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O silêncio nunca existiu, mesmo antes de Ulisses aportar a uma baía onde marulhavam as ondas, gritavam as gaivotas, assobiava o vento, uivavam os lobos, trovejavam relâmpagos, estalavam as árvores, percutia a chuva, coaxavam os batráquios, trinava a passarada. Depois, chegaram os gritos de várias línguas, os martelos de bater pedra e as espadas de tinir sangue, o repicar dos sinos que Pessoa dizia serem os da sua aldeia e os foguetes das festas com estúrdia e zaragata, as brigas de rua nos tempos da navalha e as discussões domésticas que as paredes das casas não escondem, o choro das crianças e o ladrar dos cães, a música dos sacabuxas e dos sintetizadores, as falas dos negros e as palavras asiáticas, o tropel dos cavalos e o clarim das casernas, os urros do rinoceronte a lutar com um elefante e os decibéis do avião a furar as nuvens quando aponta à pista, as arengas das vendedeiras e as telefonia nos autocarros, as sirenes dos faróis marítimos em dias de nevoeiro e a balbúrdia da mocidade em tempos de romaria, as botas dos soldados e os tamancos das varinas, a berraria dos bêbados e os altifalantes dos políticos, a pronúncia brasileira e os pregões dos galegos, os cânticos das procissões e as buzinas da feira popular, as bandas de coreto e a metralha das revoluções. “Por São Jorge!”, “Acudam, que matam o Mestre!”, “Por el Rei”, “Pardeus”, “Enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, “À grande e à francesa”, “Talassas!”, “Viva!”, “Morra o Dantas, morra! Pim!”, “Lá vamos, cantando e rindo...”, “O povo – está – com o MFA!”

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Nesta Lisboa lusitana onde as guitarras não tocam baixinho, desde os tempos da bigorna do ferreiro medieval às linhas de montagem das fábricas, do badalo das vacas quando ainda havia saloios à sineta do Pai Natal nos centros comerciais, das gargantas dos catraios a pedirem um tostãozinho para o trono do bailarico do Santo António até ao vozeirão imperativo das damas que solicitam a assinatura civilizada para também deixar de se ouvir a orquestra que toca nas touradas do Campo Pequeno, tudo parece esferovite a raspar em vidro, tortura de pingo de água a cair da torneira, suplício para os ouvidos que distinguem qualquer tom musical – e se gritavam de sofrimento os que ardiam nas fogueiras do Santo Ofício, gritam agora de euforia os que festejam o golo num Sporting-Benfica. Em cada quotidiano, com o despertador a retinir antes do galo cantar a despertar-nos de um pesadelo com avenidas recheadas com o “vrumm” dos dadaístas e ruas pedonais com onomatopeias da banda desenhada, é sabido que o ralo do duche e o secador de cabelo vão logo começar a inundar os tímpanos. Depois, as moedas saltitam sem fim no balcão matinal e o rádio-transistor (agora, o televisor-plasma) já nos ensurdece ainda a cafeína não fez efeito, quando fora do botequim

rangem os eléctricos, os claxons dos automóveis, as furgonetas dos bufarinheiros, os escapes das motorizadas, os motores que nem se identificam, os apitos dos polícias-sinaleiros, os ucranianos que mantêm um sotaque ao conduzirem os táxis entre as permanentes obras públicas com mais chinfrineira que prazos cumpridos, os chineses que ainda não dizem os erres como se tudo fosse tão sibilante como os estampidos dos seus brinquedos, as gaitas dos amoladores de facas e dos consertos de guarda-chuvas, os pregadores bíblicos que bramam nas praças a sua mensagem num megafone – todos preferem uma vuvuzela a um violino. E há gente que vocifera, implora, ordena, ameaça, proclama, indaga, informa, inquire, geme, branda os vitupérios que qualquer pretexto transforma em discussão e aos quais nem o capitão Hadock conseguia retorquir. O resto do dia enche-se com o bulício dos mercados, as máquinas de dinheiro que falam connosco e os telefones que retinem nas algibeiras, os passos de salto agulha a tricotar-nos os miolos nos corredores do escritório como se fossem lengalenga de charlatão a guinchar num microfone com mau contacto eléctrico, os matulões que arrastam mesas nos cafés e os desastrados que arranham rabecas nos clubes de bairros. E desde que Brian Eno inventou o conceito da música ambiental (e gravou o seu famoso álbum para as salas de espera dos aeroportos, em 1978, Ambient 1: Music for Airports) não há mercearia de bairro que não tenha música de fundo, misturada com o resmungar da patroa com os clientes, das discussões entre quem está na fila para a caixa registadora, no monte de latas que parece ter explodido ao cair no chão por causa de um cotovelo mais desastrado, da estalada sonora que avermelhou a cara do rapaz que se atreveu a apalpar fruta indevida – e o mesmo tapete sonoro, porventura com menos vozearia e barafunda, repete-se do elevador de escritórios à sala de espera de consultórios. Se as vizinhas já não avisam “água vai...”, batem os tapetes nas paredes como se fossem tambores, uma mãe histérica chama o filho de uma janela do sexto andar (“oh! Manel, não te volto a avisar...”) enquanto recolhe a gaiola do canário antes da hora da telenovela, as campainhas avariadas tocam para a nossa sala enquanto ecoa pelos prédios o estrondo das portas a bater, balbuciam os loucos e zumbem as moscas, além de tudo o mais que o sonoplasta do filme do Wim Wenders captava em Lisbon Story e daquilo que inspirou a coreógrafa Pina Bausch a criar Mazurka Fogo. Provavelmente, nenhum clamor será comparável ao daquele Dia de Todos os Santos de 1755 – nem nenhum tom triste lamuriado em uníssono, dias a fio, após os gritos lancinantes de susto e de dor e de luto, com uma cidade inteira, entre choros e lamentações, como referia Jâcome Ra-

BICA 1  
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