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tivesse acreditado, mais facilmente ele estaria numa cadeira a balançar-se como ainda hoje faz quando está tenso de alguma forma. Se eu consegui isto, e eu sou 1 metro e 56 de gente...

Bica: Já percebi o vulcão (risos). PLM: (risos) Se eu consegui sem apoio, se eu consegui ter uma família feliz e harmoniosa, e aqui todos conhecem e sabem que não é fingida, se eu consegui sem apoio, com o apoio os outros também conseguem. Estamos nas escolas, estamos na família, estamos na sociedade, estamos na comunidade, onde somos chamados.

Bica: Imagino que seja muito importante manter uma ligação muito grande com os locais onde eles trabalham? Como é que isso é conseguido? PLM: Com imenso cuidado, e nisso somos pioneiros. É um dos programas desta casa. A APSA é o chapéu, a Casa Grande é um mega projecto da APSA entre outros e um dos projectos da Casa Grande, é o projecto de empregabilidade. Como é que isto se faz? Apresentando o projecto APSA Casa Grande Empregabilidade às empresas, nomeadamente ao Santander. Pedimos uma reunião de recursos humanos para podermos apresentar…

Bica: Vão com as quatro folhinhas A4, mas dizendo logo: não nos peçam 350.000 euros para daqui a 3 meses.

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PLM: (Risos). Não! Nós apresentamos o projecto e a reacção é sempre boa, porque hoje existe a noção da responsabilidade social por parte das empresas. A partir daí é procurar conjugar as áreas de trabalho em que a empresa pode contratar alguém com as aptidões dos nossos jovens, ou seja, quando nós vemos que podemos casar aquilo que é necessário na empresa com os jovens que nós temos com essa capacidade, encaixamos as peças. Mas não encaixamos as peças tipo manual. Tome lá o manual e aqui vai o Pedro. Não é assim. Somos capazes de andar no namoro durante um mês. O Pedro vai lá, conhece a equipa e a equipa conhece-o, vamos fazer uma sessão de formação à equipa, que alargamos à administração e a toda a gente que recebe os nossos Pedros, os nossos Fábios, etc. Desde a REN à Jerónimo Martins, passando pela Accenture e agora o Santander, sabem e ficam a saber o que é a Síndrome de Asperger não há volta a dar, e isto é válido do José Galamba ao porteiro.

Bica: Isso também deve ser um grande motivo de orgulho para vocês, porque se encaixa exactamente na vossa mis-

são de divulgação e sensibilização para a Síndrome. PLM: Claro que sim, mas sabe qual é o máximo do orgulho para nós? É dois meses depois de termos aberto a Casa Grande, os pais virem buscarem os filhos de lágrimas nos olhos “Eu não sei o que é que vocês fazem, mas o que é certo, é que os vizinhos notam que o meu filho está diferente”. Isso é o sucesso! Por isso temos cerca de 20 jovens em lista de espera desde o primeiro momento, fizemos um protocolo com a segurança social o que não é habitual, porque normalmente as associações andam “ao tio ao tio” para conseguir assinar esses protocolos e a nós foi o Pedro Mota Soares que nos bateu à porta no dia 22 de Novembro a perguntar: “A casa está pronta? É que eu quero assinar protocolo consigo no Dia da Deficiência, a 3 de Dezembro, em Évora”. Eu pensei que ia morrer, porque tivemos que fazer tudo, documentos… tudo nesse espaço de tempo! Nesta casa, não foi nada feito ilegalmente, abrimos com tudo legal, contratos de trabalho feitos, tudo. O senhor Ministro tinha isto tudo pronto quando abrimos a casa. Portanto esta casa foi feita com muito carinho, muita dor, muito tudo, mas muito carinho, muito empenho de ambas as partes, e também com uma coisa que nos enche o coração ainda hoje, a simpatia da vizinhança.

Bica: Também devem ter ficado encantados por ter a casa arranjada e sem elefantes nas janelas. (risos) JSF: (Gargalhada) Não só a casa, como tudo à volta. PLM: É muito engraçado porque os vizinhos, no primeiro meio ano de casa, vinham passear os filhos com os cãezitos e paravam no portão para perguntar: “Minha senhora, que casa tão bonita, é sua?” Não (risos), “É da câmara?”, “Também não, é só assim um bocadinho da Câmara” (risos), “Então o que é que isto?” e eu lá explicava e as pessoas entravam logo numa casa de porta aberta. Claro que não iam para o interior da casa, mas explicávamos o projecto, o envolvimento histórico desta casa e depois tínhamos aquilo que faz diferença em todos os projectos que é a equipa, são as pessoas, que foram acarinhadas desde sempre. JSF: O mais importante nestas coisas são sempre as pessoas e, portanto, como disse há bocado, conjugou-se aqui um encontro feliz de pessoas determinadas e empenhadas. Umas já se conheciam, outras passaram-se a conhecer e depois foi andar para a frente. PLM: E ficámos amigos.

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