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NOITE João Moreira | Editorial #3 João Moreira |Grande Entrevista #4 Sandro William Junqueira |A noite #15 João Albuquerque Carreiras | Nocturnos #21 João Albuquerque Carreiras | Hernâni #28 Tiago Froufe | A noite #39 João Moreira | Desterronics #40 Inês Carvalho | A cidade que dorme #44 Regina de Azevedo Pinto | Noite, a véspera da verdade #46 Marta Gonzaga | Do Fantasma, do Monstro, das Drogas e outras experiências noctívagas #47 Nicolau Pais | ”Ah, quem dera que viesse a noite!” #50 Andreia Correia e Manuel Vicente | Longas Noites #52 Constança Martins da Cunha | Aceitar a Noite #56 Paulo Duarte, sj | Toda a noite tem um amanhecer #58 Paulo Aido | Ninguém nasce sem-abrigo #60 Paulo Rosa | Nas noites mais frias... #62 Frederico Andrade | Uma porta aberta... #66 Bernardo Mota Veiga | Nyx (“noite”)... #69 Bruno Esteves | Turismo do Centro #73 António Ferrari | A agenda que quer transformar o mundo #80 Ana Motta Veiga | Memórias da Casa Antiga #82 Pedro Teotónio Pereira | Tronos, Altares e Presépios #84 Bruno Esteves | Embaixador da Polónia #88 Lino Matos | Alface fora d´água #92 João Moreira |Guta Moura Guedes #104 António Filipe Pimentel |Onde se trata de terras encantadas #110 Lídia Fernandes | Saudades da Rua da Saudade #114 Frederico Andrade | O cair da noite no Mosteiro... #120 Vanessa Pires de Almeida | A cidade e o novo paradigma #122 Pedro Mascarenhas Cassiano Neves | Retratos do Património #124 Francisco Duarte Coelho | Segredos de Lisboa #126 João Albuquerque Carreiras | Lisboa Verde #128 Ana Luísa Soares e Ana Raquel Cunha | Árvores de Lisboa #130 Ana Pérez-Quiroga | Auto-retrato da Artista... #132 LISBONAR | O nosso guia de Lisboa #136 João Moreira | “Podia ter sido eu” #148 Francisco Mallmann | Notícias do Brasil #153 João Gomes Esteves | Estrada da Luz #156 André Serpa Soares | A noite em preâmbulo... #159 Limin Lin | Magnólia #161 João Albuquerque Carreiras | Postais Perdidos #166 Verónica Mello | Pedro Cabrita Reis #168 Duarte Bénard da Costa | <performance> #170 João Júlio Rumsey Teixeira | Novo horário #174 Graça Canto Moniz | O estado da Arte #175 José Pedro Pinto | O plano-sequência... #176 João Moreira | “Rumble in the jungle” #180 Susana Andrade | João Paulo Martins #184 André Pinguel | A música dos Vinhos #192 Pedro Santo Tirso | Licitar #194 José Pedro Gomes | A Fabrica #196 Pedro Nápoles | Raio Gourmetizador #198 VLX | Rolo de Carne #199 João Moreira | Contos de Merceeiro #200 Mariana Claro | Mil e uma maneiras de fazer bacalhau #202 Joana da Franca | Chapéus há muitos #205 Geraldine #206 Francisco Mendes da Silva |Quem conta um conto? #208


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Fotografia por Hugo Macedo


Editorial “O que importa não é passear de noite mas deixar a noite passear-se em nós.” Mia Couto Quando era miúdo, ao contrário de quase todos os outros miúdos da minha idade, gostava da noite. Em abono da verdade, irritavame um bocadinho que implicasse o fim das brincadeiras e o regresso a casa, mas em contrapartida adorava escapulir-me da cama e ir fazer companhia à Otília, que por qualquer razão que à época desconhecia nunca se deitava antes das quatro da manhã. A Otília era uma espécie de segunda avó. Não havia nada que eu quisesse que ela não conseguisse arranjar. Às vezes parecia que fazia magia. Eu pelo menos gostava de pensar que fazia. Durante essas incursões noctívagas, resguardada dos olhares de censura complacente dos meus pais, descobria duendes no frigorífico que transformavam uma simples sanduíche num manjar dos deuses que eu comia vagarosamente na tentativa sempre frustrada de esticar as suas histórias até ao nascer do sol. Esse amanhecer, descobri-o mais tarde, numa altura em que as histórias da Otília eram partilhadas com uma roda de amigos entre bifes panados acabadinhos de fazer e copos de vinho do Dão, com ela, o centro das atenções, cantando boleros e sambas brasileiros que aprendera durante uma estadia no Rio de Janeiro. Foram assim as minhas noites de infância e adolescência, sempre acompanhadas e surpreendentes, cheias de música e comidinhas acabadinhas de fazer. Por isso não é de estranhar que a minha descoberta das noites solitárias tenha chegado tarde. Tão tarde que me parecem recentíssimas. Não são necessariamente más ou angustiantes, mas perderam o brilho de outrora, talvez por isso, hoje, lhes prefira as manhãs. No entanto, continuo a gostar de me escapulir à noite e a que ela me surpreenda, como aconteceu no mais bem guardado segredo das noites de Lisboa, o Desterro, onde um grupo de músicos extraordinários se perde, todas as quartas feiras, madrugada fora em entusiasmantes jam sessions electrónicas; ou no Carmo 81, em Viseu, durante o inesquecível combate de titãs entre The Legendary Tigerman e os Linda Martini; ou no conforto de casa, quando li o emocionante conto original que o Sandro William Junqueira escreveu para a Bica; ou quando acompanhei o João Albuquerque Carreiras ao Tabernáculo, para uma conversa sem tempo nem regras com o Hernâni Miguel.

Propriedade: Studiobox, Publicidade e Gestão de Meios, Unipessoal Lda Direcção: Bruno Esteves Edição: João Moreira, João Albuquerque Carreiras Fotografia: Bruno Esteves, Carina Martins, Hugo Macedo, João Albuquerque Carreiras Arte: Studiobox Ilustração: , Paulo Medeiros, Pedro Albuquerque, Tiago Lopes Identidade Corporativa: Jorge Barrote Comercial: geral@revistabica.com +351 962 706 373 / 968 405 494 Impressão: Tondelgráfica SA Periodicidade: Trimestral Tiragem: 5 000 unid. Depósito legal: 416462/16 Interdita a reprodução de quaisquer textos ou ilustrações por quaisquer meios. A Revista Bica é escrita em português, sem utilização do acordo ortográfico. Os conteúdos dos textos e as opiniões neles expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Capa: Quadro original de Pedro Albuquerque

APOIOS:

É da noite que fala esta edição da Bica. A noite dos sem-abrigo, esquecidos pelas ruas da cidade, como nos lembra Paulo Aido. A noite mística e interior sobre a qual escreve o padre jesuíta Paulo Duarte. A noite dos monstros e fantasmas da infância da Marta Gonzaga e a noite de tantos e tantos que colaboraram para tornar mais esta edição da Bica uma realidade. A todos votos de um Feliz Natal e Fantástico Ano Novo

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por João Moreira


Grande Entrevista

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LuĂ­s Filipe Castro Mendes


por João Moreira

Regresso Hugo Macedo

Já voltei a casa, as portas rangem, o pó tomou conta de todos os móveis, deixando-me de pé, a balançar as chaves e a interrogar-me sobre o que não fiz. (...) Excerto do poema “Regresso” de Luís Filipe Castro Mendes, in “Outro Ulisses Regressa a Casa”, Assírio e Alvim

Estava no metro, em Paris, quando foi surpreendido pelo telefonema de António Costa convidando-o para o cargo de Ministro da Cultura do XXI Governo Constitucional. A aproximação do fim da carreira diplomática por limite de idade e a proximidade ideológica com o Partido Socialista e, em particular, com a “geringonça” engendrada pelo líder do PS para governar o país pesaram na decisão de aceitar o desafio. Luís Filipe Castro Mendes, poeta e diplomata, para usar a célebre expressão de Vinicius, regressava a casa. Quando aceitou o convite talvez não imaginasse o quanto a falta de “Misericórdia dos Mercados” dizimara a casa que vinha gerir. O magro orçamento da cultura num país em resgate, a diminuição de quadros no ministério, a polémica com o fecho da Cornucópia, as salas de exposição encerradas no MNAA por falta de vigilantes e o recente aluguer do Panteão para um jantar de convidados da Web Summit, colocaram o foco das atenções num poeta habituada à diplomacia de bastidores.

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Foi no recato do seu gabinete no Palácio Nacional da Ajuda que conversámos com o Embaixador Luís Filipe Castro Mendes, um homem sereno, mas contundente e apostado em levar a cultura a todos, apesar dos parcos recursos atribuídos ao seu Ministério pelo recentemente aprovado Orçamento Geral do Estado para o próximo ano.


Bica: O Senhor Ministro não considera que a cultura mais etnográfica, mais local e todas as outras manifestações culturais que fogem ao circuito fechado de uma suposta elite cultural lisboeta estão um pouco esquecidas? Luís Castro Mendes: Está a falar na cultura popular, eu não diria etnográfica, porque a etnográfica remete para a etnologia. Nós temos o Museu da Etnologia e é um bom Museu e valia a pena valorizá-lo e o Museu de Arte Popular que faz parte da etnologia. Mas se se está a referir à cultura popular eu devo dizer que desde que cheguei a estas funções tenho ido muito pelo país, tenho visitado muitos municípios, muitas autarquias, muitas comunidades, não apenas neste eixo do litoral, mas, sobretudo, no interior. O interior do país tem-se desenvolvido culturalmente de uma maneira muito interessante, extraordinária até, através do trabalho dos autarcas, mas também das universidades, da própria sociedade civil, que modificaram a paisagem cultural do país. Portanto, quando fala de uma elite cultural, ou de uma cultura de elite, do ponto de vista do Ministério da Cultura, o que queremos é que a cultura de elite seja cada vez menos elitista. O nosso objectivo é que cada vez mais pessoas partilhem os bens culturais, portanto não temos uma visão elitista, agora também não pensamos em reduzir a exigência em relação aos bens culturais, ou a exigência em relação aos produtos culturais, à produção cultural para tentar atingir o grande público.

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Nós temos é de criar condições para que cada vez mais públicos acedam às diversas formas de arte e às diversas expressões de cultura. Não fazemos uma hierarquia de expressões de cultura embora tenha de haver sempre um critério. Como temos dito o Ministério não tem política de gosto. Dirige-se aos cidadãos e tem por objectivo criar as melhores condições para que os cidadãos tenham acesso à cultura e através disso e por essa razão é que se justifica que a Cultura subsidie instituições culturais e algumas Fundações na medida em que elas seriam trucidadas pura e simplesmente se se apresentassem ou dependessem do mercado. Portugal tem a dimensão que tem, somos um país de dimensão média e há muitas ofertas culturais que precisarão sempre de apoio estatal e nós não somos pelo estado mínimo, embora também nós sejamos pela estatização, achamos que o Estado deve criar condições para os cidadãos acederem à cultura, ajudar os produtores, os criadores e os divulgadores de cultura sem nenhum dirigismo nem nenhuma política de gosto, nem nenhuma escolha desta ou daquela expressão como mais adequada.

Não me estava a referir ao Ministério da Cultura estava a falar de uma elite cultural que vive muito fechada em Lisboa e hoje também no Porto e que não se preocupa com o resto do país. Não é verdade. Olhe que eu tenho visto, por exemplo, na área da poesia, encontros de poesia em Vila Velha de Rodão, encontros de poesia em Foz Côa, encontros de poesia um pouco por todo o país. Lembrei-me destes dois que são no interior. Se as pessoas daquelas autarquias gostam de levar lá os poetas (não digo que encham uma sala como um cantor ou um artista rock) é porque há pessoas nessas localidades que têm interesse, assim como há interesse dos autores em encontrarem os seus leitores de todo o país. Não é só na feira do Livro do Porto ou na Feira do Livro de Lisboa que há encontros entre escritores e leitores, fazem-se também em muitas localidades do país e isto é válido também para a música. O que se faz, por exemplo, em termos de música nas Orquestras das Universidades, nas Orquestras Regionais, o que se tem desenvolvido o ensino e o estudo da música, até a começar pelas bandas filarmónicas das aldeias, é extraordinário. Eu encontrei em Cabeceiras de Basto uma Banda Filarmónica centenária - a Banda de Cabeceiras de Basto – onde tocava uma menina que se destacou porque gostava muito de música. Estudava na Escola Superior de Música do Porto e actualmente está em Paris na Orquestra Sinfónica de Paris. Há aqui um viveiro de vocações culturais, de interesse pela cultura que está cada vez mais alargado e menos reduzido ao Litoral. Claro que temos uma sociedade em que ainda falta fazer muita coisa no interior, mas devo dizer que uma das grandes e mais agradáveis surpresas que tive quando comecei a desempenhar estas funções foi a da percepção da transformação do interior em termos culturais, a transformação da capacidade de iniciativa das comunidades do interior.

Até porque existe uma enorme avidez cultural no interior e por isso quando as coisas acontecem têm um grande sucesso e acabam por resultar... Existem festivais interessantíssimos, Paredes de Coura...

Os Jardins Efémeros em Viseu, que são uma referência internacional, o Festival Literário “Tinto no Branco”, o Fólio, em Óbidos... O Festival de Música de Marvão, o Festival Terras Sem Sombra e o Festival Músicas do Mundo em Sines que ainda recentemente recebeu um Prémio Europeu. Portanto temos,


Subentendo que a descentralização cultural é uma preocupação deste Ministério da Cultura. A descentralização faz parte da nossa política. Contribuímos com um projecto de descentralização, sendo que os Projetos-lei foram apresentados na Assembleia da República e que serão discutidos em breve. Embora, evidentemente, ainda não seja altura de divulgar publicamente por se encontrarem pendentes de apreciação parlamentar, apresentámos à Associação Nacional dos Municípios Portugueses e à Associação Nacional das Freguesias as nossas propostas relativamente à descentralização e que passam pela gestão dos monumentos locais pelas autoridades locais a nível municipal mantendo, obviamente a gestão dos monumentos nacionais na tutela do Estado Central e outro tipo de equipamentos que são os regionais na gestão dos quais as comunidades intermunicipais terão uma palavra a dizer. Gostaria de salientar, também, o papel desempenhado pelas Direcções Regionais de Cultura, no diálogo e na articulação com as comunidades locais e com as autoridades locais e também com as Comissões de Desenvolvimento Regional.

Com as dificuldades inerentes àquilo a que o Senhor Ministro chamou de falta de “misericórdia dos mercados” e que afectou de forma particular a Cultura, impôs-se a necessidade de reinventar a gestão cultural obrigando os gestores a procurarem parceiros, mecenas e até a desafiarem os cidadãos a contribuírem para aquisição e preservação de património. Como vê o Senhor Ministro estas iniciativas? E, já agora, não considera que os gestores culturais que se empenham na angariação destes fundos deveriam ter absoluta autonomia na gestão dos mesmos? Não vamos misturar questões. O mecenato escolhe os seus alvos e dirige os seus apoios a quem bem entende. Podemos dizer que deveria estar mais desenvolvido em Portugal, mas já existem mecenas (não vou agora nomear) com grande relevância. Temos algumas grandes empresas e alguns bancos que através das suas Fundações exercem mecenato regular. Existe é menos mecenato espontâneo por parte dos cidadãos individuais. Falta-nos uma cultura de mecenato, uma cultura em que os próprios privados venham contribuir e ajudar a construir. No fundo, o chamado crowdfunding , que foi feito no Museu Nacional de Arte Antiga, com aquela experiência da compra do Sequeira, e que

resultou muito bem, por isso penso que se deviam fazer mais experiências nesse sentido, embora tenhamos noção que o mecenato não resolve tudo. Outra questão resultou dos anos da crise, da intervenção, do resgate que foram dificílimos e durante os quais a Cultura sofreu cortes gigantes. E não falo apenas nos cortes orçamentais, falo na deterioração do aparelho da cultura, da máquina, da estrutura da administração pública que se ocupa da cultura. Nesse sector houve realmente cortes muito grandes que dificultam muito a acção de estruturas tão importantes como, por exemplo, a Direcção Geral do Património Cultural que desempenha um papel fundamental na gestão dos monumentos, na sua preservação, nas intervenções que são necessárias para os manter inteiros e além de inteiros, vivos, porque não basta apenas preservar e recuperar, é necessário transformá-los em pólos de cultura.

Em alguns casos bastaria dar visibilidade, ou melhor, devolver ao público espólios que estão armazenados em caves e em barracões, tantas vezes em condições pouco consentâneas com o sua importância. Veja-se o caso do espólio de arqueologia náutica subaquática que está há anos fechado num armazém do MARL e que parece, finalmente, verá a luz do dia com o novo Museu de Xabregas. Quando há dez anos se decidiu construir o Museu dos Coches, havia um armazém onde estava guardado o espólio da arqueologia náutica subaquática. Esse espólio foi transferido para o Mercado Abastecedor da Região de Lisboa onde esteve durante 10 anos e agora foi decidido transferir esse espólio para as instalações que estão previstas em Xabregas e para a construção das quais já foi disponibilizada a verba. Esse espólio é um espólio riquíssimo e que merece ser exposto e tratado, mas queria chamar à atenção para o facto de existirem espólios muito interessantes e valiosos de arqueologia náutica subaquática em Viana do Castelo, em Ílhavo e um pouco de Norte a Sul.

E nos Açores... Sim, sim. Nos Açores existe um espólio importantíssimo! Não me esqueço dos Açores, só não os menciono mais, porque os Açores, como sabe, sendo uma Região Autónoma tem o Secretário Regional da Cultura que tem a responsabilidade sobre essas matérias. Mas, voltando à questão, isto leva-nos à desconcentração que às vezes é mal entendida. Desconcentração não significa dispersar o

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neste momento, uma grande proliferação de actividades culturais por todo o país.


conteúdo de um museu por diversas terras. Significa antes, valorizar espólios riquíssimos que já se encontram espalhados por diversas zonas do país e aproveitá-los para criar novos pólos desse museu. Por exemplo, queremos construir um Museu de Arqueologia Náutica Subaquática, porque é que há-de ficar todo em Lisboa? Porque não ter um pólo em Viana do Castelo, onde já se encontram as barcas do Rio Lima, que têm um valor arqueológico enorme? Porque não termos em Lisboa um pólo central e outros dois pólos, por exemplo, em Viana e em Ílhavo? Repare que eu estou a falar de uma ideia, não estou a definir um plano nem uma solução, porque para já, a prioridade é assegurar que o acervo que está no MARL vá para Xabregas em boas condições. O Museu da Arqueologia tem realmente um espólio maravilhoso que não está a ser exibido, mas a desconcentração não é uma solução de oportunidade, como não há dinheiro para fazer a obra do Museu de Arqueologia então vamos espalhar esse espólio pelo país? Não! Há parte do espólio arqueológico que faz todo o sentido estar noutras cidades. Nós vemos hoje em dia a importância do espólio arqueológico do Algarve através da exposição de Loulé, porque não utilizar os equipamentos culturais do Algarve, por exemplo, o Museu Municipal de Faro, para criar um pólo do Museu de Arqueologia? Claro que quer no caso de Faro, quer de Viana do Castelo, terá de haver uma relação com as autarquias por serem de responsabilidade Municipal, mas porque é que os Museus Nacionais não podem criar esta relação, este interface com os Museus Municipais e porem uma parte das suas colecções nesses museus? Não estou a dizer que vamos ao Museu Nacional de Arte Antiga tirar-lhes os Painéis de S. Vicente e mandá-los para Coimbra. Não é isso que eu quero. O que quero é que estejamos abertos à eventualidade de os museus disporem de pólos espalhados pelo país. E mesmo os novos museus como o Museu da Emigração proposto recentemente pelo Partido Socialista e pelo PSD, (o PSD propôs a criação de um centro de documentação sobre a emigração e o PS propôs um museu da emigração) porque é que tem de ter um edifício em Lisboa, no Porto ou em Coimbra? Porque é que não fazemos...

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Em Paris. Podemos fazer em Paris! É uma boa ideia para o meu amigo Armando Sanches. Mas não um Museu, seria um pólo do Museu da Emigração, que estaria espalhado por diversos locais: nos Açores sobre a emigração para os Estados Unidos; na Madeira sobre a emigração para a Venezuela; Fafe, que já fez um trabalho excelente nesse sentido, sobre a emigração no Séc. XIX para o Brasil e tudo

o que os brasileiros trouxeram a Portugal. E porque não em Paris. Um pólo do Museu da Emigração em Paris é uma ideia, mas temos que ver se a nossa comunidade em Paris está interessada.

Esta ideia da desconcentração museológica já foi colocada em prática com o recente anúncio da criação de um pólo do Museu da Música em Mafra e outro no Palácio Foz. Exacto. Repare, havia o compromisso de se fazer o Museu da Música em Mafra. O projecto que estava desenhado era um projecto demasiado exigente, demasiado caro (quando me acusam de economicista eu não fico preocupado, porque quando temos responsabilidades temos de gerir os recursos de que dispomos da melhor maneira). O projecto era efectivamente muito dispendioso, por isso decidimos avançar com uma nova solução que faz mais sentido, que tem pés e cabeça. Já anunciei que em Mafra o museu vai ocupar dois pisos, na ala sul do Palácio, onde será instalada a parte das Charamelas Reais e das bandas filarmónicas e militares, além do acervo museológico que reunirá as grandes peças, os tesouros nacionais do período barroco até à primeira metade do séc. XIX. Noutro polo, cuja localização ainda não está fechada, faz sentido instalar o Arquivo Sonoro Nacional, bem como a documentação relativa às escolas, músicos e tertúlias dos séculos XIX, XX e XXI. É uma solução possível, que dá dignidade ao Museu da Música, que até agora estava instalado numa estação de metro. Mas, nós temos belíssimos equipamentos culturais, belíssimos museus: o Museu Nacional de Arte Antiga; o Museu do Azulejo; o Museu da Arqueologia, todos com acervos extraordinários que têm de ser cuidados. No caso do Museu de Arqueologia temos de encontrar maneira de ter uma exposição permanente, de garantir melhores condições para a extraordinária colecção arqueológica que possuímos. Depois temos o problema do pessoal, mas quanto a isso, se eu dissesse que a falta de pessoal era um problema exclusivo do Ministério da Cultura, estaria a dizer um disparate. Qual é o sector que não tem problemas de carência de pessoal?


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Nós temos uma concepção transversal da cultura, porque a cultura é feita por vários agentes. A educação tem evidentemente um papel cultural fundamental. O ensino superior é um agente cultural fundamental, as universidades, cada vez mais, saem dos tradicionais muros da própria instituição e abrem-se à comunidade, ganhando uma dimensão essencial de pólos difusores de cultura. Por outro lado, evidentemente, existem muitas áreas de convergência entre Ciência e Cultura, como a Arqueologia, a Conservação e Restauro, a Arquitectura, o Urbanismo. E fez muito bem em referir o José Mariano Gago, porque ele realmente deu corpo a essa ideia, a essa transversalidade entre a ciência e a cultura. Hoje nós não trabalhamos só com a Cultura, nós trabalhamos com a Educação no Plano Nacional de Leitura, no Plano Nacional de Cinema, o cinema nas escolas, e em outro projecto que vai ser desenvolvido que é o Plano Nacional das Artes e que tem a ver com a sensibilização à estética, às artes plásticas e à música, portanto, à educação artística. O Plano Nacional de Leitura foi reformulado e já não se destina apenas à escolaridade básica e secundária, mas envolve também o Ensino Superior, envolve também a Rede Nacional Bibliotecas Públicas que actualmente é gerida pelos Municípios, mas em que a nossa Direcção Geral do Livro Arquivos e Biblioteca tem o papel de coordenação e de apoio. Hoje as bibliotecas também funcionam como centros de actividades culturais, funcionam no apoio à literacia digital, na animação cultural, na promoção de eventos com escritores, na articulação do trabalho entre biblioteca pública, isto é, biblioteca municipal, biblioteca escolar e biblioteca universitária.

Por isso queremos apostar na qualificação das bibliotecas públicas, na formação e no apoio aos bibliotecários que fazem um trabalho espantoso.

Já agora aproveitando o facto do Senhor Ministro ter introduzido o tema do Plano Nacional de Leitura e sendo um poeta, não acha que a poesia tem sido um bocadinho esquecida? Tenho encontrado muitos bons professores de poesia, não serão todos, mas tenho encontrado muitos, muito bons. Tenho lido livros muito interessantes sobre o ensino da poesia nas escolas e tenho encontrado professores e alunos no âmbito destes encontros do Plano Nacional de Leitura e tenho ficado surpreendido com a sensibilidade à poesia. Aliás, as crianças e os jovens estão disponíveis para a aprendizagem em todas as áreas e o digital, hoje, também é um instrumento fantástico para a descoberta do mundo. É preciso ensinar o que é que há a descobrir, já não podemos entrar cegamente na rede, mas se soubermos do que vamos à procura e se formos sensibilizados para determinados nomes, determinados valores, determinadas pistas, eu penso que o gosto pela leitura pode ser fomentado. As pessoas não vão deixar de ler, as crianças não vão deixar de ler, é preciso descobrir o prazer de ler e também penso que a poesia não vai deixar de ser lida e não vai deixar de ser escrita porque temos excelentes poetas a aparecer, por isso, não estou muito angustiado com o futuro da poesia e da literatura. Já no Séc. XIX havia um grupo que dizia “a arte morreu, a cultura morreu, porque a ciência a vai substituir” e estávamos a falar da ciência da Segunda Revolução Industrial, a maquinaria, “as imagens vão substituir os quadros”... nada disso se verificou! Nós continuamos a usar todos os instrumentos de que dispomos: o livro, o computador, o tablet... O cinema não matou a literatura, gostamos de ler romances e gostamos de ver filmes, vamos continuar a fazer as duas coisas.

Portanto é preciso aproveitar os novos instrumentos tecnológicos para potenciar a divulgação cultural... Exacto. Ontem fizemos aqui um acordo com a Google para que a Google divulgue em toda a sua rede os nossos museus e monumentos. Eles vão digitalizar os museus e monumentos de Portugal e vão colocá-los à disposição dos internautas de todo o mundo, como acontece com tantos outros, para passeios virtuais, para diálogos com as obras. Isso permite, desde logo, uma visibilidade extraordinária do nosso país. Isso já acontece com a Biblioteca Nacional Digital, que possibilita a qualquer pessoa no mundo o acesso à

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Um denominador comum a todas as conversas que tenho mantido com agentes culturais das mais diversas áreas é a referência a uma época considerada dourada para a cultura nacional e que coincidiu com o período em que o Professor Mariano Gago foi Ministro da Ciência e Tecnologia (e não da Cultura, o que não deixa de ser curioso). Isto ficou a dever-se à percepção generalizada da existência de uma estratégia global para o sector, pensada a longo prazo e que envolvia não só a Cultura, mas o Ensino Superior, a Educação, a Tecnologia, as Ciências e até a Economia. Pelas diversas intervenções do Senhor Ministro que tive oportunidade de ler, deduzo que esta ideia de interdisciplinaridade e de interligação entre diversos sectores seja uma preocupação do seu Ministério.


nossa Biblioteca Nacional, mas aqui estamos a falar em alargar às artes plásticas, às artes visuais, aos monumentos, às peças dos nossos museus, que vão conhecer uma enorme divulgação ao entrar na rede Google além de, na vertente académica, permitirem aos investigadores a possibilidade de trabalharem sobre essas obras e pô-las em relação com outras. É extraordinário o que se abriu com este acordo feito ontem entre a Direcção Geral do Património Cultural e a Google.

Esse é um bom exemplo da necessidade de aproximação entre Cultura e Economia, até pelo papel que a Cultura desempenha na atractividade de um turismo em crescimento exponencial.

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As pessoas procuram o menos conhecido, o menos banalizado e nós temos a felicidade de ter um património que em grande parte é menos conhecido e que representa uma descoberta. Claro que há lugares icónicos, como os Jerónimos, a Torre de Belém, que são símbolos do país. As pessoas identificam Portugal com meia dúzia de estereótipos e meia dúzia de ícones, mas Portugal tem imensas coisas a descobrir e actualmente desperta a curiosidade de Europeus e não só. Ontem o Director da Europa da Google sublinhava uma questão interessante ao informar que nos motores de busca da Google a primeira pergunta que se faz, relativamente a destinos turísticos e opções de férias é, obviamente, sobre os hotéis e os restaurantes locais, mas a segunda é sobre a oferta cultural, é sobre os equipamentos culturais, é sobre aquilo que se pode ver, sobre o que interessa ver, seja as paisagens, porque a paisagem também é cultura, seja monumentos. Nós temos uma riqueza cultural extraordinária e soubemos diversificar e atrair um turismo sofisticado. O que actualmente motiva os mercados turísticos, o que actualmente é atractivo, é aquilo que nós temos de diferente, que é o nosso património, a nossa cultura e, depois, evidentemente, a nossa gastronomia, os nossos vinhos. Por tudo isto, o Turismo e a Cultura têm de estar interligados e trabalhar conjuntamente e temo-lo feito. Ainda agora foi feito um acordo entre Turismo e Ciência no Vale do Côa. No parque do Côa fizemos um trabalho conjunto com o Ambiente, com a Ciência e com o Turismo no sentido de valorizar aquele Parque que é Património da Humanidade. O Programa Revive que é um programa de recuperação de edifícios históricos, feito em parceria com os privados, para que os privados possam rentabilizar esse património, mas com a contrapartida de o reconstruírem e de o conservarem, sempre sob a fiscalização da Direcção Geral do Património Cultural em que todos os projectos têm que respeitar

rigorosamente as características históricas e estéticas do monumento e obrigando à fruição pública. Claro que há edifícios que não são passíveis deste tipo de rentabilização. Ninguém está a pensar em rentabilizar os Jerónimos ou o Mosteiro de Alcobaça! Agora há edifícios, por exemplo, no caso do Mosteiro de Alcobaça, há um edifício anexo ao Mosteiro que não tem nada a ver com o Mosteiro, quer dizer, tem a ver com o Mosteiro porque foi construído para as necessidades do Mosteiro numa determinada época, mas não tem nada a ver com o edificado original e que vai ser recuperado pela Visabeira para uma Pousada, turisticamente importante no eixo Alcobaça/ Batalha, no eixo do Turismo do Oeste. Portanto, há muito trabalho conjunto a ser feito com a Economia, com a Ciência, com a Educação. E nós temos esta concepção de que todos fazemos Cultura, de que a Cultura não depende apenas de um Ministério.

O Senhor Ministro, por altura da sua tomada de posse, elencou três eixos importantes da sua actuação: a preservação e a utilização activa do património, o apoio à criação artística e a internacionalização da cultura portuguesa. Estamos no bom caminho nestas três áreas, sobretudo na última, da qual acabamos por não falar tanto? A Internacionalização. Eu tenho alguma experiência nessa área, porque como lhe disse, na minha carreira diplomática sempre me interessei muito pela diplomacia cultural. A nossa rede externa é o Ministério dos Negócios Estrangeiros e, através do MNE, o Instituto Camões e a AICEP, que são dois instrumentos fundamentais para a internacionalização da nossa cultura. Em primeiro lugar a cultura portuguesa é feita pelos nossos criadores que apoiamos para a sua internacionalização numa acção conjunta entre Ministério da Cultura e MNE e os outros ministérios que se venham a associar, como o da Economia e do Turismo. Por exemplo, temos programada uma acção em Guadalajara, México, em 2018 numa grande feira do livro que é ao mesmo tempo um grande evento científico, económico e que se dirige a toda América Latina, frequentada por 800 mil pessoas; estaremos na Bienal de Veneza; nos festivais de cinema, Berlim...

Cada vez com mais sucesso, e com prémios conquistados. É verdade! Na área da língua, o Instituto Camões tem desenvolvido a rede do ensino do português no estrangeiro e junto dessa rede há sempre uma dimensão de promoção cultural. Portanto, o Ministério da Cultura, com o MNE, com a nossa rede de embaixadas e de centros culturais no mundo, procuramos pro-


mover em conjunto essa acção de internacionalização seja de grandes eventos como uma bienal, seja de feiras do livro, viagens de escritores, de intercâmbio, de residências literárias... há muita, muita coisa a fazer na área da internacionalização.

Já percebemos a importância do seu passado enquanto diplomata para o desempenho do cargo actual. Acha que é o facto de ser poeta que lhe dá outro olhar sobre o Ministério que agora chefia? Sim, claro que os meus interesses foram sempre na área da cultura, mais especificamente na área da literatura, mas fui sempre uma pessoa motivada pela cultura. Na minha profissão trabalhei muito na diplomacia cultural, do Brasil à Índia, enfim... nos vários postos em que estive colocado, olhei sempre com particular atenção para a diplomacia cultural.

Referiu exactamente os dois postos diplomáticos que mais o entusiasmaram: Rio de Janeiro e Nova Deli. No caso da Índia até mereceu honras de livro... (Risos) É verdade, mas sem desprimor para nenhum dos outros postos. Também fizemos um bom trabalho de acção cultural na Hungria e fui Embaixador na Unesco, cuja vertente cultural é sobejamente conhecida. Para mim o convite de António Costa foi uma surpresa, porque sendo uma pessoa ideologicamente identificada com o actual governo e com a política do PS, não sou militante, os diplomatas não podem ser militantes de partidos políticos. No fundo este convite acabou por vir no fim da minha carreira diplomática, porque quando foi feita esta proposta tinha menos de um ano de carreira activa, na medida em que atingia a idade de disponibilidade e, portanto, considerei que seria um desafio interessante. E se o Primeiro-ministro confiava em mim para essa tarefa...

“Regresso a casa e encontro o meu país.”

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Luís Filipe Castro Mendes.


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A Noite [15]

Um conto original de Sandro William Junqueira


“Tudo o que escrevo é inventado, só dez por cento é mentira.” Manoel de Barros

Na noite de 26 de novembro de 2004, Mark King, um homem muito alto de cabeça glabra, abriu a porta de casa em Romford a dois homens mais baixos do que ele. (Da primeira vez que vi Mark King o meu cérebro realizou esta estranha sinapse: imaginei-o a interpretar o papel de juiz Holden no dia em que algum realizador ousasse avançar para as filmagens da adaptação cinematográfica do livro Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy.) Os dois homens sentaram-se confortavelmente num sofá e trocaram algumas frases com Mark King. Não foram precisas muitas palavras para chegarem a um acordo. Mark King, que permanecera de pé, mão apoiada no pano verde da mesa de snooker, acenou o sim. Os dois homens levantaram-se e aproximaram-se da mesa e de Mark. Um deles passou-lhe para a mão um envelope dobrado contendo mil libras, que trazia oculto no bolso do sobretudo. Mark King, com o suor a acumular-se no crânio e na testa, retirou a mão do pano verde e aceitou o envelope. Acompanhou os dois homens mais baixos que ele até à porta e despediu-se cordialmente. Mark King sabia que daí a dois dias estes homens, com a colaboração de outros homens, regressariam numa carrinha para levarem a sua mesa de snooker para um qualquer clube da grande Londres. A mesa onde treinara obsessiva e compulsivamente durante anos e anos, todos os ângulos e tabelas e efeitos e o controlo da bola branca para, um dia, quem sabe, ganhar um torneio do ranking. Mark King, dez minutos após este encontro, vestiu o casaco desportivo e uma boina. Saiu para a chuva, para o frio, dirigindo-se ao casino mais próximo. Este homem muito alto de cabeça glabra perdeu, em duas horas, numa mesa de Blackjack, a totalidade das 1000 libras e também a mesa de snooker. Apesar deste triste episódio e de outros subsequentes relacionados com o vício do jogo, Mark King, conseguiu vencer o Open da Irlanda do Norte em Belfast, na negra. Numa comovente e inesquecível final contra Barry Hawkins. Corria a noite de 26 de novembro de 2016. Nunca saberei se, ao levantar a taça de cristal, Mark King teve a consciência do que tinha acontecido precisamente naquela mesma noite doze anos antes. O que sei é que nunca tinha visto um homem tão alto chorar.

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Leos Janacék, bem agasalhado, sai do seu modesto e bolorento apartamento, situado perto do Conservatório que ajudou a fundar, para o seu passeio noturno. Estamos no início do século XX, em Brno, a maior cidade da Morávia. Já caíram as primeiras neves e Janacék caminha com cautela – as primeiras neves são as mais escorregadias – pelas ruas estreitas e escuras do centro histórico. Quando criança, Leos Janacék sonhava tornar-se num guarda florestal. Acabou músico. Filho de um muito humilde professor do ensino primário e mestre de música, acabou por receber aos onze anos uma bolsa que o levou da sua pequena aldeia rural – Hukvaldy – até Brno para frequentar uma escola de canto coral. Seguiram-se Praga, Leipzig, Viena, até o regresso à capital da Morávia. Janacék, na quarta-feira cinzenta de 26 de novembro de 1901, encaminha-se para o café onde se sentará em breve numa mesa esconsa para, de ouvidos atentos, prosseguir na sua pesquisa e transcrever em papel de música as conversas que circulam em redor. Janacék acredita que a melodia se deve adaptar aos ritmos e tons do linguajar popular. Janacék tem perto de cinquenta anos e apesar da sua dedicação e labor ainda não criou nenhuma obra-prima. Uma mulher pálida de aspeto frágil entra no café onde Janacék está sentado de cabeça curvada. Esta mulher chama-se Maria Pliskolova. É casada e traz um filho no ventre, embora Janacék só o venha a saber mais tarde. Maria Pliskolova encaminha-se para a extremidade do balcão e passa rente a uma mesa cheia de estudantes alegremente embriagados. Um deles, mais atrevido, atira na direção de Maria um ”boa noite” numa curva de voz carregada de desejo. Janacék ergueu a cabeça atraído pelo arco melódico e deu de olhos com ela. Janacék olhou fundo nos olhos de Maria e Maria mergulhou no abismo dos olhos de Janacék. E nesse preciso instante Leos compreendeu que nenhuma eternidade seria suficiente para acabar com aquilo que ali começara. Depois daquela noite de quarta-feira de 1901, Janacék, estupidamente apaixonado por Maria Pliskolova, principiaria a escrever a ópera Jenufa. Uma adaptação direta de um texto em prosa que aborda uma relação extraconjugal entre uma rapariga simples de aldeia e um rufia local e da qual nasce uma criança não desejada que terá um fim trágico. Jenufa, a ópera que Janacék escreveu após este súbito abalroamento amoroso num café de Brno, só muito tardiamente seria reconhecida como obra-prima e, com ela, Janacék entraria na história como um dos grandes compositores realistas do início do século XX.

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Paul T. Anderson estava recluso voluntariamente numa casa de campo algures a sul da Califórnia. Numa vasta área ocupada por rios, pântanos e crocodilos. Paul pedira a chave a um amigo e fizera mais de 300 quilómetros de carro para ali se refugiar, durante um mês, e iniciar a escrita de um novo guião. Tinha avisado a família e a namorada que pretendia ficar incomunicável, mas sempre que fosse possível daria notícias. Talvez por isso, chegado à clareira defronte da casa de campo algures a sul da Califórnia, ao retirar a chave da ignição, Paul desligou o seu telemóvel e guardou-o no porta-luvas. Tomara a decisão de se afastar das luzes e do alarido de Los Angeles, temendo o bloqueio que poderia surgir da compreensível habituação do palato ao êxito. O musculado sucesso do seu último filme colocara as expectativas muito altas, e Paul não queria que estas se despedaçassem de encontro ao chão. Durante os primeiros dias de estada, Paul T. Anderson perdeu-se em passeios de carro pelas redondezas, em compras para compor a despensa, em visitas frequentes aos bares mais próximos. Paul começava a padecer da doença que é frequente surgir nestes retiros onde a criação é prioridade: a procrastinação. Nestas alturas, qualquer distração ou o mínimo acontecimento ganham uma importância sobre-humanas e, facilmente, o trabalho é empurrado pela barriga para diante. Até que chegou o dia: sábado, 26 de novembro de 2007. Já o sol se tinha baixado o suficiente para deixar entrar a noite quando Paul T. Anderson, de cigarro aceso a pender-lhe dos lábios, arranjou mais uma desculpa periférica para sair de casa. O descontraído Paul dirigiu-se para a porta. Deu à alavanca do pulso e rodou a chave. Ao abrir a porta, Paul T. Anderson foi confrontado por uma píton birmanesa que o fitava, parada no alpendre. Caiu-lhe o cigarro da boca petrificada. E ao ver o cigarro cair, Paul recuou, devagar, sem nunca tirar os olhos da cobra. Durante essa comprida noite, Paul T. Anderson, frenético, deambulou para a frente e para trás por todas as divisões da casa. Acendendo todas as luzes possíveis. Certificando-se se todas as portadas e janelas estavam bem fechadas. Fumou cigarro atrás de cigarro em busca de uma solução de fuga. O telemóvel, claramente, estava fora da equação. Para chegar até ele, Paul teria de abrir a porta e enfrentar a cobra. Nas semanas que se seguiram a este encontro imediato com a píton, Paul T. Anderson, finalmente recluso na casa de campo de um amigo algures a sul da Califórnia, escreveu de um só fôlego o esboço do guião daquele que viria a ser o seu próximo filme. É muito curioso que, no prólogo do mesmo, Paul, tenha explorado um conjunto de coincidências e acasos. (Não tivesse sido essa noite de 26 de novembro, neste caso a do ano de 2007, mais uma vez decisiva.) E que as múltiplas linhas narrativas, aparentemente dispersas, se encontrassem, também elas, numa memorável noite bíblica onde acontece uma forte chuvada de sapos.

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O candeeiro de mesa está aceso sobre a secretária e ilumina o New York Times onde a mão esquerda de Billy Collins está pousada. Da chávena de café sobe um fumo pacífico e ouve-se ao longe a voz do mar. Billy Collins fechou-se no escritório da sua casa costeira em Manhattan após um frugal jantar na companhia da sua mulher. Sandes de rosbife, ovos cozidos, um copo de leite, uma fatia de tarte. O jantar decorreu mais silencioso do que o costume. Uma troca de perguntas frívolas, pouco mais. A mulher de Billy sabia a razão pela qual ele se encontrava hoje mais circunspecto e ensimesmado. Talvez por isso tenha conseguido escapar do trabalho uma hora mais cedo, a tempo de confecionar para o jantar uma tarte de maçã: a sobremesa preferida de Billy. Não que uma fatia daquela tarte de maçã fosse alterar o seu estado de ânimo. Mas esta foi a forma que ela encontrou para o tentar consolar sem tocar no assunto. Billy Collins terminou de mastigar o último pedaço de massa, limpou a boca com um guardanapo e fez o melhor sorriso que conseguiu na direção da mulher. Ele percebeu que ela tinha percebido. Levantou-se, contornou a mesa, abraçou-a e deu-lhe um beijo nos cabelos. Billy Collins está agora fechado no seu escritório, sentado à secretária. A biblioteca nas costas. Durante uma hora tentou ler o jornal para evitar a todo o custo a direção para onde se dirigiam todos os seus pensamentos. Mas à medida da leitura, do folhear das páginas, dava-se conta de que a fuga de nada valia. Pelo contrário. O melhor era assumi-la. Billy Collins deu dois pequenos goles no café que teimava em fumegar, ajeitou os óculos à cana do nariz, afastou o New York Times para o lado – embora o mantivesse aberto ali: na página diária destinada aos horóscopos. Hoje, terça-feira, 26 de novembro de 2010, fazia três anos que Billy Collins perdera um grande amigo. Ao deparar-se com a página destinada aos horóscopos, sentiu o desatar do nó adrenalínico junto do umbigo, o aumento da pulsação cardíaca. Billy Collins prepara-se agora para escrever o poema que dará título ao seu próximo livro: Horóscopo para Mortos. Todas as manhãs, desde que desapareceste para sempre, leio sobre ti no jornal juntamente com a ficha técnica dos jogos, o tempo e todas as más notícias. (…) E não te preocupes, hoje ou em qualquer outro dia, com os problemas causados pela tua falta de vontade de interagir racionalmente com os teus companheiros de trabalho. Chega de metas para ti, de romance, chega de dinheiro ou filhos, empregos ou funções importantes, mas também nunca tiveste essas obrigações. (…) Será melhor eu fechar o jornal E vestir a mesma roupa de ontem (quando li que as tuas perspetivas financeiras pareciam promissoras) (…) E tu permanece exatamente como estás, jazendo aí, com o teu lindo fato azul. De mãos cruzadas sobre o peito

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Curiosamente, foi também numa noite do dia 26 que um grande amigo do escritor Sandro William Junqueira desapareceu para sempre. E sempre que regressa a este poema, «Horóscopo para Mortos», o narrador deste texto, (ou seja, eu), emociona-se. Emociona-se porque se lembra de imediato do Rui, e também, porque o que gostava mesmo era de ter sido ele a escrevê-lo. Mas falta-lhe, obviamente, o talento, o rasgo – não é poeta quem decide querer; é preciso, antes, sê-lo. No dia em que o escritor Sandro William Junqueira recebeu o convite para escrever um texto sobre a noite, lembrou-se do Rui e deste poema do Billy Collins e de como gostaria de escrever um texto sobre a noite que era o Rui e que soasse ao poema do Billy Collins. Mas, uma vez mais, o narrador deste texto, mostrou-se incapaz (mostrei-me incapaz). É que além de já ter lido este poema, também já tinha lido a segunda parte do livro de Julian Barnes – Os Níveis da Vida –, essas que são, para mim, as mais belas trinta páginas alguma vez escritas sobre o luto. Em vez disso, resolvi escrever um texto sobre as coisas de que gosto, e que gostava de partilhar com o Rui, associadas a uma noite determinante. Uma mesma noite repetida, inspiradora e fatídica, bela e terrível, metafísica e real, capaz de vencer obstáculos, de ultrapassar séculos, o universo inteiro e o infinito. Para trazer o Rui para mais perto. A verdade é que o narrador deste texto, (ou seja, eu), passou os últimos dias à volta destes escombros de histórias, destas linhas, a tentar inventar e a mentir verdadeiramente, a tentar replicar com estas palavras aquilo que o Rui fazia em palco. O Rui era um enorme ator. Tão alto e jogador como Mark King. Tão capaz de se apaixonar violentamente num simples olhar como Janacék. Tão ousado, visceral e intenso como Paul T. Anderson. Tão poeta, perante a vida e perante a morte, como Billy Collins.

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Sandro William Junqueira


Nocturnos [21]

JoĂŁo Albuquerque Carreiras


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Hernâni Um Senhor da Noite por João Albuquerque Carreiras

“Nos meus bares qualquer mulher pode vir sozinha”

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Falar da noite de Lisboa, em particular da que circula pelo Bairro Alto e arredores, passa por falar com a cara de bares com tanta história como o Lábios de Vinho, Café Concerto, Noites Longas, Targus, Indústria, Lx Factory, Naperon ou, na actualidade, o Tabernáculo, onde nos sentámos para uma conversa entre copos.


Queres apresentar-te?

ços, porque hoje a pop é globalizada.

Chamo-me Hernâni Miguel. Estou em Portugal desde de 1965 e sempre vivi na Baixa desde que cheguei a Lisboa. A seguir ao 25 de Abril, comecei a pôr música em festas de liceu ou de amigos meus. Faço a minha entrada no Bairro Alto através da Escola Comercial D. Maria onde estudava à noite, para fazer uma festa gigante num bar. A festa foi tão brilhante que o dono do bar pediu-me para eu ser RP dele, foi aí que conheci o meu grande e saudoso amigo Zé da Guiné. O bar chamava-se na altura Rockhouse, mais tarde Jukebox, e foi um bar de afirmação em Portugal, um grande bar mesmo. Foi o primeiro bar de moda, só depois aparece o Frágil e outro bar também fantástico que era o Artis. Depois começam a aparecer uma série de bares, tudo no Bairro Alto.

E nesses anos 80, por onde andavas?

Essa evolução deve-se a quê na tua opinião? Deve-se ao pós 25 de Abril, à abertura de mentalidades, à liberdade, a pessoas que já tinham viajado e conheciam outras realidades e que viram o que era importante fazer. A partir daí começa uma nova noite, com pessoas como o Pedro Luz, ou o Gigi. Muita gente que tinha tipos muito estereotipados, não é, diferentes mesmo. Bairro Alto, era Bairro Alto, uma coisa mais urbana e também mais tribal no sentido que tinha muitas tribos, tinha muita diversidade.

Quais eram as tribos do Bairro Alto? Havia de tudo, tudo o que tinha a ver com a nova tendência europeia.

Como é que tu identificavas essas tribos? Pela música? De certa forma, e pelo status, pelo estilo. Hoje identifica-se pela música, há gajos que só gostam de rock, não têm é tantos espa-

Mas qual foi a primeira? A primeira provavelmente foi o Lábios de Vinho, que abro em meu nome e do Pedro Lata (que já faleceu). O Pedro Lata, para quem não sabe, foi uma das pessoas que trabalhou com Ana Salazar e que ajudou a criar a sua primeira colecção, foi manicure sem saber trabalhar em unhas - do grande cabeleireiro que toda a gente conhecia e que cantou muitíssimo bem a língua portuguesa António Variações -, foi um dos maiores RP’s do Trumps - ele e o seu team -, foi um dos maiores RP’s do Alcântara Mar, ou seja, um homem com história. E então abrimos o bar, o Lábios de Vinho.

Que era onde? No Bairro Alto, na Rua do Norte. Depois, mais tarde, alugámos o Café Concerto, também na Rua do Norte e depois cada um foi à sua vida e então comecei a fazer coisas com outro amigo, o Zé da Guiné. Tudo começa quando o Zé vai a uma festa organizada por um senhor guineense, um homem louco, mas genial, porque tinha a genialidade de juntar centenas e milhares de pessoas se fosse preciso, mas perdia sempre dinheiro (risos). Ele trabalhava num banco, muitas vezes pagava do bolso dele, mas as coisas aconteciam. Fez então essa festa no largo Conde de Barão, no Palácio Almada Carvalhais (que é um palácio da renascença que, com muita pena, está a ficar decrépito, envolto em guerras familiares) e o Zé sai de lá e vem-me dizer “Hernâni há um espaço fantástico, temos que ir ver”, e eu disse que sim. Vejo o espaço e ele pergunta “o que é tu achas?”, “eu acho que vamos organizar aqui festas”, mas acrescento “repara, eu tenho o bar lá em cima, que pode ser um bom veículo, mas falta-nos um parceiro que tenha mais disponibilidade financeira”, que eu não tinha, o dinheiro era contado para gerir o bar. Vou falar com um amigo meu, o Mário do bar Artis, e é ele, sempre muito comedido, muito

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Como era a noite dos anos 70? O que é que tu frequentavas? A noite dos anos 70 era muito curta, focalizada e, quer queiramos quer não, pouco diversificada. Eu era miúdo e ficava na porta do Barbarela, o grande bar que havia no meu bairro, onde só me deixavam entrar quando tocava um tema do Lou Reed que era o “Goodnight ladies”. Eu e os meus amigos só entrávamos nessa altura, aliás, tornou-me fã do Lou Reed, a mim e a todos nós. Depois havia o Barracuda e mais tarde apareceu, em Cascais, o 2001. Havia outras coisas, mas nós éramos mais da zona de Lisboa. Chegamos aos anos 80 e o Bairro Alto começa a mexer com muitos bares, muitas coisas a acontecer: moda, design, alfarrabistas …

Eu cresci na Baixa / Chiado e logo desde miúdo tive imensos amigos daqui da zona. Por isso, para os espaços que frequentava levava a minha entourage toda. Foi isso que me foi fazendo sempre sólido nos espaços que frequentava. Até que há um dia em que decidi arrendar um espaço. E ao arrendar o espaço, sabia o tipo de música que queria que passasse. Gostava imenso de música, tinha imensos discos, sempre tive muitos discos, e foi assim que depois abri várias casas, nem sei quantificar quantas abri.


agarrado ao dinheiro, mas um gajo mais velho do que nós, mais clarividente em termos de despesas, que nos ajuda e então começamos a fazer uma coisa que se chamava “As Longas Noites”.

Faltava um local para continuar a noite? A noite acabava cedo, lá para as 2h, percebemos isso e conseguimos projectar a noite até às 6h ou até às 10 da manhã. Os ingleses passaram-se, tínhamos o mundo a perceber o que era Portugal, o que se chamava a Longa Noite ou as Noites Longas. Aquilo foi um sucesso e, como é óbvio, puxava pessoal do Bairro Alto e aquilo enchia, e quando aquilo enchia fazia filas de 200, 300 pessoas para entrar. Tínhamos um concerto, comida, ping-pong, cinema, um bar, uma galeria de arte, uma zona dançante, as pessoas podiam desmultiplicar-se, circular. Entretanto a noite evoluiu, como é evidente, as pessoas têm que evoluir, e eu saio dali e começo a fazer outras coisas. Começo a ser agente e manager de bandas. A noite de Lisboa, a partir dos anos 80, mais provavelmente dos anos 85, dá um boom grande, começam a aparecer bares maiores (Plateau, Kremlin) começa a haver mais gente a chegar a Lisboa, porque a diversidade era maior. O Bairro Alto solidifica-se e torna-se muito mais forte, com o Pap’Açorda, o Fidalgo, o 1º de Maio, o Primavera, com o Sinal Vermelho e muitos mais que agora, perdoai-me, se calhar vou esquecer, com a Tia Alice e o “pontapé na cona”, com uma série de coisas icónicas, e o bairro ao crescer, começa a ter um público muito mais diversificado, com muitos artistas plásticos.

Muitos espaços da moda e muitos artistas plásticos? Tudo cresce ali em volta, com o teatro, as forças vivas, como o conservatório, uma força viva muito importante. Mais tarde abro um bar lá que é o Targus.

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Que é um ícone? O Targus transformou-se num ícone. Era na rua do Artis e rivalizava em termos de clientela com o Artis e com o Frágil. Há um outro bar no Bairro Alto na altura que era injusto da minha parte esquecer, que era Os Três Pastorinhos, que foi um bar complementar ao meu, complementar ao Artis, complementar ao Frágil, do Eduardo, do Adelino e do Zé Paulo. Um triângulo que era um quadrado dos quatro bares. Depois é assim, cada qual tinha os seus trunfos. O Manuel Reis (Frágil) jogou mais com a questão de arte, eu joguei mais com os jornalistas e arquitectos, o Mário (Artis) tinha um truque fantástico que era a comida (uma boa sopa, sempre uma boa

torta), e um jazz vintage, o Eduardo (Três Pastorinhos) tinha uma zona dançante com dois DJ’s brilhantes. E nós todos construímos uma nova ideia do Bairro Alto, de formas diferentes, uns menos exuberantes nos seus movimentos, mais nas suas casas, outros mais exuberantes nos seus movimentos.

Mas há uma ligação curiosa entre todos estes espaços - a música, o jazz. De certa forma o jazz, o soul e o blues são a união entre esses 4 bares, exceptuando o Frágil, que entra numa onda mais vanguardista, mais pop? Há uma certa linguagem, mas tem a ver com uma coisa que eu te vou explicar que é uma observação pertinente. Quando eu e o Zé começámos a fazer as nossas noites, esses nossos amigos paravam lá porque gostavam daquilo, portanto, fazia todo sentido fazer a mesma coisa. Óbvio que o Manel Reis, apesar de gostar dos nossos sítios tinha uma estética diferente, porque não só tinha DJ’s diferentes, como era um líder que desenhava tendências.

Uma pergunta curiosa, que nunca te fiz, mas que vou fazer agora, porque que fechou o Targus? O Targus fechou por uma coisa muito simples, eu estive lá 10 anos o que é muito tempo. Marcámos uma época. Passado esse tempo, quis ficar com o espaço ao lado, só que isso dependia dos meus sócios aceitarem, o que acabou por não acontecer. Tivemos uma desinteligência e eu quando dei conta dela, como sempre fiz, retirei-me. Larguei tudo, saí e fui-me embora. Continuei a ser amigo daquela gente até sempre, serei sempre amigo. Como é óbvio, nesses espaços podes ter muito dinheiro, mas se não fores a alma, se não tiveres a alma, esquece, por outro lado, podes não ter dinheiro e podes aguentar o bar durante muitos anos, tens a alma, e foi o que aconteceu e eu tive muita pena.

Fala-nos agora desse período nos anos 80 no Bairro Alto, porque a verdade é que esse não é o Bairro Alto de hoje. Toda a gente se conhecia? Não. Eu conheci o Manel Reis no Bairro Alto, não o conhecia de lado nenhum. Conheci o Eduardo (Três Pastorinhos) no Bairro Alto, não o conhecia de lado nenhum, aliás, conhecia do meu bar. Não conhecia o Mário (Artis) de lado nenhum. A única pessoa do Bairro Alto era eu, que morava no Chiado. Agora é assim, as pessoas do Bairro Alto, os moradores conheciam-se entre si, mas os clientes não. Iam-se olhando e foram-se identificando com os bares e com a postura, ou seja, não eram conhecidos, tornaram-se conhecidos, por exemplo, os gajos do Gingão.


Nos anos 90 já começas a ter a malta que sai do Bairro Alto e começa a ir para a 24 de Julho?

A partir do momento em que tu entras, em que estás e fazes parte, o racismo deixa de existir?

Mas isso é outro tipo de gente. A frequência é outra. Há uma frequência que, gostem ou não gostem, eu chamava os gajos de gravata, os gajos que gostavam de dançar uma dança simulada. Pessoas da noite, verdadeiras, à seria, iam ao Kremlin e iam ao Alcântara Mar. Quando aparece a Kapital já é outra coisa, já é outra coisa que não tem nada a ver, apesar de eles terem feito um trabalho fantástico, durante muitos anos, com outro público.

Não, a partir do momento em que tu és líder de qualquer coisa, não existe, é o contrário. Se não fores líder, porque eu tinha amigos meus que eram pretos e estavam sempre a ser maltratados. Quando a tua afirmação é mais forte, quando a tua liderança aparece, até podem ser racistas, mas falam em surdina, não te dizem. Isso é engraçado sociologicamente. Portanto, isto existiu, existe, vai existir sempre. Agora cada vez existe mais o racismo social, cada vez mais, porque os países e os governos têm cometido um grande erro, e isto eu vou ter de falar num exemplo muito prático, Alcântara. Quando se constrói a ponte, tiram-se aqueles gajos que moravam perto da ponte sobre o Tejo, de Alcântara, e põem-se na Musgueira. Não podiam ter feito isso. Têm que diluir os bandidos. Ora, fazendo guetos estamos lixados, os putos vão crescendo naquilo e não saem mais. Eu moro numa zona onde todos os dias às 5 da manhã, vejo dezenas de senhoras africanas a ir para os trabalhos, como é que os filhos ficam? Isto não é algo que só acontece aos pretos, aos brancos também lhes acontece, porque os guetos também têm muitos brancos. Depois claro, os miúdos são revoltados, não podes pôr milhares de putos em guetos como têm feito, isso é um erro, é um erro social.

Não é na minha opinião! É na opinião de qualquer pessoa. Era um tecido onde (eu ainda por cima sou amigo do Gonçalo e do Tiago) sentia que eles faziam a noite como queriam e como gostavam, mas era um sítio racista, ponto. Esta é a verdade. Ainda hoje eles têm um bar ali do lado de lá, onde estive, que é o Urban, onde houve uma bronca grande, aqui há pouco tempo, por não deixarem entrar o Nelson Évora e o Obikwelu porque eram pretos.

Esse é um tema que gostava de abordar. Havia racismo nesse tempo? Sim, sempre houve e ainda continua a haver.

Mas tu sentias isso? Sim, absolutamente. Só não senti mais porque felizmente no Externato Paroquial Nossa Senhora da Conceição, que tinha perto de 50 pessoas e eu era o único preto, nunca senti racismo, porque eu tinha vindo de África, jogava bem à bola, corria imenso, era um gajo muito bom no desporto, prevaleciam as minhas qualidades e sabes que quando tu és bom e és o líder, o que conta é o teu nome, não a tua cor. Na Manuel da Maia foi assim, no S. José foi assim, no Passos Manuel foi assim, foi em todo lado, era o Hernâni, o Hernâni. No Bairro Alto foi assim, na Mouraria foi assim, ou seja, nunca me trataram por preto, era sempre o Hernâni. Se tu és um líder nato e és, neste caso, um miúdo atleta, ninguém te vai chamar preto, só os adversários para tentarem provocar é que te chamavam assim.

Mas na tua entourage, entre os teus amigos nunca te sentiste assim? Nunca me senti ostracizado. Nunca! Eu era um líder de vários grupos, eu só sentia o racismo quando ia jogar contra a,b,c, d e não sei o quê. Agora, no meu meio ambiente não havia racismo.

E nessa época, havia esses guetos quando vieste para cá? Eu cheguei cá com 7 anos, nessa época não havia tanta guetização porque não havia tantos pretos, eram pouquíssimos, pouquíssimos, eram os futebolistas e mais 100 ou 200. Sendo que as pessoas se esquecem que não é impunemente que o grande poeta canta “Grândola Vila Morena”, as pessoas esquecem-se que aquela zona de lá, e está na História, era habitada por pretos. Quando queriam ver pretos, homens escuros, iam para as terras do Sado, portanto sempre existiram pretos por cá. Os árabes ficaram cá, os novos cristãos eram pretos, a Rua das Pretas existia, o Poço dos Negros existia. Sabes, a história vai voltar a ser reescrita. A história foi escrita de uma forma muito prosaica vamos ser honestos, não é?

Esse período do Bairro Alto acabou por contribuir para uma revolução cultural que extravasou à cidade. A revolução foi tão grande! Não existia moda em Lisboa, não existia moda em Portugal e um grupo de contemporâneos meus, que cresceram nos meus bares, no bar de Manuel Reis, fizeram uma coisa que eram as

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Tinham o seu público, mas era um público diferente, na tua opinião?


Manobras de Maio e das Manobras de Maio vem a Moda Lisboa, da Moda Lisboa vem a Fashion Week. A mudança é uma coisa tremenda na cidade de Lisboa nos últimos 20 anos, só quem anda a dormir é que não percebe. E quando dizem que Lisboa está pior, não está.

Havia um ímpeto revolucionário, uma vontade de fazer mudar as coisas? As pessoas não estavam nas coisas para serem conhecidas, mas para serem felizes. Havia pessoas, como eu, que fizeram imensas coisas, ainda bem que o fiz, não estou arrependido, diverti-me imenso. Se fosse um gajo que não me quisesse divertir, fosse um agiota, eu e as outras pessoas todas, não tínhamos sido tão felizes, não tínhamos tornado as pessoas tão felizes. Nós produzimos coisas para as pessoas sentirem que era possível. Por exemplo, num sítio como as Longas Noites tivemos uma produção do Pedro Cabrita Reis, que já na altura valia muito dinheiro, só porque ele acreditava em nós, e a produção acabou e mandou destruir aquilo tudo. Isso hoje em dia não era possível.

Havia também uma interligação maior entre os agentes culturais?

co-produtor sou culpado por um álbum chamado Rapública, de hip-hop, fiz Da Weasel, fiz Black Company, fiz Blackout, agora estou a fazer uma cantora brilhante que se chama Pongo, ex-Buraka Som Sistema, ou seja, não sou um gajo fechado na redoma, não sou, estou update, estou sempre à frente, portanto sei do que estou a falar.

Depois como foi a evolução do Bairro? O Bairro Alto segue bem até aos anos 2000. Depois dos anos 2000, a noite em Lisboa começou a ser outra noite, muito maior, em termos de espaço físico, mais longa, chega quase a Algés e ao Braço de Prata, também mais longa de horário, é uma noite muito grande. Grande nos dois sentidos e começa a ser uma noite com menos alma, com pouca alma.

Achas com menos alma? Tem que ser. Tu não podes ter um espaço onde cabem 2000, 3000 pessoas e ter alma. É impossível. Num espaço onde cabem mais de 100 ou 200 pessoas, se o dono não estiver lá e conhecer as pessoas, falar com as pessoas, já é complicado.

Também estiveste ligado ao Indústria? Exactamente. Não com agentes culturais, mas com os artistas, com os homens da cultura mesmo. O Sarmento, o Croft, os Pedros todos, o Cabrita Reis, sei lá, havia uma série de bandas, desde os Mler If Dada, todas as bandas queriam ir lá tocar, aquilo era um sítio icónico, um sítio diferente e isso ajudou a que no fundo a noite fosse ganhando um élan.

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Essa revolução cultural que vocês, de certa forma, trouxeram a Lisboa hoje é mais difícil? Hoje é mais difícil porque é assim: os artistas hoje em dia, em meu entender, não são tão genuínos. Depois estão muito longe da realidade. Acham que por serem artistas são mais do que os outros. Todos nós somos artistas, a nossa arte pode ou não ser reconhecida. Depois temos um problema grande, são artistas com pouca cultura. E classe. Não digo que isso seja genérico, porque há pessoas muito cultas. Mas, sente-se que, no passado, os artistas eram mais cultos, falo de amigos mais próximos, como o Pedro Resende, que é um gajo culto, o Sarmento é culto, o Croft é culto, mas culto mesmo. Eu falo de gajos que são gajos cultos. A arte hoje também é muito mais lata. O grafitter é um artista, obviamente, mas a cultura dele é mais fechada, restrita, e no passado não era assim. As pessoas liam, iam ao cinema, iam ao teatro, era uma coisa muito mais abrangente. Eu não sou velho do Restelo! Como produtor e

Sim, eu estava há uns meses sem fazer nada, a divertir-me imenso, que nem um louco e o Mário, que era o dono da Indústria, vem para Lisboa falar comigo em desespero de causa porque tinha muitos amigos cá, mas ninguém queria dar a cara por ele, então eu fui para o Indústria montar um bar com uma família fantástica. Só com pretos a trabalhar, como tinha no Targus. Eu tinha um bar, o Gamito tinha outro bar, eram 4 bares. O Mário trouxe a filosofia do Norte de bares à exploração, então foi um sucesso durante muito tempo. Saí porque achei que tinha que sair, porque eu tenho esse defeito grande de fazer e sair.

Entretanto vais parar à Fábrica da Pólvora? Sim, depois de um projecto que não deu certo para o Terreiro do Paço, eu vou para a Fábrica da Pólvora onde estou 10 anos.

O que aprendeste lá? É um meio completamente diferente. Ali fui ser suburbano! Gostei imenso, aprendi muita coisa que não conhecia. Eu não sabia como era o Cacém, por isso aprendi coisas importantes. Aprendi, por exemplo, que para comprar o Expresso, o Público tinha de encomendar e pagar. Aprendi que aquela gente está mesmo excluída. Que aquilo é um gueto.


[33]


E como é que foi trabalhar num gueto? Não trabalhei num gueto, estava na Fábrica da Pólvora

Mas como foi ter um bar na Fábrica da Pólvora? A Fábrica da Pólvora não era um gueto, tem uma universidade, e foi fantástico. Trabalhar ali foi fantástico, foi uma experiência incrível, que eu voltaria a repetir, porque conheci imensa gente, imensa gente simpática, gente que vinha dos sítios mais recônditos do país: Tábua, Sernancelhe e não sei o quê, para tirar o curso de medicina. Pessoas verdadeiras, humildes, genuínas. Às vezes eu ria-me porque chegavam lá e diziam “Ó Senhor Hernâni eu queria beber uma cerveja, mas não tenho dinheiro, só posso pagar quando voltar no fim-de-semana que vem”, “Qual é o seu curso? Qual o seu número”, tipo merceeiro, mandava sentar esse jovem sem pagar. Não é que eles chegavam à segunda-feira e iam lá pagar logo e, depois, ainda traziam chouriços. Isso não tem preço! Ficavam tão contentes porque eu acreditar neles todos. Tinha mais de 100 contas e nenhum me ficou ali a dever. Zero! Queres ser mais feliz que isto?

Mas isso é uma mudança radical na vida de um homem da noite? Para mim era importante, porque eu saí zangado de Lisboa.

Porquê?

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Tinha-me zangado porque tinha um projeto para ali (Terreiro do Paço). Consegui montar a ideia, associado ao Eduardo e ao Ricardo, mas depois o Eduardo teve que sair, fiquei eu e o Ricardo, depois incompatibilizámo-nos. Nunca deixei de ser amigo dele, nem ele deixou de ser meu amigo, tanto que negociamos as coisas sem dinheiro, sem nada. Aperto de mão, escrituras diferenciadas, tudo na boa, só que tínhamos objectivos diferentes. Sabes, só há uma coisa que me entristece nestes meus projectos todos em que eu tive sócios, é que eu sentia sempre que quando eu saísse aquilo ia acabar, porque eles tinham o dinheiro, e eu tinha, e tenho, o carisma. Era a alma do espaço. Eu gosto de receber, de estar com as pessoas, sei estar, e isso não tem preço, não há dinheiro que pague. Eu dizia, vou sair, mas, atenção, mantenham isto, mantenham aquilo, não mudem isto, não mudem aquilo, são coisas que as pessoas gostam, não mudem a música, não ponham mais alta, dizia isto tudo, dava-lhes o briefing todo. C’est la vie.

Depois voltas a Lisboa?

Sim, eu e o meu amigo António Folgado estávamos na tentativa de abrir um bar, para aqui para acolá, e ele na altura diz-me “tenho um amigo que te conhece e tem um espaço do caraças”. Quem? “O Engenheiro, o dono da Lx Factory, o engenheiro também te conhece”. Vamos falar com ele, um gajo simpatiquíssim, alugou-nos o espaço e eu comecei a montar um bar (Funky). Entretanto, o meu grande amigo, grande irmão, Zé Pinho, da Livraria Ler Devagar, estava incompatibilizado com o gajo do Braço de Prata e disse “epá estou à rasca”, e eu digo-lhe, “vou-te arranjar um espaço”. Fui falar com o António, para falar com o Engenheiro, que é um gajo clarividente, inteligente e astuto, e diz-nos que “sim senhor, vamos arranjar um espaço para ele”. E eu ainda não tinha o bar no Lx Factory, venho da Fábrica da Pólvora, ajudo a montar a Ler Devagar, estou lá um ano e meio, depois fico com o outro espaço e retiro-me de lá.

E como vens parar aqui ao Tabernáculo? Então, ando um ano a não fazer nada, a beber uns os copos com os meus amigos, e um dia o António, outra vez, diz-me “um amigo meu, tem um espaço do caraças, temos que ir ver aquilo” e fomos ver um espaço ao pé do Lounge. Um espaço brutal e estávamos já negociar aquilo, quando saio dali, já tinha a chave já tinha tudo, e venho a passar aqui, e há um miúdo que está aqui, (não é um miúdo é um gajo com quarenta e tal anos) e me diz “Olá, Hernâni, está tudo bem?”, “Estou bem obrigado, quem é você?”, “Eu sou o António Gomes, irmão do José Afonso Gomes”, “Sim, lembro-me desse nome, então o que faz aqui?”, “Estou aqui ajudar o senhor das obras a fazer isto”, então eu entro aqui e quando chego lá ao fundo, digo “este espaço é meu”, e é por isso que estou aqui, ou seja, nada é por acaso, nada é por acaso.

E como foi o regresso a casa? O regresso à Bica? Normal, porque eu já tinha estado com outro bar no Bairro Alto, o Naperon, e depois com o Extravaganza, com um grande amigo meu, que é mais maluco que eu, que é o Miguel Ruah. Muito maluco e que é um gajo brilhante mesmo, abriu lá um bar engraçadíssimo, com música ao vivo, tínhamos pianistas, tínhamos gajos de jazz, tinha gajos de hip-pop. Só que os vizinhos, e com toda a razão, começaram a pressionar.

E como foi o arranque aqui? Quando chego e começo abrir um espaço aqui há manchetes engraçadas. Há uma coisa que em mim dá me um gozo incrível, que é assim, eu não faço amigos por interesse, os amigos que vêm ao meu bar, trazem mais


E como está o projecto do clube de Blues? O projecto clube de Blues, que vai ser aqui ao lado, estagnou um bocado, porque tive um amigo meu que me alertou, e com toda a razão, não faças outro bar ali com um bar teu ao teu lado. Com um bar ao lado vais dividir os públicos que não tens, tu passas jazz, passas alguma coisa de blues e passas soul, com um bar só de blues, ou tens música ou vivo, ou esquece. Então deu-me uma ideia, que é uma ideia engraçada, que é manter o blues, mas acrescentar comida.

Um restaurante? Não nesse sentido formal, não vai ter comida cajun, vai ser uma coisa muito mais tuga-americana, acho que é por aí que deve ir, ou seja, tenho de ter coisas muito rápidas e práticas para sair, que não tenham custos muito grandes. Um bom preguinho de carne dos açores, um bom hambúrguer, 4 ou 5 hambúrgueres diferentes, vegetarianos, peixe e mais nada.

E como está a cidade? Como está Lisboa? Lisboa está muito melhor hoje do que estava no passado. Tem defeitos que têm de ser melhorados, mas a limpeza e o ordenamento parecem-me muito assim bem. Há uma coisa em Lisboa que não me agrada muito, que é o império capitalista que compra todos os espaços. Não gosto dessa atitude.

Não tens medo que essa pressão do imobiliário afaste um determinado tipo de comércio das suas zonas mais caraterísticas? Isso é inevitável, vai acontecer, mas tem de haver uma resposta política. Eu não acredito que os políticos não percebam isso. Quando perderem a genuinidade da cidade, perderam o turismo. O Porto já deu a resposta a

isso. O Porto, na Baixa reforçou o comércio, inclusive de animação nocturna. Em Lisboa vai ser a mesma coisa. O Algarve defendeu-se também. Lisboa vai ter que ler o que Berlim e Barcelona fizeram. É normal. Já há uma legislação engraçada que os donos das casas não estão a usar, mas têm de utilizar, são as Lojas com História. Já têm isso, agora temos que o usar como argumento. Tem de haver quotas. Tu tens que preservar o comércio local.

Isto não está a ficar pouco genuíno? Mas é evidente. A economia é assim, nós não temos dinheiro para competir, mas eu acredito, acredito mesmo, que vai haver aqui uma inversão e que o Medina e a sua equipa vão ter que perceber isso.

Mas não estão a perceber. Mas vão ter que perceber. Vão perceber de uma forma muito simples: todos nós, e eu que ando na cidade há muitos anos, e que ando há 52 anos na Baixa, sei onde há retrosarias, mas há outras coisas que já não sei onde existem. Se tu quiseres a casa das borrachas... já não encontras! Aquele pequeno comércio tradicional que tem essas coisas e que é o que as pessoas andam à procura está a desaparecer. Eu sou daqueles que acredita que as pessoas ouvindo mudam. Lisboa só faz sentido garantindo a sua genuinidade. Tenho um amigo meu francês que fez o primeiro filme do novo Fado, há 20 anos e vem a Lisboa de novo, e teve um comentário comigo engraçadíssimo, “Hernâni, o meu pai comprou uma casa na Mouraria há 20 anos, e eu não vinha cá, o meu pai é que tem estado cá, e eu cheguei cá, e é incrível, não há portugueses a morar ao pé de mim.”, “E isso, é um problema?”, “Então não é? Hernâni, não há portugueses, e eu queria que os meus vizinhos fossem os portugueses com quem eu falava, com quem aprendia português, aqueles a quem pedia azeite quando não tinha e eles davam... agora é só turistas!”.

Dos teus clientes qual é o peso do turista estrangeiro? Tenho 40% de estrangeiros só, felizmente.

Mas mesmo assim é um peso muito grande. Como é óbvio, estou numa zona turística, ao lado do Elevador da Bica, mas não vendo o meu espaço ao turismo, porque eu tenho uma adega de 1536, repito 1536, que era de um negreiro de seu nome Duarte Belo. Podia mostrar a gruta, e eu tenho de manter isso fechado, porque se eu puser aqui um dia uma foto da gruta de 1536, está cheio de turistas.

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gente, divulgam o bar, tenho o prazer de ter os amigos do bar e tenho um prazer daqueles, é assim eu sei que hoje em dia se abrir outro bar ali, tenho os meus amigos ali, ou seja, as pessoas sentem-se em casa, o meu chavão maior é: nos meus bares qualquer mulher pode vir sozinha. Se alguém quiser por um título, é dos poucos bares que a mulher pode vir sozinha, e quando tens uma mulher que pode vir sozinha desde da tua mãe, a tua avó, ou a tua filha, é um bar de sucesso, percebes? E isso acho que é uma coisa engraçada, nós sentirmos que as mulheres vêm para aqui sozinhas, estão à espera das amigas, dos amigos e não sei o quê, defendidas, e isso é muito, muito importante.


Estamos a falar do séc. XVI, as poucas coisas que sobreviveram aos dois tremores de terra – em 1755 e a um anterior, que é o que dá origem ao escarpado da Bica.

Voltando ao nosso tema, como é que está a noite de Lisboa hoje? Eu acho que a noite de Lisboa é boa. Para já temos um clima fantástico, temos esplanadas, que não tínhamos no passado. A noite de Lisboa é diversificada, longa, segura, tem gente gira e bonita.

Mas, bem ou mal, as duas ou três grandes referências continuam a ser as mesmas dos anos 80, o Manuel Reis (LUX, Rive Rouge), tu que continuas aqui a bombar, portanto as coisas continuam mais ou menos na mesma? O Manuel Reis é uma alma que está presente em tudo. Quanto ao resto é assim, ou tens um bar e estás lá, ou não estás lá e tanto pode ser teu como do Francisco como do Manel, como do Pingo Doce, certo? Estou a falar de bares. Discotecas é outra coisa, mas bares é assim. Tenho um amigo meu que é o Professor Valdemar Tavares que aqui há uns tempos dizia uma coisa engraçada: “no meu tempo ia ao Banco Fonsecas e Burnay e ia falar com o Sr. Burnay, tu agora vais ao Banco, não falas com ninguém, falas com uma pessoa qualquer, que diz que vai passar à administração, e estás ali embrulhado.” É a mesma coisa que chegares a uma discoteca. Quem é o Burnay? Não há nenhum Burnay! Num bar sabes que há um dono. Tu chegas aqui e dizes, “epá, chama aí o Hernâni, isto não é assim, está mal-aviado”. Chegas a uma discoteca, estás lixado e vais-te queixar a quem? Os seguranças batem num gajo.

O que é que achas que vai perdurar desta longa noite que vem dos anos 70 para cá, o que é se vai aguentar? Vão perdurar os espaços onde o dono estiver apresente e que tenha a capacidade de fazer amigos. Espaços com alma. Tu vais a um restaurante porquê? Come-se bem e és bem tratado. Vens ao bar porquê? Bebes um bom copo e tens lá um gajo com quem até simpatizas. Não há volta a dar.

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Espaços com alma, como o Snob e o Procópio? Sim, que continua e muito bem. Está posicionado. O Albino é um gajo fantástico. Aquele gajo merecia reconhecimento, mesmo. A Alice do Procópio, outro ícone. Hoje em Lisboa, se tu olhares bem, não tens muitas referências que tenham feito a travessia dos anos 70 até aos anos 2000, tens esses ícones, tens

o Foxtrot. O importante é a alma dos espaços. É imaginar a Rosa da Bica sem a Rosa. Aquilo está fantástico, porque metade da graça é ela. Quando nós bebemos um vinho e não gostamos, falta-lhe alma. Quando calçamos um sapato, se o sapato está mal feito, falta-lhe a alma. É ou não é verdade? É verdade.

Porque é que a Outra Banda nunca funcionou? Há vários motivos, mas o mais importante é o transporte, se bebes um copo, na volta levas ripada. O barco fecha à uma hora. Eles têm um sítio fantástico, só que tem que alargar os horários. Porque é assim, tu queres beber copos, não vais ficar do lado de lá. Há 20 anos o Micas foi para lá e abriu o Atira-te ao Rio e eu ia ficar com outra coisa – nessa altura morei uns 2 ou 3 anos no Feijó – conhecia aquela zona toda, e eu tive que dizer não, não dá, não funciona, porque nenhum amigo meu vem para cá. Só dá quando o barco for de hora a hora, ou hora e meia em hora e meia.

Se tivesses que escolher um sítio para ir à noite?... Não sei, depende com quem estivesse.

Se fosse connosco? Para já tínhamos ido comer a um restaurante africano. Depois disso, se gostássemos de música, íamos a outro sítio ouvir música africana, ao Jaír, a Casa da Morna, porque o Beleza para mim é uma coisa que não me excita muito. Se não acontecesse nada, se fosse hoje, quarta-feira, podia ir a uma roda de samba no Step, em Santa Apolónia. Depende de com quem tu vais, do que tu beberes, do momento. Sair comigo é uma coisa imprevisível, tanto posso ficar aqui como posso apanhar um táxi daqui para o Cacém, para um bar recôndito, de pretos, de brancos, de ciganos, como posso ir ao Roterdão, um bar que gosto muito, posso ir ao Jamaica, como posso ir à Fábrica da Pólvora, ou à Lx Factory, ou ao Tacho que é um restaurante que tem um bar para festas privadas fantásticas. Sabes, comigo não é muito fácil, não sou um tipo de gajo que vá a sítios convencionais, eu tento sempre ir a sítios onde surpreenda as pessoas e me sinta em casa. Sozinho, se saísse, era capaz de ir ao Rive Rouge. Agora não ia ao LUX, de forma nenhuma, é longe! Eu tenho um defeito grande, gosto de beber um copo aqui, passado um quarto de hora gosto de ir beber um copo a outro lado porque estar num sítio fechado não faz sentido. A vida não é isso. Viver e ir caminhando.

Qual é o teu caminho a seguir? O caminho do bem. Vem aí a minha comida... vou jantar. Boa noite!


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por Tiago Froufe

O tema desta edição tem tanto de encantador como de decadente - e até a decadência pode ser encantadora quando aproveitada da melhor forma, vejamos Warhol com a célebre The Factory nova-iorquina ou o Pete Doherty numa perspectiva mais próxima e actual. O misticismo da noite sempre serviu de refúgio aos mais atrevidos, alegres, bon vivants, despreocupados, descarados, enérgicos, imprudentes, valentes, arrojados. Um sem fim de características que, mesmo aos mais alinhados, entusiasma encarná-las naquelas 6 horas de divertimento que pode começar com um gin de final de tarde e acabar às 8 da manhã com o hot dog na roulotte à porta do LUX ou qualquer outra discoteca no mundo. Um hot dog em Lisboa é um hot dog em Nova Iorque mas o que é a noite em Lisboa podia muito bem não ser a noite do outro lado do Atlântico, é que as diferenças cada vez se fazem notar menos. Infelizmente, na minha opinião. A proximidade actual e a globalização está a guiar-nos para uma uniformidade a vários níveis e a diversão nocturna é cada vez mais idêntica. De Miami e de Ibiza chegam referências de DJs, tipo de festas e espaços, que estão a ser adoptados por todo o mundo. São as garrafas a chegar ao som da banda sonora do Rocky e miúdas descascadas a transportá-las, são as mesas que devem ser reservadas através dos RPs que controlam a noite e quem entra e quem se destaca no espaço. Escolhem quem tem melhor visibilidade para o convidado do espectáculo mas não só, é que se for uma figura conhecida da praça deve também estar visível aos outros numa mesa bem central para que se repare que aquele é um espaço frequentado pelo famoso jogador da bola ou de outro desporto qualquer. E se este famoso meter um post nas redes sociais com a devida location, ui então aí é que foi uma noite que correu bem ao nível da promoção. “Óscar, leva-lhe lá outra garrafa à mesa!” Isto acontece por todo o mundo, sejam as ditas festeiras Miami e Ibiza como também mesmo aqui ao lado em Lisboa e Porto, ou Barcelona, Budapest, Londres, Paris, Milão, etc. e tal. Ainda no outro dia, num sábado que se adivinhava calmo, fui jantar com um

Estávamos no LIv ou no Ushuaia, certo? É em sítios como estes que as grandes estrelas dos gira-discos - quais gira-discos dizem vocês e bem, hoje em dia uma pen é suficiente - actuam, a grande ambição é chegar a estas casas que os vão ajudar a lançar-se para concertos por todo o mundo. Estes Djs são hoje em dia mais aclamados do que os frontmen de bandas rock, sozinhos têm cachets mais altos que bandas inteiras que se fazem deslocar com, pelo menos, guitarrista, baixo, baterista, vocalista e todo o staff indispensável qualquer que seja a dimensão do concerto. Com certeza já ouviram falar do David Guetta ou Steve Aoki, personagens incontornáveis das noites mais escorregadias desse mundo. Ou também Calvin Harris, Skrillex, Tiesto, Diplo ou The Chainsmokers, todos eles na lista dos DJs mais bem pagos do mundo, tendo, pelos vistos, o Calvin Harris ultrapassado David Guetta este ano, ao amealhar mais 23 milhões de dólares. Ah, e diz o ranking que o Guetta desce para sétimo em 2017. Ainda assim deve poder continuar a deslocar-se de jacto privado de cidade em cidade, tal como todos os outros aqui listados. E a propósito disso recomendo que vejam o documentário muito bem feito do Steve Aoki na NETFLIX onde se pode ver o estilo de vida de um DJ deste patamar. O avião onde descansa para dar dois espectáculos na mesma noite em Nova Iorque e Londres, o staff reduzido (que implica custos reduzidos e faz inveja a qualquer empresário), os hotéis top! Já depois das 5 estrelas. No fundo, a vida de rock star sem o ser. Haverá algum novo termo que os millennials usam? Deejay Star, será? Mas afinal, o que aconteceu às festas de garagem com o amigo que tem uns LPs bons e novos de rockalhada? Será que não davam umas boas fotos de Instagram? É Dezembro, deveria estar eu a escrever sobre a noite de Natal, os presentinhos deixados por baixo da árvore, as bolachas e copo de leite ao Pai Natal? Se calhar devia, mas com certeza que nenhum de nós ia achar a mesma coisa. Mas já agora, deixem-me desviar a manta e ir compor a lareira, Bom Rapaz que é Bom Rapaz não deve deixar apagar o fogo.

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A Noite

grupo de amigos e filharada a um conhecido espaço lisboeta, eram 23h e já andavam os empregados em cima do balcão a servir bebidas à boca das miúdas, graúdas, bifas (o termo bifas é utilizado para chamar às turistas) que aguardavam mesa para sentar. Ou eles se esticaram ou nós levámos a criançada ao sítio errado mas isso fica para cada um de vocês decidir debaixo da vossa manta das pernas.


Desterronics A magia de uma energia musical comum por João Moreira

Carina Martins

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Todas as quartas-feiras, religiosamente, no nº7 da Calçada do Desterro ao Intendente, a música dura até de manhã. Música electrónica, improvisada ao sabor de quem chega munido do seu material e disposto a partilhar a mesa com quem por lá estiver, sob a batuta atenta do finlandês mais português do mundo, Jari Marjamaki. É assim desde Abril de 2015, já lá vão quase 3 anos.


- São sócios? – A pergunta sai disparada, seguida de um sorriso acolhedor. - Vimos fazer uma reportagem. A porta abre-se para uma sala grande, com bar ao fundo e diversos recantos de mesas e sofás. Alguns grupos de gente nova, estrangeiros na sua maioria, conversam animadamente. Pedimos umas Minis e descemos umas escadas junto ao bar. Ao fundo, numa mesa recatada, joga-se xadrez. O Desterro, sede da Darc – Desterrense Associação Recreativa e Cultural, fundada em 2014, é mesmo assim. Um espaço eclético, multicultural e diversificado, onde não raramente, podemos ser surpreendidos por workshops, exposições, residências artísticas, ensaios, aulas de música e, claro, concertos. Mas se todas estas actividades são esporádicas, há uma que mantém uma regularidade impressionante, os Desterronics , que é como quem diz, os encontros semanais de música electrónica improvisada que já levam quase 3 anos de existência e outros tantos de gravação. Sim, porque todas as sessões são gravadas, ouvidas, discutidas e seleccionadas. Durante 18 meses as melhores dentre elas alimentaram uma rádio online que juntou mais de 400 temas e ajudou a divulgar este projecto único de “experimentação e improvisação com instrumentos electrónicos livre de estilos musicais pré-estabelecidos”. Entramos na sala onde se prepara a sessão e, por momentos, somos transportados para outra dimensão. A uma mesa enorme dominada por cabos de todos os feitios, fichas, headphones, microfones e por uma parafernália de instrumentos electrónicos que desconhecemos vão-se chegando os artistas da noite. Ao comando, ajustando canais, atribuindo relógios de sincronização, testando o som, Jari, o ideólogo e impulsionador do projecto, aproveita o momento para nos explicar um pouco do que irá acontecer. “As regras são muito informais, basicamente as pessoas têm de chegar a tempo do sound check. Se houver alguém que esteja a tocar alto de mais, temos de chamar à atenção, não podem estar todos a tocar o mesmo, por exemplo, se vierem várias pessoas com o mesmo instrumento, terão de se entender, mas no fundo, não há regras definidas...”

Esse é exactamente o segredo dos Desterronics, essa absoluta liberdade criativa que depende exclusivamente da energia musical comum que se vai gerando ao longo da sessão. Tiago Henriques que não falta a uma sessão desde o início explica o seu entusiasmo: “Para mim é uma forma completamente diferente de fazer música. Já tinha tido outras experiências de improviso, algumas até bastante boas, mas no geral o resultado não foi nada que me entusiasmasse muito. Este projecto permite que haja tanta gente, tanto equipamento, tanto conhecimento, tanta música que a única maneira de fazer as coisas é mesmo fazer o melhor que sabes e o resultado é interessante e quando tu obténs um resultado que parece que é de estúdio isso é muito estimulante.” O gosto pela música electrónica vem-lhe da adolescência “nasci nos anos 70, no final dos anos 70 e passei a minha adolescência nos anos 80, uma época em que a tecnologia entra muito na música, em que começas a ter instrumentos electrónicos de uma forma mais comum. Isso para um miúdo era entusiasmante. Depois, tive a sorte de ter amigos como o Valor que foi um dos pioneiros nessa área em Portugal e que me foi mostrando máquinas e a evolução tecnológica que ia acontecendo. Entretanto, embora conhecesse o Jari há algum tempo, deu-se a coincidência de vir viver para Lisboa quando o Desterro abriu (risos). Isso foi óptimo, porque descobri que há muita gente interessada em tocar, em trazer as suas máquinas e uma pessoa sente-se acompanhada. Sei que a maior parte das pessoas não está preocupada com as máquinas, com os fios, mas olham e impressionam-se e ouvem a música. É natural que nem toda a gente seja tão nerd como nós (risos), mas é bom saber que este nosso gosto também serve para trazer algum encanto aos outros”. Pelas escadas desce apressado um rapaz de fato e gravata, provavelmente acabado de sair do emprego, no exacto momento em que na sala se começam a ouvir os primeiros sons. Quando passa por nós a gravata desapareceu e o casaco disputa a mão direita com uma cerveja em equilíbrio periclitante. – Boa noite. Já começou? – Pergunta enquanto alivia o dia de trabalho com um trago demorado na cerveja. – Começou agora. – Respondemos meio inseguros da informação. Agradece com ar aliviado. Jari, de headphones nos ouvidos, vai rodando freneticamente botões da sua mixer, enquanto dá indicações imperceptíveis aos

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Tocamos à porta do Desterro pouco passa das 10 horas da noite de uma quarta-feira quente de Novembro.


restantes músicos da sessão. Por trás dele uma flautista introduz uma melodia serena no ambiente musical que vai despontando. Tiago aproveita para explicar que os instrumentos acústicos também são aceites nas sessões desde que tenham microfone ou se possam ligar por cabo à mesa, por causa das gravações. Só assim seria possível editar os desterronics em vinil, como aconteceu este ano, numa edição de 12 vinis todos diferentes.

Subimos para mais uma mini. No bar as conversas continuam, alheias ou talvez não, ao que se passa no andar de baixo. Aproveitamos para nos fazermos sócios da Darc e evitarmos o embaraço sentido à chegada. Entretanto, a campainha não pára anunciando mais e mais gente. Talvez por isso, “a partir de certa altura pensámos em fazer uma sessão extra num fim-de-semana de cada mês, pode ser a uma sexta ou sábado, varia consoante a programação.”

A música vai ganhando corpo... e alma. Já é impossível ficar-lhe indiferente. “As primeiras horas são para nos ambientarmos, para criarmos ligação”. Talvez seja, mas gostamos do que ouvimos e ainda nem meia hora passou.

Voltamos à música. Uma voz feminina inunda a sala sobrepondo-se ligeiramente a uma melodia contínua e repetitiva que vai ganhando forma por entre uns acordes quase imperceptíveis. O ritmo é suave, quase ambiental. Manter-se-á assim quase até à nossa saída, como que ganhando balanço para um entrosamento perfeito entre os 8 improvisadores que rodeiam a mesa. Quando o momento chegar já não estaremos presentes, mas, afinal de contas, é só voltar numa qualquer quarta-feira do mês e deixarmo-nos embalar pelo encanto do improviso de quem se juntar ao Jari e ao Tiago nesse dia.

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Voltamos à conversa com Tiago para tentar perceber o que mais o surpreendeu neste projecto. “O facto disto funcionar! A percepção de que algo tão informal, tão anárquico e que acontece em tempo real, se auto-regula através do gosto é admirável. E ainda mais admirável se pensares que envolve gente com gostos musicais muito diversos, porque a música electrónica não é um estilo musical, é um meio, um meio utilizado por gente que nem sempre gosta dos mesmos géneros e que chega aqui, liga os seus instrumentos e entra na onda”.


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A cidade que dorme por Inês Carvalho

Para quem faz da noite o seu dia, Lisboa está longe de ser a cidade pujante que ultimamente apregoam, não só pela oferta e diversidade da noite de “diversão” mas também e sobretudo, no que toca a eventuais necessidades de ménage doméstica de emergência. Sensivelmente desde o início da década a “noite” tem sido encarada pelo executivo camarário como algo a domesticar, qual animal feroz que, sem pulso forte, se descontrola pondo em perigo todos os cidadãos. Começou com as restrições de horários no Bairro-Alto que inicialmente eram intransigentemente até às 2 da manhã todos os dias e foram pouco depois alteradas até às 3 da manhã aos fins-de-semana e vésperas de feriado. A ideia - dizem hoje - seria deslocar alguma da dinâmica nocturna do Bairro para a zona do Cais do Sodré (à época a conversa girava mais à volta dos residentes do dito bairro, tradicionalmente acostumado a agitação nocturna); não há dúvida que funcionou mas alguém se esqueceu que essa mesma zona - cais do Sodré e praça de São Paulo - tinham sido dinamizadas pouco antes como área residencial em regeneração. Oops! Até hoje tem ganho a pressão de milhares de jovens que todos os fins-de-semana peregrinam até ali para, tal como lhes foi vendido (com uma rua pintada de cor-de-rosa e tudo), se poderem divertir durante a noite com horários mais generosos que os do Bairro que passou a ser vivido em versão matiné-contra-relógio.

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No entretanto a solução de “desenrasca” encontrada por muitos habituados a ficar na rua até tarde foi comprar diversas bebidas antes da hora de fecho dos bares e mini-mercados e ficar a conviver pelos passeios. Também isso foi considerado errado e o “botellón” acabou por força da lei. Absurdamente nenhum estabelecimento da cidade pode vender álcool depois da meia-noite, excepto bares e discotecas. Nesta época se faltasse vinho num jantar que inesperadamente se estendesse pela noite fora em sua casa, mesmo que ela fosse em Benfica, bem podia calcorrear todas as bombas-de-gasolina ou lojas de conveniência que voltava de mãos a abanar. O negócio das entregas em casa (ou na rua) é hoje uma bênção a que provavelmente espera uma lei que com ele acabe mais tarde ou mais cedo. Evidentemente outra solução surgirá nessa altura uma vez que este tipo de “leis secas”, por absurdas, geram sempre indignação e soluções de recurso. Mas nem só de diversão sobrevive a humanidade, para quem trabalha e vive durante a noite, Lisboa é uma cidade surpreendentemente adormecida. Um amigo que viveu anos em São Paulo e se mudou agora para a “linda Lisboa” confiden-

ciava-me há dias que o impressiona a falta de vida da capital depois da meia-noite, não só em termos lúdicos como e principalmente, em termos de serviços. Comprar uma refeição para cozinhar em casa depois da meia-noite parece-lhe uma missão impossível, por exemplo. A minha empatia não podia ter sido maior; também eu sinto, há anos, o mesmo espanto. Um dia, em mais uma pesquisa por um pouco de urbanidade nocturna na busca de víveres, rejubilei com a notícia que um qualquer jornal on-line copiou de um press-release demasiado optimista. Dizia que Lisboa tinha agora um Pingo Doce 24 horas. A minha alegria foi imensa e lá fui cantando ao volante até ao fim do Restelo, morada deste sonho aparentemente tornado realidade. Chegada, a grande novidade não passava então de uma loja de bomba de gasolina devidamente fechada e com um único funcionário a atender pela portinhola de segurança, automaticamente pronto a vender combustíveis e cigarros. Eu que sonhara com um bife, um ananás cortado, quem sabe até uma sobremesa mais sofisticada acabei refugiada no sítio do costume: a bomba de gasolina da 2ª circular que faz as vezes de mini-mercado 24 horas, onde se vende de tudo um pouco; desde básicos alimentares como atum e maionese, a fraldas e papas para bebé. Para além do distinto dono desta área de serviço há outro actor da cidade que decidiu começar a por cobro à escuridão da noite da capital. É o actor do costume, a maior cadeia de fast-food do mundo, ora pois claro. Nos últimos tempos a MacDonald’s reviu os horários de quase todos os restaurantes na área da grande Lisboa e a verdade é que muitos passaram a estar abertos 24h. O restaurante da avenida Padre Cruz, em Telheiras, era já uma prova gritante de que a necessidade existia, agora basta passar na marginal em qualquer madrugada de qualquer dia da semana para perceber que a decisão foi mais que acertada. Na fila do drive de Santo Amaro (que se estende não poucas vezes até à estrada), há carros com condutores solitários, famílias, carros de patrulhas da polícia, motards com fome, grupos de jovens amontoados em pequenos utilitários, toda uma cidade acordada! Na Avenida da República depois de fechado o Galeto às 3h permanece também agora ao serviço e pela noite fora, na porta ao lado, o senhor dos hambúrgueres americanos. Já deixei de sonhar com um Walmart aberto pela noite fora mas num país onde os supermercados se multiplicam à velocidade da economia chinesa, não haverá um estudo que indique que Lisboa está pronta para essa maravilha que seria um supermercado 24 horas digno desse nome?


“14 pequenas fábulas criadas a partir de ditados populares e escritas numa linguagem que nos agarra pelos sentidos e pelas emoções”

Preocupada com a verdadeira missão que

uma dama de um baralho de cartas que

deve nortear as opções editoriais, a editora

decidiu escolher bons amigos, um príncipe que

Edições Esgotadas orgulha-se de lançar, no

não deu atenção aos cogumelos, um noivo que

mercado, uma obra diferente pelo género

não sabe o que perdeu, um boneco mandão

literário escolhido. Luísa Paolinelli, docente de

que acabou no lixo, uma caneta que sabia para

Literatura da Universidade da Madeira contraria

o que nasceu, um sapato que quis acabar com

a convicção redutora de que as fábulas são de

a sua solidão e uma tesoura desadaptada que

Isopo ou de La Fontaine com animais a falar e

não conseguia cortar…

uma lição de moral.

A segunda parte do livro é uma saudável

O livro enquadra 14 pequenas fábulas criadas

provocação aos sótãos que habitam em cada

a partir de ditados populares e escritas numa

um de nós, através dos aforismos criados por

linguagem que nos agarra pelos sentidos

José Eduardo Franco, professor catedrático da

e pelas emoções, ou, como diz Violante

Universidade Aberta, galardoado com a Medalha

Saramago Matos, “passeamos, através de uma

de Mérito Cultural do Estado Português.

escrita direta e límpida, sem embrulhos nem

A obra é, também, abrilhantada pelas

rodriguinhos, por personagens do imaginário

ilustrações de Max Merler, que vive e trabalha

e da vida de todos nós, numa viagem para ler

na Toscana, e conta, no seu currículo, com

com o coração e assimilar pela razão”. E, assim,

várias exposições por toda a Itália.

temos uma lâmpada teimosa que consegue

Luísa Paolinelli escreve para, em si própria,

levar a bom porto as suas intenções, uma

acordar a adulta e adormecer a criança, pois,

bailarina convencida que saltita, um almofadão

como dizia José Saramago, “toda a obra literária

ciumento, um pintainho que se julgava galo,

leva uma pessoa dentro, que é o autor”.

O leitor é convidado a participar, criando uma fábula sobre um dos aforismos de José Eduardo Franco e enviando-a para a página de facebook do livro: fb.me/fabulasdosotao.

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À venda nas livrarias ou em www.edicoesesgotadas.com


Noite, a véspera da verdade por Regina de Azevedo Pinto

Desde pequena que ouço expressões menos graciosas sobre a noite. “À noite todos os gatos são pardos”, “Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer” , “Deus ajuda a quem cedo madruga” , “A noite foi feita para dormir...” Tudo com muito rima, uniformidade de sons. Parece que faz andar de baloiço a verdade com grande balanço, tanto que a verdade nem toca com os pés no chão, anda ali a cavalgar no ar diante de nós, suspensa e áspera, num vai e vem de olhares de sobrancelha arqueada e queixo inclinado, como se fosse um presságio, um ensinamento. Era assim que olhava para ela. Com atenção emoldurada com olhos de libertinagem, denso mistério. Fazia-me lembrar a alcaiota Brizida Vaz de Gil Vicente e todos os tugúrios envoltos no manto negro. Mergulhava num banho de premunições sensoriais às cegas, o contraste da virtude e do pecado. “Pessoas da noite” como ouvia. Esta expressão era para mim pejada de sacrilégios, atrelada a uma carga pejorativa, com mau hálito, com palavras untas. Todo um quadro muito dantesco. Cresci com este Guernica a germinar na minha cabeça.

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De dia tudo é palpável. As análises são mais matemáticas. Tudo tem cor, forma, arestas, dá para tocar sentir a fibra. Viramos e desdobramos para perceber melhor, se tem borboto emocional, se está rafado, se está amarelado, se está sujo, se tem alguma mancha. A luz tem essas virtudes de perscrutar o branco e andar a correr atrás dele sem miopias. É tudo muito claro. Saturada iluminação. Exatidão, correria. A pupila fica envergonhada com tanta luz, repudia a intimidade.

Fui-me apercebendo tardiamente que tudo o que me aconteceu de bom foi sempre tardio. O conceito de tardio ganha forma na sombra, ele tem medo de morrer jovem e não passar pela metamorfose, não se eternizar em outra forma, a luz inibe o seu parto. Existe a emergência que urge das nossas profundezas e que ocupa majestosamente os nossos sentimentos, o silêncio do escuro. O prelúdio crepuscular empurra as ações de chofre. Ela exerce esse magnetismo sobre a nossa matéria, compunge-nos ao precipício da verdade. O âmago da noite é impossível de decifrar à luz do dia, tem a sua mecânica própria, a sua voz sibilante que nos envolve a retina da memória. O decantar das pétalas da alma, que não é um girassol. A noite é uma hemodiálise de pensamentos. Nela cabe tudo, o pensamento, o sono, a insónia, a memória, a analepse, o remorso, a humildade, o peso da consciência, a calma, a verdade. Tudo condensado porque a luz é diluente. É a alcova do pensamento, o fôlego, o regurgitar do homónimo. Nela cabe tudo, estrela polar onde não há ambiguidade, a véspera da verdade.


Do Fantasma, do Monstro, das Drogas e outras experiências noctívagas. por Marta Gonzaga

Podia começar pela vez em que ouvi um monstro na rua, em plena Lisboa, por volta das 11 da noite. Mas começo antes pelo encontro com o fantasma e só depois as coisas sérias. Andávamos nós, então, a passear pela falésia e eis que aparece um fantasma. O verdadeiro fantasma coberto de lençol dos pés à cabeça a fazer sons de assombração, tal como os conhecíamos dos desenhos animados. O que, para nós, crianças, seria o mesmo que o “verdadeiro”. Andou uns bons metros na nossa direcção e nós, no escuro, paralisámos de medo. Como num sonho mau, sem emitirmos um só som, até que se aproximou e nos pegou ao colo enquanto desatava a rir. Este nosso amigo vivia no cimo da aldeia, numa casa um bocado mais isolada e talvez por isso fosse o único que tinha corrente na porta. Esta era uma aldeia hippie e, segundo consta, a primeira de seu género a ser cons-

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Eu e o meu irmão André teríamos uns quatro e cinco anos, respetivamente, quando andávamos a passear entre a aldeia onde vivia o nosso pai e o estúdio que ficava no cimo da falésia. Lá em baixo ardia uma enorme fogueira onde se encontrava reunida toda a aldeia. Eram músicos, artesãos, pintores e, acima de tudo, eram livres. À volta do fogo cantava-se, tocavam vários instrumentos e ria-se muito. Era uma vida tão marcante quanto bonita. Dávamos tantos passeios despreocupados nesses benditos dias em que as crianças andavam à solta e só quase voltavam a casa para comer. Nesses longínquos tempos em que não existiam predadores, ou não se ouvia falar deles, nem redes sociais para li(n)xar, educar e julgar os pais. Mas amigos tontos isso havia. E com fartura.


truída em Portugal. O nosso pai construiu a sua própria casa de madeira com as suas mãos e todas as portas estavam sempre abertas. Não entrávamos em casa nenhuma sem ser convidados ou sem bater à porta, mas aquela tinha corrente, e então nós entrávamos na sua ausência porque aquela medida de segurança nos parecia mais um convite do que uma proibição. É que conseguíamos passar à justa naquela medida feita a pensar em adultos. Entrávamos e servíamo-nos de cereais, comíamos o mel directamente dos seus frascos à colherada, besuntávamo-nos do que houvesse e não acredito que lavássemos a loiça no final ou tentássemos sequer apagar qualquer vestígio. Éramos do tamanho certo para passar na frincha da porta mas ainda distante do tamanho dos que sabem lavar loiça ou dos que pensam em apagar os seus rastos... Apesar das suas gargalhadas e os pedidos de desculpa pelo susto tremendo que nos pregou e apesar de não o ter mencionado, acredito que sabia ter encontrado os dois ursinhos que andavam a rondar e roubar na sua propriedade. Passei a ter medo de andar à noite longe de casa.

O Monstro

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Era a primeira a acordar lá por casa. Para mim, cada minuto a dormir, assim que se tornava dia, era um minuto desperdiçado na vida. E inquietava-me não só pelos que dormiam até tarde (não pela vida que se leva, mas pela escolha de trocar o dia pela noite) como pelas mudanças, tantas vezes drásticas de personalidade e de comportamentos, e pelos perigos que surgem quando nada muda a não ser ausência do sol por algumas horas. Esse desconforto, por algo que ainda hoje exerce em mim um fascínio enorme, deixava-me num modo de total atenção, de modo que no escuro “via” e “ouvia” tudo. Um dia, já com uns 19 anos e frequentadora-habitual do Frágil, do Alcântara-Mar, Kremlin... ouvi o monstro! Deitada e pronta para dormir, começaram-me a alertar certos barulhos estranhos e assustadores, vindos da minha rua. Acontece que morávamos no centro do centro, por assim dizer, e não num ermo desértico. E eis que algum ser nunca antes escutado, talvez cansado de viver tantos anos nos esgotos, decide sair das entranhas da cidade. “O que faço, chamo a polícia??” Mas se chamar - coitado - vão por certo matá-lo. “Pode ser que esteja desorientado e tudo o que quer seja só voltar para os esgotos...”. Fiquei largos minutos a pensar em todos os cenários possíveis e imaginários até reunir a coragem necessária para ir à janela tirar a limpo e, quem sabe, procurar ini-

ciar conversações. Uma coisa era certa, pelos barulhos e uivos abafados que emitia este ser só poderia ser feito de lama e de gosma. Foi com alívio (mas também desilusão) que vi dois funcionários da Câmara Municipal lavando a rua. Os sons guturais eram os da água das mangueiras a fazer por desobstruir e entrar nas sarjetas atulhadas e entupidas. Fiquei algum tempo a olhar para os homens enquanto tentava ajuizar se lhes podia explicar tudo o quanto me tinha passado pela cabeça. Uma cabeça com uma imaginação delirante e que provavelmente leu demasiados livros da Marvel para além de lidar com o escuro de uma maneira particular.

As drogas Passei pela noite de Lisboa sem drogas e praticamente sem álcool. De álcool não precisava e de qualquer maneira andava sempre com pouco dinheiro na carteira. Como nem café tomava, a cafeína da coca-cola era mais do que suficiente para me manter elétrica. Às drogas tinha mesmo aversão. Chamaram-me muitos nomes no liceu por não experimentar, por ser careta e a pressão foi, e é para todos os adolescentes, violenta. Não tinha nenhuma razão forte para não ter vontade, até porque de todos os adultos e adolescentes que conhecia, que tomavam drogas leves, nenhum tinha tido acidentes graves. Mas algo nas suas vidas me desagradava. Certo dia, um deles, meu colega de turma (que por acaso até era um dos que mais pressionava todos os “betinhos”) morreu numa dessas noites em que, em “alta”, acabou a tourear carros na avenida de Roma. Foi um momento de uma carga muito dramática para todos nós, tal como será sempre, aquando a primeira enorme desgraça que aconteça ao mundo de cada geração de adolescentes. Andávamos todos no mesmo liceu: o betinho (eram poucos no nosso liceu), o urbano, o filho de gente mais humilde ou “do bairro”, o filho de artistas, o filho dos doutores e engenheiros. E à noite tudo se distribuía, ocupando as “suas” ruas no Bairro Alto. Entre estes todos e estas “suas” ruas, tínhamos os amigos que traficavam com outros gandulos mais crescidos e ameaçadores. Só que, para nós, que andávamos juntos durante o dia nas dificuldades a matemática ou no cabulanço a ciências, não havia perigo. Nem mesmo no beco mais escuro: – “Hey, não te metas com ela, ela é fixe, é a Martinha, andamos juntos no liceu!”. E eu era-lhes muito agradecida por isso, por essa liberdade e protecção. No Bairro Alto, eu e as minhas amigas saltávamos das festas-exclusivas para o vão de


Na hora de voltar a casa O quarto do meu irmão André era do outro lado da cozinha por isso ele estava safo. Mas o meu era mesmo ao lado do da minha mãe, que sempre teve o sono muito sensível, pelo que, nas noites em que o programa prometia ser até muito tarde, tinha de ir “dormir” na casa de uma amiga. Como a amiga dizia o mesmo à mãe dela, passávamos a noite fora até que fosse dia. Estas aventuras, geralmente só aconteciam no verão, até porque os nossos horários eram mais rígidos e controlados em tempo de aulas. Essas eram as noites que acabavam no “Cacau da Ribeira” em Agosto, o melhor mês do ano para se sair em Lisboa. Uma cidade quase vazia mas onde havia sempre alguém a oferecer uma festa à qual todos os tresmalhados, que não iam nem para o Algarve nem para “a terrinha”, lá acabariam por comparecer. Numa noite normal, começaríamos por ir até ao Mahjong - no início da Rua da Atalaia, a rua de todos os bares - e aí alguém nos dizia onde e o quê estava a acontecer o que quer que fosse. Podia ser a casa de amigos,

mais ou menos íntimos, mas, como todos se conheciam, nem que fosse de vista, só precisávamos de aparecer. Fosse uma Rave num dos antigos armazéns de Lisboa ou uma festa num Palácio algures em Sintra, onde se dançaria descalços até cair de sono, para a seguir dormir gelados em poufs até podermos pegar nos carros e voltar para Lisboa. Mas não se faziam muitas contas ao pouco dinheiro que levávamos para sair, por isso, voltar era sempre um improviso. Voltámos muitas vezes a pé do Alcântara Mar, ou à boleia de Cascais, ou, se tivéssemos tido juízo, de comboio que só retomava o serviço por volta das 4.30. Numa dessas boleias, ao voltar de Cascais pela Marginal, um dos rapazes, naquele carro ultra lotado, ri-se de uma das minhas respostas e diz: - “Olha... Armada em má! Nós somos é rapazes decentes. Escusas de estar à defesa”. Foram rapazes decentes de facto, mas a condução era insana. Tivemos sorte. Tivemos tantas vezes muitamuita sorte. De resto, a partir de qualquer sítio em Lisboa, voltava-se sempre a pé. Em algumas zonas, se fossemos só raparigas, com uma pedra da calçada na mão, coisa fácil de se encontrar solta em qualquer passeio. Um dia passou a vontade de sair, ou pelo menos a vontade de sair sempre e naquele ritmo. Tenho saudades de dançar muitas vezes, mas como por cá não conheço discotecas livre de fumo, guardo esses desejos para Madrid ou destinos de praia com festas ao ar livre. Engraçada essa idade em que passamos por tantos perigos, acreditamos dominar a noite mas, se correr tudo bem, voltamos para casa, tentando não acordar os pais, enquanto vestimos um pijama cor de rosa e imaginamos monstros debaixo da cama.

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escada onde nos diziam que um dos nossos melhores amigos estava prestes a iniciar-se na heroína: - Sai daí Artur!! Dessa vez o Artur saiu. E de uma outra também: - “Vai lá com as tuas amigas e bazem mas é daqui!!”. O Artur dizia-nos que ainda lhe arranjaríamos problemas, mas provavelmente gostava desse cuidado. Conseguimos manter o Artur longe dos vãos de escada durante mais algum tempo, mas não muito. O rapaz super inteligente durante o dia perdeu-se durante a noite e desapareceu do liceu. Cheguei a vê-lo a fazer assaltos por esticão e falámos com ele, nessa altura, mas já não ouvia nada. Encontrei-o muitos anos mais tarde “limpo” e como monitor de outros em reabilitação.


“Ah, quem dera que viesse a noite!” William Shakespeare, in Hamlet, trad. António M. Feijó

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ilustração Pedro Albuquerque


por Nicolau Pais

Muitas são as vozes que se têm levantado contra o “boom” do turismo dos últimos anos, nas quais incluo, em algumas situações, a minha. É particularmente chocante a absurda subida dos preços da habitação nas nossas cidades ou a clamorosa falta de infraestrutura nos transportes, recolha de lixos ou segurança pública, por parte de um poder (autárquico, mas não só), que se recusa atavicamente a trabalhar o problema como ele se apresenta, aos olhos de todos. Não é preciso ser especialista em planeamento urbano para perceber que se trata de um movimento exógeno à nossa sociedade que, como tal, requereria que os nossos servidores públicos o trabalhassem, em vez de se colarem a ele para mais uma “selfie”. É preciso compatibilizar os interesses divergentes que o fenómeno coloca; a questão é urgente e, infelizmente, tem sido, na minha opinião, mal discutida - é que não há turismo a mais, há política a menos. Não reconhecer isto é entrar em negação ou, pior, propaganda, e por em risco a sustentabilidade dos próprios negócios, para não falar na qualidade de vida dos cidadãos. O Turismo tem sido o motor da revitalização dos nossos centros urbanos e a noite, o veio de transmissão. Desde os anos oitenta, com a “movida” de Madrid, que aprendemos todos qual o papel transgressor-libertador da “noite”. No caso particular de Madrid, e porque esse papel esteve sempre casado com políticas coerentes na cultura, património e audiovisual, foi a “noche” quem criou um dos mais valiosos produtos de exportação em Castelhano, Pedro Almodóvar. Almodóvar, como Lou Reed ou António Variações, beberam da liberdade hedonista da noite, a luz com que iluminaram o caminho cosmopolita do seu trabalho. A “noite” é, por excelência, o período do dia mais criativo, por ser o mais distante da hora do expediente: leia-se obrigações profissionais, familiares etc.... Todos nós, em maior ou menor grau, dependendo do estilo de vida que queremos (ou podemos) ter, conhecemos o efeito libertador - substâncias à parte! - da noite e como, por vezes, ela nos ajuda a pensar “fora do quadrado” em que a vida moderna nos enfia com cada vez mais constrições. A catarse da noite tem um efeito libertador incomparável, mesmo para os mais caretas; a disponibilidade de cada um de nós aumenta de forma directamente proporcional com a permissividade que a “noite” fomenta; a “noite” deixou de ser clandestina e passou a assumir-se como veículo de interacção social num mundo cada vez mais virado para o individualismo do “faz de conta que o ´post´ interessa”.

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Às vezes precisamos de nos deitar tarde; esse excesso faz parte da nossa auto-regulação. Cabe a quem gere o espaço público não estragar o brinquedo, para que os excessos não legitimem abusos e acabemos por ter de comprometer a liberdade individual. Regule-se, já, antes que seja tarde.


Longas Noites De Lisboa ao Vietname ao som da morna de Cabo Verde

01

Do Bairro Alto ouço o barulho, vejo a agitação, pessoas a falarem, beberem e a divertirem-se, com os moradores zangados e prestes a fazerem outra assembleia para expulsar esta comunidade e relembro os asiáticos e as suas multidões empacotadas numa rua ou os cabo-verdianos e as suas discotecas no andar de baixo de casa! Mesmo em continentes diferentes e com culturas diferentes as pessoas encontram-se, seja para jantar ou para ir a um bar.

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Claro que com aquelas temperaturas nocturnas há sempre vontade de sair, nem que seja para beber um chá gelado e tentar baixar a temperatura corporal. No nosso caso a dúvida instala-se quando olhamos para o sofá e para a manta num sábado à noite em pleno Inverno. Mas se aqui a festa só começa de madrugada, na Ásia a essa hora já está metade da população a acordar para montar a barraquinha dos noodles matinais. Pois não hão-de ficar os nossos moradores zangados quando decidimos que o encontro para o café às 23 horas da noite era o digestivo deles às 20 horas?


por Andreia Correia

Manuel Vicente

03

Quando se viaja pelo Sudeste Asiático é engraçado ver como estes sítios se adaptaram à presença de outras culturas. Desde bares mais ocidentais a restaurantes e pizarias, alguns que são uma fusão entre o oriental e ocidental e outros que são heranças deixadas essencialmente pelos franceses e ingleses. Mas claro que grande parte dos clientes são turistas e/ou os jovens que começam a despertar para novas experiências. Por cá temos os nossos a dar tudo no Urban Beach e o Cais do Sodré cada vez mais “in”. Se estivermos em Cabo Verde há convívios e discotecas improvisadas para quem quiser dar um pezinho de dança ao estilo Funaná ou Kizomba. E para repor as calorias gastas com estes movimentos de anca podem sempre provar uma tradicional cachupa quentinha na discoteca. Fôssemos nós como os pavões e choveriam propostas na discoteca!

O melhor da noite no Sudeste Asiático são obviamente as inúmeras barraquinhas que se montam à hora de jantar. E atenção que a hora de jantar lá é a mesma que a dos nossos queridos avós que ficam chocados quando dizemos que só temos fome às 21 horas. Agora imaginem o que eles pensariam destas novas modas de irmos jantar às 22 horas! A vantagem de começar a jantar cedo é que podemos ir de barraquinha em barraquinha e provar as especialidades de cada uma, claro que escolhendo aquelas onde existem mais locais do que turistas! Pela altura da nossa viagem alguns dos países comemoravam o ano novo dia e noite. À noite, principalmente em Bangkok muitos bares e discotecas estavam abertos e cheios de gente a festejar, quer com bebida quer com armas de brincar cheias de água. Claro que poderíamos perfeitamente ter sido parte do elenco da nova sequela de A Ressaca com os preços convidativos, mas para não acabarmos com tatuagens indesejáveis ficámo-nos por poucas cervejas no bar! Já por cá desistimos de sair quando uma imperial custa 7¤. No Vietname as nossas noites foram variando consoante a localidade. Entre comer bolos estranhos acompanhados com leite de amendoim em Dalat a um homestay com mais de 15 pessoas em Sapa com um “Eu nunca” pelo meio; a um festival de lanternas em Hoi An onde depositámos uma vela no rio com um desejo; a uma noite no barco em Halong Bay e um sunset com vinho de pacote e melancia a acompanhar; às inúmeras visitas às barraquinhas de comida! Não nos poderíamos esquecer também das horas que passámos no barco em Halong Bay a tentar pescar lulas intoxicadas com combustível. Felizmente que as refeições não estavam por nossa conta pois nem uma embalagem a boiar conseguimos apanhar! Por ali a diversão nocturna é um pouco mais calma, em Ho Chi Minh City vêem-se as pessoas a conviver nos parques e jardins, a conversar, a dançar na rua e a andar de skate, todos com a sua bebida e comida comprada num barraquinha. Já na zona litoral é possível encontrar inúmeros bares e aproveitar para travar amizade com algum russo. Por cá conseguimos estar em diferentes continentes ao mesmo tempo em qualquer zona de Alfama!

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02


04 Em geral, a noite pela Ásia faz-nos lembrar a nossa tão querida noite de Santo António e os restaurantes longe da vista da ASAE, os concertos ao ar livre, pessoal a conviver nos jardins e, claro, aqueles para quem a noite já deu tudo! Felizmente que por lá a “Bica” é grande pois caso contrário nem o António nos salvaria das multidões e motas asiáticas. Ficam a faltar por cá mais bares com concertos ao ar livre porque a malta da faixa dos 30 aos 40 já não tem energia para uma noite a bombar em qualquer discoteca lisboeta! A juntar a isso uns buffets à moda da comunidade islâmica na Malásia e acreditem que estas noites teriam outro encanto!

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Como já devem ter reparado não fomos grandes frequentadores de espaços nocturnos, claro que gostaríamos de falar sobre as festas Full Moon nas ilhas tailandesas se a chuva desse uma trégua mas optámos por afogar as mágoas na comida e analisar as estratégias do Fernando Santos no europeu. Também com a quantidade de km’s durante o dia a noite ganhava apenas um significado: dormir o mais fresco possível e sem companhias voadoras. Tarefa complicada em Cabo Verde já que não faltavam candidatos para um beijinho de boa noite.

A noite é também uma fonte de negócio na Ásia porque para além da comida podem fazer massagens, podem comprar presentes desde artesanato a especiarias, dar um jeito ao cabelo e comprar umas roupas novas! Com tanto movimento que temos agora em Lisboa acho que os empreendedores ainda não viram o sucesso deste horário, é que à noite tudo encanta! E para nós encantaram-nos as cores e os cheiros do Vietname, os néones de Bangkok, as trovoadas na Malásia, o céu estrelado de Cabo Verde e para sempre a vista da Graça sob Lisboa.

Fotografias 01- Loja de Candeeiros Tradicionais Vietnamitas, Hoi An 02-Viagem de 11 horas num sleeping bus entre Nha Trang e Hôi An - Vietname 03-Banca de Sweet Mini Crepes, Laos 04-Vendedora de Lanternas, Hoi An

Blog.www.backpackandcoins.byethost7.com


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Aceitar a Noite por Constança Martins da Cunha

Ilustração Paulo Medeiros

Não tenhas medo do escuro porque é nele que a luz se revela – diziame um poeta pouco antes de seguir viagem. Caminhar à noite com um rumo aberto a todas as possibilidades liberta os sentidos, aguça o intelecto, desperta a imaginação e a fúria de viver – acrescentou. Captar os sonhos e os temores dos outros, recebê-los como dádivas e dar-lhes forma através da Arte, só é possível depois de correres riscos, de dominares as trevas e de te domares a ti próprio. A inspiração não se mostra a todos – disse. Se ela algum dia ela a ti se desvendar, promete-me que não a silencias. Promete-me que a cantas, a escreves ou a pintas. Promete-me que, pelo menos, lhe tentas dar voz – pediu. Até hoje nunca a conheci nem nunca mais vi o poeta. Todos temos medo do escuro, da insegurança que há em dar passos sem ver o chão, do desassossego e dos ruídos que vivem no silêncio da noite. Todos temos medo do desconhecido, embora todos tenhamos também um certo grau de curiosidade e fascínio pela incerteza que nele reside. Não nos podemos obrigar a compor uma melodia porque o tempo da criação é imprevisível, não se controla, não se domina. Mas não nascemos para estar parados nem para ter medos. Enquanto a inspiração não se revela, aceitemos a noite como ela é: uma ouvinte atenta que nos dá diariamente a oportunidade de olharmos de frente a nossa sombra, enfrentarmos o nossos fantasmas e nos prepararmos para a luz.

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A inspiração dos poetas desperta quando o Sol se põe. Porque, contrariamente aos comuns mortais, não têm medo do escuro...


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Toda a noite tem um amanhecer por Paulo Duarte, sj

“Faça-se luz!” Ouve-se Deus no primeiro acto criativo. A luz acontece e dá-se a separação do dia e da noite. Nos passos seguintes da criação, a mesma noite será composta de luzeiros orientadores de caminho e de mudanças de estações. Mais do que uma oposição entre noite e dia, os tempos complementamse com a necessidade de silêncio e de recolhimento. A noite torna-se lugar de mistério. Talvez por isso, possa surgir a sensação de desprotecção e fragilidade com a falta de luz, não só exterior, como da alma. Abranda-se o passo da viagem. Acelera o pensamento, levantando-se o ruído do muito que levamos no ser. A noite adquire contornos de lugar de paragem, de encontro, de silêncio, permitindo a escuta que ordena, sem julgar, as histórias de vida.

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Houve tempos em que não gostava da noite. Fazia-me medo. A criança interior, ferida, receava os monstros e fantasmas que poderiam sair de memórias cheias de confrontos e incompreensão, obrigando-me a enrolar sobre mim. Fechado, nenhuma luz poderia entrar e tudo era sombra, independentemente das horas. Recordei o “faça-se luz!” divino. Haverá alguma sombra impeditiva de Deus? Ele nasceu na noite. Foi aprisionado de noite. Ressuscitou na noite. Luz seguida de luz em sombras aparentemente destrutivas. A noite, em jeito de útero que abriga o ser em desenvolvimento, aclara a Vida em potência, sendo espaço de conversão da perspectiva do que sou e me rodeia. Tal não é simples. A noite não é simples. Desperta a complexidade dos sentidos. Jacob lutou com o anjo durante a noite. Nada via. Esse corpo a corpo que activava a memória da busca para além de sonhos de anjos a subir e descer a escada celeste. Já não é longe, nem etéreo. É aqui e agora, em gestos concretos que afirmam a existência. A noite é custosa, dá luta, obrigando a perscrutar todos os meandros do ser, tomando-se consciência que nas nossas mãos está a possibilidade do bem e do mal. As mãos que afagam, podem

ser as mesmas que agridem. O coração que lateja de amor, pode esconder pontas de ódio. A escuridão dos tempos e da humanidade não está somente em actos terroristas ou doentios. A sombra reside em cada humano. Recorda-nos cada Quinta-feira Santa: a noite da angústia por excelência. O coração contrai-se diante das muitas perguntas que se prolongam nas horas que se seguem. Quem é Jesus? Quem é Deus? Quem sou eu? O pensamento explode em perguntas. O que é isto de Deus fazer-se alimento? Mas, depois, o que é isto da divindade desaparecer, assumindo todo o sofrimento humano? Sim, a fé pode ser perdida nesse vazio em noite. Os discípulos passaram por isso. Dispersaramse. Silenciaram-se de medo. É uma estranha noite que prolonga e condensa em três dias todas as questões de fé. Daí o respeito a ter diante do sofrimento de tanta gente nas suas mais variadas formas, em especial nas suas dúvidas ou faltas de fé. Não há direito nem de julgar, nem de dar respostas rápidas, como soluções de modo a não enfrentar a angústia do sem sentido que pode alastrar. Daí a noite da angústia. “Afasta de mim este cálice!”, ressoa desde as entranhas de quem assume a injustiça, a fraqueza, a vulnerabilidade, a miséria humana. “Faça-se a Tua vontade e não a minha!” Há consciência de que o mal já não se enfrenta do mesmo modo. O volte-face acontece no amor aos que o condenam. E é tão difícil aguentar este amor. É terrivelmente estranho. Apetece gritar para que Deus não seja Deus desta forma. Seria mais fácil o cálice ficar por beber. Mas é bebido, obrigando ainda a mais perguntas. É a noite da angústia, que desvela Deus que chora cada dor de cada homem e mulher que amam e sofrem na pele a injustiça do mal. É a noite da angústia reveladora do estranho amor de Deus, que se complementa com a noite após a morte, antes da noite da Ressurreição. Na Sexta-feira Santa vive-se a noite do silêncio profundo que dá continuidade a todas as dúvidas, perguntas, angústias. Deus está morto, afirmou Nietzsche. Aquele em quem todas as palavras ganhavam cor, na autenticidade que fazia engrandecer a alma, foi estendido na cruz e sepultado em tempo de trevas. Sim, Deus morre na sua humanidade, tomando para si toda a morte, nessa injustiça


que só quem ama tudo e todos pode assumir. Naquele tempo e em cada Sexta-feira Santa de noite, vive-se o memorial que faz repetir todos os acontecimentos, juntando todos os gritos que dias após dia voltam a ecoar no mundo que busca sentido e Paz. Faz-se silêncio pelas trevas que envolvem gestos de morte que atacam tantos seres humanos indefesos, na sua fragilidade, condição de deficiência ou idade. Silêncio pelas trevas que buscam escravidão de mãos nas minas de minerais preciosos ou de corpos vendidos ao prazer de tantos que usam e abusam da mulher como objecto sexual. Silêncio pelas trevas dos que são assassinados pela sua fé ou que são postos em Campos de Concentração pela sua condição homossexual, sendo aí torturados. Silêncio diante da normalização de bombas que caiem destruindo e matando. Silêncio diante das imagens de coletes laranjas em barcos pelo Mediterrâneo, de gente que foge da morte. A noite é densa por todas as dúvidas, perguntas e angústias. Os que temos fé, acreditamos em Deus que morreu, de forma indigna, na sua humanidade para nos resgatar, a todos, à Vida. Por isso, há nova noite: a da Ressurreição. Já Jesus o recordou tantas vezes noutras noites. Há que nascer de novo, do Alto, portanto, de onde vem o Espírito que sopra novidade. Foi o que Nicodemos ouviu da boca de Jesus, nesse encontro nocturno que tiveram. Jesus continuou recordando nessa noite que era Luz de salvação e nunca de condenação. “Faça-se luz” na noite escurecida pelo desconhecido de novos acontecimentos. A Páscoa, tal como o Natal, é nova Luz em noite transformada. No silêncio da noite do Fogo Novo ouve-se o crepitar da chama que aquece a espera. Outrora, foi a coluna de fogo a abrir o caminho da liberdade. Depois dos passos, da angústia, a noite do Fogo Novo revela suavemente o mistério. Na calada da noite, onde outras visões se tocam, o Corpo ganha outra forma. Atravessa o espaço e o tempo, mantendo as propriedades desse mesmo espaço e tempo. A passagem que une Vidas. A História mantém-se: o lado, as mãos e os pés assim o revelam. Mas já não são a marca definitiva. A certeza dá-se na Vida que entra por portas e umbrais de outras histórias: a de cada ser. Afinal, toda a noite tem um amanhecer, fazendo-se luz ou poesia, em mística, com S. João da Cruz:

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¡Oh noche, que guiaste! ¡Oh noche amable más que la alborada! ¡Oh noche que juntaste amado con amada, amada en el amado transformada!


NINGUร‰M NASCE SEM-ABRIGO

por Paulo Aido

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Se calhar, para o Estado, jรก nem existem. Foram abatidos, como se faz aos carros antigos que acabaram abandonados.


Resta-lhes, tantas vezes, apenas o nome. Para os voluntários da Comunidade Vida e Paz, porém, isso basta. Quando a carrinha chega a um local pré determinado, como é, por exemplo, o Toni dos Bifes, um café junto ao Centro Comercial Monumental, logo é abordada por alguns sem-abrigo. Já ali estive a ajudar a distribuir comida – e às vezes, algumas peças de roupa – a apenas dez ou 15 pessoas. Já lá estive um dia ingrato de Inverno carregado a ajudar a minorar a fome a mais de meia centena de pessoas. Todas as voltas são parecidas e todas são únicas. Um dia, não é possível esconder esta memória, no jardim de São Pedro de Alcântara – antes das obras de beneficiação que autarquia promoveu no local –, fui dar uma volta pelo espaço, pois sabíamos que por ali costumavam estar algumas pessoas a dormir, alguns deles prováveis toxicodependentes. Por mero acaso, fomos até uma das extremidades do jardim. Do pouco que a pouca luz revelava, não se encontrava ali ninguém. Apesar disso, fomos. Uma das paredes, reparámos então, estava meio esburacada. Um de nós acercou-se do buraco, que não media mais do que uns vinte centímetros de diâmetro, mais coisa menos coisa, e gritou lá para dentro se estava ali alguém. Estava. Eram três homens e precisavam de comida e de alguma roupa. Como esquecer, também, a primeira vez, o choque de me aperceber que por baixo da Praça de Espanha, num túnel que atravessa o largo relvado, “vivem” três homens?! Nem sei o que mais me marcou. Se o choque daquela realidade, se o cheiro nauseabundo que dali partia, se a confrangedora fragilidade em que aqueles homens estavam mergulhados. Às vezes, quando voltamos para casa, o relógio marca uma e tal, duas e tal da manhã, não se consegue esconder algum sobressalto interior. Afinal, voltamos para casa e eles continuam ali, numa esquina qualquer. E eles somos nós também. Basta um pequeno tropeção na vida. Uma crise económica mais prolongada, o espectro do desemprego, a doença, sabe-se lá o quê... O mais importante, em cada “volta” é ajudar a devolver a dignidade da pessoa humana a cada um dos sem-abrigo. É preciso explicar que não se nasce assim e essa não pode ser a condição para o resto dos nossos dias. O saco de comida que oferecemos é apenas o pretexto.

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Escondem-se em becos, nas sombras das esquinas dos prédios, nos bancos de jardim. A cidade passa por eles e normalmente não os vê. Tapados por mantas ou apenas por papelões, os sem-abrigo atravessam a noite e depois, quando o dia clareia, desaguam novamente nas ruas, quase sempre sem destino certo, quase sempre à volta das mesmas ruas, pelos mesmos bairros, com as mesmas roupas. Ser sem-abrigo não é uma fatalidade. Ninguém nasce sem-abrigo. Todos aqueles que vagueiam pela cidade de Lisboa, por exemplo, onde estão contabilizados cerca de mil sem-abrigo, já foram felizes em tempos. Pode ter sido quase há mil anos, apetece dizer, pode ter sido apenas ontem, mas já foram pessoas integradas na sociedade, com família, emprego, sonhos e desafios. Já foram crianças e cresceram. Um dia, porém, as coisas começaram a desmoronar. A perda de emprego, um divórcio, qualquer tragédia pessoal e pronto. Há os sem-abrigo que vagueiam pelas ruas há tempo demais, que já perderam o sentido do calendário. De qualquer forma, é sempre há tempo demais. Mesmo que tenha sido ontem o primeiro dia, a primeira vez que se cobriram com um cobertor e adormeceram num banco de jardim. Lisboa tem muitos destes recantos. A Praça da Alegria, o Jardim Constantino, a Avenida da Liberdade... Todas as noites – sem pausas para sábados ou domingos, dias santos ou feriados – os voluntários da Comunidade Vida e Paz (tal como de outras instituições de solidariedade) caminham pelas ruas , em trajectos pré-definidos, e oferecem a cada sem-abrigo um saco com comida e – o mais importante de tudo, a sua disponibilidade para ouvir, para dois dedos de conversa, para tentarem encaminhar quem está na rua para alguns dos centros de acolhimento que a instituição possui. Desde há cerca de meia dúzia de anos que colaboro com a Comunidade Vida e Paz. Pertenço à Volta B2. Há, todas as noites, três equipas a percorrer a cidade. A nossa equipa, como qualquer das restantes, efectua duas “voltas” por mês. No nosso trajecto, neste convívio de tantos anos, já fizemos alguns amigos. Há pessoas que já conhecemos de nome e a história. Há encontros que nos deixam felizes, como quando reencontramos alguém que já não víamos há um par de semanas. O senhor Abel, a dona Rosa, a dona Cremilde, o senhor António... podíamos multiplicar estes nomes mil cento e oitenta e sete vezes. Segundo a autarquia da capital, este é o número total da população dos sem-abrigo que “vivem” em Lisboa. Muitos destes cidadãos já não possuem papéis, bilhete de identidade, evidentemente que não têm cartão de contribuinte, ou de saúde. Se calhar, para o Estado, já nem existem. Foram abatidos como se faz aos carros antigos que acabaram abandonados numa rua qualquer. Foram abatidos e perderam a matrícula.


Nas noites mais frias, há uma “CASA” que tem sempre uma sopa quente por Paulo Rosa Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Não só nas noites, mas 24 horas por dia. Não apenas uma sopa, mas toda uma estratégia de intervenção social é pensada e aplicada para acompanhar as transformações dos problemas sociais, respondendo e ajustandose às necessidades dos utentes.

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Sopa dos Pobres, Sopa do Sidónio, Refeitório dos Anjos ou, mais recentemente, Centro de Apoio Social dos Anjos (CASA). Os nomes foram mudando, mas este espaço mantém, há mais de um século, a sua missão inicial de responder às necessidades mais básicas da população de Lisboa. A construção do edifício, na Avenida Almirante Reis, decorreu entre 1911 e 1914. Inaugurado em abril de 1914, foi inicialmente entregue à Sociedade Protetora das Cozinhas Económicas de Lisboa. O agravamento das condições de vida e a escassez de alimentos durante a I Guerra Mundial levaram à criação da Sopa dos Pobres.

A partir de 1918 viria a ser conhecida por «Sopa do Sidónio», por estar a cargo da “Obra de Assistência 5 de Dezembro”, criada pelo Presidente Sidónio Pais, através do Decreto nº 4 031, de 30 de março. A obra pretendia a “resolução de problemas candentes e graves, e nessa medida o programa previsto extravasa a mera fundação de sopas para os pobres porque se isso já era muito ainda não era tudo (…) iniciaremos a guerra à miséria doirada, que é, porventura, a mais trágica, creando cozinhas económicas que forneçam, pelo mínimo, sopa e o chamado “prato do meio”. Assim, tiraremos a essa assistência o carácter de esmola”. Este espaço, situado numa das principais artérias da cidade, em frente à Igreja dos Anjos, constituiu-se como um dos locais mais emblemáticos na luta contra a exclusão social, sendo dos poucos locais que teve sempre uma porta aberta para os públicos mais vulneráveis, como é o caso das pessoas em si-


Em 1928, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa assumiu a gestão daquele que era, na altura, conhecido por “Refeitório dos Anjos”, destinado a servir refeições à população mais desfavorecida da cidade. Após muitas mudanças históricas, em 1998, a instituição decidiu alargar o âmbito da sua intervenção neste espaço, transformando-o num centro de apoio social para as pessoas em situação de sem-abrigo ou com domicílio instável na capital. Nascia então o CASA (Centro de

Apoio Social dos Anjos). Atualmente, as valências do CASA não se ficam pelo refeitório, mas permitem o acolhimento temporário de pessoas nas instalações e oferecem atividades no ateliê ocupacional – bem como o diagnóstico social da população a quem se dirige, a sua estratégia de ação e a metodologia de intervenção. A população à qual o CASA responde encontra-se numa situação de fragilidade social, que se traduz em más condições de vida, podendo as mesmas coexistir há vários anos ou assumirem uma vivência recente, vivendo numa privação de necessidades básicas como a alimentação, vestuário, habitação, transportes, condições de trabalho, saúde ou educação.

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tuação de sem-abrigo. Os nomes mudaram, mas a missão essencial manteve-se, transformando-se ao longo dos tempos para responder da melhor forma à realidade de cada época.


Uma visita especial No início de dezembro, o CASA recebeu um ilustre convidado, o Presidente da República. Fiel ao seu estilo, Marcelo Rebelo de Sousa arregaçou as mangas, foi para a linha do refeitório e serviu refeições aos sem-abrigo. Sempre com um sorriso na cara, os afetos do Presidente aqueceram os corações daqueles que encontram na sopa dos Anjos a forma de subir a temperatura do corpo nos dias mais frios do ano. Depois de servir a comida, Marcelo Rebelo de Sousa sentou-se à mesa e almoçou ao lado daqueles que têm sido uma das prioridades do seu mandato, as pessoas em situação de sem-abrigo. Desde a primeira hora que o Presidente tem insistido na mensagem de que é preciso criar condições para que até 2023 não haja pessoas a viver na rua.

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É na criação de oportunidades, no desenvolvimento de competências, na capacidade de olhar para cada caso individualmente que se trabalha diariamente no CASA. Hoje em dia, pretende-se que este seja um espaço de passagem para um projeto de intervenção mais alargado, no entanto, continua a assegurar o apoio alimentar à população mais carenciada da capital com um refeitório social. No atelier e espaço de inclusão digital, fazem-se trabalhos manuais, constrói-se o currículo e procuram-se oportuni-

dades de trabalho. Ambos os espaços estão estruturados em atividades ocupacionais e terapêuticas dedicadas à população em situação de exclusão social grave. Ao lado, asseguram-se cuidados de saúde, fomentando a adesão aos cuidados de saúde em articulação com as unidades de saúde da comunidade, e a prestação de cuidados de higiene, com balneário, lavandaria e banco de roupa. Em baixo, ficam os quartos para acolhimento residencial de pessoas em situação de sem-abrigo, em processo de acompanhamento social. Em 2016 foram servidas 103.703 refeições neste espaço a 966 utentes diferentes. Por dia são servidas, em média, 300 refeições. Foram ainda prestados cuidados de higiene e fornecida roupa a 137 pessoas e 213 utilizaram o serviço da lavandaria. O CASA está inserido na Unidade de Emergência da Direção de Intervenção com os Públicos Vulneráveis da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e trabalha em rede com as instituições da cidade. O objetivo é construir ligações às redes sociais envolventes e criar vínculos com os espaços que os rodeiam, para que as pessoas que recorrem a este serviço voltem a participar ativamente na sociedade.


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REVISTA


Uma porta aberta na noite de Lisboa por Frederico Andrade Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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Mais uma noite, mais um prato de comida quente na mesa e um espaço aconchegante, com uma cama lavada e quente. É aqui, no Centro de Alojamento Temporário Mãe d’Água (CATMA), que pessoas em situação de sem-abrigo se deslocam, para não cair nas amarguras de uma realidade que ainda se vê um pouco por toda a cidade de Lisboa e pelo país. Foi para dar resposta imediata a pessoas nessa situação, em domicílio instável ou em risco de perder a sua habitação, que nasceu o Centro de Alojamento Temporário Mãe d’Água, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em janeiro de 2000. Com o objetivo de proporcionar alojamento temporário e de emergência a pessoas em situações vulneráveis, o centro viu a sua área de abrangência ser alargada em 2009, com a constituição de uma valência de acolhimento para famílias monoparentais femininas: o CATMA – Extensão, com capacidade para acolher 16 utentes, num total de seis famílias, cinco das quais em alojamento temporário e uma em alojamento de emergência. Além disso, o CATMA, através da sua equipa técnica, é ainda responsável pela gestão e acompanhamento dos casos sensíveis que acolhe.


Situado no centro de Lisboa, o CATMA tem as portas abertas para acolher quem ali bate. Quando à noite outras portas se fecham, aquelas abrem-se, como uma espécie de porto de abrigo, para quem procura algum conforto e apoio. Aí, recebe-se uma refeição quente, lava-se a roupa, toma-se duche e descansa-se num ambiente controlado, acolhedor e moderno. Repartido por três pisos e com capacidade para acolher 36 utentes, seis em alojamento de emergência (três homens e três mulheres) e os restantes 30 em alojamento temporário (21 homens e nove mulheres), o centro tem como missão prosseguir e desenvolver fins de ação social, apoiando, sobretudo, as pessoas mais desprotegidas da cidade de Lisboa.

Relativamente às pessoas ali acolhidas, cada caso é um caso, com a sua história e necessidades. O CATMA enfrenta diariamente situações de elevada complexidade socio-económica, muitas delas associadas ao desemprego ou emprego precário, à falta de qualificações, a doenças do foro físico e psicológico, à toxicodependência e alcoolismo e à reincidência de ruturas conjugais e familiares. Para dar resposta a estas problemáticas, o CATMA aposta numa intervenção em rede, com caráter multidisciplinar, focada na pessoa, de modo a compreender as suas dinâmicas. Estabelece ainda relações de proximidade como os utentes, tanto quanto possível, numa perspetiva de valorização das suas capacidades e competências na resolução dos próprios problemas, com o objetivo último de eliminar a situação de exclusão em que se encontram. No CATMA a lógica é simples, viver uma noite de cada vez, até que o dia ilumine o futuro de todas as pessoas que procuram o Centro de Alojamento Temporário Mãe d’Água.

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O principal objetivo da atuação do CATMA é contribuir para a prevenção de situações de desigualdade e carência socioeconómica, vulnerabilidade e exclusão social, participando no desenvolvimento pessoal e na inclusão das pessoas apoiadas, em articulação sistemática com outros serviços internos e externos da Misericórdia de Lisboa. No entanto, e como resposta pontual a determinadas situações, o CATMA garante um alojamento digno e temporário noturno a pessoas isoladas ou famílias em situação de sem-abrigo ou com domicílio instável.


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Nyx (“noite”) é, na mitologia grega, a personificação da noite.

A Deusa Nyx possuía um total controle sobre a vida e a morte. Conhecedora dos segredos da imortalidade dos seus pares Nyx tinha uma posição de ascendência sobre os outros Deuses. Em completa antítese, Nyx simbolizava em simultâneo a beleza da noite e o terror noturno que assombrava durante a escuridão. Nyx construía a noite, cobrindo diariamente o universo com o seu manto púrpura já perfurado de tanto desgaste, ao mesmo tempo que possuía um capuz invisível a todos que lhe permitia assistir ao universo sem ser notada. Patrona das bruxas e bem feitora da feitiçaria, Deusa da Morte, e Deusa dos segredos, Nyx tinha o poder da luz, ou da ausência dela. Encapsulando o universo com o seu poderoso manto, construía-se a noite e desenhavam-se as estrelas, esses pontos de luz que passava pelos minúsculos furos do manto já desgastado. Diversas teorias quantificam o estado de desenvolvimento de uma civilização pela sua capacidade de acesso à energia. Nenhuma civilização foi encontrada até ao momento, mas é demasiado lógico para ser incerto que só uma civilização com enorme controle sobre a energia poderá um dia chegar até nós. Se dúvidas houver, podemos tentar uma extrapolação do que acontece no nosso micro Universo chamado Planeta Terra: Também aqui as potências mundiais são aquelas que têm mais acesso à energia, seja lá o que signifique “potência mundial”. Pensarmos no impacto que a disponibilidade de energia ou falta dela têm hoje à escala

por Bernardo Mota Veiga

global nomeadamente nas desigualdades que vemos por exemplo entre populações de África e populações Europeias. Arrisco-me a dizer que a desigualdade do mundo começou com uma revolução energética mas também assumo com grande grau de auto-certeza de que essa desigualdade acabará com uma nova revolução energética que já está em curso. Energia infinita permitiria dessalinizar água do mar, inverter cursos de rios, captar excesso de CO2 na atmosfera, emitir oxigénio para os céus, reciclar componentes até à sua estrutura atómica, enviar naves a velocidades quase infinitas para lugares quase infinitos, descongelar o pólo norte, congelar o pólo sul, aquecer oceanos, furar o centro da terra, trazer planetas para a nossa órbita e afastar a lua para longe, colonizar marte ou qualquer outro lugar, viver de noite com luz artificial e dormir durante o dia em que o sol queima. A energia infinita permitiria ao Homem ter o poder de construir o seu universo, de reverter o mal ao globo na luta com a natureza por essa mesma energia, e escolher como seguir caminho em perfeita harmonia. É tão assustador quanto fantasioso pensar num mundo assim. O físico e matemático Inglês Freeman Dyson apresentou uma hipotética solução energética para a elevação do nível de evolução do ser humano. A “esfera de Dyson” que sugeriu, é uma hipotética estrutura que envolveria por completo uma estrela (diga-se um sol) com o intuito de captar toda a sua energia tornando possível o tal “salto evolucional”. Aqui entra um paradoxo interessante: Qual seria a energia necessária (e de onde viria ela) para construir tal estrutura de captação de energia? Embora haja algumas sugestões futuristas efectuadas pela NASA para

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Foi o poeta grego Hesíodo, contemporâneo de Homero, quem melhor descreveu a Deusa Nyx na sua teogonia datada do século VII a.C.. Filha de Caos (o primeiro Deus primordial) e irmã gémea de Érebo, Nyx foi a segunda criatura emergir do vazio ainda antes de Gaia (mãe terra). Deusa dos mistérios nocturnos, rainha dos astros e da noite, Nyx foi um dos mais poderosos seres divinos a descer à terra, tendo um papel fundamental na mitologia.


explorar a viabilidade do modelo, na verdade Dyson levou a sua hipótese mais para o campo da procura de outras civilizações essas sim mais avançadas tecnologicamente e energeticamente. Em 2015 astrónomos de Yale encontraram oscilações de luz não periódicas na estrela KIC8462852 (as estrelas que conhecemos têm oscilações pulsadas periódicas) que se situa a 1480 anos luz da terra. Muitos acreditam que esta estrela está envolta numa esfera de Dyson. O físico Dyson e a deusa Nyx têm afinal imensos pontos em comum!

O mundo dos sistemas de armazenamento (vulgo baterias) está num verdadeiro alvoroço. Elon Musk e a Tesla anteciparam-se e inauguraram este ano a maior fábrica de baterias do mundo. São 2GW de baterias de lítio por ano (acreditem, é muito) que não só permitiram uma oferta de disponibilidade ao mercado, como contribuíram para uma descida significativa do preço!

Ao que Nyx chamava de manto com que cobria o universo, Dyson chamava uma mega estrutura para captação de energia. A ascendência que Nyx tinha como deusa não é afinal diferente da ascendência que Dyson atribui às civilizações “mais evoluídas” capazes de captar energia infinita com as suas mega estruturas artificiais.

Na verdade, são já muitos que afirmam que a fábrica inaugurada este ano estará obsoleta no ano de 2020 com o aparecimento das energias de estado sólido. Não quero mal à Tesla, mas apenas esta possibilidade demonstra a forma vertiginosa como está a evoluir o mundo do armazenamento de energia, muito graças ao desejo crescente da mobilidade eléctrica e do fim da energia fóssil como forma de locomoção.

A luz visível é uma onda electromagnética cujo comprimento de onda se encaixa num determinado intervalo dentro do qual o olho humano é sensível. Sendo a luz uma radiação electromagnética que vai desde a radiação infravermelha até à radiação ultra violeta, significa que o facto de o olho humano não ver luz, não quer dizer que não exista radiação.

Se for verdade o que a Toyota (e outros) afirma, se for verdade o papel do grafeno na nova geração de baterias, teremos formas de armazenamento tão baratas e eficazes que a Dilma Rousseff já não vai precisar de subir ao palanque para hipoteticar a melhor forma de armazenar o vento.

A luz do sol leva 8 minutos a chegar à terra. Do sol chega-nos numa hora e meia a energia toda que necessitamos para todo o ano. Talvez não possamos encapsular o sol como gostaria Dyson, mas podemos encapsular a terra para que receba o máximo de energia do sol. Podemos estender painéis solares em cada telhado, em cada pedaço de terra disponível sem que para tal tragamos a noite, como trazia manto de Nyx. A captação de energia solar tem aumentado de forma extraordinária ao longo dos últimos 10 anos. Representa ainda uma ínfima parte da energia produzida na terra, mas avanços tecnológicos levaram-nos para níveis de eficiência e custo de energia produzida incrivelmente baixos. Read my lips “estamos hoje a virar de forma definitiva” uma importante página da história da humanidade:

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a solar: Armazenar a energia durante o dia para utilizá-la noite dentro, quando o sol paira noutras paragens.

A energia solar está a ultrapassar a linha inultrapassável de se transformar na mais eficiente forma de energia. Em muitos locais (dependendo da radiação, topologia, e outros factores locais) já é significativamente mais barato produzir electricidade a partir do sol do que através de outra qualquer fonte, mas, porque Nyx teima em estender o seu manto todas as noites, não basta. Sempre existiu um enorme desafio para uma fonte como

Já o tenho afirmado com a mesma convicção: Com um apropriado sistema de energia a caminho que combine a produção com o armazenamento, o caminho da autonomia energética está traçado e o futuro para uma energia infinita já se está a fazer hoje. Depois de muitos anos, é hoje o momento para cada um de nós assumir o seu papel no salto evolutivo. Não faz sentido não sermos autónomos e não assumirmos que o nosso telhado pode ser um pequeno fragmento de uma “estrutura de Dyson” inversa e um planeta encapsulado para captar a energia que nos chega da nossa grande estrela. Não vamos mudar o mundo de uma vez e se a forma de energia pode no imediato contribuir para não prejudicarmos mais o nosso ecossistema, amanhã poderemos pensar em como reparar os estragos que fizemos com décadas de carbono e, depois de amanhã, poderemos pensar em formas de equilibrar o mundo do qual dependemos. Cada um pode produzir a sua própria energia e, enquanto poupa no orçamento, também poupa no orçamento ambiental e contribui para a tal evolução civilizacional. Não podemos agir como se o espaço que ocupamos neste sensível ecossistema fosse apenas a área que o nosso corpo ocupa.


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Turismo do Centro Um País dentro do País por Bruno Esteves Turismo do Centro

“O meu objectivo é colocar o Centro de Portugal como primeira preferência nas escolhas dos portugueses.”

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Pedro Machado assumiu o cargo de Presidente do Turismo do Centro em 2006, muito antes do turismo virar moda e inundar as duas principais cidades do País, transformando definitivamente o paradigma turístico nacional.


Como é que o homem que tem a seu cargo a incumbência de promover a mais vasta região turística do País, que inclui 100 municípios, 3 locais Património da Humanidade, um dos maiores santuários religiosos da Europa, o Parque Natural da Serra da Estrela, as Aldeias Históricas e do Xisto, encara as transformações do sector, nomeadamente do perfil dos consumidores e das novas tendências de mercado? Foi na delegação de Coimbra do Turismo do Centro que procurámos a resposta a esta e outras questões, numa longa conversa com Pedro Machado sobre o futuro da região. Pedro Machado - Estamos a projectar o trabalho para um período de médio e longo prazo, muito alavancado em duas premissas: por um lado, um consumidor diferente, por outro, tendências de mercado e de segmento de mercado que alavancam o aparecimento de novos destinos. O consumidor mudou, está mais informado, tem capacidade de escolha do seu destino, tem capacidade de poder escolher a experiência, tem capacidade de discutir o preço e esta é uma alteração profunda no paradigma dos nossos consumidores comparativamente há 20 anos a esta parte. Durante muitos anos, o País promoveu-se ancorado numa estratégia de que criando oferta a procura acabaria por vir, hoje percebemos que a procura, leia-se o consumidor, o turista, influencia fortemente aquilo que é a capacidade de gerir o destino.

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Depois, percebemos que há novas tendências nos mercados que dizem respeito aquilo que são as opções, as expectativas que estão criadas nos consumidores. Durante muitos anos Portugal vendeu-se como um destino de sol e mar com o foco colocado no Algarve e isso justifica hoje os crescimentos exponenciais de Lisboa, uma cidade city break e do Porto associado ao património, à cultura, à natureza, à paisagem, também, muito por força dessa ferramenta extraordinária chamada aeroporto (é bom lembrarmos que hoje, mais de 70% do fluxo turístico internacional é feito por avião). Com estas duas premissas, por um lado, um consumidor diferente, por outro, tendências de mercado e de segmento de mercado que alavancam o aparecimento de novos destinos, falamos na questão das preferências pelas experiências, o património, o vinho, o turismo activo, hoje cada vez mais crescente, não é por acaso que assistimos nas nossas cidades e vilas a cada vez mais pessoas a

praticarem actividade física, o que veio fomentar novos negócios e o aparecimento de uma estruturação de novos produtos - o cicloturismo e o pedestrianismo estão hoje na moda. Temos um quadro geral que vale para a Região Centro, mas que vale para o País, de uma mudança consolidada e constante destas duas grandes premissas: a do consumidor e das preferências e os segmentos de mercado. A região Centro por força desta alteração quer das preferências de consumo quer das tendências dos mercados, nomeadamente dos mercados internacionais, tem vindo a ajustar a sua estratégia de promoção alavancada exactamente nessas duas constatações. Estamos a diversificar a nossa capacidade de oferta e é por isso que decidimos apostar em projectos muito alavancados no património e na cultura. 47% dos mil milhões de viagens que foram feitas em 2015 e 2016 foram-no por motivação turística e cultural. Segundo, percebemos a importância da gastronomia e dos vinhos. Em particular dos vinhos, numa região que tem 5 Regiões Demarcadas com características muito diversas, mas também elas muito complementares - Bairrada, Dão, Beira Interior, Tejo e Lisboa – correspondentes a cinco Comissões Vitivinícolas que têm vindo a acompanhar, quer no que diz respeito à capacidade da produção e à qualidade que lhe está associada, quer ao marketing e ao branding territorial que estão a fazer, quer ainda à penetração em mercados externos e que têm alavancado também o nome desta região para este produto específico que é o enoturismo. Depois, estamos a construir com vários parceiros, o caso de Tomar, Batalha, Coimbra, Alcobaça, Direcção Geral do Património, uma resposta mais estruturada no que diz respeito à valorização do nosso património cultural edificado. Desde logo através de um projecto que se iniciou no dia de 9 de Junho em Tomar e que é o primeiro projecto em rede nacional que envolve uma região, município e outros organismos, designado Projecto Lugares do Património Mundial do Centro de Portugal e que visa, por um lado acudir às tendências que o mercado está a ter, por outro poder fazer uma ponte, um cross-selling entre as duas áreas metropolitanas que neste momento mais turistas estão a receber, Lisboa e Porto e finalmente de poder contribuir decisivamente para qualificar a experiência dos patrimónios mundiais e atrair novos públicos. Queremos que os sítios de Património Mundial não se fechem em si próprios e que possam irradiar e complementar outras ofertas existentes. Por exemplo, Tomar, que é Património Mundial está a 30 km de Fátima e o turismo religioso tem uma capacidade de atracção fortíssima, aliás mais forte do que os quatro sítios Património Mundial somados, pese embora a


Qual é o perfil desse novo turista que nos visita? É um turista com um maior poder de compra e um nível cultural mais elevado, que viaja por necessidade, já não viaja por lazer, sendo que nesta necessidade se inscreve muito daquilo que nós temos na Região Centro como disponível para oferecer. É o caso das Aldeias Históricas, das Aldeias do Xisto que são produtos estrela do centro do País.

Do centro interior. Do centro interior que nós procuramos valorizar. Aliás, um dos esforços que estamos a fazer é procurar que esses fluxos que estão normalmente associados à corda litoral possam vir para o interior do País. Mudámos o paradigma, mudámos o discurso. Nós queremos que o centro interior do País, por força de um trabalho que estamos a fazer em conjunto com a Estremadura Espanhola e com Castilla Y Leon deixe de ser uma região periférica para passar a ser o epicentro de uma grande região com 6 milhões potenciais de consumidores directos. Claro que existem problemas. A questão da sazonalidade é muito mais forte nos territórios do interior e a estadia média é duas a três casas decimais abaixo da média nacional. Precisamos crescer bastante nesses dois pontos. Depois, temos outro problema que é a litoralização portuguesa, que procurarmos combater. Isto faz-se com produtos que têm a capacidade de “agarrar” os turistas mais tempo no interior. Por exemplo, através do circuito pelas Aldeias Históricas ou pelas Aldeias do Xisto, que em média são de três ou quatro noites. Se a isso juntarmos a gastronomia, juntarmos o turismo religioso, juntarmos o turismo activo, juntarmos o cicloturismo, juntarmos o birdwatching, criamos as condições de oferta turística capaz de aumentar a estadia média do consumidor. Foi, aliás, esta estratégia a responsável por termos chegado a 5 milhões de dormidas em 2016, que é de facto um número extraordinário para uma região com estas características.

Embora exista uma estratégia definida para o turismo desta região como um todo, tenho a percepção que cada município, até por lógicas de antagonismos históricos e necessidades de afirmação, procura seguir percursos autónomos e muitas vezes contrários à estratégia comum definida para a região. Será possível ultrapassar estes egos municipais e trabalhar em rede? É uma boa percepção que procuramos contrariar pela positiva e estando nós numa região que tem Fátima, nem que seja, em última instância, pela fé (risos), por isso acreditamos que no final da linha será possível. Isto implica perceber três questões distintas. Em primeiro lugar, a cultura de marca do Centro de Portugal é uma realidade relativamente recente. Nós não temos um histórico associado como tem o Algarve de 50 anos consecutivos de marca, ou Lisboa ou a Madeira e, portanto, não existem referenciais de colectivo no conjunto da oferta de Região Centro de Portugal que nos permitam ter feito um percurso que levasse, hoje, a essa percepção. Só para terem uma ideia, por força da Lei 33 de 2013, nós temos dez ex-regiões de turismo agregadas numa só! Somos a única região que fez este percurso, enquanto, voltando ao Algarve, tem 50 anos consecutivos inalterados do ponto de vista do território, da sua distribuição geográfica e da sua organização municipal. Nós temos uma alteração profunda nos últimos 12 anos, em 2006 o Centro de Portugal tinha 24 municípios, em 2007 tinha 57, em 2013, 100, portanto, há uma questão que é estrutural e que tem a ver com as sucessivas alterações às dinâmicas do território que faz com que sejamos, ainda hoje, um colectivo que está a fazer o seu processo de maturidade em relação à criação da sua marca. Segundo problema estrutural: nós temos um tecido económico mais débil do que têm essas marcas com maior grau de maturidade, ou seja, acrescentamos à dificuldade de percepção do território e da percepção da marca, as debilidades inerentes àquilo que é um território e um tecido económico que não está com o mesmo grau de desenvolvimento de outros que têm grupos económicos associados. Terceiro, temos assimetrias fortíssimas de territórios. Pensar Viseu ou pensar Castro Daire e Óbidos ou Nazaré ou Peniche, pensar em Penamacor e Ílhavo ou Aveiro, pensar Coimbra e pensar Guarda, dá-nos a percepção que há movimentos que nem sempre são centrípetos. É necessário perceber estas três questões de base para chegarmos a essa percepção.

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visitação seja muito significativa. Tomar deve receber 300 mil visitantes ano, Alcobaça está praticamente nos 500 mil visitantes, a Batalha anunciou agora um número na ordem dos 600 mil visitantes ano e Coimbra andará pelos 500 mil visitantes, ou seja, temos aqui um manancial de visitantes muito interessante se somarmos os 6 milhões que visitam Fátima, se somarmos a Nazaré, estamos a construir uma resposta em rede para este novo turista que começa a chegar a Portugal e que está cansado de sol e praia.


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Hoje o turismo está muito profissionalizado, a nossa discussão é se este crescimento é ou não é sustentável e de que forma é que nós trabalharemos em conjunto uma marca para tal sustentabilidade, e tenho a certeza absoluta, que um município ou uma comunidade intermunicipal não terá a capacidade sozinha de poder resolver o problema do crescimento. Nenhum município, a partir do momento em que hoje o País está neste crescimento exponencial admirável, nem nenhuma comunidade intermunicipal, serão capazes de garantir esse processo de crescimento se não estiverem em rede, se não estiverem ligados. Essa que é uma das ilações básicas! Para a sustentabilidade deste crescimento, temos três desafios que devemos encarar

com muita determinação. Um é preservar a autenticidade e eu espero que os municípios não se deslumbrem com a ideia de criar coisas novas ou de copiar modelos. Outro tem a ver com a capacidade de podermos atingir e captar novos segmentos de mercado. Hoje percebemos que há uma demografia europeia mais envelhecida que implica outro tipo de resposta para as ofertas dos destinos. O terceiro e crítico são os recursos humanos e a qualificação dos serviços. Nenhum município sozinho é capaz de trabalhar a questão da qualificação dos serviços. Pode resolver problemas locais, mas não resolve os problemas do distrito e da região. A resposta a estes três desafios, a preservação da autenticidade, a questão de captar novos segmentos e a resposta às expectativas dos novos segmentos de mercado, ao serviço e à qualificação daquilo que é prestado, será fundamental para que os municípios trabalhem cada vez mais em rede.

Enquanto Presidente do Turismo do Centro sente que existe uma real vontade de descentralização por parte do Estado e dos partidos políticos? O Estado é sempre centralista. Qualquer que seja o período que analisemos, o Estado tem sempre a tentação de ser centralista. O que se passa neste momento com a lei, ou pelo menos com a proposta de lei para a chamada descentralização, no caso do Turismo seria um retrocesso enorme se viesse a confirmarse. Já percebemos que as Direcções Regionais da Cultura estão absorvidas, na nova lei, nas Comissões de Coordenação, a Agricultura está absorvida nas Comissões de Coordenação, o Emprego está absorvido nas Comissões de Coordenação, a Saúde vai para as Comissões de Coordenação, ora, as Comissões de Coordenação são órgãos do Estado, por isso, se a ideia é tirar das Organizações Regionais para colocar nas Comissões de Coordenação, estamos a criar um patamar intermédio entre o Estado e as populações. O Turismo, felizmente, foi o único que fez este movimento em sentido inverso, o único que verdadeiramente descentralizou, desde logo porque o Presidente das Organizações Regionais do Turismo é eleito pelas Câmaras Municipais e pelos empresários da região sem interferência do Estado. Depois porque são os únicos organismos desconcentrados, se é que se pode chamar assim, que contam no seu modelo de governação com os privados. Nas Comissões de Coordenação não há ingerência de privados. Nas Regiões de Turismo já existe a figura do agente económico privado dentro da estrutura, é o caso do Turismo do Centro, onde, além disso, temos órgãos consultivos só de privados (o nosso Conselho de Marketing é constituído por 7

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No Turismo do Centro percebemos que era necessário fazer um virar de página no que diz respeito há concepção e a percepção pública que existia sobre o nosso território. Somos um território diverso, temos fortes assimetrias regionais, temos multi-lideranças, por isso precisamos colocar o foco na diversidade e definimo-la como o nosso core. Para isso, criámos uma assinatura - Um País dentro do País. Essa assinatura e o branding e marketing territorial que lhe estão associados foram aprovados em 2014 por unanimidade na Assembleia Geral. Fomos buscar o contentor dos brasões que é comum aos 100 municípios e sobre ele trouxemos o verde, trouxemos o fogo, trouxemos a água, trouxemos o mar e é neste contentor despido da coroa que baseámos a nossa comunicação. Partindo desse contentor comum, começámos a fazer conjuntos articulados de trilogias, dividimos o contentor em três e comunicámos 3 produtos, 3 territórios para dizermos - um é bom, dois é óptimo, três nunca é demais. Isto resolveu o problema dessa percepção de algumas lideranças continuarem a chamar a si protagonismos individuais? Não. Mas nós também dizemos que o Turismo de Portugal não se substitui à lógica dos indivíduos, leiase dos municípios. Nós temos uma missão, pensar um território e criar uma umbrella sobre esse território, termos uma linguagem articulada e sustentada no tempo e nas acções e a partir daí procurar agregar. O resultado é positivo, muito positivo! Se formos ver a evolução em função dos números que é um dos indicadores possíveis para podermos fazer avaliações, crescemos na ordem dos dois dígitos nos últimos 3 anos, desde que aprovámos o nosso plano de marketing. Conseguimos uma coisa fantástica, o reconhecimento institucional da marca Centro de Portugal que não existia de todo. Existiam muitas marcas, havia Viseu-Lafões, Rota de Luz de Aveiro, Serra da Estrela o Médio Tejo, Leira-Fátima etc., etc.. Hoje há um amplo consenso sobre a importância de uma marca conjunta.


cidadãos todos eles representantes do sector privado) o que significa que do ponto de vista da constituição e da composição, do ponto de vista do modelo de gestão e do modelo de governação e planeamento, os nossos planos são feitos, discutidos e aprovados em Assembleias Gerais, pelos sectores público e privado. Se o Turismo hoje passasse, como apontam alguns pressupostos da proposta de lei, para as Comissões de Coordenação nós estaríamos a recuar 20 anos do ponto de vista da descentralização.

Acha que essa experiência que já tem uns anos, de partilha de modelo de gestão e planeamento com os privados, tem sido um dos factores de sucesso do Turismo nacional e do Turismo do Centro em particular? Nós somos um País de 10 milhões de habitantes e recebemos, em 2016, 12 milhões de hóspedes estrangeiros, temos praticamente 36 milhões de dormidas de hóspedes estrangeiros num País de 10 milhões, se a isso juntarmos o nossos 7 milhões de hóspedes, teremos praticamente 50 milhões de dormidas. É uma cifra muito relevante. Para que isto aconteça é necessário investimento privado e felizmente para nós o caso da região centro é paradigmático, isso tem acontecido, muito por força de um quadro comunitário de apoio, que à semelhança de quadros anteriores tem vindo a promover esta fixação de investimento nas diversas regiões do País. Olhando alguns indicadores, por exemplo, em Penhas Douradas no concelho de Manteigas, o primeiro mercado emissor estrangeiro é americano, não é português, nem é francês, é americano; quando falamos em Fátima em 2016/2017, no top 5 dos mercados emissores estrangeiros temos a Coreia do Sul, ou seja, há uma alteração profunda em relação aquilo que é hoje a percepção da actividade turística e muito em particular por força deste processo de internacionalização.

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Isto tem ou não tem reflexos neste modelo de gestão e este modelo de gestão tem sido ou não tem sido ganhador para chegarmos ao objectivo final? Eu acho que sim. A agência de promoção externa a que presido é constituída por 11 elementos sendo que 10 são privados, representando os principais grupos económicos ligados à actividade turística. Temos praticamente 240 empresas privadas que estão connosco no modelo de internacionalização. Com eles foi possível definirmos mercados, o top 10 dos mercados onde queremos estar presentes, foi possível definir orçamentos e foi possível definir opções do ponto de vista da distribuição. Este modelo aproximou muito a decisão do deci-

sor e aproximou muito a capacidade de juntar território com operadores, e esses territórios com os operadores definiram o seu caminho. Não foi a Marca Portugal, que neste caso está na 5 de Outubro, que decidiu o que era importante para Viseu-Lafões, foi Viseu-Lafões que, num espírito de trabalho e de modelo organizacional e de governação do território, com a Turismo do Centro, a sua agência de promoção externa, que definiu o que pretendia.

O turista interno é importante para o crescimento do Turismo do Centro? Para a Marca Centro, o turismo interno representa, grosso modo, 2,8 milhões de hóspedes. Tem para nós um peso muito relevante que determina ainda 55% dos nossos turistas, com duas grandes vantagens, é um mercado o ano inteiro, porque não está sujeito ao Brexit, não está sujeito aos vulcões que fazem parar os aviões, não está sujeito a esse conjunto de fenómenos a que os mercados internacionais estão sujeitos. Por outro lado, é um mercado disponível para o nosso tipo de produto, para segmentos como a família quando pensamos na Serra da Estrela, quando pensamos no Património Mundial, quando pensamos nas nossas praias fluviais. Por isso, vamos continuar a trabalhar este mercado, porque ele pode ajudar-nos a combater a forte sazonalidade do mercado internacional.

Quais as grandes ambições do Presidente do Turismo do Centro para a região nos próximos tempos? Em primeiro lugar atingirmos o objectivo de colocar o Centro de Portugal como primeira preferência nas escolhas dos portugueses. Em segundo, ultrapassar rapidamente a fasquia das 1,7 e poder chegar às 2,2/2,5 noites de estadia média na região porque isso permitiria alavancar muito do negócio que está a ser feito do ponto de vista da actividade turística, permitiria melhorar os rácios de rentabilidade que sabemos que são difíceis de atingir enquanto não tivermos essa capacidade. E finalmente, uma ambição ainda maior, colocar o Centro de Portugal no top 3 das regiões com maior capacidade de crescimento do ponto de vista internacional e para isso precisamos de outro tipo de ambições, entre elas, não escondo que há uma que é muito cara para a Marca Centro e para mim em particular, que é o tema da acessibilidade aérea. É um objectivo muito forte do ponto de vista de criar condições infra-estruturais dentro do Centro de Portugal para que possamos competir ao nível dos melhores. Sabendo que 70% do fluxo mundial circula de avião e se temos um aeroporto que hoje permite receber aviação civil, se temos um Papa que aterrou no Centro de Portugal, porque é que não temos ainda um aeroporto disponível para receber turistas? Esse é um grande desafio!


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Se conseguíssemos essa infra-estrutura aeroportuária, resolveríamos três problemas para a região Centro de Portugal. Primeiro, inevitavelmente, o problema da ferrovia, porque teríamos que remodelar qualificar e melhorar a nossa via ferroviária. A linha do oeste não está electrificada, está neste momento subaproveitada, praticamente desactivada de Santa Apolónia à Figueira da Foz, este circuito quase litoral perfeito para uma ferrovia que teria esta capacidade de ligar o fluxo da zona de influência do turismo de Lisboa até à Figueira de Foz. Segundo activava uma infra-estrutura que está praticamente moribunda chamada A8, A17 e A29. A taxa média, eu não tenho os valores comigo, mas a taxa média de tráfego da A8 e da A17 deve estar abaixo dos 5%. Se nós tivéssemos uma estrutura aeroportuária, seguramente que aquelas estradas passariam a ser vias estruturantes. Finalmente o tecido económico, porque uma estrutura aeroportuária não serve só o turismo. Essa é uma grande ambição, um enorme desafio pelo qual continuaremos a lutar.


A Agenda que quer transformar o mundo

por António Ferrari Assessor de Comunicação da ONU para Portugal

Em janeiro de 2018 fará dois anos que história foi feita. A cartilha para o Desenvolvimento Sustentável, o plano de ação da comunidade internacional para assegurar a longevidade do planeta, entrou em vigor legitimada pela ratificação efetuada pelos 193 estados membros da maior organização internacional do mundo.

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A agenda 2030 das Nações Unidas une estes países em torno de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que pretendem ser a referência para os agentes de mudança (Governos, ONG’s, setor privado e sociedade civil) para que, individualmente e/ou em conjunto, adotem práticas, políticas e prioridades que visam não só sensibilizar de forma alargada as populações sobre a premência do paradigma da sustentabilidade, mas acima de tudo ir mais longe e envolver de forma efetiva, provocando comportamentos e compromissos individuais e coletivos em todas as sociedades naquela que é uma causa maior: a sobrevivência do planeta. Neste sentido, os 17 ODS são complementares entre si mas também altamente dependentes, o sucesso da implementação de um, em maior ou menor grau, depende do sucesso de implementação de outros. Por

exemplo, para que seja possível um dia erradicar a fome (ODS1) é necessário fomentar o trabalho digno e o crescimento económico (ODS8), o que nunca poderá ser verdadeiramente potenciado sem uma efetiva igualdade de género (ODS5) que, por sua vez, só acontecerá em pleno se as mulheres tiverem acesso a uma educação de qualidade (ODS4). Esta é apenas uma das inúmeras correlações possíveis de fazer num puzzle complexo que, por vezes, choca com barreiras políticas, económicas, sociais e culturais que tanto dificultam uma maior concertação internacional e, consequentemente, a agilização mais eficiente desta Agenda transformadora que tem como pilares os denominados ”5 P’s”: pessoas, prosperidade, paz, parcerias e planeta, pilares de uma realidade que, em teoria, todos os estados-membros veem como comum, global e única.


No seu primeiro discurso à Assembleia Geral enquanto Secretário Geral da ONU identificava sete ameaças/desafios que merecem ação prioritária do seu mandato e que estão diretamente relacionados com a implementação desta Agenda: o perigo nuclear, o terrorismo, os conflitos, as alterações climáticas, o crescimento das desigualdades, as ameaças cibernéticas e a migração.

A filosofia das Nações Unidas passa por ser o fórum agregador para conseguir debelar as ameaças que pairam sobre um mundo cada vez mais complexo, frenético, momentâneo e às vezes impulsivo, encurralando a inércia e promovendo a ação, um pouco em linha com o que grande pensador e cientista Albert Einstein afirmou um dia: “O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade.” No contexto desta nova fase da organização internacional, Portugal tem sido apontado, em várias dimensões, como um bom aluno pelos esforços feitos, quer a nível governamental, como da sociedade civil, na adoção da Agenda 2030. São inúmeros, ainda que muitas vezes pouco mediáticos, os projetos que estão em marcha tendo como substrato este novo paradigma, numa clara aposta na sustentabilidade, na mudança de comportamentos, com uma nova geração muito mais ciente das ameaças, mais ativista, mais consciente. Autarquias, associações de estudantes, instituições de solidariedade social, agências governamentais, empresas do setor privado têm entre mãos inúmeros projetos cujo racional parte de um, de vários ou de todos os ODS’s consoante a sua área de ação e objetivo concreto. De notar que o governo Português foi dos primeiros a entregar o relatório voluntário anual no qual explica de que forma as políticas públicas estão a contribuir para a implementação desta Agenda.

Foto: ONU/Manuel Elias

A crise financeira que se abateu sobre o mundo ocidental no início da presente década relegou o tema das alterações climáticas em particular, e o da sustentabilidade, em geral, para segundo plano na agenda política e mediática mas o próprio clima tem forçado os decisores a olharem com outra atenção esta problemática. Episódios climatéricos muito severos (veja-se o caso dos dramáticos incêndios florestais deste verão interminável) forçam a mudança que é transversal e obrigação de todos. “É tempo de acabar com as emissões suicidas.” afirmava António Guterres na reunião magna da ONU em setembro passado, apelo reiterado na Cimeira do Clima, em Bona. Esta é apenas uma das dimensões que vão merecer no futuro um maior compromisso em torno de problemas que extravasam qualquer fronteira, cultura ou sistema político. As migrações, as ameaças cibernéticas e o terrorismo são apenas alguns exemplos das ameaças que os estados-membros enfrentam e que não conseguirão enfrentar de forma isolada. O multilateralismo é, por isso, fundamental e pedra basilar da ONU, fórum primordial para o debate e a ação internacional que, desejavelmente, logrará em garantir que em 2030 o mundo seja um lugar melhor.

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Com tantos dados em cima da mesa, este jogo internacional pode ser muito duro de jogar, sobretudo, quando se mudam as regras com tanta frequência. Aqui reside a maior qualidade do multilateralismo: a resiliência e a capacidade de negociação para que os interesses políticos beneficiem o maior número de pessoas. Com efeito, não é fácil alinhar os interesses de 193 atores, mas a Conferência do Clima que decorreu muito recentemente em Bona, na Alemanha, evidencia o sério compromisso, de (quase) todos os países do universo da ONU relativamente ao Acordo de Paris, assinado em 2015, em avançar com a implementação de medidas concretas para combater as alterações climáticas, com o objetivo de travar os episódios climatéricos devastadores que têm sido cada vez mais recorrentes nos últimos anos.


Memórias da Casa Antiga O QUARTO DE DORMIR

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A noite, “espaço de tempo que fica o Sol debaixo do Horizonte” e momento de outros tempos na recolha a casa do trabalho nos campos, começado ao nascer do sol e terminado à hora das Avé Marias: o toque sineiro das 18 horas.

Texto e fotografia por Ana Motta Veiga

E era ao ritmo da Natureza e do badalo da igreja que se regulava também o momento do sono, ajudado no despertar pelo grito do galo da matina e no deitar pelo aproximar do silencioso João Pestana.

Foi desde sempre a casa local de recolhimento, mas o quarto nem sempre terá sido o aposento de maior intimidade. As habitações populares rurais ou até urbanas, eram compostas por pouco mais do que uma sala que permitia em simultâneo comer, estar e descansar em família, no mesmo espaço, e com escasso mobiliário como o banco, a arca, a mesa e a cantareira (vão na parede para as jarras e canecas de uso quotidiano), fazendo os seus residentes as “camas” em alcovas tantas vezes partilhadas.

O serão - tarefas de entretenimento ou ocupação doméstica nocturna - era limitado pela luz e pelo cansaço, sendo pouco habitual nas casas mais modestas, mas um hábito crescente nas residências oitocentistas mais prósperas e adeptas de novas e sofisticadas formas de alumiar e prolongar a claridade do dia.

O número e a dimensão das divisões da casa aumentavam ao ritmo da subida do estrato social dos seus habitantes, permanecendo no entanto um elemento comum na localização do local de dormida: mais distante e resguardado da entrada e no final do percurso pelas áreas sociais. A designação de quarto estava no entanto distante do que hoje sig-


O aumento de compartimentos, permitiu a organização dos espaços com usos cada vez mais específicos. Os quartos principais para uso dos donos das casas ou dos seus hóspedes, dispunham-se no andar nobre (usualmente o primeiro) e na sequência das várias salas sociais e/ou de aparato, tendo os restantes membros da alargada família - incluindo as crianças - alguma mobilidade na hora de deitar, acomodando-se nos pisos superiores e inferiores, nos sótãos e caves, dormindo até por vezes alguns criados em improvisadas camas amovíveis encostadas num recanto e mais perto do seu posto de trabalho, ou do chamamento dos seus patrões. A “cama” era assim feita onde fosse possível acomodar os tantos habitantes e hóspedes destas residências, tendo esta palavra um significado mais amplo do que hoje usamos para definir apenas a peça de mobiliário. A designação do móvel a que hoje chamamos cama era por isso diferente: catre se fosse uma estrutura composta por quatro pilares curtos de madeira e tábuas onde se fazia a cama, leito se a mesma estrutura do catre fosse mais alta e comportasse cortina, ou alcova se a cama fosse feita num nicho de parede, resguardando-a em três lados e fechando-se com um pano pendurado pelo lado maior e da sua entrada. Na estrutura em madeira - seja catre, leito ou alcova -, a cama era feita com sucessivas camadas procurando garantir o maior conforto do seu utilizador. Sobre a tábua era colocado o enxergão, saco largo de pano cheio com palha uniformemente distribuída e que antecedia o colchão, um segundo saco recheado de lã ou penas que amaciava contacto com a base mais incómoda da palha do enxergão, e que recorda os actuais edredons. Os lençóis de linho mais fino, onde repousava o travesseiro recheado de lã para apoio da cabeça, separavam a base da coberta, ou dos cobertores, quentes panos de lã de ovelha que antecediam a fina e decorativa colcha em seda lavrada, bordada, e que cobria todo o conjunto. Da roupa de quarto, constavam os lençóis e as suas fronhas bem como as toalhas de rosto e de banho, trazidas ao casamento no enxoval da mulher, feitas em cuidadosos lavores de várias horas de bordados sobre finos ou mais robustos panos de linho, capazes de durar várias vidas e de resistir às imensas la-

vagens de rio. A esta roupa branca, cuja cor se queria imaculada de horas a corar ao Sol, acrescentavam-se as longas camisas de dormir que durante o dia poderiam servir de forro aos trabalhados vestidos (despidos para o descanso nocturno), acompanhadas por um toucador ou barrete usados por ambos os sexos durante o sono, cobrindo as cabeças e os penteados. Terão estas camisas e calças interiores sido os antecessores do pijama e da camisa de noite, mais tarde acompanhados pela importação francesa do robe de chambre, requintado e confortável roupão - também usado sobre a roupa - substituindo o casaco em ambiente doméstico. Nos pés, o uso mais informal era o do chinelo, sapato sem calcanhar para andar por casa. Mimetizava assim a roupa de noite a roupa usada durante o dia, cobrindo de igual modo a cabeça, o corpo e os pés num formato mais simplificado e confortável. Eram as cortinas que envolviam o leito ou a alcova um poderoso aliado do aquecimento e do conforto, permitindo o resguardo da cama à luz, ao frio, ao som, e às tantas correntes de ar que circulavam pelas divisões da casa antiga. No Inverno, precedia o deitar a passagem dos lençóis com uma quente escalfeta de cobre recheada de brasas e com um longo cabo de madeira, garantindo o aquecimento à entrada na cama, seguido da colocação de botijas de água quente - metálicas ou de louça - envoltas em panos de lã para o prolongamento do calor ao longo da noite. A forma de fazer a cama, ou o local de repouso, evidenciavam assim a condição social de cada um, sendo as sucessivas camadas de conforto igualmente proporcionais às condições económicas de quem as usava, dormindo a pobreza sobre a palha e tantas vezes sem um enxergão, coberta com um cobertor de papa ou lobeiro e longe dos macios colchões de penas, dos lençóis bordados e aquecidos, reservados aos poucos que os podiam usar e manter. Com o tempo, a espuma e as molas substituiriam a palha do velho enxergão, cujo nome caiu em desuso sendo absorvido pelo actuais, mais cómodos e higiénicos colchões, e as cortinas do leito ou da alcova passariam para os reposteiros das janelas dos quartos, estes com dimensões cada vez mais reduzidas e hoje quase totalmente ocupados pelas camas. Os lençóis, os cobertores e por vezes as colchas foram sendo substituídos pelos nórdicos, leves e quentes edredons, sendo aos poucos a antiga terminologia do quarto de dormir esquecida, guardada nas memórias dos que ainda recordam as conversas com os seus Avós.

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nifica, sendo câmara o termo mais utilizado e significando “a casa em que se dorme”, casa denominada como divisão doméstica tal como também era chamada de “casa de jantar” o local das refeições, nome que se manteve até hoje.


Tronos, Altares e Presépios

por Pedro Teotónio Pereira

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Dezembro está nos “antípodas” de junho e das festas dos santos populares. Se agora os dias são pequenos e frios, em junho os dias estão a crescer e o calor marca o período de verão que se avizinha. As festas de junho, que celebram os três santos populares - Santo António, a 13 de junho, São João, a 24 de junho e São Pedro, a 29 de junho - vieram cristianizar as antiquíssimas festas do solstício de verão que ocorre a 21 de junho.


São João adquire aqui uma importância central, devido à proximidade do seu dia (24 de junho) com o dia do solstício de verão (21 de junho). Nos países de cultura católica, São João goza de uma consideração especial pois é simultaneamente o último dos grandes profetas do povo de Israel, como também, por designação do anjo Gabriel, aquele que veio preparar o caminho de Jesus Cristo. É o elo vivo que liga o Antigo Testamento ao Novo Testamento, que pertence simultaneamente ao reino da Lei e ao reino da Graça. Mas se João Baptista é o último dos profetas, é também o primeiro dos mártires da fé em Cristo, inclusivamente anterior a Santo Estêvão. Ocupa um lugar especial na hierarquia dos santos, e por isso a Igreja celebra os dois acontecimentos da vida de João Baptista narrados nos evangelhos: o nascimento, a 24 de junho, e o martírio (a degolação), a 29 de agosto (antigamente também se celebrava a data da conceção de São João (filho de Isabel, prima da Virgem Maria, e de Zacarias), substituída depois pela celebração da festa da visitação). Note-se que apenas duas outras natividades estão inscritas no calendário católico: a de Jesus (o Natal, a 25 de dezembro) e a da Virgem Maria (a natividade de Maria, a 8 de setembro). Temos assim o nascimento de São João Baptista, a anunciar a vinda do Salvador e que veio cristianizar as festas do solstício de verão, marcando o ciclo do calendário das festas anuais. Até ao São João os dias estão a crescer; a partir do São João os dias começam a diminuir, terminando 6 meses depois na noite mais longa do ano que marca o solstício de inverno. Esta data é cristianizada pelo dia do nascimento de Jesus Cristo, Luz do Mundo, que celebra simbolicamente a vitória da luz sobre as trevas numa festa de esperança e de renascimento perpétuo. Se falamos aqui do Natal e do dia de São João é para compreender a relação dos símbolos destas festas que se completam. A festa do Natal começa após o período do Advento (quatro semanas antes) e estende as celebrações até à festa da Epifania do

Senhor, dois domingos após o Natal (dia de Reis). A festa de São João alargou-se ao período das festas dos santos populares, que começam no início do mês de junho com Santo António e terminam no final desse mês com São Pedro. No Natal queima-se o madeiro (ou cepo) e acendem-se as fogueiras, tradição que se mantém ainda no norte do país, resquício das festas de adoração ao sol, cristianizada com a vinda da Luz do Mundo. Nalguns lugares manda a tradição que esta lenha deve ser roubada (tradição idêntica à do dia de finados), para que proteja a família e o lar. São as fogueiras para aquecer o Deus Menino, que ardem toda a noite da consoada e que duram até ao ano novo ou, noutros locais, até ao dia de Reis. Simbolicamente, o madeiro representa a vitória da luz e do calor sobre o frio e as trevas. A partir daqui os dias começam a aumentar (como refere o provérbio “depois que o Menino nasceu, tudo cresceu”). Em contraponto a esta tradição, temos os santos populares de junho em que se acendiam enormes fogueiras, também memória dos rituais pré-cristãos de adoração ao sol, símbolo purificador e chama simbólica. São fogueiras festivas, que assim como a tradição do lançamento dos balões, impedem o sol de esmorecer o seu esplendor, servindo ainda para anular, segundo a crença popular, os fatores nocivos, materiais ou espirituais, ligados ao mal, à doença ou à morte, prejudiciais às pessoas, aos animais, às casas e mesmo às plantas. Por isso, muitas vezes estas fogueiras eram preparadas com ervas aromáticas, acreditando-se que estas possuíam virtudes mágicas e profiláticas “eficazes e especiais”, onde se defumavam pessoas e animais com fins de esconjuro ou de prevenção. Também as águas adquiriam poderes mágicos. Por exemplo, as plantas colhidas à meia-noite, na madrugada ou ao meio-dia do dia de São João, ou ainda o “orvalho milagroso” da noite de São João, revestem-se de poderes especiais para “livrar do mau-olhado”; o banho tomado em dia de Santo António vale por três banhos em dias comuns; o alecrim, o rosmaninho, o funcho e o sabugueiro colhidos com o orvalho benzido “preservam as habitações do raio”; o trevo de quatro folhas e a arruda, apanhados à meia-noite de São João “guardam-se como talismãs”; o alho-porro “afasta as entidades malignas” e a erva-cidreira, colhida em noite de São João, tem o poder de “curar os feitiços”. Também o manjerico está associado a propriedades divinatórias. Faz parte da tradição do Santo António oferecer-se um manjerico com uma quadra popular e com um cravo vermelho, símbolo erótico da fertilidade asso-

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Nos Santos Populares os dias têm 14 horas de sol, o calor faz esquecer que o frio vai voltar, e o vigor da primavera manifesta-se em todos os seres vivos. Baseadas nos cultos pré-cristãos, as festas dos santos populares combinam o sagrado e o profano, de onde se destacam as práticas divinatórias e propiciatórias relacionadas com rituais associados ao sol, às plantas, ao fogo, ao orvalho e à água, invariavelmente em benefício do amor, do casamento, da felicidade, da saúde ou da prevenção da doença.


ciado aos milagres do santo. A alcachofra é mais utilizada nos meios rurais, considerada símbolo de renovação da natureza e usado pelas raparigas nas sortes divinatórias. Assim, é costume chamuscá-las à meia-noite nas fogueiras dos santos populares e cravá-las na terra, ao relento; se reflorissem significava que se era correspondido nos amores. Encontramos ainda paralelo entre o presépio no Natal e os chamados presépios de verão: as cascatas de São João ou os tronos de Santo António. Note-se que o presépio foi criado por São Francisco de Assis em 1223, com a representação da Sagrada Família numa humilde gruta louvando o nascimento o Menino Jesus. Os presépios tradicionais portugueses irão incluir, para além da Sagrada Família, dos pastores e dos reis magos, muitos outros elementos que representam as profissões e as principais tarefas relacionadas com a vida da comunidade, como as procissões, a banda, a lavadeira, o moleiro, a matança do porco, etc. Muitas vezes estes elementos são animados mecanicamente, tradição bem ao gosto do séc. XIX e XX. Também as cascatas de São João que se armam sobretudo no norte de Portugal apresentam muitos elementos comuns com os presépios tradicionais portugueses, de onde se retiram as inúmeras figuras colocadas sobre o musgo, representando os costumes tradicionais misturados com os símbolos religiosos do batismo de Cristo, onde a água é um elemento de presença obrigatória. Também aqui se recorre aos elementos mecânicos para enriquecer todo o conjunto.

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Já os tronos de Santo António podem ser associados aos presépios-altar ou em escada, uma tradição francesa que se difundiu no Alentejo e no Algarve, levada depois para as ilhas da Madeira e dos Açores, estendendose também para o Brasil e um pouco por toda a América Central e do Sul. Os presépios-altar, também chamados de Altarinhos ou Searinhas, evocam os altares das igrejas, cuja estrutura é formada por uma sequência de três ou sete degraus em madeira. No topo é colocado o Menino Jesus, por vezes enquadrado num arco de flores de papel em forma de auréola (ilha da Madeira), ou decorado com verdura local da época, como por exemplo de cedro, azevinho ou camélia (Açores). O Menino Jesus abençoa os produtos da terra que são colocados no presépio, apelando à abundância (na ilha da Madeira colocam-se castanhas, tabaibos, nozes, laranjas, tangerias, peros, etc.; no Algarve é tradição colocar laranjas, tangerinas, amêndoas ou alfarrobas).

Nos vários degraus são colocadas imagens de barro, normalmente representando as profissões tradicionais, assim como tigelas com trigo, ervilhaca, lentilhas ou tremoço, que devem ser postos a germinar no dia de Santa Bárbara (4 de dezembro), no dia da Imaculada Conceição (8 de dezembro) ou no dia de Santa Luzia (13 de dezembro). Na Madeira, a colocação em vasos deve ser feita por altura da primeira Missa do Parto (17 de dezembro). Também os presépios de Estremoz revelam uma notável relação entre a representação da natividade em altar, característica da sua produção a partir de meados do século XX, com os tradicionais tronos de Santo António. Assim, durante o mês de dezembro, o Museu de Lisboa – Santo António apresentará uma exposição de presépios de Estremoz do século XVIII ao século XX. Durante este mês também será conhecido o resultado da candidatura da produção do figurado em barro de Estremoz a Património Imaterial da UNESCO.

Legendas 01 Trono de Santo António Séc. XX Trabalho popular Coleção Museu de Lisboa – Santo António © José Avelar/Museu de Lisboa

02 Searinha, presépio do Algarve Séc. XIX/XX Coleção particular Padre Carlos Aquino © José Avelar/Museu de Lisboa 03 Presépio de altar da ilha da Madeira 2002 Coleção particular de Fernando Nunes Canha da Silva © José Avelar/Museu de Lisboa

04 Presépio de Trono - Figurado de Estremoz 1970-1980 José Moreira e Josefina Moreira Museu Municipal Prof. Joaquim, Vermelho, Estremoz © José Avelar/Museu de Lisboa 05 Altarinho, presépio tradicional dos Açores 1970Séc. XIX/XX Coleção Museu Carlos Machado, Ponta Delgada, Açores © José Avelar/Museu de Lisboa


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Um estrangeiro na cidade...

por Bruno Esteves

Embaixador da Polónia em Portugal

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Depois de passagens por Bruxelas e Toronto e uma longa comissão no Brasil, onde foi agraciado com a Grão-Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul, o Embaixador Jacek Junosza Kisielewski licenciado em Ciências Naturais e autor de diversas publicações científicas, chegou a Lisboa em Setembro de 2016 para assumir a chefia diplomática da República da Polónia no nosso país. Fluente em português, afável e visivelmente entusiasmado com o novo cargo, o Embaixador Polaco recebeu a Bica na Embaixada do seu país no Restelo, para uma conversa sobre as relações bilaterais e as suas primeiras impressões sobre Portugal.


São realmente dois países diferentes apesar de usarem o mesmo idioma. Eu gostei muito da minha estadia no Brasil, mas estou muito feliz de chegar e viver agora num país que representa o coração da cultura Lusófona. As diferenças entre os dois países, começam logo pelo tamanho. O Brasil é praticamente um país continente, Portugal é muito menor, embora eu ache que existe uma semelhança no comportamento dos habitantes, até porque grande parte dos brasileiros é de origem Portuguesa o que é muito visível. No caso do Brasil surpreendeu-me a grande variedade de tradições se compararmos o Sul do país ao Norte, por exemplo, Bahia, à costa Atlântica do Brasil, são regiões muito diferentes. Mas em Portugal, apesar do tamanho bem menor, é visível também uma grande diferença das tradições. Se compararmos o Norte, Porto, Braga, Guimarães, com Lisboa, há grandes diferenças. Nem falo do Algarve porque é ainda mais diferente. Assim como a parte Leste, perto da fronteira com a Espanha, que tem tradições muito próprias. Por isso, apesar da menor dimensão, Portugal é um país riquíssimo em diversidade. Já em relação à Polónia, as diferenças são visíveis praticamente desde os primeiros dias da minha presença aqui. Portugal é um país marítimo, hoje em dia é um país muito dependente, muito ligado ao mar. No caso da Polónia, nós temos mais ao menos 500 km de costa no Mar Báltico, por isso, também temos acesso ao mar, mas a vida do país é muito menos dependente do mar. No caso de Portugal essa dependência é visível na gastronomia, na economia, nos transportes internacionais. No caso de Portugal 81% de transporte internacional é feito por via marítima, enquanto a média da União Europeia é de 51%. É uma grande diferença! Portugal só tem um vizinho, Espanha, a Polónia tem sete vizinhos! Isso marca muito o carácter de um país. Como definiria as relações actuais com esses vizinhos, em particular com a Rússia, com quem existiram fortes tensões no passado e que não faz parte da União Europeia? A vizinhança dos países da União Europeia é um grande desafio não somente para a Polónia, mas também para Portugal. No caso de Portugal a vizinhança do sul, no caso da Polónia a vizinhança de Leste. Nos dois casos nós precisamos estar abertos à cooperação o

mais estreita possível com estes países, para trocar experiências e reduzir o risco das tensões entre os países vizinhos. Também nos lembramos bem do período em que a Polónia estava fora da União Europeia e das tensões geradas e não queremos repetir essa situação com os nossos vizinhos a Leste. Por isso o nosso empenho é no desenvolvimento de uma cooperação estreita com estes vizinhos, apesar de todas as dificuldades políticas. O melhor exemplo é a Ucrânia, e a organização conjunta do Campeonato Europeu de Futebol de 2012, em abrirmos as fronteiras para dar a possibilidade aos Ucranianos de participar nos jogos da Polónia e vice-versa. Esse foi um muito bom exemplo de como nós precisamos cooperar com os países que fazem a fronteira com a União Europeia a leste. O desporto e a Cultura podem e devem ser esse instrumento de estreitamento de ligações e de cooperação? Absolutamente! Absolutamente! Falando em cooperação cultural, podemos dizer que sempre tivemos boa cooperação cultural com a Rússia e isso tem ajudado nas relações bilaterais. Falando de Portugal e da nossa cultura, o que mais o surpreendeu com a chegada ao nosso país? Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com a temperatura muito elevada da vida cultural. A minha percepção de Portugal, da cultura portuguesa já indiciavam que assim seria, mas eu confirmei aqui que o nível da actividade cultural é muito alto, a frequência dos eventos culturais do norte do país e aqui em Lisboa é muito grande. Estou feliz com as notícias sobre a participação dos polacos nos eventos culturais organizados em Portugal. Nós temos muitos exemplos dessa participação, até porque temos muitos artistas polacos que escolheram este país para viver como a sua segunda pátria. Ao mesmo tempo temos artistas da Polónia que vêm para vários eventos realizados aqui. Às vezes a Embaixada não sabe que os artistas da Polónia vêm, porque não existe uma obrigação de informar representação diplomática sobre esta atividade, mas é sempre muito boa notícia para nós, ver os polacos que apresentam a sua arte em Portugal. Existe uma grande comunidade polaca em Portugal? Do ponto de vista quantitativo é bastante pequena, de 1500 pessoas mais ou menos, mas se nós avaliarmos a qualidade destas pessoas é bem elevada. Temos artistas de grande qualidade: pintores, gráficos, músicos...

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A experiência brasileira do Senhor Embaixador que durou 6 anos, facilitou a integração na sua chegada a Portugal? Isto apesar das diferenças óbvias entre os dois países.


Em termos quantitativos, é uma diferença muito grande em relação ao Brasil. A história da emigração polaca para o Brasil foi muito diferente. É uma emigração muito antiga, que começou na segunda metade do Séc. XIX e se acentuou no período entre as duas guerras mundiais. Foi uma emigração principalmente de camponeses. No caso da emigração para Portugal é muito mais recente, de pessoas com um grau de ensino mais elevado, com formação académica, na sua grande maioria. Isso é muito importante porque, embora pequena, essa comunidade é constituída por pessoas que conhecem os dois idiomas, conhecem a cultura e tradição dos dois países, e constituem uma força muito grande no estreitamento das relações culturais entre os nossos dois países. Estamos a tentar discutir com eles novas formas de desenvolver as nossas relações. Outro fenómeno muito interessante é o dos estudantes do programa ERASMUS. Nós temos 1500 polacos por ano que estudam em Portugal e ao mesmo tempo 1500 portugueses que estudam na Polónia. Isso representa uma força extraordinária de intercâmbio cultural. São jovens que futuramente ajudarão a desenvolver a nossa cooperação ainda mais. Nós somos de Viseu que é uma cidade geminada com Lublin e onde existe uma delegação do Instituto Camões. Talvez por isso, anualmente venham alguns polacos estudar para Viseu em quadro de ERASMUS. Gostávamos de ouvir a opinião do Senhor Embaixador sobre estes intercâmbios e sobre o papel desempenhado pelo Instituto Camões no ensino e divulgação da língua portuguesa na Polónia. Vou começar por Viseu que é para mim um muito bom exemplo, porque eu conheço dois jovens, os meus vizinhos mais próximos da minha casa em Varsóvia, que estavam em Viseu em quadro de ERASMUS. Veja como o mundo é pequeno (risos). Mas, falando do Instituto Camões, nas nossas 4 universidades na Polónia nos temos o estudo da língua portuguesa, desenvolvido em cooperação com o Instituto Camões. Isso é muito importante para a ligação entre os dois países, além de que, abre uma janela de oportunidade para os contactos com os países lusófonos.

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Senhor Embaixador o que é que gosta mais em Lisboa? Portugal teve um período muito interessante na arquitectura, que foi o período do estilo Manuelino 1490-1520. Tem monumentos, não serei muito original com esta resposta, que para mim são uma maravilha, o Mosteiro

dos Jerónimos, a Torre de Belém. Na última semana nós visitamos Castelo Branco, onde encontrei elementos do mesmo estilo. É um estilo muito inspirado no mar e único na Europa, uma contribuição muito original. Como eu trabalho há 26 anos na diplomacia, visitei vários países dos 3 continentes e o que gosto de descobrir são os elementos originais de cada país. Em Portugal o Manuelino surpreendeu-me pela originalidade. Já ouviu fado? Sim e gosto! Gosto! Ouvi pela primeira vez no Brasil, onde é muito popular, mas é diferente este contacto directo com o original. Da nossa gastronomia, qual é o seu prato preferido? Volto ao contacto com o mar, gosto de todos os produtos do mar, mariscos, peixes, muito mais populares e muito mais presentes na cozinha portuguesa do que na polaca. E gosto de descobrir pratos tradicionais. Falando de gastronomia é inevitável perguntar o que acha dos vinhos portugueses. Uma resposta muito simples, o único vinho na minha mesa é o vinho português!! (risos) Há pouco disse que tinha visitado Castelo Branco e falou da enorme diversidade do nosso país, apesar da sua reduzida dimensão. Quais as diferenças que encontrou entre as diversas regiões? Antes de dizer quais são as diferenças, a minha impressão sobre as diferenças entre norte, Lisboa e Sul eu posso dizer que o que me surpreendeu muito positivamente em Portugal foi o número dos monumentos históricos preservados que encontrei. Tivemos a sorte de não ter uma guerra... Esta comparação entre Portugal e a Polónia é muito triste para mim, porque nós perdemos muito durante as guerras nesta parte da Europa, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial em que Varsóvia foi destruída em 90 a 95%. Então é um grande prazer ver os monumentos históricos bem preservados praticamente no país inteiro. Quanto às diferenças, o Porto e Lisboa são cidades muito diferentes. Lisboa pela sua história mais internacional, mais diversificada é mais cosmopolita, enquanto o Porto é uma cidade que preserva mais seu carácter original, mais genuína. Outra ligação inevitável entre os nossos dois países é o fervor religioso dos


dois povos, nomeadamente na devoção a Nossa Senhora. Fátima no nosso caso Czestochowa no vosso. Tive a honra de ser recebido pelo bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto e ele disseme que os polacos são a terceira nação, após os espanhóis e aos Italianos, a visitar Fátima. A religião católica que une os nossos dois países é um elemento muito importante, sobretudo pelo papel desempenhado por João Paulo II no apelo à devoção a Fátima. No caso da Polónia a tradição de nossa Senhora de Czestochowa pode ser comparada com a tradição de Nossa Senhora de Fátima e isso também ajuda a justificar o número de peregrinos da Polónia que vêm a Fátima anualmente. Além desse turismo religioso existe interesse dos polacos em visitar Portugal? Sim, é pena para nós que o número dos turistas portugueses que visitam a Polónia seja bem menor, mas felizmente também é uma tendência que está a mudar e o número de visitantes portugueses é crescente, especialmente no Inverno. No último Inverno Varsóvia teve muitos visitantes e Cracóvia também, felizmente o número dos voos entre as nossas cidades tem aumentado. Um dado interessante é que comparando o ano de 2016 com 2015, o número de turistas polacos que visitaram Portugal cresceu mais de 20%. Foi o segundo maior crescimento após Estados Unidos e antes da França. Então o interesse dos polacos para visitar Portugal é muito grande.

exemplos de grandes investimentos portugueses com grande sucesso económico são um convite para pequenos investidores, porque mostram uma atmosfera muito favorável para o investimento estrangeiro no nosso país. Pode parecer estranho que não haja grande capital polaco investido em Portugal, mas isso explica-se com a idade muito mais jovem do capital privado. Nós começámos a nossa reforma económica no ano de 1989, e o investimento privado começou nas empresas da própria Polónia, um pouco mais tarde avançou para os países vizinhos e entretanto concretizou-se a nossa adesão à União Europeia, por isso ainda estamos em processo de desenvolvimento da nossa economia. Felizmente o crescimento económico da Polónia é grande, em média duas vezes superior ao da zona Euro. Isso faz com que o capital privado comece a procurar novos mercados e com certeza vamos ver mais empresas polacas nos próximos anos a investir em Portugal e nos países lusófonos. Também vale a pena mencionar que a Câmara de Comércio polaco-portuguesa é uma das mais dinâmicas Câmaras de Comércio de Portugal e da Polónia e isso trará frutos mais tarde ou mais cedo.

Os investimentos Portugueses na Polónia são uma história de grande sucesso. É o do Banco Millenium que é um banco importante na Polónia, com lucro crescente e com resultados mais favoráveis na Polónia do que no país de origem, é o caso do Grupo Jerónimo Martins, de que falou. Se nós compararmos o número das lojas Biedronka e Pingo Doce, podemos dizer que temos 6 vezes mais lojas Biedronka na Polónia do que Pingo Doce aqui (400 e pouco Pingo Doce e 2700 biedronka na Polónia) claro, a Polónia é um país maior, mas isso mostra que foi um caso de sucesso de Jerónimo Martins. Temos várias outra empresas, a EuroCash, por exemplo, também com uma oferta muito interessante, com um dinamismo muito grande e também de capital Português. Por isso, estes bons

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O Senhor Embaixador é natural de Poznan, onde a Biedronka que pertence ao Grupo Jerónimo Martins tem sede. Como estão a evoluir as relações comerciais entre os dois países, sobretudo no que diz respeito ao investimento português na Polónia e vice-versa?


Alface fora d’água Ensinar a dizer “Olá! Como te chamas?” na Polónia

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Quando me pediram que escrevesse alguma coisa sobre o ensino da língua portuguesa em Lublin, fiquei na dúvida se deveria fazê-lo na primeira pessoa. Mas como passei estes últimos 17 anos a ensinar português aqui acho que um relato mais pessoal pode perfeitamente ilustrar e inserir-se no que me foi pedido. Lublin é uma cidade de cerca de 335 mil habitantes no sudeste da Polónia geminada com Viseu desde 1998. E é precisamente graças a esse laço entre as duas cidades que eu vim aqui parar em fevereiro de 2000. Confesso que quando me telefonaram para a entrevista de trabalho na Câmara Municipal de Viseu tive de procurar no mapa onde ficava Lublin. Acho que poucas pessoas em Viseu sabem e por aqui também não haverá muita gente que tenha ouvido falar na Senhora da Beira. A distância, a barreira linguística, o frio, o desconhecimento sobre este país sem tradição nas relações com Portugal e o parco salário levou alguns candidatos a desistir, e quando me perguntaram se eu estava interessado em aceitar a vaga de leitor de português na UMCS1(Universidade Maria Curie Skłodowska) nem pensei duas vezes. Eram outros tempos. Poucos queriam sair da sua 1

por Lino Matos

zona de conforto. Agora recebemos aqui com bastante frequência currículos de recém-licenciados ou professores desempregados e desesperados à procura de trabalho. Com os voos diretos para Portugal e as companhias aéreas de baixo custo a baixar o preço dos bilhetes a distância já não é um problema. Os invernos na Polónia já não são o que eram, porque isto das alterações climáticas toca a todos. Nos meus primeiros anos começava a nevar em meados de novembro e lá para março derretia. Agora até já temos tido Natal sem neve! O desconhecimento dos portugueses sobre a Polónia, apesar de ter vindo a diminuir nos últimos anos, é recíproco. O que me leva a ter que esclarecer dúvidas e responder com alguma frequência a perguntas mais ou menos pertinentes ou mais ou menos cretinas. Os portugueses achavam (e alguns2 ainda acham) que a Polónia era um país pobre, atrasado, frio, conservador, cheio de loiras e de homens com bigode na sua maioria mineiros para se parecerem com Lech Walesa. O país que eu encontrei em 2000, embora ainda estivesse na ressaca dos anos vividos na esfera de Moscovo, não era nada daquilo

A UMCS foi fundada em 1944, sendo a quinta mais antiga universidade da Polónia. É o maior estabelecimento de ensino superior em Lublin com cerca de 21 mil alunos, um terço da população universitária da cidade.


O principal e verdadeiro obstáculo que encontrei foi a língua. O mais difícil foram os primeiros 17 anos. Agora a sério. Os primeiros três, quatro anos foram os mais difíceis. Sentia-me perdido e dependente dos outros. Quando não havia língua comum recorria à mímica. Depois, de forma titubeante, comecei a falar como o Tarzan e neste momento, mesmo atropelando constantemente a gramática polaca, já me faço entender e entendo polaco sem problemas de maior. Para se conhecer um país profundamente é preciso falar a língua desse país e não esperar que todos falem inglês. E as línguas são uma bagagem valiosa que não pesa nada e que podemos levar para todo o lado. E é com pessoas que pensam como eu que eu trabalho, quer sejam alunos quer sejam professores. Muitos portugueses e polacos ficam surpreendidos quando sabem que há pessoas que querem aprender a falar português e me perguntam… porquê e para quê? Aos portugueses respondo que deveriam deixar os complexos de inferioridade de lado e ter orgulho numa das línguas mais faladas mundialmente e 2

que é um património seu. Aos polacos respondo que a língua portuguesa abre portas que outras não abrem. Mas falar da língua portuguesa em Lublin e dos seus trinta e sete anos de história, é falar da diretora do Departamento de Estudos Portugueses, a minha estimada amiga Barbara Hlibowicka-Weglarz e desse amor à primeira vista por Portugal que despertou nela em 1979. Nesse ano, como uma das primeiras bolseiras do Governo português do pós 25 de Abril, foi para Lisboa frequentar o Curso Superior de Língua e Cultura Portuguesa organizado para estudantes europeus de português. Regressa à Polónia em 1980 e organiza o primeiro leitorado de língua portuguesa na história da UMCS. Apesar de o português ser na altura quase desconhecido, e da possibilidade de escolher igualmente o espanhol e o italiano como segunda língua românica, houve sempre interessados. Ainda em 1980, e com muito esforço, conseguiu que o Instituto da Língua e Cultura Portuguesa enviasse de Lisboa cerca de 2500 livros, o que assegurava o acervo do novo leitorado. Durante os anos em que a língua portuguesa funcionou como um leitorado facultativo foram organizados em colaboração com os estudantes variadas atividades denominadas “serões portugueses” nos quais se divulgava a cultura portuguesa (literatura, história, música, tradições etc.). Entre 1992 e 1995 o Instituto de Filologia Românica da Faculdade de Letras da UMCS participou no programa europeu TEMPUS, o que acabou por ser um momento importante no desenvolvimento dos chamados estudos ibéricos. Este programa permitiu que tanto professores como estudantes pudessem enriquecer os seus conhecimentos em Portugal e Espanha, bem como adquirir material didático ou receber visitas de convidados estrangeiros. É neste contexto que em 1993 é criado um novo curso no Instituto, a Filologia Ibérica (espanhol-português). Ao longo dos anos 90, a futura Professora Doutora Hlibowicka Weglarz continuou as suas investigações na área da linguística, concluindo em 1999 a primeira agregação escrita em língua portuguesa na Polónia. Nesta mesma década, mais precisamente em 1994, começa a lecionar Mirosław Jawor e um ano mais tarde ao corpo docente junta-se Edyta Jabłonka. Ambos formados em filologia românica na nossa universidade e aproveitando assim a prata da casa sempre que possível. A este ainda reduzido corpo docente juntome eu em 2000 e foi igualmente nesse ano que os primeiros estudantes começaram a viajar para Viseu beneficiando da bolsa de

O artigo de opinião de José António Saraiva no Sol de 27 de setembro de 2017, “A Polónia à superfície” chega a ser grotesco de tão mau que é.

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que muitos portugueses imaginavam. Pelo contrário, é um país com um enorme potencial e que desde que entrou na UE não parou de crescer apesar dos Velhos do Restelo que há por estas bandas. Apenas um certo conservadorismo e o frio se encaixam na ideia estereotipada que nós temos da Polónia. Quanto à ideia que os polacos tinham de Portugal e seguramente alguns ainda têm, é a de que em Portugal está sempre calor, há palmeiras e laranjeiras de norte a sul, a base da nossa alimentação é o marisco e o vinho e passamos os dias a jogar futebol ou simplesmente à sombra das ditas palmeiras ou laranjeiras. Não posso deixar de referir as questões de ordem teológica que tanto atormentam alguns polacos que me perguntam qual a religião dominante em Portugal, e se celebramos o Natal, a Páscoa ou o Dia de Finados e quando. Quero com isto dizer que ainda há e havia um desconhecimento sobre a Polónia por parte dos portugueses e viceversa, fruto da simples ignorância e do facto de os dois países nunca terem tido uma tradição de relações culturais ou económicas profundas nem sequer serem destino de emigração massiva. Entre os países lusófonos a exceção é o Brasil onde a comunidade de origem polaca é bastante grande principalmente no sul do país. Embora Portugal seja um dos destinos de viagem na moda, ainda é um país exótico e desconhecido para a maioria dos polacos e procurado por uma certa elite. Portugueses na Polónia há poucos e ainda menos em Lublin. Costumo dizer que a pagar impostos somos só três. Os restantes são estudantes Erasmus ou outros igualmente de passagem.


mérito oferecida pelo então presidente da Câmara Municipal de Viseu, Fernando Ruas. Só em 2003, e mais uma vez graças às boas relações com Viseu, é assinado um protocolo entre a Universidade Católica Portuguesa e a UMCS no âmbito do programa SOCRATES/ ERASMUS, que permitiu o intercâmbio entre professores e o envio de dois alunos por semestre. No mesmo ano organizámos os Dias da cultura e língua portuguesa: um congresso de três dias onde participaram professores portugueses e lusitanistas polacos e um programa cultural com música, teatro e poesia. No ano académico de 2003-2004 junta-se à nossa equipa a jovem licenciada Justyna Wiśniewska. Foi divertido e gratificante ver uma aluna minha a passar para o lado de cá da secretária. Mais uma vez o empenho e dedicação de Hlibowiczka Weglarz deu frutos e a 8 de Novembro de 2005 é inaugurado em Lublin o único Centro de Língua Portuguesa/Camões na Polónia. A razão de ser destes Centros é a divulgação e a promoção da língua portuguesa e da cultura dos países lusófonos. Tem as suas instalações na UMCS e é o corpo docente do Departamento de Estudos Portugueses que organiza e dinamiza todas as atividades desenvolvidas no centro. Enumerar todas seria moroso. Mas tem havido um pouco de tudo como por exemplo palestras com especialistas de diversas áreas (história, literatura, tradução ou linguística entre outras), exposições, concertos, teatro, ciclos de cinema. Eu sou responsável pela revista estudantil Água Vai, pelo blog com o mesmo nome e pelo concurso literário internacional para falantes de português não nativos. Devo dizer que há por esse mundo fora quem escreva muito bem em português, desde a China até Cuba só para ilustrar o alcance deste concurso. Uma das atividades de que mais nos orgulhamos foi a redação e publicação do primeiro, e até à data único, Dicionário Temático Polaco-Português em 2008. Os meus colegas de departamento têm editado mais coisas a título individual mas prefiro destacar este trabalho de equipa.

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Atualmente temos protocolos assinados com instituições de ensino de norte a sul de Portugal, desde a Universidade do Algarve até à de Trás-os-Montes e Alto Douro, passando pela Aberta, Nova, do Porto, da Beira Interior, Escolas Superiores de Educação de Lisboa e Coimbra e Politécnico de Castelo Branco. Por aí andam alguns dos nossos alunos, ao abrigo do programa Erasmus. Alguns a estudar mas a maioria a aproveitar o melhor que Portugal tem. Para bom entendedor, meia palavra basta. E quando não vão para

Portugal podem cruzar o Atlântico e passar uma temporada no Brasil mais precisamente no Rio Grande do Sul (UFRGS de Porto Alegre, UPF de Passo Fundo e UNIJUI de Ijuí) ou na Universidade de Brasília. Embora haja uma tendência para a diminuição do número de alunos nas universidades, provocada entre outros fatores pela quebra demográfica, o número de alunos aumentou bastante em relação aos cerca de 40 que encontrei em 2000. De um total de 203 alunos há 51 matriculados na licenciatura (criada em 2011) e mestrado em Português e 39 na licenciatura em Linguística Aplicada/Inglês-Português. A estes há que adicionar mais 113 dos cursos de espanhol onde o português é ensinado como segunda língua. Não são números impressionantes quando comparados com outros cursos ou línguas, mas embora admitindo que gostaria de ter um pouco mais, acho que a qualidade do ensino sai a perder quando as universidades se transformam em meras fábricas de diplomas. Este aumento do número de alunos ao longo destes anos obrigou a um alargamento do corpo docente e neste momento o nosso departamento é constituído por sete pessoas. Além dos colegas que referi atrás temos uma “gaúcha”, a brasileira Natalia Klidzio e mais uma antiga aluna, a Agnieszka Kruk. Não posso deixar de referir os nomes de Petar Petrov da Universidade do Algarve, Renata Diaz-Szmidt da Universidade de Varsóvia que lecionaram literatura e Fátima Fernandes, a primeira leitora do Camões em Varsóvia a colaborar connosco. Mas não são apenas os alunos da UMCS que aprendem português. No CLP/Camões em Lublin são organizados cursos de Português Língua Estrangeira para iniciantes ou para quem já tem um nível mais avançado. Temos três turmas que perfazem um total de 23 alunos. Se os alunos da UMCS são motivados pelo diploma que os ajudará a entrar no mercado de trabalho, quem frequenta estes cursos tem outras motivações. Uns querem aprender a língua de um dos progenitores ou da família do cônjuge, outros que se apaixonaram pela língua ao ouvir um fado ou depois de umas férias em Portugal ou no Brasil, há quem queira aprender o básico porque vai passar um semestre a estudar numa qualquer universidade portuguesa e há até quem queira viver em Portugal depois de se reformar. Enfim, vários motivos e idades entre os nossos “clientes”. O ensino da língua portuguesa não está confinado a Lublin. Em Varsóvia, Cracóvia, Poznan, Gdansk e Wrocław também se estuda e ensina português quer em universidades quer em escolas de línguas. Mas que me desculpem o atrevimento, a cidade mais portuguesa da Polónia é Lublin. E se 37 anos de ensino da língua portuguesa, o único Centro de Língua Portuguesa/ Camões na Polónia e um acordo de geminação com Viseu não são argumentos de peso então que seja o meu bairrismo.


Lublin

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É a maior cidade do sudeste da Polónia, a cerca de 180 quilómetros de Varsóvia e a cerca de 100 da fronteira ucraniana ou bielorussa. Capital da região chamada historicamente de Lubelszczyzna e da voivodia de Lublin. Com cerca de 335 mil habitantes, Lublin é por tradição uma cidade multicultural onde se cruzaram dois mundos, o ocidental e o oriental e duas religiões monoteístas conviveram lado a lado durante séculos, o cristianismo e o judaísmo. Muitas vezes esquecida pelo poder central, à semelhança de toda a chamada Polónia B, ou seja, tudo o que está a leste do rio Vístula, tem sabido aproveitar o que a União Europeia lhe deu nos últimos anos. É o coração de uma região que se está a modernizar mas que ainda não perdeu os encantos de épocas mais remotas. Região onde a arquitetura religiosa e a natureza, muitas vezes em estado quase puro, são os seus principais trunfos para atrair visitantes. No ano em que Lublin celebra 700 anos aqui vos deixamos um pequeno retrato da cidade e da região.


Um pouco de história Poderíamos dizer que a história de Lublin e da sua região é interessentíssima e que vale a pena conhecê-la e depois mencionar datas, nomes, criando, assim, páginas inteiras de factos. Mas, isto é chato e quem, na verdade, gosta de ler estas coisas? Então o que vale a pena saber da Lubelszczyzna? Há simplesmente quatro momentos que marcaram e mudaram não só esta região, mas o país inteiro. Em 1385 começou uma nova etapa do nosso país - o reinado de uma nova dinastia que se tornou uma das mais poderosas na Europa Central. Desde então, a Polónia e a Lituânia uniram-se. Em 1 de Julho de 1569, durante a sessão do Parlamento no castelo de Lublin foi assinado o tratado - União de Lublin que proclamou a República das Duas Nações. A dinastia Jaguelónica, ou melhor, o Reino da Polónia e o Reino da Lituânia reinaram, entre os séculos XIV e XVIII, as terras que atualmente correspondem à Bielorrússia, Estónia, Hungria, Kaliningrado, Letónia, Lituânia, Polónia e algumas partes da Rússia. A República das Duas Nações foi um país enorme, uma mistura de culturas e religiões bem diferentes. Atualmente, existe a convicção que o nosso país é intolerante e racista. Sim, com certeza é uma convicção justa, temos de admitir isto, especialmente quando falamos de Lublin, porque aqui os partidos nacionalistas como por exemplo o partido de extrema-direita Obóz Narodowo-Radykalny (Campo Radical Nacional), têm forte posição entre os jovens. Mas, esquecem-se que naquela altura fomos considerados um dos países mais tolerantes, onde milhares de estrangeiros encontravam abrigo.

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Outro momento da história da região foi a transformação do castelo de Lublin em prisão. Desde 1918 até 1954 o castelo funcionou como prisão. Na sua primeira fase até 1939 foram presos os membros dos partidos comunistas ilegais. Em 1939, os nazis prenderam os membros das organizações clandestinas. Em suma foram aprisionadas 40 mil pessoas e a maior parte dos presos não sobreviveu. O maior massacre documentado foi o assassínio em massa, no qual só num dia foram fuziladas 300 pessoas. Foi a última operação dos nazis antes da liquidação da prisão e a retirada das tropas de Lublin. Com a retirada e derrota dos alemães, o Estado comunista subordinado aos soviéticos criou a prisão para os opositores e pessoas que durante a guerra fizeram parte da organização militar clandestina Armia Krajowa. De 35 mil prisioneiros, 515 foram condenadas à morte e 330 pessoas executadas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, nos subúrbios de Lublin, foi criado o campo da concentração alemão chamado de Majdanek. O nome provinha do bairro no qual foi construído - Majdan Tatarski. O campo de concentração funcionou de 1941 até 1944. Em suma, durante três anos de funcionamento, estiveram em Majdanek pelo menos 150 mil pessoas, 75 mil morreram, sendo que 54 mil eram de origem judaica. É impossível fazer uma boa e detalhada descrição deste lugar, mas para se compreender realmente a grandeza da barbárie é necessário vê-la e senti-la na sua pele. Na região da Lubelszczyzna houve também um campo de extermínio, criado em 1941 a dois quilómetros da estação rodoviária da pequena aldeia de Belżec, onde na totalidade morreram 500 mil pessoas. Estima-se que foram 414 milhares de judeus e 86 mil polacos (cerca de dois mil polacos morreram por esconderem judeus na sua casa). Quase todos conhecem o nome de Lech Wałęsa, o vencedor do prémio Nobel de Paz, um dos fundadores do Solidarość (Solidariedade) e a cara principal do movimento grevista dos trabalhadores do estaleiro de Gdansk de 1980. Mas, poucas pessoas sabem que em julho de 1980 foram os trabalhadores da Companhia Aérea Estatal em Świdnik (pequena cidade com aeroporto a 10 km de Lublin) que realmente iniciaram a era das greves e a era do Solidarność que instaurou na Polónia a democracia. Este marco histórico hoje é conhecido como Lubelski Lipiec (Julho de Lublin). Paulina Sztamberek

Monumentos de Lublin Um dos monumentos mais reconhecíveis de Lublin é o Castelo do século XII. Por causa das múltiplas reconstruções nos séculos posteriores, hoje em dia apresenta-se como um edifício de estilo neogótico. No castelo encontra-se um museu, a Torre de Menagem e a Capela da Santíssima Trindade, que é um dos patrimónios mais valiosos e únicos na Polónia por causa dos seus frescos russobizantinos de 1418. Outros monumentos emblemáticos de Lublin são os portões, em especial Grodzka e Krakowska. As Portas representam os restos das muralhas defensivas que cercavam a chamada cidade velha no século XIV. Na Praça Central de Lublin, o coração da cidade velha, está localizado o Tribunal da Coroa, atualmente a sede do Registo Civil. É um lugar relacionado com a lenda mais conhecida da cidade sobre o diabo que interveio no processo para ajudar uma viúva humilde,


vítima de injustiça. O Diabo deixou uma lembrança sob a forma da sua mão marcada na mesa, a qual se pode ver até hoje no Museu do Castelo. Se alguém quiser admirar o panorama da cidade, é recomendável subir à Torre Trinitária, o campanário de estilo neogótico, que é o ponto mais alto da cidade vellha. Em Lublin encontram-se também muitas igrejas de importância histórica. Uma das mais importantes é a catedral de São João Baptista e São João Evangelista. As paredes interiores deste edifício barroco são cobertas pelos frescos realizados por Jozef Mayer. Vale a pena vaguear pelas ruas e becos da cidade velha, admirar os prédios renascentistas e classicistas ao redor da Praça Central. É possível também passear debaixo da cidade graças a um caminho subterrâneo aberto para os turistas. Nos arrabaldes é recomendável visitar o Ecomuseu de Lublin para ver a realidade nas aldeias da região. Também é de visita obrigatória o Museu Nacional de Majdanek, o antigo campo de concentração, para conhecer um pouco de história e ver como a segunda guerra mundial marcou esta região.

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Weronika Grabek


Vida Cultural Lublin é o centro da vida cultural no leste da Polónia. A cultura desta cidade é conhecida pelo seu carácter extraordinário que integra muitas pessoas. É ajustada na participação e diversidade, no encontro das culturas, religiões e ideias diferentes. Apresenta também alguns acontecimentos importantes da cultura polaca e mundial. Convidamos os amantes do teatro para aproveitarem a oferta do Teatro H .Ch. Andersen, Teatro Velho ou Teatro Musical. Além disso o teatro alternativo está muito ativo no Centro Cultural de Lublin que é representada pelo Teatro Provisorium. Os numerosos festivais teatrais também merecem atenção. Desde maio até ao fim do outono todas as ruas e praças da cidade transformam-se nos lugares dos eventos artísticos muito importantes, tais como A Noite da Cultura, quando todos podem participar gratuitamente nos espetáculos teatrais, concertos, exposições, exibição de filmes, um pouco por toda a cidade e ao longo de uma noite. Podem também visitar todas as instituições culturais na cidade, museus, bibliotecas, descer aos corredores subterrâneos ou subir ao topo da torre da catedral. Desde os séculos XV e XVI, em meados de agosto é organizado um dos mais conhecidos acontecimentos mercantis internacionais chamado Jarmark Jagielloński. Juntando de novo as tradições apresenta e propaga a riqueza da cultura do oeste da Europa Central. Este acontecimento permite, entre outros, comprar artesanato, comer os pratos tradicionais, ouvir a música folclórica ou ver uma procissão colorida de uma galinha de dois metros. Os artistas de rua têm o seu festival em julho ao longo dos quatro dias que dura o Carnaval Sztukmistrz.

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Tudo isto e não só espera por vós em Lublin. Com uma oferta cultural tão vasta, não é surpreendente que esta cidade parceira de Viseu tenha a fama de ser uma cidade académica. Em Lublin há cinco universidades públicas e cinco privadas. Por isso, durante o ano letivo a cidade está cheia de estudantes não só do nosso país mas do mundo inteiro. Desde 1958 que cada ano na primavera se realiza a semana académica que se chama Juwenalia. Para abrir a festa, antes do primeiro dia ocorre um cortejo em que participam os estudantes de todas as universidades. A maioria das pessoas veste-se como se estivessem no carnaval. Todos juntos marcham pelas ruas do centro da cidade acompanhados por música, cantando, bebendo bebidas da sua preferência e, em geral, passando o tempo com os seus amigos e aproveitando os dias livres que normalmente têm durante a semana académica. O cortejo tem o seu fim em frente da câmara municipal onde o presidente da câmara simbolicamente dá aos

estudantes as chaves da cidade. No dia seguinte começam as festas e, sobretudo, os concertos que duram mais ou menos 10 dias. Cada ano no palco de Juwenalia podemos encontrar as estrelas da música polaca mas também da música internacional. Anna Małocha e Pamela Paradowska

A região Puławy é uma cidade de 48 mil habitantes, localizada no oeste da voivodia de Lublin, na margem do rio Vístula. É um centro industrial, científico, turístico e cultural. Esta cidade, antigamente chamada de Atenas polaca, é fortemente ligada com as famílias Lubomirski e Czartoryski, cujos traços ainda hoje são visíveis no parque construído nos anos 1676-1679 pelos Lubomirski e reconstruído em 1785-1810 no estilo clássico pela família Czartoryski. Este parque está cheio de monumentos admiráveis tais como: o palácio de Izabela Czartoryska, a casa chinesa, a casa gótica, o palácio de Marynka entre outros. Ademais neste parque, podemos encontrar o templo da Sybilla, que foi o primeiro museu da Polónia e ao mesmo tempo o mais antigo museu na Europa Central, fundado por Izabela Czartoryska. Tudo isto é rodeado pelo jardim encantador, cheio de ruelas e natureza. Além de famoso parque de Czartoryski, vale a pena passear pelo bulevar na margem do Vístula ou pelo Marina, onde se pode admirar a paisagem do rio e descansar um pouco. A cidade também oferece restaurantes e bares para as pessoas que gostam de sair à noite, passeios organizados de canoa para os que gostam de passar o seu tempo de maneira ativa e um bosque enorme cheio de várias espécies de animais e plantas que rodeia a cidade para quem gosta de lidar com a natureza. Kazimierz Dolny é famosa pelo seu ambiente único que se pode sentir não só na Praça Central, onde podemos encontrar o poço símbolo deste lugar, mas também nas ruas pequenas desta vila maravilhosa. Uma vila de artistas porque assim é chamada Kazimierz Dolny é o centro cultural e artístico porque constitui uma inspiração para pintores, escultores e músicos. Aqui pode-se visitar a igreja dos Santos Bartolomeu e João Batista e depois pode-se subir para admirar as ruínas do castelo contruído supostamente pelo rei Kazimierz Wielki e a torre da qual temos a vista excelente do território ao redor. A vila está cheia de restaurantes e galerias de arte. No verão são organizados vários festivais: de arte popular, festivais musicais e também o famoso festival de cinema que


permite ver filmes ao ar livre todos os dias durante duas semanas. De Kazimierz Dolny podemos ir a Janowiec, usando um ferry de passagem para atravessar o rio. Lá na colina, podemos admirar as ruínas do castelo construído por Piotr e Michał Firlej. Perto do castelo fica um pequeno museu ao ar livre que contém a casa senhorial da família Wierzbicki, celeiro e palheiro. Cada ano é organizado o festival do vinho onde se pode saborear os vinhos e comida locais. Nałęczów é uma vila tranquila, famosa por ser uma estância termal cardiológica, que se situa na área do parque natural de Kazimierz Dolny. O Parque de Nascente, fundado por Stanisław Małachowski no século XVIII, é o coração desta vila e é aqui que podemos encontrar os monumentos mais importantes como Stare Łazienki ou o Sanatório “Ksiażę Jozef”, situado no centro perto de uma lagoa. Em Nałęczów pode-se também passear pelas ruelas entre várias espécies de árvores indígenas e não só. Parte intrínseca da paisagem da vila são as residências centenárias que agora são pousadas adaptadas para receber hóspedes. Há também a Casa de Stefan Żeromski, antigo atelier de verão do famoso escritor polaco que agora constitui o Museu Stefan Żeromski em Nałęczów. As cidades de Puławy, Nałęczów e Kazimierz Dolny constituem assim o chamado triângulo turístico da voivodia de Lublin. Com a sua história muito interessante, monumentos imponentes, paisagens pitorescas e impressionantes, e com sua oferta cultural muito extensa é um bom destino de viagem para passar um fim-de-semana inesquecível. Gabriela Grejner

A Câmara Municipal renascentista, o Besouro de Szczebrzeszyn e os cavalos polacos.

Em 1580, Jan Zamoyski fundou a cidade de Zamość chamada “A pérola do Renascentismo”. A cidade velha, inscrita na lista da UNESCO, é um exemplo perfeito das ideias da época renascentista. A sua atração mais famosa é a Câmara Municipal, construída no estilo barroco e cujo elemento principal são as escadas enormes. Os edifícios coloridos

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Esta rota turística pitoresca atravessa a parte oeste e central de Roztocze, a zona geográfica onde se encontra um parque nacional e parques e reservas naturais. Atualmente, a beleza dos monumentos renascentistas, a cultura local e a natureza atraem os turistas de toda a Polónia mas não só.


que rodeiam a Praça do Mercado sublinham ainda melhor o clima excecional deste lugar. Os pontos importantes no mapa de Zamość são também: A catedral da Ressureição e de São Tomás, a sinagoga do renascentismo tardio localizada na rua Ludwik Zamenhof (dantes chamada “rua jadaica”), as muralhas da cidade ou Museu Martírio de Zamość que foi criado no lugar do velho campo dos prisioneiros da Segunda Guerra Mundial. No sopé do Monte Zamkowa em Szczebrzeszyn encontra-se o Monumento do Besouro, feito de madeira de tília. Na praça do município existe outra de bronze. É ele de quem se fala no verso famoso em toda a Polónia “W Szczebrzeszynie chrząszcz brzmi w trzcinie i Szczebrzeszyn z tego słynie” (“Em Szczebrzeszyn o besouro soa na cana e Szczebrzeszyn é famosa por isso”). Quase impronunciável para os estrangeiros o que é bastante divertido para os polacos. De visita obrigatória nesta localidade são: a Igreja Ortodoxa do século XVI, as Igrejas do São Bispo Nicolau e da Santa Catarina ou a sinagoga do século XVII. Outra cidade fundada por Jan Zamoyski chama-se Zwierzyniec. O ponto obrigatório das excursões organizadas a esta cidade é a Igreja barroca de São João localizada numa ilha pequena num lago. Perto dela podemos também visitar a famosa cervejaria local ou o museu onde é possível ver os exemplos da fauna e flora características de Roztocze. O Parque Nacional de Roztocze foi criado em 1974. O seu símbolo são os konik, também conhecidos como os cavalos primitivos polacos. Espécie de pequena estatura atualmente vivem na zona lagunar do parque. Lidia Siewak Chełm é uma cidade situada no leste da Polónia, a 25 quilómetros da fronteira com Ucrânia e 50 da Bielorrússia. Em termos de população, é a terceira cidade na voivodia de Lublin.

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A história desta área é muito longa. No ano 1392 Chełm foi elevada a cidade. Depois, durante quase seis séculos, passou por guerras, vitórias, derrotas ou partições (austríaca e russa). Esta cidade tem uma forte relação com os judeus – alguns anos antes da II Guerra Mundial formavam mais de 40% da população. Quanto à religião, há séculos que em Chełm, católicos, ortodoxos e judeus convivem. Portanto, não é nada estranho que hoje em dia possamos encontrar tanto igrejas católicas, como ortodoxas. Muitas destas estão disponíveis para visitar, como por exemplo Bazylika Narodzenia Najświętszej Maryi Panny

(Basílica do Nascimento da Virgem Maria) cujos princípios são datados ao século XIII - e conhecer melhor a história da cidade. Perto desta igreja fica a torre sineira, onde se pode subir e admirar o panorama da cidade. Outra das atrações mais conhecidas são Podziemia kredowe w Chełmie (Túneis de calcário de Chełm). É uma mina histórica onde se extraia giz desde o início do século XIII. Os túneis serviam também como o abrigo durante as guerras. No século XVII a maioria dos habitantes tinha a sua entrada para o túnel, porque não havia limitações à extração deste material. Supõe-se, que haja mais de 40 quilómetros de túneis labirínticos. Hoje em dia, dois quilómetros estão disponíveis para os turistas, que neste subterrâneo podem encontrar o Duch Bieluch (Fantasma Bieluch). Ele é o mítico patrono dos túneis de calcário, que protege um tesouro. Há uma curiosidade relacionada com estes túneis e o solo de calcário, que encontramos em Chełm – só foi possível construir dois edifícios com mais de cinco andares, tendo em conta a segurança das pessoas – o hospital e o hotel. No outro caso, as construções poderiam cair. Sylwia Budzyńska

Cozinha regional Outro tema muito importante relacionado com o turismo de uma região é a comida. A Lubelszczyzna também se carateriza pelos excelentes sabores que foram e ainda são apreciados até no estrangeiro. O sabor principal é o “cebularz”, isto é, um pão de farinha de trigo, espalmado e redondo como uma pizza e coberto de cebola e sementes de papoila. Este produto vem da culinária judaica. Foram os judeus da cidade velha de Lublin que o criaram. Depois, com tempo tornou–se um dos pratos famosos nesta região. No quotidiano o “cebularz” é um petisco, especialmente para os estudantes de Lublin e os que visitam a cidade. Mas também se prepara em casa e então tem melhor sabor. “Forszmak” é um prato que corresponde ao guisado. Para prepará-lo precisa-se de carne de porco, salsicha, pimentão, cebola e pepinos salgados. Tudo isto deve-se condimentar para que seja picante e aromático. O “forszmak” tem melhor sabor quando está quente acompanhado com um pouco de pão fresco. Os pierogi de Lublin é um prato que ao lado do “cebularz” é o mais famoso da Lubelszczyzna. Os pierogi são um dos símbolos da cozinha polaca, e diria que são raviolis com


O produto seguinte que promove a região de Lublin é o mel. Toda a região é conhecida pela grande oferta de meles. Na lista dos produtos tradicionais da voivodia de Lublin foram inscritos onze tipos e sabores diferentes. Podemos encontrar por exemplo o mel de framboesas, de trigo mourisco, de feijão ou de colza, e também uma grande oferta grande de hidromeles para os apreciadores de bebidas alcoólicas. E já que se fala de bebidas alcoólicas, então na lista a dos produtos mais conhecidos da Lubelszczyzna podemos encontrar também a cerveja. Precisamente trata-se da “Perła”. A cervejeira fica na capital da região, em Lublin. Orgulha-se da oferta rica de vários sabores, começando pela “Perła de lúpulo” até à de sabor de mel. Vale a pena prová-la. Não posso deixar de falar da cidade de Krasnystaw, que é conhecida pelos produtos lácteos. Ali produzem umas das melhores natas, iogurtes ou queijos em creme da Polónia. Como podemos observar a Lubelszczyzna pode propor aos visitantes vários sabores e certamente cada um pode encontrar algo para si. Bom proveito! Martyna Jędrzejczyk

Como chegar Lublin é localizada no leste da Polónia, sendo acessível por terra e ar e tem boas ligações com todas as cidades na Polónia. Além disso, está apenas a poucas horas de voo de algumas cidades europeias.

De avião O aeroporto conta com voos diários de, e para, determinados aeroportos do mundo, diretamente ou com recurso a escalas: Barcelona, Burgas, Doncaster, Dublin, Eindhoven, Heraklion, Liverpool, Londres (Luton e Stansted), Munique, Estocolmo (Skavsta), Tel Aviv, Oslo (Sandefjord), Kiev, Verona e Milão. O aeroporto está localizado na cidade de Świdnik, a cerca de 15 quilómetros a leste da cidade. É fácil chegar ao Aeroporto de Lublin: De comboio: ligação direta entre o aeroporto e a estação ferroviária de Lublin. É a principal estação de comboios da cidade, com ligações para todas as zonas do país. Partidas a cada 60 minutos. De autocarro: há diversos autocarros com paragem no terminal de chegadas do aeroporto, e que seguem para diferentes áreas da cidade. Na estação Lublin Airport tem à disposição o serviço de autocarros urbanos de MPK (Miejskie Przedsiębiorstwo Komunikacyjne), linha 005, com ligação direta ao centro da cidade. Os bilhetes podem ser adquiridos a bordo com no motorista ou nas máquinas automáticas existentes nas paragens. De táxi: a opção mais cara, mas também a mais cómoda. Logo à saída do aeroporto, é possível encontrar diversos táxis disponíveis para o levar ao seu destino. De comboio O acesso a Lublin também pode ser feito de comboio. É uma excelente alternativa para os que já se encontram na Polónia ou países vizinhos. Os comboios inter-cidades ligam a maioria das cidades polacas. Varsovia- Lublin. A viagem entre Varsóvia e Lublin dura entre 2h15 e 2h30 e entre Cracóvia e Lublin, cerca de 4h. A viagem de comboio é confortável, e os preços das passagens não são altos.

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formato de rissóis. Podem ter diferentes recheios. Os de Lublin são muito bons e cada pessoa que visita esta região deveria prová-los. Debaixo da massa fina e delicada está o recheio de trigo sarraceno com requeijão, cebola e alguns condimentos. Também podem ser servidos na sua versão doce, mas sempre acompanhados com nata.


De autocarro Existem várias empresas de autocarros, que ligam Lublin com as principais cidades na Polónia. Viajar de autocarro é cada vez mais seguro e confortável. É possível encontrar as ligações entre Cracóvia, Varsóvia e Lublin, por apenas 5 zł - 1,20 €. De carro A rede viária está em fase de expansão em prol de encurtar as distâncias e melhorar as condições de acesso às principais cidades do país. Agora é possível, ou será num futuro próximo, circular na direção a Lublin pelas vias rápidas: S3, S12, S17. Os que querem poupar dinheiro e tempo, podem recorrer ao BlaBlaCar que se torna cada vez mais conhecido. Foi criado para que os condutores pudessem reduzir custos de deslocação e que os passageiros poupassem dinheiro nas suas viagens.

Transportes Públicos Em Lublin e nos seus arredores, o gestor do transporte público é a empresa MPK (Miejskie Przedsiębiorstwo Komunikacyjne). Os bilhetes podem ser adquiridos a bordo no

motorista ou nas máquinas automáticas existentes nas paragens. Os autocarros andam, diariamente, das 04h30 até às 23h00 Os autocarros noturnos são de linhas: N.., a partir das 23h00 até às 4h30 Um bilhete válido por 30 min: adultos- 3,20 zł, crianças e estudantes até 26 anos- 1,60 zł. Um bilhete válido por 2h: adultos- 5 zł, crianças e estudantes até 26 anos- 2,50 zł. Um bilhete válido por 12h: adultos- 9 zł, crianças e estudantes até 26 anos- 4,50 zł. Onde dormir Há mais de 130 opções de hospedagem em Lublin cadastradas no site trivago.com. Mas a melhor opção é ficar perto do centro histórico - é também o centro da cidade, pois na área chamada de Stare Miasto (Cidade Velha), concentram-se as principais atrações históricas da cidade. Além disso, o centro está bem ligado, pelos transportes públicos, com os arredores. O facto ainda mais importante é que tanto a estação rodoviária como a ferroviária de Lublin, ficam muito perto do centro. Żaneta Borowiec

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Este artigo foi escrito por algumas alunas do mestrado em Estudos Portugueses da Universidade Maria Curie Skłodowska, de Lublin.


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Guta Moura Guedes Os novos caminhos da ExperimentaDesign

por João Moreira

GutaMouraGuedes_ByFranciscoSaBandeira

“O design é uma metodologia de pensamento e de criação de respostas que, no meu entender, é das mais completas, por ser tão integradora.”

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Quando, há 18 anos, Marco Sousa Santos e Guta Moura Guedes fundaram com o designer José Viana a Associação para a Cultura de Projecto, a Experimenta, Lisboa ainda não estava na moda e, em boa verdade, o design também não, pelo menos por cá. Também por isso, a ousadia de criar uma Bienal dedicada ao Design e à Arquitectura, interligando-as com as mais diversas manifestações culturais, foi imensa. Em 1999, o evento ocupou 59 espaços lisboetas, muitos deles abertos pela primeira vez ao público, e mobilizou designers, arquitectos, professores, estudantes e artistas das mais diversas vertentes. Com a Bienal EXD, Lisboa entrava no roteiro dos grandes eventos culturais mundiais. Este ano, Guta Moura Guedes, o rosto da ExperimentaDesign, anunciou o fim da Bienal que trouxe a Portugal as estrelas maiores

das constelações do Design e da Arquitectura: Achille Castiglioni, Philippe Starck, Frank Ghery, Marc Newson, Rem Koolhaas, Jasper Morrison. Mas não se pense que a Experimenta acaba aqui. Este é apenas o começo de um novo projecto, como nos contou Guta Moura Guedes no seu escritório do Chiado, sem levantar grandemente o véu sobre o futuro da Associação que muito antes de qualquer outra colocou Lisboa na moda.

Porque é que esta foi a última edição da Bienal ExperimentaDesgin? Isso é muito fácil de responder, tem a ver com dois ou três factores que são estruturantes para essa decisão. Primeiro, nós começámos a Bienal em 99, no século passado, e o modelo na qual começá-


mos a montar a Bienal fazia imenso sentido em 99, fez imenso sentido até agora, mas teria de ser muito redesenhado para conseguir sobreviver no Séc. XXI e a luz do que acontece agora não só em Portugal, mas no Mundo. Portanto o próprio modelo da Bienal tinha que ser redesenhado, e isso implica um esforço muito grande.

sa nada estar a repetir coisas que já estão a ser feitas, ou coisas que, de repente, toda a gente começou a fazer. Basta isso para eu me sentir desconfortável.

Depois, aqui falo por mim, na minha perspectiva enquanto consumidora de eventos culturais, enquanto consumidora de eventos ligados ao Design, à Arte, à Arquitectura, estou muito cansada de bienais e trienais (risos). Portanto, como me considero como o primeiro público da Bienal da Experimenta, era incapaz de fazer uma coisa em que eu não fosse parte enquanto consumidora. Finalmente porque, neste momento, este é um modelo que não me interessa, portanto, era muito difícil continuar a dirigir um projecto mantendo um modelo que, neste momento, enquanto consumidora e enquanto produtora, não me interessa e não me estimula.

Foi sem dúvida! Nós fomos muito antecipatórios e muito visionários quando fizemos a Bienal. Repara que quando lançámos a Bienal não havia nenhum evento assim, não só em Portugal, mas no mundo inteiro.

Não sei se esgotou necessariamente. Como sabes, existem novas bienais, existem imensas semanas de arte, semanas de design, por isso, se calhar não esgotou. Eu apenas remeto para aquilo que sinto enquanto emissora e consumidora cultural. Dadas as transformações a que assistimos e dadas as ferramentas que temos disponíveis, acho quase uma obrigação conseguirmos revisitar os modelos que utilizámos e criarmos algo de novo. Acima de tudo não me faz sentido neste momento estar presa a um modelo que tem uma obrigatoriedade temporal, ou seja, a cada dois ou três anos, ou a cada ano tens que emitir um resultado. Pessoalmente, já não me é confortável essa obrigatoriedade. Faz sentido no âmbito da estratégia de uma cidade porque ajuda a marcar calendário. Entendo que as cidades continuem a gostar de bienais e trienais, mas enquanto produtora de matéria cultural e de investigação não me apetece estar mais presa a esse formato e mesmo enquanto consumidora, também não sinto necessidade desse calendário, ou seja, eu não preciso ter a minha agenda preenchida com a Bienal de Veneza em Junho, Basel em Maio, e por aí fora, não é uma coisa que me deixe altamente entusiasmada. Isto tem a ver com o gosto pela flexibilidade e pela mobilidade....

Tal como em 1999, acha que esta opção antecipa uma tendência? Há uma característica da Experimenta que é muito interessante e que é precisamente o facto dela ser antecipatória. Não me interes-

O que existia relacionado com o design era completamente dirigido para a área comercial e económica, só market driven. Ninguém tinha, até então, pegado no design como uma disciplina ancorada na área da cultura, na área da sociologia, assumindo a sua transversalidade, a sua multidisciplinaridade. Isso foi realmente inovador e visionário durante muito tempo. Depois começaram a replicarse os modelos, como sempre, mas naquela altura foi inovador e é isso o que me interessa. Não me interessa estar a fazer coisas que já existam. Não tenho nada contra a repetição, apenas não é o meu interesse.

Pelo meio a Experimenta foi um instrumento fundamental de dinamização e divulgação do design nacional e até do incentivo à utilização de materiais portugueses: depois da cortiça a pedra. E vamos trabalhar mais coisas, umas mais intangíveis, outras mais tangíveis. Mas isso tem a ver com o sinal dos tempos, são temas que se calhar em 99 não faziam sentido e agora, com todas as questões relacionadas com a sustentabilidade, com os novos mercados, com a digitalização, com as novas tecnologias, já fazem. Há uma série de opções que podemos tomar e territórios que devemos olhar com mais cuidado. E o que penso é que durante muito tempo, esse tema daquilo a que eu chamo de matérias matriciais, aqueles que sempre nos acompanharam ao longo dos séculos...

E que são um pouco a matriz identitária do país. Do país e do próprio Planeta, da própria Terra! Esse é um tema que me interessa. Por outro lado é engraçado porque a Experimenta tanto faz isso, como depois está a trabalhar com Apps, novas tecnologias, com Software Development (risos). Sempre nos atraíram as franjas, os territórios em exploração, venham eles do passado ou venham eles do futuro. Há sempre essa ideia de ir buscar coisas que fazem sentido para os tempos que vêm, e não para aquilo que foi.

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Porque é que acha que o modelo das bienais esgotou?

Esse pioneirismo foi a grande transformação que a Experimenta trouxe a Lisboa em 1999?


Essa aposta surge num momento de redescoberta, de reencontro do país e dos portugueses, com esse tipo de materiais e com o seu artesanato. Acho que neste caso podemos falar de artesanato, ou não? Claro que sim. Falamos de artesanato e vamos falar muito em breve com mais ênfase ainda. Tudo isso está relacionado com este exercício de provar que o design tem essa capacidade de poder ir a muitos territórios e a muitas áreas de desenvolvimento da sociedade e isso faz-se implementando projectos que o demonstrem. No caso dos materiais é fácil, no caso da área social é mais complexo, mas são todas elas áreas de interesse do design. Sabes que nós temos, como todas as associações devem ter e como todas as pessoas que criam devem ter, projectos em gaveta, projectos que desenvolvemos e que não aconteceram por vários motivos. Na Experimenta temos uma colecção enorme desses projectos que nunca tiveram lugar. Dentre esses, houve dois em que nos focámos, sobre o período dos Descobrimentos Portugueses, e que nos marcaram muito, porque implicaram uma reflexão que durou 3 anos e que poderia ter gerado uma série de coisas e depois acabou por não gerar, mas que nos fizeram repensar e olhar para coisas que até então não tínhamos olhado e que têm a ver com essa matriz identitária de Portugal e com esses materiais primeiros e primários. É inevitável, quando estudas o período dos Descobrimentos, que acabes por estudar a própria matriz de Portugal e agora muitas das coisas que estamos a fazer são alimentadas por esse processo de pesquisa que fizemos há muitos anos.

O que mudou no design ao longo destes 18 anos?

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Uma brutalidade. Eu lembro-me de, em 99, ter discussões enormes com o Prof. Daciano da Costa, que foi meu professor da Faculdade de Arquitectura, por querer falar de design e o Daciano só querer falar de materiais, de construção, de materialidade, de processos construtivos (risos). Eu acho que o design passou de uma disciplina relacionada com um grupo muito limitado de artefactos que nós, da área, identificávamos como peças de design, para e uma disciplina completamente transversal, um modelo de pensamento, um modelo de trabalho equiparado ao modelo de pesquisa na área científica com componentes que o modelo científico não tem. Componentes ligadas à estética, às questões sociais ou antropológicas, portanto é uma metodologia de

pensamento e de criação de respostas que, no meu entender, é das mais completas por ser tão integradora. Um designer nunca trabalha sozinho e isso é muito importante. Os designers trabalham sempre em equipas, juntam muitas competências e têm essa perspectiva transversal. Eu acho que a perspectiva transversal, macro é muito importante até porque observámos uma tendência muito forte para a especialização no final do século passado e agora estamos a precisar de quem consiga ter esta visão e abrangente e integradora. Hoje, o Design é isso e não era.

E democratizou-se, cumprindo a ambição dos fundadores da Escola de Bauhaus... bonita, com linha, acessível a todos... A beleza é das questões mais, eu não diria embaraçosa para não lhe entregar uma conotação negativa, mas estimulante, mas não tendemos a considerar a beleza como uma coisa muito importante, e ela é efectivamente muito importante, muito mais importante do que aquilo que nós admitimos a maior parte das vezes, e até aí o design tem essa particularidade que é a beleza, a dimensão estética está efectivamente presente. Vão ser tempos extraordinários nos próximos anos, para observarmos a evolução desta disciplina, agora não podemos esquecer que é uma disciplina recente, está em expansão, portanto é ainda difícil de entender, porque ela própria se está a modificar, para mim se torna mais interessante ainda, mas ela está a evoluir.

A passagem pela Faculdade de Arquitectura foi importante para essa percepção? Eu estudei na Faculdade de Arquitectura um ano e meio e tive a sorte de apanhar o Daciano da Costa no primeiro ano e isso foi muito importante. Depois abandonei o curso no segundo ano porque comecei com a Experimenta. Eu até aos meus 19 anos, eu só estudei ciência e piano, mas só mudo para gestão hoteleira aos 19.

O piano, esse lado musical que sempre existiu na família pesou na escolha do percurso profissional? Pesou imenso. O piano e a literatura foram sempre âncoras na minha formação e continuam a ser. Marcam a minha opção pelo lado cultural.


Eu acho que quem cresce como eu cresci na província, tem uma consciência muito forte do contexto, de se pertencer a um sítio. Não o digo que não se tenha também quando se nasce numa cidade grande, mas numa cidade grande as coisas são mais fragmentadas, numa cidade pequenina, como era e é a minha, a realidade é mais coesa e o entendimento do contexto e da razão de se estar ligada a um sítio é mais forte, pelo menos no meu caso foi muito forte e pesou imenso ter vivido em Torres Vedras e ter a família toda lá. Esse interesse pela raiz, pelas origens, pela pertença, é marcado seguramente pelos meus mais de 40 anos a viver lá.

mas vamos tentar ser proactivos como sempre fomos, ou porque parceiros vêm ter connosco e nos desafiam ou porque nós temos projectos que queremos apresentar aos nossos parceiros. Depois temos um projecto que será o grande projecto para os próximos 20 anos sobre o qual não posso falar ainda, que não vai estar ligado à criação de um evento, mas sim à criação de uma estrutura que vai trabalhar juntando design, inovação e a componente social, áreas que para nós são importantes, mas que requerem, para serem trabalhadas no plano internacional, primeiro uma estruturação muito grande do ponto de vista legal e depois uma estruturação muito grande do ponto de vista de financiamento.

Com o fim da Bienal, quais são os caminhos que se desenham para a Experimenta?

Pelo meio desse trajecto profissional, tiveste duas experiências institucionais: no CCB em 2008 e na Casa da Música.

Vão estar relacionados com projectos de investigação, com forte ligação da Cultura à Economia, até porque o Design faz isso muito bem. A Experimenta irá desenvolver alguns projectos que representam e provam como o design pode ser muito importante quer na área da Economia, quer na área da Inovação, quer na área da Investigação.

No CCB fui Administradora e na Casa da Música fui Directora com um grupo de trabalho extraordinário: o Pedro Burmester, o Nuno Azevedo e o Paulo Sarmento e Cunha. Todos da mesma idade, com os mesmos objectivos, a mesma forma de pensar, e a mesma vontade de querer fazer da Casa da Música uma referência cultural. No CCB apanhei uma fase muito complexa, que coincidiu com a necessidade do CCB pensar sobre ele próprio. Tinha acabado de ficar sem o Museu do Design, sem a colecção de Design do Francisco

Apoiando, promovendo e incentivando? Promovendo, acima de tudo, porque nós não podemos apoiar porque não temos recursos,

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E a ligação a Torres Vedras e à família influenciou este regresso aos materiais matriciais de que falámos há pouco?


GONCALO VILLAVERDE

Capelo, portanto foi um momento complexo, com muitos condicionamentos. Não tenho nada contra trabalhar em estruturas que não sejam minhas, gosto mais de trabalhar nas soluções que eu dirijo e em que eu decido aquilo que faço.

Até porque te dão a liberdade de tomares decisões como acabar com a Bienal (risos) sem teres de dar justificações a ninguém... Primeiro que tudo temos de justificar as nossas decisões a nós próprios e eu gosto de decidir uma forma muito livre, porque prezo imenso a liberdade.

O Design, a Arquitectura, o Urbanismo, ainda são olhados um bocadinho de soslaio pelas instituições culturais do País?

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Não sei se é de soslaio. Durante muito tempo era como se a Arquitectura e o Design não estivessem dentro da esfera da cultura. Obviamente, nós sabíamos que estavam, mas a ligação intrínseca que existe entre a Arquitectura, Design, Economia e Mercado era como se agisse contra essa percepção da Arquitectura e do Design enquanto actividades culturais. E, efectivamente, existiam áreas mais desprotegidas dentro do espaço cultural: as artes plásticas, a música, as artes performativas, que justificavam que o Ministério da Cultura olhasse para elas com mais atenção. Por outro lado, também existiam menos produtores de Arquitectura e de Design que colocassem estas disciplinas nessa esfera, houve um momento de não-aproximação, que acabou por ser importante.

As próprias elites culturais também estavam um bocadinho separadas... Estavam. É recente esta contaminação entre arquitectos, artistas, músicos, designers. De certa forma a Experimenta contribuiu muito para essa contaminação, porque quando fizemos a Bienal e constituímos a Associação, um dos nossos parceiros desde o início foi o Ministério da Cultura, porque assumimos claramente que a nossa proposta era uma proposta enraizada no território da cultura e que partia de uma perspectiva cultural e, portanto, não fazia sentido fazê-la sem ser em parceria com o Ministério da Cultura e com os agentes culturais. A 1ª edição da Bienal foi montada assim, trabalhando com todos os agentes culturais e convidando artistas, músicos, performers e não só arquitectos e designers, para trabalhar connosco. Algo que mantivemos ao longo dos 20 anos. Esse legado é muito importante porque, no fundo, resultou na aceleração do processo de ligação interdisciplinar. Claro que ainda há muito trabalho a fazer e a Experimenta quer continuar a ser um player nesse avanço que foi conseguido da percepção da dimensão cultural inerente à actividade da arquitectura e do design. Não podemos permitir que isso se perca, por isso, há um trabalho contínuo a fazer, porque foram muitos anos em que assim não era, e são momentos em que assim é. A Experimenta, a Trienal da Arquitectura e agora a Casa da Arquitectura de Matosinhos, todos somos muito importantes para continuar a trabalhar nesta ligação, porque ainda é um tema quente.


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Onde se trata de terras encantadas

por António Filipe Pimentel Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga

© MNAA/Paulo Alexandrino

A exposição “As Ilhas do Ouro Branco. Encomenda Artística na Madeira: séculos XV-XVI”, no Museu Nacional de Arte Antiga (até 18 de março de 2018).

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“Um não sei quê que nos deslumbra, um espanto repetido”. Este o resumo, nas palavras de Tolentino de Mendonça (que assina o pórtico de abertura do respetivo catálogo), sobre o impacto recorrentemente ressentido, por si e por cada viajante, na primeira vez que avista o arquipélago: a ilha de Porto Santo, descoberta em 1418 e, muito em especial, a da Madeira, “milagre verde e vertical”, afirma ele, ocupada no ano seguinte, 1419. Assim é, de facto, desde Gaspar Frutuoso que, em Saudades da Terra, já em finais da centúria seguinte, deixaria averbado o primeiro registo, talvez mais literário que fiel, desse encontro iniciático entre o homem europeu e o que parecia ser um fragmento do jardim primordial do Éden miraculosamente preservado.


É, pois, antes de mais, do “espanto” face a essa espessura, a um tempo poética e material, de ilhas encantadas, que trata a exposição. Dessa “espécie de reencontro com o paraíso”, que feriu o olhar dos primeiros mareantes e, seis séculos volvidos, preserva ainda o seu poder intacto. E é sobre ele que tece, fio por fio, a história fascinante dos primeiros dois séculos da expansão europeia sobre esse pedaço de natureza deslumbrante, semeado em pleno Atlântico. Por esse modo dando início às Comemorações dos 600 Anos do Descobrimento do Arquipélago enquanto grande evento nacional. Projeto ambicioso, nascido ao abrigo de cumplicidades laborais com as estruturas do património e da administração madeirense, assenta na noção de ser o MNAA, por missão primeira, varanda aberta ao mundo do património português. Com a chancela do Museu (e a sua reconhecida marca de água na criação de grandes mostras monográficas) e mobilizando o saber dos comissários (Fernando António Baptista Pereira e Francisco Clode de Sousa) e restantes autores reunidos no catálogo científico — e, muito especialmente, contando com a generosidade modelar de múltiplos emprestadores institucionais e particulares (numa relação especialmente cúmplice com o Museu de Arte Sacra do Funchal) —, se deve a possibilidade de poder evocar essa aventura singular entre quase uma centena quase de obras maiores do património madeirense.

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De facto, sobre as ilhas encantadas não tardaria a implantar-se uma realidade outra, assente numa economia próspera, decorrente da rápida aclimatação da cana sacarina e da opulência financeira que o trato do açúcar possibilitaria a uma elite de senhores de engenho, meio fidalgos, meio mercadores, que rapidamente criaria raízes e onde avulta cedo um cosmopolitismo que ficaria como marca de água do seu tecido social. São homens e mulheres que, hoje ainda, nos interpelam com espessura física do interior das pinturas que, na Flandres, sabiam adquirir nas capilaridades das redes que construíram; redes a um tempo comerciais e culturais; redes construídas entre a própria malha da administração senhorial (e logo régia) e eclesiástica, onde inscrevem imagens de poder com as quais reivindicam a imortalidade.


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Uma realidade demasiado tentadora para um museu que, não só aos tesouros madeirenses havia dedicado já importantes mostras nos longínquos anos de 1949 e 1955, mas que preserva, entre as suas joias, o notável tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia, de Jan Provoost, encomenda de Nuno Fernandes Cardoso e de sua mulher Leonor Dias — também eles senhores de engenho, ricos da venda do açúcar (o ouro branco) — para a sua Capela de São João de Latrão, acabada de fundar nas terras de Gaula (e que não poderia faltar na exposição). Assim, pois, sem perder de vista esse sentido de “início do mundo” (para seguir usando o mesmo guia) que é marca e timbre madeirenses, importava descer sobre o rico património aí cumulado por essas primeiras gerações e sobre o processo original de organização do território em que se gerou. A mostra adquiriria, assim, o título exemplar: As Ilhas do Ouro Branco. Encomenda Artística na Madeira (séculos XV e XVI). Uma história do património entrecruzada de uma história de pessoas: homens e mulheres que fizeram a ilha e nela procuraram acumular tesouros, fixando a imagem que a posteridade haveria de guardar, com espanto repetido.

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Lugar de espanto ele mesmo, importava, assim, ao MNAA evocar esse processo original. E evocá-lo com exemplar extensão.


Saudades da Rua da Saudade O teatro romano e a sua envolvente nas memórias da cidade por Lídia Fernandes

O Projeto de investigação Saudades da Rua da Saudade que o Museu de Lisboa – Teatro Romano iniciou em finais de 2016, e se prolongará até 2018, pretende a realização de uma recolha paulatina de informações sobre as escavações arqueológicas mais antigas do teatro romano. São lembranças, notícias, pequenas notas que se deparam preciosas com vista a um mais profundo conhecimento das primeiras etapas de descoberta do teatro romano.

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O facto de um monumento romano do século I d.C. permanecer no coração de uma capital é, por si, um facto notável. Se pensarmos que sobreviveu ao casario compacto que sobre ele se erigiu, aos muitos terramotos que assolaram a cidade e à pilhagem de quase todas as suas pedras que permitiram reerguer a cidade após o terramoto de 1755, é verdadeiramente admirável que ele permaneça, reconhecível, sob os nossos pés. (Fig.1)

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As vicissitudes da descoberta do monumento revelam contornos não menos interessantes. O muito esforço de alguns, o azar de algumas situações e as coincidências felizes em outros casos, uniram-se para forjar uma história plena de episódios insuspeitos, recheados por pessoas que viveram neste local e cujo destino se enredou neste antigo teatro romano construído nos inícios do séc. I d.C. O objetivo inicial do projeto Saudades da Rua da Saudade … foi precisamente o de obter novos dados sobre as primeiras ações de descoberta do monumento cénico e perceber qual o impacto que tais trabalhos tiveram na população que então habitava junto ao local, os incómodos e/ou descontentamentos que estas primeiras operações de arqueologia urbana em Lisboa suscitaram junto da população. Se esta situação se deparava clara quer pela leitura da imprensa da época, quer pela

oposição encabeçada pelo poeta Ary dos Santos, que habitou na Rua da Saudade e se opôs à demolição dos imóveis, na verdade, a realidade foi bastante distinta. Muitos dos moradores dos edifícios sobrepostos ao teatro romano esperavam ansiosos a ordem de demolição, representando esta a única forma de obter melhores condições de vida uma vez que estes imóveis, construídos entre os finais do séc. XVIII e os inícios da seguinte centúria, não ofereciam condições de salubridade uma vez que, queixa generalizada, os respetivos proprietários não realizavam, há muito, obras de conservação. Deste modo, o realojamento de muitas famílias, ao contrário do que poderia imaginar, foi um ensejo esperado por muitos. Na verdade, também, o edifício da Rua da Saudade nº 24, onde habitava Ary dos Santos, nunca esteve em risco de ser demolido uma vez que o mesmo, nas palavras de Irisalva


Moita – a então Conservadora dos Museus Municipais e a arqueóloga que realizou as escavações no monumento romano entre 1965 e 1967 – não se sobreporia, afinal, aos vestígios do teatro. A figura do poeta Ary dos Santos, e do que ele representou para a cidade e para o país, especialmente pelas palavras com que pintou a cidade de Lisboa que tão bem conhecia, não foi esquecida neste projeto. No dia 21 de outubro teve lugar, nas ruínas do teatro romano, um espetáculo que representou um tributo ao poeta. De entrada livre, o grupo musical “Flor de Sal” e a fadista Marifá, ela própria uma antiga habitante da Rua da Saudade, trouxeram à memória alguns dos poemas que nos descrevem uma cidade em transformação onde os sons da Revolução se misturam com o quotidiano de uma Alfama ainda hoje reconhecível. (Fig.2)

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O levantamento realizado até ao momento, o qual consideramos ainda muito parcial, materializou-se, no corrente ano, na realização de uma pequena publicação onde foram apresentados alguns depoimentos e pequenos trechos de entrevistas. O objetivo foi o da colação de testemunhos orais e a apresentação de alguns dados resultantes da investigação documental e do respetivo confronto com os dados arqueológicos. Com efeito, as intervenções arqueológicas que têm vindo a ser realizadas desde 1964 – ano da primeira campanha no monumento cénico feita por D. Fernando de Almeida - têm proporcionado uma informação riquíssima sobre esta parte da cidade. Mais de quarenta edifícios na envolvente do teatro romano sofreram intervenções arqueológicas, a maior parte das quais realizadas aquando da reabilitação feita nestes imóveis mercê da recente relevância que, em termos imobiliários, esta zona histórica junto a Alfama, tem merecido nos últimos anos. É este conjunto de dados que nos proporciona um conhecimento privilegiado da história deste preciso local, provavelmente um dos melhor conhecidos de toda a cidade. A informação reunida, o cruzar de olhares sobre um passado recuado, mas, de igual modo, o enriquecimento do conhecimento sobre um passado mais recente, permite-nos uma visão mais completa e global de uma história que também se materializa através de pessoas e de factos, nomes e vidas que fizeram desta zona da cidade o que ela hoje é.

Com a recolha dos vários depoimentos e a continuação do trabalho de investigação, especialmente nos arquivos da Câmara Municipal de Lisboa - consulta dos Processos de Obra de cada um dos edifícios, confronto com imagens do Arquivo Municipal de Lisboa (especialmente do Arquivo Fotográfico) e da restante pesquisa bibliográfica realizada - a quantidade de informação foi-se adensando e o projeto, inicialmente mais modesto, foi tomando novos contornos e suscitando, em simultâneo, novos objetivos.

Entre 2001 – quando o museu abriu portas pela primeira vez, ainda com a designação de Museu do Teatro Romano – e 2015, quando o museu reabriu com a nova designação de Museu de Lisboa – Teatro Romano, a população residente na área envolvente ao espaço museográfico, sofreu profundas alterações. Vários vizinhos haviam abandonado as ruas junto ao museu, mudando-se para outros locais e muitos haviam falecido. De forma rápida, uma população idosa, conhecedora do local, deu lugar a uma população mais nova, com poucos laços de convivência entre si e, afinal, com pouco conhecimento da história do sítio.

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Neste contexto, deparou-se pertinente a realização de entrevistas a vários moradores, atuais ou que já o haviam sido, mas que, entretanto, haviam mudado de morada. As conversas, longas e interessantes, mostraram-nos um outro mundo. Uma vivência desconhecida para nós e que, talvez por isso, mais interesse nos suscitou.

Mas o passado nunca termina e trouxemos esta abordagem antropológica também para um passado tornado presente. Conhecer a população que hoje habita o local, os novos comércios que aqui se estabeleceram, as novas sociabilidades que se vão criando destronando outras, mais antigas que, de forma anacrónica, ainda se agarram a um presente já feito de passado, traduzem-nos distintas dinâmicas socais que, de forma quase abrupta, modificaram a história do sítio.


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Este fenómeno de substituição da população foi acompanhado por uma renovação do edificado, por um profundo investimento imobiliário que alterou a fisionomia da rua e, especialmente, obrigou e suscitou uma substituição dos seus usufruidores. Estrangeiros, pessoas mais novas e pessoas com menos constrangimentos económicos, passaram a habitar as ruas de São Mamede e da Saudade. Turistas que visitam a cidade em poucos dias alojam-se na área envolvente ao teatro romano sem dele lhe conhecerem a história, as peripécias do seu aparecimento ou da sua descoberta. São habitantes de curta duração que aproveitam o sítio privilegiado oferecido por estas ruas - fora do bulício do pitoresco bairro de Alfama, mas paredes meias com este bairro - e que as cruzam com destino ao Castelo de São Jorge ou dirigindose, a sul, para a Baixa Pombalina. Os elos de vizinhança perderam-se de forma repentina. É uma nova população, são novas pessoas e novos contextos, novas existências que substituem outras, perante a imutabilidade das ruínas de um teatro romano que, entre a Rua de São Mamede e a Rua da Saudade, teimam em permanecer à vista de todos. Estas artérias, durante muito tempo ocupadas por uma população de baixos recursos económicos, são hoje cobiçadas pela sua posição altaneira, com a sua vista para o Tejo. Donas de casa, caixeiros viajantes, trabalhadores fabris, empregadas da limpeza, antigos tipógrafos, vendedores de lojas, dão hoje lugar a arquitetos, designers, negociantes de arte, consultores de empresas estrangeiras, famílias de outras nacionalidades que adotam para si estes novos apartamentos remodelados, brancos e apetecíveis.

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É uma população diferente, muito distinta da que existia há 40 ou 50 anos, e mais ainda da que aqui habitava no séc. XIX ou nos inícios do séc. XX (Figs. 3 e 4). Uma cidade não é imutável e o seu crescimento implica alterações físicas, mas também das pessoas que a habitam. Estes novos habitantes apreendem distintamente esta realidade urbana. Olhamna de novo, reconhecendo-lhe novos atrativos e usufruem-na de forma diferente. É sempre agradável ver outras pessoas a admirarem-se com o que para nós é “normal”. Isso obriga-nos, quase involuntariamente, a descobrir qual o motivo do espanto e a questionar-nos sobre qual terá sido a última vez que reparámos naquele pormenor, que nos espantámos com um recanto prazenteiro, com um jacarandá perfeito, com uma viela anacrónica ou com um rendado do empedrado da nossa calçada-mosaico.


Quando olhamos para algumas fotografias dos finais do séc. XIX ou dos inícios da seguinte centúria, é quase difícil não ficar um pouco saudosista. São imagens mudas, mas que nos obrigam a um olhar mais atento porque conseguimos constatar a mudança entre o antes e o agora. Em termos arquitetónicos, as mudanças não são, aparentemente, flagrantes. As ruas são as mesmas, muitos dos edifícios também, mas as sércias são acentuadamente menores. A volumetria desta parte da cidade concedia-lhe uma escala distinta, mais pequena e por isso mais próxima e humana, quase lembrando uma aldeia. Outra alteração que se observa nestas imagens a preto e branco é o facto de os edifícios parecerem mais ocupados do que hoje: roupa estendida, pessoas à janela, editais a anunciar novos produtos que chegavam à cidade ou cartazes de espetáculos que iriam ter lugar. As ruas, tal como hoje, possuíam muitas lojas abertas ao público, ainda que o comércio de então, e falamos dos inícios do séc. XX, não seja, naturalmente, o mesmo de hoje. Tipografias, talhos, carvoarias, serviços de incêndio, lojas de vinhos… e muitas pessoas na rua. Mulheres e homens em fatos domingueiros ou em roupa de trabalho, atarefados nos seus afazeres, mas com um olhar intrigado para o obliterador da máquina (Fig. 5). São instantes fotográficos que nos fazem recuar no tempo e obrigam a observar o mesmo sítio, que conhecemos tão bem e de há tanto tempo, com um olhar renovado.

cialmente arquitetónicas e urbanísticas, mas também sociais, pudessem, de alguma forma, ser plasmadas. O objetivo do projeto de investigação levado a cabo pelo Museu de Lisboa – Teatro Romano passou, assim, pela disponibilização das informações que o museu, ao longo de tantos anos, foi recolhendo, apresentando-as aos habitantes da área envolvente ao teatro romano para, também eles, olharem, com olhar renovado, para o seu próprio território. A exposição, inaugurada no dia 9 de novembro de 2017, foi realizada na galeria de exposições da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior (Figs. 6 e 7). Este espaço, localizado na sede da própria junta, sofreu obras de remodelação quando, em 2013, foi aí instalado o elevador que liga a Rua dos Fanqueiros à Rua da Madalena, tendo sido então, realizados trabalhos arqueológicos. Devolver à população os resultados desta e de outras intervenções de âmbito arqueológico efetuadas no território envolvente ao teatro romano constituiu, desde o início, um dos objetivos deste projeto que se denomina, precisamente, Saudades da Rua da Saudade – o teatro romano e a sua envolvente nas memórias da cidade.

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05 Ao reparar nestas imagens a preto e branco também é possível ver a pobreza, as ruas em terra batida, os fatos andrajosos de alguns dos habitantes. Mas estas ruas que envolvem o museu e o monumento romano - somente colocado a descoberto e muito lentamente, a partir de 1964 - parecem-nos muito mais antigas pois tudo, sendo tão semelhante, era tão diferente.

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A atração que estas imagens nos causaram obrigou-nos a pensar no interesse que as mesmas poderiam suscitar junto aos atuais moradores deste território. Foi assim que nasceu a ideia de realizar uma exposição onde estas alterações e diferenças, espe-


Este desiderato traduziu-se quer na realização da exposição quer na apresentação da publicação, acima mencionada, que contou com a participação dos antropólogos Daniela Araújo e Rui Coelho (Museu de Lisboa) e de arqueólogos: para além da signatária, Carolina Grilo (Museu de Lisboa – Teatro Romano) e Maria Miguel (colaboradora do Museu de Lisboa – Teatro Romano). Um contributo importante foi o da própria Junta de Freguesia de Santa Maria Maior e do depoimento prestado pelo seu presidente Miguel Coelho. A Junta de Freguesia é, a este nível, um parceiro privilegiado neste projeto, mercê do conhecimento que tem da população que atualmente habita este território. Profusamente enriquecido por fotografias, grande parte do Arquivo Municipal de Lisboa, mas também do arquivo do próprio museu o objetivo da publicação foi igualmente o dar a conhecer o Museu de Lisboa – Teatro Romano, divulgar o monumento romano e o museu que lhe é dedicado e que permanece, sob os nossos pés, entre a Rua de São Mamede e a Rua da Saudade. Abrir as portas a todos os públicos, divulgar o espólio recolhido ao longo de muitas intervenções arqueológicas, transmitir alguns dos conhecimentos que uma longa investigação,

iniciada há mais de cinquenta anos, permitiu recolher, é a missão que se impõe. Desde a reabertura do museu em setembro de 2015 que o mesmo oferece uma programação variada e gratuita a todos quantos veem neste museu um local de partilha de conhecimentos. As inúmeras palestras que aqui têm lugar, as visitas guiadas destinadas a público não especializado, mas também a visitantes mais familiarizados com o tema ou as visitas destinadas a público infantil, têm demonstrado que há uma população lisboeta que se interessa por este monumento romano e pelo património histórico e arqueológico que a cidade encerra. É neste âmbito de, dar a conhecer o museu e de abrir as portas a todos, sem exceção, que se deu início, em junho de 2016 à atividade que denominámos “Hora de Baco”. Esta iniciativa, hoje com enorme sucesso, como o comprovam as centenas de pessoas que nela têm participado, tem tornado o museu um sítio também de entretenimento que tem lugar nas últimas quintas-feiras de cada mês, entre as 18 e as 20h. Nestas datas o museu abre gratuitamente e a “Hora de Baco” é animada por uma vasta oferta musical e provas de vinhos através do patrocínio da Cooperativa Agrícola de Santo Isidro de Pegões (Fig. 8).

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Recupera-se assim, de certo modo, a função dos post scaenia dos teatros romanos. Estes espaços correspondem à área situada por detrás da fachada cénica dos teatros latinos onde se localizavam grandes praças nas quais a população se entretinha antes do início das representações e no final das mesmas. Queremos, deste modo, abrir o museu a todos – aos vizinhos, à população local, aos estrangeiros, aos novos e aos menos novos – de forma a dar a conhecer o Museu de Lisboa – Teatro Romano e transformá-lo, pelo menos nestas ocasiões, num local de festa, onde agradavelmente se permanece. A “Hora de Baco” é para degustar lentamente, para usufruir e para perceber como há formas agradáveis e inesperadas de conhecer a cidade.

Pensamos que, com estas iniciativas e outras que se pretendem realizar durante o ano de 2018, será possível oferecer um maior conhecimento deste território quer à população residente, quer a quem nos visita, sem que se perca a identidade de um local e a história que faz de um povo aquilo que ele é.

Legendas Fig. 1 – Sítio arqueológico do teatro romano integrado no Museu de Lisboa – Teatro Romano. (José Avelar / Museu de Lisboa). Fig. 2 – Espetáculo realizado nas ruínas do teatro romano no dia 21 de outubro: “Espetáculo de Tributo a Ary dos Santos”. Fig. 3 – Escadinhas de São Crispim em 1945. Fotografia a preto e branco de Fernando Pozal Martinez (Arquivo Municipal de Lisboa, nº inv. PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP004-POZ-000222). Fig. 4 - Escadinhas de São Crispim na atualidade (José Avelar / Museu de Lisboa). Fig. 5 – Rua de São Mamede ao Caldas nos inícios do século XX. Fotografia a preto e branco de Alberto Carlos Lima (Arquivo Municipal de Lisboa, nº inv. PT/AMLSB/ CMLSBAH/PCSP/004/LIM/000865). Figs. 6 e 7 – Aspetos da exposição, inaugurada no dia 9 de novembro Saudades da Rua da Saudade – o teatro romano e a sua envolvente nas memórias da cidade. Galeria de exposições da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior (José Avelar / Museu de Lisboa). Fig. 8 – Uma das Horas de Baco no Museu de Lisboa – Teatro Romano, no dia 26 de outubro do corrente ano com o grupo StoneBones & BadSpaghetti. (José Avelar / Museu de Lisboa).

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Também com o objetivo de recuperar a função original para a qual o teatro romano foi construído, acontece em julho, nas suas vetustas ruínas, o Teatro Clássico. Com peças do repertório clássico greco-latino levadas a cena exclusivamente para o teatro romano de Lisboa, o grupo de Teatro Maizum tem desenvolvido um importante trabalho de encenação. Em 2016 foi levada à cena a peça A Paz do poeta grego Aristófanes e, em 2017, a peça O Misantropo do poeta Menandro que subiu ao palco entre 6 e 23 de julho. O museu tem igualmente pretendido ser um elo de ligação da comunidade e um dos laços que une esta intensa e extensa freguesia de Lisboa: a de Santa Maria Maior. Tecer uma teia de relações que una populações tão diversas como as que habitam este território tão vasto que se estende desde a Baixa Pombalina até S. Vicente, Santo Estevão, o Bairro do Castelo e a zona da Sé, constitui um desafio difícil, mas verdadeiramente aliciante. Neste intento, o papel da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior tem sido decisivo e é também por essa razão que museus e instituições locais têm de unir esforços para formar uma rede informativa fortemente identitária.


O cair da noite no Mosteiro de Santos-o-Novo por Frederico Andrade Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Edifício imponente, que se destaca na paisagem junto ao Rio Tejo, em Xabregas, o Mosteiro de Santos-o-Novo, imóvel de interesse público de grande beleza, está sob gestão da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa desde 2011. É um de quatro edificados que constituem os Recolhimentos da Capital, monumentos reaproveitados para dar respostas sociais. Próximo a uma das saídas mais importantes da cidade de Lisboa, ao lado da estação ferroviária de Santa Apolónia, aquele mosteiro já foi um dos pontos mais importantes da Freguesia da Penha de França. Nos claustros destacam-se a capela de Nossa Senhora da Encarnação, a capela do Senhor dos Passos, sede da Irmandade com o mesmo nome e, ainda, o oratório dedicado à Rainha Santa Isabel.

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É precisamente no espaço dos claustros que o mosteiro ganha uma nova vida, já que, entre os vários pisos, algumas famílias fazem deste edifício secular a sua casa, o seu espaço de convívio, de conforto e, acima de tudo, de comunhão entre o antigo e o novo. Atualmente, vivem no interior do mosteiro 25 pessoas em residências assistidas, com vulnerabilidades socioeconómicas associadas ao processo de envelhecimento. Ao final do dia, as conversas dos moradores misturamse com o som das televisões, fazendo-se ouvir nas enormes salas e espaços amplos do monumento. O Mosteiro de Santos-o-Novo ganha uma outra vida com o cair da noite. Um dos pontos de interesse para quem faz da História a sua casa é o enorme jardim central, que ocupa todo o interior do mosteiro. Com um microclima muito próprio, o Santos-oNovo habituou-se a viver as várias estações do ano de uma maneira muito peculiar. Nas noites de inverno o recolhimento é a palavra que impera. As pequenas tertúlias nas casas dos moradores são acompanhadas de uma confortante chávena de chá para aquecer o espírito e animar a alma. Nas noites quentes de verão, os serões convidam a passeios e conversas no labiríntico jardim central, ladeado pelos enormes claustros, considerados como os maiores da Península Ibérica.

Ao nível da resposta social, diariamente, uma equipa multidisciplinar da Santa Casa, composta por uma assistente social, um psicólogo, vários enfermeiros e monitores, entre outras valências, procura satisfazer as necessidades biopsicossociais dos residentes, assim como garantir a sua segurança e autonomia, estabelecendo laços e espírito de entreajuda entre os moradores e a equipa. Construído no início de século XVII, com empenhamento pessoal do Rei Filipe II de Portugal e vontade pessoal de D. Cristóvão de Moura, o mosteiro foi, entretanto, recuperado depois do terramoto de 1755, que destruíra parcialmente a estrutura. Foi casa para as Comendadeiras da Ordem de Santiago até à Implantação da República, em 1910, data em que o espaço começou a ter outra utilização. Em 1895, o Mosteiro de Santos-o-Novo foi formalmente extinto, dando lugar a um dos Recolhimentos da Capital. Já no início do século XX, depois da proclamação da República, o mosteiro acolheu a escola primária superior de D. António Costa e a partir de 1927, a secção masculina do Instituto do Professorado Primário Oficial Português. Desde que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa assumiu a manutenção e gerência do edifício, em 2011, o espaço foi-se transformando e adaptando às exigências do século XXI. Uma das alas do mosteiro foi entretanto cedida ao ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, para residências destinadas a jovens do programa Erasmus. O Mosteiro de Santos-o-Novo é ainda o palco escolhido para o grande Almoço de Natal dos Recolhimentos da Capital, que reúne anualmente todos os utentes e equipas dos vários recolhimentos, numa festa que se prolonga até ao serão noturno, privilegiando a comunhão e a proximidade entre todos.


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A CIDADE E O NOVO PARADIGMA por Vanessa Pires de Almeida

Depois de séculos de expansão para lá dos seus antigos limites, a cidade tem vindo a ser resgatada, na sequência de uma conjugação de acontecimentos, como a crise de práticas e de conceitos, decorrente das intervenções de meados do século XX, que levaram a uma reinterpretação e a uma reaprendizagem da cidade existente. Do mesmo modo, influenciada pelas políticas urbanas internacionais, a administração local começou a reconhecer a importância dos recursos físicos e sociais consolidados, acentuada com o surgimento de movimentos sociais de defesa dos valores urbanos, considerados relevantes para a manutenção da sua memória e identidade. As políticas de ordenamento territorial internacionais, no sentido de colmatar os problemas causados pela dispersão e fragmentação urbanas, direcionaram as tendências de desenvolvimento para a concentração urbana, de forma a controlar o consumo de recursos, o despovoamento, a desarticulação territorial e a gerar spillovers de conhecimento e inovação. Com o regresso à cidade, a cidade existente, feita e refeita, tornou-se objeto de reflexão e pretenso laboratório de experimentação de intervenções ao serviço dos mais variados desígnios – evocação da memória e da identidade do lugar, recuperação das suas dinâmicas sociais ou promoção do turismo. Impõe-se, assim, a necessidade de gerir o património, num contexto formado por múltiplas camadas temporais, em constante transformação.

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De objeto arquitetónico singular ao tecido urbano, nas suas dimensões física e vi-

vencial, o conceito de património tem vindo a distender-se na comunidade internacional, evidenciando a necessidade de um novo paradigma de entendimento das cidades, o qual, na procura de um desenvolvimento urbano sustentável, deve aproximar e combinar, segundo uma visão integrada, a salvaguarda ao desenvolvimento, o edificado à cidade e ao território, a dimensão física à dimensão vivencial (social e económica) e, especialmente, os especialistas à comunidade. O enfoque dado ao Habitat, relacionando a transformação física da cidade à ocupação e vivência da comunidade, procura alcançar o conhecimento de saberes, práticas e valores de sucessivas gerações, que responderam e respondem ao meio herdado, definindo a matriz do património urbanístico. A estrutura e o sistema de regras do património urbanístico são revelados no discurso de significação de uma cultura, que se relaciona com a realidade por meio de valores. Os valores, reconhecidos pela sociedade de um determinado tempo e de um determinado local, permitem distinguir o essencial do supérfluo, o caráter de cada fenómeno integrado num conjunto de ligações intrincadas e multidimensionais. Reflexo de uma unidade no tempo e no espaço, a estrutura urbanística representa a memória e a identidade, o reconhecimento coletivo, social e político, do espaço urbano, que, na identificação, clarificação, articulação e coerência dos valores urbanos, definirá as práticas e os princípios de uma política urbana que pretende envolver a comunidade na gestão da cidade, reconciliando a sua salvaguarda com as necessidades sociais e económicas e as aspirações da comunidade que a habita. A criação de uma política de desenvolvimento


O equilíbrio da cidade, na capacitação do tecido urbano existente de vitalidade social e económica, requer uma revisitação ao passado, à gramática espacial do património urbanístico, para que este possa entrar em diálogo com as transformações e necessidades contemporâneas, integrando as diferentes e complexas áreas urbanas, entre elas o núcleo urbano antigo, numa organização multipolar, multidimensional e de múltiplas escalas. O uso desprovido de critério de conceitos, como reabilitação, revitalização e regeneração, em programas e projetos de intervenção no património, impossibilita o entendimento e o consequente compromisso dos diferentes agentes da mudança. O uso do prefixo “re” apenas reconhece a preexistência, não distinguindo o seu significado, necessidades ou oportunidades. A cidade existente impele a um reavivar (trazer de novo à memória) das suas estruturas de significação, onde o reabilitar, revitalizar e regenerar se apresentam como princípios de intervenção ou fundamentos orientadores da ação bem distintos, embora de indispensável articulação. Numa clara distinção entre habitação e habitat, reabilitar diz respeito à recuperação física e funcional do património físico, de modo a devolvê-lo à estima e consideração dos seus usuários, revitalização à reaquisição de atividades que imprimam às estruturas sociais e económicas dinâmicas multifacetadas e

complementares, e regeneração à restauração de um equilíbrio físico e vivencial urbano. Ultrapassada a discussão das duas Cartas de Atenas (resultantes da Conferência Internacional de Atenas sobre o Restauro de Monumentos, em 1931, e do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, em 1933), nas quais foram propostas políticas de diferente caráter – respetivamente, restaurar ou renovar, conservar ou substituir, integrar ou contrastar, as atuais intervenções continuam a perpetuar a incapacidade e a incerteza no modo de intervir, evidentes no recorrente esventramento de preservadas formas e volumetrias do edificado que, na dissociação da imagem da sua materialidade e vivência, eternizam o fachadismo e a total incompreensão por uma essencial articulação dos valores urbanos presentes (valor estético, valor científico ou tecnológico e valor social). A demanda pela coesão territorial, nas suas múltiplas dimensões física e vivencial, afigura-se como o desígnio contemporâneo de cidades que atentam à diversidade, complementaridade e complexidade do tecido urbano. As políticas nacionais e, especialmente, as políticas locais devem definir as estratégias de atuação a médio e longo prazo, combinando a defesa de interesses e necessidades comuns da democracia (coesão social, equidade) e a eficiência do mercado. Devem, ainda, estas políticas ser articuladas, consistentes e transparentes, respeitando, na criação de um futuro, o que demorou séculos a ser gerado. Na definição e implementação de políticas de planeamento, gestão e monitorização do genius loci, a participação da comunidade, criadora de valor que define e reforça a apropriação espacial, garante um desenvolvimento urbano sustentável com condições para se manter ou conservar para as gerações futuras.

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urbano integrado apoiada no reconhecimento dos valores urbanos, nas referências da cultura como alicerces reguladores, adquire a sua sustentabilidade na salvaguarda do passado que define e enraíza a comunidade, na salvaguarda das necessidades e vivências do presente e na salvaguarda das aspirações para o futuro.


RETRATOS DO PATRIMÓNIO Uma (má) evolução na continuidade (IV) por Pedro Mascarenhas Cassiano Neves

Nem sempre para mandar é necessário ser primeiro, a história está cheia de “Eminências Pardas” e, no caso de Lisboa, no que ao Urbanismo e Património diz respeito, o exercício do Poder dos mandatos de António Costa e Fernando Medina tem um nome: Manuel Salgado. De facto, desde o consulado camarário de Nuno Abecasis, que “Reinou” de forma quase absoluta durante praticamente toda a década de oitenta (1979-1988), ninguém deteve durante um tão longo período temporal, dez anos, e de forma tão personalizada e “autoritária” o Poder, como o actual Vereador do Urbanismo. E, agora como então, as consequências têm sido Devastadoras para o edificado histórico da Cidade de Lisboa. Mesmo que, no limite, esteja prosseguindo uma prática negligente e por vezes pactuante com interesses obscuros, que já vem de longe, a realidade é que a “Lisboa de Manuel Salgado”, sustentada por uma propagandeada (e falsa) Política de “Reabilitação” Urbana e alavancada por um inédito fluxo financeiro estrangeiro, tem sido marcada por uma destruição patrimonial sem precedentes.

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É óbvio que existiram iniciativas positivas e importantes. Na Zona Ribeirinha, o esplendoroso Terreiro do Paço, com poucos automóveis, um “mar de esplanadas”, o elevador para o Arco Triunfal e a “Lisbon Story” (porquê o Inglês?), finalmente ganhou vida. A vizinha Ribeira das Naus, recentemente uma chaga citadina, transformou-se em local obrigatório, único, de lazer para lisboetas e forasteiros. O caótico Cais do Sodré voltou a ser um local aprazível. O trecho da 24 de Julho até Santos passou de Autoestrada a “Promenade”. Na “Lisboa Mil e Novecentos”, o eixo Rotunda-Saldanha-Campo Grande, há muito um pandemónio viário e urbanístico, mereceu uma corajosa intervenção, que finalmente “pôs na ordem” a primeira destas vertentes, faltando agora “corrigir” a segunda. E, enquanto se “cerzia” a malha urbana, o Programa “Uma Praça em cada Bairro” devolvia

a dignidade perdida a um sem número de recantos de Lisboa. Criou-se o Museu Júlio Pomar. Transferiu-se o da Moda e do Design (MUDE) para uma Baixa carente de equipamento cultural. Procedeu-se a avultados restauros no Convento da Graça e na Igreja de São José. Concluiuse o extraordinário “Corredor Verde” de Gonçalo Ribeiro Telles, que estava em risco na zona de Campolide. Por toda a Cidade uma ambiciosa rede de ciclovias estende os seus tentáculos, tendo na Avenida Duque de Ávila um corolário de eleição. Mas a cidade sofreu, e continua a sofrer, uma descaracterização acelerada, uma destruição avassaladora que não olha ao edifício, por mais relevante que seja, ou ao sítio, por mais precioso e preservado que se nos apresente. Uma descaracterização que ataca “Lisboa de lés-a-lés” e que parece ser tudo menos inocente. Numa opção muito mais que discutível, “plantou-se” um vasto Terminal de Cruzeiros na Zona Ribeirinha mais remota, transformando-se a esplêndida, e única, panorâmica da Cidade Velha para o “Mar da Palha” numa vista para uma cortina maciça de gigantescos “Blocos”. Blocos, também gigantescos, mas agora imóveis, que invadiram locais de eleição da cidade, não poupando o Centro Histórico, como no caso do Ceusesquiano Mamarracho da EDP na Boavista, que tem a agravante de interferir com a fantástica vista do Miradouro de Santa Catarina, seja, contra todas as regras do bom senso e revelando uma total inconsciência, ou talvez não... No “Território Sagrado” de Belém, onde, em plena Praça Afonso de Albuquerque, paredes meias com o Palácio Real e os Jerónimos, “aterrou” o “Mono dos Coches”, que um dia, espero que não muito longínquo, terá de ser, pelo menos parcialmente, demolido... Ruas, Quarteirões e Bairros, por vezes merecedores de Classificação Integral, até agora intactos, ou quase intactos, são alvo de cirúrgicos “atentados” urbanísticos, de acordo com a “Política” que vigora na CML, que, ao contrário de outros locais por esse mundo fora (...), “promove o contraste e até o “Choque” das novas construções com o edificado pré-existente envolvente” (palavras do actual Presidente da CML perante mais de cem pessoas, que revelou também que não concorda...).


Nesta “Política do Vale Tudo” e sem qualquer remorso ou pingo de vergonha, todos os argumentos são válidos e, escudada numa oportunista “integração das minorias”, não há qualquer pejo em se sacrificar um vastíssimo quarteirão, onde ainda existem imóveis quinhentistas e está totalmente intacto, que escapou por um triz à destruição maciça dos anos quarenta da Mouraria, para se construir uma... Mesquita! Ou, sacrilégio dos sacrilégios patrimoniais, autorizar, à revelia da população local, um inacreditável “Mono”, o Museu Judaico, para o Largo de São Miguel, em pleno coração de... Alfama! Tendo por instrumento um PDM, que foi alvo de uma revisão escandalosa em 2011, e um novo Regulamento Urbanístico, que permite tudo e mais alguma coisa, do aumento das volumetrias ao sacrifício da maior parte dos logradouros antes protegidos dos Bairros Históricos, autoriza-se a um ritmo vertiginoso, e por vezes de forma assustadora, o crescimento em altura – muitas vezes substituindo a tradicional telha portuguesa por mansardas metálicas que nada tem a ver connosco – dos edifícios, eliminando a enorme diferença entre as cérceas e muitas vezes pondo em causa o sistema de vistas, duas características fundamentais para fazer de Lisboa uma cidade singular. Uma CML que confunde, ou nos quer confundir, Reabilitação com Fachadismo, levando, numa cidade que escapou às duas Grandes Guerras, à destruição do que resta dos interiores Oitocentistas, mas também, pasmese, aos dos Séculos XVII e XVIII, incluindo os da Baixa Pombalina que, paradoxalmente, quer classificar Património Mundial... Uma CML que permite, e não reage, que o seu próprio Inventário do Edificado a Preservar, mesmo que em Zona de Protecção de Edifício Classificado a nível nacional e à revelia de veementes pareceres dos técnicos

camarários, seja escandalosamente violado, como aconteceu na excepcional Casa Pombalina da Rua da Lapa, a mais emblemática do bairro (continuamos à espera do prometido Inquérito, Senhor Presidente da Câmara) ... Uma CML que assobia para o lado enquanto Alfama e outros bairros tradicionais se vão transformando em Disneylândias e promove abusivamente a substituição da calçada portuguesa, “ex-Libris” de Lisboa e elemento fundamental para a deslumbrante luz que a celebriza... Uma CML que Ignora a Importância Histórico-Artística do seu próprio património, e, indiferente aos precedentes dramáticos do saqueamento do Palácio da Rosa e abandono da magnífica Casa-Nobre onde viveu Anselmo Braancamp Freire, no Pátio do Tijolo, insiste na alienação dos seus Palácios, adquiridos e por isso salvos por antecessores, chegando ao ponto de vender em (obrigatória) hasta pública, portanto “a quem deu mais”, um dos mais relevantes solares portugueses, o extraordinário Palácio Tancos, cujas indescritíveis obras efectuadas pelo novo dono foram, em boa hora, alvo de recente embargo... Uma CML que autoriza, na esplêndida Praça da Alegria, a demolição do neoclássico Palácio de São Miguel, do qual só restou literalmente a fachada; que fecha os olhos ao arraso dos, raríssimos, interiores da Casa Senhorial Joanina da Família Vaz de Carvalho em plena área nacionalmente classificada do Campo de Santana; que permite que na antiquíssima Ribeira de Lisboa, ao fascinante Palácio Coculim seja acrescentada aquela monstruosidade; que nada faz quando, no coração da Baixa, na fantástica zona da Anunciada, surja uma gigantesca cratera no sítio do Palácio Rio Maior, obra de Eugênio dos Santos com soberbos estuques de Grossi; que não tem qualquer remorso em pôr em causa o sistema de vistas, quando dá luz verde ao projecto do Palácio de Santa Helena, em São Vicente; que hesita quando o magnífico Palácio Mendonça e os seus requintados Jardins, no Alto do Parque, conjunto integralmente preservado e Nacionalmente Classificado, estão ameaçados... Nesta Inconsciência Patrimonial sem precedentes, nem o Palácio da Ajuda escapa, e se nada for feito, e perante a passividade, ou conivência... da Câmara, deixaremos para as gerações futuras mais uma abusiva e inacreditável herança!

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Assim, e recorrendo vezes sem conta ao “truque” do arquitecto de renome para calar os mais distraídos, a simpática e intacta oitocentista Praça das Flores poderá ser desvirtuada por um escusado mamarracho. A extraordinária Rua das Janelas Verdes, que há muito já devia estar classificada, vê a pouco e pouco o seu edificado seiscentista e setecentista ser substituído por inestéticos “caixotes”, uma “praga” que atacou toda a cidade, desde o vizinho bairro da Lapa, uma vítima privilegiada, passando pelo também muito “pretendido” do Príncipe Real, até outros que até agora estavam esquecidos, e por isso a salvo, como o Alto da Ajuda. Entretanto, a preciosa Colina de Santana, que resistiu ao terramoto, poderá não sobreviver ao Salgadismo...


Segredos de Lisboa

Texto e Fotografia por Francisco Duarte Coelho

Observatório Astronómico de Lisboa O Observatório Astronómico da Tapada da Ajuda surgiu no século XIX para resolver uma discussão científica entre dois astrónomos, um Francês (Hervè Faye) e um alemão (Christian Peters), sobre a paralaxe de uma estrela pertencente a constelação da Ursa Maior. Para resolver o assunto, os dois astrónomos teriam de realizar observações em Lisboa, único local do continente Europeu onde se poderia observar correctamente a estrela. Foi assim que, ainda no reino de D. Pedro V, se iniciaram os trabalhos para a construcção do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL).

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Hoje em dia, o observatório ali continua, no que é o campus do Instituto Superior de Agronomia (ISA), pertence à Universidade de Lisboa, e está aberto para observações por marcação e visitas guiadas. No último Sábado de cada mês, o Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), em pareceria com o Planetário Calouste Gulbenkian, organiza as “Noites no Observatório”, que constam de uma pequena palestra dada por um investigador do IA e observações do céu nocturno com telescópios. Um segredo para um bom programa de Sábado à noite com céu limpo.


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LISBOA VERDE O Botânico da Ajuda

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Situado numa das zonas mais visitadas de Lisboa, o Jardim Botânico da Ajuda é refúgio de paz onde sabe bem passar alguns momentos de tranquilidade. À distância da subida da Calçada da Ajuda desde a zona de Belém, junto ao Palácio da Ajuda, o passeio neste jardim pode ser antecedido, ou precedido, de uma visita o Museu dos Coches, ao Jardim Museu Agrícola Tropical, ao Mosteiro dos Jerónimos ou a uma exposição no Centro Cultural de Belém. Talvez por esta concorrência tão próxima, o Jardim Botânico da Ajuda é ainda pouco conhecido do público em geral, facto que não faz, de forma alguma, justiça à beleza e interesse deste local. O Jardim Botânico da Ajuda foi construído na segunda metade do século XVIII (1768) como local de estudo e ensino para os filhos do rei D. José. O local foi escolhido dada a sua proximidade à Real Barraca, onde vivia a família real, sobre a qual se construiu o actual palácio da Ajuda. O responsável pelo seu desenho e primeiro director foi Domingos Vandelli, que também foi responsável pelo famoso jardim botânico de Pádua. O jardim chegou a albergar, na época de Vandelli, cerca de 5000 espécies, organizadas segundo o sistema sexual de Lineu. Após alguns anos

Texto e fotografias por João Albuquerque Carreiras

de relativo abandono e da pilhagem aquando das invasões francesas, D. João VI chamou, em 1811, Félix Avelar Brotero para dirigir o jardim e refazer o seu desenho. Quando em 1837 se inicia a construção do Jardim Botânico de Lisboa (Escola Politécnica), o jardim da Ajuda perde alguma da sua importância e passa posteriormente a ser propriedade da casa real. Com a queda da monarquia, o jardim passa à tutela do Instituto Superior de Agronomia que o utiliza para o ensino e a investigação. Corria o ano de 1941 quando um furacão foi responsável por grandes estragos, facto que levou a que, durante muitos anos, o mesmo se encontrasse em estado de quase abandono. Nos anos 90, um projecto com o apoio do Prémio de Conservação do Património Europeu e do Fundo de Turismo elaborou um plano de restauro que permitiu a recuperação da colecção botânica, o restauro do sistema de rega e a instalação do novo Jardim dos Aromas – concebido para utilização específica por invisuais –, devolvendo a vida a um jardim que se encontrava em acentuado estado de degradação. Apesar de não ser muito conhecido, facto que em muito se deve ao longo período de decadência, este foi, de facto, o primeiro jardim botânico de Portugal. Os quase 4 hectares do jardim dispõem-se numa estrutura que segue as regras dos jar-


O patamar inferior tem uma função de recreio, com um requintado desenho de cerca de 4 Km de buxo, que se desenvolve em redor de uma imponente fonte barroca – dita das quarenta bicas – com magníficas peças escultóricas. A fonte – de invulgar qualidade para um jardim, tal como as restantes estruturas de pedra – está a eixo com a escadaria e tem um desenho em buxo simétrico – em redor de dois lagos circulares – para ambos os lados. O muro, com quase sete metros de altura, é coroado por uma belíssima balaustrada de pedra, que é um dos pontos altos deste jardim, ao longo da qual se recomenda um calmo passeio. Sob um alinhamento de jacarandás, que aquando da floração oferecem um espectáculo raro de cor, e com a requintada balaustrada de pedra em frente, podemos observar devidamente o desenho de buxo, em que o verde é quebrado pelo encarnado vivo das sálvias e enquadrado pelos caminhos de saibro ocre. No centro, a água em movimento sobre a pedra trabalhada da fonte traz dinâmica, ao fundo, sobre os telhados da Ajuda, o Tejo reflecte a luz de fim de tarde. A escolha deste local para construir um jardim não foi inocente, a sua localização é um privilégio e a sua vista magnífica. O patamar superior, com função de estudo da botânica, é composto por diversos pequenos canteiros, construídos de forma a albergar a colecção de plantas, constituída por exemplares vindos de todo o mundo, agrupados

segundo zonas geográficas e aclimatados nas estufas do próprio jardim. O desenho que hoje podemos admirar é resultado do projecto de restauro, efectuado nos anos 90, que redesenhou os canteiros do patamar superior segundo a sua forma original, encontrada num desenho da época, que, entretanto, havia sido alterada. Consequência dos anos de abandono, a colecção botânica é, de um modo geral, bastante jovem. Ainda assim há alguns exemplares que, pela sua beleza e dimensão, convém destacar. O ex-libris é, sem dúvida, um dragoeiro (Dracaena draco) que terá a idade do próprio jardim, quase 250 anos, e que fascina pelo seu exotismo e beleza vetusta. Esta árvore deve o seu nome ao facto de ter “sangue de dragão”, ou seja, quando cortado um ramo expele seiva de cor encarnada. Junto ao dragoeiro encontramos uma enorme Schottia, com cerca de 30 metros de copa, que hoje se encontra, dada a sua dimensão, apoiada por uma estrutura metálica. São também extraordinários o Til, com 20 metros de diâmetro, e o imponente Ficus. Dada a dimensão destes, e de outros, exemplares, o tabuleiro superior é uma zona muito sombreada, em claro contraste com o sol quase pleno do jardim de buxo. O passeio pela colecção botânica não estaria completo sem visitar as estufas de aclimatação, nomeadamente a Estufa das Orquídeas – mandada construir em 1879, de belo traço e com a particularidade de estar semi-enterrada de forma a controlar melhor a temperatura –, a Estufa D. Luís – construída na mesma época –, a Estufa das Avencas e a Estufa dos Pássaros, esta última reconvertida, aquando do projecto de restauro, em restaurante.

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dins italianos renascentistas, com dois grandes terraços implantados sobre uma encosta a cotas diferentes, separados por um alto muro e ligados por uma imponente escadaria.


Árvores de Lisboa por Ana Luísa Soares Ana Raquel Cunha

António Sacchetti

Alameda de Celtis australis subsp. australis e C. australis subsp. caucasica na Tapada das Necessidades.

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Família: Ulmaceae O lodão-bastardo (Celtis australis L.) é das espécies botânicas mais frequentes nos jardins e ruas de Lisboa. A sua forte presença, enquanto árvore ornamental, deve-se ao seu valor estético, à sombra que proporciona e à resiliência que apresenta à poluição, bem como à adaptabilidade que mostra em condições urbanas. A título de sugestão, apontamos a notabilidade destas árvores na Tapada das Necessidades (fotografia) e na Rua Ferreira Borges.


No levantamento arbóreo de 64 jardins e parques, realizado em 2014, no âmbito do Projeto LX GARDENS – Jardins e Parques Históricos de Lisboa: estudo e inventário do património paisagístico (coordenado pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia), das 27 610 árvores referenciadas foram identificados 2530 espécimes de Celtis australis L. (9% do total) distribuídos por 50 dos jardins estudados (Vasconcelos et al, 2017). Sendo esta a espécie com maior número de exemplares e mais presente nos jardins da cidade. Esta espécie, de crescimento lento, vive 200 anos em média, podendo atingir os 600. É originária da bacia mediterrânica, desde a Península Ibérica e Norte de África, até ao Sudoeste Asiático. Aparece frequentemente em linhas de água, margens de ribeiras e rios e prados húmidos, apesar de ser pouco exigente quanto ao solo. Adapta-se a verões longos e secos e ao vento. O lodão-bastardo é uma árvore de folha caduca, de grande porte, podendo atingir até 30 metros de altura. Distingue-se pela sua copa definida e pelo seu tronco liso e acinzentado. As suas folhas, de forma lanceolada a ovado-lanceolada (15 x 7 cm), serradas quase desde a base, são de cor verde escuro e ásperas na página superior (devido a estarem cobertas de pelos). A sua floração ocorre entre março e maio. As flores, sem pétalas, de cor amarela esverdeada, pequenas e geralmente solitárias. O seu fruto é uma drupa carnuda, com uma dimensão de cerca de 1,2 cm, de cor verde que se torna negro acastanhado, entre setembro e outubro, quando amadurece. É comestível e doce, com uma semente (caroço) de 6 a 8 mm de diâmetro. A sua propagação é por semente (na natureza é auxiliada pelos pássaros) e por rebentos de árvores novas. Para além do interesse ornamental, as suas folhas são usadas para fins medicinais. A sua madeira - leve, elástica e dura - ainda hoje é apreciada, por exemplo, na carpintaria, mobiliário, pavimentos e portas. A casca tem uma essência que era usada como corante amarelo de seda. Vasconcelos, T.; Cunha, A. R.; Forte, P.; Soares, A. L. (2017). Levantamento arbóreo dos jardins e parques históricos de Lisboa. Lisboa. No âmbito do Projeto de investigação LX GARDENS – Jardins e Parques Históricos de Lisboa: estudo e inventário do património paisagístico, Lisboa: CEABN-inBio/ISA/ULisboa, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

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lódão-bastardo, ginginha-do-rei (Celtis australis L.)


Ana Pérez-Quiroga Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade

Pratinho Feio Restaurante situado na Rua da Esperança, Santos, comida portuguesa com umas incursões noutras culinárias. Os pratos de fritos são bons, especialmente os camarões e as courgettes. O ambiente agradável e o “staff” atencioso.

British Bar Um dos bares mais célebres da zona do Cais do Sodré foi fundado em 1919 e por ele tem passado toda a intelectualidade. Entre um gole de cerveja de gengibre, de produção própria, e um olho no relógio onde os ponteiros giram em sentido oposto ao habitual, vê-se nas três montras arte contemporânea. Este projeto, foi concebido pelo artista plástico Pedro Cabrita Reis, que apresenta até ao final de abril de 2018, uma mostra de arte produzida por outros artistas de quem gosta, três diferentes a cada mês. Numa das montra, em destaque, uma obra de João Pedro Vale.

Praça do Comércio

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Nome dado por Marquês de Pombal em 1759, para substituir o anterior - Terreiro do Paço, embora este se tenha mantido, coexistindo estes dois nomes até hoje. Projeto do engenheiro-mor Manuel da Maia para reabilitar a praça e os edifícios destruídos pelo terramoto de 1755. Com planta retangular, de três alas em forma de U que abre para o Tejo e que culmina de cada lado com um torreão. O seu eixo principal liga o rio – Cais da Colunas – ao Arco Triunfal da Rua Augusta. No centro da praça a estátua equestre de D. José I, de autoria do escultor Machado de Castro.


Uma noite das mil e uma Um passeio da Madragoa ao Rossio

Rive-Rouge Aberto desde as 5 da tarde até às 4 da manhã, este bar/discoteca de Manuel Reis torna-se por isso um espaço incontornável para quem tem uma vontade imensa de dançar a qualquer hora. Situado no primeiro andar do Mercado da Ribeira e com ligação direta ao Pap’Açorda, outra das grandes referências da gastronomia lisboeta.

Ribeira das Naus Com projeto do arquiteto João Gomes da Silva, esta zona ribeirinha liga a Praça do Comércio ao Cais do Sodré, foi inaugurada em 2014. Conjuga diversos espaços, a parada da Administração Central da Marinha, um reservatório de água na Doca da Caldeirinha, uma esplanada relvada e uma frente em escadaria, ao longo da margem do Tejo, evocando uma antiga praia. É sempre bastante frequentada, tanto de dia como de noite.

Arco da Rua Augusta

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Terminado o coroamento em 1873 com desenho do arquiteto Veríssimo José da Costa. O conjunto escultórico superior, a Glória, coroando o Génio e o Valor, da autoria de Célestin Anatole Calmels e o inferior representando Nuno Álvares Pereira, Viriato, Vasco da Gama e o Marquês de Pombal, de Vítor Bastos. Foi concebido originalmente por Eugénio dos Santos para a reconstrução da Baixa Pombalina. Do topo tem-se uma vista magnífica sobre a praça e o rio.


Placa Informativa Situada junto ao Arco da Rua Augusta, informa-nos sobre o monumento. Apenas salientar que o nome Santos de Carvalho atribuído ao arquiteto que projetou o arco, está incorreto. O nome pelo qual é conhecido é: Eugénio dos Santos, de seu nome completo Eugénio dos Santos e Carvalho. Estas placas foram desenhadas pelo designer francês Philippe Starck, em 1992, originalmente para Paris.

Elevador de Santa Justa Concebido pelo engenheiro Raul Mesnier du Ponsard, numa estrutura em ferro fundido com decoração em filigrana ao estilo Neogótico, que foi inaugurado a 10 de Julho de 1902. Liga a Baixa na Rua Áurea ao Largo do Carmo. No topo tem um cafetaria e um miradouro com uma vista surpreendente sobre Lisboa. Classificado Monumento Nacional, em 2002.

Arco do Bandeira

[134]

Projeto de Manuel Reinaldo dos Santos, dentro do programa de reconstrução da Baixa após o terramoto de 1755. Liga a Praça do Rossio com a Rua dos Sapateiros. Deve o seu nome a Pires Bandeira que pagou a sua construção.


Lápide Comemorativa Situada no empedrado da Rua Augusta, junto ao Arco, da responsabilidade do Movimento ATD Quarto Mundo, do padre Joseph Wresinski, foi inaugurada a 17 de outubro de 1994, prestando homenagem às vitimas da fome, ignorância e violência. O dia 17 de outubro, foi decretado pelas Nações Unidas em 1992, como o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

Fontes da Praça do Rossio A Praça Dom Pedro IV, vulgarmente conhecida por Rossio, tem duas fontes com motivos mitológicos muito ao gosto do Romantismo. Foram colocadas em 1889, sobre dois poços anteriormente aí existentes. Vieram de França da Fundição Val d´Osne, companhia que exportou para toda a Europa e Brasil, com a presumível autoria de Charles Lebourg.

Animatógrafo do Rossio

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Estilo Arte Nova, inaugurado a 8 de Dezembro de 1907, fica no R/c de um prédio pombalino, na Rua dos Sapateiros, junto ao Arco do Bandeira. Dividindo a fachada em três vãos, com uma decoração em talha pintada de verde com motivos vegetalistas, bandeiras em vidro, painéis de azulejos policromados da autoria de Q. Queriol, onde figuras femininas seguram candeeiros numa alusão à iluminação do mundo. Foi concebido como cinema, tornou-se sala de espetáculos e hoje exibe peep shows. Classificado como Conjunto de Interesse Público.


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Clรกssico

Cosmopolita

Alternativo

Hipster

Multicultural

Para entrar

LIS BO NAR O Nosso Guia de Lisboa

[137]

Tradicional


Mapade

Lisboa COA

PR

SLM

AP

[138]

ZR


AR

BXM

AV GM

CA

BA BC

ZR - Zona Ribeirinha AP- Alcântara | Pampulha COA - Campo de Ourique | Amoreiras SLM - Santos | Lapa | Madragoa PR - Príncipe Real BCS- Bica | Cais do Sodré BA - Bairro Alto AV - Avenida BC - Baixa Chiado CA - Castelo | Alfama GM- Graça | Mouraria AR - Almirante Reis BXM - Beato | Xabregas | Marvila FC - Fora do centro [139]

BCS


CLÁSSICO GAMBRINUS | AV

LUVARIA ULISSES | BC

RESTAURANTE

LOJA

O clássico dos clássicos. A melhor barra e o melhor serviço de Lisboa, que nos faz sentir príncipes ainda que apenas comamos um prego e uns magníficos croquetes com mostarda da casa. Se lhe apetecer algo fora da carta, peça, quem sabe poderá ser surpreendido.

Segunda a Sábado 10h às 19h Rua do Cramo, 87-A 1200-093 Lisboa N 38º 42’ 44’’, W 9º 8’ 22’’ info@luvariaulisses.com +351 213 420 295 www.luvariaulisses.com

Todos os dias das 12h00 à 01h30 Rua das Portas de Santo Antão, 23 1150-264 Lisboa N 38° 42’ 55’’ W 9° 8’ 22’’ +351 213 421 466 www.gambrinuslisboa.com

COELHO DA ROCHA | COA RESTAURANTE

De Segunda a Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Rua Coelho da Rocha, 104 1350-079 Lisboa N 38° 42’ 59’’ W 9° 10’ 0’’ +351 213 900 855 www.facebook.com/restaurantecoelhodarocha

LOJA

Segunda a Domingo 9h00 às 19h00 Rua do Loreto 53, 1200-036 Lisboa N 38º 42’ 38”, W 9º 8’ 41’’ +351 213 425 387 www.cazavellasloreto.com.pt

BAR PROCÓPIO | COA BAR

O POLEIRO | FC

O mais antigo dos clássicos bares lisboetas voltou a estar na moda e ainda bem. Com o melhor barman da cidade, o Sr. Luís, sempre atento aos pormenores e um ambiente familiar, o bar de Alice Pinto Coelho por onde ainda é habitual passarem artistas das mais diversas áreas é o mais icónico da capital.

Segunda a Sábado das 12h15 às 15h00 e das 19h15 às 23h00 Rua de Entrecampos 30 - A 1700 158 Lisboa N 38° 44’ 44’’ W 9° 8’ 45’’ +351 217 976 265 www.opoleiro.com

Segunda a Sexta das 18h00 às 03h00 Sábado a partir das 21h00 Alto de S. Francisco, 21 A 1250-096 Lisboa N 38° 43’ 19’’ W 9° 9’ 19’’ +351 213 852 851 www.barprocopio.com

RESTAURANTE

BAR SNOB | PR BAR

No Snob quase nada mudou. O bife continua bom e o cozido, às sextas, irrepreensível e o Sr. Albino cortês e atencioso como sempre. O quase é reservado ao famoso gelo à Snob, que era picado de grandes blocos e que deixou de existir para dar lugar ao gelo de máquina, mas nem esta pequena contrariedade retira vontade de nos perdermos noite fora em conversas bem regadas. Todos os dias das 16h00 às 03h00 Rua do Século, 178 1200-438 Lisboa N 38° 42’ 54’’ W 9° 8’ 51’’ +351 213 463 723 www.snobarestaurante.com

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VELLAS DO LORETO | BCS


TRADICIONAL SINAL VERMELHO | BA

A VIDA PORTUGUESA | AR

RESTAURANTE

LOJA

Segunda das 19h00 às 00h00 Terça a Sexta das 12h30 às 00h30 Sábado das 19h00 às 00h30 Rua das Gáveas, 89 1200-206 Lisboa N 38° 42’ 44’’ W 9° 8’ 36’’ +351 213 461 252 / +351 213 431 281 www.facebook.com/RestauranteSinalVermelho

Qualquer uma das lojas é um antro de bom gosto e perdição, mas a do Intendente é só uma das mais belas lojas de Lisboa. Tudo é português e ficaria sempre tão bem em nossa casa. Sabonetes Ach. Brito e Claus, faiança Bordallo, Cadernos Emílio Braga e tantos outros produtos ignorados durante anos até que esta maravilhosa loja os ressuscitou. Mais que uma loja isto é verdadeiro serviço público.

RESTAURANTE

Um clássico para o almoço. Óptima cozinha portuguesa, bons grelhados em doses generosas. Poderá ter de esperar algum tempo por mesa, mas nada que uma imperial ao balcão não resolva. Segunda a Sábado das 12h00 às 15h30 e das 19h00 às 22h30 Rua de Campolide, Nº 258 1070-039 Lisboa N 38° 44’ 3’’ W 9° 9’ 52’’ +351 213 883 202 www.facebook.com/tasquinhadolagarto

GINJINHA SEM RIVAL | BC BAR

Rua das Portas de Santo Antão, nº7 1150-268Lisboa N 38° 42’ 54’’ W 9° 8’ 22’’ +351 213 468 231 www.facebook.com/GinjaSemRivaleEduardino

VERDE GAIO | COA RESTAURANTE

Rua Francisco Metras 18B, 1350-138 Lisboa N 38° 42’ 58’’, W 9° 9’ 59’’ +351 213 969 579 www.restauranteverdegaio.pt

SEM PALAVRAS | FC RESTAURANTE

Mercado de Alvalade Avenida Rio de Janeiro, 48 1700-111 Lisboa N 38° 45’ 0.24’’ , W 9° 8’ 14’’ Terça a Sábado: 12:00 - 01:00, Domingo: 12:00 - 22:30 +351 218 461 958

Horário de funcionamento: das 10h30 às 19h30, todos os dias Largo do Intendente Pina Manique 23 1100-285 Lisboa N 38º 43’ 15’’ , W 9º 8’ 5’’ +351 211 974 512 lojaintendente@avidaportuguesa.com

FIDALGO | BA RESTAURANTE

A sugestão deveria ser divagar pelos pratos clássicos da gastronomia português, mas, para além desses, provem o polvo com feijão, com um pouco de picante, uma receita da casa capaz de deitar abaixo uma garrafa de bom vinho tinto. Segunda a Sábado 12h às 15h e 19h às 23h Rua da Barroca 27 1200-047 Lisboa N 38º 42’ 40’’, W 9º 8’ 40’’ +351 213 422 900 www.restaurantefidalgo.com

CONSERVEIRA DE LISBOA | CA LOJA

Há uma pequena loja no Mercado da Ribeira, mas não é comparável à experíencia da loja original onde nos podemos perder no aconselhamento entre sardinha e cavalas, em limão ou tomate picante, todas dentro de embalagens tão deliciosamente vintage como é delicioso o seu conteúdo. Uma instituição. Segunda a Sábado 9h às 19h Rua dos Bacalhoeiros,34 1100-071 Lisboa N 38º 42’ 33’’, W 9º 8’ 4’’ +351 218 864 009 www.conserveiradelisboa.pt

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TASQUINHA DO LAGARTO | FC

Loja Chiado:


COSMOPOLITA MINI BAR | BC RESTAURANTE

Segunda a Domingo das 19h00 à 02h00 Rua António Maria Cardoso, nº58 1200-027 Lisboa N 38° 42’ 33’’ W 9° 8’ 32’’ + 351 211 305 393 www.minipabar.pt

SEA ME PEIXARIA MODERNA | BCS RESTAURANTE/ BAR

Segunda a Quinta das 12h30 às 15h30 e das 19h30 às 00h00 Sexta das 12h30 às15h30 e das 19h30 à 01h00 Sábado das 12h30 à 01h00 Domingo das 12h30 às 00h00 Rua do Loreto, 21 1200-049 Lisboa N 38° 42’ 38’’ W 9° 8’ 39’’ +351 213 461 564/65 www.peixariamoderna.com

CONGA CLUB BAR

As festas gay hétero-friendly mais divertidas da cidade, normalmente no primeiro sábado de cada mês e com localização itinerante. Agora com dois conceitos que alternam, a Conga, com música mais electrónica, e a Fonda, a dar lugar a sonoridades mais pop.

DISCOTECA

Avenida Infante D. Henrique, Armazém A Cais da Pedra de Santa Apolónia 1950-376 Lisboa N 38° 42’ 53’’ W 9° 7’ 15’’ +351 218 820 890 www.luxfragil.com

GALERIAS DE SÃO BENTO | BCS LOJA

R. de São Bento, 25-35 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 38’’ W 9° 9’ 9’’ +351 912 984 929 www.galeriasdesaobento.com

RIVE ROUGE | BCS BAR

O novo bar do Lux, como vai sendo conhecido. Tentando seguir o sucesso das matinées do Lux, o bar abre às 17h00 e continua com dois DJ sets até às 4h00. A qualidade a que o Lux nos habituou, aqui numa versão de bar onde pode tomar um copo tranquilo de fim de tarde, aquecer antes de rumar a outras paragens ou ficar até ao fecho dando um pé de dança.

congaclubmail@gmail.com www.facebook.com/congaclubparty

Terça a Domingo 17h às 04h Praça de Dom Luís|, 1200-148 Lisboa N 38º 42’ 25’’ W 9º 8’ 49’’ +351 213 461 117 rouge@rive-rouge www.rive-rouge.com

COMPANHIA PORTUGUEZA DO CHÁ | BCS

RESTAURANTE INFAME | BC

BAR

De repente Lisboa civilizou-se e passou a ter um lugar para comprar chá, daqueles que apetece mesmo. Onde ficamos a cheirar lotes evitando pedir um saquinho de cada um. Uma viagem pelos aromas que pode ser rematada com uma geleia de chá para lanches mais gulosos. Rua do Poço dos Negros 123 1200-649 Lisboa N 38° 42’ 35” W 9° 9’ 6” +351 213 951 614

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LUX – FRÁGIL | ZR

RESTAURANTE

Largo do Intendente Pina Manique, 1100 - 285 Lisboa N 38° 43’ 14’’ , W 9º 8’ 6’’ www.infame.pt +351 218 804 008


HIPSTER O BOM O MAU E O VILÃO | BCS BAR

Uma casa de copos e cultura. Uma casa porque de um apartamento se trata, transmitindo por isso mesmo um ambiente caseiro, de copos porque tem bares bem servidos, de cultura porque para além do piano muitas vezes utilizado, é variada a programação que vai do cinema à música. Segunda a Quinta das 19h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 19h00 às 03h00 Domingo das 19h00 às 02h00 Rua do Alecrim, 21 1200-161 Lisboa N 38° 42’ 26’’ W 9° 8’ 36’’ +351 964 531 423 www.thegoodthebadandtheuglybar.com

LOUNGE | BCS BAR

Sempre óptima música em bom ambiente e com o horário de fecho bem conveniente (4h00). O melhor prolongamento da noite do Bairro Alto ou Cais do Sodré, antes de decidir se a noite é para ir até ao fim. Segunda a Domingo das 22h00 às 04h00 Rua da Moeda, nº1 - Porta O/P 1200-275 Lisboa N 38° 42’ 28’’ W 9° 8’ 49’’ +351 213 973 730 www.loungelisboa.com.pt/blog

MUSIC BOX | BCS ESPECTÁCULOS

Segunda a Sábado das 23h00 às 06h00 Rua Nova do Carvalho, nº 24 1200-429 Lisboa N 38º 42’ 25.83’’ W 9º 8’ 36.68’’ +351 213 473 188 www.musicboxlisboa.com

TABACARIA | BCS BAR

Um pequeno bar bem sério numa antiga tabacaria, da qual restam alguns móveis, com excelentes bebidas preparadas a preceito. Onda cool e boa música. Segunda a Domingo das 18h00 às 02h00 Rua de São Paulo, nº 75 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 29’’ W 9° 8’ 45’’ +351 213 420 281

SKY WALKER | BA LOJA

Segunda a Quinta das 10h00 às 21h00 Sexta e Sábados das 10h00 às 22h00 Domingo 15h00 às 20h00 Rua do Norte 12 1200-141 Lisboa N 38º 42’ 39.42’’ W 9º 8’ 37.31’’ www.facebook.com/Skywalkerlx

LX FACTORY | AP O templo hipster e cool da cidade. Para comer, beber, comprar ou simplesmente passear. Rua Rodrigues de Faria, nº103 1300-501Lisboa N 38° 42’ 12’’ W 9° 10’ 43’’ +351 213 143 399 www.lxfactory.com

SBSR.FM RÁDIO

A nova rádio Super Bock Super Rock chegou inundada dos melhores sons indie. Ainda nascem rádios no século XXI. E ainda bem. www.sbsr.fm

CAFÉ TATI | BCS BAR

Terça a Domingo das 11h00 à 01h00 R. Ribeira Nova, nº 36 1200-371 Lisboa N 38° 42’ 27’’ W 9° 8’ 43’’ +351 213 461 279 www.cafetati.blogspot.pt

TABERNÁCULO | BCS BAR

Rua de São Paulo, 218 Cais de sodré, Lisboa N 38º 42’ 22’’ W 9º 8’ 42 +351 213 470 216 +351 916 735 926 info@tabernaculo.pt www.tabernaculo.pt

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SÍTIO


ALTERNATIVO 49 | BA

CASA INDEPENDENTE | AR

BAR

BAR

Também conhecido como o bar da Zé dos Bois, instituição da cultura alternativa lisboeta. Bons DJ’s e um ambiente bem descontraído onde se cruzam faunas diferentes em amena convivência.

Terça a Quinta das 14h00 às 23h45 Sexta das 14h00 às 02h00 Sábado das 12h00 às 02h00 Largo do Intendente Pina Manique, 45 1100-395 Lisboa N 38° 43’ 15’’ W 9° 8’ 4’’ +351 218 872 842 ww.casaindependente.com

Quarta e Quinta das 22h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 22h00 às 03h00 Rua da Barroca, 49 1200-043 Lisboa N 38° 42’ 41’’ W 9° 8’ 40’’ +351 213 430 205

FÁBRICA BRAÇO DE PRATA | BXM MIRADOURO DO ADAMASTOR | BCS ESPLANADA

O mítico Adamastor, onde o por do sol é mais bonito, o quiosque serve bebidas e tostas a preços para portugueses e onde o cheiro de substâncias ilícitas envolve um ambiente descontraído onde se cruzam músicos de rua, turistas e lisboetas. Segunda a Domingo das 10h00 às 04h00 Miradouro de Rua de Santa Catarina, 401 1200 Lisboa, Portugal N 38° 42’ 34’’ W 9° 8’ 51’’ +351 213 430 582

DAMAS | GM

BAR / SALA DE CONCERTOS

A nova sala de concertos que é um bar, ou vice-versa. A melhor programação alternativa da cidade. Terça a Quinta das 13h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 13h00 às 04h00 Domingo das 17h00 às 24h00 Rua da Voz do Operário, 60 1100-621 Lisboa N 38° 42’ 59’’ W 9° 7’ 45’’ +351 964 964 416

ASSOCIAÇÃO CULTURAL Terça das 20h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 18h00 às 02h00 Sexta das 18h00 às 04h00 Sábado das 14h00 às 04h00 Rua da Fábrica de Material de Guerra, nº1 1950-128 Lisboa N 38° 44’ 37’’ W 9° 6’ 4’’ +351 965 518 068 | +351 925 864 579 www.bracodeprata.com

FINALMENTE | PR BAR

O bar gay mais antigo da cidade, por onde passou meia Lisboa nos tempos em que a noite a n que mantém um show de travestis em periodicidade diária. Para uma noite realmente diferente. Vá numa segunda-feira quando a noite parece morta e divirta-se com as audições do “lugar às novas”. Segunda a Domingo 23h59 às 6h Rua de Palmeiras 38 1200-313 Lisboa N 38º 42’ 53” W 9º 8’ 59’’ +351 213 479 923 info@finalmenteclub.com www.finalmenteclub.com

CHAPITÔ | CA

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Costa do Castelo, n.º 1/7 1149-079 Lisboa N 38° 42’ 41’’ W 9° 8’ 1’’ + 351 218 855 550 www.chapito.org


MULTICULTURAL MUITO BEY | BCS RESTAURANTE

Segunda a Quinta 12h às 15h e 19h30 à 00h Sexta a Sábado 12h às 15h e 19h30 à 01h Rua Moeda 8, 1200-148 Lisboa N 38º 42’ 29’’ W 9º 8’ 48’’ +351 211 580 788 geral@muitobey.com www.facebook.com/MuitoBEY

IN BOCCA AL LUPO | PR PIZZARIA

Quarta a Domingo 19h ás 23h Rua Manuel Bernardes 5, 1200-009 Lisboa N 38º 42’ 53’’ W 9º 9’ 8” +351 213 900 582 reservas@inboccallupo.pt www.inboccaallupo.pt

IL MATRICIANO | BCS CAXEMIRA | BC RESTAURANTE

O melhor indiano de Lisboa, por isso sempre cheio. Não se assuste com a entrada, suba ao primeiro andar, não perca as chamuças e vá provando os pratos. Sim, porque vai voltar várias vezes. Segunda a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 18h30 às 22h00 Rua Condes de Monsanto, 4 1100 Lisboa N 38° 42’ 48’’ W 9° 8’ 12’’ +351 218 865 486 | +351 218 874 791

CASA PAU-BRASIL | PR LOJA

Aberto das 12h00 às 20h00 Sábado e Domingo até às 18h00 Rua da Escola Politécnica, nº42 1250-096 Lisboa GPS: N 38° 43´ 2´´, W 9° 8´ 59´´ +351 213 420 954

PISTOLA Y CORAZÓN | BCS RESTAURANTE

Vá cedo, ou prepare-se para esperar. Aqui não há reservas, mas margaritas gulosas que não se consegue parar de beber. E tacos, muitos e variados, num ambiente animado e ruidoso. Almoço: Terça a Sexta das 12h00 às 15h00 Jantar: Segunda a Domingo das 18h00 às 00h00 Almoço: Domingo das 12h00 às 15h00 Rua da Boavista, 16 1200-427Lisboa – Portugal N 38° 42’ 31’’ W 9° 8’ 51’’ +351 213 420 482 www.pistolaycorazon.com

RESTAURANTE

Segunda a sábado das 12h00 às 15h30 e das 20h00 às 00h00 Rua de São Bento 107 1200-109 Lisboa GPS: N 38° 42´ 43´´, W 9° 9´ 10´´ +351 213 952 639 Reservas: thefork.pt

OS TIBETANOS | AV RESTAURANTE

Segunda a Sextas das 12:h15 às 14h45 e das 19h30 às 22h30 Sábados das 12h45 às 15h30 e das 20h00 às 23h00 Domingos das 12h45 às 15h30 e das 19h30 às 22h30 Rua do Salitre, 117 1250-198 Lisboa N 38° 43’ 11’’ W 9° 8’ 55’’ +351 213 142 038 | +351 932 846 610 www.tibetanos.com

EL ULTIMO TANGO | BA RESTAURANTE

Um dos melhores bifes de Lisboa, de carne argentina, grelhado, acompanhados de batata assada com manteiga de ervas e salada de agrião. Tudo em ambiente calmo, para fumadores e com o melhor tango do mundo como banda sonora. Segunda a Quinta das 19h30 às 23h00 Sexta e Sábado das 19h30 às 23h30 Rua do Diário de Notícias, 62 1200 Lisboa N 38° 42’ 43’’ W 9° 8’ 38’’ +351 213 420 341

HANSI | BCS Aberto todos os dias Rua da Moeda 1A 1200-275 Lisboa GPS: N 38° 42´ 27´´, W 9° 8´ 50´´ +351 211 323 185 www.hansi.pt

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RESTAURANTE


PARA ENTRAR MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA | SLM A casa de Portugal. O nosso grande museu onde encontrará, entre uma enorme quantidade de obras-primas, os painéis de S. Vicente, obra máxima da pintura portuguesa. Exposição 24 de Fev. a 9 de Abr. A Cidade Global A Lisboa do Renascimento Terça a Domingo das 10h às 18h Rua das Janelas Verdes 1249-017 Lisboa N 38° 42’ 17’’ W 9° 9’ 41’’ +351 213 912 800 www.museudearteantiga.pt

MAAT | ZR O novíssimo e vanguardista museu da Fundação EDP. Um edifício belíssimo sobre o Tejo e exposições de arte contemporânea pensadas para o local. Exposição a partir de 22 de Março Sala Oval Ordem e progresso de Hector Zamora Quarta a Segunda das 12h às 20h Av. Brasília, Central Tejo 1300-598 Lisboa N 38° 41’ 44’’ W 9° 11’ 41’’ +351 210 028 130 www.maat.pt

CONVENTO DOS CARDAES | PR Um tesouro escondido no centro da cidade. Não vamos dizer nada mais. Vá lá.

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Segunda a Sexta das 14h30 às 17h30 Rua Eduardo Coelho, nº1 1200-164 Lisboa N 38° 42’ 53’’ W 9° 8’ 53’’ +351 213 427 525 www.conventodoscardaes.com

MUSEU DA MOEDA | BC Quarta a Sábado, das 10h00 às 18h00 Rua de S. Julião 150, 1100-150 Lisboa N 38° 42’ 30” W 9° 8’ 20” www.museudodinheiro.pt +351 213 213 240

MUSEU DO CHIADO | BC Exposição Amadeo de Souza Cardoso Publico em Geral : Quintas 15h30 Sábados 12h Grupos Terça a Domingo Rua Serpa Pinto 4, 1200-444 Lisboa N 38º 42’ 34” W 9º 8’ 27” +351 934447678 se.amadeo@gmail.com www.museuartecontemporanea.pt

CONVENTO DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA | BA Outubro a Março: de Terça-feira a Domingo, das 10h00 às 18h00. Segunda-feira das 14h00 às 18h00 Abril a Setembro: Terça-feira a Domingo, das 10h00 às 19h00. Segunda-feira das 14h00 às 19h00. Quinta-feira das 10h00 às 20h00. Rua São Pedro de Alcântara, 85 1200-089 Lisboa N 38° 42’ 54’’ W 9° 8’ 41’’

CULTURGEST | FC Segunda a Sábado das 12h30 às 18h30 R. Arco do Cego 50, 1000 Lisboa N 38º 44’ 24’’ W 9º 8’ 33’’ +351 217 905 155 www.culturgest.pt

MUSEU DO FADO | CA Terça a Domingo 10h às 18h Largo Chafariz de Dentro 1, 1100-139 Lisbon N 38º 42’ 40’’ , W 9º 7’ 39’’ +351 218 823 470 www.museudofado.pt


FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN | FC Exposição Até 05 de Junho João de Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno. Segunda a Sexta 9h às 13h e das 14h30 às 17h30 Av. de Berna, 45 A 1067 – 001 Lisboa N 38º 44’ 14’’ W 9º 9’ 15’’ +351 217 823 000 info@ gulbenkian.pt www.gulbenkian.pt

CARPINTARIA DE SÃO LAZARO | AR Exposição Até 01 de Maio Los Carpinteros Quarta a sábado 15h às 19h R. São Lázaro 72, 1150-199 Lisboa Nº 38º 43’ 6’’ W 9º 8’ 10’’ www.facebook.com/CarpintariasdeSaoLazaro/

MUSEU DE LISBOA | FC Exposições: Até 18 de Junho Palácio Pimenta A Lisboa que teria sido.

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Museu de Lisboa Palácio Pimenta | Museu de Lisboa – Santo António | Museu de Lisboa – Teatro Romano Terça a Domingo das 10h00 às 18h00 Museu de Lisboa – Casa dos Bicos De Segunda a Sábado das 10h00 às 18h00 Palácio Pimenta Campo Grande 245, 1700-091 Lisboa N 38° 45’ 30” W 9° 9’ 23” +351 217 513 200 www.museudelisboa.pt


“Podia ter sido eu” Como se morre só por ser mulher.

por João Moreira

Vale Fiorini

Andrea Danne, Maria Luísa Quevedo e Sarita Mundín. Três adolescentes assassinadas. Três mulheres assassinadas no interior da Argentina na década de 80 do século passado em três crimes que continuam por solucionar. Três “Raparigas Mortas”, como lhes chamou Selva Almada, também ela adolescente na época, que resolveu investigar a fundo estas três mortes e transformá-las num livro de um realismo poético avassalador. “Eu tinha treze anos, e naquela manhã a notícia da rapariga morta chegou até mim como uma revelação. A minha casa, a casa de qualquer adolescente, não era o lugar mais seguro do mundo. Dentro de nossa casa podiam matar-nos. O horror podia viver sob o mesmo tecto que nós.(...) Três adolescentes de província assassinadas nos anos oitenta, três mortes impunes ocorridas quando ainda, no nosso país, desconhecíamos o termo femicídio. (...) Não sabia que uma mulher podia ser morta pelo simples facto de ser mulher, mas tinha ouvido histórias que, com o tempo, fui alinhavando. Episódios que não tinham terminado na morte da mulher, mas que a tinham tornado objecto de misoginia, de abuso, de desprezo.”

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Selva Almada in “Raparigas Mortas” - Edições D. Quixote


Bica: A tua escrita, em particular “Raparigas Mortas” (Edições D. Quixote), “El viento que arrasa” e “Ladrilleros”, inscreve-se numa tradição antiga na Argentina de contar histórias sobre o interior, sobre a província... Sim, é verdade.

Tu própria és uma rapariga do interior, nascida em Villa Elisa, Província de Entre Rios. (Risos) Sim, sou daí. É verdade que na Argentina sempre existiu uma forte tradição de escritores provincianos que se perdeu um pouco naquilo a que chamamos a literatura dos anos 80 e 90. Entretanto renasceu, até antes dos meus livros, com outro escritor da minha geração que se chama Hernán Ronsino que me parece ter sido o primeiro a voltar a utilizar o interior como possibilidade narrativa. Eu, quando comecei a escrever, vivia em Entre Rios.

Em Paraná, como estudante de literatura? Sim, em Paraná como estudante, e os contos que escrevia eram, por assim dizer, mais urbanos, com outro tipo de personagens. Só quando fui viver para Buenos Aires é que comecei a escrever sobre a província.

Saudades? Não sei. Talvez um pouco de nostalgia. Talvez o distanciamento, que nos faz valorizar coisas de que no dia a dia não nos apercebemos. Francamente não sei. Também me encontrei com escritores, ou comecei a ler escritores como o Zelarayán que é um escritor “entreriano”, que embora poeta, escreveu uma novela muito boa e muitos outros da minha província que tinham muito valor e que nunca tinha lido enquanto vivi em Entre Rios. Foi aí que começaram a aparecer as histórias, as personagens, que comecei a trabalhar um determinado tipo de linguagem, a linguagem com que tinha sido criada.

E que cuidas muito bem!

Sim, (risos) gosto muito de trabalhar com esse material. Mas essa ideia de escrever sobre o interior surgiu sem um plano. Eu não decidi, de repente, resgatar a tradição de escritores provincianos. A escrita começou a encaminhar-se por aí e dei-me conta que era por aí que queria continuar a ir e assim foi (risos).

Nos teus romances existe uma forte componente de violência. É algo muito comum no interior argentino? É o que mais me chama a atenção ou o que me parece mais interessante para trabalhar. Até pensando na perspectiva de quem vive em Buenos Aires ou em cidades maiores, onde há uma espécie de visão ingénua sobre o interior de que só me apercebi quando me mudei para lá. Uma ideia romântica de que no interior nunca se passa nada, de que as pessoas são boas, que dormem com as portas abertas (risos). Uma visão completamente errada, porque embora no interior não exista o mesmo tipo de violência que se vive nas grandes cidades, isso não significa que não exista violência. Há outro tipo de violência que não chega aos media nacionais, aos jornais ou à televisão nacional, até porque a Argentina é um país muito centralista. Mas essa violência existe. Para mim, que vivi numa povoação muito pequenina, é como se existisse uma calma aparente à superfície, mas com um vulcão por baixo. Quando o vulcão explode, fá-lo de uma maneira tremenda. Eu recuo ao meu tempo de criança em Villa Elisa e recordo as mortes trágicas. Havia imensas mortes trágicas: mortes em rixas de bar, mortes por disputas de terras, acidentes tremendos de mota e carro por o condutor conduzir embriagado, muitas mortes violentas que fazem parte do quotidiano das pequenas povoações e que são desconhecidas nas grandes cidades. Foi essa visão ingénua que notei nas pessoas de Buenos Aires, que me deu vontade de investigar um pouco mais sobre essas histórias, de contar essas histórias.

Histórias de violência muitas vezes familiar e psicológica como em “El viento que arrasa” ou em “Ladrilleros”. A propósito desses dois romances, como te surge a estrutura narrativa do livro? Isto porque “El viento que arrasa” é todo passado numa tarde e “Ladrilleros” durante os últimos momentos de vida de dois moribundos. Estas estruturas estavam pré-definidas quando começaste a escrever ou foram-se construindo ao longo do romance?

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De passagem por Portugal, conversámos com Selva Almada a propósito de “Raparigas Mortas” editado pela D. Quixote e do impacto que teve no seu país e no mundo na denúncia do femicídio na Argentina.


No caso de “El viento que arrasa” não tive essa ideia no princípio, foi-se construindo no decurso da escrita, mas houve um momento chave, em que eu pensei - Vou parar e construir um esquema mínimo para me orientar – e acabei por definir assim a estrutura. No caso de “Ladrilleros” quando comecei a escrever a história sabia que ia começar quase pelo fim. Que a trama iria decorrer antes que as duas personagens morressem e que essa agonia ia durar todo o livro e que recorreria a um flashback que explicasse como eles tinham chegado ali. Nesse caso tinha a estrutura definida desde o princípio. Comecei a escrevê-lo pensando que ia suceder dessa maneira, mas corrigi-o bastante.

Gostas de corrigir? (Risos) Gosto muito de corrigir! (risos). O que mais gosto na escrita é a correcção.

E não gostas de viajar. Pelo que sei, preferes ficar por casa com os teus gatos (risos). Sim, viajo muito e às vezes custa-me viajar tanto porque me interrompe muito a escrita.

Escreves em casa? Escrevo em casa, embora tenha de começar a aprender a escrever nos hóteis (risos).

O teu espaço é importante para a tua escrita? Sim. Para mim, sim. A verdade é que muitos dos meus amigos escrevem em qualquer lado, escrevem em bares, há muita gente que gosta de escrever em bares. Eu não consigo. Distraio-me muito rapidamente com tudo, então, o lugar onde me distraio menos é em casa.

“Raparigas Mortas” relata três casos de assassinato de adolescentes na província de Entre Rios na década de 80, uma época que corresponde à tua adolescência e é completamente diferente dos livros anteriores porque envolve um enorme trabalho de investigação jornalística.

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Sim. Antes de começar a escrever o livro fiz o trabalho que faz qualquer jornalista para poder escrever sobre factos reais: investiguei, fiz entrevistas, consultei o processo judicial, os registos policiais, os arquivos dos jornais para ver como tinham tratado a noticia na época... uma série de coisas que não estava habituada a fazer.

Algo que surpreende porque foi feito muito tempo antes de começares a escrever o livro, sem saberes sequer se o escreverias algum dia. Não. Eu sempre soube que escreveria este livro só não sabia a forma que iria ter. Mais uma vez voltamos à estrutura narrativa, neste caso encontrei-a quando comecei a escrever. Sabia que queria escrever este livro, mas não sabia a forma que esse livro ia ter. Assim como sabia que para escrevê-lo necessitava de investigar e falar com as pessoas que tinham conhecido aquelas três raparigas.

Tantos anos passados, como decorreram essas entrevistas com familiares e amigos? Pelo lado dos familiares, no caso dos que aceitaram falar, era algo de muito sensível e que me preocupava, porque o facto de eu ir falar com eles implicava relembrar um acontecimento terrivelmente doloroso e que continuava por encerrar. Mas descobri que havia muita necessidade da parte deles de contar, de dar a conhecer essas histórias, recordar isso depois de tanto tempo. Então, essa parte foi mais fácil do que esperava. Por outro lado, temos de ter a noção de que, como acontece com qualquer memória, passado tanto tempo, as pessoas começam a ficcionar, a inventar, a criar cenários que não existiram na realidade. Daí a importância de recorrer aos arquivos. Por exemplo, o caso da mãe do namorado de Andrea, que recorda a cena do assassinato como super sangrenta, com sangue por todos os lados, tudo revolvido, quando na realidade o cenário relatado pelos peritos era completamente diferente. Ela acreditava realmente ter visto o que de facto não viu.

Há algo que está presente em todo o livro de forma muito marcante, que é a percepção de que uma daquelas raparigas mortas podias ser tu. Não foi uma premissa de que parti, foi uma conclusão a que cheguei. Só depois de ter feito as entrevistas, lido os relatórios, feito toda a investigação, conversado com a taróloga é que tive a percepção de que apenas tive mais sorte do que aquelas três raparigas, nada mais. A partir daí sim, comecei a contruir o livro sobre essa ideia. Recordo, por exemplo, o episódio em que relatas as diversas vezes que viajaste à boleia... Isso era algo usual. Tinha a ver com viver uma vida mais ou menos livre, sem as restrições com que nos tinham educado. Nós


Sentes que o teu livro contribui para alertar a sociedade Argentina para o horror do femicídio? Sim. O livro vendeu muito e acabou por ter uma grande visibilidade. Por exemplo, muitas professoras leram o livro nas escolas aos seus alunos e isso foi surpreendente para mim e deixou-me muito feliz. Era algo que nunca imaginei que pudesse acontecer e hoje convidam-me para ir às escolas falar sobre ele às adolescentes. Sinto que esse é um contributo importante para o combate ao femicídio.

Notam-se mudanças? Não por causa do livro, mas sim, muito tem mudado. Ainda falta percorrer um longo caminho, mas pelo menos hoje já se fala abertamente desses temas. As pessoas já não são indiferentes ao drama das mulheres. Hoje já não é encarado como normal um marido matar a mulher por ela se querer divorciar. Há muito mais consciência e preocupação, sobretudo por parte das mulheres.

Mesmo politicamente existe uma maior preocupação com a violência contra as mulheres? Sim, sim. Na Argentina, nos últimos anos, foram promulgadas leis muito boas no que diz respeito à violência em geral e aos femi-

cídios em particular. Estipulou-se, por exemplo, uma pena de prisão perpétua para os femicidas, no entanto, o que se passa é que nem todos os casos de femicídio são tratados como tal pelas autoridades policiais. A maior parte acaba por ser definida como homicídio qualificado que tem uma pena máxima de 25 anos, por isso eu diria que a lei existe, mas não é aplicada. Mas é inegável o enorme progresso em relação a estes temas.

O que mudou na Argentina desde os anos 80, época da tua adolescência e início da democracia, até hoje? Mudou muitíssimo no sentido político, na liberdade de manifestação e de expressão, mas continuo a sentir os mesmos preconceitos em relação ao papel da mulher e a este tipo de crimes. Quando sai uma notícia de um femicídio, o foco continua a ser colocado sobre a vida privada da vítima – o que fazia, como se vestia... Continua uma sociedade muito conservadora? Sim. Neste sentido sim. Em vez de perguntarmos porque é que o femicida, o homem, fez o que fez, perguntamos o que a vítima, a mulher, fez para que a matassem. Isso é tremendo! Nesse sentido não mudou quase nada e muitas vezes são os meios de comunicação que fomentam esse olhar preconceituoso.

E para ti o que mudou desde Villa Elisa até Buenos Aires? Quando parti para Buenos Aires sabia que queria escrever e que queria viver da escrita. Não sabia se ia conseguir e não foi fácil nos primeiros anos, mas a verdade é consegui. Por isso, desde Entre Rios, tudou mudou. Os livros mudaram a minha vida. Pude finalmente ser escritora.

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crescemos ouvindo “não passes por aí”, “não fales com pessoas que não conheces”. Havia um temor permanente, como se de alguma maneira te ensinassem a ter medo por seres mulher. Mas sempre medo de estranhos, nunca de familiares, nunca de quem te rodeava e uma característica comum a quase todos os casos de femicídio na Argentina é o facto de serem cometidos por homens do círculo íntimo da mulher e não por desconhecidos.


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Notícias do Brasil por Francisco Mallmann

I pessoas discutem o futuro do país “são os artistas que estão acabando com tudo” uma delas cogita ir para Miami fugir do terceiro mundo fuga entre os gestos mulheres comentam temas importantes “a ideologia de gênero quer transformar nossos filhos em monstros” uma delas escreve em letras maiúsculas ódio entre as teclas homens se casam com homens mulheres se casam com mulheres e adotam crianças órfãs “são essas as pessoas que acabam com a família tradicional brasileira” um deles diz que se pudesse matava com as próprias mãos fúria entre os braços pessoas ateiam fogo na boneca de uma filósofa “queimem a bruxa” várias delas citam a bíblia e desconsideram a palavra amor

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incêndio entre os cidadãos


duas mulheres integram um colóquio “está morta a democracia nos trópicos depois de um golpe que é antes de tudo misógino” uma delas bebe água susto entre os presentes pessoas evocam deus “deixem aqui nesta caixa contribuições monetárias de no mínimo 100 reais” uma delas grita dizendo que deus está soprando palavras em seu ouvido céu entre os fiéis homens assaltam uma loja “não te faço mal nenhum se passar todo o dinheiro” um deles está armado e carrega uma fotografia dos filhos no bolso história entre os tiros homens brancos com idades entre dezoito e trinta anos são o perfil de quem comete crimes de ódio no país “isso deve ser mentira” um deles tem certeza de que as estatísticas fazem parte de uma conspiração comunista privilégio entre as palavras homens desapropriam terras indígenas como se costuma fazer há mais de 500 anos no país “eles são só índios que atrapalham o progresso” um deles diz com sorriso no rosto sangue entre os dedos

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políticos encontram brechas para tornar a escravidão legal novamente no país “isso é somente uma forma de flexibilizar o que se entende por trabalho” um deles diz crime entre as gravatas


pessoas e instituições censuram arte e manifestações artísticas confundindo-as com pedofilia “imagina só se deixaremos isso ser chamado arte” uma delas se exalta e desmaia novelas entre as ideias mulheres marcham em todo o país contra a tentativa do governo de tornar crime o aborto até em caso de estupro “as mulheres não estão aptas a escolher” um deles afirma publicamente cinismo entre os homens pessoas afirmam com muita convicção que o racismo estrutural é uma invenção de pessoas negras que se vitimizam “eles mesmos são preconceituosos” diz um apresentador de televisão ignorância entre as bocas o presidente gasta 32 bilhões de reais pagando aliados para barrar duas denúncias criminais contra ele “é uma espécie de incentivo” um deles diz temor entre a nação

II estarão cheias as praias nesse verão sim estarão cheias e o nosso carnaval será novamente lindo sim certamente será lindo

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esquecimento entre os corpos


Estrada da Luz. Obra Poética e Iconográfica de Branca de Gonta Colaço

em 1880 e falecida em 1945, a três meses e meio de completar 65 anos de idade.

por João Gomes Esteves Historiador, Investigador de Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher.

Num livro invulgarmente cativante e estimulante, desde a fotografia da capa, da autoria de Tiza Gonçalves, ao grafismo, onde nenhum pormenor é descurado, à organização e ao conteúdo, as Autoras vão muito para além do objetivo primeiro de fixar definitivamente a obra poética de Branca de Gonta Colaço e desvendam-na no seu tempo, num tempo em que as mulheres procuravam deixar de estar confinadas à esfera privada e arriscavam irromper na pública. Ao mesmo tempo que facultam a releitura dos quatro únicos livros de poesia editados em vida – Matinas (1907), Canções do Meio Dia (1912), Hora da Sesta (1918) e Últimas Canções (1926) – e de um póstumo (Abençoada a Hora em que Nasci, 1945), pensado e estruturado pela escritora e que, sintomaticamente, se inicia com a poesia “A meu pai” e encerra com o poema “Ao meu neto”, as Autoras, através de uma criteriosa e inédita Iconografia, repartida por 148 figuras, como que repõem o leitor no seu ambiente familiar e, simultaneamente, transportam-no para as sociabilidades públicas, dadas a conhecer através de fotografias devidamente identificadas e de fac-simile de dedicatórias de e para Branca de Gonta Colaço.

Estrada da Luz. Obra Poética e Iconográfica de Branca de Gonta Colaço

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Há Vidas que, mesmo que olvidadas, não conseguem ser silenciadas e que, inesperadamente, renascem com outro fulgor e intensidade. Porque o tempo não se lhes sobrepõe e porque há quem as reponha - com o seu olhar, dedicação e generosidade - na História de onde, afinal, nunca saíram. Eis que, 72 anos depois da última edição, póstuma, de um livro de poesias de Branca de Gonta Colaço, Anabela de Campos Salgueiro (Ana Campos) e Inês da Conceição do Carmo Borges proporcionam em Estrada da Luz - Obra Poética e Iconográfica de Branca de Gonta Colaço, publicada em 2017 pela Palimage, a redescoberta da poetisa, dramaturga, conferencista, ativista e cidadã nascida

A família, as casas, os lugares, os amigos, as ligações à Família Real ou à intelectualidade da época brotam de cada imagem, pintura, retrato, desenho ou livro, evidenciando, assim, Anabela Campos e Inês Borges facetas ignoradas de Branca de Gonta de Colaço, recorrendo, em cada caso, a adequada explicação e enquadramento espácio-temporal, com notas rigorosas e minuciosas. E se Branca de Gonta Colaço era próxima da Família Real e amiga de Olga de Moraes Sarmento, a seleção iconográfica revela-nos também uma Branca de Gonta Colaço próxima de Maria Archer – cuja mãe militou na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas – de Sara Beirão e de Maria Lamas, todas ativistas do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, organização a que também pertenceu entre 1922 e 1945, sendo Presidente da Seção de Paz e Arbitragem. As Autoras não recuperam “só” o legado poético. A pesquisa iconográfica constitui uma excelente fotobiografia, de consulta e


estudo obrigatórios pela seleção e qualidade das imagens: com início na Tela de Branca de Gonta Colaço, da autoria do Mestre Carlos Reis (1921), e concluída com o Retrato pictórico executado por Marie-Louise Verbruggen-Krähenbühl (1945), são muitos os rostos dados a (re)conhecer, com destaque para os femininos que a foram rodeando durante a sua vida. Mas este estudo abarca, também, o “Prefácio” de Mária de Carvalho ao livro póstumo saído em 1945 e a extraordinária prosa do Regulamento da Pensão dos Remexidos (da Casa da Estrada da Luz), da Família de Branca de Gonta Colaço, que incluía preceitos plenos de humor e de sabedoria como “Cada um puxa para seu lado, e todos de acordo.”; “Ninguém vai aonde não quer ir. Ninguém deixa de ir onde quer.”; “«Apetece-me» ou «não me apetece» são as únicas explicações a dar.”

Dona Georgina 2011

Foram precisos setenta e dois anos decorridos sobre o seu desaparecimento físico e muito mais sobre o seu Testamento, onde expressa que “não cairei no ridículo de deixar disposições acerca do pouco ou nada que escrevi. Tudo isso morreu antes de mim. Por feliz me daria se na memória dos meus queridos filhos, perdurassem durante algum tempo alguns versos ou dizeres meus”, para esses serem resgatados e repostos nas Letras Portuguesas por Anabela Campos e Inês Borges. A Professora Catedrática Isabel Ponce de Leão assina o Prefácio Abençoada a Hora, adjetivando Estrada da Luz como “magnífico volume”; José Valle de Figueiredo, poeta e ensaísta, Diretor do Centro de Estudos Tomaz Ribeiro, serve-se do título da obra póstuma de Branca de Gonta Colaço - Abençoada a hora em que nasci - para evocar a poetisa; e as duas autoras apresentam Breve Sumário da Poesia de Branca de Gonta Colaço, completada com uma Nota Biográfica - Cronologia. A obra encerra com Branca de Gonta Colaço e a Rainha D. Amélia, Posfácio de José Alberto Ribeiro, Diretor do Palácio Nacional da Ajuda.

Por esta completíssima edição, aguardam-se futuros desafios de Ana Campos e de Inês Borges, autoras que, incorporando percursos académicos e profissionais díspares, legaram-nos uma obra de inegável coerência e rigor.

Disponível nas lojas | Available at: Portfolio - Aeroportos de Lisboa e Porto Corte Inglês – Lisboa e Porto Garrafeira Big Wine – Cascais Estado D’Alma – Lisboa Delidelux – Lisboa Garrafeira Néctar das Avenidas – Lisboa

e-shop www.quintadelemos.com

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Corolário de um trabalho notável de investigação e de muita persistência, em boa hora saiu este livro que não só passa “a constituir a edição de referência da poesia de Branca Eva de Gonta Syder Ribeiro Colaço” como rompe com uma invisibilidade consentida e reata vínculos intemporais a Parada de Gonta, terra natal do pai (o estadista e poeta Tomaz Ribeiro), e a Tondela.


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A noite em preâmbulo é o sol que se põe em fogo por André Serpa Soares

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A noite é o escuro A noite é a lua mentirosa A noite são as luzes da cidade A noite é o reflexo da cidade no rio A noite é um jantar a dois A noite são promessas A noite são ilusões A noite são cheiros A noite é a tua voz o teu toque o teu corpo A noite é beijar e fazer amor A noite é terna ou violenta A noite é música A noite é festa ou escuridão e solidão A noite é vaguear trôpego de rua em rua de porta em porta de bar em bar A noite é uma bebedeira A noite é o riso A noite é o pranto A noite é cansaço e frio e deitar no sofá com uma manta A noite é a telenovela A noite é futebol A noite é deitar as crianças A noite é estar a ler A noite é insónia A noite é escrever A noite é a nossa cama e dormir A noite é acordar A noite são as estrelas no céu alentejano A noite é o que antecede o novo dia A noite é a calma A noite é a revolução A noite é a contemplação A noite é o princípio A noite é o fim


B

A CAM BOA M

GARFO OURO

A ES

A O

2017

Em perfeita harmonia com a natureza, as vinhas da Quinta de Lemos e a tranquilidade das paisagens do Dão, o restaurante Mesa de Lemos oferece aos seus clientes uma gastronomia com produtos nacionais trabalhados com imaginação e em plena comunhão com as técnicas da cozinha moderna num espaço de excelência, sofisticado, moderno e acolhedor. O Mesa de Lemos foi distinguido com o Garfo de Ouro 2017, pelo Guia do Expresso, ‘Boa Cama Boa Mesa’.

Quinta e Sexta - das 20h às 24h Sábado - das 12h às 15h e das 20h às 24h Domingo - das 12h às 15h

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Magnรณlia

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por Limin Lin


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POSTAIS PERDIDOS Por João Albuquerque Carreiras Hong Kong 20-XI-16 Caríssimo, Espero encontrar-te bem desse outro lado do mundo que é o nosso, mais tranquilo do que esta selva urbana feita de prédios (quase) todos eles maiores do que o maior que temos em Lisboa. Aqui vim parar por coincidências da vida, pois não tinha na minha lista de viagens a passagem por Hong Kong, mas tendo por rumo as terras de Sião, aproveitei para visitar um amigo e eis-me nesta China de colonização britânica. Não esperava assim muito desta terra, que não fosse rever um bom amigo e pôr a conversa em dia, aproveitando para visitar Macau, esse longínquo ex-Portugal. Mas, como tantas vezes sucede em lugares que menosprezamos, fui surpreendido pela positiva, numa dessas surpresas que nos relembram do bom que é viajar, em particular quando o fazemos sem ideias feitas, abertos a tudo o que apareça.

cos rooftops onde se tomam cocktails sobre um cenário de luzes, da óptima comida, seja em modernos restaurantes de nível mundial ou em tradicionais restaurantes chineses para onde temos de levar guardanapos de papel pela estranha ausência dos mesmos. Mais que tudo gostei do divertido e descontraído mid-level, ou Soho, bem longe da opressão do luxo que domina a cidade. Definitivamente encontrei aqui o Hong Kong à minha medida, perdendome nas galerias e lojas de design do PMQ (onde antes viviam famílias de polícias e hoje encontramos o melhor design do mundo), ou nos bares e restaurantes cool, com uma boa onda que muito contrasta com o resto da cidade e muito se aproxima do melhor que temos no ocidente. Realmente não esperava gostar tanto, mas fui conquistado por Hong Kong. Grande abraço, João

Sabia que esta era uma enorme polis, com o consumo a saltar a cada esquina, mas fui surpreendido pela sofisticação da cidade, em que as filas para as lojas de luxo são maiores que os saldos em lojas baratas na Europa. Esta onda consumista não me atrai per si, mas não deixa de ser fascinante percorrer estes centros comerciais, bem desenhados e concebidos, e mergulhar nestes antros de cartões de crédito. Claro que não fosse só isso e a cidade apenas me teria surpreendido, mas ela não é somente uma floresta de arranha-céus.

Alexandre-Yacine SOULEYE

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Gostei do contraponto das praias de Stanley ou Repulse e do caminho por entre o verde até lá chegar, gostei da vista noturna desde Kowloon, gostei desta escala desmesurada, dos magnífi-


ENTREVISTA Pedro Cabrita Reis

Pedro Cabrita Reis nasceu em 1956, em Lisboa, cidade onde vive e trabalha. Dotado de uma personalidade intensa, e um espírito interrogativo e inquieto, as conversas com Cabrita Reis nunca têm fim. Os temas levamnos pela história de arte e da humanidade, questionam o mundo e os deuses.

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Nos últimos meses, este Lisboeta, que representou Portugal na Bienal de Veneza de 2003, tem apresentado a sua obra no AtelierMuseu Júlio Pomar em Lisboa, em Buenos Aires e para além de um filme sobre refugiados de Margarida Gil, os seus trabalhos, juntamente com os do artista italiano Giorgio Morandi, exibem-se em Londres. É razão, sem dúvida, para estar orgulhoso do seu percurso. Hoje falamos da sua relação com a cidade e falar de cidade é falar de história, de pessoas, de lugares. A proximidade da Escola Nacional de Belas-Artes de Lisboa fez de Pedro Cabrita Reis frequentador de um Bar no Cais de Sodré, um bar de ingleses e de porto, de passagem e de cervejas em copos altos, com uma atmosfera imutável mesmo quando quase tudo lá fora mudou. A sua memória das horas que passou em tertúlias ou sozinho numa mesa deste bar, levaram-no agora a criar um projecto que inaugura todas as últimas sextas feiras do mês do ano 2017, apresentando nas montras deste espaço, a obra de três artistas, por vezes também de arquitetos.

por Veronica Mello João Ferrand João Ferro Martins

Sobre a contemporaneidade, Cabrita afirma “que todas as obras de arte têm um tempo comum, que é o tempo da sua criação”. Os artistas têm esta capacidade de mudar o mundo e fazê-lo de forma interventiva, ao levar à cidade, pelas suas montras, a arte tantas vezes contida dentro de galerias ou museus. É uma forma clara de mudança. Pensar fora do banal e propor o impensável são duas características deste Pedro Cabrita Reis, que nos conta “que a história da humanidade é a história dos seus artistas.” Que assim seja.

Verónica de Mello: O que o moveu a transformar as montras do icónico British Bar no Cais de Sodré num espaço que também mostra arte? Um tributo a um lugar onde passou tantas tardes? Pedro Cabrita Reis: De facto, a minha relação com o British Bar no Cais do Sodré remonta aos meus tempos de estudante nas Belas Artes, ali ao pé no velho convento de São Francisco. Encanta-me ficar ali sentado horas perdidas, já ao cair do dia, ir vendo o Tejo mudar de cor à medida que o sol vai desaparecendo, ver o frenesim das pessoas a dirigirem-se aos barcos para regressar a casa. Muitos whiskeys e charutos depois e olhando melhor para as montras, foi crescendo em mim a vontade de ali fazer qualquer coisa, especialmente porque seria um projecto “fora da caixa”, uma característica que muito prezo, especialmente nestes tempos


Como é feita a escolha dos artistas para este projecto que tem a duração de 12 meses e que estará exposto em montras que dão directamente para a rua? Não tenho qualquer vontade de assumir o papel que habitualmente se espera, ou se atribui aos curadores. Sempre encarei o @ British Bar como um exercício de prazer, um lugar e um tempo de encontro entre pessoas, num sítio que serve para isso mesmo, um bar, com o acrescento de irmos desvendando as obras dos artistas que tão generosa e entusiasticamente têm aceite participar. A escolha é, mais do que outra coisa qualquer, um processo afectivo de encanto pelas obras e pelos seus autores. Não há imposições de qualquer natureza, por vezes os artistas escolhem, eles próprios, outras vezes sugerem duas ou três peças suas e em conjunto decidimos a que julgamos ser a mais adequada. Tem sido e será assim e a todos tem dado um grande prazer esta forma de estar e ir construindo este projecto “fora da caixa”.

Por vezes a escolha é feita só de artistas, mas também já surgiram nomes de arquitectos em algumas edições ao longo deste ano. Este cruzamento das ar-

tes é algo que lhe interessa? Como vive estas relações entre as artes? As peças de arquitectura, maquetas de obras, como foi o caso do Eduardo Souto Moura ou do Diogo Seixas Lopes, ou objectos em si mesmos como a Livreira do Álvaro Siza, têm para mim um valor de escultura para além das suas funções específicas. Na arte como na vida tudo acaba por se cruzar e daí só podem advir enriquecimento espiritual e vivências diferentes, o que é sempre bom. O sal da terra por assim dizer. O público do @British Bar é o melhor público, pois representa um potencial de curiosidade que é bastante estimulante. Nesse particular é sempre produtivo revelar a diferença, ou melhor, a proximidade que coisas e vozes diferentes podem ter.

Como é a sua relação com a cidade de Lisboa? Viver neste lugar tem ou teve algum impacto na sua obra? Viver num lugar, em qualquer lugar, deixa sempre uma marca por muito insondável que seja. Nem sempre são evidentes ou palpáveis esses traços, e por vezes, se calhar, são apenas estados de espírito cuja repercussão no trabalho é subjectiva senão mesmo inescrutável, independentemente do facto de ser inevitável. É inevitável a diferença entre viver em Lisboa ou em Berlim e isso tem um peso. As minhas pinturas seriam diferentes se eu vivesse em Londres? Talvez. Para além disto a resposta que se me oferece dar à sua pergunta é que não viveria em nenhum outro lugar que não fosse Lisboa. Mas, se calhar, amanhã dir-lhe-ia uma coisa diferente.

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em que tudo está formatado, normalizado e entediante. É bom viver a cidade de formas que nos devolvam o prazer de estar nela, e acho que este projecto @British Bar é na sua simplicidade e descomprometimento uma forma de inteligência e de alegria para juntar pessoas, beber uns copos, viver esta parte da cidade, viver o British Bar em si mesmo e, acima de tudo, ter a experiência única de ver a obra de muitos e diversificados artistas num lugar inesperado.


<performance> Uma hermenêutica da fruta contemporânea por Duarte Bénard da Costa

O valor da fruta na arte contemporânea é geralmente pouco considerado. Aliás, o valor dos objectos perecíveis é sempre desconsiderado. A verdade, porém, é que há muitas afinidades entre fruta e performance: mais até do que quantas há entre as courgettes e a nossa vida laboral, ou entre o pimentão-doce e o reumatismo.

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Assim como os astros influenciam a nossa vida (porque só na lua cheia é que podemos ir ao Calhau do Frederico, ou com a estrela vespertina é que devemos colher a azeitona), também os legumes alteram a nossa vida (porque se os comermos regularmente somos saudáveis e se não os comermos os nossos filhos também não os hão-de comer). Se assim é, e é de tal forma que um matemático indiano importantíssimo não fazia a sua ciência sem as especiarias e adoecia sem o picante, então também a fruta é o elemento mais importante para quem faz performance e é a noção mais fundamental para quem é público de um espectáculo. Estas afirmações podem ser, não obstante a sua evidência, polémicas. É que poucos consideram a performance como um fruto e muitos gostam de pensar em performance como algo frutífero. Assumamos então que um espectáculo é, deve ser, será, tenciona ser - frutífero: enquanto estamos a assistir e depois de terminar, o nosso pensamento demanda incessantemente pela promessa do fruto que viemos buscar - em busca daquilo que «o espectáculo nos vai dar»; estamos focados na procura frenética do objectivo do espectáculo, como num mercado procuramos aquele tomate-coração-de-boi que a banca da esquerda costuma ter. Para além de frustração, esta atitude gera também nas pessoas que a tomam perguntas que, vistas de fora, assumem a esquisitez que efectivamente têm: «Quem plantou este espectáculo? Terá algum enxerto? Que frutos dará? O que é que vou conseguir levar para o pequeno-almoço? Será goiaba?» Infelizmente, os espectadores saiem frequentemente decepcionados destes raciocínios do desespero. Se não

encontraram o fruto, declaram o espectáculo mediano, não se querem comprometer; se encontraram o fruto, tentam convencer-nos de que é um fruto muito bom, como aquele alperce que cultivam no jardim e é biológico e colhido à luz das tardes de Março, tem um sabor ribombante, mas que depois nós provamos e do qual sentimos apenas um alperce pálido e sensaborão, vítima inocente de um orgulho quase paternalista. A atitude de esperar que uma performance seja frutífera é a mesma de achar que a nossa mercearia tem de estar sempre aberta e vender sempre produtos de primeira categoria. O problema está em a mercearia e a performance serem coisas diferentes. As nossas esperanças face a uma mercearia são boas e necessárias: obrigam à boa-escolha dos produtos pelos comerciantes, a condições de saneamento, etc.; mas as nossas expectativas em relação aos frutos de uma performance são pouco interessantes e normalmente levam à esterilidade da experiência artística. Esperar um determinado fruto de um dado espectáculo é tão inepto quanto ir repetidamente a uma leitaria para comprar vinho e descobrir sempre com surpresa que não é vinho que a leitaria vende. Por outro lado, se pensarmos a performance como fruto, tudo se torna mais claro. A nossa expectativa passa a ser a do jovem que foi comer um morango de estufa cheio de autocolantes de 1ª qualidade e estava à espera de um pequeno morango fresco; e a nossa desilusão torna-se apenas semelhante à do adolescente Marcel quando foi ver a Berma pela primeira vez. É nesses termos que nós de uma performance podemos dizer que «era madura» ou «estava bastante verde» ou «faltava-lhe sumo», mas não devemos afirmar, por exemplo, ao ver Hamlet, «não gostei, esperava ver Ricado III». Como fruto, o espectáculo está presente em dois processos: o de criação, entre ele e os criadores e porventura o público; e o de fruição, que é o processo das dentadas em pêra algarvia, do qual nada esperamos e tudo levamos. Chamamos fruição ao momento em que o espectador está disponível em si mesmo, no espaço e no tempo, e contacta com o objecto artístico e o integra em si - o momento em que provamos, mastigando e assimilando, uma cereja. E, sem expectativas, espectáculo a espectáculo, o nosso palato performativo vai-se educando para distinguir as nuances


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entre frutos, as diferenças entre uma noz das Astúrias e um pinhão de Montemor; a performance como fruto ganha consciência do meio em que está inserida: o fruto tem a sua época e o seu ciclo, vai crescendo e sendo saboreado - e não há frutos iguais a outros frutos; há espectáculos que nos ficam e outros que não. Enfim, laranja é ouro, é prata - mas de noite mata. A performance é o momento em que trincamos o pêssego dourado e aquilo acontece - seja o que for: uma indigestão, um desconforto ou um sabor dionisíaco. Assumimos os riscos de assistir a um espectáculo porque também aceitamos os perigos de provar um cogumelo selvagem. Nesse momento de fruição, estamos conscientes de que uma tâmara pode ter tanta repercussão nas vidas da península ibérica oriental quanto uma performance pode conter o nutriente que nos salva do escorbuto; estamos conscientes de que o espectáculo é mais doce em Setembro do que era em Maio; e lembramo-nos de provar o espectáculo como parte da nossas vidas.

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Não obstante, há um certo problema em fazer uso de metáforas e analogias. É fácil fugir a definições concretas de alguma coisa se a tornarmos análoga a outra coisa que não sabemos definir muito bem. Esta analogia entre performance e fruta porém não procura demonstrar quão semelhantes podem ser uma dança e uma maçã, mas apresentar ambas como uma experiência paralela. Da mesma forma, tentámos-se demonstrar que as nossas expectativas para com uma peça de fruta e uma peça de teatro devem ser as mesmas: nenhuma. E apercebemo-nos de que é muito útil colocar estes dois elementos em face um do outro, porque a fruta tem a extraordinária vantagem de ninguém a pensar como um objecto de intenção comunicativa, ou como uma linguagem especial (ninguém nos pede «ah, interprete-me só esse dióspiro, por favor») ou até como um objecto interpretável; e essa vantagem pode ser tranferida para a performance, em particular, e para a arte em geral, com a felicidade de tornarmos a linguagem que usamos para falar de arte tão rica e suculenta quanto aquela com que falamos de fruta, e com a felicidade de estas, performance e fruta, não quererem dizer nada e nós não termos de decifrar freneticamente qualquer signo, mas sim percepcionar o estímulo e vivê-lo como experiência, recordando-o ou não.


PRÉ M I O

2017

JÁ À A! D VEN

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Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.

DO AUTOR DE «PERGUNTEM A SARAH GROSS»


Novo Horário por João Júlio Rumsey Teixeira

Uma vez que em leilão a compra é feita num momento e não num espaço de tempo alargado - como pode ser num antiquário ou numa galeria - a hora a que acontece a venda não pode ser deixada ao acaso.

que minimamente, os fusos horários de todas estas localizações começou a ser um desafio constante. Em 2006 a venda das jóias da Princesa Margarida de Inglaterra começou às três da tarde sendo a sessão mais importante às seis e pôs em praça 73 lotes (o leilão contava com 896 lotes no total, dos quais 192 de joalharia). Hoje em dia as 6 ou 7 da tarde continuam a ser o horário mais usual em Londres, Genebra ou mesmo Nova Iorque para as sessões mais importantes.

Usualmente quanto mais cedo é o leilão, menor o valor dos objectos em venda. Assim, por exemplo, a mesma venda pode ter três sessões num dia: uma de manhã com as peças mais decorativas, uma à tarde com obras mais relevantes e outra à noite com as peças importantes de um recheio. Isto acontece com frequência em praças com grande ritmo de leilões.

De um ponto de vista romântico, o fim dos leilões pela noite dentro pode trazer alguma nostalgia, por outro lado nem todos os compradores estão dispostos a tomar decisões sobre compras avultadas em plena hora de sono. A licitação à distância é cada vez mais significativa e provavelmente o maior desafio do mercado leiloeiro actual: descobrir qual a forma mais cómoda e eficaz de conseguir ter o mundo conectado num mesmo sítio, à mesma hora e com boa disposição para disputar as obras de arte em venda.

Durante muito tempo a hora de início das sessões dos leilões de antiguidades ou de Arte Moderna e Contemporânea relevantes em Lisboa foram as nove da noite. Por vezes, dependendo da quantidade de lotes e de lances em praça, as hastas estendiam-se para lá da meia-noite e meia. Em Londres ou Genebra as nove estavam tradicionalmente reservadas para as sessões realmente importantes onde são apresentadas as peças que fazem manchetes. Por exemplo, no caso do leilão das jóias da Duquesa de Windsor, em 1987, a sessão das 21 horas pôs em praça apenas 95 das 306 peças em venda.

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Depois do fim dos anos 90 e em parte como consequência da abertura do mercado leiloeiro a um mundo muito mais global as horas das vendas sofreram algumas alterações. Já não era apenas Europa Ocidental e a América do Norte que interessavam; agora a Rússia, o Médio Oriente, a Índia e a cada vez mais omnipresente China também tinham de ser tomadas em conta e, encontrar horas adequadas que conciliassem, ainda

O glamour da noite não se perdeu, transformou-se. Hoje são cada vez mais recorrentes os cocktails ou jantares, antes e depois das vendas, oferecidos à imprensa, influenciadores de social media, compradores e vendedores. Por cá o padrão assentou por agora entre sessões às 15h para vendas de coleccionismo e às 19h para antiguidades e obras de arte, apenas algumas leiloeiras resistentes continuam a tradição dos leilões às 21h. Entre os habitués as opiniões nunca deixaram de se dividir entre os que não se sentem confortáveis com as sessões a começar à hora de saída do escritório - sem tempo para chegar à leiloeira ou jantar - e os que desanimam perante a ideia de um serão e início de madrugada ao som do martelo. Numa coisa todos parecem unânimes em Portugal: qualquer que seja a hora ideal para um leilão, não será antes de almoço!


O estado da Arte “O Quadrado” é a mais recente obra prima do realizador sueco Ruben Ostlund e que conta com duas grandes atores de uma geração recente: Elisabeth Moss, que ganhou palco com a “Peggy” na série Mad Man e que, recentemente, representou deu vida a June Osborne, na distopia “The Handmaid’s Tale”, e Dominic West que entrou na minha vida com o Jimmy McNulty na série “The Wire”. Mas a personagem central n’ “O Quadrado” não é nem Moss nem West, é Christian, representado por Claes Bang, um ator que já foi descrito como uma espécie de Gregory Peck dos nossos tempos. Este Peck modernaço é-nos apresentado pela primeira vez, com uma ressaca colossal, a dormir no seu escritório, depois de uma festança. É acordado pela sua assistente para se preparar para dar uma entrevista. Ficamos então a saber que é o curador-chefe de um ultra-hip e ultrachic museu de arte avant-garde: repare-se que não é arte contemporânea, é outra cena - e é justamente isso que Christian procura explicar durante a entrevista. Nos primeiros minutos do filme percebemos que Ostlund quis parodiar o “estado da Arte” e situá-lo no atual momento histórico-cultural, e na estrutura social que o suporta, e que é designado de “pós-modernidade”. Um dos grandes autores desta teorização é Zigmunt Bauman que, na sua vastíssima obra, um dos aspetos mais salientes é a interpretação que fez dos nossos tempos como sendo fluídos (a palavra empregue por Bauman é “liquidez”) e a crítica às “formas da vida moderna”: das relações amorosas às instituições sociais e políticas, o sociólogo aponta-lhes fragilidade e enuncia a sua natureza descartável, e, sobretudo, a sua vulnerabilidade à mudança, fonte de inquietantes incertezas. O mesmo se passaria no mundo das Artes em que as tendências se cruzam entre a democratização da arte e a imbecilização da arte (e do espetador, já agora). Há vários momentos no filme de Ostlund que refletem sobre estas tendências: o primeiro acontece durante a entrevista de Christian quando a jornalista lhe pede explicações sobre uma descrição – em linguagem tão pomposa quanto encriptada - de um dos eventos do museu. Christian torce-se na cadeira, mexe nos óculos, compõe o cachecol e, com vários pontos de

O terceiro elemento central do filme, que lhe dá o título, é o projeto que chega às mãos de Christian: “O Quadrado”. Trata-se de uma peça de arte contemporânea, uma “instalação”, que visa instigar, juntos dos visitantes do museu, uma reflexão sobre o altruísmo. Assistimos a Christian explicar a uma audiência de amigos do museu que a peça, colocada no exterior do museu, convida os transeuntes a sentirem compaixão com qualquer pessoa que esteja dentro do espaço delimitado pel’ O Quadrado. Simultaneamente, Ostlund vai filmando a complacência daquelas pessoas (e das massas em geral) em relação aos vários sem abrigo e pedintes que, mesmo quando as interpelam com a pergunta “quer salvar uma vida hoje?”, não merecem um olhar nem uma palavra de apreço ou curiosidade. Estas considerações sociais de Ostlund estão presentes noutras alturas durante o filme, alargando o diagnóstico que nos apresenta, além do vazio da Arte contemporânea, para incluir uma sátira social que retrata uma classe média/alta com uma gravíssima lacuna na sua fibra moral, adormecida e apática. A não perder.

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por Graça Canto Moniz

interrogação no seu olhar, cordialmente pede para reler a descrição. Depois de uma leitura mais atenta e acessível apenas aos mais eruditos explica que a ideia central do tal happening foi a discussão o que é Arte e exemplifica: será que a mera colocação da carteira da jornalista num museu faz dela uma peça de Arte? Porque, afinal, tudo tem Arte ou, pelo menos, tudo pode ser Arte e todos podemos ser artistas. O segundo momento acontece quando, durante um jantar cerimonioso do museu, numa sala com dignidade real e uma carga histórica bem visível, com convidados very upper class, uma das surpresas é uma performance de um homem-gorila (curiosamente depilado) que salta violentamente para as mesas dos convidados. A performance (ou Arte performativa, como rigorosamente lhe chamam) começa por ser aplaudida pelos convidados e merece a sua contemplação e complacência até a violência do homem-gorila escalar, o medo tomar conta do ambiente cerimonioso e a performance atingir o seu zénite: a eminência da violação de uma das convidadas que, apesar de manifestar e gritar o seu desespero, só é travada quando o homem-gorila, depois de a agarrar pelos cabelos e puxar a cadeira, se coloca em cima dela e se prepara para o ato. O artista-gorila testa os convivas até ao limite sendo que até lá o que vigora naquela sala majestosa é uma espécie de desprezo pelos outros como mecanismo de defesa. Assolapado com a escalada da performance a pergunta que fica a pairar para o espetador responder é: “e se fosse consigo?”.


O plano-sequência realista/expressionista, segundo Ilya Naishuller por José Pedro Pinto

Por decisão tomada já há tempos, sempre que posso, tento ir ao cinema todas as semanas ver um filme acabado de estrear. Em abril do ano passado, numa semana particularmente despovoada de estreias, decidi dar uma oportunidade a Hardcore, um filme russo realizado por um Ilya Naishuller, de quem nunca tinha ouvido falar. Acerca do filme, tinha lido apenas uns títulos na internet, que não me tinham despertado o interesse. Por falta de melhores estreias nessa semana, comprei o bilhete na mesma, e foi uma escolha muito feliz. Saí do filme convencido de que tinha visto uma das grandes obras-primas do cinema, e o mais importante filme de ação do século XXI. E o mais interessante é que percebi mais tarde, ao debater-me sobre o porquê de ter sentido isso, que apesar das várias qualidades do Hardcore, aquilo que

realmente o elevava ao estatuto de grande filme era o uso sistemático do plano- sequência subjetivo. Por acreditar que se trata de um filme pioneiro no uso sistemático que faz do plano-sequência subjetivo dentro do género de ação, e por acreditar que a sua influência se fará sentir nos próximos anos no cinema comercial desse género – e mais importante ainda, por me parecer que não foi feita justiça na crítica ao filme – decidi escrever sobre ele. Além disso, se houve coisa que aprendi com os últimos ensaios teóricos que escrevi, foi que escrever sobre filmes sobre os quais já muito foi escrito é algo que não me agrada nada – no sentido em que, mais tarde ou mais cedo, acabo sempre por chegar à conclusão que não tenho nada a acrescentar.

Ilya Naishuller e o first-person movie

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Frame do videoclip da música Bad Motherfucker (2013), da banda “Biting Elbows”, realizado por Ilya Naishuller

Ilya Naishuller, cantor punk russo, teve o seu primeiro contacto com a fama apenas há quatro anos, quando o vídeo que realizou para a música Bad Motherfucker (2013), da sua banda “Biting Elbows”, alcançou um enorme sucesso na internet. Nesse videoclip, acompanhamos uma personagem que acorda num escritório, amordaçada e refém de um grupo de misteriosos homens de fato, e que desata numa correria desenfreada, matando tudo e todos pelo seu caminho. Aquilo que fez desse vídeo um sucesso foi a particularidade de que todo ele, do início ao fim, era filmado, literalmente, através dos olhos do protagonista, num estilo visual reminiscente do aspeto dos videojogos de first-person shooters, em que o jogador vê o mundo pelos olhos do avatar com que joga.


Este estilo foi conseguido através do uso de uma GoPro, uma câmara digital muito pequena e leve, e com uma objetiva de distância focal curta o suficiente para quase simular o campo de visão humano, montada num capacete à volta da cabeça do protagonista (interpretado pelo duplo de cinema Sergey Nosulenko) – na prática, criando uma simulação da visão humana, de uma maneira tão fiel quanto a tecnologia atual permite (pelo menos enquanto a realidade virtual não se tornar mainstream, ou enquanto não aparecerem câmaras equivalentes às GoPro’s com sensores muito maiores. Ou enquanto não aparecer outra tecnologia que não adivinhamos ainda). Capacete estabilizador com câmaras GoPro usado por Ilya Naishuller (foto: www.cnet.com)

Alguns críticos atacaram o facto de que, na realidade, essa câmara em constante tremor era um reflexo errado da perceção humana – afinal, ao virarmos a cabeça de um lado para o outro, os nossos olhos ficam naturalmente focados e estáveis num ponto. Uma câmara de filmar tão leve e pequena não tem essa possibilidade – pelo menos, até ao momento. Mas por outro lado, numa perspetiva menos objetiva e mais expressionista, esse caos visual pode ser tomado como um reflexo mais fiel do caos emocional que seria experienciar, de facto, as situações de violência que são representadas. Apesar de ter sido esse o vídeo que trouxe fama internacional a Naishuller, Bad Motherfucker não foi a sua primeira experiência com a técnica da filmagem na primeira pessoa, e muito menos se tratou de uma ideia original. Afinal, desde o início da comercialização das câmaras GoPro que abundam na internet os vídeos de pessoas a praticarem desportos radicais com uma câmara montada no capacete, na bicicleta, na prancha de surf, ou onde quer que seja, com o intuito de darem a ver ao público aquilo que eles vêem enquanto praticam esses desportos. De facto, foi com uma intenção semelhante que Naishuller comprou a sua primeira GoPro: filmar-se a fazer snowboard. Desilu-

dido com as imagens captadas, o realizador conta que foi apenas quando começou a usar a câmara para filmar “aquilo que as pessoas realmente fazem” que começou a obter resultados “muito excitantes e interessantes” (Naishuller, citado em NEWMAN*, 2016) (tradução livre). Em 2011, encetou a realização de um videoclip filmado inteiramente com a câmara: Stampede, para a sua banda “Biting Elbows”, feito no mesmo estilo do Bad Motherfucker, que se lhe seguiu dois anos depois. Por alguma razão, esta primeira tentativa não teve semelhante êxito na internet, apesar de ter recebido alguma atenção. Com o êxito desse segundo videoclip, Naishuller começou a receber chamadas de agentes de Hollywood, com propostas para realizar filmes na América, que ele recusou a favor de uma outra proposta bem mais ambiciosa do produtor russo Timur Bekmambetov: realizar uma longa-metragem inteira usando exclusivamente a técnica da câmara subjetiva. Naishuller conta que sentiu a princípio que 90 minutos deste estilo visual seriam demasiado intensivos para a audiência, ainda para mais num ecrã de cinema, mas acabou por aceitar o desafio. Nas suas palavras, Timur “perguntou-me se eu queria ver um bom filme de ação do ponto de vista do protagonista, no cinema, e a minha resposta foi sim. Então ele disse-me que eu devia simplesmente fazê-lo eu próprio. A partir daí, tudo fez sentido” (Naishuller, citado em NEWMAN, 2016) (tradução livre). Bekmambetov, enquanto produtor, deu-lhe liberdade total para fazer o filme que ele quisesse, e dessa colaboração resultou Hardcore (2015). Para este filme, Naishuller aperfeiçoou o capacete-estabilizador que tinha usado anteriormente para montar as baratas câma-

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Assim equipado, o duplo que interpreta a personagem passa os quatro minutos do videoclip a correr pelos corredores e escadas do escritório, a guiar um carro a alta velocidade pelas ruas da cidade, e a saltar pelos telhados de prédios, enquanto persegue um vilão. Estas ações, aliadas à técnica escolhida, resultam inevitavelmente em imagens difíceis de acompanhar e de processar, tanto pela velocidade da ação como pela instabilidade extrema da câmara.


ras GoPro (em Portugal, vendem a cerca de 400-450¤ cada), e tomou a decisão de levar a técnica do first-person movie ao próximo passo lógico: o plano-sequência. Faz todo o sentido: se a intenção é que o filme imite a perceção humana, então é preciso eliminar os cortes. Tal como os humanos piscam os olhos quando dirigem o olhar para outro lado, Naishuller decidiu criar o seu filme em longos planos virtuosos, em constante movimento, encenando a ação de modo a poder esconder os cortes, impercetivelmente, nos momentos em que a personagem vira a cabeça para olhar outro lado, e em outros momentos em que o movimento da câmara é tão rápido que a transição de um plano para o próximo é invisível (pelo menos, sem recorrer a uma extrema desaceleração da reprodução do filme). Em consequência destas estratégias formais, o filme passa-se naturalmente em tempo real, aparte curtas e raríssimas elipses, que de qualquer maneira saltam apenas breves minutos de tempo diegético. Naishuller conta que viu outros filmes em que a técnica da câmara subjetiva fora usada, como fonte de inspiração. Destaca, nomeadamente, A Dama do Lago (1947), de Robert Montgomery, como um manual de exemplos a não seguir no que toca à técnica. Dá o exemplo da fala: “a imersão acaba assim que a personagem que é suposto nós [a audiência] sermos começa a falar, e começa a dizer coisas que nós não sabemos” (Naishuller, citado em NEWMAN, 2016) (tradução livre). E faz todo o sentido: se a intenção da câmara subjetiva é pôr o espectador no lugar da personagem, como pode ela falar se nós estamos calados? Naishuller resolve o problema de uma maneira simples mas eficaz: a sua personagem seria muda.

Fica, no entanto, outro problema por resolver, este mais complexo: como pode um espectador ver o mundo através dos olhos de uma personagem de quem nada sabe, um personagem cujas memórias, inclinações e filosofias desconhece? A solução de Naishuller é, de novo, simples mas funcional: a personagem tem amnésia. Isto é, desde o início do filme, a audiência está em pé de igualdade com o “avatar” que irá “habitar” até ao fim: vê o mesmo que ela, sem tirar nem pôr, ouve o mesmo que ela, sem tirar nem pôr, e também sabe o mesmo que ela, sem tirar nem pôr. Isto é, nunca nos é revelado nem escondido nada que não o seja também do protagonista – e adquirimos qualquer nova informação ao mesmo tempo que ele. É um exemplo perfeito da estrutura formal a seguir a premissa técnica. Trata-se de uma abordagem que nega logo à partida a definição de suspense formulada por Hitchcock: dar mais informação à audiência do que ao espectador. Mas Naishuller tem novamente uma resposta para isso: recorrendo a um cliché dos videojogos de tiros que inspiraram o filme, a personagem de Jimmy (Sharlto Copley) informa o protagonista (interpretado por uma equipa de duplos de cinema) que ele tem um tempo de vida de apenas alguns minutos, que se recarregará apenas se ele conseguir ir cumprindo certos objetivos a tempo. Não é o único cliché que Naishuller recupera dos videojogos. Afinal, Jimmy, aparece de vez em quando para lhe dar novas missões, e entrega-lhe um mapa a seguir para chegar ao seu próximo objetivo, como em muitos videojogos do género. E esse mesmo Jimmy morre várias vezes ao longo do filme, apenas para ressuscitar logo de seguida, tal como acontece com os avatares dos videojogos sempre que o jogador perde.

Hardcore Henry

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Mas tudo isto, apesar de interessante, não diz muito acerca da qualidade do filme. O que mais importa é que Ilya Naishuller conseguiu resolver um problema que tem atormentado o cinema de ação e aventura contemporâneo: a escala da violência ter aumentado exponencialmente, sem que daí resultasse qualquer aumento no seu impacto sensorial, muitas vezes tendo mesmo um efeito de desligamento, de apatia – por mais prédios que os super-heróis que sobrepovoam as salas de cinema deitem abaixo, por mais dezenas de capangas anónimos que os espiões e outros agentes especiais neutralizem, parece que nenhum murro tem força, que nenhum osso quebrado nos faz encolher na cadeira, que nenhuma morte tem qualquer impacto visceral. Ilya Naishuller conseguiu encontrar maneira de combinar a técnica do first- person movie com um inegável prazer sádico de ver violência criativa e brutal – encenada de uma maneira que percorre habilmente a corda entre o realista e o estilizado, com o som trabalhado no mesmo sentido – para trazer de volta o impacto visceral da violência: cada murro tem força, cada osso quebrado dói, cada capanga anónimo morto é uma descarga de adrenalina.


Mas não é graças a essa força intrínseca da sua violência que Hardcore me parece revitalizar sozinho todo um género de filmes. De facto, estou convencido que o principal segredo do impacto de Hardcore está na sua técnica – o filmar, literalmente, pelos olhos do protagonista – e estou convencido que ver este filme é ter um vislumbre do cinema de ação do futuro, uma espécie de cinema de realidade aumentada, que leva as premissas do realismo (no sentido da imitação da perceção humana) a extremos até agora tecnologicamente impossíveis. Frame de Hardcore (2015), realizado por Ilya Naishuller

Hardcore é, na minha opinião, o filme de ação mais importante do século XXI. Naishuller não inventa nada, mas faz algo de igualmente importante: pega em tradições que tiveram representação no cinema do passado, principalmente no cinema de horror – a narração exclusivamente pelos olhos do protagonista – e prova as suas imensas possibilidades sensoriais e o potencial que tem para o cinema de ação do futuro, lembrando-nos no meio da barulheira americana que o cinema de ação pode ser arte, apesar da noção quase parecer cómica em tempos em que os filmes do género foram relegados à classe de filmes de entretenimento, olhados de lado por quem procura as potencialidades expressivas mais elevadas do cinema.

Acredito que o sucesso de Hardcore trará dezenas de imitadores nos próximos anos – cada qual com o seu capacete-estabilizador e estrutura em tempo real, mas cada um a acrescentar as suas variações. Como sempre, serão quase todos inferiores, mas com um pouco de sorte, com o tempo talvez apareçam filmes tão bons como este, e que reconheçam a dívida. É claro que Hardcore não inventa nada, tal como O Nascimento de Uma Nação (1915) e O Mundo a Seus Pés (1941) também não inventaram nada – mas foram os filmes que pegaram em estratégias formais que já existiam e revelaram definitivamente o seu potencial expressivo para os filmes que lhes seguiram. Clássico e precursor, ao mesmo tempo.

Naishuller, no entanto, leva essa noção muito a sério, e apresenta-nos neste Hardcore a expressão mais intensiva (e intensa) daquilo que todo o cinema de ação e aventura tentou fazer desde o seu início: excitar-nos ao mostrar-nos outras pessoas a viver aventuras com as quais nós, meros mortais, apenas podemos sonhar – e permitir-nos vivê-las dessa maneira.

Frame de Hardcore (2015), realizado por Ilya Naishuller

* NEWMAN, Jason (2016). “Hardcore Henry: Inside the Insane First-Person Shooter Movie ”, Rolling Stone, http://www.rollingstone.com/movies/news/hardcore-henry- inside-the-insane-first-person-shooter-movie-20160408

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Grande parte deste sucesso está na própria brutalidade e criatividade da violência, que Naishuller leva perto dos limites atuais do entretenimento, excitando ainda mais por isso mesmo. Não digo que explorar o prazer de ver violência seja algo de novo no cinema – Tarantino e o subvalorizadíssimo Chan-wook Park fazem-no contemporaneamente, como Naishuller, através da brutalidade, e Jackie Chan fê-lo nos anos 80 e 90 através da complexidade da encenação, como num musical; entre incontáveis outros antes deles. Mas Naishuller consegue aqui integrá-lo completamente no cinema de ação comercial, devolvendo-lhe assim a visceralidade que lhe é devida.


“Rumble in the jungle” “Assalto” do Carmo 81 ou como Linda Martini e Tigerman aqueceram a noite viseense. Stade du 20 Mai, Kinshasa, República Democrática do Congo (actual Zaire), 30 de Outubro de 1974. Cem mil pessoas em êxtase aguardavam o “Combate do Século”. Depois de lhe ser retirado o título mundial de pesos pesados por se recusar a lutar na Guerra do Vietname, Muhammad Ali desafiava um invencível George Foreman, detentor da impressionante marca de 37 knockout e 40 vitórias num combate que ficaria para a História. Nos primeiros três rounds, Foreman dominou e despejou socos atrás de socos num Ali que parecia incapaz de contrariar a impetuosa entrada do campeão em título. Ali aguentou a estratégia defensiva que tinha delineado até ao quinto round, considerado unanimemente como dos mais empolgantes da história do boxe mundial. A partir daí, Ali sabia que iria ganhar. No oitavo assalto, faltando apenas 2 segundos para soar o gongo, Muhammad desferiu uma sucessão de uppercuts no rosto de Foreman terminando com um violentíssimo gancho de direita que levou o adversário ao tapete, quase em câmara lenta, num momento épico em que Ali podia ter continuado a esmurrar Foreman, mas preferiu elegantemente deixar cair o rival. Inesquecível! ***

The Legendary Tigerman

por João Moreira LIVECOM

1 de Dezembro de 2017, 22 horas. A noite está gelada. À porta do Carmo 81, em Viseu, não há aglomerações de gente, embora se saiba há muito que o espectáculo está esgotado. Na rua, alguns resistentes esfumaçam cigarros enquanto aguardam o início do concerto. (Abro parênteses para dizer que o Carmo 81 é, de longe, o melhor espaço cultural da cidade. A sede da Acrítica, uma cooperativa fundada em 2014 com o intuito de “promover e valorizar a produção artística e a criação de públicos através da intervenção no meio cultural local e nacional” é bar, sala de espectáculos, centro de exposições e espaço de tertúlia e apresenta uma programação regular, cuidada e estimulante. Vale mesmo a pena!). Lá dentro, a sala está a abarrotar. Os Linda Martini sobem ao palco pelo meio do público e o rock invade o Carmo. Durante cerca de uma hora, vão percorrendo temas de “Olhos de Mongol”, “Casa Ocupada”, “Turbo Lento”, “Sirumba” e do próximo álbum com lançamento previsto para 2018. Há braços no ar, com cervejas a verter, embalados pelo ritmo da bateria de Hélio Morais, pelas guitarras de Pedro Geraldes e André Henriques e pelo baixo de Cláudia Guerreiro. Já não há frio que incomode, nem quando arriscamos uma saída ao pátio para fumar um cigarro.

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Linda Martini

Nada, não fora o facto de Paulo Furtado, ou melhor, Legendary Tigerman ter assistido ao premiado documentário “When We Were Kings” de Leon Gast, que retrata o combate entre Ali e Foreman e se ter lembrado de pegar no tema e transportá-lo para a digressão conjunta que ia realizar com os Linda Martini. “Estávamos em brainstorming a tentar perceber como chamar a esta tournée e a criar um conceito que pudesse ser repetível nos próximos anos com outros projectos, outras duas bandas, algo que passasse pela força e pelo ambiente do rock’n roll e que tivesse um grafismo forte e lembrei-me deste Rumble in the Jungle, porque tinha visto o documentário há relativamente pouco tempo. Era sobre o mais importante combate de boxe de sempre, muito importante até em relação aos direitos civis, o grafismo era super forte, a banda sonora também e lembrei-me que esta digressão, não sendo um combate, muito pelo contrário, porque somos duas bandas a juntar forças e a partilhar públicos, a partilhar espaços, a partilhar palcos, que é uma coisa que se faz poucas vezes em Portugal e que se devia fazer muitas mais, no fundo tinha o mesmo espírito, porque as duas bandas iam estar a dar o seu melhor, empenhadíssimas em partilhar cara a cara, corpo a corpo com o público as suas músicas e achei que ia funcionar”.

André Henriques acrescenta: “Foi o Paulo que teve esta ideia da metáfora Rumble in the Jungle e de fazer uma colagem a esse combate mítico, e depois aquilo até funcionou. Começámos a moldar o conceito à volta disso até no número de espectáculos, o combate teve oito rounds e nós também fazemos oito salas.” Oito, que afinal já são nove, porque dado o sucesso da digressão, Linda Martini e Legendary Tigerman vão apresentar-se num grande concerto final, que terá lugar no dia 21 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. “O espectáculo do Coliseu surgiu porque percebemos que havia uma procura grande e uma vontade enorme de ver estas duas bandas ao vivo numa sala maior e como tínhamos decidido deliberadamente tocar em salas de pequena dimensão, onde tocáramos no início de carreira e onde é possível estar mais perto das pessoas, acabámos por decidir fazer esse concerto final”. - Explica André, enquanto Paulo Furtado levanta o véu sobre como decorrerá esse último assalto da digressão. – “Vamos tocar num palco no centro do Coliseu, que é também uma versão muito mais próxima das pessoas do que no palco tradicional, por isso, será uma continuação do espírito dos clubes pequenos onde faremos os outros 8 concertos.” ***

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Mas, afinal o que tem a ver o “Combate do Século” com um concerto de rock?


Quando Legendary Tigerman sobe ao palco, ainda o rock dos Linda Martini se ouve no Carmo. O público está quase em cima do estrado, mas Paulo Furtado incentiva – Venham para a frente, há aqui muito espaço. – e a malta acede, apertando-se junto à banda. O saxofone de João Cabrita e a cadência monocórdica do baixo de Filipe Rocha dão o mote para uma entrada no terreno dos Blues. Já a postura de Legendary Tigerman é toda ela rock and roll. Corpo atirado para trás, guitarra a tiracolo, pernas abertas, e lábios encostados ao microfone, Furtado vai movendo a cintura ao ritmo de temas de “Femina”, “Masquerade”, “In Cold Blood” e do pré-anunciado “Misfits”, arrastando consigo a legião de fãs que enchem o Carmo. Mas nenhum lhe assenta tão bem como “Fuck Christmas, I got the Blues.” *** Antes de chegarem a Viseu, Linda Martini e Tigerman já tocaram no Starway, em Cascais e no GNRation, em Braga, sempre com salas esgotadas. Seguem-se mais 6 concertos em espaços que marcaram o início da carreira de ambos e que tinham vontade de revisitar, como explica André Henriques: “São espaços onde nos sentimos bem e onde as pessoas que nos vão ver acabam por sentir uma energia diferente, porque há uma emoção e uma interactividade muito maiores.” Para Tigerman era uma ideia que há muito ambicionava concretizar. “Unir duas bandas para fazer uma grande noite de rock and roll em clubes pequenos. Uma noite divertida, de onde as pessoas saiam felizes porque ouviram dois concertos bons de duas bandas de que gostam”. *** A música acabou. Tigerman bebe uma cerveja em amena cavaqueira com um grupo de fãs, enquanto na rua, indiferente aos 3 graus que se fazem sentir, uma multidão fuma e conversa, ainda embalada pelo calor da música. Cumpriu-se o desejo de Paulo Furtado. Este assalto do Carmo foi “um espectáculo simples, directo e próximo das pessoas, algo que é fundamental no rock’n rol e que tem de se repetir muitas mais vezes, porque faz falta à música em Portugal.”

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Nós também achamos!


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Fotografia©LEYA

“A vida de um produtor de vinhos neste País não é fácil.”


João Paulo Martins Uma vida dedicada aos vinhos

por Susana Andrade

Cinco anos depois de se ter dedicado à crítica de vinhos no extinto semanário “O Jornal” pela mão do colega e amigo José António Salvador, lançou no mercado um guia de vinhos que rapidamente se transformaria na Bíblia dos vinhos nacionais. Entretanto passou pelas revistas “Visão” e “Focus” e pelos suplementos dos dois diários de referência do País, “Diário de Notícias” e “Público”, até assentar arraiais no semanário “Expresso” onde escreve há alguns anos, já nem ele sabe há quantos.

aspecto que eu pensei que podia ser interessante aconselhar alguns vinhos nesse patamar. Não se trata de um capítulo, apenas de uma indicação de alguns vinhos que valem a pena e posso afirmar que provei vinhos de altíssimo gabarito. Não em termos quantidade, mas em termos de qualidade, podemo-nos bater com qualquer País do mundo.

Nos tempos áureos de crescimento económico do País, “quando achávamos que éramos ricos e íamos todos passar férias para a República Dominicana”, vendeu mais de 20 000 exemplares do seu Guia. Hoje os números são bem mais modestos, o que não impede que o seu nome continue a ser reverenciado entre produtores e consumidores do mais genuíno dos produtos nacionais.

Há duas regiões em que neste patamar de preço se encontram coisas muito boas, que são Lisboa e Setúbal. Por falta de bom senso das respectivas forças vivas, o Tejo e Lisboa não se uniram numa única região e era o que deviam ter feito, porque hoje Lisboa está em expansão exactamente por se chamar Lisboa e o Tejo não sai da cepa torta e não vai sair. Não é por acaso que uma das grandes empresas que havia no Tejo, a Falua do João Portugal Ramos, vendeu a maioria do capital a um estrangeiro. Enquanto isso, a região de Lisboa desenvolveu-se, porque beneficiou muito com a história do nome.

Nesta edição, a grande novidade é a indicação de vinhos entre os 4 e os 8 euros. No Guia tenho duas divisões, uma até 4¤, que é um preço que já não é dos mais baratos, porque os mais baratos são os vinhos de 2¤ ou menos e que são os vinhos comprados por 90% da população consumidora, portanto os vinhos até 4¤ já representam um ligeiro upgrade. Por isso pensei que as pessoas que só bebem vinhos no máximo até 4¤, se um dia, num evento especial ou numa festa pretenderem comprar um vinho melhor, não vão logo comprar vinhos de 20¤, vão comprar de 6 ou 7 ou 8, que já representa o dobro do que estão habituados a pagar, portanto, foi nesse

O nome Lisboa ajuda a vender os vinhos e há algumas grandes empresas sediadas em Lisboa muito vocacionadas para o mercado externo e que têm ajudado a empurrar a região. Estamos a falar da Casa de Santos Lima, da DFJ, da Parras Vinhos, e mais recentemente da Adega Mãe. A Parras, a DFJ e a Casa de Santos Lima, juntas devem representar cerca de 80 milhões de garrafas, isso dá grande dinâmica a uma região. Depois ainda há a Companhia Agrícola de Sanguinhal que vem logo a seguir e que já representa mais de um milhão de litros, portanto temos ali empresas de volume e por outro lado, e isso nota-se também no turismo, porque o turista pede os vinhos por se chamarem Lisboa. Depois temos Setúbal. Só para ter uma ideia, vinha no outro dia em conversa com a Filipa Tomás da Costa que é enóloga da Bacalhôa

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João Paulo Martins, o crítico e provador de vinhos que dispensa apresentações, conversou com a Revista Bica a propósito da nova edição do seu Guia, a vigésima terceira, editada após um ano de interregno e onde compila os melhores vinhos portugueses para 2018.

Quais foram as maiores surpresas que encontrou em vinhos desse patamar de preço?


há quase 30 anos e ela dizia que quando entrou para lá trabalhava com 5 castas, agora trabalha com 21. É uma loucura! Trabalhava com o Castelão, com o Fernão Pires, Arinto, Aragonês e Tinta Caiada e de repente houve uma explosão. Entre José Maria da Fonseca, Bacalhôa, Cooperativa de Pegões e Ermelinda Freitas, estes quatro gigantes determinam absolutamente a região, o resto são migalhas pouco expressivas, migalhas interessantes, mas pouco expressivas. Não é por acaso que é a terceira região mais escolhida pelos consumidores: primeiro o Alentejo, segundo os Vinhos Verdes, em terceiro Setúbal. E está à frente do Douro! Tem mais consumo do que o Douro.

Falemos agora do resto do País. Que grandes transformações é que sente nas diversas regiões ao longo destes quase 30 anos? O que se sente é a diminuição da diferença qualitativa de região para região, ou seja, nós encontramos bons vinhos em todas as regiões. Claro que há uns que são famosos por terem mais procura, por serem mais badalados e outros, que são menores e têm menos visibilidade e que por isso têm menos “armas” para se venderem. Mesmo no Douro, que é uma região famosa, há muito viticultor com produções pequenas, que vende as uvas para o Vinho do Porto e com o que sobra faz o vinho DOC Douro, mas depois não encontra ninguém que o venda, porque a produção é pequena, as garrafeiras estão atulhadas de Vinho do Douro...

fam 1500, 2000 garrafas o que também não é negócio, nem enriquece nem empobrece, por isso mais vale pôr o preço alto que assim ganham prestígio. Às vezes cola, outras vezes não. Há dias, estive numa prova de vinhos do Douro e de repente apareceu-me uma marca que eu conhecia de nome, mas nunca foi para mim uma referência de um vinho de alta qualidade, e o vinho estava a 75¤ a garrafa, ora isto não faz sentido. Isso tem a ver com o reconhecimento da marca. Acontece o mesmo com os Vinhos do Porto. A Quinta do Vale Meão pode fazer um grande Vinho do Porto Vintage, por exemplo, e pode colocar um preço de 50 ¤, vamos imaginar, mas se eu quiser oferecer uma garrafa de Vinho do Porto Vintage, eu vou a uma loja e compro Vale Meão ou compro Taylor´s? Compro Taylor´s! Ou compro Fonseca, ou compro uma marca que já tem prestígio firmado. Portanto, as empresas que são fortes no DOC Douro, não o são necessariamente no Vinho do Porto. São dois mundos que coabitam, mas são muito diferentes. Se eu quiser gastar 100¤ num Vinho do Porto, não vou comprar Quinta das Couves, mesmo que o vinho seja muito bom, porque há outras marcas que me inspiram mais confiança e essa noção de inspirar confiança é fundamental para o consumidor. Quando ele compra um Pintas ou compra um Vale Meão ou um DOC Douro qualquer é porque sabe, pelo histórico, por aquilo que já leu, por aquilo que vê nas revistas, nas provas verticais, que o vinho aguenta 10-15 a 20 anos e porque lhe reconhece valor.

Porque é que isso acontece?

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Porque há muitos produtores. Ultimamente têm surgido muitas marcas novas com um posicionamento bastante elevado em termos de preço, mas são poucos os que sobrevivem. É muito difícil um produtor entrar directamente por cima no mercado. Normalmente tem que se entrar por baixo, ou então tem que se ter uma folga financeira que permita querer entrar por cima sabendo que corre o risco de poder não vender, o que não é grave, porque se não vender bebe ou oferece aos amigos. Quem tiver essa postura, pode não estar muito preocupado com a questão da venda efectiva, mas quem precisa vender para pagar as contas é mais complicado. No caso dos produtores do Douro, como ganham dinheiro a vender as uvas para o Vinho do Porto, que é o que é mais bem pago, porque as uvas para o DOC Douro são pagas miseravelmente, acabam por preferir fazer vinho das sobras a vendê-las. O negócio já está feito com a venda das uvas ao Vinho do Porto, por isso com o restante engarra-

Portanto, se a marca não tem histórico nenhum e lança no mercado um vinho de 75¤ a garrafa, não o vou comprar. Mas isso acontece e é uma particularidade específica do Vinho do Douro, porque não existe em mais lado nenhum, porque só no Douro existe o Vinho do Porto que gera o benefício da venda das uvas para esse fim. Talvez por isso exista uma quantidade exorbitante de marcas no Douro. Sem exagerar existem umas 600 ou 700 marcas só de vinhos no Douro!

Saltemos para os Vinhos Verdes, que têm crescido exponencialmente nos últimos anos. Tirando a sub-região do Alvarinho, os verdes estão mal representados no meu livro, porque os produtores não mandaram vinhos, não sei bem porquê. Mas, voltando à pergunta, tem havido uma grande flutuação de produtores de vinho verde. A sub-região de Monção e Melgaço tem muitos produtores novos, mas muito pequeninos. No fundo, há dois ou três grandes engarrafadores: a Adega Cooperati-


Essa é a parte interessante, porque quando eu comecei a provar e a fazer o livro, as marcas de Alvarinho eram três ou quatro. Existia o Soalheiro, Quinta de Alvariz, Adega Cooperativa, Palácio da Brejoeira e pouco mais. O resto era o verde leve - Casal Garcia, Gazela, Lagosta, Borges, Gatão - que é o que ainda hoje vende mais. A permanência desse estilo de Vinho Verde faz com que a noção que se tem, até no exterior, do que é o Vinho Verde seja a desse tipo de vinhos. Por isso, quando aparece um produtor com um Loureiro de Ponte de Lima, que afinal em vez de custar 1,5¤, custa 10¤ a garrafa, encontra grandes dificuldades de se afirmar no mercado. Tem que penar, tem que andar a tentar encontrar os importadores certos que saibam colocar o seu produto nos restaurantes indicados e que permitam fazer desses vinhos, que são mais caros, uma imagem da região diferente daquela que existe. O preço médio por garrafa de Vinho Verde no estrangeiro é quase ofensivo. Depois, há aquelas regiões fantasma com vinhos bons, mas que ninguém bebe. É o caso de Trás-os-Montes e da Beira Interior, que são regiões onde há bons vinhos, onde há bons produtores e nalguns casos até produtores de volume, como é o caso da Beira Interior onde há um ou dois produtores que já produzem quase um milhão de garrafas, por exemplo, a Quinta dos Termos, em Belmonte, mas que não têm expressão a nível nacional.

E a Bairrada? A Bairrada só não está a morrer porque ainda há gente que acredita e está a puxar a carroça para a frente, mas em termos de escolha do consumidor era difícil estar pior do que está. Mesmo com o Luís Pato, com a Filipa Pato, com o Mário Sérgio, com o Campolargo, que tentam remar contra a maré. E é pena, porque embora sendo uma região que tem algum prestígio no estrangeiro, por os vinhos serem originais, no mercado interno não vende. O pessoal quer vinhos do Alentejo. Mérito do Alentejo que se soube vender.

Já o Dão, que é o nosso vinho mais gastronómico, o que melhor acompanha uma refeição, está a renascer.

A parte interessante do Dão é que, ao contrário da região de Lisboa, é fiel às suas castas de origem sem se ter deixado encantar com a facilidade de venda das castas estrangeiras. Isso é muito interessante! Eu tenho feito provas para jornalistas e provadores estrangeiros quando vêm a Portugal e quando apresento Vinho do Dão ficam completamente rendidos, acham que é a Borgonha de Portugal. O Dão é a nossa Borgonha! Nomeadamente alguns brancos que fazem lembrar brancos da Borgonha e, portanto, é uma região que impressiona bastante pela finesse, pela delicadeza dos vinhos mesmo em novos e depois têm grande capacidade de envelhecimento.

Antes de irmos para o Alentejo, gostava que me falasse do Algarve que começa a despontar e do surpreendente vinho do Pico que anda nas bocas do mundo. O Algarve teve um renascimento muito grande em termos de interesse vitícola com novos produtores, e tem uma particularidade curiosa, que é a auto-suficiência do próprio mercado local. Se vir no meu livro, os vinhos do Algarve estão quase ausentes e a razão que eu encontro para não me enviarem os vinhos para prova é facto do mercado fundamental para eles ser o mercado algarvio, vendem lá tudo e não estão preocupados com o que eu acho dos Vinhos do Algarve (risos). A verdade é que se descobriu que afinal o Algarve também podia fazer bom vinho. Quando comecei a interessar-me por vinhos, a produção de vinhos do Algarve era uma miséria. Existiam as Adegas Cooperativas de Tavira, Lagoa, Portimão e Lagos que faziam uns vinhos, em comparação com o resto do País, muito abertos de cor, mas tão alcoólicos que se bebíamos dois copos ficávamos grossos (risos). Depois, plantaram outras castas, as castas da moda, e de facto verificou-se que existem boas condições para fazer vinho. Eu nunca bebi nenhum vinho extraordinário do Algarve e se calhar não vou beber nunca, mas já bebi muito bons e, recentemente, tem havido investimentos interessantes nomeadamente da casa Santos Lima, que fez uma adega em Tavira, onde no ano passado já vinificou 300.000 litros de vinho e do José Luís Oliveira da Silva que enquanto não produzir um milhão ou assim, não descansa. No caso do Pico e da Ilha da Terceira, (o Anselmo Mendes vai tomar conta dos vinhos da Terceira) estamos a falar de quantidades tão pequenas que são mesmo curiosidades. Por exemplo, na Terceira estive lá em Agosto e ainda não tinham feito a vindima deste ano, mas a produção de 2016 era uma cuba de 800 litros de um branco e do reserva eram

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va de Monção, as Quintas de Melgaço, o Anselmo Mendes e o assunto fica encerrado. A partir daí os produtores fazem 4.000, 5.000, 6.000 garrafas. É uma região de pequena propriedade, mas isso não tem mal nenhum, há regiões que funcionam assim e bem. A Borgonha é o melhor exemplo disso, porque é uma região em que de hortas (porque aquilo não são bem vinhas) com meia dúzia de cepas, se fazem excelentes vinhos.


duas barricas, portanto, isto não é vinho a sério, é a sério no sentido em que é feito com as uvas locais e com as tradições locais, mas não é negócio, é uma preservação do património. No Pico é um bocado a mesma coisa, alguns daqueles vinhos que o Massanita faz na Ilha são 600, 700 garrafas, por isso acho bem que sejam caros, porque produzindo nessas quantidades não se deve vender barato e acho os vinhos interessantes. Tenho dado a provar aos estrangeiros que acham o máximo porque são vinhos completamente diferentes. Não quer dizer que não pudessem produzir mais quantidade, mas há uma tradição religiosa de se fazer vinho de cheiro, como eles lhes chamam, para as festividades do Espírito Santo, portanto acabam por fazer muito vinho com uvas americanas. Além de que a própria alcatra açoriana era feita com vinho de cheiro. Por isso a uva americana predomina na região e ocupa os espaço que podia estar destinado à produção de outro tipo de vinho.

Alentejo... No caso do Alentejo, vingou por diversos factores. Desde logo porque os vinhos são dados ao clima da região, depois porque o tipo de emparcelamento permite produzir em grandes dimensões o que reduz o custo de produção por hectare e porque a introdução da vinha regada permitiu combater as alterações climáticas. Tudo isto associado ao facto dos vinhos alentejanos serem fáceis de agradar em novos, serem macios e gastronómicos e, pelos menores custos de produção, serem baratos com qualidade, fez com que conquistassem o mercado. As pessoas habituaram-se a essa qualidade alentejana, de vinhos muito agradáveis de beber e que ligam bem com a comida, e foi sempre a crescer. Hoje em dia, as Cooperativas que resistiram ainda têm algum peso, sobretudo Borga e Reguengos e perdida lá no fim do mundo a da Granja, mais pequenina com uma característica muito própria de vinhos específicos que se fazem naquela zona que é super quente.

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Portalegre que foi uma das grandes sub-regiões alentejanas perdeu protagonismo, mas parece que está a voltar em força. Sim, recuperou, principalmente porque muitos dos fornecedores de uva da Adega Cooperativa que, entretanto encerrou, passaram a vender uvas a particulares. E têm aparecido muitos novos produtores. A Symington

fez um investimento grande em Portalegre, a Fundação Eugénio de Almeida comprou recentemente a Tapada do Chaves, uma empresa do Dão, a Lusovini, também comprou ou alugou vinte e tal hectares de vinha na Serra de Portalegre, depois apareceu o Richard Mason, a Susana Esteban e o João Afonso, o que fez renovar o interesse pelos vinhos de Portalegre.

Que eram óptimos... São. Continuam a ser. São vinhas velhas, vinhas antigas de castas misturadas que dão um blend muito simpático, portanto, é uma zona específica e muito original do Alentejo, não é comparável com mais nenhuma outra. Outro aspecto interessante na região é o aparecimento de um novo interesse por plantios de vinha na zona próxima do Atlântico, ali para Vila Nova de Mil Fontes, com vinhas muito próximas do mar, onde se estão a plantar castas brancas, Sauvignon, Riesling, Pinot Noir.

Por falar em brancos, outro tipo de vinho que tem crescido muito, quer em qualidade, quer em quantidade, é o dos espumantes que hoje são produzidos em quase todas as regiões do País. No caso da região da Bairrada eles melhoraram muito significativamente nos últimos tempos. Quando comecei a fazer o Guia, havia muito poucos espumantes da Bairrada interessantes. Nessa época as Caves todas produziam espumantes e representavam 95% da produção da região, mas em geral eram muito fracos. Com o encerramento da maior parte das Caves e o aparecimento de muitos produtores engarrafadores particulares, a qualidade média subiu significativamente. Outra região que cresceu muito em número de marcas, mas não em volume de produção por marca, foi a dos Vinhos Verdes, sobretudo, nos espumantes feitos com a casta Alvarinho. No entanto, a principal região dos espumantes portuguesa, onde se produzem os melhores espumantes do País, é Távora-Varosa. Não há muito que saber, entre a Murganheira, o Vértice e actualmente a Real Companhia Velha, encontramos os três melhores produtores de espumantes em Portugal. Curiosamente de Távora-Varosa, uma gama de excelente relação qualidade-preço, com espumantes baratos e todos bons, é a Raposeira, que passou as passas do Algarve durante muitos anos, mas graças a Deus foi comprada pela Murganheira e estão a trabalhar muito bem.


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Fotografia© Heitor Castel’Branco Amaral


Para terminarmos este périplo pelas regiões do País, falta a Madeira. A Madeira tem um problema insolúvel que é a diminuta área de vinha das castas tradicionais: Boal, Malvasia, Sercial, Terrantez, etc.. Porque por muito que se diga e que se procure puxar pela Tinta Negra, de facto, o resultado final não é igual por mais boa vontade que se tenha. O Ricardo Diogo é um sujeito fantástico e tem feito um trabalho incrível sobre o vinho da Madeira, mas eu já provei os Tinta Negra todos e não consegui encontrar nenhum que se assemelhe a um grande Boal, a um grande Sercial, portanto, acho que o Vinho da Madeira se vai manter num nicho muito reduzido sem grandes modificações a curto prazo.

Esta moda de amadeiramento dos vinhos está para durar? Já passou! Ou melhor, está a passar. O que está acontecer ainda, não é tanto vinhos passados por madeira, é a madeira passada pelo vinho (risos). Mas, quando as pessoas querem pagar 3¤ por uma garrafa de vinho branco com um saborzinho a madeira, esse vinho tem que levar aparas lá dentro, não pode estagiar em barricas.

Mas, em sua opinião, é uma moda que está a passar? Está, porque em termos internacionais isso é notório e vê-se nos concursos até de forma exagerada, porque os provedores entraram numa fase em que, se o vinho tem um toquezinho de madeira, leva logo uma castanhada (risos).

os gostos: há vinhos esquisitos, até com um toque mais defeituoso, há vinhos de lavrador, há vinhos brancos feitos em cortimenta com as películas cor de laranja, há vinhos frutados, há vinhos com muita madeira, há vinhos biológicos, há vinhos de talha, há uma grande oferta e cabe a cada pessoa escolher o que mais gosta.

O que é que mudou no mercado dos vinhos portugueses com este seu guia que já dura há 23 edições? Mudou muita coisa! Hoje em dia apercebome que há muita gente que se entretém com os amigos a criar tertúlias de vinhos, onde promovem provas cegas e atribuem notas de prova e entregam fichas, o que me deixa espantado, porque não imaginava que houvesse um interesse tão aprofundado sobre o assunto. E cada vez há mais provas temáticas e jantares harmonizados e cartas de vinhos bem elaboradas e garrafeiras a organizar eventos de vinhos, sempre com imensa adesão. Portanto, há um interesse novo, de gente que agora discute castas, barricas e estágios e não sei o quê, quando antigamente nem castas sabiam que os vinhos tinham, nem os rótulos informavam sequer. Hoje estamos muito à frente, mas mesmo muito à frente do que estávamos e ainda bem. Acho que estes meus guias também contribuíram para esse interesse e isso deixa-me satisfeito, porque quanto mais as pessoas sabem, menos enganadas são.

Isso é um exagero! Os provadores têm tendência a ser exagerados para um lado ou para o outro. Houve uma altura em que se os vinhos não tivessem madeira não tinha complexidade, agora se têm um cheirinho a madeira “ai Jesus que tem logo que se cascar”. Mas nota-se claramente que hoje se privilegiam a fruta e a acidez, à madeira.

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E no caso português? Consegue definir um perfil do consumidor? Não, porque falta alguém que faça um estudo sério sobre os hábitos de consumo em relação ao vinho no nosso País. Não sei quem o pode fazer com algum fundamento científico, mas seria interessante para percebermos se as pessoas preferem vinhos com engaço ou vinhos macios, vinhos para guardarem ou para consumirem daqui a duas horas. Até porque a oferta no mercado é suficientemente diversificada, com vinhos para todos

Fotografia©LEYA


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A Música dos Vinhos Ao provar um vinho usamos 4 dos 5 sentidos. Avaliamos cores, aromas, texturas e sabores. E se os vinhos tivessem música?

VINHO VERDE PALÁCIO DA BREJOEIRA

MÚSICA

Madame Butterfly, Puccini Maria Callas

Ouça aqui!

VINHO TINTO CRASTO SUPERIOR, SYRAH

MÚSICA

Wave - Carminho Canta Tom Jobim

Ouça aqui!

VINHO TINTO SEM VERGONHA

MÚSICA

Don’t Stop the Music Jamie Cullum

Ouça aqui!

por

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André Pinguel


Clássico, nobre, distinto, elegante e intemporal, são adjectivos que definem o Alvarinho do Palácio da Brejoeira ou o tema Madame Butterfly da opera de Puccini na voz de Maria Callas. O explendor da Brejoeira faz com que seja uma das mais bonitas casas senhoriais Portuguesas e a sua proprietária Maria Hermínia Pais uma das figuras mais proeminentes da região dos vinhos verdes. Devemos-lhe a ela, e à sua determinação, o nascimento de um dos melhores vinhos brancos do país bem como o enaltecimento da casta Alvarinho, por ventura a mais nobre entre todas as outras castas brancas.

Palácio da Brejoeira Produtor: Palácio da Brejoeira Região: Vinhos Verdes Casta: 100% Alvarinho Estágio: 6 meses em garrafa Enologia: João Garrido PVP – 16,00¤

Tal como o Palácio da Brejoeira tem um papel determinante na história recente dos vinhos verdes, também Madame Butterfly é uma opera incontornável na história da música. Callas canta-a como ninguém, emprestando a intensidade e densidade necessárias ao dramatismo da personagem. Ao escutá-la, é impossível ficar indiferente, somos tocados pela beleza do seu timbre e pela perfeição dos seus agudos. Assim é o Alvarinho da Brejoeira, intenso de cor palha brilhante, apresenta uma complexidade harmoniosa e sempre vibrante. Um magnífico vinho verde. Saúde!!

O Sem Vergonha é um vinho Alentejano feito totalmente a partir da casta Castelão. Na sua concepção tem a vontade inicial de Susana Esteban e a mestria para vinhos ao estilo da Borgonha de Dirk Niepoort. Nenhum dos dois enólogos é Alentejano, mas ambos criadores de alguns dos melhores vinhos Portugueses. Talvez essa distância das raízes Alentejanas lhes tenha permitido ter a ousadia de reconhecer na casta o potencial para um fazer um vinho de estilo diferente dos que ali se fazem habitualmente. Um vinho elegante, com boa estrutura mas com elevada acidez que lhe confere frescura, vale muito a pena a prova! Se o Sem Vergonha fosse música podia ser o Don’t Stop the Music cantado por Jamie Cullum. Tanto o vinho como a música têm um ritmo forte e acertado, a frescura do Sem Vergonha espelha-se no jazz mais contemporâneo de Jamie Cullum. O cantor é irreverente neste estilo que domina bem, assim como Dirk é visto como o enfant terrible dos vinhos Portugueses. E Susana Esteban, espanhola, tem vindo a desconcertar o mercado de vinhos em Portugal com as suas criações de elevadíssima qualidade mas surpreendentemente inovadoras. A música fala-nos de um encontro casual que dá origem a um flirt aceso e irresistível. Desconfio que também os enólogos flirtaram com esta vinha de Castelão, entusiasmados pelo seu potencial, seduzidos e seduzindo até chegarem a este fantástico vinho Sem Vergonha, com fortes notas de cereja, estruturado, de final longo e persistente.

Crasto Superior - Syrah Região: Douro Castas: 97% Syrah, 3% Viogner Produtor: Quinta do Crasto Estágio: 16 meses em Barricas de

Carvalho Francês Enologia: Manuel Lobo

Preço: 24.00€

Sem Vergonha Produtor: Susana Esteban & Dirk Niepoort Casta: 100% Castelão Região: Regional Alentejano Enólogo: Susana Esteban e Dirk Niepoort Engarrafamento: 1700 garrafas Estágio: 12 meses em barricas usadas de carvalho Francês

Preço: 22,00€

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Pode a Quinta do Crasto ser a Carminho dos vinhos? Ou poderá a Carminho ser o Crasto dos fados? Será exagerado fazer a comparação, ou pelo menos eu não me sinto com coragem para a fazer. No entanto, arrisco pôr lado a lado o Crasto Superior Syrah e a música Wave, tema de Tom Jobim, cantado por Carminho. Senão vejamos; a fadista, embora jovem, conta já com alguns anos de carreira musical, os suficientes para lhe conferirem um seguro lugar entre os melhores. A Quinta do Crasto, como marca própria, é também jovem quando comparada com outras casas do Douro, no entanto encontra-se também indiscutivelmente entre os vinhos de excelência da região e do país! Carminho terá sentido a maturidade e curiosidade de cantar temas fora da sua zona de conforto e assim lança este álbum onde interpreta Jobim. A quinta do Crasto, na sua quinta no Douro Superior, fez um exaustivo trabalho experimental para investigar quais as variedades de uva que não sendo usuais na região apresentassem bons resultados neste terroir, o resultado foi este Syrah fora de série! Tanto o Syrah do Douro como a música proposta por Carminho são exemplos bem sucedidos do que acontece quando os que já deram prova das suas capacidades se desinstalam e se aventuram por terrenos alheios. Parabéns a ambos!


Licitar por Pedro Santo Tirso

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Quem não gosta de um bom leilão? E se for online ainda é melhor. A comodidade, a tranquilidade, a flexibilidade, a variedade e por aí fora sempre com o sufixo em-ade, queira Deus. Mas melhor, (estão preparados?), leilões de w h i s k y. Sim, leram bem, leilões de whisky. São tão bons que chega a ser irrelevante conseguir efetivamente comprar o que pretendemos. Provavelmente, no nosso subconsciente, nem queremos realmente comprar, queremos apenas acalentar a esperança na obtenção de certo bem que reputamos importante para a nossa felicidade, mas que se esfuma quando estamos perto de consegui-lo (mais propriamente alguns minutos antes do fim da licitação, quando alguém sobe uns 50¤ a um preço já de si proibitivo).


Os leilões de whisky (o meu site preferido é o whiskyauction.com, alemão, como se exige) pressupõem várias competências (como se diz agora) e permitem-nos várias lições. Em primeiro lugar, é importante saber o que procurar. Um leilão de whisky partilha algo com uma atividade de investigação. Por seu turno, investigação implica planeamento. Não é absolutamente necessário, mas aumenta o prazer que se retira do leilão. Imaginemos, por exemplo, que pretendemos adquirir um Yoichi 12 anos. 12 anos. Não é o 10 anos (demasiado banal), não é o 15 anos (quem nos dera), é o 12 anos. O 12 anos não desmerece o bebedor sério. O Yoichi 12 anos é, aliás, o tipo de whisky que devemos ter no nosso armário especial juntamente com o Lagavulin 16 anos ou um Aberlour com a mesma idade. E, convenhamos, o tempo frio está aí. Não queremos ser apanhados desprevenidos com whiskies que se bebem com gelo e fazem lembrar noites frescas de Verão. Ninguém quer isso. Fazendo a investigação adequada, a escolha comprometida, tendo o whisky que merece a nossa luta desenhado no horizonte podemos avançar. Procuramos, encontramos. Lá está ele, em várias garrafas. Vamos para as licitações mais baixas, mas por cautela licitamos também um 15 anos que está com um valor absurdamente baixo (não vai durar muito e dentro de dois dias alguém vai mostrar-nos a nossa pequenez no grande esquema das coisas). Feita a licitação, esperamos. Não ficamos de braços cruzados, aproveitamos o ensejo e vamos investigar um pouco o objeto da nossa procura. Hoje um Yoichi, amanhã um Bruichladdich, assim vamos aproveitando para saber um pouco mais daqueles que nos dão de beber à alma.

azar e não um mau negócio. Podia acontecer-nos numa compra normal, presencial ou online. Todos as outras hipóteses de maus negócios não têm explicação racional e por isso merecem um lugar especial no nosso coração. Hoje é relativamente fácil fazer benchmarking de preços de whiskies, mesmo dos mais raros, por isso não é difícil perceber quando estamos a licitar acima de um valor aceitável para o mercado. É certo que em casos raros estamos em águas desconhecidas. Por exemplo, queremos um whisky trufado de Islay de um ano específico já um pouco longínquo. Digamos, um Ardbeg de 1982. Mesmo com as maravilhas da internet não é fácil perceber o valor aceitável à data do leilão. E depois há a dimensão afetiva. Quanto estamos dispostos a investir, financeira e sentimentalmente, para podermos deitar mão a um whisky do ano do nascimento da nossa bem-amada? Porém, excetuados estes casos fortuitos, um leilão eletrónico de whisky deixa-nos apenas espaço para maus negócios que aceitamos docemente sabendo que vamos pagar um valor que não devíamos por um whisky que não tem preço para nós. Chegado o dia de encerramento do leilão, começamos a olhar para o lugar do armário especial onde vamos colocar a nova garrafa, imaginamos o serão em que o iremos abrir, organizamos na nossa cabeça o encontro de final de noite onde convidaremos aqueles dois amigos capazes de apreciar um Yoichi 12 anos. Ele saberá melhor só por ter sido licitado e ganho. E se o perdermos (como me acontece consecutivamente há seis meses), não perdemos a face: mantém-se o encontro de amigos em torno de um modesto Jameson 16 anos. No próximo mês há mais. E desta vez é que vai ser.

É possível fazer maus negócios num leilão de whiskies. Claro. Mas é difícil. Desde logo porque se o mau negócio for causado por um whisky de má qualidade em bom rigor é

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Cada leilão, no meu site preferido, dura um mês, o que dá tempo para várias licitações e contra-licitações até que todos percebemos que já só interessa o dia final. Nesse dia temos de estar perto de uma ligação à internet se queremos ter alguma hipótese. É claro que pode haver logo uma licitação que nos afasta, mas aqui ajuda alguma experiência de poker: até um determinado valor que sabemos estar abaixo do mercado (pelo menos do mercado onde ainda conseguimos encontrar alguns destes whiskies) uma licitação alta pode ter só um efeito psicológico de nos desmoralizar. Nada disso. Se a licitação é alta mas ainda fica abaixo de um valor aceitável para aquele whisky, então é licitar por cima, sem medos, mesmo que por um valor diminuto. Contra-jogada de efeito psicológico, que também não terá grande efeito, mas diverte.


A FABRICA Podíamos começar de duas formas. Pelo passado e pela história. Ou pelo presente e pelas histórias. A verdade é que vamos juntar as duas. A Provir e a Fábrica. Porque a Fábrica respeita o passado e tem sucesso no presente. Em 2013, as instalações da Provir, uma antiga fábrica de refrigerantes, licores e confeitarias, foram reabilitadas e adaptadas. Nasceu A FÁBRICA. Restaurante e Bar. Um espaço de lazer contemporâneo, com boa gastronomia e que nos remete para o passado em cada um dos seus recantos. Os rebuçados, caramelos e amêndoas. As compotas, refrigerantes e licores. A marmelada, as frutas em calda e a confeitaria. Quem não se lembra disto? No meu caso, em especial, a famosa gasosa na típica garrafa verde de vidro, consumida por inteiro numa simples refeição em casa dos meus avós, e logo devolvida num café de Abraveses. A FÁBRICA também não esquece e tornou-os símbolos, expondo utensílios, ferramentas e artigos da Provir de forma meticulosa. O respeito pelo passado marcou claramente a sua aposta. Mas é também na gastronomia e na diversão que a Fábrica mostra o que vale. Nos seus pratos, desde os petiscos aos bifes grelhados com molhos divinos, do bacalhau à lagareiro ao polvo frito, são os sabores caseiros e da região que se evidenciam, levando-nos a uma experiência inesperada, única e diferenciadora. Os concertos e actuações ao vivo encaixam também em toda esta criatividade, tornando-se um espaço multifacetado para diversos tipos de eventos, tanto no Inverno como no Verão. A FÁBRICA não ocupa todo o espaço das antigas instalações da Provir e podemos mesmo dizer que se encontra num business center. À sua volta, estão sediados mais de 10 escritórios de empresas e ainda 2 campos de futebol indoor. Falamos, portanto, de umas antigas instalações que deram lugar a um espaço de grande actividade e empreendedorismo onde o Restaurante / Bar assume a sua liderança e centralidade. por José Pedro Gomes

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fabricaviseu.pt


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RAIO GOURMETIZADOR

PIZZA D’OURO

por Pedro Nápoles

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A pizza terá origens na antiguidade, mas tornou-se conhecida, como tal, em Itália, mais precisamente em Nápoles, onde era comida de gente pobre, de rua, barata, com simplicidade e sabor. Tornou-se popular, primeiro em Itália, depois pelo mundo fora onde virou fenómeno global. Um disco de massa de farinha, fermento, água e sal, com uma cobertura simples, molho de tomate, queijo e alguns ingredientes humildes e saborosos. Pois, assim deveria ser, como ainda é em Nápoles onde a melhor pizza do mundo custa uns 6 euros, pode ser feita apenas de molho de tomate, azeite, orégãos e alho, e deixa uma memória para a vida. Não sendo purista, há algumas interessantes variações mais criativas, incluindo a abordagem romana, no entanto pizza ainda é, em Itália, sinónimo de simplicidade. Por cá, há muitos anos que temos muitas e (algumas) boas pizzarias, mas nesta cosmopolita Lisboa, onde a criatividade tem rédea solta e os turistas permitem todos os devaneios ao nível dos preços, uma nova geração chegou, trazendo consigo grandes transformações. Hoje, um jantar numa pizzaria deixou de ser uma opção descomprometida e económica, aquele lugar onde vamos com regularidade quando não nos apetece cozinhar, para subir a um tal nível de sofisticação que uma refeição pode custar o mesmo que jantar num bom restaurante. Juntem-se os cocktails, cada vez mais em voga, mas que ao menos são optativos, e sem grande dificuldade estamos em jantares de 30 a 40€ por pessoa, comendo pizza. Sim, por este preço lembro-me de vários sítios onde comer uma óptima posta de bacalhau ou um grande e épico bife acompanhados por um bom tinto. Como sobra alguma réstia de decência aos restaurantes, que os leva a terem vergonha de cobrar 15¤ por uma simples e deliciosa, se bem feita, Marinara ou Margherita, come-

çaram os devaneios, onde já tudo é permitido. O DOP tornou-se omnipresente, seja na mozzarella, no fiambre ou nos figos. O tomate é biológico ou DOP, ou ambos. As azeitonas são varietais. A farinha das massas é moída em pedras de granitos velhos. Os presuntos têm curas prolongadas ou são de porco preto. O parmesão é envelhecido. O inefável ananás (não vejo ninguém comer sanduíches com ananás, mas parece que em pizza é apreciado) é dos Açores. E, claro, as trufas, ou melhor, um certo aroma de trufa atirado para cima da pizza, que justifica uns 5 euros a mais na conta, a acrescentar aos DOP, envelhecidos, biológicos ou tudo junto. De comida de rua, as pizzas passaram então ao preço de uma refeição em restaurante sofisticado, o que deve levar a excelentes lucros das pizzarias da moda, algumas das quais nem se se dão ao trabalho ter as pizzas básicas – como uma Margherita ou Marinara – como se fossem pouco dignas. E quando têm, lá está o inefável DOP a permitir um preçozinho mais gordo. Os preços sobem tanto que quase parecem ser feitas de ouro, mas, esperem, afinal há mesmo uma pizza com folha de ouro nesta Lisboa moderna e custa uns módicos 35¤. Aparentemente o negócio prospera e não me espanta que passem a surgir pizzas de caviar do Irão com salmão fumado da Escócia perfumado com limão do Sorrento, de magret de pato biológico dos prados com sal rosa dos himalaias, de rosbife de vaca kobe aromatizado com trufa branca do Piemonte, ou mesmo de fois-gras de Périgord em emulsão de Porto Fonseca Vintage 2011. Afinal, parece que vale tudo para rentabilizar as humildes pizzas e de as elevar a rainhas, talvez pensando na Margarida (de Sabóia, rainha de Itália) que deu nome à clássica das clássicas. Apesar de reconhecer que alguns destes lugares de ouro fazem realmente boas pizzas, com boa massa, bom molho de tomate e bons ingredientes, a presunção chegou a níveis que não batem certo com o que é a essência da pizza. Eu não trocava uma Marinara no Da Michelle ou uma Margherita do Il Presidente (ambos em Nápoles) por uma destas pizzas d’Ouro lisboetas, além de que, pelo mesmo preço, convidava alguém para jantar e ainda sobrava dinheiro para um limoncello de Sorrento.


Rolo de Carne O meu rolo de carne leva muito material, não vou maçar o pobre leitor com a receita e confesso apenas que a mistura leva uns bons dedais de Martini e o misturador um ou dois de red label, variando a quantidade de cada um com a hora a que se amassa a massa. Esse é, na verdade, um dos verdadeiros truques: amassar tudo demoradamente, como o pão do diabo. Envolver as carnes, os enchidos e as bolachas com tempo, tudo muito bem picadinho ou migado, os ovos esplendidamente bem batidos, os temperos e os ditos dedais com os próprios dedos (umas luvas ajudam), sempre com imenso carinho e paciência q.b., provando amiúde (cozinheiro prevenido tem ao lado do copo torradinhas finíssimas para o efeito). O outro truque é a qualidade dos ingredientes, desde a água do gelo à marca das água e sal, sem esquecer as carnes e o sal marinho. Um bom rolo de carne possibilita uma infinidade de soluções, particularmente nos meses da primavera e verão. Claro que é bom ao jantar, quentinho e a sair do forno (embora assim seja difícil de levar à faca), com um arrozinho sujo ou de ervilhas ou de favas, quiçá debaixo de um molho de bruxa que se tenha prevenidamente congelado em tempo e se aqueça no momento para a travessa, ao lado de uma saladinha de alface igualmente bem temperada, a cobrir uma finíssima cebolinha roxa. Mas também a frio, a contrariar o calor do verão e cortado finamente, quase laminado

(pois então a sua temperatura o permite), o rolo de carne faz excelente figura. Sendo certo que o arroz acompanha igualmente bem a carne fria podemos variar a refeição acompanhando com uma saladinha de batata devidamente envolvida e sem qualquer avareza por maionese acabadinha de fazer. Ou em molho de gemas cozidas. Os amigos da dieta preferirão apenas uma saladinha de coração de boi com um fio de azeite, flor de sal e ovo cozido grosseiramente picado (e maionese, vá lá, um nadinha, não poderá fazer mal), o que também não é mau. Boas azeitonas são sempre boa companhia. Já que me lembra o ovo picado, fica ele sempre também bem sobre um feijãozinho verde cozido e levemente pintalgado de azeite e umas gotinhas levíssimas de Moura Alves. Esquecendo a dieta, um feijão verde estufado com bom chouriço abraça o rolo de carne com igual alegria à de dois bons amantes. E o ovo picado pode entrar também na brincadeira. Muitos dos problemas dos bons amantes decorre do dia seguinte. Já um bom rolo de carne resolve isso com imensa naturalidade. Duas boas fatias de bom pão (fresquíssimo ou cuidadosamente tostado) bem barradas com boa manteiga, lâminas do rolo intercaladas com iguais lâminas de bom queijo, folhinhas de alface fresquinha, uns restinhos da véspera do tomate, do ovo picado e da maionese, um bom sumo de laranjas algarvias acabadas de espremer, e para quê sair para um brunch fora, mau e caro? A meu ver, o rolo de carne, esse parente pobre do mundo da culinária, não anda a ser devidamente apreciado. Mas isso, como se poderá depreender, não é seguramente um problema meu. vlx

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Valha a verdade que não é coisa muito cara nem muito bem vista pelos conhecedores, para lá de que, mesmo bem vistas as coisas pelos que as conhecem verdadeiramente, dá enorme trabalheira. Mas gosto muito e lá por casa todos também pelo que por vezes doume à canseira.


Contos de Merceeiro

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As mercearias portuguesas eram lugares maravilhosos, com uma variedade infindável de produtos bem expostos, na generalidade sem se darem grandes ares, mas emanando uma profusão de aromas capazes de nos elevarem aos altos píncaros e com sabores autênticos que nos remetiam para os natais e as páscoas, passados em casas dos avós. O seu segredo, estava, como é fácil de perceber, na escolha dos produtos. As frutas, legumes e tubérculos, eram sempre fresquíssimos e caseiros, além de abundantes e baratos no tempo devido da sua colheita e pura e simplesmente inexistentes fora desses períodos, como que garantindo a sua frescura e a proveniência dos pequenos agricultores da região. Não raras vezes, quando guloso, pretendia antecipar a chegada de qualquer produto, era imediatamente posto no lugar pelo proprietário, que olhando de soslaio, respondia:

por João Moreira

- Até me vieram oferecer, mas não era flor que se cheirasse. Sabe, ainda não é tempo deles. E pronto, estava o caso arrumado e lá era encaminhado para “estes que chegaram hoje e estão tão fresquinhos que ainda se notam as gotas de orvalho. Ora veja”. As mercearias reuniam, regionalmente, o que de melhor se produzia em Portugal. Esse era o seu segredo, aliado ao saber do merceeiro que mais parecia um chefe de cozinha, sugerindo conjugações perfeitas para almoços e jantares, a que acrescentava sempre duas ou três coisinhas que nunca nos passaria pela cabeça comprar e que se tornavam pequenos vícios a que, desde aí, não conseguíamos resistir. As mercearias variavam em função da sua localização. Nas pequenas aldeias, chamavam-se vendas e além de todas as coisas


Nas cidades, sobretudo nas grandes, além de diversas mercearias de bairro, existiam as mercearias finas, onde como o próprio nome indicava a coisa piava mais fino. Estas eram verdadeiros antros de perdição para qualquer gastrónomo que se prezasse. A selecção de produtos, de tão perfeita, chegava a irritar e originava visitas regulares em busca das coisas mais estapafúrdias, com o intuito de embaraçar o gentil proprietário, o que acabava por nunca acontecer, pois do canto mais recôndito, lá aparecia o nosso pedido, normalmente a preços exorbitantes, como que castigando a ousadia da brincadeira, que como está bem de ver, saía cara. Nestas mercearias, os produtos dividiam-se quanto à sua qualidade, como dizia um grande amigo, em três tipos: bons, muito bons e óptimos e a que, como que por requinte de malvadez, os proprietários acrescentavam uns mimos extra, como doces regionais, empadinhas, pastéis de massa tenra, bolinhos caseiros, que, ou eram os “melhores do Mundo”, ou os “melhores da Europa.” Em Lisboa, sobretudo na Rua do Arsenal, acontecia existirem ainda algumas mercearias especializadas em produtos provenientes das antigas províncias ultramarinas e que inundavam o ar de perfumes exóticos que aguçavam a curiosidade e nos levavam a sonhar viajar, mundo fora, para esses lugares distantes. Vieram-me estas recordações à memória a propósito da proliferação que aconteceu em Portugal nas últimas décadas de umas lojas meio ambíguas a que se decidiu chamar gourmet e que pretenderam ocupar o espaço religiosamente preenchido pelas mercearias finas. E quase conseguiram. De facto, hoje, praticamente tudo é gourmet. Pizzas gourmet, hambúrgueres gourmet, azeites gourmet, vinhos gourmet, empadas gourmet, pães gourmet, gelados gourmet,

chouriças gourmet... Para não falar nos ditos espaços gourmet que, de repente, invadiram todos os recantos do país. Não existe cidade que se preze que não tenha uma padaria, mercearia, supermercado, restaurante, cervejaria, roulotte, que não seja gourmet. Até na tasca mais esconsa e bafienta, encontramos, quanto mais não seja, uma garrafinha de azeite gourmet, que o proprietário ostenta com orgulho. Não há paciência! Tanto mais quanto, entrando numa loja gourmet, nos deparamos com uma gigantesca variedade de produtos de todo o mundo, excepto de Portugal. Se não acreditam, é só testar. Experimentem entrar nesses encantadores e charmosos espaços e vão verificar que encontrarão rúcula impecavelmente acondicionada, mas procurem umas ervilhas de quebrar, viste-las! Vão encontrar dezenas de variedades de cogumelos desidratados e frescos para confeccionar os mais deliciosos risotos, mas tentem descobrir uns míscaros para um arrozinho a correr, era o descobrias. Vão percorrer corredores com presuntos e enchidos com todas as estrelas do universo, mas descubram umas morcelas da Beira Alta ou uns maranhos da Beira Baixa - desculpe, não recebemos. Quanto a águas, até os mais incrédulos ficarão admirados com a variedade que por lá existe e surpreender-se-ão com uma extraordinária e extraordinariamente cara água japonesa que resulta do degelo de icebergs, mas de um oitavo de Castelo para o whisky que tanta falta nos faz, nem uma amostra. Num canto, com enorme destaque, lá estará um sushiman devidamente fardado e preparado para lhe entregar os melhores sushis e sashimis, mas umas empadinhas de perdiz, nem vê-las. Nunca consegui entender a falta de interesse destas lojas pelos bons produtos nacionais. Claro que por lá existem alguns, mas esforço na procura dos melhores, preocupação em mostrar a excelência da produção nacional, pelo menos na mesma medida em que se preocupam em mostrar a de outros países, nunca encontrei. Felizmente, as velhinhas mercearias, conseguiram resistir estoicamente, com produtos portugueses ou talvez por isso, a esta “invasão estrangeira” e lá continuam, garantindo a manutenção do que em Portugal se faz de melhor, como é o caso da magnífica Conserveira Nacional, com filas de turistas à porta, ansiosos por conhecer os verdadeiros produtos portugueses. Por isso, aconselho o leitor a fazer uma visita a esses ícones da qualidade no nosso país e a deixar-se guiar pela mão sábia dos merceeiros, raríssimos conhecedores de cada um dos produtos que têm nas suas prateleiras, e verá que se vai surpreender com a riqueza do que vai encontrar. É que de facto, os nossos produtos são mesmo “os melhores do mundo”. Ora experimente!

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boas que todas as outras ofereciam, também vendiam os produtos mais inimagináveis, nos quais se incluíam gasolina e petróleo, adubos, alfaias agrícolas e uma profusão de sementes capaz de envergonhar a americana MONSANTO. Estrategicamente situada ao lado, com porta comunicante, existia uma pequena taberna, destinada a aliviar os incómodos da espera e as agruras do frio do Inverno e do calor do Verão, com uns tintos do produtor ou umas minis geladinhas, a que se podiam juntar umas pataniscas de bacalhau, uns peixinhos da horta ou uma saladinha de feijão frade. Indo com tempo, enquanto ao lado aviavam o pedido, jogava-se uma sueca ou um dominó e comentavam-se os jogos de Domingo, as últimas safras agrícolas e os dislates habituais dos políticos.


Mil e uma maneiras de fazer bacalhau Brandade de Bacalhau com pasta de tomate fresco

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Para 4 Pessoas

Ingredientes: 1kg de migas de bacalhau 500g de batata para cozer 100 g de manteiga 300g de tomate em rama fresco 30 ml de azeite 20 ml de vinagre de sidra 10 g de cebolinho Q.b sal Q.b pimenta preta 1litro de leite


Confecção: Para o Bacalhau: 1.Demolhar as migas de bacalhau. 2.Cozer o bacalhau em leite. 3.Retirar o bacalhau cozido, reservando o leite de cozedura. 4.Lavar, descascar e cortar grosseiramente as batatas. 5.Cozer as batatas no mesmo leite do bacalhau. 6.Com uma vara, bater o bacalhau até este ficar em fios. 7.Passar batata cozida num passe vite. 8.Adicionar a batata ao bacalhau em fio até ficar uma pasta homogénea. 9.Temperar com sal e pimenta. 10.Na altura de servir, numa panela derreter a manteiga, juntando o bacalhau e envolvendo. 11.Rectifique temperos. Pasta de tomate 1.Cortar o tomate grosseiramente, temperando com o azeite, vinagre, sal e pimenta. 2.Triturar com uma varinha mágica. Empratamento 1.Picar cebolinho. 2.Num prato raso colocar a pasta de tomate até cobrir o fundo do prato. 3.Adicionar o bacalhau com um molde (exemplo chávena de chá). 4.Colocar o cebolinho picado por cima do bacalhau. 5.Finalizar o prato com um fio de azeite e está pronto a servir.

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Receita da autoria : Chef Mariana Claro Restaurante Pasta Non Basta Avenida Elias Garcia, 180 B, Lisboa


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geral@revistabica.com


Chapéus há muitos

UM CHAPÉU AJUDA SEMPRE A ENFRENTAR A DESCIDA DE TEMPERATURA E A MUDANÇA DE CORES…O INVERNO CHEGOU!

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por Joana da Franca


Geraldine “A criação como extensão de mim própria” por Bica

Geraldine de Lemos tem um olhar profundo, com um je ne sais quoi de provocador que nos fita de forma intensa e penetrante. Nascida na Bélgica, Geraldine cedo descobriu a sua vocação para as artes. “Queria desenhar. O desenho era a única coisa que me agradava.” Frequentou a Escola Superior de Artes Saint-Luc em Bruxelas, numa experiência que denomina de muito importante na sua vida, porque lhe ensinou a exprimir o seu eu. Com 18 anos precisou escolher uma área específica e foi pedir opinião a um professor que a aconselhou a ir para o têxtil e foi. Tinha tudo a ver com ela. Os tecidos, o toque, o volume e o facto de poder exprimir-se através da matéria. Era tudo o que sonhara e acabou por revelar-se uma descoberta transformadora.

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Entretanto estudou floricultura durante 3 anos, atraída pela natureza e pelo desejo da criação efémera permanente com uma vertente muito prática de poder vender as suas criações. “Eu fazia e ia vender para uma loja, em contacto com os clientes. Foi muito bom! Infelizmente, no último ano apanhei uma alergia que me impediu de continuar. Como já tinha estudado e viajado, então decidi ter filhos!” Conta Geraldine com uma gargalhada contagiante. E teve dois, antes de cumprir outro sonho de infância e vir morar para Portugal. Regressou com o intuito de abrir uma florista, mas o pai, sempre protector, ofereceu-lhe a possibilidade de ir para a quinta e com dois filhos pequenos para cuidar, acabou por aceitar. Talvez, nada antes como essa experiência a tenha ajudado tanto a compreender a paixão pela terra, pelo vinho, pelo estar à mesa, pelo receber amigos. De tal forma o entendeu, que se apaixonou, ela própria por essa terra que não era sua, mas que aprendera a amar. Quase ao lado da quinta, construiu a sua casa, exactamente como sonhara e com uma vista de cortar a respiração para a Serra da Estrela. O impeto pelas coisas da terra,

pela genuinidade, empurrou-a para algo que sempre adorou desde os tempos da Escola de Belas Artes: o contacto com a matéria. “Senti uma enorme necessidade de trabalhar com materiais matriciais: a terra e o barro e de usar as minhas mãos para os transformar, para lhes dar forma. De criar algo que fosse uma extensão de mim própria.” Foi esse encontro consigo própria, afastada do exagero perfeccionista em que tinha caído, que permitiu a Geraldine a descoberta de uma nova forma de expressão artística - o trabalho em cerâmica. Apaixonada desde sempre pelo artesanato e, em particular, pelo trabalho de artesãos que ousavam mesclar tradição com modernidade, Geraldine embrenhou-se na descoberta do seu próprio caminho, inspirada nas raízes culturais da família e nas suas experiências pessoais. O resultado é indiscutivelmente original! As suas peças estão impregnadas de emoções, de sentimentos, de humanidade. Como se a cada modelagem, Geraldine descarregasse no barro as suas tensões emocionais, numa espécie de exorcismo criativo, pleno de originalidade e inspiração. Mas, prática como se habituou a ser, não se contentou com a simples criação artística decorativa. Para ela, era preciso entregar funcionalidade aos objectos. Amiga do conceituado Chef Franck Roquigny, também ele um emigrado em Portugal, Geraldine começou a modelar objectos inspirados nas criações gastronómicas do amigo francês que as passou a usar nas suas degustações com um impacto surpreendente.


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Quem conta um conto? por Francisco Mendes da Silva

No último Festival Literário de Viseu fizeram a Pedro Mexia aquela pergunta fatal e sacramental: para quando um romance? Também sou culpado dessa dúvida. Consciente ou inconscientemente, achamos que um escritor é o escritor que escreve romances. Estamos sempre à espera do romance. “O” romance – esse objectivo de vida, esse rito de passagem, essa senha de acesso ao panteão. Tudo o resto é acessório. Os contos, por exemplo, que no passado tinham uma dignidade literária própria, às vezes parece que já só servem para assegurar um módico de consideração pública e de sobrevivência (nos países onde se paga com decência o ofício) nos longos invernos entre dois romances.

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Muitos, os mais castos, ainda tentam disfarçar o objectivo venal e burguês da escrita com uma espécie de significado artístico: escrevem contos como meros exercícios de estilo, tentativas académicas, ensaios para o próximo romance. O importante é fazer tudo para deflectir a crítica mais mortífera: a de que um pedaço de escrita é entretenimento. No mundo anglo-saxónico, até se tem algum pudor em falar de short stories. É mais prudente utilizar o vago short fiction. Algo correu mal na história da literatura para que a noção de entretenimento lhe passasse a ser tão adversa. Michael Chabon tem um ensaio – Trickster in a Suit of Lights – onde propõe o reencontro, porque «of all the means writers of fiction have devised for spanning the chasm between two human skulls, the short story maps the most efficient path.» Em Portugal, a este desprezo pela ideia de entretenimento, junta-se o desdém pela concisão. A concisão é a virtude intelectual mais subvalorizada em Portugal. Não é considerada uma virtude e muito menos intelectual – como acontece, basicamente, em todas as culturas reféns de um afrancesamento agudo. É também por isso que para muito boa gente um escritor só o é verdadeiramente se se agrilhoar ao romancismo e a ele se dedicar

com gongorismo, facúndia e fôlego proustiano. Daí termos tanta falta de bons ensaístas, novelistas, contistas, cronistas, repórteres, diaristas, frasistas, aforistas, letristas. Em 2012, na New Yorker, Ian McEwan veio contribuir com um bravo subsídio para a causa, ao defender que a novela é a forma perfeita da ficção, pelo controlo que exige – na economia narrativa e na transparência, na precisão e na intensidade, na moderação do ornamento, no empenho que suscita em cada frase, na harmonia da obra, na preocupação com o prazer e concentração do leitor, mesmo no comedimento da húbris intelectual. «The demands of economy push writers to polish their sentences to precision and clarity, to bring off their effects with unusual intensity, to remain focused on the point of their creation and drive it forward with functional single-mindedness, and to end it with a mind to its unity. They don’t ramble or preach, they spare us their quintuple subplots and swollen midsections.» Talvez a concisão de que fala McEwan seja uma virtude britânica, instigada pela insularidade, pela necessidade de encontrar tudo, produzir tudo, prever tudo dentro de horizontes cerceados. A concisão será fruto do mesmo desígnio natural de outras grandes virtudes britânicas, como o empirismo, o governo limitado ou a pouca predisposição para conjecturas ou sistemas abstractos. Pedro Mexia é o melhor cronista e diarista português (e um dos melhores poetas). Os seus diários, que começaram nos blogs, são uma tentativa de guardar rasto de uma dispersão quotidiana, de lhe dar a forma possível, uma posteridade breve mas honrosa. Mas são, apesar da modéstia da fórmula, uma experiência gloriosa. Escrever um romance, percebeu-se em Viseu, não é desejo que o mantenha acordado à noite. E não há problema: a sua escrita já é do melhor que a literatura portuguesa contemporânea tem para dar.


REVISTA

Nยบ3 INVERNO 2018

BICA 3  
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