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Pelo que percebemos, a hipótese de deslocalização da empresa está fora de questão? “Deslocalização para nós é uma palavra que não existe. Eram precisos 50 anos para fazer o que estamos a fazer aqui num em outro local. Foi nesta terra que é a melhor terra do mundo, com esta gente que aqui vive que é a melhor gente do mundo que conseguimos fazer a Habidecor e esta experiência não tem preço. Mudar para onde? Para a China? A China não tem experiência, não tem este saber, não tem os viseenses (risos), não tem os portugueses. Eles têm chineses, nós temos portugueses… e isso é a nossa força. É a nossa primeira regra made in, may buy, made of Portugal e no dia que mudarmos isto, perdemos tudo.” Já sentados no gabinete de Pierre conversamos sobre os mais famosos clientes da Abyss & Habidecor, de Obama a Putin, passando por Cristiano Ronaldo ou por hotéis como o Burj Al Arab no Dubai, ou o Grand Hyatt, em Hong Kong e sobre a importância que Pierre dá às pequenas boutiques espalhadas pelo mundo e que acredita serem o futuro. “O que aparece nos media, nem sempre é o que nós dizemos. – Risos. – É como na política! Só aparece o que chama mais a atenção!!! Nós vendemos alguma coisa para grandes cadeias de hotéis, mas não é o nosso mercado. O nosso mercado são as boutiques. É aquela senhora, ou aquele senhor que tem uma loja pequenina, numa cidade talvez não tão conhecida como as capitais. Esses é que são os nossos clientes de sempre. Sim, vendemos para o Harrods, sim vendemos para Bloomingdale’s, sim vendemos para o El Corte Inglés na Península Ibérica, mas o nosso mercado não são só eles. Claro que são clientes importantes, mas o nosso cliente típico não é esse, o nosso cliente típico são as pequenas boutiques, são os retalhistas que estão em Bruxelas, que estão nos recônditos da Austrália e que encomendam 4 tapetes ao ano. Esses é que andamos a trabalhar há anos. É sempre bom ter um Harrods, porque trás números, quantidades, trás notoriedade, mas não é só para eles o nosso trabalho diário.”

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A fidelização tem sido muito importante para o negócio da empresa e isso percebe-se nas palavras do filho de Celso de Lemos. “O essencial é o lado humano, como disse há pouco. É a terceira regra, o factor humano. Nós não trabalhamos para nós. Eu quando vou visitar clientes, vou apresentar um produto de Portugal e vou essencialmente dizer: nós estamos aqui para trabalhar pelos vos-

sos clientes. Não é para vocês nem para nós. É para que os vossos clientes fiquem felizes ao encontrarem um produto de alta qualidade e regressem às vossas lojas. Isto é o nosso trabalho diário! Sim, agora vendemos para algumas cadeias de hotéis aqui e acolá, mas o nosso trabalho são os retalhistas, são as boutiques.” Indagamos se também vendem em Portugal para lojas como a Paris em Lisboa. “A Paris em Lisboa é um bom exemplo. É o tipo de loja com que trabalhamos! É com esta gente que trabalhamos, é esta gente que defendemos. Neste momento estamos a querer defender muito as boutiques porque sabemos a pressão a que estão sujeitas. No futuro existirão muito menos. Hoje em dia vendemos para 61 países e 1200 lojas. O nosso futuro não é vender para 2 mil lojas, talvez seja vender para apenas 500, mas com este tipo de clientes fidelizados e que conheçam os nossos produtos. Para conseguirmos isto, temos que ter mais produtos. Daí a criação de uma linha de cama, a colecção que chamámos Celso de Lemos, vamos também apostar numa colecção para cozinha, fazemos vinho, fazemos azeite. Isto é o next step. O nosso caminho não são as grandes cadeias, embora eu esteja muito feliz de trabalhar com a Harrods com quem temos uma relação fantástica, mas o nosso caminho são as boutiques, são as lojas.” Pierre fala como se toda a vida se tivesse dedicado ao negócio de família, por isso perguntamos quando começou a trabalhar na empresa. “Ontem. Aahahah! Inconscientemente, eu entrei no projecto desde pequeno. Eu não era bom na escola e sempre gostei de Portugal e o meu pai foi esperto e mandou-me trabalhar para aqui uma ou duas vezes no verão, a tratar do lixo, a regar as plantas. Então, step by step foi-me integrando. Fui aprender a vender com um agente, a perceber a qualidade dos produtos e quando ele decidiu fazer a Abyss, em Tondela, foi acertivo e perguntou-me: queres vir trabalhar para a Abyss ou não? Eu disse que sim. Fui com o meu primo Nuno Rodrigues que é o filho do nosso director da produção aqui, na Habidecor. O meu pai desafiou-nos aos dois - Tenho aqui um novo projecto para fazer toalhas, o Nuno fica responsável pela produção e o Pierre pelo comercial… pronto foi assim, já lá vão 17 anos. Naquele momento estava a fazer música.” Pierre solta uma gargalhada quando comentamos que passou de líder de uma banda de metal para a liderança da empresa.

BICA 1  
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