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Ouvidos ao alto

Texto e foto por Raquel Castro

Há mais de 10 anos atrás, a propósito de um projeto documental relacionado com tradição oral que me fez viajar por Portugal registando sons, imagens e desenhos de crianças, comecei a dar-me conta da forma como o som se inscrevia nos lugares por onde passava e no inconsciente coletivo das comunidades que visitei. Nessa altura, estava ainda longe de saber que iria dedicar a década seguinte (e as que a esta se seguirão) a essa reflexão.

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Comecei por me aperceber da forma como o som, tal como outros elementos da paisagem, me ajudava a identificar um lugar. Trás-os-Montes soava-me de uma maneira, o Douro Litoral de outra, e nessa busca pela identidade acústica dos sítios por onde passava descobri o conceito de Paisagem Sonora, que me trouxe algumas respostas e um importante novo mundo que me acompanhou e se refletiu em tudo o que fui fazendo desde então. A primeira coisa que percebi é que a forma como eu ouvia aqueles lugares estava condicionada pela meu próprio conhecimento e abordagem no momento das captações. A paisagem sonora não se limita a uma lista in-

terminável de fontes sonoras numa dada localização; ela foca-se igualmente na maneira como ouvimos o mundo. A relação entre nós, ouvintes, e a paisagem sonora é feita em dois sentidos. Somos tanto ouvintes como produtores de som num processo contínuo de causa e efeito, e vamo-nos ajustando ao ambiente sonoro através de uma arquitetura aural que é influenciada pelos nossos hábitos e convenções sociais. É evidente que despertar para este sentido nos torna, por assim dizer, mais atentos a todas as nuances do ambiente sonoro. A segunda coisa que percebi foi que a maior parte do tempo estamos imersos numa atmosfera acústica sem termos consciência disso. Se pararmos um pouco à escuta, apercebemo-nos imediatamente do zumbido de uma ou outra lâmpada, do chiar de portas, do rangido dos passos, do sussurro dos vizinhos ou do zunzum do trânsito, sons que tantas vezes nos passam despercebidos, mas que afectam a maneira como nos relacionamos com o mundo, o nosso estado de espírito, as nossas percepções e o nosso comportamento. Os sons entram na nossa consciência, vão pontuando o nosso quotidiano e providenciam uma estrutura para a interação. Muitas vezes estes sons são apenas um som, mas por vezes o que ouvimos torna-se realmente significativo, instalando-se na nossa mente e afetando a nossa visão do mundo, as nossas emoções e o nosso comportamento. E isto acontece a cada momento, porque cada ação ressoa num lugar qualquer.

BICA 1  
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