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MEMÓRIAS DA CASA ANTIGA SONS, SINOS, BATENTES E CAMPAINHAS

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Amanhecem os dias de outros tempos ao som do galo anunciador do Sol. Diz-nos o adágio popular “tu ao canto do galo acordas, ele ao som da trombeta”, instrumento musical para juntar gentes à chegada de notícias ou visitantes. Nas igrejas, repicavam os sinos marcando as horas do dia, chamando fiéis para as missas ou anunciando as más e boas novas. E tantas igrejas tinha (e tem) Lisboa... Na Casa Antiga modesta, a chegada fazia-se sentir pela voz chamando “ó da casa” - atendendo quem estivesse -, ou pelo som de um bater de palmas que antecedia a entrada por uma porta destrancada - e tantas vezes aberta - para a cozinha, palco de todas as movimentações mais ou menos informais. Nas mais abastadas, aguardavam as visitas no pátio de honra exterior o convite de entrada pela grande porta que se abria sobre o vestíbulo, precedendo as salas e salões que as compunham. Dispensava-se o aviso para quem chegasse de sege ou charrete em visitas programadas e esperadas, tocando o recepcionista um pequeno sino já no interior da residência para o anúncio dos convidados.

Texto e fotografia por Ana Motta Veiga

E se no campo ou arredores se avisava a chegada à propriedade no sino do distante portão que antecedia a entrada pelos jardins, na casa urbana a porta fecha-se sobre a rua e a chamada faz-se pela seca pancada do batente pendurado no exterior, que ecoa até às áreas de serviço. Ao batente também se chama aldraba, ou aldrava, quando em forma de argola, com que se bate na porta ampliando o som dos dedos do punho cerrado, tão frágil para se fazer ouvir no interior da casa através da grossa espessura das madeiras. Em latão, bronze ou ferro, adquirem várias formas que lhes conferirão diferentes sons, adornando as fachadas durante todo o século XIX e inícios de XX, até que a electricidade lhes trouxesse a inutilidade pela novidade da campainha eléctrica. Pancadas de argolas, punhos, leões, animais e outras figuras, ecoavam pelas ruas como melódicas lengalengas ritmadas como a tão conhecida “mão morta, mão morta, vai bater, àquela porta”...

BICA 1  
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