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Noite_02©José Caldeira

Anne Teresa de Keersmaeker e de Gérard Grisey. Uma dança que começa sem bailarinos, apenas músicos; de seguida estes saem e surgem os bailarinos, que não dançam mas encarnam os músicos, não com música mas através de movimento. Um espectáculo de limites, um jogo entre o conforto atento e o desconforto: o limite da audição e da visão são ultrapassados várias vezes e perdemonos no vórtice da fusão entre a dança de Keersmaeker e a música de Grisey. Um último momento que cabe referir passouse na garagem da Culturgest. Em Dezembro, Boris Charmatz apresentou manger: e o este texto torna-se circular, porque a coreografia de Charmatz é tão real e crua quanto a dança de Circolando. Em manger, comia-se, tão simplesmente assim, e comer é ser instinto e viver animal. Nesta dança, o choque entre a música sacra e romântica com a voragem dos intérpretes era evidente e perturbador. Ao conjugar ambientes tão antagónicos, Charmatz criou uma dança de fusão entre o espiritual e o fisiológico; mais do que todas as outras danças deste ano, criou uma dança de humanidade.

nunca há caça suficiente – os espectáculos de dança são mais ou menos assim: nunca os há suficientes, e quando há, não se sabe deles, não se conseguem apanhar. Outro paralelismo que ocorre quando se fala de dança e caça está na imagem de grandes manadas de antílopes e no momento dos festivais de dança – significa a grande manada que na área em volta não haverá antílopes, significam os festivais de dança que serão raros os espectáculos antes e depois do festival. A sensação de vazio que os dois meses pós-Alkantara nos deixam é equivalente à sensação deixada pela paisagem abandonada pela grande manada. 2017, Lisboa, futuro. Um outro ano e continuamente novas formas de pensar a dança; re-pensemos o lugar concedido à dança pelo espaço urbano e social – o seu espaço absoluto; reformulemos os ritmos da dança e da sua apresentação. Há que acolher a dança e o movimento, em recusa da mecanização do corpo. E há que estar atento. Ir seguindo, com todo o cuidado, as programações, os eventos, o que acontece, o boca-a-boca. E ir dançando, sempre dançando.

Porque, na verdade, a situação da dança remete-nos para a situação da caça, em que nunca há presas suficientes: há uma semelhança entre os espectáculos de dança e a caça: são ambos difíceis de encontrar e difíceis de apanhar. Nunca cacei, mas dizem outros que a sensação mais natural é a de que

Culturgest. Espectáculo: Vortex Temporum

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É necessário ainda fazer com um apontamento sobre a situação da dança. Deve referir-se alguns espaços de tamanho menor mas com um fulgor semelhante, tais como a Rua das Gaivotas, ou o Negócio-ZDB, que têm apoiado e servido como o suporte de apresentação de artistas performativos nos últimos tempos, de forma muito meritória.

BICA 1  
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