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cer muito as canções, por isso foi outra das colaborações óbvias. A mesma coisa com o Eduardo na harpa. Já o Riot foi talvez a colaboração menos óbvia, mas na “Velha e o DJ” resultou de forma extraordinária, com aquele fundo de funaná, que foi sugestão dele.

que andávamos a fazer musicalmente facilitou muito, obviamente. Ana Bacalhau: E tivemos a sorte de termos instrumentos...

Ana Bacalhau: Aliás, os primeiros ensaios da Deolinda foram na Linha de Sintra de onde são alguns membros dos Buraka e essa vivência da Linha de Sintra, dos subúrbios, de uma coisa muito urbana, profundamente urbana, mas com traços de alguma ruralidade trazida por algumas pessoas das gerações anteriores que vieram para Lisboa há muito anos e que mantiveram esses traços de ruralidade, está presente nos dois projetos, embora de formas diferentes, com visões diferentes e acho que é isso que faz com que esta junção soe a algo que faça sentido.

Ana Bacalhau: Isso, compatíveis. Imagina se um tocasse fagote e outro ferrinhos? Era giro. (risos).

Pedro da Silva Martins: Sim. Ecos dessa ruralidade, talvez. Da ruralidade rural, que de certa forma se manifestava na zona urbana de uma forma surrealista. Acho que esse olhar um pouco surreal era bem vincado no início e continua até hoje. Nós não somos indiferentes a algo que seja estranho, mas ao mesmo tempo típico. Portanto, uma estranheza típica é-nos... Ana Bacalhau: Familiar... Pedro da Silva Martins: ...um pouco familiar, que acho que é, também, uma das características da Deolinda. Bica: Vocês são a banda mais familiar do país... (risos). Deolinda: (Risos). Bica: Isso facilitou? O facto de existir essa relação familiar próxima, que depois se acentuou com o casamento de Ana com o Zé Pedro? Cada um de vocês vem de experiências musicais diferentes: uns mais do jazz, outros mais do fado e até da clássica. Como é que isso se conjugou de forma a criar este som tão próprio? Luís José Martins: Nós já brincávamos desde a adolescência com a música e com as canções. Entretanto, seguimos caminhos diferentes, eu, o meu irmão e a Ana, sobretudo a partir do momento que a Ana entrou para os Lupanar. Aí os caminhos afastaram-se ainda mais, mas houve sempre uma vontade antiga de fazer coisas em conjunto. Essa vontade congregada ao facto de já nos conhecermos e de conhecermos também o

Luís José Martins: Era giro, mas se calhar não era tão fácil. Fazíamos um Ensemble. (gargalhada geral). Mas, claro que isso também contribuiu. Havia essa vontade. Havia uma... sintonia. Estávamos em sintonia para fazer alguma coisa e isso percebeu-se no momento em que experimentámos e as coisas colaram, fizeram todo o sentido. Bica: Contem-nos um bocadinho desse percurso de dez anos, quatro discos depois, elogios no The Times, no Sunday Times, na Monocle, prémios no Blitz, enorme sucesso por todo o lado, discos de platina, de dupla platina, uma música que ficará para sempre como o hino de uma geração (já lá iremos). Contem-nos como foi este caminho da Deolinda? Luís José Martins: Foram dez anos...E se dez anos na vida de uma pessoa já é muito tempo, já implica muitas mudanças, na vida de uma banda é ainda mais marcante. No nosso caso, foi incrível, surpreendente e ao mesmo tempo muito rápido. Passaram a voar! Bica: Com um primeiro disco que vos colocou logo num patamar quase inultrapassável... Pedro da Silva Martins: Sim! O que nos levou a palcos onde nunca imaginámos tocar e isso foi surpreendente e incrível! Esta caminhada, esta viagem da Deolinda tem sido extraordinária... Claro que temos crescido como músicos, individualmente, e a Deolinda reflecte esse crescimento. Bica: Um crescimento que passa por um acentuar de novas influências, muito vincadas nos dois últimos discos “Mundo Pequenino” e, principalmente em “Outras Histórias”. O assumir desses novos caminhos resultou mais desse crescimento individual e da assimilação das diversas experiências que, entretanto, cada um de vós foi protagonizando a solo ou de uma evolução natural da banda? [9]

Bica: Essa ruralidade urbana esteve também na génese da Deolinda?

Bica: Compatíveis?

BICA 1  
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