas, das nórdicas valquírias e das helénicas pitonisas, do dragão e do unicórnio, das sereias e dos duendes, da Távola Redonda e dos moinhos do Quixote, do monstro de Loch Ness e do Drácula da Transilvânia, do Golem de Praga e do Velho do Restelo, do Robin dos Bosques e do Corto Maltese. E com tanta arte: as gravuras de Altamira e de Foz Côa, as esculturas de Fídias e de Miguel Ângelo, as telas de Rembrandt e de Van Gogh, a Gioconda de Leonardo e a Guernica de Picasso, o impressionismo e o abstracionismo. Ainda o cinema: a máquina dos Lumière e os truques de Méliès, a montagem de Eisenstein e o expressionismo de Lang, o neo-realismo de Rosselini e o surrealismo de Buñuel, o onirismo de Fellini e o radicalismo de Godard. Na princesa fenícia raptada por Zeus e chamada Europa, convivem peças de Sófocles e de Shakespeare, o Stonehenge e a Alhambra, a Filosofia de Platão e a de Nietzsche, o Partenon e Versalhes, a ópera italiana de Verdi e a alemã de Wagner, as noites brancas de São Petersburgo e as tardes tórridas de Marbella, os Jogos Olímpicos dos ramos de louro e as Olimpíadas das medalhas de ouro, as frases que são sentenças de Proust e de Pessoa. Além de ser, como sublinhava George Steiner, o continente dos cafés: o Les Deux Magots, em Paris; o Florian, em Veneza; o Central, em Viena; o Majestic, no Porto; o Odeon, em Zurique; o New York, em Budapeste; o Vlissinghe, em Bruges; o Gambrinus, em Nápoles; o Santa Cruz, em Coimbra – a cada cidadão a sua escolha. E, também, das cervejarias de Munique e dos pubs de Dublin; das caves onde fermentam vinhos e das destilarias de “água de vida” – como os gauleses chamam à aguardente. E de tantas outras bizarras águas: a mineral de Perrier, a termal de Marienbad, a perfumada de Colónia... Mas, afinal, o que é essa tal Europa? Uma cornucópia, uma miscelânea, um caleidoscópio! Bem maior do que todas as epopeias que lhe dedicaram poetas, sempre alheia aos milhões de adjectivos demagogos com que a brindaram os pessimistas, nenhuma pupila algum dia verá rugas na face desta eterna dama encantada. E, enquanto houver uma criança ingénua na sua felicidade e um sábio com memória do que são ética e estética, a Europa será um farol de esperança, um altar de verdades, um sonho de futuro!

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Mudar marcos fronteiriços, desenhar outros mapas, bordar novas bandeiras – até se chegar à meia centena de países que existem neste preciso ano, onde se arrumam (quantas vezes mal) 87 povos ditos distintos. E que proferem frases com raízes muito diferentes: o latim, as línguas germânicas e as eslavas, as famílias báltica, céltica e urálica, o grego, o maltês, o basco, o turco, o mirandês, tantas mais – sem sequer se escreverem todas com os mesmos caracteres. Além disso, multiplicam-se os milhões que rezam em sés católicas, igrejas ortodoxas, templos protestantes, sinagogas judias, mesquitas islâmicas – ou, como fazem os ateus, em sítio nenhum.


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Projecto

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Parallel


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Andrej Lamut


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Charlotte Mano


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Emanuel Cederqvist


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Gloria Lizde


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Ida Nissen


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Morten Barker


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Josephine Desmenez


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Joshua Phillips


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Laura Ramo


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Livia Sperandio


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Mark McGuinness


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Milan Racmolnar


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Nita Vera


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Pedro Koch


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Philipp Meuser


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Ramona Guntert


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Toms Harjo


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Sofia Okkonen


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Thomas Wynne


Explorar os novos caminhos na fotografia contemporânea A fotografia contemporânea é um território interpelante e eclético – resiste a definições, derruba fronteiras. De objecto cultural, a fotografia vem-se transformando numa prática cultural-social-artística que envolve uma pluralidade de estéticas, tecnologias e actores, em justaposição e intersecção. Foi esta dissintonia que inspirou a concepção do Parallel. Parallel constitui-se como uma plataforma que congrega agentes culturais europeus interessados em promover tutorias e cruzamentos culturais, com o objectivo de criar um novo padrão na fotografia contemporânea. Os membros estendem-se por museus, galerias, associações culturais, festivais, escolas de arte e editores. Ao todo, 18 dos mais pujantes polos culturais da Europa, representando 16 países, irão participar no projecto seleccionando e acolhendo os artistas e curadores emergentes, organizando exposições e promovendo redes de contacto. Este leque alargado e diversificado de instituições garante o amplo alcance geográfico do projecto e constituirá um terreno fértil para gerar novos diálogos, estimular idéias e soltar a criatividade. THE PLATFORM Procur.arte Lisboa, Portugal Capa Center Budapest, Hungary Centro Internacional das Artes José de Guimarães Guimarães, Portugal Le Château d´Eau Toulouse, France Fondazione Fotografia Modena Modena, Italy Format Festival - Derby Quad Derby, UK Fotofestiwal Lodz - Foundation of Visual Education Lodz, Poland Galleri Image Aarhus, Denmark Issp Riga, Latvia Katalog Magazine Kerteminde, Denmark Landskrona Foto Landskrona, Sweden Kaunas Photography Gallery Kaunas, Lithuania Maribor Art Gallery Maribor, Slovenia The Finnish Museum of Photography Helsinki, Finland Musée de la Photographie Charleroi, Belgium Organ Vida Zagreb, Croatia Photolreland Dublin, Ireland Triennale der Photographie Hamburg Hanburg, Germany

Projecto

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Parallel


Brexit Quando a jornalista inglesa, no ecrã, se dirigiu para mim, e a câmara me revelou esse fragmento de joelho entre a bota e a saia, na tarde cinzenta de bruxelas, percebi o motivo do voto contra a união. Se a jornalista, no movimento breve que a câmara apanhou, tivesse sido captada num grande plano do rosto, o olhar não se distrairia com a visão do fragmento de joelho, entre a bota e a saia, num fragmento de tempo tão curto como esse intervalo de perna. Nessa distracção, em que se perdeu a plena percepção da angústia objectiva que transparecia nos seus olhos, a câmara transmitiu não um fragmento de espírito mas um fragmento de corpo. E foi a analogia entre o fragmento de europa que se perdia e o fragmento de perna, entre a bota e a saia, que a câmara me fez perder, que me obrigou a colocar esta questão: de que serve à europa ter um corpo sem a articulação de um joelho para poder andar? Ou antes: como se pode descalçar uma bota, e fazer cair uma saia, para recuperar na plenitude o corpo da questão, se a câmara se desvia do objecto, levando para longe dos olhos um joelho que, na tarde cinzenta de bruxelas, foi o sol efémero de uma pergunta para a qual só houve uma resposta: Não?

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Nuno Júdice “O Mito de Europa” Edições D.Quixote


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Ilustração Pedro Albuquerque


EM DEFESA DO MÉTODO

por Vanessa Pires de Almeida

Mas, tendo aprendido, desde o colégio, que nada se pode imaginar de tão estranho e pouco crível que já não tenha sido dito por qualquer dos filósofos; e depois, ao viajar, tendo reconhecido que todos os que têm sentimentos muito contrários aos nossos nem por isso são bárbaros, nem selvagens, antes muitos usam, tanto ou mais que nós, a razão; e tendo considerado como um mesmo homem, com o seu mesmo espírito, sendo criado desde a infância entre Franceses ou Alemães, se torna diferente do que seria se tivesse vivido entre os Chineses e canibais; e como, até nas modas do nosso vestuário, a mesma coisa que nos agradou há dez anos, e que nos agradará talvez ainda antes de outros dez, nos parece agora extravagante e ridícula: de modo que são o costume e o exemplo que nos persuadem, mais do que algum conhecimento certo; e que, contudo, a pluralidade das opiniões não é uma prova que valha para verdades um pouco difíceis de descobrir, pois é muito mais verosímil que um só homem as tenha encontrado do que um povo inteiro: eu não podia escolher ninguém cujas opiniões me parecessem dever ser preferidas às dos outros, e encontrava-me como que obrigado a conduzir-me a mim próprio. René Descartes in Discurso do Método Tomando como exórdio o texto encimado, começaremos por dizer que o método é o processo que, visando objetivos preestabelecidos, permite conduzir, dirigir e orientar o pensamento na procura da verdade. Segundo Descartes, o método deve adotar regras certas e fáceis, que impedem a aceitação de premissas falsas e aumentam paulatinamente o conhecimento. (in Regras para a Direção do Espírito)

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De modo a conferir a todo o processo científico a convicção presente na aritmética ou na geometria, o método cartesiano consiste em apenas quatro preceitos, reforçando a ideia que o grande número de leis serve muitas vezes de desculpa aos vícios, de maneira que um Estado é muito mais bem administrado quando, tendo embora pouquíssimas, se aplicam rigorosamente (…). (Descartes, Discurso do Método) Seguindo sempre das ideias para as coisas, os preceitos deste método dividem-se em: aceitar como verdades apenas as ideias claras e distintas, as ideias evidentes; decompor a complexidade de uma ideia em tantas parcelas quanto possíveis e necessárias ao seu entendimento; partir das ideias mais simples para as compostas, segundo a ordem de dedução, na qual cada uma é precedida por todas aquelas de que depende e precede todas as que dela dependem; e, por fim, reunir

as partes percorrendo as longas cadeias dedutivas, não deixando nenhum elemento da dedução na obscuridade. Posto isto, à laia de introito, entendemos atuais os princípios orientadores de Descartes, na forma e na substância de uma Diretiva Comunitária. Como é sabido, a União Europeia (EU), na demanda da unidade, solidariedade e harmonia entre os povos da Europa, embora tendo em conta a individualidade de cada EstadoMembro, adota diferentes atos legislativos, entre os quais, as diretivas. Estes atos normativos são de aplicação obrigatória, geral e integral, e refletem os objetivos estabelecidos nos Tratados constituintes da EU. Apesar de vinculativa nos objetivos e nos resultados a alcançar pelos Estados-Membros, uma diretiva é flexível quanto às (chamadas) medidas nacionais de execução, na elaboração de legislação própria por cada EstadoMembro. Diremos, pois, que é confiado às instâncias nacionais o método de adequar as políticas da EU aos referenciais de cada cultura, através de um processo, digamos assim, nacional.


Contrariamente à imposição de modelos, caracterizados por estruturas predefinidas que relacionam sequencialmente os elementos em discussão, a transposição e a aplicação das diretivas devem permitir a conceção de um método que, assegurando a harmonização das legislações dos Estados-Membros e a eficácia do direito da EU, garanta os valores de cada cultura (local, regional e/ou nacional). É, por isto, importante que as entidades, com responsabilidade, competência e interesse nacionais, participem na fase de negociação das propostas de diretivas. A presença e a colaboração na fase da negociação permitirá identificar os entraves à adoção das medidas necessárias ao cumprimento dos objetivos, entre os quais o impacte que estas terão em determinada cultura. Para além da análise de compatibilização do direito da EU com a legislação nacional em vigor, da sua influência na simplificação e redução de encargos administrativos, da sua conformidade com o Programa de Governo, é imprescindível a auscultação de uma rede de pontos focais, uma rede de relevantes transmissores dos possíveis efeitos e impactos setoriais, intersectoriais, regionais ou locais, nos cidadãos e na comunidade.

A observância destes princípios permite salvaguardar a abordagem metodológica que melhor reflete as idiossincrasias de cada região ou Estado-Membro. A escolha de uma diretiva, em detrimento de um regulamento, embora de maior liberdade de ação para os Estados-Membros, não assegura, per se, o respeito do princípio da proporcionalidade. Muitas vezes, se não acompanhada no processo de negociação, a diretiva vai além do âmbito da definição de objetivos e resultados a alcançar, apresentando até modelos. Somente a defesa de um método assegurará que os objetivos traçados se adequem às características físicas e vivenciais, ao modo de pensar e agir de cada cultura. Na coordenação política entre um Governo e a comunidade nacional, a reflexão ordenada das premissas integrantes e indispensáveis propiciará não só a eficácia das políticas europeias como a conciliação dos interesses nacionais, na salvaguarda de cada cultura.

De resto, é nesta fase que os atos comunitários são legitimados, no seu respeito pelos princípios da atribuição, subsidiariedade e proporcionalidade.

No corolário deste princípio encontram-se os princípios da subsidiariedade e da proporcionalidade, princípios orientadores do exercício das competências da União Europeia. O primeiro pretende, na adequação do nível de intervenção da EU, contrariar a centralização de poder e aproximar as decisões dos cidadãos. Por isso, a União Europeia, nos domínios da sua competência partilhada com os Estados-Membros, deve apenas intervir quando os objetivos, pela sua dimensão ou alcance dos efeitos previstos, não possam ser conseguidos pelos Estados-Membros. Por sua vez, o princípio da proporcionalidade aborda a necessidade, o conteúdo e a forma da ação da EU, no sentido de reduzir a ação comunitária ao indispensável, na concretização do objetivo pretendido.

Bibliografia Descartes, R. (1628). Regras para a Direção do Espírito. Edições 70, Lisboa. (2017). Descartes, R. (1637). Discurso do Método. Edições 70, Lisboa. (2018). DGAE, MNE (2014) Manual de Boas Práticas para a Negociação, Transposição e Aplicação da Legislação da União Europeia. https://infoeuropa.eurocid.pt/files/database/000061001-000062000/000061756.pdf. Direção-Geral dos Assuntos Europeus, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa. EU@ (2018). EUR-Lex. Direito da União Europeia. https://eur-lex.europa.eu/. União Europeia (página internet oficial), Bruxelas. EU@ (2018). EUROPARL. Parlamento Europeu. http://www.europarl.europa.eu/atyourservice/pt/displayFtu. html?ftuId=FTU_1.2.2.html. União Europeia (página internet oficial), Bruxelas. EU@ (2018). Regulamentos, diretivas e outros atos legislativos. https://europa.eu/european-union/eu-law/legal-acts_pt. União Europeia (página internet oficial), Bruxelas. EU@ (2018). Tratados da UE. https://europa.eu/european-union/law/treaties_pt. União Europeia (página internet oficial), Bruxelas.

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Após o Tratado de Lisboa, foram listadas as atribuições da União Europeia, definindo e repartindo as suas competências com as dos Estados-Membros. O princípio da atribuição permite verificar se a diretiva corresponde às competências atribuídas à EU pelos Tratados.


O TODO E A PARTE por Raimundo Mendes da Silva*

A cidade é por natureza local de atração e concentração de pessoas e, por isso, inevitavelmente, local de concentração de infraestruturas e serviços de uso coletivo, como resposta à pressão e diversidade das solicitações dos grupos e dos indivíduos que a habitam e às suas expetativas de qualidade de vida. Esta cidade, orgânica e complexa, é muito mais do que a soma das partes e tem uma vida própria de conjunto, em permanente mudança, a diferentes escalas e em diferentes contextos, que nem sempre é fácil de apreender por cada um de nós, partes desse todo. É nesta dialética entre o todo e a parte que se centram muitos dos desafios e das incertezas sobre o modo de agir nos núcleos urbanos antigos consolidados, recorrentemente considerados ou designados como centros históricos: a relação entre o centro antigo e a cidade no seu todo, a relação entre o planeamento público e a iniciativa privada, a relação entre a inovação e a memória ou, em síntese, a relação entre diversas escalas e realidades.

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Tome-se como exemplo a discussão, para alguns já esgotada e para outros cada vez mais pertinente, do turismo que procura estes mesmos núcleos urbanos antigos - desejavelmente movido por uma vontade genuína de novas experiências e enriquecimentos - quebrando rotinas e conhecendo novas vivências, com as quais interage, trazendo, também, novas sensibilidades e conhecimentos, numa espécie de turismo inverso, em que, quem o acolhe, também acaba por visitar, indiretamente, outras culturas e lugares. Este turismo, assim entendido, é a parte e não o todo, é o tempero desejado e desejável. Mas quando se inverte o todo com a parte, o desequilíbrio é tão evidente e inevitável, que não há identidade que escape, para desgraça dos visitantes e dos visitados.

O desequilíbrio a que se vem assistindo, como resultado da curva exponencial do alojamento dedicado ao turismo em zonas marcadamente residenciais, é deveras preocupante, num tempo em que a habitação deveria ser um direito inalienável, num tempo em que a habitação própria deveria dar lugar progressivamente ao arrendamento, num tempo em que a construção nova deveria dar lugar à reabilitação, num tempo em que a periferização das cidades se deveria conter, em defesa de uma sustentabilidade económica, social e ambiental. E se dúvida houvesse sobre a dificuldade em ultrapassar tal desequilíbrio, ditado pelas leis do mercado, como aconteceu noutras épocas com a proliferação de escritórios e balcões bancários, poderia recordar-se a expressão popular que diz que “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo, ou não tem arte”, que é o mesmo que dizer que, em cada época e contexto, os mercados têm tendência para eleger um negócio “ganhador”, concentrando nele todas as apostas, ainda que muitas vezes os resultados, apesar de entusiasmantes, sejam demasiado vulneráveis ou circunstanciais. Não está em causa o direito de escolher a “melhor parte”, segundo a perspetiva do decisor, mas não será certamente tolo quem se questionar sobre a sustentabilidade dessa escolha e sobre os seus efeitos na defesa de um todo, em que se integra e que lhe dá sentido. Sustentabilidade é, de resto, a palavra chave em todas as nossas intervenções na cidade e, em particular, nos núcleos urbanos antigos. Em poucas outras matérias encontraremos tanto incentivo para a busca do equilíbrio entre o todo e a parte, como na abordagem sustentável das cidades.


No processo de construção e, em particular, de reabilitação, esta compreensão do todo, para melhor conhecer a parte e sobre ela tomar decisões – ao jeito do “pensar global e agir local” – exige que se interiorize e operacionalize uma abordagem de ciclo de vida dos materiais e dos componentes de construção, desde a exploração da matéria prima até ao fim da vida útil das construções, afastando progressivamente a ideia de que apenas releva o desempenho em fase de serviço, tantas vezes num muito curto período de tempo. Não será por acaso que na língua francesa a palavra sustentabilidade se traduz por durabilidade, o que enfatiza a importância da longevidade das soluções, atenuando o impacte do consumo de matérias primas e da produção de resíduos, com todas as suas implicações ambientais. A indústria de materiais de construção está cada vez mais atenta a esta preocupação de sustentabilidade material, como sucede na indústria da telha cerâmica, onde se tem reforçado a minimização das quebras e do produto rejeitado na fase final do processo de fabrico, já que, em fases anteriores, com a pasta cerâmica ainda em fresco, tudo é reversível, permitindo que a telha não cozida, quando rejeitada pelo controlo de qualidade, volte ao estado de pasta e recomece todo o ciclo que foi obrigada a interromper.

Também na indústria da cortiça se caminha para o desperdício zero, num processo de apuramento sucessivo do aproveitamento de todas as partes e tipos cortiça, com ciclos sucessivos de processamento, usando o material remanescente da produção de produtos mais nobres para a produção de granulados, com inúmeras aplicações. Nestes dois exemplos, escolhidos entre muitos possíveis, não é difícil escolher a melhor parte, porque as preocupações ambientais se compatibilizam inequivocamente com a otimização do processo e com a rentabilidade do negócio. No entanto, a jusante, nos processos de construção e reabilitação, os exemplos de equilíbrio entre as perspetivas da economia, da qualidade, da durabilidade, da preservação dos valores patrimoniais e da sustentabilidade ambiental são mais escassos. Serão inalcançáveis? Faltará conhecimento técnico e científico? Faltará legislação adequada? Faltarão incentivos? Será necessária uma transformação cultural? As cidades e, em particular os núcleos urbanos antigos, estão sujeitos, atualmente, a enormes pressões, que implicam escolhas e decisões. Se quem parte e reparte entender que deve escolher a “melhor parte” sem pensar na sua possível renovação para as gerações vindouras, bem pode ter “arte”, mas não terá qualquer responsabilidade social porque não é o que melhor reparte. Esperemos, pois, que as escolhas aparentemente tolas, porque inseridas numa perspetiva de responsabilidade coletiva e sustentável, venham a ser, progressivamente, a nova arte, reescrevendo o ditado popular, para bem das cidades, do planeta e dos que nele vivem e virão a viver. *Engenheiro Civil, Professor Associado da Universidade de Coimbra

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Quando pensamos na reabilitação urbana ou, de forma mais específica, na reabilitação de edifícios, os exemplos multiplicam-se. Tome-se, a título ilustrativo, a dificuldade em responder, em muitas ações de reabilitação de edifícios antigos, às exigências de comportamento térmico de elementos da construção (janelas ou paredes ou coberturas, …), ainda que, mediante uma abordagem global, e com medidas compensatórias, o edifício possa atingir o desempenho desejado. É o todo ao serviço da parte e as partes ao serviço do todo.


Scala Hominum: a doméstica escala da casa nobre portuguesa Texto e fotografia por Ana Motta Veiga

prestígio social, histórico e cultural que justificará a perenidade por séculos de tantas primitivas torres na habitação nobre, ou a sua mimetização em novas construções e novas elites simbolizando a nobreza de um passado, de um presente, ou de um futuro que se esperava grandioso. A aliança inglesa da segunda dinastia de Avis por meados de XIV, e a calma da estabilidade fronteiriça permitiria a ampliação para novos paços, robustas casas medievais de maior dimensão e com uma carga decorativa que denuncia a sua ligação ao gótico, mas ainda alguma distância ao renascimento italiano pontualmente presente nas villas do Sul e arredores de Lisboa.

Alexandre Herculano, romântico escritor português, chama “livro de pedra” aos monumentos que nas suas construções, acrescentos ou cicatrizes, contavam a história dos homens, de um país e de quem os habitou. Enorme livro físico de memórias é igualmente a casa nobre portuguesa, idêntica contadora de histórias de um quotidiano doméstico gravado na sua construção, em cada objecto ou em cada detalhe decorativo.

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Remontam ao século XII e ao início da nacionalidade as primeiras casas-torre que salpicam o Norte e recordam os limites do românico Condado Portucalense e da primeira dinastia de Borgonha (da homónima região francesa) de onde procedeu Portugal. A origem destas construções perde-se no tempo, por vezes justificada por breves apontamentos documentais ou de transmissão oral sobre uma eventual pré-existência Moura, Goda, ou até Romana, culturas que precederam - e igualmente influenciaram - a portuguesa. A posse ou o habitar desta segura e defensiva construção conservará desde tempos imemoriais o privilégio de uma elite fortemente ligada ao poder régio e militar, e será esse

Regionalmente, destaca-se uma variante do gótico português denominado manuelino pela sua relação temporal e cultural com o monarca do mesmo nome, aludindo a uma áurea e rica fase de descobertas marítimas do início do império ultramarino, iconograficamente representados nos motivos decorativos de interiores, janelas ou portais, pintados ou esculpidos. O domínio castelhano de sessenta anos por ausência de sucessão em linhagem nacional, reflecte-se numa certa apatia construtiva própria de uma perda de identidade, que renascerá em 1640 com uma dinastia de Bragança que se queria tão portuguesa como o seu nome indica. E será esta nobreza renascida numa restauração da independência que constituirá novas casas, renovará as existentes, e organizará o crescimento do seu património para a chegada do ostensivo, aparatoso e excêntrico barroco, cujas obras e dimensão - por vezes desenhada acima do necessário ou do comportável ao bolso do seu proprietário -, abalariam com o tempo a sustentabilidade económica familiar, conduzindo a alguns casos de endividamento e ruína.


Pequenas casas de um grande império Por meados do século XIV, Portugal e Castela dividem o mundo - conhecido e desconhecido - em duas partes aparentemente iguais e separadas por um meridiano acordado, tornando-se assim os novos mundos propriedade desse pequeno quadrado ibérico, cuja centralidade cartográfica inicial permanece até hoje representada nos Altas oficiais. Uma época de descobertas e redescobertas de novas terras e culturas que trazem de longe riquezas que transformariam também a casa antiga nos seus hábitos, modos de vida e de construção, com as idas dos seus proprietários no exercício de cargos de liderança em África, nas Índias ou no Oriente, e a chegada de exóticos produtos e materiais decorativos que se conjugarão com as tradições locais tão portuguesas. O pequeno país com as mais antigas fronteiras estabilizadas torna-se a cabeça de um vasto império colonial onde o sol nunca se põe, e a sua localização estratégica voltada ao Atlântico permitirá que as longas distâncias se tornem curtas com uma desenvolvida e experiente navegação. Não será de surpreender que as viagens de Lisboa a Itália, ou do Porto a Inglaterra possam ser mais céleres do que o acesso ao centro da vizinha Castela ou até mesmo ao interior transmontano, em longos trajectos por sinuosos caminhos terrestres dependentes da tracção animal e da irregularidade topográfica. Não será também surpreendente que dessas paragens, fisicamente distantes, mas temporalmente próximas, cheguem novas ideias e modelos que influenciarão as residências da corte portuguesa e ecoarão posteriormente pelas diferentes províncias. A escala italiana e sua relação urbanística e paisagística terá enorme influência no modo

de projectar português, nessa curta distância que ligava Lisboa a Roma, a Florença ou a Veneza, ou Vicenza e Mantua, facilitando permutas comerciais, culturais e arquitectónicas. De França, o grandioso e sucessivo crescimento de Versalhes iniciado por Le Vau e Le Nôtre terá breves e posteriores mimetizações nacionais - quase à escala de bonecas se comparadas aos francos chateaux -, em ligeiros crescimentos e ampliações das casas nobres mais ou menos rurais e urbanas dando-lhes o possível aspecto apalaçado. De Inglaterra, a escala neoclássica das grandes manors oitocentistas já não encontra suficiente capacidade económica ou ideológica para a sua execução, ficando-se por breves exemplos citadinos na esteira das renovações simultâneas de uns tantos palácios régios ao gosto dos primos vitorianos ou dos românticos Coburgos. Nas terras dispersas ao longo do interior rural administradas pela coroa, ordens religiosas, nobreza ou fidalguia de província, serão mantidas as velhas torres e irão renascer novas casas de onde sucede cada linhagem familiar e seu apelido. E é também esta perenidade e fixação territorial que ligará durante séculos as pessoas às suas casas no campo, e aos lugares de onde procede a sua identidade, numa ligação micro ao local de origem, e no entanto tão distante da macro escala que o território imperial conquistara. As quintas e casas de campo, fora das cidades mais ou menos consolidadas, variam a sazonalidade da sua utilização e na vontade do seu efectivo habitar, sendo comum na nobreza ou fidalguia a existência de duplas residências com diferentes fins: urbana para o exercício dos cargos atribuídos e maior proximidade à corte, ou rural e de campo, para produção agrícola e veraneio, relembrando a ligação à terra de família e à administração local, bem como ao sinónimo de ancestral poder e estatuto de fidalguia. De um escrito do século XVII, um nobre habituado à frequência da vida cortesã da capital, refere-se deste modo ao tempo de estadia nas rurais quintas de então: “Amigos, vou-me, porque se estou mais do que vinte e quatro horas no campo, cuido que me torno boi”, reflectindo que nem sempre a ida ao campo seria interessante à nobreza, pela distância ou pela ruralidade, ficando tantas vezes este património ao cuidado dos seus administradores residentes.

Da nobreza de uma casa portuguesa A casa nobre portuguesa afirmava-se deste modo à escala do lugar, inserida numa cidade, vila, aldeia ou arredores, sendo a sua dimensão assente na procura de afirmação

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Aos ouros e coloridos barrocos, segue-se a contenção e discrição neoclássica de gosto simples e geometrizado do princípio de XIX, que as guerras - invasivas e civis - que assolaram Portugal por esse período não permitiram desenvolver. Anuncia-se o fim da monarquia com renovações revivalistas de tantas casas nobres entretanto depauperadas com os sucessivos acontecimentos políticos, sociais e culturais, com as guerras e invasões, mas que renascem (algumas literalmente das cinzas pelos fogos que lhes foram infringidos) revitalizadas em toda a sua pujança, quase num “canto do cisne” que antecede o fim de um percurso de mais de 700 anos terminado no implantar da República em 1910.


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local habitualmente pouco exigente, quando o casario dessas pequenas populações eram pouco mais do que construções térreas de um amontoado de toscas pedras da região, cobertas de colmo ou lousa, com fenestração mínima para respiro e entrada de luz e tantas vezes partilhadas com os animais. A casa nobre impõe-se nesta paisagem por vezes quase castreja, com elementos e códigos construtivos que permanecem possíveis de decifrar e que nem sempre se relacionam unicamente com a sua dimensão - podendo ser pequena ou pequeníssima -, mas que do mesmo modo são capazes de conter na sua estrutura arquitectónica, construtiva, decorativa e simbólica, os elementos que a caracterizam como nobre residência em todo o lugar e contexto, físico ou temporal: uma construção de pedra bem aparelhada podendo ser ou não rebocada e colorida; um piso elevado composto por uma sequência de maiores ou menores salas de recepção, estar ou aparato que se ligam por uma sucessão de portas; a existência de um número pré-estabelecido de vãos exteriores total ou parcialmente lavrados sendo a iluminação solar um factor importante nesta definição em contraponto com as escuras casas saloias; a escada, interior ou exterior, de maior ou menor aparato que eleva do solo o piso nobremente decorado; e a pedra de armas representando a posição social e a história da família que a habita, em cunhal, fachada ou portal conforme melhor perspectiva para a sua imediata visualização; nos exteriores, o jardim de contemplação que prolonga a construção, florido ou com recortes topiários que domesticam a natureza redesenhando-a; Pelo século XVI, anunciando a chegada do momento alto de riqueza e descobrimentos, uma crescente escala construtiva reflecte-se dos novos e monumentais paços reais na Ribeira de Lisboa, uma fase breve e bruscamente terminada com a ocupação castelhana e perda de soberania. Seguir-se-á no século XVIII a escala monumental da construção do ostensivo e barroco palácio-convento de Mafra, seguida do desaparecimento do real paço da Ribeira pelo também monumental terramoto de 1755 que levará a família real por medo de novas réplicas - a residir por várias décadas na chamada real barraca, construção ricamente decorada mas composta de madeiras e outros materiais mais leves do que a pedra que tantos portugueses sepultara em Lisboa. Esta construção provisória será substituída no século XIX pelo novo e neoclássico Palácio da Ajuda, assente nesses mesmos pressupostos seguros terrenos. A bitola (ou medida de referência) da casa nobre portuguesa terá sido ao longo da sua história a da residência real, não podendo - ou devendo -, os súbditos ostentar maior morada do que a do monarca e sua família.

E essa bitola foi contida, quando comparada com exemplos internacionais e com a importância económica e territorial portuguesa. De Norte a Sul, pelas ilhas e pelas colónias de tão vasto império, a domesticidade destas casas permanece inalterada, replicando em terras longínquas o espaço quotidiano de um habitar familiar e contido, tão minhoto como cortês, tão beirão como tropical, em ligeiras miscinizações arquitectónicas e culturais capazes de se enraizar em qualquer território de maior ou menor fertilidade no seu sentido mais lato. Residências capazes de albergar uma enorme família alargada e um séquito de criados com mais estatuto do que utilidade, que se acomodavam pelos aposentos secundários de um contexto social que transcendia a sua arquitectura e se completava no Todo, também humano, que era a casa nobre portuguesa.

Casa da Murtosa

Casa da família Sousa Brandão, na portuguesa e antiquíssima Vila da Feira localizada a trinta quilómetros a Sul da cidade do Porto e a pouca distância do Atlântico. As suas origens perdem-se no tempo que a situa sobre o trajecto de uma antiga e ainda conservada via medieval - supondo-se até de origem romana - que trespassava a enorme quinta no caminho para o pequeno núcleo urbano que a ladeava: Mosteirô. O documento


mais antigo existente na Casa data do século XVI, num arquivo familiar que se estende por mais de três séculos e que conta a história da família e de um país, entrelaçando-se com as revoltas liberais e o nascimento da República. Aparenta ser a construção inicial do século XVII, sendo prováveis pré-existências de outros tempos e de outro habitar. No núcleo mais antigo, dispõe-se no piso nobre uma breve mas afirmativa enfilade (ou sucessão) de portas que atravessam as divisões de aparato desse segundo piso, numa sequência visual de cores primárias composta pelo azul esverdeado da capela, pela grande Sala Vermelha com tectos policromados e pela contígua e luminosa Sala Amarela, onde repousa ainda o cravo que animaria tantos serões musicais. A ligação visual deste conjunto estende-se para a sua capela privativa, permitindo aos moradores assistir aos momentos religiosos do piso superior, abrindose a porta do piso inferior para o velho caminho, e certamente à população local como era comum nesta tipologia. O nobre Quarto do Bispo, com a sua trabalhada cama de bilros onde pernoitava nas suas visitas, contrasta com a ala oposta, onde os quartos se multiplicam em pequenos e quentes ninhos voltados a Sul, denunciando a enorme família que os habita e a procura da individualidade e privacidade de cada membro. As antigas camas com as suas cobertas, as mesinhas de cabeceira com as iluminações, as cómodas com os toucadores, ou os velhos jarros antes tão úteis para a higiene pessoal levam-nos a diferentes épocas, numa mescla de passado e presente trabalhado a tantas mãos num conjunto vivido e decorativo onde se lê a continuidade desta cultura familiar tão própria e tão presente.

Algumas gerações de proprietários sem sucessores, permitiram que este património fosse legado por testamento num todo às gerações seguintes, garantindo a sua vivência e usufruto por irmãos, enteados e sobrinhos, que o conservaram e transmitiram por tantos anos garantindo que se mantivesse até hoje na mesma família. De residência permanente, onde nasceram tantos até meados do século XIX, o seu uso alterou-se para sazonal, como casa de campo para descanso, mantendo em simultâneo a sua actividade agrícola original. E foi pela vontade de um dos seus últimos proprietários, que pelos anos 30 deste século a Casa da Murtosa teve as alterações que lhe conferiram o seu actual aspecto: a construção de uma enorme sala de jantar, de nova cozinha e copas de serviço, casa para o caseiro com alguns anexos agrícolas, e os arranjos paisagísticos, como o jardim de buxo e seu tanque, fechando-se ao exterior com os seus muros, construídos envolvendo toda a propriedade na procura de uma segurança que antevia as alterações urbanísticas crescentes do seu entorno, e que lhe garantiria a tranquilidade que hoje respira.

No escritório do piso térreo, quase se sente a presença do General Sousa Brandão, militar e liberal que por finais do século XIX lutou pela República e modernização ferroviária nacional, repousando intactos na grande arca tantos documentos e memórias da sua actuação, e nas prateleiras da sua biblioteca as várias obras que o inspiraram nesse percurso.

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As pedras de armas recordam a história da família, rememorando apelidos, pessoas e alianças matrimoniais de um longo e contínuo percurso temporal que seguirá nas gerações futuras. No granito dos portais da grande quinta, nas fachadas principais da casa-mãe, nas madeiras das lareiras das suas salas, na louça da mesa e noutros objectos pessoais, o timbre chama ao presente os primeiros Corrêa que ali habitaram pelo século XVI, a chegada dos Brandões por casamento no século XVIII e outros ramos entroncados nesta árvore da Vida.


JORGE COLAÇO E FÁBRICA DE CENÁRIOS por Paulo Almeida Fernandes

Museu de Lisboa

01

Ainda hoje, ao andar por Lisboa, é frequente encontrar azulejos com a assinatura de Jorge Colaço. São painéis de grande formato, azuis e brancos, por vezes com cercaduras coloridas. Mais que a obra de um único artista, estes azulejos ilustram um gosto e uma época específicos, uma evidência de prestígio para os seus proprietários e um momento de reafirmação do azulejo figurativo em espaços públicos e privados.

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Jorge Colaço (1868-1942) não foi sempre pintor de azulejos. A sua vasta carreira dispersou-se por desenho, decoração de interiores, pintura e caricatura, áreas onde deixou uma produção original e até desconcertante,

injustamente pouco conhecida. No campo da caricatura, principal arma de crítica política à época, foi diretor artístico d’O Século - Supplemento Illustrado, uma publicação republicana durante a Monarquia, e, depois, foi fundador e diretor de arte d’O Thalassa (1913), semanário monárquico ativo em plena 1.ª República. Não obstante o laço de amizade com o republicano Rafael Bordalo Pinheiro, Colaço manteve-se sempre defensor da monarquia, fratura ideológica que não o impediu de exercitar o seu sentido crítico em publicações alinhadas com os dois lados da contenda política que animou a sociedade portuguesa entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.


Os primeiros trabalhos em azulejaria correspondem à materialização de um gosto pessoal que, como o próprio escreveu, estava profundamente marcado pela luz e pela cor de uma cidade do Sul da Europa, que tanto tinha em comum com a sua Tânger natal. Outros fatores concorreram para o sucesso de Colaço nesta área, como um acentuado gosto neo-mudéjar em alguma clientela socialmente privilegiada (detetável também nas pesquisas de Raul Lino em torno das casas marroquinas do Estoril e de Cascais, uma das quais - a Casa Monsalvat - havia sido construída para o pianista Alexandre Rey Colaço), ou a ideia de que o azulejo era parte da identidade nacional, uma vez que nenhum outro país havia cultivado tanto esta fórmula artística. Em pouco tempo, Jorge Colaço assumiu-se como uma referência na arte portuguesa, sendo lícito afirmar que a ele se deve a renovação da produção azulejar nacional, em moldes que viriam a ser integrados e ampliados pelo ideário do Estado Novo. Não se conhece a data em que Colaço se instalou na Fábrica de Sacavém, com atelier próprio. Mas sabe-se que aí trabalhou até 1923, ano em que, por desentendimento com Ralph Gilman, transitou para a Fábrica Lusitânia, onde dispôs também de atelier independente. Até 1942, ano da sua morte, Colaço explorou diferentes dimensões do azulejo, apurando a técnica de cozedura (para melhor fixar os pigmentos), ou pintando mesmo por cima de um vidrado superficial, mas cultivando o desenho como matéria primeira do processo criativo. Em Sacavém e na Lusitânia, Jorge Colaço concebeu, desenhou e materializou grande parte dos seus mais emblemáticos projetos. Foi seguramente naquelas fábricas que dispôs de condições para uma produção azulejar não apenas sistemática e capaz de responder à crescente encomenda, mas, sobretudo, orientada para a realização de revestimentos de grande formato. O gosto por paredes forradas de azulejo, em constante diálogo com a arquitetura e outras formas decorativas, acompanhou o autor ao longo de toda a sua vida, desde as primeiras experiências para a Faculdade de Ciências Médicas (Lisboa, 1904-1906) e para o Palace Hotel do

Buçaco (Mealhada, 1904-1906), até aos muitos projetos para espaços privados, passando pela obra grandiosa da estação ferroviária de São Bento (Porto, 1906-1915). Com as condições ideais, Colaço retomou o gosto cénico que singularizou a grande produção barroca da primeira metade e meados do século XVIII, assim ligando o seu tempo ao período em que Lisboa foi o maior centro produtor e exportador de azulejaria do mundo. Mas outro aspeto relacionava também as realizações de Colaço com aquele momento ímpar da história do país: a primazia do desenho e da composição. Se, no século XVIII, os pintores lisboetas - que normalmente não faziam parte do vínculo laboral nas olarias, tal como Colaço não era um habitual funcionário das fábricas onde trabalhou - transpuseram para a azulejaria valores próprios da pintura sobre cavalete, cujas composições eram muitas vezes inspiradas em gravuras, Jorge Colaço fez o mesmo percurso 200 anos depois, embora baseando as suas composições em estereótipos regionais e locais. Pintor da História portuguesa e de um sem número de cenas quotidianas protagonizadas por anónimos habitantes de um mundo rural e piscatório, Jorge Colaço assumiu progressivamente o protagonismo do desenho e das tonalidades suaves, em detrimento dos azuis carregados típicos da azulejaria barroca. Foi também por esse desprendimento em relação à fonte de influência que os cenários fabricados por Colaço se impuseram como marca original de um autor e de uma época.

Pintor da História História de um Pintor Patente no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta até 29 de julho de 2018, esta exposição evoca os 150 anos do nascimento de Jorge Colaço e retrata a diversidade e versatilidade da sua obra, entre azulejaria, pintura a óleo e caricatura, razão pela qual se estruturou um pequeno núcleo da responsabilidade do Museu Bordalo Pinheiro. Como não podia deixar de ser, a azulejaria é a protagonista desta exposição, tendo-se aproveitado a ocasião para dar a conhecer quatro painéis parcialmente restaurados do acervo do Museu de Lisboa, provenientes do desaparecido Mercado da Fruta do Cais do Sodré. Para este tão discreto e desconhecido mercado, que desapareceu em 2002 praticamente sem deixar rasto na memória da cidade, Colaço concebeu um programa centrado numa comunidade piscatória em harmonia com o seu habitat: um pescador remenda as redes; mais atrás, dois namorados conversam; noutro painel (não exposto), os

[107]

Foi também pela amizade que Jorge Colaço chegou à Fábrica de Louça de Sacavém. Depois da formação em Madrid e em Paris, instalara-se em Lisboa em 1896, na Rua das Taipas, desenvolvendo então uma carreira como desenhador e pintor. Em 1902, conheceu James Gilman, sócio da Fábrica de Sacavém e, em 1905, abriu o seu primeiro atelier vocacionado para a pintura de azulejo, na Rua D. Pedro V, num prédio cuja fachada ainda tem um painel assinado por si.


homens regressam da faina e as mulheres dançam na praia; não faltou mesmo uma procissão em pleno areal, para ilustrar a sintonia de elementos naturais e culturais. O cenário não é Lisboa, pois os barcos retratados são típicos do centro do país (em particular da zona de Aveiro, mas também da Ericeira e da Costa da Caparica) e da pesca atlântica conhecida por arte xávega. As embarcações têm um grande olho na cara do barco, também característica daquela peculiar forma de pescar, que não é mais que um símbolo

protetor da embarcação e dos pescadores. Paradoxalmente, o que aqui se retrata é a vida ribeirinha das comunidades piscatórias da costa de Aveiro, lugares de origem das célebres varinas que, nos anos 20, na época em que Colaço concebeu estes painéis, já caracterizavam a paisagem urbana de Lisboa e haveriam de se transformar num símbolo da cidade.

Mais informações: www.museudelisboa.pt

02 Legendas

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Agradecimentos: Joana Olivença (Museu de Lisboa); Margarida Almeida Bastos (Museu de Lisboa); Pedro Bebiano Braga (Museu Bordalo Pinheiro); Rosário Salema de Carvalho (Az – Rede de Investigação em Azulejo)

Fig. 1 - Vista parcial da exposição Jorge Colaço (18681942). Pintor da História. História de um Pintor. Museu de Lisboa – Palácio Pimenta. Foto: Museu de Lisboa / José Avelar, 2018 Fig. 2 – Pescador a coser redes (pormenor). Jorge Colaço, 1928, Fábrica Lusitânia (proveniente do desaparecido Mercado da Fruta do Cais do Sodré). Restauro: Museu de Lisboa, 2018. ML.AZU. 1161. Foto: Museu de Lisboa / José Avelar.


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Foi há 220 Anos A Descoberta do Teatro Romano por Lídia Fernandes

Assinalando-se os 220 anos da descoberta do teatro romano mais antigo que se conhece em território nacional relembramos o cenário da descoberta destes vestígios que marcaram – ontem e hoje – a história da cidade de Lisboa.

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Em abril de 1798, quando se procedia à reconstrução da cidade após o grande terramoto de 1755, surgiu o inesperado! Por entre os escombros que se removiam com o intuito de abrir uma nova rua - que se designaria por Rua de São Mamede – surgiram as ruínas de um antigo teatro romano. A descoberta fez furor e muitas pessoas se deslocaram ao sítio. Também entre os intelectuais da época houve acesas discussões sobre aquelas ruínas…

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A autoria do achamento do teatro - até há poucos anos atribuída ao arquiteto italiano Francisco Xavier Fabri – terá de ser imputada ao arquiteto régio Manoel Caetano de Sousa. Esta correção histórica deve-se à descoberta de documentos, existentes na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (Colecção Portugal), que ilustram este episódio do achado das ruínas e publicados em 2013 por Carlos Fabião (2013).

No ano em que se comemoram os 220 anos da descoberta do teatro romano de Lisboa importa sublinhar que este monumento cénico constitui, até ao momento, o único teatro de época romana musealizado em Portugal, possuindo um museu que o estuda, divulga e valoriza. Outros teatros existirão em território nacional, ainda que, até ao momento, o teatro de Braga – embora bastante mais tardio seja o único com comprovação arqueológica. As comemorações que o Museu de Lisboa – Teatro Romano leva a cabo, de abril a dezembro do corrente ano, pretendem relembrar a existência deste monumento do nosso passado, mas, simultaneamente, sublinhar a importância do verdadeiro descobridor do teatro: o arquiteto / engenheiro Manoel Caetano de Sousa.


Nascido em 1742, Manoel Caetano de Sousa, discípulo do seu pai Tomás Caetano, foi um importante arquiteto português. Foi um dos vários “Arquitectos do Infantado e da Casa de Bragança”, bem como “Arquitecto das Casas das Rainhas e da Igreja Patriarcal”. A 18 de junho de 1762 Manoel Caetano de Sousa propõe-se a Familiar do Santo Ofício onde se intitula de “Mestre Arquitecto” e ainda nesse ano recebe o posto de Capitão de uma das companhias da Ordenança da Corte sendo, em 1777, nomeado “Arquitecto das três Ordens Militares”. Em 1782 é promovido a Sargento-mor de infantaria com exercício de Engenheiro e Arquiteto obtendo posteriormente a patente de Tenente-Coronel de infantaria com exercício de engenheiro por ordem do Conselho de Guerra. Em 1792 recebe o título de “Arquitecto das Obras Públicas”. Devido a tais títulos, cargos militares e de ordem pública, Manoel Caetano de Sousa tinha à sua responsabilidade, entre outros, todos os trabalhos de fortificação permanente, a construção e reparação de quartéis, corpos de guarda, hospitais e armazéns. Não obstante, uma das suas obras mais conhecidas e mais notáveis, é a Igreja da Encarnação. Mas a sua atividade é intensa e manifesta-se na arquitetura religiosa e civil, em obras de arquitetura efémera e de interiores a par das de carácter militar. Muitos são os trabalhos que se podem atribuir. Em 1788 repara o aqueduto de Óbidos e em 1794 o aqueduto situado na Rua da Boa Vista e conclui as obras do quartel, um trabalho que irá retomar em 1796. Em 1797, é encarregue de preparar alojamentos para as tropas britânicas em Cascais, Torre de S. Julião da Barra, Quartel do Caes e Hospital no Colégio de Nossa Senhora da Estrela.

obra que será elogiada e premiada por Pina Manique. No campo da arquitetura civil e religiosa podem-se enumerar múltiplos trabalhos de Manoel Caetano de Sousa, destacando-se somente alguns de maior relevância, como é o caso da Igreja do Loreto onde trabalhou a partir de 1776 na capela-mor (a Capela da Nossa Senhora do Carmo), erigida entre 1780 e 1789. Trabalha na reedificação da Igreja do Convento de S. Domingos de 1763 a 1790, coordena, entre 1780 e 1782, as obras de adaptação dos quartéis para a instalação de uma Casa Pia e de Correção na alcáçova no Castelo. A partir de 1785 e até 1789 trabalha no Palácio de Queluz, onde realiza obras de restauro na quinta e no palácio e onde continua a trabalhar até 1787, ano em que procede ao restauro dos aposentos para a acomodação da Família Real, construindo, em 1799, as respetivas cocheiras. Em 1786 encontra-se a realizar arranjos de interior do Palácio de Sintra e no Convento de Mafra, procedendo à construção da famosa biblioteca. Em 1793, Manoel Caetano de Sousa irá edificar a sua própria casa na atual Rua da Escola Politécnica, onde hoje funciona a Procuradoria Geral da República. Nos inícios do séc. XIX as cuidadas proporções do projeto do arquiteto foram alteradas com o acrescento de mais um piso e alterando decorativamente a porta principal.

Manoel Caetano de Sousa e o teatro romano de Lisboa

Entre 1785 e 1787 fica responsável por diversas obras de restauro e obras de interior no Palácio de Queluz e em 1796 é responsável pela construção de uma escadaria dupla no jardim botânico da Ajuda.

Em 1796, Manuel Caetano é o responsável pelo desentulhamento das ruas de Lisboa, cargo que se estenderá até 1799. É neste contexto que o arquiteto surge no palco da descoberta do teatro romano. Por ordem régia, dirige os trabalhos de reconstrução desta parte da cidade. Em abril de 1798, então já com 56 anos, conduzia o desentulhamento da área, a meia colina do Castelo de São Jorge, junto à atual Rua da Saudade, artéria já antiga que detinha, anteriormente, a designação de Beco do Bugio Com Sahida.

Na arquitetura efémera Manoel Caetano de Sousa destaca-se em 1795 nas festividades em honra do nascimento de D. António, Príncipe da Beira. Para este evento o Arquiteto da Casa do Infantado é encarregue de dirigir os arranjos decorativos das salas onde se iriam celebrar as cerimónias (Palácio de Queluz) e também idealizará (e dirige as obras) da construção de um anfiteatro, no Terreiro do Paço, destinado às corridas de touros, uma

O objetivo era o de traçar um novo arruamento, a sul do anterior, que permitisse vencer, de forma mais suave, a pendente do lado poente da nova Rua da Saudade e possibilitar a ligação para os lados do atual Largo Adelino Amaro da Costa (antigo Largo do Caldas). A identificação de manuscritos existentes na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, que acima mencionámos, permite hoje perceber que a descoberta das ruínas do teatro se deu

[111]

Manoel Caetano de Sousa


em abril do ano de 1798, meses antes do que se supunha. A notícia da descoberta fez correr muita tinta sendo vários os ilustres da época que ocorreram ao local para verem o que então se descobria. O embate entre os dois arquitetos não deve ter sido pacífico. Por um lado, Manoel Caetano de Sousa tinha o desígnio fulcral de avançar com os trabalhos de reconstrução da cidade, preconizando a recolha de algumas pedras, como estátuas, inscrições ou outros elementos arquitetónicos, de forma a possibilitar a continuação dos trabalhos. Francisco Xavier Fabri, que à época teria 37 anos de idade e uma formação académica muito distinta, tinha objetivos bem diferentes. Formado na Academia de Bolonha, e influenciado pela descoberta das cidades romanas de Herculano, em 1738, e de Pompeia em 1748, é natural que tivesse outras preocupações que não apenas as da reconstrução

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02

da cidade. Apesar de desconhecermos os contornos da luta pela direção das obras, podemos supor que Francisco Xavier Fabri terá desenvolvido esforços para ficar à frente de tais trabalhos. Pela notícia que então saiu na Gazeta de Lisboa, ficamos a saber que as ruínas foram descobertas de norte para sul, isto é, desciase pelo Convento dos Loios e, no meio dos entulhos, descortinavam-se as ruínas. Temos a sorte de nos ter chegado um relato em primeira mão, da autoria do Professor Régio de latim Joaquim José da Costa e Sá que nos diz: “…entrando na profundeza excavada (…) logo comecei a divisar grandes pedras lavradas (…) que indicavam serem degráos de alguma escadaria (…) que vão correndo para baixo do entulho para a parte que olha a Oriente onde terminão”.


Os primeiros levantamentos que possuímos do teatro romano devem-se, muito provavelmente, a Manoel Caetano de Sousa. Com efeito, existem na Biblioteca Pública de Évora dois desenhos que, embora não estejam assinados, lhe devem ser atribuídos. Um desses desenhos tem a indicação do traçado da Rua da Saudade, a norte dos achados das ruínas, encontrando-se marcados alguns limites das propriedades que aí se localizavam. Sublinhe-se o cuidado na individualização dos blocos pétreos, estando assinalada em legenda as cores dos vários tipos de pedra: brancas, azuis e encarnadas. A estrutura romana representada no desenho é de enorme relevância, não apenas pelo seu estado de conservação, mas por de se tratar do muro do proscaenium: a estrutura que separava a zona do palco (situada a sul) da área destinada aos espectadores (a norte). A sublinhar o valor arqueológico e histórico do achado, algumas pedras encontravam-se epigrafadas, isto é, possuíam uma inscrição que corria ao longo da face frontal do muro. Hoje sabemos, com pouca margem de erro, o teor daquela inscrição. Ela refere que, em tempos do imperador Nero, precisamente no ano 57 d.C., um liberto (antigo escravo) da cidade de Felicitas Iulia Olisipo, mandou renovar a parte central do teatro, o que se plasmou num novo proscénio e em nova pavimentação da orchestra (área semicircular

mas, sido guardadas numa “Arecadação das Obras Públicas”. Também do arquiteto, embora mais uma vez não esteja assinado, será um desenho aguarelado com o alçado do muro do proscénio assim como a representação das duas estátuas de sileno. Uma destas estátuas pode hoje ser observada no Museu de Lisboa – Teatro Romano. Sabemos hoje que estas estátuas, representadas nos desenhos como estando colocadas no interior dos nichos (exedrae) do proscénio, deveriam estar localizadas na sua parte superior e que jorrariam água para a base do muro. O facto de os desenhos de Manoel Caetano de Sousa não estarem assinados, assim como a ação desenvolvida posteriormente pelo arquiteto italiano Francisco Xavier Fabri, fez com que a participação do primeiro e a sua relevância na descoberta das ruínas, tenha sido esquecida e quase apagada do registo histórico. A Manoel Caetano de Sousa, arquiteto experiente, mas formado mais pela prática que pela academia, importava remover os escombros e reconstruir a cidade, abrindo ruas e delineando a implantação dos novos edifícios. A descoberta das ruínas, que terá comunicado ao intelectual Joaquim José da Costa e Sá, que o acompanhou no registo dos primeiros vestígios, decerto se lhe depararia como um contratempo que haveria de remover para cumprir os mais altos objetivos de reconstrução da cidade.

destinada à elite citadina). De igual modo, ordenou o embelezamento do espaço com estátuas reclinadas (que representavam silenos: semidivindade que acompanhava o deus Dionísio, ou Baco, de época romana). Trata-se, pois, de um ato de proselitismo por parte daquele liberto do qual sabemos o nome: Caius Heius Primus. As pedras com a inscrição, assim como duas estátuas foram identificadas e recolhidas por Manoel Caetano de Sousa, tendo estas últi-

A entrada em cena do arquiteto italiano implicou ou promoveu a substituição do anterior responsável. Desconhecemos como terá decorrido esta mudança embora seja evidente, pelas palavras do arquiteto italiano, quando em junho de 1798 assume o comando das operações de descoberta das ruínas, que as “Pedras da Inscripção, que se tirarão para fora, antes de eu ser encarregado de vigiar sobre a indagação daquelas Antiguidades” (Aires de Carvalho, ob. cit., p. 141), afirmando assim que as disposições anteriores to-

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03


madas por Manoel Caetano de Sousa iam no sentido da remoção de todos os elementos do teatro (inscrições, estátuas e outros objetos) para outro local, de forma a possibilitar os trabalhos de engenharia que então se preconizavam. É natural que Fabri, pela sua formação e imbuído do espírito romântico que então assolava os intelectuais da época tenha um distinto entendimento acerca da salvaguarda das ruínas arqueológicas. A manutenção dos vestígios in situ e o registo meticuloso dos vários elementos, representam um entendimento diferente do que, até então, era habitual no panorama nacional. A partir do momento em que Francisco Xavier Fabri entra em cena torna-se evidente a preocupação da salvaguarda das ruínas. Em tentativas sucessivas, procura formas de as proteger, preconizando a sua manutenção in situ. Trata-se, afinal, de uma prematura ideia de musealização tal como hoje a entendemos. No desenvolvimento destes esforços é o próprio que recomenda ao monarca, em 1799, a compra dos terrenos em redor das ruínas (Carvalho, 1979, ps. 142, 152), ou ainda a construção de um muro contornando as mesmas de modo a resguardá-las dos escombros que iam resvalando da área envolvente. O desenho aguarelado assinado por Francisco Xavier Fabri , continua a ser a fonte documental mais importante sobre o monumento cénico. Os registos gráficos, pelo seu rigor e pormenor, constituem uma fonte inesgotável de informação. Infelizmente, a legenda que acompanharia do desenho, não se conserva pelo que a informação original deveria ser ainda mais completa. Não obstante o valor intrínseco deste desenho, não podemos deixar de assinalar que a composição representada possui um alto valor cenográfico, sendo difícil de acreditar que todos os elementos representados tivessem sido encontrados precisamente desse modo. É inegável que Francisco Xavier Fabri impulsionou com novo ímpeto a continuação dos trabalhos de escavação sendo um defen-

sor da ideia de preservação dos achados, à época totalmente pioneira, preconizando, por exemplo, a criação de um muro em redor do teatro com o objetivo de preservar as ruínas do entulho envolvente. Não obstante, Manoel Caetano de Sousa foi, de facto, o descobridor do teatro e, ainda que o seu espírito lhe ditasse um objetivo maior - o da reconstrução de Lisboa - não deixou de reconhecer o valor das ruínas que encontrou, identificando-as, desenhando-as, colorindo pacientemente plantas e desenhando estátuas romanas com minúcia. Estes registos ficaram, afortunadamente, para a posteridade, sendo agora possível saber que foi ele que identificou as ruínas do mais antigo teatro romano em Portugal e, deste modo, relembrar a sua ação e prestar-lhe uma justa homenagem.

O epílogo de um percurso Em 1795, Caetano de Sousa, por incumbência régia, desenha e projeta o novo Palácio da Ajuda. No entanto, em dezembro de 1801 é afastado da obra. Em consequência deste afastamento, o arquiteto dirige-se ao Palácio de Queluz onde discute com o ministro D. Rodrigo de Sousa Coutinho, e, na sequência desta discussão, sofre um ataque cardíaco, morrendo repentinamente e levando consigo, segundo muitos autores, a estética do Barroco em Portugal. Não podemos deixar de mencionar que o projeto de Manuel Caetano de Sousa é preterido aos novos planos desenhados pelo bem conhecido arquiteto italiano Francisco Xavier Fabri1, assim como da autoria do arquiteto Joaquim José de Azevedo, o que não deixa de ser uma enorme ironia do destino… Depois de um primeiro embate em 1798, nas ruínas do teatro romano, o qual não deverá ter sido pacífico, os dois arquitetos enfrentaram-se novamente na disputa de um projeto para o monumento mais relevante do próprio reino: o Palácio Nacional da Ajuda.

04

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Desenho original que se conserva no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta (MC.DES. 12). No Museu de Lisboa – Teatro Romano encontra-se exposta uma reprodução à escala real.


Bibliografia Carvalho, Ayres de (1979) - Os Três Arquitectos da Ajuda do «Rocaille» ao Neoclássico: Manuel Caetano de Sousa, 1742-1802: José da Costa e Silva, 1747-1819: Francisco Xavier Fabri, 1761-1817, Lisboa: Academia Nacional de Belas Artes FABIÃO, Carlos (2013) - Escavando entre papéis: sobre a descoberta, primeiros desaterros e destino das ruínas do teatro romano de Lisboa. Vir bonus peritissimus aeque. Estudos de homenagem a Arnaldo do Espírito Santo. Centro de Estudos Clássicos. Faculdade de Letras de Lisboa. Lisboa, p. 389 409 FABRI, 1799 in Ayres de Carvalho, Os três arquitetos da Ajuda do “Rocaille” ao Neoclássico. Manuel Caetano de Sousa (1742-1802) José da Costa e Silva (1747-1819) Francisco Xavier Fabri (17611817), Lisboa, Academia Nacional de Belas-Artes, 1979, pp. 142; 152. FERNANDES, Lídia (2007) - Teatro romano de Lisboa – os caminhos da descoberta e os percursos da investigação arqueológica. Revista Al-madan, Almada, 15, p. 27 – 39 FERNANDES, Lídia (2013) - Teatro romano de Olisipo: a marca do novo poder romano. Arqueologia em Portugal. 150 anos (coord. J.M. Arnaud, A. Martins, C. Neves), Associação dos Arqueólogos Portugueses: Lisboa, p. 765-773 FERNANDES, Lídia; CAESSA, Ana (2004-2005) - O proscaenium do Teatro romano de Lisboa: aspectos arquitectónicos, escultóricos e epigráficos da renovação decorativa do espaço cénico. Revista Arqueologia e História, nº 58/59, p. 83-102 PINHEIRO, Susana Marta Delgado (1989) - Manoel Caetano de Sousa. Dissertação de Mestrado em História da Arte- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa Segundo Supp. Gazeta de Lisboa, XXVII, de 7 de julho VITERBO, Sousa (1899) - Dicionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses, Volume I- A/G, Imprensa Nacional-Casa da Moeda Legendas Fig. 2 - Desenho da Biblioteca Publica de Évora (s/título, Gaveta 8, pasta nº 1, Planta nº 1). Fig. 3 - Desenho aguarelado atribuído a Manuel Caetano de Sousa (Museu de Lisboa, nº inv. MC.DES.1819).

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Fig. 4 – Assinatura do arquiteto Manoel Caetano de Sousa.


“Lisboa, Cidade Triste e Alegre: Arquitetura de um Livro” Exposição temporária patente no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa – Palácio Pimenta (até 16 de setembro)

por Joana Sousa Monteiro

Museu de Lisboa

”Lisboa, Cidade Triste e Alegre”, frase provinda do poema Lisbon Revisited, de Álvaro de Campos, é o título de um livro de fotografia da autoria de Victor Palla e de Manuel Costa Martins publicado pela primeira vez em 1959. Esta obra tornou-se um livro de culto e uma obra emblemática sobre a Lisboa dos anos 50 do século XX.

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Em 2017, o jornal Púbico e a editora A Bela e o Monstro apresentaram à Câmara Municipal de Lisboa um projeto de reedição daquela obra em formato de fascículos para serem colocados no mercado junto com o jornal, e ainda da promoção de uma exposição sobre o próprio livro.


Coube ao Museu de Lisboa, sob a batuta da comissária Rita Palla Aragão, a honra e o gosto de conceber e apresentar uma exposição temporária no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa – Palácio Pimenta, que é muito mais do que uma mera apresentação dos elementos constitutivos do livro. “Lisboa, Cidade Triste e Alegre: Arquitetura de um Livro” ficará patente ao público até 16 de setembro de 2018. Terá um catálogo, atividades de mediação específicas, e uma série de conversas com especialistas em fotografia e no próprio livro como Tereza Siza, Paulo Catrica, Alexandre Pomar, Luís Camanho, entre outros.

O LIVRO Trata-se de uma obra de grande modernidade e inovação, sem contexto cultural substante, nem precedente no Portugal de então. Um retrato da vida de lisboetas em alguns bairros históricos, em que a humanidade das personagens e o realismo das cenas fotografadas com espontaneidade se sobrepõem às imagens eventualmente belas da Cidade.

Lisboa, Cidade Triste e Alegre” fotografado por Victor Palla e Costa Martins, com marcação para o enquadramento final pretendido (ca. 1958)

Segundo os próprios autores, “Chama-se “Lisboa” mas é o retrato de homens, mulheres, crianças que nela habitam, traçado por dois homens que nela nasceram e habitam. Visão parcial? Evidentemente. Incompleta, tendenciosa? Pois claro.” (in Lisboa, “cidade triste e alegre”, Índice)

Os dois arquitetos e fotógrafos eram também amigos e cúmplices, formando uma dupla que assim permaneceu insolúvel, sem qualquer protagonismo de um deles em tudo o que disse respeito ao livro. Palla e Costa Martins levaram a cabo, na verdade, um ato de resistência numa sociedade em que estava instalada uma ditadura, mostrando a (sua) realidade da Lisboa antiga de então, numa perspetiva assumidamente artística, e como tal subjetiva e incompleta.

Retrato da dupla Victor Palla e Costa Martins (ca. 1958)

Logotipo criado por Victor Palla e Costa Martins para a divulgação do livro (ca. 1958)

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Em vez de belas vistas de Lisboa, vemos antes um centro histórico de uma cidade ainda pouco cosmopolita, mas plena de pessoas genuínas e expressivas, que partilham com o fotógrafo momentos do seu quotidiano e da sua relação afetiva e de grande proximidade com a Cidade. Uma obra de fotografia, mas também de design gráfico, pensada como um todo orgânico e harmonioso, que tem por complemento encantatório a literatura e a poesia que povoa todo o livro.


A opção pela edição de autor e pelo formato original em fascículos foi propositada, para que a obra não fosse alvo das atenções da censura. Por outro lado, o modelo dos fascículos permitiu-lhes ir financiando cada fascículo com as receitas das assinaturas do fascículo anterior.

A EXPOSIÇÃO

Os autores gostavam de chamar a este livro um “poema gráfico”, tal foi o cuidado e a devoção que lhe dedicaram. Dos cerca de 6000 clichés efetuados, só 168 fotografias foram selecionadas para o livro.

O Museu de Lisboa torna possível, assim, desvendar o pensamento dos autores e o complexo processo da própria feitura do livro, por meio da apresentação dos vários modelos de edição e de encadernação, bem como a revelação de algumas fotografias, algumas, até ao momento, inéditas: umas por não terem sido escolhidas para o livro; outras que correspondem a fotografias completas, cujo enquadramento do livro só as mostra parcialmente. São, de igual modo, apresentados desenhos feitos pelos autores relativos a algumas fotografias, que as reinterpretam, documentos e filmes documentários sobre o próprio filme e o seu contexto cultural e artístico.

O modo de apresentação das fotografias em negros densos de narrativas entrecortadas, cujo enfoque aponta para detalhes humanistas pouco evidentes e pouco canónicos, remete-nos para o universo do cinema de autor, nomeadamente para o cinema neorrealista ou do realismo poético de meados do século XX. Para tal também contribui a construção do objeto-livro como um corpo surpreendente ao folhear: as inesperadas páginas duplas em cadência irregular; e a aparição ocasional de estranhas páginas “cortadas” em tamanho de marcas de livro. A atitude metódica e proficiente dos autores é revelada num índice muito particular. De um profissionalismo notável, o índice desvenda o percurso fotográfico e inclui explicações sobre as escolhas dos ângulos e dos enquadramentos, sobre influências de outros artistas nacionais e internacionais, bem como descrições das técnicas e das câmaras utilizadas.

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O reconhecimento internacional e nacional mais vasto do que de um pequeno círculo intelectual e conhecedor, chegou por intermédio da obra de referência mundial sobre livros de fotografia do século XX. O primeiro volume do emblemático The Photobook, a History, de Martin Parr e Gerry Badger, faz menção relevante ao Lisboa, Cidade Triste e Alegre, única referência a uma edição portuguesa, o que muito contribuiu para a sua valorização dentro e fora de portas.

Passados quase 60 anos sobre o lançamento do livro, faz-se agora a primeira exposição retrospetiva sobre o seu conteúdo, pensamento criativo e objetivos.

Foi com o mesmo tipo de empenho e delicadeza que a comissária Rita Palla Aragão, o designer Carlos Bártolo e a equipa do Museu de Lisboa prepararam a exposição de que agora todos podem usufruir. A exposição é, talvez, mais que tudo, uma sentida homenagem aos dois arquitetos e fotógrafos que documentaram e sentiram Lisboa como ninguém mais. Trata-se, assim, do cumprimento de uma responsabilidade e de um privilégio para o museu que se dedica à cidade de Lisboa. O lançamento do catálogo da exposição está previsto para 23 de maio. Dele irão constar textos de alguns especialistas e conhecedores da disciplina da fotografia em geral e desta obra em particular. Um dos textos é o de Tereza Siza, para quem, “este não é um livro de fotografia, apenas. É o livro”. *Museóloga. Diretora do Museu de Lisboa


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Fotografia p. 40 e 41 do “Lisboa, Cidade Triste e Alegre” e respectivo desenho (maquete para proposta de publicação em revista)(ca. 1958)


Alface fora d’água De Portugal a Nova York por Marta Gonzaga

As pensões da nossa memória Estou no Porto, num hotel de quatro estrelas que na realidade é basicamente uma pensão de duas estrelas e não podia estar mais contente com isso.

A dona Arlete esforça a sua voz muito rouca e responde da mesma maneira, dolorosa só de ouvir. Estão todos prontos, o senhor só percebeu à terceira.

-DONA ARLEEEETE. O QUARTO DA SENHORA ESTÁ PRONTO?

- É os nervos, o tempo também não ajuda e a pessoa perde a voz. Diz o senhor da recepção.

- ~s q~~t~ e~tão t~õd~~ron~t~s ou:

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Esperamos. Eu percebi tudo, só espero por respeito. Por isso, esperamos os dois. - OH DONA ARLETE OS QUARTOS ESTÃO OU NÃO ESTÃO PRONTOS?

- O quarto é no segundo andar a mãezinha consegue subir? Um hotel não nos diz nada disto.


Espero que amanhã sirvam aquele típico pequeno almoço da carcaça e o café com leite. Não lhe vou tocar, mas quero-o lá. para me lembrar dos tempos em que não existiam dietas sem hidratos de carbono e de como a vida era tão mais fácil. Conheci o Norte de Portugal quando tinha 17 anos e trabalhei a fazer estudos de mercado. Foram umas férias fabulosas e extenuantes a fazer entrevistas irrepetíveis de porta a porta. Duravam 40 minutos e as pessoas respondiam a tudo. - Daqui a um bocado ´tá-me a perguntar quando vou à casa de banho! E eu dizia que já lá chegava. A brincar atirava a pergunta e as pessoas respondiam mesmo. Nem sabiam, nem elas nem eu, que como resultado desse estudo iriam nascer dois novos canais privados que melhor do que lhes perguntar quando vão à casa de banho iriam mostrar isso, e o quê e como o faziam no quarto. E as pessoas haviam de assinar por baixo. Enquanto durou esse estudo andei então por Viana do Castelo, Porto, Águeda, Aveiro, entre tantas outras pequenas cidades. O dinheiro que ganhávamos era para sair à noite e comprar alguma roupa. O dinheiro das ajudas de custo era para pagar as refeições e as pensões. Um dia resolvemos comprar umas botas e ficámos uma noite na rua sem dinheiro para pagar a pensão. Quando entrávamos na pensão pedíamos para ver os quartos. Já era sensível com cheiros por isso além de os ver tinha de os cheirar. Em Braga, foi o único sítio em que tivemos de ficar num hotel porque todos os outros cheiravam a mofo. Mas como ficava em frente à discoteca não nos importámos de saltar uma refeição.

A de Aveiro era tão boa, talvez mesmo a melhor. Mesmo em frente à estação, perto de um ponto onde se apanhava a camioneta que nos levava e trazia da discoteca. Quartos enormes com roupeiros tradicionais que relinchavam a abrir as portas e chão em soalho de tábua corrida, bem esfregado e encerado. Lembram-se como se lavava este chão? Um balde de água e um pano encharcado. A seguir passava-se o enorme bloco de sabão e depois esfregava-se com uma escova de cerdas rija. Mais duas passagens com o pano e passava-se à secção seguinte. Esta tarefa era feita de joelhos no chão. Após secagem passava-se à cera. Lembram-se como se encerava? Não queiram saber. Ou queiram e desistam do ginásio porque exercício mais completo é difícil. Curioso, a energia que gastamos agora é estéril. Também ficámos muitas noites na pensão dos Aliados no Porto. Trabalhávamos todo o dia, e à noite dormíamos numa dessas pensões familiares que têm pai, têm mãe e têm filhos. Indicavam-nos como voltar em segurança para casa, onde sair e, nas mais modestas, até nos chegaram a cuidar da roupa. Na mesma altura dos canais privados, chegaram também os Hostel. Económicos, mais moderninhos, muita tinta para decorar as paredes, mas nunca mais aquelas paredes disseram nada que me desse prazer ouvir. Uma pensão é sopa, um ensopado e um “arranja-se qualquer coisa porque com fome a menina não pode ficar”. As pessoas têm nome e em todas as que fiquei era aquele delicioso clássico português “humilde, mas muito limpo”. Honesto também e a única vez que mexeram nas minhas coisas na minha ausência foi para me lavarem e coserem as calças de ganga. Encontrei-as impecáveis dobradas na cadeira. A minha mãe já tinha tentado agir, na minha ausência, contra estas calças, mas eu consegui sempre chegar a tempo de as tirar do lixo. Como não amar as pensões de Portugal? Como não sentir nostalgia e desejar que voltem?! Há poucos dias estava em Nova York e o que não daria por encontrar uma pensão portuguesa que me recebesse.

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Aquele gosto duvidoso de caixilharias castanhas e o cheirinho a sabão azul e branco transportou-me no tempo. Lembro-me de todas as pensões da minha vida e de como só um hotel de cinco estrelas consegue competir com isto. Os intermediários deixam pouca memória e, se por vezes só quero mesmo onde passar a noite, de todas as outras o que quero mesmo é memórias. Ricas, cómicas, ternurentas ou surpreendentes.


NEW YORK ENVIRONMENT Estadias não oficiais Quantas vezes se começa uma viagem com um pensamento insistente, de “o que é que estou aqui a fazer? Como é que vim aqui parar?!?” No meu caso são tantas. Estou aqui porque venho a um encontro TED de organizadores TEDx de 58 países. Estou aqui porque venho visitar a minha irmã Eva que não vejo há nove anos. E estou aqui porque venho visitar a Djamila. Venho numa viagem low budget, coisa impossível para Nova York, mas mantenhome o mais fiel possível às intenções iniciais. Desmarco, com custos, o primeiro hostel que marquei poucos dias antes depois de ler os terríveis reviews no aeroporto e marco um AIRBNB. Aterro em Newark e a entrada nos Estados Unidos foi facílima, ao contrário das várias complicações de que toda a gente fala. Dali parto diretamente para o primeiro workshop de uma agenda bastante preenchida que irá durar seis dias e algumas noites.

O Boxeaur, a sua mulher e a fuga de gás

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Já bem tarde vou para o quarto alugado em Brooklyn. O portão, uma porta metálica, uma porta de madeira trancada e uma outra porta já lá dentro com código. Pela minha descrição um amigo pergunta-me se entrei num cofre. No hall entre o portão e a porta da rua há uma entrada no chão para uma cave com um poster do Muhammad Ali vitorioso no combate com Sonny Liston. Ao lado uma bandeira americana. Espreito, mas não consigo ver mais. Já lá dentro, no meu quarto, abro a porta que dá para a casa de banho e nesse corredor oiço chaves a rodar. Do chão, sai uma mulher com um bebé ao colo. Bonita e com presença fala várias coisas sobre uma fuga de gás e de como só terei água quente dentro de alguns dias, talvez semanas. Está bastante frio e o assunto é sério, mas estou demasiado fascinada com a cave para ligar ao assunto da água. Eles vivem num ringue de boxe. Literalmente num ginásio e só penso que tenho de os convencer a deixar-me ir lá abaixo. Ela volta a dizer-me que não há água quente e que devolve o dinheiro. Mas, uma não tenho tempo para procurar outra coisa, outra estou

demasiado cansada para me preocupar com o assunto. Será que me deixam descer? No dia seguinte às seis da manhã, a tomar o duche mais difícil de que me lembro e com seis graus lá fora e talvez o mesmo na água que corre no cano penso que procurar um novo lugar talvez seja uma boa ideia. Só que os dias são tão preenchidos que me esqueço dos detalhes gelados e os dias vão passando até que no final do terceiro dia a água quente aparece. Ouvi-os lá em baixo, durante as aulas, mas estas eram tão intensas que não me atrevi a interromper e só os voltei a ver quando, de saída para dormir em casa de amigos na última noite, já de mala na rua vieram cá fora para se despedir. Nada de Dona Arletes a choramingar e a dizer para que volte sempre. Adeusinho, sorrisinho para garantir os reviews e está de virar as costas. Uma pessoa sente-se tão descartável.

Subculture Dinning NYC Na última noite, livre da programação TED, a Eva arranjou-nos um jantar do carismático Chef Russel Jackson onde iria como convidada. Russel faz estes estupendos jantares pop up em que os clientes reservam a sua entrada e só no dia do evento são informados da sua localização. Cada jantar tem um tema inspirado na cultura pop ou em músicas. A mim, a este grupo, calhou-nos o Food, Porn and Rock&Roll. Porque falo demais e mostrei interesse em ajudar enquanto fotografaria a preparação do jantar pop up, acabei a trabalhar doze horas. Voltando atrás. Encontro-me com a Eva num Jardim em Harlem e ela conta-me que o Chef está mesmo contente por me ter oferecido para ajudar, uma vez que faltaram pessoas e eles precisam de ajuda. — Desculpa?!? Tu sabes o estoirada que estou? Estou há seis dias em conferências, workshops e jantares. Trabalhar? Eu vou fotografar. Quero-me sentar. Uma hora mais tarde já de avental começam as montagens. O Chef, dois ajudantes de cozinha, a fotógrafa, um câmara, eu, a Eva e o Benji. Monta, desmonta, lava, esfrega e serve. Acabaram-se as ilusões não estou ali como jornalista. Vinte e duas pessoas numa mesa corrida, com oito pratos e outros tantos cocktails. Quando reservam têm de mencionar alergias alimentares porque a única coisa que sabem é que nos pratos não vão encontrar o que lhes faz mal, de resto não vale a pena perguntar. Na nossa formação de dois minutos somo ensinados a responder:


[123]


- Não faço ideia. Ou qualquer coisa do género que os faça perceber que quem manda somos nós. Quer dizer, quem manda é o Russel. Em todos estes jantares estão escritores, jornalistas, fotógrafos, estrelas de televisão, entre outros artistas e turistas também. A vida é dura e cara nos Estados Unidos e é comum ter um trabalho para pagar as contas e um outro que nos alimenta a alma. Talvez por isso, pelo menos em parte, há menos preconceitos e é fácil começar uma conversa entre clientes e as pessoas que os servem. Nesse dia estava uma estrela de televisão, estreante nestes jantares a quem foi pedido a playlist do jantar e que apresenta um programa onde estranhos se casam ao vivo. É tão estranho que deve estar quase a chegar a Portugal. Os ingredientes de tão bons são quase tão obscenos como os filmes pornográficos projetados na parede. A mim calha-me, como prometido, um prato de todos os que compõe o menú e alguns eram de desligar do resto para melhor viver a experiência. Há experiências gastronómicas que são delirantes e esta foi uma delas, por momentos aquele prato é amor e julgamos possível viver só com aquele sabor. Deixem-me em paz estou prestes a pedir um espargo em casamento.

Walk Like a Mice

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São duas da manhã, estamos a sair do jantar e o cansaço atingiu proporções inacreditáveis mas ainda há um programa. Antes de continuar é importante explicar porque é tão importante dizer que sim a esta noite, a esta “proposta” de trabalho e esgotar até ao limite todas as horas e todos os minutos. Não estava com a minha irmã há nove anos e isso pode parecer quase desumano. Mas nós somos muitos irmãos de diferentes pais e mães e de diferentes países também. A última vez que estivemos juntas foi na luta pela sobrevivência da Eva nos 45 dias que duraram as suas operações que se seguiram a uma mordida de cobra perto de Barcelona, durante a sua última visita à Europa. Os anos que se seguiram foram Skype e redes sociais. Isso fica para outro texto. O importante é que estou ali, com ela e dei-lhe carta branca para decidir o que faríamos. A Eva chama um carro na “lift” e seguimos para um bar onde está o Marius, um amigo músico. É tarde demais para acordar a Djamila e iremos ter de dormir na casa do amigo. Como os ingleses, também os americanos têm bares nos seus quarteirões. Nós tomamos a bica num café com luzes néon, eles

tomam um vinho mau e bastante inflacionado num bar com onda onde vários amigos se juntam. Já em casa o Marius dá-nos uma lição sobre como andar - “walk like a mice “ - e sair de casa sem o acordar. Vamos sair bem mais cedo que ele, eu viajo para Lisboa e a Eva para o Canadá, e a casa é muito pequena. Há uma dimensão de espaço a partir do qual o nosso comportamento muda e penso que as relações das pessoas ficam muito condicionadas por esta imperativa necessidade de espaço mínimo. Como deveríamos abrir a porta, como deveríamos andar e como deveríamos agarrar nas nossas coisas. Nunca saí tão silenciosa de lado nenhum, o que é extraordinário porque a cidade, os canos, o metro, a água que corre é tão barulhenta, mas um ser humano a andar estraga a afinação da orquestra. Antes de apagarmos todos para o curto sono combinámos uma viagem de carro para a Flórida onde reinam espaços maiores e poderemos andar com passos bem pesados.


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Segredos de Lisboa

Galerias para todos

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Existem em Lisboa dois espaços ainda pouco conhecidos, pertença da Junta de Freguesia da Misericórdia, que estão sempre prontos a receber todo o tipo de artistas, exposições e eventos culturais. São eles o Espaço Cultural Mercês, na Rua Cecílio de Sousa, e o Espaço Santa Catarina, no Largo Doutor António Sousa Macedo. Os espaços podem ser alugados, dispondo cada um deles de um galerista sempre disponível a ajudar os artistas. Para quem quer fazer uma exposição e não sabe onde, este é o segredo ideal.

Texto e Fotografia por Francisco Duarte Coelho


Árvores de Lisboa Texto e Fotografia por Ana Luísa Soares Ana Raquel Cunha

Do género tília existem mais de 30 espécies diferentes. No levantamento arbóreo de 64 jardins e parques, realizado em 2014, no âmbito do Projeto LX GARDENS – Jardins e Parques Históricos de Lisboa: estudo e inventário do património paisagístico (coordenado pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia), das 27 610 árvores referenciadas foram identificados dez espécies de tília (Tilia caroliniana, T. cordata, T. dasystyla, T. x euchlora, T. x europaea, T. x moltkei, T. T. negleta, T. oliveri, T. plathyphyllos e T. tomentosa) que correspondem a 621 dos espécimes do género tília (Vasconcelos et al, 2017). A tília apresenta diversas utilidades, como a propriedade calmante da infusão das suas folhas e brácteas; a potencialidade da sua casca para fins me-

dicinais, sendo esta mesma casca também utilizada para obtenção de fibras empregues na confeção de cordas. A madeira é macia e leve, de textura uniforme, excelente para ser talhada, pelo que é muito utilizada por escultores e fabricantes de estatuetas. A fotografia de destaque é de uma tília-de-folhas-pequenas (Tilia cordata Mill.), da família das Malvaceae. Árvore de folha caduca, que pode atingir uma altura de 30 metros mas com crescimento lento. Originária do Centro e Sul da Europa e Oeste da Ásia. As suas folhas com 3 a 6 cm de comprimento, são cordiformes e um pouco assimétricas na base, de cor verde escura e glabras na página inferior. Apresenta flores de dimensão pequena, cor branco creme ou amareladas, muito aromáticas e reunidas em cimeiras (inflorescência com o eixo principal de crescimento limitado) com 4 a 15 flores e com floração de julho a agosto. Fruto com cerca de 6 mm, globoso. Caracteriza-se pela sua casca cinzenta escura, lisa ou fendida longitudinalmente nos exemplares mais velhos.

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A tília é uma árvore de elevado valor paisagístico, caracteriza-se pela dimensão exuberante da copa redonda bem formada, que encanta com a sua presença. É muito frequente encontrar esta árvore nas ruas e jardins de Lisboa (621 exemplares identificados só nos jardins históricos públicos, excluindo as de arruamento). Particularmente no verão, a tília é muito apreciada pela suave, fresca e perfumada sombra.


Ana Pérez-Quiroga Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade

Antigo Frágil Onde uma outra noite de Lisboa começou em junho de 1982.

Lux Frágil O mais importante lugar para ouvir música, dançar e conversar. Inaugurado a 29 de setembro de 1998.

Bica do Sapato

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O grande restaurante, cafetaria e sushi bar, abriu a 15 de junho de 1999. Manuel Reis criou um novo conceito vivencial para esta zona de Lisboa.


Uma homenagem a Manuel Reis (1947-2018) Um passeio pelos espaços que foi abrindo em Lisboa transformando-a para sempre.

Loja da Atalaia O principal espaço em Lisboa dedicado ao design contemporâneo, nacional e internacional. Aberto em março de 1983.

Lux Frágil Sempre disponível para albergar todos, até os indigentes que dormem à sua porta.

Bica do Sapato

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Um dos espaços exteriores com vista sobre o rio Tejo.


Loja da Atalaia Aberta em março de 2001, transferindo a loja do Barro Alto para esta correnteza de edifícios.

Rive Rouge O último projeto que Manuel Reis nos deixou para brindarmos à vida. Vista do exterior da discoteca, do lado da Praça D. Luís I, com uma esplanada no R/c. Inaugurado a 10 de novembro de 2016.

Manel Reis e João Pedro Vale

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Os amigos. Uma parte importante do meu trabalho passa por registar, em fotografia, o meu quotidiano e, naturalmente, as pessoas que o habitam. Não quaisquer pessoas - sobretudo amigos. E, uma vez, MR disse-me que gostava de acompanhar por onde eu andava através desses registos. Esta é das poucas fotografias que lhe tirei. Ele não gostava de ser fotografado e, aqui, consentiu.


Loja da Atalaia As três montras existentes permitem, a qualquer hora do dia, o acesso direto à arte.

Rive Rouge Vista do interior com luz do dia a entrar pela janela. Domingos de matiné.

Gruas

Lista cronológica dos espaços (nome, localização e data de inauguração): 1900/1930 – Travessa da Queimada, 1974; Flores da Romeira – Rua Castilho, 1977; Pap’acorda – Rua da Atalaia, 57, 1981; Frágil – Rua da Atalaia, 126,1982; Loja da Atalaia – Rua da Atalaia, 69, 1983; Loja Jónatas – Rua da Atalaia, 96, 1984; Loja Branca - Praça das Flores, 48 A, 1986; Lux Frágil - Av. Infante Dom Henrique Armazém A, Cais da Pedra, Santa Apolónia, 1998; Bica do Sapato - Av. Infante Dom Henrique Armazém B, Cais da Pedra, Santa Apolónia, 1999; Loja da Atalaia - Av. Infante Dom Henrique Armazém B, loja 1, Cais da Pedra, Santa Apolónia, 2001; Rive Rouge – Mercado da Ribeira, Praça de Dom Luís I, 2016.

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Manuel Reis sempre fazia questão que nas comemorações do aniversário do Lux Frágil as gruas Poderosa e Vigorosa forem convocadas para ampliar o cenário festivo.


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O Nosso Guia de Lisboa


Mapade

Lisboa COA

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SLM

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ZR


AR

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AV GM

CA

BA BC

ZR - Zona Ribeirinha AP- Alcântara | Pampulha COA - Campo de Ourique | Amoreiras SLM - Santos | Lapa | Madragoa PR - Príncipe Real BCS- Bica | Cais do Sodré BA - Bairro Alto AV - Avenida BC - Baixa Chiado CA - Castelo | Alfama GM- Graça | Mouraria AR - Almirante Reis BXM - Beato | Xabregas | Marvila FC - Fora do centro [135]

BCS


CLÁSSICO GAMBRINUS | AV

CASA PEREIRA | BC

O clássico dos clássicos. A melhor barra e o melhor serviço de Lisboa, que nos faz sentir príncipes ainda que apenas comamos um prego e uns magníficos croquetes com mostarda da casa. Se lhe apetecer algo fora da carta, peça, quem sabe poderá ser surpreendido.

Segunda a Sábado das 9h30 às 18h30 Rua Garrett, 38 1200-028 Lisboa N 38° 42’ 39.25’’ W 9° 8’ 25.68’’ +351 213 426 694 www.facebook.com/casapereira

RESTAURANTE

Todos os dias das 12h00 à 1h30 Rua das Portas de Santo Antão, 23 1150-264 Lisboa N 38° 42’ 55.05’’ W 9° 8’ 23.27’’ +351 213 421 466 www.gambrinuslisboa.com

PINÓQUIO | AV RESTAURANTE

Segunda a Domingo das 12h00 às 24h00 Praça dos Restauradores, 79 1250-188 Lisboa N 38° 42’ 55.58’’ W 9° 8’ 26.80’’ +351 213 465 106 www.restaurantepinoquio.pt

PASTELARIA BÉNARD | BC PASTELARIA

Segunda a Sábado das 8h00 às 23h00 Rua Garrett, 104 1200-205 Lisboa N 38° 42’ 38.59’’ W 9° 8’ 30.68’’ +351 213 473 133 www.facebook.com/PastelariaBenard

CASA DE CAFÉS

PARIS EM LISBOA | BC LOJA

Segunda a Sábado das 10h00 às 19h00 Rua Garrett, 77 1200-203 Lisboa N 38° 42’ 38.10’’ W 9° 8’’ 30.23’’ +351 213 424 329 www.parisemlisboa.pt

PASTELARIA VERSAILHES | FC PASTELARIA

Todos os dias das 7h30 às 22h00 Avenida da República, 15 A 1050-185 Lisboa N 38° 44’ 6.71” W 9° 8’ 42.48” +351 213 546 340

A BRASILEIRA | BC CAFÉ

Todos os dias das 8h00 às 2h00 Rua Garrett, 120

CASA DE CHÁ DE STª ISABEL VICENTINAS | SLM

1200-026 Lisboa N 38° 42’ 38.14” W 9° 8’ 29.20” +351 213 469 541

Segunda das 15h30 ás 19h00 Terça a Sábado das 11h30 às 19h00 Rua de São Bento, 700 1250-223 Lisboa N 38° 43’ 9.61’’ W 9° 9’ 20.12’’ +351 917 422 749 www.casadecha.org

FOXTROT | BCS

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SALA DE CHÁ

BAR

Segunda a Quinta das 18h00 às 2h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 3h00 Domingo das 20h00 às 2h00 Travessa de Santa Teresa, 28 1200-405 Lisboa N 38° 42’ 50.12” W 9° 9’ 6.94” +351 924 323 688 www.facebook.com/BarFoxtrotLisboa


TRADICIONAL PÁTEO 13 | CA

MANTEIGARIA SILVA | BC

Sardinhas e muito mais, num restaurante que ocupa um delicioso larguinho de Alfama, onde locais e turistas convivem alegremente. Perfeito para as noites quentes de verão.

Segunda a Sábado das 9h00 às 19h30 Rua Dom Antão de Almada, 1 D 1100-197 Lisboa N 38° 42’ 50.93’’ W 9° 8’ 19.38’’ +351 213 424 905 www.manteigariasilva.pt

RESTAURANTE

Terça a Domingo das 11h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Calçadinha de Santo Estêvão, 13 1100-502 Lisboa N 38° 42’ 42.15’’ W 9° 7’ 39.90’’ +351 218 882 325 www.facebook.com/PATEO13

TABERNA DA RUA DAS FLORES | BCS

CHARCUTARIA

ALUNOS DE APOLO | COA DANÇAS DE SALÃO

Rua Silva Carvalho, 225 1250-250 Lisboa N 38° 43’ 13.63’’ W 9° 9’ 40.57’’ +351 213 885 366 www.alunosdeapolo.com

RESTAURANTE

Um dos nossos restaurantes preferidos de Lisboa. Excelente comida, ambiente descontraído e um único e enorme problema…não aceitam reserva e está quase sempre cheio. Tente chegar cedo e deixar o nome antes da lista fechar. Vale mesmo a pena. Segunda a Sexta das 12h00 às 00h00 Sábado das 18h00 às 00h00 Rua das Flores, 103 1200-194 Lisboa N 38° 42’ 36.19’’ W 9° 8’ 36.99’’

MESA DE FRADES | CA CASA DE FADOS

Segunda a Sábado das 20h00 às 2h30 Rua dos Remédios, 139 A 1100-445 Lisboa N 38° 42’ 46.90’’ W 9° 7’ 34.03’’ +351 917 029 436 www.facebook.com/mesadefradeslisboa

DAS FLORES | BCS RESTAURANTE

CANTINHO DAS GÁVEAS | BA

Rua das Flores, 76 1200-015 Lisboa N 34° 42’ 33.16”, W 9° 8’ 36.64” +351 213 428 828

Cozinha portuguesa honesta, num Bairro Alto cada vez mais cheio de restaurantes feitos a pensar nos turistas. A esplanada convida a prolongar o jantar enquanto o bairro começa a encher.

RUBRO | FC

Rua das Gáveas 82 1200 -073 Lisboa N 38° 42’ 44.61”, W 9° 8’ 36.25” +351 213 426 460

ZAPATA | BCS RESTAURANTE

Quarta a Domingo das 10h00 às 2h00 Rua do Poço dos Negros, 47 1200 -038 Lisboa N 38° 42’ 37.63” W 9° 9’ 1.42” +351 213 908 942

RESTAURANTE

Segunda a Sexta almoços das 12h30 às 15h00 Segunda a Sábado jantares das 19h30 às 00h30 Praça de Touros do Campo Pequeno, Loja, 607 1000-082 Lisboa N 38° 44’ 32.43” W 9° 8’ 41.71” +351 213 144 656 Segunda a Domingo das 12h30 às 23h00 Rua Rodrigues Sampaio, 33-35 1150-278 Lisboa N 38° 43’ 19.91” W 9° 8’ 46.11” +351 210 191 191 www.restauranterubro.com

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RESTAURANTE


COSMOPOLITA PAP’AÇORDA | BCS

LUX – FRÁGIL | ZR

Se as paredes da sua anterior localização no Bairro Alto falassem, ficaríamos a saber a história da Lisboa sofisticada dos últimos 30 anos. Agora no Mercado da Ribeira, continua a servir deliciosa comida portuguesa, sendo imperdíveis os fritos, que evitamos noutros lugares, em particular os peixes, sejam jaquinzinhos, ou sável acompanhado de açorda de ovas. Ainda é um lugar para ver e ser visto.

Avenida Infante D. Henrique, Armazém A Cais da Pedra de Santa Apolónia 1950-376 Lisboa N 38° 44’ 48.62’’ W 9° 6’ 17.36’’ +351 218 820 890 www.luxfragil.com

RESTAURANTE

Terça a Quarta das 12h00 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h00 às 2h00 Domingo das 12h00 às 00h00 Avenida 24 de Julho, 49 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 24.24’’ W 9° 8’ 45.40’’ +351 213 464 811 www.papacorda.com

DISCOTECA

BICA DO SAPATO | ZR RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 11h00 à 1h00 Segunda-feira das 17h30 à 1h00 Av. Infante Dom Henrique, Armazém B Cais da Pedra, Santa Apolónia 1900-436 Lisboa N 38° 43’ 20,25”, W 9° 6’ 50.20” +351 218 810 320 www.bicadosapato.com

RIO MARAVILHA | AP RESTAURANTE/BAR

Terça das 18h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 12h30 às 2h00 Sexta e Sábado das 12h30 às 3h00 Domingo das 12h30 às 18h00 Rua Rodrigues Faria, 103 LX Factory | Entrada 3 | Piso 4 1300-501 Lisboa N 38° 42’ 12.68’’ W 9° 10’ 43.83’’ +351 966 028 229 www.riomaravilha.pt

BELCANTO | BC RESTAURANTE

Terça a Sábado das 12h30 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Largo de São Carlos, 10 1200-410 Lisboa N 38° 42’ 35.51”, W 9° 8’ 31.03” +351 213 420 607

RED FROG | AV TOPO CHIADO | BC BAR

Segunda a Quarta das 12h30 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h30 às 2h00 Domingo das 12h30 às 00h00 Centro Comercial Martim Moniz, Piso 6 N 38° 43’ 0.21’’ W 9° 8’ 11.48’’ +351 215 881 322 www.topo-lisboa.pt

BAR

Segunda a Quinta das 18h00 às 2h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 3h00 Rua do Salitre, 5 A 1250-096 Lisboa N 38° 43’ 10.13” W 9° 8’ 45.26” +351 215 831 120 www.facebook.com/redfrogspeakeasy

THE FEETING ROOM | BC UOY | PR ALFAIATES

Segunda a Domingo 12h00 às 20h00 Praça do Principe Real, Embaixada Shopping Gallery, 26 1250-184 Lisboa N 38º 43’ 0.76’’ W 9° 54’ 43’’ +351 916 764 590

[138]

talktous@uoy.me www.uoy.me

LOJA

Segunda a Quinta das 10h00 às 20h00 Sexta e Sábado das 10h00 às 21h00 Domingo das 12h00 às 20h00 Calçada do Sacramento, 26 1200-394 Lisboa N 38° 42’ 40.65” W 9° 8’ 24.54” +351 212 464 700 www.facebook.com/thefeetingroomlisboa


HIPSTER QUIOSQUE DO OLIVEIRA | PR QUIOSQUE PRÍNCIPE REAL

Ponto de encontro de fim de tarde ou princípio de noite para a fauna do Príncipe Real e Bairro Alto. Espere um ambiente cool misturado com turistas. Aberto 24h Praça Príncipe Real 1250-301 Lisboa N 38° 42’ 59.99’’ W 9° 8’ 53.87’’ +351 213 428 334

SKY WALKER | BA LOJA

Segunda a Quinta das 10h00 às 21h00 Sexta e Sábados das 10h00 às 22h00 Domingo 15h00 às 20h00 Rua do Norte, 12 1200-141 Lisboa N 38° 42’ 39.42’’ W 9° 8’ 37.31’’ www.facebook.com/Skywalkerlx

FÁBRICA MUSA | BXM BAR

TABACARIA | BCS BAR

Um pequeno bar bem sério numa antiga tabacaria, da qual restam alguns móveis, com excelentes bebidas preparadas a preceito. Onda cool e boa música. Segunda a Domingo das 18h00 às 2h00 Rua de São Paulo, 75 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 29.49’’ W 9° 8’ 45.00’’ +351 213 420 281

MAGA SESSIONS | FC CONCERTOS

Aberto em dias de concerto das 18h00 às 23h00 Avenida da República, 10 - 2E 1050-191 Lisboa N 38° 44’ 7.41’’ W 9° 8’ 42.04’’ +351 919 370 527 www.magasessions.com

TABERNÁCULO | BCS

Segunda a Quinta das 16h00 às 23h00 Sexta e Sábado das 16h00 às 00h00 Domingo das 16h00 às 23h00 Rua do Açúcar, 83 1950-006 Lisboa N 38° 44’ 19.90” W 9° 6’ 11.00” +351 213 877 777

ANJOS 70 | FC

CAFÉ/GALERIA DE ARTE Segunda das 17h00 às 23h00 Quarta a Sexta das 17h00 às 23h00 Sábado e Domingo das 15h00 às 23h00 Regueirão Dos Anjos, 70 1150-011 Lisboa N 38° 43’ 31.38” W 9° 8’ 9.02” www.anjos70.org

INDIEFRENTE

ORGANIZAÇÃO DE EVENTOS +351 924 040 214 www.facebook.com/indiefrente

BAR

Rua de São Paulo, 218 Cais de sodré, Lisboa N 38° 42’ 30.76’’ W 9° 8’ 47.54” +351 213 470 216 +351 916 735 926 info@tabernaculo.pt www.tabernaculo.pt

RADAR FM RÁDIO

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www.radarlisboa.fm


ALTERNATIVO CREW HASSAN | AV ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Segunda a Domingo das 12h00 às 24h00 Rua Portas de Santo Antão, 159 1150-269 Lisboa N 38° 43’ 2.46’’ W 6° 8’ 29.73’’ +351 218 120 373 +351 962 233 416 www.facebook.com/ccrewhassan

ZDB | BA

DAMAS | GM

BAR / SALA DE CONCERTOS A nova sala de concertos que é um bar, ou vice-versa. A melhor programação alternativa da cidade. Terça a Quinta das 13h00 às 2h00 Sexta e Sábado das 13h00 às 4h00 Domingo das 17h00 às 24h00 Rua da Voz do Operário, 60 1100-621 Lisboa N 38° 42’ 59.31’’ W 9° 7’ 45.99’’ +351 964 964 416

ASSOCIAÇÃO CULTURAL Rua da Barroca, 59 1200-049 Lisboa N 38° 42’ 42.68’’ W 9° 8’ 40.46’’ +351 213 430 205 www.zedosbois.org

CINEMA IDEAL | BCS CINEMA

Quando os cinemas de rua fecharam, abriu o Ideal, com programação alternativa e cuidada.

MIRADOURO DO ADAMASTOR | BCS

Rua do Loreto, 15/17 1200-106 Lisboa N 38° 42’ 38.20’’ W 9° 8’ 39.28’’ +351 210 998 295 www.cinemaideal.pt

O mítico Adamastor, onde o por do sol é mais bonito, o quiosque serve bebidas e tostas a preços para portugueses e onde o cheiro de substâncias ilícitas envolve um ambiente descontraído onde se cruzam músicos de rua, turistas e lisboetas.

BAIRRUS BODEGA | BA

ESPLANADA

Segunda a Domingo das 10h00 às 4h00 Miradouro de Rua de Santa Catarina, 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 34.10’’ W 9° 8’ 51.56’’ +351 213 430 582

BAR

Rua da Barroca, 3 1200-106 Lisboa N 38° 42’ 39.77”, W 9° 8’ 40.42” +351 213 469 060

49 | BA BAR

CHAPITÔ | CA Costa do Castelo, 1/7 1149-079 Lisboa N 38° 42’ 41.69’’ W 9° 8’ 1.77’’ + 351 218 855 550 www.chapito.org

INCÓGNITO | BC BAR

[140]

Quarta a Sábado das 23h00 às 4h00 Rua dos Poiais de São Bento, 37 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 38.96” W 9° 9’ 3.33” +351 213 908 755 www.facebook.com/incognitobar

Também conhecido como o bar da Zé dos Bois, instituição da cultura alternativa lisboeta. Bons DJ’s e um ambiente bem descontraído onde se cruzam faunas diferentes em amena convivência. Quarta e Quinta das 22h00 às 2h00 Sexta e Sábado das 22h00 às 3h00 Rua da Barroca, 49 1200-043 Lisboa N 38° 42’ 41.93’’ W 9° 8’ 40.48’’ +351 213 430 205

DESTERRO | AR

ARTES E ENTRETENIMENTO Terça a Sábado das 20h00 às 4h00 Calçada do Desterro, 7 1150-241 Lisboa N 38º 43’ 10.49” W 9º 8’ 10.83” +351 218 871 350 www.darc.pt


MULTICULTURAL EL ULTIMO TANGO | BA

CASA PAU-BRASIL | PR

Um dos melhores bifes de Lisboa, de carne argentina, grelhado, acompanhados de batata assada com manteiga de ervas e salada de agrião. Tudo em ambiente calmo, para fumadores e com o melhor tango do mundo como banda sonora.

Aberto das 12h00 às 20h00 Sábado e Domingo até às 18h00 Rua da Escola Politécnica, 42 1250-096 Lisboa N 38° 43’ 2.65”, W 9° 8’ 59.75” +351 213 420 954

RESTAURANTE

Segunda a Quinta das 19h30 às 23h00 Sexta e Sábado das 19h30 às 23h30 Rua do Diário de Notícias, 62 1200 Lisboa N 38° 42’ 43.96’’ W 9° 8’ 38.45’’ +351 213 420 341

ÁGUA DE BEBER | BCS BAR

Quarta, Quinta e Domingo das 18h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 3h00 Travessa de São Paulo, 8 1200-431 Lisboa N 38° 42’ 26.42” W 9° 8’ 34.28” +351 214 039 956

TEMPLO HINDU | FC RESTAURANTE

Segunda a Domingo das 12h30 às 14h30 e das 19h30 às 21h30 Alameda Mahatma Gandhi Complexo Comunidade Hindu 1600-500 Lisboa N 38° 46’ 12.42’’ W 9° 10’ 25.09’’ +351 217 524 982

LOJA

ATARY BABY | BCS RESTAURANTE

Sexta e Sábado das 13h00 às 3h00 Domingo a Quinta-feira das 18h00 à 1h00 Rua de São Paulo, 120 1200-429 Lisboa N 38° 42’ 28.94”, W 9° 8’ 42.03” +351 910 361 005

KAFFEEHAUS | BC RESTAURANTE BAR

Segunda das 12h00 às 16h00 Terça a Sexta das 12h00 às 24h00 Sábado das 11h00 às 24h00 Domingo e Feriados das 11h00 às 20h00 Rua Anchieta, 3 1200-023 Lisboa N 38° 42’ 35.50” W 9° 8’ 27.89” +351 210 956 828 www.kaffeehaus-lisboa.com

TRANSEPT | COA RESTAURANTE BAR

RESTAURANTE

Vá cedo, ou prepare-se para esperar. Aqui não há reservas, mas margaritas gulosas que não se consegue parar de beber. E tacos, muitos e variados, num ambiente animado e ruidoso. Almoço: Terça a Sexta das 12h00 às 15h00 Jantar: Segunda a Domingo das 18h00 às 00h00 Almoço: Domingo das 12h00 às 15h00 Rua da Boavista, 16 1200-427 Lisboa N 38° 42’ 31.14’’ W 9° 8’ 51.77’’ +351 213 420 482 www.pistolaycorazon.com

CAFEH TEHRAN | PR RESTAURANTE

Das 12h00 às 00h00 Encerra às Terças-Feiras Praça das Flores, 40 1200-257 Lisboa N 38° 42’ 54.76” W 9° 9’ 6.95” +351 210 736 530 www.facebook.com/CafehTehran

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PISTOLA Y CORAZÓN | BCS

Terça a Quinta das 17h30 às 2h00 Sexta e Sábado das 17h30 às 3h00 Domingo das 18h30 às 2h00 Rua São Bento, 45 1200 - 085 Lisboa N 38° 42’ 39.72” W 9° 9’ 9.69” +351 214 045 898 www.transept.pt


PARA ENTRAR MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA | SLM

MUSEU DA MOEDA | BC

A casa de Portugal. O nosso grande museu onde encontrará, entre uma enorme quantidade de obras-primas, os painéis de S. Vicente, obra máxima da pintura portuguesa.

Quarta a Sábado, das 10h00 às 18h00 Rua de S. Julião 150, 1100-150 Lisboa N 38° 42’ 32.80” W 9° 8’ 15.90” www.museudodinheiro.pt +351 213 213 240

Terça a Domingo das 10h00 às 18h00 Rua das Janelas Verdes 1249-017 Lisboa N 38° 42’ 21.52’’ W 9° 9’ 32.83’’ +351 213 912 800 www.museudearteantiga.pt

MUSEU DO CHIADO | BC

MAAT | ZR O novíssimo e vanguardista museu da Fundação EDP. Um edifício belíssimo sobre o Tejo e exposições de arte contemporânea pensadas para o local. Quarta a Segunda das 12h00 às 20h00 Av. Brasília, Central Tejo 1300-598 Lisboa N 38° 41’ 45.34’’ W 9° 11’ 40.03’’ +351 210 028 130 www.maat.pt

CONVENTO DOS CARDAES | PR Um tesouro escondido no centro da cidade. Não vamos dizer nada mais. Vá lá. Segunda a Sexta das 14h30 às 17h30 Rua Eduardo Coelho, 1 1200-164 Lisboa N 38° 42’ 53.53’’ W 9° 8’ 53.20’’ +351 213 427 525 www.conventodoscardaes.com

Rua Serpa Pinto, 4 1200-444 Lisboa N 38° 42’ 36.16” W 9° 8’ 30.42” +351 934447678 se.amadeo@gmail.com www.museuartecontemporanea.pt

CONVENTO DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA | BA Outubro a Março: de Terça-feira a Domingo, das 10h00 às 18h00. Segunda-feira das 14h00 às 18h00 Abril a Setembro: Terça-feira a Domingo, das 10h00 às 19h00. Segunda-feira das 14h00 às 19h00. Quinta-feira das 10h00 às 20h00. Rua São Pedro de Alcântara, 85 1200-089 Lisboa N 38° 42’ 51.04’’ W 9° 8’ 38.99’’

CULTURGEST | FC Segunda a Sábado das 12h30 às 18h30 R. Arco do Cego 50, 1000 Lisboa N 38° 44’ 24’’ W 9° 8’ 33’’ +351 217 905 155 www.culturgest.pt

MUSEU DO FADO | CA

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Terça a Domingo 10h00 às 18h00 Largo Chafariz de Dentro, 1 1100-139 Lisboa N 38° 44’ 27.38’’ , W 9° 8’ 33.44’’ +351 218 823 470 www.museudofado.pt


FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN | FC Segunda a Sexta das 9h00 às 13h00 e das 14h30 às 17h30 Av. de Berna, 45 A 1067 – 001 Lisboa N 38° 44’ 16.94’’ W 9° 9’ 18.29’’ +351 217 823 000 info@ gulbenkian.pt www.gulbenkian.pt

CARPINTARIA DE SÃO LAZARO | AR Quarta a sábado das 15h00 às 19h00 Rua São Lázaro, 72 1150-199 Lisboa N 38° 43’ 6.04” W 9° 8’ 10.77’’ www.facebook.com/CarpintariasdeSaoLazaro/

MUSEU DE LISBOA | FC Museu de Lisboa Palácio Pimenta Museu de Lisboa – Santo António Museu de Lisboa – Teatro Romano Terça a Domingo das 10h00 às 18h00 Museu de Lisboa – Casa dos Bicos De Segunda a Sábado das 10h00 às 18h00

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Palácio Pimenta Campo Grande 245, 1700-091 Lisboa N 38° 45’ 30.78” W 9° 9’ 23.10” +351 217 513 200 www.museudelisboa.pt


Fernando Aramburu

Com o Txato em Polloe

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Já vai para alguns anos que não sobe a pé até Polloe. Poder até podia, mas cansa‐se. E não é que se importe por se cansar, mas para quê, vamos lá ver, para quê? Além disso, consoante os dias, dão‐lhe assim uma espécie de picadelas na barriga. Então o que Bittori faz é apanhar o 9, que a deixa a poucos passos da entrada do cemitério, e no fim da visita desce a pé até à cidade. É que descer já é outra coisa. Apeou‐se atrás de uma senhora, eram elas as duas únicas pas‐ sageiras. Sexta‐feira, tranquilidade, bom tempo. E leu no arco da entrada: em breve se dirá de vós, o que costuma agora dizer-se de nós: morreram!! A mim não me impressionam assim com fra‐ sezinhas fúnebres. Pó sideral (tinha ouvido aquilo na televisão), é o que somos, a respirar ou a criar malvas. E embora detestasse a antipática inscrição, era incapaz de entrar no cemitério sem parar para a ler. Pois é, menina, podias ter deixado o casaco em casa. Estava a mais. Tinha‐o posto só para vestir de preto. Andou de luto durante o primeiro ano; depois, os filhos insistiram para que fizesse uma vida normal. Vida normal? Esses dois ingénuos não fazem ideia do que falam. Desejosa de que a deixassem tranquila, seguiu o conselho. Mas isso não impede que lhe pareça uma falta de respeito caminhar entre os mortos vestida às cores. Por isso, abriu o roupeiro à primeira hora da manhã, procurou uma peça de roupa preta que lhe tapasse as outras de diferentes tons de azul, viu o casaco e vestiu‐o, mesmo sabendo que ia passar calor.


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O Txato partilha a sepultura com os seus avós maternos e uma tia. A sepultura, ao lado de um caminho com uma inclinação suave, faz uma fila com outras semelhantes. Na lápide figuram o nome e os apelidos do defunto, a sua data de nascimento e a do dia em que o mataram. A alcunha, não. Nos dias anteriores ao enterro, uns familiares de Azpeitia aconselharam Bittori a abster‐se de pôr referências na lápide, emblemas ou sinais que identificassem o Txato como vítima da ETA. Assim evitaria problemas. Ela protestou: – Ouve, já o mataram uma vez. Não penso que voltem a matá‐ ‐lo. E não é que tivesse passado pela cabeça de Bittori mandar gravar na lápide uma explicação sobre o falecimento do marido; mas basta quererem dissuadi‐la de uma coisa para que se empe‐ nhe em pô‐la em prática. Xabier deu razão aos parentes. E na lápide só foram gravados o nome e as datas. Nerea, por telefone, de Saragoça, teve a ousa‐ dia de propor que falseassem a segunda. Espanto: como? – Lembrei‐me de que na sepultura podia ficar a data anterior ou a posterior à do atentado. Xabier encolheu os ombros. Bittori disse que nem pensar nisso. Passados uns anos, quando pintalgaram a lápide de Gregorio Ordóñez, que jaz a uns cem metros da sepultura do Txato, Nerea – que inoportuna! – trouxe à conversa


aquele velho assunto que na realidade já todos tinham esquecido. Com a foto do jornal à vista, para a mãe: – Vês como era melhor ter o aita um pouco protegido? Olha do que nos livrámos. Então Bittori depositou com força o garfo em cima da mesa e disse que se ia embora. – Aonde é que vais? – De repente perdi o apetite. Saiu de casa da filha, de sobrolho franzido, colérica no andar, e Quique, ao mesmo tempo que acendia um cigarro, pôs os olhos em alvo. A fila de sepulturas estende‐se em bateria ao lado do cami‐ nho. O bom para Bittori é que, como o rebordo sobressai dois palmos do chão, ela pode sentar‐se sem dificuldade em cima da pedra. Claro, se chove, não. E em todo o caso, como a pedra costuma estar fria (e com líquen e com a sujidade inevitável dos anos), ela leva sempre na mala um quadrado de plástico recortado de um saco do supermercado e um lenço do pescoço para usar como almofada. Senta‐se em cima e conta ao Txato o que tiver a contar. Se há gente por perto, fala com ele em pen‐ samento; se não há ninguém, que é o habitual, no tom de quem conversa. – A filha já está em Londres. Suponho que sim, claro, porque não se deu ao trabalho de me ligar. Ligou‐te a ti? A mim, não. Como na televisão não falaram de nenhum acidente de avião, deduzo que os dois terão chegado a Londres e estarão muito ocupados a ver se salvam o casamento. No primeiro ano, Bittori colocou quatro vasos sobre a pedra. Cuidava deles regularmente. Ficavam bonitos. Depois esteve um tempo sem subir ao cemitério. As plantas secaram‐se‐lhe. As seguintes duraram até à primeira geada. Comprou um vaso de grandes dimensões. Xabier carregou com ele num carro de mão. Os dois plantaram lá dentro um pequeno arbusto de buxo. Uma manhã, apareceu virado, com o vaso partido, parte da terra espalhada sobre a pedra. Desde então não há adornos em cima da sepultura do Txato. – Falo como me apetecer e ninguém me vai impedir, e tu menos ainda. Se eu estou a brincar? Já não sou como quando tu eras vivo. Fiquei má. Bom, má não. Fria, distante. Se ressuscitas‐ ses, não me reconhecias. E não penses que a tua filha querida, a tua preferida, não tem muito a ver com esta minha mudança. Põe‐me os nervos em pé. Tal como quando era pequena. Com a tua bênção, claro. Porque sempre a defendeste. E assim deixa‐ vas‐me sem autoridade e nunca aprendeu a respeitar‐me. Havia um espaço de areia três ou quatro sepulturas mais acima, junto ao caminho asfaltado. E Bittori ficou a olhar para um casal de pardais que acabava de poisar naquele sítio. Com as asas abertas, os passarinhos davam um ao outro um banho de areia. – A outra coisa que eu queria dizer‐te é que o grupo decidiu deixar de matar. Ainda não se sabe se o anúncio é a sério ou se se trata de um truque para ganhar tempo e rearmar‐se. Matem ou não, a ti já pouco te adiantará. E não penses que a mim adiantará muito mais. Tenho uma grande necessidade de saber. Sempre a tive. E não me vão deter. Ninguém me vai deter. Nem os filhos. Se é que se apercebem disso. Porque eu não vou dizer‐lhes nada. És o único a saber. Não me interrompas. O único que sabe que vou voltar. Não, à prisão não posso ir. Nem sequer sei em qual é que esse malvado está. Mas eles de certeza que continuam na povoação. E além disso pica‐me muito a curiosidade de ver em que estado é que se encontra a nossa casa. Tu, tem calma, Txato, Txatito, porque Nerea está no estrangeiro e Xabier, como sem‐ pre, vive para o seu trabalho. Não vão dar por isso. Os pardais tinham desaparecido. – Juro‐te que não exagero. É uma necessidade muito grande de estar finalmente de bem comigo, de poder sentar‐me e dizer: muito bem, acabou‐se. O que é que se acabou? Pois, olha, Txato, também preciso de descobrir isso. E a resposta, se é que a há, só pode estar na povoação e por isso é que lá vou, hoje mesmo, à tarde. Pôs‐se de pé. Dobrou o lenço com cuidado e o quadrado de plástico, e guardou‐os. – Enfim, já te informei. Tu por aqui ficas.

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Excerto do livro “Pátria” de Fernando Aramburu, Edições D.Quixote


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NOTA PARA O VELHO MUNDO

por Francisco Mallmann

refaz tua história esquece o mito a lenda reescreve o romance a fábula aniquila a narrativa a tradição

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eu já não sou matéria tua


O ÚLTIMO EUROPEU UMA UTOPIA - DISTOPIA por Miguel Real

A grande motivação para a escrita de O Último Europeu. 2284 residiu na actual situação política da Europa. A Europa tem todas as condições para criar uma sociedade feliz, ou, pelo menos, menos utopista, com abundância de felicidade entre as suas populações. Tem recursos, tem qualificação técnica, tem habitantes letrados e tolerantes, tem uma política correcta relativa aos direitos ambientais, tem um património civilizacional milenar, tem uma sólida democracia, tem instituições fortes de defesa dos direitos humanos, tem uma filosofia que funde a tradição cristã da compaixão e misericórdia com a tolerância laica ao nível do Estado e do cidadão. Por isso, pode construir uma “Nova Europa”, onde a felicidade individual e colectiva se imponha pela primeira vez na História, onde a “abastança” (termo de padre António Vieira e um dos pilares do seu Quinto Império) seja partilhada e dominante. Porém, porventura devida à falibilidade, à competição e à ganância dos seus líderes, a Europa parece apostada em caminhar para o abismo, entregando o poder às grandes corporações, ao instinto bélico de políticos fracos e ao egoísmo das nações, que, acomodadas, recusam a partilha do bolo comum e a solidariedade europeia entre fracos e fortes. Alguns Estados, por preconceito, por enfatização da religião do seu povo, recusam receber refugiados islâmicos no momento em que o continente, para evoluir tecnológica e industrialmente, precisa com urgência de 50 milhões de trabalhadores. É a política da “Velha Europa”, que nos pode conduzir ao caos – dividir para reinar, dividir para cada um se mostrar superior aos outros, dividir a partir de antigos orgulhos nacionalistas de pastiche.

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Neste sentido, O Último Europeu é um grito de alerta, uma narrativa utópico-distópica que intenta avisar quanto o século XXI, dominado por uma civilização técnico-científica, tem o futuro da Europa nas mãos – um futuro branco (a “Nova Europa”) ou um futuro negro, tecido de caos e horror (a “Velha Europa”). O antigo horror colectivo da tempestade no mar do naufrágio reproduz-se na “tempestade” da

guerra de fogo. A propósito da primeira, João de Barros escreveu ser o grande Oceano a principal sepultura dos portugueses desde o início dos Descobrimentos. Dentro de cem/duzentos anos, talvez tenhamos de dizer ser a terra toda, devastada pelo Homem, o grande cemitério da espécie humana. Não temos sido capazes de criar e obedecer a uma nova ética humanística conciliadora da igualdade e da liberdade, da tradição e da inovação, dos direitos e dos deveres, do progresso tecnológico e da cultura histórica, do individualismo e da coesão social, do passado com o presente da Europa, da participação cívica e de uma política do bem comum e da responsabilidade individual. Ao fim e ao cabo, conciliar, com um sentido de futuro, a permanência dos valores essenciais da nossa civilização judaico-cristã e o contributo do individualismo e da iniciativa liberais da Idade Moderna com os desafios concretos da história da Europa da actualidade. Enquanto o não formos capazes, no mar ou na terra queimada, os naufrágios continuarão a existir. A Europa naufraga hoje, é um continente politicamente à deriva e os homens que o conduzem não parecem ter o sentido da História, o conhecimento suficiente do passado para impedir que no futuro – um futuro para breve – aconteça de novo o espírito da “Velha Europa” que W. G. Sebald narrou em História Natural da Destruição (Quetzal, 2017, pp. 35 – 37): “No pino do Verão de 1943, durante uma persistente vaga de calor, a Royal Air Force, apoiada pela 8ª Esquadrilha americana, desencadeou uma série de ataques a Hamburgo. O objectivo desta acção conhecida como «Operação Gomorra» foi arrasar e reduzir a cinzas o mais possível a cidade. No ataque da madrugada de 27 de Julho, iniciado à uma hora da manhã, foram lançadas 10 mil toneladas de bombas explosivas e incendiárias sobre a zona residencial densamente povoada a leste do Elba (…). Seguiu-se o processo já conhecido, todas as portas e janelas foram arrancadas dos caixilhos mediante bombas explosivas de quatro mil libras, a seguir ateados os últimos andares dos prédios com misturas ígneas leves ao mesmo tempo que


Em 2284 (alusão semântica a 1984, distopia de George Orwell), a Europa é maioritariamente composta por Baldios governados por clãs guerreiros que escravizam as populações esfomeadas; subsiste, porém, um território isolado por um cordão de segurança com uma sociedade que, por via da ciência e da tecnologia, atingiu um nível altíssimo de felicidade individual, pois todos os desejos podem ser consumados, ainda que apenas mentalmente. Nesta “Nova Europa”, as relações sexuais são livres e não se destinam à procriação: as crianças, desconhecendo os pais, nascem nos Criatórios em placentas sintéticas e seguem para Colégios onde, sem a ajuda de livros, andróides especializados incrementam as suas competências como futuros Cidadãos Dourados. As famílias reúnem-se por afinidades, ninguém trabalha e nem sequer existem nomes, para que ninguém se distinga, já que todas as conquistas se fazem em nome da comunidade. Mas este mundo aparentemente perfeito sofre

uma inesperada ameaça: a Grande Ásia, lutando com graves problemas de demografia, acaba de invadir a Europa. Um velho Reitor, estudioso do passado, é chamado a liderar uma equipa que possa refundar na ilha do Pico, do arquipélago dos Açores a Nova Europa e a deixar testemunho da sua História. Em 2284, não existem livros e as crianças, desconhecendo pai e mãe, nascem nos Criatórios em placentas sintéticas por efeito de células reprodutoras aperfeiçoadas e seguem para Colégios onde, educados por Agenciadores e Acratas, andróides especializados incrementam as suas competências como futuros Cidadãos Dourados. Em 2284, não existem nomes individuais. O Cidadão Dourado é identificado através de um Distintivo criado e lido informaticamente na linguagem Universalis. Em 2284, o regime alimentar não é carnívoro nem vegetariano, sorve-se pó alimentício, não existem estabelecimentos prisionais, não existe trabalho e todo o desejo pode ser consumado, ainda que mentalmente, inscrito porém no hiper-córtex como tendo sido verdadeiramente realizado. Em 2284, a família não existe para o efeito de reprodução sexual e de educação dos filhos, a actividade sexual é livre e em cada Conglomerado existem Casas de Deleite oferecidas ao prazer do Cidadão Dourado. Paralela à “Nova Europa“, onde, por via da ciência e da tecnologia, se atingiram os mais excelsos níveis de felicidade individual para 100 milhões de habitantes, reina a “Velha Europa”, coito de clãs militares e empresariais, que escravizam as populações forçando-as a trabalhar para sobreviver. Ambas – Nova e Velha Europa – são inesperadamente intimidadas por uma ameaça externa provinda da Ásia. Como no auge civilizacional do Império Romano (cidades providas de esgotos, de banhos públicos, de parlamentos, de escrita, e perfumes, de vidros e espelhos, de trajes e gastronomia requintados…), hordas de bárbaros, desprovidos de requinte cultural e civilizacional, assomam às portas da cidade, conquistando-a, arrasando-a, matando ou escravizando os seus habitantes, fazendo a Europa regressar mil anos atrás. Será que em 2284, regressaremos à barbárie, ao poder da Força, alimentada então pela tecnologia de ponta, ou avançaremos para uma sociedade electrónica e informática, que satisfaz os prazeres individuais mais narcisistas e hedonistas, ainda que mentalmente? Estranha alternativa – ou o caos (a distopia) ou a felicidade virtual (a utopia). É motivo para dizer com força, muita força – venha o diabo e escolha!

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as bombas incendiárias com 15 quilos de peso atingiam os andares inferiores. Dentro de poucos minutos tudo ardia nos cerca de 20 quilómetros quadrados da área-alvo em incêndios gigantescos, tão rapidamente ateados que um quarto de hora depois da queda das primeiras bombas toda a atmosfera era um mar de chamas até onde a vista alcançava. E passados mais cinco minutos, cerca de uma hora e vinte, elevou-se uma tempestade de fogo de uma intensidade que até então se julgaria impossível. O fogo, que se erguia a dois mil metros no ar, sugava o oxigénio com tal força que as correntes de ar atingiam a violência de um furacão e ressoavam como poderosos órgãos com todos os tubos abertos. Tudo ardeu assim durante três horas. No seu auge, a tempestade levantou coberturas e telhados de casas, atirou ao ar vigas e tabuletas inteiras, arrancou árvores do solo e levou pessoas à sua frente como tochas vivas. Por trás das fachadas em derrocada as labaredas disparavam à altura das casas, rolavam como um vagalhão pelas ruas com a velocidade de 50 quilómetros por hora, giravam nas praças abertas com o ritmo estranho de uma valsa de fogo. Em alguns canais a água ardia. Os vidros das janelas dos eléctricos derreteram, o açúcar armazenado ferveu nas caves das padarias. Os que tinham fugido dos seus abrigos afundaram-se, grotescamente contorcidos, nas bolhas espessas formadas pelo asfalto derretido. Não se sabe realmente quantos perderam a vida nessa noite nem quantos enlouqueceram antes de a morte os levar. (…) Bairros residenciais, uma rede de ruas de uns 200 quilómetros de extensão, ficaram totalmente destruídos. Por toda a parte havia cadáveres horrivelmente desfigurados. Em muitos deles luziam ainda chamas de fósforo azuladas, outros estavam queimados com uma cor castanha ou roxa e reduzidos a um terço do seu tamanho normal. Jaziam dobrados em poças da sua própria gordura derretida.” É o que designámos em Último Europeu como o espírito da “Velha Europa”.


Na Europa por André Serpa Soares

Na Europa, somos portugueses, fora da Europa, somos europeus. Na Europa, passeando pelas ruas de Paris, Berlim, Londres, Madrid, Bruxelas, Atenas, Roma, Estocolmo ou Amesterdão, sinto-me “em casa”, experimento uma sensação de pertença. Não sou completamente dali, mas sou dali. Até em Varsóvia, Praga, Budapeste ou Belgrado, um europeu sente-se sempre perto de casa, senão em casa. Por aquelas ruas, naqueles edifícios, está sempre algo da nossa história comum, da herança cultural partilhada que nos identifica enquanto povos. É na história e na cultura que mais nos identificamos com os nossos vizinhos europeus. E essa história, e essa cultura, influenciam um certo “modo de estar” e de ser europeu. Obviamente há, entre os incrivelmente diversos povos europeus, muitas diferenças. Um país que tenha recebido uma enorme influência latina – grosso modo, os países do Sul da Europa – é diferente, as suas pessoas são diferentes, de um país do Norte. Nota-se em muitos aspectos, sobretudo na maneira de ser e de estar. Mas de todas as viagens que fiz – e tenho o privilégio de poder dizer que já são incontáveis – descubro que os europeus têm muito mais em comum do que à partida se imagina. E o projecto da CEE, agora União Europeia, veio intensificar essa proximidade entre os europeus.

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Na Europa, sinto-me em casa, como em nenhum outro lado.

É verdade que, em África, nos países de língua portuguesa, sentimo-nos também em casa, como se pertencêssemos aquele lugar. Mas não é a mesma coisa, apesar de toda a afectividade que se sente, de tanta história comum. É como se estivéssemos em casa, sim, mas no jardim, em vez de estarmos no conforto do interior. Não sei como explicar melhor, é um pouco isto que sinto de cada vez que vou aos países africanos de língua portuguesa. Note-se, evidentemente, que o jardim é uma das partes da casa em que mais gosto de estar. Na Ásia – onde vivi uns anos e viajei bastante, nas américas - com destaque para os dois grandes países, Estados Unidos da América a Norte, Brasil a Sul, que são os que conheço melhor - sinto-me completamente… Europeu. E sei que me olham como europeu, ainda por cima de um país “estranho”, Portugal, que os brasileiros obviamente sabem perfeitamente o que é, mas os outros povos nem por isso. Os portugueses têm uma particularidade em relação aos restantes europeus: somos o povo que não se conteve no seu país nem se limitou a erguer colónias. Somos o povo europeu do mundo, os primeiros inventores da globalização, os que foram a todo o lado, com ganas de mundo, e em todo o lado deixaram marcas. Isso faz-nos um pouco menos europeus aos olhos dos “outros”, somos mais próximos, somos mais “lá de casa”. Mas tudo isso é também história. Para as novas gerações de portugueses, para este Portugal democrático e totalmente embrenhado na União Europeia, seremos sempre portugueses primeiro, mas a nossa casa é cada vez mais a Europa. E quem descobre Portugal, hoje em dia tão na moda, percebe isso facilmente. Aqui é Europa. E os portugueses que viajam e conhecem o mundo, percebem também de imediato. Somos portugueses na Europa, somos europeus no mundo.


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POSTAIS PERDIDOS Por João Albuquerque Carreiras 28-XI-06 Minha querida

Voltei a onde nos conhecemos. Como sabes gosto de voltar, de percorrer de novo os caminhos que marcaram a minha vida, de reviver com outros olhos o passado de que fui construído. Voltei e tudo está igual assim como tudo está diferente. Salamanca permanece a cidade deslumbrante que conhecemos. A Plaza Mayor nunca vazia e sempre cruzada qualquer que seja o nosso caminho, com a pedra de Villamayor brilhando ao sol de fim de dia como se os bustos quisessem ganhar vida e libertarem-se das colunas sobre as quais repousam. Os estudantes, sempre os estudantes como nós fomos, num burburinho que dura todo o dia e se acentua quando a noite já caiu e grupos se encontram debaixo do relógio, esse tão habitual e recorrente ponto de encontro dos tempos em que os telemóveis não existiam e precisávamos de hora e sítio.

Voltei aos nossos sítios, aqueles onde deixámos correr o tempo em conversas infinitas sobre nós, a vida, o mundo, os nossos sonhos, em frente a tapas e copos de vinho. Aos lugares onde dançámos até de madrugada, onde sorrimos e esquecemos o mundo. Alguns fecharam, não se fechando nas nossas memórias, outros permanecem iguais, ou quase iguais pois já por nós não são habitados. Gosto de voltar por tudo o que permanece igual, mas também pela nostalgia do que mudou, acima de tudo gosto de voltar, ainda que o que mais falte sejas tu, tu e os outros que fizeram da nossa vida em Salamanca um momento especial que mudou o nosso destino. Nem que seja por nos termos conhecido. Só por isso já teria valido a pena. Sendo que para além disso houve Salamanca, esta cidade que é minha. “Un beso enorme, te echo de menos”, João

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Percorri sem destino, como tantas vezes, estas ruas que me encantam, como se me encontrasse no cenário de um filme sobre a minha vida e tudo estivesse elevado a um estado onírico de paixão. A Calle Rua, que passado o arco nos leva direito às Catedrais, essa coisa tão única que Salamanca tem de manter duas catedrais uma encaixada na outra. Voltar ao Pátio de Escuelas, relembrar o “Burgueses de Calais” que aqui estiveram expostos, e pensar na história, no conhecimento, nas pessoas que aqui passaram. Entrar no claustro de “Las Dueñas” e maravilharme, como da primeira vez, com este lugar tão único e meu, onde fico apenas olhando e sentindo a especial aura que o envolve, sem esquecer de, à saída, comprar os deliciosos bolos feitos com carinho pelas freiras de clausura. Não me caso de passear nesta cidade, de descer ao rio e olhar da outra margem do Tormes a silhueta da cidade ao por-do-sol.


Somos todos

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“Primaveras”


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por João Moreira

Nuno Maia

Hugo Lima

“So I’ll set my eyes to the wind

But it won’t be easy to leave it all again Just a bit run down here on the sea There’s just a stranger living in me” The War On Drugs, “Eyes to the wind”

Foi preciso que o mais icónico festival de verão do país atingisse a maioridade para que os seus mentores se aventurassem a transportar para o Porto o inconfundível espírito de Paredes de Coura. Durante 18 anos habituaram-se a levar mundo ao mais pobre dos concelhos de Viana de Castelo e a encher de orgulho as gentes de uma terra habituada ao abandono. De há 7 anos a esta parte, com o mesmo espírito de devoção e de partilha, transformam anualmente o Parque da Cidade do Porto, esse imenso mar de verde de olhos postos no Atlântico, num espaço musical mítico, onde a música se ouve, se recebe e se partilha de forma especial.

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“O NOS Primavera Sound não é um festival igual aos outros”, afirma em conversa com a Bica José Barreiro, o sociólogo, que juntamente com João Carvalho, Filipe Lopes e Vítor Pereira fundou o Festival de Paredes de Coura e hoje é responsável pela organização do festival que atrai ao Porto “uma imensa minoria”.


Como surgiu a ideia de fazer o NOS Primavera Sound? José Barreiro: Acho que foi um passo natural para a nossa empresa que, na altura, já fazia o Paredes de Coura há 18 anos. Foi precisamente nos 18 anos de Paredes que ocorreu a ideia de fazermos um festival no Porto. Nessa altura começava a despontar na cidade este novo boom de turismo que, 10 anos depois, está sedimentado. Uma renovação que a cidade está a sofrer nos últimos tempos e a que eu, que vivo no Porto há quinze anos, tenho acompanhado. Na altura a cidade não tinha nenhum festival. Começar do zero com um nome qualquer ia ser muito complicado e, como tínhamos uma relação de alguma amizade com as pessoas que organizavam o Primavera Sound de Barcelona, acabou por ser um passo natural lançar o desafio a esses parceiros. Eles nunca tinham experimentado fazer o evento fora da Catalunha, o que implicou um processo de convencimento que passou por eles virem ao Porto e terem adorado tudo, nomeadamente o Parque da Cidade. Acho que o Porto tem esta característica - convence facilmente as pessoas. A gastronomia e a beleza natural do Parque da Cidade foram factores decisivos para que aceitassem o desafio. Já tinham imensos convites de toda a Europa para a expansão do festival e nunca tinham dado esse passo. Tinha de ser no Porto!

Achas que isso se deveu ao impacto que já tinha o festival em Paredes de Coura? Sim, isso foi um factor decisivo. Eles já lá tinham estado e acho que pensaram que quem faz no meio das montanhas um festival destes, com uma produção cojonuda como eles dizem, é capaz de fazer em qualquer lado. Paredes, essencialmente para a nossa credibilidade profissional, foi o nosso grande cartão de visita. Entretanto, este ano já é a 7ª edição do festival. É uma referência não só do norte de Portugal mas também uma referência nacional. Temos conseguido fazer uma programação dentro do que tínhamos projectado, que passa por ser um bocado fora do que normalmente os outros festivais programam.

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Essa foi a ideia inicial? Fazer uma programação alternativa? Inicialmente era esta a ideia. Até porque o Parque da Cidade não consegue comportar a grandiosidade do festival de Barcelona que é para 70 mil pessoas e com 12 palcos. Quisemos fazer aqui um festival gourmet, um festival muito mais bonito, até porque, logo à partida, o Parque da Cidade é muito mais

bonito do que o fórum de Barcelona, embora tivéssemos partilhado muitas outras coisas como, por exemplo, a proximidade ao mar. Basicamente, tivemos noção de que, se não conseguíamos colocar 60 ou 70 mil pessoas no Parque da Cidade, tínhamos de fazer algo especial. Há imensos projectos que não estão em Barcelona e estão cá directamente. Queríamos fazer algo que não era comum em Portugal. Isto porque, no fundo, andávamos todos atrás do mesmo. Todos os festivais andavam atrás dos artistas disponíveis, a entrar nas mesmas disputas pelos artistas. Quisemos fugir um bocado a esse registo.

Já Paredes de Coura era assim. Sempre com uma lógica musical diferenciadora, que ainda hoje se mantém. Sim. Com a possibilidade de, aqui, no Primavera, podermos arriscar um bocado mais. Estamos em ambiente urbano e temos uma cidade com muitos turistas. No início, o Primavera serviu para projectar a cidade internacionalmente. Na 1ª edição tivemos 10 mil estrangeiros. Eram mais estrangeiros que portugueses. Embora esse número tenha aumentado um pouco, agora, como o público nacional cresceu imenso, estão muito mais diluídos. Em termos de coerência musical, quisemos fazer algo que fugisse um bocado ao que estava instituído. Queríamos que cada cartaz do Primavera apenas fosse possível ou fizesse sentido nesse ano específico. Sabemos que os grandes artistas são intemporais e que regressam passados 10 anos e esgotam novamente. Isso é o óbvio. O que nos desafia é fazer algo diferente. Bem feito, bem produzido e num local edílico. Neste momento, um bom indicador do sucesso do NOS Primavera Sound é a expectativa que o lançamento do cartaz gera. Há imenso frenesim.

Quais são as surpresas para este ano? Em Paredes de Coura há de alguma forma uma permanente alteração da estrutura, inclusivamente física, do festival. Aqui, vamos ter novos palcos? Podes levantar um pouco o véu? Vamos ter grandes alterações no desenho do festival. Logo, à partida, vamos ter um palco numa zona nova, que no fundo vai ser uma alternativa ao palco principal. Este ano apostámos muito na programação. Reforçámos muito o orçamento para contratação artística, pelo que tínhamos de ter outro palco grande. Assim, definimos uma zona nova que vai ser uma surpresa para as pessoas e que queremos que seja uma experiência muito agradável. Posso dizer que será um palco paralelo com música em contínuo das 5 da tarde até à 1 da manhã. A zona electrónica,


pura e dura, de DJs, também vai ocupar uma zona diferente. Vai ser um espaço totalmente remodelado. Vai ser uma surpresa com grande impacto onde as pessoas vão dizer “Uau! Eles conseguiram fazer uma discoteca a sério dentro do festival!”. Depois, vamos ter muitas mudanças em termos de localização de determinados espaços, isto porque no ano passado notámos alguma pressão de público sobre alguns serviços do festival e, distribuindo melhor esses espaços no recinto, as coisas vão naturalmente correr ainda melhor. Queremos que as pessoas circulem mais pelo recinto para que consigam ter a percepção da verdadeira dimensão do NOS Primavera Sound.

Em 2012, na primeira edição do evento, levámos a gastronomia de referência da cidade para o festival. Se calhar foi por termos chegados aos 40 anos e já não nos apetecer um hambúrguer ou um cachorro mal feito. Pode haver, mas tem de ser bom. Tem de ter qualidade. Isso veio da nossa própria exigência, e a cidade e o público agradeceram. Neste momento, quase todos tentam fazer o mesmo. É evidente que depende muito do local onde estão inseridos, e há experiências muito boas e outras muito más.

O NOS Primavera Sound já é assumidamente uma referência da música alternativa em Portugal e é uma montra do que de bom se vai fazendo no mundo. Esta ousadia traz, no entanto, um enorme peso e responsabilidade. Como é que lidam com essa pressão?

A Câmara do Porto tem um olhar muito atento para a cultura e o facto de compreenderem a nossa linguagem facilita muito as coisas. Eles partilham a ideia de que o festival é um factor de atracção turística e que é um emblema da cidade do Porto. É, no entanto, importante referir que a cidade também beneficia o evento. O Porto hoje tem uma capacidade de trazer pessoas de fora que era impensável há uns anos. Quando começámos, a cidade tinha muito menos dinâmica. Nas primeiras edições notava-se o público do festival nas ruas. Era normal dizerem “Olha os Primaveras!”. Hoje estão completamente diluídos. Já não se sabe se estão cá para o festival ou se são turistas normais. Neste momento podemos dizer que o Primavera é importante para o Porto, mas que a cidade também é importante para o festival. Hoje a cidade e o festival já se tratam por tu.

Esse brainstorming é mais das pessoas que organizam o festival em Barcelona ou é mais feito localmente com ideias e sugestões vossas? A equipa de Barcelona é também parceira no Porto. As grandes decisões, as grandes apostas, a direcção em que queremos caminhar é definida em conjunto, mas pensando especificamente no Porto. O Porto é pensado no Porto! Por isso é que o festival é um sucesso. Queremos todos os anos subir a fasquia e aumentar a qualidade e experiência que as pessoas têm no festival. O nosso espírito irreverente faz com que não dêmos nada por adquirido e que tentemos sempre criar coisas novas. Não nos contentamos em fazer a mesma coisa todos os anos. Acho que temos sido bem sucedidos e esta edição tem novos objectivos e é, obviamente, mais um enorme desafio.

Sentes que hoje há uma aceitação generalizada, até de outras organizações de festivais, de olhar para o NOS Primavera Sound como uma referência?

E como serão os próximos anos? Já têm alguma ideia? Muitas! O mercado é muito concorrencial e de certeza que teremos novos desafios. Na nossa área temos de tentar permanentemente ser inovadores. Não fechamos a porta a nada e analisamos todos os convites e sugestões que nos enviam. Não sei exactamente o que vai acontecer, mas seguramente vamos fazer coisas novas.

Há 20, 10, ou mesmo 5 anos atrás, não havia a proliferação de concertos com cabeças de cartaz e grandes bandas mundiais a vir a Portugal. Éramos completamente periféricos, mas, hoje, este cenário mudou radicalmente. Esta actual dinâmica não tira, no entanto, público ao NOS Primavera Sound, mas acaba por representar um enorme desafio. Achas que esta concorrência está a atingir um patamar exagerado ou pelo contrário, quanto mais festivais e concertos melhor? [161]

Como referi há pouco, o cartaz de 2018 só podia ser feito este ano. O Nick Cave é intemporal, mas o Arca, as Ibeyi, os Yellow Days, não. Ou seja, cada cartaz é o reflexo do ano. Isto é muito difícil e exige muita dedicação e atenção às tendências. Temos um departamento de booking em Barcelona que ajuda imenso, porque é muito difícil programar para o mesmo festival desde heavy metal às tendências mais de nicho da música electrónica. Isto só é possível porque temos pessoas muito boas a trabalhar connosco.

Houve uma boa parceria desde o início com as instituições da cidade, nomeadamente com a Câmara Municipal?


Sinceramente, não me preocupo muito com a proliferação de festivais. Continuo a pensar que é importante olhar para concorrência, mas num sentido mais amplo. A nossa concorrência tanto está num outro evento musical quanto numa viagem a Roma ou a Londres, ou num jantar mais caro que a pessoa decidiu oferecer à família. Por que é que eu hei-de considerar que os outros festivais são concorrentes, ainda para mais quando o público não é o mesmo? O estrangeiro que vai ao NOS Alive não é o mesmo que vem ao NOS Primavera Sound. São completamente diferentes! Antes de sermos concorrentes, somos complementares. Não digo quanto mais, melhor, porque a tendência é para, quanto mais se faz, fazer pior, mas agora, eventos de qualidade, venham eles. Todos temos a ganhar com isso.

Já sei que este ano vão ter parceiros novos, o que mostra o crescimento e a adesão de novas empresas que se revêem no projecto. Nesta área, nunca vemos um patrocínio numa perspectiva meramente financeira, mas sempre numa lógica de identificar e seleccionar parceiros que valorizem o festival. Queremos marcas que se identifiquem com o nosso público e que partilhem os nossos valores.

O que é que achas que vai ser realmente surpreendente nesta edição?

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É evidente que nos preocupámos com todos os pormenores, mas, acima de tudo, as propostas musicais deste ano sobrepõem-se a qualquer alteração no recinto e no próprio festival. É um cartaz que, no seu conjunto, tem muito sumo. Há muita coisa diferente. Há muita coisa actual e muita outra que vai marcar o panorama musical dos próximos anos. Só queremos que as pessoas, depois de entrarem no recinto, não tenham outra preocupação que não seja ver os concertos. Vamos limitar ao máximo as filas para que não se perca tempo em tudo o que não seja o essencial. E o essencial é ouvir música e aproveitar o fantástico cartaz que temos nesta edição do NOS Primavera Sound de 2018.


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Zelig e o Mockumentary

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por José Pedro Pinto

Zelig (1983) é uma anomalia no cinema narrativo: trata-se de uma ficção que conta a sua história recorrendo exclusivamente às convenções do documentário. A técnica é hoje relativamente conhecida e quando Woody a utilizou no seu filme também não inventou nada, sendo A Hard Day’s Night (1964) um precedente particularmente famoso (sem nos afastarmos muito do cinema, pode-se até recordar o incidente da emissão d’ A Guerra dos Mundos de 1938, de Orson Welles, como um outro precursor da técnica). O próprio Woody já tinha feito experiências com este formato antes de Zelig, com o seu brilhante (hoje praticamente desconhecido) O Inimigo Público (1969), incluindo um narrador intermitente que descrevia os eventos mais importantes da vida do protagonista. Depois do This is Spinal Tap, distribuído um ano depois do Zelig, o género passou a fazer definitivamente parte da cultura popular, e é hoje explorado, mais notavelmente, por Sacha Baron Cohen.

Mas em termo mais teóricos, o que é o mockumentary? Para melhor explicar esta anomalia do cinema narrativo, parece-me proveitoso compará-la à norma: o modelo narrativo clássico do cinema pressupõe a existência de uma história, que será arranjada numa narrativa não necessariamente linear, que por sua vez será narrada, isto é, transmitida ao fruidor, sob uma forma particular. Este processo pressupõe a existência de um narrador – não de um narrador no sentido de uma entidade (diegética ou não) que recorre à sua voz para relatar o filme – mas no sentido de uma instância omnisciente que organiza o conjunto, que é o “autor” da narrativa. O mocukumentary também pressupõe que há uma história a contar, só que a sua narração é feita de modo a implicar que a história é verídica, adotando as convenções estilísticas do documentário – em oposição ao modelo do cinema clássico, que utiliza uma linguagem supostamente invisível para


Woody Allen fez experiências com outras abordagens ao mockumentary (ao utilizar um narrador com tom jornalístico em O Inimigo Público, ou ao entrevistar-se a si próprio e a outros em Maridos e Mulheres (1992), no papel de personagens do filme), ao que se pode chamar de “mock-docudrama” (ao entrevistar-se a si próprio e a outros em Através da Noite [1999], sendo eles próprios, dando opiniões sobre uma personagem fictícia como se fosse uma personagem histórica). Também Os Dias da Rádio (1987) se inclui nestas experiências, mas é de definição um pouco mais difícil, uma vez que, como Roger Ebert observou, “aquilo que evoca não é passado em si, mas a memória do passado” (EBERT, 1987) (tradução livre). Obviamente que a definição de mockumentary e as abordagens possíveis ao género são tudo menos estanques, mas há uma questão essencial que se impõe independentemente do filme: porquê contar a história dessa maneira e não de outra? Até agora, o mockumentary tem sido associado principalmente à comédia, o que não é difícil de entender: a grande maioria do stand-up comedy, por exemplo, baseia-se na narração de histórias falsas e exageros da vida real – e é muitas vezes do choque entre contar uma mentira como se fosse verdade e da consciência do público deste choque, que surge o humor. É pertinente salientar que Woody Allen, antes de se estrear como realizador,

era um comediante de stand-up brilhante, com sucesso suficiente para ter substituído o próprio Johnny Carson na apresentação do Tonight Show durante uma semana em 1964, pelo que é natural que ele estivesse muito consciente do poder humorístico da mistura entre realidade e ficção. Será provavelmente esse o principal motivo da escolha de Woody de contar a história de Leonard Zelig sob a forma de documentário. Outra justificação plausível para o uso da estética do documentário é o de dar ao filme uma impressão maior de “realidade”. É com este objetivo que, desde o Blair Witch Project (1999), também os filmes de horror adotaram as convenções do mockumentary – apresentar uma ficção como se fosse verdade, eliminando quase toda linguagem do cinema que não seja aplicável ao documentário “puro”, não-encenado – e popularizaram um outro género: o found footage film. Deixo apenas como nota mais uma utilização possível deste hibridismo entre ficção e documentário: Bergman, no seu Paixão (1969), interrompe a ação diegética com reflexões dos seus atores sobre as suas respetivas personagens. A intenção é aqui de natureza mais intelectual. Provavelmente o objetivo era tornar a comunicação com a audiência mais “direta”, menos mascarada por artifícios, e esticar um pouco o léxico do próprio realizador. A mistura entre a aparente realidade da narração e a ficção da narrativa tem portanto uma história considerável no cinema. Mas de entre estas experiências, não é favor considerar Zelig entre as mais audazes e complexas: o filme pega nas convenções básicas do mockumentary e suas variações e, sem nunca as quebrar (algo que muito poucos filmes do género fazem), leva-as tão longe como os mais experimentais dos filmes que mencionei até aqui. E sem nunca sair do campo do cinema narrativo, e perfeitamente comercial.

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fazer um jogo com a audiência, entre a imitação da realidade e a consciência da falsidade do filme. Dentro desta definição geral de mockumentary, é possível distinguir vários tipos de abordagens, mas a maioria destes trabalhos usam a estética do “em direto” (A Hard Days’s Night, This is Spinal Tap, Borat), como se a história se estivesse a construir no momento irrepetível da filmagem, e usam por vezes momentos que admitem ter sido criados propositadamente para o filme, como as entrevistas à banda de Spinal Tap.


Woody Allen, o camaleão Zelig começa com uma ambiguidade: uma breve nota de agradecimento – “o seguinte documentário gostaria de agradecer a Dr. Eudora Fletcher, Paul Deghuee e Mrs. Meryl Fletcher Varney”. Nenhuma destas pessoas existe realmente, exceto no universo diegético do filme. Esse universo diegético é precisamente igual em quase tudo ao universo real, ou seja, ao universo do narrador do filme. As exceções são a existência de Leonard Zelig e as pessoas que lhe são mais próximas, e a sua interferência no mundo que é de resto historicamente igual ao real. (É preciso parar aqui para destrinçar alguns conceitos que podem dificultar a compreensão da análise: Zelig tem dois narradores (tem muitos mais, mas vamos deixá-los de parte por agora), mas não se podem confundir um com outro. O filme é narrado explicitamente por uma voz que vai dando informações à audiência, como é comum no documentário; mas também é narrado implicitamente por uma instância narrativa superior, que organiza o filme, incluindo o primeiro narrador. Para evitar confusões, o narrador cuja voz se ouve objetivamente ao longo do filme será referido como narrador, e aquele cuja presença apenas se adivinha, como autor.)

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É claro que o termo “autor” implica uma pessoa real, e que é importante ter o cuidado de diferenciar o autor implícito do autor real de uma narrativa. De qualquer maneira, alguma distinção tinha que ser feita, e não me ocorrem termos melhores. Também se pode criticar o termo “autor” dizendo que no cinema é particularmente difícil identificar um só sujeito como o autor. Woody Allen escreveu, realizou e protagonizou o filme, além de que supervisionou e aprovou a sua montagem final, como na maior parte da sua obra, pelo que não me parece particularmente reprovável referir-me a ele como o autor de Zelig. O filme começa com imagens a preto e branco de uma gigantesca multidão a assistir a uma parada heroica nas ruas de uma cidade. As imagens têm muito grão, e são constantemente percorridas por pequenos riscos e manchas, que lhes dão uma textura associada com as imagens de arquivo do início do século, como as das atualidades que passavam nos cinemas. Na banda sonora, também ela cheia de riscos e ruídos, ouvem-se gritos e assobios, gravados com equipamento evidentemente primitivo. Os cortes nas imagens não são acompanhados por qualquer diferença no som, apesar da câmara se aproximar muito da suposta fonte sonora: a multidão. Tratam-se sem dúvida de filmagens de arquivo acerca de uma parada algures nas primeiras décadas do século, muito provavelmente

do início dos anos 30, tendo em conta a terrível qualidade da gravação do som (isto assumindo que o som e as imagens se referem ao mesmo evento). Os gritos e assobios baixam de volume e são substituídos por uma voz, mas a imagem mantém-se na parada. “Ele era o fenómeno dos anos 20”. Corte para Susan Sontag, a cores, sentada num café, com ar informal. O enquadramento também é informal, cortando chávenas e cadeiras nas suas pontas, e vêse um pequeno microfone preso no colarinho da escritora. Ela olha para fora de campo enquanto fala, e assume-se pela direção do seu olhar que fala para alguém que está ao lado da câmara. No fundo do ecrã lê-se “Susan Sontag”. O ambiente de entrevista está completo. Sontag fala de Leonard Zelig, personagem fictícia e herói desta história. Mas pode-se pôr em causa se é realmente Susan Sontag quem nós vemos. É uma questão mais complicada do que o que parece. Afinal, quem vemos é a própria Susan Sontag, que tem consciência de estar a falar de alguém inexistente como se ele existisse, e que participa conscientemente no jogo de ilusões que dá à cena um ar de entrevista. Mas ao mesmo tempo, quem vemos é também a Susan Sontag desse outro mundo que é a diegese de Zelig, e aí ela está a ser entrevistada por ter opiniões interessantes acerca do tema verídico de que fala. Este tipo de questões não se impõe num documentário: a pessoa que fala representa-se a si mesma. Mas Zelig é um filme de ficção disfarçado de documentário, e como tal, Susan Sontag representa uma outra Susan Sontag, em tudo igual a si, exceto no pormenor de viver num mundo em que Leonard Zelig é uma figura histórica e não uma personagem fictícia. Os planos seguintes mantêm o mesmo esquema. Voltamos a ver planos da parada, e agora é a voz do crítico Irving Howe que se ouve. Há um corte para um carro em movimento: vêem-se duas pessoas sentadas a acenar em primeiro plano, e uma multidão em segundo plano. Por conhecimento da gramática do cinema, assume-se instintivamente que este plano corresponde à mesma parada que víramos antes. O problema é que quem acena é, inequivocamente, Woody Allen e Mia Farrow, que ainda não teriam nascido na altura em que aquelas imagens foram filmadas. Corte para Irving Howe, sentado ao pé da lareira. Todas as características que associamos com a estética da entrevista continuam presentes, e também ele fala de Zelig. É difícil dizer com precisão onde é que acaba o mundo diegético e começa o mundo real neste filme. Após esta introdução, em típica


A montagem dos anos 20 culmina numa festa particular em Long Island, na qual F. Scott Fitzgerald está presente (o mesmo Scott Fitzgerald que aparecerá como personagem no Meia-Noite em Paris, quase 30 anos mais tarde). As imagens que vemos de Fitzgerald são de facto verdadeiras, mas o filme usa-as para dar pretexto a um excerto obviamente falso dos seus diários, no qual ele relata ter encontrado na festa um certo Leon Selwyn, que se comporta como um aristocrata em frente aos convidados da festa, e como um homem comum em frente aos criados. Entretanto, vemos imagens de várias festas dos anos 20, e entre elas, uma fotografia de Zelig (Woody Allen), entre os convidados. “É a primeira pequena observação feita acerca de Zelig”, informa-nos o narrador. Woody Allen está a começar de mostrar as estratégias que utilizará para contar a história de Zelig. As imagens e fotografias de arquivo nas quais introduz elementos contemporâneos (filmados em equipamentos dos anos 30, para manter a qualidade textural – o resultado é praticamente invisível) são o cerne destas estratégias, mas Woody mostra-se inspirado em arranjar várias maneiras de contar a sua história sem nunca quebrar o estilo documental: imediatamente a seguir a esta pequena narrativa dentro da narrativa, o filme passa a um documentário dentro de um documentário. Woody Allen pega em imagens reais de uma reportagem de 1929 da Hearst Metrotone News sobre um jogo de beisebol e introduz Zelig entre os jogadores. Mas Zelig não pertence a nenhuma das equipas, e é expulso do campo. Segue-se uma imagem de um jornal dos anos 30 que relata a notícia num canto da página. O narrador explica-nos que este é o segundo registo que existe acerca de Leonard Zelig. Do ponto de vista teórico, esta sequência é uma verdadeira curiosida-

de: Woody pega numa narrativa fílmica documental pré-existente, falsifica-a, e insere-a na sua própria narrativa fílmica documental falsificada, mantendo em ambas uma completa ilusão de realidade. Até aqui, se não fosse a presença do Woody ator, Zelig poderia ter passado por um documentário genuíno. E Woody faz questão de manter a diversidade num estilo que poderia tornar-se repetitivo, ao recorrer a vídeos, fotografias, texto e música, todos eles verdadeiramente dos anos 20 ou impecáveis imitações, e ao introduzir movimentos laterais e zooms nas imagens. Seguem-se outras pequenas histórias acerca dos sucessivos avistamentos de Leonard Zelig, outra vez acompanhadas de fotografias de Woody Allen impecavelmente inserido em imagens dos anos 20 e vídeos de arquivo. Mas o realizador continua a não deixar o filme cair na rotina: numa dessas histórias, voltamos a ver uma entrevista a cores, desta vez não a uma personalidade famosa, mas a um homem que afirma ter visto Zelig numa festa em 1929. A ilusão é mantida: o discurso do homem é carregado de erros, hesitações e coloquialismos. Afinal de contas, nenhuma pessoa de entre estas testemunhas é ator profissional, uma vez que Woody queria manter o ar naturalista das entrevistas (GILKS, 2011). Entretanto, as aparições de Zelig tornam-se cada vez mais absurdas – vemo-lo como gangster, trompetista negro, chinês fumador de ópio, e até como Pagliacci (o que faz pensar imediatamente no Groucho, herói do Woody, no Uma Noite na Ópera (1935) e no cantor de ópera no chuveiro de Para Roma com Amor (2012), ambos famosos intérpretes da ópera de Leoncavallo). Pouco a pouco, o filme começa a revelar o seu significado. Quando Zelig é internado no hospital depois de desavenças com a polícia, aparece outra novidade: imagens de arquivo totalmente encenadas (a semelhança com as imagens de arquivo verdadeiras foi conseguida maltratando propositadamente os negativos) (GILKS, 2011) nas quais vemos Eudora Fletcher (Mia Farrow, na sua primeira colaboração com Woody Allen). Eudora é a psiquiatra que se encarregará de Zelig, e também a vemos, como uma idosa, a dar uma entrevista para o documentário que se fará cinquenta anos mais tarde. Uma vez no hospital, ouvimos pela primeira vez a voz de Zelig, numa gravação ruidosa, enquanto vemos fotografias dele no hospital. Isto faz perfeito sentido com a cronologia do documentário: Eudora gravou as conversas que teve com o seu paciente “para a posteridade”, mas Zelig ainda não é importante o suficiente para merecer que se façam filma-

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tradição documental, somos apresentados ao contexto em que se passa a história, os loucos anos 20, por um narrador não-diegético, música contemporânea e por imagens de arquivo da cultura da Idade do Jazz (a paixão de Woody pelo Jazz é bem conhecida, como o documentário Wild Man Blues (1997) confirma), com as suas festas e contrabando de álcool. Digo que se trata de um narrador não-diegético porque ele narra a história do filme com uma evidente separação temporal de pelo menos uns cinquenta anos dos eventos que relata, e porque ele não tem qualquer papel nessa história. Mas até isso é discutível, porque se pode dizer que a história do filme não é a história de Leonard Zelig, mas a história do documentário que se fez sobre ele, cerca de cinquenta anos depois do auge da sua fama.


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gens dele. À medida que a história de Zelig ganha fama, as fotos dele são substituídas por filmagens justificadas diegeticamente como reportagens. E o cuidado de Woody com estas filmagens é notável: quando filmado no hospital, as enfermeiras espreitam pelas portas em segundo plano, enquanto um médico se desvia para não aparecer na câmara. Seguem-se mais atualidades falsificadas dentro do documentário, desta vez sob o disfarce da Pathé News. E a fama de Zelig dá a Woody mais um meio para contar a sua história: a rádio, que relata a evolução do paciente, em emissões falsificadas que se ouvem sobre imagens reais de famílias dos anos 20 sentadas em frente ao aparelho.

nadas (a sua montagem é que é). O resultado é verdadeiramente inspirado.

Mas qual é a história de Zelig? Woody Allen terá dito que “a técnica estava bem (...) mas o que me interessava era o conteúdo do filme” (citado em IMDB, 2015) (tradução livre), e tinha boas razões para isso. Leonard Zelig tem a particularidade de se transformar fisicamente para melhor se adequar às pessoas que o rodeiam. Os médicos rapidamente procuram explicar esta capacidade como um problema glandular, ou resultado de um tumor, ou mau alinhamento da coluna, mas Eudora acredita que a sua origem é psicológica, e experimenta hipnotizar o paciente. Sob hipnose, Zelig conta que se transforma porque é “seguro ser como os outros” e porque quer que gostem dele. Aos poucos, Leonard Zelig começa-se a assumir-se como uma representação exagerada das personagens que as pessoas assumem na sua vida social para facilitar a sua integração, uma metáfora para a falta de individualidade (mais tarde no filme, Zelig leva este raciocínio até à sua conclusão lógica, ao juntar-se ao partido nazi). Isto torna-o num sucesso com o público. Quer dizer, com a maioria do público: para o Ku Klux Klan, por exemplo, o “judeu que se consegue transformar num negro ou num índio, era uma tripla ameaça”. Mas é então, na altura que Eudora começa a fazer progressos com Zelig, que a meia irmã do paciente o retira do hospital, para o explorar como uma aberração de circo. Nas palavras do narrador, “a questão do destino de Zelig sofre uma reviravolta”. Com esta ação, a narrativa tem o plot point que encerra o primeiro ato.

Mas o mais interessante acerca deste filme falso é o cuidado em manter sempre a ilusão de que Zelig é um documentário honesto: até aqui, Woody tinha respeitado com grande disciplina a estética do documentário, e agora imita com o mesmo grau de precisão a estética do cinema narrativo (até aí completamente rejeitada). Mais especificamente, o filme falso respeita a estética de Hollywood da segunda metade dos anos 30, tanto a nível das imagens, como dos diálogos, como da música, como das representações dos atores, como das caracterizações físicas e psicológicas das personagens:

Há, no entanto, mais uma cena que me vejo inclinado a analisar: o filme dentro do documentário. Dentro do universo da diegese, a extraordinária vida de Zelig – que se envolverá involuntariamente em escândalos com o Vaticano e com o partido nazi – é adaptada ao grande ecrã pela Warner Bros, em 1935. Woody, obviamente, é o realizador real desse filme. Trata-se, portanto, de um filme encenado dentro do documentário falso, por oposição às imagens de arquivo, que apesar de aproveitadas fora de contexto, não são ence-

A primeira cena que vemos do filme passa-se em 1929, quando Zelig está no hospital ao cuidado de Eudora Fletcher. Ou seja, o documentário passa de imagens supostamente gravadas em 1929 para imagens de um filme de 1935, que por sua vez remete para eventos que terão ocorrido em 1929 – e na verdade são todas imagens de arquivo e imagens encenadas organizadas ou filmadas em 1982. Este desligamento temporal entre a produção do filme/documentário e a história que ele narra permite ao narrador saltar entre tempos distintos da vida do protagonista, para clarificar aspetos desta.

Eudora Fletcher, por exemplo, é representada por uma atriz mais convencionalmente atraente que Mia Farrow. O cabelo apanhado e as roupas sem jeito da personagem original são substituídos por um ar cuidado e sensual. A representação naturalista de Farrow e o ar atrapalhado que ela dá a Eudora são substituídos por uma representação melodramática, acompanhada de diálogos evidentemente escritos. Os enquadramentos e iluminação naturalistas das imagens que víramos até aí são substituídos por enquadramentos pela cintura e por grandes planos de personagens voltadas a três quartos, movimentos suaves de câmara, e por luzes traseiras a recortar as figuras dos atores. E enquanto esta nova Eudora jura fervorosamente salvar Zelig, os seus diálogos são acompanhados por um crescendo de piano e cordas. A segunda cena que vemos deste filme falso tem uma outra particularidade muito interessante: antes de a vermos, vemos o evento “real” no qual ela foi inspirada. Eudora vai ao cinema para ver o Grande Hotel (1932) e, como era normal, a longa metragem é precedida por atualidades. Já tendo recorrido à Hearst Metrotone News e a Pathé News, Zelig recorre agora à Universal Newspaper Newsreel para noticiar o poder crescente do Partido Nacional Socialista na Alemanha, como provavelmente teria sido realmente noticiado em 1932 nos cinemas americanos. Mas entre as imagens de arquivo do partido nazi, vê-se Zelig, vestido de soldado, ao pé de Hitler. A ideia de Zelig como metáfo-


ra da morte da individualidade é levada ao extremo. Eudora parte de imediato para a Alemanha e encontra Zelig num comício nazi, sentado atrás de Hitler, que discursa para a multidão (isto é, um ator mascarado, cuja voz é substituída pela voz do verdadeiro Hitler).

O crescendo do piano e das cordas é interrompido de repente e a imagem corta para uma entrevista a cores, de 1982, com a “verdadeira” Eudora Fletcher: “Não aconteceu nada como se passou no filme”. É claro que não, mas a verdade é que também não aconteceu nada como se passou no documentário.

• EBERT, Roger (1987), “Radio Days”, Roger Ebert, http:// www.rogerebert. com/reviews/radio-days-1987; • GILKS, Trevor (2011), “Zelig: The profound story of a man blessed and curseed with the ability to blend seamlessly into any environment”, Every Woody Allen Movie, http://www.everywoodyallenmovie. com/post/zelig/; • IMDB (2015), “Zelig (1983) Trivia”, Internet Movie Database, http://www.imdb.com/title/tt0086637/trivia.

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Esta sequência dá-nos, então, a oportunidade de comparar a vida real no mundo de Zelig, e o mundo de Hollywood no mundo de Zelig. Na primeira, os militantes do partido são apenas mais uma multidão de imagens de arquivo, e Zelig, sentado atrás de Hitler, não sabe como reagir quando se apercebe da presença de Eudora, que lhe acena no meio da audiência. No filme The Changing Man, Eudora chama por Leonard, e apesar de estar no meio de uma multidão anónima de pessoas mergulhadas na sombra e rodeadas de tochas, a sua voz ouve-se distintamente. Zelig reage euforicamente e Eudora corre para o abraçar, entrando no plano vinda de fora de campo. Conclui-se que enquanto víamos estes dez segundos de um plano apertado de Zelig, ela saiu do meio da multidão e subiu o pódio a meio do discurso de Hitler, sem quaisquer dificuldades.


15 ANOS DE CINEMA LIVRE por Miguel Valverde, Nuno Sena e Carlos Ramos

Baronesa - Juliana Antunes

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Ao atingir a sua 15ª edição, o IndieLisboa aproveitou para reflectir sobre o percurso realizado até aqui e sobre os caminhos que deseja percorrer nos próximos anos. Se fazemos um balanço muito positivo pela forma consolidada como o IndieLisboa integra desde há muito o grupo dos principais festivais nacionais e tem um papel relevante também no circuito internacional de festivais mais atentos à renovação das formas do cinema, não deixamos igualmente de sentir que as mudanças e os desafios actuais que se colocam aos festivais de cinema são enormes e obrigam-nos a um trabalho permanente de questionamento das nossas ideias e modelos, o que se exprime de forma evidente e de várias maneiras na presente edição. Sem sentirmos a necessidade de assinalar o 15º aniversário com iniciativas celebrativas específicas, esta edição foi preparada com o objectivo de continuar a fazer do IndieLisboa uma grande festa à volta de um cinema permanentemente aberto à descoberta formal, à singularidade autoral e às convulsões do mundo contemporâneo. Mantendo-se sem alteração o desenho de secções do festival, e repetindo-se o mapa de salas dos últimos anos, a principal novidade desta edição está no significativo reforço da vertente mais vocacionada para o público profissional nacional e estrangeiro. Este ano, as actividades de

indústria vão estar concentradas num novo Festival Center sediado na renovada Biblioteca Palácio Galveias. Aí estarão centralizados os principais serviços destinados aos participantes de indústria, desde a videoteca, às conferências e aos encontros entre profissionais, reforçando uma componente que assume cada vez maior importância na identidade do IndieLisboa enquanto espaço onde não apenas se pode ver um retrato do que há de mais estimulante no ano cinematográfico em curso, como se ajuda a começar o que se há de ver num futuro próximo. Relativamente à sua programação, o IndieLisboa volta a apostar numa selecção que tanto promove o contacto com os filmes mais recentes de nomes consagrados do cinema de autor mundial, como se ocupa de revelar um conjunto muito alargado de mais novos e promissores autores (no fundo a mistura que constitui uma das características mais salientes do festival desde a sua origem tal como a igual importância dada a longas e curtas metragens e à abolição de quaisquer fronteiras de género). Entre os primeiros, há curiosamente vários nomes em comum com os realizadores apresentados na primeira edição (Eugène Green, Sérgio Tréfaut, Teresa Villaverde), mas um deles tem que ser destacado. Tendo estado presente na Competição Internacional inaugural de 2004 com La niña santa, a realizadora argentina Lucrecia Martel vai ser este ano


El dia que resistia - Alessia Chiesa

El dia que resistia - Constantin Popescu

O outro Herói Independente desta edição é uma referência incontornável da modernidade cinematográfica europeia. Parte essencial da Nouvelle Vague, Jacques Rozier é porventura o menos conhecido dos realizadores centrais do movimento e o que mais justificava o prazer e o dever de uma (re)descoberta. Em colaboração com a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, vamos poder apresentar a mais completa retrospectiva da obra de Jacques Rozier alguma vez organizada fora de França e contar com a sua presença para esta celebração do alegria de filmar e de viver numa obra que atravessa mais de meio século de cinema e que permanece ainda em aberto. O forte compromisso do IndieLisboa com o cinema português vem desde a sua primeira edição e nunca deixou de tentar encontrar novas formas de apoiar a produção e a divul-

gação da nossa produção. A edição com que celebramos o 15º aniversário do IndieLisboa acontece num momento em que uma nova lei do cinema que ditará muito do futuro do cinema português tem sido objecto de intensa e pertinente contestação no que respeita ao processo de nomeação dos júris. Solidarizando-se com a defesa intransigente do principal legado do cinema português (a sua liberdade e autonomia face aos constrangimentos comerciais permitida pelo continuado apoio de políticas culturais públicas), o IndieLisboa vai pela primeira vez na sua história abrir e encerrar o festival com obras portuguesas. Entre uma e outra, haverá quase cinco dezenas de novos filmes portugueses para ver espalhados pelas várias secções do festival. A estes soma-se o conjunto de uma dezena de projectos que irão ser discutidos no âmbito do Fundo de Apoio ao Cinema e tantos outros filmes ainda inacabados que poderão ser vistos durante as Lisbon Screenings por uma plateia de programadores e distribuidores internacionais convidados e que esperamos venham a ter ao longo de 2018 ou já em 2019 a sua primeira apresentação mundial.

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homenageada pelo IndieLisboa na secção Herói Independente com uma retrospectiva alargada do seu trabalho desde o início com a primeira curta metragem até ao aclamadíssimo Zama (por sinal, uma co-produção portuguesa). Sendo hoje eventualmente o mais relevante nome do cinema argentino, Martel irá partilhar a sua visão do cinema com o público numa masterclass em que também participa a cineasta Cláudia Varejão.


Jacques Rozier por CINEMATECA PORTUGUESA

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Jacques Rozier é um dos grandes autores do cinema contemporâneo, mas também um dos mais secretos. Em cerca de três dezenas de filmes de curta e longa-metragem, filmou um punhado de longas-metragens de acção fulcrais numa obra que marca a História do cinema a partir de finais dos anos cinquenta (Rentrée des classes, 1955, e Blue jeans, 1958, de que o então jovem crítico Jean-Luc Godard foi um dos acérrimos defensores), mas cuja raridade intrínseca permanece paradoxalmente rara. Reconhecida pela sua importância, esplendorosamente afirmada em Adieu Phlippine (1962), que se tornou um dos títulos icónicos da Nouvelle Vague e certamente o mais divulgado dos seus filmes, é ainda uma obra desconhecida. É também uma obra mais prolífera e variada do que a ideia feita que circunscreve o cineasta francês às suas longas-metragens, como a importante retrospectiva organizada em 2001 no Centro Pompidou tornou claro, fazendo prova da sua amplitude.


A energia e singularidade criativas de Jacques Rozier produziram uma série de outros títulos ao longo de todo este período, assinalando-se, entre os trabalhos realizados para televisão ou no contexto de emissões históricas da televisão francesa, Jean Vigo (1964, filme da série “Cinéastes de Notre Temps” de Janine Bazin e André S. Labarthe) ou Jeanne Moreau (1972, da série Vive le Cinéma, da mesma dupla); dois números de 1965 da emissão Ni Figue ni Raisin em que se aproxima da “comédia musical”, com Anna Karina (no 5) ou Dalida (no 8); Lettre de la sierra Morena (1983, inicialmente concebido para a série Cinéma Cinémas– Lettres de Cinéastes) ou Comment devenir cinéaste sans se prendre la tête (1995, resultante de uma encomenda da Arte), em que, avesso à biografia, Rozier responde às avessas, e pela acção, à proposta de uma incursão biográfica pela sua formação cinematográfica no IDHEC, onde estudou nos anos quarenta. Obstinadamente livre, Jacques Rozier é um realizador de filmes de matriz livre que respiram a liberdade do seu entendimento do cinema, umbilicalmente ligado à mise-en-scène e a um andamento musical, feito de um apurado sentido da combinação de imagens e sons, diálogos, canções, actores, personagens, paisagens, os exteriores, o estúdio, a ligeireza e a gravidade narrativa, uma lógica de duração intrínseca aos planos e sequências. Exprimindo-os, o movimento das personagens segue recorrentemente em direcção a situações e lugares que, em férias ou em viagem, as retiram do quotidiano sem que a brutalidade da realidade se eclipse no horizonte, como, no caso de Adieu Philippine (rodado no Verão de 1960), a guerra da Argélia. A evasão e as digressões narrativas são inauguradas no percurso do pequeno protagonista de Rentrée des classes. A presença do mar e da água atravessa boa parte

dos seus filmes, por outro lado atentos aos bastidores dos holofotes (veja-se o díptico Paparazzi / Le parti des choses: Bardot / GODARD, de 1963, filmado durante a rodagem de Le mépris de Godard), mas também dos palcos (como em Fifi Martingale). Cineasta visceralmente independente, Jacques Rozier faz da inteligência, da sensibilidade, do sentido de humor, a matéria que os seus filmes trabalham com rigor e fulgurância. À data de hoje, a situação patrimonial da obra de Jacques Rozier, cuja preservação e restauro está em curso, não permite apresentar a totalidade dos filmes programados nas condições de excelência que todos eles merecem e respeitando os seus formatos originais. A retrospectiva que corresponde, no entanto, ao desejo veemente de dar visibilidade aqui e agora a esta obra a vários títulos extraordinária. Jacques Rozier virá a Lisboa em datas a anunciar. A retrospectiva conta com a apresentação de um importante lote de filmes inéditos em Portugal e de raras exibições públicas absolutas.

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A aventura das suas produções e trajectórias complicadas de difusão contribuíram para a intermitência da visibilidade da obra de Jacques Rozier. Em Portugal, nenhum dos seus filmes estreou, e mesmo em França nem todos chegaram à distribuição, casos de Les naufragés de l’île de la tortue (1976) e Fifi martingale (2001). Entre Adieu Phlippine e a segunda longa-metragem de ficção, Du côté d’orouët (1969) passam seis anos; entre este e Les naufragés, sete; Maine océan é de 1985, acentuando-se o intervalo de tempo no salto de doze anos que decorre até Fifi martingale, depois do qual Rozier filmou trabalhos que permanecem inéditos, de que é exemplo L’opéra du roi. Estas datas estão, no entanto, longe de circunscrever a obra, aberta à pluralidade das suas inspirações e à diversidade dos seus registos cinematográficos.


Lucrecia Martel

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Lucrecia Martel é talvez a realizadora mais influente do século XXI. O seu cinema tornou-se imagem de marca da produção cinematográfica argentina e, de modo mais lato, um modelo para muito do cinema de autor contemporâneo, um pouco por todo o mundo. Nos seus filmes há sempre um mal-estar que ferve debaixo de uma aparente tranquilidade. Essa estranha sensação de incómodo surge através do seu gosto pelos planos longos, por um ritmo narrativo muito espaçado, pelo recurso às elipses nunca explicadas e pelo silêncio que quase sempre diz muito mais que qualquer linha de diálogo poderia. O seu território é, frequentemente, o da família: uma estrutura em decomposição onde a realizadora lança a sua câmara a uma classe média burguesa onde a decadência é regada a álcool e discriminação (La Ciénaga). E juntamente com a família tradicional, também os modos do fervoroso catolicismo sul-americano passam pelo crivo abrasivo do olhar de Martel. La niña santa é uma provocadora e desconcertante desmontagem das ideias de fé e vocação religiosa através daquilo que de mais inocente há no mundo: as criancinhas. E a juntar a esta desconstrução, o mais enigmático dos seus filmes: La mujer sin cabeza, onde uma mulher à qual tudo deveria correr bem se vê abalada por um safanão que é, no fundo, a sua má consciência de classe.

O mais recente, Zama (depois de um intervalo de quase uma década), torna explícito aquilo que vários dos seus filmes anteriores já anunciavam: a questão do racismo para com os povos indígenas sul-americanos. Trata-se de uma viagem delirante a um passado onde se encontra o gérmen de uma identidade latina, fundada nos modos do colonialismo. Mas já várias das suas curtas abordavam esta questão: Leguas descrevia a segregação dos ameríndios no sistema de ensino e Nueva Argirópolis reflectia sobre a homónima proposta de confederação, através de um retrato da população indígena, do ecrã do computador à formação das ilhas no rio Bermejo, passando pela língua e pelos seus ofícios. Os filmes de Lucrecia Martel foram comparados aos de Antonioni, Lynch ou Buñuel, mas o seu cinema é muito mais que o desespero latente do primeiro, o surrealismo onírico do segundo, ou a inteligente sátira sócio-política do terceiro. O cinema de Martel é uma criatura felina que, com extrema precisão, sinaliza, persegue e captura os pontos sensíveis da nossa sociedade, aqueles que lhe estão mais enraizados: as desigualdades sociais, o racismo internalizado e o preconceito tornado lei. Mas é também muito mais que isso. É um cinema que não tem pudor em abrir-se ao inesperado, levando-nos num caudal de gestos e movimentos que que revelam o cinema como um território de infinitas possibilidades (que inclui um coro de carpas que sonharam ser um carro, Pescados).


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Zama - Lucrecia Martel


Tome a Bica no conforto da sua casa

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REVISTA


Jimena Blázquez Abascal | NMAC Montenmedio Arte Contemporáneo

por Veronica Mello

A colecção de arte contemporânea da Fundação NMAC Montenmedio Arte Contemporáneo é uma referência cultural no Sul da Europa, não só pelas obras site specific realizadas no seu parque de esculturas mas também pelo extenso programa educativo. Um parque com carácter de museu ao ar livre, uma fundação com forte impacto cultural na região espanhola da Andaluzia, um lugar onde artistas nacionais e internacionais são convidados a intervir na paisagem tendo em conta a geografia e a história da região.

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Jimena Blázquez Abascal, directora desta Fundação, viveu em Nova Iorque onde foi curadora do PS1 Moma, e em conjunto com Harald Szeemann curou a exposição “The Real Royal Trip” (Outubro 2003 – Janeiro 2004), uma das maiores exposições de jovens artistas espanhóis a mostrar o seu trabalho nos EEUU. Doutorada em arte contemporânea e espaço público, Jimena Blázquez já curou mais de 40 site specifics, publicou em 2006 a primeira edição de “Sculpture Parks in Europe: A Guide to Art and Nature”, um livro que analisa a relação entre a arte e a natureza apresentando cerca de oitenta parques de esculturas diferentes na Europa.


A Fundação NMAC é criada em 2001 pela sua família, como surge este Parque de Esculturas ao ar livre? Qual a sua principal missão? E qual é a relação com a paisagem e a natureza? JBA: A minha família tinha esta propriedade no município de Vejer de la Frontera, uma extensão das espécies autóctones do Parque Natural de Breñas y Marismas de Barbate. Depois da minha formação como historiadora de arte em diferentes países e de ter conhecido, devido ao meu percurso profissional, diferentes iniciativas culturais na Europa, como a Fundação Wanas na Suécia, decidimos dar início a um projecto de “Parque de esculturas” com o principal objectivo de promover a arte contemporânea no Sul da Europa. Nesse sentido, convidámos artistas a criar projectos site specific onde a arte e a natureza coexistissem em perfeita harmonia. A nossa missão é difundir a cultura contemporânea através de projectos de artistas consagrados, bem como apoiar a carreira de artistas emergentes, convidando-os a fazer parte de uma colecção única.

Como directora e curadora deste projecto, vemos pela escolha de artistas o carácter internacional da colecção, como foi construído esta constelação de artistas que compõem a colecção NMAC? Como foi seleccionado cada projecto site specific? Durante algum tempo tive a oportunidade de trabalhar como curadora do PS1 em Nova Iorque e lá conheci artistas como Marina Abramovic, Sol Lewitt, Roxy Paine, Richard Nonas..., alguns desses artistas foram convidados a conhecer o espaço que iríamos criar na província de Cádiz. A escolha desses projectos foi feita com o apoio de um comité de especialistas que nos aconselhou de acordo com os objectivos estabelecidos pela Fundação, queríamos ter artistas consagrados e artistas emergentes que soubessem materializar o nosso sonho de criar uma colecção que tivesse em conta as idiossincrasias do lugar, na sua relação com o espaço natural e geográfico.

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Os projectos temporários fazem parte da programação do NMAC, como surgem esses trabalhos? Como por exemplo o da artista portuguesa Joana Vasconcelos? Os projectos que os artistas nos apresentam depois de conhecerem o local, podem ter um carácter efémero, seja pelo material com o qual vão ser criados, por decisão do artista

ou porque a Fundação NMAC crê que essa peça não irá fazer parte da colecção permanente no futuro. Actualmente não existe um programa específico de projectos temporários, como mencionei, é um acordo entre as duas partes. Em 2003 trabalhámos com a artista Joana Vasconcelos no seu projecto “Ópio”, um projecto de grandes dimensões e com uma grande carga simbólica associada ao golfe e ao futebol, dois desportos que, por si só, estabelecem um interessante modelo de contradições sociais e culturais. Em 2004 foi levado para Portugal para ser parte das acções levadas a cabo por ocasião da XII edição do Campeonato Europeu de Futebol.

O vosso programa educativo e cultural tem um forte carácter local, qual é o impacto de uma fundação no panorama cultural de Cádiz? Actualmente, o programa educativo e cultural que foi criado em paralelo à colecção da Fundação NMAC, tem um grande peso na actividade cultural, não só da província de Cádiz mas também da Andaluzia em geral. Visitas guiadas, oficinas, material educativo e um programa cultural dirigido a todos os tipos de público (teatro, concertos, oficinas... etc.) fazem da nossa programação, tornando-se muito solicitada por quem nos visita todos os anos. O apoio de instituições públicas, tanto na produção destes programas educativos e culturais, quanto o para o projecto do parque em si ao longo destes 17 anos, faz com que a Fundação NMAC, apesar de longe dos circuitos habituais da arte contemporânea em Espanha, tenha um papel cada vez com mais destaque na oferta cultural espanhola.

Que artistas poderemos ver, no futuro, com obras produzidas especificamente para a Fundação NMAC Montenmedio Arte Contemporáneo? Vários artistas têm visitado o nosso espaço e estão neste momento a trabalhar para apresentar futuros projectos. Actualmente, estamos a apostar em artistas emergentes latino-americanos e andaluzes. Os últimos que nos visitaram são Mateo López, Teresa Margolles, Ximena Garrido e Jacobo Castellanos entre outros.


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1. EXTERIOR FUNDACIÓN NMAC. Photo by NMAC Foundation 2. EXTERIOR FUNDACIÓN NMAC. Photo by NMAC Foundation 3. GUNILLA BANDOLIN. “ SKY’S IMPRESSION”. 2001. Photo by Eberhard Hirsch 4. JAMES TURRELL” SECOND WIND, 2005” 2009. Photo by Florian Holzherr 5. MICHAEL LIN. “ GARDEN PASSAGE”. 2003 Photo by Gaëtanne Hermans 6. OLAFUR ELIASSON. “ QUASI BRICK WALL”.2003. Photo by Gaëtanne Hermans 7.PASCALE MARTHYNE TAYOU ”PLANSONE DUTY FREE”. 2006. Photo by NMAC Foundation.


Uma ária de dança por Duarte Bénard da Costa

Durante todo o sarau, senti Deus. Deus amava-me. Eu amava-o. Tínhamos casado um com o outro. (...) Querem que eu dance coisas alegres. Não gosto da alegria. Gosto da vida. W. Nijinsky, Diários O gesto implica duas condições simultâneas: a condição de actor e a condição de acção. A dança partilha dessa essência: a duplicidade do ser-dançante enquanto artista e objecto artístico. No movimento não conseguimos separar o sujeito do seu objecto. Por extensão, não somos capazes de separar, por um lado, aquele que vive, e por outro, a vida em si. A imagem de que o corpo é um invólucro de matéria inerte sobre um fulgor de energia viva a que se chama espírito é uma imagem comum onde se procede à separação entre sujeito e objecto: o espírito age e o corpo é acção. Há uma submissão deste último ao elemento imaterial da existência, seja espírito, alma ou mente. Com esta imagem o corpo, assumindo apenas a sua fisicalidade, é um instrumento, compreendendo todas as suas limitações e, consequentemente, frustrações. Zaratustra, a personagem do filósofo, dando por si numa clareira, foi envolto por raparigas dançantes e começou a entoar um canto à vida, enquanto todos dançavam e se elevavam à sua volta. Neste canto, a corporalidade fez-se vida. A dança mostrou-se como manifestação da energia vital: do riso, da leveza, intensão e distensão, negando a «rigidez» maquinal do corpo - Zaratustra canta contra o espírito de tudo aquilo que é pesado.

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«Que nos pareça perdido o dia em que não dançámos!» - que nos pareça perdido o dia em que não vivemos. O corpo-vida age e é acção; é tríplice: físico e ao mesmo tempo metafísico - e também um corpo estético. A dança une as três dimensões que referi através do corpo físico em movimento, um corpo participativo, pois que no espectáculo do movimento não há espectadores e todos são participantes; através de tal o movimento

assume a sua dimensão metafísica de comunhão inter-pessoal, de representante da vida; e assim este ritual se torna dança, é observado, participado e fruido (vivido na sensação) e portanto adquire a sua dimensão estética. A assumpção nietzschiana da dança enquanto dinâmica física e da psíque - dinâmica vital - permite-nos pensá-la desta forma. O gesto é o momento em que se vai de um ponto de permanência a outro ponto de permanência, que são apenas lugares de suspensão até um novo movimento. O lugar do movimento é uma nulla-pars, é um lugar nenhum. A dança não tem local, porque a vida o não tem. Não parece mais ter sentido, aliás, separar do termo «vida» outros termos como «movimento», «gesto» ou «dança». A vida-enquanto-dança abandona em si todo o perigo ou receio: cada novo abismo é um novo gesto, assim como o é cada cupidez, sensação ou cada amor. Zaratustra exclamava que só através da dança se saberia os símbolos das coisas mais altas, a dimensão metafísica da unidade. A epígrafe que escolhi, um excerto do texto de Nijinsky, revela-nos precisamente um testemunho dessa dimensão: estar a dançar é estar em Deus; o que se dança é a vida. A imagem disto, de que o corpo une o sujeito e o objecto, de que o corpo é a união da vida e daquele que vive, é a imagem do livro: uma clareira rodeada de pequenas árvores despontantes e arbustos ao vento. Um prado onde Zaratustra encontra as raparigas dançantes, onde Zaratustra dança e canta em comunhão com todas, onde a dança termina; e, depois que cessou o movimento, depois que sumiu o gesto, depois do êxtase, Zaratustra, surprendido e abatido por um súbito vazio, pensativo, pergunta: « - Será loucura viver ainda?».


Gonçalo Sítima por Patrícia Lopes

Hugo Macedo

Chama-se Gonçalo Sítima, tem 32 anos e licenciou-se em Comunicação Social no ISCSP - Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Foi Gestor de Comunicação e Imagem, tradutor, e actualmente dedica-se profissionalmente ao improviso.

Embora não acredite na predestinação, a vida improvisou-lhe o percurso e conduziu-o até ao sítio onde precisa de estar, e a fazer o que sente que precisa de fazer com o seu amor ao improviso como linguagem artística.

que foi recolhendo na Comunicação e Design Gráfico e utilizá-las ao serviço de uma linguagem artística, que já sente como intrínseca. Como hobbie, ocupa o tempo a consumir cultura nas suas várias formas – cinema, literatura, poesia, teatro, séries de televisão, videojogos ou stand-up.

É natural da Brandoa mas o seu coração pertence a Lisboa. Não se sente em casa se não conseguir chegar à Baixa Pombalina a pé e nunca se sentiu tão lisboeta como na sua estadia de aproximadamente um ano em Madrid, em que Lisboa se intensificou em si, num jeito tão tipicamente português, a saudade.

Gosta de fotografia, culinária e de ler sobre divulgação científica. É um ávido consumidor de música e ainda não se rendeu totalmente ao formato digital, por isso, adora passar horas em lojas de música à procura de discos, sejam CD’s ou Vinil, para ouvir em casa.

Valoriza a liberdade desta nova etapa em que pode gerir o seu tempo e espaço de trabalho, seja numa esplanada ou numa biblioteca, aproveitando para beber um pouco dessa luz lisboeta que tanto o encanta, para os seus projetos criativos. O seu trabalho consiste em dedicar os dias à arte de criar e evoluir nesta área que o fascina. O seu percurso profissional permite-lhe agora usar as ferramentas

Certo é, que os seus próximos tempos serão preenchidos por novos projectos, por partilha de experiências e um ato contínuo de imaginar, criar, brincar e partilhar.

Considera-se “um tipo bem-humorado, empático, mas que é capaz de ser irritante e talvez estranho”.

Este é o Gonçalo Sítima na primeira pessoa.

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Passou da Gestão à Improvisação, integrando o projecto Os Improváveis, neste momento em cena com o espectáculo Beca Beca no Teatro Villaret. É um espectáculo que combina storytelling, Improviso, Teatro e Música através de histórias partilhadas por convidados, sempre diferentes. Além deste projecto, Os Improvavéis desenvolvem ainda outras actividades como a formação pessoal e empresarial, eventos corporativos, escrita humorística e de ficção.


“THE PORTUGUESE” Mesmo para um cinéfilo como eu apaixonado pelos musicais do Minelli, a perspectiva de assistir a uma comédia musical portuguesa, pensada para turistas, falada em inglês, em cena no Auditório dos Oceanos do Casino de Lisboa numa terça-feira à noite, não augurava nada de bom. Confesso que durante a viagem entre o Cais do Sodré e a Expo, ali por alturas do Beato, vieram-me à memória imagens de antigas revistas à portuguesa a que assistia numa velha Philco a preto e branco, mais divertido com o incómodo familiar com a brejeirice de algumas piadas do que com o humor forçado do elenco. Foi, pois, com este estado de espírito que fui assistir a The Portuguese, dirigido por Ana Brito e Cunha e encenado por Sónia Aragão. Setenta e cinco minutos passados, confesso que as memórias da revista à portuguesa tinham sido substituídas pelos sketches geniais dos Monty Python, o nonsense demolidor de Benny Hill e as melhores personagens do Herman. The Portuguese é um musical divertido, ritmado, envolvente e descomplexado, bem encenado e irrepreensivelmente interpretado por um elenco que transpira entusiasmo e dedicação. Os cenários e adereços são bem conseguidos, a utilização das novas tecnologias resulta na perfeição e o guião, da responsabilidade de Rui Cardoso Martins e Filipe Homem Fonseca, de tão absurdo, torna-se cativante. A história contase em três penadas: um casal de turistas chega ao aeroporto de Lisboa e perde as malas. Na tentativa de as recuperar inicia um passeio pela cidade que é ao mesmo tempo histórico e espacial, cruzando-se com diversas personagens icónicas da nossa história, de Pessoa a Camões, passando por Amália e Salazar, numa espécie de Back to the Future à portuguesa. Como em todas as boas comédias, o que podia correr mal, corre ainda pior, mas tudo se vai resolvendo à custa do “velho jeitinho“ português para o desenrascanço.

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No final do espectáculo conversámos com Teresa Macedo, a turista inglesa que se aventura nesta absurda viagem pela nossa história, papel que interpreta magistralmente.


Hugo Macedo

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por JoĂŁo Moreira


BICA: Explica-me como surgiu a ideia de fazer um espectáculo integralmente falado em inglês contando um pouco da História de Portugal aos turistas que nos visitam? Teresa Macedo: “The Portuguese” foi uma ideia da Ana Brito e Cunha que é a directora artística do projecto e basicamente surgiu de uma forma muito inesperada. Quase surreal. Ela recebeu um telefonema de um ou dois investidores a dizer que queriam investir em cultura. Isto à partida parece logo uma brincadeira. De tal forma que respondeu - “Não estou a entender, podes repetir?” - e eles “Queremos investir na cultura portuguesa e disseram-nos que és a pessoa certa para fazer qualquer coisa”. Foi assim que tudo começou. (Risos). Como estamos a atravessar um boom turístico em Lisboa e também porque o marido da Ana está ligado à hotelaria, ela pensou em criar um espectáculo direccionado para turistas. Algo que mostrasse a quem nos visita um pouco da nossa história de uma forma divertida. Fez uma pesquisa da História de Portugal, de acontecimentos históricos que pudessem ser usados no espectáculo e convidou dois autores, o Rui Cardoso Martins e o Filipe Homem Fonseca, que são os autores da “Conversa da treta”, para escreverem o guião e passou-lhes o material da investigação que eles tentaram compilar duma forma leve. A ideia era fazer uma comédia, uma coisa engraçada que, partindo de factos e personagens históricos, pudesse mostrar o modo de estar português que é desenrascado.

... “to desenrascate”, um verbo que vai dar que falar (risos). The portuguese way of life, não é? (risos).

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A ideia sempre foi que isso fosse transmitido através da comédia, do nonsense. Nunca de forma séria, tipo lição de história. Aliás, a Sónia Aragão, que é a encenadora, também tem essa linguagem, faz muito teatro físico, portanto, foi um caminho que se tornou claro para nós. Mas o processo foi atribulado. A Ana Brito e Cunha demorou cerca de dois anos a compilar a informação toda e a chamar as pessoas para a peça e só no ano passado é que resolveu avançar. Mesmo assim o arranque teve um percalço com a mudança de produção e os próprios ensaios foram atípicos e demoraram mais tempo que o habitual porque havia muitas coisas a equacionar: o que é que queríamos comunicar; que tipo de espectáculo ia acontecer; o que seria interessante falar. Houve muito brainstorming, até sobre o próprio texto, porque havia coisas que es-

tavam no guião que não resultavam, factos históricos que não tinham graça e que decidimos substituir, por isso, acabou por ser uma criação um bocado colectiva e de muita experimentação. E chegámos a Janeiro deste ano e estreámos. Arranjámos esta sala que, mesmo não sendo no centro de Lisboa como desejávamos, é uma boa sala com muitos lugares e muito boas condições e também visitada por vários turistas.

A ideia do musical esteve presente desde o início? Sim. A ideia sempre foi fazer um musical, ou seja, um espectáculo em que todos tinham que cantar e dançar, mas que também tinha que ser cómico, não um musical clássico.

Como foi feita a escolha musical, que é quase integralmente internacional? Tivemos que perceber que músicas é que faziam sentido. Por um lado pensámos que havia falta de música portuguesa, mas como a peça está pensada para turistas e eles também não conheciam e seria mais fácil envolvê-los com músicas que conhecessem optámos por uma selecção mais internacional. Aliás, uma coisa que defendi durante os ensaios foi que Portugal sempre foi muito internacional no consumo musical, portanto, as escolhas faziam sentido até para os portugueses.

Depois de um processo tão atribulado como o que descreveste, com uma participação criativa tão intensa durante os ensaios, qual foi a sensação no dia da estreia? De que tudo tinha corrido como planeado? Não, foi um processo difícil porque ensaiámos muito tempo e estávamos de alguma forma expectantes com a reacção que iríamos ter, até porque nunca ninguém tinha feito um espectáculo em inglês. Como não fizemos muitos ensaios com público e não sabíamos como iria resultar, o espectáculo foi-se afinando nos primeiros dias de apresentação. Foi um ajuste que fomos fazendo, tentando perceber a respiração da peça, porque esta peça tem uma respiração muito própria.

Nota-se que há um entrosamento muito grande em palco entre todos vocês. Isso resulta desse longo período de ensaios e de partilha de criação colectiva ou já se conheciam de outros espectáculos? Isso resulta do tempo que passámos juntos. Eu conhecia duas pessoas, todos os outros, conheci no processo. Mas, basicamente, passámos muito tempo juntos, tivemos mui-


Vejo que tens uma expectativa de longa duração para a peça. Já têm uma expectativa de quanto tempo irá durar? A ideia que tivemos quando estávamos a começar os ensaios foi de que isto nunca acabe e isso deu-nos força, vontade de querer fazer, de participar num trabalho pioneiro e sermos os escolhidos, os 10 bravos que íamos fazer The Portuguese acontecer. Então, acho que toda a gente se agarrou à camisola e dançámos a mesma dança. Só podia ser feito assim e isso, a meu ver, transformou-nos numa espécie de família. Tem de ser assim. Nós apoiamo-nos uns aos outros e de alguma forma isso acaba por passar para o público. Até porque o espectáculo é muito intenso e precisamos muito uns dos outros. Tem que haver muita bondade e generosidade.

Isso de facto passa para o público, assim como uma grande partilha de humor entre todos vocês. Isso era um objetivo pensado inicialmente ou resultou também dessa união, da ligação entre vocês?

Eu acho que de certa forma isso já vinha na ideia inicial, uma vontade de ir por esse caminho, até por causa da Sónia que tem muito essa linguagem e talvez por isso, sentimos desde o início que havia espaço para brincar. Mas à medida que os ensaios iam acontecendo, começámos a perceber que isto tinha que ser ainda mais louco e mais nonsense e então acabou por acontecer naturalmente. Primeiro alguém reagiu “estás a ir por aí? Ok, eu vou também” e começámos todos numa realidade quase paralela, meia surreal. Porque toda a peça é um bocado esquisita, não é? Dois turistas chegam ao aeroporto de Lisboa e de repente ficam sem as malas e começam uma viagem histórica, cruzando-se com personalidades históricas... isto tinha que ir por um caminho surreal senão ninguém acreditava. E pronto, começámos a brincar com o material que tínhamos.

O facto da peça ser integralmente falada em inglês foi difícil para ti? Foi um desafio brutal, mas que eu tive logo vontade de agarrar. Para já porque sempre adorei inglês, sempre adorei a língua inglesa e sempre tive vontade de ser fluente e aprender mais. Por isso, quando me surgiu o casting em inglês, fiquei logo entusiasmada, depois gostei logo do texto que me tinham dado, porque tinha graça, tinha apontamentos humorísticos. Aqui entre nós, às vezes calham-nos textos com que a gente não se identifica muito, temos que andar à procura,

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tos ensaios intensos e o casting também foi feito a dedo. Acho que a Ana e a Sónia escolheram pessoas em que a relação interpessoal era muito valorizada porque é um espectáculo que vai durar muito tempo e isso acabava por ser mais importante do que as qualificações dos actores.


“Os The Portuguese surge como ideia no final de 2014, para preencher um espaço inexistente no nosso calendário cultural de partilhar com quem nos visita um pouco da nossa maravilhosa história, com graça, sentido de humor e muita qualidade. Claramente, queremos chegar ao maior número de pessoas e os grandes anfitriões não os nossos portugueses, tanto na história do espectáculo, como no nosso dia-a-dia os portugueses que nos visitam no teatro. Este espectáculo é para todos, portugueses e estrangeiros, para isso temos legendagem, é feito por uma equipa que muito me orgulho de ter conseguido reunir. Desde a equipa artística, o fantástico elenco à equipa de produção e administrativa, estarmos no auditório dos oceanos é muito bom pois somos acolhidos por uma equipa muito profissional numa sala de elite”

Ana Brito e Cunha

fazer algum esforço para nos identificarmos e com este, senti logo que tinha graça, tive imediatamente vontade de fazer aquilo. Houve logo uma pica inicial seguida de uma daquela sensação de: epá eu vou trabalhar o inglês ao máximo e vou ser tão nativa que ninguém vai perceber.

Resultou na perfeição. O teu british accent é perfeito. (Risos). Eu optei pelo sotaque britânico porque é uma coisa que me vem desde a infância, dos filmes, e acabou por ser natural essa opção. Para mim sempre foi mais difícil imitar o sotaque americano, se calhar não tinha tanto contacto, ou tanto fascínio e então optei por aquele caminho.

Foste escolhida logo de início para interpretares a turista, a actriz principal? Sim. Nós só soubemos as personagens no primeiro dia de leitura, nem sequer conhecíamos o texto. E, por acaso, o meu e o do Diogo (o meu partner na peça) foi logo marcado, por isso acho que nos castings eles ficaram com uma ideia clara sobre quem representaria o quê. Houve algumas mudanças com outros personagens, até porque, como já expliquei, houve alguma hesitação na escolha de alguns personagens históricos. Escolhemos logo a Padeira de Aljubarrota por ser uma lenda com graça, o Camões e o Pessoa, mas fica sempre a faltar sempre imensa gente. Deu para perceber que a escolha recaiu sobre figuras icónicas com que os turistas se irão cruzar pela cidade: Camões, Pessoa, Amália... portanto são personagens que acabam por estar presentes durante a estadia em Portugal. Exacto.

Qual tem sido o feedback dos turistas estrangeiros que assistem à peça? Pessoalmente, já tive opiniões de turistas italianos e alemãs que assistiram e gostaram. A reacção tem sido positiva. Sabes uma coisa, em determinado momento, a meio dos ensaios quando já estávamos a fazer apresentações aos investidores, ouvi comentários do tipo “eu acho que os portugueses ainda vão gostar mais do que os turistas”.

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Não me admirava que assim fosse. Nós gostamos.


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A Música dos Vinhos Ao provar um vinho usamos 4 dos 5 sentidos. Avaliamos cores, aromas, texturas e sabores. E se os vinhos tivessem música?

VINHO ROSÉ QUINTA NOVA DE NOSSA SENHORA DO CARMO ROSÉ 2017

MÚSICA

Rita Lee / Lança Perfume

Ouça aqui!

VINHO TINTO PASSADOURO TOURIGA NACIONAL

MÚSICA

Dead Combo / Deus Me Dê Grana

Ouça aqui!

VINHO TINTO QUINTA DO MONTE D’OIRO RESERVA

MÚSICA

Nina Simone / Feeling Good Ouça aqui!

por

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André Pinguel


O Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo é um caso sério de vinho rosé! Um vinho feito e pensado logo desde a sua génese para ser rosé, e para estar entre os melhores. É cuidadosamente utilizada a técnica de blanc de noirs, já que é um vinho feito a partir das uvas Tinta Roriz e Touriga Franca. O resultado final revela um lado mais feminino das duas castas normalmente presentes nos grandes e robustos vinhos do Douro. Rita Lee dispensa apresentações, não só pela familiaridade das suas músicas, mas pela seu carácter distintivo e visibilidade na sociedade brasileira. Cantora antes de mais, mas também activista, rega os seus temas com uma ironia ácida que usa para criticar a sociedade ou reivindicar a independência feminina. É bom exemplo disso mesmo o Lança Perfume, música que cheira a Brasil e atravessa gerações. Tanto o vinho da Quinta Nova como o Lança Perfume de Rita Lee, comungam de uma jovialidade e feminilidade que se traduzem em adjectivos como frescura, equilíbrio e boa complexidade.

Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo rosé 2017

O duo de guitarras dos dois elementos que formam os Dead Combo levam a música Portuguesa para níveis de excelência. Neste recente tema Deus Me Dê Grana do álbum “Odeon Hotel” a sonoridade das guitarras acompanhadas pelos demais instrumentos voltam a explorar um lado por revelar da sonoridade portuguesa, sem no entanto nunca pôr em causa os alicerces na mais profunda alma lusitana. Assim como no tema musical dos Dead Combo o Passadouro Touriga Nacional tem na sua génese o que de melhor existe em Portugal. É um grande vinho feito totalmente a partir da, por ventura, melhor uva Portuguesa, a Touriga Nacional. Este Passadouro é um daqueles casos em que o enólogo usa muito mais do que a alquimia, usa a seu lado poético e artístico para conseguir engarrafar a alma do Douro, os seus cheiros cores e sabores... tudo está lá presente. O ritmo musculado e envolvente da música espelha-se na complexidade aveludada do vinho. Temos de um lado a mestria do duo Pedro Gonçalves e Tó Trips no manejo singular da sonoridade Portuguesa das guitarras, e do outro a enologia exemplar de Jorge Serôdio Borges a enaltecer a casta Portuguesa Touriga Nacional.

Passadouro ouriga Nacional

“Um vinho criado num terroir de eleição. Um terroir cujas encostas se cobrem, ao pôr-do-sol, de bonitos tons dourados. Um terroir conhecido, desde o séc. XVII, como o “Monte d’Oiro”. Percebemos por esta introdução que o próprio produtor faz ao vinho que estamos perante um vinho especial, para ocasiões especiais. Mais, um vinho amigo da mesa e feito a pensar nela. Um vinho charmoso, quente e elegante. Um é belíssimo Syrah ao estilo do velho mundo, nascido para harmonizar com pratos muito ricos como o pato de Tour d’Argent, não fosse o produtor o gastrónomo José Bento dos Santos. Temos então um vinho muito especial, daqueles que usamos para sublinhar uma ocasião única, um dia ou um momento em que estamos mais próximos da felicidade, em que estamos com os que mais gostamos ou celebramos o que mais sonhámos. Não arrisco indicar uma música que na sua estrutura se assemelhe ao vinho, isso já José Bento dos Santos faz de forma exemplar, normalmente com temas clássicos! Assim, procurei em alternativa uma música que expresse a maravilhosa emoção do momento especial: Feeling Good cantado por Nina Simone tem esse dom!

Quinta do Monte d’Oiro Reserva

Região: Douro Casta: Tinta Roriz, Touriga Franca Enologia: Jorge Alves e Sónia Pereira PVP – 12,50€

Região: Douro, sub-região

Cima Corgo Castas: Touriga Nacional Produtor: Quinta do Passadouro Estágio: 17 meses barricas de carvalho francês Enologia: Jorge Serôdio Borges Preço: 20.00€

Produtor: José Bento dos Santos Casta: 94% Syrah, 6% Viognier Região: Lisboa Enologia: Graça Gonçalves com apoio técnico de Gregory Viennois Estágio: 18 meses em barricas de carvalho francês

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Preço: 34.00€


Ponderando limões, ponderando tequilas por Pedro Santo Tirso

Devemos cumprir prazos. Os prazos mantêm o mundo a girar. O pão que chega a tempo, o casamento que se celebra e por aí vai. Sucede que nem sempre é possível cumprir prazos. E aí devemos assumir e confiar na Providência. Eu já tinha perguntado ao meu paciente editor para quando era o texto desta Bica e ele respondeu lacónico: 10 de abril. Sabia que ia ser difícil, mas meti-me ao caminho. O mais importante já tinha. O tema na cabeça, a necessidade de, à semelhança do que aqui fiz há dois textos, proclamar a margarita a bebida deste Verão. Estas proclamações são importantes. Alinham-nos com as estações e alinham os nossos amigos connosco, já sabendo ao que vêm. Além disso, dão um bom texto sobre os espíritos que bebemos e nos alimentam. Determinado, pois, a proclamar a margarita a bebida da estação quente de 2018, dei por mim a braços com o prazo e o prazo foi ultrapassado, entregandome a Providência (e a benévola brandura do meu editor). Fui, contudo, recompensado. A 14 de abril, Miguel Esteves Cardoso publica no Público, na secção Fugas, uma crónica intitulada “A margarita revisitada: é saborosamente chocante como fica melhor sem Cointreau, com xarope de agave” e este meu texto mudou completamente.

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O MEC é para mim uma autoridade. É uma autoridade no sentido próprio do termo. Está autorizado a falar sobretudo e a minha atenção para ele é sempre completa. Desde alcatifas, à lealdade, chegando agora às margaritas, se o MEC escreve presumo sempre que tem argumentos que me interessam conhecer. Mesmo se não concordo. O que é aqui quase todo o caso. E foi isto que mudou a história do meu texto. Ia ser um e por divina intervenção de MEC tornou-se outro. Vamos a isto. Ao contrário do que sucede com os cocktails que têm o gin por bebida nuclear, não cheguei à margarita pela tequila. Cheguei pelo sumo de limão. O sumo de limão é uma bebida destinada a misturar-se com outras para o progresso da civilização. Se é verdade que

poucos suportam bebê-lo puro e talvez não fosse melhor o mundo em que isso sucedesse regularmente, é ainda mais certo que precisamos das características do sumo de limão misturadas numa bebida à sua altura. E foi assim que cheguei à margarita, reflectindo. Não que não tenha bebido várias margaridas irreflectidas. Fi-lo, confesso. Mas quem nunca? Deixei porém essa experiência lá atrás, na leveza da adolescência, e só reencontrei a ideia da margarita na consideração do fruto do limoeiro. Quando se tem tanta abundância de limões quanto eu, é difícil não darmos por nós a considerar formas de lhes dar uma vida condigna, ao invés de uma existência na podridão. Tentei o “lemon curd”, mas não me dou especialmente bem com doces (embora seja uma ótima ideia para quem gosta de scones e chá, enfim). Tentei mousse de limão, mas não me dou especialmente bem com mousses (embora seja boa ideia para corresponder ao ocasional convite para jantar). Tentei, enfim, a bebida. Digo-vos que não foi um caminho fácil. O que não falta, é certo, é um mundo de bebidas que se podem elaborar com sumo de limão. Mas sempre muito pouco, muito pouco. A justa repartição entre um bom espírito alcoólico e o sumo dos meus soberbos limões escapava-me. Até que, dos confins das minhas memórias, ouvi a margarita chamar. Isso e porque contemplei uma velha garrafa de “Tres Sombreros”, que estava dormente na prateleira do bar da Casa do


A opção entre uma tequila branca ou dourada só pode tomada pela condição do momento. Duvido que exista ser humano que se condene a uma existência perpétua de margaritas feitas apenas com um tipo de tequila. Sendo a diferença entre ambas a adição de uma tequila um pouco envelhecida (reposado) a uma tequila branca nova por alternativa à não adição, e sendo essa diferença responsável por um sabor mais adocicado no primeiro caso, não é possível fechar-se a margarita na monogamia de uma infundada relação. Para mais, com preferência pela tequila branca, como sugere MEC, e é contrariado por José Cuervo. Quantas e quantas vezes, surgindome no espírito a vontade de uma margarita não veio ela acompanhada de uma clara visão de tequila dourada, em antecipação desse sabor mais variado e da transfigurada riqueza que traz à margarita? Há, por isso, que tomar posição e aqui ficará justificada a divergência que anotei, ao ler MEC no Público. Para mim, a margarita é uma grande invenção por ser uma bebida aberta à ponderação do limão. Mais do que em quase todos os cocktails conhecidos pela humanidade, o jogo das proporções é na margarita um jogo de ponderações entre agave, madeira, limão e laranjas. Ora, MEC quer que a margarita se resuma a agave com um toque de limão. E isso é um atentado à margarita e a todos os nomes próprios no período pós-Kripke e Putnam. Se é uma margarita, então é sempre um convite à nossa melhor combinação de sabores de tequila com a correspondente resposta do limão e das laranjas. Substituir o Cointreau por xarope de Agave recomendase apenas aos mais fanáticos deste cacto, e sempre recomendando que se invente nome distinto.

Tudo está na proporção dos ingredientes que mereceram o batismo e eu tenho vivido com duas variantes, tanto quanto a memória me garante. A primeira e que mais recomendo é também a que recomenda Kingsley Amis, para não ficarmos áridos de autoridades. É simples no seu 3, 2, 1 de ponderação, com três partes de tequila, duas partes de sumo de limão e uma parte de Cointreau. Tem de ser Cointreau ou então mais vale irmos pelo MEC e deixarmos cair as laranjas. O que não pode aceitar-se é substituir o Cointreau por um triple sec manhoso. Esta combinação deve ser feita com tequila branca e ser acrescida de umas duas ou três gotas de Angostura Bitters, antes de agitar, o que descobri ser um ótimo tónico. Esta é a receita que tem feito sucesso junto de palatos amigos, incluindo o meu próprio. Claro que se estivermos com vontade de algo mais agressivo, mas também mais sofisticado, recomendo duas partes e meia de tequila reposado (Herradura, por exemplo), duas de limão e meia de Cointreau. Ou até mesmo substituir de todo o Cointreau por duas ou três gotas de Angostura. Em qualquer caso o importante, no que concordo com MEC, é que a tequila seja boa e por isso experimentada à temperatura ambiente em busca do sabor agave em medida justa. Também funciona com um bom mezcal. Já os limões, não tendo como ceder-vos os meus, peço apenas que sejam conhecidos. Limões desconhecidos, comprados em supermercado, estragam qualquer margarita. Mas se é para fazer como MEC, e sem pejo nem pudor puxar um ingrediente à ribalta em detrimento dos outros, então que seja o limão a ter protagonismo. Há uns tempos descobri o Limontejo, que é um limoncello do Alentejo. Esta estupenda ideia, em linha com o gin Sul, que é feito de ervas portuguesas e destilado em Hamburgo, veio da cabeça Francesco Catucci e em boa hora. Os limões alentejanos produzem um licor maravilhoso e a receita italiana faz o resto. Daí ter inventado, o que posso agora denominar de gertrudes, que no fundo é uma margarita onde se substituiu o Cointreau por Limontejo. O resultado: magnífico. Terminemos como começámos, com autoridade. Lembra Kingsley Amis que não há como negar: a margarita é uma das mais deliciosas bebidas do mundo, “but por Dios, Señor, watch it!”. O mesmo com a gertrudes.

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Limoeiro. Pensei: consideremos a margarita. Comecemos pelo princípio, sem complexos nem pressões, mesmo sabendo que em campo está Miguel Esteves Cardoso. O mais importante da margarita, como cocktail que é, mesmo levando em atenção tudo o que vos tenho dito, não é nem tequila nem sumo de limão, mas a combinação criativa deste dois elementos e a adição das laranjas através de Cointreau. Ora esta premissa de abordagem à margarita dita a minha divergência com a doutrina de MEC. Aqui começa a discórdia. MEC claramente prefere uma margarita que puxe pela tequila o mais possível, sendo os demais ingredientes satélites em seu torno. Contesto isto. Contesto isto com toda a minha alma. Lá onde estiver o inventor da margarita, por mais homenagem que tenha querido fazer à tequila, quis inventar algo novo com sumo de limão e um bom licor de laranjas. E confesso que as laranjas trazem ânimo e desafio à combinação. E, assim, logo à partida estamos conversados.


Jå que ainda estamos no tempo dele‌

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por VLX


A coisa tem o que se lhe diga e uma das coisas que logo mais falha nos mais variados cozidos que tenho provado é o arroz. O arroz tem de ser feito com a calda do cozido, é certo, mas deve ter refogado a sério e não ser apenas uma arrozada branca pois isso não dá grande cor ao prato nem contribui substancialmente para a excelência do sabor final – afinal aquilo que todos anseiam quando se dirigem para a mesa. Depois é a qualidade dos produtos. Tem de ser feito com couves que a ASAE não conheça, enchidos que não faça a mais pequena ideia de que existam, produzidos em locais onde os satélites não consigam obter imagens, material por que seja quase possível e legal matar. E tem de ir tudo num só tacho. Pois se, segundo dizem, os nossos políticos comem todos do mesmo, os portugueses e o seu cozido não merecem menos. Só assim toda a panóplia de sabores se interliga fabulosamente pelo que grande parte da ciência se resume ao timing de colocação dos diferentes intervenientes na água fervente, dado que todos demoram tempos diferentes a cozer e a qualidade da sua cozedura é fundamental (bem como ter sempre à mão águas sempre quentes e bons cremes para queimaduras). Há que começar pelos enchidos, depois pelas carnes (embora as de boi tenham de principiar a sua cozedura numa outra panela e com água fria, para não enrugarem), a seguir as couves, mais tarde as cenouras, um ou outro nabo, e por fim o batatal. Mas tudo para cozer no mesmo tacho e cada coisa a seu tempo, de modo a que o caldo do arroz embeba todos os sabores e cada peça possa cozer apenas durante o tempo que deve cozer: nem mais, nem menos. Atire-se então à água em ebulição um bom pedaço de presunto de Chaves, enchidos de Ponte de Lima, dois ou três de Arganil ou da Guarda. Tempere-se com tempo um pouco de chambão ou nispo de vaquinha de boas famílias e pedaci-

nhos de reco querido, depois de bem escaldados, raspados e limpos, como sejam uma orelhita, algum focinho, uma ou outra unha, chispe, pernil (pode até ser fumado, que no meu cozido entram fumadores), e um tudo-nada de barriguinha – que nunca fará mal e antes faz figura. Só muito depois se mergulham na panela umas boas couves bem portuguesas, um coraçãozinho amoroso, umas pencas bem macias, um ou outro par de cenouritas, para dar nas vistas, e um punhado de batatas. Convém passar isso tudo, primeiro, por água bem quente, para não arrefecer a do tacho principal e interromper a cozedura de quem já está regaladamente no banho. Galinha? – Tem dias… se for mesmo boa, escurinha e genuína; e lança-se à água com a batatada, pois coze rápido. A farinheira deve ir a votos pelos interessados mais experientes mas, se for admitida a sua intervenção, deverá cozer numa panelinha à parte dada a eventualidade da sua explosão poder contaminar o prato por completo e ficar a saber tudo ao mesmo. Não tem nada a ver com a referência inicial eborense nem constitui qualquer alusão a alguns dos seu mais célebres pensionistas mas eu gosto muito de aldrabar o cozido à portuguesa e nem tudo no meu é cozido. Aldrabo, portanto, e honestamente o confesso. Assim, ao lado do meu panelão costumam grelhar-se deliciadas umas alheirinhas de Mirandela, puras como nunca a ASAE as imaginou, que devidamente partidinhas cobrirão na mesa a travessa do arroz, a lambuzá-lo e a abrilhantá-lo também. Umas costelinhas de porco muito bem temperadas passam igualmente pelo forno ou pela grelha, e não pelo panelão da água. Ou então pelo refogado do arroz. Ganham muito com isso e com isso a equipa toda. Também no forno quente, com uma bela noz de manteiga, devem estalar umas morcelas da Beira (não digo onde compro as minhas, não vale a pena insistirem), que desta forma beneficiam imensamente no prato e ao palato face à mera cozedura aquática. Por fim é levar tudo para a mesa. Numa iguaria deste género, que exige tanta água, seria agora essencial escolher um bom vinho para empurrar mas isso fica para outra oportunidade ou deixo tal coisa ao critério individual. Ao gosto de cada um.

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Dizem que o do Estabelecimento Prisional de Évora é muito afamado mas nunca o provei, não posso opinar. Já relativamente à opinião generalizada de que é muito difícil estragar um, essa não partilho e posso provar. Toda a gente julga que é fácil fazer um cozido à portuguesa ou que basta seguir as sempre fabulosas indicações de Maria de Lurdes Modesto na “Cozinha Tradicional Portuguesa” ou em “Receitas Escolhidas” mas não é verdade: não basta nem é fácil.


Mil e uma maneiras de fazer bacalhau Bacalhau confitado com linguini nero e espargos verdes

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Para 4 Pessoas


Ingredientes: 2 postas de bacalhau 400 g linguini nero di seppia 300 g espargos verdes 30 ml de azeite 4 dentes de alho 10 g de coentros 250 ml de natas Q.b. pimenta preta Q.b. sal

Confecção: Para o Bacalhau: 1. Arranje o bacalhau, retirando as espinhas e dividindo a posta em dois. 2. Coza a massa, numa panela com bastante água e sal, durante 5 minutos e reserve. 3. Numa panela, adicione as natas, um dente de alho, os pés dos espargos e os talos dos coentros e deixe reduzir. Quando reduzido, triture o molho e reserve. 4. Salteie os espargos laminados em azeite e alho, temperando com sal e pimenta. Adicione o molho de espargos e a massa e deixe envolver bem. 5. Core a pele do bacalhau, numa frigideira, até esta ficar bem corada, levando de seguida ao forno a 150ºC,8 minutos. 6. Rectifique temperos.

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Receita da autoria : Chef Mariana Claro Restaurante Pasta Non Basta Avenida Elias Garcia, 180 B, Lisboa


RAIO GOURMETIZADOR

LOJAS CONCEITO

por Pedro Nápoles

A Não sendo um Matusalém, ainda cresci no tempo em que as compras passavam por lojas multimarca, que bastas vezes se designavam pelo(s) nome(s) do(s) proprietário(s), Silva & Cunha, Casa Gomes, Amílcar & Neves, ou armazéns como os do Chiado ou Grandella, enormes espaços onde podíamos comprar desde cuecas a martelos, de chapéus a frigideiras. Escolhíamos as lojas pelas marcas que representavam, indo a uma para encontrar as nossas calças de ganga favoritas, a outra por causa das camisas, a outra ainda porque tinham ténis de marcas que gostávamos. Eram espaços por vezes caóticos, onde os jeans da moda coabitavam com calças de pinças com corte de avô e as camisas formais com t-shirts modernas. Assim, acompanhávamos nossas mães que se entretinham a escolher vestidos na secção de mulher, enquanto nós deambulávamos entre a secção de homem e a zona jovem. O atendimento era feito por funcionárias com história na casa, que nos conheciam pelo nome e perguntavam pela “mãezinha” quando ousávamos ir sozinhos, sob o olhar atento do dono que, com a sua presença, dava a credibilidade e a dimensão humana à loja.

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A certa altura, muitas destas lojas começaram a agonizar com a chegada das lojas de marcas globalizadas, que se por um lado democratizaram a moda, por outra ajudaram a destruir estas lojas onde conhecíamos os empregados pelo nome e sabíamos que eram os donos, mais que não fosse por o seu nome figurar nos letreiros e nas montras. Essa agonia estendeu-se a muitas das marcas vendidas por essas lojas, que em grande maioria desapareceram, salvando-se algumas que conseguiram vencer as dificuldades de distribuição e se modernizaram tornandose até fenómenos de culto.

Estava o nosso mercado lojista tomado de assalto por estas marcas globalizadas e sobrevivendo muito poucas lojas multimarca, quando de repente os senhores Gomes encontraram um substituto, mas agora com um estilo diferente. Surgiram as concept-stores, que neste momento invadem as zonas nobres de Lisboa, quase todas com um nome inglês, para que não restem dúvidas do seu cosmopolitismo. Estas “novas” lojas multimarca surgem com roupagens diferentes e deixaram de ser caracterizadas pela personalidade dos donos, mas sim por curadores. Quais museus ou exposições de arte moderna, as concept-stores precisam de um conceito, e para o construir precisam, claro, de uma curadoria. Há então, por detrás de cada loja, uma personagem que tudo conceptualiza e teoriza, desde a arquitectura de interiores às montras, passando pelas marcas e peças, como se se tratasse da montagem de uma exposição de arte contemporânea, em que as peças, claro, ao terem o privilégio de fazer parte da exposição, logo ganham um valor acrescentado que não sabiam que tinham, tornando-se inacessíveis aos comuns mortais e apenas dignas de cobrir certos corpos de carteiras mais abonadas. As concept-stores não deixam por um momento por ser lojas multimarca como o Lima & Sousa ou a Casa Santos, mas não poderiam ser apresentadas como tal sob pena de serem confundidas com algo tão banal, comezinho e antigo, assim, estas familiares designações ficam para a denominação comercial da empresa, deixando que as luzes incidam sobre um lettering moderninho em fundo preto com palavras em inglês, pois temos de as distinguir de um qualquer Saraiva & filhos. Os senhores Gomes foram, afinal, curadores avant la lettre. Só que eles não sabiam, nem nós.


Chapéus há muitos

MIES VAN DER ROHE DISSE “LESS IS MORE”, O QUE TERÃO PENSADO ESTAS DUAS SIMPÁTICAS SENHORAS?

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por Joana da Franca


Saudades

por Valentina Carvalho

DO BRASIL EM PORTUGAL Ilustração Tiago Lopes

Cai de paraquedas na vida de solteira. Se fosse no meu Rio de Janeiro, seriam algumas lágrimas derramadas, mas nada que alguns chopps à beira da praia ou um sambinha para arranjar o próximo flerte.

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Mas o cenário era outro. Estava em recém chegada em Portugal, ainda no processo de fazer novos amigos, cursando um mestrado. A brilhante solução foi se jogar no Tinder. Entre alguns matches ousados que cismam que somos putas, encontrei 1 possível pretendente para sair. Parecia gente boa, inteligente, havia terminado um namoro longo e deixou claro que não queria nada. Achei ideal, tendo em vista que minha cota de emendar relacionamento já está estourada. Quando parecia que ia rolar o encontro, eis que ele desmar-

ca. Não seria possível porque teria que ir de óculos de grau, porque faria uma intervenção nos olhos na semana seguinte. Isso mesmo caros leitores!!! UM ÓCULOS DE GRAU. No meu Rio de Janeiro, as pessoas se encontram com purpurina, com sal no corpo e areia no pé. Mesmo estando fadado ao fracasso, marcamos um outro encontro um tempo depois. Estava tudo correndo bem, até que me perguntou quantos namorados já tive. Ele levou um susto quando disse que já tive 5 namorados. Me senti aqueles animais exóticos em zoológicos que todo mundo fica encarando, só faltou uma selfie para guardar de recordação. Sua reação deixou claro que ele não tinha experiência e que eu era vivida demais para os padrões de uma cidade do interior.


Saímos por mais um tempo, ele é um querido. Mas era evidente que eu não combinava com a mentalidade da cidade dos padres e que eu já estava morrendo de saudade da malandragem. O próximo passo então foi seguir para noite. Um amigo me alertou que aqui em Portugal podem te barrar para entrar numa discoteca se acharem que está mal vestida. Então coloquei um salto e fui. Péssima escolha... me senti a Branca de Neve no meio de vários anões com topetes no melhor estilo Cristiano Ronaldo. Mesmo me sentindo o Everest da discoteca, um pequeno tuga veio conversar comigo. Disse que eu era linda e pediu meu instagram. Se no Rio eu ganho beijos, aqui ganho seguidor. Ficamos conversando e tudo ia bem, até que sinto a sua mão na minha bunda. Congelei de raiva... Onde já se viu, não ganhei nem um beijo, mas a minha bunda virou apoio da mãozinha dele. Achei um abuso, mas não disse nada. Por sorte, já estava tarde e queria ir embora. Então discretamente fiz um movimento meio matrix para tirar a sua mão e me despedi. NADA DE BEIJO. No dia seguinte me chamou para um café. E para minha surpresa, realmente ele pediu um café. No Rio a gente pode até chamar para um café, mas a probabilidade de iniciar em um chopp é enorme. Mas em Portugal ficamos no café. E nem se animem achando que rolou beijo... Porque aqui a dinâmica é outra... Depois de algumas situações como essa, entendi como as coisas funcionam. Fazem dessa vida de encontros quase um jogo de vídeo game na encolha. A primeira fase é conseguir um instagram. Se tiver interessado mesmo, passa para a segunda a fase: coloca uma mão na bunda. É sinal de interesse, mas discreto, sem queimar o filme beijando na noite. Faz total sentido agora, afinal estamos numa cidade bem menor que o Rio de Janeiro, e certamente você vai cruzar com as mesmas pessoas sempre. A terceira fase é o bendito café. Se o papo fluir, a situação evolui e vamos para a quarta fase: você é chamada para um jantar. Por fim, se chega ao chefão, e finalmente você consegue um beijo. É... Os português são é espertos, comem quieto.

Nessas andanças por essa cidade de ladeira, cruzei com o tuga mais zuca que conheci. Daqueles que chamamos de cafa, o apelido carinho para os cafajeste. É aquele que senta no bar cheio de si, dono da porra toda. Me olhou com aquele ar de quem sabe o que é capaz e só mexendo levemente a cabeça me chamou para dançar um forró. Não tive como rejeitar. Na pista, os casais dançavam numa grande performance do Cirque de Soileil... Aquele estilo que eu danço com amigos gays. Roda para lá, para cá, desce, sobe, puxa daqui, enrola dali. Um jeito que não aconselho para quem já bebeu um pouco a mais. Mas meu cafa, é raiz. Dança coladinho, coxa com coxa, sussurrando a letra no meu ouvido. Só pensava, já era... passamos a noite assim, dançando e no fim, como um bom cafa, um beijo me deu. Trocamos telefone e ele foi embora. Sua primeira mensagem para mim foi “um beijo na boca”. Gamei... Marcamos um almoço e logo disse que a sua casa tinha a melhor vista da cidade. Nesse momento todas as minhas esperanças dele não ser mulherengo acabaram ali. Com essa frase, havia ganho o título de tuga cafajeste do ano. Apenas ri, e prometi que quem sabe um dia iria conferir. Tinha que me fazer de difícil. Depois de alguns encontros acabei não resistindo as suas investidas e fui que verificar se era a vista mais bonita da cidade. E ele tinha razão. Douro, pele com pele, Chico ao fundo. Aquele combo. Deu samba. Tentei ficar o máximo possível admirando aquela vista, afinal como todo bom cafa, sabia que iria sumir. E não teve outra. Sumiu... A sorte no amor ainda não chegou. Chegou apenas o amor por esse país que me encheu de carinho e amizades. Já o coração, por enquanto continuo nessa entre cafés e chopps. Ou melhor... Garçon... desce um príncipe, por favor!

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Mas nem tudo tem essa dinâmica. Ainda bem, se não já estaria trincada de tanto cafeína no meu sangue.


[200]


Pombo Pombo

A Pombo – Indústria Metalúrgica, Lda. fica situada junto a uma das praias mais conhecidas do norte do país – Miramar. Literalmente escondida no meio duma tranquila área residencial, envolta por jardins e sem sinais exteriores do processo fabril que decorre no interior, a Pombo foi criada em 1961 pelo tio-avô das duas responsáveis actuais da empresa, as irmãs Susana e Alexandra Pombo. O seu pai, Luís Pombo, foi o sucessor do fundador e o grande impulsionador da evolução tecnológica da empresa, apostando na vertente da exportação. Agora a terceira geração familiar está a consolidar a presença em mercados fora da Europa e também a afirmar a inovação e o design como características essenciais

na identidade da marca de um dos mais conceituados fabricantes de acessórios para salas de banho do país, com clientes por todo o mundo, entre os quais as cadeias hoteleiras Sheraton, Hilton, Meridien, St. Régis, Radisson, Holiday Inn Express, Mélia, Intercontinental, Crown Plaza, Namaskar Hotels, Marriott, Mandarin Oriental, Hotéis Real, Tivoli, Mercure, CS Hotéis, Bom Sucesso Design Resort, The Yeatman Hotel do Grupo The Fladgate Partnership , alguns palácios em Paris como o Plazza Athénée, Le Meurice. A Bica foi perceber o sucesso da Pombo, numa visita guiada à fábrica pelas duas dinamizadores do projecto, Susana e Alexandra Pombo.

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por Nuno Maia


Essa inovação tecnológica que o seu pai introduziu traduziu-se exactamente em quê? Nessa época esta indústria era muito tradicional e essa inovação, que começou nos anos 80, focou-se não só na área produtiva, mas também na administrativa. Depois, já na década de 90, dá-se uma grande aposta na evolução tecnológica, que se mantém até hoje. Hoje a nossa preocupação é manter essa permanente atenção nas evoluções tecnológicas do sector, para que possamos estar sempre na linha da frente da inovação. Isso representa uma procura constante? Sim, temos vindo sempre a evoluir tecnologicamente. Estamos permanentemente a querer evoluir. É importante referir que não nos dedicamos a produções em massa, mas sim a nichos de mercado em que o valor acrescentado que as nossas peças têm é muito elevado porque valorizamos o detalhe que é conferido a cada uma delas. Quando um cliente compra um produto nosso, além do objecto propriamente dito, acaba por levar um pouco de nós e da emoção que colocamos em todo o processo de criação e desenvolvimento da peça. Elas são desenvolvidas por cada um dos colaboradores. Todos dão a sua opinião relativamente à forma como devem ser produzidas e aos materiais a utilizar e, desta busca constante de ideias, acabam por surgir colecções muito interessantes com a utilização de materiais pouco comuns, como, por exemplo, mármore, fibras recicladas, linho ou algodão. A produção é feita exclusivamente em Portugal? Somos uma empresa de fabrico nacional. Tudo o que fazemos é na nossa fábrica em Portugal. E mesmo os compontes que temos que comprar como os vidros, são sempre adquiridos a empresas que também produzem em Portugal. Assumimo-nos como uma empresa 100% nacional e que apenas incorpora produtos nacionais. No vosso caso e tendo em conta o tipo de clientes que pretendem atingir, a diferenciação dos produtos é essencial.

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É muito importante. Trabalhamos um segmento de mercado em que a diferenciação é muito valorizada pelos clientes, daí apostarmos muito na qualidade, no design e nas características únicas e inovadoras dos nossos produtos. A aposta no design e na busca de incorporação de novos materiais surge a partir de quando?

Foi sempre uma característica associada aos nossos produtos, mas é nos últimos 10 anos que essa aposta acaba por ser feita de uma forma mais intensa. Essa afirmação surge para dar resposta a pedidos específicos de clientes ou foi algo que nasceu de uma análise de mercado que vos fez acreditar que seria algo que teria boa aceitação? Sempre acreditámos que esse era o caminho. Esse objectivo esteve sempre presente na nossa visão estratégica para afirmar a nossa marca. Estamos alinhados com o que o mercado exige, mas, ao mesmo tempo, também queremos definir tendências. Temos algumas linhas com enorme procura que são únicas. Não há nenhuma outra empresa a fazer o mesmo. Isto faz com que os nossos produtos sejam muito direccionados para clientes da área da arquitectura, do design de interiores e da hotelaria onde também somos muito fortes. A presença em feiras é importante para a vossa estratégia comercial? É fundamental para dar visibilidade à nossa empresa e aos nossos produtos e também para estarmos atentos às novas tendências. Nestes eventos percebemos que estamos a caminhar no bom sentido quando vemos concorrentes a apresentar produtos em que é fácil constatar que são claramente inspirados nos nossos. Acaba por ser um motivo de orgulho. Há pouco referiu que no processo de concepção são várias as pessoas que contribuem com ideias e participam nessa fase. Como é que funciona esse processo criativo? É importante referir que a Pombo é uma empresa familiar. Não temos complicações em termos de hieraquia. Há uma enorme facilidade de diálogo e de comunicação entre todas as pessoas e isto acaba por fazer com que todos se esforcem por dar o seu contributo e deixar a sua marca nos produtos que são criados. Acreditamos que cada peça não é meramente um objecto que se cinge à sua dimensão física, pois incorpora um pouco dos nossos sonhos e fazemos questão de partilhar essa vertente emocional com o público. Neste momento estão com forte crescimento em mercados fora da Europa. Qual a razão para terem decidido apostar em novos mercados internacionais? A recente crise fez com que tivéssemos necessidade de procurar novos mercados. Começámos nos Estados Unidos com enorme


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sucesso e depois avançámos para o Sudoeste Asiático e para o Médio Oriente. Esses novos mercados implicaram um ajuste no design para ir ao encontro do que os clientes nessas novas geografias procuram? Em termos de estilo, sempre tivemos quatro vertentes: clássico, contemporâneo, luxo e aquele a que chamamos transitional em que damos acabamentos modernos a peças mais tradicionais. Partindo desta base ajustamos a oferta dando mais enfoque ao tipo design que mais se ajusta às características específicas de cada mercado. Na Europa quais são os Países com mais peso nas vossas exportações? Claramente a França e o Reino Unido. E Portugal que representa 20% da nossa facturação e onde somos líderes no nosso segmento. Desde o tempo da fundação da empresa, quais foram as alterações mais relevantes na área produtiva? Quando a empresa foi criada, o trabalho era muito manual, era muito artesanal. Isto é algo que ainda se verifica actualmente, mas é evidente que agora há uma série de processos, como por exemplo a galvanização, em que as coisas são feitas com recurso a máquinas. Isto não teve um impacto muito grande na optimização de custo, pois não temos produção em massa, mas permitiu melhorar muito a qualidade do produto final. E quais vão ser as grandes apostas no futuro?

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Um dos maiores projectos prende-se com a transformação digital da empresa. Já foi feito algum trabalho, nomeadamente na área dos protótipos com a utilização de impressoras 3D, mas queremos que essa transformação digital esteja presente em todas as áreas, desde o processo de encomenda até à entrega dos produtos ao cliente.


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Juntos por uma sociedade sustentável para todas as idades por Sofia Patrício

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Santa Casa da Misericórdia de Lisboa


Outro dado do mesmo estudo revela que a população em idade ativa diminuirá de 6,7 milhões para 3,8 milhões e o índice de sustentabilidade (quociente entre o número de pessoas com idades entre os 15 e os 64 anos, e o número de pessoas com 65 e mais anos) poderá diminuir de forma acentuada, passando o número de pessoas em idade ativa dos 315 para os 137, por cada 100 idosos. Já a nível europeu, e segundo o World Population Prospects: the 2017 Revision, o número de pessoas com mais de 60 anos deverá mais que duplicar em 2050 e triplicar em 2100. Este relatório refere que, em termos globais, a população com 60 ou mais anos está a crescer mais rapidamente que todos os grupos etários mais jovens. Ora, numa primeira análise destes dados, é natural olhar para o futuro com alguma preocupação, dado os desafios sociais que este cenário acarreta. Contudo, ele também pode – e, acima de tudo, deve – ser encarado como um aspeto positivo, capaz de conferir potencial à sociedade. Não se trata de um desafio de futuro, mas sim de um trabalho que já começou a ser feito, com o objetivo de se encontrarem formas e modelos para integrar as pessoas mais idosas na vida ativa da comunidade. Foi, aliás, para pensar e dar respostas a estas questões que ainda recentemente se realizou em Lisboa uma conferência internacional das Nações Unidas dedicada às questões do envelhecimento. Sob o mote “Uma sociedade sustentável para todas as idades – Realizar o potencial da longevidade”, esta iniciativa resultou de um convite ao Governo português, que, através do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, organizou esta conferência.

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa foi parceira privilegiada deste evento, que juntou no nosso país mais de 400 representantes de cerca de 50 países. Este encontro reuniu, igualmente, 150 Organizações Não-Governamentais e 80 investigadores de todo o mundo. Esta conferência é uma iniciativa da Comissão Económica das Nações Unidas para a Europa (UNECE) e acontece a cada cinco anos, tendo Portugal sido o terceiro país a recebê-la. Destes encontros saem dois documentos de extrema relevância nesta área: o Plano de Ação de Madrid sobre o Envelhecimento (MIPPA) e a Estratégia Regional para a sua implementação (RIS). A conferência em Portugal encerrou o terceiro ciclo deste Plano e Estratégia e dela nasceu a Declaração Ministerial de Lisboa, com as linhas orientadoras de atuação dos Estados-membro da UNECE para os próximos 5 anos. Esta Declaração sublinha a determinação dos países em alcançar três prioridades até 2022: reconhecer o potencial da pessoa idosa; encorajar o envelhecimento ativo; e garantir um envelhecimento com dignidade. Grupo de Trabalho da UNECE é presidido por um português Quando os Estados-membro da UNECE assinaram a Declaração de Lisboa, assumiram também o compromisso de continuar a participar no Grupo de Trabalho sobre o Envelhecimento. Este Grupo de Trabalho da UNECE foi criado em 2008 e é, desde novembro de 2017, presidido por Edmundo Martinho, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Contribuir para a implementação dos compromissos assumidos pelos Estados-membro; orientar o trabalho da UNECE no terreno na área do Envelhecimento; promover a cooperação internacional, partilha de experiências e discussão de políticas de Envelhecimento; consciencializar para as consequências do Envelhecimento na região da UNECE; e criar sinergias dentro e fora da Comissão, são os objetivos a que se propõe. Este grupo intergovernamental reúne-se anualmente no mês de novembro, em Genebra, onde debate os objetivos e desenvolvimentos atingidos durante o ano e prepara a agenda de trabalho do ano seguinte.

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O envelhecimento populacional é um dado estatístico incontornável em vários países da União Europeia e Portugal não foge a este cenário. De acordo com resultados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em março do ano passado, entre 2015 e 2080 o número de jovens diminuirá no nosso país de um milhão e meio para 900 mil e o número de idosos passará de 2,1 para 2,8 milhões. Ou seja, em 2080, o índice de envelhecimento mais do que duplicará, passando de 147 para 317 idosos por cada 100 jovens.


Apostar no envelhecimento ativo Mas não é apenas enquanto presidente do Grupo de Trabalho para o Envelhecimento da UNECE que Edmundo Martinho lida com os objetivos que saíram da Declaração de Lisboa. Diariamente, eles também estão presentes na função que desempenha como provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Já há muito que esta instituição, que este ano comemora 520 anos, defende que é urgente e imperativo investir-se em respostas e soluções que apostem no envelhecimento ativo, sendo esta uma preocupação visível nas várias unidades que tem sob a sua gestão e nos projetos que tem em curso.

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O exemplo mais recente deste empenho é o Programa “Lisboa, Cidade de Todas as Idades”, lançado em fevereiro deste ano. Trata-se de um protocolo estabelecido entre a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e

a Câmara Municipal de Lisboa, que implica um investimento superior a 100 milhões de euros e que pretende diminuir o isolamento social dos idosos que vivem em Lisboa e que constituem um quarto da população da cidade. Entre as medidas que o integram, está o projeto InterAge, que tem como objetivo requalificar 21 centros de dia da Misericórdia de Lisboa, transformando-os em espaços intergeracionais e abertos à comunidade. “Numa altura em que, cada vez mais, a problemática do envelhecimento das sociedades se coloca e nos lança novos desafios, confrontando-nos com questões para as quais, por vezes, é difícil encontrar respostas, este é o caminho certo. Assegurar que as nossas comunidades não excluem pela idade, nem fazem da idade um elemento de afastamento do exercício pleno da cidadania”, sublinha Edmundo Martinho.


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