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tton, a entoar o Bendito, Ladainhas, o Miserere. Mas o panorama auditivo que nos rodeia – tão bem dissecado por Carlos Alberto Augusto no livro Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa – tornou-se um pesadelo citadino, como se tudo fossem ecos ampliados de dobradiças mal oleadas, súbitos chiares dos freios de vários comboios, miados de gatos nos loucos namoros de Janeiro, estridentes ambulâncias a chegarem em simultâneo às urgências em noite de catástrofe, trovoada de pólvora e chumbo das revoluções a caírem sobre telhados públicos e chapéus particulares. Não há fuga possível: até nas bibliotecas se escutam ligeiros murmúrios, embora em tom abafado de gente civilizada, que sabe o que é a concentração; nos templos, onde as beatas murmuram as suas rezas ou ranzingam queixas das noras enquanto aguardam pela chegada do prior, no tom pio de quem não quer incomodar o sossego dos mártires nem a pacatez dos serafins; nos jardins, que nos dias de semana, eram apenas dos melros e dos pardais, dos namorados e dos reformados, agora são também dos ecologistas que gritam ao telemóvel como se a sua mensagem fosse assim mais audível na Transilvânia ou na Patagónia, das colegas de trabalho que trocam o almoço pela natureza, mas continuam desafinadas sopranos como as que conversam no metropolitano, caras-metades dos tagarelas de tasco sempre a exibirem timbres de tenor e certezas canoras, dos corredores pedestres que resfolegam como roldanas de máquinas avariadas e pisam o cascalho com a suavidade de vidros a estilhaçar.

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No fundo, como tentou explicar o compositor John Cage, quando apresentou, no já longínquo ano de 1948, a sua obra “4’33” – em que o pianista David Tudor abria o piano de cauda, fazia quatro movimentos repetidos, sem nunca tocar nas teclas durante quatro minutos e trinta e três precisos segundos, começando, entretanto, a ouvir-se os ciciares e, depois, os protestos da sala de concertos –, o silêncio nunca existiu. Razão tinha a poetisa polaca Wislawa Symborsca: é uma palavra que, mal se pronúncia a sua primeira sílaba, rasga-se logo. Post-scriptum – Muitos termos vieram com as caravelas e com as telenovelas, com os “brasileiros” torna-viagem e os francófonos de todos os tempos e condição, com a moda de vestir parisiense e a informática americana. Mas o alfacinha, que goza com os sotaques dos outros, tem um linguarejar que é tudo menos fonética e musicalmente correcto. Ele escreve: “o autocarro treze é vermelho”; mas diz: “o ótocarro treuze é vermâlho”. Porque se rirá então quando um “tripeiro”, por exemplo, diz: “o autocarro treze é bermelho”?

BEBA COM MODERAÇÃO

O menos barulho que houve em Lisboa, nos tempos mais recentes, foi aquele minuto de silêncio por Timor e a primeira edição do Dia sem Carros. De resto, não há silêncio na noite, nem nos bosques, nem nos cemitérios. Pois se até nos funerais (pelo menos, nos dos famosos), onde a cadência dos passos e o ruído das rodas da carreta remetiam para a introspecção, para a tristeza, para a lágrima, agora aplaudem freneticamente como se tivesse descido do avião, agitando a quarta bola de ouro, o Cristiano Ronaldo, ou se a selecta plateia da Gulbenkian tivesse ficado rendida à estreia mundial de uma peça de António Pinho Vargas ou de Eurico Carrapatoso…

BICA 1  
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