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A PRAÇA DE LISBOA por João Júlio Rumsey Teixeira

O mercado leiloeiro de arte e antiguidades de Lisboa permanece vibrante. O número de peças e o valor em circulação são surpreendentes para um país com o peso actual de Portugal na economia mundial. Mas este é um mercado que, em parte, não vive do país que é, mas sim do país que foi.

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O negócio de objectos antigos e em segunda mão é tão antigo como a vida em sociedade mas a forma de funcionamento actual do mercado leiloeiro definiu-se na segunda metade do século XVIII, de mãos dadas com a generalização do gosto por antiguidades; das grandes vendas proporcionadas pelas constantes revoluções e contra-revoluções que, depois de 1789, aconteceram ao longo de todo o século XIX e XX e, tão relevante como estas, da constante transferência de riqueza para - e entre - a burguesia industrial, financeira e mais recentemente, tecnológica. Segundo Carlos Franco, no livro Casas das Elites de Lisboa, na segunda metade do século XVIII “os leilões [de Lisboa destacamse] pela quantidade de almoedas, aguerrida publicidade (…) e pela diversidade de bens que ali eram comercializados.” A forma como eram organizados mantém-se, na essência, inalterada: “as almoedas ocorriam em dias e horas devidamente anunciados, geralmente durante três dias da semana (…). Alguns promotores do leilão elaboravam “listas impressas” onde constava uma descrição dos bens a leiloar (…). Para além disso, reservavamse dois dias, antes do leilão, para que os interessados pudessem, atempadamente, observar os objectos sujeitos a venda. Aqueles sujeitavam-se a uma avaliação, que, nalguns casos, se impunha que fosse feita por peritos credenciados.” Lisboa foi, muito possivelmente, a cidade mais rica e vibrante do ocidente no início do século XVI. Depois de uma longa decadência torna-se, repentinamente, a capital de um país inundado de ouro. No primeiro quartel do século XVIII gastam-se prodigiosamente as toneladas douradas que chegam em crescendo de um Brasil que, para cúmulo, começa ainda a entregar, aos milhares de quilates, diamantes de qualidade. Rapidamente este momento dourado acaba e, entre

a diminuição constante da produção de ouro e diamantes, a ruína depois do terramoto e a pura incapacidade de criar indústria e comércio relevantes, a cidade torna-se decadente. Na viragem do século XIX sofre a maior humilhação e é abandonada pela corte, invadida, saqueada, palco de revoltas, golpes e guerra civil. Quando tudo se recompõe o Brasil já não faz parte do reino mas o que resta do império vai, milagrosamente, sobrevivendo. A capital e o país regeneram-se e as grandes fortunas burguesas surgem finalmente. Gravitando quase sempre, e perigosamente, à volta do Estado: dos monopólios concedidos pelos governos, dos contratos para a modernização do reino e evidentemente, da banca que financia tudo isto. Uma política que desemboca previsivelmente na bancarrota do início do século XX e na revolução republicana. Mais recentemente há dois ou três momentoschave para a entrada de peças no mercado nacional: os anos da Segunda Grande Guerra em que Lisboa, Estoril e Cascais se tornam, ou a porta de saída da Europa, ou o refúgio final da elite europeia em fuga; as décadas de 1950 e 1960 em que a elite portuguesa conhece uma prosperidade extemporânea, herdeira da magistral diplomacia dos anos de guerra e de uma política proteccionista que, inevitavelmente teria resultados efémeros. Por fim, também os pródigos anos 80 e 90, em que, depois do 25 de Abril e da debandada de pessoas e bens durante os anos do PREC, algumas peças são recompradas por portugueses e trazidas de volta; algumas! Uma história de constantes alto e baixos, momentos de riqueza prodigiosa e penúria miserável que, ainda assim, nos deixou um legado material responsável por mais de dois séculos povoados de colecções e hastas lendárias. Rapidamente lembramos uma pequena parte das mais relevantes: colecção do Conde do Farrobo (ca. 1874), colecção Daupias (1892, 1894, 1910 e 1911), colecção do Marquês Foz (1901), colecção de jóias da rainha D. Maria Pia (1911), colecção Burnay (1936), do Conde de Porto Côvo (1941), palácio de Monserrate (1946), colecção Nolasco (1961) quinta da Fonte Santa (1986), colecção Ernesto Vilhena (toda a década de 1990), entre tantas outras a que se de-

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