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O capitalismo comercial cartelizado impunha as regras numa sociedade de manufatura artesanal em que a diferenciação do indivíduo garantia a diferença do bem transacionado. Foi por volta do ano 1750 e nos 100 anos seguintes que as regras do jogo mudaramdrasticamente. Ao domínio do fogo e consequente domínio dos metais que alavancaram as sociedades e empurraram o mundo para um caminho acelerado de crescimento e mobilidade, junta-se agora a grande responsável por uma nova era da revolução energética: a máquina a vapor. A energia não tem qualquer utilidade se não estiver disponível na hora certa e no momento certo. O desenvolvimento das sociedades esteve sempre condicionado à disponibilidade energética mas Alessandro Volta deu a volta a este cenário quando inventou em 1800 a forma de armazenar a energia dentro de caixas. A energia passou milagrosamente a poder acompanhar a mobilidade humana ou melhor, a potenciar ainda mais essa mesma mobilidade. As baterias foram talvez a maior invenção da história! Em 1905 Einstein lança mais uma bomba evolutiva ao explicar o efeito fotoeléctrico. Para além de um número infinito de aplicações, Einstein deu-nos a possibilidade de usar a energia do sol a nosso belo prazer. Caídos os impérios para reinos, fruto do impacto da mobilidade e do relacionamento comercial, a revolução industrial trazida pela máquina a vapor gerou novo impacto nas sociedades da época. A maior necessidade de energia em todas as suas formas criou também novas formas de organização social. A indústria viria a regular a anterior produção artesanal e a trazer uma repetibilidade que viria a ser condição. As gigantes indústrias sedentas de energia e de mão-de-obra para produções infindáveis geraram riqueza e uma nova estratificação social. Impunham-se novas leis, novas camadas e como tal, nova organização política. Caem reinados e erguem-se repúblicas! Foi o momento ideal para os políticos construírem a barreira do público e do privado e as sociedades cresciam em cima de impostos sob a capa da equidade enquanto os políticos se aproveitavam de eleitores cobertos da cegueira pela prosperidade. A globalização ganha a real forma por entre a tempestade quase perfeita: Tecnologia, transporte, produção e riqueza. Só faltava uma coisa, energia para tudo isto! Em 1850 na Califórnia só se falava em ouro ob-

servando-se uma frenética corrida metal precioso, mas não muito mais tarde, a 27 de Agosto de 1859, os Estados Unidos inauguraram a sua primeira fonte do outro ouro...o tal Ouro Negro. É estranha a coincidência de tal ter acontecido na mesma década. A revolução industrial gerou tamanha procura por energia que transformou o Petróleo no bem mais precioso ao ponto de condicionar toda a estrutura geopolítica do globo quem domina o petróleo, domina o crescimento. Viveu-se a ascensão económica e natural enriquecimento dos países possuídores de Petróleo ou de todos aqueles que tinham acesso e controlo desta nova forma de ouro. A importância do Petróleo era tal que permitiu que regimes ditatoriais se mantivessem no poder, custasse o que custasse manter uma estrutura militar necessária para manter o controlo da fonte. Foram inúmeros os países que se desenvolveram quase exclusivamente pelo acesso a este bem, assim como foram inúmeros os indivíduos que enriqueceram desmesuradamente protegidos por regimes ditatoriais que garantiam o controlo individual do Petróleo, sob a capa da partilha com o povo, que em alguns casos nunca aconteceu. As condições eram perfeitas, num mundo de transmissão de sons e imagens seletivos, o cidadão tinha pouca margem de comparação e de ação. Nos países onde o Petróleo não conseguia comprar o silêncio, as ditaduras mantinham-se, nos outros... caíam. Na Europa de hoje estima-se que haja um desperdício de bens alimentares na casa dos 100 Milhões de toneladas por ano, ou seja, mais ou menos 150 Kg por pessoa! Existem no mundo cerca de 800 Milhões de pessoas subnutridas, o que é estranho num mundo que produz comida suficiente para todos. A energia diária necessária por pessoa saudável é em média 1650Kcal para as mulheres e 2250Kcal para os homens. O mundo produz hoje 2790Kcal/pessoa/dia! As energias renováveis permitem hoje abastecer grande parte da população mundial. Se usadas de forma ainda mais eficiente e sem desperdício poderiam permitir abastecer ainda mais pessoas. A sobrevivência humana é simplesmente uma questão de energia seja ela de que forma for. Originaram-se economias cada vez mais globais assentes num modelo político que parece obsoleto como aconteceu com modelos predecessores. Os contribuintes perdem autonomia pela necessidade de contribuírem para um mundo de desperdício que sustente o fracasso deste modelo que esgotou o limite de taxação e esgotou a capacidade de gestão. E os governos sabem disto e os sinais não param de se suceder. As grandes corporações produtivas que geraram gigantes empregadores estão agora a dar novas oportunidades de autossuficiência a indivíduos conectados em rede para um objetivo comum. Os governos temem perder a força (que na reali-

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zida pela mobilidade e pelas exponencialmente crescentes trocas comerciais. Os que tinham podiam impor mais aos que não tinham e tamanha diferenciação teve um natural impacto “político”, organizacional e social que acabou por originar os poderosos impérios assentes em estrutura, liderança e leis.

BICA 1  
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