Page 88

LISBOA VERDE “O JARDIM DA ESTRELA, À TARDE, É PARA MIM A SUGESTÃO DE UM PARQUE ANTIGO, NOS SÉCULOS ANTES DO DESCONTENTAMENTO DA ALMA.”

[88]

Fernando Pessoa (Bernardo Soares), “O Livro do Desassossego” Defronte à imponente Basílica da Estrela, mandada erguer por D. Maria I, situa-se um dos mais belos e populares jardins de Lisboa, o da Estrela, parque público desde a sua inauguração, mas que curiosamente nasceu pela vontade da iniciativa privada. A ideia de criar um parque que criasse uma alternativa ao Passeio Público (situado na actual Avenida da Liberdade) veio de um grupo de burgueses e aristocratas – em particular o Conde de Cabral, o Barão de Barcelinhos e o Conde da Estrela – e foi acolhida e apoiada pelo Presidente da Câmara, Laureano Luz Gomes, e pela família real. As obras começaram em 1842, tendo sido interrompidas entre 1844 e 1850, dada a instabilidade política, sendo retomadas em 1850 pela mão dos jardineiros reais, Bonnard e João Francisco, cedidos para o efeito por D. Fernando II e D.

Texto e fotografias por João Albuquerque Carreiras

Maria II. O terreno, com cerca de 4 hectares, pertencia ao convento Beneditino (actual Hospital Militar), estando situado numa zona então pouco populosa, caracterizada por quintas e conventos, mas com uma belíssima situação em relação à cidade que começava a atrair gente, em particular a comunidade inglesa – o cemitério e o hospital ingleses estão aqui situados – que, como se sabe, devota grande interesse aos jardins e terá por certo contribuído para o sucesso deste. O jardim foi inaugurado em 1852 com o nome de Passeio da Estrela, entrando desde logo na moda com concertos, festas e garden parties muito concorridos. Esta moda continuou até ao início do século XX, tendo sido retomada nos últimos anos. Enquadrado na corrente do século XIX de construção de grandes parques públicos para usufruto da população – tais como o Hyde Park (Londres), o Prater (Viena), o Campo de Santana (Rio de Janeiro) ou Monceau, Montsouris e Buttes-Chaumont (Paris) –, consequência dos ideais liberais que iam ganhando o seu espaço no mundo e segundo os quais era essencial a existência de espaços de lazer para a população. São assim construídos de raiz jardins públicos, destacando-se a intervenção feita em Paris pela mão do Barão Haussman, tendo Alphand como responsável pelos jardins.

BICA 1  
BICA 1  
Advertisement