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Noite_05©Centro Cultural de Ílhavo

Espaço Absoluto por Duarte Bénard da Costa

Referências de um ano de dança 2016, Lisboa. Teatro Municipal São Luiz. Quem dança é a companhia Circolando, que desceu pontualmente à capital, e a dança chama-se Noite, de André Braga e Cláudia Figueiredo; baseia-se na poesia de Al Berto: A noite incendeia o lado esquivo do coração. Este será o primeiro de alguns momentos de dança, e em geral de arte performativa, a que me vou referir, por ordem cronológica.

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Noite, se a dança for a própria vivência em palco; se for possível Al Berto em movimento e evidência. O São Luiz recebeu uma dança cuja base são diários, lunários e anjos mudos, cujos gestos ultrapassam as palavras do poeta. Noite, onde a máxima delicadeza existe com a animalidade humana; onde os pêssegos, a seiva, o néon dançam pelos instintos. Noite porque os corpos – dançaram. Porque música (um Beethoven tão electrónico quanto electrificante), dança e poesia se fundiram em corpos e noite – a noite incendeia... 2016, Lisboa. O festival Alkantara. Duas semanas de dança e teatro e performance. O programa do Alkantara, completíssimo. A ideia que fica do festival que passou é a ideia de totalidade. O seu início com a peça de Christiane Jatahy, E se elas fossem para Moscou, foi muito bem conseguido, porque Jatahy utilizou elementos físicos de formas tão variadas que víamos tanto teatro, como

Noite_03©José Caldeira

dança, performance, ou mesmo um filme – e essa é a essência do festival. 2016 foi, em Lisboa, o ano de Tchekhov: desde Se alguma vez precisares da minha vida vem e toma-a, de Victor Hugo Pontes, baseada na peça Gaivota, no Centro Cultural de Belém, até à representação no São Luiz das Três Irmãs pelo espectáculo de Christiane Jatahy e à interpretação pelos tg STAN do Cerejal, no Teatro Nacional D. Maria II – este foi um ano de Tchekhov. O Alkantara foi duas semanas de intensidade: ao fim-da-tarde ia-se ver um espectáculo e à noite ia-se para a sala-estúdio Mário Viegas no São Luiz, ponto-de-encontro do festival e onde todas as noites um artista punha música – e onde, claro, se dançava. Os espaços de apresentação eram espaços de corpo e movimento, o ponto-de-encontro tornou-se também lugar de corpo e dança, lugar de acção e exercício. Era um lugar de reunião e encontro. Os artistas estrangeiros e portugueses, os espectadores, os organizadores do festival, muitos se juntavam nesse espaço, para comentar, discutir, ou simplesmente para dançar. De todos espectáculos, falta destacar a dança de João dos Santos Martins e Cyriaque Villemaux, Auto-intitulado, onde num estilo muito depurado e limpo estes bailarinos dialogaram com gravações de movimentos e os retomaram em repetição; falta referir About Kazuo Ohno, uma performance de Takao Kawaguchi, cujos movimentos são «copiados» de Kazuo Ohno, mestre do butô. Kawaguchi revelou-se em Lisboa com um espectáculo extremamente sensível e íntimo, de gestos longos e lentos a par de movimentos acutilantes e intempestivos. Lisboa, 2016: Culturgest, Vortex Temporum. Dança e música no vórtice dos tempos de

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