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contemporaneidade, mais do que olhar para a história da arte. Isso acaba por trazer uma lufada de ar fresco, no sentido em que reflecte mais a contemporaneidade e promove artistas que estão a trabalhar neste momento, com eco em diversas geografias e que começam a surgir também em Portugal.” Na busca da afirmação desta interdisciplinaridade, o MAAT abriu portas com Pynchon Park, a obra de Dominique Gonzalez-Foerster, que Pedro Gadanho classifica como “a primeira grande encomenda a um grande artista internacional, que faz uma primeira abordagem a um local que vai ser inteiramente dedicado a estas intervenções de artistas internacionais e que é a sala oval. Uma sala com cerca de mil metros quadrados, que dadas as suas características físicas e espaciais, pede um olhar específico do artista que responda não só às condições espaciais, às características específicas daquele espaço, mas que resulte numa obra nova, que nunca foi vista em outro lado, uma obra inédita que represente uma mais valia para o museu”.

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É exactamente com uma obra (re)pensada para a sala oval e integrada em dois dos mais importantes eventos culturais que terão lugar em Lisboa em 2017: a Capital Ibero-americana da Cultura e a BoCA – Biennial of Contemporary Arts, que o MAAT reabrirá portas em Março. Ordem e Progresso do mexicano Héctor Zamora é a instalação-performance que ocupará a principal sala do museu e que já esteve patente no Paseo de los Héroes Navales, em Lima e no Palais de Tokyo, em Paris. Nela, Zamora, mais do que evocar a tradição marítima portuguesa ao ocupar a sala oval com destroços de barcos de pesca tradicionais portugueses que destruirá com as próprias mãos à semelhança do que fez em Lima e Paris, pretende lançar um grito de alerta para o drama dos refugiados que diariamente tentam a sua sorte no Mediterrâneo em frágeis embarcações, tentando aportar às costas do Sul da Europa. Como afirmou à RFI, “a destruição dos barcos não tem por finalidade a construção ou o desenvolvimento de novos cenários económicos, políticos e sociais. Trata-se principalmente de destruir as promessas contidas nos barcos, no problema da migração, afinal, o barco tornou-se um símbolo do que está a acontecer aqui. Actualmente, este é um momento bastante crítico em que o mundo todo se pode questionar se essa ordem e esse progresso nos levaram a algo de positivo”. Ainda no novo edifício, com curadoria de Pedro Gadanho, João Laia e Susana Ventura e para comemorar os 500 anos da publicação do extraordinário manifesto de São Thomas More, Utopia, o MAAT propõe a exposição colectiva Utopia/Distopia, uma mostra de

mais de 60 obras e projectos de artistas e arquitectos de renome nacional e internacional. Já no edifício da Central Tejo, mantém-se a exposição inaugurada na sala das caldeiras em 9 de Novembro, Liquid Skin, dos cineastas Joaquim Sapinho e Apichatpong Weerasethakul que Pedro Gadanho explica como “a provocação de levar a arte contemporânea para um espaço muitas vezes visitado somente por crianças, que se começam a confrontar com outras linguagens visuais, nomeadamente a imagem em movimento. Neste caso temos o diálogo de dois realizadores de cinema que têm trabalhado também com espaços expositivos. Um deles é o Joaquim Sapinho que trabalha com imagens da memória muito pessoais que são confrontadas com este ambiente técnico e o outro é o tailandês Apichatpong Weerasethakul, que neste momento expõe na Tate Modern, em Londres e que tem exposto em Paris e em todos os grandes centros de arte mundiais, e que se começou a movimentar do mundo do cinema para o mundo da arte. Aqui realiza uma das suas clássicas instalações com um filme que tem um grande impacto, uma grande beleza visual, com umas ventoinhas em fogo e outros, que aludem à presença do corpo humano contra o impacto desta maquinaria e aquilo que ela traduz, numa ideia de tecnologia que nos impacta com muito força. Portanto, são artistas que, mais uma vez, foram convidados a lidar com o espaço e que responderam com estes conteúdos que aludem à presença permanente da tecnologia na nossa vida e ao modo como os humanos confrontados com ela, tentam manter a sua humanidade.” Ainda na Central Tejo, José Maçãs de Carvalho, no seu ensaio visual Arquivo e Democracia, desafia-nos a olhar os milhares de mulheres filipinas que trabalham como empregadas domésticas em Hong Kong e que ao Domingo deambulam pelas ruas e praças do luxuoso bairro de Central District. O Director do MAAT resume a programação para os diversos espaços como “uma linha coerente, onde há sempre uma referência a estas relações interdisciplinares da arte contemporânea seja com a cidade, um ambiente urbano em rápida tranformação com uma população mundial cada vez mais confinada aos grandes centros e por outro lado, a tecnologia, também sempre presente no nosso dia-a-dia de forma cotidiana e para a qual, muitas vezes as pessoas olham de uma forma acrítica e a que os artistas nos ajudam a pensar de uma forma mais crítica.” Acentuando a importância das parcerias internacionais para a programação do museu, única forma de tornar possível a vinda das mais interessantes exposições europeias e

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