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RAIO GOURMETIZADOR

SALADAS TÓNICAS

por Pedro Nápoles

Um gin tónico, por favor. Com gelo e limão, sim. O olhar é fulminante e acusatório. Sintome pequeno e quase cedo a mudar o pedido. Ainda assim aguento estóico, esperando a minha bebida. Noto uma hesitação entre o copo aquário e o tubo, resolvendo-se pelo segundo, por certo por não achar o pedido digno do primeiro. Ainda pergunta se quero zimbro, ao que repondo, com ar humilde, tentando sobreviver, que pode ser. Retiro-me com a certeza de estar a ser comentado nas costas. Beber um gin tónico, apenas isso, um gin tónico, é hoje um processo difícil, ao nível de pedir uma Bussaco no Cais do Sodré ou um galão na noite do Bairro Alto. Confesso que achei alguma graça quando surgiram os gins ditos premium, que se bebiam com especiarias e ervas que potenciavam o seu sabor. Era coisa especial, para beber em alguns bares mais sofisticados, como quem bebe um cocktail para começar a noite. O teatro que precedia a bebida incluía espancamento de cascas de citrinos contra o copo (twist), rotação do gelo tipo carrossel (para arrefecer o copo), tempero com especiarias como se fosse um molho de tomate e inclusão de ervas para o toque final. Uma coisa entre a cozinha e o bar, uma espécie de happening. E teve graça no início, quando era novidade, quando só acontecia em certos bares. Ora tentem hoje pedir uma singela cerveja ou um copo de vinho num bar que sirva aquários e verão a paciência levada ao desespero, enquanto o barman tempera cuidadosamente e sem pressas o prato, desculpem, o copo, a servir.

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Hoje não bebemos gin tónico, bebemos uma salada aromatizada com gin e completada com tónica. Até deveriam mudar o nome para

“alecrim em pimenta de Sichuan, aromatizado em aguardente de zimbro de Oxford, com aromas cítricos de tangerina, em piscina de tónica de pimenta rosa”, ou “duo de hortelã da ribeira e manjericão, em infusão de Gin de zimbro dos portos de Hamburgo, com toque de cardamomo, em banheira de águas tónicas com essências de lima”. Tudo isto num imenso aquário de onde, a qualquer momento, pode emergir um peixe chamado Wanda, em que a tónica, de preferência também ela premium, submerge de tal maneira o gin, servido em medidas bem racionadas, que às vezes mais valia servir só a salada com tónica. Gin, gelo, tónica e limão. Espécie em vias de extinção tipo lince da Malcata, qualquer dia só avistada em bares de má fama ou tascas onde os aquários ainda não entraram. Ou no Peter’s, que esperemos mantenha o seu honesto e delicioso gin e não deixe aquários entrar em casa de baleeiros de mar aberto. A coisa teve graça enquanto não ameaçou a espécie nativa, mas hoje, com tantas essências e aromas, o básico, simples e honesto foi tornado obsoleto, o que não seria um problema não fora o caso dele ser tão bom. Tão deliciosamente bom e imbatível. É que as saladas de tónica até são agradáveis em alguns momentos, mas não substituem o gin tónico original, aquele que nos habituámos a gostar. É como se de repente se deixasse de beber whisky com Castello ou água lisa em troca de balões de whisky velho com Perrier e essências de caramelo. “Chacun à sa place” e sai um gin tónico. Sim, Gordons, Tanqueray ou Beefeather. Sim, com tónica Schweppes sem aromas. Sim, só com limão. Sim, pode por uns grãos de zimbro se o apraz, mas pare por aí, por favor. Eu não pedi uma salada tónica.

BICA 1  
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