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MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA exposição exhibition TREASURES OF THE VATICAN MUSEUMS

TESOUROS DOS MUSEUS DO VATICANO

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Mecenas Principal

Patrocínio

Apoio

Media Partners


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revista

ÁGUA João Moreira | Editorial # 3 Teresa Ricou | Grande Entrevista # 4 Nicolau Pais | A minha vizinha Tété # 13 Nuno Costa Santos e António Araújo | Mares # 15 João Moreira | A Arte Xávega # 28 Francisco Silva | Eu e a Arte Xávega # 36 João Moreira | A história do moliceiro # 38 Paulo Moura | São Jacinto # 40 Ana Motta Veiga | Memórias da Casa Antiga # 48 Adriano Plotzki | #SAL # 50 Bruno Esteves | Em casco duplo # 52 Bernardo Mota Veiga | Portugal é um país gigante! # 56 Lídia Fernandes | Como as águas criaram # 58 João Simões e Gonçalo Amaro | Um batismo com esplendor # 64 Pedro Teotónio Pereira Devoções | Ribeirinhas a Sto. António # 66 Paulo Moura | Um piquenique na zona de guerra # 70 Paulo Ferreira | O nosso tempo é a guerra deles # 78 Lopo de Castilho | Turismo equestre # 80 António Ferrari | A miopia da comunicação # 83 João Moreira e Vanessa Pires de Almeida | Viseu Património # 84 Marta Gonzaga| Vida desvairada # 94 João Albuquerque Carreiras | Alface fora d’água # 98 Fernando Madaíl | Toponímia # 102 Santa Casa da Misericórdia de Lisboa | Itinerários em Lisboa # 104 Francisco Duarte Coelho | Segredos de Lisboa # 108 Pedro Cassiano Neves | Retratos do Património # 109 Ana Luísa Soares e Ana Raquel Cunha | Árvores de Lisboa # 110 Ana Pérez-Quiroga | Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade # 112 Zeferino Coelho | Entrevista por Fernando Madaíl # 116 João Almada | Cais # 128 Francisco Mallmann | fim, um quadro # 131 André Serpa Soares | Água # 132 Alexandre-Yacine SOULEYE | Lisboa # 134 João Albuquerque Carreiras | Postais Perdidos # 140 Alexandra Lucas Coelho | Entrevista # 142 António Meira Henriques | Padre António Vieira # 148 Duarte Cordeiro de Sousa | Lugar aos novos # 150 Companhia Teatro de Almada # 152 Fernando Carqueja e Teresa Cordeiro | Circum # 156 LISBONAR | O nosso guia de Lisboa # 161 João Júlio Rumsey Teixeira | A Praça de Lisboa # 172 Edgardo Pacheco | Falando de azeites # 174 Pedro Santo Tirso | IPA, IPA, #Hurra! # 182 André Pinguel | A Música dos vinhos # 184 Falando de vinho no berço da Touriga Nacional # 186 Mariana Claro | Mil e uma maneiras de fazer bacalhau # 188 VLX | Aromas # 190 Pedro Nápoles | Raio gourmetizador # 192 Joana da Franca | Chapéus há muitos # 193 Francisco d’Orey Manoel | Crianças expostas na roda da Misericórdia # 194 Nelson Moreira Antão | Um compromisso para o futuro # 196 António Tavares | À conversa com... # 198 Andreia Gouveia | Passeando na Figueira da Foz # 200


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Fotografia por Jorge Barrote


Editorial “... tinha uns olhos de mar. Não eram azuis, nem esverdeados Eram da cor das ondas em dias de tormenta E foi ela que me deu forças para continuar...” Enquanto escrevo Portugal vai ardendo. Há décadas que é assim. Anualmente, o fogo destrói hectares e hectares de matas e de campos cultivados, aterroriza aldeias e mata pessoas. Desta vez matou um número anormalmente grande de pessoas e por isso parámos estupefactos e horrorizados perante o inimaginável, mas esquecidos de que quase todos os anos morrem bombeiros a combater os milhares de incêndios que lentamente vão consumindo uma das nossas maiores riquezas: a floresta. Indignados, erguemo-nos colectivamente numa avalanche arrepiante de solidariedade, mas cumprida a missão e aliviada a consciência, regressámos à nossa vida, desvalorizando um drama que parece não ter fim - a destruição sistemática do nosso património colectivo. Isto acontece com a floresta, mas estende-se à agricultura que sobrevive exclusivamente à custa do esforço de uns quantos heróis que insistem em acreditar que é possível produzir o que consumimos; às pescas a cuja morte anunciada assistimos incrédulos enquanto, inchados de orgulho, degustávamos as nossas sardinhas, os nossos robalos e os nossos mariscos; à indústria naval que já foi das mais importantes do mundo e de que hoje sobram edifícios fechados e destruídos que nos deveriam envergonhar; ao património edificado que vai ruindo pelo país fora sob o olhar condescendente das autoridades à cultura que, na ausência do mais leve laivo de estratégia política e de meios financeiros, vai definhando diariamente. Alheados a tudo isto, regozijamo-nos com os turistas que nos entram aos magotes pela porta dentro buscando exactamente o que anualmente permitimos que se destrua: as nossas belezas naturais, a variedade dos nossos produtos agrícolas, a qualidade e frescura dos nossos peixes e mariscos, a monumentalidade da nossa arquitectura, a genuinidade das nossas aldeias e cidades, a diversidade das nossas tradições. Seremos ainda capazes de nos erguermos na defesa do nosso património comum? Percorremos o país para conversar com os muitos portugueses que ainda vão fazendo a diferença na defesa intransigente da nossa matriz identitária. Portugueses como o historiador Francisco Silva que do Centro Arqueológico de Almada moveu mundos e fundos para garantir a continuidade da Arte-Xávega e a sobrevivência de centenas de famílias da Costa da Caparica; portugueses como o Mestre Mário, pescador de uma vida e verdadeiro artista na arte de preparar redes; portugueses como o Professor Raimundo Mendes da Silva que se dedica há décadas ao estudo da recuperação do nosso património histórico edificado, como forma de garantir uma reabilitação equilibrada e coerente dsas nossas cidades; portugueses como o Mestre Zé Rito, apaixonado pelos moliceiros da sua Ria, que constrói com as próprias mãos e cuja arte já passou aos netos; portugueses como Domingos Teixeira que o Paulo Moura foi encontrar nos abandonados Estaleiros de S. Jacinto e que se recusa a aceitar o fim de uma empresa onde trabalhou uma vida e que era o seu orgulho; portugueses como o Rodrigo Francisco, Director Artistico do Teatro Municipal de Almada, que apesar das dificuldades mantém vivo o sonho de Joaquim Benite de levar o teatro para a rua transformando anualmente a cidade num enorme palco; portugueses como o Zeferino Coelho, entrevistado pelo Fernando Madaíl, que acreditou nos méritos de um escritor desconhecido e editou o primeiro Nobel da Literatura português.

Propriedade: Studiobox, Publicidade e Gestão de Meios, Unipessoal Lda Direcção: Bruno Esteves Edição: João Moreira, João Albuquerque Carreiras Fotografia: António Araújo, Bruno Esteves, Carina Martins, Franscisco Silva, João Albuquerque Carreiras, Fernando Carqueja Arte: Studiobox Ilustração: , Pedro Albuquerque Identidade Corporativa: Jorge Barrote Comercial: geral@revistabica.com +351 962 706 373 / 968 405 494 Impressão: Tondelgráfica SA Periodicidade: Trimestral Tiragem: 5 000 unid. Depósito legal: 416462/16 Interdita a reprodução de quaisquer textos ou ilustrações por quaisquer meios. A Revista Bica é escrita em português, sem utilização do acordo ortográfico. Os conteúdos dos textos e as opiniões neles expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Fotografia da capa: Samara Doole em Unsplash

APOIOS:

Nesta edição da BICA trazemos histórias de determinação, de coragem, de motivação e, quase sempre, de fé. Histórias de pessoas que fazem a diferença. Esperemos que vos inspirem. A nós inspiraram.

por João Moreira

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PS - Num país tão pouco dado a agradecimentos, não queriamos deixar de reconhecer o inexcedível apoio que três jornalistas de excepção têm dado a este projecto: o Fernando Madaíl, o Paulo Moura de quem temos o orgulho de publicar uma reportagem exclusiva de Erbil no Iraque, a Alexandra Lucas Coelho, entretanto nomeada como finalista para o Grande Prémio de Romance e Novela da APE com o seu último romande “Deus-dará”.


Grande Entrevista

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Teresa Ricou


Chapitô

“Eu costumo dizer que sou uma ave de arribação, escolhi vir para o circo e ando para aí a voar de um lado para o outro. Acho que consegui realizar o sonho de muita gente o meu é que ainda está por realizar.” Chegamos à Costa do Castelo nº1 num radioso final de tarde de Primavera. Num antigo edifício que já foi convento e prisão de mulheres, um corre-corre de gente de todas as idades anuncia o Chapitô, espaço de formação, criação, animação e intervenção sócio-cultural, que há mais de trinta anos anima a encosta sul do Castelo de S. Jorge. Pela recepção vão passando crianças a caminho de aulas, mães com filhos ao colo, estrangeiros de olhar curioso, jovens pintados de palhaços. Sentado num degrau da velha escadaria de madeira, um homem de porte altivo, barba branca, blazer cinza claro e uma echarpe pelos ombros escreve distraído num pequeno bloco pautado. Reconhecemo-lo. É o poeta António Barahona que veio para a celebração do nascimento de Luiza Neto Jorge, a poetisa que dá nome à biblioteca do Chapitô onde decorrerá a homenagem. O Bartô, sala que já foi antigo lavadouro de raparigas e hoje é centro de estudos e biblioteca durante o dia e bar à noite, está cheio de gente. Num canto, Eunice Muñoz conversa animadamente com Jorge Rodrigues, irmão da poetisa, enquanto do outro lado da sala Gastão da Cruz, Casimiro de Brito e Luís Lima Barreto vão passando cadeiras a quem entra. As conversas rodam em torno das pequenas histórias vividas por cada um dos presentes com Luiza Neto Jorge, mas uma pergunta repete-se insistentemente – Onde está a Tété?

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por João Moreira


A Tété, como carinhosamente é tratada por toda a gente é Teresa Ricou, a primeira mulher-palhaço portuguesa e ideóloga dum sonho cultural que revolucionou a cidade. O Chapitô já não é só um sonho, é uma realidade e a realidade tem de ser todos os dias reinventada, tem de ser todos os dias animada e isso é que é difícil. – Dispara depois de uma sessão de cumprimentos que se prolonga até se sentar num canto da sala para uma conversa com a BICA. Teresa Ricou: Nós estamos na nossa biblioteca Luiza Neto Jorge, que eu denominei assim para a homenagear por ter sido ela uma das pessoas que me ajudou a pensar o que é uma biblioteca, ela e o Zeca Afonso. Era outra geração. Já foram todos... resto eu, o Jorge Martins, o Barahona, a Eunice e mais uns quantos. Estamos aqui à espera de voar para outro lado, mas enquanto não voamos, vamos fazendo umas coisas. A Tété tem uma voz forte e pausada que nos prende à conversa. Consegui recuperar este edifício, que era o antigo Convento de São José de Cluny e depois foi a Cadeia das Mónicas, em 1985 à custa de muito investimento pessoal. Construi isto tudo numa altura em que estava em cena. Andava por aí a fazer espectáculos e por acaso correu-me bem, estava com muito sucesso. Trabalhei muito! Trabalha-se 24 horas por dia. E tive a sorte de conseguir arranjar um grande empresário que acreditou e investiu comigo. Foi assim que conseguimos reconstruir este espaço que me foi cedido pelo Ministério da Justiça em contrapartida pelo trabalho que estava a fazer e que continuo a fazer com os jovens em prisão.

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Trabalho com os jovens que estão sob a tutela do Ministério da Justiça e por isso, em contraponto de uma coisa veio outra. Foi muito interessante transformar um espaço que era uma prisão com uma vista maravilhosa (aliás, todas as prisões onde trabalho têm uma vista brutal sobre Lisboa, o que é uma coisa extraordinária e completamente perversa) numa casa de cultura. Abri as portas acreditando que a cultura que não foi dada às raparigas que cá estavam tinha de chegar a todos. E tenho conseguido.

Enquanto decorre a conversa, Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, Dinis Neto entre outros, vão declamando poemas de Luiza Neto Jorge numa espécie de encantatória banda sonora que de tempos a tempos nos prende a atenção.

Uma história curiosa em relação à recuperação do edifício prendeu-se com a parte arquitectónica. Na altura andei à procura de alguém que me ajudasse a fazer o projecto e recorri aos meus amigos, o Maurício Vasconcelos, o Manuel Salgado e todos diziam – Ó Tété, estás maluca, não te metas nisso. –, mas eu tinha que apresentar o projecto arquitectónico em 15 dias ao Ministro da Justiça, que era o… não sei quem (risos), e eu não tinha aquilo feito. Então, lembrei-me de ligar ao Taveira, sem o conhecer sem nada, e disse – Desculpe lá ó arquitecto, fala a Teresa Ricou - e ele – Ah, sei muito bem quem é! Você está no circo. Quando é que fazemos um número juntos? - Por mim é quando quiser, disse-lhe (risos). Expliquei o que pretendia e ele sugeriu que eu aparecesse por lá, que ia ver o que seria possível fazer. No dia seguinte lá fui e ele colocou uma assistente a tratar de tudo. Fez uma maquete, esteve aqui, montou esta coisa toda e fez-me o projecto. Quer dizer ele fez um projecto que eu transformei todo (risos). Depois ele desapareceu e nunca mais o vi, mas a verdade é que ele confiou em mim e eu confiei nele e confiou no meu bom gosto também.

Bica: Mas a verdade é que o projecto para o Ministro apareceu. Apareceu e ele nem sequer acreditava! Levei maquete, levei tudo. Uma coisa à maneira. Estava uma profissional. Depois voltei a ver o Taveira muito mais tarde numa encenação que fiz aqui com o Fernando Gomes em que me lembrei de o convidar para fazer a cenografia e ele veio cá e ajudou-nos. Quando andava por aí perguntou - Pá isto é muito giro, quem é que fez? - e eu respondi - Foste tu. - Ah foi? – Pois foi, não te lembras? (gargalhada geral). A vida tem que ser levada assim, com esta solidariedade interdisciplinar. Não há falta de dinheiro, há é falta de gente capaz e disponível. Como eu sou uma autodidacta tenho muita necessidade de me rodear de competência. De ter competência à minha volta, porque aquilo que eu quero e que tem a ver com o futuro da humanidade é que a coisa corra melhor e eu sozinha não consigo fazer, tenho de fazer com arquitectos, com marceneiros, com pessoas ligadas às letras, às artes. Olhem, pessoas como a Luiza Neto Jorge que era maluca como eu. Ela estava sempre a dizer: vai, vai, vai, faz, faz. Andava-me sempre a cutucar e foi assim que acabei por ir para Paris com o Jorge Martins e outros. Eu era uma intelectual-burguesa que vinha de um meio privilegiado e como era muito bonita fazia muita publicidade, ganhava muito dinheiro já na altura e circulei muito no meio do cinema, com o Fonseca Costa, com o Seixas Santos, que era grande amigo,


Falta loucura hoje? Falta! As máquinas deram cabo da loucura. A loucura não se faz com máquinas. Nem o Woody Allen é capaz disso (risos). Eu sinto falta disso, de solidariedade, de loucura e de pensamento artístico, pensamento cultural. Faz falta o culto do culto, porque é uma coisa que vale a pena cultivar, passe as redundâncias todas. Acho mesmo que vale a pena, mas o people anda muito distraído porque a sociedade de consumo é muito forte e as pessoas preferem ir para o centro comercial Colombo comprar as porcarias que toda a gente tem em vez de fazerem como eu, que faço coisas novas e tenho coisas que são só minhas. Perdeu-se esse gosto pela originalidade. Claro que não há ninguém igual, não somos todos iguais, somos diferentes e não precisamos de ter todos os mesmos objectivos, mas perdeu-se o interesse. Já repararam que os encontros, as tertúlias, tudo se faz por telemóvel? Não é possível!

Exactamente ao contrário das tertúlias da sua juventude. A Teresa teve o privilégio de viver um tempo de grande dinamismo cultural... Pois... essa foi a minha vida. Essa foi a minha escola de vida, porque eu sou uma autodidacta, não estudei, não andei nas faculdades. E eu fui para o circo. Antes quem é que ia para o circo?

Porque é que foi para o circo? Como nasceu essa vontade? Porque gostava de fazer rir e porque os colégios de freiras eram fechados e o meu pai dizia que eu tinha que ser certinha, não fazer nada de mal. Nós somos uma família de sete irmãos, somos do norte, uma família grande, tradicionalmente portuguesa e eu quando podia dava uma escapadela, estava sempre a “mijar fora do penico”. Era um daqueles filhos desajeitados que as pessoas têm. Nas aldeias havia sempre alguém que tinha um filho desajeitado e eu era uma desajeitadinha, mas fui eu que fiz a obra e os outros ficaram a ver passar os navios, ninguém fez nada. Eu sinto-me desajeitada, mas muito ajeitada com o que construí e hoje em dia “não há pai para mim”. Mesmo com os miúdos em prisão tenho uma maneira muito própria de comunicar e, de facto, consigo estabelecer uma ligação. As pessoas ainda não perceberam como é importante conseguir encontrar formas de comunicar com esta malta nova. Eu gosto disso, porque não tive ninguém que tentasse perceber-me. Estava sempre de castigo e agora o meu castigo para esses miúdos é

obrigá-los a fazer aquilo que gostam. É uma chatice! (risos). E um facto é que funciona! 80% dos miúdos que saem daqui estão a trabalhar, em hotéis, em restaurantes, em lojas, no Casino. Já imaginaram? O Chapitô no Casino? Uma coisa chique! (risos). Aquilo era só para certa elite e agora está lá a miudagem toda! É uma conquista que nos orgulha! E eu quero aquilo como deve de ser, vou lá de vez em quando para ver como correm as coisas. Alguma vez fui ao Casino como vou agora? Nunca! Na altura era convidada porque contratavam artistas de circo que iam actuar à noite. Aliás, foi lá que me começaram a ajudar a fazer a escola. Não tinha professores, tinha alguns artistas e colegas, mas faltava pedagogia e aquela malta da Suíça, de França, que vinha actuar ao Casino já tinha uma formação de alto nível. Então o Assis Ferreira, que eu conhecia daí das vidas, teve essa abertura e foi fantástico. Ia para lá até às tantas da noite para ver o espectáculo e depois convidava aqueles artistas e eles vinham para cá. Nessa altura consegui ter aqui um grupo de gente a formar, fizemos grandes artistas que saíram e estão aí todos com sucesso e fui formando outros que agora são professores aqui na escola. Isto é um ciclo, está tudo ligado. Foi um bom princípio. Agora temos uma grande afluência de artistas que vêm de fora, convidados para fazerem residências aqui. Mas, voltando aos miúdos, vale a pena pensarem em fazer um número da revista sobre essa transformação. A maioria vinha do Alentejo e da outra banda, gente da soldadura, não sabiam ler nem escrever, não sabiam fazer nada. De repente trabalham no Casino todos engravatados. Já imaginaram? Felizmente está criado esse mercado e o sucesso dos miúdos é uma coisa garantida. Mas sou exigente! Têm que aprender a escrever e a falar, a sociabilizar, a ler livros, a estar na biblioteca, a consultar um dicionário. A cultura tem que ser verdadeiramente democrática, por isso a Assembleia da República tem muito a aprender com a gente. Nós estivemos lá e aquilo é muito mais fechado do que a gente possa pensar. Não há cultura. Nós estamos interessados em investir, nós sociedade civil, mas temos de ter parceiros. O Estado, as Autarquias, os empresários.

Essas parcerias existem? Pouco. Pouco. Eu tenho pena desta coisa que aconteceu aos bancos. Tenho pena que não tenham percebido a importância que deviam ter dado ao investimento na economia social. Podia ter sido fundamental, mas eles não perceberam nada, gente que não tem cultura, que não tem interesses. É lamentável, mas olhe, como diz o povo – “Deus não dorme” - e efetivamente não dormiu e as coi-

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e tinha a dose de loucura necessária para ser uma referência na altura.


sas cá se fazem, cá se pagam. E aconteceu isto tudo e é pena. É pena porque as pessoas não fazem nada sozinhas, têm que fazer com o colectivo. Temos de ganhar consciência da importância da partilha, da entreajuda, digo por mim, porque faço isto 24 horas por dia com muita exigência e muito rigor e gosto de estar aqui, de estar ligada a isto, da cultura e dos amigos, os amigos são fundamentais, é por isso que estas casas existem.

Sente muito essa vontade de partilhar? Completamente, só pode, só pode.

E como foi a aceitação deste projecto? A aceitação? Não foi aceitação, foi imposição. A mim ninguém me aceitou fui eu que me impus. Fui-me impondo. Mas para isso é preciso ter um grande cabedal.

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Sentiu resistências? Muitas. Totais! Totais! E pouco reconhecimento. Ainda há pouco reconhecimento. Aliás, as pessoas ainda consideram o circo uma arte ao lado. Eu faço questão de dizer que o circo é uma arte milenar e tão importante como qualquer outra. Fizemos uma brincadeira com o Museu Nacional de Arte Antiga (o espectáculo “Miguel e Los Angeles” apresentado no MNAA no âmbito da Noite Europeia dos Museus), onde procurámos mostrar que o circo é uma arte tão antiga como a museologia. Eu estou a tentar brincar um pouco com isso, mas a verdade é que em Portugal as pessoas não reconhecem, mas lá fora está na pujança máxima. Até porque é uma linguagem universal, toda a gente entende, é acessível a toda a gente e mais que entretenimento, hoje em dia, é uma formação e está metido em todas as escolas. Só em França, em Paris, há mais de 400 escolas, em Portugal há uma que é esta, o que é um peso muito grande, com muita gente e uma adesão fantástica, mas imposto porque não queriam aceitar. Enfim! E a história dos palhaços como profissão, as pessoas também ainda não entenderam. Ainda não perceberam que o artista de circo pode ter a sua especialidade como palhaço, ele é o bobo da corte, ele é aquele que faz chegar ao Rei e à Rainha e aos Presidentes os anseios do povo. Ele faz a relação do povo com o poder e por isso está sempre no fio da navalha. Eu fiz isso durante muitos anos. Andava por aí de terra em terra nos circos com uma carrinha Volkswagen que eu tinha. Andava com tudo lá dentro, era uma maravilha e quando eu ia para uma tournée dessas parava no café da terra para perceber o que é que se passava. Faltam batatas, falta água, falta não sei quê, e a gente pegava naquilo e usava no espectáculo. Andava com o Sr. Luciano que

era o meu velho parceiro, um velho palhaço que era maravilhoso. O Sr. Luciano Nobre era chefe dos faz-tudos do Coliseu e foi com ele que aprendi muita coisa, depois de ter vindo de França onde comecei a minha formação, porque aqui não havia e embora em França também não houvesse, existia mais abertura para isso porque eu trabalhava muito na rua. As ruas em Paris eram uma escola. Aquilo era uma coisa fantástica. Na altura tudo acontecia na rua, ali em Saint-Michel e para nos protegermos da chuva íamos para o metro e fazíamos uns malabares, umas acrobacias. Nessa altura frequentava um ginásio pequenino que era o Cirque Gymnase onde paravam todos os artistas de circo. Depois estive muito tempo na Cartoucherie de Vincennes que era um centro de arte também em construção, como isto, era uma antiga fábrica de cartuchos da tropa, que a Ariane Mnouchkine também reconstruiu. Fez ali uma cidade, eu fiz uma casinha, ela fez uma cidade de cultura.

Foi uma inspiração? Para mim foi. E foi a minha grande escola, obviamente. Foi aí que dei os primeiros passos na arte das máscaras, estive a trabalhar com uma grande companhia de teatro da máscara, a Bread and Puppet. Nos anos 60 havia coisas maravilhosas, era uma gente muito interessante. Depois foi a revolução, meti-me numas aventuras políticas, políticas sociais, porque não sou de partido nenhum, sou uma pessoa muito independente, por isso não devo nada a ninguém. Às vezes até tenho a tentação de cair para aqui ou para ali, mas não tenho ninguém que me agrade (risos). Não tenho mesmo. Mas, na altura, meti-me nisso com a Luiza Neto Jorge, o Jorge Martins, o Seixas Santos, o José Escada. Era tudo uma malta boa, amiga. Até consegui entrar numa faculdade, Vincennes, mas com o cartão trambicado. Pus o cartão em cima de outro fiz uma fotocópia e saiu o cartão direitinho com o meu nome e tudo e então entrei. Eu só tinha o 5º ano dos liceus, mas tinha de entrar e entrei. Era uma universidade aberta, queria saber como era e consegui. Participei em semiologia do cinema, não havia circo, mas fiz muito cinema. Aprendi a teoria do cinema. Havia boa gente a dar aulas naquela altura e na faculdade treinava bicicleta, tocava trompete, fazia canto e andava de um lado para o outro. Tudo isto faz parte da cultura. A França era um país de cultura e Paris uma cidade onde em qualquer canto existiam coisas destas. A cultura era muito acessível e eu aproveitei-me disso, além do mais tinha uma enorme vontade de fazer, de aprender, de conhecer. Entretanto deu-se o 25 de Abril e como tinha uma prima que trabalhava na rádio, no Rádio Clube do Porto, telefonou-me às 5 da manhã a avisar e eu não pensei duas


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vezes, juntei-me ao Mário Soares que estava numa casa de emigrantes em Saint-Michel para vir para cá. Começou logo ali uma discussão, acerca de quem vinha de comboio ou de avião e não sei quê, e eu estava ali assim sem perceber nada e despedi-me do Ayala e fui para casa fazer as malas com mais um pessoal que estava lá comigo, uns brasileiros que vinham a fugir do Chile. Disse-lhes que vinha para Portugal, e eles disseram que também vinham. Viemos passados dois dias, chegámos cá no dia 28 e viemos a filmar a viagem toda. Tenho esse filme feito 24 horas a guiar, na tal da carrinha Combi (risos), sempre a filmar. Tenho isso tudo filmado: as autarquias a caírem, as portas a abrirem-se, as pessoas às portas. Impressionante! E foi assim, vim para Portugal e aqui continuei a fazer as minhas campanhas. Fui ao sindicato a ver se alguém queria trabalhar comigo, mas não havia trabalho, muito menos para um palhaço (risos). Foi aí que encontrei o Sr. Luciano, que estava à procura de alguém para ir trabalhar com ele. Já tinha 80 anos e eu tinha para aí 20, 20 e tal, e eu disse-lhe: - ninguém quer trabalhar comigo porque sou muito jovem. E ele respondeu: - então trabalhamos os dois. Foi a maior parelha! Ficámos os dois juntos e foi uma maravilha. O Sr. Luciano já tinha 80 anos e eu carregava-lhe a mala para trás e para a frente, mas não deixava que ninguém mexesse na mala dele com medo que alguém lhe roubasse alguma coisa ou alguma ideia. Hoje em dia não há nada disso, está tudo na internet. E foi assim, andei muito tempo a trabalhar com calças, feita maria-rapaz, com diversos parceiros que faziam parte do grupo de faz-tudos do Coliseu. Depois foram morrendo, tinham todos mais de 80 anos, e eu ainda aqui estou, com quase 80 anos também, e quem é que me quer? Esse começa a ser um problema (risos). Quem é que quer pegar na minha mala?

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Como foi a sua aceitação no circo, nessa época? Foi muito complicada. Para já porque eu era muito bonita e queria ser palhaço, fui e sou, e por isso pintava a cara para ser ao contrário e as pessoas ficavam desconfiadas. Depois conduzia uma carrinha, montava a tenda que precisava ser cozida e eu cozia na máquina a pedal e o povo ficava um bocado assustado. Eu acalmei-os porque lhes ensinava os filhos a ler e a escrever. Fazia alfabetização na minha carrinha na parte da manhã com os miúdos, aí eles começaram a perder a desconfiança. Depois eu defendia os miúdos por causa do sindicato. Estava a trabalhar no Coliseu nessa altura, eu o Sr. Luciano, eramos uns 8. O Sr. Luciano ganhava 40 escudos por dia, mas tinha de fazer 4 espectáculos, e nós ganhávamos 20, de maneira que um dia fui falar com o Sr. Covões, e disse - Ó

Sr. Covões se puder dar um jeitinho - e ele respondeu - Ó minha senhora, se está mal disposta a porta da rua está ali. - e eu mas a questão não é essa é só por causa do Sr. Luciano. - A senhora esteja descansada que aqui não falta nada a ninguém. - Aí pensei, cala-te boca e fiquei ali sossegadinha porque tinha que ir até ao final daquela tournée, mas depois nunca mais lá pus os pés que nunca mais me convidaram. Só fiz uma tournée. Uma tournée boa. Para mim foi uma experiência, porque eu não vivia daquilo, mas foi uma experiência realmente muito interessante e que eu um dia tenho que contar. Até tenho muitas fotografias. Nesse tempo passei muitas horas ali em frente ao Coliseu a ver se passava algum empresário que nos levasse, era uma espécie de mercado negro, estávamos ali encostados à porta, eu e o Sr. Luciano. Ele dizia - Está calada. Eu é que falo e os empresários perguntavam Qual é o número que tem agora? - ele lá dizia, e dizia que tinha uma rapariga que trabalhava com ele que tinha um número engraçado.

Isso à espera de serem contratados para outras tournées. Naquela altura era assim. Ganhávamos 40 escudos por dia por 4 espetáculos, 20 escudos para cada um. Isto passou-se nos anos 80.

Mas, o facto de ser uma mulher bonita e de ter chegado de fora também lhe deu certo protagonismo... Não, não. Era por ser a única e por ter um grande à vontade. Tanto estava nos bares como estava no Coliseu, como estava nas grandes casas, como a Cornucópia. Estive muito tempo na Cornucópia e eles é que me ajudaram a montar isto tudo, por isso eu nunca tive nada a reclamar. Agora a conjuntura em Portugal é muito difícil, se me perguntassem se eu voltava para cá outra vez, eventualmente não voltava. Aqui é tudo muito difícil. Porque é que a cultura é um parente pobre do mundo? Isso faz-me um bocado de aflição, porque é por via da cultura que as pessoas se conseguem juntar, é por via das artes que eu consigo dar a volta a estes miúdos em prisão, e a prova está aí, não está? Haverá melhor exemplo do que o destes miúdos que conseguimos incluir socialmente através da cultura?

Qual é a intervenção social do Chapitô hoje em dia? É essa mesma, com esses miúdos, com estes miúdos que estão presos, que estão privados do meio social e é um espaço aberto, um espaço alternativo à educação, onde fa-


Da sua parte tem a consciência do trabalho feito. Tenho, tenho a certeza. Sei que preciso dar mais condimentos, mas tenho amigos que vêm cá e me ajudam, a ler, a fazer exposições, a cantar. Ainda agora estamos aí com uma exposição de pintura do Canavarro, mas isto faz parte, eu gosto de ver, para mim é um prazer, ao mesmo tempo estamos a mostrar ao mundo e a educar os miúdos. Isto é uma sala de aula, estamos aqui com a exposição de fulano e você já está a aprender, porque hoje em dia não há o Rio Minho nem o Rio Tejo, não, hoje há o Mundo. Eu posso estar a falar de Angola, eu sou de Angola, o meu pai foi médico de lepra em Angola e por isso eu corri aquele país todo quando era jovem com os meus irmãos, por isso vivo muito intensamente as culturas africanas e foi um país que nos deu muita pica, são países com outra dimensão, e eu vivi muito isso no dia-a-dia e, portanto, tanto falo dessas culturas como falo da Luiza como falo das coisas europeias, como do Brasil. Nós temos de estar no mundo, temos de estar ligados e o Chapitô é esse espaço de ligação, de união de culturas.

Essa ligação mais uma vez aconteceu neste 10º Ciclo das Mulheres Palhaço que decorreu durante o mês de Maio e juntou duas brasileiras e duas espanholas. Sim e isso mais uma vez é o mundo, das mulheres, do humor e do riso. Sem ser feminista que eu não sou feminista.

Aliás, eu ia perguntar exactamente isso correndo o risco de ser politicamente incorreto. Foi esse espírito sem complexo de feminismo que fez com que se assumisse de forma tão determinada e acabasse por ser aceite e admirada de forma tão natural? Sim, foi exactamente isso. Estou completa-

mente de acordo. O importante é ter qualidade, é ser trabalhadora e dedicada e ter competência. Só assim se consegue vingar e montar um projecto destes e ter a responsabilidade de 90 pessoas aqui a trabalhar.

Como é que se encaixa a necessidade de uma gestão rigorosa para um projecto desta dimensão com a loucura que disse ser fundamental? Não se encaixa, está completamente desencaixado (risos). Está desencaixado, mas funciona. Não há pessoas em Portugal com este perfil, com esta educação, com esta formação. Não há, porque ninguém quer nem ninguém valoriza. Por exemplo, no 25 de Abril levei os miúdos todos para a Assembleia da República, 80 miúdos, a visitar a Sala do Senado, o Salão Nobre, os jardins, aquilo tudo, e os deputados não foram capazes de dizer uma palavra sobre o Chapitô, embora tenham sido eles a convidar. O preconceito cultural em Portugal é muito grave e sofro um bocado com isso.

Apesar desse preconceito sente orgulho em ser uma mulher-palhaço? Sempre!!!! É o que eu sou. Eu fui um bocadinho a pioneira, porque a partir do momento em que eu dei esse pontapé de saída houve muita gente que veio a seguir e que se assumiu e fez coisas extraordinárias até fora do circo tradicional. Eu furei, fiz uma coisa e fiz outra, por isso estou satisfeita, abri caminho e lugar a estas mulheres palhaço e há gente fantástica, giríssima e maravilhosa a fazer coisas por aí fora, na França, Inglaterra, Bélgica, Suíça. Na Suíça é uma coisa brutal de mulheres a fazerem circo, a fazerem de palhaço e eu sou um bocadinho o calo delas todas. Mas isto tudo tem que ser gente com competência. Isto não vai lá com quotas, vai com competência, com vontade, com determinação. Eu acredito na força das mulheres que vem da maternidade, a força de quem pariu ali uma criança. Em Portugal ainda temos o sentido do todo, o sentido do lado maternal, eu também tenho um bocado essa coisa, mesmo com os miúdos daqui. Nós mulheres portuguesas somos um bocado assim, os maridos iam para a guerra e elas ficavam cá a tomar conta do país, de maneira que eu sou um bocadinho o resultado disso tudo só que virada para o circo, para palhaço e por isso, como eu às vezes levo as coisas a rir, os miúdos até aceitam melhor.

É mais fácil levar a vida a rir? Eu acho que deve ser, mas eu não sei o que é porque eu não me rio muito. Eu até gostava de ter um sítio para chorar, mas não encontrei ainda. Também não choro assim de qual-

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zemos educação informal dentro dos termos que são ditados pelo Ministério da Educação, mas com autonomia pedagógica. E olhem que eu discuto muito com o Ministério da Educação como se deve dar uma aula, porque uma aula não se dá sentado, é em cima da pista a fazer um texto, a dizer uma Eunice Muñoz, a dizer uma Luiza Neto Jorge, isto é que é educação, porque hoje em dia quem é que se senta na carteira? Nós trabalhamos muito as alturas, trabalhamos o risco e isso faz bem aos miúdos, aliar o pensamento e o corpo à destreza física, tem que estar tudo ligado e se isso acontecer o mundo está num belíssimo caminho. O óptimo é inimigo do bom, mas eu trabalho para que isso aconteça.


quer maneira, não pode ser, mas se encontrasse algum momento para poder chorar um bocadinho não me importava. Para descongestionar. Mas, nem uma coisa, nem a outra. Ando aqui direitinha para ver se não borro a pintura (risos). Sabe, isto é difícil porque já tem muita coisa. Agora estou dedicada à economia social, porque com a cultura a gente não ganha dinheiro. A cultura tem que ter investimento e o que eu faço aqui é um investimento. Depois temos o restaurante que tem que dar dinheiro, temos a escola, mas essa não dá dinheiro, o Ministério da Cultura participa com uma parte, porque os miúdos pagam só 40 euros por mês, mas depois têm que trabalhar a seguir, têm que ter essa consciência social e responsabilidade. Depois temos muitos trabalhos com hotéis e fazemos essa ponte a nível da produção e temos a Companhia de Teatro e Circo, que foi criada em cima dos clássicos e que corre mundo a fazer imenso sucesso, ainda agora estiveram na Rússia, e eu estou aqui presa porque a administração não me deixa sair. Mas eu vou, vou ver as oficinas, as criancinhas no ATL, porque nós temos um espaço para as crianças onde quem vem trabalhar pode deixar a sua criança. Isto é uma espécie de old school, antigamente é que era assim, mas eu mantenho isso, porque hoje em dia está tudo mudado e os miúdos vêm para a escola já com 20 anos e trazem a sua criança e onde fica a criança? Tem de ficar aqui, depois uns tomam conta daqueles, os outros tomam conta dos outros e é assim. Gerir isto tudo dá muito trabalho, mas se não for assim o país não vai para a frente e tem que ir. Os sonhos só fazem sentido se se transformarem em realidade, mas às vezes essas realidades podiam ficar só pelo sonho, porque a gente assim não tinha o trabalho de mexer em coisas que são menos agradáveis, manter uma coisa destas bem administrada não é nada fácil em Portugal, com a nossa pouca cultura. Vocês acabam por fazer esta revista que é uma grande ousadia, mas não são muitos a tê-la, por isso às vezes uma pessoa sente-se um bocado só, não é verdade?

O que é que a faz rir, Teresa Ricou?

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A mim nada (risos). Sabe o que me faz rir? Dormir. Preciso muito de dormir (risos). Mas de vez em quando sabe o que é que me faz bem, vou ser sincera, são as novelas brasileiras às 4 da manhã. Aquilo é uma gargalhada porque eles são tão bons actores e têm uns temas fantásticos. Agora estou a ver a “Avenida Brasil”, porque eu chego a casa às duas da manhã, estou lá sozinha tomo um chá e rio-me imenso, sinceramente são muito bons actores, aquilo é uma coisa que não tem descrição. Mas quando começo a rir já estou fora de prazo.


A minha vizinha Tété

por Nicolau Pais

A porta da Tété dava para a cota da rua; mas a minha não. Para chegar à minha porta, havia que entrar por um túnel e descer à semicave onde fui criado. Nesse túnel, mais ou menos a meio havia (há?) um vitral colorido, assim “como nas igrejas”, achava eu; esse vitral era uma janela da casa da Tété e, se eu pressentisse que por lá estaria gente, não chegava sequer à minha porta - voltava para trás e lá ia bater à porta daquele santuário inacreditável. Máscaras, narizes, tapetes persas, linóleo, uma grafonola, sofás de canto antes de isso estar na moda, pássaros suspensos, truques de magia, sapatos de sapateado (e uma estrutura em tabopan para acelerar num “charleston”!); posters de cinema antes da precariedade dos dias de hoje os declarar “clássicos”, uma galinha (ou duas?) numa gaiola, pronta para entrar em cena; uma cozi-

nha do tempo dos tachos pretos, tapeçarias, óleos sobre tela... - entrar ali era como entrar pelo espelho da Alice no País das Maravilhas encenado pelo Slava Polunin. Só que... Só que a gente cresce. Depressa e, às vezes, mal. E quando cresce e volta para a memória, e se predispõe a reintepretá-la como hoje faço em frente a um ecrã, o tempo realinha as coisas. Hoje, adulto, celebro aquela casa sabendo que ela escondia a solidão própria dos seres livres, libertados que estão pela consciência da sua própria insignificância no Grande Circo da vida. Por trás daquela porta estava um outro Chapitô, edificado pelo intangível por um lado, pelo cru, pelo outro. Um palhaço - ou uma mulher-palhaço - não tem outra casa que não o mundo. Não há tinta branca nem nariz vermelho que o esconda: pelo contrário, para a Tété, as máscaras não foram feitas para esconder nada, mas para servirem de porta para a revelação do silêncio interior onde brilha a imaginação. Eis-nos aqui chegados à palavra-chave; imaginação. Somos livres se imaginamos, mas não somos necessariamente imaginativos só porque somos livres. É preciso mais; a Tété chamar-lhe-ia “loucura” ou coisa que o valha, naquele seu timbre muito próprio de quem se habituou a não ter de explicar nada, porque - ela sabe - isso estragaria tudo. Eu chamolhe “porta que é preciso passar”; a de casa dela estava, na maioria das vezes, apenas à espera de ser empurrada. Entrem, e cuidado com o degrau que está logo ali à esquerda. Atenção - senhoras e senhores, meninos e meninas, o espectáculo vai começar.

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Se conseguirem, imaginem uma Lisboa onde as casas do centro - hoje, “prime real-estate” - mais não eram do que as casas simples, frias, húmidas e divertidas onde moravam os miúdos “filhos da madrugada” como eu, e os artistas que fundavam o país livre, como ela: a vizinha da Travessa da Condessa do Rio, do número 1A. Eu morava no 1B. Entrava e saía de casa da Tété como entrava e saía do meu próprio quarto - aquele palácio de afectos, gente livre e adereços espalhados pelos tectos, paredes e cantos era, realmente, uma extensão natural do “meu bairro”. Mais acima, a estátua do Adamastor, no miradouro ao fundo da Marechal de Saldanha, fitava com a severidade dos mitos Lusitanos, a Lisboa do século XX.


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Mares

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Fotografias por António Araújo Texto por Nuno Costa Santos


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O surf é uma das formas mais recentes de confrontar o mar, muitas vezes agreste, dos Açores. Sempre admirei quem o faz, no Inverno, em circunstâncias meteorológicas a recomendar recolhimentos caseiros. Vi muitos amigos a fazer surf mas nunca tive essa coragem. O homem da fotografia tem uma familiaridade com a onda que nunca terei. Nesse sentido é um ídolo. Quando for grande quero dialogar com o mar assim.


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Se o surfista desce a onda por gozo, há quem o faça por missão. O barco que ali vai é comandado por alguém que conhecerá bem as armadilhas do oceano. Segue entre o rochedo e a onda. Leva-me a pensar não só em quem navega mas também em quem comanda aviões entre as lhas. Há pouco li um texto de um cronista inglês de viagens que chamava a atenção para a dificuldade de cumprir horários de voo numa terra com um tempo tão instável. O mesmo valerá para quem percorre as rotas marítimas.


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Quando era pequeno ia à pesca com o meu pai e os seus amigos. A pesca desportiva é cada vez mais desconsiderada num tempo de valorização dos direitos dos animais mas não posso deixar de recordar aquelas pescarias como alguns dos momentos mais felizes da minha infância e adolescência insular. Estes homens da fotografia pescam por necessidade. Já ouvi pescadores profissionais a dizer que não trocariam a existência no mar por qualquer outra em terra. Terão ainda algum gozo em ir para o mar ganhar a vida?


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As nuvens são muitas vezes os cabelos ou as cabeleiras das ilhas. Pode dizer-se, a propósito, que, se repararmos esta ilha está muito penteada. Sem nuvens não havia Açores. As nuvens cobrem com frequência as ilhas açorianas (dificultando os trabalhos dos pilotos e das aves), para as tornarem mais preciosas ou para as protegerem dos perigos celestes. Os açorianos irritam-se quando se diz nos noticiários que está sempre mau tempo nos Açores. Não é verdade. Mas é verdade que a maior parte das nuvens do céu da ilha tem o seu feitio.


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“O mar está bravo”, diz-se nos Açores perante o levantamento das ondas. É uma expressão que pode ser transportada para outras circunstâncias, além das marítimas. Se o ambiente de uma conversa fica mais picado, se alguém se mostra zangado, é legítimo dizer-se: “O mar está bravo”. A bravura do mar é uma circunstância habitual nas ilhas açorianas. Aturamo-la como aturamos a maneira de ser dos nossos melhores amigos


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Chamemos a esta rapaz skater do mar. Vai por ali porque lhe é imprescindível apanhar a espuma marítima quando desce a estrada. Imaginemos que está a dar a volta à ilha de skate, sempre com esta ligação ao mar. Que há um lado de romeiro nesta figura – que cumpre uma promessa no gesto. Imaginemos, sim. É o princípio de uma história que se anuncia.


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Arte-Xávega A luta pela sobrevivência de uma tradição “No imenso areal, o barco da duna, sempre o mesmo barco, maior ou mais pequeno, próprio para a arrebentação, de proa e popa erguidas ao céu. Trabalham seis companhas em catorze barcos. Já trabalharam oito. Cada barco emprega vinte e um homens, contando dez que ficam em terra. Usam quatro remos: um grande de cada lado e dois pequenos, servindo os maiores para agüentar o barco quando as águas puxam e se vai ao mar a risco. A cada remo grande agarram-se três homens e dois aos mais pequenos. O espadilheiro guia o barco com outro remo – a espadilha. Quando há muito peixe fazemse três lanços cada dia, e trabalha-se todo o ano se o mar deixa. A rede é a de arrasto para a terra. O barco sai ao mar deixando um cabo nas mãos dos dez homens que ficam no areal, e vai-o largando pouco e pouco – cinquenta e tantas cordas de dezoito braças cada uma. Quando o arrais acha que se deve largar a rede, diz: – Em nome da Senhora da Conceição, rede ao mar! – E larga-se o calão, em seguida o alar, depois o saco, e por fim o outro alar e o calão, trazendo-se a corda para a terra. Abica, salta a tripulação e com os homens de terra arrastam a rede. Apanha-se sardinha, carapau, e às vezes, em lanços de sorte, e quando menos se espera, a corvina, alguma raia, pargo e linguado. Uma grande extensão de areal, só areia e mar, barcos como crescentes encalhados e alguns pescadores remendando as redes. Nem um penedo. Areia e céu, mar e céu.”

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Raúl Brandão, Janeiro – 1923, in Os Pescadores.


por JoĂŁo Moreira

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Francisco Silva


A Arte-Xávega esteve para morrer. Abandonada, como todo sector pesqueiro, pelo poder político local e nacional e sufocada por uma legislação bafienta que confunde tradição com saudosismo, a pesca de alar para terra, durante décadas dona e senhora de algumas praias da Beira Litoral e da Margem Sul, viu-se confinada aos retalhos de mar ainda livres de concessões turísticas e de escolas de surf. Quando o caminho para o fim parecia inexorável, o Centro Arqueológico de Almada, com o empenho da Câmara Municipal, conseguiram o feito de inscrever a Arte-Xávega da Costa da Caparica no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Pode parecer um pequeno passo, mas para as mais de 500 pessoas que vivem exclusivamente deste tipo de pesca tradicional, pode ter significado a sobrevivência. - Hoje não há pesca. O mar virou. – Arriscamos para início de conversa. - Não foi o mar, foi o vento. – alguma impaciência na voz. - O mar está bom, mas está muita tormenta. Mário Pedro Pinto dos Santos 74 anos de vida e quase outros tantos dedicados à pesca, aproveita a tormenta para se dedicar à arte, que é como quem diz ao preparo das redes. - Aprendeu a arte com o seu pai? - Tive a felicidade de casar com uma mulher que era filha de um dos maiores pescadores aqui da Costa e eu segui-lhe os passos. Aprendi com ele e hoje tenho o orgulho de ser praticamente o herdeiro dele. Gosto muito da arte. É uma vida muito bonita.

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Filho e neto de pescadores, Mário foi um dos primeiros bebés a nascer na Casa dos Pescadores da Costa da Caparica, no tempo em que tinha maternidade. “Apesar das dificuldades daquela época, tínhamos uma assistência na Casa dos Pescadores melhor do que a que temos hoje: tínhamos médico próprio, enfermeiros, maternidade e pré-escolar. Antigamente éramos mais sós, mas não nos impunham tanta coisa como nos impõem agora, mesmo ao nível da própria arte. “ A arte de que fala é a Arte-Xávega uma forma de pesca tradicional que, pelo empenho do Centro Arqueológico de Almada com o apoio da Câmara Municipal, foi inscrita em Fevereiro deste ano no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

O feito, diga-se em abono da verdade, deveu-se quase exclusivamente ao amor que o historiador Francisco Silva lhe devota desde que se aventurou às praias da Costa para recolher umas fotografias que ilustrassem um trabalho que o Centro Arqueológico realizara sobre actividades tradicionais da região. “Estavam por lá uns pescadores na faina e disseram para voltar no dia seguinte que iria com eles no barco. Foi o mal que eles fizeram porque nunca mais deixei de lá ir. Comecei a frequentar aquela companha¹ de forma regular e fui ganhando confiança com as pessoas e percebendo os processos. Fotografava e dava as fotografias aos pescadores e eles, em troca, davam-me peixe (risos). Ao fim de alguns anos percebi que tinha conseguido algo de muito raro que era estar integrado naquela comunidade e naquela companha em particular.” Daí a perceber que tinha conquistado um espaço e uma confiança que podiam ser utilizadas para fazer um trabalho mais sério em termos de investigação foi um passo. Envolveu-se no Projecto Fronteiras Urbanas que tinha como objectivo estudar as comunidades que viviam às margens da urbanidade na Costa da Caparica. O estudo rapidamente se transformou num projecto de ligação às populações do Bairro Terras da Costa e à comunidade piscatória. “Eu sempre estive mais interessado na relação com os pescadores da Costa e foi a partir daí que comecei a sistematizar os conhecimentos que tinha sobre as questões relacionadas com a Arte-Xávega.” Mas, afinal, o que é a Arte-Xávega agora inscrita como Património Cultural Imaterial? Consiste no arrasto para terra de uma rede em forma de saco, constituída por vários “panos” de diferentes malhagens que vão diminuindo da boca para o fundo do saco. O conjunto de cordas e redes, o calamento, é transportado por um barco que sai da praia deixando em terra uma ponta da corda (banda panda) que se vai desenrolando até largar a rede e o saco, após o que volta para praia descrevendo um arco e trazendo a outra ponta da corda para terra (banda barca). Mal o barco chega à praia inicia-se o processo de “alar” a rede, puxando e aproximando as duas cordas que trazem até à areia o saco, no fundo do qual vem o peixe capturado em cada “lance”. A Xávega é o método colectivo de pesca mais antigo do mundo, aparecendo descrito na Bíblia (Mt 13, 47-48) e praticado durante séculos na bacia do Mediterrâneo. Para Portugal foi trazido no final no séc. XVIII para


Conhecedores do mar da Costa, que exploravam sazonalmente, alguns pescadores da Beira Litoral e do Algarve decidiram mudar-se para esta praia livre de obstáculos naturais e com condições de mar mais favoráveis à pesca de alar para terra, além disso, próxima do mercado da capital o que garantia o escoamento do peixe capturado. Foram essas duas comunidades que se juntaram na Costa da Caparica nos finais do séc. XVIII. Embora em 1816 já se encontre uma referência a Cabanas da Costa representada numa carta militar da Península de Setúbal com dois núcleos populacionais: um a norte composto por um conjunto de 40 pequenos triângulos que indicam cabanas, quatro quadrados que indicam construções em alvenaria e uma igreja e outro a sul com apenas sete triângulos, o povoamento da Costa inicia-se verdadeiramente na segunda metade do séc. XVIII realizado por esses pescadores de Ílhavo e do Algarve. Apesar dos dois grupos viverem absolutamente separados, ilhavenses a norte e algarvios a sul, numa delimitação territorial que hoje coincide com a Rua dos Pescadores, a Arte-Xávega na Caparica foi influenciada por cada uma das duas comunidades fundadoras, que com engenho foram adaptando as técnicas de pesca às condições específicas da região, numa busca incessante dos meios necessários à sobrevivência. Como nos explica Francisco Silva, “no norte, a Xávega é praticada com barcos grandes de proas e popas altas para enfrentarem um mar revolto. São os chamados Barcos de Mar, que os pescadores daqui adaptaram e deram origem ao Meia-Lua, que é um barco que já não existe. Era uma espécie de Barco de Mar mais pequeno. Dizem que é o barco mais lindo do mundo, porque faz um crescente quase perfeito. O único Meia-Lua que sobreviveu em Portugal está no Museu da Marinha. Era um barco que levava 40 homens lá dentro e teve de ser adaptado, porque cada vez era mais difícil arranjar pessoas para ir pescar. Então, os pescadores da Costa construíram um barco menor, o barco de Bicas Cortadas, que também existe na Fonte da Telha com a proa e a popa iguais. Depois evoluiram para o barco que usam agora que é a Chata, que tem a particularidade de ter a popa direita, o que do ponto da vista da segurança representou uma melhoria significativa, porque o maior

risco deste tipo de pesca está na entrada e na saída do mar, por causa da rebentação. Ora se a popa for igual à proa, a tendência é para o barco se virar. Quando pescavam com os Meia-Lua, em dias de mar agitado, prendiam a corda da rede na bica do barco para o endireitar. O maior desastre que aconteceu na Costa, em que morreram 11 pescadores, foi exactamente porque essa corda se partiu e o barco virou. Estas adaptações é que constituem o verdadeiro património imaterial desta arte e neste caso tendo como objectivo salvar vidas. Isso também aconteceu com as formas de alar as redes com os tractores. Cada companha tem dois tractores a alar e não encontramos dois aladores iguais, porque são adaptações que cada um deles faz até encontrar a solução mais prática e eficiente. O que dá um verdadeiro valor imaterial a esta arte é a capacidade de adaptação ao meio. Esse é o factor mais relevante da sua valorização patrimonial. É a própria história desta arte de pesca que lhe confere valor. “ Hoje, a alagem é feita por tractores e os barcos têm motor, mas há pouco tempo atrás era tudo feito à custa da força dos braços dos homens da companha. O Mestre Mário ainda é desse tempo e explica os melhoramentos que têm sido conseguidos. “Antigamente tínhamos de andar com os barcos às costas e todos os dias tínhamos de estender as redes para secarem, senão apodreciam. Agora é ao contrário, não podem apanhar Sol senão apodrecem. Tenho aqui um alto no ombro por tanto ter andado com as redes às costas. Todos os dias era aquele frete. As redes também evoluíram, têm o dobro do tamanho e agora usamos redes sem bóias. A primeira vez que as vi foi em Mira. Isso ajuda muito, porque as torna mais leves. Também usamos barcos com motor, já não a remos. E olhe, digo-lhe que esse é um erro das autoridades, não nos permitirem a utilização de motores mais potentes, porque dizem que mata o peixe. O motor não serve para matar peixe, serve para salvar vidas! Aquele rapaz que aqui passou agora mesmo, o Henrique, ia morrendo há tempos. Não fosse o Pélé e tinha morrido mesmo, porque o motor parou na rebentação, o barco perdeu o governo, atravessou, veio uma onda não muito grande, mas o suficiente para o virar. Com um motor mais potente, isso não acontecia. Os barcos também evoluíram. Têm um fundo tipo catamaran com um túnel ao meio, por isso assentam só nos lados o que permite que o motor entre mais na água. Muita coisa melhorou e se as autoridades permitissem ainda melhorava mais.” As queixas dos pescadores em relação às restrições impostas pelas autoridades

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a zona de Ílhavo por armadores da Galiza após um desastre ecológico nos mares do norte da Península, ao mesmo tempo em que a sul, no Algarve, era praticado por influência dos povos do norte de África. (Aliás, o termo Xávega tem a sua origem na palavra árabe xábaka, que significa rede).


são frequentes e prendem-se com um dos problemas com que se depara a Arte-Xávega, a sua denominação legal como pesca de arrasto, que limita significativamente os apoios a que os pescadores podem recorrer, nomeadamente para a compra dos combustíveis para os barcos. Francisco Silva concorda e afirma que existe um erro na classificação legal desta arte. “Esta é uma pesca de alar para terra e não de arrasto, porque quando falamos em arrasto estamos a pensar numa pesca praticada em mar alto e em que, de facto, as redes arrastam no fundo do mar. A rede da Xávega só arrasta no fundo uns metros antes de chegar à praia porque até aí, pela própria construção da rede, trabalha a meia água e apanha os peixes que estão à tona, não vem arrastando no fundo. Aliás, muitas vezes quando enterra na areia a rede parte, porque não é feita para arrastar, mas para pescar.” Apesar dessa classificação legal ter sido um dos receios dos promotores da arte a Património Imaterial, a verdade é que conseguiram levar o processo a bom porto e nos olhos de Mestre Mário nota-se um brilho de esperança e agradecimento. “A nossa sorte foi o Francisco Silva ter aparecido por aqui para fotografar. Tem sido incansável na defesa da Arte Xávega. Sem o apoio dele isto já tinha morrido. Ninguém ligava à gente. Era como se não existíssemos. ”

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E, de facto, os pescadores da Costa da Caparica foram invisíveis durante décadas. “A Costa era um sítio que não interessava a ninguém. No séc. XVIII quando as primeiras comunidades piscatórias se instalaram ali, ninguém se incomodou porque só havia mosquitos e paludismo. Como está escrito num dicionário do séc. XIX, a Costa era um local onde viviam umas pessoas em estado primitivo apesar de estarem a duas léguas e meia da capital. Além disso, tinha má reputação por causa dos barraqueiros que eram gente que aparecia por lá, normalmente fugida à polícia e que por lá ficava a auxiliar na pesca. Portanto, a Costa sempre teve este estigma de ser uma terra de marginais. Isso durou até aos inícios dos anos vinte do século passado, quando, por motivos de pura especulação imobiliária, um grupo de pessoas de Almada conseguiu que a Costa da Caparica fosse classificada como Estância Balnear por estar próxima da Trafaria que no final do séc. XIX era a praia mais chique do país. Como nada estava registado, essas pessoas ocuparam uma série de terrenos e começaram a construir e a Costa passou a ser local de veraneio. Nessa altura, não interessava a ninguém, inclusive ao Estado, que as pessoas que iam a banhos se cruzassem com uns pescadores rotos e maltrapilhos,

por isso começaram a ser apoiados e usados como exemplo. Não foi à toa que o Henrique Tenreiro construiu a Casa Nacional dos Pescadores na Costa, com maternidade, pré-escola, médico e uma série de outras regalias. Como eram muito visíveis acabaram por ser usados como propaganda e como bandeira turística. Claro que essas regalias lhes saíram caro no pós 25 de Abril, quando a comunidade foi olhada como colaboracionista com o regime anterior, acabando por ser ostracizada. Durante mais de 30 anos foi como se os pescadores da Costa fossem invisíveis. Desde então, a Caparica passou a ser uma terra de “pára-quedistas”. Gente que foi para lá viver e que deu origem a outra comunidade: os banhistas”. Muitos destes novos filhos da Costa desenvolveram actividades em torno do turismo, do comércio e da construção e hoje constituem a face visível de um sucesso que sempre passou ao lado das gentes do mar. A crescente afirmação da Caparica como estância de veraneio e a pressão imobiliária, aliadas ao mais completo abandono a que a comunidade piscatória foi votada pelas entidades competentes (basta consultar o Pólis do Município de Almada para o confirmar), foi empurrando os pescadores para áreas de pesca cada vez mais restritas e condicionadas pelas zonas concessionadas ao turismo. Mestre Mário é peremptório “nós estamos a trabalhar na praia e há 100 pessoas que gostam do que vêm e nos apoiam, mas há uma que não gosta e as autoridades vão pela que não gosta. Porquê? Não percebo. A gente sabe que as autoridades que andam no terreno cumprem a lei, não têm culpa, quem está acima é que devia ver isso. A Costa da Caparica nunca foi nada. Não era nada. Os primeiros habitantes da Costa foram os pescadores. Quem fez disto o que é hoje foram os pescadores e agora estamos a ser escorraçados. Nós começámos no centro da Costa e temos vindo a ser empurrados. Qualquer dia, estamos na Fonte da Telha, isto se, de lá para cá, não começar outro movimento igual e aí desaparecemos. Querem à força acabar com a arte.” Sob o ponto de vista legal, a Arte-Xávega é incompatível com a prática balnear, portanto, numa praia concessionada é proibido pescar entre as 6h30m e as 18h30m o que implica que só se possa pescar à noite. Mesmo nas zonas não concessionadas onde a pesca é permitida, o único acesso é feito através das zonas concessionadas o que implica que os pescadores tenham de lá ir deixar os tractores antes das 6h30m da manhã ou pura e simplesmente não possam pescar. Actualmente e muito por força da


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inscrição da Arte-Xávega como Património Imaterial e da crescente importância deste tipo de pesca como factor de atracção turística, a Câmara de Almada está a estudar novas formas de acessibilidade às zonas de pesca permitida para que os pescadores possam exercer a sua actividade durante o dia, até porque há espécies que no período autorizado por lei não se conseguem pescar, como é o caso da sardinha. No entanto, apesar das restrições legais, nem sempre as relações entre pescadores e concessionários são conflituosas e muitos entendem a arte como uma forma de dinamização turística.

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- Na Praia do Castelo, o Toni, por vontade dele tinha-nos sempre a pescar lá. Quando apanhávamos bons sargos ele pedia-me para os levar, mas de fato oleado vestido, porque assim é que se vendia o peixe. – Afirma Mário com um sorriso. – E há uns anos, quando apanhávamos linguados, íamos vendê-los a Cascais, ao João Padeiro. Um dia tinha apanhado uma lagosta e levei-a lá e ele perguntou-me - Queres ganhar 500 escudos? Vais entrar no salão com a lagosta na mão. - Ainda não tinha chegado ao pé dele, já estava vendida. Então isso não é bonito? Todos ganhavam. Outro dos problemas com que os pescadores são confrontados é o preço a que o peixe é vendido em lota. “Por exemplo, nos últimos tempos tem havido muito carapau, que normalmente é vendido por 5, 10 cêntimos o quilo e muitas vezes nem compensa ir levar à lota para não se gastar dinheiro na gasolina”. Como a Arte-Xávega é uma pesca cega (a companha não sabe o que vem no saco), muitas vezes apanham peixe que não conseguem vender. Como explica Francisco Silva, “O que vendem na praia é o que lhes compensa, embora as pessoas achem que por comprarem na praia, o peixe tem de ser quase dado. Nos últimos anos, a cavala tem sido uma espécie de salvação desta arte. Eu lembro-me das primeiras vezes que fui para o mar e a cavala era deitada fora. Por iniciativa de uma das associações de pescadores que existem na Costa (há duas rivais, curiosamente de pai e filho), conseguiu-se vender a cavala em grandes quantidades para alimentar atuns no mediterrâneo. Porque quanto ao resto, como existem muitas rivalidades e pouco associativismo, o poder de pressão é pequeno e não conseguem impôr o preço como acontece em Sesimbra, onde fundaram uma cooperativa, a ArtesanalPesca, com o objectivo de valorizar os produtos do mar capturados pelos pescadores artesanais. Era muito importante que este pescado fosse valorizado, porque é o peixe mais fresco que podemos consumir, não passa

24 horas em gelo até chegar a terra. Se fosse possível arranjar uma certificação de qualidade como existe para outros produtos, seria muito interessante, era uma forma de valorizar este recurso.” Habituados a dividir o pouco por muitos (uma companha é composta habitualmente por 20 homens), os pescadores continuam a ser o elo mais fraco do moribundo sector das pescas. O peixe que lhes sai em sorte a cada “lance” chegará ao consumidor final inflacionado em mais de 600%, numa cadeia de valor que só beneficia os intermediários. Talvez por isso, o número de pescadores em Portugal que era de aproximadamente 30 mil em 1995, passou para menos de 14 mil (dados INE) na actualidade e apesar de sermos o segundo maior consumidor de peixe da Europa, importamos mais de 60% do que consumimos. Só em 2015 e 2016 foram abatidas 158 embarcações. Mário é do tempo em que, apesar das dificuldades, era difícil não encontrar um navio de bandeira portuguesa a cruzar os oceanos. “Andei pela África do Sul, na pesca de arrasto, na altura da maior companhia nacional de pesca a SNAPA – Sociedade Nacional de Armadores de Pesca de Arrasto. Trinta e tal dias de mar e nem imagina os barcos portugueses com que nos cruzávamos. Nós fizemos o maior contrato de pesca do mundo, com os japoneses. Eles pagavam um ordenado fixo, não eram percentagens de pesca, era um salário fixo. Ficavam com o peixe e nós com o marisco. Faziam o arranjo dos barcos e pagavam em embarcações novas. Isso foi nos anos 70. Mas, as autoridades não quiseram e eles viraram-se para Espanha. Foi assim que os espanhóis renovaram a frota toda. Tivemos tudo na mão...” Olhos perdidos nas malhas da sua arte, Mário não acaba a frase. Nem é necessário. Como explica Tiago Pitta e Cunha em “Portugal e o Mar”, “O mar desapareceu da geopolítica e do pensamento estratégico português, deixou de ser assunto para os poderes públicos e, pela redução do seu peso na economia, saiu do campo de visão dos grandes decisores económicos. Mesmo no âmbito do pensamento e dos programas académicos, com excepção das ciências físicas e, principalmente, da biologia, o mar viu-se reduzido a uma expressão mínima, ocupando, por exemplo, um lugar no mínimo periférico nos curricula das faculdades de Direito e de Economia. Ocupa também um lugar menor no panorama do desporto nacional, não obstante as condições naturais para a prática de desportos náuticos, e tornou-se um tema irrelevante para o ensino secundário, pelo que os jovens deixaram de ver nele um símbolo e um recurso natural.” Mas, se para o país “em vez de explorado ou navegado, o mar passou a ser apenas con-


templado”, para os pescadores da Costa continua a ser a única forma de subsistência e um chamamento.

¹ Companha - grupos informais de pescadores, assentes em laços familiares e laborais centrados em torno de um mestre de pesca, proprietário das embarcações e artes (redes), formando como que uma família alargada sujeita à autoridade e protecção do mestre. Excertos retirados de: “Arte-Xávega na Costa da Caparica, Património Cultural Imaterial” de Francisco Silva, in Separata da Revista Al-Madan do Centro Arqueológico de Almada “Breve História da Costa da Caparica” de Francisco Silva, in Actas do 1º Encontro Sobre Património de Almada e Seixal.

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“Tentei sempre fugir do mar, mas nunca consegui, ele puxava por mim. Apesar das dificuldades e das mortes. Só de uma vez foram onze, ia lá um tio meu.” - Mestre Mário com a voz embargada. – “Era o único tio que tinha. Com 14 anos fugiu ao meu avô, que não queria que ele fosse para o mar, e escondeu-se na proa do barco, naquela taboca onde a malta metia as redes. O barco naufragou e morreram onze. O meu tio salvou-se. Mas é destas desgraças que se faz esta vida. Com tantos acidentes que tem havido para aí, temos de dar graças a Deus por não ter havido mais mortes. Mas é uma vida muito linda! Para se ser bom na arte é preciso gostar e eu adoro esta vida! E graças a Deus há gente nova a apaixonar-se pela arte. Eu tenho o meu mestre, há o Calita, o neto do Alemão e outros. O meu Arrais é bora, bora, bora! Nunca vi um homem com tanto vício. Ele quer é pescar. O problema é isto – Mário apontando para a rede que vai preparando. – Eu sou das poucas pessoas na Costa que sabe montar uma arte. Quem é que quer estar aqui preso? Então no verão, com tanto biquíni bonito por aí... (risos). Aqui na Costa a montar a arte somos uns três, quatro. É uma pena porque aqui é que está o segredo da pesca. Mas, agora, tenho esperança no futuro. Isto estava a morrer. Estava condenado. Toda a gente pisava a ArteXávega e o Xico chegou e puxou-nos para cima. Abençoado por isso”.


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Eu e a Arte Xรกvega


Texto e fotografia por Francisco Silva

No início, a Fotografia conduziu-me à descoberta da Arte-Xávega na Costa da Caparica. Fascinei-me pelas cores do céu espelhado na areia molhada ao entardecer. Ver e ouvir manobras que não entendia aumentou o desejo de escutar sem perguntar, pois o importante era estar e sentir, trocar retratos por peixes e voltar para casa salgado e feliz. Com o passar dos anos e das safras surgiram as perguntas, respondidas por quem tem orgulho na arte que pratica, gosta de contar histórias do passado e de ensinar a receita para cozinhar aquele peixe em particular. As fotografias continuaram a surgir, nascidas de uma proximidade conquistada e que transpirava também dificuldades e queixas: o peixe que escasseia, o preço baixo na Lota, as leis com que querem proibir aquela Arte tão antiga, que matou e mata a fome a tanta gente. Ao fim de mais algumas safras decidi usar a fotografia e o vídeo como forma de documentar as cadeias operatórias da Arte-Xávega na Costa da Caparica, desde a construção das redes até à sua utilização na pesca. Dez anos após o primeiro embarque, com a ajuda dos mestres arrais e camaradas, defini um objetivo: divulgar e promover a Arte-Xávega da Costa da Caparica enquanto manifestação de património cultural imaterial. Dessa forma enviesada podia atrair a atenção para os problemas e dificuldades que atingem os pescadores desta Arte de pesca, que está na origem do povoamento da Costa da Caparica.

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A divulgação da Arte-Xávega tem trazido alguma visibilidade à atividade, reconhecida pelos pescadores. A fotografia passou a ser um pretexto. Conviver com as companhas, esperar que o saco chegue à praia e escolher o peixe ainda vivo, são as sensações que hoje me levam para junto do mar.


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A histĂłria de um moliceiro

por JoĂŁo Moreira


O “Zé Rito” é como um filho para o pescador artesanal, natural da praia da Torreira, na Murtosa. Construiu-o com as próprias mãos durante dois meses de intenso e cuidadoso trabalho, em madeira de pinho, como manda a tradição. O Ti Zé Rito vem de uma família de apanhadores de moliço. Homens da Ria. Dum tempo em a Ria se enchia de cor. Da cor das proas pintadas dos moliceiros que se faziam ao mar para sustento das gentes da região. Eram outros tempos. Tempos em que os moliceiros se contavam aos milhares entre Mira e Ovar, apanhando as algas que serviam de adubo à lavoura, transportando mercadorias e gado. De costados baixos para facilitar a colheita e o carregamento do moliço, fundo plano e pequeno calado, para poderem navegar na Ria e nos seus braços de baixa profundidade sem encalharem nos bancos de areia, os moliceiros eram uma ferramenta agrícola “num ecossistema muito particular – a laguna - que era ao mesmo tempo rio e mar, terra e água”. Foi nesses tempos que o Ti Zé Rito ganhou amor aos barcos da Ria. Um amor entregue como que em testamento pelo seu pai e pelo seu avô e que ele tem sabido transmitir a filhos e netos. Foi esse amor aos moliceiros que o levou a dedicar-se à construção dessas embarcações míticas de proa recurvada,

cuja origem documentada remonta ao primeiro quartel do século XVIII. Esgotada a sua função económica, quase desapareceram na década de setenta do século passado, para renascerem pouco depois, como barcosmuseu, destinados a passeios turísticos - as gôndolas da Veneza portuguesa. Hoje são símbolo cultural de Aveiro, lado a lado com os ovos moles e a Arte Nova. Foi, por isso, com mais orgulho ainda, que o Ti Zé Rito, festejou o baptismo do seu moliceiro. O “bota-abaixo” do “Zé Rito” aconteceu a 4 de Julho de 2009, numa festa emocionada, que juntou na Torreira familiares e amigos, entre eles o artista plástico José Manuel Oliveira, que pintou o barco, decorando-o, como manda a tradição, com painéis na proa e na ré. Lançado à água para a sua viagem inaugural, com a ajuda da população, o “Zé Rito” rompeu as águas da Ria num dia de sol radioso, céu azul e uma brisa suave. Um dia como hoje, afirma Mestre Rito, enquanto nos guia com mãos hábeis através da incomparável beleza desta foz do Vouga, com paragem prometida para “umas enguias como nunca provaram”, afiança o arrais. Ligeiramente atrás, vela erguida, como que seguindo-nos os passos, vem o “Manuel Silva” comandado pelo Zé Pedro, neto do Ti Zé Rito, que do alto dos seus 14 anos, mira a Ria com o olhar sábio de quem nasceu para ser mestre. Seguimos viagem, com a certeza de que a tradição dos moliceiros não acabará nunca, enquanto a arte da navegação na Ria continuar a passar de geração em geração e a ser vivida com o amor e a dedicação que o Mestre Zé Rito e o seu neto Zé Pedro lhe devotam.

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A proa corta as águas levemente revoltas pelo vento. Algumas gotas salgadas atingemnos a face, aliviando os efeitos dum Sol intenso. Em frente, uma imensidão de mar. São quinze metros de barco. Da proa à ré. Quinze metros comandados com mestria pelo Ti Zé Rito, arrais orgulhoso do moliceiro com o mesmo nome.


São Jacinto Edifício em ruínas, junto ao mar, com porteiro por Paulo Moura

Lancha Praia da Costa Nova

Domingos Teixeira trabalha e vive nos Estaleiros Navais de S. Jacinto desde 4 de Janeiro de 1977. Regressou de Moçambique em Agosto do ano anterior e, quatro meses depois, era um dos mais de 800 operários da grande empresa fundada por Carlos Roeder. Um acidente de trabalho impediu-o de manobrar as máquinas que moldam o aço, fazendo-o porteiro, profissão que manteve toda a vida. Ainda hoje mantém a casa que lhe foi atribuída e a guarita de porteiro, logo à entrada do gigantesco edifício estrategicamente situado entre o mar e a ria. «Nunca daqui saí. Ia para onde?», diz Domingos, 71 anos, metendo a chave na porta para guardar uma serra eléctrica. Lá dentro, vêem-se alfaias de jardinagem, ferramentas, o atrelado de uma lancha. «Sempre tive o hobby da jardinagem, que agora, que estou reformado, exerço para fora, em várias casas de pessoas conhecidas. Guardo aqui tudo, a minha vida está centralizada aqui. Nunca ninguém me incomodou.» O reconhecimento e devoção para com os Estaleiros constituem quase uma filosofia de vida para Domingos Teixeira. Foi aquela empresa, que ali começou a operar em 1940, que o recebeu no país, lhe deu trabalho, casa, assistência de saúde, instrução e formação aos três filhos. Até a filha ali fez um curso de soldadura e serralharia.

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Não obstante ainda lhe dever 20 mil euros em salários, a empresa continua a merecer o respeito de Domingos, não nos actos de alguns dos seus agentes, mas na sua incólume reputação de entidade superior às contingências. Domingos nunca se considerou, aliás, o porteiro de um edifício, de uma administração, de uma entidade patronal. Ele sempre foi o

porteiro de uma ideia. De uma época feliz, de uma certa concepção de dignidade, de um sentimento de solidez e de futuro. Os portões que guardava eram dessa realidade, da actividade enérgica que nunca parava, do espírito de sacrifício e de cooperação dos trabalhadores, do fundador, Carlos Roeder, e dos seus herdeiros na propriedade e gestão da empresa, João dos Santos, Jorge Pestana, Henrique Moutela, Vale Guimarães. Abandonar o seu posto seria renegar e trair um mundo que guardou toda a vida. Como se separar-se da actividade frenética dos Estaleiros fosse pior do que morrer. E a verdade é que a actividade, essa, nunca parou. Apenas mudou em tipo, estilo, protagonistas e natureza. Em S. Jacinto, as praias têm uma escala diferente de todas as outras na costa portuguesa. São imensas e vazias, prolongadas por extensões de dunas, a perder de vista. Inseridas na Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto, constituem, com os pinhais e a ria, um universo bravo e enigmático. Há trilhos, marcados por sinais feitos de troncos, pedaços de redes e conchas, que ligam a orla da ria aos areais junto ao mar. Caminhos na floresta, de 20 minutos a pé, furados nos arbustos, nos troncos retorcidos e nas camadas densas e esfareladas de trufas (turfas penso eu), húmus costeiro, desfeito e queimado. Não há fronteira definida entre as dunas e a praia. A imensidão branca parece levitar numa névoa quente de reverberações azuis, que mergulha na areia e a levanta. O mar é aterrador. As ondas não correm na mesma direcção, não se alinham nem sucedem de maneira prenunciada. São anárquicas, cruzam-se e atropelam-se, rebentam umas em cima das outras. O rugido do mar não vem da superfície, não brota do que se vê, mas da profundidade. Nasce de dentro da própria areia, fazendo tudo estremecer e estalar como um vulcão de vento e espuma. * Chega-se aqui por uma estrada à beira da ria,


Espinho é um caso à parte. É uma das nossas cidades do mar, como a Póvoa do Varzim, Vila do Conde ou a Figueira da Foz. É uma estância antiga e uma comunidade com vida própria. Ramalho Ortigão fala, em As Praias de Portugal, no clube de Espinho, onde, nos meados do século XIX, se reuniam todos os banhistas. Não apenas os homens, como era hábito nos clubes do género inglês, mas também, logo desde a reunião da manhã, do meio-dia às 15h00, as senhoras, que participavam igualmente nas conversas, leitura de jornais e recitais de piano. Chegavam a ser cem a frequentar o clube, embora, observava Ramalho, em 1876, nem todas fossem princesas. «Há mesmo algumas que são apenas as honestas esposas de algum mercador de Penafiel ou de algum cambista do Porto, ao passo que outras são, mais ou menos garan-

tidamente, pessoas nobres e titulares.» Outras figuras típicas da fauna de Espinho eram os poetas. «Bons rapazes, amantes da lua e da arte poética, os quais, não podendo escrever os Lusíadas, por os acharem já escritos, entretêm a musa desocupada com o banho de mar, com a recitação ao piano e com algumas chávenas de chá preto com leite, acompanhadas das competentes torradas.» As cidades do mar foram o palco do esplendor novecentista do veraneio burguês. Noutras praias mais retiradas desenvolveu-se, a partir desses centros, um culto aristocrático da vilegiatura, associado ao repouso e aos cuidados medicinais. As alamedas arborizadas e flanqueadas por moradias de Miramar ou Francelos sobreviveram até hoje, como oásis de distinção. O edifício da clínica Heliântia, construído em 1930 em Francelos, com uma arquitectura adequada à captação dos raios solares considerados terapêuticos, ainda existe, na Avenida dos Sanatórios. Foi considerado Monumento de Interesse Público, e alberga o Instituto de Estudos Superiores Financeiros e Fiscais. Em todas estas praias permanece um spleen

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numa estreita língua de terra, desde o Furadouro, vindo de Ovar, pela estrada nacional 109. É esta que nos tira do Porto e leva pelas praias de Madalena, Francelos, Miramar, Espinho, Esmoriz, Cortegaça, cada uma com a sua personalidade única, as suas extensões de dunas de arbustos varridas pelo vento norte, os seus passadiços de madeira nua ao longo dos areais.


de outros tempos, uma pureza no ar e na luz, e uma harmonia melancólica entre elementos humanos e naturais. O mesmo não se pode dizer da estrada que as liga. O mar fica sempre perto, mas fora de vista. A estrada nacional 109 é um pesadelo de semáforos, filas de trânsito, blocos de apartamentos, prédios e moradias kitsch, lojas, stands e oficinas. É fascinante, a região entre Gaia e o Furadouro, os tentáculos mais altos da laguna de Aveiro e os areais da Torreira e S. Jacinto. Mas a viagem, essa, não existe. Como o deserto, sem leis nem norma Porque o vento caprichosamente mudava Os acessos, onde anteriormente se passava Apagando-os sem deixar rasto, nem forma escreveu Libério. * A televisão está ligada, no bar do parque de Campismo da Orbitur, em S. Jacinto. O gerente do parque e os empregados olham, incrédulos, para as imagens das multidões nas praias, nos restaurantes e nas esplanadas, da reportagem da TVI sobre o aumento do turismo no Algarve. Em que país é aquilo? O número de turistas cresceu muito em relação ao ano passado, diz a reportagem. E cita estatísticas, entradas nas várias fronteiras, taxas de ocupação de hotéis e estâncias. Olhando em redor, vêem-se duas autocaravanas e três ou quatro tendas. É verdade que o parque não tem restaurante, nem piscina. Mas fica num amplo pinhal, entre a ria e a praia, com um caminho directo para o mar, por entre a vegetação da Reserva Natural. Seria uma base ideal para turistas da Natureza, observadores de aves, amantes de praias selvagens, de pesca, de windsurf ou kitesurf. Mas onde estão eles?

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Toda a região, desde o Furadouro, a língua de terra que passa pela Torreira e a praia de Monte Branco, ao longo da ria e do canal de Ovar, até às lagunas da Gafanha da Nazaré e de Ílhavo, é de uma beleza irrepreensível. É singular e variada, amena e aprazível. Mas quase não tem turismo. Estatisticamente, aumentou o número de visitantes estrangeiros em Portugal. Mas os locais escolhidos são Lisboa, Porto, o Algarve e pouco mais. O resto do país, incluindo zonas que atraíram muito turismo, no passado, está agora quase vazio. O movimento

reduz-se aos veraneantes portugueses e espanhóis de fim-de-semana e aos emigrantes de férias. «Há muitos turistas, mas são todos low cost, não querem gastar dinheiro», diz João Gomes, gerente do parque de campismo de S. Jacinto, que tem vindo a dispensar pessoal nos últimos anos e que fecha no Inverno, ao contrário do que era habitual. «Mesmo aqui no campismo, que é mais barato, tenho visto as pessoas a perguntarem os preços na recepção e irem embora, por acharem caro.» A praia de S. Jacinto, uma das mais deslumbrantes do país, está quase vazia. O bar das dunas, que tinha a concessão da praia, não abre há dois anos. São obrigados a manter uma certa estrutura durante a época balnear, incluindo dois nadadores-salvadores, o que não é possível com a reduzida quantidade de banhistas de hoje em dia. «Há dois problemas: A reserva natural, que é muito limitativa, e o ferry», diz Raul Valentim, gerente do Ondas Bar, junto à praia de S. Jacinto. «Não há estrada directa para vir da zona de Aveiro para aqui, não há uma ponte. E o ferry é caro (15 €, ida e volta). E o último barco da noite é pouco depois das dez horas, o que impede que alguém venha aqui jantar com calma.» João Nabais, gerente do restaurante O Terminal, não tem esperança de que se venha a construir uma ponte sobre a ria. «Viria de onde? Da Gafanha, da zona de Aveiro? As autoridades da reserva nunca o autorizariam. A ponte é um sonho que nunca se vai realizar.» O Terminal situa-se na nova zona marginal de S. Jacinto, inaugurada no mês passado. É um projecto Polis Litoral, co-financiado pela União Europeia, integrado no «reordenamento e requalificação da ria de Aveiro», e que inclui nova pavimentação da zona ribeirinha, marina, etc. «Espero que esta estrutura venha trazer mais gente à zona», diz João Nabais sem muita convicção. «Em anos anteriores, havia muitos turistas franceses. Deixou de haver, e agora estão a voltar, mas ainda poucos. O movimento aqui é apenas aos fins-de-semana. No Inverno, fica tudo parado. Sobreviveremos, enquanto houver a boa vontade e compreensão de alguns fornecedores, que esperam pelo Verão para serem pagos.» Não havendo ponte, que romperia o isolamento da região, o ferry deveria ser mais barato, mais moderno e mais rápido. «Era preferível um barco mais pequeno, mas que fizesse a viagem mais vezes.»


Luís Figueiredo, empresário de eventos da zona de Coimbra, ficou admirado com a ausência de estruturas hoteleiras nesta região. «Não há um hotel, um complexo de apartamentos. Nada que atraia as pessoas. Como é possível vir para aqui? Ninguém conhece esta zona. Eu próprio, que sou de Coimbra, nunca aqui tinha vindo.» Luís Figueiredo quis organizar um festival de Verão na zona de Aveiro. Contactou a Câmara Municipal, que lhe recomendou S. Jacinto. E começou a trabalhar, mas não tem sido fácil. O Tugafest, «o festival mais português de Portugal», foi agendado para 19 a 23 de Agosto, com dois palcos, Quim Barreiros, José Cid, Ana Moura, Herman José e os Xutos & Pontapés, na praia de S. Jacinto. Mas a divulgação só começou a ser feita duas semanas antes. «É um festival dirigido principalmente aos emigrantes, com artistas portugueses», diz Figueiredo. «Queremos puxar ao português, ao contrário dos outros festivais de Verão. E apostamos em ter cá umas 50 mil pessoas, atendendo a que temos em cartaz os principais nomes portugueses.» Mas admite que, se tiver metade desse número de espectadores, já será um êxito. As entradas no festival são pagas, e «as pessoas estão habituadas às festas organizadas e financiadas pelas Câmaras, que são de graça. Quase nem consegui ter uma exposição de artesanato, porque os artesãos costumam ser subsidiados pelas câmaras. Quando lhes disse que não vinham ganhar, recusaram o convite.» Perto da data do Tugafest, aliás, há um concerto de Tony Carreira, de entrada gratuita. «É difícil ter alguma iniciativa e organizar alguma coisa, num mundo regional subsídiodependente.» Uma semana antes da data marcada, o Tugafest foi cancelado. * Às 7 da manhã, com a maré baixa, a ria já está cheia de gente. Na estrada que liga a Torreira a S. Jacinto ou na da outra margem, no cais da Bestida, podem ver-se centenas de vultos mergulhados na água até à cintura, empunhando redes e ancinhos, na apanha da amêijoa.

Rui, a mulher e um filho têm a sua própria zona, não longe da ponte que faz a ligação à estrada de Estarreja. É uma área de bancos de areia e covas de lodo, que eles perscrutam com as mãos. «Nunca pensei voltar a isto. É uma vida duríssima. O meu filho ajuda-me só no Verão», diz Rui, que trabalhava num restaurante que fechou. «Andamos aqui porque não há nenhum outro trabalho na região.» Rui e a família apanham um máximo de dez quilos de amêijoa num dia, que vendem a 3 € o quilo a um intermediário. São uma das muitas famílias que vêm para a ria todos os dias das 7 da manhã até ao meio-dia, quando a maré sobe. «Eu só apanho para mim, para uma caldeirada», diz João, que está reformado e já andou nos navios do bacalhau. O seu método é o mais rudimentar: quando detecta uma quase imperceptível depressão na areia, enfia o dedo indicador e, se a sua intuição não falhou, desenterra uma amêijoa. Geralmente uma «japónica», espécie com manchas na concha, que surgiu na ria nos últimos anos. Com mais sorte, apanha uma «preta», ou mesmo uma «rainha», que têm mais valor comercial. Conta que os intermediários que compram toda a amêijoa a vendem para Espanha. É um negócio ilegal, tal como a apanha da amêijoa, quando não se possui uma licença específica. Todos os apanhadores de amêijoa que se vêem na ria são ilegais. Por vezes, a Guarda surge inesperadamente na estrada da Bestida e leva muitos deles presos. Mas a actividade compensa, mesmo com as multas, explica João, antes de se dirigir à pressa para a sua motorizada, estacionada na estrada à beira da ria. «Não quero conversas com eles», diz, a fugir do grande grupo que se dirige para a margem. São ciganos, que «varrem», em grupos de dez ou 15 elementos, grandes extensões de ria. Usam ancinhos, redes e outras ferramentas ilegais, e, segundo João, controlam as melhores zonas. «Hoje foi um dia normal. Apanhámos uns 30 quilos», diz-me Alexandre, um jovem cigano integrado num grupo de seis, descarregando a colheita do dia nuns cabazes encaixados na traseira de uma carrinha. «Toda a nossa família vive da Amêijoa. Não se fica rico, mas é o que há para fazer.» Rui, que traz da água o filho de 12 anos às cavalitas, assegura que não há na região outra fonte de rendimento além da apanha de bivalves na ria. «Hoje em dia, posso dizer que toda a região, da Murteira a S. Jacinto,

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S. Jacinto é uma zona esquecida, diz o empresário. «Tirando a Torreira, conhecida como o Algarve do Norte, tudo o resto está morto. Esta região está muito mal trabalhada em termos de turismo. Todo o esforço de promoção se concentra na faixa entre a Costa Nova e a Figueira da Foz. Nós somos o parente pobre do turismo.»


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Assim a pequena povoação de pescadores Vivendo em Palheiros, e da pesca que fazia Neste imenso lago salgado, que é a ria Com as suas bateiras, suas artes e lavores escreveu Libério. * Ao longo da estrada, vêem-se restaurantes fechados. Uma colónia de férias que, durante décadas, albergou crianças de todo o país, no Verão, e dava emprego a 50 pessoas da região, também encerrou, há dois anos. «Esta zona está morta. Aqui não há nada», diz João, o gerente do parque de campismo. * Foi em 2006 que os Estaleiros Navais de S. Jacinto, com os seus 70 mil metros quadrados, situados no braço da ria que forma o canal de S. Jacinto até Ovar, com acesso directo à barra de Aveiro, fecharam definitivamente as portas. Carlos Roeder, um empresário formado em engenharia na Alemanha, criou a empresa em plena Segunda Guerra Mundial. Os Estaleiros Navais de S. Jacinto merecem A Admiração de todos nós e também da nação Porque souberam dar, com trabalho e dedicação Obras, que o tempo apaga, mas não se esquecem escreveu Libério.

refeitórios, habitação, e os estudos dos operários e seus filhos. Estava assegurado o acesso ao ensino, e muito mais Começa o crescimento, que o isolamento impedia Era o progresso chegando com toda a sua mais valia Renovando a esperança de nova vida e novos ideais escreveu Libério. No virar do milénio, a concorrência asiática e a má gestão terão levado à decadência e falência. «Como Roeder era solteiro e sem filhos, deixou em testamento a empresa aos seus melhores colaboradores, João dos Santos, Jorge Pestana, Henrique Moutela e Vale Guimarães», conta Domingos Teixeira, o porteiro. «Enquanto eles foram vivos, as coisas correram bem. Com os filhos, tudo descambou. Quando precisavam de pneus novos para o carro, em vez de comprarem pneus, compravam um carro novo. Quando a filha de um deles foi estudar para Lisboa, ele não lhe alugou um quarto, comprou-lhe uma vivenda.» A empresa faliu, numa confusão de dívidas, penhoras, falcatruas. Segundo Domingos, as Finanças, para recuperarem algum dinheiro, venderam tudo o que puderam em leilões, ao desbarato. «O sucateiro Godinho é que fez os melhores negócios. Veio cá e comprou o que pôde. Comprou uma máquina de 120 mil contos por 120 contos. E mais 43 toneladas de aço para construção de navios por 40 contos.»

Mas foi depois de 1945 que os Estaleiros construíram, com inovadora tecnologia de soldadura eléctrica, o navio Caramulo e o Nereus, e, depois, muitos outros, desde arrastões, atuneiros oceânicos e quebra-gelos, até cacilheiros.

Depois desta fase, começou o saque. Como o edifício tivesse ficado abandonado, os homens da terra vieram com carrinhas roubar o que puderam. «De início, tinham cá um homem a tomar conta, mas como não lhe pagavam, ele não fazia nada.» Tal como não fazia ele, Domingos, o porteiro, que deixou roubar tudo o que foi deixado no complexo de edifícios, desde mobiliário a máquinas, materiais e documentos.

Durante o Estado Novo, os Estaleiros tiveram de lutar, muitas vezes de forma desigual, pelo favorecimento oficial, devido à tendência oposicionista do seu fundador e proprietário, Carlos Roeder. Mas a empresa impôs-se pela habilidade de manobra dos seus administradores, e pela função social que desempenhou na região, através da fundação criada por Roeder, que financiava a saúde,

«Eram pessoas conhecidas, de cá da terra, que estavam desempregadas e precisavam de dinheiro para as famílias. Levaram tudo, mas não tocaram na minha casa.» Tal como acontece com os abutres, o saque teve várias fases, consentâneas com as fases da própria crise da região. Depois dos bens mais ligeiros, começaram a chegar os camiões para carregar aço, madeiras e pe-

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vive da amêijoa.»


dra. «Levaram um cofre de 1500 quilos, que levantaram com uma grua para um camião», recorda Domingos, que assistiu a tudo — à porta de casa. Quando parecia já não haver nada para levar, vieram com equipamento de demolição derrubar paredes e telhados para vasculhar todo o interior. E para recolher telhas e pedra. Há rombos nas paredes que parecem causados por bombas. Até que ficaram apenas as vigas de ferro da estrutura do edifício. «Trouxeram maçaricos e máscaras, fundiram, partiram, depois prenderam as vigas a camiões e arrastaram-nas pela estrada.» O estado de destruição e ruína em que se encontra hoje o edifício é tal, que, conta Domingos, equipas de cinema têm vindo rodar filmes de terror, e os militares da unidade de S. Jacinto vêm fazer treinos com simulação de situações de guerra. Domingos, apesar de tudo, nunca saiu da sua casa. Dos Estaleiros, já nada existe, além do porteiro, que é também a sua testemunha e o seu historiador. «Mas quem sabe tudo sobre os Estaleiros, porque estudou o assunto, é o senhor Libério, que já morreu, mas escreveu um livro», recomenda Domingos. * A viúva de Libério Pereira, Maria José da Cunha, de 77 anos, vive numa vivenda ali perto, com os netos, ambos desempregados. «Faz hoje um ano que ele morreu», diz-me ela. O marido foi torneiro-mecânico nos Estaleiros, arte que aprendeu lá. Tinha vindo da Figueira da Foz com o pai, que veio trabalhar com os militares da Marinha. Os pais de Maria José provinham de Aradas, e tinham uma tenda de pão, que fornecia também a base militar. O avô materno chegara à região para trabalhar na safra do caranguejo, que existia na ria antes de se descobrir a amêijoa. A família trabalhou, progrediu e estudou graças aos Estaleiros de S. Jacinto e à Fundação Roeder. Em demonstração de gratidão, Libério e a mulher compuseram canções e escreveram peças de teatro, que representavam na escola local. E Libério escreveu um livro, todo em verso, sobre S. Jacinto e os Estaleiros. Uma espécie de epopeia, que era vendida na Junta de Freguesia e esgotou três edições. Termino saudoso esta narração da minha terra Onde cresci, aprendi, amei e a quem tanto amo E se aqui não nasci, foi por simples engano Porque é nela que toda a minha vida se encerra

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concluiu Libério.


Podia ser o destino típico, para o turista típico. Só que Viseu é outra coisa. É aqui que as raízes do Renascimento em Portugal se encontram com a street art. Que conhecemos uma feira com mais de 600 anos de tradição e uma agenda cultural que é um espetáculo. Que provamos vinhos e sabores que são cá da terra e são de outro mundo. Não é preciso irmos longe para termos uma experiência inesquecível. Vamos a Viseu? www.visitviseu.pt

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Islândia? Não. Viseu.


Memórias da Casa Antiga Praias históricas e casas de veraneio

Texto e fotografia por Ana Motta Veiga

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Por meados do século XIX desperta em Portugal o interesse pelo terapêutico oceano Atlântico. Ao longo da costa ocidental, pequenas comunidades piscatórias receberão os novos “banhistas” que se deslocam das cidades ou do interior do País em busca dos banhos de mar, em contraponto aos “aristas”, que se deslocam às serras ou rios para tomarem os ares do campo. Será nos arredores das principais cidades como Porto, Lisboa e Coimbra onde se irão localizar estas históricas praias, acessíveis por estrada e pelos novos caminhos-de-ferro, mais próximas do que o destino longínquo do Algarve hoje tão procurado, antes mais inacessível e tendo até sido terra de degredo para muitos condenados. A Norte, região tradicionalmente mais populosa, localiza-se um conjunto de praias de veraneio que irá acolher gentes do Minho, de Trás-os-Montes e do Douro. À Póvoa de Varzim e a Vila do Conde iriam a banhos os minhotos das redondezas, facilitados pela proximidade geográfica da foz do rio Ave. Em Leça e Matosinhos veraneavam os moradores do Porto e arredores cujo bolso não permitia a estadia na próxima e mais selecta Foz do Douro, local preferido das famílias mais abastadas da cidade ou das quintas de vinho que se estendiam rio acima, bem como de visitantes diários sem pernoita que fariam do seu banho de mar o passeio de um dia. A poucos quilómetros da margem Sul do rio Douro, a Granja e Espinho dualizavam entre a alta sociedade da primeira, e a maior diversidade social da segunda. Deste conjunto de praias nortenhas, seria na Granja onde se concentrava a alta sociedade, num ambiente


Do centro do País e das Beiras era a praia da Figueira da Foz a mais procurada, recebendo académicos e estudantes da vizinha Coimbra, ou os lavradores mais endinheirados descidos das serras para descanso do trabalho da terra e das colheitas. Mais a Sul, as praias da Nazaré e de São Martinho do Porto seriam a preferência das famílias de Pombal, Leiria e arredores, para onde, e pela proximidade, rapidamente se transferiam. Ao aproximar de Lisboa, a pouca distância a Sintra ou a Mafra da também frequentada praia da Ericeira permitia o passatempo da visita ao monumental convento. Pela linha do Tejo aquática e ferroviária -, dispõem-se as praias da margem Norte numa sequência quase ininterrupta entre Cascais e Belém, acomodando os visitantes vindos da capital para banhos mais ou menos demorados, podendo ser de um dia, até várias semanas. Setúbal despontará nesta vertente estival acolhendo banhistas do Alentejo e da Estremadura espanhola, num tempo em que alguns quilómetros extra seriam caso para desnecessários (e dispendiosos) dias de viagem. De Norte a Sul, é por finais de oitocentos que estas e outras isoladas terras piscatórias se adaptam aos banhistas que chegam de todo o interior para assistirem à época balnear que se compreendia entre Agosto, Setembro e até Outubro, tantos contemplando pela primeira vez a praia e o mar. Nestes pequenos lugares, compostos somente pelas “pitorescas” e pobres barracas de pescadores, irão os investidores mais visionários providenciar os primeiros hotéis para a recepção dos visitantes, bem como a construção de novas casas particulares ou para aluguer temporário, podendo estes serviços incluir o fornecimento de toda a mobília, louça e roupa de casa, de acordo com o pagamento extra da sua utilização. Estaria lançado o início do turismo balnear, preparando-se para receber anualmente (e até hoje), centenas, ou milhares de assíduos visitantes, e para o qual tanto contribuiu o aparecimento dos comboios a vapor, permitindo o acesso a novas localidades da linha de mar, até então quase desertas. As casas de praia, residências secundárias para uso sazonal, crescem alinhadas em ruas paralelas ao mar, envoltas em jardins e nas baixas sebes que limitam os chalés e palacetes, a par de mais modestas casas para as famílias com menos posses nesta já tão democrática ida a banhos. Em cada nova co-

munidade acrescentam-se pontos de encontro e de divertimento como o clube, o teatro, o jardim, a praça de touros ou até das corridas as cavalos como é o caso do já extinto jockey, em Matosinhos. Passava-se também o tempo na clandestinidade do jogo legalmente proibido, mas nem por isso menos concorrido, numa tradição que mais tarde dará origem aos primeiros casinos, localizados nas principais praias históricas como as da Póvoa de Varzim, de Espinho, da Figueira da Foz ou do Estoril, não obstante terem existido pelo menos dois na Foz do Douro e talvez, clandestinamente, noutras colónias balneares aqui citadas. Da rotina diária de veraneio descreve Ramalho Ortigão alguns detalhes, permitindo entender como os banhos de mar ocupavam apenas uma curta parte do dia, pois não eram ainda complementados com os banhos de sol, sendo por isso necessário entreter o visitante nesses seus dias de “férias” tão desocupados. Ao contacto social das festas e soirées, juntavam-se as burricadas (passeios locais de burro) e os passeios pelo património local, que poderiam incluir a visita às barracas e cabanas dos pescadores (tão pitorescas e diferentes das casas urbanas e rurais e tão apreciadas nesse período de Romantismo), a visita aos monumentos das proximidades - como a ida da Póvoa de Varzim ao mosteiro de São Pedro de Rates -, a vista de paisagens naturais - como a ida de Espinho à Ria de Aveiro ou de Cascais até Sintra -, ou até exploratórios percursos arqueológicos como os realizados às recém-descobertas ruínas romanas de Tróia, tão próximas de Setúbal. Cresceriam a ritmo acelerado as áreas balneares próximas das grandes cidades, vaticinando-se que a par da melhoria dos acessos o seu futuro seria o de extensão residencial urbana, mais perene do que sazonal. Da memória destas colónias balneares, ficaram as construções de veraneio como os chalés e palacetes com vista sobre o mar, as ruas arborizadas adivinhando-se os passeios à sombra, os jardins e os equipamentos de lazer que ainda sabem a descanso. Lutando contra a pressão urbanística da construção em altura, são estas privilegiadas praias históricas tão cobiçadas pelas anunciadas “vistas de mar” que naturalmente contém e que as tornam local apetecível para o investimento e especulação imobiliária com que têm crescido tão desordenadamente desprotegidas. Memórias das praias antigas da história de uma costa atlântica ainda com tanto por redescobrir, divulgar, e proteger.

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de elite resultante de um projecto de investimento privado de finais de oitocentos para a criação de uma colónia balnear de luxo, onde se encontrava anualmente um restrito grupo social - quase familiar - do Porto e de Lisboa para ida a banhos, e no qual se incluiria a visita ocasional da Família Real.


#SAL

Nadando em uma praia da Ilha Grande, Rio de Janeiro, vi uma família fazendo churrasco em um veleiro. Então descobri que gostaria de fazer churrasco ali também, naquele lugar. Talvez tenha sido uma das formas mais idiotas de alguém entrar no mundo da vela que já se viu, mas de qualquer maneira quando comecei a aprender a pilotar a minha churrasqueira autopropelida algo me atingiu.

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Descobri algo novo: Um mundo inusitado que misturava algo de contracultura, abrindo mão de convenções e rediscutindo a forma que vivemos, mas que também te torna um pouco renascentista, onde é comum em uma mesa ouvir conversas sobre mecânica de fluidos, meteorologia, eletrônica e receitas de pão. Foi um impacto tão forte que senti necessidade de mostrar isto para o mundo. Enxergava ali mais do que um esporte ou uma forma de lazer, era uma forma de olhar o mundo por outro ângulo, tanto metaforicamente quanto literalmente. No Brasil ao falar que você mora em um barco causa quase sempre uma reação de espanto e muitas vezes perguntas como: Mas e de noite? E o que vocês comem? É sempre divertido ver esta total falta de conhecimento, mas é um paradoxo, pois somos um país descoberto pelo mar e infelizmente demos as costas para ele. Curiosamente as maiores diferenças não estão nestas perguntas rasas, mas sim na forma como as pessoas se relacionam, em como a sua

Texto e fotografia por Adriano Plotzki

personalidade se molda em um ambiente onde sempre se vê o horizonte, onde não há pedaços de terra em seu nome, nem nada que impeça você de levar tudo o que é seu para outro lugar. Hoje vivo quase que inteiramente para mostrar este universo, tenho um canal com 800.000 minutos assistidos todo mês no Youtube, mais outros tantos na TV e noto que há uma cultura evoluindo. Não é algo que surgiu agora e muito menos que eu tenha feito sozinho, acho que é a coincidência de fatores tecnológicos e sociais que está fazendo com que muitas pessoas venham morar em veleiros no Brasil. Não acho que vamos ter números suficientes para entrar nas estatísticas nacionais, mas enxergo um estilo de vida que tem força para influenciar a sociedade em certa medida. Assim como o surf fez a partir das décadas de 1950 e 1960, afetando a moda, as artes e a linguagem de grande parte da população mundial. Pode ser que eu esteja vendo apenas uma miragem, mas se vier a acontecer não será nenhuma novidade a luz da história. As velas já foram um grande catalisador de inovações tecnológicas e um caldeirão de culturas que transformou o mundo, muitas delas carregando a Cruz da Ordem de Cristo e fazendo sombra a marinheiros que liam Camões.


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Em casco duplo Texto por Bruno Esteves

Our Sea Yachts

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Cácá, como é conhecido, é o novo rosto do marítimo-turístico da vela no Algarve! Com um Lagoon 410 S2, proporciona hoje experiências a empresas, famílias e grupos de turistas que visitam o nosso país e em especial a região do Algarve. A BICA foi até Albufeira para embarcar numa aventura surpreendente a bordo do Serval III.


E como começou essa brincadeira? Carlos Valverde: Estava a tirar o yacht master em Lisboa, e o professor que conhecia o barco que eu tinha disse-me a certa altura que com este barco eu deveria ir para o Algarve e fazer vida com ele. E eu....olha....vim! Já tinhas o Serval II que era um Oceanis 38, no entanto começaste com um barco mais pequeno...como começa esta tua ligação ao mar? Sim, tinha um Aloa 27. A minha vida no mar começa em miúdo com um bote de borracha a remos, de seguida com um motor e logo depois a minha primeira lanchinha, a Cácá – diz emocionado. - E aí começa tudo! Desde cedo apercebo-me que os motores são uma treta e que a minha “cena” é a vela. Sempre fui muito de velocidades, carros e motos, e a minha mãe andava sempre preocupada, e quando passei para a vela acho que tranquilizei toda a gente... Entretanto comecei a sair com amigos de Aveiro para Baiona, e apercebi-me do potencial do vento. Tenho boas recordações desses tempos, em 1999 com o Zurk (barco de um amigo) do Manel. Um “feeling” esse barco! Foste várias vezes a Baiona e aí começaram as tuas aventuras no mar, na vela, no entanto fazes a tua primeira “grande” viagem do Porto ao Algarve no teu barco. Como foi essa experiência? Bem...aí tinha o Aloa 27! Fiz um crédito para o comprar! Enganei o meu pai....(risos). Aliás, é graças a ele que tenho o meu negócio, sem ele estes sonhos eram impossíveis! Mas, voltando à viagem, arranco da Póvoa de Varzim e quando chego ao Algarve chorei! Apanhei mar grande, ondas de 4-5 metros, senti-me muito pequeno em determinadas alturas. Levei um amigo que tinha tirado o curso comigo e outros três que nunca tinham andado num veleiro! Uma loucura.....sempre que a “coisa” ficava feia eles iam lá para baixo! Eu não consigo! Se aquilo vira eu pelo menos salto fora...(risos). Mais tarde compras o Serval II, um grande upgrade em relação às embarcações anteriores. É nesse momento que percebes que a tua vida vai definitivamente passar pelo mar, pelos charters, pelo negócio? Na verdade ainda não é nessa fase. Aí ainda

estava no puro divertimento e a usufruir do novo veleiro com os amigos! Só mais tarde, com os cursos que tirei é que me dei conta que podia fazer disto vida. O Serval era um barco excelente para começar a atividade de charters, com todas as condições! Já tinha três quartos, 2 wc, espaços amplos, etc...Até podias dar a volta ao mundo nele. No entanto, apostámos no mercado do Algarve e surgiu uma oportunidade de adquirir este novo barco, onde nos encontramos. Passas de um veleiro monocasco para um catamaran, um Lagoon 410 S2! Mais um upgrade nesta tua aventura. Existe um nicho de mercado de luxo aqui no Algarve, e a oportunidade surge quando estou a lavar o barco e sou abordado por um senhor que quer vender o seu Lagoon. Falei com o meu pai, que acreditou na hora neste bom investimento, e hoje temos este magnífico barco na água. Consigo levar até 13 pessoas num passeio e pernoitar com 10. Tem 4 suites com wc próprio. Quando o vendedor me disse que era um Catamaran eu nem liguei....mas depois não consegui pensar em mais nada até o adquirir! (risos). Surge inevitavelmente a Oursea Yachts, uma empresa de turismo náutico. Sim. Somos uma empresa habilitada a fazer charters e prestar um serviço de excelência a quem escolhe passear connosco. No nosso website estão todas as informações para escolher um bom passeio, uma boa experiência. www.ourseayachts.com Temos tido vários contactos de pessoas de diferentes países, e no nosso facebook temos tido um feedback interessantíssimo de clientes que até acham baratos os nossos preços, pela qualidade que oferecemos! Fico contente (risos) Este negócio foi pensado para Portugal, neste caso para o Algarve ou passou pela tua cabeça saires para o estrangeiro? Aqui, no nosso país, e obrigatoriamente no Algarve. Primeiro porque sou muito ligado aos meus amigos, pela minha família e depois pelas excelentes condições que temos no nosso país. Gosto deste tipo de vida! Seria fácil pensar em Brasil, até Cabo Verde, mas agora não! Neste momento quero focar-me em prestar um serviço de qualidade aos meus clientes. Recebê-los em minha casa que é este barco! Na verdade eu não durmo aqui, tenho casa aqui no Algarve, mas seria perfeitamente

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”Isto, no fundo. começou como uma brincadeira” afirma Cácá com tom jucoso enquanto nos encaminha para o seu barco.


possível....quem dorme é um dos meus colaboradores, para garantir que está sempre tudo limpo e arranjado!. Bica: A arte de bem receber é de alguma forma o teu diferenciador? Gosto muito de receber, de conhecer gente, de fazer bons negócios! Tenho a preocupação de oferecer um bom vinho, um bom queijo da serra, um bom pão, entre outros “mimos” da nossa gastronomia. Tenho alguns contactos nos melhores hotéis que já indicam o nosso barco aos seus hóspedes pela qualidade que prestamos. Somos recomendados. E isso para mim é o mais importante! E novos projetos? – Perguntámos enquanto saboreávamos um belo queijo da serra e (espanto o nosso), um fabuloso vinho branco do Dão.

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Temos a vela neste momento, o catamaran oferece uma segurança absoluta, mas as pessoas ainda se assustam com as velas, com o vento. Só saio para o mar quando as condições assim o permitem. Quero que as pessoas tenham as melhores experiências quando estão no meu barco. Temos, por isso, no horizonte a ideia de adquirir outro tipo de embarcação ligada ao mercado de alto luxo. Estamos a falar de outro tipo de investimento de que acho que o Algarve tem essa necessidade. Pode é ainda não estar preparado.... vamos ver. Sinto que existem clientes para este tipo de oferta, clientes que procuram mais luxo, mais descrição, que possam procurar um hotel na

água com todas as comodidades. Estamos a falar de uma embarcação de 70 pés, mas vamos ver...ainda é cedo para falar. Em termos pessoais, está nos teus horizontes fazer a travessia do Atlântico? Alguma viagem pensada? Neste momento não, pelo menos a travessia. Claro que já pensei nisso algumas vezes, mas tenho prioridades neste momento, não só a empresa que ainda é recente, mas também a família. Uma ida à Madeira, por exemplo, pode ser já para o mês que vem, estou preparado. Tenho barco para isso! Tenho um conceito de negócio diferente. Já morei em vários lugares no mundo, mas é aqui que as coisas estão a acontecer e tenho tido muitos bons retornos. Tenho vários clientes que me pedem para levar os porquinhos onde assamos a chouriça a bordo! É esse o “souvenir” que querem levar para se lembrarem da experiência que tiveram! Os últimos foram uns russos que nem inglês falavam! É lindo! É brutal e muito gratificante! No verão o Catamaran está na Marina de Albufeira e de Novembro a Fevereiro vai estar, em princípio, em Lisboa, com a Sailling Lovers. Uma parceria que tem tudo para dar certo para a promoção da Oursea Yachts. Assim, se estiver a ler esta entrevista, for um amante da vela e acima de tudo quiser ter uma experiência a bordo, não perca a oportunidade!


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Portugal é um país gigante!

Tim Marshall on Unsplash

por Bernardo Mota Veiga

Hoje Portugal está no top 20 das maiores Zonas Económicas Exclusivas mundiais e pode chegar ao top 10 se vir aceite a sua pretensão de alargamento da sua ZEE.

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São hoje 1.7 Milhões de quilómetros quadrados de território com uma forte probabilidade desse tamanho vir a duplicar. Pouco se fala desta actual posição de relevo e da pretensão de alargamento. Talvez porque se ache cada vez mais que do mar nada se retira. Em 2007 Dennis Hope visitou Portugal com a devida pompa e foi noticiado pela conferência de imprensa agendada no sentido de inaugurar a Embaixada Lunar em Portugal.

Afirmando que já contava na sua lista de clientes com um vasto número de nomes sonantes como Ronald Reagan, Nicole Kidnam, Clint Eastwood, Tom Cruise e anunciando que por 25 Euros por hectare seria possível adquirir um pedaço na lua. A verdade é que o Senhor vendeu mais de 6 milhões de dólares em terrenos lunares acabando por avaliar os 37 milhões de quilómetros quadrados em 97 mil milhões de dólares. Dennis encontrou uma forma de valorizar um activo que à data de hoje não serve para mais nada a não ser para ser observado daqui de longe... de muito longe.


As vantagens de uma Zona Económica Exclusiva composta por mar a perder de vista são hoje muito difíceis de perceber. Por agora o que temos mesmo é um acrescido custo com a protecção e fiscalização dessa gigante zona que pelo menos não arde.

cessidades que forçam realidades outrora impossíveis. Pensar no nosso mar de forma aberta e ilimitada pode ser o primeiro passo para nos elevarmos como a grande potência mundial que já fomos quando nos atrevemos a dominar os mares.

Um vasto território marítimo é uma absoluta riqueza natural de valor inquantificável, mas ainda não fizemos o papel do Dennis e, portanto, ainda não conseguimos incorporar desse bem um significativo valor económico. Dennis encontrou valor económico na lua em que só metade tem vista mar... para o nosso mar. Por piada, ingenuidade, esperança, ou outra qualquer motivação ou sentimento de posse, a verdade é que encontrou clientes para um produto que, sendo tão ridiculamente óbvio, vê ignoradas quaisquer similaridades com uma grandiosa fraude imobiliária.

Foi preciso o Garrett McNamara levar ao mundo o canhão da Nazaré que já ali está desde todo o sempre, mas antes ele do que ninguém e antes tarde do que nunca. Precisamos de mentes tão abertas quanto audaciosas que não se inspirem no mar mas que se inspirem por ele.

Os cientistas da Nasa estão empenhados em criar um modelo de colonização de Marte. Dizem eles que a única barreira significativa no momento é a forma de lidar com o vento solar que na terra esbarra com o invisível escudo electromagnético terrestre. Tirando alguns projectos materializados e por materializar nos mares do Dubai, parece mais interessante ir habitar Marte do que fazer penetrar a nossa vida oceanos adentro. São inúmeros na história civilizacional os projectos ambiciosos e aparentemente impossíveis até se materializarem; até que alguém leva a sua persistência ao ponto de fazer acontecer! Desde a linha de comboio global que ainda é apenas um projecto, passando por ilhas artificiais (que no Dubai se tiraram do papel), temos provas de que a evolução do mundo nos presenteia com novas ne-

Não sabemos se um dia o mar vai ser a fonte de energia do futuro. Sabemos, quase todos os Portugueses, que o mar dá energia à alma e que portanto nada fará sentido economicamente se, ecologicamente, tal representar a destruição do que já temos. Se porventura não encontrarmos forma de algum dia retirar vantagem económica sem prejudicar a ecológica, então que se retirem vantagens ecológicas sem prejudicar as económicas. É que fazendo parte do Top 20 (e quem sabe um dia Top 10) dos “maiores” países, talvez possamos e devamos ter uma voz internacionalmente forte na contribuição técnica e legislativa para um mundo ambientalmente muito melhor. Somos conhecidos por um dia termos abusado de coragem para conquistar o mundo pelo mar... que sejamos amanhã conhecidos por conquistar o mar... pelo mundo. Eu acredito o suficiente para comprar uns hectares de mar esperando pelo futuro.

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Hoje do mar Português retiramos pouco. A biodiversidade é utilizada essencialmente na industria farmacêutica e cosmética e indústria alimentar, com as limitações que todos sabemos. O nosso vasto território marítimo não trouxe petróleo nem gás natural em barda (e agora também já é tarde), não trouxe pontos de passagem suficientemente estratégicos que nos permitissem as receitas de um canal do Panamá, não nos trouxe uma colónia rara de um qualquer tipo de peixe Dragão que pudesse ser valorizado ao peso do ouro no Japão. Não construímos um porto como o de Roterdão, nem assumimos o posicionamento de trader de uma Arábia Saudita, e, isso sim, poderíamos ter feito no passado longínquo assim tivéssemos as demais infra-estruturas necessárias nos assegurassem mais proximidade com a Europa Central. Hoje o nosso mar não nos traz muito mais do que uma grandiosa vista explorada pelo segmento do Real Estate: um clima moderado por uma costa turística.

O potencial já o temos, cabe-nos agora explorá-lo e retirá-lo da prateleira do potencialmente potencial. Se é com um mega porto flutuante lá mais para junto de França para fazer concorrência ao porto de Roterdão, ou com um comboio submarino que ligue Portugal a Calais. Se é com uma estação de dessalinização, com a exploração de areias abissais, com hotéis flutuantes ou com a criação e exploração do óleo da sardinha, desafio a que olhemos para o mar e que, bebendo a tranquilidade do vazio o consigamos encher de algo que nos enriqueça espiritualmente, ecologicamente, socialmente e economicamente.


Como as águas criaram a cidade e como a cidade as dá a conhecer por Lídia Fernandes

A água determinou o destino da cidade de Lisboa. Sem ela Lisboa não seria o que hoje é e, sem ela, a sua história teria percorrido diferentes caminhos, sem ela, os homens que a habitaram seriam também diferentes. Estas considerações, por tão evidentes, não necessitam de explicitação, no entanto, será curioso observar como em tempos tão recuados quanto a mudança de era e mesmo muito antes disso, quando Olisipo se transformava num aglomerado populacional progressivamente maior e mais importante, este determinismo causado pela omnipresença da água e do seu rio, lhe ditou o destino, condicionou o seu nascimento, o seu devir e o nosso presente. Importa igualmente realçar de que modo os museus de hoje – e falo do Museu de Lisboa – têm procurado realçar e incorporar no seu discurso museológico esta importância da água, do rio e dos mares que rodeiam a cidade, que cercam Portugal e lhe recortam o seu limite e o entregam, qual dádiva, ao senhor dos mares.

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A mítica fundação e os monstros do desconhecido Plínio-o-Velho refere no capítulo IX da sua obra Historia Naturalis que “Ao imperador Tibério foi anunciado por uma embaixada de Olisiponenses, enviada para esse efeito, que tinha sido visto e ouvido numa certa gruta, tocando búzio, um Tritão sob a forma que é conhecida. E não são mentira as Nereides (…) porque também na mesma costa litoral foi vista uma, cujo triste canto de agonia os habitantes ouviram de longe …”.

e sobre-humano a compreensão do que desconhece. No entanto, estes episódios, como o relatado por Plínio, são passíveis de uma outra leitura. Afinal é devido à descoberta destes Tritões e Nereides, à fundamentação destes fenómenos que parecem ter tido uma comprovação física pelo seu avistamento, que uma embaixada de olisiponenses se põe a caminho após lhes ter sido concedida uma reunião com o próprio imperador.

O desconhecido, o medo, o horizonte sem fim, podem justificar os episódios. Afinal, muitos séculos depois, quando Portugal se aventura nos mares para os conquistar, não serão alheios semelhantes avistamentos e será o próprio Damião de Góis, o célebre humanista, na sua famosa Urbis Olisiponi Descriptio publicada em 1554, que menciona avistamentos de Tritões nas proximidades de Lisboa, traduzindo, assim, uma recuperação de tradições orais multisseculares. Estes relatos poderão, de facto, ser analisados apenas desta forma: a imaginação humana que amplifica e atribui ao sobrenatural

Este facto, por si só merece a atenção de Plínio e justifica a sua inclusão na obra Historia Naturalis, assim como justifica a viagem a Roma dos ilustres da cidade. Esta ação traduz, afinal, a relevância da oligarquia de Felicitas Iulia Olisipo. Convém sublinhar que as embaixadas que reuniam com o imperador eram constituídas por membros do senado local. Se, no Alto Império estas embaixadas eram uma prerrogativa das urbes, com o objetivo de defender os direitos citadinos e obter vantagens do ponto de vista fiscal e administrativo, em épocas mais


Em tempos de Tibério, que dirige o império entre 14 a 37 d.C., sucedendo a Augusto, o poder instituído por Roma encontrava-se totalmente consolidado por todos os territórios que então constituíam o Império Romano e, na Península Ibérica, excetuando a zona cantábrica, igualmente o território se encontrava pacificado. A cidade de Olisipo, tornada latina provavelmente entre 31-27 a.C. já há muito estaria habituada ao invasor e a conquista da cidade não terá correspondido, provavelmente, a uma verdadeira “conquista”. Não houve batalhas e o estabelecimento militar na cidade concentrou-se na zona do atual Castelo de S. Jorge. Aí se fixaram os soldados, durante um curto espaço de tempo, tendo-o abandonado quando partiram para o norte da Península Ibérica – último reduto de insurreição contra os romanos - com vista à sua conquista e pacificação. Haverá outras formas de comprovar que a oligarquia olisiponense deteria tanto poder como o parece indicar a audiência concedida pelo próprio imperador Tibério àquele grupo de olisiponenses? Pensamos que sim. A epigrafia revela claramente o poder da aristocracia local de então. Por várias inscrições encontradas na cidade – grande número recolhido aquando da reconstrução de Lisboa após o grande Terramoto de 1755 – ficamos a saber, por exemplo, que foi um dos homens ricos de Olisipo que mandou fazer uma das termas mais importantes da cidade, que ficou conhecida por Termas dos Cássios, família que se encontra bem representada na cidade existindo várias inscrições que a mencionam. O exemplo mais paradigmático da relevância da elite local de Olisipo é a representada por Caius Heius Primus, o célebre liberto que, no ano 57 d.C., inaugura as obras de remodelação e embelezamento que havia mandado fazer na zona central do teatro, concretamente, na estrutura do proscénio. Todos os teatros romanos possuíam um proscénio (proscaenium). Tratava-se de um muro que delimitava a zona dos espectadores da área destinada aos atores, ou seja, o palco. A introdução desta estrutura na morfologia compositiva do espaço cénico é uma das caraterísticas identitárias do teatro romano que o diferencia do seu congénere grego, do qual é herdeiro direto. A inscrição que sobreviveu ao terramoto de 1755, foi parcialmente encontrada em 1798, no decurso dos trabalhos de reconstrução da cidade que então se realizavam com vista à

abertura da atual Rua de S. Mamede. O proscénio do teatro romano de Lisboa teria um comprimento total de c. 31m e a sua face norte, virada ao público, articulava-se em nove exedrae, ou nichos, estando as cinco centrais epigrafadas, isto é, possuíam uma inscrição na sua parte superior. Por ela ficamos a saber que aí foram realizadas obras no ano 57 d.C., informação cronológica que nos é transmitida pela dedicação da obra ao imperador Nero e pela inclusão da sua titulatura e que tais trabalhos foram mandados fazer e custeados pelo mencionado Caius Heius Primus. Nada foi deixado ao acaso! A data da inauguração coincide com a da inauguração em Roma, do anfiteatro em madeira que o próprio imperador Nero havia mandado construir. Por outro lado, a qualidade da obra evidencia o empenho pessoal, e também monetário, do liberto Caius Heius Primus que custeou os trabalhos de remodelação do muro e do pavimento situado defronte. No entanto, o mesmo não se coibiu de gravar na pedra, de forma bem visível, o seu próprio nome. Pouco depois, em 68 d.C., Nero é declarado hostis publicus ou seja, é condenado ao esquecimento, através do instrumento legal da damnatio memoriae, que obrigaria, à martelagem de todos os nomes e títulos que o identificassem, assim como à destruição de todas as suas estátuas. No entanto, tal não aconteceu no proscénio do teatro de Olisipo. O cumprimento pouco rigoroso das implicações práticas da condenação tem sido explicado com a conturbação dos anos 68-70 que se seguiu à morte de Nero e com a política moderada do imperador que se lhe seguiu: Vespasiano, que inaugura a dinastia flávia. De igual modo, a explicação que é dada pelo afastamento de algumas províncias a Roma afigura-se pouco correta, não tanto pela eventual diminuição do controle de Roma em relação às suas províncias, mas antes pelo esforço feito por estas por não se deixarem colocar fora da sua esfera política. O nome de Nero não foi apagado da inscrição do proscénio do teatro de Olisipo, não por negligência, mas por respeito a quem tinha mandado fazer a obra. Apagar aquela inscrição ou mutilá-la, apagando uma das palavras aí mencionadas, era ofender direta e ostensivamente um dos notáveis da cidade: Caius Heius Primus. Este facto tem profunda justificação pela existência de uma forte oligarquia que terá existido na cidade. Com efeito, a conquista romana suscitou o surgimento ou o engrandecimento de notáveis os quais terão aproveitado e potenciado os recursos económicos locais e regionais através do enor-

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tardias, porém, os que integravam tais embaixadas obtinham altos privilégios uma vez que contactavam com outras elites e podiam obter facilidades e vantagens em proveito próprio.


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míssimo mercado que a inserção no Império Romano colocava à sua disposição. Augusto, e os imperadores que lhe seguiram, baseia o seu poder hegemónico nesta cumplicidade com as elites autóctones, sendo elas que o impõem localmente, transmitindo a hierarquização do poder e promovendo a autoridade citadina. Mais relevante que as ordens do Senado, ou do próprio imperador que ditavam o “apagamento da memória”, parece ter sido o poder que imanava de Caius Heius Primus.o ilustre olisiponense que, apesar de ser um liberto, havia embelezado o teatro da sua cidade e oferecido uma obra ímpar, com os seus mármores de cores cinza e rosa, aos seus conterrâneos.

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Convém colocar a questão da proveniência da riqueza deste liberto e dos notáveis que terão existido na cidade durante a época romana. Em várias passagens da obra de Plínio são mencionadas algumas delas. Uma é bastante curiosa ao referir-se que as éguas eram tão férteis que emprenhavam pelo vento. Esta lenda insere-nos, afinal, nos mitos de abundância da cidade de Olisipo. Em paralelo à famosa riqueza em ouro que se recolhia do Tagus, o atual Tejo, o puro-sangue Lusitano é ainda hoje bem conhecido pela sua velocidade e robustez, sublinhando a fama destas éguas. Mas a maior riqueza da cidade era constituída pelas águas que circundavam a cidade

provendo-a em grande quantidade de produtos piscícolas que, através da sua exportação, passaram a inundar o Império Romano. Prova disso são os inúmeros tanques de salga de peixe (cetariae), que se registam na cidade. Os dados arqueológicos mais recentes têm sublinhado esta vocação industrial. Os inúmeros tanques de salga de peixe que vão sendo descobertos pela arqueologia em Lisboa mostram que esta indústria corresponderá a grandes unidades industriais, com uma ativa, sistemática e ampla laboração, constituindo verdadeiros empórios fabris. Deste facto quisemos dar conta no roteiro feito pelo Museu de Lisboa – Teatro Romano intitulado “À Descoberta de Felicitas Iulia Olisipo” (Fig. 1). A partir de quatro percursos temáticos explicitados no roteiro, propõese que o público percorra alguns dos mais emblemáticos edifícios ou locais da cidade latina. Os trajetos contemplam dois tipos de sítios: museus e núcleos arqueológicos visitáveis e, por outro, sítios arqueológicos não visitáveis. A inclusão destes últimos locais prende-se com a importância dos mesmos, reconhecidos arqueologicamente, mas cujos vestígios, devido a circunstâncias várias, não ficaram preservados. Com efeito, são raros os locais onde os vestígios arqueológicos se conservam e, ainda menos, aqueles que permanecem visíveis, continuando a ser a “salvaguarda pelo registo”, na maior parte dos casos, a única forma de conhecimento que sobrevive após uma escavação.


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Tal não foi o que aconteceu com o núcleo arqueológico da Casa dos Bicos. Intervencionado arqueologicamente pela primeira vez em 1981/82, aquando da preparação da “XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura”, sofreu novas obras entre 2012 e 2013 com vista à adaptação do espaço para albergar nos pisos superiores a Fundação José Saramago, tendo-se musealizado, no piso inferior, as múltiplas estruturas arqueológicas colocadas a descoberto, trabalhos que ficaram concluídos em 2014 com a abertura do núcleo do Museu de Lisboa – Casa dos Bicos (Fig. 2). Tem-se neste local, uma clara perceção da importância do rio na economia da antiga cidade romana e da relevância da atividade piscatória a ela associada. Sendo então a linha de costa bem mais recuada do que hoje, a fábrica de transformação de produtos piscícolas da Casa dos Bicos evidencia o modo como estas unidades industriais aproveitavam intensamente o rio quer como meio de transporte da matéria-prima, quer como forma de escoamento dos produtos. Este núcleo oferece um panorama claro da vivência da cidade romana ribeirinha, explicitada em dois vídeos: um que reproduz a evolução topográfica da encosta onde hoje se situa o núcleo arqueológico e outro que apresenta uma reconstituição virtual do antigo núcleo fabril, mostrando como o peixe era salgado e depois embalado nas ânforas destinadas à exportação. (Fig. 3)

Afinal … a elite citadina teria muito mais sobre que falar com o imperador para além das Nereides e dos Tritões … Se o rio e o mar foram decisivos para a criação de uma cidade romana no local onde hoje é Lisboa esse determinismo fez-se sentir em tempos ainda mais recuados. O achado de vestígios da Iª (sécs. VIII-V a.C.) e da IIª Idade do Ferro (sécs. IV-III a.C.) numa progressiva área da cidade mostra que a cidade já o era antes do domínio romano. No Museu de Lisboa – Teatro Romano há registo efetivo desta ocupação e a exposição contempla essa faixa cronológica contando a história do local antes da edificação do teatro. O nome Olisipo, aliás, seria a designação pré latina da urbe que, em tempos de César viria a incorporar como topónimos os epítetos de Felicitas e de Iulia ao antigo nome pré-latino Olisipo. Um porto navegável, uma enseada suave e um rio com amplas margens foram fatores decisivos para o sucesso deste aglomerado populacional desde tempos tão recuados. O Rio Tejo, navegável em grande parte do seu curso até ao interior do território era a auto-estrada por excelência, a forma mais rápida e simples de unir territórios, de transportar produtos e de trazer outros de locais longínquos.

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O aparecimento de múltiplos tanques de salga tem possibilitado, por sua vez, a correção do traçado do antigo braço de rio que entraria pela cidade. O achado em 1995, onde hoje se localiza a Praça D. Pedro IV (Rossio), do circo romano, a uma profundidade de c. de 7 m, permitiu perceber que esse esteiro seria mais estreito e não navegável. O mapa que se expõe no Museu de Lisboa – Teatro Romano, com a implantação dos achados romanos e do curso deste braço de rio, alimentado pelas ribeiras que, desde norte, desciam até ele, espelha esta nova proposta do traçado (Fig. 4). Como se refere no “Roteiro à Descoberta de Felicitas Iulia Olisipo”, editado este ano pelo Museu de Lisboa – Teatro Romano, “Os múltiplos vestígios de tanques de salga de peixe que se preservam na cidade de Lisboa ou dos quais sabemos a sua existência por terem sido reconhecidos arqueologicamente, obrigam a pensar esta atividade como uma das mais relevantes na economia citadina. A proximidade dos vestígios entre si, por sua vez, leva a considerar não uma multiplicidade de fábricas, mas antes poucas unidades industriais, mas de grande dimensão. Este facto pressupõe a existência de uma oligarquia local, detentora de grande riqueza”.


graram contornar esta dificuldade criada por solos com constante presença da água, aproveitando-a da melhor forma. A exposição Debaixo dos Nossos Pés é, também um hino às águas invisíveis que percorremos.

Esta importância do rio no ser e devir de Olisipo, de Felicitas Iulia e de Lisboa, foi determinante para a escolha do Torreão Poente da Praça do Comércio para a instalação da exposição Debaixo do Nossos pés – Pavimentos Históricos de Lisboa. Aberta ao público no dia 18 de abril, esta exposição temporária tem como objetivo dar a conhecer as múltiplas cidades de Lisboa através do chão que pisamos. Olhar de novo para as pedras que percorremos, acompanhar a evolução diacrónica da cidade através dos materiais usados para o revestimento do solo e das opções técnicas e estilísticas encontradas para a sua ornamentação, são as sugestões que se fazem nesta exposição onde o rio serve de pano de fundo (Fig. 5).

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Foi o Tejo que “predestinou” Lisboa para o estatuto de capitalidade atlântica que a cidade sempre teve. Não por acaso, D. Afonso III escolheu-a para capital do reino de Portugal e D. Manuel I ordenou a edificação do seu paço nas areias do rio, onde chegavam as mercadorias do mundo. Na reconstrução pombalina, após o terramoto de 1755, reforçou-se a ideia do Terreiro do Paço como praça aberta ao rio e, até ao século XIX, Lisboa cresceu ao longo das margens do Tejo, entre Xabregas e Belém. A expansão para norte, ao longo do Eixo Central, das Avenidas Novas ou da Avenida Almirante Reis, é um capítulo recente na história da cidade. Mas também a pavimentação da cidade e os sistemas construtivos que lhe deram forma, refletem a omnipresença das águas. A estacaria pombalina ou, antes dela, as madeiras usadas nos sécs. XVI e XVII na base das edificações, lo-

O rio e o mar são, também eles, um caminho que se percorre e que permitem abrir esta nossa cidade ao mundo e a todos os Tritões que por ele se encontram. Como refere Alberto Caeiro Pelo Tejo vai-se para o mundo. *Arqueóloga. Coordenadora do Museu de Lisboa – Teatro Romano / EGEAC.

Legendas 01 – Face frontal do Roteiro “À Descoberta de Felicitas Iulia Olisipo” editado pelo Museu de Lisboa - Teatro Romano. 02 – Perspetiva geral do Museu de Lisboa – Casa dos Bicos. (Fotografia José Avelar / Museu de Lisboa). 03 - Museu de Lisboa – Casa dos Bicos com pormenor dos tanques de salga de peixe (cetariae). (Fotografia José Avelar / Museu de Lisboa). 04 – Mapa que se encontra no Museu de Lisboa – Teatro Romano com a implantação das estruturas de época romana e o traçado provável do esteiro do rio Tejo. (Desenho de Carlos Loureiro / Museu de Lisboa). 05 – Entrada da exposição Debaixo dos Nossos Pés – Pavimentos Históricos de Lisboa no Torreão Poente da Praça do Comércio (Museu de Lisboa – Torreão Poente. (Fotografia José Avelar / Museu de Lisboa).


Podia ser o destino típico, para o turista típico. Só que Viseu é outra coisa. É aqui que as raízes do Renascimento em Portugal se encontram com a street art. Que conhecemos uma feira com mais de 600 anos de tradição e uma agenda cultural que é um espetáculo. Que provamos vinhos e sabores que são cá da terra e são de outro mundo. Não é preciso irmos longe para termos uma experiência inesquecível. Vamos a Viseu? www.visitviseu.pt

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Barcelona? Não. Viseu.


Um batismo com esplendor. A água e o ouro no Museu de São Roque por João Simões Gonçalo Amaro

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A colina localizada a poente do leito da atual Baixa Pombalina sempre teve escassez de água, existindo apenas culturas de sequeiro, como olivais que chegaram até inícios do século XVI. Em 1513, quando se iniciou a construção do Bairro Alto, os olivais foram arrancados e os novos residentes, para se abastecer de água, tinham de se deslocar ao Chafariz d’El Rei em Alfama, ou possuir cisternas no interior das suas habitações. A casa professa de São Roque, sede da província portuguesa da Companhia de Jesus, tinha duas grandes cisternas construídas em 1562 no centro do seu pátio principal, as quais captavam as águas pluviais dos telhados da igreja e da casa. Foram usadas até meados do século XX como retaguarda ao abastecimento da água da EPAL. A gestão da água foi sempre algo muito valorizado. A água era armazenada, servindo em primeiro lugar para a alimentação, depois para as lavagens e só depois para os despejos sanitários. Usava-se a força da gravidade para encaminhar a água nestas suas funções sequenciais. Recentemente, na obra de abertura de uma nova entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa localizaram-se duas colunas monumentais dignas de um templo da Antiguidade mas que eram, na realidade, as colunas de sustentação da consola de latrinas da casa professa dos jesuítas. A sua imponência (quase 4 metros de altura) revela bem o investimento dado ao saneamento e à gestão da água por parte da Companhia de Jesus.


Devido à falta de água na zona ocidental da cidade, o Município de Lisboa, no reinado de D. João V, fez entrar a água por esse lado, através do Aqueduto das Águas Livres, o qual chegava ao Largo do Rato. Daqui um ramal secundário, o chamado Aqueduto do Loreto, enterrado no subsolo e ainda existente, seguia para São Pedro de Alcântara e curvava para o Chiado, terminando no Largo do Teatro de São Carlos. Pelo caminho, passava junto à Igreja de São Roque, entrando o ramal privativo dos jesuítas pela porta da Glória, para abastecer as grandiosas cozinhas ainda hoje existentes.

para uma importante cerimónia, o Lava-pés. O mais alto dignitário lavava os pés aos mais baixos presentes em ação de humildade, repetindo o exemplo de Cristo, episódio representado numa pintura da primeira década do século XVII da autoria de Simão Rodrigues e Domingos Vieira Serrão.

A água, por ser essencial à vida, teve desde sempre um simbolismo importante em quase todas as religiões. No Cristianismo, Judaísmo e Islamismo é simultaneamente fonte de vida, meio de purificação e centro de regenerescência. Por esta razão, a arte antiga expressa a importância da água, seja pelo tratamento dado aos objetos que a utilizam, seja pelas representações das cerimónias ou sacramentos onde ela está presente. Muitos destes objetos, de ambas as vertentes, profanos e litúrgicos, estão presentes no Museu de São Roque.

Finalmente, o mais extraordinário contributo existente na Igreja jesuítica, a Capela de São João Baptista, remete também para a água. A capela era originariamente dedicada ao Espírito Santo, sendo essa manifestação divina representada nas três cenas – Anunciação, Batismo de Cristo e Pentecostes – representadas nos três painéis de mosaico romano, realizados por Mattia Moretti a partir das pinturas encomendadas para o efeito a Agostino Masucci, o pintor preferido de D. João V. Mas porque São João Baptista era o santo do nome do monarca, o painel central foi precisamente dedicado a este santo e ao seu papel no batismo de Cristo, nas águas do rio Jordão, simbolizando a purificação dos pecados e o nascimento para uma nova vida em comunhão com Deus. No sacramento do batismo pela água está presente o Espírito Santo. De facto, contemporânea à encomenda da Capela de São João Baptista realizouse também, em Roma, a capela batismal da Basílica Patriarcal, onde os membros da família real seriam batizados, mas que se perdeu com o terramoto de 1755. A Capela de São João Baptista da Igreja de São Roque foi encomendada em Roma aos melhores artífices italianos e esteve exposta na capital romana – na Igreja de Santo António dos Portugueses e no Palácio Capponi – com o seu tesouro, o qual hoje se admira no Museu de São Roque. Este incluía também uma salva e gomil, para uso litúrgico, em prata dourada da autoria de Vicenzo Belli. A função deste tesouro foi mostrar ao Mundo que Portugal continuava a ser uma potência rica e abastada, que se poderia defender, afastando assim as pretensões de invasão de Espanha e das outras potências sobre o Brasil. O tesouro da Capela de São João Baptista, o mais importante testemunho de arte barroca italiana fora de Itália, sobreviveu ao Terramoto de 1755, às invasões francesas e às convulsões políticas dos séculos XIX e XX. Foi muito valorizado nos inícios do século XX, originando a criação do museu do Tesouro da Capela de São João Baptista, inaugurado pelo Rei D. Carlos em 1905 e génese do atual Museu de São Roque.

O Museu de São Roque dispõe de várias salvas e gomis provenientes de doações feitas à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Destaca-se uma salva, em prata dourada, de finais do século XVI, que apresenta ao centro as armas dos Gamas, condes da Vidigueira, vizinhos da casa professa de São Roque. Outra salva em prata repuxada e cinzelada de inícios do século XVIII apresenta 16 flores e 8 animais todos diferentes, símbolos de vícios e virtudes, culminando o conjunto numa cena em que um macaco vestido de capa, montado num cavalo de brincar e coadjuvado por outro macaco a servir de pajem, parodia com os hábitos da nobreza. No museu também se pode ver uma bacia lisa, em prata, do século XVII, que servia

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A lavagem das mãos era uma cerimónia importante que antecedia qualquer refeição. Se esta tivesse importância social, com convidados ilustres, era ainda mais. Para isso, existia a lavanda, um conjunto composto por salva e gomil, ou seja, por um prato e um jarro onde um criado despejava água para os convidados lavarem as suas mãos antes da refeição. A lavanda torna-se num elemento de ostentação para ser apreciado e avaliar a riqueza, a cultura e a importância social do anfitrião. Surgem em contexto aristocrático as lavandas em metais preciosos profusamente decoradas. Algumas delas nem sequer eram utilizadas mas apenas apresentadas em móveis de aparato, com prateleiras, presentes na sala de jantar.

Na Igreja de São Roque, no transepto, preserva-se também uma pia batismal, apesar de a igreja não ser paroquial. A sua função era batizar as crianças depositadas na roda dos expostos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.


Devoções ribeirinhas a Santo António 01

Se milagres desejais, Recorrei a Santo António; Vereis fugir o demónio E as tentações infernais. Recupera-se o perdido, Rompe-se a dura prisão E no auge do furacão Cede o mar embravecido. (...)

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(Início do responso a Santo António) O responso a Santo António, famosa oração dedicada Santo António e que ainda hoje é rezada todas as terças-feiras na sua igreja em Lisboa, relembra-nos a importância que o mar teve na sua história de vida. Quando o barco em que viajava de Marrocos para Lisboa foi arrastado para Itália, a vida de Santo António irá (novamente) mudar radicalmente, e será em Itália e no sul de França que se revelará como um grande orador e taumaturgo. Por isso se tornou o padroeiro dos barqueiros, dos náufragos e dos marinheiros, mas também dos pescadores, reminiscência do milagre do sermão aos peixes. Muitos outros milagres que lhe são atribuídos terão o mar

por Pedro Teotónio Pereira Coordenador do Museu de Lisboa – Santo António

ou o rio como cenário, de onde se destacam o já referido milagre do sermão aos peixes ou o milagre onde salvou o sobrinho que se afogara no rio Tejo. Mas será depois da sua morte, acompanhando séculos de consolidação da devoção popular, que a presença da água adquire um valor especial, revelado no período das festas dos santos populares. É nesta altura do ano que a água ganha propriedades mágicas, tornando-se num elemento fundamental das sortes e práticas divinatórias das festas de junho: o orvalho da manhã de Santo António, ou de São João, tem propriedades mágicas; um banho em dia de Santo António vale por três banhos vulgares; na noite de Santo António ia-se até aos chafarizes gargarejar com água para depois continuar a folia até de manhã; para se saber o nome do futuro namorado escrevem-se nomes em papelinhos que, depois de enrolados, se deitam num copo de água fresca que


Era também muitas vezes através da água que se castigava ou forçava o santo a ser favorável à causa do pedido: era comum colocar-se a imagem de Santo António numa tina cheia de água, ou numa versão mais agressiva, dentro de um poço de cabeça para baixo, até que se cumprisse o solicitado. Violência e coerção? Mais do que isso, são marcas de uma relação especial com Santo António que encontramos em Portugal, mas também nos países de evangelização portuguesa, onde o Santo é encarado mais como um amigo do que como um santo de altar. Esta relação é ainda mais evidente quando olhamos para a devoção das “gentes do mar”, cuja religiosidade é exacerbada pelos perigos que têm de enfrentar. Vem assim a propósito relembrar as cartas enviadas pelo viajante inglês do século XVIII Arthur William Costigan ao seu irmão, onde faz uma caracterização da sociedade portuguesa do seu tempo. Numa carta de 1779 descreve a viagem que fez para Lisboa, no regresso de um jantar para que fora convidado na Moita, resultando num extraordinário testemunho sobre a devoção a Santo António. (…) Na mesma noite do dia em que o marquês regressou da sua excursão, cujo fim nos era ainda desconhecido, recebemos, cada um de nós, um convite para irmos jantar no dia seguinte à sua casa de campo, da outra banda do Tejo, perto duma aldeia chamada Moita. (…) Ao pôr do sol serviram o café (…) e uma hora depois, embarcámos para Lisboa.(…) O nosso barco estava mais para a direita do que qualquer dos outros, e a maré estando cheia, ao aproximar-nos da cidade, onde a corrente era extremamente rápida, fomos levados muito para cima; o vigor dos nossos remadores algarvios tornou-se inútil contra as ondas. – Se Santo António nos mandasse uma viração dos montes do Norte, como muitas vezes faz!..., disse um dos remadores, junto do qual estava sentado no barco, e que respondera com o maior sucesso às graças dos bobos. – Queira Deus que Nossa Senhora lho permita, replicaram todos, rezemos-lhe um responso (nota do autor: espécie de oração, em mau latim, que os padres ensinam ao povo para rezar a Santo António, como particular patrono de Lisboa, a fim de achar qualquer objeto perdido ou conseguir uma feliz jornada, um vento favorável, etc.). Acabado ele, gritaram todos numa só voz:

Sopra, sopra Santo António. – Vamos, compadre, passa da popa à proa, que quero falar contigo, disse o gracejador que estava ao meu lado, que se chamava Ivo, e era a alma e o oráculo do bando. A estas palavras vi passarem-lhe uma tábua do comprimento de dois pés e da largura de cinco ou seis polegadas, na extremidade da qual estava uma caixa pequena para esmolas, com uma abertura para meter o dinheiro, e por cima dela havia uma imagem pintada do santo com o Menino Jesus nos braços; Ivo colocou o santo no chão diante dele, os remadores de novo se puseram a remar. Oferecemos-lhe vinho, que recusaram, mas beberam grande quantidade de água, que traziam em barricas. Ivo, dirigindo-se ainda a Santo António, disse-lhe: - Sabeis compadre (o santo segundo parece é padrinho dum dos filhos de Ivo) que estou a par das vossas manhas, e que em certas ocasiões tive muita razão em vos chamar teimoso, mas espero que não vos comprometereis diante destes senhores e que não mostreis mau carácter. Peço-vos que considereis o que os marinheiros de Londres pensariam de vós se estes senhores lhes dissessem que, ao pedir-vos um soprozinho de vento para nos levar à cidade, fostes bastante mau para no-lo recusar. Depois de muitas chalaças com os bobos, que fizeram o marquês rir a bandeiras despregadas, Ivo pegou na tábua e, sacudindo-a, voltou ao contrário a caixa de esmolas. Ah! Agora percebo, já sei porque não temos vento, o meu compadre não fará nada, mesmo por Nossa Senhora, sem esmolas; vamos, passai-o para a nobre sociedade destes fidalgos, e que cada um lhe dê o que quiser; logo que o meu compadre ouviu tinir o dinheiro na caixa… sim, sim, teremos bom vento. Quando recolheram as esmolas, Ivo colocou novamente o santo no chão diante dele. Perguntei-lhe então onde estava o vento que nos prometera. Respondeu-me que ia vir, porque o seu patrono, apesar de algumas vezes ser preguiçoso, nunca o desamparava. Passando um instante, alguns outros remadores exclamaram que Santo António era um tolo, um impertinente, e fazia mangação do que dizia. - Estais a ouvir, compadre, disse Ivo, o que os meus camaradas dizem de vós? Pois é verdade e mereceis realmente tudo isso. Como a calmaria continuasse, Ivo empregou contra o santo todos os maus epítetos que encontrou na sua língua, disse-lhe se era preciso mergulhá-lo na água para o obrigar a fazer o seu dever, não tardaria que tivesse a barriga cheia de água salgada; chamou-lhe maluco, mandrião, bêbado, ladrão, cabrão e por fim ameaçou de lhe quebrar os cornos, se não defendesse melhor os seus interesses. No entanto, os nossos homens remaram mais de duas horas sem o mais pequeno sinal de vento; por fim Ivo levantou-se furioso, puxou duma faca de ponta aguçada e, apontando-a à

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se benze com o sinal da cruz rezando o credo e na manhã seguinte, o papel que estiver desenrolado indicará o nome ambicionado.


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cara da imagem de Santo António, dirigiu-lhe estas palavras: - Ah! Filho da puta, se não fosse pelo respeito daquele filho bastardo que tens nos braços, enchia-te essa carranca de facadas (nota: estas palavras do remador vêm em português na primeira edição. A brutalidade e grossaria do conceito nelas contido não só se encontra entre o elemento popular português, mas também, e especialmente, entre o espanhol e italiano). Logo depois encontrámo-nos nas proximidades de um vale cerca da extremidade superior da cidade, e sentimos uma aragem. – Ah! Cedes enfim, velho maluco, disse Ivo ainda furioso com o compadre, quando temos os ossos dos braços quase quebrados de remar; dás um sopro de vento quando já não precisamos do teu socorro; mas lembra-te, meu amigo, digo-te perante esta nobre sociedade, que se para o futuro não fores mais maleável, riscarei o meu nome da tua confraria, não te darei mais um real, não pedirei mais esmolas, e não me importarei mais contigo, nem como qualquer santo do calendário. Alcançámos então o cais de Santarém, onde o resto da sociedade chegara antes de nós, e regressámos a casa cerca das onze horas, muito divertidos com a variedade de diversões do dia, que deviam ter custado ao marquês de Pancorvo uma boa parte das quinhentas libras esterlinas que lord Freeman lhe adiantou. Adeus. (In Cartas sobre a Sociedade e os Costumes de Portugal 1778-1779, Arthur William Costigan Volume II, Lisóptima Edições, 1989. Excerto da carta XLII, Lisboa 1779)

Legendas 01- Sermão de Santo António aos peixes Painel de Azulejos Autor desconhecido Final 1ª metade Séc. XVIII MA.AZU.7 Museu de Lisboa – Santo António 02-Santo António pregando aos peixes Barro policromado e vidrado José Franco Séc. XX (2ª metade) MA.CER.69 Museu de Lisboa – Santo António

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03-Estampa nº 4 do álbum Vita e Miracoli piu sorprendenti del gran taumaturgo S Antonio, de Ignacio Colombo 1822 Uma tempestade arrasta o barco de Santo António para Itália. MA.GRA.0205.05 Museu de Lisboa - Santo António

Esta relação, incompreensível aos olhos deste inglês, revela-nos, paradoxalmente, uma intimidade e familiaridade muito características da religiosidade popular e da devoção antoniana que chegou até aos nossos dias. O santo está ao lado do crente, acompanhando e interferindo em todos os momentos da sua vida, como qualquer outro membro da família, e por isso com os seus defeitos e virtudes, embora com o poder sobrenatural que o transforma num importante aliado. Santo António surge assim como um forte e genuíno elemento de identidade cultural, celebrado exuberantemente nas ruas durante o período das festas populares, mas sobretudo presente todos os dias do ano, quer na faina diária, quer na intimidade e recato das orações dos seus devotos.


Podia ser o destino típico, para o turista típico. Só que Viseu é outra coisa. É aqui que as raízes do Renascimento em Portugal se encontram com a street art. Que conhecemos uma feira com mais de 600 anos de tradição e uma agenda cultural que é um espetáculo. Que provamos vinhos e sabores que são cá da terra e são de outro mundo. Não é preciso irmos longe para termos uma experiência inesquecível. Vamos a Viseu? www.visitviseu.pt

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Suíça? Não. Viseu.


Um piquenique na zona de guerra por Paulo Moura

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Até à chegada do Daesh, pensava-se que o Curdistão Iraquiano seria em breve o novo Dubai. Desde que o terror chegou às portas de Erbil, a cidade transformou-se num fantasma, numa ruína do futuro. Como se vive numa cidade rica, a poucos quilómetros da guerra?


As grandes avenidas de Erbil estão inacabadas. De ambos os lados das artérias mais recentes da cidade erguem-se centenas de vivendas, prédios de muitos andares, centros comerciais inteiros em tijolo nu, com vigas de betão e estruturas de aço à vista, abandonados a meio da construção. É assim ao longo da Koya Road, na direcção do aeroporto, e por todas as circulares que começavam a transformar a capital do Curdistão Iraquiano numa grande e rica metrópole.

41 anos e olhos claros, cintilantes e sôfregos. O borbulhar da água projectando o fumo nos seus pulmões, como um trinado melodioso, dançável.

Como se de súbito o inesperado acontecesse. Alguma coisa detivesse a marcha do progresso. Algo terrível transformasse a cidade nova numa ruína do próprio futuro.

A ofensiva foi lançada em Outubro de 2016, pelas forças governamentais iraquianas, com a ajuda de unidades de combate curdas (denominadas “peshmerga”) e da coligação internacional. A cidade, a segunda mais populosa do Iraque, depois de Bagdad, tinha sido tomada pelo “Daesh” em Junho de 2014. Nessa altura, os habitantes, descontentes e revoltados com a liderança shiita do país e com a corrupção dominante, receberam sem resistência o grupo de Abu Bakr Al-Baghdadi. Este soube captar a adesão não apenas de grande parte da população, mas também, e sobretudo, das elites políticas e militares outrora ao serviço do regime de Saddam Hussein. Os quadros do Partido Baas e muitos dos oficiais superiores do exército iraquiano integraram a estrutura do auto-proclamado estado Islâmico, que viria a controlar territórios no Iraque e, depois, na Síria, aproveitando a instabilidade criada pela revolta contra o regime de Bashar al-Assad e a subsequente guerra civil.

Não há propriamente uma “vida cultural” em Erbil e são raras as ocasiões de festejo. Não há concertos nem espectáculos de teatro ou dança. O único cinema fechou anos atrás. Os jogos do “Barça” tornam-se um evento capaz de mobilizar milhares de pessoas. Um motivo para sair de casa, envergando as melhores farpelas. Os cafés das zonas ricas da cidade apetrecharam-se com grandes ecrãs de televisão, transformando-se por umas horas numa espécie de clube nocturno da alta roda. Grupos de homens ocupam a maioria das mesas, concentrados no jogo ou dividindo displicentemente a atenção entre os passes de Lionel Messi no relvado do Camp Nou e os dados do gamão no tabuleiro à sua frente. Mas noutras mesas há casais jovens exibindo roupas de marca e a chave de um SUV topo de gama ou de um sedan branco, último modelo de uma marca japonesa, e a outras chegam grupos de mulheres de saias curtas ou calças justas, maquilhagem carregada e penteados complicados. São geralmente bem nutridas e fumam cachimbos de água, o shisha, que os empregados instalam junto às suas cadeiras com gestos ritualizados e circunspectos. O shisha de Nura chega também à nossa mesa, em simultâneo com os gelados e os chás. O tabaco com aroma de maçã verde e menta cria uma nuvem fresca à sua volta. Uma nuvem de estilo em torno da mulher de

A de Junho de 2014, al-Baghdadi declarou, na grande mesquita de Al Nuri, a constituição do Califado. Foi por essa altura que a organização divulgou vários vídeos de decapitações de jornalistas e agentes humanitários, e anunciou a intenção de expandir o território pelos países vizinhos, até aos limites do que foram em tempos as possessões islâmicas no Médio Oriente, em África e na Europa. No Iraque, conquistaram grandes extensões no norte curdo, a partir de Mossul. A certa altura, a progressão parecia imparável, e Erbil seria a próxima cidade a cair. As linhas da frente chegaram a estar a menos de 20 quilómetros, os combates viam-se da estrada que circunda o centro. Nas zonas conquistadas, as autoridades do Daesh impuseram o terror. A versão mais bárbara da Shariah é aplicada pelos seus tribunais islâmicos, numa orgia de perseguições, sevícias e execuções. Para as populações que professam outras crenças, a conversão ao islão é obrigatória, no caso dos homens, sob pena de morte. Às mulheres está reservada a escravidão e o abuso. As que pertencem à etnia yazidi foram raptadas ou presas e transformadas em escravas sexuais.

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A guerra mais sangrenta do planeta combate-se a umas dezenas de quilómetros daqui. Nura pede o menu dos gelados. Hesita entre o de baunilha e manga e o sorvete de natas, chocolate e fruta. Para começar, manda vir um cachimbo de água. Bakur, o marido, pede um chá. A esplanada está quase cheia e no interior, mais perto do grande ecrã de televisão, não há mesas livres. É um café italiano, luxuoso, e as famílias aperaltaram-se para vir assistir ao grande acontecimento: o Barcelona - Juventus dos quartos de final da Liga Europa.

“Eu quero ter uma boa vida”, diz Nura, na esplanada do café italiano, no coração da Dream City. Ali, a 50 quilómetros da guerra. Talvez um pouco mais. Talvez um pouco menos. Mossul, onde se travam os últimos combates com as forças do Daesh, fica a meia-hora de carro.


Em Agosto de 2014, comunidades inteiras de yazidis foram expulsas das suas terras, à medida que as forças do Daesh iam assumindo o controlo das várias povoações. Pelo menos cinco mil yazidis foram assassinados nesse processo de “limpeza”. Nas montanhas de Sinjar, populações yazidis foram cercadas e massacradas. Sete mil mulheres detidas e transformadas em escravas sexuais. Mais de 500 mil pessoas foram expulsas ou deslocadas e vivem hoje em campos de refugiados, em casas abandonadas, nas ruas ou com famílias de acolhimento. A batalha pela libertação de Mossul começou a 16 de Outubro de 2016. Em Novembro, após semanas de cerco, as forças especiais do exército iraquiano entraram no sector leste da cidade. Encontraram uma feroz resistência e a utilização, por parte do Daesh, de civis como escudos humanos. A 24 de Janeiro, Bagdad anunciou a libertação total de Mossul Leste. O início da ofensiva a Oeste começou a 19 de Fevereiro. No final de Junho, a grande mesquita de Al Nuri foi tomada pelas forças iraquianas, depois de ter sido destruída pelos próprios combatentes do Daesh, no que foi visto como um reconhecimento simbólico da derrota. A batalha de Mossul já provocou, pelo menos, cinco mil mortos. Nura tem mãe alemã e pai egípcio, viveu em Hannover e no Cairo, mas aceitou uma oferta de trabalho em Erbil, na sua área de especialidade, o sector financeiro. Tratava-se de uma grande empresa alemã, uma das multinacionais que apostaram tudo na região do norte do Iraque no período do grande boom. Foi lá que conheceu o analista financeiro com quem viria a casar, Bakur. Quando a crise sobreveio, com a chegada do Daesh, há três anos, ter sido despedida já não era motivo suficiente para deixar o país. Não apenas porque tinha casado com um curdo iraquiano, mas também porque nenhum emprego na Alemanha, ou no Egipto, lhe permitiria um nível de vida superior ao que conquistou no Iraque, mesmo depois de se ter mudado para uma empresa mais pequena, com um salário quase dez vezes inferior.

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“Que vida poderia ter na Alemanha? Habitar um apartamento minúsculo num subúrbio, sem dinheiro para sair ou jantar num restaurante? Não me interessa essa vida. Que importa se estamos num país rico, num bom país, se não temos nada, se não somos ninguém?”, diz Nura. Puxa mais uma fumaça, depois de o empregado ter vindo substituir a brasa no topo do esguio e pitoresco cachimbo, todo em vidro, latão e madeira. A esplanada fica junto à rua,

onde estacionam vários Porches, Mustangs, Camaros de vidros fumados, Mercedes e BMW desportivos, jipes Range Rover atafulhados de acessórios, pick-ups de pneus extra-largos e vastas e desafiadoras superfícies cromadas. A seguir ao café italiano há um restaurante todo envidraçado, e depois um outro com cadeiras de vime envernizado e veludo vermelho, antes de um centro comercial reluzente de mármores, com segurança à entrada. Do outro lado da rua sucedem-se as vivendas. Colossais e pomposas, competem em jactância e opulência. Uma tem colunas de ágata, outra paredes esculpidas de arabescos, outra, muito famosa, uma porta toda em ouro. Há uma mesquita de arquitectura moderna, um conjunto de arranha-céus tubulares em metal e vidro, uma réplica da Casa Branca, de Washington, cuja construção custou 20 milhões de dólares. Tudo isto se situa no interior do chamado “compound”, um misto de condomínio fechado e fortaleza, de acesso condicionado e vida própria e autónoma. Há muitos, por toda a cidade, com nomes como Dream City, Naz City, Italian City, Royal City. É nesses “compounds” que se vive a boa vida. São mundos fechados, com um ou vários portões guardados 24 horas por dia por seguranças armados, espaços subtraídos às contingências e restrições do resto da cidade. No interior de um “compound” de luxo não há sujidade, nem pobreza, nem vendedores ambulantes ou carros velhos. Há vivendas, centros comerciais, cafés e restaurantes, esplanadas, parques de diversões, bairros residenciais de apartamentos espaventosos e gigantescos, com jardins, ginásios e piscinas no interior. Em toda a cidade de Erbil, a electricidade é um bem escasso. Funciona apenas algumas horas por dia, falha quando menos se espera, desligando iluminação, televisores, computadores e aparelhos de ar condicionado, numa região onde, no Verão, a temperatura ultrapassa frequentemente os 50 graus Celsius. Nos “compounds” a energia eléctrica nunca falha, porque possuem os seus próprios geradores e não dependem da rede pública. Esta é a condição-base de qualquer “compound”. A partir daí, há uma escala hierárquica de luxo e prestígio, em que Nura gostaria de subir. Ela e Bakur vivem agora num condomínio de categoria média, nos subúrbios. Mas frequentam outros, de classe superior, na esperança de travar os conhecimentos que levem ao emprego privilegiado ou ao negócio milionário. Em Erbil nada se consegue sem


Estas são zonas para governantes na reforma. Outras, mais próximas dos grandes centros de negócios e dos pontos de encontro social, estão disponíveis para dirigentes no activo e para a burguesia ligada aos negócios do petróleo. É o caso dos “compounds” Dream City e Royal City, ou de outro bairro onde o espaço é dividido entre bancos, sedes de empresas e apartamentos de luxo: a Dollar Mile. Bakur fala, com uma perspicácia eivada de desinteresse, das várias empresas, das suas ligações com o Governo, dos desastres económicos dos últimos anos, que conhece bem. A Nura agrada mais o lado social dessa realidade. As famílias, os antros, os sinais de estatuto. Descreve com paixão isenta de ansiedade o mundo das elites do Curdistão iraquiano. Para ela, esses meandros do glamour e do dinheiro não passam de enredos oníricos, avidamente alimentados nos fóruns da boataria cor-de-rosa da Dream City. Nura vive-os intensamente, mas como novelas, não como a sua realidade. Está contente com o que tem, parece uma mulher realizada, num país próspero e seguro. “Eu só quero ter as minhas coisas, a minha casa, o meu carro, a minha shisha”, diz Nura. “Quero ter uma boa vida”. Pouco importa que a guerra esteja a 50 quilómetros. Tudo parece simples, afinal. Um mundo simples, onde as pessoas vêem futebol e vão à guerra. Bakur tem um hobby: os pássaros. Na pequena vivenda que partilha com Nura, situada num “coumpound” vasto mas algo despovoado, tem uma enorme gaiola no jardim, e cerca de vinte, pequenas, espalhadas pela cozinha, sala de estar, casa de banho. São centenas de canários, piriquitos, rouxinóis e outras espécies coloridas e canoras, a que Bakur dedica uma grande parte do seu tempo e atenção. Nas manhãs de fim de semana o casal tem o hábito de tomar o pequeno almoço ao ar livre. Põem a mesa no jardim e, enquanto Nura prepara os mueslis com fruta, iogurte e mel, os húmus, os ovos mexidos com tomate e outros acepipes, Bakur coloca todas as gaiolas cá fora, em cima do muro a toda a volta do pátio. O pequeno almoço dura a manhã toda, entre

uma infrene chilreada, e este é, para Bakur, o melhor momento da sua semana. Nem o trabalho, como consultor financeiro num banco, nem as agruras do país lhe parecem despertar grande interesse. Os pássaros, sim. Frequenta mercados e feiras de aves, pertence a clubes, participa em concursos, mantém contactos em todo o mundo através de sites ornitológicos. Dir-se-ia que a sua vida gira em torno dos piriquitos, os canários, os rouxinóis e os agapórnis, e nada o demove dessa paixão, por mais que a guerra esteja a 50 quilómetros, os refugiados de Mossul encham campos por toda a região e os perseguidos yazidis tenham vindo ocupar os prédios abandonados a meio da construção. Erbil é uma cidade segura e pacífica, diz Bakur. É possível, aqui, fazer uma vida normal, ao contrário de certos lugares mais respeitados onde já esteve. “Sinto-me mais seguro aqui do que em Londres ou em Frankfurt”, diz ele. Em Erbil, ou em Suleymaniya, praticamente não há crime e as pessoas sabem em quem podem confiar. E há entreajuda e solidariedade, não se chegou aos limiares de desumanidade das grandes cidades ocidentais. Bakur refere uma notícia que leu num jornal, segundo a qual uma rapariga foi abusada num autocarro, em Paris, e ninguém fez nada. As pessoas nem olhavam. Entravam e saíam, e ninguém ajudou a rapariga. “Se fosse aqui”, diz Bakur, “bastava um homem meter conversa com a rapariga, contra a vontade dela, para que todos fossem logo intervir. Ninguém ficaria indiferente. Os homens que viajassem no autocarro iriam lá imediatamente e, se fosse preciso, matariam o tipo”. Ainda há uma certa observância das regras e dos valores tradicionais, explica Bakur. Mas até mesmo aqui, no norte do Iraque, se verifica já algum relaxamento dos costumes, diz ele. No ramadão, por exemplo, muitos parecem ter esquecido o verdadeiro espírito do mês do jejum muçulmano. “O objectivo da abstinência de alimentos durante todo o dia é aprendermos a humildade, e colocarmonos na posição de um pobre, que não tem o que comer, para não nos esquecermos de que não somos superiores a ele. Há no entanto pessoas que cumprem o jejum durante o dia, mas à noite empanturram-se de comida, fazem festas pela madrugada dentro. E durante o dia há lojas que, movidas pela ganância do lucro, abrem as portas e vendem comida, mesmo sabendo que isso é proibido. Acho que essas lojas deviam ser encerradas compulsivamente, e os seus proprietários presos”.

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entrar nos meios certos, nos círculos restritos próximos do poder. Em longos passeios de carro pela cidade, Nura e Bakur mostram-me, ela com fascínio, ele com uma espécie de reverência despeitada, as zonas dos oligarcas e ex-oligarcas. Avenidas inteiras de palacetes recuados, protegidos por muros. “Estas casas são atribuídas a antigos governantes, ou antigos líderes militares”, diz Bakur. “Aqui não basta ter dinheiro, é preciso pertencer-se à casta do poder”.


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Sente-se uma certa propensão para a liberdade, embora sempre no equilíbrio difícil e ambíguo de quem raramente a viu apartada da corrupção, da prepotência, do abuso. No tempo de Saddam Hussein, os curdos do Norte, não obstante serem maioritariamente sunitas, contavam-se entre as populações mais difíceis de submeter. Em 1988, no final da guerra entre o Irão e o Iraque, Saddam lançou um ataque com armas químicas contra civis na cidade curda de Halabija. Morreram mais de cinco mil pessoas e mais de 10 mil ficaram feridas ou com deficiências para toda a vida. Nesse período, a repressão dos curdos que, com o apoio do Irão, se rebelaram contra Bagdad, provocou, no total, cerca de 182 mil mortos. Bakur tinha 5 anos e vivia, com a família, numa aldeia perto da fronteira iraniana. Tem memórias difusas dessa época, mas a expressão vagamente apática, vagamente indolente com que as descreve denuncia a natureza do trauma que o atingiu: não aquele que marca, mas o que destrói a própria camada discernente da memória. “A minha família foi forçada a ir para um campo de refugiados”, diz ele com a naturalidade de quem, em toda a vida, nunca deu nada por garantido. “Mais tarde, fomos obrigados a ir viver para a cidade”. O trauma que dissolve nos indivíduos o tecido da consciência histórica. “O futuro desta região vai depender apenas dos arranjos que os países ocidentais fizeram para ela”, dirá Bakur. “O que eles decidirem, a América, a Rússia, é o que acontecerá”. Quando, em 1991, a coligação internacional encabeçada pelos EUA interveio para expulsar os iraquianos do Kuwait, que tinham invadido, os curdos pediram ajuda. Alegando que sofreriam represálias de Saddam após a guerra e durante o embargo económico internacional, solicitaram a declaração de uma zona de exclusão aérea, como protecção contra os bombardeamentos químicos de Bagdad. Na prática, o reconhecimento dessa excepção atribuiu um estatuto de quase-independência ao Curdistão iraquiano. Saddam manteve-se no poder mais uma dúzia anos, mas não nas grandes cidades petrolíferas do norte. E quando foi derrubado, na guerra de 2003, a situação não se alterou no que respeita ao Curdistão. A região, rica em petróleo, com uma população de 7 milhões e o maior rendimento per capita do Iraque, manteve

uma independência “de facto”. Em 2006, o governo de Erbil aprovou uma lei destinada a atrair o investimento estrangeiro, estabeleceu acordos com vários países, incluindo a Áustria, o Reino Unido, a Noruega e a Turquia, mandou construir um novo aeroporto internacional. Ao contrário do resto do Iraque, o Curdistão era estável e seguro, com uma reserva de petróleo da ordem dos mil milhões de toneladas. Foi o “boom”. Em 2012, o crescimento da região era de 12 por cento ao ano, com um investimento estrangeiro de mais de 37 mil milhões de dólares. Dizia-se que o Curdistão era o “próximo Dubai”, e não havia investidor, na região ou no Ocidente, que não se sentisse atraído por aquela terra de abundância e oportunidade. O Governo do Curdistão, liderado pelo Presidente Massud Barzani, e pelo seu sobrinho, o primeiro-ministro Nechervan Idris Barzani, tomou conta dos negócios do petróleo, concentrando neles toda a economia da região, e desligando-se completamente da tutela de Bagdad. A agricultura, que outrora foi a principal actividade do Curdistão, que alimentava de cereais todo o Iraque, foi completamente abandonada. Erbil começou a crescer. Construíram-se estradas de circunvalação concêntricas, que acrescentaram à cidade círculos urbanos de diferentes valor e prestígio, e gigantescas avenidas, onde se multiplicavam os edifícios de apartamentos e as vivendas. O frenesim da construção foi tão forte, e tal a rapidez com que centenas de prédios sumptuosos nasciam nas margens dos boulevards de oito faixas, que, quando, de súbito, rebentou a crise, ficou tudo em cimento e em tijolo. Em 2014, o Daesh declarou o Estado Islâmico em Mossul, e preparava-se para conquistar Erbil. Por onde chegava, impunha o regime do terror, com destruições, confisco de bens, assassínios em massa. Mas o mais assustador foi que, na maior parte dos lugares, entraram sem resistência. Tal era o desespero das populações com a corrupção dos governantes e das elites, que aplaudiram, ou, pelo menos, aceitaram sem resistência, a chegada da organização terrorista. O investimento parou, o élan quebrou-se. Vivendas que foram vendidas por dois milhões de dólares custam agora 200 mil. Quem quer comprar casa numa cidade que pode estar prestes a cair nas mãos de um governo terrorista?

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O Curdistão iraquiano é das regiões mais liberais de todo o mundo muçulmano. Uma parte da população curda, aliás, nem professa a religião muçulmana. Há muitos cristãos, yazidis e outros crentes.


Além disto, os preços do petróleo começaram a descer desde 2014. Os rendimentos do Governo Regional diminuíram, nos últimos anos, para cerca de 500 milhões dólares por mês, não obstante ter de pagar, só em salários aos cerca de 1,4 milhões de funcionários públicos, 750 mil milhões de dólares por mês. Em consequência, os salários foram reduzidos para todos, excepto para os elementos das Forças Armadas, os Peshmerga, que combatem o Daesh a 50 quilómetros daqui. Sair da cidade, em qualquer direcção, é sempre avançar para o desconhecido. Mas as estradas não estão despovoadas. Não há aldeias, mas muitos mercados, lojas e pontos de venda de fruta e legumes, carne, mercearias, guloseimas, brinquedos. Uma banca exibe pequenos camiões de plástico e bonecas, cheias de folhos e rendas. Noutra, grandes pedaços de carneiro estão expostos ao sol. Crianças correm para os carros a vender sacos de feijões e de favas. Um tipo especial de loja vende apenas peixe. Não há rios nem lagos nas redondezas, o mar mais próximo é o Cáspio, no Irão, a 800 quilómetros. O Mediterrâneo e o Mar Negro, nas costas do Líbano e Síria ou da Turquia, distam mais de mil quilómetros. Este peixe é criado em viveiros totalmente artificiais, instalados próximos dos poços de petróleo. São uns exemplares gordos, todos da mesma espécie híbrida, assemelhada ao goraz ou à dourada, e chamam-se simplesmente “peixe”. Esta estrada segue na direcção de Suleimaniya, a Sudeste. É rodeada por montes verdes e suaves, com algumas escarpas de rocha. Nas que seguem para Norte a paisagem é mais árida, mas há muitos restaurantes e estâncias de férias. Para oeste, parte a chamada Estrada de Mossul, em direcção ao horror. Em todas as estradas, há um checkpoint militar a cada 10 ou 20 quilómetros. Pedem documentos, fazem perguntas, revistam os carros que lhes parecem mais suspeitos. Inspeccionado o passaporte, os guardas sorriem com agrado por se tratar de um europeu. “Se fosse árabe, teríamos problemas”.

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Hoje é sexta-feira, dia do descanso semanal, e todos os habitantes de Erbil saem nos seus carros, percorrem algumas dezenas de quilómetros por qualquer estrada, para fazer um piquenique. Não há praia nem estâncias de montanha nas imediações da cidade, o piquenique é o passatempo oficial. Partem nos seus carros, nos seus SUV e Jipes de grande cilindrada, com toda a família, e escolhem algum lugar não muito longe da estrada, para evitarem afastar-se dos veículos.

Olhando em volta, a partir da estrada, é um mar de toalhas colocadas no chão, caixas e cestos de comida, guarda-sóis e esteiras, homens a manejar os fogareiros, mulheres a servir os pratos, crianças a correr. São famílias inteiras, ou grandes grupos, muitas vezes abancados à beira da faixa de rodagem a comer o pó da caravana de viaturas que não cessa de circular, sempre na máxima velocidade possível, com um calor de brasa. Ao fim da tarde, dezenas de milhares de carros regressam à cidade, e é o caos. Formamse filas de dezenas de quilómetros, em todas as estradas, ocupando as faixas dos dois sentidos, com a polícia a tentar em vão introduzir alguma ordem na balbúrdia. Todos buzinam, gritam, insultam, ninguém obedece às ordens. Uns tentam ultrapassar pelas bermas, outros ensaiam a formação de uma terceira fila. Quem circula em sentido contrário não consegue passar, porque a estrada está toda ocupada. Bloqueados no meio do caudal, são mais uns tantos obstáculos a complicar a equação. O engarrafamento mantém-se, colossal e imóvel, até, pelo menos, às duas da manhã. É uma imagem infernal, toda aquela serpente de veículos, a estrebuchar em faróis e buzinas, imobilizados na noite. Parece um cenário de catástrofe. Dir-se-ia que são populações em fuga da guerra, dos bombardeamentos, dos derradeiros e desesperados ataques terroristas do Estado Islâmico. Mas não é nada disso. Trata-se do engarrafamento do piquenique das sextas-feiras. Nas mais de quatro horas que ficámos dentro daquele carro, nem a Bakur nem a Nura por alguma vez ocorreu o (para mim) óbvio paradoxo. Nunca se falou da guerra “É sempre assim”, dizia Bakur. “Se as pessoas obedecessem à polícia, chegariam mais cedo a casa. Mas preferem fazer as coisas à sua maneira”.


Podia ser o destino típico, para o turista típico. Só que Viseu é outra coisa. É aqui que as raízes do Renascimento em Portugal se encontram com a street art. Que conhecemos uma feira com mais de 600 anos de tradição e uma agenda cultural que é um espetáculo. Que provamos vinhos e sabores que são cá da terra e são de outro mundo. Não é preciso irmos longe para termos uma experiência inesquecível. Vamos a Viseu? www.visitviseu.pt

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Broadway? Não. Viseu.


O nosso tempo é a guerra deles por Paulo Ferreira

Podia citar vários provérbios sobre o tempo. Do avisado “dar tempo ao tempo” até ao paciente “quem espera sempre alcança”, por regra eles recordam-nos a importância dessa quarta dimensão que permanece rígida ao longo dos tempos: um minuto tem os mesmos 60 segundos e o dia tem rigorosas 24 horas. Mas a nossa relação com o tempo está a mudar de forma mais rápida nas últimas décadas. A culpa, diz-se, é da tecnologia. Será mais da forma como utilizamos a tecnologia que está à nossa disposição do que da sua simples existência. Nós é que temos a tendência de atenuar as nossas fraquezas e cedências culposas indo à procura de boas ou más razões externas que as justifiquem. O problema, acha muita gente, nunca está nos pais que permitem que as criancinhas passem a refeição agarradas a pequenos ecrãs mas sim nos muitos Steve Jobs que tornaram possíveis esses aparelhos.

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A questão que hoje nos atormenta a vários níveis, mesmo quando não conseguimos ter dela uma noção clara, é que o tempo se tornou demasiado curto para tantos estímulos, tantas solicitações, tantas formas de o ocupar. Mas o dia mantém as suas 24 imperturbáveis horas e destas continuamos a ter que despender umas seis a oito para dormir. O que fazer com as outras que nos restam? É aqui que a batalha se desenrola. No mundo empresarial há uma medida de avaliação de negócios, sobretudo em sectores ligados ao consumo, designada “share of wallet” e que significa a “fatia” da carteira dos consumidores que um grupo, uma empresa ou uma marca conseguem chamar para si. A grande guerra que muitos sectores de actividade têm, antes de mais, é aumentar a pro-

porção de dinheiro que conseguem ir buscar à carteira de cada um. Por exemplo, há 30 anos não havia telemóveis, nem acessos pagos à internet, nem televisão por cabo. As famílias, simplesmente, não gastavam dinheiro nesses serviços ou produtos porque eles não existiam ou não estavam disponíveis no mercado. Com o seu aparecimento e desenvolvimento, tornaram-se bens essenciais, e as empresas que os fornecem foram ganhando e aumentando o seu “share of wallet” a partir do zero. A sua primeira batalha foi criar a necessidade junto das pessoas, o que conseguiram. Depois foram aumentado o valor dos seus serviços para que, a cada mês que passa, os consumidores estejam dispostos a gastar com os seus produtos e serviços uma percentagem cada vez maior do dinheiro que têm disponível. Paralelamente, houve uma série de outras empresas e sectores que, naturalmente, perderam “quota de mercado da carteira” para permitir a entrada deste novo concorrente pelo dinheiro das pessoas. Se, por exemplo, as famílias portuguesas gastam hoje, em média, 10% do seu rendimento disponível em comunicações, internet e televisão paga, então essa percentagem teve que ser cortada noutras áreas. Reduziu-se a factura do supermercado? Comprou-se menos roupa e calçado? Viajou-se menos? Ou foi a poupança a sacrificada e então isso reduziu o “share of wallet” dos bancos e sector financeiro? Ora, o que se está a passar é que ao “share of wallet” juntou-se recentemente o “share of time” e a batalha por ele. Depois da briga pelos nossos euros, muitas empresas estão agora a lutar pelos nossos minutos ou segundos. E estes, é preciso ter noção disso, são em muitos casos menos elásticos e menos flexíveis do que o nosso dinheiro. Hoje são inesgotáveis os textos ou vídeos disponíveis em plataformas electrónicas, sejam elas as redes sociais tradicionais, sites oficiais das marcas de comunicação social ou quaisquer outras. Estão lá todos os temas, formatos, durações, abordagem, ritmos e propostas plásticas. Tudo o que quisermos.


Só para termos uma ideia, a cada minuto que passa são colocadas no Youtube novas 72 horas de vídeo e são partilhados no Facebook 2,5 milhões de posts. Temos no televisor uma multiplicidade de canais - é relativamente vulgar ter acesso a mais de uma centena - que, pelo mesmo preço que pagávamos há uns anos, hoje nos permitem recuar sete dias para ver o que não vimos quando foi transmitido originalmente. Só esta funcionalidade tecnológica aumenta exponencialmente as possibilidades de ocupação do nosso tempo. Ainda sem sair de casa, há todas as novas propostas de sistemas paralelos aos tradicionais canais por cabo, como a Netflix, Apple TV e serviços semelhantes lançados pela Amazon ou Google. O próprio Facebook está a entrar fortemente na criação de conteúdos próprios. E quando se fala em “conteúdos” não se fala de outra coisa que não seja a “percentagem do seu tempo que queremos que passe connosco”. Até porque, e é preciso ter noção disso, quando qualquer coisa nos é oferecida - Facebook, Youtube, Google, canais de televisão de sinal aberto, por exemplo - é porque o produto somos nós. O que estas empresas vendem para ganhar dinheiro não é mais do que o nosso tempo e atenção sob a forma de audiência para publicidade. Não por acaso, um dos modelos de negócio que está a ser testado por algumas empresas de media é a troca do nosso tempo de visualização de anúncios por conteúdos que, de outra forma, são pagos. A esta lista podíamos junta as propostas culturais fora de casa, de festivais de música, salas de cinema, pequenos espaços de espectáculos que se vão multiplicando, reclamando a nossa presença e os nossos minutos, quando não também alguns euros.

Mas também é assim que hoje é raro termos os chamados “tempos mortos” - viagem de elevador, espera de transporte público, fila de supermercado, sala de espera da consulta médica, almoçar ou jantar sozinho, pára-arranca do trânsito. Estamos a matar esses “tempos mortos”, ocupando-os a ler ou ver qualquer coisa online. Dando-lhe vida? Cada um julgará por si se mergulhar no mural do Facebook é melhor do que o deixar correr o pensamento típico dos “tempos mortos”. Já não suportamos esperar sete dias pelo episódio seguinte da série que estamos a acompanhar. Agora, são cada vez mais disponibilizados em “pacote”, todos os episódios ao mesmo tempo. E as crianças, então, cada vez menos concebem que a viagem de duas horas de carro para ir de férias ou de fim-de-semana se faça a olhar pela janela, a conversar ou fazer jogos verbais com os pais, a dormir ou a brigar com o irmão sem um bom entretenimento electrónico no banco de trás. Nesta era de impaciência, em que a nossa capacidade de espera está a reduzir-se e o tempo nos chega cada vez para menos, é claro que a proposta dos jornais e revistas em papel, “à antiga”, é cada vez menos atractiva e perde leitores a cada dia que passa. Nada pior do que o jornal que até comprámos de manhã, bem intencionados, mas que acabamos por não abrir por falta de tempo para o ler. O tempo não estica. Se isso está a fazer de nós mais felizes e melhores pessoas é outra história. Talvez daqui por umas décadas possamos ter uma resposta inequívoca e sustentada a essas perguntas. Mas já que chegou até aqui, espero que tenha dado o seu tempo por bem empregue.

É este frenesim e disponibilidade de propostas que nos está a tornar impacientes, sempre ligados e com a tentação de fazer várias coisas ao mesmo tempo.

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É assim que os cinco segundos - sim, cinco segundos - de um anúncio antes de um vídeo que queremos ver no Youtube se podem tornar insuportáveis, os utilizadores começam a desistir de ver um video online se este não arranca em dois segundos ou a taxa de desistência de um filme após oito segundos chega aos 50%.


Turismo Equestre Um desafio a “desbravar” – 2ª Parte por Lopo de Castilho

Terminámos a 1ª parte deste artigo, a falar do nascimento do moderno Turismo Equestre, pelas mãos (melhor seria dizer, pelas rédeas…) do cavaleiro gaulês Henri Roque. Depois da sua façanha publicitária, Roque anunciou publicamente de imediato uma segunda: uma ida a cavalo até Santiago de Compostela! Com esta segunda proeza publicitária, para além de conseguir reunir em torno de si um primeiro núcleo de seguidores (clientes para a sua actividade de turismo equestre), conseguiu, involuntariamente, fazer renascer as modernas rotas dos caminhos gauleses para Santiago; rotas essas que se traduzem actualmente num gigantesco afluxo turístico mundial para a capital espiritual da Galiza. [1] Esta, bem como outras tantas façanhas equestres realizadas em França, por diversos Cavaleiros e Amazonas, no período do pós II Grande Guerra Mundial, deram um contributo muito importante para o desenvolvimento da Equitação de lazer, na nação fundada por Clóvis, rei dos Francos. [2] E entre nós?

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Se por um lado é certo que a nível mundial somos facilmente associados ao universo equestre – basta pensar na reputação mundial granjeada pelo Cavalo Lusitano -, por outro, embora em Portugal exista um punhado de praticantes assíduos dos diversos tipos de Equitação, a verdade é que todas as actividades equestres têm ainda um potencial imenso de desenvolvimento. Como é evidente, toda a economia nacional tem bastante a ganhar com o desenvolvimento de todas estas actividades turístico-económicas, não só de uma forma directa, mas também indirecta, nomeadamente pelo facto destas terem um grande potencial de contribuir de forma efectiva, para combater a desertificação do nosso interior; e consequentemente contribuir para a manutenção dos nossos espaços rurais e florestais. [3] Sendo o nosso território continental relativa-

mente pequeno, a verdade é que, para quem o queira descobrir a passo, a trote e a galope (os três principais andamentos de um cavalo), não falta uma imensidão de magníficas paisagens e locais para descobrir! Para mais, os Turistas internacionais que buscam este tipo de aventura, são também, regra geral, gente admiradora da autenticidade, cultura, da boa gastronomia, bem como valorizadores da arte de bem receber, que tanto nos distinguem. Mas será esta uma actividade apenas para estrangeiros que nos queiram visitar? Antes de mais, quer o amigo leitor seja um apaixonado por cavalos e equitação, ou apenas alguém que aprecia a beleza deste animal, fique desde já a saber que esta forma de lazer permite descobrir, literalmente, o mundo, doutro prisma e a outra velocidade; em sela o Homem torna-se Centauro, e ganha outro angulo de visão; Se partirmos do princípio que, em média, um cavalo de sela terá de altura de dorso entre 1,50 a 1,60m, imagine-se confortavelmente sentado lá em cima; agora imagine uma paisagem deslumbrante de montes e vales… Quem já experimentou sabe do que falo e de como só esta sensação é em si mesma fantástica! Só que isto é apenas o início… Seja a passo, a trote ou a galope, as emoções que um cavaleiro experimenta são únicas e inolvidáveis. Mas, se montar a cavalo apenas em picadeiro (designação dada à “arena” onde se treinam cavalos e cavaleiros) pode parecer monótono para alguns dos leitores, então imagine as belíssimas paisagens do nosso país, descobertas desta forma? Asseguro-lhe que vai descobrir locais de uma beleza que nunca imaginou! Ainda hoje recordo muitos e fantásticos passeios a cavalo dados na zona da Ericeira [4], nos tempos da adolescência, que me permitiram descobrir locais de uma beleza insuspeita. Mais recentemente, esta mesma actividade tem-me permitido descobrir recantos quase “selvagens” do Côa, que seriam impossíveis


Henri Roque (em primeiro plano, ao centro), num Stand de promoção das suas actividades de Turismo Equestre, sob égide da ANTE (Association Nationale de Tourisme Equestre – entidade francesa que tutelou o turismo equestre neste país, entre 1963 e 1987); fotografia gentilmente cedida por Denise Péricard-Méa, autora do livro “L’homme à cheval sur les chemins de Compostelle,1963”.

Menciono estas experiências, por me terem marcado especialmente, mas basta conhecer um pouco de Portugal de lés-a-lés para antever quantas maravilhas temos para descobrir a Cavalo! Cientes disto, desde a década de noventa que algumas pessoas e entidades, se tem dedicado em Portugal a esta actividade, embora inicialmente de uma forma quase que “confidencial”. Todavia, na presente década, este sector turístico parece querer finalmente ganhar dimensão; em boa Hora! Quanto a mim, espero nos próximos números

da BICA, poder continuar a dar o meu contributo para a difusão do Turismo Equestres, divulgando também alguns casos concretos. Mas para já desafio o leitor ou leitora, para aproveitar as férias e procurar um centro equestre na sua zona de veraneio; vá e comece por adquirir umas noções básicas de equitação (ou para “desenferrujar”, no caso de já ter montado), pois garanto-lhe que esse primeiro passo, lhe pode abrir as portas de um mundo mais autêntico e genuíno. Brevemente iremos descobri-lo a Cavalo! [1] Segundo os números oficias, em 2016, a Catedral de Santiago de Compostela recebeu 277 854 peregrinos; destes, 342 efectuaram o percurso a cavalo. E, estes herdeiros de Henri Roque nalguns anos marcam a sua presença de forma intensa como foi por exemplo o ano de 2004 (1 672 peregrinos a cavalo), ou em 2014, com 1 520 cavaleiros

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de explorar de outra forma, por exemplo em 4x4… Para mais, nesta zona do Douro é possível cruzar belíssimas vinhas, visitar antiquíssimos monumentos e desfrutar de uma gastronomia suculenta na companhia de vinhos extraordinários.


a alcançarem Compostela. Fonte: https://oficinadelperegrino.com/estadisticas/ [2] A França, já em 2013 contava com mais de 700 000, cavaleiros federados, estimando-se que para além deles, existiriam cerca de 2,2 milhões de praticantes regulares de equitação (a montar pelo menos uma vez por semana). (www.haras-nationaux.fr) e em termos Europeus, estimava-se em 2010 que a actividade equestre seria responsável por gerar mais de 100 biliões de Euros ano, dando emprego a tempo completo a mais de 400 000 pessoas, num universo de mais de 6 milhões de cavalos. (www.ceermp.org) [3] Os trágicos incêndios deste início de 2017, vêm confirmar uma vez mais, o abandono a que o nosso mundo rural anda votado… Repovoando, e tornando económica, social, ambientalmente e turisticamente viável este mesmo interior, estaremos também a contribuir para acabar, ao fim de décadas e décadas, com o flagelo dos Fogos que devastam anualmente muita da riqueza nacional. [4] Passeios frequentemente dados na companhia do saudoso Capitão Marques, Homem com quem aprendi a montar, e que estou certo, marcou muitos Cavaleiros que com ele descobriram a paixão pela Equitação.

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Portugal, uma nação repleta de uma riquíssima tradição equestre que urge divulgar – Gravura extraída da obra “Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavallaria offerecida ao Senhor D. João Príncipe do Brasil”, tratado de cavalaria da autoria de Manuel Carlos de Andrade (1755-1817), Picador da Picaria Real, publicado em Lisboa, em 1790. Esta obra é considerada o mais completo tratado de Equitação mundial, publicada até ao século XVIII.


por António Ferrari

Num início de verão escaldante, Portugal não podia ter experienciado maior tragédia: 64 mortos, mais de 200 feridos e muitas centenas de pessoas perderam tudo o que tinham, algumas perderam todos os seus entes queridos. O grande incêndio de Pedrógão chocou o país de norte a sul, mas os portugueses, mesmo os fisicamente mais afastados desta região devastada, acompanharam de perto, através dos meios de comunicação social e das redes sociais, uma situação tão dramática como desoladora. A cobertura jornalística desta catástrofe foi escrutinada até à exaustão tendo havido muitas críticas à forma como alguns órgãos de comunicação social trataram o tema, muitas vezes com argumentação apaixonada, própria de quem experiencia um momento tão negro de forma tão intensa e próxima através da sua televisão ou do jornal. Neste sentido, é fácil perceber a exaltação verificada na praça pública sobre o tratamento jornalístico dado a um episódio muito especial que resultou, segundo as entidades competentes, de uma situação atmosférica especialmente adversa. No rescaldo daquela que é já considerada uma das maiores tragédias das últimas décadas em Portugal importa perceber o que correu mal e apurar responsabilidades pela falta de coordenação entre os vários organismos que garantem a segurança dos cidadãos. Só assim se poderá garantir que seja evitada nova tragédia no nosso país. Parece-me, no entanto, também fundamental, refletir sobre como deve a classe jornalística informar nestes momentos mais complicados. É razoável um jornalista de televisão mostrar cadáveres ainda que cobertos? Deve um jornal publicar na primeira página uma fotografia dos corpos? Deve ser entrevistado um sobrevivente da tragédia que perdeu toda a sua família? Para uma análise mais racional, importa lembrar que muito frequentemente somos inundados com notícias de inúmeras catástrofes naturais, incursões bélicas, golpes políticos, gravíssimas crises humanitárias, entre muitos outros episódios, que nos chocam e que nos fazem consumir conteúdos, imagens e textos informativos, muitas vezes, considerados chocantes. A cobertura desses acontecimentos, que afetam a vida de milhões de pessoas não merecem, por norma, a crítica severa e apaixonada por terem lugar a

muitos quilómetros de distância. Contudo, quando se trata de uma situação mais próxima, de modo inflamado, ataca-se o trabalho dos jornalistas. Acredito que o jornalismo deve, acima de tudo, mostrar a realidade e que os jornalistas têm a obrigação de serem factuais. Contudo, se por um lado, o jornalismo estéril não informa, por outro, é necessário que as redações definam orientações editoriais para o tratamento noticioso que, por sua vez, definirá o seu estilo, sempre dentro das fronteiras do Código Ético e Deontológico da profissão. Independentemente da localização do acontecimento considerado relevante. Cabe ao consumidor de informação, ciente dessas especificidades, escolher o órgão de comunicação com o qual mais se identifica para acompanhar a atualidade informativa. Na minha perspetiva, e independentemente do estilo editorial, parece-me excessivo o ataque feito a vários jornalistas que não fizeram mais do que relatar a realidade e dar a conhecer as consequências deste incêndio. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social está a averiguar. Aguardamos as conclusões. Uma outra consequência deste grande incêndio demonstra o papel fundamental dos meios de comunicação social enquanto aglutinadores de solidariedade e generosidade da população, nestas alturas tão difíceis, e espelha o papel fundamental que desempenham enquanto plataforma para a mobilização da sociedade civil portuguesa. A realização de um evento (quase inédito) que juntou em emissão (quase) simultânea as três estações de televisão e as principais emissoras de rádio revela o espírito de entreajuda que tanto caracteriza o povo português, sempre que confrontado com um momento trágico. A transmissão do evento gerou mais de um milhão de euros de donativos que irá ajudar as populações afetadas e que tentam agora, dentro do possível, reconstruir as suas vidas. Também aqui as redes sociais foram essenciais para a angariação destas verbas que mitigarão a destruição avassaladora vivida naquele sábado abrasador. A proximidade de uma tragédia aguça a nossa preocupação e torna-nos mais sensíveis, mas poderemos ignorar determinados fenómenos só porque não acontecem no nosso país? O projeto europeu tem como objetivo dilatar o horizonte das nossas preocupações enquanto fator de estabilidade e paz. Devemos pensar como europeus e cidadãos do mundo e não só como portugueses. Ainda que beneficiemos da ampliação da notícia pelos new media, parece que não temos a capacidade de nos preocuparmos mais, mais longe. Serão as elites políticas europeias capazes de nos curar desta miopia?

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A miopia da comunicação


Viseu Património ou a descoberta de uma matriz identitária da cidade.

por Vanessa Pires de Almeida João Moreira

Fotografia@Raimundo Mendes da Silva

“Em Portugal é preciso deixar que à memória colectiva mais recente caia a tinta, apodreça o tecto, enferrujem as dobradiças e os carris, corroa a erva daninha, se partam com o vento as vidraças. Portugal não quer recordar nem quer ver aquilo que foi ontem, ainda ontem, há bocadinho. Quando aceita fazê-lo, esconde a vergonha e o remorso debaixo de estatísticas (que mentem e triunfam porque simplificam tudo).” Paulo Varela Gomes, in Destroços, Público 1 de Abril de 2010

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“A varanda era o lugar onde a casa mais vivia, onde a casa era mais mundo. Nesse universo de contraste entre raças, línguas e culturas, a varanda era onde a casa e a rua conversavam, onde os vizinhos se tornavam família e os outros se tornavam menos estranhos. A varanda era assim uma espécie de facebook sem internet. Com a vantagem de os rostos e as vozes serem reais. Nesse tempo, as pessoas ainda tinham corpo. E a casa tinha raiz na terra onde sujávamos as mãos e limpávamos a alma. No fundo, a varanda era já uma rua dentro da nossa casa.” Mia Couto in Quando me fiz escritor?, Granta Portugal nº4


A defesa dessa integridade cultural passa, obrigatoriamente, pela recuperação e preservação do seu património arquitectónico. Reabilitar, de forma coerente e responsável os nossos centros históricos é essencial para garantir a manutenção da identidade histórica às gerações vindouras e para devolver à paisagem o seu diferencial mais importante e enriquecedor. Num país que “constitui, de há muito, um exemplo tristemente esclarecedor dessa sanha descontrolada de anti-património”, para usar a expressão de Vítor Serrão, conversar com Raimundo Mendes da Silva é uma lufada de esperança. Professor do Mestrado de Especialização em Reabilitação de Edifícios e dos Mestrados Integrados em Engenharia Civil e Arquitectura, nas áreas da Tecnologia das Construções, Reabilitação Não Estrutural, Sustentabilidade da Construção e Políticas de Promoção e Salvaguarda do Património Edificado é o actual responsável pelo ambicioso projecto Viseu Património que pretende definir os caminhos para uma reabilitação coerente e integrada do centro urbano antigo da cidade. Foi nesse âmbito que com ele conversámos num dos edifícios recentemente recuperados na zona antiga, sede da Incubadora de Empresas do Centro Histórico de Viseu. Professor Raimundo, quais são os caminhos que se vislumbram para a reabilitação patrimonial e em particular a reabilitação dos centros históricos enquadrada no âmbito de um crescimento mais sustentável das cidades? Raimundo Mendes da Silva: Eu sou, como todos nós, um recém-chegado à reabilitação de edifícios, ainda mais recém-chegado à reabilitação de edifícios antigos, ainda mais recém-chegado à reabilitação do património cultural edificado e um ainda-não-chegado à reabilitação urbana, portanto, acho que este percurso é um percurso que importa às vezes afinar do ponto de vista da verbalização. Uma coisa é reabilitar edifícios correntes, o

que muitas vezes é necessário, outra coisa é reabilitar edifícios antigos e ainda outra é reabilitar edifícios antigos com carácter de património cultural, com uma marca cultural significativa e se quisermos, no limite, com carácter quase monumental e ainda outra coisa é a reabilitação urbana no seu sentido mais global. Eu estou a dizer que sou um recém-chegado, não por uma questão de modéstia, mas porque todos nós somos uns recém-chegados a estas áreas. Eu costumo dizer, agora um bocadinho em tom de graça, que Portugal está na adolescência da reabilitação, o que não deixa de ser a mais absoluta verdade. Tudo o que tem a ver com a componente física das cidades, que tem a ver com a vida das pessoas, que tem a ver com os hábitos é geracional e, portanto, eu consigo mudar coisas na minha geração, mas o que eu consigo mudar na minha geração são pequenos sinais e pequenos exemplos que se vão consolidando e que vão dar frutos na geração seguinte. Em termos de cidades e em termos dos hábitos de vida das pessoas, as coisas demoram muito tempo a mudar e este percurso, por exemplo, que nos permite distinguir o que é reabilitação de edifícios do que é reabilitação urbana, é um percurso que não é fácil e que Portugal ainda está a amadurecer. Este percurso pode ser feito em dois sentidos: partindo da reabilitação dos edifícios e daí ir percebendo a cidade e perceber como é que se reabilita no sentido de a tornar a habilitar. E aqui convém perguntar: Habilitar a quê? A dar qualidade de vida. A preocupação é a da qualidade de vida. O outro sentido é feito ao contrário, partindo da escala da cidade e da compreensão da cidade, para depois virmos perceber como vamos intervir nos edifícios. Existe uma tendência de considerar estas duas vias, a via do edifício para o urbano e do urbano para o edifício, contraditórias, mas elas são complementares. No meu caso particular, estou a fazer a migração no sentido do geral, isto é, do edifício para o geral e por isso é tão importante, agora falando no caso de Viseu, ter equipas multidisciplinares, ter diferentes visões, como a da arquitectura que tem muito mais, e ainda bem, a visão que vem do geral para o particular. Deixe-me dizer-lhe que neste momento o grande desafio é perceber o que é qualidade de vida. O que é entendível como qualidade de vida para quem vive nas cidades e, em particular, nos centros históricos, nos centros urbanos antigos, que são as zonas mais sensíveis das cidades. Para isso é preciso, em primeiro lugar, perceber quem vive, ou se vive, daí que haja aqui uma componente sócio-demográfica, sócio-cultural e sócio-económica que é preciso, mais tarde

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Foi sobre casas e cidades que conversámos com Raimundo Mendes da Silva, um dos maiores especialistas nacionais em reabilitação e a cara da equipa que catapultou a Universidade de Coimbra a Património Mundial. Sobre casas e cidades que, mais do que memórias , devem ser a imagem viva e vívida das origens ancestrais de uma tradição cultural própria que merecem ser preservadas. Sobre casas que foram lares, com história e com estórias para contar e que globalmente constituem a matriz identitária de cada cidade e, no limite, de cada país.


ou mais cedo, diria mais cedo, aliar a estas análises mais técnicas. Depois é necessário tentar imaginar o que é que pode ser qualidade de vida para quem vem a seguir. A ideia de que nós estamos a reabilitar os centros das cidades, os centros históricos para um turismo que vai ocupar de uma maneira às vezes muito agressiva estas zonas, eu diria que é um disparate tão grande como dizer que estamos a reabilitar os centros urbanos antigos para quem lá vive agora. Quem lá vive agora tem que ter boas condições de vida: tem que ter salubridade, tem que ter conforto dentro da sua medida de conforto. Mas, quem lá vive agora, e isto é a lei da vida, não vai viver daqui a 30, daqui a 40 anos e, portanto, há que levar em consideração este equilíbrio que é um equilíbrio muito difícil de atingir, porque implica perceber que eu não estou a reabilitar nem para favorecer uma “gentrificação”, para usar um palavrão complicado que no fundo significa transformar “de forma violenta” essas zonas em zonas novas e para outro tipo de pessoas, excluindo as que cá vivem ... Embora seja isso que está a acontecer em alguns casos... Sim mas, embora isso aconteça em alguns casos, também já podemos falar de experiências positivas que, não pondo de lado o turismo, que é muito importante, podem ajudar a que ele não seja dramático para as cidades e contribua para a melhoria das suas condições. Ninguém quer eternizar as condições de vida dos anos 30, 40 ou 50, sobretudo em edifícios mais degradados.

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Mas, durante muitas décadas, o poder autárquico absteve-se de intervir nos centros históricos, que foram literalmente votados ao abandono. É verdade. É verdade. Neste momento, se me perguntar o que é que nas cidades precisa de reabilitação, eu terei de responder tudo. Portanto, o paradigma da construção nova deixou de ter a expressão que tinha e não voltará a ter. Claro que continua a haver concentração urbana e concentração litoral, isso é inevitável, mas o fenómeno da nova urbanização vai diminuir. Já diminuiu muito por causa da crise, mas agora vai diminuir de uma maneira mais sustentada. Nós não podemos estar a demolir metade do planeta terra e a torná-lo a construir todos os dias. Em relação às cidades o processo é semelhante. A maior parte das cidades está construída, vai evoluindo normalmente e precisa ser reabilitada, e não falo só dos centros históricos (gosto mais de lhes chamar núcleos urbanos antigos consolidados, mas vamos chamar centros históricos para facilitar). Porque é que damos uma atenção tão especial

aos núcleos urbanos antigos? Fundamentalmente por duas razões: a primeira é porque eles estiveram abandonados durante 30 ou 40 anos por diversos motivos, um deles correspondeu à fase de expansão das cidades, durante a qual a atenção estava direccionada para outros lados, e a segunda é porque, de facto, as condições de vida nos centros urbanos antigos não eram boas; há muitos anos que deixaram de o ser, embora convenha não esquecer que, provavelmente, era aí que existiam as melhores condições de vida há umas centenas de anos, mas essa evolução não se fez, houve um abandono destes centros e houve claramente uma falta de reflexão sobre o que fazer a estas zonas da cidade, o que criou um enorme desequilíbrio. O outro motivo é um motivo de consciência. Uma consciência que começa nos anos 70 e que tem vindo a ganhar força, de que há elementos identitários do ponto de vista do património construído e do património cultural edificado que contribuem para a nossa qualidade de vida num sentido global. Não apenas no básico: ter água, luz, electricidade, mas ter sentido de comunidade, ter sentido de memória, ter sentido de pertença. Começa a ser claríssimo que as cidades também vivem desse sentido de centro ou de centros e desse sentido de memória. E quais são as zonas onde grande parte dessa memória se pode estar a perder? São os centros urbanos mais antigos, na medida em que estão ainda muito abandonados. Portanto, esse é um segundo motivo para olharmos com mais atenção para os centros urbanos antigos. Agora, o paradigma da reabilitação é um paradigma que deve alargar-se à cidade na sua globalidade. Raimundo Mendes da Silva está habituado a falar para plateias cheias de gente, na sua grande maioria os alunos de engenharia que ajudou a formar ao longo dos mais de 30 anos de docência na FCTUC, por isso, talvez seja tão fácil cativar-nos. Mas é a segurança dos seus argumentos e a voz pausada e serena com que os apresenta que nos prendem a atenção. Vamos conversar um pouco, se me permite, sobre o trabalho de mais 10 anos que o Senhor Professor não só acompanhou, como liderou e que permitiu a inscrição da Universidade de Coimbra e da Alta/Sofia como Património Mundial. Gostava de ouvir a sua opinião sobre esse feito extraordinário que tinha tudo para motivar uma transformação da cidade que, em minha opinião, não aconteceu. É assim tão importante a inscrição de uma cidade como Património Mundial da UNESCO? Foi assim tão importante para Coimbra e se foi, porque é que, de certa forma, se perdeu esse élan que podia ter contribuído para fazer de Coimbra uma cidade


A situação de Coimbra e a situação de Viseu não são minimamente comparáveis. Não vale a pena falar de uma e falar da outra em contraponto, mas eventualmente vale a pena, do ponto de vista de uma preocupação com o património, falar de cada uma em separado. Em Coimbra, de uma maneira muito breve, não fui eu que decidi que se ia fazer uma candidatura a Património Mundial. Eu tive a sorte, a imensa sorte, de poder estar numa equipa central que depois coordenou grande parte do projecto. Mas, a ideia e a decisão, naturalmente com imensas influências, couberam ao Reitor da Universidade de Coimbra à data, o Professor Seabra Santos. Essa decisão, e não me querendo substituir às razões, e foram diversas, que motivaram o Professor Seabra Santos a promover a candidatura a Património Mundial da UNESCO, existe uma de que não se costuma falar e que eu acho que tem que estar presente em qualquer processo de candidatura ou qualquer processo de valorização patrimonial, e aí já é aplicado a Viseu, que é uma questão de responsabilidade cultural perante a comunidade, perante o país e perante o mundo. Quem detém, ou para ser filosófico, quem, nesta escala cósmica do tempo, for o guardador e o utilizador em determinado momento de um determinado bem que tem um valor que transcende claramente a sua época, tem uma responsabilidade cultural que não lhe é fácil cumprir. Qual é essa responsabilidade cultural? É de usar o melhor possível, mas fazer com que essa memória e também a sua marca na história dessa memória passe para quem vem a seguir, ou seja, que a sua passagem como guardador e usufrutuário deste bem não seja inócua. A marca do nosso tempo fica cá, mas que não seja uma marca que apaga o que é aquela memória que nos fez ter noção das nossas raízes. Este é um desafio complicado. Quando eu digo que fazer uma candidatura da Universidade de Coimbra a Património Mundial foi importante em muitos aspectos e muito importante segundo este aspecto da responsabilidade cultural, da qual se fala pouco, é porque, de facto, quem neste momento, um tempo de grandes mudanças, é o guardador, o curador deste bem, tem uma responsabilidade notável para poder transmitir o bem para quem vem a seguir. O Património Mundial nesta escala cósmica do tempo é uma coisinha pequenina e muito recente, apareceu nos anos 70, portanto se me per-

guntar se em 2050 é muito importante para uma cidade ser Património Mundial, provavelmente não. Haverá outras expressões para isso mas, neste momento, nesta fase, uma das maneiras de afirmar ao mundo que eu sou responsável por este bem e quero que ele, além de ter a marca do meu tempo, seja transmitido com a sua identidade e com a sua memória a vindouros, a UNESCO é um dos meios. Portanto, se a candidatura à UNESCO de Coimbra serviu para isso, já não serviu mal. Se me pergunta se devia ter servido para mais, eu diria que sim, mas essa é outra questão. A pergunta deve ser feita ao contrário. Se eu não tivesse feito a candidatura a Património Mundial o que é que teria acontecido? A isso nós não podemos responder, mas o custo de não o ter feito era um custo muito sério. Eu diria que se não tivéssemos feito a candidatura haveria, para quem faz a gestão, muito maior dificuldade em decidir o que fazer, decidir o que manter, em saber como fazer a adequação dos edifícios às novas funções. Por exemplo, a medicina todos os dias tem um desenvolvimento, há laboratórios de medicina nuclear, há laboratórios químicos, de electrónica. Como é que isto se concilia com a preservação destes bens? Nós, agora, falando em bom português, estamos a cantar de galo (risos), porque embora podendo não as aproveitar, temos as ferramentas para avaliar e decidir. O que teve de maior bem a candidatura de Coimbra a Património Mundial? A reflexão que se fez durante dez anos e os instrumentos que se criaram durante esses dez anos. É curioso, porque cinco anos passados sobre o início da candidatura o discurso tinha mudado e apesar de podermos dizer que o discurso não é a obra, é sem dúvida a maneira que temos de intelectualizar, de verbalizar o que intelectualizamos e ajuda a criar uma dinâmica; e se ao fim de 5 anos o discurso tinha mudado, alguma prática ao fim de 6 ou sete já tinha mudado e ao, fim de dez, muito mais. Há todo um novo conceito, há toda uma nova atitude, uma nova orientação que, não sendo vinculativa, não obriga ninguém a fazer nada, apenas obriga a fazer uma coisa: a refletir. Esse passou a ser o grande desafio, porque quando a Universidade de Coimbra é obrigada a fazer um plano de gestão a 30 anos, obriga ao exercício sério mas utópico de pensarmos além da fronteira do nosso tempo. Depois existe outro factor muito importante e que Viseu está a viver neste momento, independentemente da candidatura a Património Mundial, que é o facto de este ser um período de intensa reflexão e intenso trabalho. Nós não podemos dar-nos ao luxo de estar permanentemente a fazer intensa reflexão. Há períodos de maior e menor tensão e

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um bocadinho mais equilibrada. E, já agora, de que forma o projecto Viseu Património que surgiu com o mesmo desígnio pode aproveitar o exemplo de Coimbra?


aquele período em Coimbra foi um período de grande reflexão, de grande produção. Mesmo que agora estejamos 10 anos num período de menor intensidade e reflexão (risos) isso não é dramático. Saltando para Viseu, o grupo de reflexão que funcionou durante cerca de um ano e pouco concluiu que qualquer processo de valorização patrimonial tinha de passar por uma fase inicial de identificação dos valores. Que é a fase em que se encontra o projecto. Exactamente. Esta fase levanta uma questão legítima: então Viseu não conhece os valores que tem? Por melhor que conheçamos os valores que temos é sempre bom termos um conhecimento mais sistematizado e saber transmiti-los a terceiros e saber conversá-los com a comunidade. Do ponto de vista do património edificado e do património não edificado, quer material, quer imaterial, aquilo que é evidente em Viseu, como em qualquer cidade com uma história longa, e Viseu pode bem reclamar esse estatuto, em cada momento da história é preciso ir revendo os valores e repensando como é que esses valores são assumidos pela comunidade. No caso do centro histórico, claramente Viseu tem a percepção de que está a mudar (basta ver o número de transacções de edifícios nessa zona), mas não tem a reflexão suficiente para perceber exactamente o que é que pode mudar, o que é que deve preservar e onde é a fronteira, se é que há fronteira.

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Por exemplo, porque é que eu digo que tem de se usar telha canudo e não telha marselha? É porque me apetece? Porque é que as janelas têm de ser de madeira? É porque está no regulamento? Mas os regulamentos foram feitos para servir o homem e não o homem os regulamentos, portanto, há essa necessidade de conhecer melhor e de fazer participar a comunidade nesse conhecimento. O Viseu Património, nesta primeira fase, uma fase de identificação de valores, aquilo que está a fazer fundamentalmente é a tentar conhecer melhor a cidade, com a consciência de que não vale a pena teorizar demais, pensando que o mundo pára enquanto nós teorizamos, porque o mundo está todos os dias a evoluir. Por isso, se esta teorização, se este reconhecimento de valores, se esta investigação não for tendo pequenos contributos para a melhoria da atitude sobre a cidade e para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, pode ser interessante, mas fica aquém do seu objectivo. Este é o desafio. O desafio de um compromisso claro, tendo como horizonte longínquo, eventualmente, uma candidatura a Património

Mundial, de que a identificação dos valores da história que têm importância actualmente e podem ter importância para as gerações futuras, também passa pelo que está construído, pela memória do que está construído e pelos valores imateriais que a eles estão associados. Logo, se eu não os conhecer, se eu não os assumir, não os consigo transmitir. Daí eu considerar que Viseu fez uma aposta interessante e nós estamos a agarrá-la com intensidade, que é esta aposta de começar por esta fase de reconhecimento de valor. Neste processo de identificação de valor que começou acerca de um ano, o que é que mais o surpreendeu? O projecto Viseu Património é um projecto muito ambicioso e isso é bom. Muito ambicioso e com uma escala e com uma abrangência temática que eu diria impossível de alguma vez concluir (risos). O projecto Viseu Património nasceu de um grupo de reflexão que por momentos pensou tudo o que seria bom fazer. O tal plano a 30 anos de que há pouco falava em relação a Coimbra. Por esse motivo, a primeira ideia de fazer um ano ou dois anos de reconhecimento de valores, atirou em todas as direcções na expectativa de que tudo pudesse ser feito durante esse período. O que acontece, e bem, é que nós acabámos por nos centrar mais, numa fase inicial, nos valores urbanos, da cidade corrente não monumental, não do imaterial, não do património integrado, não da história da cidade e da relação com a Cava de Viriato, mas nos valores urbanos do edificado corrente. Isto porquê? Por um lado, porque é aquele que é menos conhecido como património, porque é aquele que está a sofrer mais transformações, logo em que o tempo urge, porque podemos estar no bom caminho ou estar a ir em menos bom caminho em alguns casos e porque é aquele que tem mais a ver com o dia a dia das pessoas. As nossas experiências anteriores, nomeadamente da Baixa e da Alta de Coimbra e a nossa experiência nos núcleos urbanos antigos do concelho do Seixal foi-nos dando certezas muito claras em relação a esta prioridade. Dito isto e para responder à sua pergunta sobre o que mais me impressionou durante esta fase de recolha de valores em Viseu, é preciso explicar que o nosso trabalho acabou por se centrar nesta fatia, que parece uma fatia pequena, dos quinhentos edifícios à volta da Sé Catedral e na sua estrutura. Aquilo que eu acho mais impressionante é, por um lado, a percepção de que este núcleo mais abandonado ou menos abandonado, tem uma identidade própria e que há edifícios que são repetitivos, que são típicos, que vão fazendo uma certa matriz


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e depois há edifícios singulares, como em todo o lado, mas que permitem, e essa é a grande afirmação, fazer, de olhos fechados, uma descrição de uma rua, uma descrição de um edifício e uma descrição de um ambiente e perceber-se, por elas, que estamos a falar de Viseu e não de Coimbra ou não da Guarda ou não de Lisboa. Esta noção, que era uma dúvida de partida, de que há aqui alguma coisa que é claramente identitário, embora não seja feito a carimbo, permitenos construir um discurso que tem a ver com Viseu e não com outro centro histórico.

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Como se, mesmo inconscientemente, se tenha mantido ao longo de séculos uma matriz identitária da cidade. Exactamente. Existe uma matriz identitária. Agora estamos a fazer vários testes para perceber como é que ela se verbaliza. Os arquitectos mais pelo desenho, os engenheiros muito pelos números, pelas tabelas, pelas fotografias e pelas contas, as teses de investigação aplicada, mais pela caracterização de alguns elementos construtivos e outras abordagens mais ao nível da estrutura da malha do centro urbano antigo e da sua articulação. Isso é um exercício muito interessante, porque é habitual dizer-se que uma imagem vale mais do que mil palavras e eu acrescento sempre, quando falo de reabilitação com os alunos, que uma imagem vale mais que mil palavras desde que as palavras lá estejam. Aqui, eu diria ao contrário, a imagem de Viseu é extraordinária, mas o importante é que consigamos olhar para Viseu e descrevê-lo sem estar a ver a imagem. Um bom exemplo são os tabiques. A noção de que as cidades da Beira são cidades de granito, são cidades pesadas de pedra, é interessante e é verdade, Viseu é assim, mas Viseu é assim na sua camada exterior, porque os edifícios de Viseu no seu interior são fundamentalmente de madeira e de cal e são de madeira e de cal em sistemas construtivos que não são os da gaiola pombalina, não são os sistemas construtivos dos tabiques do Porto; é um imbrincado de madeiras de uma enorme qualidade, com alguma ingenuidade em alguns casos, mas de uma capacidade de adaptação a esta estrutura, a esta dimensão que é claramente singular. Criou-se aqui, vamos dizer assim, uma cultura própria construtiva que, não sendo absolutamente inovadora, não sendo completamente diferente, nem podia ser, é de facto, claramente identitária. Diria até mais, que é um motivo de orgulho, porque quando uma comunidade consegue evoluir melhorando a sua maneira de fazer, seguramente por motivos absolutamente básico - poupar, usar os materiais disponíveis com a tecnologia que conhecia, adequar ao clima, adequar ao conforto, ter maior durabi-

lidade - e ao longo de dois ou três séculos consegue este refinamento na aplicação de uma determinada solução construtiva ou de um determinado conjunto de soluções construtivas, ou de uma determinada gramática que depois tem as suas excepções, isso é uma coisa extraordinária e que não pode ser desvalorizada num entusiasmo com os novos materiais de construção que surgem no hipermercado. Volto a dar-lhe um exemplo para que se perceba melhor: se agora for reabilitar uma cobertura antiga com telha canudo, é natural que introduza uma membrana levezinha para evitar que chova lá dentro, desde que não altere a estrutura do edifício, mas essa é a pequena marca do meu tempo sem apagar a memória anterior. O mais interessante neste processo do Viseu Património durante estes ano de descoberta de valores foi perceber que há aqui elementos identitários pouco conhecidos e que, em alguns casos, essa gramática tem uma qualidade muito particular. Por outro lado é igualmente interessante perceber que noutros casos essa gramática não é cumprida, isto é, que há casos singulares, como é o do Orfeão, cuja cobertura é uma solução de enorme ingenuidade à luz dos nossos conhecimentos de hoje, mas à medida que se vai percebendo a cobertura e se pensa numa alternativa, percebe-se que aquela ingenuidade é de uma clarividência, de uma adaptação ao local que, apesar de ir contra os cânones, teríamos dificuldade em encontrar uma solução tão eficaz como aquela hoje em dia. Porém, podemos perguntar se tudo isto será suficiente para ter um valor universal excepcional? Não sei. Diria que até ao momento ainda não encontrámos nada que possa ter esse valor. Mas isso significa que ele não existe? Não significa. Até porque a UNESCO há muito que não liga exactamente ao tijolo, liga aos conjuntos, à história dos conjuntos. Portanto, essa é uma discussão que não vale a pena ter agora. A discussão que vale a pena ter agora é a de perceber como é que este centro pode voltar a ser, e em minha opinião já está a ser, mais atractivo, preservando a memória e introduzindo elementos novos para a melhoria da qualidade de vida. A descoberta dessa matriz identitária comum já valeu o empenho e o esforço deste ano de trabalho, mas gostava de perceber, de que forma é que este centro histórico pode evoluir de maneira coerente, sensata e equilibrada, não só em termos de edificado, mas também sócio-economicamente tornando-se atractivo para as pessoas que ainda cá vivem, ou seja, de que forma é possível reabilitar esta zona, garantindo esse respeito para com o passado e a manutenção dessa


A forma como está desenhado o Viseu Património é a demonstração dessa preocupação. Claro que esta fase do projecto que nós estamos a coordenar tem uma capacidade de impacto relativamente reduzida, embora não tão irrelevante como isso, junto das comunidades e da sua qualidade de vida. Isso irá depender das políticas municipais. Mas, este trabalho pode ter um efeito quase imediato para a comunidade. Por exemplo, nós estamos a fazer um levantamento exaustivo das coberturas do centro histórico com recurso a um drone, que nos permite realizar uma análise dos telhados. Este levantamento pode servir para várias coisas: para publicarmos uns artigos científicos em revistas internacionais, o que com certeza faremos; para perceber e demonstrar a evolução da cidade ao longo dos anos do ponto de vista das coberturas, logo, para avaliar o que estamos a fazer bem e o que estamos a fazer menos bem, algo que só esta visão global permite e isso pode influenciar directamente os regulamentos do centro histórico; e finalmente pode servir para prestar um serviço à comunidade, porque a maioria das pessoas não tem capacidade para proceder a uma avaliação detalhada sob o ponto de vista técnico das condições do seu telhado e este processo permitirá, a breve trecho, que qualquer cidadão que tenha uma casa no centro histórico possa obter junto de um serviço público uma fotografia do seu telhado com a respectiva ficha técnica, isto para não falar das situações críticas que serão sinalizadas neste rastreio. Portanto, estes processos, se forem pensados com essa preocupação subjacente de terem utilidade para a comunidade, são fundamentais. Mesmo sob o ponto de vista dos valores são muito importantes e mais uma vez vou dar um exemplo. Eu espero que daqui a meia dúzia de meses, toda a gente que passe pelo centro histórico conheça os fingidos. Os fingidos são um pormenor adorável que copiámos de Itália e que são rebocos de cal que imitam pedra das maneiras mais engraçadas: às vezes com uns riscos verticais e horizontais feitos a lápis ou marcados com ferro, outras vezes com granulados, há chaminés a imitar azulejos, etc. Ora a maior parte dos fingidos não é conhecida porque os nossos olhos não estavam atentos a esses pormenores. Dentro em breve, assim espero, vamos passar a conhecê-los e a reconhecer-lhes valor e isso implicará um retorno para a comunidade imediato, porque a questão da autoestima e do reconhecimento do valor também tem a ver com a maneira como nos sentimos bem no edifício onde habitamos.

Portanto, essa preocupação com a comunidade passa por todas estas questões e também por estruturar algumas cadeias de valor, por exemplo, a madeira. Em Viseu, não tenho a menor dúvida que as estruturas de madeira são um dos filões para uma cadeia de valor que pode ter mais importância. Desde logo por ser mais barato e mais seguro que na maior parte das intervenções sejam preservadas e reforçadas as estruturas de madeira existentes em vez de fazer as substituir por outras alternativas. Depois, porque mesmo quando a opção não for essa, as peças de madeira que existem em alguns destes edifícios são de tal valor e de tal dimensão que não faz nenhum sentido, se se optar pela demolição, que não seja feita em vez da demolição a desmontagem e que não seja criado um banco de madeiras que permita ter madeiras para reutilizar. Isto sim é sustentabilidade! E, se a seguir, eu tiver um conjunto de projectistas e arquitectos que saibam valorizar a preservação, sem risco, desses pavimentos e se a jusante houver empresas e operários que saibam trabalhar a madeira, nós podemos ter aqui o tal fio condutor que tem repercussão na economia, porque nesse contexto, Viseu pode passar a exportar serviços. Se o centro histórico de Viseu puder ser o estaleiro de aprendizagem e de teste para as empresas que, em pouco tempo, possam exportar serviços para o país ou para a região, por exemplo, no domínio das estruturas de madeira, está ganha uma das batalhas do centro histórico. Outro mecanismo que eu considero importantíssimo é o da existência de serviços âncora no centro histórico. O facto de se reabilitar o Orfeão de Viseu para uma Universidade Sénior, o facto das Águas de Viseu virem concentrar-se aqui na Rua Luís Ferreira, o facto de se ir instalar uma Unidade de Saúde Familiar na Casa das Bocas, o facto de se instalar a Escola Profissional Mariana Seixas na Rua Direita, são respostas que nos permitem chamar o turismo à vontade, porque o centro histórico já tem vida e essa vida não será daqui afastada pelos turistas. O Senhor Professor tem sentido o envolvimento da comunidade neste processo? A comunidade com a qual contactamos e que não é muita, porque se restringe um pouco aos edifícios que visitamos, tem manifestado uma receptividade muito boa, mas o contacto com a comunidade precisa de mecanismos formais, embora eu pense que no geral a comunidade é receptiva a este processo. Aliás, está pensada criação, ou o reforço, porque já existem, de serviços de acompanhamento directo de proprietários, de projectistas e de populações mais desfavorecidas...

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matriz identitária, mas assegurando ao mesmo tempo condições dignas de vida para as pessoas que aqui habitam?


Embora com pouco conhecimento dos técnicos em relação a estas problemáticas inerentes à reabilitação. Essa poderá vir a ser uma das revoluções provocadas pelo Viseu Património, passarmos a ter técnicos com formação específica com um novo entendimento sobre a cidade e em particular sobre o centro histórico Claro que sim e isso são mecanismos que irão funcionar muito rapidamente. Mas, o Senhor Professor acha que existe uma boa aceitação por parte da comunidade. Insisto na pergunta, porque uma das limitações que pode existir neste processo prende-se com o facto da maioria destes edifícios estar na posse de privados. Os privados não são um entrave, nunca são um entrave. Folgo em ouvir isso. Os grandes problemas dos centros históricos na relação com os privados são essencialmente dois: a partilha da propriedade, ou seja, o facto de existirem muitos edifícios que têm muitos herdeiros, o que dificulta a interlocução e outra, que é mais cultural, e que se resume à compatibilização entre a forma como o proprietário quer valorizar o seu edifício por ele estar no centro histórico, com o que está disposto a contribuir para o ambiente que valoriza o seu edifício. No fundo, eu quero ser valorizado pelo que me envolve, mas percebo que, para que isso aconteça, cada um daqueles que eu considero que estão a valorizar a cena envolvente que me valoriza está à espera que eu faça o mesmo. Essa é a principal dificuldade no relacionamento com os privados que precisam, naturalmente, de apoio para perceber que o seu contributo para um projecto colectivo não é uma desvalorização do seu projecto pessoal, é um contributo para essa valorização geral. Aí temos um trabalho muito grande a fazer.

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Parece-me fundamental o empenho das entidades competentes de forma a criarem as estruturas de apoio que permitam que isto resulte de forma efectiva. São imprescindíveis e, sobretudo, é fundamental dotar essas estruturas de apoio de ferramentas para poderem trabalhar. Aí, de uma maneira muito discreta, entram todas as teses de Mestrado que se estão a realizar. Porque, quando eu faço uma tese de mestrado sobre pavimentos de madeira, sobre distribuição de cargas em pavimentos de madeira, isto pode parecer uma coisa irrelevante, mas é absolutamente essencial para os projectistas terem confiança no que vão

fazer. O facto de eu saber que houve um ensaio de carga num pavimento que é da mesma época e que o ensaio de carga confirmou que esse pavimento tinha uma resistência muito acima do expectável, dáme confiança para dizer que vale a pena fazer uma pequena inspecção, não vá eu estar a desprezar uma coisa que afinal me resolve uma série de problemas. A investigação, aí, não tem carácter estatístico mas tem uma influência muito grande do ponto de vista da confiança. Deixe-me que lhe diga de uma maneira muito clara: fizemos este ano tudo aquilo que queríamos fazer? Não. Estamos longíssimo daquilo que queríamos fazer. Fizemos muito mais do que aquilo que imaginávamos? Fizemos (risos). Muitas coisas correram a um ritmo surpreendente. Por exemplo, nunca nos passou pela cabeça que com o Freeze conseguiríamos juntar duzentas pessoas e recolher dez mil dados sobre quinhentos edifícios que agora estamos a tratar e que, agora sim, devem ser devolvidos à comunidade. Porque quem deve fazer as perguntas certas sobre aquela imagem da cidade é a comunidade e cabe aos técnicos e aos investigadores ajudar a responder. Isso é um exercício interessante e fundamental. Perceber porque é que há aquelas janelas de madeira. Porque é que as janelas de madeira se situam mais aqui ou acolá. Porque é que eu tenho 30% de edifícios que têm janelas de vários tipos e feitios. Quem tem de fazer essas perguntas é a comunidade. E será a resposta a essas perguntas que desenhará o caminho a seguir. Mas, claramente, o Freeze correu acima das nossas expectativas. Não imaginávamos uma resposta tão positiva, não imaginávamos que os resultados fossem tantos, não imaginávamos que alguma vez conseguíssemos fazer esse levantamento. Isso foi um incentivo? Claramente! Por exemplo, Angra do Heroísmo vai fazer uma experiência inspirada neste modelo e, com certeza vai fazer melhor, porque agora já sabe como fizemos e vai introduzir as suas nuances. Nós também já estamos a pensar em mais coisas (risos)... Não podemos parar!


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Vida Desvairada Texto e fotografias por Marta Gonzaga

e as loucas não sentem nada, não é desgraça ser louca. (Não é Desgraça Ser Pobre. Compositor: Norberto Araújo)

Naquele minúsculo provador trocávamos vestidos de princesa, enquanto pedíamos acessórios e mais vestidos para experimentar. Cada vez que se entreabria a porta quem passava olhava imediatamente, talvez pelas gargalhadas que de lá saíam. Julgo que as funcionárias não estavam mesmo a acreditar que queríamos comprá-los. Qualquer coisa acontece quando dá a meia noite e estamos as duas a conversar. Quase sempre acabamos por decidir viagens não programadas, para alturas que pode até nem dar jeito nenhum. Desta vez marcámos o primeiro voo da manhã a sair de Lisboa para Casablanca. Eu de avião e ela de carro a sair de Marraquexe. Mas continuámos mais tempo ao telefone e acabámos por marcar mais uma viagem: Casablanca - Paris. Esta última foi penosa e difícil de marcar porque é um sonho antigo, ou mais corretamente, o sonho da minha filha, a quem levo a todo o lado, até ao bilhar grande, mas nunca a Paris.

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Chegada a Casablanca já a Sofia tinha tratado do hotel, dos vouchers e as marcações em restaurantes. A minha prima é uma profissional da Disney. Eu, nunca lá tinha estado. Como íamos viajar no dia seguinte passámos a noite num Ibis relativamente perto do aeroporto. Na única cidade em Marrocos que não me atrai nada. Um jantar no Porto de pesca, muitas horas perdidas na autoestrada e está feito.

A penúltima geração com a Feira Popular Mais uma corrida, mais uma viagem fim-de-semana é para ganhar coragem (A Vida É Feita de Pequenos Nadas, Sérgio Godinho) Cresci com a Feira Popular e em pequena sonhava com o dia em que poderia visitá-la sem limites do que poderia gastar. Nesse sonho poderia andar nos carrinhos de choque até à exaustão, voltaria muitas vezes à casa assombrada, comeria todo o algodão doce que me apetecesse e passaria por outras diversões, mas só porque podia dar-me ao luxo de gastar esse dinheiro. E um dia, esse dia chegou! A minha mãe era jornalista e foi fazer uma reportagem sobre a feira popular. Iríamos passar a noite a brincar sem limites em tudo


das suas «voltinhas». - O resto da noite foi passada junto a uma sala de apoio com os microfones repetidamente a chamar: - Menino André Gonzaga, venha ter ao ponto de encontro. Os seus pais estão à sua procura. Mas o menino André não ouviu os apelos das colunas com o som distorcido, e levou muito tempo a voltar. Acredito que tenhamos andado em qualquer coisa mais, talvez tenhamos tido um bom jantar, talvez tenhamos ganho algumas rifas, mas não me recordo. Dessa noite retenho a abundância tão desejada que não me trouxe nada de bom. Continuei a adorar a Feira Popular onde voltei muitas vezes, nomeadamente no último dia de aulas, onde festejávamos o fim das aulas e o início das longuíssimas e maravilhosas férias de verão. Sim, porque a minha geração também foi das últimas que teve férias intermináveis que começavam em meados de Junho e se estendiam até início de Outubro.

Tal como nas festas de fim de ano pensadas ao pormenor tudo correu mal, um fiasco completo! Programas cheios de expectativas que são uma grande desilusão.... quem não passou por isso?! Assim que lá chegámos, dirigi-me aos meus favoritos: os carrinhos de choque. Comprámos tantas fichas que não me cabiam nas mãos. Para as segurar enrolei-as atabalhoadamente na parte da frente da saia. À segunda ou terceira volta um homem atingiu-me com força tal que a minha cara bateu violentamente na barra da frente. Sangue por todo o lado e as fichas, que a saia não conseguiu manter, espalhadas pelo chão. Enquanto abandonava o recinto, lavada em lágrimas com sangue a escorrer, cheia de dores no nariz e no orgulho olhei para trás e vi vários rapazes a lutarem entre si pela minha pequena fortuna. Horas de euforia literalmente deitadas ao lixo. Pouco depois, novo contratempo. O meu irmão André tinha a mania de “dar voltinhas” – era a maneira que ele tinha de tentar desdramatizar os seus desaparecimentos, a que se seguia a aflição de toda a família. E desta vez não fugiu à regra e foi dar mais uma

Duas adultas na Disney Por um momento de sonho Pra fazer a fantasia De rei ou de pirata ou jardineira Pra tudo se acabar na quarta-feira (A Felicidade, Vinicius de Moraes) Chegámos ao aeroporto de Orly quando liguei à minha filha para lhe dizer que não estamos em Marrocos mas sim em Paris, à espera do autocarro do Mickey. Após a chamada feita, os remorsos diluíram-se e começámos a ficar entusiasmadas. Entretanto, perdemos o primeiro Magical Shuttle e pouco tempo tivemos para nos preparar para o jantar com o Mickey and friends no Bufallo Bill que segundo a minha prima “toda a gente conhece”. Toda a gente menos eu. Chapéus de palha, cervejas, mesas corridas e animadores. Sou pouco recetiva a entrar em brincadeiras com palminhas e braços no ar, mas ali é impossível não entrar no jogo: eles são bons e nós estamos lá para isso.

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o que quiséssemos. Foi um momento de euforia na nossa casa, a que se seguiu uma pausa dramática para discutir se eu merecia ir por causa de uns trabalhos de casa que não terei feito. Algumas lágrimas e desespero mais tarde, saímos todos para a grande noite.


estava um grupo de jovens na casa dos vinte anos muito bem equipados. Tinham orelhas de peluche e t´shirts como as nossas, mas tinham também colunas, dançavam e animavam o resto das pessoas na fila. Para variar, um pouco de música comercial para adultos soube mesmo bem. A trinta minutos da nossa vez reparei no looping e comecei a hesitar: - Tens a certeza, Sofia?? Disseste-me que não havia looping! - estavam portugueses à nossa frente e desta vez fomos nós a contagiar a vizinhança, mas com pânico. Um dos senhores, em vez de nos acalmar, começou a falar em tom de entendido das forças G´s e de como estas podem provocar desmaios.

A seguir fomos às compras. As tais do provador que conto no primeiro parágrafo. Depois de muita conversa, o meu vestido de Bela ficou para trás. De maneira que, muito desiludidas, não pudemos ir vestidas de princesas no segundo dia. E ainda bem!! Só o soubemos no dia seguinte, mas dentro do recinto da Disney os adultos não podem andar fantasiados das suas personagens. Pior do que andar vestidas de Bela e de Anna, seria termos sido recambiadas de volta ao hotel para trocar de roupa.... Segundo dia: temos de aproveitar ao máximo, mas o máximo é muito pouco porque uma grande parte do tempo, ou quase todo o tempo, é passado em filas. Engolimos o pequeno almoço e corremos. Ainda bem que não trouxemos crianças que nos iriam atrasar imenso. Uma pessoa tem que correr muito. A Disney não é para incompetentes. Valeu a pena e fomos das primeiras pessoas na fila do “Its a small world after all” que confesso, achei delicioso. A seguir, por indicação da Sofia, fomos ao voo do Peter Pan. Breve paragem para almoço e voltamos à correria. Um pouco como as idas para as urgências dos hospitais em que corremos muito e quando lá chegamos… esperamos. Esperámos imenso.

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No segundo dia o Indiana Jones estava fechado. Apesar de inúmeras tentativas manteve-se encerrado para reparação de “problema técnico”. No terceiro dia estava de novo em funcionamento e lá fomos para quase três horas de espera. Uns 45 minutos atrás de nós,

Quando finalmente entrámos no carrinho, após uma negociação de segundos, saímos apressadamente, antes que este começasse a andar. Não ficámos assim tão desiludidas porque de todo o processo só perdemos mesmo os três minutos que leva o carrinho no percurso dos loopings e descidas e subidas desenfreadas. De resto tivemos tudo: a espera, a ansiedade e até a galhofa de sermos tão loosers. No final do dia, voltámos à loja para levantar o vestido de Bela. Pelo menos para jantar teríamos de estar a rigor, com trajes de princesas. É então que, na fila para jantar no Planet Hollywood, avisto ao longe um amigo e tento esconder-me, tarefa impossível para quem tem uma saia tão rodada que nenhuma coluna consegue tapar. Tirando essa pequena humilhação, a que se seguiu ter de lhe explicar que a filha não veio e que andamos assim porque nos apeteceu, o nosso vestuário principesco constitui uma experiência que recomendo! A Sofia, que sabe os gestos de todas as princesas, até autógrafos deu. Eu armei-me em princesa má e fugi dos autógrafos e das fotografias com as crianças. Acho que senti que as estava a enganar. Ela manteve a compostura e deixou algumas mais felizes. - Alto! Vocês têm 18 anos?? – perguntou o porteiro do bar onde fomos a seguir ao jantar. Respondi: - Eu não, mas a minha filha tem. – O senhor ficou tão atrapalhado que se desfez em desculpas e nem conseguiu rir da situação. A próxima viagem a um parque de diversões está marcada e é para a Warner Bros. Desta vez com as filhas incluídas. É uma promessa. Mas tragam lá de volta a Lisboa a nossa imbatível Feira Popular.


Podia ser o destino típico, para o turista típico. Só que Viseu é outra coisa. É aqui que as raízes do Renascimento em Portugal se encontram com a street art. Que conhecemos uma feira com mais de 600 anos de tradição e uma agenda cultural que é um espetáculo. Que provamos vinhos e sabores que são cá da terra e são de outro mundo. Não é preciso irmos longe para termos uma experiência inesquecível. Vamos a Viseu? www.visitviseu.pt

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Florença? Não. Viseu.


Alface fora d’água Bogotando Pouco conhecia da Colômbia quando rumei a Bogotá por um par de meses. Não tinha visto o “Narcos” e faltou tempo para preparar a viagem como gostaria, mas ao mesmo tempo estava contente por ir assim, sem demasiadas expectativas ou ideias feitas. Cada viagem é uma experiência única e por vezes a surpresa é a melhor forma de a tornar inesquecível. Bogotá é a capital de um país sofrido, com uma história recente que ainda pesa, e muito, algo bem expresso no recente referendo sobre o processo de paz com as FARC, dividindo opiniões em como conseguir a paz que, no fundo, todos desejam. Uma paz que acabe com os dias violentos de um país devastado pelos cartéis de droga e pela guerrilha, um país que se levanta economicamente, mas a que falta esta paz, bem como uma maior igualdade social, essencial para abordar o futuro com a confiança necessária.

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A cidade desenvolve-se quase toda em quadrícula, limitada por uma longa montanha que se estende de Norte para Sul, com bairros bem definidos quanto ao seu ambiente social. Os bairros europeizados a Norte, onde a classe alta e a globalização imperam e em que poderíamos estar em Madrid ou outra capital. Os bairros intermédios, relativamente seguros, onde pulsa alguma modernidade de braço dado com identidade própria, mas onde um par de quarteirões basta, por vezes, para passar de uma tranquila zona residencial para um lugar onde sentimos não querer estar e onde somos claramente personagens fora de cenário. O centro histórico, coração da beleza antiga da cidade, pequeno e bonito, cheio de gente nas ruas durante o dia, mas onde, quando cai a noite, não devemos deambular com o à vontade da luz do sol, para, como dizem os locais, “no dar papaya”, isto é, dar azoa assaltos. Bogotá surpreende pelo seu clima e arquitectura e, sim, lembra Londres. Por muito estranho que possa parecer, senti-me amiúde em Londres e não só pelo clima nublado onde a qualquer momento pode chover. A arquitectura de muitos bairros, Chapinero em particular, poderia ser de Hackney, Vauxhall, ou outro bairro de Londres. O tijolo omnipresente e os traços, as linhas, as casas de um piso ou os prédios baixos, como se a cidade fora, e foi

por João Albuquerque Carreiras

em parte, planeada por um atelier de arquitectura londrino. Não o esperava encontrar na América do Sul, numa capital de altitude, num país que não transpira influências europeias, muito menos britânicas. Aqui não consigo passar por local, o meu espanhol bem castelhano confirma o que os meus traços anunciavam: sem dúvida europeu. E não é só pelo sotaque, que o espanhol aqui é diferente, há uma polidez nos termos que soa quase arcaica, de antanho, o tratamento por “vuestra merced”, o “com mucho gusto”, os agradecimentos, uma educação de língua que sabe muito bem ouvir depois de ao início se estranhar. Esta forma de falar é indissociável da simpatia natural do povo colombiano, como se fosse uma extensão do temperamento e por ela fôssemos acolhidos e abraçados. Lembro-me de quando ainda escuto um bem-haja e do bom que é ouvir fórmulas antigas, mostrando a riqueza das línguas e do quanto esta as torna grandes e belas. Se me perguntassem o que mais gostei da Colômbia diria que foi das pessoas e da sua simpatia acolhedora, bem espelhada na sua forma de falar. Dois meses pode ser pouco para uma cidade tomar conta de nós, mas é suficiente para encontrarmos a “nossa” cidade, no caso a minha Bogotá. Tive sorte na escolha do bairro de Chapinero Alto para morar, a meio caminho entre o centro histórico e a cosmopolita zona T. Estava já na colina, numa zona residencial muito pontuada por cafés e restaurantes, com uma onda jovem, boémia e multicultural. No “meu” café de bairro, o Mistral, onde esplanava e comprava pão, ouvi de todas as línguas e foi pelo francês que conheci a Carolina, curadora de arte que logo se transformou em habitual companhia de café. A dois quarteirões, no Jardim Portugal, com um ginásio de exterior super concorrido, foram deliciosos os jantares no Minimal, onde os produtos locais são trabalhados com sofisticação e enorme qualidade. Já fora do bairro, o cafezinho orgânico perto da universidade, onde fui provando distintos cafés em várias formas de preparação. (E como um caféolatra não se poderia sentir bem nesta


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terra de café delicioso e onde o mesmo, hoje é preparado com diversidade de métodos e qualidade que ultrapassa o simples expresso e se apresenta com diversas denominações de origem, quais regiões demarcadas de vinho. E o fundamental que é o café nos primeiros dias nesta cidade em altitude em que o cansaço e o sono nos podem invadir.) A feira de Usaquén, perfeito passeio domingueiro para comprar design e artesanato moderno num ambiente bem divertido. Ainda no fim de semana, os passeios pela Carrera 7 na zona do centro, acabados nas incríveis colecções do Banco da República ou no Museo do Ouro. E a rumba, claro, e não falo do ritmo, rumbear é sair de festa e dançar, muito, sem preconceitos e vergonhas. O espanto de ao Sábado entrar no Theatron, uma gigantesca discoteca com capacidade para 5.000 pessoas, onde a noite parece não ter fim e parar de dançar não é uma opção, mesmo sentindo que os donos do ritmo são os locais. Esta foi muito a minha Bogotá, esta e a minha “família” de lá, de um amigo de infância que por lá mora e me acolheu de braços abertos, ajudando a que me sentisse em casa nesta terra distante. Como se diria em Bogotá, “ha sido super chévere”.

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Voltar é parte do bom de partir. Por isso é bom estar de novo nesta Lisboa cada dia mais bonita, mas, claro, já pensando num próximo destino, porque se voltar é parte do bom de partir, partir é parte do bom de se estar.


Bordéus? Não. Viseu.

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Podia ser o destino típico, para o turista típico. Só que Viseu é outra coisa. É aqui que as raízes do Renascimento em Portugal se encontram com a street art. Que conhecemos uma feira com mais de 600 anos de tradição e uma agenda cultural que é um espetáculo. Que provamos vinhos e sabores que são cá da terra e são de outro mundo. Não é preciso irmos longe para termos uma experiência inesquecível. Vamos a Viseu? www.visitviseu.pt


por Fernando Madaíl

TOPONÍMIA Horácio vinha distraído a ouvir um velho êxito de Sade Adu (ou seria uma música cantada por Annette Peacock?…). De súbito, hesitava de novo naquela esquina. Lia e relia as placas da avenida da esquerda e da viela da direita. Já ali estivera parado quase meia hora, enquanto a chuva lhe molhava o cigarro. À esquerda, sucediam-se galerias de arte onde expunham Matt Mullican, Filipa César ou Cindy Sherman; mercearias gourmet com especiarias do Levante, doces conventuais, bizarros chás, cervejas artesanais; um bar de Gin onde as águas tónicas eram Fever Tree, 1724 ou Peter Spanton; antiquários com contadores indo-portugueses, frascos de vidro da Boémia e retratos em miniatura sobre esmalte bem arrumados nas montras. À direita, vislumbravam-se um latoeiro com três tachos e um funil pendurados na porta carunchosa; uma antiga loja de reparação de rádios e televisões agora reconvertida na especialidade de desbloquear telemóveis; uma adega famosa pela ginja e pelos fregueses cuspirem o caroço para o passeio; placas de barbeiro e de calista contemporâneos da Maria Cachucha.

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Enquanto ouvia cantar “your kisses ring, / round and round and round my head”, uma parábola bíblica circulava-lhe no cérebro como peixe dourado num aquário redondo. E tentava confirmar se a toponímia concordava com a realidade. Mas não. Afinal, se virasse à esquerda entrava na Antiga Rua da Miséria; se voltasse à direita ficava na Rua da Fortuna.


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Ilustração por Pedro Albuquerque


Itinerários em Lisboa Três passeios evocativos da História, Memória e Património da Misericórdia por Helena Alexandra Mantas, André Silva, Ricardo Máximo, Susy Ferreira Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

O Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural (SPDC) é uma unidade da Direção da Cultura da SCML que tem como fim planear e implementar um programa educativo e cultural que valorize e divulgue o património da instituição e vá ao encontro das necessidades da sociedade contemporânea de educação, cultura e entretenimento. Entende-se que este programa deve ser plural, recorrendo a diferentes meios de expressão e comunicação, numa lógica de participação ativa do público. A Igreja e o Museu de São Roque, o Arquivo Histórico, a Biblioteca e alguns edifícios com valor histórico e artístico da SCML, como o Convento de São Pedro de Alcântara, os Recolhimentos da Capital ou o Hospital de Sant’Ana, são os locais onde este programa educativo e cultural tem lugar. Paralelamente, o SPDC procura estender a sua ação a outros espaços que, não pertencendo na atualidade à SCML, fazem parte da História e da Memória da instituição, sem esquecer o património imaterial.

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Entre as atividades desenvolvidas, têm merecido uma forte adesão do público os itinerários em Lisboa. Trata-se de um conjunto de quatro percursos pedestres e um em bicicleta que remetem para a História, Memória e

Património da instituição. Neste artigo destacamos três destes percursos, que nos são dados a conhecer pela mão dos técnicos que os conduzem. Um destes itinerários leva o visitante a percorrer os locais onde a Misericórdia de Lisboa esteve sediada ao longo do tempo. Ao longo de duas horas e meia o público fica a conhecer a história de uma instituição com mais de quinhentos anos de existência. O segundo itinerário centra-se na presença da Companhia de Jesus em Lisboa, Ordem religiosa cuja história se cruza com a da Misericórdia que é detentora desde 1768 da Igreja e Casa Professa de São Roque, casa mãe dos Padres inacianos em Portugal. Finalmente, o terceiro itinerário desenvolve-se em torno do património azulejar da instituição, com destaque para a Igreja de São Roque e o Convento de São Pedro de Alcântara. O público pode ainda conhecer os antigos Recolhimentos da Capital em bicicleta – Conventos de Santos-o-Novo, Grilo e Encarnação, ou visitar o património cemiterial da Santa Casa. A participação nestes itinerários é gratuita e requer marcação prévia, devendo os contactos ser feitos por telefone (213240869/889).


Bem-vindo à Sé de Lisboa! Entre as memórias históricas que esse templo de Santa Maria Maior encerra, há uma que ainda mantém um fio condutor com o presente – a da criação de um projeto que ganhou um alcance enorme, quer geograficamente, quer na própria organização interna, sempre em prole dos mais desfavorecidos. Esse projeto chama-se Santa Casa da Misericórdia, uma instituição que teve como primeira sede a Capela de Nossa Senhora da Piedade, dita da Terra Solta, situada no claustro deste templo. Esta irmandade, criada em 1498, nasceu da vontade da rainha Dona Leonor de Avis, a qual assegurou a produção das primeiras medidas regulamentares e legais que fundariam uma confraria modelo para a época. As 14 obras de misericórdia que colmatariam, quer necessidades do foro material, quer do foro espiritual, rapidamente moveram 100 confrades de várias proveniências sociais, entre os quais eram eleitos, anualmente, o provedor, nove conselheiros, um escrivão e dois mordomos.

Nas bandeiras processionais da Santa Casa figuram num dos lados, a imagem de Nossa Senhora da Piedade e no outro, a da Nossa Senhora da Misericórdia, que o nome da instituição invoca, tomando o dia da confraria por orago, o dia festivo da visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel; e, é como que a transportar bandeiras processionais, num ambiente de festa, que vos convido a conhecer a segunda sede da Santa Casa – a Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia de Lisboa. No sítio da atual Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, foi construída a igreja da Misericórdia, para onde se transferiu a sede da Santa Casa, em 1534. Este complexo incluía a igreja, um hospital dedicado a Sant’Ana, com 32 camas para mulheres nobres que sofressem de doenças incuráveis; dois recolhimentos para órfãs; a secretaria; o cartório, e outras dependências, que o terramoto de 1755 afetou gravemente. Já na nova casa será acrescido ainda no século XVI, um novo desafio – o da administração do Hospital Real de Todos-os-Santos, situada ao Rossio, passa a usar o seguinte título: Provedor e mais Irmãos da Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Hospital Real de Todos-os-Santos e Real Casa dos Expostos.

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As Sedes da Santa Casa


O terramoto de 1755 danifica gravemente este complexo, conquanto o hospital consegue manter a sua atividade, mas em condições muito precárias, até que, em 1775, os seus serviços são transferidos para o novo Hospital Real de São José. No reinado de D. Maria I, este hospital é separado do acervo comum da Santa Casa, a pedido da Mesa. Após o terramoto de 1755, a sede da Misericórdia de Lisboa dispersa-se por vários edifícios alugados ou cedidos, até que, em 1768, o rei D. José I faz doação completa, perpétua e irrevogável da Casa Professa de São Roque, que pertenceu aos jesuítas até à expulsão da ordem de Portugal, em 1759. Hoje, no Largo Trindade Coelho, a fachada pública esconde cinco núcleos arquitetónicos, nomeadamente o da Casa Professa dos jesuítas; as casas de arrendamento da Calçada da Glória; o Asilo do Amparo; uma lavandaria; e o Hospital Infantil de São Roque, edifícios que foram reconvertidos a outras funcionalidades.

Itinerário da Companhia de Jesus Ao topo do Bairro Alto, encontra-se a Igreja de São Roque, pertencente à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, ponto de partida para uma viagem à descoberta de uma das instituições que mais marcaram a modernidade global, e que tinha em Lisboa um dos seus principais pilares, a Companhia de Jesus. Deve-se a Inácio de Loyola, não só o mentorear da sociedade, como a responsabilidade pela escritura constituinte da ordem, a qual se baseava na vida disciplinada de ex-soldado, ferido em 1521. A recuperação desses ferimentos revelar-se-iam decisivos para o modus operandi da Companhia de Jesus, marcados pelos exercícios espirituais onde Inácio se retirava para meditação, oração e estudo de obras religiosas. Ao espírito de disciplina militar, Inácio juntará o espírito de fé, superação e sacrifício, de defesa e obediência às hierarquias católicas.

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Fundada em Paris em 1534 e aprovada pelo Papa Paulo III em 1540, o qual ordena a vinda para Lisboa dos companheiros fundadores: Simão Rodrigues e Francisco Xavier. Desde logo, os primeiros membros da assistência de Lisboa encontram na colina de São Roque sítio para divulgar os seus ideais reformadores, porém, só a partir de 1553 a Companhia se instala no local de São Roque. Apesar da notoriedade e fama que o ensi-

no da companhia alcançou, não era esse o seu propósito inicial que se baseava na pregação, na caridade e na educação básica das crianças, dos gentios e dos rudes, e em dar a conhecer os princípios basilares e elementares da doutrina católica. A vertente formativa surge como resposta à dificuldade em encontrar professores disponíveis para a difícil missão de envangelização, pelo que rápido se opta pela criação de espaços de aprendizagem abertos a jovens; os colégios e noviciados. Imponente, o edifício alvo que alberga hoje o Museu de História Natural e das Ciências, apresenta as muitas cicatrizes que o tempo, os infortúnios e os diversos proprietários lhe provocaram e, ao entrar, hoje pouco resta da antiga Igreja da Nossa Senhora da Assunção no antigo Noviciado da Cotovia. Este percurso pelos vários espaços patrimoniais da companhia de Jesus leva os visitantes à Igreja da Nossa Senhora do Socorro, nome pela qual é conhecida hoje a antiga igreja do Colégio de Santo Antão-o-Velho. Se aquando da sua fundação em 1542, por Simão Rodrigues, os valores primitivos da educação ainda eram os vigentes, na década de 50, e já como resposta à ideia crescente que o ensino seria a principal ferramenta de difusão dos ideais do concílio de Trento, os colégios ganham preponderância social, e as famílias nobres veem na qualidade dos mestres da Companhia perfeitos educadores dos seus descendentes. A rápida procura de alunos faz com que o colégio da Mouraria se torne insuficiente, o que levará a que a Companhia crie um dos mais importantes espaços de conhecimento não universitário da Europa, Colégio de Santo Antão-o-Novo, hoje hospital São José. Sendo comummente conhecidos como os mestres da retórica, este espaço volta-se também para os astros e para o ensino das ciências matemáticas, proferidas na célebre “Aula da Esfera”. O itinerário da companhia de Jesus por Lisboa mostra o quão ambas estão interligadas e como o destino de uma parece prever o destino da outra, desde os primeiros dias de Xavier e Rodrigues à acusação no envolvimento do atentado régio de D. José I.


A SCML é detentora de uma vasta coleção de património azulejar, incluindo exemplares desde o século XVI até à contemporaneidade, o que permitiria esboçar a história do azulejo em Portugal através da mesma. Devido à impossibilidade de incluir tudo num único percurso, este itinerário traça-se entre finais do século XVI e o terceiro quartel do XVIII, seguindo um percurso cronológico da Igreja de São Roque ao Convento de São Pedro de Alcântara. Em São Roque, detemo-nos algum tempo junto à capela consagrada ao santo, onde se encontram os azulejos pintados por Francisco de Matos em 1584. Com uma importância amplamente reconhecida pelos especialistas, destacam-se excecional qualidade de execução, pelo muito bem conseguido enquadramento arquitetónico e pelo notório domínio das potencialidades da técnica da majólica. Acresce o facto de se manterem no local de origem, em muito bom estado de conservação. Seguimos para os azulejos ditos ponta de diamante, que decoram o transepto e o coro-baixo da igreja. De origem sevilhana, estão datados de 1596. No corredor de acesso à sacristia há azulejos do período proto-barroco, cerca de 1630. São os chamados azulejos de tapete, de inspiração na arte do têxtil, um tipo de padrão muito usado à época. Ao sair de São Roque, avançamos pelo Bairro

Alto, em direção ao Convento de São Pedro de Alcântara. Foi fundado em 1670, em cumprimento de um voto de D. António Luís de Menezes, Marquês de Marialva. 5 anos antes, na Batalha dos Montes Claros, prometera erguer um convento dedicado a São Pedro de Alcântara se os portugueses fossem vitoriosos contra o exército espanhol. Até 2014 esteve fechado ao público, não podendo ser vista a sua importante coleção de azulejos barrocos e pombalinos. Entre finais do século XVII e inícios do XVIII, por razões que passam pela influência da porcelana chinesa e do azulejo holandês, bem como pela entrada na arte do azulejo de pintores vindos da pintura a óleo, o azulejo em Portugal conheceu uma renovação total, passando a ser figurativo e bícromo, a azul e branco. Era frequentemente combinado com a talha dourada barroca, de onde (reza a tradição) vem a expressão “ouro sobre azul”. A igreja encontra-se decorada com azulejos de meados do século XVIII, alusivos à vida de São Pedro de Alcântara. A sacristia, com alguns painéis pombalinos de temática bíblica, revela-nos o regresso da policromia. Antes do fim do itinerário, passamos ainda por alguns azulejos do século XX, inspirados nos do XVII e XVIII que vimos anteriormente. Deste modo, o Itinerário do Azulejo pretende ser uma proposta cultural que corresponda a uma temática de interesse generalizado, graças à importância que o azulejo tem nas artes em Portugal, dando-se uma ideia geral da sua história durante a época Moderna.

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O Itinerário do Azulejo


Segredos de Lisboa

Texto e Fotografia por Francisco Duarte Coelho

Legenda da Imagem: Chafariz da Bica na esquina da Rua da Boa Vista com a Travessa do Marquês de Sampaio

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Bica de Duarte Belo Reza a lenda que, lá pelo séc. XVI, a água da bica de Duarte Belo era milagrosa e curava as doenças dos olhos de quem com ela os lavasse. Era então conhecida por “Bica dos Olhos”. Mas o verdadeiro mistério sobre a bica é onde realmente se encontra esta fonte de água curativa nos dias de hoje. Ao que sei existem duas teorias distintas. Uma que a situa na esquina da Rua da Boa Vista com a Travessa do Marquês de Sampaio, e outra que a situa num Páteo na Calçada da Bica Grande, mas seja qual for a verdadeira vale a pena vê-las e, quem sabe, curar milagrosamente uma doença dos olhos. É esta a razão pela qual o bairro lisboeta da Bica se chama Bica.


RETRATOS DO PATRIMÓNIO Uma (má) evolução na continuidade (III) por Pedro Mascarenhas Cassiano Neves

Monsanto que, após uma “falsa partida” - o projecto de instalação de novos e diversificados equipamentos, com bom senso corrigida - foi salvo por uma intervenção de limpeza em larga escala nunca antes realizada e que há muito se impunha. Enquanto sabiamente utilizava o, estagnado, Fundo de Reabilitação do Chiado para restaurar e devolver o esplendor a meia dúzia de Igrejas da Baixa, Santana decidiu alienar, ignorando inclusive uma proposta de aquisição que o fazia retornar à família de origem, o Palácio da Rosa, o Palácio com a origem mais antiga de Lisboa, que a Câmara adquirira em 1970 e que tinha sido sede da Academia Portuguesa da História e que, a partir de então, entrou num acelerado processo de degradação, abrindo um precedente de enorme gravidade que tem o seu corolário no momento actual com a venda em larga escala, de forma abrupta, irresponsável e muitas vezes ilegal, de jóias de arquitectura civil do Património Camarário. Paradoxalmente procedeu-se em simultâneo à aquisição, por quantia muito superior e no meio de contravérsia jurídica, do Palácio Verride a Santa Catarina, de finais de oitocentos e muito menos interessante!

A histórica e integralmente preservada Calçada do Combro, durante séculos o segundo mais importante acesso a Lisboa, percorrida por um Património Religioso e Civil excepcional, viu crescer a meio um inenarrável mamarracho para a instalação de um silo automóvel que tarda em ser corrigido e perto dela, o aprazível e monumental Largo das Mercês foi também ele descaracterizado pela entrada de outro silo para o mesmo efeito. Envolto na enorme “trapalhada” do Parque Mayer, que continua por resolver, e com o intuito, acertado, de se proceder a uma maior celeridade nos Processos de Licenciamento Urbanístico, uma promessa eleitoral, o mandato de Santana Lopes, mediocremente assessorado e mal aconselhado neste campo, ficou marcado por uma vaga de demolições do edificado citadino em larga escala, que um pouco por toda a cidade foi catastrófica para o Património setecentista e oitocentista. Política que o curto e triste mandato do seu sucessor Carmona Rodrigues prosseguiu com afinco, e que teve como “cereja no bolo” a inexplicável, ou talvez não..., aprovação em contra-relógio do aumento de cérceas do edificado da Avenida da República, golpe de misericórdia nesta martirizada artéria...

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Pedro Santana Lopes entrou na Câmara de rompante e de imediato ordenou a demolição de um mamarracho na envolvente do Palácio da Ajuda e de outro que à entrada da auto-estrada tapava uma das melhores vistas para Monsanto, que herdara de João Soares.


Árvores de Lisboa por Ana Luísa Soares Ana Raquel Cunha

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Vasconcelos, T.; Cunha, A. R.; Forte, P.; Soares, A. L. (2017). Levantamento arbóreo dos jardins e parques históricos de Lisboa. Lisboa. No âmbito do Projeto de investigação LX GARDENS – Jardins e Parques Históricos de Lisboa: estudo e inventário do património paisagístico (PTDC/EAT-EAT/110826/2009), Lisboa: CEABN-inBio/ISA/ULisboa, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia


(Jacaranda mimosifolia D. Don.) Família: Bigoniaceae O jacarandá é uma árvore caducifólia com grande interesse ornamental. Muito utilizada na arborização urbana, quer nos países de origem (Argentina, Bolívia e Brasil), quer noutros onde foi introduzida e se adaptou. Pode atingir uma altura até 15 metros, exibe flores de cor roxa muito aromáticas e dispostas em panículas, uma folhagem tipo “rendilhada” de cor verde e o seu fruto é uma cápsula. Distingue-se pela exuberante floração que antecede a folhagem. Produz boa madeira para marcenaria. Em Lisboa a árvore jacarandá é considerada uma das árvores de excelência nos jardins e arruamentos, principalmente em maio e junho com a sua floração roxa que encanta e perfuma a cidade. Para além do jacarandá, Lisboa, devido ao seu clima, alberga uma panóplia de árvores vindas de diversas partes do mundo. A partir da década de 80 do século XVIII, as chamadas “Viagens Philosophicas” aos domínios ultramarinos portugueses para aí estudar os seus recursos naturais promoveram a entrada de um elevado número de plantas. Estas incursões científicas contribuíram decisivamente para a moda do coleccionismo botânico em Portugal que atingiu o seu auge no século XIX, à semelhança de outros países europeus. A fundação do Jardim Botânico da Ajuda, o primeiro jardim botânico português, em 1768, marca o início do estudo científico sistemático das colecções botânicas. Outras entidades contribuíram para esta diversidade botânica, sendo de referir a Tapada das Necessidades (século XVIII), o Parque do Monteiro-Mor (século XVIII), o Jardim Botânico de Lisboa (1873) e o Jardim Botânico Tropical (1906), entre outros, que através da arte e gosto dos seus proprietários, jardineiros paisagistas, horticultores e viveiristas difundiram este gosto pelas plantas consideradas “novidades” nos nossos jardins.

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No levantamento arbóreo de 64 jardins e parques, realizado em 2014, no âmbito do Projeto LX GARDENS – Jardins e Parques Históricos de Lisboa: estudo e inventário do património paisagístico, das 27 628 árvores referenciadas foram identificados 460 espécimes de jacarandá distribuídos por 35 dos jardins estudados (Vasconcelos et al, 2017). Para além do Jardim Botânico da Ajuda, é de destacar a presença dos jacarandás nos seguintes jardins: Parque Eduardo VII, Tapada das Necessidades, Jardim do Palacete de São Bento, Jardim do Campo Pequeno e Jardim da Estrela.


Ana Pérez-Quiroga Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade

Cordoaria Nacional Um edifício emblemático pela sua extensa fachada de 400m. Desde 1779 até 1998 este edifício fabricou cabos, velas e bandeiras para os navios portugueses. Hoje o Torreão Nascente e a longa galeria tornaram-se um dos locais para usufruir de exposições de arte e antiguidades.

Praça do Império e Mosteiro dos Jerónimos A praça e seus jardins foram construídos para a Exposição do Mundo Português em 1940, o Mosteiro dos Jerónimos, com projeto dos arquitetos Diogo de Boitaca, João de Castilho, Diogo de Torralva e Jerónimo de Ruão, do início do séc. XVI, no reinado de D. Manuel I, é um dos ícones da arquitetura Manuelina.

CCB - Centro Cultural de Belém

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Com projeto dos arquitetos Vittorio Gregotti e Manuel Salgado inaugurado em 1993, este centro cultural polivalente e o Museu Berardo são um dos polos culturais da cidade.


Todos a Belém Um passeio pela zona oeste

Museu dos Coches Com projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha em consórcio com os ateliês de arquitetura de Bak Gordon e Nuno Sampaio, foi inaugurado em 2015. Reúne uma coleção única de viaturas desde o séc. XIV ao XIX.

Planetário Gulbenkian Com projeto do arquiteto Frederico George, foi inaugurado em 1965, fazendo parte dos espaços vocacionados para o entendimento dos cosmos.

Torre de Belém

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Com projeto do arquiteto Francisco de Arruda, em estilo Manuelino, ficou concluída em 1519 no reinado de D. Manuel I. Esta torre, serviu a defesa do estuário do Tejo até a ocupação Filipina.


Museu de Arte Popular Projeto dos arquitetos Veloso Reis Camelo e João Simões e posteriormente Jorge Segurado, construído para a Exposição do Mundo Português, como espaço da Vida Popular, transformou-se em 1948 em Museu de Etnologia. Encontra-se hoje encerrado à espera de um final feliz.

Padrão dos Descobrimentos Projeto de Cottinelli Telmo, e esculturas de Leopoldo de Almeida, erigido em 1940 para a Exposição do Mundo Português em materiais perecíveis, foi em 1960 reconstruído em pedra de lioz e betão.

MAAT – Central Tejo

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Exemplo paradigmático de arquitetura industrial do início do séc. XX. conjuga o núcleo expositivo da Eletricidade com espaços vocacionados para a arte contemporânea.


Espaço Espelho d´Água Projeto do arquiteto António Lino, construído para a Exposição do Mundo Português, como espaço de Diversões Náuticas e simultaneamente Restaurante Espelho d´Água. Ao longo da sua vida foi sendo ocupado por diversos restaurantes. Em 2014, Mário Almeida, depois de obras profundas, reabre o EEA transformando-o num espaço que conjuga a restauração com atividades artísticas.

Estação Fluvial de Belém Construída em 1936, num estilo Estado Novo, esta estação permite a travessia do Tejo entre Lisboa/Porto Brandão e Lisboa/Trafaria. Vale a viagem, Lisboa vista do Tejo é deslumbrante.

MAAT – Edifício Novo

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Projeto da arquiteta Amanda Levete, inaugurado em 2016, espaço destinado a exposições de arte contemporânea.


Zeferino Coelho Nos anos 70, Saramago pensava que seria apenas um rodapé na História da Literatura Portuguesa

por Fernando Madaíl Revista Bica

O editor do Nobel Português que contrariou o parecer das chancelas que rejeitaram Levantado do Chão, publicou Alice Vieira e Mia Couto desde as suas primeiras obras, o nome que apostou em Gonçalo M. Tavares ou em Ondjaki, o jovem septuagenário que se deixa encantar pela escrita de Patrícia Portela ou de Kalaf Ângelo ou de Isabela Figueiredo. Zeferino Antas de Sousa Porto nasceu em 1945, na conservadora Paredes, e frequentou o pouco politizado Liceu de Guimarães. Até ironiza: “não nasci no Couço, nem na terra da Catarina Eufémia” – a primeira, terra de forte contestação antifascista e de feroz repressão durante o salazarismo; a outra, Baleizão, onde foi assassinada a lendária camponesa comunista.

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Ao ir para a Faculdade de Letras do Porto, onde foi um dos 40 matriculados no Curso de Filosofia que abriu nesse ano, encontrou, finalmente, a sua família política. A maioria dos seus colegas, “onde havia gente interessantíssima”, era claramente antifascista (alguns até já tinham estado presos) e Zeferino Coelho, “um tipo ingénuo, com 16/17 anos, que vinha da província”, passava as tardes no café “Piolho” e as noites numa tertúlia no Café Ceuta a fazer a sua formação política. Nunca se esqueceria de certa noite, quando se discutia política internacional, ouvir um dos mais velhos vociferar contra “aquela filho da puta do general Sukarno”, que tinha massacrado meio milhão de comunistas na Indonésia. Aquela expressão, escutada num misto de espanto e de fascínio, mais reforçou a sua identidade. Aderiu ao clandestino PCP, era muito activo no movimento académico (foi dirigente da comissão instaladora da Associação de Estudantes da Faculdade em 1966-1967 e membro da Comissão Democrática de Estudantes do Porto), mas também nos meios oposicio-

nistas. Seria mesmo um dos fundadores da cooperativa livreira UNICEP, que “era um pretexto para haver um sítio onde se pudessem desenvolver actividades antifascistas” – na época, estas cooperativas proliferavam pelo País, já que “fazer uma associação era complicado, porque os Estatutos tinham de ir ao Governo Civil para serem aprovados e, com os nossos nomes, conhecidos das autoridades, não seriam autorizados; enquanto para uma cooperativa bastava fazer o registo no notário – e o notário queria lá saber dos nomes”. Portanto, “a cooperativa era a maneira de contornar a lei.” A juventude desse tempo tinha como destino certo a guerra colonial em três frentes de combate: Angola, Moçambique e Guiné. Mas quem andava na Universidade podia pedir adiamento da incorporação militar. Nas eleições-farsa do regime anterior, quando ainda lhe faltava uma cadeira para acabar o curso, Zeferino Coelho foi candidato a deputado na lista da CDE pelo círculo do Porto em1969. E como, nessas alturas, a Censura tinha de abrandar ligeiramente o “lápis azul”, ao serem publicados o seu nome e a sua fotografia, tornou-se uma figura conhecida. Passada a campanha eleitoral e concluído o curso, encontrou-se na situação peculiar da juventude da época: “estar à espera de ser chamado” – para ir para a guerra, o que impedia qualquer um de procurar um emprego definitivo, pois nenhum patrão queria ter um lugar do quadro preenchido por alguém que andava aos tiros nas bolanhas da Guiné, nas emboscadas em Moçambique, nas picadas de Angola. Foi então que José Cruz dos Santos lhe propôs um trabalho na Editora Inova, que montara em 1967 – onde Zeferino Coelho iria aprender o ofício da sua vida. Paralelamente, um camarada abordou-o a questioná-lo se, em vez de cumprir o serviço militar e vir a ser professor de liceu, não admitia a hipótese de enveredar pela via revolucionária e, quando chegasse o momento, passar à clandestinidade. Foi esta a sua opção. E quando os editais afixados na sua Junta de Freguesia avisavam que deveria apresentar-se em Mafra em Janeiro de 1972, o PCP coloca-o em Bucareste, na equipa de jornalistas e locutores da Rádio Portugal Livre, que transmitia, em ondas curtas, da Roménia para Portugal – e emitiria até bem depois do 25 de Abril de


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1974, apenas encerrando as suas emissões em outubro desse ano (isto é, já Palma Carlos tinha sido substituído por Vasco Gonçalves como primeiro-ministro e Spínola por Costa Gomes na Presidência da República). Entretanto, há o 25 de Abril de 1974, os avanços e os recuos da revolução, e o 25 de Novembro de 1975 – onde se dá a vitória militar dos moderados e os comunistas foram afastados da direcção dos jornais nacionalizados na sequência do 11 de Março de 1975 e que, até essa altura, dominavam, ao ponto de se dizer que o Diário de Notícias (onde José Saramago exercia funções de director-adjunto) era o Pravda e O Século era o Izvestia (os dois mais famosos diários da União Soviética). Nessa altura, o PCP decide criar uma empresa, a Caminho, para editar e distribuir o seu próprio jornal, O Diário. Zeferino Coelho estava, então, a cumprir o serviço militar no Instituto Psicotécnico do Exército (porque, na altura, ainda sem cursos autónomos, quem tinha estudado cadeiras de Psicologia eram os licenciados em Filosofia), na Avenida de Berna – e as instalações da Caminho ficavam na Rua Santos Dumont. Cruzou-se com os seus amigos do Porto, Vítor Branco e Francisco Melo, que logo o desafiam para, mal acabasse a tropa, ir trabalhar para a Caminho, pois na empresa também havia mais gente ligada à edição de livros. E, em 1977, Zeferino Coelho ingressa na Caminho Livros, que era uma pequena dependência da Caminho que publicava o jornal O Diário – e tinha vários editores, como o José Oliveira (“que, até há pouco tempo, esteve aqui na área infantil”). Depois disso, nos seus tempos áureos, estará, por exemplo, em 1996, na origem de uma editora em Angola (a Ndzila) e de outra em Moçambique (a Ndjira); mais tarde, com as diversas crises, a partir de 2007, a Caminho, mantendo-se embora Zeferino Coelho como responsável, passou a integrar o grupo Leya.

Bica: Uma das colecções mais importantes da Caminho na divulgação foi “Uma Terra Sem Amos”, que editou autores da Argélia ao Haiti, da Bulgária aos Camarões, da Argélia à (então) RDA, da Guiana ao Quénia. Mas o primeiro número é logo uma obra importante: Os Pedaços de Madeira de Deus, talvez o livro mais famoso do senegalês Sembène Ousmane, o pai do cinema africano. Não foi por acaso? Zeferino Coelho: Não foi por acaso. Correspondia ao espírito da Caminho Livros quando se fundou, que era tudo gente de esquerda, algumas pessoas que tinham estado ligadas à fundação da Cooperativa UNICEP, no Porto, outras à Prelo: o Vítor Branco, o Francisco Melo, o Belmiro Guimarães, o José Oliveira, outros mais. Embora quem tivesse mesmo experiência de edição fosse eu, porque tinha trabalhado cerca de dois anos com o Cruz Santos na Inova, entre 1969 e 1971. De todo esse conhecimento que tínhamos, surge a ideia de fazer uma coleção de obras literárias de escritores colocados à esquerda. A sua estadia em Bucareste, antes do 25 de Abril, na Rádio Portugal Livre, também o familiarizou com autores dos países comunistas, que depois surgem nessa colecção, como o búlgaro Iván Vazov, o húngaro Ferenc Karinthy, o soviético Alexandre Fadeiev, o alemão Bruno Apitz... …e também de muita coisa de fora da Europa, fugindo à hegemonia da publicação dos autores ocidentais. [Na época, vivia-se em plena Guerra Fria, num despique de influências entre os regimes capitalistas e os regimes comunistas, além de existir um vasto Terceiro Mundo, onde despontavam movimentos revolucionários.] E com algumas excepções de “camaradas”, como o francês Louis Aragon, o americano Michael Gold, o italiano Leonardo Sciascia [depois deixaria de ser], o nacionalista irlandês Liam O’Flaherty. Aliás, houve algumas apostas que se tornaram incríveis. Por exemplo, julgo que publicaram Em Busca um ano antes do egípcio Naguib Mafouz ter ganho o Prémio Nobel.

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Exacto. Essa era uma óptima colecção, onde se publicaram grandes livros. É nesta colecção que surgem os novos africanos de expressão portuguesa – José Eduardo Agualusa (Prémio Revelação Sonangol com A Conjura), Germano de Almeida, Manuel Rui Monteiro, Ungulani Ba Ka Khosa, Ana Paula Tavares, Paulina Chiziane, Ondjaki. Mas o primeiro de todos e aquele que se torna de imediato num grande nome e num grande fazedor de best-sellers da edito-


ra é Mia Couto com as Vozes Anoitecidas (8 edições) – o que, nesta colecção, além dos títulos seguintes do próprio Mia Couto, nomeadamente Cada Homem É Uma Raça, parece-me que só teria paralelo com Crónica do Rei Pasmado, do espanhol Gonzalo Torrente Ballester. Como é que o Mia Couto se torna logo um grande autor e, simultaneamente, um fenómeno de popularidade?

Não, não pensei! Mas eu também me esqueço rapidamente do passado e não penso muito no futuro (risos). Vivo embrenhado no presente. Às vezes, quando me dizem, “naquela ocasião…” – não me recordo. A minha mulher é o contrário de mim – e até guarda as agendas onde anota tudo, que consulta para desfazer qualquer dúvida desse género. Eu tenho uma má memória.

O primeiro livro que ele publicou foi um de poesia que saiu lá de Moçambique [Raiz de Orvalho, de 1983, que também seria editado pela Caminho em 1999 e já teve mais duas edições]. Depois publicou esse livro de crónicas [a primeira edição de Vozes Anoitecidas foi da Associação dos Escritores Moçambicanos, em 1986] que veio parar em cima da minha secretária, não sei por que via, mas como sugestão de edição. Mas eu olhei para aquilo e tinha péssimo aspecto: o papel era horrível, a capa péssima, estava mal impresso – e, inevitavelmente, o aspecto também impressiona, porque lemos com mais facilidade o que tem bom aspecto. Agora quando li a obra pareceu-me que, literariamente, era algo muito bom. Por exemplo: o primeiro conto é com um velho e uma velha africanos miseráveis. O velho entende que não pode deixar a mulher morta e abandonada, porque, qualquer dia, já não tem força para lhe fazer a cova e, depois, ela fica ali para ser comida pelos pássaros. Não! Ele tem de fazer agora a cova onde ela vai ser enterrada. Isto é uma história de amor como as de sempre, mas contada desta maneira extraordinária, como nunca ninguém se lembrou de o fazer. Depois, falei com o meu colega Belmiro Guimarães, dizendo-lhe que entendia que este Vozes Anoitecidas era muito bom, e pedi-lhe para ele o ler e se pronunciar. Ele concordou com a minha opinião. E, então, decidimos avançar. Fizemos uma edição normal e publicamos uma tiragem pequena. O Mia Couto veio cá, fizemos um lançamento na Livraria Barata, onde foram umas vinte ou trinta pessoas. Mas, antes da sessão começar, aconteceu um pormenor curioso: veio ter comigo a Wanda Ramos, de quem eu tinha publicado dois ou três livros, que me disse: “Eu gostei muito do livro e tenho muito jeito para ler. Deixas-me ler o primeiro conto?” Como não consigo dizer “não!” a ninguém, acedi, mas pensei que ía ser um grande aborrecimento. Então, ela começou a ler (leu muitíssimo bem) e ficou toda a gente maravilhada. Toda aquela coloquialidade do texto, de que não nos apercebemos quando estamos a ler, foi realçada por aquela leitura. Depois, havia as brincadeiras que o Mia Couto faz com as palavras e a que as pessoas acharam piada. E aquilo disparou por ali fora...

Mas um editor pode dizer: “tenho aqui um grande livro; isto é muito bom!” Mas como é que isso se torna, de facto, num êxito? Por exemplo, com o Mia Couto, que até cria neologismos e não é propriamente um escritor fácil?

Ao ler um original, que tanto pode ser o policial Matar a Imagem, de Ana Teresa Pereira [ganhou a primeira edição do Prémio Caminho de Literatura Policial, em 1989], como o livro de poemas Actu Sanguíneu ou dos contos de Momentos de Aqui, de Ondjaki, o que é que o editor sente? Há livros em que ficamos de tal forma presos que nem queremos largar a leitura. Depois, há uns livros que não são bons, nem são maus: hoje, lemos umas páginas; amanhã, mais umas dez ou vinte… Vou-lhe dar um exemplo. A ONU decidiu que 1979 seria o Ano Mundial da Juventude. Na Caminho, entendemos que devíamos participar também neste tipo de iniciativas e criámos um Prémio Literário de textos para livros para a juventude. Fiz parte do júri, como representante da editora – já não me recordo dos outros membros, mas eram pessoas respeitáveis nessa área – e, naturalmente, aquilo era secreto, porque não sabíamos quem eram os autores. Mas estava lá um muito bom, chamado Rosa, Minha Irmã Rosa. Ora, havia um outro membro do júri que entendia que existia um outro bom entre os candidatos. Pensei: “Como é que eu arranjo aqui maneira de convencer o júri a escolher o Rosa, Minha Irmã Rosa?” Ora, se eu penso que se trata de uma grande obra e o comunico com entusiasmo, isso vai ter reflexos nas outras pessoas. O que é certo é que convenci os outros membros a votar no livro. E só depois é que soube que era da Alice Vieira [então, apenas conhecida como jornalista, que começa com este título a sua

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Mas alguma vez, quando pegou no livro, pensou que atingiria oito edições?

Agora, vem a outra parte. Uma pessoa lê um livro e, se fica entusiasmada, compra mais e quer saber tudo sobre o autor – mas fica-se por aí. O editor, não. Trabalha com isso; essa é a profissão dele. Portanto, tem de fazer o seu papel. O escritor já fez o dele. E o editor tem de executar um trabalho à altura da qualidade que entende que o livro tem – eventualmente não tem, mas ele acha que tem –, procurando que isso vá ter eco junto das outras pessoas.


carreira de escritora de livros infantis]. E depois, da mesma forma que se convenceram os membros do júri, vai-se usando o mesmo entusiasmo e fazendo logo um grande alarido: “o vencedor do prémio”… [Rosa, Minha Irmã Rosa? conquistaria o Prémio de Literatura Infantil Ano Internacional da Criança e já vai na 27º edição]. Logo a seguir, consegue o maior sucesso da literatura juvenil em Portugal, pelo menos entre as obras de Enid Blyton e a saga do Harry Potter: a colecção Uma Aventura..., de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães. Tinha lá na secretária um livrinho para jovens chamado Uma Aventura na Escola, de duas senhoras que não conhecia de lado nenhum. A resposta estava atrasada e eu tinha de dizer qualquer coisa. Então, levo-o para casa – como faço tanta vez... – para ler no fim-de-semana. Mas, no domingo: “que chatice, ainda tenho aquela treta para fazer.” Depois do almoço, lá resolvi dedicar um quarto de hora àquela tarefa dolorosa – pois basta um quarto de hora para se perceber se um livro presta ou não. Sentei-me à secretária e, passados uns três quartos de hora, tinha lido tudo até ao fim. E, depois, voltei ao princípio. Fiquei preso àquela história como quem está a ver um filme policial bem feito – costumo dar o exemplo da Janela Indiscreta [de Alfred Hitchcock]. Então, percebi: isto é uma história, do tipo policial, bem contada. Depois, pensei: “elas serão capazes de fazer um segundo livro ou isto foi uma coisa que aconteceu assim num repente?” Falei com as duas, explicando-lhes que agarrávamos naquilo, mas teria de ser evidentemente uma coleção e, para funcionar, tínhamos de publicar logo dois livros ao mesmo tempo. “Vocês conseguem escrever outro livro para se poder editar ainda até ao fim do ano?” Comprometeram-se e cumpriram. [Os dois primeiros números, publicados em 1982, seriam Uma Aventura na Cidade (18 edições) e Uma Aventura nas Férias do Natal (17 edições)]. Hoje, Uma Aventura... deve ter cerca de 50 títulos? À volta disso [na realidade, mais: o último publicado, já este ano, Uma Aventura em Conímbriga, tem o número 59].

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Conheceu José Saramago no final de 1978. Naquele tempo, além de ter sido director-adjunto do Diário de Notícias, apenas tinha publicado uma meia dúzia de títulos e, nesse ano, com chancela da Moraes, o livro de contos Objecto Quase. Na altura, parecia que já estava definido aquilo que ele era: o tipo tinha publicado uns livros – aquele romance da juventude [Terra

do Pecado, em 1947], três obras de poesia [Os Poemas Possíveis, Provavelmente Alegria, O Ano de 1993], uns ensaios e umas crónicas [Deste Mundo e do Outro, A Bagagem do Viajante, As Opiniões que o DL Teve, Os Apontamentos] e escrevera o Manual de Pintura e Caligrafia –; teve aquele episódio no Diário de Noticias (que as pessoas contam de uma maneira que não é a verdadeira) em que ficou com a imagem de andar a sanear jornalistas; era comunista e tinha um ar muito austero, que lhe dava um aspecto antipático. Ele próprio dizia que o seu destino, no melhor dos casos, era vir a ser uma nota de rodapé na História da Literatura Portuguesa. Mas mesmo dentro do Partido Comunista não era uma figura nada simpática. Por exemplo, ele era jornalista, tinha sido corrido do Diário de Notícias no 25 de Novembro e foi para o desemprego. Dois meses depois, cria-se O Diário e ele escreveu a quem de direito dizendo que estava disponível – e não foi para o jornal. E José Saramago propõe-lhe a sua primeira peça teatral, A Noite, que Zeferino Coelho mandou editar. Interessou-lhe o tema (aquela redação de jornal, dividida na madrugada do 25 de Abril) ou a escrita e a estrutura dramática? Eu não o conhecia. Ele telefonou para a Caminho e passaram a ligação para mim. Então, o Saramago disse-me que tinha uma peça de teatro sobre o 25 de Abril que queria sugerir à Caminho. Marcámos aqui um encontro e ele trouxe o original. Até aí, a Caminho tinha feito umas coisas: publicado uns livros com artigos do Urbano Miguel Rodrigues, umas obras do Virgílio Martinho, outras do Carlos Coutinho, mas tudo coisas de pouca notoriedade, pois é isso que acontece com todas as editoras quando se formam: não têm acesso fácil aos autores em que toda gente está a pensar – esses têm as suas próprias editoras. Só lhe restam os autores que “ninguém quer” – e era essa a situação do José Saramago. Mas a Editorial Caminho precisava de autores, pois nós éramos uma secçãozinha tolerada numa empresa que existia para fazer um jornal – e isso é que era o importante. Se a gente começasse a pesar muito no orçamento, um dia chegaria aqui alguém a dizer: “Vocês são muito simpáticos, mas acabem lá com isso.” Portanto, precisávamos de autores. E o Saramago, quando nos fez essa proposta, já tinha escrito um bom livro, o Manual de Pintura e Caligrafia, e pensámos que, se calhar, iria escrever mais. Se dissermos não à peça de teatro, ele nunca mais cá põe os pés. Naturalmente que uma peça de teatro é a coisa de que os editores menos gostam – ainda é pior que a poesia. Mas o que ele tinha proposto era aquilo e nós tínhamos que decidir sobre a peça e não sobre outra coisa qualquer. Ou


sim ou não. Era indiscutivelmente uma boa peça de teatro e também era uma forma de comemorarmos o 25 de Abril. Publicámos o livro em 1978, mas vendeu pouco. No ano seguinte, apresenta o Levantado do Chão. Nós publicamos a peça na expectativa de que ele escrevesse outro romance e nos viesse cá trazer. Mas foi levar o livro a outras editoras e só veio cá depois de ter tido duas “negas” – uma “nega” é sempre desagradável para um escritor e, então, se o autor é o Saramago, ainda pior. Mas valeu a pena. Lembro-me perfeitamente de começar a ler o livro e, logo na primeira página, ter a sensação de que aquilo era uma coisa muito bem escrita, completamente nova, inovadora do ponto de vista formal – e li-o por ali fora até ao fim. Falei com o Vítor Branco, da produção, e disse-lhe que tínhamos de estar à altura daquela obra, não podíamos estar a fazer de conta que não percebíamos o seu significado: “Temos que apostar nisto!” Ou seja, fizeram uma tiragem de quatro mil exemplares de um livro em que há uma ruptura completa com aquilo que é cânone universal da pontuação. Isso foi uma ousadia? Foi uma ousadia, mas julgámos que iria ter correspondência no público; que uns quantos milhares de pessoas iriam ter a mesma reacção que nós estávamos a ter acerca do livro. Aliás, quando o José Saramago veio cá e estávamos a imprimir o livro, o Vitor Branco recebe o telefonema de outro editor que lhe disse: “Soube que vocês vão publicar o Saramago. Quatro mil exemplares?! Vocês são loucos! Agora é que a Caminho vai definitivamente acabar.” (Os editores, nessa altura, sabiam tudo uns dos outros porque usavam as mesmas tipografias.) Mas o Vítor era um entusiasta: “Oh! Pá! Temos de ir para a frente!” O livro saiu e teve logo uma grande recepção, sendo imediatamente um êxito por parte do público e da crítica. Acontece... E, logo a seguir, aparecem os dois grandes sucessos: o Memorial do Convento e o Ano da Morte de Ricardo Reis. Quando leu A Noite pensou que ele era um autor que poderia chegar tão longe?

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Não pensei nada! Vejamos: qual era o panorama literário naquela altura? Havia o Vergílio Ferreira, o Urbano Tavares Rodrigues, o Manuel da Fonseca, o Miguel Torga, [o Carlos Oliveira, o José Cardoso Pires, a Agustina


© editora Caminho

Bessa-Luís], o Redol e o Régio já tinham morrido, o Lobo Antunes e a Lídia Jorge ainda não tinham aparecido, e havia poucos mais, que agora não me lembro. Basta lembrarmo-nos que, nessa época, o Fernando Namora era o escritor mais vendido e mais traduzido. Havia esta gente e, como surgia numa legenda de uma fotografia do início da década de 70, no Diário do Mário de Sacramento, que tenho na minha secretária, no fim dos nomes lá aparecia, em “cima da sua importância cachimbante” (ele, na altura, fumava cachimbo), o Saramago. E, de repente surge o Levantado do Chão, diferente de tudo o resto, vindo dessa área chamada neo-realismo, mas que já é uma coisa completamente diferente. Aquilo teve imediatamente uma enorme repercussão e, a seguir, ficou toda a gente à espera do que é sempre o “terrível” segundo livro [neste caso, de um “renovado” José Saramago].

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E aparece, para ainda maior espanto, O Memorial do Convento. Ando desesperado à procura do que o Vergílio Ferreira registou na Conta-Corrente

acerca do Memorial do Convento. O livro teve uma larga aceitação e o Eduardo Prado Coelho até escreveu que o José Saramago conseguiu alargar consideravelmente “a sua base social de apoio” – em linguagem da época (risos) [expressão então muito em voga no discurso político]. Ou seja, o Memorial do Convento não tem esses problemas neo-realísticos e, portanto, teve uma larga aceitação – e deixou de se falar do neo-realismo em relação ao Saramago, porque já não englobava muitas daquelas coisas da Reforma Agrária, que são uma chatice, uma maçada, que incomodavam muita gente – isto é uma linguagem caricatural (risos). “E também não sei se é ou não comunista. Esquece!” (risos). É ali que começa a levantar-se uma estrela e as pessoas a dizerem: “Sim, senhor, está ali uma estrela a seguir.” E o Memorial do Convento tem aquela figura extraordinária chamada Blimunda (um nome magnífico!), que tem a capacidade de ver dentro das pessoas quando elas estão em jejum; anda por ali e deixa-se apaixonar pelo [compositor] Scarlati e pelo outro maluco da máquina voadora, o padre Bartolomeu de Gusmão; e ela vai tirando às pessoas que estão a morrer, antes delas morrerem, as suas vontades; e é com


Ou seja, no fundo o José Saramago parece insuflar surrealismo no neo-realismo. Exactamente! Dá-lhe uma riqueza imagética que ele antes não expressava, preso eventualmente a ideias que tinha. E tudo aquilo, de repente, torna-se digerível. Portanto, o Memorial do Convento foi uma obra que já produzimos com outra confiança. Da primeira edição [posta à venda em novembro de 1982] fizemos uma tiragem de uns 5 mil exemplares e, em Janeiro, já estava a sair a segunda edição. E segue-se O Ano da Morte de Ricardo Reis. O Ano da Morte de Ricardo Reis… Faltava ainda a aceitação dos académicos, que não são muitos, mas têm a sua importância, porque escrevem e fazem opinião. E convém também ser aceite por esta parte. Ora, sendo o José Saramago um autodidata, sem formação académica – porque a sua “formação académica” era em serralharia mecânica –, havia em relação a ele essa desconfiança por parte dos intelectuais. Em todo o caso, era um autodidata com uma particularidade: em geral, os doutores – e eu digo isto porque também sou licenciado; sou doutor, “mas não uso” (risos) – em relação ao autodidata, aqui e ali, notam que aquela pessoa não teve uma formação académica. “Olha, o gajo não sabe.” Com o Saramago nunca o notei. Até que aparece este livro, em que até ficamos com a sensação de que, se somos um escritor e nos vem à ideia este título – O Ano da Morte de Ricardo Reis –, a partir daqui, só por mera dedução, escrevemos todo um romance. Com este livro, essa desconfiança por parte dos intelectuais, das pessoas da literatura, ficou resolvida. O Saramago torna-se indiscutível – excepto para aquelas pessoas que eram suas inimigas e, aconteça o que acontecer, continuavam a dizer: “este tipo é um patife!” E havia? Para ver como são as coisas: uma vez, um camarada meu, com responsabilidades no PCP, disse-me: “Essa coisa do Levantado do Chão não é nada do Saramago, foi escrito por um trabalhador agrícola.” Isto são coisas que se passam dentro da própria família! (gargalhada) Portanto, o Saramago é um astro que se eleva, com muitos obstáculos, contra tudo e contra todos, contra todas as expectativas, e que construiu, de facto, essa enorme obra literária notável, com estes romances e com os que vieram a seguir, pois ele escreveu até ao fim da vida.

Qual é o seu preferido? Escreveu um romance notável, que é, na minha opinião, o melhor dele: o Ensaio Sobre a Cegueira. Quando o li – porque ele, sempre que me mandava um original, ficava à espera e tinha de lhe dar logo a minha opinião, mesmo que não dormisse, caso contrário voltava a ligar: “Não gostaste?” –, pensei: “Isto é um livro extraordinário; já não lia nada que me entusiasmasse tanto há muito tempo.” É o mais despojado, o mais bem concebido, o mais bem construído. E deixa de ser um romance português para ser um romance universal. Nesse célebre dia 8 de outubro de 1998, eu estava para sair de casa quando no noticiário da TSF se estava à espera de saber quem era o Prémio Nobel da Literatura desse ano. Eles fizeram a ligação ao correspondente em Estocolmo e ouve-se o porta-voz da Academia Sueca a anunciar: “José Saramago”. Como só é possível na rádio, a TSF entra logo numa emissão contínua, ouvindo as reacções de toda a gente, de todas as partes do mundo. O Zeferino Coelho e o José Saramago estavam na Feira do Livro de Frankfurt e, ao contrário do que sucedera em duas ocasiões anteriores, nesse ano ele nem era apontado como um dos favoritos. É verdade. Foi extraordinário. Lembro-me que telefonou logo o João Soares, então presidente da Câmara Municipal de Lisboa: “Eh! Pá! Diga ao Saramago que eu vou aí buscá-lo de avião para o trazer para Lisboa.” E eu respondia que ele ainda precisava de passar por casa, para ir arranjar uma mala, porque não tinha roupa. [Desde que o subsecretário de Estado da Cultura de um dos Governos de Cavaco Silva, António Sousa Lara, excluiu o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo da lista de obras concorrentes ao Prémio Literário Europeu de 1992, por entender que era um ataque ao catolicismo, Saramago tinha ido viver para a ilha espanhola de Lanzarote.] “Não há problema”, retorquia João Soares, “alguém vai lá buscar a mala.” Logo a seguir, entra o Manuel Maria Carrilho, que era o ministro da Cultura: “Não, senhor! Quem o vai aí buscar sou eu!”... E depois, em Estocolmo, tudo com um enorme entusiasmo, as televisões mudaram-se para lá e transmitiam dali os noticiários. E, de vez em quando, o Saramago dizia: “Eu não nasci para isto...” Tantas vezes repetiu aquilo, que, num certo momento, respondi-lhe: “Pois, devo dizer-te que eu nasci. Sinto-me aqui perfeitamente, que nem peixe na água. E ainda hei-de cá voltar.” Lembro-me que, nesse dia ou no seguinte, Ana Maria Magalhães [co-autora de Uma Aventura… e, nessa altura, entretanto já casada com Zeferino Coelho] afirmar – e,

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essas vontades humanas que enche a máquina, porque só assim é que ela voa. Tudo isto é uma maravilha.


depois, o próprio José Saramago repetir – que gostaria que o próximo Nobel da Língua Portuguesa fosse o Mia Couto. O Zeferino Coelho, mais tarde, terá comentado: “É uma hipótese, mas não é a única do meu catálogo. Não me quero adiantar muito, mas ainda hei-de ir lá buscar o Nobel umas duas vezes – e não sei se não vou uma terceira. Depois, é que entrarei numa idade avançada e já não sei.” (Gargalhada) Não me lembro de ter dito isso, mas não o nego. Agora, era uma brincadeira. Em 1998, nós, portugueses achávamos que éramos o máximo: a Expo’98, o Nobel, parecia que só ganhávamos coisas… Isso foi antes de chegarmos à crise. Mas estava a pensar em quem? Podemos arriscar? Gonçalo M. Tavares? Mário de Carvalho [que, entretanto, saiu da Caminho]? Germano de Almeida? Ondjaki? Afonso Cruz? Sandro William Junqueira?… Felizmente, há aqui um conjunto de autores relevantes, dos mais velhos aos mais novos. Mas não vou avançar nomes (sorri).

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Como é descobrir um novo autor, seja um Gonçalo M. Tavares ou um Sandro William Junqueira? Qual foi a sua última surpresa? Esse entusiasmo que o editor sente – e já senti com essa gente toda – sucedeu mais recentemente com um livro da Isabela Figueiredo chamado A Gorda. Aquilo deu-me muito gozo. Não estou aqui a fazer comparações, mas julgo que estou a ter o mesmo tipo de sensação, enquanto profissional, que tive com esses grandes nomes. A Isabela Figueiredo já tinha publicado um bom livro memorialístico, chamado Caderno de Memórias Coloniais, na editora de Coimbra Angelus Novus [em novembro de 2009], e perguntou-me se não o queríamos republicar na Caminho [na 7ª edição, tem prefácios da escritora moçambicana Paulina Chiziane e do filósofo português José Gil]. Admito que se diga que é um livro muito bem escrito, mas é um testemunho [sobre a sua infância na (então) Lourenço Marques e, com a Descolonização, a vinda para Portugal no contingente de retornados]; é uma obra literária, mas é um livro-testemunho. Agora, A Gorda, apesar de ser autobiográfico, mete ali uma relação entre pai e filha misturada com os retornados [das ex-colónias] de uma forma muito interessante – e introduz na literatura uma força do real que me parece que estava a faltar [e que tanto pode ser uma referência doméstica como uma alusão a um facto da vida política, tudo resumido nessa magistral “Advertência”: “Todos os personagens, geografias e situações desta narrativa são mera ficção e factos reais.”]. A Isabela Figueiredo entregou-me o

original em Agosto do ano passado, começámos a trabalhar e o livro [à venda desde Novembro] é fantástico. Até neste sentido: aponta para um caminho e representa uma crítica relativamente a muito do que se escreve – e sobre o qual nós, só agora, estaremos a fazer esse juízo de valor – que, se calhar, é um bocado vazio de conteúdo. No fundo, chama a atenção para que a literatura ou é uma coisa que parte da vida ou, então, a gente lê e depois... “siga!” – lemos logo outro. Este é um livro muitíssimo bom. Ela vai continuar a trabalhar e vamos esperar pelos próximos títulos. [E, no entanto, A Gorda, de Agosto de 2011 a Agosto de 2016, demorou cinco anos a escrever.] É a sua última grande surpresa? É! Eu faço 72 anos hoje [dia em que decorria a entrevista], sou septuagenário, já dei entrada na sétima década. Eu gosto da Caminho: uma editora que teve um arranque difícil, mas depois entrou o Saramago, a Alice Vieira, a colecção Uma Aventura..., o Mia Couto, o Mário de Carvalho, tantos outros. Por exemplo, apesar de ser já uma escritora muito conhecida, respeitada e admirada, a Caminho publicou toda a obra da Sophia de uma maneira que foi muito mais longe do que alguma vez tinha ido – e ninguém ficou a pensar que ela fosse comunista por publicar na Caminho! Aliás, entendo que a Sophia continua a ser uma vítima pelo facto de ser mulher. A poesia da Sophia é muito mais rica do que a gente pensa. E é pena que ainda não tenha aparecido ninguém que pegue naquele corpus e mostre toda uma filosofia de vida que está por trás daquela poesia e que é uma coisa importantíssima – e que a coloca ao nível dos maiores poetas da História Literária. E qual é a fase presente da chancela? No caso da Caminho, teve vários problemas do ponto de vista empresarial: quando fechou O Diário foi uma fase muito difícil, pois a Caminho Literatura era uma secçãozinha de uma empresa que publicava um jornal e, entretanto, como uma espécie de tumor, cresceu, cresceu e cresceu, enquanto a outra encolheu, encolheu e encolheu e, a uma dada altura, os papéis inverteram-se: o que era importante, do ponto de vista empresarial, eram os livros, porque as vendas do jornal eram uma desgraça – de tal maneira que tivemos que o fechar e despedir os trabalhadores, com a respetiva indemnização prevista por lei. Depois, foram as falências das nossas distribuidoras – a DIG Livro e a CDL. Foi nessa altura, que surgiu esta proposta de compra da Caminho, que aceitámos, porque, se não o tivéssemos feito, não tínhamos ido a lado nenhum. Portanto, eu vim aqui para o Grupo Leya, com o José Oliveira, como


As suas descobertas são, por vezes, surpreendentes, porque não se limita aos meios puramente literários. Por exemplo, a Patrícia Portela, uma actriz-encenadora-performer, que criou espectáculos cénicos como T5 ou Wasteband ou Flatland, alguns depois publicados em livro (no início, ainda na editora Fenda, Operação Cardume Rosa e Se Não Bigo, Não Digo), desde 2007 é também autora da Editorial Caminho, começando com Odília ou as Musas Confusas no Cérebro. Vai sair agora um livro pequeno de contos da Patrícia Portela, muito literário no bom sentido (não tem literatices), que se chama Dias Úteis [foi lançado na Feira do Livro], com uma capa sugestiva – e até decidimos

fazer um pouco diferente do costume, pois, embora seja uma coisa discreta, vai ter capa e sobrecapa. Estou com uma grande expectativa: este livro que vem aí é belíssimo, uma pequena pérola. Para já não falar do Kalaf, do grupo musical de kuduro electrónico Buraka Som Sistema, cujo primeiro livro, o Estórias de Amor para Meninos de Cor, já está no Plano Nacional de Leitura. O próprio Kalaf dizia, numa entrevista, que há “um editor, o Zeferino Coelho, a quem devo tudo: generosidade, paciência… Eu demoro a escrever, demoro a decidir,” E acrescentava que, o original desse primeiro livro, “foi o Zeferino que mo arrancou literalmente das mãos.” Leio todos os dias, religiosamente, o Diário de Notícias e o Público. Certa ocasião, estava a ler o Público [em 2008] e, de repente, aparece uma crónica, com fotografia, do Kalaf Ângelo – que é uma personagem, um príncipe nascido em Benguela, um preto com ligações à vila da Catumbela. Li e, passado uma semana, voltei a ver a mesma fotografia e a ler a crónica [publicada no caderno P2, sob o título genérico “Um Dia Qualquer”]. E

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editores da Caminho, com a ideia de que, se calhar, isto já não é mais do que um nome. Mas, em todo caso, a Caminho esteve muito ligada a autores que ajudaram a marcar a Vida Literária na segunda metade do século XX, alguns entrando mesmo no século XXI. E talvez se consiga fazer alguma coisa com piada e, no século XXI, alguns livros importantes, pelo menos, sejam publicados aqui na Caminho.


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pensei: “este tipo escreve bem, sabe organizar um texto, com um jeitinho isto ia ao sítio. Não é o meu mundo, mas convém não esquecer que existem mais mundos. Deve ser um gajo interessante e, se calhar, devia falar com ele.” Um dia, estava aqui a conversar com outra funcionária da Caminho – que também está ligada a um grupo de propostas alternativas – e comentei que seria interessante falar com o Kalaf. Ela disse-me que uma vez tinham promovido um ciclo de “encontros improváveis” e num deles juntaram o general Loureiro dos Santos e o Kalaf – logo, arranjava-me o contacto. Telefonei-lhe a dizer que apreciava as crónicas dele e que gostava de lhe lançar um desafio. “Ah! você gosta?” Marcámos um encontro num café em Campo de Ourique e perguntei-lhe se não estaria interessado em escrever um romance. “Pense nisso.” Acabámos por publicar uma primeira antologia das suas crónicas [Estórias de Amor para Meninos de Cor, em novembro de 2011] e, depois, um segundo livro [O Angolano que Comprou Lisboa Por Metade do Preço, em dezembro de 2014] – e julgo que as crónicas deste eram de maior qualidade que as o primeiro. Depois, fiquei à espera que me entregasse um romance, mas ele mudou de ideias e já li boa parte das 150 páginas de um óptimo livro que ele está a fazer: é autobiográfico e romanesco, mas muito bem-feito e divertidíssimo. Só falta limar ainda algumas asperezas para ficar perfeito. Fala de Lisboa nos anos 80/90 com muita vida, mas é sobre os sítios, os bares, as coisas africanas. Tem uma estrutura narrativa muito boa, com uma acção centrada em Lisboa, desde um bar nas Picoas onde conheceu uma louraça de Loures até uma discoteca chamada Mussulo. E, de repente, penso: “Isto é Lisboa. Esta é a minha cidade.” Nesses anos – que são também os do Nobel – eu andava com o Saramago aqui por toda a parte. E ao meu lado havia esta coisa vibrante e eu não dei por nada. Ao ler este livro, verifico que o Mundo é um conjunto de Mundos – e nós vivemos no nosso, que é bom, mas temos de perceber que há outros. Eu agora estou quase no fim da linha, mas vou fazer a minha viagem de comboio até ao fim (risos).

Ou seja, a edição continua a apaixoná-lo como quando leu o Levantado do Chão? Precisamente! Felizmente estou nessa e já mudei de século. Não tenho século e dou-me com esta gente nova. Na minha opinião, até penso que a literatura portuguesa tem hoje um modo de ser cosmopolita que dantes não existia. Os autores anteriores eram portugueses na temática e nas nossas identidades (um era do Alentejo, outro falava de Mafra, etc.) – sei que são essas as nossas realidades, mas, por vezes, também se tornam limitativas. A nossa literatura era como a literatura africana. A literatura portuguesa – se lhe tirarmos o “portuguesa”, o que fica? Eu julgo que o Saramago rompeu com esta situação a partir de Ensaio sobre a Cegueira, quando escreve sobre uma cidade que pode ser em qualquer lado. Agora, uns fazem melhor que outros, mas isso é normal. Por exemplo, o Gonçalo M. Tavares... … até pode escrever sobre Lisboa, mas o seu livro é universal. Afinal, como o Fernando Pessoa era universal. Exactamente! E, é curioso ver que esta geração – mesmo se o Gonçalo M. Tavares ou a Patrícia Portela rompem – olha para a anterior com grande admiração e respeito. Agora, este cosmopolitismo, a que por vezes se tenta dar uma carga um bocadinho negativa, é uma virtude.


em banda desenhada Uma obra de arte pertence, antes de mais, ao criador que a imaginou. Contudo, também é um pouco dos que, apaixonadamente, dedicaram toda a sua vida, para que ela possa ser admirada, não só pelos seus contemporâneos, mas também por aqueles que ainda hão de vir... É essa história, feita de pequenos e grandes relatos, que aqui é narrada. Grão Vasco é o pintor Vasco Fernandes, mas é também o nome do museu que acolheu a sua obra e o fez ganhar o seu quinhão de eternidade.

uma obra E D I TO R A

À venda em livrarias e museus nacionais ou em www.edicoesesgotadas.com

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João Amaral estreou-se na banda desenhada, em 1994, com a adaptação de A Voz dos Deuses, de João Aguiar. A partir de então, tem realizado vários trabalhos de reconhecido valor, entre os quais se destaca a adaptação a banda desenhada do romance de José Saramago, A Viagem do Elefante. Colaborou em A Rua Sésamo e, em 2013, foi galardoado com o troféu Anim’arte pelo conjunto da sua obra, no âmbito do Festival Internacional de Banda Desenhada de Viseu.


“CAIS” Texto e fotografia por João Almada

1 I know it’s over And it never really began But in my heart it was so real Olho o rio no novo Cais. Não o viste assim, de cara lavada, não precisámos da cosmética para o tornar nosso. Procuro-te como se uma providência divina te transportasse para este lugar onde fomos felizes. Sei que te vou encontrar não te encontrando, porque sempre estarás aqui, no nosso Cais, das chegadas e partidas, olhando o horizonte. Take me out tonight Take me anywhere, I don’t care, I don’t care, I don’t care Caminhámos pela cidade, mostrei-te os meus sítios, o meu olhar, os meus percursos. Sempre terminámos aqui, mesmo quando a chuva ameaçava e as nuvens escondiam o pôr-do-sol. Cervejas estendendo dias e momentos, prolongando uma felicidade que sabíamos terminaria. Onde pela primeira vez choraste no meu ombro – as lágrimas foram parte de nós, quem as liga apenas à tristeza teria uma grande decepção connosco, as coisas são tão mais complexas e interessantes. And if the people stare then, the people stare oh I really don’t know and I really don’t care O fogo iluminava o tecto da cidade, uma multidão envolvia-nos e estávamos sós. Nós e o Cais. As memórias ocupam espaços e deles retiram as pessoas, como num filme em que só nós aparecemos focados enquanto conversamos, nos abraçamos, nos beijamos.

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No it’s not like any other love this one’s different because it’s us! Não sei definir o que fomos. Por vezes tentei. Descobri ser trabalho absurdo, os rótulos ficam para o vinho, eu fico com as memórias. Falámos muito, tantas vezes aqui onde a luz do por-do-sol é única e irreal, nunca falámos

de futuro, apenas uma fugaz troca de palavras pouco depois de nos conhecermos. Sabíamos que havia um prazo de validade. Não voltámos ao tema ignorando a crueldade do tempo, levitando sobre a inevitabilidade, vivendo o momento.

2 The sun shines out of our behinds Yes, we may be hidden by rags But we’ve something they’ll never have Passou um tempo curto, demasiado curto para um reencontro. Conversamos e olho a baía. Transporto-me para o Cais, onde tantas vezes nos abraçámos como não faremos agora. O Cais que será sempre nosso, onde passarei tantas outras vezes e me recordarei de ti. Estamos noutro cais, no teu cais que não é nosso, onde o nós é diferente. Mas será que no fundo não é tudo igual de uma outra forma?

3 I am human and I need to be loved Just like everybody else does As coisas modernas mantêm-nos de uma certa forma ligados, no fio da navalha desta amizade que bem teimamos em manter. Podemos não estar juntos, poderemos nunca mais nos abraçar como fizemos, mas não quero pensar na minha vida sem as tuas palavras, ainda que tecladas a duas mãos num telefone ou gravadas em divertidas mensagens. Amigos, sim, a distância não consegue quebrar amizades. Good times for a change See, the luck I’ve had --Well, the pleasure - the privilege is mine Grato. No meio de lágrimas só me recordava desta palavra. Porque finalmente me permiti aceitar momentos de felicidade em troca de lágrimas posteriores. Foste abrindo as minhas guardas, quando o negava mostraste-me o que era ter alguém ao lado. Ensinaste-me o caminho para querer construir ainda que o que construímos tenha sido etéreo.


Odeio despedidas e o Cais tinha de ser cenário da nossa, onde voltámos por uma última vez olhando o rio à luz da noite, contendo lágrimas e palavras, num silêncio que tudo dizia, gritava. Depois houve um quê de cinematográfico. Tenho uma fotografia que nunca te mostrei. Plano largo, tu ao fundo caminhando acabrunhado, também inundado por lágrimas. Ainda te voltaste para um último olhar. Eu sem saber o que fazer, querendo pular os torniquetes e abraçar-te mais uma vez, dizerte: fica, eu também fico. I want to live and I want to love I want to catch something that I might be ashamed of Morrissey tinha de estar aqui, como sempre esteve connosco, fazendo parte dessa indefinição que podemos chamar nós. Sei que sabes que o escutei quando regressei a casa e as lágrimas teimavam em correr, mesmo depois de parar a tomar uma cerveja no Cais, já só acompanhado da tua memória, e me socorrer de uma amiga para tentar

que falando não chorasse. Quantas vezes me chamaste chorão. Não sei que mais me chamarias quando percorri a casa, seguindo pista após pista encontrando os teus bilhetes, como numa caça a um tesouro de emoções desabridas. There is a light that will never goes out. Não regressara ao Cais depois da nossa despedida. Encontro-te de novo e de novo te abraço, agora em memórias. O cacilheiro parte, quase sou abalroado por uma jovem apressada de saia curta, um grupo de loiros turistas tira-me a vista do sol. Vou para junto da água, desse fluido que nos une na distância como se os pensamentos navegassem rápidos e se abraçassem. But don’t forget the songs That made you cry And the songs that saved your life Haverá sempre o Cais. (em inglês/itálico: Excertos de músicas de The Smiths, por Steven Morrissey e Johnny Marr)

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The sun shines out of our behinds No, it’s not like any other love This one is different, because it’s us


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fim, um quadro por Francisco Mallmann

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se eu te soubesse indo embora eu teria ido até a esquina e olhado para trás só para ter essa imagem antes de você


ÁGUA

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por André Serpa Soares

João Albuquerque Carreiras


“Água (quase tudo) e cloreto de sódio”, disse o químico-poeta sobre as lágrimas em geral, a “Lágrima de Preta” em particular. Outro poeta perguntava, antes dele, sobre o mar salgado, e quanto do seu sal são lágrimas de Portugal. “Água (quase tudo) e cloreto de sódio”. Portugal é um País em estado líquido. Somos mar e somos lágrimas. Pelo mar nos fizemos grandes. Em lágrimas nos fomos desfazendo e diluindo em autoproclamada, mais que tudo, pequenez. Pelo mar, chegámos a litorais desconhecidos e remotos, que fizemos nossos Pelo mar levámos brancos e pretos e mestiços para ainda mais longe e as lágrimas já caíam durante essas travessias e salgavam o mar Pelo mar fora fomos erguendo não castelos, mas um império de cartas Fomos tão longe que nos esquecemos de nós próprios E os que ficaram, que somos nós, imaginaram quimeras, que se esfumavam lá longe, para lá do mar Fomos tão grandes e tão senhores de nós próprios e tão brutalmente geniais, que não sei como não se afundou definitivamente sob tal peso este pequeno pedaço de terra que já nem sabe se é continente, se é oceano Tudo perdido e entregue a si próprio, terá chegado a hora de nos reencontrarmos Aqui estamos, como sempre, encavalitados no mar À tona, ainda e sempre. Um pouco à toa A cantar a ladainha, a sofrer o nosso fado A verter a nossa lágrima, pois claro “Água (quase tudo) e cloreto de sódio”. Sal. O mar Mas rimos. Também rimos. E temos sol, e praia, e comida gostosa, e vinho, e gente boa, alguma muito bela, e uma terra linda, e esta língua, e tudo, ou quase tudo Não deixámos de ser um País em estado líquido Não deixámos de ser mar Mas somos, sobretudo, o que sempre fomos, acima de tudo o que já se disse Somos capazes de amar e respeitar Não somos os únicos, não temos o exclusivo Mas é esta a marca que levamos nas velas das novas caravelas

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É esta a nau que navegamos pelo mundo


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LISBOA Alexandre-Yacine SOULEYE


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POSTAIS PERDIDOS Por João Albuquerque Carreiras Rio de Janeiro 29-XI-08 Minha querida, Escrevo em frente a uma Original “estupidamente gelada”, sentado num boteco, essa maravilhosa invenção brasileira, onde vejo gente passar e deixo o tempo correr, diria antes andar, como se o dia não fosse ter um fim e a qualquer momento o chegasse o Vinicius com o Tom para tomar um whisky na mesa do lado. Esperava encontrar um Rio imaginado por horas passadas escutando Bossa o Samba, mas nada me preparava para isto. E o isto é tão indefinível e difícil de enumerar. Podia falar-te do Jardim Botânico e do Parque Lage - prodígios da natureza moldada pelo homem onde o ruído da cidade não entra -, do Centro - onde Portugal está omnipresente na belíssima arquitectura colonial, em ruas onde o tempo parece não ter passado, não fora a intenso trânsito e a loucura do comércio popular -, da incrível beleza da Lagoa, das maravilhosas picanhas e caipirinhas, das praias cheias de boa energia e gente bonita, de olhar a cidade desde os pés do Cristo como que levitando. Mas o Rio vale mais como conjunto do que como soma das partes, porque o melhor do Rio é deixarmos que a mata atlântica nos abrace e embale nessa forma carioca de ser e viver a cidade.

qual nos tornamos vulneráveis a primeira vez que caminhamos no calçadão, olhando a praia e o sol por trás dos “Dois Irmãos”. As minhas desculpas por não te ter levado a sério. Claro que houve riscos que teriam sido desnecessários, como subir à favela de moto-boy para beber um chope com a cidade aos pés ou ir a Santa Teresa no velho bondinho, pendurado do lado de fora, cruzando os Arcos da Lapa enquanto pensava que depois disto não voltaria a ter vertigens. As viagens são tão feitas destas histórias e destes momentos irrepetíveis. Não chegou para me sentir carioca, foi muito fugaz e sei que apenas toquei na rama da alma da cidade. Ainda me senti um turista, mas tenho a certeza de querer voltar porque o feitiço tomou conta de mim e eu não me quero libertar dele. Não saí dizendo adeus, mas até já. Beijos, João

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Ouvi amiúde os teus elogios a esta cidade onde tantas vezes estiveste e aos quais sempre atribuí o exagero de alguém apaixonado. Até que aqui cheguei. O Rio tem mesmo um feitiço ao


Alexandra Lucas Coelho

por João Moreira

Carina Martins

“Sempre quis escrever, desde que me lembro. Os livros tinham todas as vidas. Passei a adolescência a ler romances. Lia os portugueses, os franceses, os ingleses, os russos, os alemães, mais tarde os americanos, os japoneses, os levantinos. O mundo não acabava, eu lia e queria sair pelo mundo...” E saiu, ao serviço do jornalismo.

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Como repórter da Antena 1 e do Público calcorreou o Médio Oriente e o Afeganistão, o Norte de África e a América do Sul, contando-nos histórias de guerras e de esperança, de mágoas e de redenção. “Histórias só dos homens” e dos seus conflitos, desmistificando pacientemente as nossas arrogantes certezas e estimulando-nos a olhar através dos olhos dos outros. Com uma visão humana, próxima, tantas vezes arrepiante, mas sempre absolutamente realista, tem o dom de nos inspirar a cada crónica, a cada reportagem, a cada livro. Foi assim a partir do Hotel de Valentine em Je-

rusalém de onde nos mostrou o interminável drama palestiniano, do Kabul Lodge de onde pudemos apreciar a beleza das rosas nas rotundas afegãs ou da sua casa no Cosme Velho, no Rio de Janeiro, de onde nos levou a conhecer as entranhas do Vigário Geral, a subir ao morro para assistir a um baile funk ou a participar no desfile da Mangueira. A Alexandra queria sair pelo mundo... saiu e levounos com ela. Em 2012 aventurou-se no romance com “E a noite roda”, por considerar que o “romance é a liberdade em extensão. Um território de experimentação com um fôlego considerável,


No ano em que saiu da sua editora de sempre, a Tinta da China para a Companhia das Letras e em que escreveu a sua última crónica para o Público, regressando à rádio, Alexandra Lucas Coelho acedeu a conversar com a Bica num dos seus espaços favoritos de Lisboa, o Jardim da Estrela. Chegas ao romance através do jornalismo e depois de teres editado um conjunto de livros de viagens e crónicas que abarcam uma larga experiência como repórter em locais tão distintos como a Palestina e o México. “Oriente Próximo”, “Caderno Afegão”, “Viva México” e “Vai Brasil” resultam de experiências diversas em regiões do mundo muito díspares. Qual foi a que mais te marcou? Alexandra Lucas Coelho: Não consigo responder a isso, porque uma coisa vai levando a outra. Não consigo escolher uma experiência. É um processo orgânico em que, por vezes não regresso aos lugares, por vezes regresso. Aliás, no ano passado voltei a Israel e à Palestina onde não tinha ido durante 7 anos e aonde vou voltar agora em breve, como voltarei ao Brasil. É extremamente orgânico, tem a ver com ter saudades dos lugares, com criar relações, amigos… há lugares que atravessei e a que nunca mais voltei, há lugares onde morei, criei relações fortes, amigos. Tenho grandes amigos no Brasil, são pessoas que fazem parte da minha vida. Jerusalém também é uma cidade que faz parte da minha vida, o Médio Oriente em geral, mas especificamente Israel e a Palestina. Ao mesmo tempo há lugares novos que imagino a acontecerem, por exemplo, o Japão é um lugar onde quero ir. Penso recorrentemente nisso, tenho a ideia de percorrer alguns lugares que têm a presença portuguesa, sobretudo Nagasaki, mas vários outros por diversas razões, isto para te dar um exemplo de um lugar onde nunca estive e onde quero ir. Mas o que me ocupa a cabeça nos tempos mais próximos são os romances, embora pelo meio possam acontecer outras coisas.

Agora estou a trabalhar numa coisa diferente de tudo o fiz, mas digamos que os eixos principais são 2 ou 3 romances próximos. De algum modo articulam-se com lugares. Os lugares são sempre importantes na tua escrita. Por exemplo, em “E a noite roda”, aquele hotel em Jerusalém fez-me imenso lembrar aquele outro de que falas em “Oriente Próximo”. Sim, sim, mas “E a noite roda” é como se fosse os bastidores de “Oriente Próximo”. Sendo livros completamente diferentes há uma relação natural entre os dois. Vou voltar agora ao Médio Oriente e faz justamente 5 anos que saiu “E a noite roda”, que vai ser reeditado. (NE: “E a noite roda” foi, entretanto, reeditado sob chancela da Companhia das Letras, nova editora de Alexandra Lucas Coelho). Este regresso tem a ver com o aniversário da guerra dos Seis Dias, os 50 anos da ocupação da Cisjordânia, de Gaza e de Jerusalém. Mas sim, vejo “E a noite roda” como um romance em que deliberadamente lido com materiais autobiográficos que derivam da experiência que está contada em “Oriente Próximo”. Era uma curiosidade por ter reparado na proximidade que existe em algumas descrições. Mas, voltando à pergunta inicial, em todas as experiências de viagens que passaste a livro e mesmo nos teus três romances, “E a noite roda”, “O meu amante de Domingo” e agora em “Deus-dará”, é notória uma preocupação para com o outro e para a forma como o outro olha para nós. Seja ele um afegão cansado de guerra, um palestiniano em luta por um país, um jovem estudante em busca do seu sonho na Praça Tharir ou um descendente de escravos nas favelas do Rio de Janeiro. Esta preocupação em mostrar o outro lado da História, o lado menos visível, o lado dos perdedores, dos humilhados é algo que procuras sempre ou surge-te durante o processo de investigação e escrita? Vou tentar responder-te assim, sinto que há algo de comum nesse processo, que antes de mais parte da minha curiosidade, de uma vontade de estar ali, de querer saber, mas é uma coisa tão simples como tornar o outro visível. Por exemplo, se estás a falar da história da chegada dos portugueses ao Brasil em abstrato e dizes - Chegaram os portugueses ao Brasil e viram lá uns índios. - fica assim uma espécie de massa abstracta, como se os índios fossem só um bando de pessoas, e isto acontece em geral em toda a história colonial. A história é sempre feita pelos vencedores e pelos que ocupam e isso faz com que, do outro lado, haja uma espécie de massa que não tem rosto, não tem histórias, não tem nomes, não tem diferenças, não tem nuances. A própria ideia de que os

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que ninguém conseguiu ainda circunscrever além disto: prosa, criativa, de extensão longa, escrita para ser lida.” Logo nessa primeira experiência ficcional arrebatou o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Regressa dois anos passados, mudando radicalmente de estilo e de estrutura narrativa com “O meu amante de Domingo”. O ano passado publicou “Deus-dará”, um fresco da “Cidade Maravilhosa”, de onde parte para uma viagem no tempo até à chegada dos europeus ao Novo Mundo, que, pela mortandade que se segiu, ela denomina como “a maior catástrofe que um punhado de homens alguma vez trouxe a milhões de homens”.


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brancos chegaram à América e encontraram lá uns índios, sem qualquer outra distinção, é absolutamente redutora. Os índios eram todos diferentes uns dos outros, tinham milhares de línguas, distinguiam-se de várias formas, mesmo pensando exclusivamente na América do Sul. Isto para dizer que talvez esta seja uma tentativa de abrir e não de fechar, ou seja, de criar uma amplitude em que a verdade é feita de muitas verdades, de muitas contradições, de muitas nuances. Aquela célebre frase do Montaigne “bárbaro é todo aquele que é diferente de nós” mostra bem como “outro diferente de nós” fica numa espécie de nevoeiro vago em que nada se distingue, portanto, a tentativa é mesmo essa, de dar a conhecer aquilo que é contraditório, que é complexo, porque se fizermos o esforço de olharmos para nós, para a Europa, para os muitos mundos que são a Europa e transpusermos para os outros, percebemos que essa riqueza existe do outro lado.

Gostei muito da experiência de fazer os vários livros de viagens que são todos diferentes uns dos outros. O “Caderno Afegão” é um diário, ”Viva México” não é um diário, constrói-se por zonas do país, “Vai Brasil” é um livro de crónicas. São experiências diferentes justamente porque eu não os queria repetir e se voltar a ir por aí, a fazer crónicas de viagens, vou querer fazer de outra forma. Nos romances é a mesma coisa, não me imagino a repetir a experiência que fiz em “Deusdará”. A minha ideia é que cada texto, cada universo em que eu queira mergulhar possa ir encontrando a sua forma, e que isso seja uma coisa orgânica. O próximo romance de que já tenho uma ideia, não sei como se vai construir, mas sei que não tem a ver com a forma que está para trás. Isso aplica-se tanto à linguagem como à estrutura. Fala-se pouco das questões de estrutura, mas num livro grande como “Deus-dará” descobri que é uma questão decisiva.

Em “Deus-dará”, no momento em que o narrador fala das viagens dos chineses no século XV, um século antes da chegada do Cabral ao Brasil, com barcos gigantescos que levavam milhares de homens, muito maiores que as naus, ele diz que a ideia é deslocar o prisma, é deslocar o mapa. Nós temos esta espécie de ideia padrão do mundo em que olhamos o mapa com a Europa e Portugal mais ou menos no centro e depois os outros mundos nas pontas e basta deslocarmos o olhar e vermos o mapa dos chineses, por exemplo, Portugal passa a ser uma pequena bolota que fica lá nos confins. Então, é muito importante este exercício de constante redeslocamento do mapa, de desvio do prisma de modo a que possas ver de outra perspectiva.

Mas que nesse caso de “Deus-dará” te apareceu de forma imediata.

Isto tanto se aplica a essa vontade de viajar pelo mundo, porque o próprio movimento é a única forma de ires, de estares, de veres, como a escrita. Levando isto para o campo literário, eu, a certa altura, quis começar a fazer romances porque a literatura é um território mais livre em que não estou obrigada a todas as regras do jornalismo, um território onde essa multiplicação de ângulos é infinita porque todos os recursos que eu possa experimentar no território da literatura, no território do romance são possíveis e válidos. A minha ideia é por cada romance experimentar caminhos diferentes, recursos narrativos e não narrativos diferentes, em que o texto possa ser uma viagem por vários modos de atenção, uns mais físicos, outros mais reflexivos, outros mais impressivos, que haja várias energias no texto para que essa visão prismática, essa experiência prismática da realidade se possa ir conseguindo, portanto, vejo cada livro como uma experiência. Não me interessa repetir formas.

Sim, a ideia da estrutura apareceu de forma imediata, embora dentro da estrutura a maneira como se desenharam os vários caminhos foi sendo construída e isso é muito interessante. O mecanismo para poder construir essa tal realidade prismática, no caso de um livro grande como “Deus-dará” é decisivo. A estrutura de “Deus-dará” é bastante rígida, são 7 dias, em que os ímpares são uma panorâmica sobre a cidade, com diálogos, discurso directo, etc., e os dias pares são zooms sobre as personagens. Portanto, há essa alternância entre a panorâmica e o zoom, para que, de algum modo, se reflicta uma experiência mais ou menos distanciada, como se estivéssemos a olhar por uma câmara. No fundo, uma experiência mais solta e depois outra mais focada em cada um daqueles 7 protagonistas. E o último dia, o sétimo, é uma confluência de todos os recursos narrativos. Numa espécie de explosão narrativa. É essa a ideia. Portanto, a questão da estrutura é interessante como mecanismo. O mecanismo vai desenvolvendo a história e ao mesmo tempo a história vai desenvolvendo o mecanismo. É um caminho biunívoco e isso é igualmente válido em relação à construção das personagens. Nunca tinha experimentado num romance construir tantas personagens que não existiam, no sentido em que não correspondem a amigos ou conhecidos. Sou eu e são mil pessoas em mil bocadinhos que estão dentro delas, mas são personagens construídas do zero.


Ainda bem! A criação das personagens é um processo quase mágico, porque eu crio as personagens tanto quanto elas me vão criando, no sentido em que me vão levando em várias direcções e me vão transformando. Isto é absolutamente literal. Passei vários anos a escrever este livro e é impossível não ter sido transformada por ele. Estas personagens de “Deus-dará” levaram-me por caminhos e direcções que nunca teria seguido se elas não existissem. Se fui estudar antropologia, se fui estudar os cronistas portugueses do século XVI, se fui por ali ou por acolá, foi porque as personagens foram pedindo e isso modificou-me. A experiência de um livro é criar e ser criado pelo próprio livro e isso é muito intenso, é uma experiência de vida. É viver o próprio livro. Por outro lado, o livro obrigou-te a viver a cidade de outra forma, porque partes do teu habitat natural no Rio, o Cosme Velho, e vais-te expandindo ao longo da cidade, imagino que num reflexo da experiência da tua própria vivência, para depois seres obrigada a ir muito mais longe, a investigar, a estudar a própria história da cidade. Imagino que este seja um processo que cause transformações... ...na forma como vejo a cidade. Voltei lá agora, dois meses no Brasil, depois de publicar o livro... Numa espécie de roteiro de “Deus-dará”. Sim, foi uma viagem em que estive um mês no Rio e um mês na Bahia, que também tem a ver com o final do livro. E aonde, curiosamente, nunca tinhas ido. Sim. Só tinha estado em Salvador 24 horas havia 25 anos numa visita como repórter, portanto, não posso dizer que conhecia a Bahia. Foi de facto a primeira vez em que viajei pela Bahia. Mas, a forma como fui até ao Rio depois de este livro estar pronto e ter saído, foi diferente. Eu sabia muito mais sobre a cidade depois de o ter escrito. Muitos lugares já tinham mudado, porque os lugares estão sempre em movimento. Há coisas que estão no livro que já não existem, há um local, o Hotel das Paineiras, que é uma ruína lendária do Rio de Janeiro e que aparece no livro justamente como uma ruína que vai ser transformada naquele processo pré-copa, pré-olimpíadas, e que agora quando lá estive já tinha sido transformado, já não existe a ruína, aquilo é um centro de visitantes

com parque de estacionamento, restaurantes e por aí fora, é outra coisa, não tem nada a ver. Portanto, de alguma maneira, há lugares que ficaram cristalizados no livro porque já não existem como lá estão descritos, isso é engraçado, é uma experiência de mutação, outra forma de viajar. Mas depois, há outra viagem que é quase de máquina do tempo e que é a de atravessar as várias épocas da cidade, as várias camadas da cidade. Essa experiência também te deu outro olhar sobre a cidade. Sim, claro. Foi já na recta final da escrita do livro que eu mergulhei na história mais antiga. A partir do quarto, quinto dia comecei a cruzar antropologia contemporânea com a história do século XVI e depois com a história colonial e claro que aprendi muito sobre a cidade que não sabia quando lá morei, mas é esse jogo de a vida ir desenterrando a história e a história ir levando a vida noutra direcção que está contido neste livro. Os maias têm esta ideia dos vários tempos ao mesmo tempo, de cada momento ser sempre múltiplo e conter estas várias camadas e isso no México é muito forte porque nós vemos permanentemente essa confluência de tempos, e de alguma maneira, foi isso que aconteceu neste romance. A história está viva! Quando o narrador fala em puxar esta corda de mortos que liga Portugal e o Brasil e que está à volta do nosso pescoço, ela está viva. Numa das minhas idas ao Porto para falar deste livro, umas das coisas que mais me emocionou foi quando apareceu uma estudante brasileira negra, uma rapariga da periferia de Brasília que está a fazer doutoramento no Porto e que deu um testemunho sobre o livro que tinha a ver com a forma como ela, mulher, brasileira, da periferia de Brasília, negra, chegando a Portugal para estudar, embateu com estes 500 anos de história, com estes equívocos todos e a dificuldade dela em explicar quem era e de onde vinha e a dificuldade em explicar a história que estava para trás. No fundo, o choque que ela sentiu. E o facto de ela sentir este livro de alguma maneira como uma de ponte para este diálogo, só isso já teria valido pena. Foi uma coisa que me emocionou muito porque era como se ela estivesse a dizer - Estou aqui em carne e osso, esta história que está aqui e que atravessa estes 500 anos, sou eu! Ela em certo momento disse “eu sou o resultado desta história. Com este cabelo, com esta pele, com esta cor, sou o resultado desta história”. Isto para dizer que esta história está viva, não é uma história morta. Um ponto que se tornou fundamental ao longo da escrita foi esta ideia, não de substituir

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Isso é curioso, porque o próprio narrador, que não és tu, tem afinidades e antagonismos com essas personagens com uma intensidade que passa para os leitores. Isso torna a leitura entusiasmante.


uma versão optimista e gloriosa por outra versão negra ou pessimista. Não se trata da substituição, mas de um acrescentar à versão temos. Há muito esta tentação de reduzir tudo a uma imagem, a uma verdade, a uma versão e do que eu estou a falar é de acrescentarmos. O que eu digo é que se temos os Jerónimos, o Padrão dos Descobrimentos, o Vasco da Gama e esta glorificação dos heróis, pensemos que houve índios, houve escravos, que estas pessoas existiram, tiveram descendentes e que esta história é parte do presente. Portanto, eles têm que ser postos na história e o tributo a estes mortos não foi feito, não é visível, não há um tributo físico que inscreva esta memória numa cidade como Lisboa que foi capital do Império. Milhares de pessoas passam por Belém, visitam e passeiam entre aqueles vestígios do Império sem se aperceberem que há uma parte da história que foi varrida e que tem a ver com a violência, que tem a ver com os mortos, com a parte mais negra de toda a história colonial. Não foram só os portugueses que fizeram isto, muitos outros o fizeram, mas aqui estamos a falar de nós, portanto o que digo é que sinto falta da inscrição dessa imagem e quero que quem está na escola hoje possa ter essa visão múltipla da história. Ainda não fui a Lagos, onde agora existe um roteiro da escravatura, mas quero ir. Foi inaugurado o ano passado e tenho muita curiosidade. Obviamente que Lagos tem muita proximidade a Sagres e por isso faz muito sentido que ali, naquele ponto, haja esse museu, mas seria fundamental haver algo similar em Lisboa. Além do mais, acho que, no momento em que Lisboa se tornou neste íman de viajantes e turistas e em que supostamente revive uma vocação atlântica, global, cosmopolita, seria óptimo que pensássemos em inscrever nesta paisagem que se está a construir, todas estas ligações que têm a ver com povos que foram violentados, descriminados, deslocados, todos estes povos com quem os portugueses se cruzaram, para que pudessem encontrar em Lisboa, no lugar de onde saíram as naus, este diálogo com a história, este tributo com o que aconteceu, esta memória. Isto seria fundamental e penso que este seria o momento para promover esse tributo.

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Até porque, a maior parte das pessoas não tem noção de que talvez um milhão de índios tenham morrido e que quase seis milhões de africanos tenham sido retirados de África por Portugal, portanto, comecemos pelo básico. As pessoas têm de ter uma noção concreta de que isto aconteceu e não apenas aquela noção vaga de que houve gente que morreu por causa dos impérios. Há muitas histórias que se podem contar para se tornar isto mais

concreto, para fazer emergir de novo esta parte da história. E Portugal teria o dever, teria a vocação, enfim, a vocação não sei se teria, mas penso que seria revolucionário, seria politicamente um sinal importante, num momento em que provavelmente nunca esteve tão agudo este perigo do ressurgimento do ódio ao outro, do olhar o outro como inimigo, do olhar o outro como aquele que nos vem roubar, seria um sinal muito interessante, uma inspiração, que este país minúsculo que já teve o mundo na mão no melhor e no pior sentido, realizasse este tributo em relação a esses outros que pertenceram à história e que agora estão por cá a estudar no Porto, em Lisboa, a morar no Martim Moniz, a ter uma loja no Intendente, a esses outros que podem ser refugiados Sírios ou tetranetos dos mouros. Porque achas que isso não acontece? Porque existe uma grande dificuldade e uma resistência, que são provavelmente comuns a todos os ex-colonizadores, de olhar para o passado. No “Deus-dará”, a certa altura, o narrador fala de uma espécie de dificuldade que os portugueses têm em se transformarem. Uma espécie de resistência à transformação que é atenuada, por outro lado, por este mito de que o português se adapta e se mistura. Mas a verdade é que essa mistura foi feita de uma forma violenta. A mestiçagem tem essa raiz violenta, há uma imposição sobre o outro, do homem branco sobre a mulher indígena e a mulher negra, é dai que vem a mestiçagem. Sem dúvida os portugueses têm uma capacidade de adaptação, que justamente por ser adaptação não é transformação, ou seja, a minha ideia é que o português tentou sempre mais mudar os outros do que ser mudado pelos outros. Os portugueses misturaram-se muito mais fisicamente do que os espanhóis, do que os ingleses, do que os protestantes, porque eles levaram muito mais mulheres do que os portugueses, portanto o povoamento feito por Portugal foi através desses cruzamentos, mas em primeiro lugar de uma forma violenta e depois tinha como objectivo o povoamento colonizador, que sempre teve um propósito transformador, no sentido religioso, mas não só, de mudança da língua, da religião, dos costumes, portanto, de imposição. Aquilo que eu conheço das comunidades portuguesas emigrantes no mundo, são núcleos que mantêm bastante a sua identidade, adaptam-se, mas não se fundem. Não é a mesma coisa adaptação e transformação e seria muito interessante que aproveitássemos este momento para começar a desmanchar essas ideias feitas e procedêssemos à devolução da dignidade histórica a essas figuras como parte da história, como pessoas


Mudando de tema, a Tatiana Salém-Levy que entrevistei há tempos, comentava que os portugueses têm um preconceito em relação aos autores brasileiros, que são muito publicados por cá, mas muito pouco lidos. Tens a mesma opinião? Eu diria que é muito surpreendente para mim que tantos bons escritores brasileiros tenham sido publicados aqui com pouco eco. Aliás, nem é pouco eco porque até são entrevistados e têm espaço na imprensa, mas, de facto, são pouco lidos. Não sei se a palavra certa é preconceito. Sei que existe uma resistência ao português do Brasil. Quando fui morar para o Brasil e comecei a fazer uma experiência nas crónicas de incorporar vocabulário para que esse vocabulário de alguma maneira evocasse o lugar, senti uma enorme resistência, recebi imenso correio em relação a isso e percebi que isso irritava parte dos leitores. Mesmo em relação a “Deus-dará”, alguns leitores falaram-me na dificuldade que sentem em relação à linguagem brasileira do livro, porque este livro cruza várias variantes da língua, portanto em relação aos diálogos que têm sintaxe brasileira, alguns leitores falam disso. Não sei se é preconceito, porque não julgo que as pessoas o sintam assim, mas que existe uma resistência não tenho dúvida. Como há uma resistência do outro lado. Também é verdade que no Brasil existe uma dificuldade em relação ao texto português de Portugal. Existe uma dificuldade em relação ao texto escrito e em relação ao discurso oral, por exemplo, os filmes portugueses têm que ser legendados. No entanto também é justo dizer-se que há uma atenção e uma enorme generosidade em relação aos autores portugueses no Brasil, sobretudo nos meios académicos e na imprensa.

Mas em relação a essa dificuldade de parte a parte, o Acordo Ortográfico não resolveu nada, ainda agravou. Sim, não acho que solução seja o Acordo Ortográfico. Agora gostaria de dizer é que a diferença nos enriquece e por isso acho que os livros brasileiros devem ser publicados em Portugal tal como foram publicados no Brasil e vice-versa. Os textos não devem ser alterados, devem ser mantidos como estão no original. Para terminar, diz-nos muito rapidamente dos teus próximos projectos. Já falaste do livro para crianças que estás a preparar, para quando o próximo romance? É sempre difícil estar a prever, mas eu estou a trabalhar neste novo livro que espero que saia no outono e vou trabalhar num conto longo, e depois vou dedicar-me ao próximo romance para sair em 2018.

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de carne e osso que tinham vidas, estruturas sociais, que tinham uma cosmogonia, que tinham artes. Porque isso só nos pode fazer bem, só nos pode tornar mais fortes, só pode ser uma inspiração, só pode ajudarnos a viver este momento do mundo que é tenebroso.


Padre António Vieira Uma Homenagem por António Meira Henriques

Por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de lisboa, o Padre António Vieira é agora evocado, desde o passado dia 22 de Junho de 2017, na cidade de Lisboa onde nasceu, em 1608, na freguesia da Sé. Finalmente, a cidade capital de Portugal presta uma justa homenagem a esta figura maior da cultura portuguesa do século XVII, ao inaugurar uma estátua de vulto, no Largo Trindade Coelho, diante da Igreja de São Roque e da antiga Casa Professa da Companhia de Jesus, onde residiu Vieira sempre que chegava a Lisboa, em trânsito das suas múltiplas viagens missionárias entre Portugal e o Brasil, hoje edifícios que compõem a sede da Santa Casa. Este monumento é o culminar de uma campanha que remonta a 2008, iniciada por ocasião das Comemorações do “Ano Vieirino”, porém agora levada a cabo pela Santa Casa, em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa e a Província Portuguesa da Companhia de Jesus. A escultura é obra do escultor contemporâneo Marco Fidalgo, que foi selecionado entre 16 artistas através de um concurso promovido pela SCML. A imagem que agora se pode contemplar, de longe e de perto, realça características marcantes do célebre jesuíta - um destacado missionário, pregador, escritor, diplomata, defensor dos direitos dos povos originários do Brasil e dos judeus portugueses exilados. Com efeito, a obra capta de um modo admirável os seus traços fisionómicos dominantes – um olhar largo e simultaneamente destemido, fixando-se ao largo no Tejo, de onde embarcara tantas vezes, ou no longínquo horizonte para onde se dirigia - o Brasil dos sertões e da floresta amazónica, seus campos de missão preferidos, e ainda o gesto rasgado do pregador que anuncia a Fé e o Evangelho, bem assinalado pela cruz que se desprende da sua mão anunciadora. Mas o orador e o missionário infatigável não deixa de revelar aqui ainda o lado ativista de homem de Deus imbuído de gestos solidários, nomeadamente protegendo os pequenos e os desprezados, nesta obra simbolizada pelas três crianças indígenas que ele defende e ampara, comunicando com elas no seu idioma nativo e que, por isso, lhe chamavam “PAIAÇÙ” (O Grande Pai) – um gesto de misericórdia a sugerir neste espaço a benemerente missão da Misericórdia de Lisboa em favor dos mais desprotegidos.

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Vieira não era homem de doutrinas abstractas ou filosóficas, mas essencialmente um profeta que proclamava caminhos de Redenção… Foi, por isso, um visionário, um criador de utopias através das quais arquitectava uma visão de Esperança para o Portugal do seu tempo e, por extensão, do Brasil. Talvez esta figura marcante do século XVII tenha muito a dizer ainda ao nosso tempo…


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Lugar aos Novos Liberdade Poema por Duarte Cordeiro de Sousa

gasto-me no abuso do tempo e do corpo para deixar escrito nas linhas da vida o meu primeiro e verdadeiro nome, liberdade, porque sou a viagem de um dia até outro mas aprendi a ler além dos ponteiros do relógio e a saber fazer parte de uma obra de arte comum, liberdade, e por isso dou tudo o que posso ao mundo e em troca só peço poder ser tão meu como um eu que nunca tenha aprendido a não o ser, liberdade, quero um regresso às origens sem a vertigem do medo, quero um assalto ao presente para a celebração da mente, quero uma teia de ideias como base de uma nova idade, liberdade, eu quero liberdade, eu peço liberdade, aliás, eu exijo liberdade, porque eu sou liberdade é o meu primeiro e verdadeiro nome, liberdade.

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escrito a 6 de janeiro de 2017, bar da praia da torre


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Ilustração Pedro Albuquerque


Companhia de Teatro de Almada

“Sempre quis levar às pessoas um teatro de bons textos, boas ideias. Um teatro capaz de tocar.” Joaquim Benite “O Peter Stein tem uma frase muito engraçada que é a seguinte: Para mim o teatro começa quando o Stanislavski se vira para um actor e diz “não acredito, faz-me acreditar em ti.”” Rodrigo Francisco

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Lisboa início dos anos 70. A cidade fervilhava de actividade política e cultural. De Paris chegavam notícias do Maio de 68 e nos liceus, nas universidades, nas associações, organizavam-se tertúlias, saraus de leitura, sessões de poesia, grupos de teatro. É neste ambiente de entusiasmo cultural que surge a Companhia do Teatro de Almada, idealizada por um grupo de jovens estudantes do Liceu Francês, denominado Grupo de Campolide, fundado em 1971 no Campolide

Companhia de Teatro de Almada por Revista Bica

Atlético Clube. Talvez este Grupo não passasse de um rodapé na história do teatro nacional, não tivesse ousado convidar para encenador o mais temido crítico do teatro da época - Joaquim Benite – que no Diário de Lisboa não perdia uma ocasião para “desancar” os espectáculos mais tradicionalistas. A verdade é que, não só o convidaram, como ele aceitou, dando início a uma das mais relevantes e interessantes companhias de teatro nacionais. Estrearam-se com O Avançado-centro Morreu ao Amanhecer do dramaturgo argentino Agustin Cuzzani, com música original de Carlos Paredes. O espectáculo teve enorme impacto, sobretudo pela ousadia da escolha e da encenação. Por outro lado, como Joaquim Benite era jornalista, conseguiu grande repercussão nos jornais, numa época em que o teatro tinha espaço garantido na imprensa nacional. Estava dado o mote para o sucesso do Grupo.


Entretanto dá-se o 25 de Abril e a companhia decide profissionalizar-se. Continua a fazer espectáculos e instala-se no Teatro da Trindade, onde estreia 1383, 0 Santo Inquérito, de Dias Gomes. No âmbito da descentralização cultural promovida pelos governos desse período, à qual estava associada a descentralização teatral, o grupo decide instalar-se em Almada onde já actuara algumas vezes na Academia Almadense. No entanto, o principal motivo que leva Joaquim Benite a atravessar o Tejo é a busca de um novo público que fugisse ao tradicinal eixo Rossio e Chiado, um público de operários. O primeiro espectáculo que a companhia realiza em Almada, é Aventuras de Till Eulenspiegel, de Charles de Coster, para logo de imediato, em 1978, apresentar A Noite, a primeira peça de teatro escrita por José Saramago, na altura um desconhecido, e que retrata a história da noite de 24 para 25 de Abril de 1974 vista dentro da redacção de um jornal. Com A Noite, Joaquim Benite inicia a escolha de um repertório marcadamente ideológico para o Teatro Almadense, num período em que teatro rimava com acção política, como se torna notório com a apresentação de Excepção e a Regra de Bertolt Brecht, dirigida por dois encenadores alemães da RDA que convida para o efeito. Não fora por acaso que a Companhia se instalara em Almada. Como confirma Rodrigo Francisco, actual Director Artístico do Teatro Municipal de Almada: era óbvia a fortíssima relação de Joaquim Benite com o Partido Comunista Português, bem visível, aliás, na peça 1383, 0 Santo Inquérito, que ainda tinha sido apresentada no Teatro da Trindade. Ele monta o espectáculo a partir da Crónica de Fernão Lopes, mas sob uma prespectiva absolutamente marxista, de luta de classes. Como li num artigo: “A revolução em que toda a burguesia era progressista.” (Risos). Há um momento na peça em que um camponês se dirige ao Mestre de Avis tratando-o por camaradas (gargalhada). Isto dá para termos uma ideia do repertório que se fazia na altura e, sobretudo, do clima político que se vivia no país. A Companhia fica instalada no teatro da Academia Almadense até 1987, ano particularmente difícil, não só porque se vê obrigada a sair da Academia por alguns problemas

com a Direcção da Associação Filarmónica, como por ser o ano em que se vê sujeita a uma drástica redução do subsídio que recebe da Secretaria de Estado da Cultura, que passa de 16 mil para 6 mil contos. Inicía-se então um movimento de solidariedade da sociedade civil almadense, através dum abaixo assinado que consegue reunir onze mil assinaturas, essencial para a cedência por parte da Câmara Municipal da então Oficina da Cultura, actual Teatro-Estudio António Assunção. De 1988 a 2005, é nesse espaço camarário que a Companhia vai desenvolvendo a sua actividade, até à inauguração do Teatro Municipal Joaquim Benite, obra de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira. Em 1984, surge o Festival de Teatro de Almada no seguimento do trabalho que a Companhia fazia com grupos de teatro amador, em sociedades recreativas e nas escolas e que Joaquim Benite decidiu reunir numa mostra de teatro amador. Essa primeira edição decorreu durante uma semana na zona histórica da cidade, no Beco dos Tanoeiros, onde pela primeira vez se assiste a teatro ao ar livre. No segundo ano o Festival já conta com a participação do Teatro Nacional que actua no Pátio Prior do Crato e a partir daí vai crescendo e juntando às companhias amadoras, companhias profissionais, alguns grupos universitários e os grupos que tinham surgido com a descentralização cultural, como o “Seiva Trupe” e outros. Quando o Joaquim fundou o Festival, inspirou-se nos festivais de Nancy e de Avignon, que surgiram logo a seguir à Segunda Grande Guerra, quando se começou a pensar em sarar as feridas que tinham resultado daqueles dois conflitos que destruíram a Europa e em que as pessoas sentiam necessidade de começar a semear alguma coisa, de tentar cruzar culturas. Foi também essa a ideia do Joaquim Benite – cruzar culturas, lançar uma semente cultural acessível a todos. Felizmente somos o Festival de Teatro que tem mais público em Portugal. Há uma máxima que diz – Não há público para o teatro como o de Almada – e é verdade. Nós somos dos teatros municipais com mais público e isso é fruto dum trabalho contínuo ao longo do ano. A Sul do Tejo, só nós e o Teatro Lethes em Faro é que apresentamos uma programação anual e isso é muito importante porque permite ter um sistema de assinaturas, um “Cartão de Amigo”, que dá acesso gratuito às nossas produções e descontos de 50% nos espectáculos acolhidos, o que cria uma relação muito intensa e permanente com o público e com a cidade. Depois, existe um trabalho com as escolas, que é fundamental para que germine a tal semente cultural nas novas gerações. Sempre que estreamos uma peça convidamos as escolas a vir assistir, porque ainda há aqueles professores que eu chamo de professores-heróis que se disponibilizam para trazer os miúdos ao teatro à noite. Nós fazemos teatro para

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O segundo espectáculo, A Vida de Um Grande Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança de António José da Silva, ganha o prémio de Teatro Amador e o grupo começa a ser visto como um caso sério no meio artístico e intelectual.


a infância, mas para escolas não, queremos que eles venham à noite, misturados com o outro público para ver os espectáculos, por isso vamos às escolas e fazemos colóquios sobre os temas das peças que vêm ver. Não só aqui de Almada, mas do Seixal, de Lisboa, de Setúbal. Normalmente nessas apresentações, pergunto aos miúdos qual a diferença, para eles, entre teatro e cinema e a resposta é invariavelmente esta: No teatro estão ali os actores. Mas gosto de lhes explicar que não é só isso, ir ao teatro não é só estar ali numa sala a olhar os actores, os teatros e as igrejas começam a ser os únicos espaços em que é possível reunir pessoas em torno de um objecto e depois debatê-lo, pensar sobre ele. Nós organizamos sempre conferências e debates a seguir aos espectáculos e eu noto que isso é muito importante. Recordo que na minha infância costumava ir às sociedades filarmónicas aqui em Almada, às sociedades recreativas, onde estavam os velhotes a jogar as cartas, mas onde as pessoas estavam juntas, conversavam, discutiam. Agora, com as novas tecnologias, começam a rarear esses espaços. As pessoas estão juntas de outra forma, online, e eu tenho dúvidas que isso possa substituir a necessidade que temos de contacto com o outro. A propósito do trabalho realizado, desde sempre, pela Companhia de Teatro de Almada com as escolas, procuramos saber se existe uma articulação com o Ministério da Educação.

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Nunca houve uma articulação séria entre o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura. Se quisermos ir à génese do problema, cada vez que muda o governo, o novo governante encontra as secretárias vazias e começa do zero. Nos países em que a cultura tem um funcionamento organizado e tem um peso importante para o próprio país, como em França, os altos funcionários dos ministérios mantêm-se independentemente da tutela, ou seja, há uma garantia de estabilidade de pessoas preparadas que, independentemente do governo ser de direita ou de esquerda, sabem o que está a ser feito e a importância para o país. O que acontece aqui é que quando um governo muda, as equipas saem e depois há aquelas nomeações de pessoas que não têm nada que ver com a área da cultura. Há uma enorme falta de altos funcionários que se mantenham e que lá estejam independentemente de quem sejam os governantes. Por isso não é de estranhar que não exista uma efectiva política cultural. Nós somos uma companhia de teatro independente e o festival é uma atividade desta companhia de

teatro, portanto, somos uma estrutura pesada e temos uma subvenção que foi de 4 anos num acordo assinado com o Estado e com a Autarquia. Como aconteceu com a maioria das companhias de teatro independente, este ano não houve concursos, temos um governo que há dois anos está no poder, que veio criar de novo um Ministério da Cultura, mas que só aparece quando se parte qualquer coisa. A expectativa que havia no ano passado de haver realmente uma política cultural, começa a transformar-se numa grande angústia porque nós este ano tivemos o mesmo montante que o ano passado sem concurso, porque a Direcção Geral das Artes ainda não estava preparada para lançar os programas de apoio, mas já estamos na metade de 2017 e não sabemos com o que podemos contar. Eventos como o Festival de Almada têm que ser programados com um ano de antecedência... é impossível trabalhar assim. Rodrigo Francisco é o responsável pela programação do Festival do Teatro de Almada, assumindo desde logo não saber fazer programação de autor, isto é, uma programação que obedeça a um determinado tema, obrigando a que todos os espectáculos seleccionados se enquadrem nesse tema. Acho isso uma grande chatice para o público que não se vai rever naquele tema. Quando nós estamos a escolher, a impor um determinado tema, estamos a deixar de parte uma grande parte do público, então o que eu procuro é que os espectáculos sejam todos muito diferentes entre si e cheguem a públicos também muito diferentes, porque me agrada muito que o público seja diferenciado. Não gosto muito quando vou ver um espectáculo e as pessoas são todas iguais, e isso acontece cada vez mais. Gosto de espectáculos onde haja mistura. Se bem que, este ano, há um traço que percorre vários dos espectáculos do festival: os pequenos formatos. Um teatro íntimo de proximidade com os actores. O teatro tem evoluído bastante, a tecnologia tem-nos dado recursos inimagináveis, mas depois há uma coisa que se mantém desde que o teatro foi inventado há 2500 anos que é o actor. Alguém dizia que o teatro são duas tábuas e uma paixão. O teatro são os atores. Então, uma série de espectáculos que este ano vamos ter, entram nessa linha de pequenos formatos, salas em que os espectadores estão a poucos metros dos actores. Agora, em 26 espetáculos há propostas muito diferentes, de linguagens muito diferentes, de várias formas de fazer teatro, até porque nós somos uma Companhia e temos vindo a fa-


zer um caminho, que implica uma forma de fazer teatro e eu, no Festival, gosto que o nosso público se confronte, para já com aqueles que fazem melhor do que nós e depois com aqueles que fazem coisas muito diferentes de nós. Até para que o público perante uma grande Companhia nos diga: “Então quando é que fazem uma coisa dessas?”. O espaço dado ao teatro nos meios de comunicação social é cada vez menor. Já não existem críticos como o Benite. Por outro lado, a televisão, que desempenhava uma função educativa, deixou de passar peças de teatro... A crítica de teatro foi uma coisa importante nos anos 70 e 80 em Portugal, porque os críticos eram pessoas preparadas e informadas que tinham espaço nos jornais. Eram parceiros dos criadores estimulavam os debates e muitas vezes ajudavam na preparação dos espectáculos. Isso já não existe em Portugal. É verdade que o teatro já não tem espaço nos jornais, mas os críticos podem escrever online, aliás, continua a haver uma associação de críticos em Portugal que praticamente não escrevem. Eu sinto muito falta dos críticos que, salvo honrosas excepções de alguns que procuram realmente informar-se sobre os espectáculos, foram substituídos por umas pessoas que dão umas estrelas.

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Quanto à televisão, desempenhava realmente um serviço educativo muito importante. É importante abrir este monstro, este navio enorme que, visto de fora, parece inexpugnável, e que tanto pode funcionar como um fórum de debate, como um objecto de humilhação, porque eu não tenho dúvidas que muita gente que passa aqui nunca entrou neste teatro porque passa na fachada e vê umas pessoas bem vestidas que aqui vêm de vez em quando e tem medo de entrar. Então, o nosso trabalho é ir às escolas, trazer os miúdos a ver os espectáculos, muitos deles nunca pisaram um palco, nós que estamos aqui todos os dias não ligamos a isso, mas uma grande percentagem do público que se senta na sala, nunca esteve do outro lado e é interessante que possa vir ao outro lado. Alguns amigos meus que não são do teatro surpreendemse quando digo que nós estamos dois meses a ensaiar um espectáculo. - Dois meses? O que é que vocês fazem? Jogam às cartas? (risos). Também, também (risos). Mas a pessoas não têm noção. O público surpreende-se muito com o facto dos actores decorarem um texto complexo. Essa é a parte mais simples. O resto é que é complicado. Por isso é muito importante mostrar como as coisas se fazem, mostrar que tudo dá muito trabalho, mostrar como cada pormenor é pensado, e que aqui dentro trabalham trinta e tal pessoas para o mesmo objetivo. Muitas vezes quando eles descobrem como é a coisa funciona, nunca mais de cá saem (risos). Foi o que aconteceu comigo.


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CIRCUM Fotografias por Fernando Carqueja Texto por Teresa Cordeiro

cadores com ligações a Castela.

foi depois rua à Torre do Relógio.

Mas passa o tempo e se obrigam minorias a rezar a outro Deus.

Passa o tempo e ficará com o nome de Senhor da Boa Morte.

E dos Navarros, de Mardocai, Dona Palomba e de Abraão Guleima,

Há umas décadas atrás nova patrona toma assento. Senhora da Boa Morte.

se quer apagar o rasto com novos nomes e identidades.

E assim a conhecemos nós hoje.

Em nome da Integração.

Nem sempre a mesma morfologia ou cumprindo igual função,

Pelo Medo, resignados ao valor maior do pensamento único.

casas mais enobrecidas, outras que vão servindo.

Adaptam-se e prosperam. No largo de D. Duarte centram-se os mais poderosos. Os cristãos por obrigação arrendam e compram casas, boticas e suas lojas. São livreiros e ourives, médicos e rendeiros. Cooperam com os da Igreja.

Por aqui se instalam gentes e ideários vitais para a cidade e os seus destinos. Era a Judiaria Velha que depois terá sua Porta (velhos Muros, dizemos nós), quando recrudescem signos da discriminação. Nesta e nas ruas que a circundam, vivia gente Diferente. Quando podiam conviver os credos. E por isso aqui se juntam os judeus e os cristãos. Cumprem a Páscoa ou o Yom Kipur. Rezam na sinagoga e na Sé. A Adonai ou a Jesus. Nesta plasticidade orgânica, se distendem na paisagem. Nas Quintãs, pela Calçada, na rua de D. Duarte. E Senhora da Piedade.

Unem-se com os cristãos-velhos, por amor ou por… Não deixarão, porém, nunca de ser os perros, marranos na boca dos seus vizinhos, quando os virem ser expulsos das casas em que moravam… em nome do Inquisidor. Então se sentirá a ausência dos aromas, dos ofícios, das curas e dos seus livros, dos produtos que trocavam. A Senhora da Boa Morte e o território que a circunda tinham sido lugar de convivência plural, espacialidade de singularidades, sagradas e profanas. Mas, igualmente testemunha e vítimas de monolitismos e intransigências.

Pela rua Augusto Hilário se expandem na proporção do seu número, porque chegavam muitos, pela raia com Castela. Nova judiaria, nova casa de oração.

Hoje, nesta espacialidade alargada continuam impressas memórias muito difusas, espectros desse passado. Diferenças e Mestiçagem. Estrangeiros. Diásporas. Sombras. Que persistem sem saber.

No mesmo colorido se envolvem coifas e beatilhas, aromas que se distinguem na hora de cozinhar. Nas lojas e nas boticas convivem os seus ofícios. Na feira assistem mer-

Hoje, tem a rua da Senhora da Boa Morte gente que a povoa com nobreza há muitas décadas. Dão-lhe vida com sorrisos. São os Senhores da rua.

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Já se chamou de rua a par da Torre dos Sinos,


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Tradicional

Cosmopolita

Alternativo

Hipster

Multicultural

Para entrar

LIS BO NAR O Nosso Guia de Lisboa

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Clรกssico


Mapade

Lisboa COA

PR

SLM

AP

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ZR


AR

BXM

AV GM

CA

BA BC

ZR - Zona Ribeirinha AP- Alcântara | Pampulha COA - Campo de Ourique | Amoreiras SLM - Santos | Lapa | Madragoa PR - Príncipe Real BCS- Bica | Cais do Sodré BA - Bairro Alto AV - Avenida BC - Baixa Chiado CA - Castelo | Alfama GM- Graça | Mouraria AR - Almirante Reis BXM - Beato | Xabregas | Marvila FC - Fora do centro [165]

BCS


CLÁSSICO GAMBRINUS | AV RESTAURANTE

O clássico dos clássicos. A melhor barra e o melhor serviço de Lisboa, que nos faz sentir príncipes ainda que apenas comamos um prego e uns magníficos croquetes com mostarda da casa. Se lhe apetecer algo fora da carta, peça, quem sabe poderá ser surpreendido. Todos os dias das 12h00 à 01h30 Rua das Portas de Santo Antão, 23 1150-264 Lisboa N 38° 42’ 55’’ W 9° 8’ 22’’ +351 213 421 466 www.gambrinuslisboa.com

PINÓQUIO | AV RESTAURANTE

Segunda a Domingo das 12h00 às 24h00 Praça dos Restauradores, 79 1250-188 Lisboa N 38° 42’ 55’’ W 9° 8’ 27’’ +351 213 465 106 www.restaurantepinoquio.pt

XL | SLM

RESTAURANTE Segunda e Terça das 20h00 às 00h00 Quarta e Quinta das 20h00 às 01h00 Sexta e Sábado das 20h00 às 02h00 Calçada da Estrela, 57 1200-661 Lisboa N 38° 42’ 42’’ W 9° 9’ 17’’ +351 213 956 118

PASTELARIA BÉNARD | BC

PARIS EM LISBOA | BC LOJA

Segunda a Sábado das 10h00 às 19h00 Rua Garrett, 77, 1200-203 Lisboa N 38° 42’ 28’’ W 9° 8’’ 30’’ +351 213 424 329 www.parisemlisboa.pt

CASA PEREIRA | BC CASA DE CAFÉS

Segunda a Sábado 09h30 às 18h30 Rua Garrett, 38 1200-028 Lisboa N 38° 42’ 39’’ W 9° 8’ 25’’ +351 213 426 694 www.facebook.com/casapereira

PASTELARIA VERSAILHES | FC PASTELARIA

Todos os dias das 07h30 às 22h00 Avenida da República 1050-185 Lisboa GPS: N 38° 44´ 7´´, W 9° 8´ 44´´ +351 213 546 340

A BRASILEIRA | BC CAFÉ

Todos os dias das 08h00 às 02h00 Rua Garrett, 120 1200-026 Lisboa GPS: N 38° 42´ 38´´, W 9° 8´ 31´´ +351 213 469 541

PASTELARIA

Segunda a Sábado das 8h00 às 23h00 Rua Garrett, 104 1200-205 Lisboa N 38° 42’ 38’’ W 9° 8’ 30’’ +351 213 473 133

CASA DE CHÁ DE STª ISABEL VICENTINAS | SLM SALA DE CHÁ

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Segunda das 15h30 ás 19h00 Terça a Sábado das 11h30 às 19h00 Rua de São Bento, 700 1250-223 Lisboa N 38° 43’ 9’’ W 9° 9’ 20’’ +351 917 422 749 www.casadecha.org

BAR PROCÓPIO | COA BAR

O mais antigo dos clássicos bares lisboetas voltou a estar na moda e ainda bem. Com o melhor barman da cidade, o Sr. Luís, sempre atento aos pormenores e um ambiente familiar, o bar de Alice Pinto Coelho por onde ainda é habitual passarem artistas das mais diversas áreas é o mais icónico da capital. Segunda a Sexta das 18h00 às 03h00 Sábado a partir das 21h00 Alto de S. Francisco, 21 A 1250-096 Lisboa N 38° 43’ 19’’ W 9° 9’ 19’’ +351 213 852 851 www.barprocopio.com


TRADICIONAL PÁTEO 13 | CA

MANTEIGARIA SILVA | BC

Sardinhas e muito mais, num restaurante que ocupa um delicioso larguinho de Alfama, onde locais e turistas convivem alegremente. Perfeito para as noites quentes de verão.

Segunda a Sábado das 09h00 às 19h30 Rua Dom Antão de Almada, 1 D 1100-197 Lisboa N 38° 42’ 50’’ W 9° 8’ 19’’ +351 213 424 905 www.manteigariasilva.pt

Terça a Domingo das 11h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Calçadinha de Santo Estêvão, 13 1100-502 Lisboa N 38° 42’ 42’’ W 9° 7’ 39’’ +351 218 882 325 https://www.facebook.com/PATEO13

CHARCUTARIA

MESA DE FRADES | CA CASA DE FADOS

TABERNA DA RUA DAS FLORES | BCS

Segunda a Sábado das 20h00 às 02h30 Rua dos Remédios, 139 A 1100-445 Lisboa N 38° 42’ 47’’ W 9° 7’ 33’’ +351 917 029 436 www.facebook.com/mesadefradeslisboa

Um dos nossos restaurantes preferidos de Lisboa. Excelente comida, ambiente descontraído e um único e enorme problema…não aceitam reserva e está quase sempre cheio. Tente chegar cedo e deixar o nome antes da lista fechar. Vale mesmo a pena.

DAS FLORES | BCS

RESTAURANTE

Segunda a Sexta das 12h00 às 00h00 Sábado das 18h00 às 00h00 Rua das Flores, 103 1200-194 Lisboa N 38° 42’ 36’’ W 9° 8’ 36’’

ZAPATA | BCS RESTAURANTE

Quarta a Domingo das 10h00 às 02h00 Rua do Poço dos Negros, nº47 1200 -038 Lisboa GPS: N 38° 42´ 37´´, W 9° 9´ 0.7´´ +351 213 908 942

TASQUINHA DO LAGARTO | FC RESTAURANTE

Um clássico para o almoço. Óptima cozinha portuguesa, bons grelhados em doses generosas. Poderá ter de esperar algum tempo por mesa, mas nada que uma imperial ao balcão não resolva. Segunda a Sábado das 12h00 às 15h30 e das 19h00 às 22h30 Rua de Campolide, Nº 258 1070-039 Lisboa N 38° 44’ 3’’ W 9° 9’ 52’’ +351 213 883 202 www.facebook.com/tasquinhadolagarto

RESTAURANTE

Rua das Flores, nº 76 1200 Lisboa GPS: N 38° 42´ 33´´, W 9° 8´ 36´´ +351 213 428 828

CANTINHO DAS GÁVEAS | BA RESTAURANTE

Cozinha portuguesa honesta, num Bairro Alto cada vez mais cheio de restaurantes feitos a pensar nos turistas. A esplanada convida a prolongar o jantar enquanto o bairro começa a encher. Rua das Gáveas 82 1200 -073 Lisboa GPS: N 38° 42´ 44´´, W 9° 8´ 36´´ +351 213 426 460

CONSERVEIRA DE LISBOA | CA LOJA

Há uma pequena loja no Mercado da Ribeira, mas não é comparável à experíencia da loja original onde nos podemos perder no aconselhamento entre sardinha e cavalas, em limão ou tomate picante, todas dentro de embalagens tão deliciosamente vintage como é delicioso o seu conteúdo. Uma instituição. Segunda a Sábado 9h às 19h Rua dos Bacalhoeiros,34 1100-071 Lisboa N 38º 42’ 33’’, W 9º 8’ 4’’ +351 218 864 009 www.conserveiradelisboa.pt

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RESTAURANTE


COSMOPOLITA PAP’AÇORDA | BCS

LUX – FRÁGIL | ZR

Se as paredes da sua anterior localização no Bairro Alto falassem, ficaríamos a saber a história da Lisboa sofisticada dos últimos 30 anos. Agora no Mercado da Ribeira, continua a servir deliciosa comida portuguesa, sendo imperdíveis os fritos, que evitamos noutros lugares, em particular os peixes, sejam jaquinzinhos, ou sável acompanhado de açorda de ovas. Ainda é um lugar para ver e ser visto.

Avenida Infante D. Henrique, Armazém A Cais da Pedra de Santa Apolónia 1950-376 Lisboa N 38° 42’ 53’’ W 9° 7’ 15’’ +351 218 820 890 www.luxfragil.com

Terça a Quarta das 12h00 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h00 às 02h00 Domingo das 12h00 às 00h00 Avenida 24 de Julho, 49 1200-109 Lisboa N 38° 42’ 24’’ W 9° 8’ 45’’ +351 213 464 811 www.papacorda.com

CINCO LOUNGE | PR

RESTAURANTE

BY THE WINE | BCS

RESTAURANTE/WINE BAR Com uma belíssima decoração, podemos aqui encontrar o portfolio da José Maria da Fonseca, o que abre belíssimas possibilidades, em especial se optarmos pelos moscatéis. A acompanhar temos tapas, como o delicioso queijo de Azeitão. Também pode jantar na mesa, mas na Bica preferimos a barra, com atendimento sempre simpático, ao final da tarde. Segunda das 18h00 às 00h00 Terça a Domingo das 12h00 às 00h00 Rua das Flores, nº 41-43 1200-014 Lisboa N 38° 42’ 32’’ W 9° 8’ 37’’ +351 213 420 319 www.jmf.pt

DISCOTECA

BAR

Lisboa não tinha tradição de cocktails ou bares dos mesmos. Não tinha, até abrir o Cinco que lentamente conquistou a cidade e se tornou a referência cocketeleira. A dificuldade será escolher o que lhe apetece por entre a enorme lista. O melhor é pedir uma sugestão e deixar-se ir. Segunda a Domingo das 21h00 às 02h00 Rua Ruben A Leitão, 17 A 1200-392 Lisboa N 38° 42’ 51’’ W 9° 8’ 59’’ +352 914 668 242 www.cincolounge.com

EMBAIXADA | PR LOJA

Um ambiente neo-árabe transformado numa espécie de centro comercial com lojas, muitas de criadores portugueses, ocupando as salas do antigo palácio. Com direito a restaurantes nos jardins, exposições no primeiro piso e um bar de gin. Aqui, vir de compras é em bom. Segunda a Quarta das 12h00 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h00 às 02h00 Domingo das 12h00 às 00h00 Praça do Príncipe Real, 26 1250-184 Lisboa N 38° 43’ 1’’ W 9° 9’ 54’’ +351 965 309 154 www.embaixadalx.pt

BICA DO SAPATO | ZR RESTAURANTE

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Segunda a Sábado das 11h00 à 01h00 Segunda-feira das 17h30 à 01h00 Av. Infante Dom Henrique, Armazém B Cais da Pedra, Santa Apolónia 1900-436 Lisboa GPS: N 38° 42´ 50´´, W 9° 7´ 16´´ +351 218 810 320 www.bicadosapato.com

BELCANTO | BC RESTAURANTE

Terça a Sábado das 12h30 às 15h00, 19h00 às 23h00 Largo de São Carlos, nº10 1200-410 Lisboa GPS: N 38° 42´ 35´´, W 9° 8´ 29´´ +351 213 420 607


HIPSTER QUIOSQUE DO OLIVEIRA | PR

GIV LOWE | BCS

Ponto de encontro de fim de tarde ou princípio de noite para a fauna do Príncipe Real e Bairro Alto. Espere um ambiente cool misturado com turistas.

Segunda a Quinta e Domingo das 12h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 12h00 às 3h00 Praça de São Paulo 13-15 1200-371 Lisboa N 38º 42’ 27.71’’ W 9º 8’ 42.59’’ +351 213 460 795 www.facebook.com/GivLOWE/

QUIOSQUE PRÍNCIPE REAL

Aberto 24h Praça Príncipe Real 1250-301 Lisboa N 38° 42’ 58’’ W 9° 8’ 52’’ +351 213 428 334

LOJA

MUSIC BOX | BCS LOUNGE | BCS BAR

Sempre óptima música em bom ambiente e com o horário de fecho bem conveniente (4h00). O melhor prolongamento da noite do Bairro Alto ou Cais do Sodré, antes de decidir se a noite é para ir até ao fim. Segunda a Domingo das 22h00 às 04h00 Rua da Moeda, nº1 - Porta O/P 1200-275 Lisboa N 38° 42’ 28’’ W 9° 8’ 49’’ +351 213 973 730 www.loungelisboa.com.pt/blog

FEIRA DAS ALMAS | AR COMPRAS

Para compras alternativas e fora da formatação que cada vez mais atinge a cidade. Regueirão Dos Anjos, 70 1150-028 Lisboa N 38° 43’ 31’’ W 9° 8’ 9’’ www.feiradasalmas.org

RADAR FM RÁDIO

ESPECTÁCULOS

Segunda a Sábado das 23h00 às 06h00 Rua Nova do Carvalho, nº 24 1200-429 Lisboa N 38º 42’ 25.83’’ W 9º 8’ 36.68’’ +351 213 473 188 www.musicboxlisboa.com

HELLO, KRISTOF | BCS CAFETARIA RESTAURANTE

Segunda a Sexta das 09h00 às 18h00 Rua do Poço dos Negros 103 1200-342 Lisboa N 38º 42’ 35.79’’ W 9º 9’ 4.92’’ www.hellokristof.com

SKY WALKER | BA LOJA

Segunda a Quinta das 10h00 às 21h00 Sexta e Sábados das 10h00 às 22h00 Domingo 15h00 às 20h00 Rua do Norte 12 1200-141 Lisboa N 38º 42’ 39.42’’ W 9º 8’ 37.31’’ www.facebook.com/Skywalkerlx

www.radarlisboa.fm

CAFÉ

Segunda a Domingo das 10h00 às 24h00 Miradouro de Santa Catarina (Adamastor) 1200-401 Lisboa N 38º 42’ 34’’ W 9º 8’ 52’’ +351 21 346 50 14 info@noobaicafe.com

CAFÉ TATI | BCS BAR

Terça a Domingo das 11h00 à 01h00 R. Ribeira Nova, nº 36 1200-371 Lisboa N 38° 42’ 27’’ W 9° 8’ 43’’ +351 213 461 279 www.cafetati.blogspot.pt

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NOOBAI | BCS


ALTERNATIVO CREW HASSAN | AV

CLUB ROYALE | BCS

Segunda a Domingo das 12h00 às 24h00 Rua Portas de Santo Antão, 159 1170-016 Lisboa N 38° 43’ 21’’ W 9° 7’ 59’’ +351 21 8120373 | +351 962 233 416 www.facebook.com/ccrewhassan

Burlesco e Lindy hop em plena Rua do Poço dos Negros. Quarta a Sábado Rua do Poço dos Negros, nº86 1200-038 Lisboa +351 962 804 368 GPS: N 38° 42´ 36´´, W 9° 9´ 4´´ www.facebook.com/cluberoyale/

ASSOCIAÇÃO CULTURAL

RESTAURANTE

ÁGUA NO BICO | BCS RESTAURANTE

Terça a Quarta das 10h00 às 21h00 Quinta a Sábado das 10h00 às 00h00 Domingo das 11h00 às 18h00 Rua das Gaivotas, 8 1200-202 Lisboa N 38° 42’ 33’’ W 9° 9’ 3’’ +351 910 111 470

ZDB | BA

ASSOCIAÇÃO CULTURAL Rua da Barroca, nº 59 1200-049 Lisboa N 38° 42’ 42’’ W 9° 8’ 40’’ +351 213 430 205 www.zedosbois.org

AGITO | BA BAR

Segunda a Sábado das 19h30 às 03h00 Rua da Rosa, 261, 1200-391 Lisboa N 38° 42’ 52’’ W 9° 8’ 45’’ +351 213 430 622

BAIRRUS BODEGA | BA

CINEMA IDEAL | BCS CINEMA

Quando os cinemas de rua fecharam, abriu o Ideal, com programação alternativa e cuidada. Rua do Loreto, 15/17 1200-106 Lisboa N 38° 42’ 38’’ W 9° 8’ 39’’ +351 210 998 295 www.cinemaideal.pt

FINALMENTE | PR BAR

O bar gay mais antigo da cidade, por onde passou meia Lisboa nos tempos em que a noite a n que mantém um show de travestis em periodicidade diária. Para uma noite realmente diferente. Vá numa segunda-feira quando a noite parece morta e divirta-se com as audições do “lugar às novas”. Segunda a Domingo 23h59 às 6h Rua de Palmeiras 38 1200-313 Lisboa N 38º 42’ 53” W 9º 8’ 59’’ +351 213 479 923 info@finalmenteclub.com www.finalmenteclub.com

BAR

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Rua da Barroca, nº3 1200-106 Lisboa GPS: N 38° 42´ 39 ´´, W 9° 8´ 40´´ +351 213 469 060

CHAPITÔ | CA Costa do Castelo, n.º 1/7 1149-079 Lisboa N 38° 42’ 41’’ W 9° 8’ 1’’ + 351 218 855 550 www.chapito.org


MULTICULTURAL TEMPLO HINDU | FC

L’ANISETTE | BCS

Segunda a Domingo das 12h30 às 14h30 e das 19h30 às 21h30 Alameda Mahatma Gandhi Complexo Comunidade Hindu 1600-500 Lisboa N 38° 46’ 11’’ W 9° 10’ 25’’ +351 217 524 982

Terça a Domingo das 08h00 às 22h00 Rua de São Bento 30 1200-109 Lisboa www.lanisette.pt GPS: N 38° 42´ 37´´, W 9° 9´ 9´´ +351 210 736 786

PIZZARIA LUCCA | FC PIZZARIA

Todos os dias das 12h00 às 15h30 e das 19h00 à 01h00 Travessa Henrique Cardoso, 19-B, 1700-342 Lisboa N 38° 44’ 42’’ W 9° 8’ 28’’ +351 217 972 687 www.lucca.pt

ÁGUA DE BEBER | BCS

BAR

Quarta, Quinta e Domingo das 18h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 03h00 Travessa de São Paulo, 8, 1200-431 Lisboa N 38° 42’ 27” W 9° 8’ 42” +351 214 039 956

CASA PAU-BRASIL | PR

LOJA

Aberto das 12h00 às 20h00 Sábado e Domingo até às 18h00 Rua da Escola Politécnica, nº42 1250-096 Lisboa GPS: N 38° 43´ 2´´, W 9° 8´ 59´´ +351 213 420 954

RESTAURANTE

IL MATRICIANO | BCS RESTAURANTE

Segunda a sábado das 12h00 às 15h30 e das 20h00 às 00h00 Rua de São Bento 107 1200-109 Lisboa GPS: N 38° 42´ 43´´, W 9° 9´ 10´´ +351 213 952 639 Reservas: thefork.pt

HANSI | BCS RESTAURANTE

Aberto todos os dias Rua da Moeda 1A 1200-275 Lisboa GPS: N 38° 42´ 27´´, W 9° 8´ 50´´ +351 211 323 185 www.hansi.pt

CHINÊS CLANDESTINO | GM RESTAURANTE

Segunda a Domingo das 11h30 às 15h30 e das 19h30 às 23h30 Rua da Guia, 9, 2º Dto, 1100-335 Lisboa N 38° 42’ 57’’ W 9° 8’ 2’’ +351 966 355 786

ATARY BABY | BCS

EL ULTIMO TANGO | BA

RESTAURANTE

RESTAURANTE

Sexta e Sábado das 13h00 às 03h00 Domingo a Quinta-feira das 18h00 à 01h00 Rua de São Paulo 120 1200-429 Lisboa GPS: N 38° 42´ 28´´, W 9° 8´ 41´´ +351 910 361 005

Um dos melhores bifes de Lisboa, de carne argentina, grelhado, acompanhados de batata assada com manteiga de ervas e salada de agrião. Tudo em ambiente calmo, para fumadores e com o melhor tango do mundo como banda sonora.

CONFRARIA LX | BCS

RESTAURANTE

Rua do Alecrim 12A 1200-161 Lisboa www.confrariasushi.pt GPS: N 38° 42´ 25´´, W 9° 8´ 36´´ +351 213 426 292

Segunda a Quinta das 19h30 às 23h00 Sexta e Sábado das 19h30 às 23h30 Rua do Diário de Notícias, 62 1200 Lisboa N 38° 42’ 43’’ W 9° 8’ 38’’ +351 213 420 341

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RESTAURANTE


PARA ENTRAR MUSEU NACIONAL DE ARTE ANTIGA | SLM A casa de Portugal. O nosso grande museu onde encontrará, entre uma enorme quantidade de obras-primas, os painéis de S. Vicente, obra máxima da pintura portuguesa. Exposição 24 de Fev. a 9 de Abr. A Cidade Global A Lisboa do Renascimento Terça a Domingo das 10h às 18h Rua das Janelas Verdes 1249-017 Lisboa N 38° 42’ 17’’ W 9° 9’ 41’’ +351 213 912 800 www.museudearteantiga.pt

MAAT | ZR O novíssimo e vanguardista museu da Fundação EDP. Um edifício belíssimo sobre o Tejo e exposições de arte contemporânea pensadas para o local. Exposição a partir de 22 de Março Sala Oval Ordem e progresso de Hector Zamora Quarta a Segunda das 12h às 20h Av. Brasília, Central Tejo 1300-598 Lisboa N 38° 41’ 44’’ W 9° 11’ 41’’ +351 210 028 130 www.maat.pt

CONVENTO DOS CARDAES | PR Um tesouro escondido no centro da cidade. Não vamos dizer nada mais. Vá lá.

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Segunda a Sexta das 14h30 às 17h30 Rua Eduardo Coelho, nº1 1200-164 Lisboa N 38° 42’ 53’’ W 9° 8’ 53’’ +351 213 427 525 www.conventodoscardaes.com

MUSEU DA MOEDA | BC Quarta a Sábado, das 10h00 às 18h00 Rua de S. Julião 150, 1100-150 Lisboa N 38° 42’ 30” W 9° 8’ 20” www.museudodinheiro.pt +351 213 213 240

MUSEU DO CHIADO | BC Exposição Amadeo de Souza Cardoso Publico em Geral : Quintas 15h30 Sábados 12h Grupos Terça a Domingo Rua Serpa Pinto 4, 1200-444 Lisboa N 38º 42’ 34” W 9º 8’ 27” +351 934447678 se.amadeo@gmail.com www.museuartecontemporanea.pt

CONVENTO DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA | BA Outubro a Março: de Terça-feira a Domingo, das 10h00 às 18h00. Segunda-feira das 14h00 às 18h00 Abril a Setembro: Terça-feira a Domingo, das 10h00 às 19h00. Segunda-feira das 14h00 às 19h00. Quinta-feira das 10h00 às 20h00. Rua São Pedro de Alcântara, 85 1200-089 Lisboa N 38° 42’ 54’’ W 9° 8’ 41’’

CULTURGEST | FC Segunda a Sábado das 12h30 às 18h30 R. Arco do Cego 50, 1000 Lisboa N 38º 44’ 24’’ W 9º 8’ 33’’ +351 217 905 155 www.culturgest.pt

MUSEU DO FADO | CA Terça a Domingo 10h às 18h Largo Chafariz de Dentro 1, 1100-139 Lisbon N 38º 42’ 40’’ , W 9º 7’ 39’’ +351 218 823 470 www.museudofado.pt


FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN | FC Exposição Até 05 de Junho João de Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno. Segunda a Sexta 9h às 13h e das 14h30 às 17h30 Av. de Berna, 45 A 1067 – 001 Lisboa N 38º 44’ 14’’ W 9º 9’ 15’’ +351 217 823 000 info@ gulbenkian.pt www.gulbenkian.pt

CARPINTARIA DE SÃO LAZARO | AR Exposição Até 01 de Maio Los Carpinteros Quarta a sábado 15h às 19h R. São Lázaro 72, 1150-199 Lisboa Nº 38º 43’ 6’’ W 9º 8’ 10’’ www.facebook.com/CarpintariasdeSaoLazaro/

MUSEU DE LISBOA | FC Exposições: Até 18 de Junho Palácio Pimenta A Lisboa que teria sido.

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Museu de Lisboa Palácio Pimenta | Museu de Lisboa – Santo António | Museu de Lisboa – Teatro Romano Terça a Domingo das 10h00 às 18h00 Museu de Lisboa – Casa dos Bicos De Segunda a Sábado das 10h00 às 18h00 Palácio Pimenta Campo Grande 245, 1700-091 Lisboa N 38° 45’ 30” W 9° 9’ 23” +351 217 513 200 www.museudelisboa.pt


KILL ‘EM WITH KINDNESS por João Júlio Rumsey Teixeira

Leilões de solidariedade organizados por leiloeiras profissionais são prática comum em muitos países. Em Portugal têm sido, regra geral, esparsos e muitas vezes integrados em leilões normais. Para quem não está por dentro do assunto muito rapidamente se explica o que é um leilão profissional de beneficência, ou “leilão solidário”: Uma instituição de solidariedade social que necessita de fundos associa-se a uma leiloeira e, juntando esforços e mailing lists, promovem uma venda em que todas as obras de arte são doadas e não são cobradas comissões, ou seja: todo o dinheiro angariado é entregue, sem nenhuma retenção, à IPSS a ajudar. Noutros casos - mais comuns - um coleccionador, um grupo de coleccionadores ou uma empresa decidem doar uma série de obras suas e, com a ajuda de uma leiloeira, organizam uma venda solidária ficando, neste caso, a cargo dos doadores a decisão a que IPSS desejam entregar o dinheiro angariado e podem, ou não - decisão a leiloeira -, ser cobradas comissões a favor da empresa. Associar-se a este tipo de acções é parte da responsabilidade social das empresas leiloeiras e pode funcionar também como um importante instrumento de promoção.

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A maioria das vezes a escolha recai sobre uma causa humanitária, revertendo os fundos a favor de quem necessita de ajuda - seja ela de que natureza for: médica, alimentar, psicológica, social, educacional, ambiental,… Noutros casos pode ajudar-se uma causa patrimonial, como o restauro de um edifício ou de uma obra de arte. O sucesso destes leilões está dependente da sensibilização de doadores e compradores. A estratégia de comunicação e, sobretudo, a capacidade de lobby são determinantes. O

envolvimento de uma figura reconhecida, de um coleccionador influente ou de um outro player poderoso fará milagres tanto na hora de angariar, como na de vender. O mercado leiloeiro de arte é, sem necessidade para grandes explicações, um fenómeno urbano e, por definição, gerado por uma comunidade culturalmente interessada e instruída. Apesar disso e, durante muito tempo, isto não significou que - ao contrário do que muitas vezes acontece no mercado de arte primário - este fosse um meio percepcionado como “progressista”. Desde o final do séc. XX mas mais acentuadamente na última década, a reboque das transformações sociais e do perfil do comprador, o mercado leiloeiro internacional também mudou, deixando de lado uma certa forma de trabalhar e abrindo as portas a uma realidade de ideias mais arejadas, menos snob e com grande capilaridade com áreas próximas, como o mercado primário de arte contemporânea, da decoração, do design, da moda e da joalharia. Esta abertura permitiu também uma sensibilização para a importância de uma maior integração na comunidade, e hoje a responsabilidade social das maiores leiloeiras internacionais é algo incontornável. Um dos pontos-de-partida mundiais para a consciencialização da necessidade de responsabilização social foi a compreensão, por parte dos agentes económicos e dos decisores, de que as empresas não estão sozinhas no mundo, de que o seu negócio faz parte de um todo interligado e que, isoladas, não só as companhias, como também o próprio objecto do seu negócio, perderão interesse aos olhos de uma sociedade cada vez mais alerta e consciente do seu impacto, interdependência e interligação. Em 2016 a Christie’s, por exemplo, angariou, em acções de solidariedade e leilões solidá-


rios, mais de 60 milhões de dólares que foram distribuídos por mais de 300 instituições e organizações sem fins lucrativos. A maior parte deste valor nasceu de parcerias com doadores mas outras iniciativas foram levadas a cabo apenas pela empresa como a “Corrida dos Mestres Antigos Contra o Cancro” em que a equipa vestiu a pele de vários mestres da pintura antiga e correu por St. James Park, angariando assim cerca de 40 mil euros! Em Portugal a responsabilidade social é actualmente um conceito embrionariamente presente num mercado leiloeiro de arte que floresceu durante décadas centrado em si mesmo. Ainda hoje apenas o Palácio do Correio Velho menciona no seu site a Responsabilidade Social Corporativa como parte integrante da sua actividade. Ainda assim julgamos que é visível uma gradual abertura e mudança na forma de trabalhar. Por vezes esta alteração pode acontecer de forma reticente e não raras vezes a desconfiança é mútua, pois a abertura de um mercado percepcionado de fora como hermético e mesmo - em casos mais radicais – extemporâneo, pode revelar-se desafiante. O sucesso do percurso reside muito possivelmente na autenticidade e humildade com que é feito, porque inevitavelmente tem de - e está já a - acontecer.

- Serviço de Apoio à Vítima LGBTI; - Linha de Apoio e Informação LGBTI; - Departamento Jurídico; - Aconselhamento Psicológico; Tudo isto a par de um trabalho - com décadas e contínuo - pela legislação e conquista de direitos fundamentais; entre outros projectos que dão corpo à luta perseverante pela compreensão, aceitação - e consequente integração plena do “outro” em todas as suas dimensões, aspirações e diferenças. A generosidade dos doadores - todos os artistas presentes no leilão - merece especial cumprimento uma vez que são recorrentemente chamados a contribuir para esta causa, sendo muitas vezes mesmo os únicos chamados a doar quando o resto da sociedade deve também ser sensibilizada a responder quando surge o apelo.

Geração Y é a geração nascida entre o início dos anos 80 e os meados dos anos 90 do século XX, também conhecida como Millennials.

Em Maio realizou-se um leilão solidário cujos fundos reverteram na totalidade a favor da ILGA-Portugal. O apoio de uma leiloeira à causa LGBTI portuguesa com um leilão solidário em parceria com “a mais antiga associação de defesa dos direitos LGBTI” do país surge neste contexto.

Noutra perspectiva e imaginando, por um segundo que seja, que algo desta natureza pudesse acontecer, seriam pequenos exemplos que demonstram a razão de existir e da extraordinária importância de apoiar -neste caso - a primeira instituição que “tem por principal objectivo a integração social da população lésbica, gay, bissexual, transexual e intersexo (LGBTI)” em Portugal que enquanto - e porque - esse dia ainda não chegou oferece:

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O sucesso da venda - com 73% do valor em praça arrematado em sala - revela que, para o mercado este é o caminho correcto. Hoje seria até difícil imaginar a existência de alguma dificuldade na sensibilização do público; a existência de alguém da geração Y renitente em ajudar, dar a cara ou, mesmo, a recusar trabalhar por esta causa; ou que este fosse motivo para pensar em perder clientes. No fim, que este gesto se transformasse, sequer, numa questão.


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“Os azeites nacionais são apresentados nos concursos internacionais e ganham medalhas, mas cá dentro nada disso é reconhecido e eu apercebi-me que esta é uma riqueza demasiado grande para ser desperdiçada e decidi que, enquanto jornalista, tinha obrigação de dar a conhecer esses azeites. Daí nasceu o livro. Foi um grito de revolta!”


“E se falássemos a sério de azeites?” Jorge Simão

No momento em que escrevo as oliveiras que avisto da janela de casa começam a limpar (queda natural das flores após a fecundação), preparando-se para a chegada do fruto. Daqui a dias, cumprindo um ritual apenas interrompido durante as minhas longas ausências da Beira, vou passear pelos olivais com o meu pai, partilhando com ele a alegria da antevisão de um ano que se espera bom d’azeite, não resolva São Pedro pregar alguma partida. É assim desde que me lembro. Se alguma árvore marcou a minha infância foi a oliveira. Espalhadas um pouco por toda a quinta, cercando as vinhas ou inundando o horizonte para os lados do Caramulo, as oliveiras fazem parte do meu imaginário infantil, que envolvia trabalhos cuidados durante boa parte do ano. Não tantos como os da vinha, mas competindo com esta em dedicação. Lembro-me de participar das podas, de atirar boro ao tronco e de passear pelos olivais por alturas da floração, encantado com uma espécie de neve que caía das árvores e manchava o chão de branco. Mal as aulas do 1º período terminavam e o Natal começava a bater à porta, lá ia eu catar as azeitonas que teimavam em fugir ao toldo durante a vareja, corpo dobrado e mãos encarquilhadas pela geada e pelo vento cortante das madrugadas do Inverno beirão, num esforço compensado pela autorização de participação na lagarada, ouvindo histórias só de homens regadas a muito vinho, que ia bebendo à socapa com o beneplácito do Senhor António, lagareiro de uma vida, que preparava o bacalhau que debicávamos gulosos madrugada fora, enquanto os alqueires de azeitona eram transformados em azeite. Nesse tempo o bom azeite era mau. Parece um contra-senso, mas não é. Aprendi-o anos

mais tarde pelas mãos sábias do amigo José Telles Varela, um apaixonado pela olivicultura. O Zé, que nesse tempo já percorrera Espanha de lés-a-lés a experimentar azeites de todas as qualidades e feitios e que os usava praticamente em tudo, explicou-me pacientemente a diferença entre um bom azeite e aquele a que estava habituado. Sentados no Cabaço, no Pego, enchia dois copinhos de prova e pedia-me para cheirar e depois provar. A diferença era abissal! O azeite bom, com cheiro e sabor a fruta, a amêndoas e nozes, o mau, com cheiro a ranço e a mofo. E eu pensava: andei a vida toda sem perceber nada de azeites. Foi exactamente o que pensou Edgardo Pacheco quando, durante um jantar em que participou em 1998, foi surpreendido por um comensal espanhol a pedir azeite cru para temperar um borrego enquanto dissertava sobre a importância do uso do azeite no tempero de algumas peças já confeccionadas. Desde aí dedicou-se afincadamente ao estudo da melhor gordura vegetal do mundo e apaixonou-se pelo mundo dos azeites. Durante anos leu, consultou, provou, percorreu o país a visitar produtores e aconselhou-se com os maiores especialistas portugueses na matéria. O resultado é Os 100 Melhores Azeites de Portugal, o livro que traz para a ribalta a história de 100 (!) azeites extraordinários, muitos deles premiados internacionalmente. Foi, pois, sobre azeites que conversámos com Edgardo Pacheco no Bel’Empada à Avenida de Roma, onde chegou acompanhado de uma panóplia de copos de prova e dois azeites para experimentarmos. Os dois da mesma proveniência: a Quinta de Lemos em Viseu. Um feito num lagar tradicional e outro feito num lagar novo da quinta. A diferença é surpreendente. As mesmas azeitonas transformadas no lagar tradicional produziram um azeite imbebível, enquanto as moídas no novo lagar deram origem a um dos melhores azeites que já experimentámos. Estava dado o mote para uma tarde de conversa... Nas últimas décadas tem existido um investimento gigantesco por parte dos produtores de azeite, quer nos olivais, quer nas tecno-

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por João Moreira


logias utilizadas para a transformação da azeitona. Este investimento, associado ao cuidado na selecção de lotes e na forma como a azeitona é tratada desde a apanha até à chegada ao lagar, resultaram num aumento exponencial da qualidade dos azeites nacionais. Porque é que, apesar disso são tão pouco conhecidos? Edgardo Pacheco: Do ponto de vista comercial, Portugal vive uma situação que é a seguinte: dois grandes operadores, que são embaladores, detêm cerca de 65% da quota do mercado. Galo e Oliveira da Serra. Exacto. Esses dois operadores têm um peso muito grande na distribuição. Conseguem, no limiar, colocar azeites no mercado a um preço muito competitivo. Trabalham com grandes volumes e conseguem chegar ao consumidor a preços bastante interessantes. Mas, e pelo menos essa é a percepção no meio, muitos desses azeites são feitos com lotes de azeitona não nacional. Isso é verdade? De acordo com os embaladores, os seus azeites virgem extra, vendidos em Portugal, são todos feitos com azeitona portuguesa. Isso é o que eles dizem. Poderemos levantar um conjunto de perguntas, mas aquilo que eles dizem é que os azeites virgem extra são feitos com azeitonas produzidas em Portugal. Os outros azeites já não são.

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É evidente que essa conversa pode levarnos a uma pergunta bastante interessante: O que é um azeite com denominação de origem protegida? Um azeite DOP não é DOP porque o produtor quer. Um azeite para ser DOP tem de ir a uma câmara de provadores certificada e são os provadores em prova cega que decidem se aquele azeite é ou não é DOP. Quando estamos a consumir um azeite com denominação de origem, estamos a consumir azeites que representam uma matriz específica de um azeite criado num determinado território. Se na garrafa nós vemos que é um azeite DOP Trás-os-Montes, então é um perfil DOP Trás-os-Montes, se é DOP Ribatejo tem um perfil do Ribatejo e a mesma coisa para o Alentejo. Quando vemos uma garrafa que não tem denominação de origem, mas diz azeite português, aquele azeite não passou por uma câmara de certificação, é o produtor que garante que aquele azeite é português. Embora, também é importante dizê-lo, não tem problemas de qualidade, apenas não passou pelo processo de rigor e de análises exigido aos azeites DOP.

Quantas denominações de origem existem em Portugal neste momento? Em Portugal nós temos seis DOP’s que são: Trás-os-Montes, Ribatejo, Beira Interior, Moura, Alentejo Interior e Norte alentejano. Aquilo que eu defendo, é que o Douro deveria ter uma denominação própria. Os azeites do Douro ganham perfis muito específicos e muito diferenciados que não existem nas outras regiões. Por exemplo, no Douro Superior, alguns dos azeites já se parecem bastante com os azeites de Trás-os-Montes, mas não são iguais, por isso acho que a região do Douro já devia ser uma DOP. Entretanto, surgiu no mercado uma série de azeites de pequenos produtores... Os pequenos produtores que começaram a aparecer nos últimos anos, quer tenham feito investimentos de raiz, quer tenham aproveitado os lagares de família, pela sua dimensão, pelo modo como funcionam e pelo custo elevado que tem tratar o olival e colher a azeitona, não conseguem produzir azeites baratos. Produzem azeites de preço mais elevado. Eu ia dizer caros, mas não são caros, porque em comparação com os grandes embaladores, esses azeites têm custos superiores. Aliás, os grandes embaladores têm vindo a tentar ocupar esse nicho de mercado através de produtos específicos, como é o caso do “Colheita ao Luar” ou do “1ª Colheita”. É preciso definir bem as coisas. No universo dos embaladores há embaladores e embaladores. Há inclusive um embalador em Portugal que tem dez mil hectares de olival. Depois há outros que não têm uma única oliveira e o que fazem é comprar lotes no país todo e em outros países da União Europeia e no Norte de África para fazer outros lotes. Se bem que, volto a sublinhar, garantem que todo o virgem extra é de origem portuguesa. Dito isto, os embaladores começaram a aperceber-se que o mercado estava a progredir no sentido de apresentar azeites com essa beleza, azeites que parecem perfumes! – Edgardo olhando uma belíssima garrafa de um pequeno produtor do norte do país –, e, obviamente, começaram a enveredar pela política de ter azeites de nicho. Então o que fizeram? Em alguns casos de produção própria, noutros comprando pequenos azeites com uma matriz muito específica, lançaram no mercado, com conceitos de marketing muito específicos, azeites diferenciados. É o caso do “Azeite ao Luar”, ou do “Primeiras Oliveiras”, ou do “Primeira Colheita”. No fundo criaram, com categorias de marketing,


Durante mais de dez anos mergulhaste fundo neste mundo dos azeites. Fizeste cursos, provas, correste o país a visitar olivais e a conhecer produtores, estudaste os diferentes tipos de azeitonas, tornaste-te amigo dos maiores especialistas da matéria em Portugal, entre eles o Professor José Gouveia que prefacia o teu livro. Como é que um açoriano se apaixona pelo azeite? (risos). Um amigo meu, quando apresentei o livro, comentou: “Mas afinal é sobre azeites! Pensei que fosse sobre manteigas” (risos). Eu apaixonei-me pelo azeite da mesma forma que me apaixono pelos queijos, pelos vinhos, pelas carnes, pelos enchidos, pelo chá que é uma coisa a que ninguém liga nenhuma neste país. O chá é muito da tua terra... É da minha terra, mas não só. Mas o universo do chá ... É gigantesco. Os queijos ... Mais uma vez a tua terra a brilhar. Queijos, leites, manteigas... Eu escrevo há muitos anos sobre gastronomia e os vinhos ainda ocupam bastante espaço na crítica gastronómica e ainda bem. É fantástico falar de vinhos e da diferenciação dos vinhos. Mas, também é importante falar sobre os outros muitos produtos de excelência que temos no nosso país. Hoje fiz um projecto sobre azeites, amanhã farei outro sobre queijos e as pessoas vão ver que eu só me envolvo num projecto como este se estiver apaixonado pelo produto. Em Portugal não damos o devido valor aos nossos produtos. A comunicação social em Portugal está muito interessada em restaurantes, em chefes e preferencialmente em chefes giros. Essa é a lógica, um chefe giro, um chefe com tatuagens, um chefe doido, dá sempre uma história engraçada, por isso, falar de produtos pouco importa. Mas, sem bons produtos não há boa gastronomia. Sabendo que azeite é sumo de azeitona expremido, é fácil perceber que para se fazer um bom azeite, as condições fitossanitárias da fruta têm de ser irrepreensíveis. Este é um dos factores essenciais para a obtenção de bons azeites? Eu acho que vale a pena falar de azeites

como se estivéssemos a falar de vinhos, porque as pessoas hoje já percebem que para se fazer um bom vinho é preciso ter boas uvas. Sem boas uvas não se faz um bom vinho e por maioria de razão no caso do azeite, porque apesar de tudo, se as uvas chegarem de determinada forma a adega, muitas vezes na alquimia do enólogo ainda se podem corrigir alguns erros. No caso dos azeites isso não é possível. Por isso é preciso que as pessoas percebam de uma vez por todas o seguinte: em primeiro lugar, que para se fazer um bom azeite as azeitonas têm de ser sãs; em segundo, que essas azeitonas sejam transportadas para o lagar nas devidas condições. Quando digo isso não é à toa, porque tenho muitos amigos que me trazem umas garrafas para eu provar e eu pergunto: “Esses azeites foram transportados para o lagar em sacos de plástico, não foram?” e eles respondem: “Claro! E ainda estiveram uns dias à espera porque nós não apanhamos isso tudo no mesmo dia.” Portanto, é preciso que se perceba isto, o fundamental para fazer um bom azeite é ter boas azeitonas e transportá-las rapidamente para o lagar. Se o lagar depois trabalhar correctamente, com higiene, rapidez e rigor é muito difícil não termos um bom azeite. Podemos dizer que será um azeite aromaticamente mais expressivo, mais rico, com mais notas verdes ou mais notas doces, isso já é outra questão. Isso depende da variedade da azeitona e do momento da apanha. O que aconteceu em Portugal nos últimos 15 anos foi que além dos investimentos que foram feito no olival, houve também investimentos muito significativos nos lagares e na transformação, no processo de extracção. Desenvolveu-se um know-how técnico muito grande e exigente, de grande rigor de higiene, no sentido de produzir azeites que hoje são ricos, aromaticamente expressivos e muito bons, que depois vão lá para fora aos concursos e ganham prémios. Quando falas em extracção, estás a falar de extracção a frio. Sim. Só desse processo são feitos bons azeites. E esse processo de extracção é de rendimentos muito baixos, o que significa que muitas vezes os produtores precisam de oito, dez, doze quilos de azeitonas para produzir um litro de azeite. Isso também encarece o produto. Quando amigos meus dizem que eu só recomendo azeites caríssimos, (o que nem é verdade) azeites de doze euros, eu habitualmente pergunto - Tu dás doze euros por uma garrafa de vinho? - e a resposta é invariavelmente sim, então, eu parto para o ataque - Quanto tempo demoras a beber a garrafa de vinho? Um dia? Para quantas refeições te dá uma garrafa que custa doze ou dezoito euros? – É isso que as pessoas têm

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nichos de azeites para pessoas mais interessadas e que são, normalmente, azeites interessantes.


que perceber. Que uma garrafa de azeite dá para dezenas de refeições, dá para dezenas de momentos de prazer, dezenas de conversas à mesa. O problema é que as pessoas se habituaram a usar o mesmo azeite para as várias utilizações que ainda vai tendo na nossa gastronomia e que vão da fritura ao tempero a cru. Exactamente. Se as pessoas quiserem utilizar um azeite para fritar, têm outras opções, podem comprar outros azeites que resultam bem. Por exemplo, se for para fritar batatas em grandes quantidades, o refinado também serve, nunca serve é para temperar a cru.

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Quais são as principais diferenças entre os azeites das várias denominações de origem? Nós temos seis denominações de origem com características específicas, mas nem todas são vincadamente perceptíveis pelo consumidor, por isso, e para que as pessoas percebam, eu costumo dizer que o país está dividido entre o norte e o sul. No norte temos Trás-os-Montes e Beira e no sul, Ribatejo e Alentejo. No norte, os azeites apresentam notas verdes aromáticas bastante intensas, com cheiro a relva cortada, a folha de oliveira, a couve e a amêndoa amarga. Esses azeites são muito verdes, picantes e amargos na boca. Esse é um azeite do norte, claramente marcado por aquilo que se considera o terroir onde estão as variedades e o clima. Em relação a Trás-os-Montes, as variedades mais comuns são a cobrançosa, a verdeal, a verdeal transmontana e a madural. São estas variedades que dão este perfil de azeite. Mais a sul temos uma mancha de olival marcado por uma variedade: a galega. A galega, por natureza, dá azeites mais suaves e doces, com notas de frutos secos. Portanto, grosso modo, o país divide-se um bocadinho neste perfil: azeites suaves e doces no sul e azeites verdes, picantes e amargos no norte. É evidente que isto é uma avaliação generalizada, porque podemos encontrar no sul, no Alentejo ou no Algarve, azeites com algumas características normalmente atribuídas aos azeites do norte e vice-versa. Tudo depende da forma como o azeite é extraído e da época em que a azeitona é colhida. Isso é determinante. Significa que no sul de Portugal, no Alentejo e no Ribatejo podemos também fazer azeites picantes, amargos, tudo depende do timing da apanha da azeitona. Mas, o perfil genérico a norte é de azeites amargos, verdes e picantes e no sul azeites doces, embora a tendência, pelo perfil daquilo que são os azeites a nível mundial, seja a de que os azeites do sul tendam a ficar um bocadinho mais verdes, porque a preocupação dos produtores é apanhar mais cedo para manter a frescura e a intensidade aro-

mática do azeite. Gostava de ouvir a tua opinião sobre a questão da acidez dos azeites e da sua durabilidade. Já vimos que o que define a matriz do azeite são as variedades de azeitonas, o clima e o território. Quando o produtor faz um azeite e define o seu perfil o que ele quer é que o consumidor sinta esse mesmo perfil durante o maior espaço de tempo possível, sendo que ao contrário do vinho, o azeite não evolui positivamente em garrafa. Significa isto que o vinho vai adquirindo notas misteriosas ao longo de cinco, dez, quinze ou vinte anos, consoante o vinho. No caso do azeite, isso não acontece. Logo, o ideal é que as pessoas consumam o azeite depois de embalado o mais rapidamente possível, no máximo até um ano. Sei que muitos produtores colocam o prazo de validade do azeite com 24 meses, mas acho que isso já é excessivo. A partir de determinada altura o azeite decai, perdendo aromas e sabor. Quanto à questão da acidez é um mito. Para termos uma ideia, em Espanha e em Itália que são países que percebem um bocadinho disto (risos), não se coloca o grau de acidez na garrafa. As pessoas têm de esquecer o conceito da acidez e concentrarem-se na escolha das categorias do azeite. Se uma pessoa escolher um azeite virgem extra, escolhe um azeite cujo intervalo de acidez está sempre entre 0% e 0,8%. Se eu quero consumir um azeite de excelente qualidade, eu devo consumir um azeite virgem extra e esquecer a questão da acidez que pura e simplesmente não existe. Existe esse mito de que há pessoas que conseguem perceber a acidez cheirando e saboreando o azeite. É mentira. Quem consumir azeite virgem extra não tem que ter preocupação nenhuma com a acidez. “Os 100 melhores azeites de Portugal”, mais do que um guia sobre azeites, é o primeiro livro não técnico a debruçar-se de forma sistemática sobre este tema. Quando começaste a idealizar este projecto imaginavas ser possível de reunir 100 azeites com esta qualidade? Há seis anos, quando falei com o Professor José Gouveia acerca da ideia de fazer este livro, perguntei-lhe quantos azeites ele achava que poderiam entrar num guia desses e ele disse que uns trinta e, de facto naquela altura, eram trinta. Hoje, fruto do investimento feito, fruto do interesse de mercado, eu cheguei a 100 e poderiam ter entrado mais, porém estes 100 são os que eu considero que cumprem os requisitos bem elevados de qualidade que me propus avaliar.


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Dentre esses 100, seleccionaste um top ten de azeites muito especiais. Gostava que nos explicasses as razões dessas escolhas. Normalmente, quando falamos num top ten de 100, falamos dos dez melhores azeites do guia. Não é isso que acontece neste caso. Aqueles 10 são azeites de produtores que eu acompanho há muitos anos e que para mim mantêm uma consistência de qualidade imaculada. Como te surgiu a ideia de fazer este livro? O livro começa por ser uma espécie de revolta pessoal. A percepção de que há uma qualidade tremenda reconhecida a nível internacional, mas que depois não se traduz em nada em Portugal é revoltante. Os azeites nacionais são apresentados nos concur-

sos internacionais e ganham medalhas, mas cá dentro nada disso é reconhecido e eu apercebime que esta é uma riqueza demasiado grande para ser desperdiçada e decidi que, enquanto jornalista, tinha obrigação de dar a conhecer esses azeites. Daí nasceu o livro. Foi um grito de revolta! Se nós temos esta qualidade toda, se nós somos um país com tradição na produção de azeite e gostamos de azeite, então vamos, de uma vez por todas, falar de azeites. Depois, lembrei-me de associar os cozinheiros ao projecto... Também é estranho que os grandes chefes não promovam mais o azeite nacional, sobretudo num momento em que isso podia fazer toda a diferença pela projecção mediática que a gastronomia tem de há uns tempos a esta parte. Mais grave do que isso é o facto das escolas hoteleiras não terem módulos de ensino de azeite. Isso é que eu acho gravíssimo e que tem de ser resolvido rapidamente por quem de direito.

TOP 10 Cabeço das Nogueiras Premium É extraordinário que o Alberto Serralha consiga, para quantidades consideráveis, todos os anos fazer um azeite desta categoria, que vai a concursos internacionais e é sempre premiado. Além disso, é um azeite que se encontra nos supermercados e a um preço muito acessível.

Carm Premium É um azeite feito por uma família do Alto Douro, Trás-os-Montes, que é conhecida pela produção de vinho e que começou a fazer azeites deste nível sem ter grande aporte técnico. São azeites cuja afinação ou definição do lote final é sempre feito com um italiano que é amigo da família e é um dos maiores especialistas mundiais em azeites.

Cartuxa A Fundação Eugénio de Almeida surpreende, pois ter duzentos e setenta e cinco hectares de olival e manter esta qualidade todos os anos é muito difícil, sobretudo, numa região quente e que sofre por isso mesmo algumas vicissitudes. Muita dessa constância se deve à Dona Rosário que é a responsável do lagar e que é muito exigente em matéria de qualidade.

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Casa de Santo Amaro Prestige O responsável técnico da casa de Santo Amaro é o Francisco Pavão que, em minha opinião, é uma das pessoas que mais sabe de azeites em Portugal. Além disso, é um homem que tem o Douro e Trás-os-Montes no coração. No seu lagar, presta assistência a muitos produtores da região, sempre com uma exigência de qualidade extraordinária. Além disso, é um excelente ser humano e está sempre, sempre, sempre disponível para fazer o que quer que seja pelo azeite de Trás-os-Montes, pelo azeite de todas as regiões e pela cultura do azeite em Portugal.


Fio da Beira Premium Este azeite foi uma descoberta extraordinária para mim. É um azeite que eu não conhecia e que tem uma história um bocadinho romântica. O dono deste olival é um senhor que decidiu aos sessenta anos dedicar-se à olivicultura, mas ele não fez como muita gente faz que é arranjar uma pequena quinta para fazer azeite. Ele neste momento está a caminho dos quinhentos hectares e tem a sorte de ter como técnico o João Domingos que é uma das pessoas que mais sabe de azeite naquela região.

Herdade do Esporão Selecção A Herdade do Esporão foi pioneira na ligação do universo do vinho ao azeite. A ideia de associar uma marca com notoriedade de vinho ao azeite é muito feliz e nisso foram pioneiros. Inclusive essa ideia nem partiu da família Roquete, partiu de um distribuidor deles no Brasil que fez essa sugestão. Atendendo à exigência que eles têm com o vinho, colocaram-na exactamente da mesma forma no azeite e resultou em azeites excelentes, sendo que têm bastantes variedades e um portefólio bastante interessante entre DOP, não DOP, varietais e azeites de lote.

Magna Olea Eu não conheço ninguém tão obcecado com o azeite como o Jerónimo Abreu Lima. É um transmontano muito especial, de uma família muito especial por quem tenho um carinho imenso. É um senhor que vive especificamente para este universo e tem uma exigência extraordinária. O azeite é brutal.

Monterosa Maçanilha Não há tradição de um belíssimo azeite algarvio, apesar da região ter tradição olivícola. É de bom tom dizer-se que qualquer região que produz bons filhos também produz bons vinhos e bons azeites. Não sei se é assim, mas neste caso é verdade. Não sei se isto é um projeto muito rentável, duvido, mas dá grandes azeites.

Quinta do Crasto Mais uma família com ligação ao vinho e que produz azeites verdadeiramente inusitados. Como diz o Professor José Gouveia, estes azeites fazem lembrar a Procissão do Senhor dos Passos. A verdade é que a família Roquete tem preocupações extremas, para fazer este azeite só usam as azeitonas que caem para o pano, ou seja, mesmo que a azeitona esteja boa e caia no chão eles não utilizam. Portanto é um grau de exigência tremendo, que resulta em azeites únicos.

Rosmaninho Verdeal

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Mais um azeite de Trás-os-Montes. O José Ventura é das poucas pessoas em Portugal a ter um certificado de análise sensorial atribuído pelo Instituto Superior de Agronomia que resulta de uma metodologia do Conselho Oleicola Internacional. Eu não o conheço pessoalmente, mas falo com ele várias vezes por ano. É um mestre de azeites e tem a virtude de ter todos os anos azeites premiados.


IPA, IPA, Hurra! por Pedro Santo Tirso

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A internet é a melhor anfetamina da humildade. O escritor senta-se em frente ao computador com uma ideia genial, mas num assomo de modéstia resolve googlar o título pensado para a sua crónica. E ei-la, a “Ipa, Ipa, Hurra!”, uma obscura IPA da longínqua e discreta cervejeira brasileira “Froide”. Confesso que googlei já meio convencido que este trocadilho era bom demais para não ter sido já inventado e fico feliz com mais esta coincidência transatlântica na minha vida. Assim, creio que quanto ao tema da minha crónica deste mês estamos conversados: a celebração da IPA. “Uma sugestão diferente para o Verão”, como escreveriam aquelas revistas semanais que tentam sempre fazer tudo parecer espectacular, dos spinners para crianças (look it up) até aos cocktails com ruibarbo (com ruibarbo, por Deus!). Mas no caso, o lugar-comum é apropriado pois dentro da rainha do verão - a cerveja estupidamente gelada - a IPA tem conquistado o meu coração e feito o seu caminho, lá desde as Índias Orientais, pelo meio das cervejeiras artesanais até chegar à I Liga. A IPA - India Pale Ale (cujo histórico está bem apanhado na wikipedia, por isso poupem-me) é antes de mais um Ale. E esse é o primeiro aspeto que temos que ter em conta ao pensarmos nela, sobretudo num país em que a maioria das pessoas, mesmo sem o saber, bebe apenas Lager no que toca a tipos de cervejas. A diferença está na temperatura de fermentação. Quente para os Ales, frio para as Lager. Sendo um Ale, é pálido. Ou seja, feito com malte pálido. Pouco mais para dizer aqui. E chegamos então à Índia. Ou dito de outro modo, ao lúpulo. É certo que o nome é India Pale Ale mas o que a Índia nos recorda face a outros Pale Ales é o peso do lúpulo deste o início da sua produção e exportação para a Índia. O que a tornou distinta de outros Pale Ales não foi apenas ter ido para a Índia, mas a Índia ter deixado a sua marca no gosto desta cerveja, frutada e amarga: inicialmente fermentada como vinho para aguentar a viagem até à Índia, foi sendo amaciada para se adaptar ao clima indiano. Eis aqui a beleza da diversidade aplicada ao engenho de bebidas, na linha dos gin tónicos, devido à má relação entre o quinino e a malária, e do

sucesso das Sagres Mini em Angola e outros locais do defunto Império. India Pale Ale então. Mas India Pale Ale agora? Eis um nome que começou como descrição e é agora uma marca, um nome, um tipo natural, Kripke and all that. Já não quer dizer nada do que quis dizer, quer apenas evocar um passado nostálgico aliado à experimentação da juventude. E por falar disso. Há uns meses quando provei umas das nossas novas cervejas artesanais dei por mim


no Hawaii, o que resultou estranho uma vez que me encontrava no Príncipe Real e a última vez que estive no Hawaii foi há 8 anos. Como não tenho melhor sentido evocatório do que o paladar dei por mim a pensar se teria ou não bebido aquele tipo de cerveja no Hawaii. Olhei para o rótulo e a Sovina dizia IPA. Quer seria isto de IPA? Fui investigar a minha ignorância, pela qual desde já me penalizo aqui publicamente e dei por mim de novo em Kauai perante a descrição da Castaway IPA da Kona Brewing Company (look it up). Afinal, eu sabia o que era uma IPA. Só não sabia que sabia. Foi preciso a loucura das novas cervejas artesanais ter chegado à Europa, e em especial a Portugal, para que recuperássemos o lento declínio em que se encontrava desde o início do século XX a India Pale Ale, que entretanto tinha sido redescoberta pelos americanos. Desde esse dia tenho bebido todas as IPA portugueses a que tenho conseguido entregar o palato. Para além da Sovina, já provei a Urraca Vendaval da Oitava Colina e a Voragem da Mean Sardine. Ou seja, vou muito no início, tendo em conta as IPA portuguesas que sei existirem, como as da cervejeira Dois Corvos, a letra F da Cervejeira Letra e outras que ainda tenho para descobrir. Muitas são difíceis de encontrar, mesmo procurando, outras esbarram com o meu pouco tempo para as procurar. Mas hei-de lá chegar. Aliás, proclamo este verão o verão da IPA. O que me leva ao único ponto importante desta prelecção, a importância da IPA na cultura gastronómica. As grandes já o perceberam. Primeiro a Super Bock com a 1927 Bengal Amber IPA e mais recentemente a Sagras Bohemia IPA. À boleia do sucesso das IPA no sector artesanal e percebendo que é uma ótima cerveja para a canícula, acompanhando bem pratos fortes, ambas lançaram as suas IPA para alargar o espectro de oferta veranil.

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Termino com a resposta à questão óbvia: porquê escolher IPA? Fechemos o círculo, abrindo uma cerveja: a IPA é dos ales mais leves que poderemos beber o que a aproxima de uma lager, mas têm um mundo de diferenças lá dentro a começar pela amargura frutada. Não se pode pedir mais à mudança que o verão exige.


A Música dos Vinhos Ao provar um vinho usamos 4 dos 5 sentidos. Avaliamos cores, aromas, texturas e sabores. E se os vinhos tivessem música?

VINHO BRANCO PROCURA BRANCO 2015

MÚSICA

Rodriguez - Searching for Sugar Man

Ouça aqui!

VINHO TINTO A TOURIGA VAI NUA 2016

MÚSICA

Mallu Magalhães – Você não Presta

Ouça aqui!

VINHO BRANCO VICENTINO SAUVIGNON BLANC, 2016

MÚSICA

On & On - Erikah Badu Ouça aqui!

por

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André Pinguel


Susana Esteban é espanhola, enóloga e brilhante nos vinhos que cria! Responsável por alguns dos grandes vinhos Portugueses de conhecidos produtores, terá sentido o apelo e a maturidade necessária para lançar a sua marca, em que todas as decisões seriam apenas suas! Assim deu início a uma procura por todo o Alentejo da vinha que já idealizara. Vinhas velhas, baixas produções, concentração, qualidade e complexidade. Após dois anos de buscas a vinha apareceu e o resultado é a gama de vinhos “Procura” tinto e branco. O fenómeno de Procura / Descoberta é pretexto perfeito para recordar a maior procura da história da música. Rodriguez tinha tido uma carreira pouco conhecida em Detroit apenas com dois álbuns lançados e poucas vendas. No entanto, sem saber, as suas músicas foram inspiradoras e altamente populares na África do Sul. Na década de 90 dois fãs que buscavam saber ao certo quais os contornos do suicídio de Rodriguez descobrem afinal que o seu ídolo está vivo! A música Sugar Man aparece aqui a simbolizar esta inspiradora história de Procura / Descoberta. Este fantástico vinho branco provém de Portalegre de uma vinha com cerca de 80 anos e é o resultado de um processo idêntico de Procura / Descoberta. Além disso, adjectivos como complexidade, maturidade, profundidade são comuns tanto ao vinho como à música.

PROCURA Branco 2015

Mallu Magalhães, através desta música, lança um convite a todos os que a quiserem conhecer. Mas este não é um convite qualquer, não é cordial, é ao contrário provocador e cheio de coragem. É um desafio a vir conhecer o lado bom, mas também o mau. Alguém que se mostra sem esconderijos, que deixa espreitar as suas cicatrizes e sem medo de revelar as directrizes. Somos convidados para a sua festa, mas ficam de fora os que não prestam... os preconceituosos. O Touriga Vai Nua é um vinho que elegi como “fora de série” desde a primeira vez que o provei há já um ano. Resolvi incluí-lo nesta rubrica sem suspeitar que iria resultar numa harmonização perfeita. Depois de vaguear por muitos temas cheguei a esta música e o encaixe foi imediato. António Maçanita apresenta-nos uma rara versão da casta rainha em Portugal, já que é um Touriga Nacional com estágio de apenas 3 meses em cuba de inox. A ideia é mostrar a Touriga num estado puro, sem marcas da madeira ou do tempo. À semelhança do convite de Mallu, somos convidados a deixar de lado ideias feitas e provar a casta nua e crua. O vinho é excepcional! Cor intensa, frescura e muita fruta é um tinto ideal para um bom jantar de Verão.

A Touriga Vai Nua

Preço: 21.00€

Região: Alentejo

Castas: 100% Touriga Nacional Produtor: Fita Preta Estágio: 3 meses de estágio em inox sem contacto com barrica Enologia: António Maçanita Preço: 21.00€

Vicentino Sauvignon Blanc Produtor: Frupor Casta: 100% Sauvignon Blanc Região: Alentejo Tipo de Solo: argilo-xistosos e franco-arenosos Enólogo: Bernardo Cabral Fermentação: em cubas de inox a uma temperatura controlada de 14º Estágio: sobre as borras de fermentação durante 6 meses, seguido de 3 meses de repouso em garrafa antes de ser comercializado. Preço: 10,50€ [187]

Erikah Badu e Vicentino Sauvignon Blanc... mais do que uma harmonização entre a música e o vinho, esta combinação é uma sugestão! O vinho Vicentino transporta-me imediatamente para a região de onde vem, o litoral alentejano. E para mim, oriundo do centro do país, a costa alentejana cheira a verão, a tranquilidade, a calor, a pôr-do-sol e a paisagens de cortar a respiração. A este cenário junto vinho e música. Na música quero algo com onda e ritmo mas que me relaxe: R&B. Para o vinho quero um branco fresco mas envolvente. O Vicentino Sauvignon Blanc é uma óptima surpresa! Uma casta multifacetada e internacional, muito versátil e com poder de adaptação aos mais diferentes terroirs. Temos exemplos delicados em França de onde é oriunda ou altamente exuberantes na Nova-Zelândia onde encontra talvez uma das suas melhores expressões. Neste caso temos um carácter muito Atlântico, um Alentejano que nada tem a ver com o que mentalmente associamos a esta região. A proximidade do mar e os solos de baixo rendimento resultam num perfil mais vegetal e ligeiras notas de frutos tropicais com uma boa acidez. Erykha Badu adopta uma imagem exuberante através dos turbantes coloridos. É a mesma exuberância que encontro neste Sauvignon Blanc Atlântico a contrastar com um Alentejo que alguns dizem não ser talhado para vinhos brancos. Aqui está um exemplo que prova o contrário!

Produtor: Susana Esteban Região: Alentejo Casta: Mistura das castas tradicionais de Portalegre (Vinhas Velhas) Estágio: 8 meses em barricas de carvalho francês usado Enologia: Susana Esteban


Falando de vinho no berço da Touriga Nacional

Dr. Arlindo Cunha

Já houve um tempo em que vinho era sinónimo de Dão.

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Por essa altura ainda o Dão vivia da glória de outros tempos. Dos míticos vinhos de 64 e 70 da Federação dos Vinicultores, dos tintos de 80 e 85 da UDACA e das geniais obras de arte vínica cuidadosamente preparadas pelo laborioso trabalho e saber do saudoso Engenheiro Vilhena no Centro de Estudos Vitivinícolas do Dão. Nesses tempos, falar-se de vinho, era falar-se do Dão - a mais antiga região demarcada de vinhos de mesa do país. A fama levara-o às quatro partidas do mundo e, quer pela exigência da quantidade requerida por compradores, quer pelo envelhecimento dos mestres que os elaboravam, quer ainda pela ganância económica de alguns, habitualmente associada aos casos de sucesso, a verdade é que na última década do século passado, salvo honrosas excepções, os vinhos do Dão passaram a ser uma sombra de si mesmos. Ultrapassada em quantidade e, sobretudo, em qualidade por Douro e Alentejo, a região viu-se confrontada com a necessidade de se renovar. Felizmente, foi isso que fez. O amor às encostas ensolaradas do Vale da Estrela de muitos dos seus filhos apaixonados pela arte vínica, jovens enólogos entretanto regressados às origens, permitiu o ressurgimento dos clássicos vinhos do Dão. As vinhas velhas, na sua grande maioria poupadas à praga da filoxera, embutidas em pequenos talhões da encosta do rio que deu nome à região demarcada, símbolos do arreigado sentido de propriedade das gentes da Beira, foram sendo substituídas por vinhas novas, elegantes, meticulosamente orientadas à exposição solar e exclusivamente compostas pelas castas características da região, como que anunciando publicamente o surgimento

de um tempo novo. Com vinhas novas, novo vinho apareceu. Um pouco por toda a parte surgiram novos rótulos dum vinho com tradições seculares. O vinho das tradicionais quintas da Beira Alta, cientificamente elaborado, sem perder a alma que sempre o caracterizou, economicamente viável e aberto ao mercado, igualmente novo, do enoturismo. A esse caminho trilhado por particulares, somou-se um gigantesco trabalho de profissionalização das adegas cooperativas que perceberam a urgência do saneamento financeiro, a necessidade da produção de vinhos de qualidade e o papel fundamental do marketing para o seu sucesso comercial. Hoje, o Dão recupera paulatinamente o seu lugar de região única no panorama dos vinhos de mesa em Portugal. Sem pressas, como que acompanhando o tempo que as vinhas novas levaram a crescer e a dar fruto. Como na safra agrícola, a região esperou o resultado da enxertia, do desenvolvimento da videira, dos primeiros cachos e finalmente da transformação da uva em mosto, para voltar a afirmar-se a nível nacional e internacional. Deu tempo ao tempo, como convém nestas coisas da lavoura. Hoje colhe os frutos. Foi no momento em que o Dão começava a respirar novos ventos de esperança, com vinhos de qualidade ímpar afirmando-se sem complexos no exigente e restrito clube da viticultura mundial, que o ex-ministro Arlindo Cunha assumiu funções, como Presidente da Comissão Vitivinícola Regional do Dão. Desse já longínquo ano de 2010 até aos dias de hoje, muito mudou no panorama vitícola nacional. Foi para perceber essas mudanças e os caminhos que se desenham para o futuro da região que conversámos com Arlindo Cunha no belíssimo Solar do Vinho do Dão, em Viseu. Dr. Arlindo Cunha, mais de 6 anos passados desde a sua tomada de posse como Presidente da CVR Dão, o que é que mudou no sector vitivinícola na região demarcada de vinhos de mesa mais antiga do país? Arlindo Cunha: É verdade que nos últimos anos se acentuaram algumas mudanças estruturais operadas na fileira dos vinhos do Dão. Mas devo dizer que esse processo começou há quase duas décadas, com o movimento dos produtores-engarrafadores e a reestruturação das vinhas. Destaco os aspectos seguintes: melhores vinhas e mais bem tratadas; melhores adegas e respectivas


Nas décadas de 70 e inícios de 80, em Portugal, vinho era sinónimo de Dão. Depois, a ascensão meteórica de outras regiões do país, em particular do Alentejo e Douro, aliada a uma aposta na quantidade em detrimento da qualidade, arrastaram a região para uma agonia de que só agora está a sair. Qual o papel da CVR Dão neste processo lento de reafirmação da região? É verdade. O Dão, porque no seu segmento de mercado não tinha praticamente concorrência, entrou num processo de perda de qualidade, que veio a pagar caro, sobretudo nas décadas de 80 e de 90. O principal mérito foi dos produtores e empresas, que investiram na reestruturação das vinhas e das adegas e na melhoria das competências dos profissionais que trabalham no sector. A CVR tem focado o seu trabalho essencialmente em três planos: redução de custos e simplificação dos procedimentos administrativos relacionados com o processo de certificação; reorganização do processo de Qualidade, incluindo a Câmara de Provadores, para que os vinhos que são certificados como DOP Dão sejam dignos desse nome; e um esforço de investimento na promoção genérica, apoiando operacional e financeiramente iniciativas promocionais nos mercados interno e externo. Reestruturadas as Adegas Cooperativas, que durante décadas foram a garantia de rendimento dos lavradores da região e ganha a aposta de reconversão das vinhas da região, que permitiram o aparecimento dos Vinhos de Quinta, quais os grandes desafios que se colocam à viticultura da região? Continuar, pois a reestruturação é um processo que tem de continuar. Creio que importa estar especialmente atentos aos efeitos das alterações climáticas, que podem vir a implicar alterações de localização ou orientação de certas vinhas, assim como de técnicas de cultivo. Temos um projecto de investigação em curso com o Instituto Politécnico de Viseu e a Direcção Regional de Agricultura precisamente com o objectivo de estudar estes aspectos. Quais são, para o Dr. Arlindo Cunha, as grandes características diferenciadores dos vinhos do Dão?

Creio que os especialistas são unânimes a esse respeito: acidez fixa equilibrada e frescura de boca, riqueza aromática, vocação gastronómica e capacidade de guarda imbatível. Bica: Um dos comentários que mais ouvimos de enólogos e vitivinicultores reporta-se ao facto do vinho do Dão ser o vinho mais gastronómico do país. Ora, numa momento em que a gastronomia nacional está numa fase de amplo crescimento, não será esta uma das vias da afirmação nacional do vinho do Dão? Sem dúvida. A estratégia promocional que temos seguido tem-se centrado nesse aspecto, assim como nos da longevidade, carácter, equilíbrio e elegância dos nossos vinhos do Dão. No quadro dos apoios disponíveis no Programa Portugal 2020, o que é que os agricultores da região podem esperar para auxiliar o seu esforço produtivo e comercial? Os produtores têm recorrido aos apoios do programa VITIS para a reestruturação das vinhas. Recentemente têm também recorrido ao novo regime de autorizações de plantação. Têm também recorrido aos apoios para construção ou remodelação de adegas, para enoturismo e para promoção. Para além dos programas normais do Portugal 2020, temos desde o ano passado, um programa específico para a fileira do vinho na Região Centro, financiado com 3 milhões de Euros pela CCDRC, para as 4 denominações de origem da Região Centro. Falemos um pouco de dados concretos. Como tem evoluído a produção e comercialização dos vinhos do Dão? Quais os seus principais mercados? Quais as apostas para este novo triénio? Como acima referi, os vinhos do Dão perderam uma considerável quota de mercado nas décadas de oitenta e noventa, a favor de vinhos de outras regiões, especialmente das emergentes, mas começaram a recuperar nos últimos anos, como o prova o aumento de cerca de 20% dos vinhos certificados nos últimos 3 anos. Do vinho certificado é exportado cerca de 45%, quase em partes iguais para Países Terceiros e da União Europeia. Estamos a trabalhar agora num plano Estratégico a 10 anos, acompanhado de um Programa de Promoção focado, quer em mercados tradicionais, quer em novos mercados emergentes ou com potencial de desenvolvimento. por Revista Bica foto CVR Dão

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tecnologias; e melhores profissionais em todos os elos da fileira (produtores, gestores, viticólogos e enólogos). Como consequência destas transformações estruturais, temos melhores vinhos. Vinhos esses que, a pouco e pouco o mercado foi descobrindo e que levou a que, depois de tantos anos de perda de quota de mercado, tenhamos voltado a recuperar nos últimos anos.


Mil e uma maneiras de fazer bacalhau Torricado de Bacalhau Para 4 Pessoas

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Ingredientes: 2 Lombos de Bacalhau 4 unidades de pimento vermelho 2 unidades de pimento verde 1 kg de tomate 1kg de pepino 1 kg de cebola Azeite vinagre Alho PĂŁo de Mafra 100 g de tomate cherry OrĂŠgĂŁos Sal qb Coentros


Confecção: Para o Bacalhau: 1.Demolhar e arranjar os lombos de bacalhau em lascas. 2.Colocar o bacalhau em azeite e alho durante 2 horas. 3.Deixar repousar. Gaspacho 1.Cortar em pedaços grosseiros a cebola, alho, tomate, pepino (sem casca) e o pimento vermelho e o pão de mafra. 2.Adicionar azeite, vinagre, sal, pimenta, orégãos e água e deixar marinar. 3.Triturar tudo e levar ao frigorífico. Salada de pimentos 1.Numa grelha, levar os pimentos inteiros a grelhar. 2.Quando a casca estiver a estalar, colocar os pimentos num saco, e retirar a casca. 3.Cortar os pimentos em tiras, temperar com sal, pimenta, azeite, vinagre e alho picado Torricado 1.Cortar 4 fatias de pão com a altura de 2 cm +/-.2. 2. Barrar um dente de alho em cada pão, e fritar o pão em azeite. Empratar da seguinte forma Pão, salada de pimentos e bacalhau lascado por cima. Picar coentros. Pode servir o gaspacho em copos de shot ou colocar pontos como na fotografia.

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Receita da autoria : Chef Mariana Claro Restaurante OutOf R. Sousa Pinto, 1250-096 Lisboa


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Ilustração por Pedro Albuquerque


AROMAS Dizem que o melhor é o de um bom pão de quilo a acabar de cozer, ainda fumegante e estaladiço. Não tenho a certeza. Sair do quarto bem cedo e sentir logo, lá em baixo (mas a subir rapidamente pelas escadas), umas torradinhas acabadinhas de fazer é sublime. Parece que já trazem manteiga. Fundamental que a atmosfera traga ainda o chilrear de uma qualquer coisa ao lume, uma cafeteira ou algo do género: sentir a essência de leite gordo a ferver, carregadinho de nata, mesmo para um não bebedor do mesmo é fabuloso. Ou o cheiro profundo do salgado do mar, numa praia ventosa e com o mar em fúria, a salpicar na cara. Simplesmente adorável é o cheiro da terra seca molhada, principalmente se num agreste fim de tarde, em Agosto, em pleno e deserto Alentejo sob uma repentina carga de água. Há fragrâncias maravilhosas que povoam os recantos mais profundos da nossa memória e nos fazem sentir sempre bem, como a de um bebé acabado de sair do banho, devidamente untado sem avareza com a velhinha e clássica água de colónia Johnson. Ou, em oposição, o encantador pivete de um estábulo cheio de bois e palha seca. Verdadeiramente estupendo é o perfume do pisar do vinho, em geral, e dos bons vinhos em particular, o de uma velha adega - sempre belo - ou o da primeira lareira crepitante de Outono (também associada a torradas e compotas), acendida com pinhas velhas (nunca acendalhas!). O fumo de um bom charuto ou o voluptuoso aroma de um excelente tabaco de cachimbo, que me transporta sempre e muito velozmente para a segurança e felicidades da infância, são inolvidáveis. E haverá coisa melhor do que enfiar o nariz num velho armário de bebidas? Sentir aquela deliciosa misturada de odores de madeira e álcool? Ou mergulhar num livro antigo? E fruta verdadeira? É incrível como hoje, nas grandes lojas, se passa pela zona das frutas e não se cheira a nada; mas experimente-se uma velhinha mercearia com uma velhinha merceeira, cheia de fruta bichada, feia e disforme, e experimente-se com tempo o fabuloso bálsamo dos pêssegos, dos morangos, dos figos pingo de mel... que coisa admirável! Aproveite-se a ocasião e dê-se uma valente fungadela junto da broa quente, que está por cima do papel pardo, no canto do balcão de madeira carunchosa. É quase tão bom como o cheirinho de um belíssimo café de balão, quente, demorado e profundo. Ou o do interior de um carro novo. Pequenas coisas que nos fazem ficar felizes.

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por VLX


RAIO GOURMETIZADOR

SARDINHAS ’R’ US

por Pedro Nápoles

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Conversava com um amigo quando ele me aconselhou uma nova loja de sardinhas enlatadas no Rossio, o que logo me deixou entusiasmado. Sou um sardinhófilo fervoroso, seja na brasa com salada de pimentos, em maravilhosas latas que desde criança o meu pai me habituou a gostar, ou as decorativas do Bordallo. Nada melhor ilustra a condição portuguesa do que a sardinha: pequena, discreta e saborosa. Assim, com expectativas, me dirigi ao Rossio, aproveitando para ver as novidades do Azevedo e as peças em cena no D. Maria. Procurando a dita loja no local que me indicaram, apenas me deparava com o que parecia uma montra de brinquedos a imitar as do Hamleys em Londres, até que reparei que o seu nome era “O Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa”. Hesitei amedrontado, pensando no que me esperaria dentro. Supostamente era uma loja de conservas, mas sentia-me no Natal a comprar brinquedos para as crianças. Arrisquei, já temendo por consequências devastadoras. Lá dentro, uma multidão acotovelavase fotografando como se disso dependesse a vida, enquanto um rancho de funcionárias muito animadas dava informações distribuindo sorrisos. Avancei, tentando perceber onde me tinha enfiado, numa gincana entre japoneses e russos, balões pendurados, rodas e espelhos de camarim. Encontrando um canto mais calmo, comecei a ver as latas e verifiquei que todas tinham um mecanismo de relógio desenhado num dos lados, cor diferente conforme o ano destacado em grandes números e uma data e um evento relacionado com essa data, tipo “1991 - Fim da aliança militar conhecida como Pacto de Varsóvia | Nasceram Ed Sheeran e Sara Sampaio” ou “2013 - O Cardeal Jorge Bergoglio é eleito Papa, escolhendo o nome Francisco | 100 anos antes nasceram Albert Camus e Vi-

nicius de Moraes”. Senti algumas tonturas dada a profusão de luzes e cores e tentei fazer um nexo entre o Papa Francisco, Sara Sampaio e sardinhas, porém sem resultado. Tentei o Pacto de Varsóvia e Ed Sheeran, e nada. Claro que, entretanto, supunha que as datas se referiam às colheitas das sardinhas, pois há especialistas que defendem que as conservas ganham sabor com algum envelhecimento. Querendo perceber onde estava metido, resolvi dirigir-me a uma das sorridentes meninas para tentar saber o que é que de facto a loja vendia. Largo sorriso e lá me explicou que as latas tinham todas o mesmo conteúdo - sardinhas em azeite - e que só variava a data inscrita e as cores. Era tudo o mesmo. Notei mais um sorriso, desta vez por certo pelo meu ar bovino que tentava processar uma informação que me parecia tão idiota. Não fora estar bem-disposto, e em boa condição física, por certo teria sucumbido, desmaiando com estrondo no meio do chão alcatifado. Persisti em encontrar um nexo para que esta loja exista e para que faça sentido vender sardinhas enlatadas em estilo brinquedo para se oferecer em data festiva. Só me ocorreu que fosse uma subversiva forma de criar uma alternativa aos bolos de anos, substituindo-os por latas com a data de nascimento do aniversariante, sobre as quais se colocam as velas, conseguindo assim trocar os nocivos açucares pelo saudável ómega 3. Parece-me ainda assim algo tão bizarro que nem mesmo um jantar de Dali e Breton com o Director Geral de Saúde poderia criar, após uma profunda bebedeira. Há coisas que podem dar em corte de relações com os amigos, ou, ao menos, a um fortíssimo esfriar. Não sei se conseguirei dirigir de novo a palavra ao meu amigo que para aqui me enviou sem romper em gritos histéricos de insulto. Vai ser uma prova de fogo à minha capacidade zen e ao resultado de horas de Ioga, um teste decisivo de auto-controle. Apetece-me voltar à loja na sua companhia obrigando-o a lá permanecer por uma hora, em jeito de punição, mas o pior é que ele poderia gostar.


Chapéus há muitos

CAMINHAR POR BAIXO DE UMA ELEGANTE CAPELINE EXIGE ALEGRIA E BOA DISPOSIÇÃO, É TODO UM ESTADO DE ESPÍRITO…

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por Joana da Franca


Crianças expostas na roda da Misericórdia por Francisco d’Orey Manoel Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Desde a criação da Santa Casa, em 1498, os membros desta Irmandade promoviam o apoio junto dos mais desfavorecidos e fracos. Tinham como objetivo praticar o bem, levando a cabo as obras de misericórdia. No século XVI, ao assumir a administração do Hospital Real de Todos-os-Santos, a Misericórdia de Lisboa passou a promover ativamente o acolhimento, o tratamento e a criação dos menores que eram colocados na roda dos expostos, instalada no edifício deste Hospital. A exposição dos bebés que davam entrada através da roda processava-se de forma anonima e, cerca de metade dos progenitores juntavam-lhes um bilhete (designado por escrito). Este incluía um texto onde registavam alguns pedidos, nomeadamente que o recém-nascido fosse batizado com um nome específico, que fosse entregue a uma ama dedicada e que tratasse bem a criança, ou ainda que o filho não fosse entregue a uma ama residente fora de Lisboa, porque, em breve, viriam requerê-lo. Também era frequente que os pais assinalassem no escrito algumas informações, tais como a menção do dia de nascimento ou particularidades físicas do filho, assim como as causas que obrigaram à sua entrega.

Sinal de Cristóvão, criança exposta n.º 1229, nascida no dia 24 de Setembro de 1822.

Sinal de exposto: conjunto de informações, escritos ou peças que acompanhavam a criança exposta, quando dava entrada na Casa da Roda. Para além dos objetos (roupas, textos manuscritos, fitas e diversas peças que serviam como marcas para identificarem e protegerem espiritualmente aquele inocente), também se incluem como sinais, as marcas físicas (cor de pele, do cabelo, ou dos olhos) ou as deficiências (referindo, por exemplo, que o menor tinha uma fenda palatina, 6 dedos no pé, ou se encontrava num estado de saúde débil), para além de outras informações que eram registadas, tais como a hora e dia de entrada ou nome atribuído ao bebé.

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Para mais informações, consultar: http://www.scml.pt/pt-PT/cultura/arquivo_ historico/trabalhos_publicados/


Ao receber os bebés, a Misericórdia entregava-os a “amas-de-leite” e, posteriormente, a “amas-de-seco”. Estas tinham como obrigação criar e educar o menor, e eram inspecionadas periodicamente, sendo confirmado se as crianças estavam a ser bem tratadas e se o respetivo pagamento poderia ser processado. Após uma análise da vasta documentação (que felizmente foi sendo preservada ao longo dos séculos pela Misericórdia de Lisboa), verificamos que as exposições tinham como causa principal a falta de meios no seio familiar, aparecendo casos em que essa família já comportava muitos membros e os recursos eram limitados. Por vezes, também referem que a doença tinha afetado gravemente a mãe ou o bebé, ou que tinha surgido uma situação de falta de sustento, uma vez que o pai tinha partido para fora de Lisboa ou tinha morrido. Deste modo, a roda dos expostos funcionava como a resposta da sociedade, numa tentativa de apoiar as famílias mais carenciadas, pelo que, a ação de entregar uma criança aos cuidados da Misericórdia era perfeitamente normal e aceite socialmente. Este aspeto é visível, dado que os menores eram colocados na roda a qualquer hora do dia ou da noite e, em alguns casos, chegam a registar o nome dos progenitores ou juntar elementos identificadores, como uma fotografia do pai, uma certidão de batismo do bebé, um monograma ou um cartão-de-visita. Por outro lado, a roda contribuía para o combate da mortalidade infantil, permitindo colaborar

para o aumento da população. Este aspeto era fundamental nas comunidades do Antigo Regime e do século XIX, uma vez que originava um incremento da mão-de-obra e, consequentemente, uma progressiva prosperidade. Por outro lado, um país com mais membros, poderia reforçar as suas fileiras militares e, consequentemente, impor-se a outras sociedades. Tendo presente que a maioria da população era analfabeta, e uma vez que em múltiplos casos o tipo de informação inserida nos sinais é muito semelhante, é provável que existissem pessoas junto da roda a quem a população recorria para redigir essas mensagens. Por outro lado, também aparecem alguns sinais escritos noutros idiomas, como o espanhol, francês, ou inglês, surgindo também alguns “adornados” de frases em latim. Por vezes surgem sinais que incluem arranjos decorativos, nomeadamente pequenos desenhos ou recortes. Em determinadas situações esses cortes eram realizados na extremidade da folha, tendo como função permitir a sua validação, através do encaixe do sinal que tinha sido entregue com o bebé, juntando-o com o documento (ou contrassinal) que ficava em poder dos pais. Este último documento era apresentado quando os progenitores vinham reclamar o seu filho, permitindo ao funcionário da Santa Casa confirmar que aquela pessoa era o pai ou a mãe desse menor e, por outro, possibilitava que os progenitores verificassem que não surgiam trocas de crianças, na altura da sua reclamação. Mas, em alguns casos o escrito era acompanhado de fios, fitas, ou tecidos, e outros descreviam um enxoval entregue. Em situações raras faziam acompanhar o escrito de medalhas ou pagelas com a imagem de Santos, frações de bilhetes de lotaria ou pequenos desenhos, amuletos de proteção, elementos decorativos (como anéis) ou brincos, tranças de cabelo da mãe, exemplares relacionados com a música ou o teatro, entre outros artefactos. Estes casos demonstram um cuidado suplementar com a junção de outros elementos que ajudavam na identificação do filho, mas também serviam de auxílio e estímulo para a vida que tinha de ser percorrida com ânimo e determinação. Sinal de Maria José, criança exposta n.º 111, nascida no dia 6 de Novembro de 1822. É indicado que a exposta é filha dum matrimónio, mas os pais estão impossibilitados de a criar. O suporte de papel apresenta corte efetuado para efeitos de validação.

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No Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa estão acondicionados mais de 87.000 sinais de expostos, executados em 1790 e 1926. Este é o maior conjunto de sinais existente no Mundo, sendo que a maioria destes documentos são formados apenas por um texto. Uma grande percentagem destas mensagens possui uma redação muito simples, sendo que, por vezes, são escritos num português menos erudito e com uma ortografia mais irregular, ou são redigidos num suporte de papel de dimensões reduzidas. Mas não é por causa da sua simplicidade que um sinal deixa de emitir “vibrações” intensas; em todos os casos, a profunda emoção está intimamente relacionada com a separação do recém-nascido.


Um Compromisso para o futuro… por Nelson Moreira Antão Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa encontra-se a assinalar, desde 20 de Dezembro de 2016, o quinto centenário da primeira edição impressa do seu Compromisso, ou estatutos, como contemporaneamente designaríamos esse documento. O Compromisso definia as regras gerais de atuação, estruturava a organização e regia o funcionamento da Misericórdia. Definia os seus objetivos, para além dos meios e formas de os alcançar. A opção pelo vocábulo compromisso, em detrimento de regimento (também em voga na época para designar estatutos) não é desprovida de significado e simbolismo. Não se tratava apenas da enumeração das normas de organização interna e de funcionamento que regiam a instituição, mas também, e sobretudo, da enunciação das premissas fundamentais e do espírito que devia alicerçar a sua missão – as catorze obras de misericórdia – verdadeiros preceitos de caridade e de ajuda ao próximo que os membros da Misericórdia de Lisboa se comprometiam a praticar, através de juramento proferido antes da sua admissão na instituição.

Alimentar os famintos, saciar os sedentos, cuidar dos doentes, acolher com hospitalidade peregrinos e pobres, dar de vestir ou facultar sepultura condigna aos que nada possuem, prover alimento e auxílio jurídico a presos pobres constituíam a vertente material das obras de misericórdia, orientada para a satisfação das necessidades primárias dos grupos sociais mais desfavorecidos. Mas havia que prover também às necessidades do espírito, pelo que, segundo o Compromisso, os membros da Misericórdia de Lisboa deveriam pugnar por conciliar pessoas desavindas, promovendo o perdão entre as partes, por aconselhar os que buscassem orientação, ensinar os que possuíssem conhecimentos rudimentares, consolar aqueles cujas vidas fossem acometidas pelo sofrimento ou pela angústia, rezar pelas almas dos vivos e dos defuntos. O Compromisso encerrava, pois, um claro e abrangente programa assistencial, que rapidamente se estendeu por todo o reino e, também, pelas partes do império, através da fundação de outras misericórdias que acabaram por se reger, com as devidas adaptações, pelo texto fundamental da Misericórdia de Lisboa. A passagem à estampa deste documento basilar possibilitou a difusão do ideário das obras de misericórdia e a criação de uma verdadeira rede assistencial. Trata-se de um dos documentos mais significativos conservados no Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, não só pela sua raridade, valor patrimonial ou aparato decorativo, mas também e, sobretudo, pelo seu valor simbólico, enquanto texto fundamental da matriz de atuação de uma instituição que conta já com 519 anos de atividade ininterrupta. Esta ação, orientada pela missão multissecular de fazer o bem e de bem-fazer, encontra-se plasmada de forma marcante no Compromisso impresso, pela


primeira vez, no já longínquo ano de 1516. Tendo resistido à voragem do tempo e dos homens, este documento assume-se como monumento capaz de recordar e perpetuar os valores da ajuda ao próximo, da compaixão, da caridade e do perdão – pedras basilares das catorze obras de misericórdia, que sempre orientaram e continuarão a orientar a atuação da Santa Casa. Os 500 anos da impressão do Compromisso foram marcados por diversas iniciativas como a publicação do fac-simile do documento (e da respetiva transcrição), a organização da exposição Um Compromisso para o futuro: 500 anos da 1.ª edição impressa do Compromisso da Confraria da Misericórdia, para além de um ciclo de conferências de especialistas nas áreas da história das misericórdias, da produção tipográfica do século XVI, da iconografia e do simbolismo associados ao conceito de misericórdia.

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Mas, mais do que um mero exercício de rememoração apologética, assinalar o pentacentenário do Compromisso é uma forma de realçar os referenciais do passado e utilizá-los para olhar o futuro e nortear a instituição na busca de novos caminhos, novas soluções e respostas inovadoras aos desafios sociais impostos pelo século XXI. Ir mais além, como sempre aconteceu. Recorde-se que algumas das atividades mais importantes das Misericórdias, como a dotação de órfãs e o cuidado das crianças expostas, não se encontravam explicitamente consagradas no texto regulamentar. O Compromisso assume-se, por isso, como testemunho de uma missão sempre renovada e como estandarte da continuidade histórica do programa assistencial assumido e constantemente renovado pela Misericórdia de Lisboa desde a sua fundação, no ano de 1498.


À conversa com o Vereador da Cultura da Figueira da Foz António Tavares por Andreia Gouveia Câmara Municipal da Figueira da Foz

António Tavares nasceu em 1960, na cidade de Lobito, na então província ultramarina portuguesa de Angola. Em 1975, na sequência do processo de descolonização de África, mudou-se para Portugal e passou a frequentar o liceu no Porto. Fez a licenciatura em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi professor do ensino secundário na Escola Secundária Domingos Rebelo, em Ponta Delgada, e na Escola Dr. Joaquim de Carvalho, na Figueira da Foz e iniciou o percurso de autarca no município da Figueira da Foz em 2005, como vereador não executivo. Passou a ter funções executivas em 2009, acumulando, desde 2013, a função de vice-presidente da autarquia, cabendo-lhe atualmente, os pelouros da Cultura, Educação e Ação Social. Paralelamente, António Tavares dedica-se à atividade literária: finalista do Prémio Leya 2013, com o seu romance de estreia «As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia», editado pela Teorema, acabou por vencer a distinção em 2015, com «O Coro dos Defuntos». Entre a política e a arte, é na Figueira da Foz que encontra a matéria-prima dos seus dias.

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Imagine que um turista estrangeiro, que visita a Figueira da Foz pela primeira vez e sem qualquer informação sobre a sua História, o encontra e lhe pede que lhe fale um pouco sobre este Concelho. O que é que não poderia deixar de contar-lhe? Não poderia deixar de descrever o concelho em termos de diversidade paisagística, o que

constitui também a sua marca: a norte, a região das Gândaras com os seus areais conquistados ao mar e as suas lagoas; a sul, a zona dos rios Mondego e Pranto, chamada a borda de água, com os arrozais verdejantes e, no meio, o estuário e a ilha da Morraceira em todo o seu esplendor. A serra e a baía com o seu extenso areal são também marcas indeléveis desta paisagem magnífica. O Turismo é hoje uma importante fonte de riqueza do país, mas a Figueira da Foz já tem um turismo veterano... O que tem a Figueira para oferecer? A Figueira da Foz tem sobretudo uma posição geográfica ímpar; oferece praias com características muito diversas, a serra, a zona estuarina - com o típico reticulado das salinas – e está próxima da vila medieval de Montemor-o-Velho e de Coimbra. Pode-se passear, a pé ou de barco, praticar desportos náuticos, comer bem e aproveitar o glamour da noite. Sol e mar ou pólo cultural? Qual é a identidade da Figueira da Foz para os visitantes? A identidade é feita dos dois fatores referidos. A Figueira da Foz é indissociável da sua matriz de cidade turística, muito associada hoje aos desportos de praia e náuticos, mas é também uma cidade promotora de cultura com eventos constantes que se inscrevem na rota das digressões nacionais de espetáculos de grande qualidade. Isto permite servir os que nos visitam, mas também os que aqui vivem. Falemos da programação cultural. Sobretudo nos meses de verão, há de quase tudo para todos os gostos, de festivais como o RFM SOMNII, com música eletrónica, a outros, como o Festimaiorca, que colocam o foco no Folclore. Mas também há concertos de música erudita e pop, exposições e exibições


de artes várias, competições desportivas e eventos para candidatos a atletas... tudo isto faz parte da Cultura da Figueira da Foz? Tudo isso e muito mais. Pelos exemplos pode-se ficar com a ideia que a Figueira da Foz é uma cidade que compra espetáculos, mas que não os produz. Ora, não é assim. A cidade e o concelho possuem uma oferta de criação local enorme, que se plasma, por exemplo, na programação do Centro de Artes e Espetáculos. Serve de exemplo o maior seminário de música do país destinado a jovens, a Orquestra Nacional de Jovens, a Gala dos Pequenos Cantores, o Festival de Cinema, o Sete Sentidos, um festival de teatro, a final do Coimbra World Meeting Piano Festival e muitos outros exemplos que poderíamos apontar.

sobretudo pelas suas fachadas. A capela da Nª Sª da Conceição em Buarcos e o Teatro Trindade são peças importantes. O museu merece uma visita atenta e dedicada. Se tivesse de indicar, a um turista acidental, um ‘tesouro’ escondido para fotografar ou guardar na memória antes de partir da Figueira da Foz... qual seria? Um amanhecer ou um pôr-do-sol no estuário.

Como cidade marítima fortificada destaco o conjunto formado pelo Forte de Santa Catarina e a Muralha de Buarcos; ainda com ligação ao mar e ao rio é de apreciar a coleção de azulejos de Delft, a maior do mundo, na Casa do Paço. Todo o Bairro Novo é um museu vivo de arquitetura Deco e Arte Nova,

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Em matéria de património, quais são as principais atrações do Concelho?


Passeando na Figueira da Foz por Andreia Gouveia

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Entre o passado e o futuro, a outrora Rainha da Praias de Portugal continua a ser um presente da natureza para quem a visita, especialmente no Verão, quando às belezas da paisagem se aliam as forças vivas de uma cultura marcadamente ibérica, dada à tradicional presença de “banhistas” vindos de Espanha, que tem na hospitalidade e na cada vez maior abertura ao mundo os seus valores mais fortes. Nos dias mais quentes, há nas esplanadas e nas ruas pedonais algo que convida a um desfrute calmo e elegante, vagaroso, quase indolente, mas não distraído, dos pormenores arquitetónicos e de ambiente que se encontram a cada esquina e em cada fachada. Um passeio no Bairro Novo é, afinal, para ser feito ao ritmo de uma respiração apaixonada, como num amor de verão a lembrar o de ‘Sinais de Fogo’, o romance de Jorge de Sena que imortalizou a Figueira da Foz enquanto destino idílico e eternamente jovem. Fantásticos podem ser os momentos de lazer no rio Mondego ou os passeios ao ar livre no Parque das Abadias e na Serra da Boa Viagem, sem esquecer as falésias do Cabo Mondego que extraordinariamente nos transportam até à pré-história.


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Bairro Novo (de Santa Catarina) 05

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O Bairro Novo é o emblema da época áurea da cidade da Figueira da Foz. O desenho e o nascimento desta nova zona nobre da Figueira da Foz resulta do enorme e crescente afluxo de veraneantes que, em meados do século XIX, chegavam à cidade. Por iniciativa do Eng.º Pereira da Silva, foi criada uma empresa de construção (a Companhia Edificadora Figueirense), ligada a projectos de urbanização e que tomaria para si a empreitada deste novo bairro, designado na sua origem de Bairro Novo de Santa Catarina e hoje conhecido, simplesmente, por Bairro Novo.

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Os palheiros e pardieiros então aí existentes foram substituídos por elegantes moradias e belas casas oitocentistas e dos inícios de novecentos. Gradualmente, o Bairro Novo foi-se afirmando pelas suas belas varandas e beirais à portuguesa, delineados por azulejos coloridos e florais ao gosto Arte Nova ou com influências Art Déco. Paralelamente, os proprietários desta nova zona nobre da Cidade iam demonstrando o seu gosto refinado e introduzindo edifícios de importância cultural e social, fazendo nascer hotéis, restaurantes e casinos que, no verão, seduziam sobretudo as famílias espanholas que tradicionalmente faziam da Figueira da Foz a sua estância balnear.

O Teatro Circo Saraiva de Carvalho / Casino Peninsular (inaugurado em 1884) afirmou-se como uma das mais atrativas salas de espetáculos do Bairro Novo e foi em seu redor que se traçou e promoveu o desenvolvimento urbanístico, social, económico e cultural desta nova zona da cidade, alimentado ainda por outras casas congéneres, como o Casino Oceano. Construída na década de 1950, a Esplanada Silva Guimarães perpetua a memória de António da Silva Guimarães, distinto oficial da marinha mercante e grande empreendedor da empresa de exploração de minas e indústrias do Cabo Mondego. Testemunho da viragem sócio-cultural do último quartel do século XIX na Figueira da Foz, a par do Castelo Eng.º Silva, antigo edifício do Turismo, e da Casa das Conchas, marca a tipologia da arquitetura eclética privada e é local obrigatório para quem procura um lugar com uma panorâmica privilegiada sobre o conjunto paisagístico que a costa figueirense tem para oferecer. Dela avista-se, a jusante, a embocadura do rio Mondego, o oceano, a Praia do Relógio e também a marginal oceânica que corre em direção à Serra da Boa Viagem; o montante, o pitoresco Bairro Novo (de Santa Catarina) e o belíssimo conjunto edificado balnear.


Vamos ao Mercado?

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À frente, o Rio Mondego que, quase a chegar à foz, parece demorar-se a olhar o fervilhar das gentes que carregam as frutas mais frescas, as flores de cores e cheiros mais vivos e, claro, os peixes mais saborosos, ainda a escorrer mar. Ao lado, o Jardim Municipal, que amiúde se anima em festas com música, dança e folclore, ou exposições e feiras de velharias e antiguidades que convidam a viajar até outras épocas, afinal não tão longínquas assim.

Um mercado com História

Ele, o Mercado, parece ter vida própria e uma dignidade que só se conquista com o tempo, sobrevivendo-lhe, mantendo-se firme não apenas pela construção sólida mas sobretudo pela capacidade de continuar a fazer parte das rotinas da cidade e das suas gentes e visitantes, marcando presença nos passeios matinais, nas compras diárias, na mesa das famílias. A voz do mercado é a das suas vendedoras, o seu corpo o das mercadorias que, nas bancas, cativa o olhar e convida a usar todos os outros sentidos. A alma do Mercado Municipal, essa, é a de quem o visita.

Na época, o grande impulsionador da dinamização da cidade foi Francisco Maria Pereira da Silva, engenheiro que elaborou a carta hidrográfica do porto, para as obras de desassoreamento da barra, impulsionando a actividade portuária. Fundou a Companhia Edificadora Figueirense em 1861, com o objectivo da construção de uma nova área urbana, o Bairro Novo de Santa Catarina, fazendo frente à crescente procura de habitação por banhistas e rivalizando com a Praça 8 de Maio como centro cosmopolita da Figueira. O edifício do Mercado Municipal Engenhei-

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A localização da Figueira da Foz e o carácter vincadamente piscatório das actividades comerciais desenvolvidas no seu porto, impulsionaram, no contexto de reformulação da zona ribeirinha nomeadamente no Porto e na Barra, a construção de uma nova área urbana na cidade, o Bairro Novo, no decorrer do Séc. XIX.


ro Silva, inaugurado, há 122 anos, constitui até aos dias de hoje, um importante símbolo sócio-cultural e comercial do Concelho e um espaço de referência no quotidiano da cidade da Figueira da Foz, que ao longo dos anos se tornou um dos ex-libris desta cidade marítima. O término da construção do edifício culminou com a sua inauguração a 24 de Junho de 1892, dia de São João, Padroeiro da cidade.

O charme do Ferro Ponto de encontro de culturas e de visitas assíduas dos forasteiros, marinheiros e turistas, é hoje o elo de ligação ao mar através do tradicional mercado do peixe que induz fluxos de visitantes, atraídos pelo colorido visual e cultural, tornando-se local obrigatório no Touring Turístico da cidade e da região. O edifício possui linhas arquitectónicas da chamada “arquitectura de ferro”, da qual a Torre Eiffel em Paris é o exemplo mais emblemático. Esta corrente arquitectónica, proliferou em todo o território nacional e internacional entre a segunda metade do Séc. XIX e início do Séc. XX. No Mercado Municipal Engenheiro Silva, as referidas características, estão patentes na estrutura da cobertura do núcleo central, em ferro, e nos suportes da pala de protecção que o mercado apresenta em todas as fachadas que confrontam com a via pública. A sua organização espacial numa área de cerca de 4.800m² possui um conjunto de três frentes libertas que correspondem a três alçados que confrontam directamente com a via pública.

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O Mercado foi alvo de várias intervenções, ao longo de mais de um século de existência, tendo preservado a traça original. Em Junho de 2013, foi concluída uma requalificação profunda, um projecto arrojado que manteve intacta a estrutura de ferro, o sistema de cobertura e a iluminação zenital que sempre o caracterizaram, aumentando o número de áreas comerciais não desvirtuando o espírito do mercado tradicional. O edifício é constituído por três pisos, um piso enterrado e dois pisos acima da cota de soleira. No piso térreo além de 20 lojas exteriores e 4 interiores, desenvolve-se a actividade comercial do mercado tradicional, com 365 tabuleiros de frutas, hortícolas, e flores, 32 bancas de peixe e 45 módulos. No piso superior, após as obras de requalificação surgiram 7 novas lojas. O projecto global de intervenção no

Mercado Municipal da Figueira da Foz, teve por objectivo a recuperação do edifício, dotando-o de infra-estruturas necessárias à sua modernização, revitalização, dinamização e requalificação da actividade dos operadores retalhistas de produtos alimentares, para captação de novos operadores com outros tipos de comércio, produtos e serviços. O projecto de reabilitação do mercado visou dotá-lo também de melhores condições ambientais, energéticas e higiénicas, de forma a dotar a cidade de uma infra-estrutura que coabite com a tradição e a modernidade, cumprindo as condições estruturais e funcionais adequadas ao exercício da actividade retalhista e comercial atractivas, funcionais e dinâmicas, que promovam a qualidade e a segurança alimentar e que respeitam as especificidades de cada sector de actividade.

Em família e em casa O Mercado Municipal constitui um importante instrumento de dinamização da economia local, assegurando a sobrevivência de um determinado tipo de organização de produção, de natureza familiar, a qual até hoje constitui uma importante fonte de rendimentos de muitas famílias. Estando integrado na malha mais antiga, a dinamização deste equipamento reforça e potencia as políticas de revitalização do espaço urbano, contrariando a tendência de abandono e decadência que se tem verificado ao longo dos anos. A dinamização do Mercado dá por si só, um importante contributo para a revitalização do comércio tradicional localizado na sua área circundante, uma vez que constitui um importante factor de atracção não só de consumidores locais, mas também como pólo de atração de visitantes e turistas que procuram neste tipo de local, a originalidade de um ambiente e de um serviço que reflecte, como poucos espaços, a individualidade de uma terra. Tudo isto sem esquecer as novas exigências dos consumidores e visitantes: o Mercado Municipal pode ainda ter muito do charme de ontem, mas tem tudo de que hoje se fazem estes espaços, de uma cozinha para eventos regulares de showcooking que valorizam os produtos endógenos a multibanco e rede WI-FI.


Praia 08

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«Não tem outro remédio senão vir à Figueira quem quiser ver a mais linda praia de banhos de Portugal» Ramalho Ortigão Mais de um século volvido das palavras do escritor, outras praias do país se notabilizaram, mas a também conhecida como Praia da Claridade mantém o charme, a imensidão e a luminosidade que lhe deram fama. Outrora publicitada como ‘Praia das Crianças’, a Figueira da Foz afirma-se hoje junto de muitos outros públicos-alvo, com destaque para os amantes dos desportos náuticos e de ondas. São mais de uma dezena de praias referenciadas como excelentes para a prática de diversos desportos náuticos, devido às suas ondas de grande qualidade com diferentes tipos de fundos, sendo que a onda do Cabedelo, com fundo de areia, está referenciada como uma das mais consistentes da Europa.

Eventos de mudança

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Mudam-se os tempos, mudam-se os territórios e a sua oferta. Na Figueira da Foz, especialmente durante o período estival, sucedem-se os eventos destinados a atrair diversos públicos. O RFM SOMNII - O Maior Sunset de Sempre colocou a Figueira da Foz na rota dos festivais europeus de verão, atraindo anualmente muitos milhares de fãs de música eletrónica, com cartazes que integram alguns dos melhores Djs do mundo e, paralelamente, a promessa de dias de inesquecíveis, já que tudo acontece no enorme areal urbano da Praia do Relógio, a ‘dois passos’ do Bairro Novo e outros tantos do mar. Aos que preferem festejar as tradições, o Festimaiorca oferece, verão após verão, a oportunidade de apreciar e aplaudir grupos folclóricos vindos dos quatro cantos do mundo, em dias e noites que celebram a amizade entre os povos e o poder unificador da música e da Cultura em geral. Ao longo dos meses estivais, a oferta de concertos, espetáculos de rua e animação para miúdos e graúdos caminha, lado-a-lado, com equipamentos de diversão e lazer, de parques aquáticos (em piscina ou no mar) ou de arborismo a campos de jogos na praia, bibliotecas de praia e de jardim, carrosséis e, claro, espaços para a prática de ténis e mini-golf, bem como escolas de surf e bodyboard e, mais recentemente, o Beach Sports City, um programa que tira proveito do vasto areal figueirense para atrair jovens para os desportos de praia, recorrendo a monitores e a eventos lúdicos.


Salinas e flamingos 09

Desconhecidos de muitos, a Figueira da Foz guarda em si alguns tesouros que merecem uma atenção especial. É o caso das suas Salinas que, desde Agosto de 2007, podem ser mais bem apreciadas com uma visita ao Núcleo Museológico do Sal, instalado na Salina Municipal do Corredor da Cobra. Inserido numa paisagem única, este local de encontro entre a terra, o mar, o sal e as suas gentes, define-se como um polo aglutinador de cultura e tradição, de herança e vivência secular, que mantém uma vitalidade ímpar, graças à colaboração e envolvência da comunidade local, nacional e dos agentes locais que têm vindo a prestar um apoio incondicional a este desenvolvimento. Desde agosto de 2015, o Município da Figueira da Foz inaugurou ainda, no Núcleo Museológico do Sal, o primeiro “Pedarium” português, uma “infra-estrutura destinada à utilização do sal tradicional como forma de terapia, saúde e bem-estar, que aproveita a tipologia das salinas e cuja construção foi co-financiada pelo Fundo Europeu das Pescas (FEP), e respeitou na sua totalidade, o meio ambiente, na medida em que o material utilizado foi apenas e somente a madeira de pinho não tratado, um elemento vulgarmente utilizado no salgado figueirense”. Todos os anos, são milhares as pessoas que colocam os pés no sal da Figueira e centenas as que o colocam à cabeça: é que, em agosto, recria-se a Safra à Moda Antiga. De rodilhas na cabeça, homens, mulheres e crianças transportaram, nas gigas, o sal que os marnotos empilham em brancas pirâmides, num desfile repetido ao longo de toda a manhã. Depois, gastas as energias, repõem-se com uma refeição partilhada no idílico cenário do NMS, de onde partem, também, percursos pedestres que não raras vezes culminam com o avistamento de flamingos. De bónus, os visitantes podem ter a sorte de poder colher salicórnia, uma planta invasora das salinas que está em crescendo no mercado gourmet, por substituir, com benefício para a saúde, o sal. Se tiver essa oportunidade, leve a salicórnia consigo e tempere com ela um sumo de laranja natural: é um sabor incomparável.

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1 à 3- Propriedade Bruno Esteves 4 à 8 - João Albuquerque Carreiras 9 - Câmara Municipal da Figueira da Foz


Cabo Mondego: Os Dinossauros estão de volta a casa?

Da exposição aos factos O Cabo Mondego insere-se no contexto da Bacia Lusitânica e localiza-se no bordo ocidental da Serra da Boa Viagem (latitude 40º 11´ 3´´ N, longitude de 08º 54´34´´W), aproximadamente a 6 km a noroeste da Figueira da Foz. Classificado como Monumento Natural, desde 2007, constitui, sem dúvida, um dos testemunhos mais importantes para a compreensão da história geológica de Portugal; representa, de forma particularmente completa, alguns dos mais importantes episódios da história da Terra ocorridos durante o Jurássico, para um intervalo de tempo que se situa aproximadamente entre os 185 e os 140 milhões de anos, o que justifica, a nível internacional, a relevância da sua classificação, conservação e divulgação.

O afloramento compreende uma série de sedimentos marinhos e fluvio-lacustres que se estendem desde o Toarciano Superior até ao Titoniano. Este registo, nalguns níveis, é particularmente contínuo e rico de informações paleontológicas, sedimentológicas e paleomagnéticas, que se associam a excecionais condições de observação. Inclui níveis com as mais antigas pegadas de megalossaurídeos (dinossauros bípedes e carnívoros) descritas em Portugal e cuja primeira referência data de 1884. No acervo patrimonial do Jurássico do Cabo Mondego incluem-se representações singulares de indiscutível valor científico, que resultaram da atuação de vários processos geológicos, desde os que se prendem com a génese de estruturas sedimentares típicas de distintos ambientes deposicionais (marcas de ondulação, fendas de dissecação, depósitos tempestíticos, figuras de canal), a processos tafonómicos que originaram associações de fósseis acumulados, ressedimenatados e reelaborados. O registo fóssil do Jurássico do Cabo Mondego inclui macrofósseis (lamilibrânquios, gastrópodes, bivalves, braquiópodes, plantas, peixes, crinóides, corais, ostreídeos, belemnóides e amonóides), microfósseis (foraminíferos e nano-plâncton calcário) e icnofósseis, além disso, no Cabo Mondego é possível reconhecer eventos relevantes, quer à escala bacinal (ao tempo da abertura do Oceano Atlântico), quer à escala global (estabelecimento do GSSP - Global Stratotype Section and Point do Bajociano e do ASSP - Auxiliary Stratotype Section and Point do Batoniano). O Cabo Mondego é também local profícuo em fósseis de plantas. A descoberta de diversas folhas permitiu a definição até de uma nova espécie vegetal, Baiera vianna, dedicada a António Vianna. Definido há quase duas décadas, o estratotipo do Cabo Mondego está, desde julho de 2016, gravado neste monumento natural, através de um ‘golden spike’, ou Prego De Ouro, que assinala o reconhecimento, pela Comunidade Científica, da existência de sedimentos, fósseis e microfósseis, da era bajociana, do período Jurássico Médio.

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Imagine que a História do mundo, mas a História completa, desde muito antes dos primeiros hominídeos caminharem sobre a Terra, cabia num livro. Imagine ainda que podia ler essa História num olhar, apenas com algumas indicações: isto são pegadas de dinossauros, aquilo é um fóssil de uma planta que desapareceu há milhões de anos, esta diferença de cor entre estratos rochosos marca a altura em que os continentes se separaram… Quem não gostaria? É isso que a Figueira da Foz quer fazer, com a candidatura ao reconhecimento do Cabo Mondego como Geoparque pela Unesco. Até lá, e para envolver a comunidade neste projeto, multiplicam-se as atividades destinadas a sensibilizar habitantes e visitantes para a incomensurável riqueza geológica do monumento. Até março de 2018, a Figueira da Foz acolhe uma exposição científica com réplicas destes gigantes que, um dia, há muitos milhões de anos, pisaram a terra, não no Cabo Mondego, na Figueira da Foz - onde os dinossauros que deixaram pegadas seriam mais pequenos, não tendo sido ainda possível, com os fragmentos já encontrados, uma reconstrução científica - mas na Patagónia argentina. Entre as mais de duas dezenas de réplicas de dinossauros recriadas a partir de ossadas encontradas em escavações, encontram-se os ‘primos’ mais velhos, maiores e mais pesados dos T-Rex, os Giganotosaurus. Nesta exposição, os mais novos podem ainda brincar aos paleontólogos e fazer as suas próprias descobertas em escavações simuladas.


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Presente, Passado e Futuro da Diabetes Mellitus A Diabetes Mellitus, mais conhecida como diabetes, é definida como uma desordem metabólica de etiologia múltipla, caracterizada por uma hiperglicemia crónica com distúrbios no metabolismo dos hidratos de carbono, lípidos e proteínas, resultantes de deficiências na secreção ou acção da insulina, ou de ambas. (Sociedade Portuguesa de Diabetologia), e é uma das doenças com maior incidência a nível mundial, tendo já sido considerada pela Organização Mundial da Saúde como uma epidemia global. Portugal é um dos países europeus com maior taxa de incidência desta doença e os dados revelam que esta tendência não está a inverter.

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No início dos anos 60, foram criadas as primeiras bombas de insulina, a primeira bomba experimental tinha o tamanho de uma mochila. Em meados dos anos 70, a insulina U-100, que tinha 100 unidades em cada mililitro e que é o padrão utilizado até hoje, foi introduzida no mercado. Para perceber melhor este aspecto da evolução que tem surgido nesta área da diabetes o presidente da associação GIRO HC, Quental Nunes, dá o seu testemunho: “Lembro-me de nos anos 70, altura em que me foi diagnosticado diabetes tipo I, a esterilização da seringa de vidro assim como das agulhas metálicas, que estavam mergulhadas numa caixa com álcool, era realizada numa lamparina alimentada por álcool azul. Quando surgiram pela primeira vez no mercado as seringas descartáveis da “plastipack”, foi sem dúvida um fabuloso avanço, quer a nível da autonomia, quer nas viagens e nos consideráveis ganhos de tempo, pois se há fenómeno que obriga a uma monitorização contínua é a Diabetes Mellitus. A evolução que se tem verificado nos dispositivos invasivos para uma monitorização contínua da glicémia, durante 24 horas, e inclusivamente indicar se tem tendência para uma hipo ou hiperglicemia durante o sono. Até há bem pouco tempo, eram necessárias as tiras e as lancetas para avaliar a glicémia capilar. Com esta evolução, o procedimento invasivo que teria que se realizar com cada avaliação da glicémia capilar, passa a ser não invasivo e através de dísticos que são colocados no braço em contacto com o sangue, que através de uma aplicação no telemóvel ou de um glucómetro, permite realizar essa avaliação diariamente e sem que esse processo seja invasivo. Existirá no futuro um fenómeno artificial que poderíamos chamar de “pâncreas artificial”, que em breve irá ter uma apresentação pública nos EUA. Esta inteligência artificial aplicada nestes dispositivos será a maior evolução artificial desta patologia.

por Giro HC

A autonomia associada à qualidade de vida e à prevenção, poderão melhorar de forma marcante o envelhecimento ativo, quando os últimos dados apontam para uma esperança média de vida a rondar os 90 anos. A acrescentar a estes factos, uma alimentação equilibrada e exercício físico regular contribuirão decisivamente para uma maior autonomia de cada pessoa.” Atualmente em Portugal, é bastante preocupante verificar que a taxa de incidência da diabetes é muito superior à média mundial, na ordem dos 13%, colocando-se como sexto país europeu com maior taxa de incidência da doença. Esta taxa equivale a mais de 1 milhão de portugueses, mas se acrescentarmos o número estimado de pré-diabéticos (2,1 milhões), temos 40% da população adulta afetada por esta perturbação. Para combater esse número elevado de prédiabéticos a aposta deve incidir na prevenção e, nesse âmbito em 2015 foi constituída a GIRO HC (Grupo Influência Repensar Opções – Hidratos de Carbono). O objetivo primordial desta associação sem fins lucrativos, políticos, partidários ou religiosos é atingir um público alvo prioritário “chaminés, bons garfos e atletas de sofá “, ou seja, pessoas com maior tendência para ter alguma patologia associada aos acidentes vasculares cerebrais (AVC), obesidade e/ou diabetes. Em eleições ocorridas em abril de 2017, a GIRO HC foi eleita para membro da direção da FPAD – Federação Portuguesa das Associações de Pessoas com Diabetes. Desta forma pretende-se reforçar o que foi dito anteriormente pelo Presidente da GIRO HC, mas também ser um parceiro socialmente ativo na defesa intransigente da qualidade de vida da pessoa com diabetes e com pré-diabetes diagnosticada. Existem soluções como a do dístico associado à glicémia que para 14 dias tem um custo elevado, este mesmo dispositivo ainda não é comparticipado pelo Estado Português pelo que a FPAD tem como um dos objetivos sensibilizar as entidades governamentais, não só a nível da qualidade de vida, como também na prevenção das consequências da Diabetes Mellitus. Algumas das consequências de uma Diabetes mal controlada poderão ser retinopatia diabética, insuficiência renal e/ou má circulação periférica que em casos extremos poderá levar à amputação parcial ou total dos membros inferiores ou superiores. Numa perspectiva futura, este cenário torna-se ainda mais inquietante, a taxa da diabetes em Portugal está prevista atingir os 15,8% em 2035, portanto a prevenção deve ser considerada muito importante nos dias de hoje.


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UMA OPORTUNIDADE DE OURO MUSEU E IGREJA DE SÃO ROQUE

VISITAS GUIADAS // Quinta-feira 10h00 Português | 11h30 Espanhol | 15h00 Inglês | 16h30 Francês Sexta-feira 10h00 Francês | 11h30 Inglês | 15h00 Francês | 16h30 Português Sábado 10h00 Inglês | 11h30 Espanhol | 15h00 Espanhol | 16h30 Português Domingo 10h00 Português | 11h30 Português | 15h00 Inglês | 16h30 Francês MAIS INFORMAÇÕES //

Tel. (+351) 213 240 869/889 info@museu-saoroque.com

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Museu de São Roque Largo Trindade Coelho, 1200-470 Lisboa Tel. (+351) 213 235 444/065 www.museu-saoroque.com www.scml.pt

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