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atenção, de quando em quando, lá se consegue descortinar uma peça com interesse. Julgo ser este o caso da peça que vos apresento hoje. Em primeiro lugar, foi a 1ª peça adquirida este ano, com destino ao Museu do Saca-Rolhas. E foi comprada precisamente na 1ª Feira da Ladra deste ano de 2017, na terça-feira dia 3 de Janeiro deste ano. Conhecido pela designação genérica de Saca-rolhas “Chave”, é uma peça essencial em qualquer colecção deste icónico objecto. Em termos práticos não é certamente o tipo mais funcional de saca-rolhas, pois sendo um saca-rolhas de extracção directa, obriga o seu utilizador a ter alguma destreza, bem como a ter alguma força física. Todavia, enquanto objecto, caracteriza-se por uma força simbólica bastante expressiva, para além da sua evidente originalidade estética: um saca-rolhas “camuflado” sob o aspecto de uma chave antiga. Em termos simbólicos, este tipo de saca-rolhas tanto nos podem remeter para as Chaves de São Pedro (aquelas que abrem e fecham as portas do Céu…), como para as “Chaves da Cidade”, caso este evidente na peça em questão. Para mais, neste caso não se trata de uma Cidade qualquer, real ou imaginária, - peças que já existiam na colecção do Museu do Saca-rolhas – mas sim das chaves da Capital, Lisboa! Para quem não seja especialista em Heráldica e Olissipografia, tal facto está devidamente assinalado no palhetão da dita “chave” (parte da chave que se opõe à argola, e que metida numa fechadura, uma vez girada, permite a sua abertura), quem tem de um lado marcado a palavra LISBOA e do outro, PORTUGAL. Mas o que o torna realmente interessante, é o facto da argola da dita “Chave” estar devidamente ornada com elementos heráldicos da capital; a Barca (que neste caso se assemelha a uma nau) que transportou o corpo do Mártir São Vicente, na companhia dos míticos corvos, também eles representados na dita chave.

ultimo quartel do século XX. Mas não se pense que por esse motivo se torna mais fácil a sua identificação; Visto não ostentar qualquer marca de fabrico e tratar-se de uma peça de metal fundido relativamente fácil de produzir e copiar, mesmo numa pequena oficina artesanal, descobrir quem foi o seu fabricante ou qual foi o seu ano de fabrico, pode vir a revelar-se tarefa quase impossível. A título de exemplo, em conversa com um vendedor de “velharias” numa feira em Viseu, este admitiu-me que os saca-rolhas chave que tinha para venda, eram peças que ele próprio mandara fazer a um vizinho seu, mestre neste tipo de fundição, lá para os lados de Águeda… Eis um aviso aos neófitos destas coisas dos acessórios báquicos, para que não abram excessivamente os “cordões à bolsa” quando se negoceia a compra de peças de origem incerta. Em qualquer caso, este tipo de peças figurativas, sejam elas em cobre ou bronze ou noutra qualquer liga de metálica, são relativamente significativos em termos de produção “sacarrolhistica” nacional e como tal dignas de constar no futuro Museu do Saca-rolhas. Esta é também uma forma de homenagem aos artífices e artesãos nacionais – quantas vezes anónimos -, que caracterizaram uma parte do nosso antigo tecido empresarial. Homenagem ainda mais importante numa época de “boom” turístico na capital, e na qual seria muito mais interessante que as lojas de “souvenirs” pudessem vender lembranças genuinamente portuguesas, ao invés de bugigangas, entre elas Saca-rolhas, com origem no extremo-oriente… Quem sabe se a contemplação de humildes peças como esta, não suscitará os artesãos e designers nacionais, à produção de renovadas criações “sacarrolhisticas”, inspiradas na História da Capital? Quanto a mim, aquilo que vos posso assegurar é que, diante deste saca-rolhas chave e de uma boa garrafa de vinho, muitas histórias ficam por contar… Bom ano, bons saca-rolhas e bons vinhos!

Não é garantidamente uma peça muito antiga e o mais provável é ter sido produzida no

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Foi aliás esta carga simbólica, bem como o facto de se tratar de uma peça de fabrico nacional, que me levaram a abrir a carteira e a decidir-me pela sua compra, para a vir a incluir no futuro Museu do Saca-rolhas.

BICA 1  
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