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2th 5th April Grand Palais 2020 www.artparis.com An Overview of the French Art Scene: Common and Uncommon Stories

Southern Stars:

An Exploration of the Iberian Peninsula

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(Lima/Paris) | Galerie Géraldine Zberro (Paris) | Galerie Zink Waldkirchen (Waldkirchen).

List of exhibitors of 7/01/2020

Galerie Provost–Hacker (Lille) | Galerie Rabouan Moussion (Paris) | Raibaudi Wang Gallery (Paris) | Rebecca Hossack Art Gallery


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revista

João Moreira | Editorial #3 Aldina Duarte | Grande entrevista #4 Carlos Fiolhais | Comunicação e ciência #20 Ricardo Alexandre | Entrevista #24 Pedro Santos Guerreiro | Falar baixo para ser ouvido #34 André Serpa Soares | Descomunicação #36 Eduardo Sá | O fim do mundo está a chegar #37 Júlio Machado Vaz | Entrevista #38 Bernardo Mota Veiga | O escaravelho comunicativo #44 José Manuel dos Santos | Entrevista #46 Mia Couto | Desemparedar o pensamento #51 Pedro Martins | Disse o Corvo, “Nunca mais” #56 Cristina Kirkby | Maria José Mauperrin #61 Galopim de Carvalho | A alquimia nos primórdios... #66 Luiz Garcia | Comunicar ou Perecer #68 Therbio M. Cezar | Professor sobre rodas #70 Santa Casa da Misericórdia de Lisboa | A comunicação ao seviço de... #72 João Pedro Costa | Canal de comunicação #74 Malcolm Gladwell | Falar com desconhecidos #76 José Paulo Nery | Imaginar o Imaginárius #80 José Alberto Ribeiro | Entrevista #90 Irina Marcelo Curto | Sob o manto de Nossa Senhora #96 Odete Paiva | Museu Grão Vasco #101 Santa Casa da Misericórdia de Lisboa | Um Rei e três Imperadores... #102 João Amorim | Viagem a Mundocau #106 Pedro Martins | The show must go on #110 Marta Gonzaga | Rua Alegre #114 Ana Luísa Soares e Ana Raquel Cunha | Árvores de Lisboa #116 Francisco Duarte Coelho | Segredos de Lisboa #118 Vanessa Pires de Almeida | O culto da imagem #119 Lisbonar | O nosso guia de Lisboa #121 Ana Pérez-Quiroga | Auto-retrato da artista...#130 Francisco Malmann | estoy despierto #135 Oscar Sanchéz Requena | El Planeta de Papel #136 Alexandra Lucas Coelho| Cinco voltas na Bahia #146 Afonso Reis Cabral | Leva-me contigo #150 Sofia Viana | Existências #155 Denise C. Rolo | Leituras #156 Tiago Salazar | Mal me quero #158 João Albuquerque Carreiras | Postais perdidos #160 Rodrigo Leão | Entrevista #162 Duarte Bénard da Costa | pousio #172 Rodrigo Francisco | No centenário de Levi #174 Marta Gonzaga | Pagamos para ser feridos #176 Jorge Sobrado | Luz, Câmara, Acção #182 Gustavo Homem | O grande ecrã #186 Jorge M. Sampaio | Antes de o tempo nos mudar #188 Pedro Santo Tirso | Comunhão #192 Alexandra Viçoso | Crónica Gastronómica #194 Filipa Gomes | Comunicar a culinária e a gastronomia... #197 Mariana Claro | Gastrossexual #202 José Paulo Teixeira | Viagens à volta do vinho #204 Pedro Nápoles | Raio Gourmetizador #208


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Fotografia por Cรกtia Joaquim


Editorial “Assim nos tornamos os «analfabetos emocionais» que somos, resumia o cineasta Ingmar Bergman. Não será tempo de voltarmos aos sentidos?” José Tolentino de Mendonça, in A Mística do Instante

Lá por casa havia um telefone, daqueles antigos, pretos, com um disco central com dez obliterações circulares, correspondentes aos números de 0 a 9, e um pequeno círculo interior, onde, sob o belíssimo logotipo dos CTT, se anunciava, em números muito bem desenhados à mão, o conjunto de cinco algarismos que nos ligava ao mundo. Confesso que durante a infância, o telefone lá de casa, era, para mim, apenas um brinquedo igual a tantos outros, com a mágica particularidade de só com ele poder brincar às escondidas, normalmente simulando grandes conversas com destinatários imaginários, até porque, no meu tempo de infância, ainda havia rua. E a rua, como escreve Mia Couto, “era tanto nossa, que ali inventávamos terreiros, estádios de futebol, universos para não ter tempo nem tamanho.” Por isso, a rua era o meu mundo, que dispensava objectos estranhos para comunicar. Quando chegou a adolescência e, com ela, a urgência da privacidade, o telefone ganhou outra importância na minha vida. De tal forma que não descansei enquanto não convenci os meus pais da necessidade de substituir o cabo que levava as palavras, demasiado curto para me permitir conversas inadequadas aos sensíveis ouvidos dos adultos, por outro, grande o suficiente para chegar a um escritório contíguo, que se transformou rapidamente na minha nova rua nocturna. Mas, mal a idade mo permitiu, troquei, de bom grado, a distância pela proximidade, com enormes vantagens pessoais e, convém dizê-lo, no orçamento familiar. Talvez por tudo isto, tenha resistido tanto ao advento das transformações tecnológicas que estilhaçaram distâncias e configuraram novas geografias e, embora reconhecendo a importância e até o conforto que os telemóveis, a internet e, de certa forma, as redes sociais trouxeram às nossas vidas, continuo a preferir-lhes as palavras, os sorrisos e o toque. Até porque só, olhos nos olhos, conseguimos perceber como a palavra pode ter o tamanho de um sentimento. Foi sobre a entrega emocional, que dá dimensão às palavras em forma de canto, que falámos com Aldina Duarte, a fadista que busca incessantemente cantar-se a si própria, numa edição em que conversámos, ainda, com Rodrigo Leão sobre o seu novo álbum, “O Método” e sobre as influências musicais que foram desenhando a sonoridade mística que construiu ao longo dos seus invejáveis 25 anos de carreira. Tendo como pano de fundo a forma como se comunica nas mais diversas áreas, convidámos o Professor Carlos Fiolhais a escrever sobre comunicação e ciência; o psicólogo Eduardo Sá a avaliar o impacto das redes sociais na vida das famílias; o jornalista Pedro Santos Guerreiro a analisar a voragem mediática em que vivemos; o psiquiatra Júlio Machado Vaz a explicar o que mudou nas relações afectivas dos portugueses, nas últimas décadas e o director-adjunto da TSF, Ricardo Alexandre, a contar-nos as histórias de uma vida dedicada a partilhar o mundo através do olhar dos outros.

Propriedade: Studiobox, Publicidade e Gestão de Meios, Unipessoal Lda Direcção: Bruno Esteves Susana Andrade Edição: João Moreira João Albuquerque Carreiras Fotografia: Bruno Esteves e João Albuquerque Carreiras Arte: Studiobox Identidade Corporativa: Jorge Barrote Comercial: geral@revistabica.com +351 962 706 373 / 968 405 494 Impressão: Studiobox, Unipessoal, Lda Periodicidade: Trimestral Tiragem: 5 000 unid. Depósito legal: 416462/16 Interdita a reprodução de quaisquer textos ou ilustrações por quaisquer meios. A Revista Bica é escrita em português, sem utilização do acordo ortográfico. Os conteúdos dos textos e as opiniões neles expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores.

APOIOS:

A todos, muito obrigado. João Moreira

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Com esta edição, a BICA chega ao nº10. Durante os últimos três anos, cumprimos o propósito de tentar fazer chegar aos leitores o nosso olhar sobre o país e o mundo. Quase nunca da forma que gostaríamos, mas sempre da melhor forma que nos foi possível. Por isso, é da mais elementar justiça agradecer, em primeiro lugar aos nossos leitores, que fizeram esgotar quase todas as edições da BICA e foram o factor decisivo de incentivo para a continuidade do projecto. Depois, a todos os que, acreditando na BICA, se disponibilizaram para ajudar, escrevendo, ilustrando, fotografando, desenhando. São os nossos Bicaenses, sem os quais esta revista não seria possível. Ainda, a todos os que aceitaram o desafio de se perderem em longas conversas connosco enriquecendo cada edição com as suas histórias de vida. Finalmente, ao círculo mais restrito dos que, com o seu trabalho, com as suas opiniões, sugestões e, sobretudo, incentivo, garantem a sua publicação.


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Grande Entrevista


por João Moreira

Alfredo Cunha

“A textura da voz, a intenção da leitura, a respiração que toma as rédeas do peito e que respira quando nós nos sustemos, a força telúrica capaz de devolver à terra tudo o que à terra pertence, o drama e a dádiva, principalmente a dádiva das coisas simples e eternas da vida, é que me levam Mar adentro. Se tudo isto é fado, tudo isto é Aldina!”. João Monge A voz é intensa, poderosa, envolvente, no ênfase de uma ideia, de um pensamento, ganhando contornos de teatralidade, sempre que as mãos se intrometem na conversa. Os olhos, duma expressividade arrebatadora, fixam os nossos, com uma altivez que só a tranquilidade consciente de uma vida de convicções consegue dar. O riso, de tão absolutamente genuíno, chega a soar quase infantil, sobretudo quando se transforma em gargalhada, entregando ao rosto uma expressão de mulher/menina. Uma espécie de justiça divina, direi eu, como se Deus lhe devolvesse, agora, o direito a uma eterna meninice. Fala como se cantasse. Com a mesma entrega, a mesma inteireza, a mesma honestidade… como num fado, e ninguém é mais fado do que Aldina. “Fora de tempo, fui uma criança velha”, contará Aldina Duarte sobre uma infância “sem espaço para alegrias”, vivida no bairro de Chelas, num tempo em que a sobrevivência era palavra de ordem. “O grande acontecimento que marca a minha primeira infância é o fascismo. A minha infância foi triste, cruel, porque quando não há comida, não há conforto, não há respeito. Isso determina tudo.” Mal começou a ler, descobriu “uma coisa chamada imaginação”, e quis ser escritora. “Foi a única profissão que quis ter.” Mal sabia a “Princesa Prometida”, como lhe chamou Manual Mozos, no documentário que realizou sobre a sua vida, que um dia assim seria. Aldina Duarte chegou ao fado tardiamente, depois de uma juventude dedicada à política, que não lhe deixava espaço para novas descobertas. Era o tempo em que a música era uma arma, e quem convivia com Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto não sentia necessidade de se perder em divagações. A epifania deu-se quando ouviu Beatriz da Conceição a cantar a um metro dela. “Foi uma revolução.” A partir desse dia, Aldina, que já tinha nome de fadista, ficou com o destino traçado. Durante dois anos, embrenhou-se no mundo da arte que a arrebatou, ouvindo, estudando, convivendo,

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Aldina Duarte


sentindo, partilhando. Quando se decidiu arriscar a cantar, estava tão pronta que todo ela era fado. Depois de uma passagem pelo Clube do Fado, a convite do guitarrista Mário Pacheco, fez do Senhor Vinho a sua casa, e de Maria da Fé a sua mentora, e, durante os últimos quinze anos, quase diariamente, entregou-se por inteiro à sua arte. “Não foi logo um amor sereno, como é agora…era uma espécie de tremor que me acontecia sempre que cantava, como se fosse outra pessoa.” Insegura, porque demasiado exigente consigo própria, Aldina duvida da sua capacidade, e decide parar de cantar, durante seis meses. Mas, convencida por Camané, à época, seu marido, e por Maria da Fé, regressa ao fado, para nunca mais parar. Aos 37 anos, grava, pela primeira vez, “Apenas o Amor”, um álbum que a consagraria definitivamente. Seguem-se “Crua”, “Mulheres ao Espelho”, “Contos de Fados”, “Romance(s)”, “Quando se Ama Loucamente”, o disco em que decide cantar-se, e “Roubados”, lançado em 2019, e que chega imediatamente aos tops. Durante mais de duas horas, numa conversa que ocuparia uma BICA inteira, Aldina contou-nos o seu percurso, falou-nos dos seus amores, emocionou-nos com as suas paixões, divertiu-nos com as suas histórias. Arrebatadora, como em palco, aqui ficam os contos de Aldina Duarte, que “já não são contos, são fados, já não são fados, são vida.”

O meu fado vive muito do improviso e se não houver esse improviso corre o risco de ficar… frouxo.

O fado em geral?

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Há fado e fado. Por exemplo, o fado tradicional, sim. Se não houver aquilo que se chama “estilar o fado”, se não houver esse improviso e esse risco, digamos assim, a intensidade e o essencial perde-se, de facto. Porque não é melodia para se mecanizar. Porque é demasiado simples, mas demasiado aberta. Portanto, percebe-se que ao simplificar demais, o que é que vai acontecer? Vai ficar quadrada, repetitiva, e tão maçadora que pode levar a que se perca o interesse pela história que está a ser contada. Tem de se ter mesmo muito cuidado no fado tradicional, que é a minha matéria de eleição…para a vida.

No belíssimo texto que Ana Sousa Dias

escreveu para o disco, a Aldina diz: “Este é o disco que deveria ter feito quando comecei”. Há aí um grande equívoco. Eu nunca disse que deveria, mas que era suposto ter gravado. Porque quando se começa, não se tem repertório. Por isso, é normal escolher fados que já estão feitos, e que são aqueles que habitualmente se cantam nas casas de fado. Eu uso muito uma metáfora para distinguir estes fados que gravei agora, que são o que nós chamamos “fados musicados”. Quer dizer, todos são musicados (risos), mas a estes chamamos “musicados” porque pressupõem que há uma letra e uma música que nascem juntas. A estrutura é aquela, está definida. Ao contrário de um fado tradicional, em que, com a mesma melodia, se podem cantar as mais diversas histórias. Há 180 melodias de fado tradicional. Portanto, tenho matéria para o resto da vida. (Risos).

Assim já se percebe a não inclusão de dois grandes fadistas, o Joaquim Campos e o Alfredo Marceneiro, nas escolhas de “Roubados”. Não coloquei o Marceneiro, que é o meu mestre, ou, como costumo dizer, é o fado, nem incluí o Fernando Maurício, por isso mesmo. Os temas mais fortes, que mais admiro deles, são repertório do fado tradicional, e não faziam sentido neste conceito. A ideia era sair, temporariamente, da minha casa, para outra casa, para ver, depois, o que se transformava na minha casa de sempre, e perceber de que forma a minha casa de sempre contaminaria a nova casa temporária. E eu chamo casa, porquê? Porque qualquer um deles é fado. Quanto a isso, não há qualquer dúvida. É que, às vezes, os puristas teimam em dizer que o fado mais fado é o fado tradicional. Não é. O fado mais fado é o fado mais verdadeiro, o fado mais inteiro. Vamos usar como metáfora a arquitectura, que é mais familiar. O fado tradicional é um espaço muito bem definido, com uma personalidade fortíssima, melodicamente, e ritmicamente, tem uns alicerces incontornáveis. Mas a casa está por decidir. Ou seja, quando eu coloco uma letra naquela melodia, é como se estivesse a decidir onde fica a porta de entrada, onde fica a janela, onde ficam as divisões … até chegar ao telhado. E esta casinha, o fado tradicional, pressupõe que eu improvise, ao público, com uma determinada lógica, que faça, daquela história que eu estou a cantar, uma música com princípio, meio e fim. Porque, se eu improvisar, melódica e ritmicamente, tudo o que aquele chão musical, digamos assim, permite, aquilo não teria fim e não se definiria. Seria uma massa à solta. Portanto, eu tenho de escolher um


… os amores, os sofrimentos. A grande base da minha criatividade, sem falsas modéstias, foi toda construída a partir dos meus limites. Não tenho a menor dúvida.

Por isso é que só se pode gravar um disco assim com esta experiência e com esta vivência? Sim. Eu já tenho uma personalidade artística e um repertório próprio definidos, construídos ao longo destes 25 anos. E esse era o meu objetivo número um. Por isso, tive a curiosidade de pensar assim: “Agora vou ali fazer uma espécie de arquitectura de interiores, ou seja, vou decorar aquela casa de outra maneira” (risos). Não tenho as possibilidades que tenho num fado tradicional, mas tentei trazer aquela escola de improviso que, ao longo destes anos, tenho desenvolvido na casa de fados, e nos meus fados, numa música onde não é muito habitual fazer-se isso. Daí chamar-lhe versões, correndo o risco de fazer grandes asneiras e de estragar muita coisa.

Não foi o caso, muito antes pelo contrário. (Sorriso). Ainda que, acho que esse medo não se justifica, porque os clássicos são intocáveis. Defendem-se a si mesmos. Um clássico resiste a tudo. Podem fazer-se as maiores asneiras, à volta ou com eles, que, o que sobra, são eles próprios. Por isso, comparar-me ao original seria absurdo, por todas as razões, e mais algumas, seria uma grande inconsciência, uma grande insanidade da minha parte pensar que poderia competir com aqueles grandes mestres todos, e com aquelas versões… Isso está fora de questão. Além disso, acho um mau princípio para a criação artística. Há quem se sinta estimulado por isso, mas a verdade é que não tenho qualquer espírito competitivo, nunca tive. Não só na arte, em tudo.

Embora o meio do fado seja bastante competitivo. Na arte em geral, cada vez mais, se cultiva isso. Aliás, o que é o empreendedorismo? É um bocadinho aquela coisa de estarmos

sempre a competir, a ver quem é que alcança melhores resultados, baseados na mentira de que “se fores muito bom, alcanças tudo”. Isto não é bem assim. Há gente extraordinária, a trabalhar como ninguém a vida inteira, e que não alcança esses resultados. E não é por isso que é menos virtuosa. Mas, nem sequer acho injusto, acho que as pessoas (que-retirar) não desistem de fazer uma coisa que fazem bem, porque é assim que se sentem bem com a sua consciência. Podem não ter tido mais sucesso, mas foram felizes a fazer aquilo em que acreditavam. E não há maior bênção do que isso, não é? (Sorriso). Portanto, acho essa coisa do empreendedorismo um bocadinho foleira.

Num determinado momento da sua carreira, fez uma pausa de seis meses de fado. Foi quase uma desistência? Sim, também é um direito, sermos fracos. Também temos de ter esse direito, e, na altura, fraquejei bastante.

Insegurança? Insegurança total, e a crença, quase absoluta, de que não tinha o menor talento para me manter onde estava. E isso foi uma sensação tristíssima, porque eu amava esta arte. Já não era paixão, era mesmo amor, mas achava que não cumpria os mínimos necessários.

O fado foi uma descoberta visceral? Foi, porque foi uma descoberta tardia, improvável. Já tinha muita outra bagagem, já era uma mulher adulta quando cheguei ao fado, o que não é muito comum. O fado é uma arte de tradição oral, e, portanto, o testemunho vai-se passando, e vai crescendo por ali, naquele meio. O que até é bom, porque aquela inconsciência infantil e adolescente vai acompanhando a relação com esta música. Eu dou sempre o exemplo do Camané. O Camané é um génio naquilo que faz, e cresceu, desde criança, no meio da sua arte. É quase como um miúdo que nasceu para a música, e tem um dom incrível para tocar violino, tem a sorte de ter uns pais que o metem num óptimo professor, com quatro anos. No caso do Camané, como ele nasceu realmente para aquilo, o facto de ter crescido ali deu-lhe uma consistência extraordinária.

Embora seja um empenhadíssimo estudioso do fado. Completamente. Agora, imagine, juntar isso com toda aquela interiorização natural de uma vivência no meio... O Camané não sabe de cor as 180 melodias do fado tradicional, mas, se alguém lhe diz que a primeira frase começa de uma determinada maneira, ele resolve logo, porque aquilo está tudo lá. Foi

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caminho, dentro daqueles múltiplos caminhos a que aquela letra me leva. Tenho de escolher um caminho dentro daquela melodia. Cada vez que um fadista canta uma letra criada por si, num fado tradicional, mesmo que o cante a vida inteira, ele nunca está feito. Porque um dia vou por ali, faço as janelas, coloco-as no outro lado, às vezes faço as janelas maiores que as portas… Isto vai tudo mudando conforme o estado de espírito, conforme as limitações físicas …


semeado, germinou, e está tudo ali. Ora eu não, eu chego adulta ao fado, já com uma consciência. Quando ouvi a Beatriz da Conceição, pela primeira vez ao vivo, a um metro de distância, nunca tinha ouvido música assim. (É que ainda há mais essa. Nós não estamos habituados a ouvir música assim. Ouvimos melodias nos concertos, mas ali, a um metro… epá!) Por isso, quando ouvi uma artista como a Beatriz da Conceição, fiquei trespassada, completamente. Costumo dizer que tive duas revoluções na minha vida, o 25 de Abril e esta. A brincar, costumo dizer que faço 25 de Fado, porque foram mesmo duas revoluções. Nunca mais fiquei igual e, num ápice, a minha vida transformou-se completamente. E repare, não que eu quisesse ser fadista, e isso é que teve graça, eu nem sequer queria ser fadista. Andei quase dois anos, praticamente, só a ouvir e a comprar discos, e a querer saber mais e mais e mais. Eu só queria estar ali, no meio daquela arte. Como é que não conhecia? Como é que vivi num país em que só há aquela arte, e como é que isso me passou tão ao lado? Depois fui tentando perceber, e a razão principal foi o facto de eu sempre ter sido muito politizada: dos 12 aos 15 andei na UEC, depois dos 15, até não sei quantos, estive no PSR, portanto, até ao meu luto partidário, que é recente…

Que, diga-se em abono da verdade, até foi bastante curto. Talvez porque tínhamos a Amália…

… que é a fase que está a viver agora.

Temo que primeiro teria de ir para casa dela continuar a ouvi-la (risos), correndo o risco de encontrar o Vinicius de Moraes, o Alain Oulman, o David Mourão-Ferreira…

Que é a fase em que estou a viver, infelizmente. Porque acho que não é bom sinal. Não deixo de votar, mas não consigo apoiar um partido, como já apoiei em tempos. A verdade é que, por estar muito absorvida por essa aprendizagem, por a política ser a matéria que me interessava, fui-me rodeando de amigos, fui construindo uma rede, sobretudo na António Arroio, que, de facto, não passava pelo fado. Por isso, quando o descobri, fiquei muito surpreendida por essa minha rede não passar por aí, porque era a minha cara, era aquele género de música, aquele género de artista que eu gostava.

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Também existia uma questão política, que ajuda a explicar essa distância. O fado era muito conotado com o Antigo Regime, e, durante muito tempo, fechou-se nas casas da especialidade. Isso é verdade, mas acho que foi mais uma questão geracional. O fado fechou-se nas casas de fado, mas os grandes fadistas estavam todos lá. Houve ali um tempo, da Revolução, em que foi preciso arrumar a casa. O fado era, indiscutivelmente, uma música associada ao regime, não há nada a fazer, e, portanto, como em todas as revoluções, tem de haver um tempo de revolução e um tempo de luto.

Amália é um génio incontornável. Mas é um génio universal, não só português. A Amália está num patamar completamente inatingível. Ao nível de uma Ella Fitzgerald, de uma Édith Piaf ou de uma Elis Regina, quer em talento artístico, quer em personalidade, quer em dom. Ela é inteira, de facto. Não a torna, para mim, melhor fadista que ninguém…

Isso é outra coisa. Pois é… (risos) Isso é mesmo outra coisa. Agora, é inegável que o génio desta arte é Amália.

E foi revolucionária, porque inovou imenso numa arte pouco dada a inovações. A inteligência artística dela era brutal! E seduzia toda a gente que tivesse qualquer tipo de talento, porque devia ser assombroso ouvir uma voz assim, ali, à mão de semear. Se eu fosse poeta e estivesse ali, a ouvir uma mulher daquelas, numa casa de fados, ia a correr para casa escrever um livro para ela (gargalhada).

Exactamente (risos), porque como ela era genial, tudo que era bom andava à volta dela. Era um íman para tudo o que valia a pena, e tinha todo o mérito, porque era verdadeiramente inspiradora. Agora, convém dizer que o perigo para a história de uma arte como esta, que tem uma força muito invisível que acaba por ser muito frágil, é o de se reduzir o fado à Amália. Mal comparado, seria como reduzirmos a história da pintura ao Picasso. Ficaria tudo mais pobre. Às vezes, a minha reserva em divulgar demasiado a obra da Amália (que é a mais divulgada de sempre e a mais bem cuidada de sempre, e, felizmente, está eternizada), advém desse receio. Portanto, é importante cantar outras coisas, até porque o fado está pujante, independentemente de andarem miúdos a cantar com bandas, e não sei o quê. Mas é próprio da idade, é próprio dos fadistas, que, como são grandes intérpretes, quando põem a cabeça de fora, despertam a curiosidade de outros géneros musicais, que os vêm buscar, porque percebem que há ali uma personalidade muito forte, que pode ser muito vantajosa para a música deles. A gente mete o Camané a cantar com os Xutos, e aquilo ganha outra dimensão. É lindo ouvir o Camané a cantar o


Portanto, quando ouvimos certos miúdos, esquecemo-nos que têm vinte e tal anos. A gente ouve a Carminho e a Ana Moura, que eu acho que são duas fadistas extraordinárias…

… no caso da Carminho, o fado também vem do berço, estava ali tudo… Pois, mas também anda a experimentar outras coisas. Foi cantar Tom Jobim e MPB, e mais não sei o quê. Porque é uma necessidade própria da idade. A Ana Moura, a mesma coisa. Ganharam uma dimensão muito grande, e encantam muito facilmente. Por exemplo, no caso da Carminho, encantou o Chico Buarque, encantou diversos músicos que deram a cara por ela.

A Carminho e o Zambujo. O Zambujo não, porque o Zambujo não se assume como fadista. É um homem que vem do Cante Alentejano, entrou pelo fado, e bem, mas não interrompeu o seu caminho, até chegar a um sítio que é só dele. E ele próprio tem essa honestidade. É o nosso João Gilberto, e isso já é um dom extraordinário. E conseguiu fazer uma miscelânea que mais ninguém consegue. É o Cante Alentejano, é o Fado, é a música brasileira, é o Jazz de Chet Baker, de que ele também gosta muito. Conseguiu fazer uma amálgama das coisas que ama e que mais o tocam. Agora, a Ana Moura, que já está, há muito tempo, com uma banda, a cantar outras músicas, e que tem uma carga de música pop mais acentuada, é uma fadista de rara excepção. Mesmo rara, com um timbre incrível, com uma alma enorme, com uma naturalidade na interpretação e uma autenticidade que só os grandes fadistas têm. Se eu mandasse e pudesse, punha a Ana Moura a cantar o maior disco de fados da actualidade. Mas também percebo que ela tenha outras

ambições, e que também goste do que está a fazer. Aquilo resulta, porque a Ana é aquilo também. E quem somos nós para questionar? Eu não permito que ninguém me impeça de ser quem sou, por mais que achem que eu devia fazer outra coisa. Se eu não estiver segura disso, se eu estiver com um pé noutro lado, ninguém me vai tirar a oportunidade de experimentar, mesmo que se revele um erro. A Ana está a fazer uma coisa que é ela também. Agora, não tenho a menor dúvida que a Ana Moura e a Carminho são duas fadistas de corpo inteiro.

Regressemos a “Roubados”, que tenho ouvido repetidamente. Algo que sobressai na maioria dos fados é a suavidade da guitarra do Paulo Parreira, em contraposição à força da viola de fado do Rogério Ferreira. Há versões que são só de viola. Desta vez fui eu que fiz os arranjos…

Num deles, “Vem”, de Júlio de Sousa, notam-se até umas dissonâncias no início do tema, que fazem lembrar a bossa-nova. Nestas melodias não se corre o risco de desvirtuar, como ocorreria se fossem fados tradicionais, porque, algumas delas só são fados porque foram feitas para a voz de fadistas, porque se tivessem sido cantores a cantá-las, se calhar nem eram fados. Excepto, por exemplo, no “Arraial”, que foi escrito e composto por um fadista… … Que é só o João Ferreira Rosa. (Risos). Cujo patamar é altíssimo.

Que além de ter composto fados maravilhosos, construiu belíssimas “casas” sobre as músicas do Alfredo Marceneiro, para usar a sua metáfora de há pouco. Eu costumo dizer que, se voltasse à terra e pudesse escolher ser um fadista, queria ser o João Ferreira Rosa. Palavra de honra. Eu gostava de ser aquele fadista. Uma fadista assim como ele. Gravou só dois discos, e não precisa de mais. É incrível! Faz-me lembrar aqueles escritores que escrevem dois, três livros ao longo da vida. Como aquele brasileiro que escreveu “Lavoura Arcaica”…

O Raduan Nassar. Exatamente. É igual. Ele, para mim, é o nosso equivalente no fado, porque está ali tudo o que é preciso. É lindo. Tenho uma história maravilhosa com ele. Nós nunca fomos amigos, e encontrámo-nos na vida para aí umas três ou quatro vezes. Eu já tinha gravado uns

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“Circo de Feras”, porque ganha outra vida. Não é melhor, nem pior, mas ganha algo… Por isso, não é de admirar que as novas gerações de fadistas se sintam atraídas por outros géneros. Eu acho que as pessoas se esquecem que estamos a falar de miúdos com vinte e poucos anos. Ninguém ouviu os grandes fadistas no início. Eles, quando gravavam, já tinham uma segurança e uma consistência muito grandes, até porque tinham esse bom método que é o de cantar nas casas de fados, regularmente, e só quando a matéria estava bem consistente é que gravavam. Já tinham a personalidade muito definida, já sabiam muito bem o que estavam a fazer, já tinham muita segurança, até na escolha do repertório.


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“Ela é como nós” é muito bom. É genial. É mesmo à João... É, não é? Quem o conhece, sabe. Eu, que detesto expor-me, e chorar em público, levantei-me e apresentei-me: “Sou Aldina Duarte.”, e ele respondeu: “Fixei. Muito obrigada.”, e eu: “Dê-me licença.” E saí a correr para a casa de banho, para chorar. E chorei compulsivamente, porque parecia que aquilo tinha sido como se o Marceneiro viesse à Terra e dissesse: “A menina háde morrer fadista, que eu não permito que você desista.” Como se tivesse tido, ali, o certificado que precisava, dado pela pessoa certa. Nem ele sabe o quão importante foi para mim. Passados uns anos, dois ou três, vou cantar numa gala do Casino do Estoril, e erámos seis fadistas, um deles o João Ferreira Rosa. Eu, nervosíssima, disse à Maria da Fé, que também estava: “Meu Deus, eu vou cantar no mesmo sítio que ele.” E a Maria da Fé: “Ele vai ficar muito contente, porque gosta muito de te ouvir.” Cheguei lá e fui logo ter com ele. – “Olá, lembra-se de mim?” – “Então não havia de lembrar, por amor de Deus, nunca mais me esquecerei. E estou aqui para vê-la cantar”. Fui fazer o ensaio de som, e, quando voltei, ele diz-me: “Se você canta assim no ensaio, não sei como vai cantar logo à noite”. Estava sempre a estimular. Eu só pensava, o que é que me está a acontecer? Ele deve estar a ouvir umas coisas que eu não sei bem o que são. Entretanto, convidou-me para jantar com a Maria da Fé e um grupo e lá fui e estive a ouvir as histórias dele. Quando chegou a hora do espectáculo, cantava eu, depois cantava ele e terminava com a Maria da Fé. Quando fui cantar ele, que estava na coxia, disse: “Estou aqui para ouvi-la”. Fui cantar e quando regressei ele já não estava. Era natural, tinha ouvido um fado e teria ido preparar-se. Além do mais, já tinha, com certeza, ouvido cantar os melhores da história do fado. Mas ele voltou e eu disse: “Agora também vou ficar aqui a ouvi-lo, claro”. E ele riu-se, foi e cantou a “Triste Sorte” e eu só pensava: “Meu Deus, não acredito que é o mesmo que

me disse aquilo”. No dia seguinte, a Maria da Fé liga-me a perguntar se podia dar o meu número de telefone ao João Ferreira Rosa porque ele lho tinha pedido. “Com certeza”, disse. Ela lá lhe dá o número e ele liga-me. “Estou, como está? Olhe, tem aí uma caneta e um papel?”. Disse que sim e ele: “Então vá lá buscar.” E ditou-me uma letra, por telefone, escrita por ele, enquanto eu tinha estado a cantar na véspera. “Isto é você a cantar. Chame-lhe “Auto-retrato”. E como você, já sei, tem muito jeito, escolha a melodia do fado tradicional onde a quer cantar”. Estreei esse fado no Senhor Vinho e depois cantei-o nos vinte anos de carreira na Culturgest, onde ele esteve, mas estava com muita tosse e o Miguel (Lobo Antunes) fez o favor de projectar o concerto todo só para ele, num vídeo lá fora. Quando cantei o tema dele e contei a história, ele veio à sala e disse “Obrigado Aldina” (imitando a voz rouca de João Ferreira Rosa). Nunca mais o vi (emocionada)..

Que história. Esse fado ainda o canto, aliás, canto sempre, mas nunca o gravei. Ou melhor, ainda não o gravei, porque ou crio um disco à volta dele ou tenho de arranjar um contexto muito forte para que ele sobressaia com a grandeza que esta história merece.

Gosta de criar histórias à volta… Gosto. Eu não estava preparada para os singles, como se pode ver. (Risos). Mas isso anda-me a desafiar.

Mas não precisa. Com este “Roubados”, entrou directamente para os tops, como um vendaval. (Risos). Sim, mas este disco é mais fácil de chegar às pessoas, muito mais fácil que os outros. As pessoas já têm uma memória, consciente ou não, das melodias, que são melodias muito mais acessíveis.

Para mim, a sua interpretação de “Vendaval” é a melhor de sempre. Mas não tem nada a ver com o original.

Pois não, mas como eu não sou um fã do Tony de Matos… É o que toda a gente que não é me diz (risos). Quem é fã é capaz de dizer exactamente o contrário. Um amigo meu falou-me de alguém que disse uma coisa tão engraçada, contra mim, claro, mas com tanta graça: “Vendaval é o Tony de Matos, o resto são aragens”. (Gargalhada). É espectacular. É contra mim, mas é espectacular. Tem uma certa elegância.

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dois ou três discos, e ele não sabia quem eu era. Foi ao Senhor Vinho, e eu estava numa fase em que a motivação para cantar já não era muita. Andava cheia de dúvidas, de inseguranças, de vontade de desistir por não me considerar suficientemente boa. A verdade é que eu acabo de cantar, vou para o forno, que é o sítio onde fica a Maria da Fé e os vários fadistas que fazem parte do elenco, e João Ferreira Rosa entra a chorar, mesmo em lágrimas, e pergunta: “Quem é esta mulher?”, a olhar para mim, e vira-se para a Maria da Fé, e acrescenta: “Ela é como nós”.


É preciso sofrer para cantar estes fados?

O fado “Dor e Sofrimento” só podia ter sido cantado por ela.

É, é. Alguns. Basta ser sensível ao outro e ao sofrimento alheio. Não é necessário passarse por tudo isto, até porque, para se passar por tudo o que esses fados cantam, nem uma vida chegava. Mas para ser um bom fadista é preciso, de facto, ser muito sensível ao sofrimento alheio, mesmo quando se é jovem. Eu acho que quando se é jovem podese cantar bem, dependendo do repertório. Há características na jovialidade que podem ficar lindas no fado. Porque o fado também tem um lado muito romântico, muito amoroso, muito amável, diria eu. Os fadistas são muito fortes, são capazes de ser muito fortes, altivos, com uma coragem artística enorme, mas expõem-se em fragilidades com uma elegância que habitualmente não se associa muito ao fado. As pessoas ficam-se por aquela coisa da caricatura, do grito, do efeito, mas não é. O fado impõese quando alguém que faz transparecer uma força e uma coragem tão grandes, ao mesmo tempo, se expõe numa fragilidade, que poderia ser uma humilhação, mas não é. É coragem na fragilidade e na fraqueza. Têm coragem em revelar-se na fraqueza, na fragilidade, e isso...

Tão adequado e tão bem cantado, tão sensível. Eu acho incrível, acho que ela é mesmo uma fadista incrível. Todos os bons fadistas têm uma personalidade única e souberam sempre definir-se no seu repertório.

… revela uma grande força. Isso é uma grande força e é essa força, para mim, que muitos fados têm. Ora eu acho que não há nada mais sensível e frágil, e até arriscado, do que os amores da juventude, porque são uma coisa muito intensa e isso liga muito bem com o fado. No entanto, há um certo tipo de fado que, de facto, exige amadurecimento e algum sofrimento, próprio da vivência. O importante é que o repertório corresponda. O problema é que muitas vezes o repertório não corresponde à idade, o que faz com que soe estranho.

Às vezes até um bocadinho irritante. Até mesmo insuportável. Não há nada pior do que mau fado. Enquanto uma má música pop às vezes até anima, nem que seja a guiar, o mau fado não dá. Fado, ou é bom, ou não dá. Não dá, porque soa mesmo muito mal. Até chega a ser grotesco.

Foi no meu disco anterior (“Quando Se Ama Loucamente”) em que dei um salto tão grande que ainda ando aqui a voar num sítio meio desconhecido. É o sítio de cantar-me, não é de cantar só o que sou, é de cantarme, a mim. Eu ainda não tinha tido coragem de insistir tanto nisso e de escrever e arriscar cantar-me, até porque, pela minha natureza reservada e por uma série de convicções que tenho, acho que não me adapto de todo, nem me quero sequer adaptar a esta fronteira que se desmanchou, entre o privado e o público. Não quero viver nesse mundo. É evidente que estamos aqui a falar de assuntos íntimos, tudo isto é íntimo, mas não é privado. Não falarei nunca da minha vida privada a ninguém e não comprometerei nunca a privacidade de ninguém que faz parte da minha vida. Só que, sendo isto uma grande verdade, também é uma grande verdade que, na arte, não se pode dizer, “agora, dou-me até aqui.” Eu não posso dizer: “só me dou até aqui”. Tive foi de ganhar segurança, do ponto de vista técnico, porque se a técnica não estiver adquirida, não há como nos expressarmos.

Para isso foi fundamental o tempo? O tempo e a casa de fados foram fundamentais para adquirir técnica. Trabalhar até aprender a cantar.

Ter alguém como a Maria da Fé por trás, numa convivência diária, foi importante?

A Teresa Tarouca, por exemplo.

A Maria da Fé foi a pessoa mais importante da minha vida. Deu-me um espaço na casa dela e confiou em mim, quando eu ainda não sabia nada, nem por onde estava a ir, e ela deu-me o espaço todo para eu caminhar. Isto tem a sua importância. Quando, às vezes, penso que tive o privilégio de ouvir durante quinze anos seguidos a Maria da Fé, todas as noites, as pessoas não têm noção do que isto representa. Não há lição maior! Não há nada que supere o que eu aprendi com este convívio.

Exactamente. Aquilo é uma ferida aberta.

Na técnica?

Mas a verdade é que é preciso ser-se bastante sensível ao sofrimento, isso eu acho que sim. Embora haja fadistas que podem não ter essa sensibilidade, mas têm uma capacidade de sofrimento tão grande que já lhes basta.

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Há uma frase sua em que diz: “Pela primeira vez cantei o vazio do amor, a fealdade, e foi uma grande transformação na minha vida.”


O que sente quando está a cantar? É um mistério extraordinário, porque é, ao mesmo tempo, muito sagrado e quase banal, na medida em que faz parte do meu dia-a-dia.

Quando, há tempos, lhe pediram uma definição de fado, disse que a coisa mais próxima era Deus. Pois. Não sei viver sem fé. E não estou a falar da Maria da Fé (risos). Para viver na busca da felicidade, ainda que não seja permanente, preciso de fé. É muito difícil, para mim, viver sem fé. Já tive a experiência de ter, uma vez na minha vida, uma crise de fé e foi muito penoso. Isto, só aqui, não me basta e o fado tem isso na minha vida. Com as minhas convicções, achei que devia ter sempre trabalhos paralelos à casa de fado, para não ter de ceder em nada que dissesse respeito ao meu canto. Por isso, enquanto não pude viver só do fado, fui sempre tendo outras profissões e fazendo outras coisas. Mas, há muitos anos que me dou ao luxo de viver só de cantar. Ao longo dos tempos fui recusando propostas, que me podiam ter dado uma projecção enorme, que me podiam ter tornado uma pessoa bastante mais rica, mas eu não faço cedências. É um compromisso comigo mesma, não sei viver a fingir. Eu troco dinheiro por tempo. Propõem-me ir fazer uma tournée de mês e meio não sei onde e não vou. Não vou, lamento. Dava-me umas boas massas, se calhar pagava logo o que falta da casa, mas prefiro ficar a dever mais uns anos (já está quase). É a vida.

Esses princípios, em que não transige, ficaram-lhe da infância, de que sei, não gosta de falar? Não é que não goste… já falei o que tinha a falar. Mas, sim, a infância, sobretudo a primeira infância, que é aquela a que se dá menos importância e talvez seja a mais marcante, porque a outra, ainda a transformamos com as condições em redor, acredito que me marcou definitivamente. O meu instinto de sobrevivência vem daí. Sou muito boa a sobreviver e ando a aprender a viver bem.

Isto pode parecer absurdo, mas viver, simplesmente, para mim, durante muito tempo foi estranho, porque precisava daquela luta permanente… da sobrevivência. Quando começava a ficar tudo estável, não reconhecia o terreno. Então, até sabotava o sucesso das coisas. Parece um bocado doentio, mas é verdade. Eu era boa a sobreviver e o resto era-me desconhecido. Actualmente, não. Aprendi, felizmente, a viver e a estar bem e a sentir-me merecedora. Porque quando se cresce tão pobre e se vence tanto, e se vai tão longe como eu fui, a fazer tão livremente tudo, às vezes, há uma sensação…

É feliz? Feliz, completamente, é impossível, porque ainda há demasiada gente a morrer injustamente e a ser injustiçada de várias formas. Portanto, ser completamente feliz, não. Há uns momentos, mas não. O mundo é muito foleiro, embora eu goste muito das pessoas. Nesta hierarquia das formas de vida, do que mais gosto é das pessoas. Portanto, acho muito tosca esta fase da nossa evolução, porque continuo a não compreender como é que alguém consegue ser podre de rico e ao lado existirem pessoas a passar fome.

Estamos a caminhar para pior? Não, de todo. Não acredito nisso, nem que quisesse (gargalhada). Às vezes tento ser mais pessimista, mas tenho a doença do optimismo, que é muito perigosa.

Mas é uma belíssima doença. Às vezes leva à ilusão. Temos de ter cuidado. É preciso ser realista. A ilusão nunca é boa. Às vezes, o meu extremo optimismo, que é inato, salva-me em momentos cruciais, mas obrigo-me a descer a Terra, porque o optimismo tem esse perigo da ilusão. Aquela ideia de que agora vai ficar tudo bem, porque as coisas não podem ser tão más, de que as pessoas não podem ser tão más, e afinal são. Há pessoas mesmo muito más e há coisas mesmo muito mal feitas. Mas pronto, é uma aprendizagem.

Depreendi que ache que estamos a caminhar para melhor. Estamos, só que o que é bom não é visível nem valorizado. E o que é bom? São pessoas que, por exemplo, não perdem de vista a sua individualidade nem a do outro, que fazendo parte de um grupo e de uma espécie, aceitam as suas diferenças tal como aceitam as dos outros. A diferença é uma coisa maravilhosa, super-enriquecedora, e é

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Na técnica e em tudo. Na entrega, onde sempre nos compararam. Apreendi com ela a importância da entrega diária. Pode não se ter alma todas as noites, mas pode-se ter entrega, pode-se tentar o tempo todo. Eu vi, ninguém me disse, eu vi, todos os dias, a concentração dela antes de cantar e a necessidade de relaxar após cantar, por causa da intensidade dessa entrega. E ou amas isto ou não amas; ou queres ou não queres. Foi a minha grande escola, que, felizmente, colou muito bem com a minha personalidade, quer humana, quer profissionalmente.


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tratada como se fosse um papão. Portanto, bom seria um mundo menos desigual, sobretudo no que diz respeito às necessidades básicas. Não me importo nada que existam pessoas que tenham aviões privados, desde que não haja ninguém a passar fome, é só essa a questão. Eu nem quero nenhum avião privado, não acho graça nenhuma (risos). Em boa verdade, eu nem quero fazer tournées (gargalhada).

Muito menos num avião privado. Quero ter tempo para as pessoas de quem gosto, quero ter tempo para as coisas de que gosto. Prefiro ter tempo para ler um livro. Os livros continuam a ser um escape, como eram na adolescência? Sim (sorriso rasgado). Tive de fazer uma escolha, ou tinha uma sala de jantar ou tinha mais um acrescento na minha biblioteca. Desisti do acrescento e fiquei com uma sala de jantar (risos). É que uma sala dá muito jeito para receber amigos, com os quais podemos conversar um bocadinho sobre os livros. Mas andei muitos anos a não ter sala de jantar para ter uma biblioteca. Eu isolo-me facilmente, porque gosto, tenho prazer, não sofro de solidão nenhuma. Tenho um mundo de afectos riquíssimo, enorme, e chega-me de tal maneira que sou capaz de me distrair e depois, quando dou por mim, estou ali há não sei quanto tempo sozinha a fazer coisas, a ler, a ouvir música, a cantar, a telefonar para a minha mãe. Acho que ainda me lembro, às vezes, de telefonar para a minha mãe ou para os meus sobrinhos (gargalhada). Esta minha família, que é adorável, que me aceita como sou, em tudo, e me ama como eu sou, o que é uma bênção, sabe que o meu amor por eles não se traduz nas rotinas habituais: telefonar, ir ao domingo, etc. É muito importante termos a sorte de ter pessoas que nos compreendam. Se calhar, a pessoa que me amou mais e melhor na vida, na altura mais importante, foi a minha mãe e isso fez toda a diferença, porque eu podia ser uma pessoa muito amarga, porque sou dura, porque tenho um traço de carácter muito agressivo, porque tenho um lado mais obscuro, mas esse amor da minha mãe, inicial, foi determinante para que não me tornasse uma pessoa amarga. Se o fascismo também foi determinante, porque me tirou a infância, como eu costumo dizer, o amor da minha mãe foi mais forte, foi o que me salvou, porque senão, hoje, podia ser uma pessoa bastante amarga e revoltada e não sou.

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Onde se prova que o amor tem mais peso. Tem. Por isso é que eu digo que só não percebe isso quem não sabe o que é o amor.

quem nunca foi amado.

Como vai a escrita? Não tenho compromisso nenhum com a escrita. Sou uma leviana com a escrita.

Depois do melhor álbum de fado das últimas décadas, já tem projectos para o próximo? Já estou a trabalhar no próximo, mas não é exactamente meu. Quer dizer, é meu porque o vou escrever, mas nem o vou cantar. Estou a escrever um disco para crianças. Um conto de fadas para crianças, todo cantado em melodias do fado tradicional, com arranjos do Pedro Gonçalves, em que as personagens vão ser vários fadistas e eu só serei narradora num tema, no início. Se calhar nem vou cantar. Está para breve? Para breve não, mas já estou a trabalhar nele. Mas cada vez escrevo mais. Estou a começar a criar alguma autodisciplina para escrever, porque fiquei com essa vontade desde o meu último disco. Como escrevi um disco inteiro a contar uma história – “Quando Se Ama Loucamente” – fiquei com imensa vontade e decidi que, quando tenho um momento forte na minha vida, seja no que for, tento pô-lo em fado. Faço a letra em bruto, imagino a melodia e ponho por escrito e depois deixo para ali, numa gaveta, e logo se vê. Mas são coisas que vivi, e isso é uma coisa que ultimamente me interessa. Porque estes fados que canto em “Roubados”, por exemplo, são coisas que eu vivi, porque foram fados que eu ouvi cantar todas as noites nas casas de fado, ao longo dos anos, pelas mais diversas pessoas. Ouvi alguns desses fados cantados pelos fadistas que me marcaram mais, pelos próprios criadores, são pessoas com quem tenho histórias pessoais. Isso é quase uma espécie de biografia do meu percurso de fadista, nestes anos. Portanto, ao criar essas versões eu também estou, à semelhança do que já tinha feito no anterior, a contar a minha história. É uma biografiazinha, uma breve biografia. Porque eu acho que esse sítio aonde vou quando me canto a mim, só consigo ainda ir quando canto coisas que eu realmente vivi. É o que me faz cantar melhor, interpretar melhor. Agora, na casa de fados, a minha descoberta é essa, quando saio dos fados que vivi para os fados a que eu sou sensível, ou porque a linguagem me cativou, ou porque a poesia me seduz, ou porque a melodia me encanta, reparo que…

… não é a mesma coisa.


Porque é mais intenso? Não, porque não sei o que é. Não reconheço tão bem e como não tenho a visão de cima, do helicóptero, como tenho nos outros, às vezes assusta-me, mas a verdade é que se vai mais longe e fica-se melhor, fica melhor, o fado fica mais rico, fica mais inteiro.

Há mais entrega? Como lhe digo, não sei. Ando a sobrevoar um terreno desconhecido. Mas gostava de conseguir essa intensidade e inteireza nos outros fados.

Muitos dos fados que cantou foram escritos exclusivamente para si, por poetas extraordinários como a Maria do Rosário Pedreira ou a Manuela de Freitas. Nesses casos sente essa intensidade, essa inteireza? Nesses casos é a Aldina a ser a voz de outros. Na interpretação, às vezes, é preciso ter essa inteligência de perceber que, por mais que eu ache que aquilo sou eu, não sou. Também tenho de querer saber o que está ali, para além de mim. Essa é que é a poesia. Uma vez o Padre Tolentino fez-me um dos elogios mais bonitos que já me fizeram: “A Aldina é a voz da poesia no fado.” Não é poesia, poema, é a poesia que há naquele fado e que tem a ver com a letra, mas também com a melodia, que muitas vezes não se sabe com o que tem a ver, mas que tem a ver com o todo. Por isso, seria muito errado eu cantar um fado que claramente foi escrito por outra pessoa sobre um acontecimento que nada tem a ver comigo. A Manuela Freitas, ou a Maria do Rosário Pedreira, ou o João Monge, já escreveram para mim, mas a pensar em mim.

O João Monge fez um disco inteiro a pensar em si. Foi mesmo a pensar em mim, mas mediante a forma como ele me via, que não quer dizer que seja, exactamente, aquilo que eu sou. Escreveu a partir daquilo que ele achava que era a minha vida. Mas é a visão dele, não é a minha, e eu tenho de ter essa humildade, enquanto intérprete, de perceber que me vou cantar com o que sou, mas vou cantar, também, a visão do João, que não é a minha. E isto é um desafio incrível. Este foi o meu maior desafio ao longo dos anos, porque não tinha coragem nem recursos para ir onde fui agora. Não tinha. Era muito arriscado, com as limitações técnicas que tinha, durante

uma série de anos, tentar interpretar o que estou a interpretar agora. Só servia para me frustrar, para me violentar. Agora, acho que já tenho o mínimo essencial para conseguir. Isso já é bom.

E quer assumir esse desafio de se cantar. Quero, quero muito.

“Já não são cantos, são fados. Já não são fados, são vida.” Exacto. É mesmo isso, porque cheguei a um ponto em que a minha vida e o meu trabalho já não são distinguíveis. Não sei que caminho é que isto vai tomar, mas sei que estou muito bem onde estou. “Romance(s)”, fica marcado pelo início da sua ligação musical a Pedro Gonçalves, dos Dead Combo e, penso não errar, é o primeiro álbum que não é produzido por si. Foi um desafio? Foi a Paula Homem, minha editora, que me disse que achava que estava na altura de ter um produtor e sugeriu o Pedro Gonçalves. Assim que ele entrou, e nos sentámos à mesa, olhámos um para o outro e percebemos “isto não tem retorno, vamos ficar amigos para toda a vida”. Foi tipo aquelas coisas que há, dos amores à primeira vista. Depois com as afinidades todas artísticas que tínhamos, meu Deus! Assim que entrámos em estúdio aquilo parecia um turbilhão. Mas, convém dizer, seria até errado não o fazer, que foi a primeira vez que tive alguém a ouvir-me de fora, nas mãos de quem me coloquei absolutamente. Felizmente, foram as mãos certas, como no caso do Camané com o José Mário Branco. Repare que o Camané é um génio no que faz, tinha toda a sua história fadista, já era um diamante bruto, ou melhor, era uma mina de diamantes, mas, de facto, quem lapidou aquela jóia foi o José Mário.

Com pinças, como ele disse que se deveria mexer no fado. No meu caso com o Pedro, tem a ver com o amparo. Eu até posso ter sobrevivido sozinha e bem até uma certa altura, mas não há dúvida que há coisas que só juntos é que conseguimos, sozinhos não somos capazes. E o Pedro é esse exemplo, nada foi tão longe como quando o Pedro me ouviu de fora e disse o que achava, ou quando simplesmente estava ali para o meu canto soar melhor. E gravar um disco com alguém como o Pedro, a ouvir-me e a decidir comigo e a decidir por mim, foi extraordinário... Quando era miúda, com seis anos, fiquei com as chaves de casa o dia inteiro. Pode-se pensar que era espectacular, mas não está certo. Não é assim que

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Não. É como se eu voasse, como se fosse a um lugar. É isso, quando canto coisas que vivi, vou a um lugar que às vezes dói, que é mais assustador.


se é infante, que se exerce a infância. Por isso, para mim, foi uma sorte quando, aos sete, o meu padrasto entrou na minha vida e já não precisei de ter a chave de casa (risos). Com o Pedro aconteceu um bocado isso. Tive a sorte de ter uma infância, na minha arte, muito amparada, porque tive a Maria da Fé a dar-me uma casa e a ficar comigo, tive a sorte, quando gravei o primeiro disco, de ter o Miguel Lobo Antunes a dizer “vens para o mundo, mas eu organizo tudo. Vais com o Jorge Silva Melo para o palco” e depois apareceu o Pedro para me dar conforto.

Também não fez a coisa por menos (risos). Tudo à grande. É verdade, tudo à grande (gargalhada). Eu resisto muito, mas eles confiam em mim. O Miguel ajudou-me imenso e tornou-se no meu melhor amigo. Hoje, como eu costumo dizer, faz parte do meu sangue.

O Miguel Lobo Antunes que, surpreendentemente, tem um desempenho brilhante como protagonista do filme Technoboss de João Nicolau. Verdade (risos). Eu e o Miguel somos amigos íntimos, conhecemos muito bem a vida um do outro e ele não me quis falar muito dessa aventura. Enquanto andava a fazer o filme não o vi durante muito tempo, porque andava bastante ocupado. Quando fui ver o filme, esqueci-me que era o Miguel que estava no ecrã. Não há nada melhor. Esqueci-me que era o Miguel e estava a ver um senhor actor. Sabe aquela ideia que a gente tem, que aquele senhor deve ser importantíssimo para uma companhia de teatro qualquer. Deve ter andado a vida toda a fazer Shakespeare e agora decidiu fazer um filme (gargalhada). Foi o que senti e fiquei orgulhosíssima. Mas sabe o que é que eu acho? Que é uma espécie de justiça divina. Se formos ver bem, aquele homem fundou o Centro Cultural de Belém, estruturou um espaço cultural como não havia, saiu para fazer o mesmo na Culturgest, já para não falar de outras coisas anteriores, mais esporádicas, por isso nada mais justo que, já reformado, brilhe desta maneira no filme do João Nicolau. O Miguel tem 72 anos, que, para mim, são uma lição. Quero ser assim quando for mais crescida, porque ele é uma pessoa extraordinária e foi uma bênção na minha vida.

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Ter bons amigos é fundamental? Nem sei viver de outra maneira. Não imagino o que será uma vida sem amigos, mas deve ser a coisa mais triste do mundo. As minhas amizades contam-se pelos dedos, mas são muito sólidas. Os meus amigos são tão importantes como a minha família, são amores

diferentes, mas não competem entre si, não abro mão de nenhum deles. Claro que não tenho muitos amigos, nem tenho tempo de tratar bem de todos. Não se pode ter assim amigos à balda. (Risos).

É preciso cuidar bem deles? Sempre. Um amigo é uma coisa preciosa e muito rara. Eu tenho muito brio em ser boa amiga. É um dos meus maiores orgulhos. Acho que sou mesmo boa amiga (risos). Por acaso gosto de mim como amiga (gargalhada). Sei que parece mal eu estar para aqui a dizer isto…

Acho que isso ficaria muito bem num fado. Gostava de a ouvir cantar esse bom gosto em ser boa amiga. Se um dia for tão boa fadista como sou boa amiga, é porque estou a voar mesmo, mas por enquanto ainda é só o vento que me leva.

Se tivesse de escolher “O” fado, qual seria? Não é fácil, mas atrevo-me a escolher “Triste Sorte” do João Ferreira Rosa.

Poema do João, na melodia do Fado Cravo. Sim. Se escolhesse um hino fadista, para mim seria aquele, porque tem uma simplicidade na linguagem que advém da sabedoria, da vivência. Só quando já se sabe tudo é que se pode simplificar daquela forma, como o Picasso dizia: “Andei trinta anos a aprender a desenhar como o Miguel Ângelo e o resto da vida a desenhar como as crianças”, e aquela letra do João, tem isso, é aparentemente uma letra tão simples que pensamos: “podia ter sido eu a dizer isto, podia ter sido eu a escrever isto”, mas não podia.


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Comunicação e ciência por Carlos Fiolhais*

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O ser humano só o é verdadeiramente quando comunica, isto é, não existe individualmente, mas sim em sociedade. Comunicar consiste em transmitir significados de uma pessoa ou grupo de pessoas a outras pessoas ou grupos usando um conjunto de símbolos e regras cuja compreensão é partilhada. Os conteúdos da comunicação são, em geral, chamadas mensagens e a sua codificação simbólica pode ser feita das mais variadas maneiras: podem ser textos, imagens, discursos, gestos, etc. Vivemos na era da comunicação digital: no mundo contemporâneo, a informação contida nessas formas é representada por bits, o que facilita não só a sua transmissão, mas também o seu armazenamento no sistema global a que chamamos Internet. A transmissão por imagens, que consome mais bits, designadamente imagens em movimento, está a crescer enormemente. Na teoria da comunicação, definem-se emissor, receptor e canal de comunicação entre neles, sendo a comunicação tanto melhor quanto mais fácil for a interacção entre emissor e receptor (quando o chamado “ruído”, ou perturbação da informação, inexistir ou for limitado), e quanto mais emissor e receptor trocarem os seus papéis, assegurando bidireccionalidade da comunicação. A comunicação digital moderna operou uma revolução completa, da qual ainda não estamos a ver todas as consequências, ao permitir que cada receptor possa ao mesmo tempo ser um emissor com potencial de recepção global. Na actual torre de Babel, todos os habitantes do planeta – e são mais de sete mil milhões – podem, pelo menos em princípio, comunicar, praticamente sem intermediários, para todos. O desenvolvimento da civilização sempre se baseou, essencialmente, no alargamento dos processos de comunicação. Se a evolução biológica proporcionou a visão e a fala, o aparecimento da escrita no Médio Oriente há cerca de 3300 anos a.C. constitui um grande marco histórico: é até o começo convencional da história. A seguinte grande transformação civilizacional ocorrida com o alargamento das comunicações foi a introdução da imprensa escrita primeiro no

século VII na China e, sem qualquer ligação conhecida, depois na Europa, a meio do século XV (o papel inventado na China chegou à Europa através dos árabes, mas não a imprensa), com o trabalho pioneiro do alemão Johannes Gutenberg. No século XIX, a Revolução Industrial proporcionou uma rede de telecomunicações, que construída a partir da Europa ganhou escala intercontinental, primeiro através do telégrafo eléctrico e depois através da TSF: deixou de ser necessária a deslocação de seres humanos ou o envio por qualquer meio de material impresso para haver transmissão de informação à distância. Finalmente, no século XX, uma nova e poderosa vaga da Revolução Industrial, determinada pela invenção dos transístores (1947), dos cabos ópticos (1965), da Internet (1969), dos computadores pessoais (1977), dos telemóveis (1983) e da World Wide Web, WWW (1989), levou à proliferação e aceleração dos processos comunicacionais de uma forma nunca vista, agora com suporte digital, que se estenderam rapidamente a todo o mundo – falamos de “globalização”, um conjunto enorme e complexo de interacções entre pessoas e grupos que são asseguradas por ligações ubíquas. A globalização mudou – está a mudar - de forma drástica a economia, a sociedade, a política e a cultura. Não é por acaso que entre as dez companhias mais valiosas do mundo se encontrem a Microsoft, a Apple, a Amazon, a Alphabet (que inclui a Google), o Facebook e o Alibaba.

Ciência na base da comunicação Se o aparecimento da escrita e da imprensa escrita foram inovações técnicas anteriores ao aparecimento da ciência moderna, já as inovações dos séculos XIX e XX foram resultado dessa ciência. Na base da “aldeia global” em que se transformou o planeta está a observação cuidadosa (muitas vezes ajudada por instrumentos), a experimentação (que mais não é do que observação em condições controladas) e o exercício da razão (que recorre em geral à matemática). De facto, antes da Revolução Industrial (cujo início se faz remontar ao final do século XVIII, com a invenção da máquina a vapor), foi a Revolução


Uma componente essencial do método científico complementa as três componentes atrás referidas: a crítica feita por “pares” permite o estabelecimento de consensos científicos. Uma afirmação a respeito do mundo só fica provada se não for encontrado nenhum erro no processo da sua criação e os erros são mais rapidamente eliminados se houver partilha de informação. A Revolução Científica só foi possível porque a imprensa, que lhe é anterior, permitiu a difusão de conhecimento. A obra maior de Copérnico é a Revolução dos Orbes Celestes (1543) que sai no ano da morte do autor e que tanta celeuma haveria de provocar no mundo cristão. Galileu escreve as sua sobras mais significativas em italiano, e não em latim, para chegar a mais gente. Newton, com o patronato da Royal Society de Londres. A sociedade científica a que ele pertencia (presidiu a ela durante longos anos) escreveu, em latim, Princípios Matemáticos de Filosofia Natural (publicada em 1687, com primeira tradução inglesa vinda a lume em 1726). Quer dizer, não há ciência sem uma comunidade científica, que mantém vigilância atenta sobre a correcta aplicação do método científico. Os conhecimentos são acumuláveis, tendo os novos de “encaixar” nos velhos. Se é verdade que a moderna comunicação é um resultado directo da ciência, não é menos verdade que, no âmago da ciência, estão processos comunicacionais. Assim, não admira que o desenvolvimento das tecnologias da comunicação tenha servido para alimentar a própria ciência. No século XIX o telégrafo e a TSF serviram para a comunicação de novidades científicas. Nas décadas mais recentes, a WWW transformou a sociedade e a própria ciência. É curioso assinalar que a WWW foi um spin off da física fundamental: os físicos de altas energias, congregados no Centro Europeu para a Investigação Nuclear - CERN na Suíça na busca de partículas e forças fundamentais, apenas queriam partilhar os seus dados, não podendo imaginar o impacto que os protocolos desenvolvidos para a comunicação científica viriam a ter no mundo em geral. Uma vez que a criação de ciência é uma actividade comunitária, não admira que o email e as conferências Skype, ou análogas, tenham passado a ser meios in-

dispensáveis da produção científica. A maior parte das revistas científicas passaram a ser electrónicas e criaram-se arquivos digitais. Em 1991 foi criado o ArXiV, um arquivo de preprints electrónicos de artigos científicos nas áreas da matemática, da física e da biologia fundamental, que contém mais de um milhão de artigos (são depositados mais de 10.000 por mês) Criou-se há alguns anos um movimento, chamado de Open Access, que se destina a pôr os resultados da investigação científica acessíveis, através da Internet, de forma livre e gratuita, não só a toda a comunidade científica, mas urbi et orbi a quem possa estar interessado. Existem hoje mais de 12.500 jornais científicos só de acesso aberto, embora muitos outros tenham um sistema misto. Os chamados repositórios institucionais oferecem a produção científica feita no seu interior: por exemplo, no “Estudo Geral”, repositório da Universidade de Coimbra, encontram-se, a esta data, 441 trabalhos meus (https://estudogeral.sib.uc.pt/ cris/rp/rp04989?startall=400 ). Em Portugal existe um metarepositório, que reúne os vários repositórios institucionais, os Repositórios Científicos de Acesso Aberto de Portugal, RCAAP: www.rcaap.pt Desinformação e cultura científica Mas o feitiço virou-se de alguma forma contra o feiticeiro, vendo-se a ciência vítima do seu próprio sucesso. Com a WWW qualquer um pode ser tanto emissor como receptor de informação, não havendo uma possibilidade fácil de filtros que separem a informação da desinformação, isto é, informação inválida, sem suporte factual. As redes sociais, como Facebook, fomentaram esse fenómeno. Assim a Internet, sendo indubitavelmente um repositório valioso de conhecimento, contém, como numa mina de ouro, minério rodeado e por vezes enleado numa ganga de desinformação. Em vez da “verdade”, passaram a proliferar “verdades alternativas” (alguns falam de “pós-verdade”). Em vez de notícias, passaram a existir “notícias falsas” (fake news). Em detrimento das ciências, ganharam volume as pseudociências. Não deixa de ser paradoxal: Usando os meios proporcionados pela ciência, a pseudociência, que sempre existiu, ganhou uma escala nunca vista. Numa premonição notável, o astrofísico e divulgador científico norte-americano Carl Sagan, em 1990, num artigo publicado na revista Skeptical Inquirer, tinha dito: “Vivemos numa sociedade extremamente dependente da ciência e tecnologia, na qual muito poucas pessoas sabem alguma coisa sobre ciência e tecnologia. Isto é uma clara receita para o desastre.” A mistura entre poder e ignorância, bem patente na Casa Branca em Washington DC e no Palácio do Planalto em Brasília, está-nos hoje a explodir na cara.

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Científica, saída das mentes de génios como Copérnico, Galileu e Newton nos séculos XVI e XVII que mudou o mundo de uma maneira irreversível: passou a haver uma metodologia que se podia aplicar sistematicamente para alargar o nosso horizonte de conhecimentos. O jurista e filósofo inglês Francis Bacon, contemporâneo de Galileu, anteviu a sociedade actual, assente na ciência e na tecnologia, no que pode ser considerado o primeiro conto de ficção científica: A Nova Atlântida (1626).


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Não podemos adivinhar as consequências da mistura entre poder, baseado na ciência e tecnologia, e ignorância, desconhecimento da ciência e tecnologia e não só. Um poder ignorante pode travar o esforço científico, colocando em causa não só o desenvolvimento civilizacional futuro como as nossas actuais condições de vida. Se a ciência deixa de dispor de meios adequados, não poderemos enfrentar grandes problemas que nos assolam, onde avulta a magna questão das alterações climáticas, a alteração que o homem publicou no seu planeta. Se no passado se poderia invocar o desconhecimento dos efeitos da acção humana, esse já não é o caso nos dias de hoje. Por outro lado, há desafios e ameaças relacionadas com a ciência, como os que derivam da edição genética ou da inteligência artificial. Para podermos dispor de meios que nos permitam a continuação da vida na Terra, em condições não inferiores às que desfrutamos hoje (tem havido um desenvolvimento do nível de vida no globo, embora continuando desigualdades gritantes), há um aspecto crucial da comunicação sobre o qual convém reflectir. É que a ciência não apenas precisa de comunicação externa como precisa – tanto quanto da primeira – de comunicação com a sociedade, com o público que é o primeiro motor da ciência. De facto, a ciência não é dos cientistas, mas de todos. São os cientistas que respondem a questões, mas estas são da humanidade inteira, pelo que convém que as respostas, ainda que permanentemente parciais, sejam entregues aos interessados que somos nós todos. Para isso, terão de se usadas todas as possibilidades de comunicação existentes, na medida da sua eficácia conhecida, para que a ciência – não apenas o corpo de conhecimentos, em continua mutação, mas o método que gera primeiro conhecimentos e mais tarde aplicações – esteja mais perto do grande público. Não se trata apenas de ver a ciência como uma fonte de benefícios materiais, mas sim e acima de tudo de ver a ciência como a fonte desse benefício imaterial, o primeiro e o mais fundamental dos benefícios, que é o conhecimento humano. O matemático francês Henri Poincaré escreveu em O Valor da Ciência (1905): “Não digo que a ciência é útil porque nos ensina a construir máquinas; digo que as máquinas são úteis porque, ao trabalhar para nós, um dia nos deixarão mais tempo livre para fazer para ciência.” Claro que se pode acrescentar – e Poincaré pensava isso – para desfrutar as artes, porque para ele tanto as ciências como as artes estavam na base da civilização. Logo no século XIX houve cientistas que tiveram a visão da necessidade de levar a ciência ao público. Vale a pena olhar para o caso do Reino Unido, o país de Francis

Bacon e de Newton onde começou a Revolução Industrial: O físico inglês Michael Faraday fazia, na Londres vitoriana, shows de demonstrações científicos e escreveu livros acessíveis de popularização de ciência. Outro inglês, Charles Darwin, escreveu uma das teoria científicas mais notáveis num livro A Origem das Espécies (1859) escrito directamente para o público – um livro que ainda hoje está no mercado e que pode ser lido por um leigo interessado (do atraso científico em Portugal fala eloquentemente o facto de a tradução portuguesa ter demorado 43 anos; nas artes não foi melhor: a 9.ª Sinfonia de Beethoven demorou 101 anos a estrear entre nós). No século XX, a progressiva especialização do saber levou a uma cada vez maior separação da cultura científica e tecnológica, por um lado, e da cultura artística e literária, por outro. Em 1959 o inglês Charles P. Snow, também conhecido por Lord Snow, que era ao mesmo tempo um físico-químico e um escritor literário, intitulou uma conferência que deu em Cambridge As Duas Culturas, chamando a atenção para o fosso que existia entre as ciências e as letras. A identificação do problema não significou a sua resolução: ainda hoje é reconhecido um certo isolamento da ciência no seio da cultura. Continua a haver duas culturas que não comunicam facilmente, em vez de se reconhecer a ciência como uma parte da vasta cultura humana. No Reino Unido, surgiu em 1985 um relatório da Royal Society (conhecido por Relatório Bodmer, do nome do geneticista britânico Walter Bodmer) que expressava a preocupação com a “compreensão da ciência pelo público”. Essa tentativa tem conhecido novas formas, incluindo o aparecimento de cátedras em várias universidades dedicadas à compreensão pública da ciência. Um dos actuais movimentos mais inovadores neste contexto é o da “ciência cidadã” (citizen science), que consiste na possibilidade de o público ajudar nalgumas actividades de ciência: os amadores podem, de facto, contribuir para progresso da ciência. Um exemplo interessante é a possibilidade de dar parte de tempo de cálculo dos computadores domésticos para participar em projectos globais de computação (como por exemplo saber o clima futuro do planeta), mas outras formas de participação envolvem o fornecimento de dados sobre o ambiente, a biodiversidade, o espaço, e até o funcionamento do corpo humano, etc.

O caso português Se o caso britânico é paradigmático, o caso português não deixa de ser interessante. Portugal é um país onde a ciência - e, portanto, a comunicação de ciência – tardaram a disseminar-se. Nos séculos XIX e XX, quando o mundo as grandes transformações


de encontro interdisciplinar e de partilha de saberes. Pode-se dizer hoje que há um interesse em Portugal pela ciência – não há em Portugal a mesma vaga de desconfiança que ameaça alguns países mais desenvolvidos e que é potenciada pelas redes sociais – mas o certo é que isso acontece ao mesmo tempo que há alguma indiferença. Sim, pensarão os portugueses, a ciência é em princípio uma coisa boa, mas não é para mim. Estou em crer que os portugueses, tal como os outros cidadãos deste mundo global, estão interessados em saber mais e melhor, até porque esta é a única possibilidade de poder desfrutar de uma vida mais longa e saudável. É preciso para isso que as entidades públicas e privadas confluam em alimentar a cultura científica em Portugal. E, neste mundo em que todos nós podemos ser emissores, é preciso que nos empenhemos, com os meios e as capacidades de que dispomos, em espalhar cultura científica. Os modernos meios de comunicação estão à nossa disposição e o mais provável é que surjam outros, ainda mais poderosos. Francis Bacon disse que “saber é poder”: não podemos deixar que a ignorância seja poder. O empenho da cultura científica tem de ser comum. Tudo deve começar na escola, que não perdeu o seu papel essencial na aprendizagem da informação e comunicação, mas a vida humana só é possível através da comunicação permanente.

*Professor de Física da Universidade de Coimbra.

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mencionadas, Portugal beneficiava das novas possibilidades tecnológicas apenas na medida em que as podia comprar e não tinha em geral capital para o fazer. O telégrafo eléctrico foi comprado, no Porto para tratar dos negócios e em Lisboa para facilitar a governação já ele estava estabelecido há anos noutros sítios. Se um professor ou investigador português vislumbrava a possibilidade de concretizar uma nova tecnologia (com aconteceu com o conceito de televisão, que ocorreu a Adriano Paiva, no Porto, em 1878), não dispunha dos meios suficientes nem do ambiente necessário para que sua ideia pudesse ser levada à prática. Havia interesse das camadas mais cultas da sociedade pelas novidades da ciência e tecnologia, um interesse que alimentado por uma variedade de livros e periódicos, mas essas camadas formavam um grupo muito restrito da população, já que a maior parte desta permaneceu ao longo do século XIX e em boa parte do século XX analfabeta, por deficiência de escolarização. O século XX, apesar das esperanças alimentadas pela implantação da República, não trouxe melhorias substanciais. As tecnologias de comunicação, baseados nos transístores e nos cabos ópticos, vinham de fora como dantes tinha vindo o telégrafo e a TSF. Com a Revolução de 25 de Abril de 1974 e com a entrada na Comunidade Económica Europeia em 1986 houve uma cada vez maior escolarização no ensino superior e um investimento maior na ciência e na tecnologia. Esse investimento foi acompanhado por um investimento na disseminação da cultura científica, tendo aí sido proeminente o papel de José Mariano Gago, o físico que primeiro ocupou a pasta da Ciência e Tecnologia. Os cientistas portugueses, em número cada vez maior, foram reconhecendo progressivamente a necessidade de dialogar com o público. A imprensa escrita de referência passou a ter secções de ciência, embora a rádio e a televisão permanecessem neste aspecto deficitárias. Foram publicados livros de ciência – a colecção mais emblemática que já dura há mais de três décadas e inclui até à data 234 títulos é a “Ciência Aberta” da Gradiva, onde há cada vez mais autores portugueses (já se chamava “Ciência Aberta”, nome adoptado antes de ter começado o moderno movimento da Open Science, de que o Open Access é a face mais visível). Surgiram centros e museus de ciência, alvo do interesse dos mais jovens. Em Coimbra, fundei em 2008 o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra (www. uc.pt/iii/romuloccv) , cujo nome presta homenagem ao professor de Física e Química e escritor Rómulo de Carvalho, que usava o pseudónimo literário de António Gedeão, e que é para além de uma biblioteca e de um repositório de cultura científica (https:// am.uc.pt/romulo/items) também um espaço


Ricardo Alexandre

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O homem do leme


Bruno Esteves

Editei esta entrevista ao som do “Cerco”, dos Xutos & Pontapés, de um velho vinil demasiado riscado pelo uso, como acho que o Ricardo gostaria que acontecesse. Foi a ouvi-lo falar da banda do Zé Pedro que o conheci, no segredo mais mal guardado do Festival de Paredes de Coura, “fardado” com a t-shirt dos Xutos, como em todos os primeiros dias de festival, e das histórias infindáveis dos inúmeros concertos a que assistiu da banda. Por essa altura, já os contentores transbordavam de carga e todos éramos homens do leme. Depois disso cruzámo-nos por diversas vezes, sempre circunstancialmente e inevitavelmente em Coura, até mergulharmos juntos no mar de Copacabana, bebermos uns chopes na Rua do Ouvidor e sambarmos no Carioca da Gema, na Lapa, numa gloriosa noite pré-eleitoral, ainda o fervor evangélico não envenenara o mais belo presente de Deus deixado à humanidade, a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Durante esses quatro dias em que cobrimos as eleições brasileiras, aprendi, com o Ricardo Alexandre, a arte da reportagem. Sempre atento, sensível, cuidadoso, nada lhe passava ao lado. Da mais antiga banca de jornais da Zona Sul a Piauí, nome atirado ao acaso por Tom Jobim, só porque “soava bonito”, à frase “Larga esse ódio e vem-me amar” estampada na camiseta de um fiel apoiante de Bolsonaro; do jovem casal desiludido com o discurso de Fernando Haddad no Complexo da Maré, uma das mais violentas favelas do Rio; ao discurso crítico de um antigo colaborador da ditadura militar, na sua luxuosa cobertura do Leblon, ao futuro presidente, tudo era motivo de reportagem. Durante esses quatro dias, em pequenos apontamentos diários, o Ricardo Alexandre pintou um retrato tão real e humano do Brasil que me impressionou, embora não devesse, porque já me devia ter habituado à humanidade com que olha os locais que visita em reportagem. Afinal de contas, fora assim nos Balcãs, no Afeganistão, na Sérvia, na Palestina, no Irão, em Timor Leste, em Moçambique, em Cuba ou no Kosovo, onde, com as suas reportagens, nos ajudou a desmistificar as nossas arrogantes certezas e a olhar o mundo através dos olhos dos outros.

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por João Moreira


Desde o longínquo ano de 1986, em que começou a trabalhar na “pirata” Portucale, no Porto, por acaso, ou melhor, “por causa do nome” (havia outro Ricardo que tinha faltado), como nos conta com humor; em 1989 começou numa rádio legal, a “local” 7FM na Maia, antes da Press e da pública RDP, teve tempo para fazer de tudo um pouco: uma Licenciatura em Sociologia na Faculdade de Letras do Porto, um Mestrado em Sociedades e Políticas Europeias no ISCTE, um Doutoramento em Ciências Políticas, vertente de Relações Internacionais, também no ISCTE, de dar aulas de Jornalismo Político na Universidade Lusófona e de Jornalismo Radiofónico na Universidade de Coimbra, de escrever livros (“João Aguardela – Esta Vida de Marinheiro”; “Irão: o país nuclear”; “Palestina, Viver na Intifada” e “Por Uma Vida Normal - Guerra e Paz na Jugoslávia”) e participar com capítulos noutros, de ser galardoado com o Prémio Reportagem Rádio, do Clube Português de Imprensa, com o trabalho “Jugoslávia, Cicatrizes para o Futuro”, de participar num álbum de apoio ao Johnny Guitar, mantendo sempre a sua dedicação à rádio (7FM, Press, RDP e TSF). O orgulhosamente portuense Ricardo Alexandre Encarnação Sousa, conversou com a BICA nas instalações da TSF, rádio onde é director-adjunto, sobre uma vida dedicada a contar aos outros, histórias de guerras e de esperança, de mágoas e de redenção.

As recorrentes notícias sobre a morte da rádio têm sido manifestamente exageradas?

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A rádio é um meio com grande capacidade de resistência, de resiliência. Mas deixa-me começar por fazer um ponto prévio, um período antes da ordem do dia como se diz no parlamento (risos). Eu falo com todo o gosto para a BICA e para ti, em particular. Mas, se calhar, seria a pessoa menos indicada para falar em nome da TSF, ainda que faça parte da direcção, porque esta casa tem mais de trinta anos de história, e eu só estou cá há um ano e meio. Portanto, não seria, de todo, a pessoa mais indicada, se isto fosse uma entrevista sobre a TSF, em específico. Dito isto, sobre a morte da rádio... não sei. Acho que a morte da rádio foi anunciada várias vezes: quando apareceu a televisão; depois quando apareceu a televisão a cores; quando apareceu o vídeo; quando apareceu a internet; mas a verdade é que a rádio soube sempre reconfigurar-se e adaptar-se às transformações tecnológicas, às mutações na forma de comunicar, soube adaptar-se muito bem às mudanças de hábitos das pessoas. A rádio é uma excelente amiga, porque não nos exige exclusividade. É a antítese das relações monogâmicas (risos). A televisão exige, muito mais, uma relação monogâmica, uma quase

exclusividade - se não estivermos atentos a ver, perdemos, embora muitos de nós façamos da televisão uma espécie de rádio, vamos tratar da nossa vida para outra divisão da casa e fica a televisão a funcionar como se fosse uma rádio. Até nisso a rádio vale. Eu, nos anos em que estive a trabalhar na televisão, admito que ouvi menos rádio, mas usava os canais de notícias como se fossem uma rádio. Aquilo ficava ligado em altos berros, eu ia tomar banho, fazer a barba, vestir-me, tratar da criança... e funcionava como se fosse a rádio. A forma como hoje a rádio é consumida, pelo modo como a internet se massificou, prova também a sua vitalidade. Tradicionalmente, e eu acredito que ainda assim seja, até porque a publicidade assim o reflecte, ou melhor, a pouca publicidade na rádio assim o reflecte, a força da rádio estava nos chamados períodos de drive in e drive out, isto é, nos horários matinais e nos horários de fim de tarde, quando as pessoas estavam nos carros. A rádio continua a valer muito por isso, mas também começa a valer, cada vez mais, fora desses períodos. Aquele fosso enorme entre a manhã e o fim de tarde, hoje em dia, esbateu-se. As manhãs e os finais de dia passaram a ser apenas uns períodos de pico e o resto do dia já mantém uma audiência mais consolidada e não estou a falar da TSF, estou a falar da rádio em geral. As pessoas, cada vez mais, têm formas de ouvir o que querem sem perturbar o parceiro do lado, durante os períodos em que estão a trabalhar. Muita gente continua a ouvir rádio nos escritórios, nos sítios onde trabalha, com auscultadores, da forma mais discreta possível, e isso acabou por se reflectir nos estudos de audiência das rádios. Por outro lado, e apesar de Lisboa e Porto ainda terem problemas muito complicados de acessibilidades, as pessoas conseguem chegar rapidamente a casa, e ao chegarem rapidamente a casa, o drive out da rádio encolheu um pouco. Hoje, muita gente já chega a casa às sete horas e já não está a ouvir rádio, liga a televisão. A noite é cada vez menos da rádio e cada vez mais das televisões com a enorme diversidade de oferta que existe, e não estou a pensar nos canais tradicionais e nem sequer no cabo, mas em todas as plataformas que existem. Isso também se reflecte na forma como a rádio é consumida. Representa uma excelente oportunidade que acho que a TSF tem liderado, pela enorme quantidade de produtos que oferece em podcast. O podcast é cada vez mais um instrumento que demonstra a vitalidade das rádios. No caso da TSF, temos cerca de cem produtos diferentes em podcasts, o que representa uma oferta brutal.

Curiosamente o podcast acaba por ser um regresso, e corrige-me se estiver errado, a uma certa forma de fazer rádio que remete para o programa de autor. Pode ser. Depende de como se encara, ... mas sim, acho que sim. Acho que todos nós, que gos-


tamos de rádio, e eu gosto muito de rádio, pensamos sempre em muitas coisas diferentes para fazer. Depois entram outras questões, sobretudo a falta de tempo para fazer tudo aquilo em que pensamos. Mas sim, claramente sim. Acho que o podcast pode remeter mais para essa rádio que, de alguma forma, se foi perdendo ...

Claro, mas o Fórum é quase... brilhante.

… mas que ainda é a grande referência. Quando pensamos em rádio, quando pensamos no impacto que a rádio teve, no caso português em particular, associamos sempre a vozes, a caras, a programas de autor.

Não achas que é um programa atractivo para um investidor publicitário?

O que não acontece nas rádios de informação, ou mais vocacionadas para a informação, como a TSF, a Antena 1 e a Renascença. Atenção que a Antena 1 e a Renascença não são rádios de notícias. Têm um peso forte de informação, mas não são rádios informativas, ainda que as pessoas que lá trabalham na informação, eu incluído que, durante muito tempo, trabalhei na Antena 1, tivéssemos gostado que assim fosse. No caso da Antena 1, há, sempre, a necessidade de compromissos, fruto das obrigações de serviço público que a rádio tem.

Institucionais? Institucionais.

E políticos? E internos e endogâmicos. Não diria políticos. Tem necessidade de respeitar, ou tem querido respeitar, ou a tutela tem querido que a rádio respeite, equilíbrios internos. Seja qual for a razão, não é uma rádio informativa. A única rádio de notícias do país é esta! E é a única rádio do país verdadeiramente independente, sendo é um projecto quase singular em termos europeus. Não há rádios privadas europeias de notícias. Há projectos que nasceram com uma vocação para as notícias que, entretanto, se perderam. Mas uma rádio, há 30 anos a fazer notícias, e a viver de notícias, só há esta. Com as dificuldades que isso traz. Porque as notícias não são uma coisa atraente para o mercado publicitário. Isto seria muito mais fácil se puséssemos quatro pessoas aos guinchos e três às gargalhadas. Aí, teríamos, certamente, muitos hipermercados interessados em patrocinar.

No entanto, têm um dos programas mais antigos da rádio, o Fórum.

Um exercício de democracia brilhantemente moderado pelo Manuel Acácio. Faz parte do ADN desta rádio.

Acho que são todos atractivos. Venham eles, venham todos (risos). Agora, não é aquilo que se possa chamar de trend. Eu nunca geri uma rádio de entretenimento, embora tenha acompanhado de perto. Estive por dentro de alguns processos, e percebi como as coisas funcionavam, mas nunca estive verdadeiramente com as mãos na massa. Não faço ideia do que é gerir uma Comercial, uma RFM. São outras realidades.

Porque é que escolheste a rádio? Porque escolhi a rádio? Poderia dizer que foi a rádio que me escolheu a mim. Mas não seria verdade (risos). Eu tinha começado há relativamente pouco tempo, estamos a falar de 1985/1986, a ir ver concertos dos Xutos, tinha 15,16 anos, e um dia estava em casa, e um amigo meu com quem ia ver os concertos, que tinha, umas semanas antes começado a trabalhar numa rádio local no Porto, bateu-me à porta de casa, num sábado à hora de almoço, e perguntou: “Queres ir fazer um programa de rádio?”, e eu respondi: “Mas vou fazer um programa de rádio, porquê?” “Porque o gajo que falta chama-se Ricardo”, disse. Sinceramente, na altura, não ponderei muito bem sobre a irracionalidade do argumento, mas aceitei. “Está bem. Já almocei. Vamos.” (Gargalhada). Foi só assim. Comecei a trabalhar em rádios locais...

… ainda piratas, imagino. Ainda piratas. Quase sempre em programas de música moderna portuguesa e depois, em ‘89, fiz um curso de radiojornalismo, coordenado pelo saudoso mestre António Jorge Branco, com outros grandes professores, desde logo, o Adelino Gomes, desde logo, que dava o primeiro módulo do curso, o Manuel António Pina, uma data de gente a quem, agora, até faz sentido prestar homenagem, porque já não estão entre nós. O Professor Paquete de Oliveira, que dava “Sociologia de Audiovisuais”, o Celestino Amaral que dava “Grande Reportagem”. Uma série de pessoas, que infelizmente, já partiram.

E que te marcaram. E que me ensinaram bastante… que me ensinaram bastante. Nós tínhamos um grupo muito coeso, graças ao espírito de equipa que o António Jorge Branco soube criar e vivíamos aquilo

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Sim, não podia estar mais de acordo. Muito daquilo que a rádio é, e daquilo que a rádio vale, deve-o a programas que têm uma marca forte dos seus autores, das pessoas que os fazem. Sendo que, jogando contra isso, está uma determinada forma de fazer rádio, muito centrada em playlists fechadas…

Um exercício de democracia…


com um espírito crítico muito forte. Estávamos lá de manhã à noite, no CFJ (Centro de Formação de Jornalistas do Porto). O António Jorge Branco pôs-nos a trabalhar em registo simulador, portanto, estávamos a funcionar como se fôssemos uma rádio a sério, das 7h da manhã às 8h da noite. Às 8h da noite íamos jantar e íamos todos para os copos e, depois, já era tarde demais para ir para casa (risos).

Há gravações? Eu tenho momentos desse curso. Há muita gente que está aí no mercado, na RTP, no Público, na Visão, uma data de gente que continua a trabalhar em jornalismo. Éramos 17 e acho que mais de metade ou cerca de metade continua na profissão, o que tendo em conta que se passaram trinta anos, é notável. Precisamos de fazer um jantar comemorativo disso. Quando acabámos o curso, nesse mês de Dezembro de ‘89, achávamos que éramos os melhores jornalistas do mundo, e já ninguém nos ia parar (risos). Ingénuos! Tínhamos tanto para aprender, cometíamos tantos erros...

Quando acabaste o curso foste trabalhar para onde?

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Para uma rádio local, na Maia, a 7FM. Depois, para a Rádio Press. A Rádio Press era uma rádio a quem fora atribuída a frequência regional do Norte. Portanto, dividia com a Correio da Manhã Rádio, o país. Depois, vim trabalhar para Lisboa. E, depois aconteceram duas coisas, que por acaso acho que nunca contei e que posso contar. Quando a Rádio Press, a partir de uma determinada altura se decidiu mudar para Lisboa, era o editor da manhã, e tinha mais três pessoas na minha equipa. Um dia, tivemos uma acção de formação, com um formador que era jornalista da RDP, o Carlos Madeira, de quem vim a ser companheiro de redacção. O Carlos Madeira estava a dar a formação fora do nosso horário de trabalho, mas eu com os meus 21 aninhos, tive a lata de lhe dizer: “O senhor devia era vir acompanhar o nosso trabalho de manhã, às seis da manhã, quando começamos a trabalhar”. E ele foi. Marcou o dia, e foi. Aconteceu que, nessa manhã, as outras três pessoas da minha equipa adormeceram, e ninguém apareceu. E, portanto, eu fiz noticiários de horas, de meias horas, revista de imprensa, síntese de desporto, fiz tudo. Sozinho. E o homem ficou impressionado. Correu-me bastante bem. Uns tempos depois, nessa mesma equipa de quatro pessoas, adormecemos três e um dos três fui eu. E o que ficou, que cumpriu o seu dever profissional, era a pessoa com menos experiência de rádio, era uma pessoa que vinha dos jornais, aliás, continuava a trabalhar nos jornais, aquilo era mais ou menos uma espécie de part-time. E a coisa correu muito mal. Passados dias foi-nos comunicado que os nossos contratos não iriam ser renovados (risos).

Eu tive sempre um percurso estranho. Estava a trabalhar em Lisboa, mas estava a fazer o curso de Sociologia na Universidade do Porto. Aproveitei que tinha uns exames, umas frequências, fui para cima e não disse nada à minha mãe, disse só que estava no Porto para fazer uns exames, e quando vim, lembrei-me de ir bater à porta da Rua do Quelhas, onde ficava a RDP, e pedi para falar com esse jornalista que nos tinha dado a formação.

O Carlos Madeira. O Carlos Madeira. Recebeu-me um bocado à pressa, estava a preparar-se para apresentar o RDP Regiões estava atrapalhado, e disse: “Eh pá, agora não tenho muito tempo para falar contigo, mas manda o teu currículo que eu falo com o director, porque sei que ele está à procura de gente nova”. E assim foi. Entrei para a RDP. Onde acabei por ficar vinte e cinco anos, sendo que na Rádio Press já era editor e subchefe de redacção e tive de aceitar ser jornalista estagiário do primeiro ano. Mas, pronto, é a vida, não é? (Risos). O engraçado disto tudo é que na noite em que eu prevariquei e que me fez adormecer e não ir trabalhar no dia seguinte, foi uma noite que ficou registada, porque eu estava na sala de ensaios dos Sitiados onde foi gravado um tema para uma colectânea de apoio ao Johnny Guitar, o bar do Zé Pedro, do Kalú e do Alex Cortez. E estando lá, participei numa música, a “Marcha dos Electrodomésticos” que é uma versão que o João Aguardela brilhantemente fez do tema “A minha sogra é um Boi” dos Mata Ratos, e onde eu, no final, relincho, faço de cavalo (risos). É a minha única participação musical num CD, que fica ligada à não renovação do contrato que, por sua vez, fica ligada à entrada na RDP.

Quem foram os teus grandes mestres da rádio? O António Jorge Branco, acima de todos. O Adelino Gomes, por aquilo que significa para toda a gente que faz rádio e que faz jornalismo em Portugal. O David Borges que é um excelente director. O Luís Ochôa, pelas oportunidades que me deu. Também já não está entre nós, infelizmente. O Francisco Sena Santos, porque não há ninguém com a capacidade que ele tem para motivar aqueles que trabalham perto dele. Absolutamente extraordinário. Ele era director adjunto e editava as manhãs da Antena 1. Eu editava à noite, e ele ouvia-me à meia-noite todos os dias. Eu duvidava. Dizia-lhe: “Não ouviste nada. Estás a dar palmadinhas nas costas e a dizer que foi espectacular, mas não ouviste nada”; e ele começava a dar pormenores daquilo que tinha ouvido, o que achava que tinha funcionado melhor e o que tinha funcionado menos bem. O Sena é... é absolutamente genial. É das pessoas que mais falta faz na rádio. Depois, há um conjunto de pessoas, umas estão aqui hoje e outras não


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estão, que me habituei a ouvir nesta rádio, e que também foram um dos motivos que me fizeram aceitar este desafio. Há uma série de coisas absolutamente fantásticas que foram feitas na rádio, que foram feitas aqui, pelo João Paulo Guerra, pelo Fernando Alves, que ainda está cá hoje, por uma série de outros jornalistas e isso pesou na decisão de poder abraçar um desafio novo ao fim de 25 anos de empresa pública.

Como está a correr esse desafio? Está a ser estimulante. Conseguir melhores meios, conseguir reforçar a área do internacional para posicionar melhor a TSF, acho que esse trabalho tem sido feito. Não digo que consegui fazer tudo o que queria, mas a TSF, hoje, tem quase o dobro dos correspondentes internacionais que tinha quando eu entrei. Consegui, numa janela de oportunidade que surgiu, que algumas pessoas pudessem ser convidadas a colaborar com a TSF. Não pagamos colaborações de forma principesca, mas como as pessoas respeitam muito esta marca, aceitaram. É uma marca muito forte em termos de jornalismo em Portugal e as pessoas, quer estejam cá ou fora do país, que conhecem a realidade do panorama da comunicação social em Portugal, percebem que para a sua valorização profissional, passar pela TSF ou colaborar com a TSF é muito importante para um currículo. Por isso, está a ser bastante bom. Depois, também queria trabalhar com algumas pessoas que me são muito próximas e que estão na direcção comigo. Desde logo, o meu director, o Arsénio Reis, o Pedro Pinheiro que é director adjunto, o Anselmo Crespo, que eu não conhecia, mas com quem tem sido bastante estimulante trabalhar.

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Quais são os desafios que se colocam ao futuro da rádio? Aquilo que distingue a TSF de qualquer outro projecto jornalístico em Portugal é que a TSF tem duas características que, cumulativamente, não existem em mais lado nenhum. Esta é uma rádio só de notícias e esta é uma rádio plural, não é um projecto político. Aqui há comentadores de direita, há comentadores de esquerda e há comentadores de centro, e a opinião faz-se com todos e queremos que assim continue. Aqui, temos um accionista angolano e continuamos a dar notícias de Angola sejam elas quais forem, feitas com rigor, feitas com sentido crítico, feitas com deontologia. Aqui, há um investidor chinês e nós continuamos a dar notícias da China, falamos dos protestos de Hong Kong e apostamos em fazer a melhor cobertura possível desses assuntos. Não sei se há esse tipo de independência em relação a outros tipos de poderes em outros projectos jornalísticos que se assumem como projectos de notícias. A pluralidade, a independência e a credibilidade são o grande património da TSF. Por isso, se me perguntas qual o futuro da rádio, eu diria que num projecto de rádio de notícias, a manutenção destes três pilares é essencial.

Chegaste à TSF num ano com três eleições muito impactantes no país: as eleições presidenciais brasileiras, as europeias e as legislativas. O acompanhamento jornalístico das eleições mudou muito? Mudou, porque existe um peso do online, obviamente, diferente. Aliás, o grande investimento nesta redacção, tem sido no reforço da equipa online, com resultados muito interessantes, muito interessantes mesmo. Tivemos meses seguidos com mais de um milhão de visitas ao site o que é bastante bom. Fomo-nos posicionando em lugares cimeiros nos sites de informação mais vistos. Sendo que a TSF é uma rádio. Tivemos esse dilema, de apostarmos num site de informação ou num site de rádio, ou seja, de apostarmos num site que produzisse informação ou que fosse apenas um repositório daquilo que a rádio faz na antena. O que estamos a tentar fazer é produzir um site de informação. Obviamente que sites que nascem como projectos de sites de notícias, como foi o caso do Observador, e nesse aspecto é um projecto altamente bem conseguido, ou sites de notícias que pertencem a jornais, são mais fáceis de fazer, pelo simples facto das pessoas estarem mais treinadas para escrever textos. Um jornal, quando fecha a sua edição impressa, tem dezenas de textos que podem ser aproveitados, que são diariamente aproveitados para a sua edição online. Podemos dizer que a linguagem não é a mesma, que obriga a refazer coisas, claro que sim, mas a base está lá. Na rádio, obviamente, isso não acontece, o que obrigou os jornalistas da rádio a terem outro tipo de preocupações, a escreverem de outra forma, a tentarem gerir o seu tempo de outra forma, porque sabem que, muitas vezes, aliás, cada vez mais, têm de fazer a história para a rádio e têm de fazer a história para o site. Depois põe-se a questão do que é prioritário. É a antena ou é o site? É evidente que, tradicionalmente, o que conta é a rádio, não é? Afinal de contas, isto é uma rádio, mas se analisarmos melhor, a maior parte dos, não gosto nada deste termo, mas não me ocorre outro melhor, consumidores desta marca já estão mais online do que na antena e isso obriga a reconfigurar a linguagem. Nós crescemos num ambiente em que nos diziam que a rádio conta, a televisão mostra e o jornal explica. Também ouvíamos dizer, principalmente aqueles que trabalhavam na rádio, que temos de explicar, contar tudo muito bem e em poucas palavras e da forma mais clara possível porque as pessoas ouvem uma vez e já não podem voltar a ouvir. É mentira. Hoje, isso é mentira. Hoje as pessoas, e cada vez mais vai ser assim, ouvem e param e voltam atrás para ouvir melhor. Por isso, até que ponto a nossa linguagem não deve reflectir isso? Até que ponto não devemos escrever de forma diferente, eventualmente usando uma linguagem mais elaborada? Não tenho ideias fechadas em relação a esta questão. A verdade é que hoje em dia a rádio mostra, a rádio conta, a televisão mostra e está a contar o tempo todo. Já ninguém


Qual foi a história mais rocambolesca que te aconteceu ao longo destes trinta anos de jornalismo? Aconteceram-me muitas, mas vou contar algumas histórias marcantes, mais relacionadas com viagens e coberturas internacionais e no final uma gafe (risos). Um dia estava na Bósnia, com um conjunto de jornalistas portugueses, a Isabel Magalhães e o Hélder Oliveira, da RTP, mais uma pessoa que trabalhava aqui na TSF, na altura, e que já não está. Estávamos com um subchefe da polícia portuguesa que nos disse que conseguia organizar uma entrevista com Momcilo Krajisnik, que era o Presidente da Assembleia Nacional da República Sérvia da Bósnia. “Se vocês quiserem falar com ele, eu consigo-vos uma entrevista, porque salvei o irmão dele de ser preso, aqui, em Sarajevo, portanto, se vocês quiserem eu levo-vos lá. “O tipo era só a segunda figura mais importante a seguir ao Radovan Karadzic do lado dos sérvios bósnios e os jornalistas ocidentais raramente iam ao outro lado, nessa altura, ficavam todos a assistir ao briefing que as agências da comunidade internacional faziam. Aceitámos imediatamente e ele levou-nos lá. Esperámos um bocado, veio o tal irmão, agradeceu ao polícia português, recebeu-nos bem e informou-nos que Momcilo Krajisnik já nos iria receber. Recebeu-nos e durante a entrevista disse-lhe: “O senhor revela tanta confiança em relação ao futuro da República Sérvia da Bósnia, no entanto, como é que isso é possível, quando o senhor e o Presidente Karadzic já foram indiciados por genocídio e crimes contra a humanidade pelo Tribunal Internacional de Haia?” Ele respondeu dizendo: “Dou-lhe a minha opinião, mas em relação ao Presidente Karadzic, tem de lhe perguntar a ele. Ele está cá e terá o máximo gosto em receber-vos”. Por isso, entrevistei o Radovan Karadzic assim. Não foi nada programado ou tentado durante meses, foi assim. Aconteceu assim. Estivemos mais duas horas à espera que o homem acabasse as reuniões dele e entrevistámo-lo durante 20 ou 25 minutos. No Rio de Janeiro, o Francisco Sena Santos deu-me a oportunidade de fazer um dos trabalhos mais extraordinários da minha vida. Foi em 2000, quando se comemoraram os 500 anos do Acha-

mento, ou da Descoberta do Brasil. As comemorações iam ser assinaladas pelo Presidente Sampaio, em Abril, e eu fui em Fevereiro com o objectivo de viajar um mês pelo Brasil utilizando o menos possível o avião. A ideia surgiu daquele filme Central do Brasil, com a Fernanda Montenegro, e implicava fazer a maior parte das deslocações de ônibus, de autocarro. Mas, ao chegar ao Rio de Janeiro, ainda antes de ir ver onde era a Central do Brasil, pouco depois de me ter instalado, estava no hotel e comecei a pensar em quem seria a pessoa, no Brasil, que eu gostava de entrevistar. E pensei no Oscar Niemeyer. Fui à lista telefónica e encontrei um número de um Ocar Niemeyer na Avenida Atlântica. Liguei e ele atendeu. Isto hoje era impossível. Hoje teria de se passar por agências de comunicação, assessores de imprensa… Ele atendeu e passado umas horas eu estava a entrevistar o Oscar Niemeyer na sua casa na Avenida Atlântica. Uma das mais incríveis entrevistas que fiz. Em Timor Leste, com mais alguns jornalistas, o Hernâni Carvalho, que hoje não trabalha como jornalista, mas como apresentador, digamos assim, e outros jornalistas, aventurámos-nos a ir para o lado de Timor Indonésio, Timor Ocidental. Tínhamos conseguido um visto para poder estar no lado de Timor Indonésio, portanto, fiquei muito irritado com o Hernâni que insistiu em fazer o caminho pelas montanhas, em vez de irmos pelas estradas normais. Íamos perder imenso tempo entre Cupangue, aonde íamos aterrar, e Atambua, onde estavam as milícias de Eurico Guterres. Fomos de Dili para Cupangue num voo do Programa Alimentar Mundial e tínhamos de fazer todo o território de Timor Ocidental em direcção, outra vez, a Timor Leste. Ora, existia uma estrada normal, não que fosse muito boa, mas era uma estrada normal, uma via rápida, digamos assim, mas o Hernâni quis ir pelas montanhas. Quatro marmanjos, aliás, cinco com o motorista, numa carripana, íamos demorar dias, íamos ter que dormir no carro, etc., e eu não via necessidade disso e lá fui dizendo “isto é uma estupidez, é um erro, nós temos visto, não precisamos de ter medo, etc., etc.” A verdade é que fomos pelas montanhas e o carro avariou no meio de nenhures. E eu mais fulo da vida fiquei. De repente, chega, numa motoreta, um tipo de camuflado e calças de fato de treino cor de rosa. Que combinação! Hoje poderia ser...

… um reggaeton. Isso, um reggaeton (risos). Era uma figura. Um homem de bigode, uma barbicha... era um timorense que estava num campo de refugiados, gerido por um padre americano, que, ao contrário de quase todos os outros por onde tínhamos passado, não tinha recebido sequer uma visita de uma agência internacional, não tinha tido apoios. Era uma história maravilhosa. Claro que o Hernâni ficou radiante da vida e depois repetia uma frase que o motorista e tradutor nos dizia

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espera pelas oito da noite para ouvir notícias. Já não é preciso. Os jornais já não esperam pelo dia seguinte, pela edição impressa, para contar e analisar e explicar. A internet modificou tudo e obrigou-nos, a todos, a fazer de tudo um pouco. Na TSF também já fazemos vídeos, já temos uma pequena equipa, gostávamos que fosse maior, mas temos uma pequena equipa a trabalhar o vídeo. Também estamos a melhorar a nossa rede de correspondentes nacionais, quando quem mais tem obrigação de o fazer foi desinvestindo ao longo dos últimos vinte anos.


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muitas vezes durante a viagem: “tem de ter confiança no parceiro”. (Gargalhada) Foi uma história engraçada. Esses anos entre 1999 e 2001 foram anos espectaculares e de que guardo as histórias mais rocambolescas. Em 2001, na Primavera, estive em duas frentes de combate. Na Faixa de Gaza, na zona de Khan Yunis, no Sul, fui a um campo de refugiados que ficava junto a um colonato. Estava eu e um repórter de uma televisão egípcia a entrevistar uma família de refugiados junto a uma tenda e fomos alvejados a partir dos colonatos. Acho que foi só para assustar, porque era tão perto que, se quisessem matar mesmo, tinham matado. Mas deu para assustar… deu para assustar. A segunda foi no sul da Sérvia, no Vale de Presevo, uma zona em que havia um exército albanês que queria a separação do território, como acontecera no Kosovo. Ainda hoje é uma zona complicada, de maioria albanesa. Eu tinha ido com uma patrulha policial militar sérvia a uma zona da linha da frente e ia com uma assessora do centro de imprensa daquela terriola e ela disse-me:“Eles estão a dizer que quando pararem o jipe vamos ficar em frente daquela casa. Mas o jipe não pode ir até lá, tem de ficar a pelo menos 200 metros e quando pararmos, tens de correr porque eles aqui disparam sempre.” O bom do tuga pensou “ai disparam sempre! Podem disparar ou não disparar”. Saímos e eles dispararam mesmo. Depois vimos os buracos que os disparos tinham provocado nas paredes da casa e foi um susto. Foi dos maiores sustos que apanhei na vida. Foi a coisa mais estúpida, mais irresponsável que fiz.

mine, you give me that, and I’ll give you this”. Isto, com a maior frieza do mundo. Todos a olhar e o rapaz deu-me o microfone e eu devolvi-lhe a kalashnikov. Aquilo correu bem, mas podia ter corrido tão mal, podia ter corrido tão mal… Porque é que eu não o deixei ficar a brincar com o microfone o tempo que quisesse, não é? Mas o microfone é a nossa arma e na nossa arma não podem mexer, ponto.

E a gafe? A gafe é outra história. Estava nos estúdios da Antena 1, no Porto, a fazer noticiário à noite e a produtora ou secretária da redacção, como na altura se chamava, diz-me pelo intercomunicador que um avião no aeroporto de Santa Catarina, no Funchal, tinha sido forçado a regressar à pista por causa de um problema qualquer e que ia um repórter a caminho. Dou a notícia nos títulos de abertura do jornal como notícia de última hora a que voltaria mais adiante. Seguiu o noticiário normalmente. E ela entra no estúdio e põe-me um papel em cima. Eu olho e leio “José Manuel Delgado” e digo: “Voltamos à notícia de abertura deste jornal, ao caso do avião forçado a aterrar de emergência no aeroporto de Santa Catarina, no Funchal. Em directo o repórter José Manuel Delgado”… silêncio. “Estamos a tentar o contacto com o José Manuel Delgado…”. Silêncio. De repente, há uma voz que diz “Boa noite o meu nome é José Manuel e sou delegado da TAP e sou delegado da TAP na Madeira.” (Gargalhada). Todo o resto do noticiário foi de uma dificuldade tremenda para não rir.

De outra vez, estava com o Paulo Maio Gomes, um repórter de imagem da RTP, meu grande amigo, no Afeganistão, em 2001, e fomos a uma zona onde ainda havia combate das tropas da Aliança do Norte contra os talibãs e estávamos no lado das tropas da Aliança do Norte e aquilo parecia quase uma guerra do Solnado, o que é típico no fim dos conflitos armados. Nós fomos de táxi.

(Risos). Isso mesmo. Saímos do hotel, de táxi, para o sítio X. Estavam lá outras equipas de televisão e uns tipos a disparar de um lado para o outro. O perigo era esse. Estamos no meio de uns soldados, eu com um microfone da RTP na mão e um dos guerrilheiros da Aliança do Norte, um rapaz com a arma a tiracolo, tira-me o microfone e eu, instintivamente, tirei-lhe a arma. Os outros, automaticamente, apontaram as armas para mim, gerou-se um stress brutal, o Paulo Maio Gomes insultava-me de tudo, à moda do Porto, de onde somos ambos, e eu, muito calmamente, disse ao rapaz: “That´s mine, that´s

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Parece mesmo a guerra do Solnado. Entraram no táxi e disseram: “Leve-nos à guerra.”


Falar baixo para ser ouvido

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por Pedro Santos Guerreiro

Não basta querer, é preciso crer. Crer no que se comunica, acreditar intimamente no que se pretende revelar para só assim conseguir emprestar a força que, sem adornos, um gesto inconsciente denuncia. Até para comunicar uma mentira é preciso uma convicção nela. Tudo o mais é slogan, talvez eficaz como seta disparada aos crédulos, mas descarnado, mas desalmado, mas desencantado. A perdição de “comunicar bem” está em subjugar o núcleo à superfície. Em cambiar a verdade pela verosimilhança. Em desejar a impressão em vez da expressão.

Comunicar não é sobretudo um “como”, é essencialmente um “quê”. Em cada um dos milhões de poemas que já foram escritos para dizer “amo-te” há um arrobo particular. Em cada discurso político de convocatória há um apelo a um povo. Em cada música, em cada tela de pintura, em cada forma de dançar ou há uma essência de descoberta e exposição íntima ou há só a forma exterior de um oco. Assim é até quando querer dizer é apenas querer vender: uma má comunicação mata uma boa ideia ou um bom produto, mas uma boa comunicação não salva uma


má ideia ou um mau produto. Por um discernimento simples: quem ouve pressente a falsidade. E se a pressente, não a deixa impregnar-se na pele. A água embate no tecido mas não o molha. Uma mentira tem perna longa, pode passear por todas as searas do mundo, mas a falsidade desmascara-se a si própria, não tem lâmina para segar trigo. Não são subtilezas de linguagem: mentira e falsidade não são sinónimos, como o não são verdade e realidade, e umas não são necessariamente antónimos das outras. Comecemos pela mentira e pela falsidade, para acabarmos, se não em beleza, pelo menos com a beleza. Esta vida a que chamamos moderna coloca-nos num falso centro de comunicação, falso porque não somos centro de nada, somos terminações mais ou menos nervosas de uma dispersão caótica de propostas e assédios. Não somos observados como pessoas com identidade própria, mas como linhas em bases de dados com perfis de gostos e de consumos; somos metralhados por propostas para resolver problemas que não temos, para lermos o que não sabíamos que queríamos ler, para partilharmos dados que serão metadados, e tudo nos entra sem bater à porta que alegremente abrimos, veja as melhores séries aqui, leia dois livros por dia aqui, melhore o seu sono aqui, emagreça, deixe de fumar, ganhe abdominais de sonho, saiba em quem votar, odeie-os aqui, adore-se aqui, deixe de sentir-se só, encontre o amor da sua vida, faça sexo, não rebente com os miolos, descubra o segredo da vida, seja feliz aqui, aqui, aqui e aqui e aqui e aqui, somos peixes entre milhões de anzóis que usam o “comunicar bem” como pesca do que active em nós um instinto, uma memória, um medo, uma ânsia que nos faça ir lá, isto é, aqui.

nós os produtores, aqueles que comunicam, aqueles que entre o silêncio e o grito querem ser ouvidos? Imitar as técnicas dos manipuladores profissionais é comprar balas para uma arma de que não se dispõe. Aliás: queremos usar armas da perfídia? É uma questão ética. É uma escolha. Muitos fotógrafos profissionais dizem que, num retrato, o sorriso esconde mais do que revela, pelo que pedem aos retratados para não sorrirem. Percebe-se porquê: o sorriso natural e o sorriso mascarado usam músculos diferentes da cara para procurarem o mesmo efeito. Da mesma forma, a comunicação pode tentar alindar ou sintetizar para perseguir uma eficácia, a eficácia de a mensagem chegar clara, convincente, ser apreendida, até retida. Mas todas as formulações só conseguirão “comunicar bem” se corresponderem não à imagem que se pretende, mas à identidade íntima e real do que se pretende comunicar. As frases mais belas e as imagens mais fortes são as que revelam, não as que mascaram. Um jornalista tem de procurar as linhas fugidias da verdade antes de escrever. Um poeta adentra-se antes de se adestrar em palavras. Um artista anuncia o futuro porque o reconhece antes do amanhecer. E um director de marketing precisa de acreditar nos “atributos” do produto. Tudo é então comunicação: mostrar o que afinal é um “conhece-te a ti próprio”. E as palavras e as não-palavras desenrolam-se com a fácil velocidade de um tapete. Como disse Almada Negreiros no fim da sua vida, ele que escreveu prosa, poesia e teatro, que encenou e dançou, que pintou, desenhou e ilustrou, “durante toda a minha vida, não fiz outra coisa que não fosse comunicar.”

Assim se constroem realidades com o que podem não ser verdades. Mas e se somos

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O comércio lidera a venda aos peixes, a comunicação política põe venda às ovelhas, a construção de mitos e a destruição de reputações ensaia-se em laboratórios que conhecem a disponibilidade colectiva para a conspiração. É uma manipulação em larga escala para a qual só há um antídoto, a da informação, conhecimento e pensamento próprio. O antídoto dá trabalho, o de recusar o fast food saturado de tempero mas não de temperança; e exige até coragem, a de contrariar maiorias furiosamente sedentas de novas radicalidades. Não há outra forma de decidir bem que não seja pela própria cabeça. Para isso, é preciso parar no tempo que jorra lá fora. “Ser forte é parar quieto; permanecer”, disse Guimarães Rosa.


Descomunicação por André Serpa Soares

A descomunicar nos desentendemos. A palavra não existe. “Descomunicar”. “Descomunicação”. Os dicionários não contemplam tais expressões. Não fazem parte da língua portuguesa. Mas será que ainda existe efectiva comunicação? Todos, cada vez mais, dizemos “coisas”. Com os telemóveis, além de dizermos coisas, podemos fazê-lo a qualquer hora, em qualquer lugar. O Homem moderno esta disponível 24 horas sobre 24 horas para comunicar. Sempre ligado. Além desse factor de disponibilidade propiciado pelas “novas” tecnologias, temos ainda o desenvolvimento de plataformas de comunicação como nunca houve. Quase perfeitas, constituem também a tribuna ideal para proclamações urbi et orbi, à cidade e ao Universo, com um poder de viralização que nos pode levar num ápice de Castro Laboreiro (uma das aldeias mais remotas de Portugal, que é aqui utilizada apenas como imagem, como exemplo) para todo o globo. A juntar a tudo isto, temos a parafernália dos meios de comunicação social e a vertigem em que as notícias e os jornalistas hoje vivem. Rádios, televisões, online, mesmo os meios mais tradicionais, em papel, deixam-se enredar num frenesim que não é compatível com o tempo necessário ao pensamento e à reflexão. Tem de ser tudo imediato, instantâneo, como no twitter ou no Instagram. Não há tempo a perder. Estamos submersos em excesso de informação, em excesso de palavras, de imagens, de sons. Tudo procura apelar à nossa reacção.

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No entanto, nada parece escutar-nos.

Está tudo tão preocupado e ocupado em produzir e divulgar o seu próprio genial contributo, em transmitir a sua própria e deslumbrante persona, que poucos conseguem, verdadeiramente, ouvir o outro. E, sem ouvir o outro, não há comunicação. Há, isso sim, essa outra coisa, a que aqui chamo “descomunicação”, sem qualquer pretensão de originalidade, mas também sem consciência de plágio deliberado seja de quem for. Descomunicar é, paradoxalmente, a actividade vulgarizada por aquilo que poderia ser a sociedade da comunicação por excelência. Nunca houve tanta disponibilidade para comunicar. Nunca houve plataformas de comunicação com a capacidade e o alcance que as redes sociais hoje detêm. Nunca houve tanta gente a querer dizer coisas. A questão é que, no meio de tanto ruído, já ninguém ouve. Já ninguém quer saber. Especializámo-nos em descomunicar e por isso cada vez entendemos menos. Menos dos outros, menos do mundo, menos de nós próprios.


O fim do mundo está a chegar! por Eduardo Sá

O mundo, tal como o conhecemos, acabou! Os nossos filhos já não leem jornais e não veem televisão. Hoje, serão seguidores (mais vezes do que seria o nosso desejo). As pessoas que gostaríamos que eles admirassem foram substituídas por influenciadores. Por mais que nós, os pais, ainda nos assustemos com “as más companhias”, “as más influências” que possam ter, eles, na verdade, trazem-nas no bolso. E limitamos-lhes as saídas e queremos saber quem é o seu grupo, por mais que lhes permitamos, sem controlo, que circulem pelos sites e pelas redes sociais mais diversas, criando perfis em idades em que não os deviam ter e “consumindo” alguns youtubers que jamais permitiríamos que fossem seus amigos. O mundo, tal como o conhecemos, acabou! No mundo dos pais continua-se a ser contra os desenhos animados violentos. Mas as crianças estão “mais à frente” e, com a nossa complacência, consomem, viciam-se e ficam “agarradas” ao Fortnite (ou a outros jogos), de manhã, à tarde, à noite... e de madrugada! O mundo, tal como o conhecemos, acabou! Agora, no mundo onde crescem os nossos filhos, procurase a notoriedade, a qualquer preço. E nós, os pais, contribuímos, vaidosamente, para isso (mais do que parece), como se, em relação a eles, “dar nas vistas” e “pensar pela sua cabeça” fosse, quase sempre, a mesma coisa. Neste “novo” mundo, é-se contra as drogas. Mas as crianças consomem-nas (como nunca). Para adormecerem, para terem apetite, para não estarem tristes ou para serem atentas. E confunde-se (muitas vezes!) felicidade com euforia e amor pela verdade com pessimismo. E prevalece uma ideia fácil de crescimento, que parece fazer da determinação, da perseverança, da paciência, da tenacidade, do arrojo e da garra produtos quase jurássicos. No mundo dos nossos filhos, o mundo do pós-guerra acabrunhou-se. O mundo dos valores da Humanidade. O mundo da cooperação e da solidariedade. E o mundo da mestiçagem e da inclusão. E eles têm, hoje, a noção que o mundo que lhes estamos a deixar é um mundo espremido de recursos. É um mundo perigoso e com o ambiente a colapsar. Um mundo de mais profundas desigualdades sociais. E é um “mundo doente mental”, que justifica as mudanças com argumentos inteligíveis e as promove com atentados à inteligência. Acho graça, portanto, que nos alarmemos quando os nossos filhos parecem apáticos e evitam pensar o futuro. Porque é que - ao contrário dos pais, quando eram adolescentes - os nossos filhos não se sentem desafiados por ele? Porque têm a noção que o futuro pode ser pior. E porque sentem e intuem que, faltando recursos e ideias para mudar o mundo, falta futuro para a saúde, para a educação, para a justiça e para os direitos sociais. Como podem amar o futuro se ele lhes parece um lugar inseguro e opaco? Como podem fazer de forma diferente se nós, em vez de conversarmos com eles e definirmos, escutando-os, aquilo em que estamos a trabalhar para o seu futuro, permanecemos alheados e em silêncio?

Artigo original publicado no site LeYa Educação (www.leyaeducacao.com)

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O mundo, tal como o conhecemos, acabou. Mas os nossos filhos são miúdos melhores! E estão ávidos de ter quem lhes fale verdade e de quem os desafie, em nome daquilo em que acreditam, a irem em peregrinação até ao futuro. É aqui que a escola pode rasgar o marasmo e dar, uma vez mais, “o exemplo”. Ensinando a estudar. Ensinando a escutar. Ensinando a argumentar, a interpelar, a discutir e a pensar. E não lhes roubando a alma, a audácia, o arrojo, o apreço e a bondade. É pela forma como se irá definir a escola, pensando o futuro, que o mundo - que, tal como o conhecemos, já morreu - pode renascer. Melhor! E que os professores podem, uma vez mais, contribuir para que o mundo mude! Por isso, os nossos filhos precisam que a escola os eduque e os ensine pensando mais longe. Para que, depois do “fim do mundo”, o mundo do futuro seja feito de pessoas melhores!


Júlio Machado Vaz

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O amor é… “um sorriso de mulher depois do amor”.


Bruno Esteves

Júlio Machado Vaz, o psiquiatra, psicoterapeuta, professor universitário, radialista e escritor, que, no final dos anos oitenta pôs o país a falar sobre sexo, tem consultório em Santo Ildefonso, num terceiro andar que em nada se assemelha ao imaginário dos consultórios psiquiátricos dos filmes de Hollywood. É nesse espaço decorado de forma clássica e austera que o mais famoso psiquiatra português recebe diariamente, já lá vão trinta e cinco anos, os portugueses que o procuram em busca de auxílio para as suas ansiedades, depressões e neuroses. Ele próprio, hipocondríaco confesso, também atravessou um processo depressivo, aos 28 anos, que o impediu de trabalhar. Nunca escondeu a depressão por que passou, apesar de avisado pelos colegas de que isso representaria um suicídio profissional, porque “nunca ninguém iria pedir ajuda a um psiquiatra que admitiu estar deprimido”. Na altura optou por ir fazer um estágio na Suíça, “uma fuga para a frente” como reconhece, que acabou por lhe abrir os horizontes para uma temática pouco em voga no nosso país e que acabaria por o tornar famoso - a sexologia. Júlio Guilherme Ferreira Machado Vaz nasceu no Porto, no Bonfim, no final da primeira metade do século passado. Bisneto de Bernardino Machado, o único Presidente da República destituído por duas vezes (por Sidónio Pais, em 1917 e pelo golpe militar que instituiu o Estado Novo, em 1926), filho da famosa cantora Maria Clara e do professor de bacteriologia Júlio Machado de Sousa Vaz, doutorou-se em Psicologia Médica no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, depois de uma licenciatura em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde foi aluno de seu pai. “Como as aulas teóricas não eram obrigatórias e as do meu pai eram às 8h30m da manhã, não punha lá os pés, e o meu pai sabia, porque saía para a faculdade e eu ficava em casa, calmamente. Sofreu um bocado na altura do exame. Por uma questão ética, não me ia examinar. Foi substituído por outros dois professores. Acabei por tirar 19 valores”, contou em entrevista ao jornalista Paulo Farinha, do DN. Da relação com o pai, “parcimonioso nos afectos”, guarda a imagem de um “amor envergonhado”, em muito compensado pela proximidade que mantinha com a mãe, Maria Clara. A ela, Júlio contava tudo, até os “desgostos de amor da adolescência”. “A minha mãe, com uma certa dose de “perversidade”, deu-me o extraordinário conselho que fez com que eu não desespe-

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por João Moreira


rasse em relação a uma das namoradas da adolescência. Eu achava que ela nunca olharia para mim e ia-me afastar, porque aquilo já me era doloroso. E a minha mãe, com uma enorme sageza disse-me: “Olha, vocês são amigos, não são? Então mantém-te próximo. As mulheres são especiais. Os homens podem ser bonitos, podem dançar bem” – era tudo aquilo que eu dizia que os outros tinham e eu não – “mas há sempre um ponto em que as mulheres descobrem que precisam de conseguir conversar com eles. E se tu te transformares no rapaz com quem ela está habituada a conversar, podes ter uma surpresa.” E acertou em cheio.” Com os filhos, João, doutorado em Filosofia e psicólogo de profissão, e Guilherme, arquitecto, mantém uma ligação quase umbilical e não esconde o orgulho que tem por cada um deles. “Quando penso na Casa da Arquitectura, ou na minha própria casa em Cantelães (projectadas pelo filho Guilherme) fico muito orgulhoso e cheio de inveja. Da primeira vez que vi na Amazon a tese do João, voltei a pensar o mesmo. “O meu filho mais novo tem um livro na Amazon.” Fiquei outra vez cheio de orgulho e com inveja.” Em 1989, Júlio Machado Vaz iniciou uma colaboração radiofónica na Rádio Nova, com o programa O Sexo dos Anjos, que o catapultaria aos ecrãs da televisão, transformando-o no mais conhecido psiquiatra português, com o programa Sexualidades. Ao longo dos últimos 30 anos, foi uma presença regular nas televisões e, sobretudo nas rádios, onde ainda mantém o programa O Amor é… com Inês Meneses, depois de parcerias com António Macedo e Ana Mesquita. Pelo meio escreveu mais de uma dezena de livros e manteve as consultas, que continua a dar ao ritmo de cerca de 15 por semana, sem intenção de parar. Reforma, só do ensino universitário, que pediu antecipadamente, por considerar que o “ambiente já não era saudável”.

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Quanto ao resto, como confessou a Anabela Mota Ribeiro a propósito de seu livro autobiográfico “O Tempo dos Espelhos”, publicado em 2006, “A minha vida não foi nem será um romance apaixonante para os outros, de tão banal. Mas continuará a ser vivida apaixonadamente, como merece”. Conversámos com Júlio Machado Vaz no seu Porto, “esplendorosamente cinzento”, sobre uma vida “que se fez assim, com as respectivas nódoas negras e medalhas”.

O que é que mudou na psiquiatria desde que o Sr. Professor começou a dar consultas? Em termos da clínica?

Em termos da clínica, em termos da aceitação por parte da sociedade da importância da psiquiatria, em termos da sexualidade dos portugueses… No fundo as coisas estão ligadas… Em termos da clínica, reflectindo a sociedade, estou a receber mais casais do que alguma vez recebi, o que traduz o facto dos homens virem com mais facilidade às consultas, tanto em casal, diga-se de passagem, como individualmente.

Desmitificou-se a ideia de que os problemas do foro mental e sexual eram algo que só as mulheres assumiam tratar? Desmitificou-se essa ideia, mas deixou de existir o preconceito contra a psiquiatria? Não. Deixou de existir o preconceito de género? Não. Quando eu comecei a fazer clínica quase só havia mulheres, porque os homens defendiam “nós temos de ser capazes de resolver os nossos problemas sozinhos, etc.”. Esses preconceitos desapareceram? Não. Mas atenuaram-se muito. Depois, também há aí reflexos da progressiva maior autonomia das mulheres. Hoje em dia, tanto em termos individuais, como em termos de casal, recebo homens que vêm às consultas, mas preferiam não vir, que vêm para salvar uma relação, que vêm porque a sua companheira, se estivermos a falar de heterossexuais, como é evidente, (embora também aconteça em casais homossexuais), mas a sua companheira alertou para a existência de problemas ou na esfera sexual ou na esfera relacional e avisou “se tu não os tentas resolver é porque não investes na relação a sério e a relação acaba”. Isto era impensável há 30 anos, as mulheres não tinham este poder reivindicativo. Isto reflecte a diferença de estatuto cultural e financeiro das mulheres nos dias de hoje. Com a sua entrada em massa no mercado de trabalho podem, por exemplo, pôr fim a uma relação e serem autossuficientes.

Essas transformações sociais e culturais das últimas décadas, que incluem uma mudança radical na forma como os portugueses olham para as relações afectivas e para o sexo em particular, também se devem, em muito, ao papel pioneiro que o Sr. Professor desempenhou com os diversos programas em que abordou esses temas, em particular o Sexualidades.


Arrependeu-se? Não, mas eu sou um psicoterapeuta, basicamente. O que acontece é que com essas alterações houve uma mudança radical na sociedade. Por exemplo, há 15/20 anos eu recebia uma percentagem muito maior de queixas do foro da sexologia clínica do que hoje. Hoje, eu e os meus colegas recebemos, sobretudo, inúmeros casais que o que nos vêm perguntar é “a relação está esgotada ou não?”, “ainda gosto dele/dela ou sou dependente?”, “conseguimos aguentarmo-nos juntos? É que ainda gostamos um do outro e, no entanto, estamos sempre a discutir”. Isto são problemas relacionais. Por outro lado, a geografia afectiva mudou de tal maneira, que os equilíbrios são cada vez mais difíceis. O José Gameiro escreveu, há uns anos, um livro espantoso, que só o título valia o livro: “Os Meus, os Teus e os Nossos”. Estas novas geografias afectivas obrigaram as pessoas a adaptarem-se aos mais diversos níveis. Com quem se passa a Ceia de Natal? E o almoço do dia de Natal? Por outro lado, nós, os mais velhos, nem sempre temos o bom senso de manter os mais novos afastados das nossas querelas e isso significa que, às vezes, há conflitos de lealdade, em que os mais novos sentem que, para que o pai ou a mãe se sintam gostados, têm que fazer uma aliança contra o outro pai ou outra mãe, coisa que eles não querem fazer, não é por acaso que os sociólogos dizem que nós vivemos numa sociedade cada vez mais adolescente, toda ela. Por exemplo, os meus colegas neurologistas agora já vieram dizer que o desenvolvimento do cérebro só se atinge efectivamente a partir dos 24 anos. Ora eu cresci imbuído da palavra inglesa teenagers que significa dos thirteen to nineteen. Isso está fora de questão, porque mesmo os mais velhos são muito mais inseguros nas suas trajectórias, não só amorosas, como laborais. Cada vez mais as pessoas têm de se habituar que vão ter 2/3/4 empregos diferentes ao longo da vida. Quando me formei, sabia que ia ser médico até me reformar, ponto final parágrafo. Isso está a acabar completamente, portanto, este clima de incerteza é evidente que se reflecte na nossa vida. O Manuel Sobrinho Simões gosta de dizer: “nós adoramos pastilhas e automedicações”, não é por acaso que esta subida constante de consumo de ansiolíticos e de antidepressivos acontece.

Que se deve a quê, na sua opinião? Deve-se ao facto de as pessoas viverem num stress brutal, cada vez mais depressa, cada vez mais obrigadas a determinados níveis de produtividade e numa sociedade, que, por ser uma sociedade de consumo, em vez de passar a mensagem “pare um bocadinho e veja se consegue reduzir o seu ritmo de vida” insiste na difusão de métodos para aguentar o stress.

As redes sociais vieram agravar esse problema ou, pelo contrário, passaram a ser uma forma de escape? Hoje, com esta possibilidade da comunicação instantânea introduziu-se uma outra possibilidade real que está sempre a acontecer. Aquilo que antigamente nos surgia no espírito e que nós poderíamos pensar em fazer, mas dificilmente concretizávamos: escrever uma carta anónima, fazer um telefonema anónimo, pensar em denunciar isto ou aquilo, passou a estar à distância de um clique. Não é por acaso que todas as semanas temos alguém que pensou e fez e depois arrependeu-se, e se for como eu, um analfabeto digital, pensa que se safou, mas não se safou nada, porque aquilo já está na Patagónia, e nunca mais de lá sai. Nós temos pessoas a dizer “não fui eu, invadiram-me” e outras desculpas quejandas. Isto faz com que haja um efeito multiplicador que leva desde as fake news a autênticos linchamentos de carácter. Hoje, tenho as maiores dúvidas que valha muito a pena alguém ir para tribunal por difamação, para defesa do bom nome, e não digo isto por causa da lentidão da justiça, digo porque depois das questões levantadas, nada as trava, até porque a difamação vem na primeira página e o desmentido vem na quinta. As pessoas estão predispostas a acreditar ou não acreditar mediante a opinião que têm de determinada pessoa e depois aquilo tem um efeito multiplicador, tornando-se numa avalanche que é impossível estancar. A lama está lançada: quem não acredita, não acredita; quem acredita, acredita. As redes sociais não nos transformaram, porque todos nós somos capazes do pior e do melhor. Deram-nos instrumentos para o fogo se espalhar a uma velocidade tremenda. Já tive casos de pessoas que me contaram que cortaram relações com outras que eram suas amigas porque essas pessoas criaram perfis falsos, pediram-lhes amizade e conversaram com elas para um dia trocarem opiniões sobre si mesmas para ver se a outra pessoa dizia bem ou mal.

Isso já é perverso. Claro que é. Estou-me a lembrar de um caso que perante a afirmação de uma pes-

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Por causa do Sexualidades, durante muito tempo, as pessoas tinham uma imagem minha que era totalmente errada. A área que eu trabalho há mais tempo é a da toxicodependência e grande parte das pessoas não sabe. Muitas tinham a ideia de que eu fazia sexologia 7 dias por semana, quase 24 horas por dia, o que não correspondia nada à realidade.


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soa, “Respeito a sua opinião, mas peço que não fale mal da outra pessoa porque é minha amiga”, a outra diz, “Fiquei muito contente porque sou eu que estou deste lado”. Como é evidente a outra pessoa cortou relações com ela no preciso momento. Já para não falar no que tudo isto abriu em termos de psiquiatria clínica. Cada vez recebo mais pessoas que me chegam porque vasculharam os telemóveis, o Facebook, o Instagram, o WhatsApp dos parceiros e dizem: “Veja o que ele escreveu”, “Veja o que ela escreveu”, chegando ao cúmulo, e isto se não fosse trágico era hilariante, de pessoas que chegam cá a mostrarem o telemóvel, eu olho e digo: “Ou é dos meus olhos ou não vejo mensagem nenhuma” e a pessoa contrapõe, “Exactamente! Isto é muito estranho. Porque é que ele apaga as mensagens todas?”. Nós vivemos numa sociedade completamente paranoide que é potenciada por aquilo que temos à nossa disposição.

Não considera que estamos a atravessar uma fase de enorme crispação? Em primeiro lugar, estamos a viver uma fase do imperialismo do politicamente correcto em tudo. As pessoas têm muito medo de não estar alinhadas com um discurso politicamente correcto. Por outro lado, o que acontece é que os movimentos organizados estão cada vez mais crispados. A minha avó dizia “Quem não está comigo, está contra mim”, e isto cada vez se nota mais, porque as pessoas estão mais crispadas, agressivas e os movimentos também. A discriminação continua a existir, e temos de ter cuidado com o facto de os grupos não serem homogéneos.

muita gente que chega aqui e diz, “Eu gosto muito do meu médico de família, mas ele já não olha para mim, só olha para o computador”, e eu tenho de dizer, “Sabe que se ele não olhar para o computador está tramado, porque tem tantas coisas para preencher que não tem tempo”, mas o doente não tem culpa. Por um lado, há esse olhar, por outro, Portugal e Espanha estão a finalizar livros, e eu próprio escrevi um capítulo, para candidatar a relação médico-doente a Património Imaterial da Humanidade da UNESCO. Nesse artigo que eu escrevi no capítulo eu cito um colega meu suíço que diz, “Em 20 anos a inteligência artificial terá substituído os médicos humanos”, ele não disse os médicos, não os médicos humanos e isso implica que para ele há médicos não humanos em todas as etapas, seja diagnóstico, tratamento e acompanhamento em estados terminais até à morte, porque já estamos a desenvolver programas empáticos que dizem às pessoas o que elas querem ouvir. Está a ver o que nos espera…

Dito isto, estamos a aproveitar até ao tutano o que as novas tecnologias nos podem dar. A medicina é um magnífico exemplo, embora esteja no meio da ponte entre, preguiçosamente, ter a nostalgia de que a tecnologia possa fazer o seu trabalho. Aparece-me

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Durante muito tempo os transsexuais sofriam tanta discriminação por parte dos homossexuais como dos heterossexuais. Os homossexuais diziam que eles eram homossexuais envergonhados. Os grupos não são homogéneos, por exemplo, eu ouço homossexuais que detestam paradas gay e me dizem, “Eu compreendo, em teoria, que nós precisamos de visibilidade para sermos respeitados, para mostrarmos que também somos um grupo que vota”, tudo isso é verdade, mas em contrapartida em termos de sensibilidade, aquilo não lhes agrada. Temos de ter cuidado quando falamos de grupos por causa da nossa tendência para tornar o grupo homogéneo, e os grupos não são homogéneos.


O escaravelho comunicativo por Bernardo Mota Veiga

Diz-se que primeiro veículo com rodas data da metade do quarto milénio a.C., mas muito antes disso já o Scarabaeinae havia descoberto a mobilidade enquanto aglomerava pacientemente partes de esterco até formar uma esfera quase perfeita que transportava velozmente para o seu depósito de reserva de comida. Chamam-lhe o Escaravelho do Esterco. A palavra comunicação é tão ampla quanto me pareceu no momento em que me pediram para escrever este artigo. Informação, participação, aviso, transmissão, notícia, passagem, ligação, convivência, são alguns dos sinónimos que me aparecem no dicionário Priberam após uma “Googlagem” muito rápida. No mesmo dicionário em Comunicação Social aparece: “um conjunto de órgãos de difusão de notícias (imprensa, rádio, televisão)” ou “prática ou campo de estudo que se debruça sobre a informação, a sua transmissão, captação e impacto social”. Terá o ser humano tido tempo para perceber a rápida e silenciosa transição da comunicação efémera para comunicação eterna? Será que já encaixámos que uma palavra escrita do passado se esfumou no futuro e que uma palavra escrita no presente se torna perpétua de forma independente da intenção de quem a profere? E se por acaso já o percebemos, por que raio somos cada vez mais parcos na reflexão com que escrevemos e mais abundantes na espontaneidade irrefletida das nossas manifestações?

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É minha certeza que não entendemos nada do que o novo mundo de “comunicação” nos ofereceu e oferece. Não entendemos que o Share Now é o Copy Paste do passado e que as palavras partilhadas fazem dessas nossas próprias palavras. O Ser humano perdeu a capacidade de comunicar, seja lá o que isso quer dizer, e com isso perderá a capacidade de socializar. Estamos a destruir o nosso melhor ativo e o que faz de nós uma sociedade inteligente, o ativo que nos permite transmitir emoções, visões, experiências, vivências e convivências, que nos permite também, sendo recetor,

sentir exactamente o mesmo que recebemos da narrativa e termos a oportunidade de experimentar e viver o que o outro viveu através das suas descrições. Hoje um postal de Natal é um standard descarregado da internet, uma mensagem de aniversário é um seco Parabéns na página social, uma mensagem de pêsames é um like, uma mensagem de melhoras é um chavão que veio de algures e uma mensagem de coragem é um copy paste ou, aliás, um share, de uma frase feita de um qualquer pensador/escritor, do tempo em que se pensava... e escrevia. Temos mil e uma ferramentas para comunicar, mas não perdemos um minuto para endereçar palavras dedicadas e exclusivas para aquela pessoa. Em vez disso, procuramos no meio do mato chamado internet, aquilo que alguém já proferiu, seja isso uma flor, seja isso um pedaço de esterco. Televisão 3D, Velocidades 5G, tempo real, streaming para quê se não for para comunicar e, por definição, para nos aproximarmos dos outros seja lá para partilharmos da sua dor, do seu prazer, da sua felicidade ou do que quer que seja. Estamos na realidade a destruir a capacidade de comunicar que construímos, beneficiando a rapidez em ligar da reflexão, a banalidade em vez da exclusividade. O mundo tem que “Parar quando tens que continuar” – um livro básico, mas que todos deviam ler uma vez na vida - porque no sítio para onde caminhamos não há mundo nosso, apenas cliques no mundo dos outros, na vivência dos outros de que nos queremos apoderar. Os escaravelhos têm uma importância ecológica enorme. São eles que “limpam” a natureza das fezes e carcaças, funcionando como espécies dispersoras e recicladoras de nutrientes nos ecossistemas onde proliferam. Costuma-se dizer que onde há mosca, há esterco pelo que onde há escaravelhos, em princípio não haverá moscas. Na mitologia egípcia o escaravelho sagrado está relacionado com o deus Khepra, o deus responsável pelo movimento do sol no hori-


A comunicação social sempre teve um papel fundamental na sociedade. Por ela e pela sua liberdade e independência arriscava-se a vida! Veja-se o que se passou nos tais regimes anti-democráticos. Foi a comunicação social que, mais bem do que mal, colocou o mundo no patamar de integração em que estamos: mais igual, mais justo, mais próspero! Onde estão esses indivíduos que se dispunham a dar a vida por todos? Onde estão aqueles que juraram comunicar livremente e francamente? Da mesma forma que não existiria democracia sem o Gutenberg, não existirá nunca democracia sem jornalistas sérios, sinceros e isentos. Caminhamos para um mundo de loucos em que a comunicação não é informação, em que os julgamentos se fazem na praça e em que ganha o que melhor estrategicamente consiga comunicar, ainda que tal seja desinformar. A comunicação é hoje mais Marketing Digital do que informação, e não só os “comunicadores profissionais” se deixaram corromper pelo poder das redes sociais, como nós todos nos tornámos o veículo dessa mesma corrupção. Talvez branqueamento de comunicação devesse ser equiparado a branqueamento de capitais, talvez deva ser tão punido o que acusa sem prova como o acusado pela prova, talvez um jornalista devesse ter o dever de informar, mas também de filtrar. Uma opinião não é um facto, mas talvez muitos não devessem ter tempo de antena para manifestar opiniões que teimam em querer fazer passar como factos. As televisões desesperadas por audiência dão audiência de milhões a quem não tem ponta de conhecimento do que fala. Será isto a nova comunicação? Ganhar tempo de antena em horários em que o comentário faz parecer uma certeza? Pode alguém com responsabilidades políticas ser comentador? Pode alguém comentar algo para o qual não está qualificado? Vale mais o dom da palavra do que a palavra em si? E este texto vai então em forma de apelo aos que profissionalmente ou amadoramente comunicam diariamente para que não transformem estilhaços de esterco em bolas de esterco que levam alegremente para a despensa para comer mais tarde ou para meter ovos de mais escaravelhos que virão. O mundo não precisa de mais esterco até porque mais esterco só polui. O mundo precisa de comunicação e informação decente capaz de permitir a um, entender o outro, a

um tolerar o outro, a um, aproximar-se do outro não pela palavra, mas pela verdade dos factos. Só a verdade factual permite um julgamento real. As redes sociais não terão que acabar, longe disso. As redes sociais têm que deixar de ser as auto-estradas de esterco e passar a ser um veículo real de proximidade com verdade. Cada partilha de uma mentira faz de nós mentirosos e coniventes com quem a profere. Acabe-se com a preguiça de escrever, de ter opinião e de comer a opinião dos outros como os escaravelhos comem a bosta que o elefante deixou por ali. Quem deve começar este processo? TODOS! A classe política que é obrigada ao respeito entre si e na forma como comunica, os jornalistas cuja missão é informar e não opinar, o cidadão que se deve abster de alimentar as campanhas de marketing digital que confundem com comunicação... Todos temos que fazer algo e se calhar, voltar às conversas de café onde pelo menos as opiniões eram legitimadas pela presença e pelo confronto de ideias. Partilhar algo que não filtramos é como abrir a boca e dizer 3 asneiras seguidas começadas por C. Reagir a algo que nem lemos é como levar um bolo rei para um velório. Escrever uma notícia imprecisa é como mandar F todos os que a leram. Falar de outros sem conhecimento de causa é como julgar a Madre Teresa pelo que comeu, que podia ter matado a fome a outro. Tolerar a informação falsa e dar-lhe tolerância é como meter uma granada em cada bolso e tentar andar devagar. É hora não só de parar de colocar lixo no mega contentor a que chamamos de internet, mas também de começar a retirá-lo, sob pena de termos que construir uma nova e transformar a actual num aterro. As alterações climáticas são um problema que vem muitos pontos abaixo do problema da comunicação. Se tivesse que dar nome ao ano 2020, chamar-lhe-ia “Ano da Comunicação”. Porque ela é urgente e porque só com ela podemos esperar um futuro realmente melhor. É também por tudo isto que não recuso um convite da Revista Bica. Precisamos destes projectos de comunicação diferentes mas genuínos, onde não partilhamos o que recebemos mas sim criamos e informamos com o melhor que somos e a realidade do que representamos! Obrigado Bica!

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zonte tal como escaravelho movimentava a sua bola de esterco no terreno.


José Manuel dos Santos Electra - Pensar o espírito do tempo por João Moreira

Bruno Esteves

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Em Março de 2008, a Fundação EDP lançou Electra, uma revista de crítica e reflexão cultural, social e política, dirigida por José Manuel dos Santos, administrador e director cultural da Fundação, e editada pelo jornalista e ensaísta António Guerreiro. No seu evento de apresentação contou com a presença de Boris Groys, um dos mais relevantes pensadores do nosso tempo, como que antecipando a aposta num projecto “que interroga o espírito do tempo, as tendências, as ideias, as imagens, as mitologias que configuram e fazem mover a nossa época.” Sete edições passadas, numa fase de afirmação fora das fronteiras do país, nomeadamente no Brasil, conversámos sobre as grandes questões do nosso tempo, com José Manuel dos Santos, o escritor, curador e programador cultural, membro da Academia Nacional de Belas Artes e do PEN Clube de escritores, que dirige a Electra desde a sua fundação.


Criámos a Electra, porque achámos que esta revista não existia em Portugal e fazia falta. E fazia falta porquê? Porque é uma revista que tenta pensar o que vai acontecendo. Pensar o presente, ainda que o perspectivando naquilo que ele é, um ponto entre o passado e o futuro. Portanto, a partir do presente, olhamos o passado e também tentamos adivinhar, sempre com o sentido de risco que isso implica, porque sabemos que o futuro está sempre em aberto, algumas linhas, algumas tendências do que se está a desenvolver, bem como alguns riscos, algumas ameaças e as coisas positivas que se nos deparam. No fundo, olhar para tudo que acontece à nossa volta. Costumamos citar uma passagem do Agam Bam que diz que “aqueles que estão muito imersos no presente, não conseguem ver, porque estão demasiado colados a ele”. Portanto, precisamos, para ver o presente, de ter alguma distância. Essa distância obtém-se de várias maneiras. Desde logo, através de uma distância crítica, que nos permite olhar, tendo em conta as lições da história e tendo, também em conta, o pensamento sobre essas lições. Ao mesmo tempo, percebermos que há muitas coisas que hoje nos parecem muito importantes e que são pouco importantes e outras, que pelo contrário, nos parecem pouco importantes e são talvez as mais importantes. Nós vivemos num tempo dito de opinião, fala-se até das democracias de opinião, mas nós, de uma maneira perentória e declarativa dissemos que a opinião não nos interessa para nada. A opinião é boa entre amigos, nas mesas de café, e achamos aliás, vemos aliás com maus olhos que tudo se tenha enchido, as televisões, os órgãos da comunicação social, de opinião ligeira, mal fundamentada e sensacionalista, em que todos falam de tudo e de nada e, no fundo, a única coisa que se pretende com isso, e que também é um dos traços do nosso tempo que já tinha sido profetizado pelo Guy Debord e pelos situacionistas, é, fazer parte da sociedade do espectáculo. A opinião simula conflitos que não existem verdadeiramente e, mesmo quando existem, são normalmente maus conflitos, conflitos primários, conflitos superficiais. A opinião tornou-se um exercício do narcisismo, pornográfico às vezes, em que a pessoa apenas escorada naquilo que considera ser o seu nome, porque não tem obra e tudo que disse não interessa nada, tudo o que previu não se realizou, continua a opinar, sobre tudo e sobre o seu contrário e as pessoas a ouvi-lo. Isso é o mais extraordinário, é as pessoas a ouvi-lo, a ouvi-los. Portanto, a nós não nos interessa a opinião, não temos colunas de opinião. Quer o António, quer eu, já escrevemos crónicas de opinião, mas não viemos para aqui fazer opinião.

O que procuramos quando queremos tratar de um assunto, de um tema, quando queremos escrever sobre qualquer coisa, ou que alguém escreva sobre qualquer coisa, vamos investigar as pessoas que disseram coisas interessante sobre esse tema e que têm obra fundamentada e pública sobre o assunto. A nossa preocupação é sempre a de convidar as pessoas que têm autoridade de terem pensado determinado tema e que melhor escreveram sobre ele, mais fundamentadamente e muitas vezes, até, de maneira mais extensa, porque significa que têm uma convivência com esse tema e com as próprias metamorfoses que esse tema foi tendo à medida que foi sendo analisado, que a valorizamos. Portanto, a Electra é uma revista de pensamento, uma revista de crítica cultural que fazia falta em Portugal e que considerámos integrar-se de forma perfeita nas actividades culturais que Fundação EDP tem vindo a desenvolver. A Fundação EDP é uma fundação de cultura contemporânea, que tem um Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, que, além disso desenvolve uma intensa actividade de inovação social, tem um arquivo de todo o património documental ligado à energia e à electricidade, que actua como mecenas cultural nas mais diversas áreas, portanto, apresentava um cenário bom para uma revista de pensamento sobre o tempo.

Em que tempo é que vivemos? Nós vivemos um tempo que tem, pelo menos duas coisas que saltam à vista: é um tempo perigoso, imprevisível, mas é também um tempo de exaltação. Todos os tempos são isto, mas eu acho que o nosso é claramente ainda mais do que muitos outros foram. Não direi que é o mais de todos, mas é claramente isto, que acaba por ser complexo e contraditório. É, também, um tempo de surpresas e de imprevistos. E se a incerteza, por vezes, provoca angústia, por outro lado estimula o desejo de procurar, de pensar, de investigar. No fundo, o que nós procuramos é ir desenhando o rosto do tempo.

Que se reflecte na escolha dos temas da Electra. Exactamente. Desde o primeiro número é isso que estamos a fazer no dossier, mas também noutras secções. O primeiro número, a pergunta era: “Que tempo é este que estamos a viver? Que época é esta? Usamos até uma expressão irónica sobre a sua própria época, que tempo é este que estamos a viver. No número seguinte, a partir de uma frase do Flaubert que diz que “a estupidez é de todos os tempos, mas cada tempo tem a sua estupidez”, interrogámo-nos sobre a estupidez mais própria e característica do

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Como surgiu a ideia de editar a Electra?


nosso tempo. No terceiro número falámos de viagens e do turismo, este fenómeno universal que denuncia muitas outras coisas, o frenesim com que se viaja, mas ao mesmo tempo, muitas vezes, a superficialidade, os efeitos que isso tem, bons e maus. Nós não temos uma visão catastrofista do que está a acontecer, nem uma visão exageradamente optimista, limitamo-nos a olhar para as coisas e procurar enfrentar a sua complexidade, o contraditório delas, as contradições, para tentar ir desenhando o rosto do tempo. No quarto número, falámos da comunicação, dos meios de comunicação, das redes sociais. Hoje, a comunicação configura o nosso tempo que é, por seu lado, configurado por ela. Sabemos que é um sector em profunda mudança, até por razão dos avanços tecnológicos e das mutações tecnológicas, mas também em profunda crise, está mergulhado numa profunda incerteza, numa profunda precariedade. Tudo o que é hoje, amanhã já não é, tudo o que parece que vai ser, quando acontece, já não é o que parecia ser e, portanto, esse também é um tema fundamental do nosso tempo. No quinto número abordámos a questão da juventude. Chamámos a esse dossier, Jovens para Sempre, porque todos queremos ser jovens toda a vida e ao mesmo tempo estamos a fazer coisas que colocam as gerações mais jovens nas maiores dificuldade, na maior incerteza e, muitas vezes, com o futuro tapado. No sexto número falámos do dinheiro. Obviamente que o dinheiro é um tópico fundamental do nosso tempo. Na fase actual do capitalismo, tudo se tornou dinheiro, tudo é medido pelo dinheiro, desde a cultura e da arte, à comunicação, à política. Dá ideia de que o dinheiro é o único símbolo universal e o único meio verdadeiramente universal de troca de tudo, e tudo se reduz ao dinheiro e tudo parte do dinheiro e tudo chega ao dinheiro. O último número é sobre os animais. Porque é que, de repente, os animais se transformaram numa das preocupações prioritárias? Quisemos perceber as implicações políticas que isso tem, e interrogámo-nos sobre os direitos essenciais dos animais e os limites a esta espécie de culto e de idolatria e o que é que isto tudo significa em relação aos grandes problemas filosóficos. Porque é que a filosofia sempre lidou sempre mal com o tema dos animais? O que é que o humanismo fez e representou em relação aos animais? O humanismo parecia ter em si todas as virtudes e ser uma espécie do grande ideal universal ao tornar o Homem o centro de tudo, por isso olhou para os animais de uma maneira que teve consequências gravíssimas para eles.

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Já tem uma ideia dos próximos temas? Sim e já poderei anunciar. O próximo núme-

ro é sobre a memória e esquecimento. Nós vivemos um tempo em que se passa a vida a falar da memória, em que se fazem actos de memória, em que se exige o respeito pela memória. Houve uma altura em que isso se traduziu em pedidos permanentes de perdão e desculpa por parte do Papa, de Chefes de Estado, de toda a gente, sobretudo, com o fim dos totalitarismos e da necessidade de não esquecer. Mas, ao mesmo tempo, dá ideia que esse culto da memória, e essa também é uma das contradições do nosso tempo, é o melhor aviário de esquecimento. Dá ideia que queremos ter a memória para nos libertamos dela sempre e para a limpar através de actos, normalmente, fáceis e gratuitos.

Uma espécie de alívio colectivo da consciência, que na maioria das vezes é feita de forma superficial. Muito superficial e que, no fundo, é apenas o salvo conduto para desobrigar a consciência de qualquer culpa. É um tema, esse sim, da filosofia. Nós, muitas vezes idolatramos a memória apenas, mas como Nietzsche já tinha dito, também precisamos do esquecimento para viver. Portanto, vai ser uma edição muito interessante, em que falaremos desde a memória política, à memória e redes digitais. Depois, a seguir, o tema será a velocidade, que é outro dos temas fundamentais do nosso tempo. Tudo acelerou e, portanto, é importante perceber os efeitos que a velocidade teve sobre tudo e sobre todos. Se repararem, estamos fazendo um retrato inacabado do mundo em que vivemos, não só no tema de cada edição, mas em todas as outras secções, que não perdem de vista aquilo que vai acontecendo. Temos temas urbanos que são fundamentais; temos interpretações a partir de citações que consideramos inteligentes e adequadas para alguns dos problemas que estamos a viver; temos diários; temos memórias; temos sempre um portfólio de um artista. Nós dizemos duas coisas da Electra, que é uma revista que se lê e que se vê e que consideramos, poderia ser um livro, ou um livro que parece uma revista, no sentido em que é uma revista que não desactualiza facilmente. É, portanto, uma revista para coleccionar, porque alguns dos temas tratados, podem ser revisitados e acrescentados mais tarde.

É uma aposta curiosa, num momento em que o mercado editorial atravessa uma crise tremenda. Esse é um caminho que está a ser, de alguma forma desenhado no mercado editorial em Portugal, que é o que nos interessa, mas eu diria no mercado europeu. Cada vez mais aparecerem algumas revistas que represen-


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tam um nicho, uma preocupação de nicho, mas muito direccionadas, em particular, para as questões culturais. Durante décadas existia uma lógica ou existiu uma lógica de tomada dessas áreas pelos jornais, pelas revistas generalistas, que, de repente, se esqueceram essas áreas, cortaram. Hoje, os jornais praticamente não têm cultura, praticamente não têm crítica cultural, não têm noticiário cultural e o que têm, a gente percebe que, muitas vezes, é induzido apenas por interesses comerciais. Nós precisamos de alternativas, de vida, de pensamento, de olhar sobre o que está a acontecer. É óbvio que todas as coisas que aparecem e que merecem ser vistas, ser lidas, ser ouvidas, são sempre para uma minoria. Podemos chamar-lhe nicho, mas é uma minoria. Até houve um escritor que falava da imensa minoria. Essa minoria pode ser mais imensa ou menos imensa, mas é uma minoria. A verdade é que há uma ou duas páginas da obra Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, creio que é no segundo volume, em que ele escreve de forma maravilhosa sobre os últimos quartetos de Beethoven. São quartetos que soavam estranhos para os ouvidos da época, havia uma maledicência sobre eles, porque pareciam dissonantes, no entanto, estavam a anunciar a música do futuro e o Proust diz que esses quartetos tinham eles próprios de criar o seu público. Eram eles que tinham de criar o seu público, porque esse público não lhes era dado, não existia. Tinham de o ir conquistando pouco a pouco. A gente pode imaginar que se eles fossem conhecidos vinte anos ou cinquenta anos depois que aí já seriam apreciados. Não seriam, porque não tinham criado o público que lhes permitia serem apreciados, e, portanto, eles tinham de ser publicados naquela altura, conhecidos e tocados naquela altura, para, ano a ano, cativarem algum público que depois aumentava porque passava o testemunho. Hoje, são unanimemente considerados obras primas. Portanto, era naquele momento que eles tinham de ser conhecidos, dos poucos, que funcionaram como uma espécie de agentes desses quartetos que depois os levariam a outros apóstolos. Todas as obras de arte, todas as obras de pensamento que valham a pena têm, de alguma maneira, essa lógica.

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Há essa prespectiva evangelizadora na Electra? Não. Há consciência de que, há coisas que são aqui escritas que não têm outro lugar e que mesmo assim é preciso dizê-las e escrevê-las neste momento, sabendo que a repercussão vai aumentando, o público vai-se sedimentando, e que, pelo menos há um grupo

de pessoas, que é maior até do que inicialmente poderíamos pensar, porque a revista, apesar de tudo, tem merecido o interesse de bastante gente e de muita gente nova, mas há esse interesse em procurá-la. Vamos percorrendo o caminho e sedimentando e aumentando o nosso público.


Desemparedar o pensamento* por Mia Couto

Há dois anos fiz em Porto Alegre uma Conferência no quadro deste mesmo projeto, Fronteiras do Pensamento. Nessa altura tentei desconstruir a ideia negativa que está associada ao conceito de «fronteiras», entendido como limite (e mais que limite, como uma limitação). De facto, as fronteiras são estruturas indispensáveis na arquitetura do Universo. Não haveria Vida senão houvesse a habilidade de construir fronteiras. Há milhões de anos que a Vida se tem especializado em construir vedações. Desde as paredes das células até à epiderme dos organismos mais complexos toda a criatura pede um invólucro separador. A verdade é esta: a vida tem fome de fronteiras. Do lado de fora moram o caos e a entropia. Do lado de dentro residem sistemas criadores de ordem. Há contudo uma diferença fundamental entre as fronteiras criadas pela Vida e aquelas que nós criamos. As primeiras são entidades orgânicas, vivas e permeáveis. Foram feitas para negociar entre o «dentro» e o «fora». O problema é que nós – seres humanos – temos dificuldade em criar fronteiras vivas. Criamos barreiras que servem para fechar. São muros altamente vigiados que nos fazem prisioneiros e que sufocam a nossa criatividade. Nós emparedamos o pensamento. Isto é tão mais grave quanto essas paredes são invisíveis. Para sabermos da sua existência precisamos de repensar o pensamento. É sobre essas paredes invisíveis que me proponho falar hoje. E começo esta intervenção prestando homenagem a alguém cujo pensamento me serve de inspiração. O poeta e revolucionário que chegou a Presidente do Vietname viajou pelo mundo (inclusive esteve aqui no Brasil) e viajou pela alma humana. Foi preso por atividades chamadas de subversivas e nesse período escreveu um livro de versos chamado Cadernos do Cárcere. Recordo a resposta de Ho Chi Minh quando lhe perguntaram como tinha conseguido produzir versos tão delicados, tão cheios de afeto, num lugar tão cruel e desumanizante como a prisão. A resposta de Ho Chi Min foi esta: «o que eu fiz foi desvalorizar as paredes». Estas palavras tornaram-se uma espécie de lema para a minha vida. Devo a esta lição muito da minha capacidade de ser feliz. Ho Chi Minh desinventou as paredes reais do seu cárcere. No nosso quotidiano nós fazemos o inverso: inventamos paredes virtuais que aprisionam o pensamento. O limite maior do nosso pensamento é o pensamento já estabelecido. O principal obstáculo para a produção de novas ideias são as ideias que se tornaram certezas. A maioria dessas ideias não são nossas nem são do nosso tempo. Quando pensamos ter ideias, a maior parte das vezes são as ideias que nos têm a nós. A pergunta inicial seria — sabemos todos do que estamos a falar quando falamos em pensamento? Tenho dúvidas. Primeiro porque não existe um pensamento único. Os sistemas de pensamento são tão plurais quanto diversa é a própria humanidade. E depois existem mil modos de definir o que é o pensamento. Cada cultura pensa o assunto de modo diferente.

* Comunicação no ciclo de palestras internacionais denominadas Fronteiras do Pensamento, Florianópolis.

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Sou de uma nação onde convivem culturas, línguas e modos de pensamento profundamente diversos. Em algumas das línguas indígenas de Moçambique o verbo pensar é o mesmo que imaginar e adivinhar. Acredita-se que as ideias, tal como os sonhos, são produzidos por visitações de antepassados e de outros espíritos poderosos.


Seja qual for o contexto cultural, porém, o pensamento ocupa um lugar central na imagem que temos de nós mesmos. No modelo de cultura que se globalizou, o ato de pensar é de tal modo primordial que ele separa o humano do não humano. Mais do isso: nós confirmamos a nossa existência por via da prova do pensamento — penso logo existo. É comummente aceite que a produção de pensamento inclui diferentes processos e mecanismos. Faço uma tentativa muito simplista de listar apenas alguns desses processos, separando-os pelos seus géneros gramaticais: Nomes masculinos —o raciocínio (o formato mais solene e glorificado) —o cálculo (a manipulação dos valores e dos números) Nomes femininos —a intuição (esse dom misterioso de captar o invisível) —a sensibilidade (uma espécie de inteligência emocional) —a simpatia (a capacidade de ser outros) A constatação imediata é que, não apenas os nomes que carregam um género, mas também a atribuição dos sujeitos que associamos a cada um destes processos possui uma carga feminina ou masculina. Temos esta carga histórica que atribui ao homem as funções mais nobres do pensamento: o raciocínio e o cálculo. É perceção comum atribuir às mulheres funções mais intuitivas, mais sensíveis e mais volúveis. Há aqui pois uma demarcação hierárquica, uma fronteira subtil e nem sempre visível. O pensamento é o mesmo mas não é exatamente igual. Sou um cientista e interrogo-me sobre as certezas que por vezes a ciência tanto proclama. O preconceito sexista teve até recentemente cobertura científica. Ilustres pensadores defenderam com provas anatómicas irrefutáveis que a mulher era intelectualmente menos dotada. O escultor Auguste Rodin teria que fazer um esforço impensável para representar de outro modo a imagem masculina e solitária do pensador. Uma mulher sentada na mesma posição seria entendida como a figuração da depressão e a imagem serviria hoje de publicidade para um qualquer prozac. Mas não é apenas o modo como imaginávamos o «Pensador» que está marcado pelo contexto histórico. O modo como representamos visualmente o pensamento também é revelador de um certo juízo, de uma certa escolha. O pensamento é quase sempre concebido como um engenho, um engenho produtor de engenhos, uma máquina capaz de produzir ferramentas. É uma engrenagem de rodas dentadas. Se o pensamento é uma máquina ele deve ser avaliado de forma utilitária. Um bom pensamento produz resultados mensuráveis. Na lógica visual dominante, a lâmpada é a figuração mais comum quando se quer representar uma ideia. De novo, o que é intangível se torna coisa, aparelho, utensílio. Estas conceções e estas figurações não são inocentes. Elas traduzem uma escolha, um juízo de valor. Elas implicam que se deixou de lado a qualidade das relações que podemos criar com os outros e com o mundo. Anula-se assim a natureza relacional da produção de ideias. Anulam-se também os modos orgânicos e sistémicos de raciocinar. O ato de sonhar fica fora do território do pensamento. Sonhar, tal como dormir, não passam no critério da rentabilidade: aparentemente não produzem e por isso seriam melhor designadas por «inatividades». O sonho é a construção em que não sabemos criar fronteiras. Isento de paredes, o sonho abre para o caos.

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Isso deixa-me a mim, escritor, na condição de improdutivo, já que a maior parte do que eu penso me surge dos sonhos. Ou talvez nem seja nos sonhos mas nesse território de penumbra entre a vigília e o sono. Se o pensamento é uma engrenagem, ele precisa de mecânicos. E precisa de eletricistas. Para nossa felicidade esses engenheiros especializaram-se nesta caixa que é o crânio onde está instalada a grande máquina que é o cérebro. Estamos tão convictos desta visão redutora que avaliamos as capacidades intelectuais dos nossos antepassados pelo volume da caixa craniana. Mais caixa, mais máquina; mais máquina, mais inteligência. O tamanho do cérebro foi umas das provas que os cientistas invocaram para proclamar a inferioridade intelectual das mulheres. É comummente aceite compararmos o nosso cérebro a um computador simplesmente porque


acreditamos estar equiparando duas máquinas. É ainda ponto assente que a inteligência se pode medir, como se mede o nível do óleo ou a voltagem de um qualquer aparelho. Para as culturas rurais de Moçambique o pensamento não está alojado num lugar específico do corpo. O pensamento não mora, o pensamento visita e é visitado. Nessa transação de entidades invisíveis o nosso corpo inteiro pode albergar esses erráticos viajantes. Eu não quero romantizar as outras culturas que estão mais disponíveis para uma leitura poética do mundo. Na verdade, essas culturas não merecem ser tratadas como criações exóticas e folclóricas. Mas creio ser útil conceber o pensamento como algo que não é apenas da ordem física mas relacional. De facto, as ideias nascem não apenas de uma base biológica mas dos nossos encontros com os outros. As ideias nascem da relação que somos capazes de manter com os outros que vivem dentro de nós. O exercício do pensamento está marcado por inúmeros equívocos. A ciência fez progressos notáveis no conhecimento do cérebro e das suas funções. Longe de mim desvalorizar esses avanços. O que eu gostaria de trazer para este encontro são as perceções comuns, a carga cultural e ideológica que trazemos impercetivelmente dentro de nós. Pensamos que sabemos e pensar que se sabe é bem mais grave do que não saber. Esses mal entendidos atuam como paredes que reduzem a nossa capacidade de pensar o pensamento. Eu já fiz referência a alguns destes equívocos que são bem conhecidos de todos nós: a visão redutora que confunde o complicado com o complexo; a visão mecanicista que é incapaz de distinguir os processos físicos dos orgânicos e vitais. Na primeira parte desta comunicação falei desse grande equívoco que é a tentação de anularmos a diversidade quando falamos de pensamento. Como se houvesse um único pensamento, com uma única génese e com um único tipo de processos. Existem outros preconceitos que anulam a diversidade. Nós falamos como se o pensamento tivesse apenas uma única história, como se esta longa narrativa da produção de ideias tivesse uma única dimensão. Nós sofremos, mesmo sem saber, de uma grave cegueira quando se trata de nos olharmos ao espelho da História. Uma das coisas que deixamos de ver, por exemplo, é a diversidade de contribuições civilizacionais das quais resulta aquilo que somos hoje. Essa anulação faz-se no tempo e na geografia. Como se todos os contributos tivessem origem num só centro e esse centro fosse localizado no território da Europa. Os grandes pilares do nosso saber vêm exclusivamente da Grécia Antiga e do Império Romano. O cidadão comum aceita marginalmente incluir o Egito antigo nesta lista dos fabricadores dos pilares da atualidade. Mas quando se «descobre» que o Egito é um território de África a cotação do seu contributo desvaloriza. A ideia comum é que estes territórios não geram pensamento de valor. Criam, quando muito, crenças, diversão e beleza. Mesmo que esteja já provado que o Antigo Egito muito contribuiu para a engenharia, para a matemática, para a arquitetura, isso é pouco lembrado. O que resta é que os egípcios fizeram pirâmides para atração turística dos europeus e tiveram uma rainha bela e temperamental chamada Cleópatra. Mas a beleza da rainha teve que ser convenientemente branqueada para ser aceite pelos padrões europeus.

Falei dessa amputação da pluralidade das escolas de pensamento que nos antecederam. Mas esta anulação da diversidade não funcionou apenas no tempo mas na geografia mais ampla. Esquecemos que todos os continentes de igual modo contribuíram para o percurso épico da nossa espécie.

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O jogo ntxuva popularizou-se em toda a África com o nome de mankala. Tabuleiros de mankala foram descobertos em túmulos do Egito Antigo. Inicialmente estes tabuleiros foram usados co- mo uma espécie de ábacos para apoio ao cálculo aritmético. Mas logo transitaram para o território do prazer e da fantasia. Essa disponibilidade para a fruição lúdica é uma habilidade muito humana. Ao longo dos milénios aprendemos a não poder viver sem fantasia. Essa herança é hoje bem clara. Cerca de trinta por cento do nosso quotidiano é passado naquilo a que podemos chamar de exercício da fantasia (lendo, jogando, vendo cinema). A separação entre realidade e fantasia é algo muito recente, produto desse preconceito que encontra no exercício do prazer uma fonte de pecado. Longe estamos da raiz etimológica do verbo pensar, que queria dizer pesar mas também fazer um penso, um curativo.


A África não foi apenas o palco para a génese dos nossos antepassados. Também fabricou as bases da nossa capacidade de sobrevivência e assistiu às grandes viagens que iniciaram a diáspora. Essas viagens, que nos levaram de África para outros lugares, foram talvez o primeiro e maior momento da globalização. Uma grande parte dos alimentos que hoje compõem a nossa dieta alimentar tiveram origem nas civilizações da América. E da Ásia nasceram contribuições que foram assimiladas pela nossa modernidade global. Houve, em suma, um processo de esquecimento e anulação das histórias da nossa História. Nós praticamos sem o saber uma espécie de historicídio. Este historicídio não é apenas resultado de uma certa arrogância eurocêntrica. Tem a ver também com a conceção mecanicista e utilitária do pensamento. Essa visão marcou um início para o primeiro capítulo da nossa saga como humanidade. Se o pensamento é uma fábrica de ferramentas então a grande fronteira entre o Homem e o Animal seria a habilidade de criar e usar ferramentas. Existem desde há muito evidências de que essa habilidade não é, afinal, tão exclusivamente humana. Devemonos interrogar sobre o quanto precisamos de reafirmar as fronteiras de demarcação com a animalidade. Muitas perguntas se podem fazer. Por que escolhemos esquecer essa nossa alteridade, por que abdicamos desta diversidade mais verdadeira? Existem várias razões. Uma delas, talvez a mais importante, é a tendência para avaliar uma civilização pela capacidade de fabricação de artefactos. Os episódios da novela da nossa evolução estão titulados por via da qualidade dos materiais usados: a idade da pedra, a idade do bronze, a idade do ferro. De toda a forma nós precisamos de ficcionar o passado e emprestar-lhe um esplendor e uma coerência de obra ficcional. Só são visíveis os antigos impérios com seus guerreiros e seus grandes imperadores, com as suas aparatosas vitórias e trágicas derrotas. Ora, muito do que é essencial no desenvolvimento da humanidade resulta de pequenos e marginais episódios que ocorreram sem grande alarido nem espetáculo. O mais importante seria talvez relembrar o que aconteceu entre as guerras, o modo como se teceram as capacidades de entender o Outro, o modo como se criaram as capacidades de produzir afetos e sentimentos solidários. E o modo como, para além dos conflitos, se mestiçaram culturas, pessoas e saberes. Falei da visão utilitária e funcional que temos de nós mesmos. Essa tendência redutora faz com que a própria escrita seja entendida como uma ferramenta. E mais do que isso, como uma fronteira. O aparecimento da escrita funda uma linha separadora da nossa identidade e a identidade dos outros, os que habitam a oralidade. Esta separação apoiou a posteriori classificação discriminatória das culturas e das religiões. O advento do monoteísmo sofisticou este critério, que exclui da razão e da verdade os que, por terem outras crenças, são olhados como não tendo crença nenhuma. Um Deus que se quer único escreve ou manda que se escreva. A palavra de Deus passou a estar no livro. A dessacralização da terra e da natureza deslocou o sagrado para a prova da escrita. O que sucedeu na história da nossa espécie sucede também na narrativa individual de cada um de nós. A criança que aprende a ler e a escrever separa-se da sua própria pré-história. A infância — que é o tempo em que habitamos a oralidade — é tida como um estado de menoridade, de insuficiência e de carência. Não importa que a oralidade se mantenha tão viva depois em toda a nossa vida. Admitimos, quando muito, que a oralidade emerge em nós em momentos mais próximos do corpo do que da alma, como se a palavra falada fosse uma espécie de folclore popular da nossa identidade.

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Como já disse, a escrita é usada como uma das fronteiras mais solenes para dividir o tempo da nossa espécie. Com a escrita nasce a História. Antes, foi a pré-História. A nossa espécie está no mundo há 250 mil anos. Antes de nós, e juntamente connosco, existiram outras variedades de homens. Durante dezenas de milhares de anos convivemos com este nosso primo, o chamado Homo Neandertalensis, que se extinguiu há mais de 25 mil anos. Nós somos hoje o único e solitário sobrevivente da variada espécie dos hominídeos. A nossa solidão talvez explique por que nos queremos ainda afastar mais daqueles que nos antecederam. De tanto querermos ser únicos acabamos por excomungar parecenças. O nosso parente histórico homo neandertalensis extinguiu-se 20 mil anos antes de a escrita ter nascido. Os códigos grafados que reconhecemos como escrita nasceram há pouco mais de 5 mil anos. O que se passou nos outros 245 000 anos mora numa bruma, na bruma do préacontecimento. Satisfazemo-nos com o retrato de apenas dois por cento do nosso Tempo de existência como humanidade. A história tornada visível abrange pouco mais de 100 gerações.


Anulamos a herança das 85 000 gerações que nos separam do início do Pleistoceno. Que devemos a esse tempo que chamamos arrogantemente de «pré-História»? Devemos muito. Devemos a invenção das artes, os pilares da espiritualidade, a criação do divino e do sagrado, a invenção da linguagem e sobretudo a linguagem simbólica. Devemos o nascimento da fantasia e da ficção, das artes, do canto, da música, da pintura e da escultura. Devemos enfim aquilo que são os pilares da nossa humanidade. Foram estes, que achamos pouco humanos, que nos fizeram humanos. Muito do nosso atual comportamento nasceu dos milhares de anos em que fomos caçadores. Uma vez mais, essa atividade não era um simples fazer. Ela pedia um ser, pedia uma ligação invisível com o mundo. O bom caçador era capaz de sonhar e convocar por via dos sonhos os animais que iria matar no dia seguinte. Essa capacidade de convocação espiritual era tão importante como as capacidades físicas do caçador. Havia assim um sentido de transcendência já presente na prática da caça. E depois da caçada era obrigatório que a aventura fosse ficcionada e partilhada. Não era apenas a carne que era repartida: era a narrativa da caçada. Era tão importante caçar como contar histórias de caça. De tarefa de sobrevivência, a caça passou a forma de arte. Mas nós não esquecemos. O verbo é outro. Nós negamos ter sido aqueles outros que nos parecem menos humanos. Temos medo que a sua semelhança bata à porta da nossa alma. Fazemos como os novos-ricos que, envergonhados dos pais, os colocam a comer na cozinha quando há visitas. Nós amputamos a memória de nós mesmos. Nós anulamos a nossa própria infância como espécie. Disse atrás que praticamos um historicídio. Mas nós praticamos, pelo menos simbolicamente, um infanticídio. Devíamos ter a imagem dos antepassados do homo sapiens na nossa sala como se fossem fotos de família nas paredes das nossas casas. Devíamos construir uma estátua a estes heróis que enfrentaram a enorme probabilidade de se terem desvanecido na História. Devíamos ter orgulho nesta saga milenar que nos tornou habitantes do mundo e nos habitou com os seus mundos interiores. Esta homenagem ao que somos no que já fomos não pode ser centrada exclusivamente na capacidade de pensar, como sugere o nome que tardiamente concedemos a nós mesmos de homo sapiens. Não foi apenas o saber que nos permitiu sobreviver. Foi sobretudo a capacidade de produzir diversidade. Nenhuma outra espécie é capaz de produzir diferenças tão sensíveis de geração para geração. Esse vasto leque de propostas e variações que produzimos coletivamente oferece à Vida uma imensa possibilidade de escolha e de permanente superação. Acredito ter falado sobre fronteiras do pensamento. Talvez a maior dessas fronteiras aconteça mesmo antes de haver pensamento. Grande parte das vezes que acreditamos pensar, estamos afinal a ser pensados. Estamos a reproduzir aquilo que já foi pensado por outros. Mais grave ainda: muitos dos pilares do nosso pensamento foram criados há séculos. Estamos a usar computadores de última geração mas a lógica do nosso pensamento está ainda enraizada na racionalidade aristotélica e na lógica cartesiana, em conceitos da Idade da Média. Muito do pensamento que partilhamos nasce com um duplo pecado original: não é nosso nem é atual. Vivemos afinal na mais grave das prisões: aquela em que o prisioneiro não sabe da existência das grades.

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Crónica extraída de «O Universo num grão de areia», de Mia Couto. Edição Caminho.


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Disse o Corvo: “Nunca mais”.


por Pedro Martins

Paula Ferreira

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, vagos curiosos tomos de ciências ancestrais, eis que surge perante os meus olhos “O adeus d’O Corvo”, isto só e nada mais. Não vivíamos no frio de dezembro mas no calor de maio. A cidade de Lisboa perdia uma voz, a única que falava sobre Lisboa e para os lisboetas. O jornal on-line O Corvo chegava ao fim. A sua vida começou seis anos antes, no frio de fevereiro. A crise do jornalismo dava os seus primeiros sinais e a imprensa generalista começava a apagar os seus cadernos locais. O nascimento surgia da mente de um Alemão, apenas teutónico no sobrenome: Samuel, um alfacinha de gema, com um passado na Capital e no Público, discípulo de mestres como José António Cerejo e Francisco Neves. Após seis anos como jornalista, quatro deles como freelancer na Grande Reportagem e na Notícias Sábado, Samuel escrevia para a Revista de Vinhos. Embora não negue que “as condições de trabalho eram boas”, a vida de publirepórter não satisfazia o Alemão. Não era aquilo “que queria fazer enquanto jornalista”. Dos problemas surgem as oportunidades. Inspirado pelo seu passado como editor na Capital e no caderno local do Público, Samuel Alemão decidiu ressuscitar o jornalismo local na cidade das sete colinas. Não havia desculpas para se negar a essa demanda. “Basta sair à rua” para fazer jornalismo local, basta “ter vontade de fazer reportagem e ouvir as pessoas diretamente. É o mais fácil e o mais barato.” Embora admita que os lisboetas “nunca sentiram falta dos jornais locais” porque “num país macrocéfalo, os jornais generalistas incidem sobre a atividade da capital”, Samuel sabia que ainda havia muita informação a ser descoberta. Esses mesmos jornais generalistas “haviam aberto uma brecha informativa ao acabarem com os cadernos locais”, algo que este antigo repórter da Capital soube utilizar. Tudo começou em 2013

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Aproveitando a transformação que a presidência de António Costa criava na cidade e a atração que zonas renovadas como a Mouraria, o Intendente ou o Martim Moniz despertavam nos turistas, Samuel resolveu canalizar “o seu gosto pela vida da cidade” para a criação de um projeto de jornalismo urbano, com o auxílio de Francisco Neves e Fernanda Ribeiro, dois também sua antiga colega do Público. Farto de títulos como “o Correio de” ou o “Diário de”, o Alemão viu a resposta à sua procura na heráldica da cidade: o Corvo, uma imagem provocatória, “algo cartoonesca, mais fácil para criar empatia com os leitores”.


O seu primeiro voo deu-se a 5 de fevereiro de 2013, “sem saber onde ia parar”. O seu objetivo era “fazer um jornalismo independente e vivo, que tenha as pessoas e as comunidades no seu centro”, as pessoas e a comunidade que “cada vez menos eram chamadas a pronunciar-se ou a intervir nos seus problemas”. Pretendia cobrir todos os temas, “desde o aumento das rendas aos novos locais de lazer ou bandas de música”.

Egos custam mais que salários As dificuldades existiram desde o início, sobretudo a nível financeiro. Tornar o jornal “sustentável sem prejudicar a sua independência” foi uma das suas preocupações primordiais. Eram vários aqueles que se propunham a investir no projeto, que pensavam “isto é uma boa aposta, isto vai dar dinheiro, isto tem pernas para andar”. Mas todos desistiam quando viam a falta de retorno monetário. Mas os egos de alguns colaboradores eram um ativo ainda mais difícil de gerir do que as magras finanças. Os recursos escassos com os quais o Corvo começou levavam Samuel a não poder remunerar quem se disponibilizava a colaborar consigo. Embora não houvesse reclamações pela falta de salário, “era muito mais difícil eles aceitarem críticas quando não estavam a receber”, como se os artigos não tivessem de ser igualmente editados. A qualidade do jornal não poderia ser posta em causa pelos egos dos seus colaboradores. Samuel sabia que o Corvo perderia credibilidade se não houvesse exigência, por isso fez questão de “empregar um rigor constante, mesmo com os temas mais comuns”, seguindo “os padrões de qualidade que havia aprendido na Capital e no Público”.

O fotógrafo de Fernando Medina e a entrevista a Geco

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Um dos exemplos de fidelidade do Corvo aos seus princípios remonta a janeiro de 2018. As tentativas de envolvimento pelas câmaras municipais não são uma novidade para o jornalismo local. Embora só tivesse cinco anos de existência, o Corvo não seria exceção. Enquanto parte do quatro poder “consistentemente vigilante dos atores públicos”, Samuel não hesitou em escrutinar a atividade de Fernando Medina, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que “demonstrava alguma hostilidade ao jornal, embora nunca os tentasse controlar expressamente”. A contratação de Luís Filipe Catarino como fotógrafo do autarca tornou-se na notícia mais divulgada do jornal lisboeta, não auferisse este um salário de 72 mil euros. Samuel

lembra-se da “fúria de Fernando Medina”, que não tardou a colocar um press realease a atacar o Corvo, “sem alguma vez conseguir desmentir aquele artigo”. Mas mesmo que quisessem silenciá-lo, isso já se tornara impossível: a imprensa generalista já havia “ido atrás” e espalhado o artigo. O contrato do fotógrafo mais bem pago do país já era de conhecimento público. Apesar de tudo, Samuel olha com especial orgulho para a entrevista de Eva Massy ao graffiter italiano Geco. As tags e autocolantes que espalhara por Lisboa não haviam passado despercebidas. Como todos os jornalistas, os colaboradores do Corvo queriam saber o ponto de vista do grafitter, sem apoiar a sua atividade. Queriam saber o porquê dos seus atos, “mesmo indo contra aquilo que a sociedade via como correto”. As acusações de conivência com o vandalismo urbano não se fizeram esperar, mas o Alemão lembrou os seus críticos que “os jornalistas não têm de ser provedores dos cidadãos”, devendo antes dar voz a todos os lados, “sem tomar partido”.

O Adeus Depois de seis de existência, “o Corvo tornou-se inviável”. Embora tivessem obtido algum financiamento entre 2017 e 2018 e conseguido remunerar o trabalho de Samuel e de Sofia Cristino, “o jornal nunca tivera possibilidade de contratar pessoas”. No final, este par tornara-se no seu único suporte. Haviam aguentado seis anos, “seis anos de cansaço acumulado”, tendo passado os primeiros quatro a “trabalhar de borla”, sustentados apenas “pela paixão, pelas poupanças pessoais” e por trabalhos que Samuel fazia como freelancer para outras publicações. Depois de tanta pressão, a corda partiu. A 29 de maio de 2019, o Corvo disse o seu adeus. Chegou a hora de Samuel Alemão descansar e talvez pensar noutras aventuras. Será que algum dia voltaremos a ouvir a voz do Corvo? Será que Samuel ressuscitará o jornal? Acontecerá isso pela mão de outros? Ou será que tal como o Corvo de Poe e Pessoa, este Corvo se limitará a dizer “nunca mais? Só o tempo o dirá.


FUN DAC AO D O M LU I S .P T

Pin tura emo crática

D

Coleção Luísa e Manuel Pedroso Lima Projeto Joaquim Sapinho

Angelo de Sousa . Batarda . Cesariny . Dacosta . Hogan . Menez . Paula Rego . Pomar

CENTRO CULTURAL DE CASCAIS

FEV 21 » ABR 12

Apoio:

Patrocinador:

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exposição . exhibition


Maria JosĂŠ Mauperrin

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A nossa amiga sem idade


por Cristina Kirkby

Maria José Mauperrin de Carvalho, a Mauperrin, como carinhosamente lhe chamávamos, foi aluna de Belas Artes, desenhadora, radialista, jornalista e, se é que esse título existe, uma excecional conversadora. Entrou para as nossas vidas em 1968, quando foi para a Emissora Nacional como locutora, onde já estava a minha irmã Luisa Mota, de quem se tornou colega e amiga. A entrada dela para a rádio foi “por acaso”, como ela dizia, “nunca tal me passara pela cabeça”. De facto, estava ela “a desenhar uns bonecos e a escrever uns spots numa agência de publicidade”, quando alguém (não me recordo o nome) que trabalhava na Emissora achou a voz dela “interessante” e a desafiou para ir experimentar a rádio. Desafios eram com ela e lá foi e lá ficou mais de 30 anos. Passou pela Emissora, Rádio Clube e Rádio Comercial, tornando-se uma das vozes mais conhecidas da rádio portuguesa. Essa voz marcante, o seu gosto cultural e decisivamente o seu talento para comunicar, para conversar, fizeram com que em 1973, Alberto Represas, pai do Luís Represas, então diretor da programação, lhe desse a oportunidade de realizar os seus próprios programas, tornando-se assim a primeira realizadora de rádio em Portugal.

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Quatro Temas em Dezembro foi um dos seus programas de autor de maior sucesso. Ousado para a época, estávamos em plena Primavera Marcelista, pelos temas abordados, como por exemplo a pobreza, a Mitra, em que saía do estúdio em busca de realidades escondidas, entrevistando os seus protagonistas, nomeadamente crianças institucionalizadas. Embora ainda inexperiente na sua função de realizadora e responsável pelos conteúdos, quando lhe perguntávamos se não tinha medo das consequências que poderiam advir dos temas escolhidos, a Mauperrin troçava de nós dizendo: “eu preocupo-me com o programa, vocês preocupam-se comigo” e, como sempre, fazia o que achava que era pertinente e que podia ser uma pedrada no charco. Curioso é que os registos destes programas que passaram o crivo da censura, por tratarem em cada semana temas considerados tabus naquela altura, foram destruídos muito depois do 25 de Abril, quando da restruturação da RDP.


Depois disso ainda realizou outros programas que evidenciavam o seu talento criativo e irreverente, como por exemplo um cujo título diz tudo - O Cão Andaluz e a sua Coleira de Estrelas, programa que a própria Mauperrin classificava como “um pouco esquizofrénico”. Mas, no dia 4 de fevereiro de 1980, na Brasileira do Chiado, estreia-se em directo aquele que viria a ser o maior sucesso da carreira radiofónica da Maria José Mauperrin – o “Café Concerto” (com Aníbal Cabrita, entre outros) onde participavam nomes como Miguel Esteves Cardoso, Amaral Dias, Jorge Listopad, Fernando Dacosta, Sílvia Chicó ou José Duarte. Durante 7 anos, todos os dias da semana, primeiro durante 3 horas depois das 22 às 24h, milhares de ouvintes sintonizavam a Rádio Comercial, para ouvir um programa em que “a conversa era rainha”. Numa atmosfera de convívio, às conversas em tom coloquial juntava-se a música escolhida com gosto e sensibilidade, criando um verdadeiro café concerto à maneira francesa do século XIX, a que não podia faltar o cigarro na ponta dos dedos da Mauperrin.

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Foram mais de trezentas entrevistas que a Maria José fez a homens e a mulheres da cultura, desde sociólogos a pintores, de músicos a antropólogos, de gráficos a escritores, de cineastas a etnólogos. Assim de repente, lembro-me do António Vitorino de Almeida, do Vergilio Ferreira, do Lobo Antunes e duma discussão enorme entre Alberto Pimenta e Augusto Seabra sobre um filme alemão. A propósito, no dia seguinte fartámo-nos de rir com a Maria José a relatar a discussão em que “quase se bateram”. Recordo ainda a semana à conversa com José Cardoso Pires que começou com a Mauperrin a comentar quando entrou na cabine “a fumarada” que ali estava e quantos cigarros o escritor fumava por dia. Devia ser muito grande a tal “fumarada” para a Mauperrin, que não largava o cigarro, o comentar! Aliás, logo de seguida pediu “Dá-me lume?” E então sim começou o Café Concerto com o convidado da semana, Cardoso Pires. Também foram muitos os convidados estrangeiros, nomeadamente Mário Lagos, Chico Buarque de Hollanda, Mário Soldati, Léo Ferré entre outros. No horário do Café Concerto “parava o trânsito nas redacções dos jornais da altura” pelo seu carácter polémico e inovador, pela mudança radical nos discursos habituais, pela voz da Mauperrin que se impunha, mas, sem dúvida, pelo poder das palavras e pelo carácter coloquial e espontâneo das suas conversas. Era empolgante porque

era em directo e com a Mauperrin tudo podia acontecer!!! E aconteceu quando um dia, nos últimos meses do Café Concerto, em que o Aníbal Cabrita estava ainda sozinho na cabine e se preparava para anunciar que ia sair do programa, a Maria José irrompe pela cabine e em directo perguntando alto e bom som: “Porque vais sair do Café Concerto??”. E essa intrusão deu azo, sempre em directo, a uma enorme conversa de 2h sobre a rádio em Portugal. “Realizei o Café Concerto e o Café Concerto realizou-me a mim”. A oportunidade de se relacionar com os outros, de conversar com tanta gente interessante, de aprender sobre assuntos tão diversificados foi uma das melhores experiências da sua vida. De facto, a Mauperrin não trocava por nada uma boa conversa, nem por mais umas horas de sono. Quantas vezes depois dos jantares de Domingo em nossa casa, no fim dos anos 60 início dos anos 70, as conversas seguiam pela noite fora, mesmo que tivesse que trabalhar cedo no dia seguinte. Era quase sempre a última a sair dos convívios, das festas ou dos serões que sempre foram frequentes na nossa família e no nosso grupo de amigos. Vítima dessas conversas intermináveis foi o seu filho Mário Luís, hoje o jornalista Mário de Carvalho, que era a sua companhia habitual e que acabava por adormecer ao colo de alguém ou no sofá mais próximo. Tinha o culto da Língua Portuguesa, não tolerava “calinadas” no português e evitava galicismos. Mesmo entre amigos ou apenas conhecidos, era capaz de interromper uma conversa para corrigir um erro. Tinha “um ódio de estimação” por alguns muito frequentes ainda hoje: à última da hora em vez de à última hora; uma grama em vez de um grama; muitas das vezes em vez de muitas vezes. Porquê dizer playlist em vez de alinhamento musical, como se dizia no seu tempo? Casou em 1971 com João Carreira Bom, jornalista de reconhecido mérito, cujas crónicas no Expresso se tornaram conhecidas não só pela sua qualidade literária, mas pelo seu carácter polémico. Com ele partilhava esse respeito e exigência por um bom português, tendo acompanhado o lançamento do Ciberdúvidas, projecto informático criado pelo João, que ainda hoje existe, e que se destinava exactamente a promover e preservar a correção da Língua Portuguesa. Com ele também, fez parte de um grupo de intelectuais que ajudaram a desenvolver ainda mais o seu gosto pela cultura e pelas artes. Muitas eram as tertúlias em que a poetisa Natália Correia era anfitriã e onde


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participavam artistas como Dordio Gomes e Vespeira e por vezes Ary dos Santos. Aliás, a Natália Correia foi madrinha de casamento do João Carreira Bom. Tinha o dom da palavra e da escrita. Foi jornalista do Expresso durante vários anos onde fez peças jornalísticas com foco na área cultural, como reportagens e entrevistas a personalidades de relevo, sobre os temas mais diversos como o design, a moda, o sexo. A sua peça mais notável como jornalista no Expresso foi o trabalho magnífico sobre Calouste Gulbenkian. Uma investigação cuidadosíssima que contou com a colaboração de Azeredo Perdigão e da sua mulher Madalena Perdigão, com quem privou durante meses para recolher um acervo inédito e muito interessante sobre a vida de Gulbenkian e a sua relação com Portugal. A exigência que tinha com os seus melhores amigos era a mesma que tinha com ela própria. O seu objetivo era sempre a perfeição. Gostava de pintar, mas, na sua opinião, a sua pintura era medíocre. Se os seus quadros não tinham técnica, se ela tinha razão em não se considerar uma artista, isso não sei, mas que tudo o que fazia tinha “alma”, que ela conseguia conversar através da sua pintura, isso dou como certo. E a prova disso é o retrato do João Carreira Bom que ela pintou um tempo depois de ele ter morrido, sem ter à vista nenhuma imagem dele, em que “o pincel só era movido pela saudade”. Essa exigência, que se estendia mesmo àqueles de quem ela mais gostava, deu-lhe a fama (às vezes com proveito) de ser uma pessoa de “mau feitio”, assim como a coragem e a força na defesa das suas convicções muitas vezes era confundida, justa ou injustamente, como teimosia. Não era uma pessoa de afetos, como se diz agora, não gostava de evidenciar fragilidades nem dependências, muitas vezes não sabia qual a melhor maneira de mostrar que se preocupava e que a sua amizade ou o seu amor eram incondicionais. Mas, quem privou com ela durante quase 50 anos, sabia perceber na maneira como se preocupava e falava dos que mais gostava, o filho Mário e os netos Frederico e Daniela, que o afecto existia, era enorme, mas não era para ser partilhado, vai-se lá saber porquê!

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A morte do João, a saída do Expresso e a sua crescente falta de mobilidade e de capacidade para guiar, fez com que a Mauperrin, uma amiga sem idade, passasse a sentir as duas décadas que nos levava de avanço. A pouco e pouco foi-se isolando, deixou de ir para a Ericeira como ela tanto gostava,

perdeu o gosto de se deslocar porque agora dependia de outros para o fazer; deixou de lhe dar prazer conversar com os seus amigos de sempre, porque começara a sentir que os seus interlocutores tinham projectos que já não estavam ao seu alcance e interesses que já não faziam sentido para ela. As nossas conversas, agora muito mais queixosas, vinham pelas longas chamadas telefónicas nocturnas ou por visitas que ela apreciava, mas que era incapaz de solicitar. Como sempre o que animava a conversa, e o que animava a Maria José era contar, com orgulho, do percurso dos netos. O Frederico de Carvalho, que se tinha tornado um informático de sucesso e que lhe resolvia todos os problemas com as novas tecnologias e a Daniela que se tinha formado com distinção ao mesmo tempo que viajava pelo mundo como hospedeira do ar. Morreu no dia 7 de Setembro de 2018, ia fazer 90 anos. Foi a primeira realizadora de rádio em Portugal. A rádio foi uma das paixões da sua vida, mas morreu sem gostar de rádio. Não ouvia rádio porque “se perdera a liberdade criativa”, “não havia espontaneidade”, “os realizadores eram escravos das audiências e das playlist que limitavam mais o alinhamento musical, do que a censura antes do 25 de Abril”. “Está tudo feito, agora só vamos gerir um computador”. “Pena terem morto os programas de autor. É desses que ainda nos lembramos hoje em dia” Não podia acabar uma conversa sobre a Maria José Mauperrin sem lhe dar voz, por mais controversa que seja, até porque me falta talento para escrever sobre ela e para contar as suas histórias. Só o faço porque, embora me falte talento sobram-me saudades e memórias. Até sempre Mauperrin.


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A Alquimia nos primórdios do conhecimento científico por Galopim de Carvalho

Na história do conhecimento que conduziu à mineralogia, no sentido de uma verdadeira ciência, há que dar o devido destaque à alquimia, trazida pelos árabes, seus cultores, sob a designação de “al kimia”. Surgida no extremo Oriente e chegada à Grécia através do Egipto, a alquimia teve, em Roma, a protecção de Calígula (12-41 dC), tendo-se espalhado, depois, pela Europa, incluindo, naturalmente, a Península Ibérica”. Importada muito provavelmente da China, com base em lendas que falam sobre o seu uso há cerca de 6500 anos antes, a alquimia, igualmente conhecida entre indianos, babilónios e egípcios, foi uma importante corrente de pensamento e uma prática na Antiguidade helénica e romana. Sobreviveu graças às traduções levadas a efeito por eruditos árabes e judeus, o que permitiu a sua reaparição na Europa medieval.

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Deixando a outros, com mais competência no conhecimento da História das civilizações orientais, a discussão sobre a origem da palavra “alquimia”, centremo-nos nos saberes nela praticados e desenvolvidos. Filosofia, astrologia, misticismo, religião e magia coabitaram com domínios do conhecimento que, não obstante muitos desvios fantasiosos, evoluíram para disciplinas científicas. No que se refere, por exemplo, aos primórdios da química e da metalurgia, os alquimistas tiveram de manipular e conhecer diversos minerais e, assim, também lhes devemos o pioneirismo na mineralogia. Foi um tempo em que não se fazia distinção entre pedras e minerais (situação que, aliás, se manteve até ao século XVIII) e em que se começou a questionar os conhecimentos vindos do Liceu de Atenas. O “Livro das Pedras”, de Aristóteles (384-322 a. C.) ensinava que as pedras (leia–se os minerais) nasciam por influência de certas “exalações” e por efeito de “virtudes petrificantes” (leia-se mineralizadoras) originárias do céu e dos di-

versos corpos celestes, entre os quais, o Sol tinha papel de destaque. Ficou na história o interesse dos alquimistas pela “pedra filosofal” (“lapis philosophorum”), tida por necessária à produção de ouro a partir de outros metais, como o cobre, o chumbo, o estanho, o ferro e outros, considerados inferiores. Outro histórico tema de interesse de muitos alquimistas foi a procura do “elixir da longa vida”, tido por uma panaceia universal que curaria todas as enfermidades e daria vida longa àqueles que o ingerissem. Há autores que defendem ter esta fantasiosa poção nascido quando Alexandre, o Grande, da Macedónia invadiu a Índia no ano 325 a. C. Segundo eles, este conquistador teria aí procurado a “fonte da juventude” e que essa ideia tenha migrado daí para a China. Segundo eles, terá sido aqui que se desenvolveu uma alquimia que se pensa estar ligada ao Budismo e que teria por principal objectivo descobrir o dito elixir, o mesmo que, ao que se julga, estaria relacionado com a fabricação do ouro. Muito tempo antes, na Índia, uma corrente de pensamento próxima do hinduísmo, conhecida por filosofia védica, explanada em textos religiosos em sanscrito (conhecidos por Vedas, datados de 1500 a.C.), estabelecia o mesmo paralelo entre a imortalidade e a obtenção do ouro. A um tempo no domínio das ideias e no da experimentação, a alquimia desenvolveu-se, depois, ao longo de séculos, na Mesopotâmia, no Egipto (com destaque para a cidade de Alexandria), no mundo islâmico, na Grécia, em Roma e, finalmente, no resto da Europa, especificamente, na Península Ibérica, através dos árabes, após a queda do Império Romano do Ocidente. Muito se tem escrito sobre domínios da alquimia ligados à religião, ao misticismo e à magia, três aspectos associados à ideia de


uma “Idade das Trevas”, expressão esta muitas vezes confundida com “Idade Média”. Trata-se de uma associação injusta que a História desmente, pois basta lembrar, entre muitos outros grandes mestres deste período, Avicena, Marbodus, Averrois, Tomás de Aquino, Alberto Magno, Roger Bacon, Buridan, Paracelso e as importantes obras que nos legaram. Deixando de parte as actividades místicas, ocultas e fantasiosas dos alquimistas, é indesmentível o carácter precursor da alquimia na ciência experimental, nomeadamente, na mineralogia, mas também na química e na metalurgia, três domínios dos saberes científico e tecnológico que evoluíram interligados, manipulando diversas espécies minerais, no propósito de obter novas substâncias. Entre os procedimentos nascidos e desenvolvidos na prática alquímica e ainda em uso nos laboratórios do presente, contam-se o aquecimento à chama e em banho-maria, a destilação, a combustão e a evaporação. Outras contribuições, não menos importantes destes estudiosos, incidiram nos campos da astronomia, da botânica e da medicina. Uns mais, outros menos, os alquimistas tiveram papel importante na construção do vasto e complexo edifício do conhecimento científico que temos ao nosso dispor. A obra que nos deixaram é, assim, algo que lhes devemos e muito. Os alquimistas aceitavam que a matéria era composta pelos chamados quatro elementos ditos de Aristóteles (a água, o fogo, a terra e o ar), passíveis de serem afectados por outros tantos atributos (o húmido, o seco, o frio e o quente). Aceitavam que combinações destes elementos e destes atributos, nas mais diversas proporções, determinavam a natureza dos objectos e, por isso, acreditavam na transmutação.

elemento químico muito usado pelos alquimistas, foi associado ao Diabo e ao Inferno. Foi um tempo em que a Igreja de Roma dominava o pensamento nas universidades europeias. Foi o tempo da Escolástica (do grego scolastikós, que quer dizer instruído), entendida como uma via de harmonização da razão com a fé, conduzindo a filosofia grega no interesse da teologia ou, por outras palavras, conciliando o pensamento de Aristóteles com a doutrina da Igreja, ou, ainda, harmonizando de forma sistémica a razão e a verdade da Fé. É, pois, razoável admitir que os alquimistas tenham tido necessidade de ocultar todo e qualquer comprometimento espiritual no seu trabalho. Há quem defenda que a tão divulgada procura de transformação de metais inferiores em ouro teria sido, para muitos alquimistas, uma metáfora da purificação espiritual em que a ignorância dava lugar à sabedoria. Simbolizando a transformação da sua própria espiritualidade de um estado inferior para um superior, a divulgação dessa parte do seu trabalho teria visando desviar as atenções do poder religioso relativamente ao trabalho espiritual que prosseguiam. Na sociedade do presente, rendida ao poder do dinheiro, “mais marcada pelo ter do que pelo ser”, as vozes dos alquimistas ecoam como um chamamento para o reencontro com o lado não material da vida. Para além do muito que se tem dito e escrito, a alquimia deixou-nos uma poderosa mensagem de busca pela perfeição.

Como foi norma na Idade Média, muitos alquimistas, mercê das investigações a que se dedicavam, correriam o risco de serem acusados de heresia e, como tal, serem perseguidos pelo Tribunal de Santo Ofício. Alguns deles foram julgados e condenados à fogueira por alegado pacto com Satanás. Por isso, durante muito tempo, o enxofre,

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O enxofre e o mercúrio, combinados no mineral cinábrio (sulfureto de mercúrio, de fórmula HgS) foram substâncias frequentes e importantes na manipulação alquímica. O enxofre era tido como o princípio masculino, fixo, activo, responsável pelas propriedades de combustão e corrosão dos metais. O mercúrio representava o princípio feminino, volátil, passivo.


Comunicar ou perecer por Luiz Garcia

Por que - mais do que nunca - a única espécie que domina a fala tem a urgência de aprender a se comunicar melhor

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Deus é o criador do caos e da confusão. Se Ele fosse um compulsivo por ordem e clareza, teria logo abortado algumas ideias até hoje controversas, como a dualidade, esse mundo de contrários em que nossos patriarcas foram mergulhados depois de um rápido estágio no Éden perdido, que parecia ser tão idilicamente simples quanto entediante. Vivemos hoje entre polos, transitando entre a fúria e a paz, o amor e o ódio, a inveja e a caridade, a doçura e a barbárie, o feio e o belo, o divino e o mundano. Para piorar, ele não dotou o homem - sua grande masterpiece - de capacidades inatas de comunicação pelo pensamento. Teve essa ideia de deixá-lo assim, primitivo, quase gutural, a depender de palavras para se fazer entender. Os humanos, à semelhança do Pai Criador, não deixaram por menos. Foram pródigos ao criar uma miríade de idiomas. Dissimulados, ainda inventaram uma história segundo a qual o próprio Deus Jeová teria insuflado a confusão de línguas como castigo pela petulância humana de tentar construir uma torre que os levasse mais facilmente ao céu. Desde esses tempos imemoriais, portanto, o homem convive com a dificuldade de se comunicar, mesmo entre aqueles que comungam a mesma língua. Não apenas porque palavras têm uma limitação intrínseca, pois jamais poderão encarnar todo o sentimento que as provoca. Por isso, não raro o silêncio é mais loquaz que a palavra. É quando a verdade escapa pelos poros e trai o verbo proferido, usado com habitual costume para encobrir o que borbulha na alma. Como esperar que haja comunicação verdadeira quando a palavra se presta para acobertar, ludibriar e falsear o que se movimenta sob a superfície de um semblante? A própria palavra está entregue à dicotomia deste mundo.

Ora é capaz de produzir o artístico e elevar o espírito na prosa de um Cervantes, ora se presta a infundir a mentira, o ódio, o fratricídio, o extermínio do diferente. Em defesa da palavra, é verdade dizer que ela pode filtrar o pior das intenções humanas. Se você pudesse sentir a acrimônia dos pensamentos do vizinho que você odeia e vice-versa, o desfecho de um encontro fortuito no elevador poderia ser trágico. Todo o sentimento de desafeição fica represado nas palavras, na seca saudação de um “bom dia”. Foi ao pensar nisso que me veio essa constatação de que, para o atual estágio da humanidade, a senciência seria desastrosa nas relações pessoais. A imperfeição humana não consegue conviver com a franqueza dos pensamentos. Casamentos naufragariam rapidamente ao primeiro e despretensioso pensamento de infidelidade do companheiro. A atmosfera de um escritório de trabalho - já habitualmente crivada de intrigas nas fofocas do cafezinho - se transformaria num inferno, com dardos mentais atirados de todos os lados. Igrejas não existiriam. Líderes religiosos sucumbiriam à luz de suas imperfeições, de suas ambições materialistas ou de seus desejos indecorosos, avessos à fé e ao modelo de perfeição que professam. Tudo desnudo e exposto pela apreensão imediata do pensamento. Nosso drama enquanto espécie é que, para não perecer numa guerra de moucos funcionais - que se ouvem, mas não se entendem -, a humanidade precisa melhorar a comunicação entre suas gentes. Comunicar, como sugere a palavra latina “comunicare”, propõe tornar algo comum, partilhar. Pressupõe haver um campo de intersecção, onde os diferentes dividem o que lhes é comum.


Traduzido para a dinâmica das relações pessoais, a mesma disposição é necessária. Pessoas que se antipatizam comunicam-se mal. Para haver comunicação, não basta que se diga algo a alguém. Do outro lado, é preciso haver ouvidos que acolham, uma mente que opere com a premissa de que as diferenças não desfazem nossas semelhanças. É claro que todo conflito é uma disputa de interesses que acaba por corromper o processo de comunicação. E se interesses sempre existirão, que esperança haverá de que as relações entre pessoas e nações poderão ser pacificadas? O que poderá garantir que os diferentes entrem em diálogo, desarmados e dispostos ao entendimento? A utopia é que os interesses sejam menos estreitos, menos egocentrados; que a criatura humana desenvolva, no frigir de seus padecimentos pessoais e coletivos, uma consciência mais universal, fundada na empatia pelo outro. Essa é a virtude suprema da comunicação. Porque empatizar com o outro é um movimento de encontro. Você está pronto para dialogar quando admite a existência e o valor de outras verdades, mesmo que delas discorde. Talvez a noção que melhor traduza o espírito propício à comunicação seja a do “ubuntu”, a filosofia de povos da África Subsaariana que propaga uma fraternidade compassiva, aberta ao encontro, sintetizada na expressão “sou o que sou graças ao que somos todos nós”. Está sentada na ideia de uma relação de intrínseca interdependência das pessoas. Ou seja, quanto mais cada um percebe a extensão de sua relação com o coletivo, mais ele se abre ao todo. Da mesma forma, invertidamente, indivíduos ou nações que se isolam, que se desconectam com o todo, desenvolvem uma visão de mundo distorcida. Vivem à sombra de fantasmas e inimigos. Alimentam neuroses e se enclausuram em suas próprias verdades, indispostos ao diá-

logo, incapazes de uma relação de empatia. Ameaçados, vão preferir o conflito. Isso nos faz pensar que comunicar não é tão-somente uma faculdade. Nos dias de hoje, quando o mundo se globaliza - apesar de ainda fragmentado -, comunicar-se tornou-se um imperativo existencial. Num passado remoto, num mundo separado por distâncias continentais, as diferenças podiam ser ignoradas, pois o contato rarefeito não dava margem à disputa de interesses. Hoje, num mundo interdependente, as nações enfrentam um dilema nesta bifurcação da história: ou se comunicam sob a bandeira de uma fraternidade transnacional, ou insistem numa experiência chauvinista, de nacionalismo excludente que contraria a condição humana. Ou a humanidade se reconhece espontaneamente como tal, ou terá de repetir-se, escolhendo o trauma dos conflitos e da dizimação para reduzir as resistências e construir um novo consenso, que eleja outra hierarquia de valores, na qual a vida humana - de qualquer humano - seja o princípio primeiro e incondicional, para o qual todas as sociedades finalmente queiram convergir. Até me permitiria um arroubo de otimismo sobre o futuro se não soubesse que a humanidade ainda parece preferir as tragédias. Ainda vivemos num mundo de moucos que só sabem falar para si mesmos. O nome disso não é comunicação. Isso se chama insânia.

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Quando vejo recentemente duas nações beligerantes e com mania de grandeza - como os Estados Unidos e o Irão - trocando grosserias e hostilidades, distingo aí um caso clássico de falta de comunicação. Embora seus governos tenham seus canais diplomáticos de conversação, não é isso a que me refiro. São cúpulas que não se comunicam, porque não buscam esse terreno de convivência e partilhamento. A grande verdade é que comunicar exige o que eu chamaria de uma “predisposição amorosa”. Não existe comunicação quando o outro está mais preocupado em permanecer na trincheira de sua própria verdade, abraçado ferrenhamente ao seu território de certezas e valores. Não está disposto a abrir espaço para explorar a humanidade que faz do outro um semelhante.


Professor Sobre Rodas Por uma sala de aula sem paredes

Ao completar 20 anos de docência em cursos superiores de Gestão do Conhecimento, Turismo, Hotelaria e Meio Ambiente aqui no Brasil, percebi que havia muito ainda por realizar, porém, quem sabe, em uma sala de aulas sem paredes.

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Havia que comunicar aos estudantes na faixa etária dos 16 aos 20 anos, sendo o professor que quero ser, outras formas de mediação com o mundo e, principalmente, inspirar o quanto fosse possível que meus ouvintes, alunos e alunas de toda a sorte de origens e meios, fossem além das estatísticas e perspectivas dadas. Havia que provocá-los a ir além do mundo dado. Enquanto professor, sempre busquei compreender os motivos do conhecimento se revelar mais e melhor em situações onde a emoção estivesse presente. Onde não havia emoção me parecia claro que não residia a percepção do outro, tampouco lá emergia a troca de saberes fraternal entre os diferentes. Tenho constatado que não existe aprendizagem, portanto, como a queremos na construção de um mundo com os outros, se não há amor ao ‘estranho’, o xenophilus. Porque, discuto com meus botões, é muito fácil e confortável amar a quem já se conhece.


Tais reflexões foram objeto de minhas intervenções em mais de 620 escolas públicas espalhadas em 7 estados brasileiros, desenvolvidas no formato de palestras. A proposição era a de provocar alunos e alunas com aquilo que aprendemos ao nos lançar pelos caminhos do mundo a bordo de minha bicicleta, sim, por esta ‘sala de aula sem paredes’ chamada vida. Tenho buscado emprestar essas reflexões em meus encontros dentro das salas de aula formais, pelo Brasil e Argentina, naquele projeto que veio a se chamar Professor Sobre Rodas. O Projeto Professor Sobre Rodas tem sido uma experiência ciclocidadã que leva às escolas e universidades, públicas ou privadas dentro e fora do país, reflexões sobre a promoção de uma aprendizagem baseada em experiências que a bicicleta me proporcionou, particularmente, em mais de 200.000 km pedalados em 10 anos. Decorrente destas minhas viagens de bicicleta pelo Brasil e exterior, busco levar provocações para que, aqueles jovens, conosco, já não tão jovens, possamos fazer escolhas plurais, capacitando-nos cada dia mais aptos à humana ‘com-vivência’, e não apenas ‘sobre-vivência’. Neste formato, o Professor Sobre Rodas já levou esta mensagem em palestras a mais de 75 mil pessoas no Brasil e Argentina, uma delas presenciada pelo Editor da Bica, o querido amigo João Moreira. Minha intervenção, enquanto Professor Sobre Rodas, também já foi acompanhada por milhares de pessoas nas páginas da Revista Bicicleta, nos programas televisivos Globo Esporte, Rede Minas e no site de informações da Globo, o G1.

Ao usar ou valer-se da bicicleta como veículo não violento, economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente responsável, encontramos à disposição toda uma nova maneira de atuar ou ser protagonista de uma ordem que se permite observar expressa nas paisagens, urbanas e/ou rurais. Nos percebemos sujeitos deste acontecer, mais coerente com a qualidade de vida que a grande maioria almeja, ou seja, uma qualidade possível a todos, uma simplicidade latente que busca virar expressão sobre rodas silenciosas, as quais não deixem rastros indeléveis. Este é o ideal perseguido pelo Professor Sobre Rodas: uma proposta de realidade onde professores e alunos, ambos aprendentes e brincantes, reconstruam seus universos, patrimônios e saberes, seus espaços de convivência, trabalho e frugalidade, reinventando-os e reinventandose. A ideia de ‹rodas› não se refere apenas ao uso da bicicleta como meio de intervenção nas comunidades por onde se passa. Um pouco mais para além da mera alusão, as rodas querem sugerir, em cada contexto, o ciclo. A vida é cíclica; o conhecimento é cíclico; a renovação social é cíclica; enfim, somos cíclicos. Bom, cabe-me dizer que o papel que escolhi para este cenário é o de servir como provocador destes estudantes, a causar-lhes o espanto e encantamento pelas imagens das cicloviagens que realizo, a despertarlhes a sensação tão especial que é sabermonos parte de algo maior e, que em algum lugar, alguém espera pelo melhor de cada um de nós.

Ao que nos é peculiar, alunos e alunas do ensino médio (secundário), público-alvo do projeto cá no Brasil, se encontram em um determinado momento de apatia em relação à sua participação enquanto cidadãos deste ‘mundo em construção’.

Observamos estes jovens tentando sobreviver às cidades cada dia menos humanas, sucumbindo à violência banalizada em todas as suas formas. E o que é que estamos comunicando a eles?

por Therbio Felipe M. Cezar

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E são eles e elas, a cada minuto mais, atropelados pela globalização, seus maniqueísmos (seu lado bom e seu lado não tão bom), pela informação fragmentada, individualismo e egocentrismo, o futuro da economia, do trabalho e do emprego, enfim, entre outros aspectos. Cobramos dos jovens respostas para questões que tampouco conseguimos responder satisfatoriamente.


A comunicação ao serviço das “Pessoas & Causas” por Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

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Isabella Simão, um dos “rostos” desta parceria. É uma das empreendedoras do projeto Nina Space, apoiado pela Casa do Impacto, o polo de inovação social da Santa Casa.


Algumas das Causas que a Santa Casa abraça diariamente foram testemunhadas na primeira pessoa por quem as viveu em várias reportagens publicadas durante dois anos no Diário de Notícias e na TSF, numa iniciativa de comunicação inédita e que procurou encontrar um modelo que fosse ao encontro dos interesses da Misericórdia de Lisboa e daqueles dois meios de referência no panorama informativo em Portugal. “Pessoas & Causas” foi precisamente o nome escolhido para esta parceria de comunicação que, semanalmente, foi dando a conhecer à opinião pública projetos, serviços ou respostas sociais da Misericórdia de Lisboa, contadas pelas pessoas que as fizeram e fazem acontecer ou por aqueles que beneficiam do seu apoio. Uma comunicação fundamental para sensibilizar os leitores e ouvintes para os desafios constantes com que a sociedade se depara e, ao mesmo tempo, para passar uma mensagem de confiança e de esperança, através do trabalho e das respostas dadas diariamente pela Santa Casa em diferentes áreas de atuação.

Estas reportagens publicadas no Diário de Notícias e reproduzidas em áudio na TSF (e em vídeo no site dedicado à iniciativa) conseguiram abranger quase todas as áreas de atuação da Santa Casa, traçando um retrato bastante fiel da diversidade de respostas de Saúde, Ação Social, Património, Economia Social, Investigação e apoio ao Desporto e Educação. Esta parceria culmina com a publicação de todas as reportagens num livro que servirá, certamente, de inspiração para novas Pessoas & Causas, uma vez que a missão da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa não se esgota naquelas 48 histórias.

Nos dois anos de parceria foram publicadas 48 histórias de inegável interesse editorial, pessoal e social e que brevemente serão editadas em livro. O projeto propunha-se chegar a uma audiência alargada, multiplicando-se pelas diferentes plataformas do Diário de Notícias e da TSF (papel, rádio e digital), permitindo um melhor entendimento por parte da opinião pública relativamente ao destino das receitas dos Jogos Sociais do Estado, nomeadamente sobre a percentagem que reverte para a Santa Casa e a forma como esta é aplicada na prossecução da missão da Misericórdia de Lisboa.

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Esta iniciativa editorial é um exemplo bem conseguido de comunicação, apresentando histórias trabalhadas num ângulo informativo, focado na experiência das pessoas e no interesse do leitor. A cada semana, ficaram a conhecer as caras e as motivações daqueles que trabalham diariamente em projetos tão diversos da Santa Casa e que não se resignam a uma atitude passiva, dedicando uma parte da sua vida a ajudar os outros ou a contribuir para projetos que beneficiam a comunidade. São pessoas que abraçam a suas causas e que sentem terem muito para dar, seja no apoio a crianças e jovens ou no auxílio a idosos e mais desfavorecidos, seja no impulso à investigação científica ou no fomento ao desporto e cultura nacionais, seja no estímulo à inovação social ou no incentivo ao empreendedorismo, entre tantas outras áreas.


Canal de comunicação por João Pedro Costa

O tema da revista é desta vez, como já se devem ter dado conta, a comunicação e, como em revistas anteriores e desejavelmente em números futuros, o que me proponho é relacionar o tema com o turismo. É minha convicção que, umas vezes encarado do ponto de vista de quem o pratica – a procura – ou de quem no destino cria as condições para a sua prática – a oferta – o turismo se pode relacionar com os mais diversos temas que possam aqui vir a ser propostos. O turismo é estudado nas mais diversas áreas do conhecimento. Reflete e é refletido no nosso quotidiano, particularmente naquele das sociedades capitalistas, de longe as mais envolvidas no processo. Se há nisso alguma dúvida, que o digam os chineses que, no seu estilo “um país dois sistemas”, se está mesmo a ver quais são os que visitam e são visitados.

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Não me interessa tanto o papel da comunicação no turismo aceitando de bom grado que se ela é importantíssima em todas as áreas de negócios, no turismo é ainda mais relevante. No turismo, como é o caso de outras atividades do setor dos serviços, é óbvio que só já na viagem ou no destino é que experimentamos as nossas compras e concluímos se acertámos nas opções que fizemos ou se, pelo contrário, fizemos um bom disparate. Melhor dizendo, o assunto interessa-me, e imenso, mas não hoje. Nos anos 90, Cuba, órfã da União Soviética com quem trocava petróleo por açúcar, mesmo troca por troca, fica a produzir o açúcar mais caro do mundo por larga margem. Na sua necessidade de obter


Não foi só o governo Cubano que viu com bons olhos esta dificuldade do convívio de cubanos com estrangeiros. O embargo a Cuba, ou o bloqueo, como mais apropriadamente lhe chamam os cubanos, uma vez que é o maior óbice ao seu desenvolvimento, não tem só como consequência impedir a saída de mercadorias. Ao proibir as importações cubanas, os EUA proíbem consequentemente a visita de americanos à ilha pois assim estariam a importar turismo. O governo americano, conforme bem se viu nas reações ao filme Sicko do Michael Moore, também não está nada interessado em que os americanos saibam e constatem com os seus olhos alguns aspetos da realidade cubana, nomeadamente que até um país tão pobre como Cuba pode garantir cuidados de saúde aos seus cidadãos. Não foram só os cubanos que beneficiaram do contacto com os turistas. Nós também. Exceção feita à música e a algum cinema, juntos no Buena Vista Social Club, e alguma televisão como a recente série policial Quatro Estações em Havana, da Netflix, e que os portugueses ainda puderam ver na RTP, seria preciso recuar ao filma Havana, do Sidney Pollack para ver imagens do Malecon (isto na distribuição mainstream, bem entendido). A série, do final de 2016, só possível pelo final do embargo resultante daquele aperto

de mão ente Obama e Raúl Castro, permite ver a Havana de hoje. Foi no entanto sol de pouca dura. (Como os democratas deixaram que se fosse de Obama para Trump é algo que não consigo entender!) Com a reintrodução do embargo a cancelar os acordos que a Google já tinha feito para a melhorar a rede de Internet do país, e, portanto, uma internet má e censurada, quem por qualquer razão particular ou apenas curiosidade quiser saber sobre Cuba, depende quase exclusivamente dos relatos dos turistas que vão a Cuba para a receber informação sobre esse país. No caso da Coreia do Norte é o Estado que promove a atividade turística. Precisa de receber as divisas (agora dólares ou euros) mas recusa-se a ter turistas à solta no país. É proibido andar sozinho, só se pode andar em grupo e com um guia de uma empresa que esteja credenciada para o efeito. Desta forma, o Estado pretende controlar a mensagem que os que os visitam venham a transmitir. Antes, apresenta uma encenação da política, da história e da sociedade que pretende projetar. Aqui não se trata da comunicação entre turistas e residentes, mas de comunicar internacionalmente uma determinada imagem de um país. O Irão, por oposição, ainda que tenha viagens turísticas organizadas, começou a ser visitado pelos mais afoitos em viagens individuais e por eles nos chegavam relatos de uma população culta, hospitaleira, afável e educada. Mais uma vez são os turistas que trazem informação de uma outra cultura, de uma outra sociedade. Aqui, de novo, aparentemente, por capricho, a atual liderança americana resolveu fazer das suas, afetando também o turismo. Os turistas não trazem só informação, também a levam, e estes não são exemplos únicos, mas ilustram bem como eles são um meio para a comunicação e esta é a parte indissociável da prática do turismo, da importância que pode ter para emissores e recetores, e do serviço que presta aos que se revêm no estilo de vida da sociedade ocidental.

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divisas (nesse tempo divisas significavam dólares) para fazer compras, especialmente energia, procura atividades económicas que possa exportar. Desde o início, duas delas, a medicina e turismo, ou turismo de sol e mar e turismo médico, se quiserem, foram apostas do governo cubano. Cria então uma moeda com paridade ao dólar, os pesos convertibles-CUC, medida que, a par com a proibição de os cubanos usarem dólares e frequentarem hotéis, restaurantes e outras estruturas e equipamentos construídos para o turismo, pretendia separar, no limite do possível, turistas e cubanos. A proibição do uso do dólar não durou muito tempo. Não era possível evitar a criação de um mercado negro e não podiam propriamente prender os cubanos todos. Enquanto pôde, Fidel Castro justificou essa proibição alegando que se destinava a proteger os cubanos dos vícios do capitalismo. Não obstante haver riscos – o da prostituição saltava logo à vista – e eles se tenham vindo a confirmar, não era apenas isso que ele pretendia evitar. Pretendia limitar o convívio entre cubanos e estrangeiros. Pretendia evitar que com esse convívio confirmassem e ampliassem o relato dos dissidentes cubanos. Era inevitável que as pessoas quisessem satisfazer a sua curiosidade e o governo queria que se estabelecesse o mínimo de comunicação possível entre o seu povo e os estrangeiros.


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No século XVI, houve perto de 70 guerras entre nações e estados da Europa. Os Dinamarqueses combateram os Suecos. Os Polacos combateram os Cavaleiros Teutónicos. Os Otomanos combateram os Venezianos. Os Espanhóis combateram os Franceses – e assim por diante, sem fim. Se houve uma constante nesse infindável conflito, foi a de que, na sua imensa maioria, os combates se deram entre vizinhos. Combatia‑se a pessoa que estava imediatamente do outro lado da fronteira, que sempre estivera imediatamente do outro lado da fronteira. Ou combatia‑se alguém que estava mesmo ao nosso lado: a Guerra Otomana de 1509 foi entre dois irmãos. Ao longo de toda a história do homem, os encontros – hostis ou não – raramente foram entre desconhecidos. As pessoas com quem nos encontrávamos ou combatíamos muitas vezes acreditavam no mesmo Deus que nós, construíam os seus edifícios e organizavam as suas cidades de mesma maneira que nós, combatiam as suas guerras com as mesmas armas e segundo as mesmas regras. Mas o conflito mais sangrento do século xvi não se ajustou a estes padrões. No confronto entre o conquistador espanhol Hernán Cortés e o soberano azteca, Montezuma II, que teve lugar na cidade de Tenochtitlan, a 8 de novembro de 1519, nenhum dos lados sabia fosse o que fosse acerca do outro. Cortés era adolescente quando atravessara pela primeira vez o Atlântico, 15 anos antes, primeiro até Hispaniola (o que hoje são a República Dominicana e o Haiti) e depois até Cuba, onde enriqueceu e ganhou proeminência. Em fevereiro de 1519, reuniu um pequeno exército e atravessou o golfo do México até à península de Iucatão, penetrando depois lentamente para o interior, avançando sobre a capital azteca de Tenochtitlan. Quando os Dinamarqueses combatiam os Suecos, ou os Espanhóis combatiam os Franceses, ambos os lados conheciam o país do inimigo quase tão bem como o seu próprio. Mas nunca um europeu antes pisara o México. Era território virgem. Quando chegou a Tenochtitlan, Cortés ficou pasmado. Era uma visão extraordinária – muito maior e mais impressionante do que qualquer das cidades que Cortés e os seus homens teriam conhecido em Espanha. A cidade ficava numa ilha, ligada por pontes ao continente e cruzada por canais. Tinha avenidas grandiosas, aquedutos elaborados, mercados florescentes, templos construídos num resplandecente estuque branco, jardins públicos e até um jardim zoológico. Era imaculadamente limpa, o que, para alguém criado na imundície das cidades da Europa, terá parecido quase miraculoso. «Quando vimos tantas cidades e aldeias construídas sobre a água e outras grandes cidades em terra firme, ficámos deslumbrados e dissemos que era como que um encantamento», recordou um dos oficiais de Cortés, Bernal Diaz del Castillo. «E alguns dos nossos soldados chegaram a perguntar se as coisas que víamos não seriam um sonho?... Não sei como descrevê‑lo, a visão de coisas das quais nunca ouvíramos falar, que nunca víramos antes e que nem sequer sonháramos.» Os espanhóis foram recebidos às portas de Tenochtitlan por uma assembleia de chefes aztecas e levados depois a Montezuma. Este era uma figura de uma grandeza quase surreal, transportado numa liteira bordada a ouro e prata, enfeitada com grinaldas de flores e ouro e pedras preciosas. Um dos seus cortesãos avançava à sua frente, varrendo o chão. Cortés desmontou do seu cavalo. Montezuma foi descido da sua liteira. Cortés, como espanhol que era, adiantou‑se para abraçar Montezuma, mas foi detido pelos ajudantes de Montezuma. Ninguém abraçava Montezuma. Em vez disso, os dois homens fizeram uma reverência um ao outro. «Não sedes ele? Não sedes Montezuma?»

Ali estavam duas culturas vastamente diferentes, de dois continentes, frente a frente pela primeira vez. Cortés nada sabia dos Aztecas, a não ser que o deslumbravam a sua riqueza e a extraordinária cidade que tinham construído. Montezuma nada sabia de Cortés, a não ser que avançara sobre o reino azteca com grande audácia, munido de estranhas armas e com grandes e misteriosos animais – os cavalos – que os Aztecas nunca tinham visto até então. É para admirar que o encontro entre Cortés e Montezuma tenha fascinado os historiadores ao longo de tantos séculos? Nesse momento – há 500 anos – em que pessoas como Cortés começaram a cruzar os oceanos e a empreender ousadas expedições em territórios previamente desconhecidos, surgiu uma nova espécie de encontro. Cortés e Montezuma tinham de ter uma conversa, mesmo que nada soubessem um do outro. E como se processou essa conversa? Não foi da maneira que acabo de contar. Montezuma só falava nahuatl, a língua dos Aztecas. Cortés falava espanhol. Cortés levara consigo dois tradutores. Um era uma mulher índia chamada

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Montezuma replicou: «Sim, sou ele.»


Malinche, que fora capturada pelos espanhóis uns meses antes. Sabia nahuatl e maia, a língua do território mexicano onde Cortés iniciara a sua viagem. Cortés tinha também consigo um padre espanhol chamado Geronimo de Aguilar, que naufragara no Iucatão, fora capturado pelos maias e aprendera maia durante a sua estadia com eles. De modo que Cortés falava em espanhol a Aguilar. Aguilar traduzia para maia a Malinche. Malinche traduzia de maia para nauhatl a Montezuma e, quando Montezuma respondia: «Sim, sou ele.», a longa cadeia de traduções fazia o caminho inverso. O género de intercâmbio cara a cara com que cada um deles vivera toda a vida tornara‑se de súbito irremediavelmente complicado.* Cortés foi levado a um dos palácios de Montezuma – um lugar que Aguilar descreveria mais tarde como contendo «incontáveis quartos, antecâmaras, salas esplêndidas, colchões com grandes cobertas, almofadas de cabedal e fibra de árvore, bons edredões e admiráveis vestes de peles brancas»10. Depois do jantar, Montezuma juntou‑se de novo a Cortés e aos seus dez homens, e fez um discurso. A confusão instalou‑se imediatamente. Da maneira que os espanhóis interpretaram as observações de Montezuma, o rei azteca estava a fazer uma assombrosa concessão. Achava que Cortés era um deus, o cumprimento de uma antiga profecia que dizia que uma divindade exilada regressaria um dia do Oriente. E, em resultado disso, estava a render‑se a Cortés. Pode imaginar‑se a reação de Cortés: aquela magnífica cidade era agora efetivamente sua. Mas era isso o que Montezuma queria realmente dizer? O nahuatl, a língua dos Aztecas, tinha uma linguagem cerimoniosa. Uma figura real como Montezuma falava numa espécie de código, de acordo com uma tradição cultural em que os poderosos projetavam o seu estatuto através de uma falsa humildade muito elaborada. A palavra para «nobre» em nahuatl, assinala o historiador Matthew Restall, é quase idêntica à palavra para «criança». Ou seja, se um soberano como Montezuma falava de si mesmo como pequeno e fraco, estava a chamar subtilmente a atenção para o facto de que era estimado e poderoso. «É óbvia a impossibilidade de traduzir adequadamente uma tal linguagem», escreve Restall: O orador era muitas vezes obrigado a dizer o contrário do que realmente queria dizer. O verdadeiro significado estava embutido no uso da linguagem de cerimónia. Despido desses matizes na tradução e distorcido pelo uso de múltiplos intérpretes… não só era improvável que um discurso como o de Montezuma fosse exatamente entendido, mas era provável que o seu significado fosse virado de pernas para o ar. Naquele caso, o discurso de Montezuma não era de rendição; era a sua aceitação de uma rendição espanhola. É provável que ainda se lembrem, das aulas do liceu, de como acabou o encontro de Cortés e Montezuma. Montezuma foi tomado refém por Cortés e, depois, assassinado. Os dois lados entraram em guerra. Pereceram cerca de 20 milhões de aztecas, quer às mãos dos espanhóis diretamente, quer, indiretamente, vítimas das doenças que eles tinham trazido consigo. Tenochtitlan foi destruída. A surtida de Cortés no México introduziu a era de uma catastrófica expansão colonial. E introduziu também um padrão novo e distintamente moderno de interação social. Hoje em dia, somos permanentemente forçados ao contacto com pessoas cujas pressuposições, perspetivas e antecedentes são diferentes dos nossos. O mundo moderno não é o de uma pugna entre dois irmãos pelo domínio do Império Otomano. E o de Cortés e Montezuma a debaterem‑se para se entenderem através de várias camadas de tradutores. Falar com Desconhecidos é sobre as razões por que nos saímos tão mal nesse ato de tradução.

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*A ideia de que Montezuma considerava Cortés um deus foi totalmente desacreditada pela historiadora Camilla Townsend, entre outros. Townsend sustenta que foi provavelmente um mal‑entendido derivado de os Nahua usarem a palavra «teotl» para se referir a Cortés e aos seus homens, que os espanhóis traduziram por «deus». Mas Townsend sustenta que só usaram essa palavra porque «tinham de chamar aos espanhóis alguma coisa e não era de todo claro o que deveria ser essa alguma coisa… No universo nahua tal como existira até esse ponto, uma pessoa era sempre rotulada como sendo de uma certa aldeia ou cidade‑estado ou, mais especificamente, como alguém que preenchia um determinado papel social (cobrador de impostos, príncipe, criado). Aquela gente nova não cabia em parte nenhuma.»


Cada um dos capítulos que se seguem é dedicado a compreender um aspeto diferente do problema dos desconhecidos. Terão ouvido falar, decerto, de muitos dos exemplos– são tirados das notícias. Na Universidade de Stanford, no Norte da Califórnia, um aluno do 1.º ano chamado Brock Turner conhece uma mulher numa festa e, ao fim da noite, há qualquer coisa que corre terrivelmente mal. Na Universidade do estado da Pensilvânia, descobre‑se que o antigo treinador‑adjunto da equipa de futebol, Jerry Sandusky, é culpado de pedofilia, e que o presidente da escola e dois dos seus principais assistentes foram cúmplices dos seus crimes. Vão ler sobre um espião que esteve anos sem ser detetado nos mais altos escalões do Pentágono, sobre o homem que deitou abaixo o gestor de fundos Bernie Madoff, sobre a falsa condenação de Amanda Knox e sobre o suicídio da poetisa Sylvia Plath. Em todos estes casos, as partes envolvidas recorreram a um conjunto de estratégias para traduzir as palavras e intenções umas das outras. E em todos os casos, alguma coisa correu muito mal. Em Falar com Desconhecidos, quero compreender essas estratégias – analisá‑las, criticá‑las e perceber de onde vieram, averiguar como consertá‑las. No fim do livro, regressarei a Sandra Bland, porque há qualquer coisa nesse encontro à beira da estrada que não deveria sair‑nos da cabeça. Pensem em como era difícil. Sandra Bland não era uma pessoa que Brian Encinia conhecesse da vizinhança ou do fundo da rua. Isso teria sido fácil: Sandy! Estás boa? Para a próxima vez, tem um bocadinho mais de cuidado. Em vez disso, temos Bland de Chicago e Encinia do Texas, um é homem, outra é mulher, um é branco e a outra é negra, um é polícia e a outra um civil, um está armado e a outra desarmada. Não se conheciam. Se fôssemos mais cuidadosos enquanto sociedade – se estivéssemos mais dispostos a entregar‑nos a alguma introspeção sobre como abordamos e entendemos os desconhecidos –, ela não teria acabado morta numa prisão do Texas. Mas, para começar, tenho duas questões – dois enigmas a respeito de desconhecidos – a principiar por uma história contada há muitos anos por um homem chamado Florentino Aspillaga, numa sala de interrogatórios alemã.

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Excerto da introdução do livro «Falar com Desconhecidos: O Que Devemos Saber Sobre As Pessoas Que Não Conhecemos», de Malcolm Gladwell. Edição Dom Quixote.


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Imaginar o Imaginárius Por José Paulo Néry

Desde muito novo sempre adorei fotografia. Sobretudo fotografar. A acção. “Fotografar” é algo que, confesso, me transporta para outro local. O que quero fotografar, como, qual o melhor ângulo, a melhor luz? O estruturar e combinar todas estas variantes é, para mim, quase terapêutico. Quando a “Vício das Letras”, o espaço cultural de Santa Maria da Feira, me lançou o desafio de seleccionar algumas fotos das diversas edições do Imaginárius, para aí expor, claro que aceitei de imediato, e assim nasceu este conjunto de imagens. Em todos nós existe um imaginário, em Santa Maria da Feira há, anualmente, o Imaginárius. Festival Internacional de Circo de Rua e eu não falto. Imaginar o Imaginárius é a minha pequena contribuição para este evento, talvez a retribuição de tão bons momentos que aí passei a fotografar.

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“gosto sobretudo de me misturar, de sentir o ambiente, só assim vivo o que fotografo”.


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José Alberto Ribeiro

Palácio Nacional da Ajuda por João Albuquerque Carreiras

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O Palácio Nacional da Ajuda é, hoje, o único Palácio Real de Lisboa aberto ao público. A história da sua construção daria um belo argumento para um filme de época, ou melhor, de épocas. Ao projecto inicial, traçado por Manuel Caetano de Sousa, a pedido de D. João VI, sucedem vários outros projectos, alguns iniciados e nenhum deles concluído, chegando até hoje incompleto. Espera-se que agora, com as obras de instalação do Tesouro Real, seja finalmente dado o remate final a este edifício. Na sua vida atribulada, foi residência real permanente de D. Luís, D. Maria Pia e seus filhos D. Carlos e D. Afonso, personagens que dominam o percurso expositivo do museu, que alberga uma magnífica colecção de artes decorativas. Conversámos com José Alberto Ribeiro, Director do Palácio Nacional da Ajuda, sobre o passado, o presente e o futuro deste emblemático palácio de Lisboa.


Estou no Palácio da Ajuda como director desde 2013. Antes, estive sete anos como director da casa Museu Anastácio Gonçalves, que é uma casa bem mais pequena, mas que tem em comum o facto de ser também uma residência histórica. São ambiências diferentes dos museus ditos mais tradicionais, no sentido da apresentação ao público, porque as residências são normalmente um contentor cheio de objectos que têm uma magia diferente e que estão relacionados com as figuras que ali passaram e viveram. No caso do PNA, tem sido um esforço e um trabalho conjunto de equipa para mudarmos também a própria linguagem e comunicação que o Palácio tem com o exterior. Durante muito tempo, o palácio apresentou-se sempre como o maior museu português de artes decorativas, o que é um facto, mas de há uns anos para cá apresentamo-nos como o único Palácio Real em Lisboa que hoje é um museu, e isso faz toda a diferença em relação ao público que nos procura. O trabalho também tem passado muito pelo restauro de algumas das salas – possível pelo o apoio de grandes mecenas, como a Fundação Millenium BCP ou a Fundação BONTE – onde procuramos trazer a maior autenticidade possível do palácio em finais do século XIX, inícios do séc. XX, a partir de inventários que existem desses períodos. O Palácio tem a particularidade de só ter sido aberto ao público em 1968 e há um grande período - entre o final da monarquia e abertura ao público (e não é uma abertura ao público como nós a temos hoje, havia acessos condicionados) – em que que o Palácio foi muito mexido e saíram daqui muitos objectos.

O que aconteceu nessa altura ao Palácio? O Palácio esteve fechado, apesar de na Primeira República terem usado o andar nobre do palácio para a realização de jantares e visitas oficias de estado, porque pelas suas dimensões – e pela Sala dos Banquetes e as Salas de Aparato do andar nobre – se prestava isso. Tal como na monarquia, pois mesmo depois da morte de D. Luís – que é quem vive aqui de uma forma permanente, com a Rainha D. Maria Pia – quer com D. Carlos, quer com D. Manuel II, o andar nobre é utilizado para cerimónias oficiais. Os cumprimentos do Ano Novo ao corpo diplomático ou os banquetes realizados durante visitas de chefes de estado, algo que a Primeira República vai continuar a fazer, tal como o Estado Novo e o actual regime. Este museu tem esta característica única de ser, também, até hoje,

uma casa de representação de poder. Nós somos um Museu Nacional, fazemos parte da Direcção Geral do Património Cultural, mas o palácio tem utilização do Senhor Presidente da República para cerimónias. A Sala dos Banquetes faz parte do percurso de visita, mas é uma sala cuja utilização é exclusiva do Presidente da República, há essa coabitação também em algumas salas para cerimónias de estado, por exemplo a tomada de posse de cada novo governo é na Sala dos Embaixadores. O palácio foi a residência privada de monarcas portugueses, mas também foi pensado para ter salas de representação de poder, não era um palácio como o da Pena, por exemplo, que era um palácio de recreio, foi pensado também para ter salas de recepção de homónimos e de outros chefes de estado ou delegações que visitassem o país.

Como é que se consegue gerir a coabitação de um museu com as funções de estado? Porque não é só usar as salas para as cerimónias, com todo o aparato em volta, há questões de segurança. Como é que se consegue compatibilizar tudo isso? Não é fácil, mas não é impossível e acima de tudo é preciso ter em conta o seguinte, a nossa função aqui é facilitar. As cerimónias não são nossas, são da Presidência da República, organizadas com um protocolo de estado a que nós damos todo o apoio que nos pedem, como facilitadores. Sendo também de ter em conta que uma cerimónia desta envergadura nunca é marcada com uma semana de antecedência, há sempre uns meses de antecedência, há visitas preparatórias. Ou seja, tudo o que temos marcado para esse dia, alguma conferência, algum evento, tentamos desmarcar. Penso que só uma vez, nestes anos todos, é que tivemos que desmarcar qualquer coisa porque, obviamente, a Presidência da República tem precedência. Acabamos por dar muito apoio a essas cerimónias, um trabalho não visível do museu, porque isso não é uma actividade museológica.

Isso acaba por manter o palácio como uma coisa viva, mantendo uma função para o qual ele foi pensado. Eu costumo dizer que o PNA foi criado para ser não só uma residência real, mas para ser uma casa de poder, de representação de poder. E continua a sê-lo porque continua a ser usado pelos governantes e pelo Presidente da República.

A maior parte da colecção não está exposta, por este não ser um museu, mas uma casa museu, chamemos-lhe as-

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Como é que o seu destino se cruza com o Palácio Nacional da Ajuda (PNA) e como descreveria o Palácio Nacional da Ajuda (PNA) a quem não o conhece?


sim, ou seja, está mais pensado não na perspetiva de um museu de colecção, mas sim de mostrar a vida do próprio espaço, o que implica que muitas coisas não possam estar expostas, mesmo que o acervo seja bastante grande. Como é que gerem esse acervo? Nós trabalhamos numa colecção muito grande, pois temos mais de 100 000 objectos inventariados, em que primeira preocupação é a inventariação e a conservação dessas peças. Depois temos o objectivo de mostrar acervos novos ou menos conhecidos ao público, através de algumas exposições temporárias e outros programas de apresentação de partes da colecção. Por exemplo, tivemos, pouco tempo depois de eu cá chegar, uma exposição dedicada aos vidros de Murano da colecção da Rainha Maria Pia, onde mostrámos algumas das melhores peças da colecção. Fizemos uma exposição sobre a obra artística da Rainha Maria Pia, não só como aguarelista, mas também como fotógrafa, e isso foi uma novidade que se apresentou aqui no palácio, pois os próprios técnicos não tinham a noção da quantidade de desenhos e aguarelas que havia da rainha, e foi um estudo muito interessante. No ano passado, tivemos uma exposição com o apoio da embaixada do Japão, do Institutos de Estudos Diplomáticos e de um mecenas, a FUJITSU Portugal, que se chamava Uma História de Assombro. Portugal - Japão Relações diplomáticas Séculos XVI-XX, onde nós mostrávamos essas relações diplomáticas a partir do acervo do PNA. Aliás, uma das imagens da exposição é precisamente uma armadura de um cavalo e de um guerreiro japonês, objectos que foram oferecidos ao Rei D. Luís, em 1862, numa das primeiras embaixadas a ocidente depois da reabertura do país, que visitou vários países da Europa e um dos quais foi Portugal, onde deixaram essas peças que nunca tinham sido mostradas ao público e para tal foram restauradas.

Muitas dessas peças nem caberiam no percurso expositivo, tal como ele está pensado.

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O cavalo e o guerreiro, como tivemos pena de os esconder já, estão neste momento na antecâmara da sala chinesa e quem visitar o palácio pode ver essas peças magníficas. Tem que se perceber que esta casa, como disse, também era uma casa de família, temos as compras de objectos da Rainha Maria Pia e do Rei D. Luís (que era um coleccionador), que felizmente compraram muito, e muito chegou aos dias de hoje, fazendo parte do património nacional português. Mas também há peças que vêm de um lastro anterior de heranças da família real.

Essa era a minha curiosidade, obviamente que as peças do Palácio não se restringem do Século XIX para a frente, apesar do incêndio da Real Barraca e do terramoto há-de ter sobrado com certeza alguma coisa anterior. Muito estará em Vila Viçosa, mas ainda chegou alguma coisa anterior ao século XIX? Sim, aliás o grande bloco de colecções da família Real está dividido entre Vila Viçosa e o PNA, havendo peças dispensas em Queluz, em Mafra e nos dois Palácios da vila de Sintra, mas nada se compara em termos de volume com o que existe de colecções no PNA. As exposições temporárias servem precisamente para isso, fazer novos estudos, mostrar peças que de outra forma é impossível ir mostrando. Também as reconstituições das salas permitem mostrar algumas peças que, entretanto, percebemos que estavam numa determinada sala, voltando ao seu local original.

Ou seja, o percurso expositivo não é estático. Não, e isso também acontece com a colecção, que não é uma colecção fechada, no sentido em que sempre que aparecem no mercado peças de interesse para o palácio elas são, dentro do possível, adquiridas. Aconteceu com peças que eram do PNA e foram vendidas na primeira República, ou com peças que a Rainha D. Maria Pia tinha deixado ao Banco de Portugal como garantia bancária dos empréstimos. Nós temos hoje um centro de mesa da casa Veyrat – que foi presente de casamento do Rei Vitor Emanuel à filha por ocasião do seu casamento –, que comprámos em 2014, e que tinha sido uma das peças que a Rainha tinha dado como garantia bancária e apareceu no mercado. Sempre que aparecem peças que de alguma forma ajudem a completar o discurso do que nós temos, ou peças de conjuntos que por alguma razão das divisões entre palácios ficámos com menos ou um prato, ou o copo ou uma outra peça. Embora nos apareçam também, por vezes, propostas completamente absurdas. Pelo facto de ser um antigo Palácio Real as pessoas às vezes pensam que nós estamos interessados em comprar tudo o que tenha a ver, mas isso não faz sentido, apenas nos interessam peças que nos ajudem a ter uma melhor leitura da colecção ou do percurso expositivo, ou que tenham, de facto, pertencido ao PNA.

O percurso está muito centrado em quem mais tempo morou no palácio, D. Luís e D. Maria Pia. Estas são as personagens do enredo?


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Sim, D. Luís, D. Maria Pia e os filhos que aqui viveram, D. Carlos e D. Afonso (que viveu aqui até 1910), são as personagens principais do enredo da história que aqui se conta. Embora nós tenhamos a preocupação no discurso de visitas de falar sempre de outras pessoas que passaram por cá, inclusivamente neste momento há uma antecâmara no piso térreo que fala precisamente das pessoas que passaram por cá e que viveram cá desde D. João VI até ao fim da monarquia.

Passando para os dias de hoje, gostava de lhe perguntar o que vai acontecer na nova ala que vai, finalmente, rematar o palácio. O que nos pode contar sobre as “jóias da coroa”? O projecto é da Direcção Geral do Património Cultural, do arquitecto João Carlos Santos, (Subdirector da DGPC), e tem um financiamento da taxa de turismo de Lisboa. A colecção é na sua totalidade do PNA à qual chamamos de Tesouro Real – porque “jóias da coroa” é um segmento dentro deste Tesouro Real – e é a equipa do PNA, assessorada por consultores científicos, que está a fazer o projecto museológico para colocar naquela ala. Vai ser um remate da colecção do PNA, porque todas as peças são da colecção, ou foram herdadas ou compradas. Os dois edifícios vão ser independentes (apesar de estar pensado um bilhete conjunto para visitar a residência real e o tesouro) por questões de segurança, porque este novo edifício é sobretudo uma caixa forte, e é dentro dessa caixa forte que vai ser mostrada a colecção, portanto vai ter condições de segurança raras em Portugal.

A maioria das peças também é do século XIX? Não, temos também peças mais antigas, como o maior conjunto de prata de aparato do mundo, formado por 23 salvas de aparato do século XVI, que nunca estiveram expostas. Vai ser um acontecimento e mesmo quem é estudioso desta área tem apenas uma noção do que existe, vai ser uma surpresa porque a colecção é muito grande e é de muito boa qualidade.

Qual é a previsão de abertura ao público?

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2021, as obras estão a decorrer a bom ritmo.

Houve um projecto para o eixo Ajuda-Belém que aparentemente caiu. Não há neste momento nada pensado para trabalhar este conjunto? Pergunto isto porque tenho sempre a noção de que

a Ajuda, estando literalmente ao lado dos Jerónimos e da zona de Belém, tão falada e visitada, é às vezes injustamente esquecida, talvez pela distância desta calçada (da Ajuda), que afinal não é assim tão grande. Há bilhetes conjuntos – há um que se chama inclusivamente a Calçada Real –, mas neste momento, que eu saiba, politicamente não está agilizado nenhum projecto nesse sentido. Eu estou convencido que depois da abertura do Tesouro Real poderemos ter alguma intervenção nesse sentido, até porque neste momento a calçada está cortada de um lado e o palácio está de mais difícil acesso, apesar de termos tido um crescimento de visitantes. Quando houver o Tesouro Real e a Calçada da Ajuda for totalmente circulável, de certeza havendo uma maior procura, não só do ponto de vista do turista individual, como dos operadores turísticos, a própria câmara obviamente terá interesse, haverá certamente mais carreiras e uma necessidade maior de não tirando o fluxo turístico lá de baixo, o expandir. Em vez de estarem tanto tempo lá em baixo para entrar no Mosteiro dos Jerónimos, vêm aqui e depois vão lá, portanto é uma questão de gestão desses fluxos turísticos e estou convencido que isso vai melhorar.

Espero que sim. Eu sei que os fluxos turísticos são assim e as pessoas vão directas ao ponto, mas há tanta coisa para ver, o PNA, o Jardim Botânico e outros locais que podiam estar eventualmente abertos ao público, e é uma pena os turistas ficarem a sobrelotar completamente os Jerónimos e a Torre de Belém com filas às vezes impossíveis. Presumo que aqui não tenham esse problema? Não temos, mas um dia lá chegaremos. Esperemos.

Tenho ideia de que este é dos palácios mais interessantes para o público jovem, o que é que o palácio tem no seu serviço educativo? Nós temos uma mini-equipa de serviço educativo e depois trabalhamos com voluntários e com empresas, com quem temos protocolos e que realizam visitas aqui ao Palácio. Posso dizer que é uma dessas empresas com quem nós trabalhamos que mais sucesso tem junto dos mais pequenos, a visita chama-se A Rainha mostra o Palácio, em que aparece uma senhora, que é muito qualificada para fazer as visitas, vestida de Rainha Maria Pia e faz a visita aos miúdos e eles entram no cenário completo da figura da rainha qua anda pelo palácio a mostrar as coisas.


Para os miúdos, quer se queira quer não, o imaginário dos reis, das rainhas e das princesas ainda existe e existirá sempre porque faz as pessoas sonharem, as miúdas sonham todas em ser princesas. Essas actividades têm sempre muito sucesso, e é um público que tem vindo a crescer.

disso o palácio tinha 50 mil, 70 mil visitantes. Desde então para cá temos andado sempre acima dos 100 mil, entre os 100 mil e os 120 mil. No ano passado houve um pequeno decréscimo de visitantes, que foi geral em todos os museus e palácios, e que acho que teve a ver com um decréscimo no turismo.

O PNA está envolvido no projecto Google Arts, gostava que me falasse um pouco sobre isso, o projecto parece ser interessante e ainda não está a ser muito divulgado em Portugal.

Temos andado por esses números e espero que venham a crescer porque temos muita potencialidade para crescer muito mais.

O projecto Google Arts é um projecto da Direcção Geral do Património Cultural (portanto não é um projecto do palácio) de disponibilização de imagens de alta resolução das colecções permitindo ao visitante, a partir destas imagens, ver em casa uma obra com uma proximidade e uma qualidade excepcional no ecrã do seu computador. Também permite criar exposições virtuais, o que como forma de divulgação junto do público é muito interessante.

Em relação ao público, que é sempre difícil de atrair, como é que tem sido a evolução do número de visitantes nos últimos anos?

Uma última pergunta. A nível de programação do museu, o que está a acontecer e o que vai acontecer? Neste momento, estamos a preparar uma grande exposição, em colaboração com o Museu da Presidência da República, que será dedicada à Rainha D. Maria II, e que decorrerá para o ano. Teremos também uma exposição mais pequena, mas interessante, a partir de uma colecção privada de gravuras sobre a dança de corte no século XIX. Conto também ter uma exposição sobre relíquias reais, relicários e tudo o que tenha a ver com esse universo, com peças nossas e de uma fundação privada. Para além disso teremos a habitual programação de congressos, conferências e concertos.

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Há aqui um fenómeno pelo meio que é a exposição Joana Vasconcelos, que teve 250 mil visitantes e foi um sucesso extraordinário, com uma grande produção com a Everything is New, mas foi um caso excepcional. Antes


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Sob o Manto da

NOSSA SENHORA

Colecções de Arte Russa em Portugal

por Irina Marcelo Curto

A exposição apresenta ícones russos de temática mariana dos acervos do Museu Nacional Grão Vasco em Viseu (legado Ana Maria Pereira da Gama) e do Museu Municipal dos Condes de Castro Guimarães em Cascais (legado Pedro Vieira da Fonseca. As representações icónicas da Virgem no calendário da Igreja Ortodoxa Russa atestam a presença de 860 diferentes iconografias, fruto de intensa veneração de um povo que crê que o Seu manto o protege, mesmo em épocas dramáticas. Este poder devocional é lembrado em crónicas, novelas, narrações, e em serviços litúrgicos que glorificam os ícones da Senhora. Ao Cristianismo, religião oficial instaurada no século X, associou-se também, oriunda de Bizâncio, a teologia do ícone. A Igreja venera-os não só como ilustração das Santas Escrituras mas como procedimento para atingir a revelação divina. Por isso chamam-se aos ícones “teologia em cores”. A Fé dirigida à Virgem tornou-se traço identitário da consciência religiosa russa; a integridade do Estado, desde a independência, uniu-se à imagem da Virgem. Muitas igrejas são dedicadas aos tipos de ícones marianos e às festas que lhe são consagradas. Entre as peças expostas vemos as Senhoras de Vladimir, Kazan, Tikhvin e Smolensk. Tais ícones remetem para as cantigas litúrgicas, a veneração da Virgem Protetora da toda a humanidade, os ícones Manto da Senhora e os que ilustram passos da vida terrena da Virgem.

Núcleo I -- Vida terrena de Nossa Senhora Os Evangelhos de São Mateus e São Lucas aludem à vida de Nossa Senhora. A

tradição da Igreja, os escritos apócrifos e o Proto Evangelho de Tiago afirmam que São Joaquim e Santa Ana eram um casal idoso, descendente de David. Após o milagroso nascimento de Maria, consagraram-na ao serviço no Templo. Escritos apócrifos falam do noivado com José e da vida modesta em Nazaré. O Novo Testamento inicia-se com o anúncio do arcanjo S. Gabriel e regista o papel de Maria em eventos da vida de Jesus, da Natividade à Ascensão. Segundo os textos canónicos, está presente nas Bodas de Caná e no passo da Dolorosa no Calvário. Os textos, canónicos e apócrifos, atestam a humildade e perfeição de Maria. Os passos da vida terrena são comemorados nas festas anuais: Nascimento da Virgem, Apresentação no Templo, Anunciação, Nascimento de Jesus e Assunção. A cada celebração coincide uma iconografia que reflete a liturgia do dia, o que torna os ícones marianos polissémicos pelas múltiplas particularidades simbólicas. Já na iconografia bizantina a vida da Senhora origina um tipo de composição de ícones, em que este pregava a mesma verdade que o Evangelho: a imagem não só ilustrava o texto como correspondia ao seu ponto de vista dogmático. Qualquer cena da vida de Maria identificava-se com a realidade sacralizada, que decorre fora do tempo e do espaço, sem futilidade ou dispersão, prolongado pela Eternidade.

Núcleo II -- Antigo Testamento e imagens simbólicas da Virgem Se a história da vida terrena de Maria começa com a Natividade da Virgem, em Nazaré, o destino divino da Mãe de Deus encontra-se em todos os livros do Velho Testamento. As profecias vetero-testamentárias dos ícones com a vida da Senhora tiveram grande in-

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Introdução


fluência na simbologia das imagens cristãs. Papel específico assume a ilustração dos livros do Velho Testamento, como o Livro dos Salmos, onde se citam as profecias sobre Maria. A difusão da iconografia da Sarça Ardente liga-se ao texto do Livro do Êxodo que relata a visão de Moisés ao surgir-lhe a sarça, de onde Deus Pai falou com Moisés, que simboliza a Virgem, que dará à luz Jesus Cristo. Evocação de uma das profecias do Velho Testamento é a Virgem do Livro de Isaías que diz: O Senhor mesmo vos dará um sinal: a Virgem ficara grávida e dará à luz um filho, e chamá-lo-á Emanuel. As palavras de Isaías estiveram na base de uma das tipologias da Senhora com o Menino – a Virgem do Sinal. Na iconografia bizantina e russa encontra-se a Virgem da Abençoada Fonte de Vida. O protótipo foi um ícone célebre em Constantinopla, cuja composição evidenciava a sua dependência face aos textos do Velho Testamento. Nos textos dos Patriarcas da Igreja, a Senhora é chamada fonte da vida que nunca se esgota, bem-aventurança do Espírito Santo que mata a sede das almas. Por isso o ícone Virgem da Abençoada Fonte de Vida representa a Mãe de Deus dentro de um cálice, emergindo de um manancial de água da vida que cura os doentes. A comparação de Maria como Casa Verdadeira de Cristo com a imagem do Templo onde se inscreve a Sabedoria Divina tem origem em passagens do Velho Testamento como o Livro da Sabedoria (de Salomão). Tais passagens também falam das profecias sobre a encarnação do Verbo – um dos mais importantes dogmas do cristianismo –, lidas nas festas da Senhora.

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Núcleo III -- Imagens de Nossa Senhora na liturgia e a iconóstase russa Não é possível falar das imagens de Nossa Senhora sem ter em conta a sua ligação com a missa. Cada ícone tem conteúdo litúrgico concreto e coincide com um momento da missa ortodoxa. A designação de alguns está ligada à liturgia, celebração do sacramento da Eucaristia. Na Igreja Ortodoxa considerava-se como ícone mais importante a Alta Iconóstase russa, onde se distribuem vários temas, separando o espaço do altar e revelando aos fiéis a essência do sacramento. Três portas, as do centro chamadas Portas Régia, davam ao sacerdote acesso ao espaço sagrado. Cada nível da iconóstase demonstrava a história e o caminho de Deus. Através da Alta Iconóstase uniam-se a Igreja do Céu e a Igreja Terrena e a Virgem atingia a divindade perfeita no contexto artístico-simbólico da iconóstase. As portas centrais da iconóstase (Portas Régias) mostravam sempre a Senhora, a Entrada da Salvação.

De um e outro lado das Portas Régias expunham-se ícones da Senhora e de Jesus, transmitindo a ideia de que assim se abre o Reino dos Céus. A distribuição dos ícones no iconóstase é sempre hierarquizada: forma um sistema de símbolos que reflete o caminho da salvação e perfeição espiritual. Acima das Portas Régias encontra-se a Déesis (do grego, “oração”, “súplica), onde Cristo Pantocrator, Juiz Soberano, rodeado da Senhora e São João Baptista, os arcanjos, Apóstolos e Profetas, enfatiza um papel mediador. Por isso, o Déesis, ao destacar ao centro Cristo, a Senhora e São João, evoca o Juízo Final e expressa o simbolismo do iconóstase com significado litúrgico, chamando à oração, contrição e arrependimento.

Núcleo IV -- Ilustração de cânticos de veneração de Nossa Senhora Surgida na época bizantina, a poesia litúrgica atingiu ponto de desenvolvimento nos séculos VIII-IX. Os cânticos e hinos litúrgicos dedicados à Senhora foram compostos por São Romano, o Melodista (fim do séc. V e início do VI), pelo teólogo, poeta e compositor São João Damasceno, e por Cosme Mayumsky (séc. VIII). Um dos cânticos para glorificar a Senhora é o Acatisto (em grego akáthistos, “que não está sentado»), cantado em pé. O Acatisto à Mãe de Deus é cantado na missa especial no sábado da quinta semana de Grande e Santa Quaresma. Calcula-se que o Acatisto foi criado nos sécs. V-VI por São Romano, o Melodista. Lugar especial entre os ícones que ilustram os cânticos tem a Senhora Pokrov ou do Manto Protetor de Nossa Senhora. A razão de ser desta iconografia foi a criação na Rússia da celebração Pokrov (1 de outubro), desconhecida na prática bizantina, que decorreu sob tutela do príncipe André Bogolubsky ao erguer um novo centro religioso nas cidades de Vladimir e Suzdal, sob proteção da Senhora. Mais tarde, a celebração ultrapassou o principado de Bogolubsky e passou a ser celebrada em toda a Rússia. O ícone baseia-se no texto de Santo André Yuródiviy (sécs. IX-X), traduzido para russo nos sécs. XI-XII, e narra o milagre da aparição da Virgem na Igreja de Vlaherne em Constantinopla onde se guardava a casula da Virgem. Durante a missa, Santo André Yurodiviy e o seu aluno São Epifânio viram a Senhora, rodeada de anjos e São João Evangelista e São João Baptista, a lançar o manto de proteção sobre os fiéis. Na exposição mostram-se três versões da Senhora Pokrov (MNGV). O ícone Pokrov (MNGV Inv. 3219) representa a narrativa mais fiel à versão de Novgorod. Em cima, a Senhora, em pose de orante, paira sobre as Portas Régias e transporta o véu branco. Em


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baixo, como testemunhas do milagre, Santo André e Santo Epifânio. Acima da Virgem, os arcanjos Gabriel, Miguel e Rafael. Na parte inferior, São Romano o Melodista, poetas de hinos da Igreja bizantina. Na criação desta iconografia terá havido influência da cerimónia semanal de levantamento do véu do ícone da Senhora de Vlaherne, conhecida dos peregrinos russos desde o séc. XII. Núcleo V -- Imagens de Nossa Senhora em ícones mais conhecidos e venerados

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Segundo a lenda, as primeiras imagens da Virgem Hodegetria devem-se ao Evangelista S. Lucas: o retrato da Senhora viria a inspirar todas as imagens posteriores do mesmo tema. Não por acaso, S. Lucas pintando a Virgem foi largamente usado na arte bizantina e na Rússia antiga e, também, na pintura católica, sobretudo após a Contra-Reforma. A Igreja sempre atribuiu grande importância às imagens da Virgem e prova disso é a festividade do Triunfo da Ortodoxia, celebrado no primeiro domingo da Grande e Santa Quaresma, que de modo particular enaltece os ícones no contexto ortodoxo. Os ícones mais importantes nesta celebração são os de Mandylion de Cristo e da Virgem Hodegetria. A variedade das representações da Theotokos (Mãe de Deus) reduz-se a poucas composições anteriores à perseguição iconoclástica (726-787) e ganha nova vida com o restabelecimento do culto das imagens (Concílio de Niceia, 787). Uma das mais antigas imagens bizantinas considera-se ser o ícone Orante, com a Virgem em posição frontal, erguendo as mãos em receção da encarnação do Verbo Divino. No peito mostra um disco ou auréola luminosa, abençoando Jesus (Emanuel) com a mão direita. As primeiras representações conhecidas datam do séc. IV, generalizando-se a partir do séc. VI a partir de Constantinopla. Na Rússia, a este subgrupo pertence o conhecido ícone da Virgem do Sinal de Novgorod. Na exposição destacam-se versões da Virgem do Sinal (MNGV Inv. 3224; MNGV Inv. 3180; Virgem Znamenie, MCCG-PVF 15). A iconografia de Virgem Entronizada é majestosa e tem expansão em toda a Cristandade, desde Constantinopla. Era-lhe aliás, dada posição central nas igrejas bizantinas, como em Santa Sofia. Pertence ao subgrupo de Panacranta, (Senhora Toda Misericordiosa). O ícone mais conhecido do subgrupo é a Senhora Vsetsaritsa, ou Monarca do Todo (séc. XII), no Mosteiro Votaped, no Monte Athos. Na Rússia, a iconografia de Virgem Entronizada é mais conhecida através da Mãe de Deus Kievo-Pecherskaya (MNGV inv.3156). O terceiro subgrupo é o da Eleousa ou Umilenie, conhecida como Virgem da Ternura, em

que o Menino abraça a Mãe. O ícone mais relevante é a Mãe de Deus Vladimirskaya (da cidade de Vladimir, de onde recebe o nome), considerada protetora da Rússia. Deste subgrupo destacam-se as peças: Senhora Vladimirskaya (MNGV inv.3153), Mãe de Deus Feodorovskaya (MNGV Inv.3240) e Virgem Pochaevskaya (MCCG-PVF 2). Esta última peça (MCCG) está datada (1883) e foi pintada no Mosteiro da Assunção da Santíssima Virgem de Pochaevsk. É importante, do ponto de vista histórico, por coincidir com a coroação do Imperador Russo, Alexandre III e da Imperatriz Maria Feodorovna. Um grupo mais vasto dos ícones exposto, a Virgem com o Menino designada Theotokos Hodegetria (literalmente Mãe de Deus que mostra o Caminho) é a iconografia mais solene e divulgada na ortodoxia russa, assumindo profundo significado teológico e simbólico. Existem variantes, sendo a Mãe de Deus representada a meio corpo, em busto ou a corpo inteiro. Mais comum é a Virgem representada a meio corpo com a cabeça ligeiramente inclinada para o Menino e conduzindo o olhar do espectador para Seu filho, “Caminho da Salvação”. Jesus abençoa com a mão direita (e, outras vezes, com o rolo das Escrituras). Considera-se que esta iconografia remonta a uma antiga imagem oriunda do Mosteiro Hodegon, de Constantinopla. Expõem-se várias peças desta categoria, como os ícones Mãe de Deus das Três Mãos (MNGV Inv. 3147), Mãe de Deus da Bênção do Céu (MNGV Inv. 3291), Mãe de Deus Iverskaya (MNGV Inv 3171), Virgem de Smolensk (MCCG-PVF 3) e Virgem de Tikhvin (MCCG-PVF 4).


Museu Grão Vasco Sob o Manto da Nossa Senhora

por Odete Paiva*

O Museu Nacional Grão Vasco inaugurou a exposição temporária “Sob o Manto de Nossa Senhora - Coleções de Arte Russa em Portugal.” Esta exposição constituiu-se a partir da coleção de ícones do Museu Nacional Grão Vasco, legada por Ana Maria Pereira da Gama e do Museu Municipal dos Condes de Castro Guimarães, legada por Pedro Vieira da Fonseca, assim como obras pertencentes às coleções das Santas Casas da Misericórdia de Viseu, São Pedro do Sul e Santar. A exposição é dedicada às imagens icónicas da Virgem Maria, que integram o calendário da Igreja Ortodoxa Russa e evoca cerca de 260 imagens de Nossa Senhora. Esta exposição integra também objetos devocionais de uso pessoal, nomeadamente ícones portáteis, pendentes e medalhões. O povo russo sempre venerou a Virgem e crê que o Seu Manto continua a protegê-lo.

O resultado foi o sucesso da Virgem do Manto, acolhedora de papas, imperadores, reis, cardeais, bispos, frades, nobres, burgueses e mendigos, num momento em que o Reino se expandia e a primeira globalização mundial acontecia. O processo documental referente à conservação e restauro de alguns dos ícones em exposição está também disponível.

*Directora do Museu Nacional Grão Vasco

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Expõem-se também representações da Senhora da Misericórdia, frequente na arte portuguesa desde o início do séc. XVI, com recurso a uma iconografia com características nacionais e pressupostos ideológicos que as relacionam com a ação das novas Casas de Misericórdia. O modelo criado prolongou o culto das Confrarias e Hospitais do Santo Espírito, comum no final da Idade Média, incorporando o Modelo da Senhora da Conceição.


“Um Rei e Três Imperadores” em São Roque por Santa Casa da Misericórdia de Lisboa Para celebrar os 20 anos da transferência de poderes em Macau, os 40 anos do estabelecimento de relações político-diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China e os 450 anos da fundação da Santa Casa da Misericórdia de Macau, o Museu de São Roque organizou a exposição “Um Rei e Três Imperadores. Portugal, a China e Macau no tempo de D. João V”. Esta exposição, em exibição até Abril, tem Jorge Santos Alves como Curador e pretende mostrar as relações luso-chinesas na sua dimensão global, centrando-se na primeira metade do século XVIII – um dos períodos mais intensos e relevantes do relacionamento entre Portugal e a Europa, e a China. Este período coincidiu, em boa parte, com o longo reinado de D. João V (1706-1750) em Portugal e com os reinados de três imperadores chineses – Qing - Kangxi (16621722), Yongzheng (1723-1735) e Qianlong (1736-1795) – e é revisitado nesta exposição através de mais de 50 peças que mostram o modo como se processou a aproximação e o conflito entre os dois reinos. A exposição “Um Rei e Três Imperadores” organiza-se em quatro núcleos, divididos fisicamente na Galeria de Exposições Temporárias do Museu de São Roque.

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O primeiro núcleo, O Tempo do Diálogo: D. João V e os Qing, é especialmente dedicado à dimensão político-diplomática. Esta fase corporizou-se com o envio da embaixada do imperador Kangxi a D. João V, em 1721, protagonizada pelo jesuíta António de Magalhães, e depois retribuída em 1725 pela embaixada de Alexandre Metelo de Sousa e Meneses ao sucessor e filho de Kangxi, o imperador Yongzheng. O final do reinado de D. João V assistirá, ainda, aos preparativos da última das grandes embaixadas portuguesas à corte dos Qing e que terá Qianlong como visado. O segundo núcleo, Negócios, Sociedades e Companhias: o tempo do chá e da porcelana, trata da dimensão comercial-marítima do relacionamento entre a Europa e a Ásia (Macau, Costa do Coromandel e Bengala). As mercadorias chinesas (seda, porcelana

e, cada vez mais, o chá, em boa parte comprados com prata amoedada ou em lingotes) eram crescentemente desejadas nos mercados europeus e nas colónias europeias, levando a novos hábitos de consumo e a novidades na cultura material quotidiana. O terceiro núcleo, O Tempo dos Fascínios, Intercâmbios e Tensões, foca-se na dimensão cultural, cientifico-tecnológica e religiosa. Para além da cooperação científica, na qual pontificavam os padres-cientistas jesuítas, houve ainda a introdução na China da mais moderna tecnologia europeia (artilharia, relógios de mesa e primeiros relógios de bolso, instrumentos musicais e autómatos). Neste tempo, a religião cristã passava por um conturbado e aceso momento de debate interno, na chamada Questão dos Ritos, que dividia tanto a China, como a própria Europa. O quarto e último núcleo, Macau. O Tempo dos Novos Tempos, ocupa-se da dimensão de Macau, porto internacional de comércio. Macau viveu, na primeira metade do século XVIII, um tempo de reajustamento à dinastia Qing e ao aumento do controlo burocrático e político sobre a cidade, o que fez com que tivesse de se ajustar aos novos concorrentes europeus, nos mercados chineses e asiáticos em geral. “Um Rei e Três Imperadores. Portugal, a China e Macau no tempo de D. João V” estará em exibição até ao dia 5 de abril de 2020, e possui peças pouco conhecidas do público e outras que serão mostradas pela primeira vez.


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Viagem a Mundocau* por João Amorim*

Em Mundocau o jogo era muito mais que o sustentáculo dos obscuros domínios, muito mais que o tentacular (a)braço omnipresente nas veias e nos tecidos do microcosmos envolvente. Mais do que bengala do poder, o jogo era, em Mundocau, um estado de alma. Era deste estado que derivavam todos os outros, sem excepção. Em Mundocau, aliás, não havia propriamente um poder, mas uma multiplicidade deles, em inter-relações permanentes. E do jogo das inter-relações, nos emaranhados novelos dos dias e das apostas, iam resultando as decisões, as leis e as acções. Todos sabiam também que em Mundocau a lei era sobretudo e apenas o símbolo de um poder supostamente unificado, ainda que repartido. Assim como que um trunfo mais sobre o tapete verde ou aquilo a que, nos casinos propriamente ditos, se chama a mesa ou a banca. Mundocau podia, portanto, com uma certa dose de imaginação e outra igual de realismo, ser comparada a um casino integral, funcionando sem quebra, 24 horas em cada 24. Os contornos do dia e da noite esbatiam-se, para os jogadores mais contaminados, envolvidos na infinita sucessão de lances, perdas e ganhos, recuperações e alívios ou derrotas devastadoras.

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Só o cansaço, vencendo o corpo por algumas horas, dava origem à cadência das vagas à volta da grande mesa a que Mundocau se assemelhava. Sem esquecer, claro, o jogo que passava por debaixo da dita mesa. Embora grande parte dos jogadores apostasse individualmente, tomando em conta a sorte ou azar e os lances dos outros parceiros, os grandes apostadores das salas reservadas ou salões VIP representavam grandes organizações que espalhavam os seus peões um pouco por toda a parte, onde quer que se abrisse uma banca.

Ilustração Adalberto Tenreiro

Os croupiers tinham a marca indelével dos muitos anos de experiência que lhes davam uma pose indistinta, mas de elevada craveira profissional. Recolhiam as perdas dos jogadores, sem piedade ou emoção, em amplos abraços sobre a mesa e faziam a redistribuição dos lucros com impávida rapidez, sugerindo persuasivamente o montante das gorjetas. Mundocau prosperava, pois para isso se vocacionara à saída da Idade Média de onde surgira com atraso de séculos, quando comparada com padrões europeus. Mas em Mundocau os padrões europeus eram, quando muito, referências elas sim exóticas com que os recém-chegados faziam as primeiras medições com a subtileza de um bando de trogloditas interpretando Mozart. Mundocau era, também, um lugar onde a velocidade de substituição dos seres e das coisas atingia os níveis e desníveis impressionantes de uma bolsa de valores em tempo de especulação. Na medida em que o espaço escasseava, acotovelavam-se os agentes das forças e interesses em presença. Até a cidade em si se renovava num ritmo tal que tornava fugaz a visão debitada pelos bilhetes postais comprados pelos turistas. O dragão adormecido da ponte ligando Mundocau a Tai Pan simbolizava, com a sua forma simples e bela, o espírito, o estado de alma da própria cidade. Sobretudo à noite, quando vista de Tai Pan, a cidade, Mundocau, com os alinhados perfis dos postes de iluminação e as luzes dos hotéis e das ruas, irradiava uma extrema beleza e quietude onde se escondia, no entanto, a crua verdade dos jogos que se prolongavam pelas noites, e o submundo da geração dos excedentes. Mundocau não era povoada apenas por jogadores. Se assim fosse o capital, unidade


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equivalente usada ao tempo, e a sua reprodução em espiral no progresso entrevisto das belas declarações, não se faria à velocidade desejável.

Tudo o que se sabe é que ali se produzia com base na unidade chamada dúzia, palavra que ficou do tempo dos bárbaros que ocuparam Mundocau por mais de quatro séculos.

Havia um outro mundo, sobre o qual se exercia o domínio do mundo do jogo no sinuoso amplexo de mil braços e ventosas que sugava as vivas entranhas dos seres que o habitavam trabalhando sem horário.

Apesar de tudo isto Mundocau inspirou não só a poesia dos poetas como a de outros ramos das pré-ciências antigas, tais como a economia, a sociologia e a culinária, bem como essa nobre arte dos nossos antepassados – a política.

Era neste submundo de Mundocau que se viviam os pequenos grandes dramas do quotidiano e se produziam os lucros necessários ao financiamento de uma grande parte das apostas. Limitada no espaço de chão, que as autoridades mandavam conquistar ao mar como quem espalha manteiga numa torrada, a cidade crescia sobretudo em altura, e com ela crescia também a ambição dos jogadores. Os elevadores andavam à cunha e eram muitos os voos e as quedas aparatosas, como a do operário em construção atrapalhando o tráfego, já de si caótico, da cidade e das ideias. A cidade era, nestas condições, a de mais alta densidade de tudo por quilómetro quadrado, fosse qual fosse o indicador tomado em consideração. Porém, a cidade não era apenas o limitado espaço que a continha. Como que em resposta a esta condenação imposta pelos homens e pela natureza, Mundocau influenciava e disseminava-se por meio outro mundo. Habitantes, produtos, jogadores do interior e do exterior mantinham em funcionamento um permanente fluxo de trocas, de tudo, veiculadas por uma complexa rede de comunicações e de influências, de contratos, sedes e fomes. Era tal a circulação de e para Mundocau que as suas infraestruturas rebentavam já pelas costuras, levando à necessidade de rapidamente se edificarem novos portos e aeroportos para o tráfego das coisas e das gentes, já que o capital, esse, viajava geralmente incógnito ou invisível, via telex ou satélite, idos que eram os gloriosos tempos das malas pretas de couro e efeitos decisivos.

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Do submundo dos submundos de Mundocau apenas nos deixaram os cronistas breves referências, assim como essências desperfumadas. Julga-se que os que conheceram esse compartimento da memória oculta da cidade não deixaram registos decifráveis por razões a que ao tempo se chamavam especificidades e que até aos nossos dias não foi possível compreender.

* Nota do autor: Esta crónica foi escrita em Junho de 1987 e lida aos microfones da Rádio Macau. Continua perfeitamente ‘actual’. * Vogal do Conselho de Administração da Fundação Oriente


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The show must go on O início do fim do Sabotage? por Pedro Martins*

As luzes começam a acender-se. Hugo e António, os técnicos de som, correm freneticamente de um lado para o outro, enquanto os Thee Eviltones se preparam para fazer o soundcheck. Tiago, o único português desta banda de Nottingham, faz soar o seu baixo, sob o olhar atento de Carlos, um dos proprietários do Sabotage. Como é habitual, nada pode falhar nesta casa do rock de Lisboa, que aguarda pela ordem de despejo. Carlos não esconde a sua tristeza: “Se fechar, este espaço vai fazer falta à capital. É possível que já não estejamos aqui quando esta reportagem sair”.

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O histórico clube de rock’n’roll da Rua de São Paulo, no Cais do Sodré, teve a sua génese em 1999, a partir da mente de três pessoas: Carlos, Zé Maria e Paula, de seus sobrenomes Costa, Sousa e Flores. Nesse ano nasceu a Sabotage Records, que distribuía os álbuns e vinis editados pela Zounds, dos mesmos três proprietários. Carlos vendia os discos, Zé Maria produzia e organizava os concertos e Paula tratava da contabilidade, já que essa era a sua profissão e “apenas estava no mundo da música por paixão”, como a própria afirma. As dificuldades surgiram dez anos depois. O advento do streaming e do Youtube tornou o negócio da produção discográfica inviável. Zé Maria relembra quando o público começou a chamar quem comprava os discos de “otários”, contentando-se com os downloads dos álbuns. Nas palavras de Paula, “havia músicos para promover, mas os discos não vendiam”. Muitos desconhecem onde muitas das bandas que hoje enchem o Primavera Sound e o Paredes de Coura começaram a sua presença em terras lusas. “Toda a gente adora Black Angels, Devendra Banhart e LCD Soundsystem, mas não sabem que fomos nós quem começou a distribuí-los em Portugal”, afirma a contabilista.

Fast Eddie Nelson e muita cerveja As dificuldades nunca os detiveram. O Lisboa Bar, na Rua do Carmo, do qual Carlos fora proprietário em 2004, inspirou Zé Maria a abrir um espaço de concertos, com “música ao vivo e onde houvesse contacto com as pessoas”. Imaginando um Studio 54 à lisboeta, após ver o filme de Mark Christopher sobre a histórica discoteca norte-americana, Zé Maria iniciou a procura de um espaço. Os percalços surgiram logo no início, a começar pelos “balúrdios que os proprietários pediam pela renda”, relembra Paula. Após três longos anos, o número 16 da Rua de São Paulo surgiu como uma luz no fundo do túnel. Carlos relembra o espaço “abandonado há 19 anos”, onde Zé Maria encontrara as paredes “cheias de teias de aranha e as mesas ainda com o menu do dia”. As más condições não os fizeram desistir. Carlos olhava à sua volta e sentia “o poder do rock’n’roll naquelas paredes negras”, o mesmo poder que causara “o friozinho na barriga” de Zé Maria e o fizera constatar: “este é o espaço”. “Quando entramos pensamos: não é perfeito, mas dá para ter um palco, para ter um bar, para ter um backstage”, relembra a contabilista. O nome que Zé Maria escolhera para a distribuidora por eles detida no passado serviu como uma luva na sua nova casa. Inspirado pelos sabots, os sapatos usados pelas operárias francesas do século XIX para impedir a produção industrial, o título representava um ato de transgressão. “Queríamos romper com o convencional, surpreender as pessoas, daí o nome Sabotage”, afirma Paula. Após o licenciamento para local de concertos e o investimento de mais de 50 mil euros feito na renovação do espaço, a inauguração aconteceu a 30 de abril de 2013. Carlos e Paula não escondem o riso ao relembrar “a correria para comprar as bebidas” para


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Fotografia de Pedro Roque

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Fotografia de Pedro Roque


Amor ao rock’n’roll O trabalho continuou nos seis anos após a abertura. Carlos sempre se preocupou “em alimentar o clube com programação semanal”. Após os concertos, o Sabotage está aberto como discoteca, mas a prioridade continua a ser “dar aos músicos novos um local onde possam emergir”, avisa Paula. Carlos olha para os cartazes que preenchem as paredes do seu escritório, nostálgico com as “1001 bandas” que já atuaram naquele espaço. Desde Pop Dell’Arte a The Parkinsons, desde Sinistro a Bizzarra Locomotiva, desde Bed Legs a Besta ou a 10000 Russos. São estes os nomes que o público vê, ignorando os funcionários deste espaço. “Toda a gente envolvida com isto trabalha bastante! Todos dão o litro, desde a equipa técnica à malta do bar ou ao porteiro”, aponta Carlos. O ainda distribuidor de discos da Clean Feed Records recorda “os ordenados modestos” recebidos pela equipa. “Toda a gente aqui trabalha por amor à música, por amor ao rock’n’roll”, afirma. Grupo francês compra o edifício do Sabotage - A ganância do Engenheiro Queirós As más notícias chegaram no início de 2019. A Mainside, empresa proprietária do imóvel onde o Sabotage se encontra, resolveu vendê-lo ao grupo francês Keys Asset Management. Os investidores gauleses pretendem transformar o edifício num hotel, que ficaria incompleto sem um restaurante. 25 anos depois, o número 16 da Rua de São Paulo vai voltar à sua utilização original. Zé Maria usa a ironia para disfarçar a sua indignação. “Mais um restaurante no Cais! Realmente há poucos, não é?” A onda gentrificadora que atingiu a capital nos últimos anos está a engolir os espaços noturnos do Cais do Sodré. As rendas sobem para preços impossíveis de comportar. “Meio milhão de euros por um armazenzito! Achas que alguém consegue pagar isso?” vocifera Carlos. A procura de um espaço tem ocupado o tempo do trio nos últimos meses. Mas um

espaço com rendas comportáveis e as condições necessárias tem sido difícil de encontrar. A Câmara Municipal surgiu como uma possível benemérita, mas o pedido de ajuda não deu resultado. Paula lembra-se de ouvir um dos assessores do vereador da Cultura afirmar “o quanto este espaço é importante para a cidade” e “quão mau será perdê-lo”. “Nós somos agentes privados, mas prestamos um serviço público”, relembra Zé Maria. Mas no final, ninguém ajuda a arranjar um espaço. As suspeitas de o arrendamento em 2013 ter tido como único objetivo a renovação do espaço sem encargos para a Mainside não desaparece. O espaço estava “completamente podre”. Os proprietários do Sabotage devolvem-no após a renovação e a Mainside não gastou um cêntimo. Terá sido este o seu plano desde o início? Talvez nunca se venha a saber a resposta. A Mainside é detida pela família Queirós de Carvalho, encabeçada pelo engenheiro José Queirós Carvalho. Trata-se do mesmo proprietário da Pensão Amor e do LX Factory. Este dono do Cais adquiriu os imóveis degradados nos anos 90, enquanto ainda trabalhava na autarquia alfacinha. Agora que o vendeu ao grupo francês, os seus inquilinos enfrentam uma ordem de despejo. Carlos tenta manter-se otimista, mas o fim anunciado do seu espaço continua a preocupá-lo. Subitamente, o som dos Asimov faz-se ouvir, como se alguma divindade do rock’n’roll lhe dissesse para não desistir. A banda de rock psicadélico prepara-se para começar o seu concerto. Fábio, José e Daniel, mais conhecidos como Freezer, Zé e Dilúvio colocam-se na primeira fila, prontos a assistir à atuação deste Sábado. Carlos observa o espetáculo enquanto brinda com um rapaz à sua direita e o rock’n’roll soa durante a madrugada.

*Estudante de Jornalismo e Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

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a abertura e os avisos a todos os amigos. Como nenhuma inauguração pode abdicar de animação e álcool, o público teve direito a imperiais gratuitas, enquanto apreciava as guitarradas do barreirense Fast Eddie Nelson. A casa estava cheia, não surpreendendo a contabilista. “Havia cerveja à pala! Claro que veio toda a gente!” relembra entre risos. Depois de uma perda sucessiva de locais de espetáculos, a cena rock lisboeta renascia através deste bar.


Rua Alegre Almirante Reis - A pé pelo mundo todo por Marta Gonzaga

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A passar no Ramiro, uma voz brasileira robótica canta os números dos “próximo cliente”. Um sistema de senhas, multilingue, substituiu os nomes apontado num caderno e trouxe alguma organização ao caos da espera do restaurante mais famoso da avenida. Um homem carrega em várias teclas de uma caixa multibanco na esperança que por sorte lhe saia qualquer coisa. Um “espanhol” aborda-me a pedir indicações para a rua Vicente Borga, que fica na Madragoa. Diz-se perdido, sem rede e pede se pode usar o meu telemóvel para pesquisar a morada. No supermercado Chen, vendem-se especialidades e especiarias africanas, tailandesas, chinesas e japonesas. Olho para o chão e encontro dez euros. Nunca é igual a passagem por esta avenida e aconselha-se o uso atento de todos os sentidos.


Nessa altura, os dentistas arrancavam muitos dentes e, no geral, os portugueses só iam ao dentista em dor, no limite. Na época, não era preciso muito para se decidir arrancar e a ordem de espera alterava-se também de acordo com o desespero dos pacientes. A Almirante Reis ficava a algumas paragens de metro da nossa casa e era um destino para ir e vir sem desvios. Anos mais tarde, quando já saíamos à noite, contávamos histórias da insegurança nesse bairro, a evitar, e de como uma amiga tinha sido “salva” de assédio masculino por prostitutas, “deixem a menina!! Para isso estamos cá nós”. Costumo entrar na Almirante Reis pelo cruzamento da rua de Angola e virar à esquerda na direção do Martim Moniz. A partir dali a experiência nunca é igual e os prédios, lojas e restaurantes que começam e acabam obras e que mudam de negócio, estão a aumentar a um ritmo alucinante. Hotéis que servem brunchs elegantes ao lado das lojas de tecnologia dos paquistaneses, que são vizinhos das mercearias dos bangladeshianos, que por sua vez estão coladas às joalharias dos indianos, junto aos supermercados de chineses, que vendem produtos de toda a Ásia. Com tantas mudanças de bairros, era inevitável acabar por aqui vir morar, de maneira que subo e desço muitas vezes a Almirante Reis. Os mendigos e os sem abrigo substituíram as “mulheres da vida” e as caixas de cartão cobertas com cobertores e pertences de quem lá dorme, debaixo das colunas dos prédios são desoladoras. Os turistas invadiram o Martim Moniz, sobem até ao Ramiro, pelo marisco ou pelo que é avaliado como o melhor prego da cidade,

ou até ao largo do Intendente Pina Manique, onde há hotéis, esplanadas e lojas, mas à medida que se avança na direção do Areeiro, começam a rarear. De resto, cá para cima nos Anjos, continuamos a estar rodeados de pessoas de todo o mundo, mas, tirando os clientes dos alojamentos locais, a maioria são moradores. Vêm do Bangladesh, do Paquistão, Brasil, Angola, Moçambique, Nepal, entre tantos outros e as crianças chinesas adotam novos nomes, tradicionais portugueses como Beatriz, Inês, Leonor, Pedro, João ou José. A avenida começa no Intendente (Santa Maria Maior), passa nos Anjos, Arroios, e termina no Areeiro, e, apesar de ainda inspirar alguns cuidados nalgumas zonas, tornou-se visitável. Melhor, tornou-se desejável e recomendável. O que até há uns dez ou quinze anos era impensável. E de tal modo, que Arroios foi eleito o “Bairro mais cool do mundo” para os leitores nacionais da Time Out. Cool é fácil porque é generalista e não temos de entrar em considerações “picuinhas” como desejar que as ruas fossem limpas com maior frequência ou que os recicláveis fossem recolhidos mais rápido. Tirando isso, sim é cool, porque é estimulante, divertido, inesperado e uma constante viagem. Seja pela variedade de restaurantes ou habitantes. Há muita vida nestas ruas que circundam a Avenida e até de noite há pessoas nos parques infantis. No espaço de tempo em que quase morreu o comércio local, perderam-se relações com os vizinhos, com o merceeiro que encomendava aquele “produto especial para nós” e que nos guardava o pão, mesmo que chegássemos um pouco mais tarde do que o habitual. Esses espaços têm voltado a surgir e aos poucos as relações renascem. Agora falamos com o comerciante em várias línguas para nos entendermos e a cada dia que passa se torna mais fácil. O Moshiur é bangladeshiano e basta que lhe mande uma mensagem para vir até cá a casa com a botija do gás. Se precisar de alguma coisa fora de horas também lhe posso ligar. O restaurante Nepalês onde a senhora se ri quando as mulheres pedem álcool mas os homens não. O café Brick que se enche de turistas ao fim de semana e que é dos vizinhos nos outros dias, para onde levamos o computador ou nos servimos dos melhores jornais nacionais, sempre atualizados. Agora, como não é dia de cozido no restaurante “A Casa do Miguel” e nem me posso meter num avião para ir até ao Vietnam, desço da Almirante Reis ao Martim Moniz. São dezoito minutos que levo a chegar ao Mercado Oriental, onde vou comer uma enorme malga de pho.

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Era aqui que íamos ao dentista que fazia parte do corpo de médicos com protocolo com a Casa de Imprensa. Nos anos 80, esperava-se muito nos consultórios. Chegávamos pouco antes da hora marcada, mas não era para sermos atendidos que tínhamos de ser pontuais, mas sim para garantir que não passava ninguém à nossa frente. De modo que teríamos cerca de duas horas para matar, à espera naquela sala austera, de um primeiro andar com vista para a rua. De joelhos na cadeira junto à janela, acompanhava a atividade de uma prostituta que tinha “escritório” entre duas colunas do prédio em frente, e que trabalhava bem mais rápido que o nosso dentista. Ocupava o seu posto, direita com uma pequena mala que entalava debaixo do braço. Voltava ainda a endireitar a saia, esta senhora com ar de quem tinha netos já crescidos, e pouco tempo depois, com alguma negociação, ausentava-se outra vez com outro bêbado.


Árvores de Lisboa

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por Ana Luísa Soares e Ana Raquel Cunha


Pinus pinea L. Pinheiro-manso

Nativo de Portugal Continental, o pinheiro-manso é uma espécie com presença marcante na cidade de Lisboa. A sua singularidade, pelo seu colossal porte e copa arredondada, destaca-se quer em maciços arbóreos como no Parque Florestal de Monsanto, quer em manchas integradas com outras espécies ou em alinhamento de caminhos ou enquadrar vistas e monumentos como no Castelo de São Jorge, na Torre de Belém, no Parque Eduardo VII e no Parque das Nações. No levantamento arbóreo de 64 jardins e parques, realizado em 2014, no âmbito do Projeto LX GARDENS – Jardins e Parques Históricos de Lisboa: estudo e inventário do património paisagístico (coordenado pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia), das 27610 árvores referenciadas foram identificados, em 29 jardins, 983 espécimes de Pinus pinea, esta relevante representatividade coloca esta espécie em 5º lugar quanto às 799 espécies identificadas. O pinheiro-manso pertence à família das Pinaceae e ao género Pinea. É uma árvore resinosa de folhas perenes que se caracteriza morfologicamente pelo seu tronco geralmente direito, de cor cinzento-escuro, muito gretado. Com as suas folhas aciculares (conhecidas por agulhas), com 10-20 cm de comprimento, que se agrupam em pares. O seu fruto é a pinha – solitária ou em grupos de dois ou três – com uma semente comestível, o pinhão. As pinhas amadurecem ao fim de três anos, e libertam os pinhões na primavera do quarto ano. Do género Pinea existem várias espécies que se destacam, pelo seu porte, forma, tipo de pinha e comprimento das agulhas. Uma forma interessante de distinguir as diferentes espécies, é através do número de agulhas agrupadas, por exemplo: uma agulha (Pinus monophylla); grupos de duas agulhas (P. pinea, P. pinaster, P. halepensis, P. nigra, P. sylvestris); grupos de três agulhas (P. canariensis, P. radiata) e grupos de cinco agulhas (P. strobus, P. wallichiana, P. ayacahuite).

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Para além de um elevado valor ecológico e estético, o pinheiro-manso proporciona conforto urbano que facilita a comunicação. Muito provavelmente, o leitor já teve a oportunidade de usufruir, numa tarde de sol, da sombra de um pinheiro para fazer um piquenique, ler, conviver, praticar desporto ou simplesmente contemplar a paisagem.


Segredos de Lisboa

por Francisco Duarte Coelho

Lisboa Exótica Os leitores mais atentos aos sons da nossa Lisboa já se devem ter questionado sobre o segredo que vos trago nesta edição. Os pássaros tropicais que sobrevoam os jardins de Lisboa são da família dos papagaios, os periquitos de colar (Psittacula Krameri), pássaros exóticos de tons esverdeados com origem nas florestas da África e da Índia. Como vieram parar aos nossos jardins? Não se sabe ao certo, pensa-se que tenham fugido de algumas gaiolas e começaram a reproduzir-se de forma selvagem em Lisboa. Podemos avistá-los nos jardins: Quinta das Conchas, Príncipe Real, São Pedro de Alcântara e Estrela.

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Normalmente chamam à atenção pelos seus sons estridentes e pelo seu aspecto exótico pouco comum.


o culto da imagem por Vanessa Pires de Almeida

A satisfação de um apetite, desenfreado, fugaz e cómodo, pelos símbolos de uma determinada cultura, ou de várias, tem impulsionado a conceção de narrativas criadas por imagens, num controlado grafismo bidimensional, alheias a qualquer vivência espacial, direta ou real.

A significância da fotografia, bem como de outros suportes relevantes na comunicação de um determinado habitat, reside não só no facto de se constituir como um instrumento de reconhecimento da paisagem existente, mas sobretudo na influência que exerce na conceção projetual da paisagem futura.

É deste modo que a fotografia adquire especial importância na comunicação da arquitetura e da paisagem, convertendo-se num suporte amplamente solicitado, num filtro, numa realidade pictórica independente, tão credível como a “realidade real” (Ruff, 1993).

À semelhança da adoção, a partir do século XVIII, dos modelos de cidades ideais do Renascimento, a paisagem imaginária que, hoje, criamos poderá vir a ser o modelo do devir.

A consciência do espaço transferiu-se do próprio espaço para o campo da bidimensionalidade, segundo processos de enquadramento e de montagem, que conferem um silencioso significado, uma intenção, um sentido de lugar. Relacionando diferentes elementos e espaços, a fotografia tem a capacidade de controlar a causalidade, dirigindo o utilizador numa experiência predeterminada pelo seu criador. No limite, com a proliferação de revistas, instaladas no espaço físico e virtual, que constantemente elogiam o culto da imagem, o mundo imaginário tende a eliminar a consciência do real. Segundo Arlindo Machado, na introdução ao Ensaio sobre Fotografia, de Vilém Flusser, “a proliferação imensa de imagens técnicas resulta na predisposição da sociedade para um comportamento mágico programado. Os homens já não decifram as imagens como significados do mundo, mas o próprio mundo vai sendo vivenciado como um conjunto de imagens. Não sabendo mais servir-se das imagens em função do mundo, eles passam a viver em função das imagens, de modo que estas últimas, tradicionalmente encaradas como mapas, se transformam gradativamente aos seus olhos em biombos, cuja função já não é mais representar, mas mascarar o mundo”.

As imagens não são mais, se é que alguma vez o foram, representações fidedignas da realidade, mas o reflexo de vontades, de um futuro apegado a um determinado contexto material, social e político ou, quem sabe, a um absoluto niilismo. Oscilando entre a poesia, onde a luz e a presença do Homem se subjugam à necessidade de seduzir e cativar, e a documentação, objeto de análise, a fotografia manipula a nossa perceção, através de singulares atos criativos, de leitura e seleção dos elementos constitutivos da paisagem, jogando, simultaneamente, “com a crença e com a descrença”, e criando uma certa “segurança existencial, cujos lim ites são nebulosos, mas eficazes”(Fuão, 2002). O fotógrafo pode, assim, assumir o papel de criador de imagens ao serviço da obra, ou do autor da obra, que lhe é apresentada, tornando-a apelativa e consumível, ou apelar a uma consciência social, intentando a produção de mudanças, de transformações, ou, simplesmente, a compreensão da humanidade.

Bibliografia Flusser, V. (1998). Ensaio sobre a fotografia: para uma filosofia da técnica. Relógio d’Água, Lisboa. Fuão, F. F. (2002). Cidades fantasmas (1). Arquitextos [025.08]. Vitruvius. Ruff, T. (1993). Thomas Ruff talks to Philip Pocock. Journal of contemporary art.

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Já com a sua invenção no século XIX, a fotografia transformou a perceção que o Homem tinha da realidade, gerando, através da luz, um mundo imaginário tão verosímil como o mundo real.


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w w w.viriat vs.com

seja responsável. beba com moderação.


Tradicional

Cosmopolita

Alternativo Hipster

Multicultural

LIS BO NAR O Nosso Guia de Lisboa

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Clรกssico


Mapade

Lisboa COA

PR

SLM

AP

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ZR


AR

BXM

AV GM

CA

BCS

BC

ZR - Zona Ribeirinha AP - Alcântara | Pampulha COA - Campo de Ourique | Amoreiras SLM - Santos | Lapa | Madragoa PR - Príncipe Real BCS - Bica | Cais do Sodré BA - Bairro Alto AV - Avenida BC - Baixa Chiado CA - Castelo | Alfama GM - Graça | Mouraria AR - Almirante Reis BXM - Beato | Xabregas | Marvila FC - Fora do centro [125]

BA


CLÁSSICO BAR SNOB | PR

PINÓQUIO | AV

No Snob quase nada mudou. O bife continua bom e o cozido, às sextas, irrepreensível e o Sr. Albino cortês e atencioso como sempre. O quase é reservado ao famoso gelo à Snob, que era picado de grandes blocos e que deixou de existir para dar lugar ao gelo de máquina, mas nem esta pequena contrariedade retira vontade de nos perdermos noite fora em conversas bem regadas.

As ameijoas esguicham água a quem passa demasiado junto ao aquário. O melhor é mesmo comê-las seguidas de um prego e imperial estupidamente gelada. Muito movimentado dada a sua localização turística e perto de teatros.

BAR

Todos os dias das 16h00 às 03h00 Rua do Século, 178 1200-438 Lisboa +351 213 463 723 www.snobarestaurante.com

RESTAURANTE

Todos os dias das 12h00 às 00h00 Praça dos Restauradores, 79 1250-188 Lisboa +351 213 465 106 www.restaurantepinoquio.pt

GAMBRINUS | AV RESTAURANTE

BRITISH BAR | BCS BAR

Segunda a Sábado das 12h00 às 04h00 Rua Bernardino Costa, 52 1200-053 Lisboa +351 213 422 367

BAR PROCÓPIO | COA BAR

O mais antigo dos clássicos bares lisboetas voltou a estar na moda e ainda bem. Com o melhor barman da cidade, o Sr. Luís, sempre atento aos pormenores e um ambiente familiar, o bar de Alice Pinto Coelho por onde ainda é habitual passarem artistas das mais diversas áreas é o mais icónico da capital. Segunda a Sexta das 18h00 às 03h00 Sábado a partir das 21h00 Alto de São Francisco, 21 A 1250-096 Lisboa +351 213 852 851 www.barprocopio.com

O clássico dos clássicos. A melhor barra e o melhor serviço de Lisboa, que nos faz sentir príncipes ainda que apenas comamos um prego e uns magníficos croquetes com mostarda da casa. Se lhe apetecer algo fora da carta, peça, quem sabe poderá ser surpreendido. Todos os dias das 12h00 à 01h30 Rua das Portas de Santo Antão, 23 1150-264 Lisboa +351 213 421 466 www.gambrinuslisboa.com

XL | AP

RESTAURANTE Segunda e Terça das 20h00 à 00h00 Quarta e Quinta das 20h00 à 01h00 Sexta e Sábado das 20h00 às 02h00 Calçada da Estrela, 57 1200-661 Lisboa +351 213 956 118

COELHO DA ROCHA | COA LUVARIA ULISSES | BC LOJA

Segunda a Sábado das 10h00 às 19h00 Rua do Carmo, 87-A 1200-093 Lisboa +351 213 420 295 info@luvariaulisses.com www.luvariaulisses.com

VELLAS DO LORETO | BCS

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LOJA

Segunda a Sexta das 09h00 às 19h00 Sábado das 09h00 às 13h00 Rua do Loreto, 53 1200-086 Lisboa +351 213 425 387 www.cazavellasloreto.com.pt

RESTAURANTE

Segunda a Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Rua Coelho da Rocha, 104 1350-079 Lisboa +351 213 900 855 www.facebook.com/restaurantecoelhodarocha

PASTELARIA VERSAILHES | FC PASTELARIA

Todos os dias das 7h30 às 22h00 Avenida da República, 15 A 1050-185 Lisboa +351 213 546 340

ANTENA 2 www.rtp.pt/antena2


TRADICIONAL PÁTEO 13 | CA

GINJINHA SEM RIVAL | BC

Sardinhas e muito mais, num restaurante que ocupa um delicioso larguinho de Alfama, onde locais e turistas convivem alegremente. Perfeito para as noites quentes de verão.

Todos os dias das 7h00 às 00h00 Rua das Portas de Santo Antão, 7 1150-268 Lisboa +351 213 468 231 www.facebook.com/GinjaSemRivaleEduardino

Terça a Domingo das 11h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Calçadinha de Santo Estêvão, 13 1100-502 Lisboa +351 218 882 325 www.facebook.com/PATEO13

DAS FLORES | BCS RESTAURANTE

Um dos segredos mais bem guardados da cidade. Só serve almoços e a espera é, normalmente, prolongada, mas nada que um dos melhores croquetes de Lisboa e uma imperial bebida ao balcão ou mesmo na calçada não resolvam, porque depois tudo vale a pena. Às sextas o bacalhau com grão é irrepreensível. De Segunda a Sábado das 12h00 às 15h30 Rua das Flores, 76/78 1200-213 Lisboa +351 213 428 828

FIDALGO | BXM RESTAURANTE

A sugestão deveria ser divagar pelos pratos clássicos da gastronomia portuguesa, mas, para além desses, provem, caso haja, o polvo com feijão, com um pouco de picante, uma receita da casa capaz de deitar abaixo uma garrafa de bom vinho tinto. Segunda a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 23h00 Rua da Barroca, 27 1200-047 Lisboa +351 213 422 900 www.restaurantefidalgo.com

BAR

CONSERVEIRA DE LISBOA | CA LOJA

Há uma pequena loja no Mercado da Ribeira, mas não é comparável à experiência da loja original onde nos podemos perder no aconselhamento entre sardinha e cavalas, em limão ou tomate picante, todas dentro de embalagens tão deliciosamente vintage como é delicioso o seu conteúdo. Uma instituição. Segunda a Sábado das 09h00 às 19h00 Rua dos Bacalhoeiros, 34 1100-071 Lisboa +351 218 864 009 www.conserveiradelisboa.pt

ALUNOS DE APOLO | COA DANÇAS DE SALÃO Rua Silva Carvalho, 225 1250-250 Lisboa +351 213 885 366 www.alunosdeapolo.com

MESA DE FRADES | CA CASA DE FADOS

O melhor do fado genuíno, numa belíssima antiga capela de Alfama. Segunda a Sábado das 20h00 às 02h30 Rua dos Remédios, 139 A 1100-445 Lisboa +351 917 029 436 www.facebook.com/mesadefradeslisboa

CANTINHO DAS GÁVEAS | BA

MANTEIGARIA SILVA | BC

Cozinha portuguesa honesta, num Bairro Alto cada vez mais cheio de restaurantes feitos a pensar nos turistas. A esplanada convida a prolongar o jantar enquanto o bairro começa a encher.

Segunda a Sábado das 9h00 às 19h30 Rua Dom Antão de Almada, 1 D 1100-197 Lisboa +351 213 424 905 www.manteigariasilva.pt

RESTAURANTE

Rua das Gáveas, 82 1200-073 Lisboa +351 213 426 460

CHARCUTARIA

RÁDIO AMÁLIA www.amalia.fm

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RESTAURANTE


COSMOPOLITA PAP’AÇORDA | BCS

LUX-FRÁGIL | ZR

Se as paredes da sua anterior localização no Bairro Alto falassem, ficaríamos a saber a história da Lisboa sofisticada dos últimos 30 anos. Agora no Mercado da Ribeira, continua a servir deliciosa comida portuguesa, sendo imperdíveis os fritos, que evitamos noutros lugares, em particular os peixes, sejam jaquinzinhos, ou sável acompanhado de açorda de ovas. Ainda é um lugar para ver e ser visto.

“A” discoteca de Lisboa, que seria fantástica em qualquer parte do mundo, mas que aqui ainda acrescenta um nascer do sol como não há.

RESTAURANTE

Segunda- encerrado Domingo a Quarta das 12h00 às 00h00 Quinta a Sábado das 12h00 às 02h00 Mercado da Ribeira, 49 - 1º Andar 1200-479 Lisboa +351 213 464 811 www.papacorda.com

BAR

Quinta a Sábado das 23h00 às 06h00 Avenida Infante Dom Henrique, Armazém A, Cais da Pedra a Stª Apolónia 1950-376 Lisboa +351 218 820 890 www.luxfragil.com

ROOFTOP BAR HOTEL MUNDIAL | AR BAR

BY THE WINE | BCS

RESTAURANTE/WINE BAR Segunda das 18h00 às 00h00 Terça a Domingo das 12h00 às 00h00 Rua das Flores, 41/43 1200-014 Lisboa +351 213 420 319 www.jmf.pt

MINI BAR | BC RESTAURANTE

Há quem lhe chame o Belcanto dos remediados. A verdade é que herdou alguns pratos do restaurante Michelin, mas acima de tudo tem das ementas mais divertidas da cidade, inspirada numa peça de teatro em vários actos, e comida magnífica e surpreendente. Não perca o “Ferrero rocher, parece que é, mas não é!”. Segunda a Domingo das 19h00 às 02h00 Rua António Maria Cardoso, 58 1200-027 Lisboa + 351 211 305 393 www.minipabar.pt

RIO MARAVILHA | ZR RESTAURANTE/BAR

Decoração mais que cool e uma vista impressionante sobre o Tejo, via Alcântara. Ao jantar será difícil encontrar mesa, mas ao almoço é um paraíso para se deliciar com a excelente cozinha, o conceito bem descolado e a vista. À noite vira bar com boa onda. Terça a Quinta das 12h030 às 02h00 Sexta e Sábado das 12h30 às 03h00 Domingo das 12h00 às 00h00 Rua Rodrigues Faria, 103 1300-501 Lisboa +351 966 028 229 www.riomaravilha.pt

RÁDIO KEXP [128]

https://www.kexp.org

Vista e mais vista. Até lá chegar tem de cruzar o já vetusto Hotel Mundial e subir até não mais poder. Aí, de fronte ao Castelo de São Jorge, peça um cocktail, olhe em volta, esqueça o Martim Moniz e pense em como Lisboa é bonita e na pena que foi durante tantos anos não existirem rooftops na cidade. Verão: das 18h00 às 00h30 Inverno: das 17h30 às 23h30 Encerra às Segundas-feiras Praça Martim Moniz, 2 1100-341 Lisboa +351 218 842 000 www.hotel-mundial.pt

CASANOSTRA | BA RESTAURANTE

Talvez o melhor italiano de Lisboa. Uma instituição com muito anos, sobrevivente dos tempos áureos da movida do Bairro Alto. um clássico sempre moderno e com ótimo ambiente, que facilemnte se torna a nossa própria casa.. sempre com “spritz a acompanhar. Segunda a Sexta das 12h30 às 14h00 e das 20h00 às 23h00 Sábado das 20h00 às 23h00 Domingo das 13h00 às 15h00 e das 20h00 às 23h00 Tv. do Poço da Cidade, 60 1200-043 Lisboa +351 213 425 931 www.casanostra.pt

THE FEETING ROOM | BC LOJA

Segunda a Quinta e Domingo das 10h00 às 20h00 Sexta a Sábado das 10h00 às 21h00 Calçada do Sacramento, 26 1200-203 Lisboa


HIPSTER QUIOSQUE DO OLIVEIRA | PR

ANJOS 70 | FC

QUIOSQUE PRÍNCIPE REAL

CAFÉ/GALERIA DE ARTE

Ponto de encontro de fim de tarde ou princípio de noite para a fauna do Príncipe Real e Bairro Alto. Espere um ambiente muito cool misturado com turistas.

Nunca se sabe o que poderá estar a acontecer neste espaço. Aulas de flamenco, yoga, capoeira ou ginástica, noites de fado, workshops de colagem, bailes de forró, ou festas de música electrónica. Um espaço único em Lisboa.

LOUNGE | BCS BAR

Sempre óptima música em bom ambiente e com um horário de fecho bem conveniente (4h00). O melhor prolongamento da noite do Bairro Alto ou Cais do Sodré, antes de decidir se a noite é para ir até ao fim. Segunda a Domingo das 22h00 às 04h00 Rua da Moeda, 1 - Porta O/P 1200-275 Lisboa +351 213 973 730 www.loungelisboa.com.pt/blog

TABACARIA | BCS BAR

Um pequeno bar numa antiga tabacaria, com excelentes bebidas preparadas a preceito. Os clientes espalham-se em volta da esquina e o cenário parece ter sido montado para uma filmagem. Onda cool e boa música. Segunda a Quinta e Domingo das 18h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 03h00 Rua de São Paulo, 75/77 1200-426 Lisboa +351 211 521 550 www.a-tabacaria.negocio.site

TABERNÁCULO | BCS BAR

Todos os dias das 14h00 às 02h00 Rua de São Paulo, 218 1200-109 Lisboa +351 213 470 216 www.facebook.com/tabernaculobyhernani

HELLO KRISTOF | BCS CAFETARIA RESTAURANTE Terça a Sexta das 09h00 às 06h00 Rua do Poço dos Negros, 103 1200-337 Lisboa +351 917 282 505 www.hellokristof.com

SBSR.FM RÁDIO

A rádio da Super Bock chegou inundada pelos melhores sons indie. Ainda nascem rádios no século XXI. E ainda bem. www.sbsr.fm

Segunda das 17h00 às 23h00 Quarta a Sexta das 17h00 às 23h00 Sábado e Domingo das 15h00 às 23h00 Regueirão Dos Anjos, 70 1150-011 Lisboa www.anjos70.org

MUSIC BOX | BCS ESPECTÁCULOS

Segunda a Sábado das 23h00 às 06h00 Rua Nova do Carvalho, 24 1200-292 Lisboa +351 213 473 188 www.musicboxlisboa.com

O BOM O MAU E O VILÃO | BCS BAR

Uma casa de copos e cultura. Uma casa, porque de um apartamento se trata, transmitindo por isso mesmo um ambiente caseiro, de copos porque tem bares bem servidos, de cultura porque para além do piano muitas vezes utilizado, é variada a programação que vai do cinema à música. Segunda a Quinta das 19h00 às 02h00 Sexta a Domingo da 19h00 às 03h00 Rua do Alecrim, 21 1200-014 Lisboa +351 964 531 423 www.facebook.com/obomomaueovilao

GELATARIA DAVVERO | BCS GELATARIA

Os melhores gelados de Lisboa. Terça a Quinta e Domingo das 13h00 às 20h00 Sexta a Sábado das 13h00 às 00h00 Avenida Dom Carlos I, 39 1200-646 Lisboa +351 929 165 208 info@gelatodavvero.com www.gelatodavvero.com

GERADOR

ASSOCIAÇÃO CULTURAL Seja nos Trampolim (iniciativas em redor de uma praça ou bairro), Ignição (iniciativas mensais surpresa em espaços inusitados), ou na sua revista, esta associação cultural não para de animar Lisboa com uma abordagem dessacralizada, moderna e criativa da cultura portuguesa. www.gerador.eu

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Todos os dias das 07h00 às 21h00 Praça do Príncipe Real 1250-301 Lisboa +351 213 428 334


ALTERNATIVO DAMAS | GM

BAR/SALA DE CONCERTOS Uma sala de concertos que é um bar e um (bom) restaurante. O lugar para onde se deslocaram os desiludidos com a transformação comercial e turística do Bairro Alto. A melhor programação alternativa da cidade. Terça das 12h00 às 02h00 Quarta e Quinta das 18h00 às 02h00 Sexta das 18h00 às 04h00 Sábado das 12h00 às 04h00 Domingo das 18h00 às 00h00 Rua da Voz do Operário, 60 1100-621 Lisboa +351 964 964 416 www.facebook.com/DAMASLISBOA/

FINALMENTE | PR BAR

O bar gay mais antigo da cidade, por onde passou meia Lisboa nos tempos em que a noite tinha bem menos oferta, que mantém um show de travestis em periodicidade diária. Para uma noite realmente diferente. Vá numa segunda-feira quando a noite parece morta e divirta-se com as audições do “lugar às novas”. Segunda a Domingo das 00h00 às 06h00 Rua de Palmeiras, 38 1200-313 Lisboa +351 213 479 923 info@finalmenteclub.com www.finalmenteclub.com

INCÓGNITO | BC BAR

Simplesmente a melhor música de Lisboa, para quem gosta de indie pop-rock. Mesmo com espaço à cunha, podemos dançar como se não houvesse amanhã ao som de Smiths, The Strokes ou Arcade Fire. Quarta a Sábado das 23h00 às 04h00 Rua Poiais de São Bento, 37 1200-346 Lisboa +351 213 908 755 www.facebook.com/incognitomusicbar

CASA INDEPENDENTE | AR BAR

Não é um bar, não é uma sala de espectáculos, não é uma associação cultural. É um pouco disto tudo e um dos grandes responsáveis pela revitalização do Largo do Intendente. Um terraço perfeito para uma noite de verão e uma boa programação musical.

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Terça a Quinta das 17h00 às 00h00 Sexta e Sábado das 17h00 às 02h00 Largo do Intendente, 45 1100-285 Lisboa +351 218 872 842 www.casaindependente.com

MIRADOURO DO ADAMASTOR | BCS ESPLANADA

O mítico Adamastor, onde o por do sol é mais bonito, o quiosque serve bebidas e tostas a preços para portugueses e o cheiro de substâncias ilícitas envolve um ambiente descontraído onde se cruzam músicos de rua, turistas e lisboetas. Era assim até a Câmara Municipal o encerrar a ameaçar enjaulá-lo. Segunda a Domingo das 10h00 às 04h00 Miradouro de Rua de Santa Catarina 1200-109 Lisboa +351 213 430 582

49 | BA BAR

Também conhecido como o bar debaixo da Zé dos Bois, instituição da cultura alternativa lisboeta. Bons DJ’s e um ambiente bem descontraído onde se cruzam faunas bem diferentes em amena convivência. Quarta e Quinta das 22h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 22h00 às 03h00 Rua da Barroca, 49 1200-043 Lisboa +351 213 430 205

CREW HASSAN | AV ASSOCIAÇÃO CULTURAL

Segunda a Domingo das 12h00 às 24h00 Rua Portas de Santo Antão, 159 1150-269 Lisboa +351 218 120 373 +351 962 233 416 www.facebook.com/ccrewhassan

BAIRRUS BODEGA | BA BAR

Terça a Quinta das 22h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 22h00 às 03h00 Rua da Barroca, 3 1200-047 Lisboa +351 213 469 060

COZINHA POPULAR DA MOURARIA | GM RESTAURANTE

Segunda e Terça: aberto 24 horas Quarta a Sábado das 10h00 às 23h30 Rua das Olarias, 5 1100-012 Lisboa +351 926 520 568 www.facebook.com/CozinhaPopularDaMouraria

VODAFONE FM www.vodafone.fm


MULTICULTURAL BELLA CIAO | BC

CASA PAU-BRASIL | PR

Não espere pizzas nem massas com ananás. Aqui a comida é italiana de Itália, verdadeira cuccina della mamma. Não perca a massa com bróculos e o melhor tiramisu de Lisboa.

Uma casa apalaçada transformada numa das mais bonitas lojas de Lisboa. Percorrendo as divisões da casa vamos encontrando algumas das melhores marcas brasileiras, desde as “perfumadas” Granado e Phebo às roupas chic-descontraídas da Osklen, passando por chocolates e bikinis. Uma grande parte da casa é preenchida pela Quarto e Sala que oferece o melhor do design de mobiliário do Brasil.

Segunda a Quinta das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 00h00 Sexta e Sábado das 12h00 às 16h00 e das 19h00 à 01h00 Rua de São Julião, 74/76 1100-526 Lisboa +351 210 935 708 www.cantinabellaciao.wixsite.com/bellaciao

PISTOLA Y CORAZÓN | BCS RESTAURANTE

Vá cedo, ou prepare-se para esperar. Aqui não há reservas, mas margaritas gulosas que não se consegue parar de beber. E tacos, muitos e variados, num ambiente animado e ruidoso. Almoço: Terça a Sexta das 12h00 às 15h00 Jantar: Segunda a Domingo das 18h00 às 00h00 Almoço: Domingo das 12h00 às 15h00 Rua da Boavista, 16 1200-427 Lisboa +351 213 420 482 www.pistolaycorazon.com

CAXEMIRA | BC RESTAURANTE

O melhor indiano de Lisboa, por isso sempre cheio. Não se assuste com a entrada, suba ao primeiro andar, não perca as chamuças e vá provando os pratos. Sim, porque vai voltar várias vezes. Segunda a Sábado das 12h00 às 15h00 e das 18h30 às 22h00 Rua Condes de Monsanto, 4 1100 Lisboa +351 218 865 486/+351 218 874 791

CAFEH TEHRAN | PR RESTAURANTE

Todos os dias das 12h00 às 00h00 Terça - Encerrado Praça das Flores, 40 1200-192 Lisboa +351 210 736 530 www.facebook.com/CafehTehran

ÁGUA DE BEBER | BCS BAR

Quarta, Quinta e Domingo das 18h00 às 02h00 Sexta e Sábado das 18h00 às 03h00 Travessa de São Paulo, 8 1200-431 Lisboa +351 214 039 956

LOJA

Segunda a Sábado das 11h00 às 20h00 Domingo das 11h00 às 18h00 Rua da Escola Politécnica, 42 1250-096 Lisboa +351 213 420 954 www.facebook.com/casapaubrasil.official

LIVRARIA TRAVESSA | PR LIVRARIA

Todos os dias das 10h00 às 22h00 Rua da Escola Politécnica, 46 1250-096 Lisboa +351 213 460 553 www.facebook.com/LivrariaDaTravessaLisboa

EL ÚLTIMO TANGO | BA RESTAURANTE

Um dos melhores bifes de Lisboa, de carne argentina, grelhado, acompanhados de batata assada com manteiga de ervas e salada de agrião. Tudo em ambiente calmo, para fumadores e com o melhor tango do mundo como banda sonora. Segunda a Quinta das 19h30 às 23h00 Sexta e Sábado das 19h30 às 23h30 Rua do Diário de Notícias, 62 1200-145 Lisboa +351 213 420 341

IN BOCCA AL LUPO | PR PIZZARIA

Quarta a Domingo 19h00 às 23h00 Rua Manuel Bernardes, 5 1200-009 Lisboa +351 213 900 582 reservas@inboccallupo.pt www.inboccaallupo.pt

DONA BEIJA | FC RESTAURANTE

Terça a Quinta das 12h00 às 15h00 e das 18h00 às 00h00 Sexta das 12h00 às 15h00 e das 18h00 à 01h00 Sábado das 12h00 à 01h00 Domingo das 12h30 às 16h30 e das 18h00 às 23h00 Avenida Duque de Loulé, 22 B 1050-085 Lisboa +351 213 570 135 www.donabeija.pt

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RESTAURANTE


Ana Pérez-Quiroga

Auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade

Sé de Viseu No adro da Sé, num dos lados, temos a Igreja cuja fachada possui seis nichos que albergam as esculturas dos quatro Evangelistas; no centro, São Teotónio - padroeiro da Sé - e no nicho superior, Nossa Senhora da Assunção. O início da construção da Sé de Viseu, data do século XII. Ao longo dos séculos, devido aos consequentes restauros e acrescentos, a Sé foi ganhando inúmeros estilos, tais como o Manuelino e o Barroco, no seu interior. A fechar o adro situa-se o Museu Grão Vasco, que ocupa o Paço dos Três Escalões, a antiga residência episcopal. No outro lado em frente, temos a Casa do Cabido.

Âmbulas dos Santos Óleos Estas âmbulas, que estão na Sé, são utilizadas para abençoar os Santos Óleos usados nas paróquias da cidade. Feitas em prata cinzelada, incisa e fundida, datam de 1687. As 3 âmbulas destinam-se aos seguintes óleos: Óleo de Crisma (usado no Sacramento da Confirmação, revelando que o cristão deve irradiar “o bom perfume de Cristo”, para viver como adulto na fé; Óleo dos Enfermos (usado no Sacramento da Unção dos Enfermos); Óleo dos Catecúmenos (catecúmenos são os que se preparam para receber o Baptismo, antes do rito da água).

A igreja da Misericórdia

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De nave única, começou a ser edificada em 1775 e possui uma fachada roccaille. A obra da fachada deverá ser compreendida no contexto da renovação urbana que Viseu conheceu em meados do século XVIII, verifica-se um forte eclectismo, e a arquitectura chã evidencia-se. Os altares e respectivos retábulos são já neoclássicos, remontando às intervenções ocorridas ao longo do século XIX.


Viseu

Um passeio por alguns locais que me fascinam desde criança.

Praça D. Duarte Fotografia tirada da galeria superior da Sé. A estátua de D. Duarte (1955) do escultor Álvaro de Brée, homenagem ao rei filósofo e literato nascido em Viseu em 1391, enquadrada pela velha torre da alcáçova, a Varanda dos Cónegos, a Casa Almeida e Silva e diversos cafés, que dão vida e esta praça.

Casa Almeida e Silva Casa onde viveu José de Almeida e Silva (1886 - 1945). Pintor, desenhador, ilustrador, caricaturista, humorista, publicista e escritor. A sua obra enquadra-se nas correntes do realismo e naturalismo tardio, em que se nota o academismo romântico. Fundou o Museu Grão-Vasco, mas nesta casa expõe-se parte da sua colecção pessoal de pintura e artes decorativas. destacam-se os quadros de pequeno formato de Malhoa, Columbano e Silva Porto.

Janelas Manuelinas e o Restaurante O Cortiço

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Esta fachada, em alvenaria de pedra, apresenta no seu piso superior um conjunto de janelas característico do final do gótico que, estruturalmente e decorativamente são Manuelinas, mas executadas na primeira metade do século XVI, assim como muitas das habitações desta zona da cidade. No rés do chão deste edifício, fica o icónico restaurante “O Cortiço”, conhecido pela gastronomia regional beirã.


Latoaria Este mestre latoeiro é o último que resiste em Viseu. Constrói objectos de exímia qualidade em chapa zincada e folha de flandres. Das suas peças mais emblemáticas, destaca-se, o candeeiro gigante no Teatro Nacional de S. Carlos, em Lisboa e várias peças no Teatro Nacional S. João, no Porto.

Rua Direita A famosa rua tem este nome desde o século XV. Tem cerca de 500 m de extensão e liga duas das portas da cidade. Esta rua sempre foi vocacionada para o comércio, desde a presença romana, passando pela Idade Média em que era chamada Rua das Tendas. Ainda hoje lá encontramos inúmeras lojas e comércio local nos rés do chão das casas senhoriais.

O Museu da Cidade

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Situado numa das casas medievais da Rua Direita, é destinado aos 2500 anos história do Concelho de Viseu, sendo as suas memórias representadas por ícones.


Paredes de Zinco É comum vermos casas em que algumas paredes exteriores são revestidas a chapa de zinco, no norte de Portugal. Esta solução económica foi largamente utilizada por ser económica e eficaz contra as intempéries. É agora recuperada pela arquitectura contemporânea.

Pousadas de Portugal O antigo edifício do Hospital de São Teotónio, construído em 1799, foi transformado em pousada com projeto do arquitecto Gonçalo Byrne. Podemos ver, na fachada, um frontão com três estátuas representando a Fé, a Esperança e a Caridade.

Sezures

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Aldeia que se situa a 38 km de Viseu. Esta uma aldeia faz parte de mim desde a infância e onde toda a vida passei as férias, foi a caminho de casa que vi estas grandes abóboras ao sol espalhadas no meio do pinhal. Sempre foi uma das imagens que guardo na memória e que associo ao Inverno.


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estoy despierto por Francisco Mallmann

acorda que somos hoje eu e tu

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acorda que somos ainda nรณs


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Cinco voltas na Bahia e um beijo para Caetano Veloso

Não pensei escrever este livro. Apareceu num sábado, quando passavam cinquenta anos que um homem pisou a Lua, comecei-o no domingo. Entretanto passou mês e meio e volto aqui antes de o acabar para acrescentar isto. Não pensei escrevê-lo mas descobri que estava por escrever. Sair é de facto a palavra, bem mais do que eu podia supôr naquele sábado. Cinquenta anos atrás, dia por dia, o Brasil vivia o auge da ditadura e Caetano Veloso estava em concerto na Bahia, a despedir-se do país. Ia ser expulso para o exílio com Gilberto Gil, seu parceiro em palco. Um norte-americano acabava de pisar a Lua, dois, aliás, enquanto cá em baixo dois sul-americanos cantavam, e com eles milhares ameaçados de cadeia. Hoje, um terror herdeiro da ditadura, por sua vez herdeira de séculos, ameaça de novo muita gente. Com o voto de muita outra gente. O Brasil está na minha vida diária vai para uma década, fiz dois livros passados lá, o último levou bastante, só o dei por finalizado ao lançar a edição brasileira, em Maio de 2019. De volta a Portugal em Junho, achei que o ciclo se completara, eu tinha coisas diferentes para escrever. Mas em Julho, entre concertos portugueses, Caetano repetiu algo que me dissera anos antes: falta Bahia. Foi o clique para este livro aparecer, com título, índice, pela ordem das viagens. Na mais remota há pontas que se atam ao futuro, e com ela começará a vir Caetano. Sou da banda dele. A banda dos que acham que o mundo, ao contrário da estupidez, não é chato. * A Bahia é o primeiro lugar entre Portugal e Brasil. Inicia a nossa cronologia e a nossa dificuldade. O que nos ligou será o que nos separa, está no meio de nós, como o Atlântico e a linha do Equador. Mas também em muitos de nós como biografia, letras e músicas, dentes e músculos. A minha estreia baiana, contudo, e não dependendo da minha vontade, foi um toca-e-foge. Eu tinha 29 anos, trabalhava na redacção da rádio pública em Lisboa, então ainda dirigida por Adelino Gomes (repórter da revolução do 25 de Abril, repórter dos repórteres) coadjuvado por Francisco Sena Santos (meu primeiro mestre de rádio, âncora dos âncoras): um luxo. Isto, na era em que se enfiavam cassetes no gravador, disquetes no computador para pôr e tirar textos, e cada email era uma odisseia na nave-router, com sons estrambólicos e luzinhas. Ou seja, quando para nós, meros mortais periféricos, a Internet mal começava.

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Mas sim, era possível então um repórter português ter várias semanas para atravessar os Estados Unidos da América de Greyhound Bus em ano de presidenciais, sem patrocínios nem marketing, enviando peças diárias de cabines telefónicas, como me acontecera no Verão anterior. E igualmente possível a redacção enviar dois repórteres à visita inaugural do presidente Jorge Sampaio ao Brasil, um deles com a missão das histórias paralelas. Calhou-me essa liberdade: não só conhecer enfim o Brasil como não ter de cobrir o oficial.


Fernando Henrique Cardoso era presidente havia três anos, a comitiva portuguesa coincidiu com as manifestações do Sete de Setembro, Dia da Independência. Foi a minha primeira visão de Brasília, cidade alada, impossível, debaixo do grandioso céu do cerrado, com um líder indígena de bruços no chão em protesto, depois de um indígena que adormecera numa paragem de autocarro ter sido queimado vivo por jovens da elite, inimputáveis. Ou a primeira visão de favelas vizinhas de milionários no bairro carioca onde treze anos depois eu haveria de morar (porque Roberto Marinho, o magnata da Globo, recebeu Sampaio & comitiva com lago e flamingos na sua mansão do Cosme Velho). Também fomos a São Paulo, Belo Horizonte, Ouro Preto. E a fechar, Salvador. Tão de raspão que só me sobram estas imagens na memória, como um díptico: O chão inclinado do Pelourinho, pele negra, riso, saia branca, cocada.

Uma roda de jornalistas que o vem em silêncio O Dono da Bahia, ACM.

Toda a memória caminha. Estas duas têm vinte e dois anos, difícil isolá-las do que entretanto vivi. Aqui expostas, vejo-as como relances de uma história colonial, colossal pelo que o Brasil veio a ser. Legendas para o díptico: Pelourinho – bairro histórico de Salvador onde escravos e condenados eram punidos numa coluna, e até hoje baianas vendem petiscos afro-brasileiros.

ACM – Antônio Carlos Magalhães, prefeito de Salvador, três vezes Governador da Bahia, Senador e Presidente do Senado, com nome por toda a capital baiana.

ACM falava aos jornalistas no Pelourinho? Por que se junta isto na memória? O que estava a acontecer? Nem ideia. Resta-me ir em busca da peça que montei ao voltar a Portugal com cassetes cheias de sons, os meus primeiros do Brasil. Lá diz-se fita-cassete.

* Vários arquivos das redacções onde trabalhei já não existem, ou não se acham rápido. Mas arquivistas desse tempo mantêm-se irredutíveis, no amor aos papéis velhos como aos sons fora de formato, e na ainda rádio pública peneiraram das profundezas 36 minutos e 11 segundos que eu jamais voltaria a ouvir se não fosse este livro. Aí, que pensar do facto de uma baiana chamada Bernadete dos Santos Boa Morte anunciar à repórter que eu era na peça, portanto me anunciar agora, que sou filha de Oxum? Tenho hoje idade para ser mãe dessa a quem Bernadete chama menina, e era eu. E através dela é que a notícia de Oxum enfim me chega, porque se hoje sei que nada sei de candomblé, nesse tempo nem sabia o que não sabia. Vem então uma cassete lá do passado como um orixá, trazendo falas, risos, gritos, protestos, maracás, batuques, notícias de crimes na tevê, o carro do papelão dos meninos de rua, e essa baiana, com as suas saias e as suas contas, que hoje se liga a toda uma central eléctrica. Tão fulminante que a meio da fala dela tive de carregar na pausa. A rádio, a que os brasileiros chamam o rádio, tem algo de chocalho de xamã, de pajé, de búzio ligando tempos e planos. O som chega como um vestígio do corpo, é uma presença. Assim foi baixando no meu ouvido aquele primeiro Brasil, até que a 13 de Setembro de 1997 tocou na Bahia.

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Excerto do livro Cinco voltas na Bahia e um beijo para Caetano Veloso, de Alexandra Lucas Coelho. Editora Caminho.


Plataforma digital de residências artísticas na cidade de Lisboa

A LAAR – Lisboa Acolhe Artistas em Residência é uma plataforma digital que tem por principal missão apoiar a criação artística em Lisboa, através da divulgação, num único suporte, das residências artísticas que têm lugar na cidade. Disponibilizada pela Câmara Municipal de Lisboa, a LAAR permite obter informações sobre as entidades, públicas e privadas, que promovem residências artísticas e as oportunidades que existem neste âmbito. Permite ainda a entrega de candidaturas online para residências, bem como conhecer os artistas selecionados em programas de intercâmbio artístico promovidos, ou copromovidos, pela Câmara Municipal de Lisboa.

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laar.cm-lisboa.pt


LEVA-ME CONTIGO

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PORTUGAL A PÉ PELA ESTRADA N


Antes das coisas úteis vêm as inúteis. Essas, as que nascem na cabeça, são as mais pequenas e as maiores. No meu escritório trabalha também um pintor. Ocupou a cozinha por causa da luz, que entra por uma janela diminuta, qual câmara escura, e trouxe com ele telas brancas e madeiras virgens e barros por moldar. Estes partem-se muitas vezes por acidente – eu até gosto das estatuetas anatomicamente perfeitas com cabeças e braços amputados –, mas as telas nunca ficam por preencher. Não sei como nasce aquilo. Ele põe-lhe as cores e as cores arranjam-se entre si em figuras femininas, florestas, bailarinos e caras de espanto. Mas sei que, antes de haver tinta na ponta do pincel, houve coisas inúteis na cabeça. Essas coisas inúteis, tratadas com o cuidado que merecem, acabam como coisas úteis na tela. Tudo o que é belo é útil. Depois de ter decidido partir, a estrada enrolou-se à volta dos meus pensamentos como uma jibóia de muitos quilómetros. Em vez de alcatrão, havia o medo de não conseguir, a fanfarronice de certas horas em que me achei capaz de tudo, inclusive caminhar do Shire até Mordor, o desânimo por me ter comprometido com uma ideia fútil que vinha do nada e ao nada levava. E a vontade de ver – de ir – de ser atravessado pela vida. Agora, a estrada era a minha tela e eu fazia como o pintor, preenchia-a de coisas inúteis esperando que as tintas se transformassem em quadro. Um dia, em Março, dei por mim a caminhar depois do pequeno-almoço. Passei pela mota e segui. Passei pelo carro e segui. Não tinha dito às minhas pernas para irem, mas elas devem ter achado que o cérebro já levava vários dias de coisas inúteis. Chegara a hora das coisas úteis, como amestrar o corpo. Duas horas depois, avistava o escritório, que fica a oito quilómetros de casa. Abrira duas bolhas na planta do pé esquerdo – as mesmas que mais tarde, regressado a casa, me pediram para comprar urgentemente sapatilhas adequadas –, mas o passeio pela Nacional 2 tinha começado.

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NACIONAL 2

por Afonso Reis Cabral


Nunca estive na casa de partida de uma corrida. Imagino os adversários em posição, o corpo quente e tenso, as bancadas em silêncio à espera do sinal. Esta antevisão, que associo a uma forma de paz, encontro-a na Decathlon. Tudo nessa loja está prestes a partir: os equipamentos das prateleiras, as tendas alinhadas, os barcos insufláveis, as compressas para as dores, as bicicletas, os sacos de boxe. Ali aguardam pequenos paraísos ou grandes torturas. Pensava nisto quando perguntei pela quinta vez à funcionária: «Mas tem mesmo a certeza de que estas sapatilhas aguentam bem a estrada?» Ela acanhou-se perante a ideia de 738 quilómetros numas sapatilhas Redmond Columbia de sessenta e nove euros, mas, como eram as únicas do meu tamanho, respondeu-me que aguentavam e eu dei-me por satisfeito. Semanas mais tarde, na manhã em que cheguei a Faro, beijei as sapatilhas por terem suportado o que a estrada e eu lhes fizemos. Depois comprei a parafernália que serve de tábua de salvação no caminho: mochila de quarenta litros com arejamento nas costas, bolsos vários e capa contra a chuva; bexiga de plástico para dois litros de água, equipada com um tubo e biberão; kit de primeiros socorros; colete amarelo, espécie de segunda pele; quinze pares de meias anti-bolha; pomadas várias que mantêm os pés lubrificados; boné com protecção na zona do pescoço; power bank para ir dando de comer ao telemóvel. Nos treinos que se seguiram, descobri que em duas patas se vê mais do que em quatro rodas. Pelo menos, vê-se mais lentamente. Lisboa está bordada a hortas, antes do Parque das Nações dá para perguntar aos últimos agricultores como se monda a terra. Eles às vezes não respondem mas eu digo-lhes que gostava de ter uma horta como as deles. Talvez achem que há hortas a menos para pessoas a mais. Problemas do mercado imobiliário.

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Na faixa da Infante Dom Henrique, de Braço de Prata a Santa Apolónia, habita muita gente que ali fica em barracas, tendas e caixas de cartão. Quando lhes acenei, recuaram. Depois acenaram eles e recuei eu. Encontrei uns a comer, outros a cantar. Debaixo do viaduto que leva à estação, perto dos carris da zona portuária, julguei ter visto restos de fogueiras – portanto, de noite, não passam tanto frio. Ainda assim, viviam melhor do que o Nuno, um gajo que eu conhecera dias antes e que vende pássaros em Gondomar. A casa cheirava a animal morto. A cozinha a animal bem morto. No quintal havia um pitbull manso,

incomodado com tanta miséria, que nem sequer me ladrou ou mostrou os caninos. O Nuno também não mostrava os dentes porque quase não os tinha. «Esta é a minha cruz», disse quando lhe perguntei pela tatuagem de Cristo que começava perto do pescoço. Falámos da cruz: muitas horas debaixo de água como soldador submarino, bastante azoto nas veias, onde também foi juntando álcool e uns chutos de heroína. Agora era aquilo que se via, alguém mais limpo mas ainda não completamente limpo, um vendedor de pássaros numa casa suja. Quando me deu a caixa com o dom-fafe, pensei libertar o pássaro como homenagem, houvesse ao menos alguém livre daquela miséria, mas levei-o para casa e prendi-o no aviário. Apesar de ter muitas fêmeas, recusa-se a galá-las. Num dos treinos, cerquei Lisboa com um fio imaginário feito dos meus passos. Foram quarenta e um quilómetros nos quais reparei que a cidade já não pertence ao lisboeta ou ao turista: agora pertence às trotinetas. São bichos tão frágeis, quais garças-boeiras, que abrandei o passo sempre que me aproximei delas. Ao montá-las, o ser humano deixa-as exaustas. Perto das Docas, observava um grupo de raparigas bonitas, distraídas umas com as outras, quando ouvi campainhas vindas de todas as direcções. E em segundos várias trotinetas cruzaram-se e rasaram as raparigas. Os rapazes em cima delas berravam como índios a exigir escalpes. Enxameando as raparigas, os apaches aceleraram para se exibirem enquanto perguntavam: «Estavam perdidas, as meninas?» Elas levantaram os braços para lhes responderem: «Sem vocês, claro que estávamos.» Eu continuei o meu caminho e não sei o que aconteceu depois, mas vinha a calhar se cada uma tivesse seguido com cada um em cima das trotinetas. Em direcção ao pôr-do-sol ou assim. Uns quilómetros depois, na frente ribeirinha da Expo, deparei-me com a prova de que as trotinetas são mesmo aves vulneráveis: de vinte em vinte metros, encontrei-as afundadas no lodo da baixa-mar. Eram catorze de enfiada – e eu tenho a certeza de que a décima quarta, ao ver os cadáveres das amigas, teve um curtocircuito de desgosto e atirou-se ela mesma ao rio. De Alcântara a Cascais, a água e o sol lavavam tudo, os passeantes assemelhavam-se, caminhavam da mesma maneira. Uns de tronco nu, outros com os bonés virados para trás, alguns a ouvir música e uns quantos a namorar – todos tão contentes e com ar de quem nunca ansiou que, por momentos, o mundo ficou contido na marginal e não tinha início nem fim. Enquanto via o rio tornar-se


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Foto: João Reis Antão


foz, aprendi que as minhas pernas são mesmo irmãs: partilham a dor à vez. Durante o dia, caminhava. À noite, lia. Palmilhei o País do Algarve ao Minho com Nuno Ferreira, no seu Portugal de Perto. Estudei sobre a estrada no maravilhoso guia Portugal de Norte a Sul pela Mítica Estrada Nacional 2. Subi ao Evereste com João Garcia e ao Annapurna com Herzog. Jon Krakauer apresentou-me Chris McCandless e este, por sua vez, disse-me para ler O Apelo da Floresta, de Jack London. O livro não tem grande interesse, excepto ter sido sugerido por um parceiro de caminhadas. Em Walking to Listen, Andrew Forsthoefel descreveu-me como caminhou de costa a costa nos EUA. Seguindo-lhe o exemplo, decidi pedir conselhos a quem encontrasse pelo caminho. E Paulo Moura, jornalista e autor de Longe do Mar, fez-me crer que encontraria muitas histórias na estrada. Entusiasmando-se com as leituras, o meu Walter Mitty quis apoderar-se de mim e isso preocupou-me. Apesar de ter fomentado as coisas inúteis e tratado das úteis, apesar do equipamento e dos cento e trinta quilómetros de treino, a estrada bem podia nunca acontecer. Resultar nas frustrações de um sonhador. Para dar coça ao Walter Mitty, tornei o projecto oficial: publiquei um texto no Facebook acompanhado de uma foto com o boné do Forrest Gump. Agora, que gente invisível gritava «Walk, Afonso, walk!», não podia desistir.

bigodes, pelas expressões cansadas. Na Nacional 2 há tempo para cansaço e para camaradagem. Imaginava-os amigos de sempre, por fim reformados e com calma para as conversas que interessam. Chegaram a Faro três semanas antes de eu partir e são uns gajos espectaculares. Por causa deles, o caminho ficou de novo grande como sempre foi. Na última noite antes da caminhada, pensava em como eu e as minhas pernas havíamos andado mais de uma centena de quilómetros. Em como o meu cérebro e eu estávamos decididos, melhor dizendo, conformados. E em como, na manhã seguinte, os passos mais difíceis seriam para sair da cama. Se conseguisse fazer a Nacional 2, talvez me tornasse andróide e pudesse dizer «I’ve seen things you people wouldn’t believe». Nesse momento, embora fosse caminhar sozinho, desejei que um qualquer cão me acompanhasse. Estaríamos bem um para o outro: eu tão cão como ele rafeiro, os dois vadios da estrada. Só esperava não ficar pelo caminho, o que era bem possível, embora um bom falhanço também fosse uma boa coisa. É que o Walter Mitty podia ressurgir em qualquer etapa da jornada; para o conter, propus-me publicar um diário do caminho. Ei-lo aqui, com as paisagens e as pessoas.

Para além das leituras, pesquisei sobre a Nacional 2. Descobri as pessoas da estrada – aqueles que a percorrem publicando sobre ela online. Aqueles que a amam, porque aqui amor significa o tempo que lhe dedicam. E percebi que ainda ninguém a tinha palmilhado.

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À descoberta da estrada e das pessoas da estrada juntou-se o objectivo empolgante de ser o primeiro, mesmo numa coisa tão insignificante como ir de um ponto ao outro. Nas semanas que faltavam até 22 de Abril, encolhi o caminho para que nele coubesse a ambição recém-nascida: ser o primeiro. Embora ainda não lhe tivesse posto os pés em cima, a estrada já era mais minha do que de quem a fizera de carro, mota ou bicicleta. O caminho quase tinha sumido, pequeno e mesquinho, quando descobri que um grupo de amigos, todos com mais de sessenta anos, começara a empreitada. Segui-os pelo Facebook, reagindo a princípio com desapontamento: que azar, a poucas semanas de meter eu os pés no alcatrão... Enquanto acompanhava os quilómetros e via as fotos, comecei a conhecê-los pelos bonés, pelos

NOTA: Por erro editorial, na edição passada, o excerto do livro “Leva-me contigo” de Afonso Reis Cabral, foi publicado truncado, pelo que o republicamos na sua versão original com um pedido de desculpas ao seu autor.


Existências por Sofia Viana

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Há pele no papel que risco e pontas soltas de fios dourados num segundo de felicidade Sentinelas de pele que fica Debaixo da pele que não preciso E da poesia que se come Com se comem à noite as luzes da cidade Há oceano no céu que piso E uma lenta foz no avesso do teu sorriso E poetas que embalam folhas brancas Como se embala um menino Como se suplica um lamento!? Há dó nas lendas do tempo e no olhar abrigado Há outros sítios nos bolores que persigo


Leituras por Denise C. Rolo*

«Rebecca» de Daphne Du Maurier

O livro de que hoje lhe falo tem o silêncio como base de uma história em que nada do que parece, é. Quantas vezes estamos convictos daquilo que nos dizem para, mais tarde, perceber que, afinal, não fazia qualquer sentido. Quando duas pessoas iniciam uma conversa, há um aspeto que parece ficar suspenso no ar, sem nunca ganhar a consistência merecida. Falo da responsabilidade que cada um tem sobre aquilo que diz mas, também, o que não diz.

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Escrito em 1938, «Rebecca», de Daphne Du Maurier, tem ainda hoje, um tema que esmiuçado em profundidade, encontra a atualidade dos dias apressados, em que se assumem convições próprias como verdades universais. Se há mensagem que não pode ser compreendida, é aquela que não se pronuncia. Este é um livro sobre mensagens vagas e escondidas no silêncio de quem não ousa abrir a boca, sobretudo se a pessoa a quem gostaríamos de questionar uma infinidade de coisas, já morreu.


Ao entrar na mansão Manderley, a jovem percebe estar casada com um homem de grandes posses, contudo, igualmente farto em segredos e omissões sobre a morte da mulher Rebecca, um ano antes. As paredes da casa acentuam a presença de uma morte ainda muito viva. O primeiro passo dado em direção aquela casa, faz sentir na jovem a certeza de que tempos difíceis virão. O ar que ali se respira é pesado e em cada gesto silencioso da governanta, impera uma voz que relembra a inesquecível Rebecca em todos os mais pequenos detalhes. As loiças, a mobília, os cortinados, cada pequeno detalhe, enfatiza o deslumbramento de uma mulher ausente mas, na perspetiva da jovem, muito mais presente naquela casa do que qualquer outra pessoa. A cada dia, a inadequação da jovem vai crescendo, em muito, motivada e orquestrada por uma governanta zangada e fiel à antiga senhora da casa. Serão muitas as crueldades contra a jovem recém-chegada e que, forçosamente, potenciam a inibição que sempre a caracterizou. Também o silêncio da própria casa e de todas as personagens que vão passando por ali, cuspindo segredos, alimentando intrigas, farão crescer nela uma curiosidade permanente sobre quem era aquela mulher, sempre tão viva. Há todo um tormento progressivo ao longo da história, criando na nova esposa de Maxim, a tendência para calar ainda mais e especular mais ainda. A curiosidade e o sentimento de inferioridade crescem num paralelismo aflitivo, gerando numa quase inconsciência,

uma teia de suposições cada vez mais enraizadas, cada vez menos realistas. Na sequência do receio que a domina, cria em si mesma histórias para lá do possível. O silêncio ensurdecedor fez nascer em si uma história feita de suspeitas, de perguntas infecundas, de receios que se basearam na aparente admiração que Rebecca suscitava em tudo e em todos. O leitor será compelido a torcer para que esta mulher se decida a falar, a questionar, a impor-se num mundo que agora é dela, mas em que as palavras não ditas parecem sempre gerar uma história em que nada do que parece, é. A autora criou, magistralmente, um conjunto de personagens inibidas para comprovar o silêncio como a base de uma história distorcida, irreal. Aquelas histórias que perdem o sentido original para se forrarem de uma interpretação que não é mais do que a soma da vida de quem se prontificou, apenas, a ouvir. Sabemos de antemão que um livro assume realidades distintas para quem o lê, e o mesmo acontece naquele cenário de uma conversa. Quando duas pessoas comunicam, toda uma nova história pode ser criada na mente silenciosa de cada um, e isso dá muito que pensar. Daphne Du Maurier escreveu uma história que nos obriga a refletir no poder das palavras mas no igual poder da sua ausência. Todas as agruras que esta jovem mulher viverá, formam-se pela sua incapacidade de questionar. Todas as histórias criadas e movidas pela curiosidade de quem realmente tinha sido Rebecca, originam uma catadupa de incertezas, receios e uma enorme tristeza. Desafio-o a que sinta a leitura deste livro como um exercício urgente do quanto deixamos de viver baseados nas convicções de uma verdade, não universal, mas pessoal. Reconhecer medos e receios como o grande dogma das histórias mal contadas, fará com que o destino das coisas boas nos transfira para um caminho muito mais solto. Foi assim com esta jovem mulher, a partir do momento em que o véu de uma mentira por si imposta cai e pode, finalmente, enxergar o real sentido das palavras que lhe chegam do homem que sempre a priorizou. Quantas histórias mal contadas o estão a impedir de viver a melhor versão da sua vida? «Rebecca» irá, penosamente, fazê-lo refletir sobre isso. No final, agradecerá. *Blogue Literário «Ler(-te)»

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Esta é a história de uma frágil e jovem mulher, de quem nunca conheceremos o nome. Mulher simples, acanhada nos gestos, inibida nas palavras, é cuidadora de uma senhora inglesa, mais velha. Será no decorrer de uma estadia em Monte Carlo, e através daquela senhora, que a jovem conhecerá Maxim de Winter, recentemente viúvo. Entre os dois nasce uma rápida cumplicidade, descrita por longos passeios e conversas que seriam mais monólogos, perante o silêncio dela, sempre tão tímido e ritmado. Depressa se apaixona pelo magnetismo irrevogável daquele homem, aceitando um repentino pedido de casamento. Dizem que o amor requer tempo para amadurecer mas, na verdade, mais do que tempo, o amor precisa de certezas. Esta jovem vivia na certeza de amar Maxim, e será essa verdade convicta que faz deste livro uma das histórias de amor mais bonitas de sempre. E isso, caro leitor, não significa fogos de artifício, grandes proezas ou rosas vermelhas. Esta é uma história de amor que nasce e prolifera na sombra de uma mulher ausente.


Mal me quero por Tiago Salazar

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Uma mulher de meia-idade, balzaquiana como se diria noutros tempos, limpa o pó a uma jarra de malmequeres na sala de jantar junto à janela debruçada sobre as Caldas. A expressão do rosto, pálido, olheirento, triste, diz sofrer de enfado, aonde, como os raios de sol, a espaços, num dia de tempestade, se divisam raios de esperança. No íntimo onde ninguém chega, e onde as palavras apenas servem de bálsamo, sofre de amores: de amor-próprio e do amor por um homem, onde um dia achou estar o sentido da sua vida. Pega numa flor, inala-a e interrompe a lide.

- Malmequer, bem me quer, mal lhe quero, mal me quero… (repete, até depenar a flor). Raios te partam! Promessas, cios, de ti quero só a verdade, por muito que doa (imita-o). Pulha! Mal te quero! (Grita e parte a jarra. As flores espalham-se pelo chão. Senta-se no chão. Chora). Como pude acreditar em ti. Como! Sirvo-te para te lavar a roupa, fazer-te a comida, engrandecer-te, ser-te e é isto que tens para me dar. Mal te quero! MAL TE QUERO! Oxalá nunca sejas capaz de nada. Devia ter-te capado no dia em que soube. Eu sabia, mas estúpida, não queria ver. O amor livre, amor, o poliamor. Nunca deixou de ser ela. Ela! Foi sempre ela, a tua vaidade, como é sempre uma coisa qualquer, por mais que tentemos andar para a frente. Podia ter-te envenenado com as minhas migas, as tuas migas como só eu as faço, como nenhuma outra (imita-o). Aposto que dizes o mesmo a todas. Como dirás que o meu broche, o meu cu, a minha cona, a minha pele, o meu cheiro, a minha voz, a minha leveza… é tudo melhor do que qualquer outra. Deves ter dito o mesmo à Helena do guiché enquanto te pavoneavas nos corredores das termas a mostrares o teu arcaboiço. A esta hora deves estar montado nela. A resfolegares, a fazer o teu exercício, a ocupares o teu vazio, até ao dia em que morrerás da tua overdose, como morrem os que se drogam, os que bebem, os que odeiam tudo e todos. Odeio-te! Cabrão! Pulha! (agarra nas flores e rasga-as todas, menos uma, afastada das outras). A Sofia, a Clarinha, a Odete, a Paula… e todas, todas maravilhosas, mas enfim, a vida continua, a viagem continua, o tempo não pára, e que diabo, eu só queria saber de mim, dos meus pais, dos meus amigos, do meu dinheirinho certo de professora. Tu não. Tu é que eras o visionário, o descobridor, que achavas estar no mundo para lá destes calhaus perdidos no mapa a resposta para a vida, quando a vida, Ricardo, a vida, é isto. Limpar o pó. Arrumar a casa, cuidar, limpar, arrumar, acarinhar (rasteja e agarra-se à flor e beija-a). Tão simples, Ricardo. Tão simples. Tão simples como as águas livres. E não são só as mulheres que são capazes destes gestos. Tu também és capaz. Tu também eras capaz de parar de caminhar, quando íamos para o paredão, e olhar as pedras e entrares nelas, na sua natureza, na água a bater no molhe, nos reflexos da luz, nas casas velhas, nos gestos dos homens ali, os pescadores, os loucos, os vagabundos, aquele homem de barbas longas e pés descalços a quem invejaste a liberdade, por estar na praia, sozinho, com uma tenda, uma mala, sem nada, sem ninguém com ele, deitado e absorto horas com a água toda à sua frente. Livre! Tu, o mais certo era estares logo a pensar no Vasco da Gama, no Mendes Pinto, nos Pêros todos, e a fazeres contas de cabeça, achando que esses é que foram os grandes homens da nossa terra, tão grandes como o mais nobre dos va-gabundos. Vem comigo, Maria. Vem. Vamos dar a volta ao mundo. E eu, tonta, ainda vacilei, ainda fiz contas, ainda pensei em vender tudo e ir contigo. E depois? Quantos meses ou semanas ou dias depois me dirias que a viagem continua, incapaz de me dizeres que os meus pés já estavam velhos e gastos, o meu cabelo estava baço, os meus olhos tristes, o meu corpo já nada te dizia... Não te preocupes, Maria, és digna do maior amor. Eu amei-te, muito. Eu amo-te, muito! Eu odeio-te muito. Eu amo-te, Maria, quando se diz que se ama é para sempre que fica dito! (imita-o) Cabrão. (chora). Acreditei uma vez. Acreditei outra vez, como acreditei naquele labrego de boas famílias, que foi capaz de foder sei lá quantas gajas na mesma cama onde dias antes de se ir embora me abraçava. Na mesma cama onde me fez um filho que nunca quis verdadeiramente! Como foste capaz de me enganar! A culpa é minha. Olhava para ti e via um deus. Nunca tive tanto prazer. Nunca me senti tão mulher. Nunca olhei para um homem, e logo disse, este é o meu homem.


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Quem é para nós é quem cuida de nós, sabes? Podias ter fodido meio mundo, mas nunca podias ter deixado de cuidar de mim. Foi isso que me magoou. Mas eu deixei. A culpa foi toda minha. Deixei que te instalasses. Deixei que reinasses e arrasasses tudo com as tuas promessas. Porque prometeste? Porque não me disseste apenas que era um passatempo? Uma mulher do caminho? Uma foda? Sou uma foda? É isso? Foi isso? Ricardo, sou uma mulher. Nunca a tua mãezinha te disse que não se bate numa mulher nem com uma flor? Nunca me bateste com as tuas mãos delicadas, mas foste capaz de me arrasar. Antes tivesses batido, se calhar. Ou antes tivesse enchido o teu souflé de veneno, gota a gota, e tivesses morrido de uma doença estranha. Como foste capaz? Como pudeste falar-me de amor, de Amor, de encontros raros? (Deita-se no chão, de borco, e deixa-se estar, de rosto para o lado). Mariazinha, querida Maria, meu amor, meu doce, minha flor, vamos dar a volta ao mundo? Para que precisamos de dar a volta ao mundo se tudo o que precisamos para sermos felizes está aqui? Disse-te eu. Faz-me um filho, vamos ter um filho só nosso, disseste, e talvez o tenhas sentido, mas como quando tentámos não aconteceu, achaste logo que eu não era capaz, e nem sequer te questionaste se eras tu que não eras fértil! Tinha-te dado um filho! Tinha cuidado dele, como cuidei de ti desde o primeiro dia. E não te amaria menos. Talvez te tivesse amado mais. Ricardo, porque me deixaste sem seres capaz de me dizer uma única palavra? Que sei eu de ti? Que sabes tu de mim? Sempre aceitei a tua vida, a tua vida de artista, mas sempre achei que fosses capaz de te transformar por amor, pelo amor que disses-te me tinhas. Mas era muito mais fácil continuares a tua viagem. A vida não pode parar. Um dia morremos, ao menos que essa morte venha e possamos rir de tudo o que não deixámos de fazer! (imita-o). Estás assim tão certo de que quando a morte te chegar é no sexo fantástico que tiveste que vais pensar? Alguma vez o sexo foi para ti o sexo de quem se entrega como quem dá a vida por outro, por um filho? Tenho nojo de mim! Tenho nojo de ti! Tenho nojo de ter dado o meu corpo a um homem que nunca foi capaz de ter uma conversa sincera e dizer-me, não sou capaz de amar nada nem ninguém. Não sou capaz de estar contigo, nem com ninguém, e sofrer por amor, como se sofre apenas por estarmos vivos e nada sabermos do que virá depois. Não me dás o que quero, disseste uma vez, fosse isso o que fosse. Falavas do quê? Do meu corpo disponível como uma puta? Não sei o que queres. Sei o que nunca quis. Nunca quis sentir-me tão imunda como este pano do chão. Tão destruída como estas flores. Tão seca e gretada como esta terra. Não fui contigo atravessar os desertos do mundo porque no fundo nunca acreditei em ti. Tenho em mim a força, num vaivém incessante. É dessa força que nasce tudo. É dessa Força que me nasce(u) Tudo. Só um homem, um Homem, poderá dizer - envolto nessa dança, nesse bailado da alma - como é do sexo, do sexo para além do sexo, do sexo onde triunfa o Amor, que a vida, a Vida, vale a pena. Para uma mulher, uma Mulher, depois de ser mãe, de Ser Mãe que já o era, um homem passa a ser outra coisa, uma Coisa onde poderão desaguar as forças do amor. Mas o Amor, esse, o incondicional, passa(m) a ser o(s) filho(s). O(s) filho(s) nascido(s) de Si, espelho(s) de Um Homem, um Amor, Uno, visceral. Eternos enigmas. Deita as cartas da verdade na mesa, no chão, no tampo de pedra negra da cozinha. Deito as minhas cartas. Cruas. De amor, cru. É a ti que quero, foste sempre tu. É em ti, nesse rosto rasgado por uma beleza cavada e funda, um abismo de onde a espaços saem rasgões de claridade, como quando viajas ao teu passado, aos teus, à tua gente. É profundamente sexual o que quero de ti, e como tal tem implícito o ciúme e a raiva. O ciúme de quem quer o outro e para quem a sua ausência e rejeição são insuportáveis e conduzem à raiva e ao ressentimento. No teu lado irracional é assim certamente, porque só pode não ser assim quando o desejo se dissipa. Quando morre o amor. Se são os filhos, os desgastes, os medos, o realismo insuportável que te impedem de chegares mais vezes a mim e a ti, a ti Mulher, a ti fêmea magnífica (por muito que assim não te vejas), e desfrutares do teu corpo e do meu, gozares os prazeres da vida, não sei. Sei que não posso deixar de viver, vivendo-te sempre como tudo o que mais me revolve, com a paixão febril de todos os dias. Querendo-te em mim, em ti, apaixonada pelo que somos capazes de fazer um no outro, um com o outro. (imita-o). Aqui, sim, estavas certo. Todas as vezes que me dei a ti, estou certa de que foi por amor. Sabes, Ricardo, as mulheres não amam como os homens. Não se despem como os homens. Não pensam e sentem como os homens. Podes achar que todas te querem mal, como a tua mãe te quis, que nunca te desejou. Mas foste amado, és amado, és infinitamente amado, como somos todos os que andamos nesta terra. Mas se não te amas, como podes tu amar alguém? Eu não me amo, Ricardo, mas amei-te. Mal ou bem.


Postais Perdidos

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por JoĂŁo Albuquerque Carreiras


Paris, França 16-VI-15

Meu querido Fazia muitos anos, percebo agora que demasiados, que não vinha a Paris. Tinha a memória marcada de uma cidade grandiosa, em que os monumentos e museus me haviam esmagado e em que os enormes boulevards me haviam oprimido ao ponto de me sentir um anão. Lembro essa sensação de escala não humana, de uma cidade que não fora desenhada para mim, para o homem, mas para uma qualquer criatura grandiosa, cheia de voluptuosidade. Não partira de Paris apaixonado como tantos, não partira com uma necessidade imperiosa de voltar. Gostara, como se gosta de uma mulher bela e inacessível, mas não sentira o fogo desmedido da paixão. Voltei, e escolhi ficar na zona que mais havia gostado de Paris, o Marais. Vim em trabalho e a sorte premiou-me com a zona do Luxembourg. Tendo já percorrido a via-sacra dos museus e monumentos decidi relaxar e viver como um parisiense, no meu estúdio alugado por uma semana. Sair de manhã para comprar o pão e regressar para um pequeno-almoço com vista para um jardim. Parar no caminho para casa para um copo de vinho numa esplanada após ver algumas montras. Devorar bifes tártaros como se os mesmos estivessem em extinção. Comprar chás e compotas para ajudar a passar o inverno. Deambular junto ao Sena com a luz do crepúsculo sobre a Notre-Dame. Parar para um gelado na Ille de S. Louis. Fumar calmos cigarros num relvado das Place des Vosges. Jantar com amigos e vinho tinto. Andar a pé e esquecer a todo o tempo os longos boulevards, trocados por S. Germain, Saint Suplice, Luxembourg, Marais. Fui tomado pela joie de vivre e pelas esplanadas com as cadeiras todas voltadas à rua, como uma imensa passerelle onde achamos sempre estar de menos para desfilar. Apaixonei-me. A paixão não escolhe momento, arrebata-nos sem que percebamos, deixando-nos num estado de levitação e desejo. Não posso voltar a estar tanto tempo sem Paris. Em bom francês, foi um valente coup de foudre,

Abraço,

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João


Rodrigo Leão

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Conversa sobre “O método”


João Albuquerque Carreiras

Rodrigo Leão nasceu em Lisboa no ano em que os Rolling Stones lançavam o seu álbum de estreia e Dylan, antecipando o Nobel da Paz atribuído a Martin Luther King, anunciava ao mundo que “The Times They Are A-Changing”. Por cá, os tempos de mudança ainda levariam tempo a chegar e Rodrigo, como a maioria dos portugueses, vivia habitualmente dividindo o seu tempo entre as brincadeiras de rua, as aulas no Colégio Moderno e as férias de Verão na Ericeira. O fervilhar de uma Lisboa que sonhava ser cosmopolita apanhou-o já no final da adolescência, num tempo em que todos os caminhos iam dar ao Bairro Alto. Influenciado pelos sons que chegavam de Londres e Manchester e pelos ritmos que começavam a emergir um pouco por toda a cidade e marcavam encontro no Rock Rendez-Vous, Rodrigo aventura-se no mundo da música e com Pedro Oliveira e Nuno Cruz, funda, em 1982, a Sétima Legião. “A Sétima Legião traduzia as influências não só de Manchester, mas também da Galiza, por exemplo, e nisso talvez tenhamos sido diferentes.”, dirá mais tarde. Desse tempo recorda os concertos iniciais no Rock Rendez-Vous, quando ia a correr a casa do amigo Pedro Ayres de Magalhães pedir o baixo Fender emprestado, para tocar. A proximidade ao líder dos Heróis do Mar acabou por ditar a sua entrada, como teclista, para um novo projecto que começava a ganhar forma e que veria a luz do dia em 1985, os Madredeus. A estreia, com o duplo “Os Dias da Madredeus” gravado no Teatro Ibérico de Xabregas, ditará uma nova fase na vida de Rodrigo Leão. Durante oito anos e mais três álbuns, fará parte integrante do projecto musical português de maior sucesso internacional. Mas Rodrigo ambicionava outros voos e em ’93, ainda membro da banda, edita o seu primeiro álbum a solo, com a colaboração de dois dos seus parceiros dos Madredeus – Gabriel Gomes e Teresa Salgueiro. “Ave Mundi Luminar” espelhava um olhar musical próprio, recheado de uma miscelânea de influências que iam do tango argentino, ao minimalismo contemporâneo de Michael Nyman e que Rodrigo continuaria a explorar nos álbuns seguintes, “Mysterium” e “Theatrum”. “Alma Mater”, o seu quarto álbum, misturando o minimalismo experimental dos álbuns anteriores com uma carga mística que se começa a desenhar no seu percurso musical, representa, também, um regresso a sono-

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por João Albuquerque Carreiras e João Moreira


ridades mais pop, notórias em músicas como Pasión, que daria nome ao seu primeiro disco ao vivo, com participações de diversos músicos do panorama nacional. A procura incessante de novas sonoridades, abrem espaço a parcerias com nomes incontornáveis do mundo da música: Rosa Passos, Beth Gibbons, Ryuichi Sakamoto, Neil Hannon, Stuart A. Staples, Melingo,  Celina da Piedade, Scott Matthew, Beth Gibbons, Adriana Calcanhoto, Sara Tavares, entre muitos outros, nos sucessivos álbuns “Cinema”, “Mãe”, “Songs” e “A Montanha Mágica”. Pelo meio, assinou a banda sonora de um país, em “Portugal-Retrato Social” de António Barreto. A “electrónica discreta” do centro da Europa e o gosto por um certo experimentalismo sonoro, anunciavam-se já em “A Vida Secreta das Máquinas” e marcam definitivamente, segundo o próprio Rodrigo, o seu mais recente álbum “O Método” que será lançado nas próximas semanas e deu o mote para uma conversa com a BICA junto à Academia Musical dos Amigos das Crianças (AMAC), onde estudam os seus filhos.

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Fala-nos um pouco do teu novo álbum “O Método”. Pois… o novo álbum (risos). Esta é das primeiras vezes que eu falo do disco. Nunca sei bem o que dizer sobre um disco que termino. As primeiras vezes então… Depois uma pessoa habitua-se (risos). Este disco foi preparado ao longo dos últimos 2 anos, e eu já o queria ter editado o ano passado, porque coincidia com os 25 anos do aniversário da minha carreira, mas acabámos por ter tantos concertos que atrasou um bocadinho o processo e ainda bem. Chama-se “O Método”, mas eu sou a pessoa com menos método para fazer o que quer que seja (risos). No entanto, este foi dos discos em que procurámos mais método para atingir esta concretização. Foi feito no meio do ambiente familiar em que eu costumo produzir os meus discos – com o João Eleutério e o Pedro Oliveira, que são muito amigos e pessoas muito chegadas, pelo que sempre houve um grande receio de convidar alguém do exterior –, mas neste disco, pela primeira vez, convidámos um músico que é compositor e que também é produtor, o Federico Albanese, que é italiano, mas vive em Berlim. Ele é novo, tem dois ou três trabalhos, mas está numa corrente musical com que eu me tenho identificado nestes últimos anos, na linha de composito-

res como Nils Frahm, Ólafur, portanto aquela música alemã com uma electrónica discreta. O António Cunha, que é o meu manager e meu amigo de longa data andava, há anos, a dizer-me: “Vocês deviam trazer uma pessoa fresca para a vossa equipa de produção”, insistiu e acabámos por aceitar o desafio. Os primeiros dias correram muito mal. Fiquei a pensar: “Se calhar, isto está a ser o maior erro da minha vida”. Mas, a verdade é que depois as coisas correram muito bem e entrámos em sintonia. Fui compondo como costumo fazer para todos os discos e passado um ano tinha para aí umas quarenta ideias prontas, das quais umas não tinham nada a ver com outras. Mas já ali havia o princípio de um caminho, de música mais instrumental, mais ambiental, mais electrónica. E se havia algumas que ainda tinham aquela influência que existe no meu trabalho do Kusturica, saíram logo todas. Fomos gravar a nossa primeira maquete, com um trio de cordas e arranjos do Carlos Tony Gomes, gravámos sete ou oito faixas e fiquei contente com duas ou três.  Acabámos por gravar o disco aqui no Atlântico Blue e depois fomos misturá-lo a Berlim, num estúdio que se chama Vox Ton, que é um estúdio analógico. Por acaso, naquelas sessões que eu tento fazer, mais isolado, a trabalhar das 6h da tarde às 6h da manhã, há alturas em que não sai música nenhuma e eu comecei a fazer uns desenhos. Assim umas coisas muito abstratas, com umas canetas Rotring, e a verdade é que, de repente, começou a haver alguma associação de alguns desenhos a algumas músicas e, portanto, A Bailarina tem alguns desenhos que eu fiz, com a animação do Colectivo Criativo Oskar & Gaspar, que é fantástico. Outra das ideias que eu tinha também, de início, era tentar usar um coro juvenil nalgumas faixas e isso acabou por acontecer através do coro juvenil da Academia Musical dos Amigos das Crianças (AMAC), onde os meus três filhos estudam (o mais velho já saiu, está na Escola Superior de Música). A Bailarina é cantada pela nossa filha mais nova, a Sofia, com a Ângela Silva, a Viviena Tupikova e o coro juvenil da AMAC. As palavras que estão a cantar são inventadas, escrevemo-las de propósito numa língua que não existe, para sublinhar o lado sonhador e espiritual da canção. Com tudo isto, penso que houve a procura de alguma mudança em relação ao meu passado, que nunca é total, porque há sempre influências que permanecem. Mas, há mudanças, sobretudo se pensar nos últimos discos que fiz: “A Vida Secreta das Máqui-


Tudo se encaixou e embora tivesse ficado com pena de não ter incluído dois ou três temas que já tínhamos seleccionado, uns por razões técnicas, outros por o arranjo não ter resultado muito bem, a verdade é que ficaram estes 12 temas e estou muito satisfeito. Durante os últimos seis meses, pensei: “Que sorte! Desta vez tenho tempo para pensar num título para o disco”. Normalmente acontece sempre à última hora, mas quando me apercebi já não tinha tempo nenhum. Acabou por ficar “O Método”, que era um título de trabalho para um dos temas.

Que vai ser um single. Sim, é um instrumental a que eu dei aquele título, porque como estava a trabalhar no computador, tinha de lhe chamar qualquer coisa (risos). Como, depois os músicos e as pessoas que estão mais envolvidas no disco se começaram a habituar aquele nome, a associar aquele tema ao título…

… já era impossível mudar. Quase. Muitas vezes, mudo seis títulos num álbum, uns dias antes, mas é uma estupidez. Este é o primeiro disco em que acabaram por ficar muitos títulos que eu jamais imaginaria que poderiam ficar.

Isso é curioso porque os títulos, quer das músicas, quer dos álbuns, para quem vê de fora, parecem sempre uma coisa muito pensada, muito elaborada. Pois, por vezes é. Os meus amigos mais chegados estão sempre a perguntar porque é que me preocupo tanto com os títulos e, realmente, eu vivia obcecado com os títulos, porque, para mim, tinham de fazer sentido, tinham de transmitir alguma coisa que fizesse sentido. Depois olho para os títulos anteriores, “Ave Mundi Luminar” o meu primeiro, mas também “Alma Mater”, “Cinema”, “Theatrum”, “Montanha Mágica” e acho

que há ali alguma unidade. Agora vem “O Método” e não sei (risos). Mas “O Método”, apesar de reflectir um pouco este trabalho que tivemos, também tem a ver com aquele método, que para mim é mais importante, mais abstrato, mais filosófico, de pensar as coisas.

Eu até associava mais a essa vertente. Eu associo muito mais a isso, porque acho que é um disco mais abstrato, com algumas letras que não têm significado nenhum, em que a ideia é, precisamente, que as pessoas não se prendam muito ao significado das palavras e se deixem envolver pelo carácter mais misterioso das canções. Existe uma música cantada em inglês, embora eu não quisesse repetir aquilo que já tinha feito em muitos trabalhos, convidar um cantor ou uma cantora para cantar um tema inglês, mas a verdade é que, quando o Federico Albanese sugeriu o nome do Casper Clausen, dos Efterklang, de que eu conhecia uma parte do trabalho, e me disse que ele vivia em Lisboa…

Agora há essa facilidade, toda a gente vive em Lisboa. (Risos). É verdade. Mas, quando soube que ele vivia cá, concordei em convidar o Casper para cantar e para escrever uma letra para esse tema, que foi dos últimos a ser compostos, “The boy inside the body”,

Esse carácter mais misterioso que quiseste entregar ao disco é um caminho que tens vindo a seguir, de maior influência de uma certa música electrónica? Talvez. Sabes que eu não me considero músico. Não aprendi música, toco mal, aprendi a tocar sozinho, por isso tenho muito pouca técnica.

Isso dava uma caixa jornalística (risos). (Risos). Os meus filhos sabem ler música, eu não sei ler música. Escrevo as ideias para o computador, imprimo, e depois tenho pessoas que me ajudam a criar um arranjo. Por isso, é natural que a minha música tenha influências de géneros musicais de que eu gosto, de que sempre gostei e que ouvia em casa dos meus pais quando era adolescente: Joy Division, New Order, mas também tango, música brasileira, música clássica, pop britânico. Comecei a fazer o meu primeiro disco sozinho em 1993, já lá vão 26 anos, e era uma música muito estranha, havia meia dúzia de

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nas” que foi um disco feito de repente, num mês ou dois; “O Retiro”, com a Orquestra da Gulbenkian, um disco mais clássico; “Life Is a Song”, com o Scott Matthew, que era um disco mais pop; e o “Cérebro” (para a exposição “Cérebro – Mais Vasto Que o Céu”, que esteve na Gulbenkian em 2019), mais electrónico. A verdade é que este último trabalho foi muito importante para mim e para o João Eleutério, que estávamos quase todos os dias a trabalhar neste disco e tivemos a sorte de trabalhar com o Luís Fernandes, que é um músico de Braga que domina a electrónica, com o qual aprendemos muito nos poucos dias em que trabalhámos juntos na produção de “Cérebro”.


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Também já devias estar farto de estrada, depois de tantos anos na Sétima Legião e Madredeus. Entre ‘86 e ‘94 foram oito anos de loucura, em que chegámos a fazer 70 concertos por ano! Guardo grandes recordações dessas viagens todas que fiz, quer com Madredeus, quer com Sétima Legião.

Li algures que gostas de compor nas viagens. De há cinco, seis anos para cá, mesmo fazendo trinta concertos por ano, passas muito tempo nos hotéis e, às vezes, chegas de um concerto à meia noite e se tiveres à mão um teclado pequenino e um computador, pode-te apetecer estar ali até às duas, três da manhã a tocar.

Estavas a explicar que de ’94, a 2000, ficaste mais por casa a compor. A partir de 2000, mudei um bocadinho a formação base do grupo, com a entrada do Luís Sampaio a tocar bateria e de um baixo, e comecei a fazer uma música menos minimalista do que a que tinha feito nos primeiros álbuns. Foi com o “Alma Mater”, que já tinha uma canção em castelhano, Pasion, e a Casa, cantada pela Adriana Calcanhoto, que começou a existir uma aproximação à linguagem pop, e a partir daí é que começámos, outra vez, a tocar, a fazer mais concertos e eu comecei, também, a ter mais prazer em dar concertos, porque naqueles anos anteriores ia sempre com muito receio. Com os Madredeus toda a gente aprendia muito com o José Peixoto e com o Pedro Ayres, são grandes músicos, mas eu fazia coisas muito simples e ao fim de 40 concertos estava farto daquilo, queria era estar em casa. Penso que perceberam, principalmente o Pedro Ayres, porque continuamos muito amigos.

Foi uma decisão difícil? Para mim foi uma decisão dificílima, porque estávamos a viver um momento muito intenso e eu tinha acabado de gravar esse tal primeiro disco, no intervalo dos concertos que tínhamos com os Madredeus.

Disco em que participou o Gabriel Gomes, se não estou em erro. O Gabriel, a Teresa Salgueiro também cantou em dois temas, e depois continuámos com os concertos. Entretanto, o meu disco começa a ser distribuído por todos os países da Europa e eu a sentir que não lhe estava a dar atenção nenhuma e foi aí que resolvi deixar os Madredeus, porque a Sétima Legião já tinha praticamente acabado. Eu e o Gabriel tínhamos achado que não conseguíamos conciliar com a nossa participação nos Madredeus. Mas, com o regresso a uma linguagem mais pop, começámos a fazer muitos concertos em Portugal, com essa variedade toda, até tínhamos uma cantora lírica, a Celina, que cantava uns temas e as pessoas achavam normal (risos). Quando íamos tocar lá fora, éramos muitos músicos e não era fácil tocar todos os anos. Muitas vezes os promotores diziam: “nós adoramos a vossa música, mas onde é que encaixamos isto?” (Risos). Não que isso me influenciasse nas composições que faço, obviamente, mas este disco e este concerto que tivemos a oportunidade de fazer nestes últimos três meses, sinto que está com muito mais unidade, mais homogéneo do que os concertos que fizemos para trás. Sinto que este disco talvez seja o que terá sido mais pensado.

Mais homogéneo? Sim. A verdade é que, desde o início que estava com essa preocupação, de dar um corpo homogéneo ao disco e tinha algumas ideias: gostava de ter um coro, gostava de ter vozes com efeitos, cantadas ao contrário. Calhou ser a minha Sofia, que tinha 12 anos na altura (tem 13 agora), a fazer experiências e este disco tem um lado muito familiar, porque durante dois anos, os meus filhos, a minha mulher, Ana Carolina, eu, até amigos nossos que estavam em casa faziam experiências no microfone a cantar coisas que eu pedia. Depois teve um lado mais profissional destes estúdios de que falei e acredita que muitas das vozes que fomos regravar em estúdio, em grande som, não tinham a mesma inocência, a mesma genuinidade que tinham sentados no sofá. (Risos). Agora há tanta coisa que se grava em casa que até pode ter um bocadinho de mau som, mas tem mais

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pessoas que gostava daquilo em Portugal. Até em Espanha o disco teve mais êxito do que em Portugal. Estou a dizer meia dúzia de pessoas porque os discos na altura vendiam, sei lá, dez, vinte, trinta mil exemplares e o nosso vendeu mil, era uma coisa insignificante. Só a partir de 2001 é que me preocupei mais com os concertos – entre ‘94 (que foi o ano em que eu deixei os Madredeus) e 2001, estive muito mais preocupado em estar em casa a compor, do que propriamente a fazer concertos, ou seja, os primeiros três discos que saíram não foram muito divulgados em concerto, fizemos para aí 10 concertos em Espanha e cinco em Portugal.


onda, tem mais alma.

Esse experimentalismo é algo que procuras cada vez mais? Sim, procuro. Não faço ideia do que vou fazer no futuro, não me imaginava a editar um trabalho com dez canções cantadas em Português, por exemplo, ou dez em Inglês. Acho que há coisas novas que estão a ser feitas e que ouço e que me levam a querer explorar muito mais novos sons do mundo da electrónica, bandas sonoras… A tua música é, sempre, muito cinematográfica. Sem dúvida. O que eu estava a dizer é que tenho uma necessidade, apesar de haver uma coesão, como tu dizias, nos meus trabalhos todos, com influências muito diferentes, mas tenho necessidade de experimentar. Imagina que ainda estava na Sétima Legião, há 36 anos, por muito que se tente inovar ou mudar, de disco para disco, são os mesmos músicos, a mesma voz e isso para mim é impensável. Eu gosto desta sorte que tenho de poder trabalhar com músicos muito diferentes. Até porque, como muitas vezes tenho dúvidas em relação a muitas músicas, gosto de ouvir sugestões. Tenho a ideia de que deixo que as pessoas participem na minha música, sugiram arranjos, sejam músicos, sejam cantores.

Estás aberto a sugestões.

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Estou sempre aberto a sugestões. Lembro-me de duas pessoas que admiro muito, o Nuno Gonçalves dos The Gift e o Pedro Ayres, que são duas pessoas que sabem exactamente o que querem e que têm jeito para dirigir em estúdio. Eu não tenho essa capacidade e esse jeito. Terei jeito para outras coisas, mas não para isso. Muitas vezes estou em estúdio a gravar as minhas músicas e saio uma hora, os produtores dizem aos meus amigos, João e o Tiago: “Então o Rodrigo onde é que foi? Ele não quer saber nada disto agora?”. De outras vezes, os músicos estão a gravar e eu digo: “Isso está óptimo”, e eles dizem: “Ó Rodrigo, não está óptimo. Eles deviam gravar outra vez” e eu: “Pronto, ok.” (Risos). Mas, claro que admiro esse lado que eu muitas vezes não tenho, embora ache que isso tem mudado nos últimos anos. Era impensável eu gravar um disco e sair passado um ano ou oito meses. Para mim, os discos estavam acabados e saíam passadas duas, três semanas. Toda a gente dizia: “Vocês são malucos. Assim não há tempo, sequer, para pensar em fotografias, vídeos,

textos…”. Agora sinto uma maior tranquilidade, não tenho aquela ansiedade e a verdade é que acabámos em Julho, masterizámos em Novembro e sai, agora, em Fevereiro. Ainda bem que assim foi.

Como foi fazer a banda sonora de um país, para Portugal – Um Retrato Social, de António Barreto? Houve logo, desde início, uma empatia muito grande com o António Barreto e a Joana Fontes, isso é o mais importante quando se trata de uma banda sonora, porque quando aceito fazer música para filmes tenho sempre aquela preocupação de mostrar, para cada situação, duas ou três ideias, e tenho sempre um pouco de receio: “Eles não vão gostar disto, eles não vão gostar daquilo…” e com o António e com a Joana correu bem desde o início. Deram-me muita liberdade para fazer o que queria e, ao mesmo tempo, senti que estava a aprender imenso sobre Portugal, sobre nós próprios, naquelas imagens que ia recebendo dos arquivos da RTP, dos últimos 30, 40 anos.

Ias recebendo essas imagens e isso é que te servia de inspiração para a composição? Sempre. Só que muitas vezes, o que acontece é que serve no momento, nos primeiros 10, 15 minutos, porque se sinto que há ali uma ideia, não fico a ver as imagens.

Depois desse desafio ficaste com um olhar diferente sobre Portugal e sobre os Portugueses? Acho que sim. Não sei explicar bem como, nem porquê, mas claro que fiquei. Fiquei, se calhar, com a certeza de algumas ideias que tinha do Portugal de antes do 25 de Abril, das escolas, da grande pobreza...  Depois acabámos por fazer, nesse ano, uns 15, 20 concertos por Portugal inteiro, precisamente a mostrar essas imagens e a tocar essa banda sonora. No ano passado, voltámos a fazer, no projecto que estava inserido no âmbito dos 25 anos do “Ave Mundi Luminar”, era o aniversário do disco e acabou por ser o ensaio que depois resultou no “Método”. Ou seja, foram os primeiros concertos em que nós começámos a testar uma formação diferente, sem cantores, com imagens, em que começámos a trabalhar algumas coisas que o João Eleutério, que toca comigo há muitos anos e é um dos produtores, fez em vídeo. A partir daí, começámos a tentar construir a ideia do que viria a ser “O Método”. Ainda muito envergonhados, ainda a tocar alguns temas que parecia que não faziam parte daquele concerto, como “A Estrada” ou “A Co-


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Desenho originais de Rodrigo LeĂŁo


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média de Deus”, aqueles temas que o público aplaude mais, até porque eu tinha receio que o público achasse uma música muito lenta. Mas é curioso, porque estes concertos têm corrido bem. Toco mais piano acústico, foi como se tivesse perdido o medo de tocar piano acústico ao vivo, que eu nunca toquei a não ser de há um ano para cá e isso também é uma diferença que existe neste disco, tem mais piano.

Com Madredeus fizeste a banda sonora de Lisbon Story de Wim Wenders, que retrata uma Lisboa que praticamente não existe. Como foi a tua vivência nessa Lisboa dos anos oitenta? A minha vivência nessa Lisboa dos anos 80 foi extraordinária. Eu tinha 17, 18 anos e vivia fascinado. Era um mundo mais pequeno, muito mais pequeno, mas a verdade é que nós vínhamos para o Bairro Alto e passávamos noites e noites a falar das ideias que tínhamos e do que queríamos fazer. Havia o Rock Rendez-Vous, os Heróis do Mar, os Rádio Macau, os Croix Sainte – nós tentávamos organizar alguns concertos e o Pedro Ayres emprestava-me o baixo para eu poder tocar no Rock Rendez-Vous com a Sétima Legião, ia eu a correr a casa dele e emprestava-me um Fender – e foi o grande boom da Música Portuguesa. Havia um grande entusiasmo das editoras, do jornalismo. Aliás, o jornalismo dos anos oitenta, em relação à música, comparado com hoje, não tem nada a ver. Havia o Hit, o Se7e, o Êxito, havia videoclips a passar antes do Telejornal, foi uma época muito especial. Claro que isto está muito diferente, passaram trinta anos.

Que eu tenha consciência não, mas é evidente que, inconscientemente, tudo me pode influenciar, desde uma música que a Rosa me mostra, até outra que a Sofia me mostra, até ao café em que eu entrei nesse dia, tudo isso à noite, quando eu estou a trabalhar, deve ter alguma importância no resultado final.

Duas coisas que, definitivamente, influenciam a tua criação são a literatura e o cinema. Leio muito menos do que lia na adolescência, mas, curiosamente, há um livro que eu li antes de entrarmos em estúdio de que gostei muito, “O Deserto dos Tártaros” do Dino Buzzati. Foi um livro que me fez pensar muito e que eu li com muito prazer. A literatura e o cinema, influenciam porque são, naturalmente, fontes de inspiração para tentares ter ideias.

Diferente para pior? Nalguns aspectos sim. Acho que é muito difícil, hoje, um projecto novo, que não seja de música muito comercial, afirmar-se. Não tem muito espaço para se mostrar e na altura tinha. Havia mais facilidade. Agora, é evidente que há coisas muito boas que se fazem hoje em dia.

Isso também influencia a tua criação?

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Lembrei-me da Billie Eilish, por exemplo, não é portuguesa, mas como é que ela com 16 anos grava um disco, com o irmão a ajudá-la na produção e conquista o mundo? Sem precisar de marketing nenhum, nem editora nenhuma. E tem bom gosto. Foi a minha filha Rosa, a do meio, que me mostrou há dois ou três anos: “Pai, ouve isto”. Passou-lhe aquela fase má que todos eles têm dos 11 aos 13 de uma música muito esquisita e, de repente, começa-me a mostrar coisas muito interessantes.


pousio

por Duarte Bénard da Costa

nos campos em pousio surgem as ervas que os lavradores não convidaram a crescer. os rebentos começam a aparecer aqui e ali assim num jeito de timidez. pousio é um tempo em que a terra se guarda para si e se repara. os rebentos logo se tornam confiantes e com as chuvas dão o tom do novo verde ao solo que antes se corava de um matiz cansado. o nosso pousio foi barbeito. os campos onde acontece o barbeito eram antes campos baldios, terra de ninguém. o barbeito é a primeira lavoura de um terreno. é o primeiro olhar entre a terra e a mão humana. o primeiro grande amor de outono. o josé sottomayor está sentado e de pés descalços como lhe é costume. tem pela frente uma bacia onde com as mãos mistura fungos que crescem nas sobredas de cachopo. está debruçado perante a bacia e sente a reacção dos líquenes à pasta de papel enquanto os tenta juntar. veste tons de rio, verdes e azuis de água. o josé é escultor e as suas mãos trabalham perto do solo. esconde a madeira que lhe oferece estrutura e forma sob uma camada de pasta colorida, mas de uma só cor. os objectos que surgem deste trabalho junto da terra ganham um movimento ascendente, como as árvores que parecem tentar fugir da raiz para chegar ao sol. o linho da maria luísa capela foi esticado sobre as estruturas de madeira. juntos o linho e a estrutura são as suas telas. em cachopo o linho era destrinçado das plantas vivas ao tear e era a base dos tecidos da terra e de quem a trabalhava. cada camada de tinta branca que se passa sobre o linho é um acto de vida que é necessário deixar respirar. cada pincelada é como o arado que prepara o solo para a primeira e mais cuidada sementeira. é moroso o tempo a que o pousio da terra obriga, é amoroso o seu barbeito. de súbito, porém, o campo húmido resplandece de verdes e nas telas da maria luísa surge a cor com a mesma vaidade de uma flor campestre. a parede do atelier e a mesa são os lugares de ofício do joão massano. na sua pintura descobrem-se as gentes que abandonam a terra e as terras que as gentes deixam à mercê ruidosa dos moinhos eólicos. a produção de energia perde-se nos últimos sopros das figuras que o óleo enegrece e ilumina. o gesto – o gesto é o que fica. o baldio é a primeira realidade de quem prepara o barbeito. o campo cansado o campo exausto o campo expirante. a expectativa de nascimento está escondida sob a secura do solo e o lavrador procura curar a oliveira que vem morrendo de sede. barbeito é o acto de tomar conta do terreno que jaz adormecido. a dinâmica do pousio é energizante e é de energia que são feitos os actos do martim de mesquita guimarães. a lavoura toma para si o saber dos ciclos e das coisas caducas. as cores sucedem-se as artes misturam-se e à presença sucede a ausência. antes da foice há um campo pleno e toda a esperança do ano anterior. o gesto dramático implica uma vida comum onde o joio não vinga sozinho e o espectador não vive sem palco. sem campo não há lavrador e sem lavrador não há lavoura - esta simbiose torna-se viva no gesto de nutrição a que o acto performativo nos chama. por fim a ceifa acontece e a seara vai-se e o solo desnuda-se – o que fica é a esperança do novo ano.

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a presença do xavier solano trouxe ao campo a vontade de registo da cidade e as ânsias inerentes à cristalização do trabalho da terra. como o viajante ao passar pelos pomares que crescem num só lugar a fotografia capta o momento de um processo que se desenvolve pelo tempo e pelas ladeiras. o xisto lasca-se perante a objectiva urbana e o registo vídeo reúne em si o olhar dos lavradores e as mãos que ao solo deitam o adubo e a promessa. a mafalda d’oliveira martins tomou para si o trabalho de recolher e gravar as sementes dos cultivos perdidos. a semente antiga volta à terra e cada ruga cada osso é um sulco da enxada ou a alegria de uma seara nova. retrato a retrato os rostos dos que habitam cachopo e os montes da serra do caldeirão tomam vida e tomam cor. o óleo vai-se tornando imagem. o fogo do cigarro de uma mão e o óleo do pincel que molda os seus dedos firmam em tela os jeitos da terra. os seus desenhos fazem as delícias das belas rosas e margaridas da aldeia. pelo traço recordam-se os cantos do trigo a voz que soa nas sobredas e o corpo que se queda na superfície da imagem. em pousio somos todos como que chamados pela terra. escondida encontrámos a anta o espaço sem memória sem presença. a anta repleta de vozes que o luto torna silenciosas. pela noite dentro os tempos de ceifa pedem muitas mãos e muitos dedos. somos chamados pelo lar o café a feiteira a mealha as casas onde nos receberam braços abertos. acompanhavam-nos os rostos de muitos anos e de muitas jornas. de vez em quando um pequeno rebanho de ovelhas assustadas. de uma só vez um ferreiro de dedos soldados. os campos repletos de esteva a fonte onde corre um fiozinho apenas. cachopo fonte férrea medronheira redondo pulo do cão vale joão farto vale d’odre currais estevais. em pousio e em barbeito.


Escultura de José Sottomayor

No dia 7 de Janeiro inaugurou na Casa-Museu Medeiros e Almeida a exposição da primeira edição das residências artísticas da Pousio, a que chamámos Barbeito, com curadoria de Ana Bacelar Begonha. Esta residência aconteceu na aldeia de Cachopo, Serra do Caldeirão. Organizada pela Pousio, a residência contou com sete participantes: João Massano, José Sottomayor, Mafalda d’Oliveira Martins, Maria Luísa Capela, Martim de Mesquita Guimarães, Xavier Solano, e eu próprio.

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A nossa vontade foi trazer a Lisboa aquilo que em Cachopo tinha surgido. Falar de Cachopo à capital. Escrito na Serra do Caldeirão, o texto que se segue acompanha a exposição Barbeito na Casa-Museu Medeiros e Almeida.


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No centenário de Levi

No ano em que se assinala o centenário do nascimento de Primo Levi, lançámo-nos no projecto de levar à cena um texto que é considerado um dos livros fundamentais da literatura europeia: «Se isto é um homem», no qual Levi descreve a forma como conseguiu sobreviver no campo de concentração de Monowitz, que integrava o complexo de Auschwitz, e como logrou manter a humanidade num sítio concebido para reduzir os prisioneiros a coisas. Tendo tido um impacto bastante discreto junto do público aquando da sua primeira publicação, em 1947 (não sem antes ter sido recusado por duas editoras), «Se isto é um homem» foi editado na Einaudi em 1958, traduzido em dezenas de línguas, e é hoje em dia uma das obras basilares para o estudo do holocausto. O livro continua a integrar os cânones escolares, para que os horrores cometidos durante a II Grande Guerra jamais sejam esquecidos: era essa também a intenção de Primo Levi. São poucas as versões em teatro de «Se isto é um homem». O próprio autor participou em 1966 numa adaptação para teatro do seu texto, a qual foi estreada em Turim, com direcção de Gianfranco De Bosio, e com a participação de 54 actores de sete nacionalidades distintas. Mas Levi não terá ficado satisfeito com o resultado do espectáculo, e deixou expresso que não autorizaria futuras adaptações da sua obra nem para teatro nem para cinema. Esse desejo foi respeitado pelos seus herdeiros, com raríssimas excepções. Convidámos para este projecto uma dupla cujos percursos no teatro nunca se haviam cruzado: o encenador Rogério de Carvalho e o actor Cláudio da Silva. Renovámos ainda a colaboração com dois criadores que ficarão para sempre ligados à nossa Companhia: os arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, que assinaram a cenografia do espectáculo. (Manuel Graça Dias viria a falecer em Março deste ano, sendo-lhe atribuída postumamente a Medalha de Ouro de Mérito Cul-

Rui Mateus

tural da Cidade de Almada no primeiro dia da carreira da peça). «Se isto é um homem» estará em cena até 15 de Dezembro na Sala Experimental do TMJB, de Quinta a Sábado às 21h00, e Quartas e Domingos às 16h00 – a grande afluência de público obrigou-nos já ao agendamento de sessões-extra. E, à imagem do que tem acontecido em nas nossas criações, à margem das representações manteremos aos Sábados à tarde um ciclo de «Conversas com o público» (no ‘foyer’ do teatro, com entrada gratuita), desta vez animadas pelo poeta e professor Fernando Pinto do Amaral. No Sábado 30 de Novembro conversaremos com Rogério de Carvalho e Cláudio da Silva; no Sábado 7 de Dezembro com Luís Filipe Castro Mendes (diplomata, escritor, ex-ministro da cultura), Diana Andringa (jornalista) e José Mário Silva (escritor e crítico literário do Expresso); e no Sábado 14 de Dezembro com Irene Flunser Pimentel e com a descendente de uma sobrevivente do holocausto. Como pano de fundo, a pergunta: até que ponto estamos a ser capazes de transmitir a memória às novas gerações?

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por Rodrigo Francisco


Pagamos para ser feridos Um conversa com John Romão por Marta Gonzaga

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“Virgens Suicidas”, que passou em Janeiro na Culturgest e no Teatro Municipal do Porto, e “Romeu e Julieta” que estará em cena em Fevereiro no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Assinala em grande o regresso de John Romão à encenação. Encenador, intérprete e director artístico, fundador e programador da BoCA - Biennial of Contemporary Arts, John tem um olhar mais virado para o exterior abordando questões centrais que o movem - migração, fronteiras, barreiras e integração - transpondo-as para as práticas artísticas, desconstruindo e propondo diferentes abordagens de formas inesperadas.


A última vez que encenei foi em 2017, uma adaptação do “Náufrago” do Thomas Bernerd, a convite do Nuno Cardoso. Entretanto, estive mais focado noutros formatos que ainda não tinha experimentado. Por exemplo, em 2017 no contexto da Bienal BoCA, que organizo e programo, fiz também uma performance para o Pavilhão Branco do Museu de Lisboa (antigo Museu da Cidade) com um solo do bailarino Romeu Runa. Nunca tinha trabalhado este tipo de formato, num espaço que não fosse o teatro e que não fosse um espectáculo mesmo. Tratava-se de uma performance que colocava os espectadores numa galeria a olhar através do janelão, como se este fosse um écran de cinema. E em 2019, colaborei com a encenadora Italiana Silvia Costa, num trabalho que, partindo de um workshop, resultava numa apresentação pública, quase espectáculo. Estivemos no Centro Dramático Nacional de Angers, em França, e replicámos esse mesmo modelo no festival Citemor, Montemor-o-Velho, com actores portugueses, num trabalho a partir das “Tentações de Santo Antão” de Gustave Flaubert.

O que consideras mais marcante? Tudo foi e é importante. Mas onde estive mais absorvido (desde 2015), foi na BoCA que teve a sua primeira edição em 2017, da qual fizemos duas edições. Agora estou a começar a preparar a de 2021. Basicamente, foi um trabalho com diferentes artistas, diferentes estéticas e linguagens, na perspectiva da premissa do espectador, que é sempre o princípio de tudo, enquanto “o olhar sobre o outro. Ou seja, como gerimos os nossos conhecimentos, as nossas expectativas e a nossa bagagem, relativamente ao outro. Necessariamente há sempre uma absorção do desconhecido que trazemos para a nossa prática. Não diria que há algo em concreto que tenha absorvido em particular para estas minhas criações. Acho até que entre o trabalho de programação que faço na Bienal BoCA e o da criação, há uma distância grande.

De que distância estás a falar? São territórios diferentes. A nível de linguagem e de estética, a BoCA tem uma linguagem muito híbrida e transversal, e muito atenta à relação com as artes visuais e a performance. O foco é sobretudo esse. E o de trazer artistas para operar noutros territórios artísticos que não são os seus habituais. É muito interessante, porque a bienal BoCA acaba por ser, sobretudo, um espaço de criação e, muitas vezes, de excepção no

percurso de alguns artistas, que continuam depois essa prática no futuro. Agora, que vamos para a terceira edição, é muito curioso ver como conseguimos abrir portas, impulsionar novos caminhos que estavam em potência no corpo de trabalho dos artistas, mas que eles ainda não a tinham identificado. És muito político. Quero dizer, abordas causas e temas “quentes”, no teu trabalho. Qualquer acto artístico é também um gesto político. Aquilo que fazemos, é moldado – mesmo que seja uma prática artística – por tudo o que nos rodeia. As práticas artísticas são sempre uma resposta ao que está a acontecer. Isso não quer dizer que façamos um teatro panfletário, mas mesmo conceptualmente, é sempre um gesto político. No caso da BoCA, é muito clara essa tentativa de destruição de fronteiras - num tempo convulsivo em que assistimos à construção de novos muros e se questionam os limites do espaço e do tempo - entre territórios artísticos, de colocar em diálogo diferentes instituições culturais, como teatros, museus, galerias. De uma discoteca ter o mesmo valor de uma igreja, ou um teatro, numa relação de ordem horizontal de importância, com os devidos picos de importância de cada uma delas. Trata-se também de colocar artistas a trabalhar em territórios que não dominam na perfeição, mas, sobretudo, levar públicos a espaços dos quais podem já ter ideias pré-concebidas, quer os conheçam ou só por lá tenham passado, e dos quais acreditam ter conhecimento absoluto, sem intenções de lá entrar. Aquilo que tento fazer é uma espécie de “terrorismo” de programação, na medida em que se criam armadilhas para possibilitar o diálogo, ou novos diálogos e novos encontros.

O que me move a ir ver uma peça encenada por ti não será tanto o texto, mas as ideias que transmites. Trabalho de uma forma muito conceptual, e toda a minha prática é em busca de determinados conceitos. Por exemplo, no caso das «Virgens Suicidas», o lado político está presente de uma forma muito imediata. Esse lado, no meu trabalho existe sobretudo nos últimos anos, diria desde 2014. Antes existia e seria até mais assumido, com outra pulsão – era mais jovem. Mas agora interessa-me falar das coisas de forma menos directa, mais metafórica, mais mística, muitas vezes, mais secreta. Utilizando termos de outros territórios mais sagrados, mais religiosos, transformados, mastigados, para lhes dar uma outra forma.

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O que andaste a fazer e o que trazes na bagagem?


Nas «Virgens Suicidas» vive-se uma realidade distópica. Uma comunidade feminina, constituída por mulheres e meninas, em que as mais velhas exercem o poder sobre os corpos das mais novas. É uma espécie de fascismo da beleza e da perfeição física, disfarçado em sistema educacional perfeito.

Pôr as pessoas a pensar é mais eficiente do que lhes dizer o que pensar. Quero suscitar no espectador reações internas, individuais. Identificamos determinadas ações e gestos e reconhecemo-las. Não há nada naquilo que faço de extraordinário no sentido em que não há nada em que não nos reconheçamos no que vemos. Ao mesmo tempo, há uma distância enorme entre o que acontece à nossa frente e aquilo que nós achamos que conhecemos. Ou seja, é sempre um jogo entre as expectativas e o conhecimento que temos sobre esse dado. Porque o que me interessa é “contaminar“ o espectador como uma espécie de vírus. Outro conceito que me interessa, e que serve o «Romeu e Julieta», é a sobre-exposição, no sentido de como apreendemos coisas tão evidentes que estão à nossa frente, mas não as conseguimos ver. Porque elas estão ofuscadas pelo excesso de luz, pelo excesso de iluminação. E isso cega-nos.

O teatro precisa de tempo? É que agora tudo é longo demais para quem se habituou a consumir conteúdos na internet. Esse é o grande desafio. Não só para quem vê, como para quem faz. A criação é um contrato com o tempo. Não há um tempo certo para se fazer uma criação. Posso fazê-lo em um ano, em dois meses, ou em duas semanas. Serão objetos completamente diferentes, certamente, mas o tempo define o resultado. Quando estamos a viver de forma cada vez mais acelerada onde tudo tende para a velocidade, comida feita, coisas feitas, prontas a consumir, o abrandamento continua a ser uma necessidade interna do ser humano. É o poder de levar o espectador a entrar num outro tempo, e de abrandarmos de forma a entrar noutra dimensão.

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Até aqui há confronto. Nós pagamos para ser feridos, para entrar num outro ritmo, ter uma outra experiência de alguma forma mística, porque secreta. Podemos falar sobre ela, mas só a nós diz respeito. É uma necessidade, como comer ou dormir. Por outro lado, esse conflito com experiências menos positivas, como o de acharmos que “isto foi muito longo”, é fundamental. Como espectador, e sobretudo quando era mais novo, tive experiências de «não enten-

dimento» que guardo em mim, mas que hoje já não as sentiria da mesma maneira. À luz da minha experiência, esse “não entendimento” é muito importante, (mas só se revela mais tarde). É o que vai trabalhar dentro de nós, quando as coisas se impõem à nossa frente quando ainda não estamos preparados, ou não temos a chave para as descodificar. Não digo que toda a gente se deixe levar pelo que não gosta à partida, mas eu cresci muito a partir do conflito, como espectador e como artista. E é isso que trabalhamos diariamente, desde logo nos ensaios, com pequenos problemas positivos. Esses conflitos também nos fazem criar.

Agora estás a falar como espectador? É uma profissão e é uma responsabilidade muito grande ser espectador. Esse acto de aceitar sermos feridos através do visível, do olhar, afeta-nos de forma física. Porque as reações são físicas: um corpo em tensão, um sorriso na cara, lágrimas, um tremer, um pânico, ou mesmo uma vontade de sair daquele lugar.

Ainda és actor? Não sei se deixei de o ser, mas não tenho feito nada. Entrei sempre em coisas que gostava e tive o privilégio de poder escolher. Também fui sempre muito selectivo. As últimas coisas em que entrei eram minhas. Mas, nas minhas peças entro sempre como encenador. Posso fazer determinado papel, mas esse personagem tem de ter uma relação com a direcção. Interessa-me mais estar mais fora porque as últimas peças que tenho feito, são mais complexas. Muitas vezes, imagino-me num ou outro papel, mas não quero arriscar, porque são espectáculos — como as «Virgens Suicidas» — com uma complexidade muito grande na direcção da encenação, luz e som, e eu gosto muito de estar na régie. Sempre a operar. Aliás, nunca fiz um espectáculo em que ficasse na plateia ou em casa. Quero ser sempre um elemento activo a contribuir para que aquele dia seja único.

Nas virgens suicidas encenaste só mulheres. E com um rapaz. Está oculto — para as pessoas em cena, não para os espectadores — no meio das raparigas. Nunca tinha trabalhado só com mulheres. O que quero dizer, é que é igual a trabalhar só com homens. Nem queria que fosse diferente. Não houve uma premeditação, mas pode estar relacionado com o nosso tempo. Da mesma forma que, quando trabalhei só com homens, não houve uma razão específica, depende dos objectos. No próximo espectáculo, «Romeu e Julieta», estou a trabalhar com mais homens que mulheres, mas a protagonista é mulher.


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Mas nas Virgens Suicidas há a questão da exploração, embora as exploradoras sejam mulheres. Exactamente. De exploração ou do exercício de poder, mais do que de exploração. Porque na verdade há uma perversidade muito grande nestas lógicas, tal como há sempre uma grande perversidade no exercício de poder. Logo, há uma grande confusão entre fazer o bem como se estivesse a fazer o mal e fazer o mal como se estivessem a fazer o bem. Há sempre esta ambiguidade.

Como os pais tantas vezes fazem... (risos) Exactamente. As três mulheres principais têm esse papel. São mães, treinadoras, educadoras, ao mesmo tempo que exercem o poder de uma forma terrível. Há sempre essa coisa meio flutuante e vamos descobrindo quem elas são ao longo das diferentes cenas. A relação das raparigas entre si também vai variando. Está sempre presente uma competitividade muito grande. Esta ficção está toda camuflada em torno da fisicalidade, da prática física e de ser a melhor. Para um fim que elas não conhecem, porque vivem completamente isoladas, sem saberem como é a vida cá fora. O mundo real. Sabem que estão a ser educadas, preparadas, para o que lhes dizem que é o melhor para elas. Portanto, estão sempre em conflito com as suas convicções, ideais e expectativas. Essa é a dinâmica que cria as rupturas.

As dores do crescimento... Sim, porque acompanha também esta ideia de crescimento. Elas estão a passar da adolescência para a idade adulta. Ou da infância para adolescência. Está associado à maturação do corpo, quando o corpo se transforma e elas se transformam ali dentro.

E o «Romeu e Julieta» está muito diferente do texto original? Diferente, certamente, e isso é que me motiva a pegar nesse texto. Para já, é uma novidade, porque nunca trabalhei sobre um clássico da dramaturgia. E esse era um desejo. Comecei a trabalhar sobre o texto em 2012, altura em que encontrei o Romeo Castellucci, o encenador Italiano, na Bienal de Teatro de Veneza. Em 2010 fiz um workshop com ele, e em 2012 em Veneza fiz uma assistência de uma performance que tinha resultado desse workshop. Aí trabalhámos sobre alguns clássicos e descobri esta minha vontade de trabalhar num deles, que ficou guardada até ao momento certo. É agora.

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Porquê? Ou melhor, como aconteceu? Quando surgiu a hipótese, a convite do Tiago Rodrigues, de fazer um especáculo para

a sala Garret, pareceu-me quase óbvio que teria de ser um clássico. Agora a forma como estamos a trabalhar é que não é muito convencional. Com “Romeu e Julieta” estamos a pegar num produto cultural, mas como costumo dizer, o texto já não é de Shakespeare, porque nos pertence a todos. Todos trabalhamos em cima do guião.

Mantém-se um casal hétero? Há outras configurações, mas sim, continua a ser um casal hétero, porque aqui a questão que também que me interessa muito é a da procriação e da maternidade. É engraçado que depois de terminar um dos ensaios mandei uma mensagem aos actores com o resumo da semana, a propósito das pequenas formações em cena em que o espectador está com uma ânsia carnívora imensa de reconhecer o que já conhece e de ser correspondido nas suas expectativas. O que mais gosto é de trabalhar com as suas expectativas. Adoro.

Desmanchá-las? Ou reconfigurá-las, como quando se trabalha sobre algo que damos como conhecido, ou garantido, porque toda a gente conhece, mas afinal… não conhece tanto. Todos temos expectativas sobre o «Romeu e Julieta»: é um mito. Mas se calhar muito poucos leram e, no texto estão presentes muitas outras camadas. Por exemplo, ao longo da peça, essa relação do casal vai surgindo, mas com outros corpos, como o corpo do Romeu ou o corpo da Julieta representados por diferentes actores. Como se um “ah, esta seria a configuração ideal”, ou “este é o casal convencional”, mas que não acontece, necessariamente, entre os dois, Romeu e Julieta. Isto é só um exemplo de como estamos sempre a querer ler e a atribuir o sentido que não é necessariamente o que temos ou nos habituámos a aceitar. Na verdade, o trabalho é aceitar, sim, que perdemos tudo, para ganhar tudo. E admitir que, afinal, não conhecemos nada do Romeu e Julieta, para podermos reconhecê-los sob outras imagens, outros padrões e outras convenções.

E… mais? Também se trabalha muito a relação entre a luz e a escuridão — a evasão pelo desconhecido —, para onde o espectador vai sendo convocado, de uma forma prática, mas também conceptual. E sobre o conceito da velocidade, sempre muito presente no texto. Desde logo, pela forma/velocidade como os corpos reagem. Depois, porque a acção decorre em muito pouco tempo, o que nos leva


à relação com o nosso próprio tempo. Numa época em atingimos a velocidade da luz, pela relação com a internet e a comunicação em rede, é a ideia de que, simultaneamente e, tal como a luz, estamos imóveis. À distância, a extrema velocidade confunde-se com a imobilidade. O auge da velocidade confunde-se com a inércia. E esse é um conceito muito importante neste espectáculo, na medida em que a acção propõe, também, um elogio à lentidão, ou à imobilidade. Como uma confusão (ou sobreposição) de camadas em que o hiper veloz é também o muito lento.

Romeu e Julieta 14 FEV - 1 MAR 2020 Teatro Nacional D. Maria II, Sala Garrett Texto: William Shakespeare Versão, encenação e cenografia: John Romão

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Com João Arrais, João Cachola, João Jesus, Mariana Monteiro, Mariana Tengner Barros, Matamba Joaquim, Rodrigo Tomás


Luz, Câmara, Acção. por Jorge Sobrado

Há destinos instagramáveis? Podem fotografia e cinema criar uma consciência de identidade cultural? Serão as artes populares transformadoras? Em Viseu, acredita-se que sim. Aviso à navegação: este artigo pode ser incrivelmente chato. Como diria Baudelaire (cito de cor), só pode falar de si próprio quem saiba divertir… O poder de aborrecimento deste texto deriva do seu carácter: o de uma explicação. Por definição, dispensa-se à publicidade como à literatura e às obras de arte qualquer justificação. As explicações empobrecem. Têm, porém, a incrível vantagem de partilhar sentidos não evidentes. Correndo bem, são uma história. Neste caso – de Viseu – de uma estratégia de desenvolvimento local que não se confinou ao “betão” (ou apenas), mas estende-se à cultura e criatividade, ao património e história, e a um “turismo sustentável” (essa buzzword). Em 2020, Viseu regressa às suas aparentes “provocações” de marketing territorial. Depois de “2017, Ano Oficial para Visitar Viseu”, de “Viseu 2018, Cidade Europeia do Folclore” e de no ano passado a cidade de Viriato ser “Destino Nacional de Gastronomia” (conquistando a sua primeira Estrela Michelin), em 2020 declara-se cidade e destino de fotografia e cinema. Nem mais: “Viseu 2020. Luz, Câmara, Ação”.

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Venha a explicação: estas “provocações” estão muito para além de sound bytes comunicacionais. Arrastam consigo programas de criação artística e de valorização cultural e patrimonial, novas dinâmicas museológicas e projetos de criatividade e educação (agora diz-se “mediação”), ao serviço de uma comunidade. A “bandeira” é, assim, o pretexto de uma transformação. A efervescência promocional – não irrelevante na “atitude” e na “ativação” de um território que se quer afirmar como destino, sobretudo se fora das grandes “centralidades” e dos holofotes dos media

– dá então lugar a uma coisa mais séria e duradoura. Isto é, a iniciativas que atuam em camadas mais profundas da formação e valorização de uma comunidade cultural e histórica, da aquisição e partilha de uma identidade coletiva (de uma memória e de uma “consciência de si”) e da emergência ou renovação de um ecossistema de criação. E isso importa – e muito – se ambicionarmos gerar uma qualidade de vida própria e atrair o “bom turismo”, em vez de um modelo industrial, indiferenciado, de “loja do chinês”. A curva positiva de crescimento turístico de Viseu, conquistada nos últimos anos, acima das médias nacionais e regionais, tem sido sustentada na redescoberta e revalorização da sua história e mitologia (que explica o nascimento do Museu de História da Cidade e do Polo Arqueológico de Viseu), por dinâmicas criativas (sustentadas no inédito programa de financiamento VISEU CULTURA e numa incubadora de atividades artísticas), em eventos e festivais não importados (e ao longo do ano), na revitalização do folclore (que convocou intervenções de artistas como Moullinex e Katty Xiomara) e da gastronomia.

Porquê o cinema e a fotografia? Viseu oferece argumentos de sobra para ser um cidade e destino “instagramável”. É uma “cidade-jardim” (espécie de Éden urbano), a “cidade vinhateira do Dão”, uma cidade patrimonial (a “cidade de Viriato”), a cidade de Grão Vasco e do linho milenar de Várzea de Calde. Dispõe de paisagens naturais e culturais sedutoras e singulares – e mais do que tudo tem humanidade e charme, alma e atitude. Mas nenhum território ou cidade se pode conformar à ideia de ser um “destino instagramável”. Antes de ser destino, uma comunidade é uma memória. E – façamoslhes justiça – as artes da fotografia e do cinema excedem em si essa ambição.


2020 é, desde logo, a oportunidade de ouro para iniciar uma operação de resgate, salvamento e valorização do património fotográfico e fílmico de Viseu, através de uma imagoteca local. O que existe de uma cidade histórica e monumental incrível como Viseu encontra-se disperso ou em risco de perda. Constituir um arquivo de imagem e uma filmografia torna-se indispensável para preservar a memória, fomentar uma consciência histórica local e promover Viseu enquanto destino cultural, patrimonial e histórico. Este desígnio terá um impulso em 2020 e 2021, no quadro do projeto do Museu de História da Cidade e numa base de participação comunitário. Para o cinema, conta ainda Viseu com a cooperação do Centro de Conservação (ANIM) da Cinemateca Portuguesa. Fotografia e cinema são ainda artes e tecnologias dominantes na cultura contemporânea, nos media e no quotidiano social. Democráticas, populares, acessíveis, transformadoras. Estimular a formação de talentos e competências artísticas, culturais, educativas nestas expressões adquire um especial sentido estratégico (tanto quanto uma consciência crítica sobre as difíceis questões dos novos media e da asfixiante omnipresença da imagem). “Viseu 2020” não deixará de o fazer através de financiamentos à criação do VISEU CULTURA e de um programa muito diversificado de intervenções e formações culturais – especialmente integrado nos museus municipais. No pipeline estão ações tão distintas como “trazer” o olhar de Helena Almeida a Viseu, formar para a história da fotografia e do cinema, abrir um laboratório de fotografia analógica ou fomentar criações e criadores. Finalmente, Viseu será em 2020 palco de dois grandes eventos ligados às práticas da fotografia e do cinema. Por um lado, daquele que é um dos mais importantes festivais internacionais de cinema de turismo e marketing de territórios – o ART&TUR 2020 (20 - 23 de Outubro). No contexto do ART&TUR serão ainda desenvolvidos dezenas de filmes a concurso subordinados a Viseu, no contexto do “Art&Factory”. Por outro lado, Viseu será ainda local do congresso anual da APPImagem – Associação dos Profissionais Portugueses da Imagem e do seu fórum “The Way 2020” (20 – 23 de Fevereiro).

António-Pedro Vasconcelos

Mário Augusto

Nuno André Ferreira

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Sem prejuízo de múltiplas colaborações, três “embaixadores” acompanham-nos nesta demanda: o realizador António-Pedro Vasconcelos, o apresentador e escritor Mário Augusto e o fotojornalista Nuno André Ferreira.


Imagens que integrarĂŁo a imagoteca local de Viseu

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Fotografias: Arquivo Viseu Marca


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O Grande Ecrã por Gustavo Homem

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“O cinema é um modo divino de contar a vida” Federico Fellini


Sozinho, acompanhado, na sala de cinema, no conforto do lar, com pipocas, sem pipocas, seja qual o setting escolhido, sei que irei viajar para destino incerto, mas com toda a convicção, com aquela ânsia pelo desconhecido, à boleia de toda uma narrativa que me permita absorver tudo o que caracteriza a condição humana, com todos os defeitos e virtudes que ela acarreta. Tal como em relação a quase tudo, o gosto por cinema, pelos filmes, está sujeito a estados de espírito... ‘o que te apetece ver hoje?’ Talvez esteja com sede de sangue e me apraz um serão com o Scorsese, entrando assim no táxi do Travis Bickle e pagando de bom grado uma bandeirada a caminho da revolta e da vingança, culminando num glorioso tiroteio for the ages...ou talvez esteja mais num mood galhofeiro e queira embarcar no ‘Aeroplano’ dos irmãos Zucker e gargalhar sem apelo nem agravo à pala do traumatizado piloto Ted Striker e restantes personagens cartoonescas... interrogar o Nicholson em ‘Uma Questão de Honra’ com a ajuda do Cruise? Why not? É só uma questão de saber se aguento ou não a verdade... que tal acompanhar um hobbit na sua demanda para destruir um anel e seu criador Sauron? Vamos lá então a galope com o Gandalf e na companhia do bipolar Gollum... conheces Gotham City? Já marquei viagem. Teremos uma visita guiada pelo Nolan e um encontro marcado com um morcego milionário e um palhaço psicopata. Confuso? Não te preocupes. Logo, logo, entenderás... and so on. Toda uma panóplia de possibilidades, pick your poison. Garanto-te que irás adorar e pedir por mais. O cinema causa impacto, põe muitas vezes as coisas em perspectiva, obriga-nos a reflectir, a contemplar e a questionar, seja numa decisão pessoal, familiar ou amorosa, proporciona-nos a capacidade de projectar certas frases, atitudes e trejeitos para o nosso dia-a-dia, adaptando-as à realidade como uma oportuna muleta de julgamento, decisão e tomada de posição. Não me iludo, aquela afirmação, tantas vezes repetida, ‘isto só mesmo nos filmes’ faz muito sentido. A realidade não se dá ao luxo de tirar proveito

de um enredo previamente elaborado, onde tudo é um mar de rosas e um happy ending é dado adquirido. O realizador somos nós, a imprevisibilidade é latente e o impacto físico é palpável. Ninguém grita ‘corta!’ e dá o mote para um novo take. No entanto, é inegável que o cinema nos proporciona, em doses moderadas, mas convictas, um sentimento de conforto e de pertença, como aquele amigo ou familiar que já não vês há muito tempo, mas, quando o reencontras, parece que nunca se separaram e que o carinho por ele está lá, sempre esteve lá. Um escape? Uma ilusão? Talvez. Mas que por vezes bate forte, isso é certo. E em cheio, na mais profunda essência do nosso ser. Tal como a Literatura, a Pintura, ou qualquer outra arte, o cinema mostra-nos um espelho, um espelho da realidade, da imaginação ou de algo que nunca existiu, mas um espelho de algo que ganha vida. Fantasia ou realidade, há sempre uma forma de nos identificarmos com ele e suas histórias. É o reflexo daquilo que somos, enquanto seres humanos e sociedade, tal como é uma constante lembrança da História e do que não podemos deixar que aconteça de novo, como importante catalisador para um presente e um futuro melhor. Perfeitamente conscientes e com os pés bem assentes no chão, mas sempre que puderem deixem-se levar pela tela, pelas histórias, pelo enredo... riam, chorem, julguem, mas sintam, porque afinal de contas, a nossa vida dá mesmo um filme.

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O cinema... a sétima arte... sempre desencadeou em mim um turbilhão de emoções e sentimentos, experiências enriquecedoras, assustadoras e inesquecíveis, o trigger ideal para um momentâneo escape à realidade, a possibilidade de mergulhar num universo paralelo, onde os protagonistas nos dão a conhecer através dos seus olhos todo um mundo virtual capaz de nos transportar de novo para a nossa infância, para os nossos receios, para os nossos sonhos e para todo um mundo de possibilidades, aventuras e desventuras.


Antes de o tempo nos mudar

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por Jorge M. S. Sampaio


Depois do excelente concerto dos New Order, em que possivelmente verti umas lágrimas quando tocaram a Ceremony dos Joy Division, e em que o Cabral não deixaria de ensaiar comigo a dança epiléptica do Ian Curtis, também o concerto da Patti Smith foi extraordinário, onde nos foi permitido ouvir que somos livres para fazer aquilo que queremos, e nos foi permitido sentir, com uma leveza diferente, a liberdade que temos sabe-se lá por mais quanto tempo. E o Cabral era dos tipos mais livres que conheci. Livre e completamente imprevisível. Como quando nos contava, entre risos, se me recordo correctamente, que, numas eleições para a associação académica, tinha sido o único a quem todas as juventudes partidárias haviam oferecido dinheiro e ele decidira aceitar o dinheiro de todas, ou quando o encontrei no Bairro Alto, junto à tasca do Sr. Jaime, a fazer um concurso de socos na barriga com um tipo qualquer — e que murro disferiu na barriga daquele pobre tipo. Creio que a melhor música do concerto da Patti Smith foi a Beneath The Southern Cross, na qual se pôde ouvir «Oh», «Ser», «Não qualquer um», «Foi-se», «Esse labirinto de ser», «Pele», «Oh», «Chorar», «Não qualquer cho-

ro», «Tão triste que» «A pomba apenas ri», «Os firmes suspiros», com a penumbra como fundo a recortar o palco e o anfiteatro natural do Paredes de Coura. Lembrei-me de quando recebi um telefonema do Porfírio — «Jorge, o Cabral morreu», ouvi uma voz tremeluzente do outro lado afirmar —, sem que conseguisse alcançar a piada, não podia ser uma piada, eram palavras que não faziam sentido e que ainda hoje são difíceis de engolir. Recordo-me igualmente de estar à porta do Hospital de S. José com amigos que modelaram a minha forma de ver a vida e de compreender o mundo e de me compreender a mim próprio e que agora parecem longínquos, como estranhos, vultos no horizonte, amigos que desapareceram da minha vida de uma forma não muito menos dramática, mesmo que o não saibam, do que aquela que tolheu o Cabral. Todos tínhamos uma réstia de esperança, podia ler-se nos olhos perturbados e no andar alvoraçado daqueles que lá foram, de que tudo aquilo não passasse de uma piada de mau gosto de Deus ou do próprio Cabral, mas sei hoje que era simplesmente a expressão de um desejo, tão típico dos homens que repetidamente confundem aquilo que é com aquilo que acham que deve ser ou que querem que seja. Quantas vezes não acreditamos nós, mesmo depois de perdida a infância, que se desejarmos muito uma coisa, ou se pedirmos muito essa coisa a uma qualquer entidade divina, talvez o desejo ou o pedido se realize misticamente como num passe de mágica, ainda que saibamos perfeitamente que não passamos de pó estelar, que somos fruto de um mero acaso cósmico? Talvez o Cabral tenha ido dar um passeio até ao lado selvagem, como as personagens da música do Lou Reed cantada pela Patti Smith. Ou talvez tenha ficado preso nalgum país exótico em virtude de uma história mirabolante e épica, como quase todas as histórias em que se envolvia eram, e esteja impedido de voltar a Portugal, da mesma forma que o Freddie Gibbs não conseguiu vir ao Paredes de Coura em 2016, porque terá sido preso nos Estados Unidos — estes são os tempos em que há mosh em concertos de hip hop, o que poderia muito bem ser uma proposição saída da boca do Cabral em face de um concerto que valeu pela comédia, e como se teria rido o Cabral do Madlib de peruca loura na cabeça. Ele teria feito o mesmo e como teria rido de si próprio, conforme se riu daquela vez em que se meteu com o Ninja, que lhe mandou dois rotativos a rasar a cara, ao que respondeu que «isso é merda, andei no râguebi, dou-te duas cabeçadas e parto-te todo» e acabou de rabo sentado no chão, e dizia-me no dia seguinte, entre risos, que não fazia ideia de onde tinha vindo aquilo, porque nem sequer tinha andado no râguebi.

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Durante o concerto da Patti Smith ocorreu-me que éramos somente miúdos quando o Cabral caiu inanimado na Rua da Rosa. Já passaram quase sete anos, se não me falha a memória, embora a medida do tempo se relativize com o avançar dos dias. Talvez tenha sido há menos tempo, já nem sei. Apesar de as vozes que vamos ouvindo confessionalmente e que nos vão desarmando ao longo dos anos disso nos darem conta, vozes que não nos permitem esquecer o passado e os seus segredos, não deixa de ser estranho notar a idade a avançar nos rostos diários. Agora que a beleza juvenil da Patti Smith se extinguiu por completo, sobram apenas aqueles longos cabelos brancos e desgrenhados que lhe desenham a face terna e agressiva ao mesmo tempo, bem como o seu paternalismo maternal, tão necessário nos tempos presentes. E como cuspia obsessivamente para o palco, a xamã do punk, cravando-o de punhais de saliva. Também o Cabral era um tipo obsessivo, como a maioria das pessoas de quem gosto genuinamente. Uma das suas principais obsessões eram os The National, hoje transformados numa banda de rock delicodoce, o que certamente não o teria demovido de continuar a idolatrá-los, porque se estava sinceramente a cagar para o que poderiam pensar dele. Não queria saber. Saberá ele que eles lhe dedicaram uma música num concerto no Meo Arena, a sua música preferida — a Mr. November —, não muito tempo depois de ter falecido?


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Não me lembro da última frase que lhe possa ter dirigido, ou do último gesto de amizade, um abraço, uma mão no ombro ou um simples aperto de mão que possamos ter trocado. Mas julgo ter sido ao som dos Suede que dancei pela última vez com o Cabral. Estávamos no Primavera Sound, no Porto, e o Cabral chateou-se com toda gente sem razão aparente e disse que ia fazer o festival dele e nós que fizéssemos o nosso; ligou-me uns minutos depois a perguntar onde raio estávamos, e juntou-se a nós a meio do concerto e dançámos e saltámos abraçados. Era impulsivo e complacente, alegre, displicente, intuitivo e nada pretensioso, como uma criança de bom coração. Até a sua auto-comiseração não era professoral e trágica como a minha, mas somente caricata. Passaram cerca de sete anos desde esse concerto e o Brett Anderson parece agora estar mais novo, parece ter regredido até aos vinte anos. Começou o concerto por um dos novos temas, em que cantou «aqui estou eu, a falar com a minha própria sombra», e continuou como se estivesse ligado à corrente ou enfeitiçado, dos seus olhos eram projectadas faíscas e corria lunaticamente, ajoelhava-se, rastejava teatralmente, deixava cair-se novamente sobre o palco, saltava, batia no peito palpitante, cantando emocionalmente e suando em bica aquela camisa azul que me pareceu de seda. Quero muito vestir-me assim. Estendeu-se no chão a recitar poesia, com a cara junto ao palco humedecido pelo cuspo da Patti, junto à cabeça do microfone solto que cintilava. Cheirava a Verão, a floresta, a rio e a sexo. Lembro-me de pensar em vender o carro, deixar o emprego e fazer-me à estrada com a Rita. Nesta altura estava já muito próximo das grades, aos saltos, após ter sido puxado e levado por entre a multidão pela Joana, que, de olhos bem abertos e órbitas palpitantes, se queixava de que na zona em que estávamos ninguém se estava a divertir, estavam todos parados. E esse era um pecado capital, algo impossível de acontecer se o Cabral tivesse tido a oportunidade de ali estar, como certamente teria estado. Quando o Brett Anderson cantou a Beautiful Ones posso jurar que não restava um milímetro sequer da sua camisa livre da transpiração que o seu corpo, que fumegava, havia secretado e destilado por todos os seus pequenos poros. Bem lá no alto, fitava sedentamente o anfiteatro enquanto apontava o microfone para o público, como se nos estivesse a agarrar a todos com as duas mãos, como se todos estivéssemos deitados numa enorme cama a partilhar segredos, a denegrir e a depreciar tudo o resto, todos os restantes, como se nada mais interessasse naquele momento. Podia ter sido mais uma noite com o Cabral, a última noite até. Havia uma centelha que o puxava tanto para a emo-

ção quanto para a destruição, daquelas que costumam tocar as estrelas, e talvez tenha sido isso que o derrubou. Mas que culpa tinha ele? Que fez ele senão viver compulsivamente? Tal como a Patti Smith canta, porventura também o Cabral terá morrido pelo pecado de outra pessoa qualquer, por mero e sádico engano, ou pelo menos é a melhor explicação que encontro para o sucedido. Não estamos sozinhos, porém. E isso é o mais importante, é o que nos permite avançar. E quem disse, conforme nos demonstrou quer o Brett Anderson quer o Cabral, que é preciso ser punk para ter atitude? Depois de o Brett Anderson chamar a si toda a energia disponível no universo, a treva desceu à terra e abateu-se sobre nós. E choveu copiosamente. Tal como chegaram os dias seguintes, vazios e penosos após a morte do Cabral, ainda que o esquecimento não acelerasse conforme tantas vezes por isso rogamos, também o dia seguinte ao festival chegou. Tudo o que deixo escrito parece-me agora algo venial e até ingénuo, como todos aqueles miúdos de óculos escuros a pavonearem-se em barcos insufláveis pelo Rio Coura, estendidos na relva a dourar a pele ao sol, abraçados e aos beijos, semi-despidos, felizes, inocuamente felizes. Ao pensar em todos aqueles miúdos, vejo-me profundamente transformado, algo que na adolescência me parecia uma impossibilidade lógica, embora não julgue paternalisticamente a pessoa que fui, senão de modo benevolente, e penso com curiosidade no homem em que me tornarei daqui a uns anos. E questiono-me sobre como seria o Cabral hoje. Noutros tempos, depois de futuros secretários de estado lhe dizerem em pleno urinol que era um tipo com potencial, era capaz de responder-lhes, indignado, a partir para a porrada, «Potencial? Eu como gajos como tu ao pequeno almoço!». E hoje, como seria o Cabral hoje? A manhã chegou finalmente, coberta de orvalho, e deixámos Paredes de Coura de carro, por aquelas estradas intrincadas e lentas, com a neblina a engolir e a castigar o verde das árvores, que se mostravam tristes por não poderem mostrar-se aos viajantes. A serra, nervosa e em movimento, erguia-se até às nuvens para se queixar a Deus. Só a música não parou de tocar.


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Comunhão por Pedro Santo Tirso

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Edmondo de Amicis escreveu que “o vinho provoca uma embriaguez diferente, que não depende só do temperamento e da personalidade de cada um, mas depende também do estado de espírito em que nos encontramos ao recebê-lo“. Eu acrescentaria que depende ainda do que nos rodeia. E de quem nos rodeia.


Há quem beba para se sentir confortavelmente entorpecido como na canção dos Pink Floyd, versão Departed de Scorsese, por favor. Ou como no Leaving Las Vegas do Mike Figgis, com aquele destinado Nicholas Cage, que sempre volta para nos atormentar. Há todo um bestiário masculino sobre o modo como a bebida afeta os homens e altera o seu temperamento. Como os torna violentos. Como batem nas mulheres e nos filhos. O álcool mata. De uma forma ou de outra. O que é preciso, como em quase tudo, é mestria sobre ele. Para que sejamos nós a entrar pela porta e não o álcool a entrar por nós dentro e a fazer de nós arrependimento. Essa alienação alcoólica do homem estereotipado é a pior imagem da bebida que a bebida poderia ter. Famílias destruídas, pessoas mortas. O que aconteceu em todos estes casos foi o vício ter tomado o homem em vez de o homem ter construído uma virtude. Sirvo-me um dos meus whiskys preferidos Lagavulin 16 anos - e um dedo de água das pedras (temperatura ambiente, uns 22 graus) e penso no modo como com o álcool, como com outras drogas, há uma coleção discreta de instantes que mudam tudo. Com a bebida há uma dimensão maior porque o encaixe civilizacional da bebida não conhece quase comparações. Lembremos Omar Khayyám: “Se o Vinho que bebes e os Beijos de tua boca / têm Princípio e têm Fim, e tudo que nos toca, / morre, lembra que és Hoje o mesmo ser de Outrora, / e o mesmo ser de Amanhã nesta Existência louca!”. E por isso a bebida obriga-nos a considerar que por cada homem (ou mulher) que agiu mal depois de uma bebida, que foi vulgar depois de uma bebida, que foi mal educado depois de uma bebida, que foi ofensivo depois de uma bebida, que foi agressivo depois de uma bebida, que matou depois de uma bebida, há uma mestria que o impediu. Por cada um desses homens (e mulheres) houve outros seres humanos que, alimentados dessa vontade primitiva de beber, trocaram a água por uma bebida que lhes permitiu expor de forma perfeita a sua ideia, a sua vontade, o seu sentimento. Homens e mulheres que conseguiram ultrapassar uma inibição que os atormentava e tolhia ou que simplesmente desconheciam. Homens e mulheres que resolveram aquele último obstácu-

lo de um problema que os preocupava. Homens e mulheres que viram com a nitidez da estrada aberta aquilo que pretendiam escrever, cantar, dançar, contar, desenhar, esculpir. Contra o mau vinho, a boa bebida. O dia rodopia para o seu fim e alguém serve uns copos de vinho. Amigos sentam-se e conversam. Há uma promessa de que a conversa vá além do que iria se Diónisos não estivesse ali. Uma comunicação verdadeira, maior. A promessa de que poderemos ver as coisas como não as poderíamos ver de outro modo. Apenas o suficiente para contemplarmos o abismo, e sentirmos o seu cheiro, e pensarmos na sua profundeza, e imaginarmos o que habita as zonas sem luz. Mas depois voltamos, e brindamos e damos graças por estarmos ali em comunhão. E até pode nem haver ninguém. Afinal serviu-se apenas um copo de vinho. E somente bebe aquele que reflete sobre a natureza do abismo. Mas mesmo esse, como na quadra de Omar Khayyám está falando com o seu eu de ontem ou de amanhã. Quem sabe, com ambos. Não é nada seguro que a bebida, o clássico gin tónico ao fim da tarde, o copo de vinho ao princípio da noite, o cocktail elaborado na festa, a aguardente no final do jantar de amigos, as cervejas no almoço de fim de semana, não é nada seguro que todas estas portas permitam comunicar com algo mais além. Ou lá atrás. Mas há uma enorme promessa, que é talvez ainda maior desafio, de usar (de beber) a bebida como um modo de comungar. E comungar é sempre, mais do que repartir, dividir, reunir, misturar: procurar o comum. Até à dissolução final. De novo Omar Khayyám: “Então, quando o Arcanjo da noturna Bebida / à margem de algum rio que é negação da Vida / ofertar a teus Lábios a última taça / por ser inelutável, não será temida”. Bebamos, pois, para buscar o que é comum naqueles que estão dispostos a encontrar-se. E para mais nada. Saibamos ser mestres e não escravos. Até à última taça.

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As bebidas alcoólicas começam por ser uma forma de comunicarmos com o mais íntimo de nós. Se não percebemos isto não percebemos nada. Sobretudo não percebemos a gravidade de bebermos para nada sentir, para deixar de sentir. Beber abre uma porta, mas para que direção a bebida não diz. Pode ser para calar.


Voltamos onde já fomos felizes Crónica gastronómica

por Alexandra Viçoso

Dizem os entendidos da vida, que não se deve voltar onde fomos felizes. Pois eu volto, sobretudo se o lugar for um restaurante…se calhar estou a abusar da minha sorte! Mas a verdade é que não há nada, nem mesmo sexo do bom, que me faça despertar tão violentamente os 5 sentidos como uma boa refeição, num bom restaurante, e em boa companhia. Não tem que ser estrelado por Michelin, mas tem que ser bom! Tão bom que quando estou a tentar adormecer ainda esteja inebriada pelo odor, pela cor, pelo ruído ou pela ausência dele, pelo toque do guardanapo e a minha boca ainda esteja confusa com aquela explosão de sabores e ingredientes. E há tantos que se encaixam nesta categoria! Há sítios em que nos perdemos na decoração tão genial, que quase nos esquecemos de saborear a comida, como o Jncquoi Ásia, o Asiático, o Seen… Depois há aqueles, em que não queremos nunca que a refeição acabe e que fazemos figas para que o nosso estômago se esqueça da sua real capacidade, como a Noélia Jerónimo em Cabanas de Tavira ou a Casa Alentejo…

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Uns são fantásticos no seu todo, como a Cevicheria, onde me esqueço de comer porque quando me dou conta estou a conversar com uns americanos na mesa da direita e uns japoneses na mesa da esquerda, e de repente apetece-me pedir tudo outra vez, saborear e não falar com ninguém. Só posso ser feliz com o meu filho, no que há comida diz respeito, onde se coma car-

ne, muita carne, como no Atalho Real ou no Meat Me. O nosso spot de mother and son é o Café de São Bento, onde jantamos na última noite quando cortámos o cordão umbilical, antes de o largar na faculdade. Foi um jantar amargo, mas esplêndido. A minha companhia mais assídua neste colecionar de lugares onde se come é a Teresa, uma amiga de sempre e para sempre, que se disponibiliza para calcorrear Lisboa acima e abaixo aquelas colinas e ladeiras que nos levam a sítios inusitados: o Almeida a caminho do Castelo, Mouraria acima, que cedo zarpou das beiras para se estabelecer em Lisboa e se dedica de corpo e alma ao seu estaminé e à sua clientela habitual; ou à estrela da Bica que nos cativa com o seu ambiente esotérico e os seus petiscos únicos, quase sinto a gordura da sardinha a escorrer pelas minhas mãos. Mas também paramos pelo Campo das Cebolas a saborear um Gin, enquanto esperamos por uma mesa na Taberna Moderna, e vale a pena esperar. Mas onde eu e a Teresa fomos tantas vezes felizes, foi no Segundo Muelle, não sei se pelos Piscos, se pelos Piscos e pela comida. As Conversas entrecortadas por altas e sonoras gargalhadas e que ninguém leva a mal, é no Boteco da Linha, no Paco Bigotes, na Casanostra (há 32 anos no Bairro Alto) e no Salmoura! Namorar como na Brasserie de L’Entrecôte, no Rabo D´Pêxe, no Tomo, na Mercearia do Gadanha, em Estremoz, e deixarmo-nos levar até ao Azenhas do Mar, não há arrufo que resista!


Também fui feliz sozinha na Dinastia Tang, como se estivesse prestes a ser raptada pela máfia chinesa que comia na mesa ao lado, ou pizzaria Zero Zero, acompanhada apenas pelo Jardim Botânico. Uma experiência para os sentidos o RUA, mas sem ouvir o rosnar do meu filho de que não há carne! A qualquer dia, mas não a qualquer hora, o Atira-te ao Rio, pela comida, pelo por-do-sol, pelo passado, pela podridão do caminho de acesso….

um filme americano, do tempo da guerra do Vietname, num deleite de casa de ópio, mas sem a decadência que essas casas tinham intrínsecas. Não seria justo partilhar as minhas experiências gastronómicas sem mencionar o melhor restaurante do mundo: o da Avó Gracinda, onde se comia um cozido à portuguesa, uma cachupa, uma língua estufada e um pudim de peixe, de chorar por mais. A avó partiu, mas eu ainda consigo sentir o cheiro e o sabor dos seus cozinhados, que sempre me aquecem o coração.

A alegria e o êxtase da minha filha quando a levo a jantar ao Nomya, onde tudo bate certo. A luz, a comida, a simpatia dos donos e por fim o cheesecake de lima, no Inprovviso. O Mesa de Lemos, antes de ser “o” Mesa de Lemos e já se podia antever o futuro brilhante que o aguardava. A coisa mais parecida com a perfeição divina! Não posso deixar de fora o Boca Negra e o Beira Mar (mesmo à beira-mar plantado) na Terceira. A Risottoria Del Mondo, com o Atlântico ao lado, a embalar-nos ao som das ondas que batem nas rochas! Mas nem sempre precisamos de estar debaixo de um tecto para que a refeição seja boa, um bolo do caco a acompanhar uma espetada, num arraial madeirense com o céu estrelado a servir de testemunha deste deleite para o nosso palato, também serve. No Evaristo sentimo-nos como gente grande, e somos principescamente bem tratados. No Porto comi e deixei-me encantar pela decoração da Cantina 32. Serei eternamente repetente na Casa da Palmeira, enquanto lá me quiserem. Esperar por mesa sentada do outro lado da rua, a beber um vinho e a ver os pescadores do Douro a recolherem as redes, faz com que não se dê pelo passar do tempo. E almoçar na esplanada, enquanto o eléctrico quase nos roça as costas cada vez que passa no Passeio dos Alegres. E depois rir e sonhar com a tia Moniche!

Mas não faz mal, podemos aproveitar para experienciar uma refeição no saudoso bairro de Alvalade, no Soão, que nos transporta a

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Comer canja de amêijoas, no Olival, na de Póvoa de Sobrinhos é uma experiência inolvidável. Mas nem pensar em comer a dita canja em Setembro, porque a Festa do Avante toma conta da vida do dono do restaurante, que fecha.


Um Rei e Três Imperadores PORTUGAL, A CHINA E MACAU NO TEMPO DE D. JOÃO V

20 dezembro 2019 – 5 abril 2020 Galeria de Exposições Temporárias do Museu de São Roque Segunda-feira: 14h00 – 18h00 Terça-Feira a Domingo: 10h00 – 12h00 / 14h00 – 18h00

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Entrada gratuita


Comunicar a culinária e a gastronomia por Filipa Gomes

“Se a minha história com a cozinha, começa no meu amor pela comida, a minha história enquanto “comunicadora profissional”, começa na minha antiga profissão. Há 7 anos eu era redactora publicitária e comunicar para um público já fazia parte do dia a dia. Ainda que de uma forma diferente, a verdade é que acabo por continuar a utilizar algumas das ferramentas que aprendi em publicidade. Se for racionalizar, diria que primeiro organizo os conteúdos e depois os tento passar de forma clara e simples, com entusiasmo e tentando nunca perder o foco no receptor. Mas acima de tudo, sou muito coloquial. É assim que gosto de comunicar. Como se estivesse em casa das pessoas. E sempre com alegria. Afinal, há coisa melhor que comida?”

Cozinha com Twist As 120 melhores receitas do programa televisivo «Filipa Gomes Cozinha com Twist» emitido pelo canal 24 Kitchen. Em Cozinha com Twist, Filipa Gomes apresenta as receitas mais pedidas e deliciosas, as que resultam sempre bem e as que todos têm mesmo de experimentar. Cozinha com Twist é o livro de culinária mais aguardado pelos portugueses que acompanharam os episódios de «Filipa Gomes Cozinha com Twist» - o programa de culinária, com ideia original, textos, receitas, direção criativa e apresentação de Filipa Gomes, emitido no canal 24Kitchen. Filipa Gomes escolheu as 120 melhores receitas do programa e partilha agora, neste seu segundo livro, a sua seleção de receitas com twist para comer bem e ser feliz. Há receitas de pequenos-almoços e lanches e receitas vegetarianas. Há receitas de alma tuga e outras de espírito além-fronteiras. Há receitas para dias de festa, receitas para toda a família e até receitas super fáceis para os dias de preguiça.

Carreira culinária 2013-15: Guionista, criadora de receitas e apresentadora de mais de 120 episódios do «Prato do dia», o programa mais visto do canal de culinária da Fox. 2014: Apresentadora, com a saudosa Filipa Vacondeus, do programa «À Boleia da Filipa», no 24Kitchen. Vencedora do prémio de Multimédia pela Academia Internacional de Gastronomia. 2016: Lançamento de uma coleção irrepetível de 90 receitas com a revista Flash. Jurada do programa «A Minha Mãe Cozinha Melhor Que a Tua», na RTP, com José Carlos Malato. 2017: Ideia original, guionista, criadora de receitas e apresentadora do programa «Filipa Gomes Cozinha com Twist», no 24Kitchen. Lançamento do primeiro livro de receitas, Prato do Dia. 2018: Jurada do programa «Famílias Frente a Frente», na RTP, ao lado de Hugo Nascimento e José Avillez.

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Filipa Gomes Nasce em 1984, em Almargem do Bispo. Cresce no campo, entre vacas e couves. Faz do tanque dos avós uma piscina, brinca nas hortas, apanha amoras, salta à fogueira. Ama comer desde sempre e cozinhar desde os 24 anos. Quer ser designer de moda, mas tira Marketing e Publicidade. Trabalha 7 anos como copywriter, até ao dia em que o namorado lhe conta sobre um casting do 24Kitchen. Ela diz que não. Ele insiste. Ela aceita. O canal gosta. E o sonho que ela nunca tinha sonhado, acontece. Acredita numa cozinha de verdade, gosta de experimentar coisas novas e de simplificar os processos. Adora a gastronomia portuguesa e é fascinada pelos sabores além-fronteiras. Tem um especial carinho por doces. Vive em pecado com o Jorge, com quem tem uma filha chamada Julieta e um filho chamado Viriato. Cozinha com twist. Come bem. É feliz.


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Sopa de tomate e pimentos assados com ovo escalfado Não se deixem enganar, os superalimentos não vêm todos do fim do mundo a preços bastante elevados. Os melhores vêm de uma horta a poucos quilómetros de nossa casa e comprados logo ao virar da esquina. Sim, tomates e pimentos também são superalimentos. E, neste caso específico, aumentam as suas propriedades anticancerígenas, quando cozinhados.

4 pessoas INGREDIENTES • 3-4 ramos de alecrim fresco • 5 tomates grandes • 1 cebola roxa • 2 pimentos vermelhos • 5 dentes de alho • Azeite q.b. • Vinagre balsâmico q.b. • Sal q.b. • Pimenta q.b. • 2 chávs. de caldo de galinha • Ovos q.b. • 1 c. de chá de paprica • 1 c. de sopa de mel • 1 pitada de pimenta-caiena

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1. Pré-aquecer o forno a 180 °C e forrar um tabuleiro com papel de alumínio. 2. Juntar 4 ramos de alecrim lavados, 5 tomates grandes, cortados em 4, 1 cebola roxa descascada e cortadas em pedaços, 2 pimentos sem sementes nem pé e cortados em gomos largos e 5 dentes de alho grosseiramente esmagados. 3. Regar tudo com 1 bom fio de azeite e 2-3 splashs de vinagre balsâmico. Temperar com sal e pimenta e levar ao forno por 45 minutos a 1 hora. 4. Vá espreitando, e se algumas pontas estiverem a queimar colocar papel de alumínio por cima. 5. Entretanto, aproveitar o caldo com que se vai fazer a sopa para escalfar os ovos. Colocar as 2 chávs. de caldo de galinha ao lume e, quando estiver quase a ferver, partir 1 ovo para uma taça.Deixar deslizar delicadamente para dentro do tacho. Cozinhar por 4 a 6 minutos, sem que ferva. Passado esse tempo, retirar o ovo do caldo e colocar numa taça com água fria. Repetir o processo para o número de ovos que quiser juntar à sua sopa. 6. Com os legumes já assados, tirar as peles ao tomate, ao pimento e aos alhos. Descartar o alecrim e deitar tudo no liquidificador. 7. Juntar a paprica, o mel e o caldo necessário para a sopa ficar na consistência desejada. Triturar bem, retificar temperos e quantidade de caldo e voltar a triturar. 8. Servir com o ovo escalfado, algumas folhas frescas de alecrim, uma pitada de pimenta-caiena e um fio de azeite cru.


Bolo de canela, erva doce e pêra em calda Aromático, delicioso, húmido e fica no paladar durante bastante tempo. Este bolo foi criado a pensar nas peras em calda que ensinei a fazer na página anterior, mas também podem usar peras cruas ou pêras em calda de compra.

8 pessoas INGREDIENTES • 150 g de manteiga com sal amolecida • 200 g de açúcar mascavado húmido • 1 ovo M/L • 2 iogurtes gregos naturais • 200 g de farinha de trigo • 1 c. de chá rasa de erva-doce em pó • 1 c. de chá de canela • 1 c. de sopa de fermento • 2 peras em conserva • 120 ml de calda das pêras

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1. Pré-aquecer o forno a 180 °C. 2. Numa taça juntar 150 g de manteiga amolecida com 200 g de açúcar mascavado e bater até estar cremoso. Acrescentar 1 ovo, 2 iogurtes gregos e voltar a bater para incorporar. 3. Noutra taça misturar 200 g farinha de trigo com 1 c. de chá de erva-doce em pó, 1 c. de chá de canela e 1 c. de sopa de fermento. Misturar e juntar aos ingredientes líquidos. 4. Envolver, sem bater, e deitar numa forma de fundo amovível, com 22 cm de diâmetro, untada e com o fundo forrado com papel vegetal. 5. Distribuir 8 quartos de pera em conserva pela superfície, calcar ligeiramente e levar ao forno por 45 minutos. 6. Se quiserem que fique molhadinho, regar com a calda, com ele ainda quente.


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Gastrossexual Magret de Pato e laranja com risotto de beterraba Para 4 Pessoas Ingredientes:

por Chef Mariana Claro

600 g de magret de pato

400 g de arroz arbóreo

30 ml de azeite

200 g beterraba

10 g de tomilho

40 g de manteiga

40 g de queijo parmesão

Sumo de 1 laranja

50 g de sementes de abóbora

100 ml de vinho branco

150g cebola

200 ml de água

q.b de sal

q.b de pimenta preta

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Confecção: 1.

Assar as beterrabas no forno durante 1h, a 180 ºC envoltas em papel de alumínio.

2.

Triturar até ficar com consistência de puré temperando com sumo de laranja, tomilho e sal.

3.

Refogar cebola, adicionar o arroz e deixar fritar. Refresque com vinho branco e adicionar água. Deixar cozinhar.

4.

Torrar sementes de abóbora.

5.

Corar o magret numa frigideira fria, com a pele para baixo de forma a que este liberte a gordura. Deve ser servido médio a médio mal passado.

6.

Numa frigideira adicionar o puré de beterraba, sumo de laranja e o risotto. Ligar com queijo parmesão e manteiga.

7.

Empratar com as sementes de abóbora.


Restaurante Enigma D’Alquimia

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Rua Viriato 13


Viagens à volta do Vinho Douro e O Porto

por José Paulo Teixeira*

O Douro é a mais antiga Demarcação Vinícola do mundo. Datada de 1756, foi criada no reinado de D. José I pelo seu ministro Marquês de Pombal. Está implementada no vale do rio Douro e seus afluentes e limitada a oeste por Mesão frio e a Este por Freixo de Espada à Cinta e Espanha. A Região do Douro é reconhecida pela UNESCO como “Património da Humanidade” desde 2001. Esta região extremamente bela e agreste, oferece condições excelentes para o cultivo da vinha, que se traduzem e expressam nos seus vinhos fabulosos (mundialmente conhecidos e apreciados como dos melhores do mundo), devido à sua complexidade, estrutura e subtileza, provenientes de todos os factores únicos da região.

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Desde logo, o ser humano, que a par com as condições de solo e clima fazem desta uma região ímpar, a única aonde considero que o homem faz parte do” terroir”. Foram as gentes do Douro, em gerações sucessivas de avós, filhos e netos, que fizeram o Douro (que amaciaram a rudeza do relevo, que tornaram possível a cultura da vinha numa zona tão peculiar e única, mas também tão difícil de cultivar, tão extrema nos elementos, no clima, no relevo, na dureza), visível nos milhares de socalcos, essencialmente compostos por xisto e nos milhares de quilómetros de muros de sustentação, que resultaram na criação de uma paisagem de beleza única. Conheço todas as regiões do país relativamente bem e só aqui se sente esta quase-fusão do homem com a terra, que vem da cumplicidade e do esforço exercido durante gerações neste Douro, que as gentes que o construíram, consideram seu. Muito montanhosa, a região encontra-se protegida da influência atlântica pela Serra do Marão. O clima é seco, com invernos frios e verões muito quentes, o que aliado às características do solo (principalmente xistoso) e à sua topografia, atribui características que favorecem a longevidade dos seus vinhedos, assim como enriquecem e condensam os mostos em cor e açúcar que, por sua vez, irão resultar em vinhos concentrados, densos de cor e volumosos no palato.


Nas últimas décadas, notou-se, com toda a justiça, uma valorização merecida dos vinhos de mesa produzidos no Douro, tendo ganho grande notoriedade a nível mundial, devido às suas características de excelência. A Região estende-se pela bacia hidrográfica do rio Douro e seus afluentes, com uma área vitícola que ocupa mais de 46 000 hectares e divide-se em 3 sub-regiões distintas, devido a factores climáticos e socioeconómicos: O Douro Superior (que se estende desde a fronteira de Portugal com Espanha), passando pelo Alto Corgo (que é coração do Douro, onde nascem muitos dos vinhos do segmento superior), até cerca de noventa quilómetros de distância da cidade do Porto, o Baixo Corgo.

Sub-região do Baixo Corgo O Baixo-Corgo cobre toda a margem do Rio Douro, desde Barqueiros até Oeste do Rio Corgo (Régua). Abrange os concelhos de Vila Real, Santa Marta de Penaguião, Mesão Frio, Peso da Régua, Armamar e Lamego. Esta é a região com menor território, mas com maior percentagem na ocupação de vinhas plantadas. Tem uma elevada produção de vinhos do Porto, sendo o berço da viticultura na região do Douro. No entanto, também se tem vindo a revelar excelente na produção de vinhos de mesa. Os vinhos aqui produzidos, são geralmente mais jovens, frescos e apresentam um carácter frutado, devido ao seu clima, mais ameno e chuvoso que nas restantes sub-regiões. É também a zona mais fértil e com maior rendimento das vinhas.

Sub-região do Cima Corgo O Cima Corgo apoia-se no Baixo Corgo, prosseguindo para Este até ao Cachão da Valeira. Abrange os concelhos de Tabuaço, Sabrosa,

Alijó, Murça e São João da Pesqueira. A paisagem desta sub-região é totalmente distinta das restantes. As encostas formam um relevo acidentado e os vales dos rios constituem formações geológicas à base de xisto, sendo o solo mais agreste. O clima é mais seco e os rendimentos são baixos. O Cima Corgo contém a maior concentração de vinhas históricas de alta qualidade. Existe pouca incidência de chuvas, o que leva a que os vinhos sejam mais concentrados, com um maior potencial para o envelhecimento. Aqui se encontram localizados os principais produtores de Vinho do Porto. Sub-região do Douro Superior O Douro Superior apoia-se no Cima Corgo e vai até à fronteira espanhola. Abrange os concelhos de Vila Flor, Carrazeda de Ansiães, Torre de Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta, Vila Nova de Foz Côa, Mêda e Figueira de Castelo Rodrigo. É a maior de todas as sub-regiões e também a que tem o clima mais quente e seco. O seu relevo é menos acidentado, constituindo inclinações mais suaves, tornando mais fácil a mecanização. Devido à reduzida precipitação, as vinhas produzem menos, no entanto, dão origem a alguns dos melhores Vinhos do Porto Vintage. Devido à sua posição geográfica comparativamente às restantes sub-regiões, está mais isolada, tirando partido de uma menor intervenção humana, mantendo a sua paisagem e biodiversidade melhor preservadas. Esta sub-região era conhecida como o “Novo Douro”, pois a viticultura só se veio a desenvolver em grande escala a partir de 1791, quando as rochas que obstruíam o Cachão da Valeira foram retiradas e o rio ficou aberto à navegação. As castas cultivadas na região, algumas provenientes da idade media, são célebres pela sua história secular. As melhores castas para a produção de vinho do Douro e Porto são: a Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca, Aragonez (Tinta Roriz) e Tinto Cão. Existem também outras muito importantes e com bastante expressão na região, como por exemplo, as castas Tinta Amarela (Trincadeira) e Souzão. A produção de vinhos brancos é essencialmente sustentada pela plantação de castas como a Malvasia Fina, Gouveio, Rabigato e Viosinho. Para a produção de Moscatel, planta-se a casta Moscatel Galego.

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É no Douro que se produz o famoso Vinho do Porto que durante muito tempo foi o único valorizado. A denominação de “Vinho do Porto” é explicada pelo facto do vinho ser armazenado e comercializado a partir do porto situado entre as cidades do Porto e Vila Nova de Gaia. O vinho descia o rio Douro nos característicos barcos Rabelos e envelhecia nos armazéns de Vila Nova de Gaia, já que esta zona apresentava poucas variações de temperatura durante o ano. O vinho base para o Vinho do Porto, é feito e fortificado nas adegas do Vale do Douro e posteriormente envelhecido na Região ou em Gaia, nas instalações das grandes caves, dando origem a vários estilos, desde Branco Jovem e frutado, Tawny e Ruby, tendo o seu expoente máximo nos Vintage, provenientes de uma só colheita de anos excepcionais em qualidade, com grande potencial de guarda em garrafa.


Castas Tintas Touriga Nacional No passado, chegou a dominar a região do Dão, tendo sido igualmente relevante no Douro, antes da invasão da filoxera, sabendo-se que hoje ambas as regiões reclamam sua paternidade. É uma casta nobre e muito apreciada em Portugal. A pele grossa, rica em matéria corante, ajuda a obter cores intensas e profundas. A abundância dos aromas primários é uma das imagens de marca da casta, apresentando-se simultaneamente floral e frutada, sempre intensa e explosiva. Pouco produtiva, é capaz de produzir vinhos equilibrados, com boas graduações alcoólicas e excelente capacidade de envelhecimento. Aragonez (Tinta Roriz) É a casta ibérica por excelência, uma das raras variedades a ser valorizada dos dois lados da fronteira, convivendo em Portugal sob dois apelidos: Aragonês e Tinta Roriz É uma casta precoce, muito vigorosa e produtiva, facilmente adaptável a diferentes climas e solo. Se o vigor for controlado, oferece vinhos que concertam elegância e robustez, fruta farta e especiarias, num registo profundo e vivo. Prefere climas quentes e secos, temperados por solos arenosos ou argilo-calcários. É tendencialmente uma casta de lote, beneficiando recorrentemente da companhia de outras castas. Touriga Franca É a casta ibérica por excelência, uma das raras variedades a ser valorizada dos dois lados da fronteira, convivendo em Portugal sob dois apelidos: Aragonês e Tinta Roriz É uma casta precoce, muito vigorosa e produtiva, facilmente adaptável a diferentes climas e solo. Se o vigor for controlado, oferece vinhos que concertam elegância e robustez, fruta farta e especiarias, num registo profundo e vivo. Prefere climas quentes e secos, temperados por solos arenosos ou argilo-calcários. É tendencialmente uma casta de lote, beneficiando recorrentemente da companhia de outras castas.

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Tinto Cão Por ser quase economicamente inviável, ao oferecer uma produtividade incrivelmente baixa, a sua sobrevivência já esteve em risco. Possui cachos muito pequenos, apresentando-se como uma variedade de maturação tardia. A sua película densa e grossa garante-lhe uma resistência adequada aos ataques de míldio e podridão. A boca evidencia

a grandeza da casta, visível no equilíbrio perfeito entre taninos, acidez e açúcar, na suavidade e dureza dos taninos, dando corpo a vinhos florais, densos, sólidos e duradouros. É frequentemente lotada com as castas Touriga Nacional e Aragonez, entre outras. Produz vinhos carregados de cor, com aromas delicados e florais.t Tinta Barroca É uma casta pródiga no rendimento, generosa no grau alcoólico, conseguindo combinar produções elevadas com teores de açúcar generosos. Convive mal com os excessos de calor e stress hídrico, passificando com facilidade em sobrematurações súbitas. Regular na produção e resistente a doenças e pragas, dá origem a vinhos bem compostos de cor, macios mas rudes e rústicos, de elevado potencial alcoólico. Raramente é engarrafada em estreme, estando presente na maioria dos lotes durienses. Na África do Sul assumiu um protagonismo desusado, sendo aproveitada regularmente nos vinhos tranquilos e generosos do país austral.t

Brancas Viosinho De génese transmontana, a casta Viosinho sobrevive dispersa pelas vinhas velhas brancas. É uma variedade de valorização recente, contudo é uma variedade pouco produtiva, com rendimentos muito baixos, o que ajuda a explicar a popularidade reduzida. Apesar de pouco aromática, oferece um excelente equilíbrio entre açúcar e acidez, proporcionando vinhos estruturados, encorpados e ricos em álcool. Apresenta cachos e bagos pequenos, de maturação precoce, muito sensíveis ao oídio e à podridão, preferindo os climas quentes e soalheiros. Dá origem a vinhos estruturados e potentes, a que, no entanto, falta habitualmente vigor e frescura. Por isso é regularmente lotada com outras castas, capazes de acrescentar a acidez e riqueza aromática que por vezes lhe parecem faltar. Gouveio Profícua no Douro, a casta Gouveio encontra-se hoje disseminada por todo o território continental. Durante anos foi catalogada erradamente como Verdelho, condição que conduziu a algum desacerto entre as duas nomenclaturas. É uma casta produtiva e relativamente temporã, medianamente generosa nos rendimentos, sensível ao oídio e às chuvas tardias, com cachos médios e compactos que produzem uvas pequenas de cor verde-amarelada. Por ser uma casta naturalmente rica em ácidos, que proporciona vinhos frescos e vivos, a sua difusão a Sul,


sobretudo no Alentejo, tem sido frutuosa e célere. Dá origem a vinhos de acidez firme e boa graduação alcoólica, encorpados, de aromas frescos e citrinos, com notas a pêssego e anis, com bom equilíbrio entre acidez e açúcar. Desfruta de boas condições para apresentar um bom envelhecimento em garrafa. Côdega Larinho Casta de vigor e produtividade médios, sendo sensível ao míldio e pouco sensível ao oídio e à podridão cinzenta. O cacho é grande e compacto, com bago de tamanho médio, arredondado, de cor amarelada, com película medianamente espessa, polpa suculenta. É uma casta de maturação média, os mostos possuem um potencial alcoólico médio e uma acidez baixa. O vinho apresenta-se normalmente de cor citrina com aroma bastante complexo, frutado intenso (frutos tropicais) e floral. Na boca mostra algum défice em frescura (pouco ácido), compensado com um excelente perfil aromático e grande persistência. Normalmente, uma correcção ácida melhora o perfil gustativo destes vinhos. Rabigato De origem duriense, a casta Rabigato estende-se por todo o Douro Superior. Por erro, no passado foi relacionada com a casta Rabo de Ovelha, variedade com a qual não aparenta qualquer semelhança. Rabo de Ovelha que, de forma igualmente errónea, perfilhou a designação Rabigato na região do Vinho Verde, com a qual não tem qualquer relação. Os vinhos oferecem acidez viva e bem equilibrada, boas graduações alcoólicas, frescura e estrutura, características que a elevaram ao estatuto de casta promissora no Douro. Apresenta cachos médios e bagos pequenos, de cor verde amarelada. Poderá, nas melhores localizações, ser vinificada em estreme, oferecendo notas aromáticas de acácia e flor de laranjeira, sensações vegetais e, tradicionalmente, uma mineralidade atrevida. É a boca, porém, que justifica a sua reputação, com uma acidez mordaz e penetrante, capaz de rejuvenescer os vinhos brancos.

mente complexos. É uma casta de lote que, nas regiões mais frescas e quando vindimada cedo, funciona como base de Espumantes.

…destas castas, deste solo, deste clima, desta topografia e desta maneira árdua de trabalhar a terra, nascem dos melhores vinhos do Mundo com tradição enraizada em todos os seus processos de viticultura, vinificação, maturação e envelhecimento. A nova geração de “winemakers”, também se soube modernizar, acompanhando as tendências dos gostos internacionais, assim como adaptar-se à revolução e expansão da nova gastronomia, pelo que o Douro oferece vinhos harmonizáveis com as principais tendências culinárias, tendo sempre como âncora na modernidade, a tradição. Vale a pena perdermo-nos pelo Douro profundo, provar todos os vinhos que se produzem por lá, desde a mais pequena quinta, até à maior empresa exportadora. Com certeza serão surpreendidos pela genuinidade dos lugares, dos vinhos e das gentes, assim como da gastronomia local, sempre em consonância com os seu vinhos. Tudo isto acompanhado de uma beleza natural arrebatadora, que nos embriaga os sentidos e nos transporta para fora de nós. Boas provas e disfrutem desta região maravilhosa, com tempo, se puderem. Saudações vínicas.

Bibliografia: IVDP IP Portugal By Wine Infovini Wikivinha Site Wine Instituto da Vinha e do Vinho

A Malvasia Fina está presente no interior norte de Portugal, é particularmente sensível ao oídio e moderadamente à podridão, míldio e desavinho, proporcionando rendimentos extremamente variáveis e inconsistentes. Os vinhos anunciam, por regra, sintomas melados, no nariz e boca, vagas notas de cera e noz-moscada, aliados a sensações fumadas, mesmo quando o vinho não sofre qualquer estágio em madeira. Os vinhos de Malvasia Fina são tradicionalmente discretos, pouco intensos, razoavelmente frescos e mediana-

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Malvasia Fina


RAIO GOURMETIZADOR De especialidade por Pedro Nápoles

Somos um país de cafeólicos, onde a bica faz parte da nossa forma de vida e onde combinar algo com um amigo passa, invariavelmente, por tomar um café. Alimentar o vício é por cá, ainda, barato, com um expresso a preço e qualidade difícil de encontrar em outros países. Quem nunca experimentou em viagem o desespero de não conseguir beber um café decente, ou, quando se encontra, termos de pagar por ele o preço de uma refeição. Claro que é um mito dizer que não há mau café por nossas terras. Bastas vezes é servido queimado ou tirado de grãos de qualidade duvidosa, mas de um modo geral podemos facilmente beber um bom café em qualquer café de esquina. Café que por cá era quase sempre sinónimo de expresso, apenas alternado pelo velhinho balão, que me habituara a beber em casa em dias de muita gente para almoçar ou jantar. Estávamos nesta monotonia do expresso, quando chegaram os cafés de multinacional, que, em troca de um ambiente agradável e propenso a longas estadias, serviam expressos a preços para nós obscenos e onde os autores principais eram os irritantes “lattes”, como se isso fosse café, de facto, ou “frapuccinos”, seja isso aquilo que for.

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Tendo estado por um tempo na Colômbia, onde o café é bebida nacional, pude conhecer várias formas de preparação para além do expresso, pouco popular por essas terras. Com uma matéria prima magnífica, pude provar cafés feitos em Chemex, Dripper, Aeropress, Cafeteira de êmbolo, para além do tradicional “tinto”. Tinha pena que em Portugal, país onde o café é tão bem-amado, as opções fossem tão poucas e quase se reduzissem ao expresso. Estávamos entre a americanização do café em baldes desinteressantes e o nosso expresso, quando finalmente começam a surgir lugares com boas opções para alternar com esta dicotomia. Como o termo gourmet parece já estar a cansar a todos, surgiram

os “cafés de especialidade” – que não sendo um termo tão irritante como o “gourmet”, não deixa de causar alguma irritação – e passámos do monótono expresso para uma miríade de opções. Tendo um desses lugares junto ao trabalho, tenho podido apreciar cafés de destinos exóticos como El Salvador ou Guatemala, em lotes selecionados, colheitas anuais e terroir bem definido. Uma espécie de carta de vinhos, com os cafés descritos por notas olfativas e de prova. Tudo interessante, não fora a tal falta de bom senso e moderação, que leva estes supostos especialistas a agirem como fascistas do café. Comecei por provar os lotes de expresso, que pedia normal e chegava mais curto que uma italiana curta (se é que isso existe). Argumentei que gostaria dele um pouco maior, ao que a resposta foi que era impossível, pois se ele estivesse na máquina mais do que não sei quantos segundos iria estragar as características divinas daquele grão. Apesar do destrate, insisti naquele expresso, ao ponto de virar graça com colegas de trabalho a cada bocejo perguntar se teríamos ido aquela cafetaria, pois a dose de cafeína é tão curta que parece que dá sono. Felizmente também têm café de filtro, esse numa dose mais normal, mas a um preço bem menos simpático. Porque o ser humano parece ter pouca propensão ao bom senso e à moderação, e pela tendência portuguesa de aderir de mergulho a novas modas, prevejo que daqui a pouco seja difícil beber um bom café com simplicidade, seja ele expresso, de filtro ou balão. Seremos inundados, também nesta área, pela pretensão gourmet que acaba por estragar o prazer das coisas simples. Trocaremos a simplicidade pela especialidade.


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Bica 10  

Número 10

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